Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Departamento de Ciências Sociais e Humanas
Licenciatura em Psicologia _ 2º Ano
Psicologia Cultural
2013/2014
Docente: Prof. Doutor Ricardo Barroso
Discentes: Diana Dinis (53221); Mélanie
Reimão (53911)

Moralidade, Religião e Justiça

Sumário
• Muitos desentendimentos surgidos entre e dentro das culturas
têm origem no facto de estas não partilharem as mesmas bases
morais;
• Deste modo, existem 3 códigos distintos em que: sociedades
progressistas baseiam os seus juízos morais na ética da
autonomia; sociedades de religião ortodoxa incluem-se na ética
da divindade; já os protestantes focam-se nos pensamentos
morais;
• Existem assim diferentes princípios para as pessoas distribuírem
recursos de um modo justo e equitativo.

Indignação Generalizada
Uma ofensa aos muçulmanos

•Em 2006 um jornal
dinamarquês
publicou
uma caricatura satírica do
profeta Muhamed que
despoletou uma onda de
descontentamento.

Diferenças culturais
Por que razão a sátira é aceitável no cristianismo e não no
islamismo?

• O editor do jornal justificou a sua ação pelo facto de que
também existem inúmeras imagens satíricas sobre o
cristianismo.

.

.

2008). a fonte fundamental dos conflitos no mundo atual não seriam questões económicas ou ideológicas mas sim a divisão do mundo por cultura e religião (1993. • Muitos académicos discordam porque acreditam que o mundo se está a tornar secular.Cultura e Religião • Segundo Sammuel Hungtington. . citado por Heine.

Teoria da secularização A secularização do mundo • Esta teoria propõe que a religião está em declínio e que as pessoas pelo mundo fora têm vindo a descobrir novas formas racionais de darem sentido às suas vidas. • Friedrich Nietzche diz. . “God is dead” pois entramos no século da ciência (citado por Heine. 2008).

EUA 4% Cristianismo 94% Outras Religiões .Religião Será o mundo assim tão secular? • Apesar dos enormes progressos da ciência Deus não está morto pois religiões como o cristianismo e o islamismo têm inclusivamente vindo a crescer.

• Muitas guerras do passado e do futuro são consequência das diferenças culturais na percepção e na moralidade.Mundo transcultural Consequências da aproximação do mundo • Hoje em dia pessoas com culturas e religiões diferentes entram mais rapidamente em contacto. com isto os conflitos entre as mesmas têm vindo a crescer. .

enquanto que alguns fundamentalistas cristãos vêem o islamismo como imoral. .Exemplo: • O 11 de Setembro de 2001 é um grande marco no mundo ocidental é o que nos relembra a importância da variedade transcultural que muitas vezes entra em conflito. • Osama Bin Laden vê o cristianismo como uma terra de infiéis que perderam o seu rumo.

Compreender sem contaminar a informação Raciocínio moral e percepção da justiça • Como avaliar o que está certo ou errado noutras culturas quando os nossos modelos morais foram adquiridos através da socialização da nossa própria cultura? • Os nossos modelos morais são limitados pelos contextos das nossas culturas ou os princípios morais transcendem a cultura? .

e as possíveis diferenças transculturais são sobretudo a nível de convenções e são insignificantes. .Três perspetivas sobre as variações culturais Universalismo: • Todas as pessoas são iguais independentemente do lugar.

Relativismo: • Mantém as diversidades culturais de forma a que o pensamento não seja superficial mas que reflita genuinidade nos processos psicológicos. O relativismo acredita que o pensamento e a cultura se constituem mutuamente. .

as pessoas de diferentes culturas irão pensar da mesma forma quando atingirem o mesmo nível de desenvolvimento. Algumas formas de pensar são mais maduras que outras. . Só há uma forma de pensar.Evolucionismo: • As variabilidades culturais mantêm as diferenças genuínas nos processos psicológicos.

o etnocentrismo faz com que as pessoas assumam que as suas culturas são melhores.Etnocentrismo Interpretação da variabilidade cultural • A perspetiva evolucionista tem tendência para ser vista com maior resistência pelos psicólogos culturais. . • Normalmente. mais naturais e mais corretas que as outras. • Etnocentrismo é uma barreira difícil de ultrapassar na medida em que tenta compreender os hábitos de outras culturas.

