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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um

APRE SE NTAÇÃO

O uso e xaustivo do ponto e vírg ula; a re pe tição ocasional de frase s ou palavras; pe rg untas fre que nte s ao le itor ou à própria re fle xão de

que m e scre ve ; e o me ticuloso e mpre g o de trave ssõe s e nfáticos alg uns traços marcante s da prosa de Virg inia Woolf. No que toca à

funcionalidade da e scrita, são sinais re fle xivos – pausas para pe nsar mais um pouco no que vinha se ndo dito como afirmação cate g órica.

são

É

ve rdade que e sse s me smos re cursos haviam

sido

amplame nte

e

xplorados na prosa ing le sa de ante s. Mas Virg inia, te ndo che g ado à

conclusão de que a e scrita masculina e m vig or até o sé culo XIX, a que e la he rdou para alte rar, não ate ndia às novas ne ce ssidade s da mulhe r mode rna, de u às pausas assim sinalizadas uma e ntonação dife re nte . Nos te xtos aqui se le cionados, log o que é fe ita uma afirmativa,

muitas ve ze s se admite outra hipóte se que a ate nua ou

conte sta. O

pe nsame nto, solto e m

suspe nsão nas

pausas, pare ce

de le itar-se na

inve nção de

caminhos

para transpor o

e maranhado de impre ssõe s

e m conflito, re sistindo a se

dire ção e xclusiva que as conve nçõe s pre viam. Fie l ao mé todo, o

e nsaio

arte da biog rafia, dize mos – mas de ime diato

biog rafia é uma arte ?”. E são as variadas te ntativas de re sponde r à pe rg unta que darão corpo e substância ao provocante e nsaio, criando um je ito de dize r que procura afirmar de outras mane iras, e não com

voz autoritária. Uma e scrita sólida, porque

constroe m; e trê mula, porque se nsive lme nte se abre para os ve ntos que sopram.

mante r, por ânsia de libe rdade , na

“A arte da biog rafia” come ça com e sta afirmação e xe mplar: “A

passamos a pe rg untar: a

te sta os mate riais que a

1929, no e nsaio “Mulhe re s e

ficção”, é

frase fe ita por home ns; muito pe sada, muito de scosida, muito pomposa para uma mulhe r usar”. Aí se lê que a e volução da e scrita fe minina – alg o que no passado ing lê s se re sumira às ve ze s a “me ra

conve rsa de rramada e m pape l” – e ra parale la à própria libe rtação da

mulhe r, ou de tantas pione iras ousadas, no Virg inia e stá conve ncida de que “um livro

como se ria se o autor fosse home m”, por achar prováve l que não

se jam

Valore s tão dive rsos, e e xpe riê ncias tão opostas como

se param os g ê ne ros, re que riam nova fala na qual e xpre ssá-los. Por

A frase

antig a, e scre ve u Virg inia e m

incompatíve l com a e scritora de se u te mpo porque é “uma

raiar do sé culo XX.

de mulhe r não é e scrito

os me smos, na vida e na arte , os valore s de uma e de outro.

as que

isso o e nsaio sug e re , à mulhe r que e ntão e scre via, alte rar e adaptar a frase corre nte “até e scre ve r alg uma coisa que tome a forma natural de se u pe nsame nto, se m e smag á-lo ne m distorcê -lo”.

A fala nova a se r dita, na qual a mulhe r inde pe nde nte pode ria

e nfim cristalizar se u próprio modo de se r, e ra a me sma que e stava

e m construção na oficina lite rária de Virg inia Woolf, e ssa arte sã sofisticada que nunca se cansou de e scre ve r procurando outros caminhos, outros fios para e ntre laçar, outras modalidade s de

e xpre ssão. Expe rime ntalista ante s de tudo e situada, e m sua fase mais produtiva, na crônica instabilidade da é poca e ntre as duas

g rande s g ue rras

como autora e mulhe r, dando voz à aute nticidade que propunha,

tanto nas formas move diças de sua prosa de ficção mais típica, e m

que frase s se dilue m como se

não

pince l impre ssionista, quanto unidire cional, de se us e nsaios.

é difícil e ncontrar uma Virg inia hipoté tica, diluídos

que dilace raram a Europa, e la se afirma e re aliza,

fosse m e sbatidas por toque s de na té cnica mais simple s, poré m

um

Se na ficção

como foram se us

traços na composição dos pe rsonag e ns e quadros,

aqui, nos e nsaios

consag rados ao de bate de ide ias, pre vistos para

e fe ito ime diato, uma fig ura de mulhe r se de line ia e de fine

suficie nte clare za. Ela se e nvolve e m que stõe s do dia a dia. Ela anda

à cata de vislumbre s pe las ruas de Londre s. Ela opina com força e

de ste mor. Se g ue “a forma natural de se u pe nsame nto, se m e smag á-

lo ne m distorcê -lo”, mas não de monstra ape g ar-se

como ve rdade ao

passam ou livros le ntame nte

traze m-lhe se mpre

mutação viole nta; de que toda ve rdade é provisória, pois as

possibilidade s de se r são infinitas.

Os e nsaios de Virg inia Woolf, produzidos de forma rápida e às

como ocupação re g ular, são na re alidade os artig os que e la

com

ao que tomou

construir suas frase s. Rostos apre ssados que

o me smo

sorvidos na re clusão do e scritório indício de que os mundos e stão e m

ce nte nas

e scre ve u

e ncome nda. Estava com 22 anos e m

lite rário, produzindo sobre tudo re se nhas, se u

g anha-pão. O pai tinha morrido pouco ante s, o casarão da família se

de sfe z e a moça se mpre tão pre coce , que já se sabia e scritora, ainda te ria de e spe rar muitos anos para pode r vive r de se us romance s.

Log o no ano se g uinte , profissionalizando-se como

influe nte Times LiterarySupplement, e la se capacitou pe la prática a te ce r as

conside raçõe s e nfe ixadas no curioso e nsaio “Re se nhando”. Particularme nte curioso, de fato, porque aí se põe e m discussão a

ao long o da vida para jornais ou re vistas, e m g e ral por

1904 , quando fe z do jornalismo

prime iro e constante

re se nhista do

utilidade social do re se nhista, da própria função que a absorvia com

total de dicação e que lhe tornou possíve l, e m te mpos

sobre vive r pe la e scrita. O me smo e nsaio é prova clara da abe rtura me ntal que a suste ntava na busca aflita de e scape s e ntre um sim

consolidado e um não fatal. Com Woolf, se u marido e se mpre se u

acre sce ntada ao te xto na qual Virg inia contra o re se nhista e

que e la praticava sozinha, contrapondo dúvidas que se e sg arçavam ante opiniõe s não de finitivas, tinha ag ora um parce iro do outro lado, ambos e mpe nhados na conce ntração do mútuo re spe ito. As re se nhas de livros re cé m-publicados na Ing late rra, e a e la

g e ralme nte propostas pe los jornais, são de long e a maior parte do

duros,

o conse ntime nto de la, Le onard prime iro le itor, re dig iu uma nota

re bate os principais arg ume ntos de

as re se nhas. O jog o do valor lite rário

e norme ace rvo de e nsaios. Mas as re se nhas de

aque le toque de inve ntividade , transg re ssão

disting ue e m tudo, hoje são te xtos com vida autônoma e de inte re sse mais amplo, muito alé m das circunstâncias nas quais

tive ram orig e m. O e nsaio “G e raldine e Jane ”, por e xe mplo, cuja

le itura e stimulante valida o ponto de

como re se nha de dois livros que , fug indo à re g ra, não e ram

lançame ntos re ce nte s. Talve z propostos pe la autora, que a e ssa altura

já tinha se u

sé culo XIX, Zoe e TheHalfSisters, e a mulhe r que

Je wsbury, a G e raldine do título do e nsaio-re se nha, e m 1929 e stava morta e totalme nte e sque cida havia quase cinque nta anos. Mas por trás de la e xistia uma rapsódia e xcê ntrica, o amor te mpe stuoso que

e ssa e ntão jove m romancista de clara pe la amig a mais ve lha, Jane ,

Virg inia, conte ndo e orig inalidade que a

vista, foi publicado e m 1929

re nome firmado, e ram romance s sing e los de me ados do

os e scre ve ra, G e raldine

casada com o

e scritor Thomas Carlyle . Ao e xplorar o filão, base ando-

se

e m vários

outros livros, sobre tudo com a corre spondê ncia e ntre

as

duas, Virg inia transforma o que se ria simple s re se nha num

e scorço biog ráfico da re lação que as uniu por muitos anos; re lação

construída e m g rande parte , re ssalte -se , pe lo

palavras, a nova e útil fe rrame nta das mulhe re s, na troca dos

se ntime ntos que e las come ntavam por cartas: a jove m faze ndo avanços, a se nhora se re traindo e m pudor. De ig ual modo, os e nsaios intitulados “As me mórias de Sara

B e rnhardt”, “Louise de La Valliè re ” e “O diário de Lady

Elizabe th

Holland” foram na orig e m re se nhas transg re ssoras dos limite s que

normalme nte se impõe m a que m as faz. São

inte nso manuse io de

e scorços biog ráficos, no

me smo formato de “G e raldine e Jane ”, e pe rmite m como e ste que a autora, com se u lado de militante fe minista à fre nte , trace pe rfis

be m de talhados sobre os torme ntos de mulhe re s que , por amor à carre ira ou por amor simple sme nte , ousaram de safiar conve nçõe s

para vive r se us mome ntos. Era pois

re sumos para a impre nsa, e stive sse

como se Virg inia Woolf, ne sse s tomando fôle g o para as

biog rafias comple tas que acabou e scre ve ndo: a de se u

g rande

amig o

Rog e r Fry, pintor e crítico de

arte , publicada e m 194 0, um ano

ante s

de morre r a bióg rafa, e a vida ine spe rada de Flush, o simpático e fie l cachorro de outra transg re ssora e mé rita, Elizabe th B arre tt B rowning ,

re tratado no livro a que de u título, e m 1933.

Orlando: uma biografia, sua supre ma re alização a re novar o g ê ne ro,

biog rafia fictícia e mbutida numa fantástica mistura de é pocas, foi o livro que a alavancou para o suce sso. E foi també m, das g rande s obras, a que e la e scre ve u e m me nos te mpo, come çando-o e m 1927

para lançá-lo já no ano se g uinte . Quando se conside ra que o re sumo

de vidas, e m artig os e sparsos, é um dos formatos mais comuns dos

e nsaios, e nte nde -se a rapide z inusitada com que Orlando foi e scrito,

por alg ué m que obstinadame nte se tre inou de sde ce do

inve stig ar e re compor o passado. Nas obras de ficção se m apoio, se m quadros para re staurar com e sme ro, Virg inia costumava se r le nta,

com fre que nte s he sitaçõe s dramáticas e m

e scre via. Orlando, cujo fluxo narrativo se de sdobra numa e spontane idade sobe rba, pode se r visto portanto como o coroame nto do e sforço ne ssa linha, dando ainda uma indicação para ve rmos de que mane ira

a prática do jornalismo biog ráfico, os te mas e té cnicas ante cipados

na e sfe ra dos e nsaios acabarão por re fle tir-se e imbricar-se nos livros de imag inação. Sabe -se que a atração de Virg inia por biog rafias antig as, por cartas,

diários, pape ladas do fundo do baú caracte rística compartilhada com o

ime nsa bibliote ca e la apre nde u a e studar por conta própria, havia

e scrito 378 das quase 30 mil vidas contidas no DictionaryofNational

Biography, um calhamaço ou monume nto da e ra vitoriana que totalizou

63 volume s, os prime iros 26 org anizados por e le . Se he rdou do pai

e sse

a lhe

de clínio, cujos e ste rtore s a de ixarão se mpre e m g uarda, e la pre fe re

e

se r trazidas

sobre mulhe re s notáve is – e e ntão larg adas muitas ve ze s nos porõe s da história. Ao e sboçar os pe rfis de Christina Rosse tti, Dorothy

para

re lação ao valor do que

de outras é pocas, e ra uma pai. Le slie Ste phe n, e m cuja

inte re sse , a filha no e ntanto

o adaptou a se u g osto, não tardando

impor novos se ntidos. Às ce le bridade s cultuadas pe la e ra e m

que por traços sing ulare s me re çam

pe rse g ue vidas obscuras, mas

à luz, numa rota que a le vará a e scre ve r principalme nte

Wordsworth ou Mary Wollstone craft, e ntre de ze nas e de ze nas de

outras, Virg inia Woolf abre fre que nte s e spaços para cote jar

dificuldade s das pre de ce ssoras de outrora com proble mas que e la

me sma ainda e nfre ntava como artista e

nas prime iras, incipie nte s mutaçõe s do

É de supor-se

mulhe r, ape sar de já se achar sé culo XX.

que e ntre bióg rafos e biog rafados se e stabe le ça um

forte vínculo de ide ntificação e e mpatia. É de supor-se que um

bióg rafo, de tanto lidar com se u mode lo, possa acabar falando de si

me smo e nquanto fala do outro. Ao falar de Mary Wollstone craft, Virg inia e scre ve :

A

vida de uma mulhe r como e ssa e stava fadada a se r muito

te

mpe stuosa. A cada dia e la e laborava uma te oria sobre como

vive r a vida; e a cada dia ia de e ncontro ao roche do dos pre conce itos alhe ios. Alé m do mais, porque não e ra uma pe dante , uma te órica de sang ue -frio, a cada dia nascia ne la alg uma coisa que punha suas te orias de lado ou a obrig ava a lhe s dar nova formulação.

Todo o tre cho se e ncaixa à pe rfe ição

Virg inia e m se us e mbate s com a vida e a criação lite rária, tal como

e le s se e spe lham e m se us diários e cartas, ou nas te se s e antíte se s

que nos e nsaios se acham. Sobre Dorothy Wordsworth, que nos é apre se ntada na

tranquilidade do campo, Virg inia e scre ve isto: “Se mpre tre inado e

e m uso, se u pode r de obse rvação

tanto que um dia de caminhada já lhe armaze nava na me nte um

g rande e stoque de inte re ssante s obje tos

vontade ”. Do me smo modo e com e ficaz re sultado, pode -se aplicar a passag e m à g rande caminhante que foi a própria Virg inia, se g uindo

també m nisso as pe g adas do pai, e ao pode r de obse rvação, que é um de se us dons mais óbvios e que a acompanha, posto e m prática e m

dife re nte s re g istros, que r e la fale de re g ião de Monks House , se u re fúg io

me ncione as de ambulaçõe s que fazia pe lo tumulto e sfuziante ou,

durante a g ue rra, pe los e scombros da Londre s bombarde ada por aviõe s nazistas. Como a mode lo que lhe inspirou a passag e m, e la armaze nava na me nte um g rande e stoque de obje tos vistos,

long as caminhadas solitárias na no campo e m Rodme ll, que r

para de scre ve r a própria

aprimorou-se e e spe cializou-se

vistos, para e scolhe r à

e

scolhe ndo-os

à vontade para compor ce nas

de rua, e m criaçõe s

e

xímias, ou para me rg ulhar de cabe ça, como

tanto g ostava de faze r,

na confusão de ág uas e nuve ns, brilhos e sombras, ruídos e silê ncios que a nature za propõe .

O e nsaio “B ate ndo pe rnas

nas

ruas: uma ave ntura e m Londre s”,

que é um

ponto alto na pre se nte

se le ta, por sua re donde z tão

coe sa,

é

totalme nte autobiog ráfico. A autora, que re ndo comprar um

lápis,

sai a pé à procura. Mas sua cápsula prote tora se de sfaz, quando num

fim de tarde de inve rno

achampanhado do ar e a sociabilidade das ruas”. Sua concha se

que bra, sua ide ntidade pe rde sobra, e ntre cacos e pontas, é

olho”. Livre de sua ide ia de si, não mais acuada e ntre pre ocupaçõe s rotine iras, a mulhe r que bate pe rnas simple sme nte se e ntre g a, na

le ve za e de le ite do abandono, ao se u

obse rvação – ao olho que “nos

corre nte abaixo, parando, pausando, com o cé re bro talve z dormindo,

e nquanto e le olha”.

O e nsaio e m pauta foi e scrito e publicado e m 1927, ou se ja, no

ano e m que Virg inia e scre via també m a biog rafia imag inária de

Orlando. No e nsaio, a caminhante que se transforma e m se us

diz que , ao sairmos de

amig os nos re conhe ce m”. Se ndo e la ag ora um e spe lho

aconte ce nas ruas, se u

variado

e inconstante . Na vida imag inária, Orlando é le vado

“já se conside ra uma biog rafia comple ta aque la que

e nume ra se is ou se te e us, e mbora uma pe ssoa possa te r muitos

milhare s”. A que stão que assim se

1927, volta e me ia ve m à tona e m toda a ficção de Virg inia e é a vig a que suste nta a narrativa de Orlando, que afinal muda de se xo, na

e la troca o aconche g o de casa pe lo “brilho

as re fe rê ncias do hábito, e o que e ntão “uma ostra de pe rce pção, um e norme

me ticuloso

le va a flutuar be m

pode r de de le ve pe la

olhos

casa, “larg amos a pe rsonalidade pe la qual

os

próprio e u, ao sabor dos passos

e

mudo do que re fle xos,

é alg o

dissolve -se sozinho. Ela pe rce be que a pe rsonalidade

a constatar que simple sme nte

apre se nta nos dois te xtos, e m

mais e xace rbada das

trocas, e “ia mudando de e us

com a me sma

ve locidade com que Há muitos pontos

dirig ia o automóve l”. de contato, como e sse , e ntre

coisas que são

ditas nos e nsaios e nos romance s da autora. E no re pe rtório de

e nsaios, ao

um re torno posturas. As situação das

privilé g ios e as carê ncias de um siste ma e litista de e nsino

e scle rosado, o fantasma da g ue rra, ou

criação lite rária, discutidos, com a suce ssiva re tomada de te mas próximos, e m e nsaios como “Ficção mode rna”, “Poe sia, ficção e o

long o dos muitos anos de produção ince ssante , nota-se de ide ias que pare ce m solidificar-se na construção de mais e vide nte s e stão lig adas a que stõe s sociais, como mulhe re s e e m e spe cial das trabalhadoras britânicas, os

a

a proble mas intrínse cos à

futuro”, “Mulhe re s e ficção” e “Carta a um jove m poe ta”. Ao e ncarar

os proble mas de sua arte , o e u

mome ntos são “mome ntos de se r” se m

se lança à linha de fre nte , como se fosse aque le “e u-capitão” de que

fala Orlando, “que a todos os outros amalg ama e controla”, para

afirmar com e xtraordinária corag e m

as posturas re sultante s de se u obstinado rig or. Em “Ficção mode rna”, publicado pe la prime ira ve z e m 1919, Virg inia se opõe aos romancistas de maior suce sso público, aos campe õe s de ve ndas da é poca, todos e le s subme tidos a um e stilo

que pre te ndia se r re alista e no fundo não passava de uma re pe tição pe g ajosa de situaçõe s e sg otadas, de um e te rno re contar de histórias, se mpre as me smas. Para e la, e sse tipo de e scritor, que propõe uma

vida e mbalsamada, conte mplava o corpo, mas não

tinha se tornado um e scravo dos muitos compromissos que assumia com a profissão já re ntáve l. Log o se vê que a mulhe r que e scre ve , no re fe rido e nsaio, é uma ince ndiária da re volução mode rnista. Ne sse te mpo, as mulhe re s não pe g avam e m armas, mas a e le g ante combate nte dispara:

crítico da autora, cujos me lhore s

consciê ncia de si, assoma e

as convicçõe s que a impe liam,

via o e spírito, e

[… ] se o e scritor fosse um home m livre , e não um e scravo, se e le pude sse e scre ve r o que be m quise sse , não o que de ve , se pude sse base ar sua obra e m sua própria e moção, e não na

conve nção, não

catástrofe ou intrig a de amor no

have ria e nre do, ne m comé dia, ne m trag é dia, ne m

e stilo ace ito [… ].

Na pre se nte se le ta, os e nsaios e ntram por orde m de publicação. Os dois prime iros, “Músicos de rua” e “O valor do riso”, datam de 1905.

São portanto criaçõe s de Ade line

solte ira da jove m de 23 anos, filha de um vitoriano e mine nte , e que

e stava e ntão ape nas no come ço de

colaboradora e m jornais. Ne sse s e scritos iniciais, já há ide ias que

Virg inia Ste phe n, o nome de

sua flore sce nte carre ira como

se rão re tomadas, já há posturas e sse nciais be m de finidas. O

valor do

ritmo, por e xe mplo, que e stá posto e m re le vo e m “Músicos

de rua”,

tornar-se -ia uma constante nas indag açõe s de Virg inia sobre

a

g ê ne se de toda arte e m palavras, core s, sons, g e stos de dança. “O

valor do riso”, por sua ve z, suste nta e sta irre dutíve l postura: “Todas

as e xcre scê ncias horre ndas que invadiram nossa vida mode rna, as

pompas

quanto o brilho de um riso que , como o re lâmpag o, as faz tre me r e

e conve nçõe s e sole nidade s maçante s, nada te me m tanto

de ixa os ossos e xpostos”. Diz-se postura irre dutíve l porque e m 1932, já com cinque nta anos, quando e la e scre ve e publica o e nsaio

“Isto é a Câmara dos Comuns”, de pois de te r assistido a uma se ssão le g islativa, Virg inia é possuída pe lo me smo ardor juve nil, a me sma

indig nação dos prime iros anos

pompas da asse mble ia, que na hora lhe soam, alé m de horre ndas,

vazias, caricatas e

Compara-os a um bando de passarinhos que pulam sobre uma te rra

lavrada e e svoaçam saltitante s e m torno para disputar com alarde

alg um pe tisco

Casa, onde “as portas

de monstra se não um

e stadistas que e stão por fora do pré dio, “ne g ras e lisas

como le õe s-marinhos que acabam de sair da ág ua”. Alg ué m pode indag ar se e ste s e nsaios, dos quais os prime iros datam de mais de ce m anos, se e m particular os rompante s de uma

g arota ing le sa culta e atre vida ainda te rão g rande importância para o mundo atual, de pois do impacto pe sado das be licosas

transformaçõe s já vividas durante o sé culo cé le re . Ao

se -ia, se o e spírito de Virg inia nos pude sse

indag ador dir- o mundo

muda a toda hora, de fato, e e la assim o via, mas que se mpre há e xcre scê ncias que se formam no rosto ve lho do mundo; aí

para se r e xtirpadas, se ndo não raro

pe rsiste m; avolumam-se ; custam

causa de e xplosõe s viole ntas. O e ntulho das pompas

no mundo tão mudado, ainda abafa a civilização ve rdade ira. Ainda é

pre ciso, e como, se ntir o valor do riso. Virg inia zombou

da

de putados, riu das e státuas e das ce rimônias forçadas. Poré m saiu e xpe riê ncia, como re lata no e nsaio de 1932, com alg umas conclusõe s muito sé rias:

do sé culo, quando de snuda as

inúte is. Ela não le va a sé rio os de putados falante s.

no chão. Ela não se comove com a ag itação re inante na

de vaivé m vive m num pe rpé tuo ir e vir”. E não irre ve re nte e spanto diante das e státuas de

e lustrosas

g uiar, que

podre s, me smo

dos

Se ntimos que a Câmara é um corpo com sua índole própria; que

te m long a e xistê ncia; que te m suas

irre ve re nte a se u próprio modo, pre sume -se que també m se ja re ve re nte a se u modo próprio. Conside rando-se que e la possui

um códig o, que m de sre spe itar e sse códig o se rá castig ado se m

pie dade , mas os que

virão a se r pe rdoados. Só os que conhe ce m os se g re dos da Casa

pode m

ce rte za que pode mos te r é de que aqui e xiste um se g re do.

dize r o que e la conde na e o que e la pe rdoa. Nós, a única

le is e lice nças; que , se ndo

e stive re m de acordo com e le facilme nte

Um

dos últimos e nsaios de sta se le ta, “Pe nsame ntos de paz durante

um

ataque aé re o”, publicado pe la prime ira ve z e m Nova York, e m

194 0, conté m palavras tão atuais, para o mundo mudado mas se mpre

e m g ue rra, quanto as citadas ante s, que ainda pode m se rvir para falar

dos parlame ntos de hoje . Enquanto e la e scre ve , a g ue rra a alcança,

e stá por cima do te lhado da casa – “A qualque r mome nto pode cair

uma bomba aqui de ntro de ste quarto” – e o barulho das e xplosõe s

e ntre corta o

zumbido pe rsiste nte e fatal dos aviõe s no cé u, onde

jove ns ing le se s e ale mãe s, e ntupidos

de hinos patrióticos, lutam

de

se spe radame nte para matar uns aos

outros. De itada no e scuro,

com a máscara contra g ase s ao alcance da mão, ve ndo as riscas dos

holofote s no ar e os rastilhos de fog o, no

as mulhe re s, que

para acabar com a matança: a lutar com a me nte , a criar ide ias de paz.

A g ue rra pe rde ria o se ntido se a ide ia de pátria não a alime ntasse e

se a ide ia de have r um povo livre fosse tomada por re tórica. No

me do da noite e scura, todos

da me sma máquina insana: o de se jo

o “hitle rismo inconscie nte ” que rói

instintos primitivos “fome ntados e aplaudidos pe la e ducação e

tradição”. Criar ide ias de paz, lutar com a me nte e m ple na g ue rra, postura que a e nsaísta assume , é sobre tudo “ajudar os jove ns ing le se s a e xtirpar de si me smos e sse amor por conde coraçõe s e me dalhas”. Arque olog ia lite rária é te rmo que se pode aplicar ao pacie nte

e sforço de Virg inia Woolf para ir buscar nas sombras do passado, como e la faz e m se us e nsaios, se mpre base ados e m abundante s

le ituras, um sumo

de ag re dir, dominar, e scravizar,

aug e do pavor e la conclama

não dispunham de armas, a outro e sforço cole tivo

ali são prisione iros, constata o e nsaio,

o coração dos home ns, os

re moto de e xpe riê ncia alhe ia, um vislumbre , que alg um e spírito lhe trag a para ajudá-la a dar

indício ou sínte se

fundame nto às suas posiçõe s de combate . Ela insta o le itor, diante

das e vidê ncias e xpostas, a dialog ar com sua e scrita. Por isso faz tantas pausas. Por isso aqui e ali se inte rrog a, como se pre visse

ce rtas indag açõe s de que m

afirmaçõe s já fe itas. Com o pe nsame nto assim e m suspe nsão, e la faz

o le itor e ntrar e m ce na, não

ide ias alhe ias, e sim por um parce iro

obra, dando-lhe solide z de mocrática. “Ve jamos se a de mocracia que

constrói palácios”, convida-nos a autora a pe nsar, após a visita ing lória que fe z à Casa dos de putados, “se rá capaz de supe rar a aristocracia que e sculpia e státuas.” Ensaios de Virg inia Woolf foram re unidos pe la prime ira ve z e m

lê . Por isso ate nua ou conte sta

o tomando por passivo consumidor de

que atua para comple tar sua

livro, por e la me sma, nos dois volume s de TheCommonReader, o

prime iro publicado e m sua morte , ocorrida e m

publicou a prime ira, TheDeathoftheMothandOtherEssays, de

de e nsaios org anizadas por e le até 1965. Esse trabalho culminou com

a org anização dos CollectedEssays de Virg inia Woolf, e m quatro

volume s lançados e m 1966-67. A g rande e dição crítica e hoje a mais acatada, que ape rfe içoou o trabalho de Le onard Woolf e cujo te xto se g uimos na tradução, é TheEssays ofVirginia Woolf, org anizada por Andre w McNe illie (vols. 1 a 4 ) e Stuart N. Clarke (vols. 5 e 6).

De vido à minúcia dos le vantame ntos fe itos, os se is volume s foram

publicados aos

se us suce ssore s: o prime iro, e m 1987; o último, e m 2011. As notas do tradutor, limitadas ao e sse ncial, orie ntaram-se pe las

da e dição crítica e por informaçõe s obtidas nos se g uinte s livros:

Mark Husse y, Virginia WoolfAtoZ, AComprehensiveReference (Facts on File :

1995); Susan Se lle rs (org .), TheCambridgeCompaniontoVirginia Woolf (Cambridg e Unive rsity Pre ss, 2ª. e d.: 2011); Marg are t Drabble e

Je nny String e r (org s.), TheConciseOxfordCompaniontoEnglishLiterature

(Oxford Unive rsity Pre ss: 1996); Ian Hamilton (org .), TheOxford

CompaniontoTwentieth-CenturyPoetryinEnglish (Oxford 1996); Encyclopaedia Britannica.