maduros e que foram educados. e estas habilidades progrediriam com indivíduos desenvolvidos. . • Fomos socializados para pensar de forma consistente com os nossos valores culturais e desenvolver práticas para perceber de que forma é que se encaixam no que a nossa cultura vê como certo ou errado. • A forma como denominamos o que está certo e errado articula-se no estado de desenvolvimento moral.Desenvolvimento moral de Kohlberg Raciocínio moral • Raciocínio moral implica habilidades cognitivas.

equidade. mas sim o sentido de justiça. contratos sociais e reciprocidade nas relações humanas e nem tanto no cumprimento ou violação de normas sociais ou regras. • A justiça é o princípio moral básico. . • A moralidade aproxima-se mais de considerações como igualdade.• A essência da moralidade não é propriamente o respeito pelas normas sociais.

Moralidade é seguir as regras. Nível pós convencional: • Os valores morais e os princípios são vistos à parte da autoridade dos grupos sociais em que estão integrados. Nível convencional: • As pessoas identificam-se com um determinado grupo social e são fiéis a esse grupo.Modelos de Kohlberg Desenvolvimento do raciocínio moral Nível pré-convencional: • As pessoas interpretam a moralidade baseada no calculo do quão certo ou quão errado é agir de determinada forma. e as suas origens não devem ser questionadas. . o que determina o que é certo ou errado é o grau de satisfação pessoal e ocasionalmente o grau de satisfação do outro.

.Falhas do Desenvolvimento Moral • O modelo teórico de Kholberg pode ser universalmente aplicado para explicar o raciocínio moral pré-convencional e convencional em todo o mundo. que é aplicável no raciocínio moral das pessoas do ocidente mas que falha para as restantes pessoas. • Falha na generalização dos contextos culturais pois está ligado à compreensão dos valores morais de ocidente. • Kholberg desenvolveu uma trajetória de raciocínio sobre justiça e direitos individuais.

e direito à liberdade individual. comunidade e divindade Ética da autonomia: • Há ênfase nas escolhas pessoais.Ética da autonomia. Ética da divindade: • Somos obrigados a preservar os mandamentos ditados por uma ordem transcendente (ex. Deus) . Um ato que magoe outra pessoa ou infrinja um dos direitos de liberdade de alguém é visto como imoral. Ética da comunidade: • Enfatiza que os indivíduos têm deveres que os colocam com os seus papeis numa hierarquia social.

. Depois cozinha-a e come-a. • Exemplo: Um homem vai ao supermercado uma vez por semana e compra uma galinha morta. como algo imposto por uma autoridade moral.Ética da Divindade • Cada um deve respeitar ou preservar a ordem natural das coisas. Mas antes de a cozinhar. tem uma relação sexual com ela. • São consideradas ações imorais as que violam esta ordem.

• Porque razão nos deparamos com um mesmo comportamento visto por um grupo como imoral e por outro não? . • Um comportamento é considerado como imoral. quando é visto universalmente como errado e como algo que deva ser evitado. mas não são necessariamente imorais.• Existem diversas ações que interpretamos como aspetos negativos.

• Comportamento do sujeito não é visto como causa de dano a alguém. . Questionários feitos demonstram que existe diferença cultural importante ao ponto de avaliarem se um comportamento é ou não imoral. • Pessoas sentir-se-iam incomodadas caso assistissem ao evento.

• Há casos em que as pessoas precipitam um juízo moral como meio de justificação para racionalizar determinadas emoções fortes que tiveram no passado. quando testemunharam comportamentos indesejáveis. .

etc. por exemplo. Protestante. são tomadas opiniões diferentes mediante. mesmo dentro de um país. • Católica.… .Guerras Culturais • Existem diferenças de opinião acentuadas acerca das questões morais. • Assim.. Judaica. denominações religiosas distintas. algo que tem sido descrito como uma “guerra cultural” num curso nos estados unidos • Temas de controvérsia: aborto. eutanásia.

. • É ainda a originária de um código moral. • Esta é percebida como a mais informada e poderosa de toda a experiência humana.Religião ortodoxa • Comprometidas com a ideia de uma autoridade transcendente.

adaptar-se a este código moral. 1997) . em contrapartida. (Jensen. este código deveria ser percebido em todas as circunstâncias e não deveria ser alterado para colmatar as alterações sociais ou diferenças individuais.• Segundo uma visão ortodoxa. • Indivíduos devem.