1925, o se g undo e m 1932. No

ano se g uinte à

28 de março de 194 1, Le onard Woolf

cinco se le tas

poucos, pe la e ditora Harcourt B race Jovanovich e

Unive rsity Pre ss:

LEONARDO FRÓES

MÚSICOS

DE

RUA

“M

úsicos de rua são conside rados um incômodo” pe los moradore s tão

since ros da maioria das praças de Londre s, que

tive ram o trabalho

de inse rir e sse polido tre cho de crítica musical numa placa conte ndo

ainda outras re g ras para o de coro e a paz na praça. Mas

dá a me nor ate nção à crítica, e o artista das ruas de sde nha sole ne me nte do julg ame nto do público britânico. É notáve l que ,

ne nhum artista

ape sar da de saprovação que obse rve i – e que de

quando e m quando

é

re forçada por um policial britânico – , o músico

ambulante e stá na

re alidade e m alta. A banda ale mã dá um me sma re g ularidade que a orque stra do

conce rto Que e n’s

por se mana, com a Hall; de ig ual

modo, os tocadore s de re ale jo italianos são fié is ao

re apare ce m pontualme nte sobre o me smo tablado; somando-se a

se u público e

e

sse s me stre s re conhe cidos, todas as ruas re ce be m

a visita

e

sporádica de alg uma e stre la e rradia. O robusto te utônico e o

italiano more no ce rtame nte vive m de alg uma coisa mais substancial

que a satisfação artística de suas almas; e é portanto prováve l que as

moe das, que e stá abaixo

música jog ar pe la jane la da sala, se jam ofe re cidas na e scadinha dos fundos. Existe um público, e m suma, que e stá disposto a pag ar até

me smo

A música, para faze r suce sso numa rua, de ve se r alta ante s de se r

bonita; por isso é que os instrume ntos pre dile tos são de me tal, e

pode mos concluir que o músico de rua que usa a própria voz ou um violino te m uma razão g e nuína para sua e scolha. Já obse rve i violinistas que obviame nte e stavam usando se u instrume nto para

da dig nidade do ve rdade iro amante da

por uma me lodia tão rudime ntar como e ssa.

e

xpre ssar alg o que tinham no próprio coração e nquanto balançavam

o

corpo na be ira da calçada na Fle e t Stre e t; e as moe das, e mbora as

roupas e m frang alhos as tornasse m ace itáve is, e ram, como são para todos os que amam se u trabalho, um pag ame nto e m tudo incong rue nte . De fato, ce rta ve z se g ui um ve lho de aparê ncia lame ntáve l que , de olhos fe chados para pode r pe rce be r me lhor as me lodias de sua alma, se pôs a tocar lite ralme nte de Ke nsing ton a Knig htsbridg e num transe de ê xtase musical do qual uma moe da se ria um de spe rtar de sag radáve l. É de fato impossíve l não re spe itar qualque r um que te nha de ntro de si um de us como e sse ; porque a música que se apode ra da alma, e que assim torna e sque cidas a

nude z e a fome , de ve se r divina e m sua nature za. É ve rdade que as

me lodias que saíam de se u e sforçado violino e ram e m si me smas

risíve is, mas e le , por ce rto, não. Se ja qual for o níve l da re alização, se mpre de ve mos tratar com te rnura os e sforços dos que se

e mpe nham com since ridade para e xpre ssar a música que e xiste

ne le s; pois

e xpre ssão, e

arranham por harmonias que jamais vê m, e nquanto o trânsito vai

e strondando ao lado, se jam tão forte me nte possuídos, e mbora

fadados a nunca transmitir isso, quanto os me stre s cuja e loquê ncia

fácil e ncanta milhare s a ouvi-los. Há talve z mais de um motivo para que os moradore s das praças olhe m para o músico de rua como um incômodo; sua música

pe rturba o dono da casa e m

disciplinado se irrita com a nature za e rradia e não ortodoxa de tal ofício. Artistas de toda e spé cie tê m sido invariave lme nte vistos

com de sfavor, sobre tudo pe lo

das e xce ntricidade s do te mpe rame nto artístico, mas també m porque nos condicionamos a uma tal e xce lê ncia de civilização que qualque r

tipo de e xpre ssão te m alg o quase inde ce nte – de ce rto não re tice nte

– a rode á-lo. Poucos pais, obse rvamos, que re m que se us filhos se

torne m pintore s ou poe tas ou mundanas, mas porque e m

indig no de

que a arte re ve la e que de ve ria se r obrig ação de um bom cidadão re primir. De sse modo, por ce rto, a arte não é e stimulada; e é

provave lme nte mais fácil para um

qualque r outra profissão cair na sarje ta. O artista não só é visto com

de spre zo, mas també m com uma suspe ita que te m e m

me do. É possuído por um e spírito que a pe ssoa comum não pode

compre e nde r, mas que e vide nte me nte é muito pode roso e e xe rce

sobre o artista uma influê ncia tão g rande que

voz, se mpre te m de se le vantar e se g ui-lo. Hoje e m dia não somos cré dulos e , ape sar de vontade na pre se nça de artistas, faze mos todo o

dome sticá-los. Nunca se te ve tanto re spe ito pe lo artista de suce sso

como

muitas pe ssoas vaticinaram, e que os de use s que foram para o e xílio, quando os prime iros altare s cristãos se e rg ue ram, have rão de voltar para se compraze r novame nte como que iram. Muitos e scritore s te ntaram localizar e sse s antig os pag ãos e asse ve raram e ncontrá-los

o dom da conce pção é por ce rto supe rior ao dom da

não é disparatado supor que os home ns e mulhe re s que

suas ocupaçõe s le g ítimas, e um e spírito

público ing lê s, não ape nas por causa

músicos, não some nte por razõe s

se u próprio coração e le s acham se r

um home m dar e xpre ssão aos pe nsame ntos e e moçõe s

artista do que para alg ué m de

si não pouco

e le , quando ouve sua

não ficarmos à possíve l para

hoje e m dia; e nisso talve z possamos ve r um sinal do que

sob o disfarce de animais e no abrig o de matas e montanhas

long ínquas; mas

sua procura, e ste jam e le s pre parando se us bruxe dos be m no me io

de

de ning ué m e são inspirados por uma voz que é dive rsa da humana

e m se us ouvidos não são de fato como as outras pe ssoas, mas ou são

os próprios De ce rto e u

orig e m divina, de qualque r modo, e provave lme nte é

suspe ita de ssa e spé cie que

Pois se o e ncade ame nto de palavras, que todavia pode transmitir à me nte uma informação útil, ou a combinação de core s que pode re pre se ntar um obje to tang íve l são ocupaçõe s que quando muito

não conse g ue m se não home m que passa se u

não é a me nos re spe itáve l – a me nos útil e

claro que , ouvindo música, você nada pode le var daí que lhe se ja de se rve ntia e m se u dia de trabalho; mas um músico não é

simple sme nte uma criatura útil; para muitos, cre io e u, e le é o mais pe rig oso de toda a tribo de artistas. É o ministro do mais fe roz dos

de use s, que

transmitir à me nte o aspe cto das coisas humanas. É porque a música

incita e m nós

– um e spírito

de sconfiamos dos músicos e re lutamos e m nos colocar sob se u pode r. Se r civilizado é te r tomado a me dida de nossas próprias

capacidade s e mantê -las num e stado pe rfe ito

de nossos dons te m, tal como o conce be mos, um pode r de

be ne ficê ncia tão re le s e um pode r tão de sme dido de danos que ,

long e de cultivá-lo, fize mos todo

lo. Olhamos para os que puse ram

como os cristãos olham para os fanáticos adoradore s de alg um ídolo orie ntal. E isso talve z de corra de uma ansiosa pre sciê ncia de que , quando os de use s pag ãos voltare m, o de us que nunca adoramos have rá de se ving ar de nós. Se rá o de us da música que há de insuflar loucura e m nosso cé re bro, que há de rachar as pare de s de nossos te mplos e nos le var a abominar nossa vida se m ritmo para dançar e circular para se mpre e m obe diê ncia à voz de le . Te m aume ntado o núme ro dos que de claram, como se confe ssasse m sua imunidade a alg uma fraque za be m comum, não te r

nós, e que e sse s e stranhos idólatras que não se põe m às orde ns

não é fantástico supor que , e nquanto todos e stão à

de use s ou se us profe tas e sace rdote s sobre a te rra. de ve ria inclinar-me a atribuir aos músicos uma tal

alg uma

nos le va a pe rse g ui-los como o faze mos.

se r tole radas, como ire mos conside rar o te mpo e ntoando cançõe s? A ocupação de le

ne ce ssária – das trê s? É

ainda não apre nde u a falar com voz humana ne m a

alg uma coisa que é fe roz e inumana como e la me sma

para se e liminar e e sque ce r de bom g rado – que

de disciplina; mas um

o possíve l para e stropiá-lo e abafá- sua vida a se rviço de sse de us

ouvido

para música, ainda que tal confissão de va se r tão g rave

quanto

a de alg ué m que é

ce g o para as core s. Ao modo como a

música é e nsinada e apre se ntada por se us ministros cabe e m ce rta me dida a re sponsabilidade por isso. A música é pe rig osa, como nós

sabe mos, e os que a e nsinam não tê m corag e m de

todo

be be sse g oladas pre nsados, como

clarame nte divididas, nos

tons e se mitons do piano. O atributo mais fácil e mais se g uro da música – sua me lodia – é e nsinado, mas ao ritmo, que é sua alma,

pe rmite -se que e scape como a criatura alada que

pe ssoas instruídas, às quais se e nsinou o que lhe s é mais se g uro

sabe r de música, são as que mais costumam se g abar de sua falta de ouvido, e nquanto as não instruídas, cujo se ntido de ritmo não se

tornado subsidiário de se u se ntido de harmonia,

divorciou ne m foi

são as que nutre m maior amor pe la música e as que ouvimos com

mais fre quê ncia a produzi-la.

Pode ocorre r de fato que o se ntido de ritmo se ja mais forte e m

transmiti-la e m

o se u vig or, por me do do que pode ria aconte ce r à criança que

tão intoxicante s. Todo o ritmo e harmonia foram

flore s se cas, nas e scalas

é . Assim, as

pe ssoas

obje tivos, como é ve rdade que os se lvag e ns que não tê m ne nhuma

das arte s da civilização são muito se nsíve is ao ritmo, ante s de se re m de spe rtados para a música e m si. A batida do ritmo na me nte apare nta-se à batida do pulso e m nosso corpo; e assim, ape sar de muitos se re m surdos para a me lodia, é raro alg ué m org anizado de um modo tão g rosse iro que não consig a ouvir o ritmo de se u próprio coração e m palavras e movime ntos e música. É por e la nos se r assim tão inata que não pode mos jamais sile nciar a música, como não

é també m por e ssa razão

pode mos impe dir nosso coração de bate r; e

que a música é tão

uma força natural. Malg rado tudo o que fize mos para re primi-la, a música ainda te m tal pode r sobre nós, se mpre que nos damos aos se us me ne ios, que não há quadro, por mais justo que se ja, ne m palavras, por mais

cuja me nte não foi e laboradame nte tre inada para outros

unive rsal e te m o e stranho e ilimitado pode r de

g

randiosas, que de la se aproxime m. Já nos acostumamos com a visão

e

stranha de

um

salão re ple to de pe ssoas civilizadas se move ndo a

passos rítmicos sob o comando de uma banda de músicos, mas pode se r que alg um dia isso ve nha a sug e rir as vastas possibilidade s que

e stão na força do ritmo, e toda a nossa vida se rá e ntão re volucionada,

como

o foi quando pe la prime ira ve z o home m se de u conta da força

do vapor. O re ale jo, por e xe mplo, por causa de se u ritmo rudime ntar

e e nfático, põe as pe rnas de

todos os passante s a andar e m cadê ncia;

uma banda no ce ntro da fe roz discórdia de carruag e ns e charre te s de alug ue l se ria mais e ficie nte do que qualque r g uarda de trânsito; não

ape nas

mante r o te mpo da dança e a se g uir qualque r me dida de trote ou

me io g alope que

princípio já foi re conhe cido no e xé rcito, onde as tropas são

inspiradas ao ritmo da música para marchar e m batalha. Se o se ntido

de ritmo e stive sse e m ple na atividade e m

de ve ríamos, se não me e ng ano, notar um g rande

o coche iro, mas o próprio cavalo se ntir-se -ia obrig ado a

as trombe tas ditasse m. Até ce rto ponto e sse

todas as me nte s, prog re sso não só na

org anização de todos os assuntos da vida cotidiana, mas també m na

arte de e scre ve r, que

principalme nte por se te r e sque cido da ade são

De ve ríamos inve ntar – ou me lhor, re le mbrar – os inume ráve is

me tros que por tanto te mpo ultrajamos e que

é quase uma aliada da música e de g e ne rou

de ssa arte .

pode riam re staurar a

poe sia e a prosa se g undo as harmonias que obse rvavam.

os antig os ouviam e

O

ritmo, sozinho, pode le var facilme nte

a e xce ssos; mas, se o

ouvido dominasse se u se g re do, me lodia e

harmonia se uniriam a

e

le , e as açõe s ante s e xe cutadas

por inte rmé dio do ritmo, com

e

xatidão

e

a te mpo, se riam fe itas ag ora pe lo

que for de me lodia que

é natural

às suas conve nie nte s le is mé tricas, tal como as ditam nosso se ntido de ritmo, mas també m se riam inspiradas por caridade , amor,

sabe doria, soando a rabug ice , e o sarcasmo, ao ouvido

como notas e m falso e discórdias te rríve is. Todos nós sabe mos que as voze s de amig os são discordante s de pois de ouvirmos boa

música, porque pe rturbam o e co da harmonia rítmica que

mome nto faz da vida um todo musical e unificado; e pare ce

prováve l, conside rando isso, que há uma música no ar, pe la qual nós

se mpre e stamos apurando o ouvido

tornada audíve l pe las

capaze s de pre se rvar. Em flore stas e lug are s solitários, um ouvido ate nto pode de te ctar alg o muito pare cido com uma vasta pulsação e ,

se nossos ouvidos fosse m e ducados, pode ríamos ouvir també m a música que a acompanha. Ape sar de não se r humana e ssa voz, e la é

contudo uma voz que alg uma parte de nós pode , se a de ixarmos, compre e nde r, e é talve z por não se r humana a música que e la é a

única coisa fe ita pe los home ns que nunca pode se r ruim ne m

Se e m ve z de doasse m

música aos pobre s, de modo que e m cada e squina de rua as

me lodias de B e e thove n e B rahms e Mozart pude sse m se r ouvidas, é

a cada um. As conve rsas, por e xe mplo, não só obe de ce riam

corpóre o,

naque le

e que ape nas e m parte nos é

transcriçõe s que os g rande s músicos são

fe ia.

bibliote cas, por conse g uinte , os filantropos

prováve l que todos os crime s e conte ndas log o se tornasse m

de sconhe cidos, pode ndo fluir me lodiosos, e m

música, o e ntão um

inte rpre te a voz do de us por outro alg ué m que não se ja um home m

santo, e do nasce r ao pôr do sol nossa vida pode ria passar ao som de

música.

obe diê ncia às le is da

trabalho das mãos e os pe nsame ntos da me nte . E se ria crime tomar os músicos de rua ou qualque r um que

Publicado pe la prime ira ve z na National Review n. 265, mar. 1905, foi a única colaboração de Virg inia Woolf a sair ne sse pe riódico ing lê s.

O

VALOR

DO

RISO

A ve lha ide ia e ra que a comé dia re pre se ntava as fraque zas da nature za humana e a trag é dia re tratava os home ns como maiore s do

que e le s são. Para pintá-los de um modo che g ar a um me io-te rmo e ntre as duas; o

sé rio para se r cômico, muito impe rfe ito para se r trág ico, e a isso

pode mos chamar de humor. O humor, como a nós

às mulhe re s. Trág icas ou cômicas e las

pode m se r, mas a mistura

ve rdade iro se rá pre ciso re sultado é alg o muito

foi dito, é ne g ado

e

spe cífica que constitui um humorista é

para e ncontrar-se some nte

e

m home ns. As e xpe riê ncias no e ntanto

são coisas pe rig osas e , ao

te ntar ating ir o ponto de vista do humorista – e quilibrando-se

naque le pico tão alto que é ne g ado às suas irmãs – , não é raro que o

g inasta macho tombe ig nominiosame nte

me rg ulha de cabe ça nas palhaçadas, ou be m de sce para o

do lug ar-comum muito

inte irame nte à vontade . Pode se r que a trag é dia – um ing re die nte ne ce ssário – não se ja tão comum como foi na é poca de Shake spe are ,

e

dispe nsa o sang ue de sobre casaca e

sole nidade e , se os

é masculino. Ora, a comé dia é do se xo, das g raças e das musas e ,

quando aque le cavalhe iro

home nag e ns, e la olha e ri e olha de novo, até que a risadaria

irre sistíve l a domina e e la fog e para e sconde r sua ale g ria no re g aço das próprias irmãs. É assim muito raro que o humor ve nha ao mundo,

e dura é a luta da comé dia por e le . O riso puro, tal como o ouvimos

nos lábios das crianças e de mulhe re s bobas, anda e m de scré dito. É

tido por se r a voz da tolice e da frivolidade , não se inspirando ne m

e m conhe cime nto ne m e m e moção. É um riso que não passa

me nsag e m, que não transmite informação; é um som inarticulado como o latido de um cão ou o balir de um carne iro, e e xprimir-se

assim é indig no

para o outro lado e , ou be m

chão duro

sé rio, onde , justiça lhe se ja fe ita, se nte -se

assim a e ra atual te ve de provide nciar um substituto de coroso que

e as adag as, te ndo sua me lhor aparê ncia quando

cartola. A isso nós pode mos chamar de e spírito de

e spíritos tê m g ê ne ro, não há dúvida de que e sse

sole ne se adianta para re nde r-lhe

de uma e spé cie que se dotou de ling uag e m.

Mas há coisas que e stão alé m das palavras, e não por baixo das

palavras, e uma de las é o riso. Pois o riso é o único som, por inarticulado que se ja, que ne nhum animal pode produzir. Se no

tape te da lare ira o cão

g e me de dor ou late de ale g ria, e nte nde mos o

que e le que r dize r, e não há nada de e stranho nisso; mas e se o cão

re solve sse rir? E se e le , quando você e ntrasse no

e xpre ssasse uma ale g ria le g ítima, com o rabo ou

ve ndo você , mas e stourasse e m pé rolas de riso – de nte s

arre g anhados – , sacudindo-se nos lados e e xibindo todos os sinais

costume iros de dive rsão e xtre ma? Se u se ntime nto se ria e ntão de

horror, dando a você vontade de afastar-se , como se ali uma voz

humana tive sse falado pe la boca do bicho. També m não pode mos

imag inar que se re s num e stado supe rior ao nosso riam; o riso pare ce pe rte nce r e sse ncial e e xclusivame nte aos home ns e às mulhe re s. O riso é a e xpre ssão do e spírito cômico que e xiste de ntro de nós, e o

e spírito

de svios

súbito e e spontâne o

pode mos

analisar a impre ssão que o e spírito cômico re g istra – , se m

constataríamos que o que é supe rficialme nte cômico é

fundame ntalme nte trág ico e , e nquanto houve sse nos lábios o

sorriso, e m nossos olhos have ria ág ua. Isso – as palavras são de

B unyan [1] – já foi ace ito como de finição de humor; poré m o riso da

comé dia não traz o pe so

e mbora sua função se ja re lativame nte mode sta se comparada à do

ve rdade iro humor, o valor do riso na vida e na arte não pode se r

supe re stimado. O humor é

de e scalar o pico de onde a totalidade da vida pode se r conte mplada como num panorama; mas a comé dia, que anda pe las e stradas,

re fle te o trivial e acide ntal pe culiaridade s de todos os

e spe lhinho. Mais do que qualque r outra coisa, o riso pre se rva nosso se nso de proporção; le mbra-nos se mpre que somos ape nas humanos, que não há home m que se ja um he rói comple to ou

inte irame nte coisas fora de

Fe lizme nte os cãe s não pode m rir, porque e le s me smos se dariam

conta, se pude sse m, das te rríve is limitaçõe s de se r um cão. Home ns

e mulhe re s e stão

te ndo re ce bido

ag raciados

pe rde r e sse pre cioso privilé g io, ou

pe ito o e xte rnamos, por uma massa de conhe cime nto pe sado

indig e rido.

quarto, não

a líng ua, por e star

cômico se inte re ssa pe las e squisitice s e e xce ntricidade s e do padrão re conhe cido. Se u come ntário é fe ito no riso

que ve m, mal sabe mos nós por quê , e não

dize r quando. Se tivé sse mos te mpo para pe nsar – para

dúvida

das lág rimas. Ao me smo te mpo, muito

das alturas; só as me nte s raras são capaze s

– os e rros de sculpáve is e as que passam por se u re luze nte

um vilão. Tão log o nos e sque ce mos de rir, ve mos

proporção e pe rde mos nosso

se nso de re alidade .

na de vida altura, na e scala da civilização, para que ,

o

o

pode r de conhe ce r as dom de rir de las. Mas

próprias falhas, fosse m e stamos ame açados de

de e smag á-lo quando fora do

e

com

Para se r capaz de rir de alg ué m

você te m, ante s de tudo, de se r

capaz de o ve r como e le é . Toda a capa de rique za e posição e sabe r

que uma pe ssoa possui, na me dida e m que é uma acumulação

supe rficial, não de ve que ope ra ao vivo. O

ce rte iro que os adultos para conhe ce r os home ns pe lo que e le s são é

um lug ar-comum, e acre dito

e xararam sobre o caráte r não se rá re vog ado no dia do Juízo Final. As

mulhe re s e as crianças, e ntão, são os principais ministros do e spírito cômico, porque ne m se us olhos foram toldados pe la e rudição ne m se u cé re bro obstruído pe las te orias dos livros, e assim home ns e coisas pre se rvam ainda os forte s contornos orig inais. Todas as

e xcre scê ncias horre ndas que invadiram nossa vida mode rna, as

pompas e conve nçõe s e sole nidade s maçante s, nada te me m tanto

quanto o brilho de um riso que , como o re lâmpag o, as faz tre me r e

de ixa os ossos e xpostos. É porque caracte rística que e las são te midas

conscie nte s de afe taçõe s e irre alidade s; e é provave lme nte pe la me sma razão que as mulhe re s são vistas com tal de sfavor nas

e mbotar a lâmina afiada do e spírito cômico, fato de as crianças te re m um pode r mais

que o ve re dicto que as mulhe re s

o

riso das crianças te m e ssa

por pe ssoas que e stão

profissõe s libe rais. O pe rig o é que e las possam rir, como

a criança

e

m Hans Ande rse n que disse que o re i e stava nu, quando

os mais

ve lhos adoravam a e splê ndida indume ntária que não e xistia. Na arte ,

como na vida, todos

proporção, e a te ndê ncia de ambas é se r e xag e radame nte sé ria.

Nossos g rande s e scritore s de sabrocham e m púrpura e prog ride m por frase s maje stosas; nossos e scritore s me nore s multiplicam se us adje tivos e re g alam-se no se ntime ntalismo que , num níve l mais baixo, produz o anúncio se nsacionalista e o me lodrama. Vamos a

e nte rros e à cabe ce ira dos doe nte s com muito mais disposição do

que a casame ntos e fe stas, e não conse g uimos tirar da cabe ça a

cre nça de que há alg o virtuoso nas lág rimas e de que a roupa pre ta é

a que asse nta me lhor. Não há nada tão difícil como o riso, de fato,

mas ne nhuma caracte rística é mais valiosa. Ele é uma faca que ao me smo te mpo poda e instrui e dá sime tria e since ridade aos nossos atos e à palavra e scrita e falada.

os piore s trope ços surg e m de uma falta de

Publicado pe la prime ira ve z e m 16 ag o. 1905 no Guardian, jornal de

orie ntação ang locatólica no qual

Virg inia Woolf colaborou várias

[ 1 ] Alusão a ThePilgrim’s Progress (1678), de John B unyan (1628-88), livro no

[1] Alusão a ThePilgrim’s Progress (1678), de John B unyan (1628-88), livro no qual ocorre a frase “Soshesmiled, butwaterstoodinhereyes” [Ela assim sorriu, mas havia ág ua e m se us olhos]. [Todas as notas são do org anizador, e xce to quando ide ntificadas de outra forma.]

AS ME MÓRIAS DE SARAH BE RNHARDT

Q

uando uma atriz prome te

para se ntirmos um inte re sse incomum, que ag uça a fundo a

nos dar suas me mórias, há boas razõe s

curiosidade . Instrume nto de variadas paixõe s, e la vive diante de nós

e m muitas formas e e m muitas circunstâncias. Entre tanto, se

optarmos por tal le mbrança, se nta-se ainda e m conte mplação passiva, discre tame nte re colhida, numa atitude que nos cabe

acre ditar te r sig nificado cabal. Pode -se ale g ar que

contraste é que atribui se ntido às suas açõe s mais triviais, have ndo

nas mais g randiosas uma ponta adicional de mordacidade . Sabe mos també m que cada pape l que e la re pre se nta de posita uma

a pre se nça de sse

contribuição

pe que na e própria e m sua forma não vista, até que e sta

se comple te

e disting a das criaçõe s que faz, ao me smo te mpo

que

lhe s infunde vida. Ora, quando e la se de dica a mostrar-nos e m

que

tipo de mulhe r e sta se tornou, não de ve ríamos se ntir uma

e xce pcional g ratidão e

normalme nte comple xo? Talve z ne nhuma mulhe r de hoje

e stranhas, sobre si me sma e a vida, do que Sarah B e rnhardt. [1] É

ve rdade que e la, ao che g ar a e sse último ato

ce rtas conve nçõe s, pre ocupando-se de mais, de

e xpe ctativas, com as pose s que assume ante s de de ixar o pano se abrir; mas isso també m é caracte rístico e , pondo de lado as

me táforas, se u livro por ce rto de ve faze r o que ne nhum de se us

papé is fe z, mostrando-nos o que no palco

um inte re sse que é mais do que

pude sse nos dize r coisas mais

de re ve lação, faz uso de acordo com nossas

não pode se r e xibido. Champs, e m Ve rsaille s,

sua vida log o assumiu a forma de brilhante s e se paradas contas de

rosário que , e mbora se suce dam, não e stão

e ra de constituição tão inte nsa que me smo e ntão

quando pe la prime ira ve z e la tomou contato com

Como foi e ducada no conve nto G rands

be m inte rlig adas. Sarah

houve e xplosõe s, a dure za das coisas

do

mundo

e xte rior. Ao se ve r confrontada pe las pare de s tristonhas

do

conve nto, e xclamou: “Papa, papa! Eu não que ro ficar ne sta prisão.

É uma prisão, te nho ce rte za”. Poré m no me smo instante surg iu, de

vé u até a boca, “uma mulhe r baixinha e me io re chonchuda” que ,

de pois de lhe falar um pouco, notou que Sarah e stava tre me ndo

com alg um e stranho instinto, le vantou comple tame nte se u

um se g undo. “Eu e ntão vi o rosto mais doce e mais ale g re

e ,

vé u por que se

possa imag inar…

aque las pare de s, suas açõe s foram se mpre assim, arre batadas,

impulsivas. Se u cabe lo, por e xe mplo, cre sce u de mais, todo

e ncre spado, e a irmã que tinha de pe nte á-lo de manhã be m

puxou com força crue l. “Eu me

mãos, de nte s, cotove los, cabe ça, com todo o me u pobre corpinho, de

fato, bati a torto e a dire ito, ao

e as irmãs acorre ram, murmuraram suas

símbolos sag rados, mas mante ndo-se a distância, até que a irmã

re sponsáve l pe la disciplina re corre sse

lançasse um jato de ág ua be nta sobre o de mônio ativo de Sarah

B e rnhardt. Após toda e ssa e xibição e spiritual, foi a boa madre

supe riora, com se u instinto ce rte iro para causar e fe itos, que a conquistou por um sortilé g io não mais forte que “uma e xpre ssão de

pe na.” Entre tanto tais ace ssos de fúria e ram e m parte re sultante s da

e xtre ma frag ilidade de sua saúde . Mais sig nificativo é le r como e la formou para si uma re putação de “pe rsonalidade ” e ntre as companhe iras. Le vava se mpre , para onde ia, suas caixinhas che ias de

víboras, lag artixas

cortado, pois, para ve r se e stavam come ndo, e la costumava le vantar a tampa e de ixá-la cair, “ve rme lha de surpre sa” ante o atre vime nto

dos bichos

e smag ado.” Assim, e nquanto a irmã le cionava, e la alisava com os

de dos as parte s amputadas, imag inando se

have ria um modo de colá-

Na me sma hora me atire i nos braços de la.” Entre

ce do o os pé s,

jog ue i e m cima de la e , com

me smo te mpo que g ritava.” As alunas

pre ce s e brandiram se us

a

um sortilé g io a mais e

e g rilos. Em g e ral as lag artixas tinham o rabo

e m corre r para fora. “E plac – quase se mpre havia um rabo

las novame nte . De pois e la criou aranhas

e , se uma me nina se

cortasse , “‘Ve nha log o’, diria, ‘que te nho

te ia de aranha fre sca para

e nrolar no se u de do’”. Com paixõe s e afaze re s assim tão

já que com os livros nunca se de u be m, e la se abriu para a

imag inação. E claro e stá que toda e ssa inte nsidade de se ntime ntos se canalizou, no conve nto, para compor um be lo quadro dramático

e m que Sarah re pre se ntou

re nunciado ao mundo, ou a fre ira morta, jaze ndo sob a pe sada mortalha ne g ra e nquanto ve las que imavam e as irmãs e suas pupilas

choravam numa de le itosa ag onia. “Viste s, Se nhor me u De us”, re zava

e squisitos,

o principal pape l como a fre ira que havia

e

la, “como mamãe

chorou, se m que isso me afe tasse ”, porque

“e u

adorava a minha mãe , mas com um de se jo tocante e fe rvoroso

de

de ixá-la… de sacrificá-la por De us.” Contudo uma e scapada viole nta,

que

te rminou

numa doe nça g rave , acabou com a carre ira re lig iosa

que

prome tia tanto. Ela saiu do conve nto e , e mbora nutrisse ainda

uma ambição ape nas, tomar o vé u, foi de cidido de mane ira be m informal, num e xtraordinário conse lho familiar, mandá-la para o