Religiões Progressistas • Enfatizam a importância da ação humana na compreensão e formulação de um código moral. . • Defendem que as circunstâncias sociais mudam. e como tal. o código moral também deve ser alterado. • Rejeitam a visão de que uma autoridade transcendente revele a vontade para os seres humanos.

• Ética da comunidade define agentes morais em termos de grupos sociais e vê obrigações morais que cada indivíduo deva cumprir enquanto membros do grupo. .Qual das 3 éticas de Shweder são geralmente usadas por ortodoxos e progressistas quando raciocinam sobre questões morais? • Ética da autonomia permite que os indivíduos escolham o que é certo e errado. nem lhes causem danos. desde que não interfiram nos direitos dos outros. sejam os aspetos mais progressitas ou ortodoxos. • Isto. em vista a caraterizar todas as orientações religiosas.

• Estudos demonstraram que: • Progressistas tomam decisões baseadas principalmente na ética da autonomia (salientando direitos individuais) e na ética da comunidade (dando ênfase nas obrigações para com os outros). • Já os ortodoxos tomam os seus julgamentos segundo a ética da divindade. .

Emoções e Violações Morais Medo Sinal que devemos sair do caminho do mal Temos assim emoções que nos ajudam a agir da melhor forma. facilitando o nosso sucesso no mundo social .

por Heine. • Experiências emocionais orientam de certa forma o nosso comportamento. • Ou seja. podemos tentar arranjar razões para justificar por que é que a única coisa que despertou a nossa reação emocional negativa deve ser uma violação moral (Haidt & Joseph. o raciocínio segue a experiência emocional. ajudando-nos a decidir o que é certo ou errado.• Quando estamos conscientes de que algo parece estar errado. 2008). 2004 cit. .

• Seres humanos têm evoluído no que concerne a emoções que sejam sensíveis a violações morais em relação ao Outro. • Rozin e colegas (1999) mencionam o fato de nós não frequentarmos as violações morais em geral. . mas afirmando que assistimos a um tipo específico de violação moral que percebemos num dado momento.• Sabendo que agir de forma imoral é provável que nos faça sentir realmente mal é uma das principais razões que faz com que não cometamos crimes ou magoemos os outros com muita frequência.

.Tipo de violação Caraterísticas Ética da Autonomia Envolvem ações que ferem diretamente os outros Ética da Comunidade Ética da divindade Quando uma pessoa deixa de desempenhar as suas funções dentro de uma comunidade ou grupo hierárquico Pessoas desrespeitam a santidade de Deus Sinal Raiva Desprezo Desgosto Nota: É de referir que diferentes códigos éticos e diferentes ações podem ser ofensivas de diferentes formas ao mesmo tempo.

ter ou não maus pensamentos trata-se de uma questão moral. • Segundo Freud. logo os pensamentos de Freud também eram imorais.A moralidade de pensamentos Somos responsáveis pelos pensamentos que temos? • Muitas noções surgiram a partir da interpretação dos sonhos e de introspeções.) tinham o desejo de matar os pais e ter relações sexuais com as mães. • Exemplo: crianças (sexo masc. já as meninas sentiam por vezes inveja por não terem um pénis. Contudo. . este defende não os sentir como imorais. • Havia ideias que incluíam visões da mente inconsciente como um caldeirão de desejos ardentes.

• Ao contrário do apostolado por Freud. Jimmy Carter diznos que os pensamentos caem no domínio do governo moral. . • Estudos demonstram que Carter era considerado um batista do sul. enquanto Freud um judaico. • Diferem nas suas opiniões em aspetos importantes para o raciocínio moral e têm diferentes origens religiosas.

mas é mais orientada para o Novo Testamento. . dogma judaico e cristão diferem nas suas escrituras sagradas. • Doutrina Judaica. • Doutrina Cristã.Será que a opinião sobre a moralidade de pensamentos de pessoas de diferentes tradições culturais difere? Doutrina Judaica vs.baseiam-se na Bíblia hebraica e os debates sobre estes pensamentos estão incluídos no Talmud. que inclui o ensino de Jesus.baseia-se em parte na Bíblia hebraica. Doutrina Cristã • Por exemplo.