Conse rvatoire . [2] Sua mãe , mulhe r charmosa e indole nte , com olhos miste riosos e uma doe nça do coração e paixão por música, de ne nhum modo uma asce ta, tinha o hábito de re unir pare nte s e conse lhe iros quando havia alg uma que stão familiar para re solve r. Ne ssa ocasião e stavam pre se nte s um notário, um padrinho, um tio, uma tia, uma g ove rnanta, um amig o do andar de cima e um se nhor muito distinto, o duque de Morny. Sarah tinha razõe s para odiar ou

amar a maioria de ssas pe ssoas – “e le tinha o cabe lo

como capim na cabe ça”, “e le me chamava de

ate ncioso… e ocupava um alto posto na Corte ”. Discutiram se não

ruivo plantado

ma fil”, “e le e ra g e ntil e

se ria me lhor, com os

100 mil francos que o pai lhe havia de ixado,

e

ncontrar um marido

para e la. Mas diante

disso e la se e nfure ce u e

g

ritou: “Vou me casar com o BonDieu… Eu vou se r fre ira, e pronto!”.

Ficou ve rme lha de raiva e e nfre ntou os

sussurrando, e nquanto sua mãe passava a falar numa “voz clara e arrastada como o som de uma cachoe irinha… ”. Finalme nte o duque de Morny, e nte diado, le vantou-se para sair. “Sabe o que a se nhora

de ve faze r com e ssa criança?”, disse e le . “De ve mandá-la para o Conse rvatoire .”

inimig os, que a re pre e ndiam

Tais palavras, como sabe mos, tive ram tre me ndas

conse quê ncias,

mas vale a pe na e xaminar toda a ce na, à parte de las, como um

e xe mplo

autobiog rafia a pre cisão e a vitalidade das animadas. Ne nhuma e moção que pude sse

g e sto se pe rdia a se us olhos e , me smo nada tive sse m a ve r com o assunto e m

valorizava e podia, se ne ce ssário, usá-los para e xplicar alg uma coisa. Em g e ral alg uma coisa muito banal, mas talve z por isso me smo

quase e spantosa no

e stava “trançando a franja do sofá”; Mme G ué rard e ntrou “se m

chapé u; usava uma roupa case ira de indienne, com um e stampado de

folhinhas marrons”. Mais

tarde , um pe que no drama é de scrito assim:

do sing ular tale nto que dá a tantas passag e ns de ssa

fotog rafias coloridas e se e xpre ssar e m ação ou

que incide nte s como e sse pauta, se u cé re bro os

e fe ito. Assim, a irmãzinha se ntada no assoalho

Me u padrinho de u de ombros, le vantou-se e saiu do camarote , bate ndo a porta atrás de si. Mamma, pe rde ndo toda a paciê ncia comig o, pôs-se a vistoriar o te atro com se u binóculo. Mlle de

B rabe nde r me passou o le nço, pois e u tinha de ixado não ousava abaixar para apanhá-lo.

o

me u cair e

Pode -se talve z tomar isso por um simple s e xe mplo do

que há de

natural no modo como uma atriz vê as coisas, ainda que e la só te nha

doze anos. Sua função é se r capaz de conce ntrar tudo o que se nte e m

alg um g e sto pe rce ptíve l aos olhos e

que passa pe la cabe ça dos outros por me io dos me smos sinais. A

nature za de se u tale nto e vide ncia-se

me mórias prog ride m, e a atriz amadure ce

vista. E quando a arte alhe ia das palavras é usada para e xpre ssar um

g ê nio dramático altame nte de se nvolvido, como

alg umas das impre ssõe s que e la causa são e stranhas

e nquanto outras se tornam, passando de sse limite , g rote scas e até

pe nosas. Ao voltar do e xame

aprovada, e la e nsaiou uma ce na para sua mãe . Ia e ntrar de cara triste e

aí, quando a mãe e xclamasse : “B e m que

“Passe i!”. Mas a fie l Mme G ué rard, ao contar no pátio a ve rdade ,

e strag ou a e nce nação. “De vo dize r que aque la boa mulhe r continuou

e nquanto vivia… a e strag ar me us planos… de modo que ante s de come çar uma história ou uma brincade ira e u costumava pe dir que

e la saísse da sala.” Não é raro nos e ncontrarmos na me sma situação de Mme G ué rard, se be m que dar uma de sculpa talve z nos se ja

possíve l. Há duas histórias, e m

que se rvirão

a fronte ira, tornando-se pe nosa ou

Mme G ué rard, de ve ríamos sair da sala també m? Após a ajuda que pre stou, para nosso e spanto, na g ue rra franco- prussiana, e la se ntiu ne ce ssidade de mudança e por conse g uinte foi

para a Ing late rra. [3] “Adoro montanhas ne m flore stas…

Ing late rra, e ncontrou horre ndos

infe rnal do mar”, com pe dras que se arrastavam por baixo e lá tinham

caído “e m e ras ig notas, só se

ine xplicáve l causa”. Houve també m uma g rande

Plog off, pe la qual e la re solve u de sce r, ape sar das

adve rtê ncias

pre sa num cinturão, no qual foi pre ciso faze r mais furos, pois sua

cintura “não passava na é poca de 4 3 ce ntíme tros”. Já e stava e scuro e

o mar bramia e havia um rumor confuso e contínuo, como se de

canhõe s e de açoite s e de g e midos dos ré probos. Por fim e la tocou chão com os pé s, na ponta de uma pe que na pe dra num turbilhão de ág ua, e , ame drontada, olhou ao re dor. Viu de súbito que e ra obse rvada por dois olhos e norme s; um pouco adiante , viu outro par de olhos. “Não via o corpo de sse s se re s… e che g ue i a pe nsar que já

re ce be r suas impre ssõe s do

cada ve z mais à me dida que as

e se fixa ne sse ponto de

aqui é o caso,

e brilhante s,

no Conse rvatoire , no qual havia sido

e u te disse ”, e la g ritaria:

me io a uma varie dade e stonte ante ,

para mostrar como é que Sarah B e rnhardt às ve ze s cruza

risíve l – ou se rá que nós, como

o mar e as planície s… mas não lig o para

e las

me e smag am, me sufocam.” Na

pre cipícios abe rtos para o “barulho

mante ndo e m e quilíbrio por alg uma

fe nda, o Enfe r du miste riosas

do g uia. Tomada a de cisão, baixaram-na por uma corda

o

pe rdia a razão.” De u e ntão um puxão com força na corda, se ndo içada

le ntame nte ; “os olhos també m subiam… e , e nquanto e u

le vantava no ar, por toda parte não via se não olhos – olhos que

e sticavam long os se nsore s para me alcançar… ‘São os olhos dos

afog ados’”, disse -lhe o g uia, be nze ndo-se . “Que não e ram olhos de

afog ados e u be m sabia… mas ouvi falar sobre o polvo.” Um cabe ça para e spe cificar ne sse

pe scador e de Sarah B e rnhardt; para os outros isso não inte re ssa. De pois, na me sma linha, sua “que rida g ove rnanta, Mlle de

B rabe nde r”, e stava morre ndo, e Sarah foi visitá-la.

foi só quando che g ue i ao hote l que cronista e scrupuloso te ria de que brar a drama os papé is orig inais do polvo, do

me

Ela havia sofrido tanto que pare cia outra pe ssoa. Estava e sticada na caminha branca, com uma touquinha branca que lhe cobria o

cabe lo e

se us olhos se m e xpre ssão. Some nte o big odinho, pavoroso,

ag itava-se e m constante s e spasmos. Alé m do mais, e stava tão

e stranhame nte alte rada que e u me pe rg untava o que

te ria causado

e ssa mudança. Che g ue i mais pe rto e , inclinando-me , be ije i-a com de licade za. Olhe i-a e ntão de um modo tão indag ador que e la

e nte nde u

re parar na me sa ao lado, sobre a qual aviste i, de ntro de um copo, todos os de nte s da minha ve lha e que rida amig a.

o narig ão re puxado pe la dor; a cor pare cia te r sumido de

por instinto. Fe z-me um sinal com os olhos para e u

Há uma caracte rística comum à maioria das histórias contadas: todas

são clarame nte produçõe s de

que e la acumule fatos sobre fatos e multiplique inde finidame nte

se us polvos para causar os e fe itos

ne nhuma influê ncia mística. Como alg ué m have ria de lidar com a

alma dos afog ados? Ela amolg a todas as vastas forças inconscie nte s

do mundo, a amplitude alg um ce nário propício

olhar tão pe ne trante e minucioso que

convicçõe s de artista quase não e ntre m ne ssas pág inas, é lícito supor

que alg o de sua inig ualada inte nsidade no

palco ve nha da capacidade

de uma visão ag uda e cé tica, que e la de monstra, no que se re fe re aos

um raciocínio muito lite ral. Por mais

que pre te nde , nunca irá invocar

do cé u, a ime nsidade do

mar, para obte r

à sua solitária fig ura. Eis aí a razão de sse

te m. Muito e mbora suas

papé is; Sarah não se

subme te

a ilusõe s. “Minha atuação

foi ruim, e u

e

stava de mau humor e fe ia.” Pare ce -nos, quando a isso

se dispõe , a

mais prática das mulhe re s, como uma ve nde dora de ave s que te m o que há de me lhor e só suportará se r e ng anada pe lo me smo cinismo

com o qual, se m dúvida, have ria de e ng anar a si me sma se o

quise sse . Pois

caso, com uma visão muito e xaltada

de sua e spé cie ; se por nature za e la a tive sse , pode ria constatar que

e ssa visão não se adaptaria facilme nte aos re cursos de sua arte , que

os re sultados a obte r por me io de la e ram ince rtos e

faze r qualque r sacrifício

ve r, se m dúvida o le itor pe rce be , quando já avançou bastante no

livro, que há ce rta limitação e dure za, o que talve z se possa atribuir

ao fato de todas as

be m tramadas que ape nas se rve m para iluminar o

dife re nte de para nós, e m

e m todas as suas pose s, se mpre e stá muito nítida, poré m às outras,

que vão cair fora do círculo, e stranhame nte

quando a bordo de um navio e la salvou uma se nhora que ia caindo na

e scada, a mulhe r murmurou, “numa voz que mal dava para ouvir:

‘Sou a viúva do pre side nte Lincoln’… Se nti pontadas de ag onia… o

compatíve l, pe lo me nos e m se u

um disce rnime nto tão claro não pare ce se r

que sua g lória é

que a própria arte lhe pe ça. Em se u modo de

ce nas viole ntas re sultare m de ce rtas e xplosõe s

rosto raro, tão

qualque r outro, da atriz. Num mundo que brilha assim

jatos be rrante s de luz ve rme lha e roxa, a fig ura ce ntral,

faltam core s. Assim,

marido de la tinha sido assassinado por um ator, e e ra uma atriz que a impe dia de ir juntar-se ao amado marido. Fui para minha cabine e lá

fique i por dois dias”. Enquanto isso, o

Lincoln?

que e staria se ntindo a se nhora

Tal multiplicação de toscos obje tos visíve is sobre os nossos

se ntidos fatig a-os conside rave lme nte

que pade ce mos – o triunfo final da “pe rsonalidade ”– é e xaustão e não té dio. Até me smo as e stre las brilham, quando e la abre sua cortina à noite , não sobre a te rra e o mar, mas sobre “a nova e ra” que

o

quando se acaba o livro, mas o

se g undo volume nos re ve lará. [4 ]

Com nosso olhar ofuscado por e sse modo infle xíve l de ve r,

somos instados

dúvida e m vão. Pois quanto mais nos domina a obse ssão por um

livro, me nos

Após choque s assim, você se move aos arre pios como um animal às

tontas cuja cabe ça, ating ida por uma pe dra que as formas de raios forte s. É possíve l, e nquanto

se ntir como sua carne se afunda, por baixo, e m ondulante s vapore s

a dize r alg uma coisa sobre a re ve lação – e se m

ling uag e m articulada pre cisamos usar a se u re spe ito.

cai, lampe ja e m todas você lê o volume ,

carme sins, de um pe rfume raro, que sobe m se m

de mora para

e

nvolvê -lo por comple to. De pois, se parando-se

os vapore s, e ntre

e

le s se abre m claros, ainda com traços carme sins, nos quais alg um

brilhante s se

re ssoam altas voze s france sas; a pronúncia é

vívido conflito e ntre pig me us

prolong a; nas nuve ns pe rfe ita, mas e las são

tão e stranhame nte afe tadas e tão monótonas no tom que é difícil você re conhe cê -las como voze s humanas. Há uma constante

re ve rbe ração

onde afinal o sonho acaba e onde a vida come ça? No fim do capítulo,

quando a poltrona flutuante ate rrissa com uma batida le ve que o

de spe rta e sólido que

e xpe ctante não

na rasa corre nte de inte re sse que é tudo o que re sta após o pródig o dispê ndio que você fe z? Sim – é pre ciso jantar e dormir e re g istrar a

própria vida pe lo mostrador do

ape nas pe lo

obse rvado pe lo olho unive rsal de sol e lua que

imparcial, dize m, por todos

falsidade ? Cada um de nós, na ve rdade , não é

inume ráve is que nos cabe

de ixando que uma simple s fag ulha se arre fe ça no que há e m nós de

mais distante ? Sarah B e rnhardt pe lo

conce ntração de sse tipo, fará brilhar para muitas g e raçõe s uma me nsag e m sinistra e e nig mática; mas me smo assim e la have rá de brilhar, e nquanto o re sto de nós – se rá a profe cia arrog ante ? – jaz dissipado nas inundaçõe s.

de aplausos, que incita à ação todos os ne rvos. Mas

as nuve ns volte iam e m torno de você e some m, o quarto bruscame nte se apre se nta com se u mobiliário

pare ce g rande e triste de mais para voltar a subme rg ir

re lóg io, à me ia-luz, acompanhado

irre le vante barulho de uma carroça ou coche e

ve la de modo

nós. Mas isso não é uma monume ntal

o ce ntro de

raios, que assim cae m some nte sobre uma fig ura, e o

não é re ace ndê -los pronta e comple tame nte , nunca

me nos, e m virtude de alg uma

Publicado pe la prime ira ve z no núme ro de

me nsal Cornhill Magazine, como re se nha do livro MyDoubleLife: Memoirs of

SarahBernhardt (1907), do qual

fe v. 1908 da re vista

provê m as citaçõe s e ntre aspas.

[1] A atriz france sa, nascida e m Paris e m 184 4 , aí morre u e m 1923. Re ve lou-se sobre tudo na Comé die -Française , da qual se de slig ou

e m 1880 para iniciar long a sé rie

[2] Conse rvatoire National Supé rie ur de

e scola de formação

[3] Sarah B e rnhardt ajudou a cuidar dos fe ridos durante o ce rco de Paris, na g ue rra franco-prussiana de 1870-71.

[4 ] Um se g undo volume das me mórias de Sarah B e rnhardt não

de turnê s pe lo mundo.

Musique e t de Danse ,

de artistas fundada e m Paris e m 1795.

che g ou a se r publicado.

LOUISE

DE LA

VALLIÈ RE

L ouise de La Valliè re de sce ndia de uma família antig a, e mbora não da alta nobre za, e com honrosas tradiçõe s de se rviço militar,

se g uido de g e ração e m g e ração por pais e filhos. [1] Se u pai

se disting uiu nas muitas campanhas de que participou, mas os

e sforços que fe z não lhe trouxe ram rique za, e e le se afastou da

carre ira, após o nascime nto da filha, para le var vida de faze nde iro mode sto numa proprie dade localizada e m Re ug ny, pe rto de Tours. Foi de ssa pe que na proprie dade que a família tirou se u nome , La

Valliè re , pois a casa se

dois vale s, um me nor, de um lado, e do outro o g rande vale do

B re nne . Da casa antig a não re stavam

construir no inte rior de ssa concha “uncharmantpavillon”, de corado com toda a me stria da Re nasce nça, a família La Valliè re tinha re corrido a

um arquite to que “sereposantdes grands travauxdeChambordoudeBlois”. [2] Colina abaixo, as jane las se abriam para as campinas planas por onde

se não poucas pare de s, mas para

e rg uia numa suave e le vação, dando vista para

me smo

o

rio corria e ntre file iras

de

altos

choupos. Ao re dor havia ame nas

e

ncostas cobe rtas de vinhe dos e

bosque s – um lug ar re alme nte

e ncantador, onde uma me nina pode ria cre sce r fe liz, conscie nte da própria be le za. E havia també m pinturas, nos quartos, acima das

lare iras, com de licadas

g ramado, por e xe mplo, e Amor puxando se u arco, e scondido atrás de uma árvore – que e ram capaze s de lhe e ncantar a visão; e com

ce rte za se u

pe dra no alto: “AdPrincipemutadIgnemAmorindissolutus”. “AuPrince, commeau

feudel’autel, amourindissoluble.” [3] Infe lizme nte o pai de Louise morre u quando e la tinha ape nas de z anos, de ixando-a se m ning ué m que lhe

e nsinasse latim, no futuro, ou visse se suas traduçõe s e stavam

corre tas. Mal passado um ano da morte

o início, como mãe , mostrou-se

marquê s de Saint-Re my, prime iro maîtred’hôtel no sé quito do duque

de Orlé ans. Para Louise brincar, havia trê s jove ns prince sas, també m pouco controladas, como e la, pe la mãe . As me ninas liam romance s e

davam-se a ruidosos folg ue dos ao

imag inando qual de las viria a se r rainha da França. Quando o pai de ssas prince sinhas morre u, a viúva se transfe riu para Paris; os Saint- Re my e Louise faziam parte de sua comitiva, que se instalou no

ce nas ale g óricas – um g rupo de mulhe re s no

pai have ria de traduzir para e la a le g e nda talhada numa

do marido, a mãe , que de sde

indife re nte , casou-se com o

re dor do caste lo de B lois,

palácio de Luxe mbourg , onde e las dançaram e sonharam com animação maior que nunca. O re i, na ve rdade , já e stava casado, mas

havia príncipe s, primos de las, que as Made moise lle , uma me ia-irmã, cujo

todos para dançar. Eram e xtre mame nte jove ns e ale g re s; o

re i não tinha se não 22 anos, e rapaze s e moças com 16 ou

podiam se casar, tornando-se de ime diato pe ssoas importante s. A consciê ncia de que e ssa pe ça e ra re pre se ntada a alg uns passos de

outro palco supre mo onde o re i atuava e m face da Europa confe ria a tudo aquilo uma trág ica e spé cie de e sple ndor. Uma ou duas se nhoras já haviam surg ido e m ple na luz e voltado a de sapare ce r se m aplausos. O fato de cisivo para o de stino de Louise ocorre u quando

le vavam para caçar nas matas, e

conjunto de violinos punha

próprio 17 anos já

e

la e stava com

ape nas de ze sse is anos, na primave ra de

1661. Ne sse

ano o irmão do

re i se casou com

a prince sa He nrique ta, filha de

Carlos i da Ing late rra, e re ce be u

be ns do

ao me smo te mpo um quinhão dos

finado duque de Orlé ans. Por conse g uinte , a duque sa viúva,

a

cujo se rviço os Saint-Re my pe rmane ciam, viu-se

privada de

g

rande parte do pode r que

tive ra, e o

mostrou

ince rto. Ao surg ir a crise , ao

futuro de se us de pe nde nte s se que pare ce , Louise já havia

atraído a ate nção

ansiosa para brilhar na corte , mas de sprovida de juve ntude e be le za próprias que a re come ndasse m. Com se u olhar compe te nte , e la viu

que Louise ate nde ria às suas ne ce ssidade s e sug e riu dado um lug ar de dama de honra no sé quito de Mme

que e stava e ntão se ndo formado.

Mme He nrique ta també m e ra uma g arota de de ze sse is anos, mas, pe la mane ira de contar os anos na corte , uma mulhe r madura, no aug e de sua be le za. Passara de fato por surpre e nde nte transformação; tinha sido mag rinha e insig nificante e m criança; o próprio re i Luís a

conside rara “les os ducimetièredes Innocents”; [4 ] no e ntanto a primave ra de

1661 a re ve lou subitame nte uma jove m fora do comum, frág il e

che ia de caprichos talve z, mas de “espritvif, délicat, enjoué”. [5] Louise e sua família tinham boas razõe s para se ale g rar com a indicação fe ita, que e ra de valor substancial; a dama de honra de tal se nhora e staria nas mais altas posiçõe s da corte .

ve rão de 1661 se ria le mbrado, nos anos se g uinte s, por se u

e sple ndor. Junho, ape sar de alg uns

do que maio, e a corte e stava e m Fontaine ble au. Para imag inar o que

te mporais, foi até mais ag radáve l

de uma mulhe r influe nte , Mme de Choisy, se mpre

que lhe fosse He nrique ta,

O

se passava quando prome te ndo horas

noite que nte e ntre as

o sol nascia, na manhã se m nuve ns do ve rão,

de brilho inte nso ante s de se pôr, e de pois uma

árvore s, te mos de le var e m conta o vig or não

e xpe rime ntado de

de ixados livre s de

bom te mpo. Nas manhãs e le s saíam a cavalo, para se banhar, e voltavam com a fre sca da tarde ; te rminado o jantar, pe rambulavam

pe los bosque s, de início ao som de violinos, que diminuía ao long e

à me dida que

pe rde ndo até o

e mpolg ada e m todos e sse s praze re s e ra Mme He nrique ta. Pe rce be u-

que o re i mais g ostava de de sfrutá-los,

e le que não poupava e sforços

distraí-la. Entre outros

archote s, dançados no lombo de cavalos. De corrido um mê s, os

prime iros sinais se ace ntuaram; todo mundo andava dize ndo que

e le s tinham um

passions”, [6] e a e sposa e a mãe do re i notaram isso. Estava claro que o amor se cre to só pode ria continuar se

e ncontrasse m um disfarce para e ncobri-lo. O plano arquite tado e ra

simple s, e ne nhum dos dois pôde ve r, na hora, onde e staria o pe rig o fatal. Tanto Mme He nrique ta quanto a rainha tinham muitas damas

de honra para te ntar os g ostos do re i. Se e ste

de las, o ciúme se ria de sviado, e e le

paz. O plano foi adotado. Os amig os de uma das moças a mandaram

para Paris; outra log o de sconfiou daquilo; re stava a te rce ira, Louise

de La Valliè re , que acre ditar. Mais não

e uma ambição fe roz. Ne m os próprios corte sãos ne m obse rvadore s

de sua é poca jamais lhe atribuíram muita e spe rte za ou a acusaram de

se r ambiciosa. São se mpre le ve s e honrosos os e píte tos

aplicaram; e la e ra “douce” e “naïve”, “sincère” e “sage”. [7] Ne m se que r e ra

bonita; mas imag e m de

pode ria namorar sua cunhada e m

home ns de vinte e mulhe re s de de zoito anos, toda re pre ssão e inspirados pe lo amor e pe lo

os casais avançavam cada ve z mais pe lo e scuro, lá se

dia clare ar. Que m se mostrava mais ale g re e

para e ncontrar novas mane iras de

se també m que e ra a se u lado

e spe táculos, houve balé s noturnos, à luz de

pe lo outro “cetagrémentquiprécèded’ordinaireles grandes

de clarasse amor a uma

não tinha amig os e foi ing ê nua o bastante para pode ria faze r, me smo se tive sse profunda astúcia

que lhe

dos re tratos e de scriçõe s que lhe uma jove m e sbe lta, cordata, com

fize ram ve m-nos a a cabe ça che ia de

cachos louros; os olhos e ram azuis e tinham e xpre ssão de g rande doçura; um olhar ínte g ro, alé m disso, simple s e se m pre te nsõe s. O

que mais a disting uia, todos re pe te m, e ra o charme –

ante s de sua juve ntude findar trazia e m si

Imag ina-se que e la fosse muito calada; que nada disse sse de

inte lig e nte , a não se r por acaso; mas sua voz, nos

e ra de uma “douceurinexprimable”. [8]

O re i e stava acostumado a um tipo dife re nte de amor; tinha sido

adulado por mulhe re s ambiciosas, que ofe re ciam um suntuoso re torno pe los e sple ndore s que e le podia dar, e nunca de ixou de

um charme que

uma ponta de me lancolia.

lug are s-comuns,

e star conscie nte da barg anha. Encontrar-se sob o domínio de uma

afe ição inte irame nte

nova. No início pode te r sido até um pouco e mbaraçoso. Quando

Louise confe ssou

o re i se cansou da farsa, mudou de opinião e de scobriu que e stava

apaixonado. O namoro disfarce s; mas

claras. Mme He nrique ta tinha ido para outras parag e ns, e o

re lacioname nto

Quando o re i se aproximava, ditava a e tique ta da corte , todos os

outros pre te nde nte s de viam se

se mpre que

casa, vindos de alg uma cavalg ada juntos nos bosque s e de horas de

conve rsa simple s, para e ncontrar se us votos

lisonjas da corte , que e spe rava por e le s para que re pre se ntasse m

se us papé is como Pastor e Pastora num dos

Louise pode ria dize r, olhando para trás, que

fe liz. A simplicidade

por toda a vida uma e stranha inocê ncia, como se e la e stive sse

conscie nte de que se u praze r no

poucos e la de spe rtou para o simple s de votame nto dado

simple s e não calculista e ra uma e xpe riê ncia

que o amava, atiçada por um falso e ncorajame nto,

propriame nte come çou com cuidado, sob

log o, na ve rdade e m duas se manas, o amor ve io às

e ntre Luís e La Valliè re foi confe ssado.

afastar, e assim e le s tinham solidão

que riam; mas talve z fosse ag radáve l voltar tarde para

confirmados pe las

balé s de B e nse rade . [9] tinha passado um mê s

que a fe z se r um jog ue te pe rmitiu-lhe mante r

fundo havia sido puro. Mas aos

fato de que se u e stado não e ra de

e re ce bido, mas e nvolvia

re lacioname ntos com

outras pe ssoas que

não e stavam fe lize s e isso

se re fle tia durame nte

sobre sua paixão. A rainha e a rainha-mãe ,

mante ndo-se apre e nsão do

Louise , se g uido por uma le g ião de corte sãos, as duas pe rmane ce ram

de ntro

cada ve z mais atre vidos, um be lo dia ve nce ram o obstáculo mais

de licado de todos e se ntaram-se para jog ar cartas nos apose ntos

particulare s da rainha-mãe . Louise , quando

misturou num g rande crime todos

uma vida inte ira de pe nitê ncia. Se

e le s, pode ria te r re conhe cido que foi ne ssa e stação, no outono de

1664 , que e la pe cou com a maior consciê ncia do pe cado e na maior confusão de se ntime ntos. Sua be le za se achava no aug e ; corte sãos

que ante s a de spre zavam, por não te r be rço lhe ag ora obse quiosos. Me smo assim, com

jane las. Os amante s, contudo,

unidas numa solidão virtuosa, conse g uiram ig norar a re i. Uma tarde , e nquanto e le andava pe lo jardim com

de casa, de sviando o olhar das

passou a se r de vota,

os se us pe cados, pre cisando de houve sse fe ito distinção e ntre

ne m inte lig ê ncia, e ram- muito pouco e la contava

mome nto de e sple ndor, e m g rande parte foi mome nto fug az que lhe cabia sabore ar por

comple to, e mbora me tade de sua ale g ria fosse dor. Sua fe licidade

e , se e xultou e m se u por sabe r que e ra um

podia se r pe rturbada quando e la visse se u rosto cada ve z mais mag ro no e spe lho. As pe ssoas come çaram a notar que e la não suportava luz solar e m e xce sso e log o obse rvaram que , afinal, tinha “peud’esprit”.