• Exemplo: Cobiçar o Outro e Não honrar pai e mãe é errado • Não existem evidências entre a transição de ser-se boa pessoa e comportar-se de um modo moral que caraterizem a metade judaica da Bíblia para os pensamentos morais salientados na parte cristã da Bíblia. .• Antigo Testamento contém as bases do código moral judaico-cristão nos 10 mandamentos. • 8 deles são relativos especificamente ao comportamento • Exemplo: Matar e roubar é errado • Restantes referem-se a pensamentos.

(Cohen & Rozin. • Estudos revelam que os protestantes acreditam que as pessoas exergem um maior controle dos seus pensamentos do que os judeus. então deve ser acreditado que estes dependem um pouco do seu controlo. 2008). mas a importância que dão ao acontecimento e às reações perante o mesmo é que diferem substancialmente. ambas as doutrinas consideram determinados comportamentos como imorais. 2011 cit. Exemplo: Ter pensamentos de adultério é considerado algo mais grave pelos protestantes do que pelos judeus. • Tais aspetos levam a deduzir que ao considerarmos um indivíduo moralmente responsável pelos pensamentos.• Por vezes. . por Heine.

. como também nos pensamentos que têm respetivamente às crenças do que fazer/como controlar esses pensamentos.• Pensamentos imorais comportamentos imorais. poderão conduzir a • As religiões diferem não só nas suas crenças quanto à moralidade de pensamentos.

• Existe uma grande infinidade de jeitos diferentes para atribuir uma mesma recompensa. . a maneira como elas distribuem recursos. • Podemos focar-nos na atribuição de recompensas. punições. analisando o que elas consideram como sendo o mais justo de concretizar.Cultura e Justiça Distributiva • Existem diferentes modos de considerar o que as pessoas vêem como certo ou errado. como por exemplo.

. Qual será a forma mais justa para o fazer? Princípio da necessidade Recursos são direcionados para os que mais precisam deles Princípio da equidade Distribuição dos recursos baseando-se nas contribuições do indivíduo Princípio da igualdade Recursos devem ser divididos igualmente entre os membros de um grupo Nota: Na distribuição de recursos como salário. o princípio da equidade nem sempre pode estar presente.Exemplo: Professor pretende dar um número limitado de boas notas a uma determinada turma.

• As meritocracias podem conduzir os trabalhadores a terem uma maior motivação para o trabalho árduo.• Denomina-se de meritocracia um sistema social que premia os indivíduos segundo o princípio da equidade. . • Este tende a ser mais comum em sociedades individualistas. Como os seus ganhos dependem dos seus esforços. isto traduz-se numa maior produtividade.

o tempo com a empresa ou a idade do sujeito são compensados. esta concorrência entre trabalhadores pode desencadear ambientes mais propícios a discussões entre eles e desestabilizar as relações harmoniosas existentes na empresa/sociedade. • No que concerne à compensação esta é já um hábito antigo adotado nas empresas. • Desta forma. .• Contudo.

pois não há competição entre os indivíduos para a compensação. • Isto faz com que.• Sistemas de Antiguidade refletem o princípio da igualdade. diminua a concorrência intra-grupo. apesar de não promover em si determinadas relações harmoniosas. .

valores que foram provavelmente moldados pelas normas a que tenham sido expostos em cada cultura. • Qual será. . de entre os três princípios de distribuição. o mais justo? • A resposta a esta pergunta reflete os valores que lhe são subjacentes .• A relação entre os esforços e o princípio da equidade ou igualdade parece depender consideravelmente do contexto cultural.

.

2011) .“As crenças. os sentimentos e as intenções são o resultado de uma série de fatores radicados nos nossos organismos e na cultura em que nos encontramos imersos.” (Damásio. mesmo que esses fatores possam ser remotos e não nos apercebamos deles.

(2011). New York: Norton. Cultural Psychology. Lisboa: Temas e Debates. S. (2008). 2nd edition.Referências Heine.Círculo de Leitores. Damásio. https://www.com/watch?v=d4dOA56JG6s (consultado em 19/02/2014) . A. Razão e Cérebro Humano. O Erro de Descartes: Emoção.youtube.

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