[10] Mas, ape sar de e nte nde r o que que riam

sofre r amarg ame nte , e la te ve me sma e e m Luís. Re spe itou

o amor e ntre e le s. “J’aiperdupresquetoutce

quipeutplaire”, disse e la ao re i. “Cependant, nevous trompezpas, vous netrouverez

jamais ailleurs cequevous trouvezenmoi.” [11] B e las palavras! Ao pronunciá-

las, e la pare ce voltar mais uma ve z à inocê ncia dos de tudo. O re i prote stou, mas os e ncantos de Mme

e ram irre sistíve is. [12]

dize r com isso, e de de confiança e m si

um mome nto

prime iros me se s de Monte span

Como se de sconfiasse da própria fe licidade , Louise se mpre

contara com um re curso que

e la mantinha e m se g re do; quando o re i

a

abandonasse , tomaria o vé u. Mas o re i a conside rou útil para

e

ncobrir e sse novo romance e , te ndo e la e ntão 25 anos, pare ce u

se r

me lhor que pe rmane ce sse na corte e tornasse pública sua conve rsão, para e dificar o mundo. Embora e la te ntasse se satisfaze r com g otas de filosofia e um ve rniz de cultura, o que le u se rviu tão só para

de siludi-la e conve ncê -la de que

e ncontrada. Na corte , confe ssou a uma amig a, sofria “commeunedamnée”.

[13]

ape nas na re lig ião a paz se ria

Não foi se não e m 1674

que o re i lhe pe rmitiu e ntrar para a orde m tê -la subme tido à mais re quintada das

de saco e ra a própria

das carme litas, de pois de

puniçõe s. Em comparação, uma vida e m que a me nte se dobrava a

tare fas se rvis e o corpo se aque cia e m panos

paz. Ela vive u até se transformar e m uma ve lha re umática de 65 anos cujas paixõe s se aplainaram, à e xce ção de uma “me mória importuna”, como a e xpre ssão de um rosto de mármore é alisada por

be ijos pie dosos; e tal foi sua pe nitê ncia que os

sua morte , tomaram o corpo por divino a ponto de abe nçoar as ofe re ndas que lhe faziam. Na é poca da Re volução, os ossos de Louise foram e spalhados com os ossos re ais. Ao se ntime nto

ag radaria dize r que suas cinzas se misturaram.

pobre s, de pois de

Publicado pe la prime ira ve z no núme ro de out. 1908 da Cornhill

Magazine e base ado e m LouisedeLa Vallièreetla JeunessedeLouis XIV, de

Jule s Aug uste

do qual e m 1908 saiu uma tradução ing le sa. Foi o livro usado como fonte das citaçõe s e ntre aspas.

Lair, livro de 1881, re publicado e m Paris e m 1907 e

[ 1 ] Françoise Louise de La B aume Le B lanc, duque sa de

[1] Françoise Louise de La B aume Le B lanc, duque sa de La Valliè re

(164 4 -1710), dama de honra da prince sa He nrique ta da Ing late rra,

cunhada de Luís XIV, tornou-se amante

do re i e m 1661. De pois, de

1674

até a morte , vive u re colhida num

conve nto carme lita.

[2]

apoiando-se nas g rande s obras [dos caste los] de Chambord ou

de B lois”.

[3] “Ao príncipe , como ao fog o do altar, amor indissolúve l.”

[4 ] “os

[5] “e spírito vivo, de licado, jovial”.

[6] “e sse

[7] “doce ”, “ing ê nua”, “since ra”, “se nsata”.

[8] “doçura ine xprimíve l”.

[9] Isaac de

[10] “pouca inte lig ê ncia”.

[11] “Eu pe rdi quase tudo o que pode ag radar. No e ntanto não se

e ng ane , o se nhor nunca e ncontrará alhure s o

[12] Françoise Athe naïs, marque sa de Monte span (164 0-1707), a

nova amante de Luís XIV, com que m te ve oito filhos. Prote tora de

artistas e e scritore s, foi por sua ve z substituída, como por Mme de Mainte non.

[13] “como uma danada”.

ossos do ce mité rio dos Inoce nte s”.

ag rado que normalme nte pre ce de as g rande s paixõe s”.

B e nse rade (1613-91), poe ta francê s, autor de vários balé s.

que e ncontra e m mim.”

favorita do re i,

O DIÁRIO DE LADY E LIZABE TH HOLLAND

D ois be los volume s, e m tipos g rande s, com marg e ns larg as, re tratos, notas e introdução, dão-nos, após um lapso de quase um sé culo, o diário mantido por Lady Holland e ntre os anos de 1791 e 1811. Ao

me smo

te mpo, Lloyd Sande rs publica TheHollandHouseCircle, g rosso

volume

pródig o e m capítulos. Cada capítulo de scre ve um dife re nte

g rupo de home ns e mulhe re s, das

vocaçõe s, e e m g e ral há um nome

Mas o maior inte re sse de sse s g rupos e stá no fato

e spalhado outrora pe las g rande s salas de e star da Holland House , te ndo sido as pe ssoas que os compunham re tiradas do tumulto de

Londre s e atraídas ao local

Tanto te mpo se passou, de fato, que para nós já soa e stranho que e ssa

se nhora de porte impe rioso, se ntada com os pé s à mostra no

de Le slie , [1] como se os súditos se curvasse m diante de se u trono,

subisse de ve z e m quando ao se u quarto e lá pe g asse uma folha de

pape l para e scre ve r o que pe nsava da ce na. Continuame nte nos

contam como e la me nospre zava as pe ssoas, como de ixava cair se u le que , como se punha à cabe ce ira da me sa para ouvir a mais

inte lig e nte conve rsa da Ing late rra até se ntir-se

e xclamar: “Che g a disso, Macaulay!”. [2] Mas é difícil le mbrar que e la

passou por muito mais e xpe riê ncias do que

partilham, e assim, quando se ntada à sua me sa, be m pode ria e star pe nsando e m outras ce nas e admirando-se das circunstâncias que a

le varam àque la posição. Até

Ilche ste r, havia ape nas mate rial para um livro como o de Lloyd

Sande rs; e nós, sabe ndo ape nas outros, tínhamos de imag inar o

home m rico da Jamaica, Richard Vassall, que a casou, contando

some nte quinze anos de idade , com

Abbe y. Ela me sma nos re lata que se

sabe r onde lhe

se m a ajuda de

é que a adoravam de mais

com e ssa afe ição que , quando

bonita e de e spírito altivo, os pais pe nsasse m que e la me re cia casar-

pe lo pode r de Lady Holland e se u marido.

mais dive rsas posiçõe s e

importante para lhe dar re alce .

de

e le s te re m se

re trato

e nte diada e

as mulhe re s e m g e ral

a publicação de se u diário por Lord

da impre ssão que e la causara nos que te ria se ntido. Ela e ra filha de um

Sir G odfre y We bste r, de B attle

tornara re be lde , colhe ndo se u

fosse possíve l, e que che g ava às suas conclusõe s

ning ué m. Não por falta de ate nção de se us pais; e le s

para pode r domá-la; e e ra de todo coe re nte

a viram transformada numa g arota

se . Um barone te quase 23 anos mais ve lho, dono de uma mansão no

campo, me mbro do Parlame nto e “ime nsame nte popular na re g ião,

talve z e m parte

apare cido sobre tudo à luz de uma carre ira brilhante para a filha; o

amor não e ntraria e m que stão. Na é poca de se u casame nto, Sir

G odfre y vivia numa casa pe que na pe rto

e ram alug adas por sua tia. Pode -se da jove m Lady We bste r com base

mandava pe rg untar pe las manhãs na abadia: “Se a bruxa ve lha já morre u”. Na alde ola de Susse x, os dias e ram tão monótonos que Elizabe th, para se distrair, pe rambulava pe la casa-g rande , que já de sabava e m ruínas, chocalhando corre nte s como uma criança le vada

para assustar a tia. O marido se ocupava dos assuntos locais e ,

e mbora tive sse alg uns dos g ostos simple s de um proprie tário rural, não e ra um marido que uma mulhe r astuta e jove m pude sse ig norar;

alé m

jog o e caía e m crise s de de pre ssão. Com base e m todas e ssas

circunstâncias, Lady We bste r conce be u tal imag e m da vida e m áre as

rurais que , mais tarde , se mpre tre mia só

ao sair de outra casa no campo, que se se ntia como se tive sse

por sua libe ralidade e e xtravag ância”, de ve -lhe s te r

da abadia, cujas instalaçõe s

pe rce be r alg o do te mpe rame nto

no que e la costume irame nte

de se r rude , e le tinha um te mpe rame nto viole nto; e ra dado ao

de pe nsar nisso e e scre ve u,

“e

scapado de

um infortúnio”. Mas ne m me smo e m me nina e ra de

se

u ag rado ag ue ntar se , prote stando, houve sse alg uma coisa a se r

fe

ita. Assim, tanto pe rturbou o marido com sua inquie tação que e le

concordou e m viajar. Não se pode ne g ar que fe z até ce rto e sforço

para e nte nde r o ponto de vista de la e

para te ntar satisfazê -la, pois viajar no

o se u re canto de Susse x de ve te r sido uma autê ntica provação para

aque le ilustre se nhor. Lady We bste r, e m todo

que ria, e é prováve l que te nha fe ito

ag

a

We bste r come çou a e scre ve r se u diário. Um viajante ing lê s do

sé culo XVIII não aprove itava de todo a e xpe riê ncia se não

e scre ve sse sobre o que tinha visto e pe nsado; se mpre sobrava

alg uma coisa, no fim do dia, que tinha de assim se r re solvida. Foi

com um impulso de sse tipo

que tinha afe ição suficie nte te mpo das dilig ê ncias e de ixar

caso, conse g uiu o

ao marido me nos

que

para

rade cime ntos

do que e le

me re cia pe lo sacrifício. Embarcaram

que , aos

vinte anos de idade , Lady

Itália e m 1791, e foi e ntão

que Lady We bste r iniciou o diário,

e

scrito para ag radar à sua própria visão quando e la o le sse mais tarde

e

m Susse x; para g arantir-lhe que e la cumpria o se u de ve r com todas

as faculdade s de que dispunha; e que e stava circulando pe lo mundo na condição de dama ing le sa se nsata e jove m. Imag ina-se , no

e ntanto, que e la nunca se se ntia e m bons te rmos com e ssa ve rsão de

si me sma, e que virava cada ve z mais as pág inas, à procura de uma

de suas re fle xõe s.

Mas se u caso dife re um pouco do que é mais comum. De sde a adole scê ncia Lady We bste r pare ce te r tido uma caracte rística que

salvou se u diário da viole nta sina dos diários e poupou a e scritora de

rubore s; e la podia se r tão impe ssoal

tão sag az como um político. Até que ponto se importava de fato e m

sabe r que o linho é cultivado pe los

e le s me smos tê m de consumir se u

nave g áve is”, ning ué m pode obse rvar o fato e prosse g uiu

moralizando, que “talve z e le s se jam mais fe lize s se m facilidade s de

comunicação”, pois o comé rcio e ng e ndra a luxúria, a luxúria le va ao amor pe los g anhos e assim “a simplicidade de modos” é de struída, o

que a moralista se ntiu

silê ncios atroze s de ve m te r ocorrido

jove m dama e ra incansáve l e de sde nhava francame nte do marido, porque , não te ndo te orias, e le ne m me smo e ntusiasmo tinha. Quando che g aram a Roma, a situação ficou ainda pior. Lady

We bste r come çava a se dar conta de se r alg ué m mulhe r ainda jove m, e todas as obras-primas do

para comprovar e sse fato. De ime diato e la se pôs e m se u “curso de

virtu”, pe rcorre u g ale rias, e spichou o pe scoço para trás, olhou com

ate nção

e m se u diário frase s canhe stras de admiração. Quando o marido a

acompanhava, ora a apre ssava muito, e e la assim não podia ve r os

quadros, ora se irritava tanto que e la ne m conse g uia disting ui-los. As

data ou um fato, e log o se dissociava inte irame nte

como um g aroto de de z anos

e

habitante s de Ke mpte n, e que

produto, “pois não há rios

dize r; mas e la achou que valia a pe na com toda a naturalidade para e scre ve r,

se r uma pe na. Que conve rsas e stranhas e que

no inte rior da carruag e m! A

sing ular, por se r mundo lá e stavam

para onde o “ve lho Morrison” a mandava olhar e e scre ve u

pinturas, claro Em Roma se

e stá, lançavam uma luz de sastrosa sobre Sir G odfre y. e ncontravam també m simpáticas se nhoras casadas que

g

arantiram a Elizabe th que se u marido e ra um monstro e a

e

stimularam a ve r a si me sma sob uma luz trág ica. Ela, soluçante e

e nfraque cida, re fle tiu que por pe nsar de sse modo se

dúvida de que e ra infe liz, fosse qual fosse a causa que para isso se

aponte ; pois de ve mos nos

que se de bruça na jane la à noite , re spira fundo, e nxe rg a brilhos na

ág ua e se nte

e scre ve r, alg uns dias de pois, que e la ag ora é capaz de rir das ame aças do marido, que ante s a ate rrorizavam. É natural te me r as próprias

falhas e se ntir pe culiar de sag rado pe las

pois as falhas nos tornam, a nossos próprios olhos, ig nóbe is; e o traço

os sofrime ntos humanos tê m de te r fim, e de smanchou e m lamúrias. Mas não há

apie dar de qualque r mulhe r de 22 anos

uma e stranha ag itação no e spírito, e mbora te nha de

circunstâncias que as criam,

de amarg ura que notamos no diário de Lady We bste r aponta para a

pre se nça de sse re sse ntia-se do

org ulhosa que g ostaria de se admirar se m re se rvas. Na Itália, alé m do

mais, com

de sconforto. Ela sabia e star disposta a se r dura e tratame nto que a le vara a isso, pois e ra uma mulhe r

fre quê ncia e la se ntia o que raras ve ze s tinha se ntido na

Ing late rra: horas de

uma fe licidade confusa e m que a te rra e ra be la e

e la e ra jove m, com

pote nciais maravilhosos a se ag itar e m se u

íntimo. Não lhe e ra possíve l abrandar e sse s ê xtase s com

de suas “frias máximas de solitário consolo”, e mbora e la admitisse pe nsar num “outro” com que m “abrir o coração”. Tão log o e sse outro

de monstrasse o que pode ria faze r para aliviá-la, e m ag itação e la o re je itava, consolando-se com a ide ia de que havia uma “falta de paixão” e m sua nature za que e ra capaz de livrá-la de muitas de sve nturas. “Mas qual se rá a minha saída, se numa e scolha o coração e a cabe ça concordare m?” Sua hone stidade a impe liu a se

faze r a pe rg unta, que a de ixou quanto a havia e mpolg ado. Foi e m Flore nça, me nos de

e scritas, que e la conhe ce u Lord Holland, rapaz de 21 anos que acabava de re g re ssar de uma viag e m à Espanha. Sua prime ira

impre ssão, como se mpre , é dire ta: “Lord H. não

anotou “os modos ag radáve is e a vivacidade das conve rsas” do

moço; mas

pe rna e sque rda de le , “dita uma ossificação dos músculos”, porque e la, como outras mulhe re s práticas, tinha g rande curiosidade por

doe nças físicas e

frase s, como que maioria. Não

pois o obje tivo do diário não e ra se g uir se us se ntime ntos de pe rto, ne m me smo, a rig or, re g istrá-los, a não se r para faze r de quando e m quando uma soma, à moda come rcial, como se e la tomasse notas taquig ráficas para uso futuro. Mas Lord Holland passou a se r mais um me mbro da confraria sing ular de ing le se s e m viag e ns pe la Itália nos

últimos anos do sé culo XVIII, que re e ncontramos mais tarde , nos

prime iros

Tre lawny. Como ave nture iros numa te rra e stranha, e le s andavam se mpre juntos, dividindo carruag e ns e admirando e státuas, tinham se u próprio e pe que no círculo e m Flore nça e Roma e e ram e m g e ral aliados pe lo nascime nto e pe la rique za e pe culiaridade de se u g osto pe las be las-arte s. Sir G odfre y (não e spanta) ficou indócil, impacie ntando-se para dar fim àque las andanças se m propósito por

ne nhuma

tão alarmada, ao que tudo indica,

um

ano após e ssas palavras se re m

é nada bonito”. Ela

o que mais a inte re ssou foi a “comple xa de sorde m” na

adorava convive r com mé dicos. De ste s, re pe te as se g abando de e nte ndê -las mais a fundo do que a

pode mos traçar acuradame nte a e volução da amizade ,

anos do XIX, quando le mos a história de She lle y, B yron e

um país e strang e iro, com crianças pe que nas na família [3] e e ntre

pinturas e

Roma nos mostra o que e stava aconte ce ndo na primave ra de 1794 :

ruínas que o e nte diavam muito. Uma anotação fe ita e m

Quase todo o nosso g rupo napolitano e stava lá… fize mos juntos uma e xcursão a Tivoli. Le ve i comig o Lord Holland, o sr. Marsh e

B e aucle rk… Voltamos tarde da noite …

No corre r das nossas noite s

Lord H. re solve u me

faze r admirar um

poe ta… Cowpe r. [4 ] [… ]

Minhas

noite s foram

ag radáve is… Uma forte crise de g ota,

provocada pe lo vinho be bido e m Orvie to, não contribuiu para me lhorar o e spírito do [me u marido].

Um dos aspe ctos atrae nte s de ssas antig as viag e ns pe la Itália é o

te mpo livre que e ssas pe ssoas tinham, e o instinto, natural num país

bonito e long e de

com long as horas de le ituras a e smo. Lady We bste r, falando de si, diz que e la “de vorava livros”, histórias, filosofias, na maior parte

obras sé rias, para aume ntar se u conhe cime nto. Que m a fe z le r poe sia

foi Lord Holland, que para e la le u e m voz alta a Ilíada de

de uma tradução de He ródoto, “uma boa dose de B ayle e uma g rande

varie dade de poe sia ing le sa”. [5] Sua cabe ça foi

e ra, no caso de Lady We bste r, o único caminho para o se u coração. Sir

G odfre y de ixou-a sozinha na Itália por vários me se s se g uidos;

finalme nte , e m maio de 1795, voltou se m e la para a Ing late rra. O diário, como se mpre , continua se nsato; pode mos imag iná-la como uma mãe de família ing le sa, culta, que dispunha de me ios próprios de manute nção. Poré m, quando le mbramos que e la e stava de cidida

ag ora a de safiar a le i e a honrar sua própria paixão, há alg o que soa

mais alto que de hábito no re g istro de se us dias. Ela nunca se

arre pe nde Corre g g io

sé quito, passando uns dias num lug ar, uma

pe rcorre u a Itália com se u

se mana e m outro, e fixando-se para o inve rno e m Flore nça. O nome

de Lord

como o de um outro qualque r. Mas nos modos de la há uma

libe rdade , uma e spé cie de org ulho

de monstrar a ple na confiança que e ra posta e m sua própria moral. Em abril, Lord Holland e Lady We bste r viajaram juntos de volta para a Ing late rra; Sir G odfre y divorciou-se da e sposa e m julho de 1797, e

todas as obrig açõe s, que as le vava a pre e nchê -lo

Pope , alé m

conquistada, e e sse

ne m analisa sua conduta; se u diário ainda se ocupa de

e da família Me dici e dos sulcos de rodas nas e stradas. Ela

Holland ocorre re pe tidas ve ze s, se mpre tão naturalme nte

de sua fe licidade , que pare ce

no me smo mê s e la se tornou Lady Holland. Alg o de muito

e xtraordinário de ve ria se r e spe rado de um casame nto assim, pois o

se ntime nto e ntre um home m e uma mulhe r que se conquistaram de ssa mane ira não se rá conve ncional ne m fácil de e xplicar. Não

sabe mos, por e xe mplo, até que ponto vida que te ve por se ntir g ratidão pe lo

que Lord Holland foi mais ate ncioso e te rno do que lhe e ra natural porque a e sposa tinha fe ito um ime nso sacrifício por sua causa. Ele

viu, e isto outras pe ssoas não viam, que alg umas

sofre r. Mas ao me nos se pode te r ce rte za de que os proble mas foram

supe rficiais e de que Lord e Lady Holland, já mais ve lhos e se re nos, nunca se e sque ce ram de que e m dado mome nto e le s tinham se unido contra o mundo, ne m nunca se viram se m alg um tre mor de

Lady Holland foi marido, e ape nas

le vada a te r a suspe itamos

ve ze s alg o a fazia

e

moção. “Oh, me u amado amig o”, e xclamou Lady Holland, “quão

be nquistas tu

tornaste , tornando-te me u, as ocorrê ncias triviais da

vida!”

Seaos vinteequatrotantoteamei, Aos sessenta amoainda mais, eusei.

Essa e ra, como e scre ve u Lord Holland quando e le s já e stavam casados havia 34 anos, a

Verdadeque, emversoouprosa presente, Fluidomeucoraçãosinceramente.

Se ndo assim, te mos de admirar ainda mais

da re putação que Lady de como de ve te r sido

os dois, le mbrando-nos

para si, naque le s anos, e

Holland conquistou difícil vive r com e la.

B e m pode se r que e la tomasse posse da Holland House com uma

prome ssa de compe nsar o te mpo

de si e dos outros o me lhor possíve l. També m e stava de cidida a se rvir a Lord Holland e m sua carre ira; e os anos de safortunados e m

que vag ou pe la Europa, faze ndo obse rvaçõe s tão se nsatas, tinham-na ao me nos imbuído de hábitos que ag ora lhe se riam úte is, como “participar das conve rsas dos home ns” e se ntir inte nsame nte a vida nas pe ssoas e m volta. Com uma dona assim, a casa log o passou a te r

combinam

caráte r próprio. Mas que m sabe rá por que razão as pe ssoas

de se e ncontrar num lug ar, ou quais as caracte rísticas ne ce ssárias

pe rdido e a de cisão de e nfim tirar

para se e stabe le ce r um salon? Ne sse caso, a razão de e las ire m pare ce

te r sido e m g rande parte o de se jo de Lady Holland de que para lá

fosse m. A pre se nça de alg ué m com um obje tivo dá forma às informe s re uniõe s de pe ssoas; e las assume m um pe rsonag e m,

quando se e ncontram, que de pois se mpre

assim passadas. Lady Holland e ra bonita e jove m; sua vida de ante s a

de ixara se nhora de uma de te rminação e de um de ste mor que

se rve para marcar as horas

a

le

vavam mais long e , numa conve rsa, que qualque r outra mulhe r e m

ce

m. Tinha lido g rande parte

da boa ficção ing le sa, livros

de história

e re latos de viag e ns, Juve nal

La Roche foucauld e m francê s. “Não

e scre ve u e la; e m sua pre se nça, assim, o mais ousado dos

pe nsadore s pode ria e xtravasar todo o e spírito. A re putação de ssa mulhe r, jove m, brilhante e franca, difundiu-se rapidame nte e ntre os

políticos, muitos dos quais lá acorriam para jantar ou pe rnoitar ou até me smo para vê -la se ve stir de manhã. Talve z e le s até risse m,

quando falasse m mais tarde

triunfo se u g rande obje tivo –

se casar, anotou: “Tive cinque nta visitas hoje ”. Se u diário se torna

uma cade rne ta de le mbre te s, com re latos e novidade s políticas; e é

muito raro que

conside rar o que se acha e m que stão. A ce rta altura poré m e la nos dá

uma pista e

amig os, e ra me lhor “procurar com avide z novos conhe cidos”, porque “re lacionar-se com muita g e nte é vantajoso para Lord H”. É pre ciso vive r com a própria classe e conhe cê -la, porque se não “a cabe ça se

e stre ita pe lo

mostrado. Se mpre havia tanto bom se nso no que Lady Holland dizia

que e ra difícil prote star se suas açõe s, e m se u vig or e xce ssivo, se tornasse m pe rig osas. Ela ing re ssou na política por causa de Lord Holland, com a me sma de te rminação, e não tardou a se tornar muito mais e ntusiasta que e le ; le mbre -se poré m como e ra capaz, e que

tinha a cabe ça abe rta. Se u

da é poca disse – quase ce m anos de pois de tudo te r se acabado – que

“Holland House foi uma câmara de consultas políticas… e o valor de um ce ntro assim, para um partido sob lide rança e xclusivame nte

e la

aristocrática, e ra quase incalculáve l”. Contudo, por mais ativa que

te nha se tornado como política, não de ve mos supor que

influe nciasse ministros mudaram o mundo. Se u

me smo ag ora, com se u diário pe la fre nte , re constituir alg o de se u

numa tradução, Montaig ne , Voltaire e

te nho pre conce itos a combate r”,

livre s-

a se u que

re spe ito, mas e la transformava e m fosse m vê -la. Dois anos de pois de

e la le vante por um mome nto os olhos para

obse rva que , e mbora se pre ocupasse com se us ve lhos

padrão do g rupo”, como a vida de Canning [6] lhe havia

suce sso foi tal, de fato, que um e studioso

ou fosse a autora se cre ta de planos que

suce sso e ra de outra índole ; pois é possíve l

caráte r e ve r como e le se impôs, com o corre r dos anos, àque la parte do mundo que com e le e ntrou e m contato.

 

Quando

pe nsamos ne la, não nos le mbramos das e ng e nhosas

que

coisas

dizia; le mbramos de uma long a sé rie de ce nas nas quais

e

la se

mostra insole nte , ou dominadora, ou e xcê ntrica, com a

e

xce ntricidade de uma g rande dama mimada que de strói

como be m

que r todas as conve nçõe s. Mas na ce na a se g uir, por banal

que se ja,

há um aspe cto que nos faz pe rce be r de

de la na sala, a mane ira como olha para nós e até me smo a atitude que assume , dando pancadinhas com o le que . Macaulay de scre ve um

ime diato o e fe ito da pre se nça

e ncontro no café da manhã:

Lady Holland nos contou se us sonhos; como sonhou que um

cachorro doido tinha mordido se u pé e como e la saiu procurando

o B rodie

conse g uiu e ncontrá-lo. Ela e spe rava, disse , que o sonho não se

tornasse re alidade . [7]

mas pe rde u se u rumo, e m St. Martin’s Lane , e não

Lady Holland e ra dada a supe rstiçõe s, o que voltamos a notar nas

palavras que dirig iu a Moore : “Te mo que e ste

ve nha a se r insípido”; [8] ou ao sr. Alle n, que e ra um de pe nde nte

de la: “A

se nhor toma a de suco de carne , ou fica se m sopa”. Pare ce mos se ntir,

se u livro, o Sheridan,

sopa de tartarug a não dá para se rvi-lo, se nhor Alle n. Ou o

e

mbora com impre cisão, a pre se nça de uma pe ssoa e spaçosa e

e

nfática, que

não te me nos mostrar suas pe culiaridade s, porque não

se importa com o que pe nsamos sobre e las, e que te m, por

pe re mptória e antipática que possa se r, uma e xtraordinária força de caráte r. Ela faz com que ce rtas coisas do mundo ousadame nte se

outras pe ssoas ce rtas qualidade s. É

se u mundo, e nquanto e la ali e stá; de la são os

pe rfume s e e nfe ite s, os livros postos sobre a me sa, e

obje tos a e xpre ssam. Imag inamos, mas isso é me nos

g rosso da e stranha socie dade que se re unia e m volta de sua me sa

de via a própria frag rância aos caprichos e paixõe s de Lady Holland. É me nos óbvio porque Lady Holland, e m se u diário, e stá long e de se r

le vante m ao se u re dor; e xtrai das

obje tos da sala, os

todos e sse s óbvio, que o

e xcê ntrica e adota cada ve z mais, com o passar do te mpo, a atitude de um astuto home m de ne g ócios já acostumado com o mundo e

e mulhe re s,

de le s traça um rápido re trato e calcula o valor de

se le ciona, e be be vinho e m

mau

be m conte nte com e le . Lidando com muitos home ns

cada um: “Ele te m

g osto; adora companhia, mas não

quantidade , não pe la qualidade ; e le é g rosso e m tudo… Ele é honrado, since ro e justo”. Tais pe rsonag e ns são moldados num

e stilo sumário, como se e la de sse corte s bruscos no

lado, ora de outro. Mas a quantas se me lhanças se ate ve , e com que

se g urança! De fato, e la já vira tantas coisas do mundo, e

conhe cime nto que tinha de famílias, te mpe rame ntos

dinhe iro, que com maior conce ntração pode ria te r formulado uma re fle xão cínica na qual uma vida inte ira de obse rvaçõe s se

comprimisse . “Home ns de pravados”, e scre ve e la, “vive m numa situação corrupta, muito e mbora pre ze m os nome s das virtude s tanto

quanto abominam a prática.” La Roche foucauld se mpre lhe ve m aos

barro, ora de um

e

tal e ra o que stõe s de

lábios. Mas o simple s fato de te r se re lacionado

com tantas pe ssoas e

te r mantido controle sobre e las é e m

si me smo

prova de uma me nte

muito incomum. De la e ra a força que as conse rvava juntas, que as

mostrava sob ce rta luz e as fixava nos lug are s que e la lhe s de stinava. Tomando o mundo e m toda a vasta e xte nsão, ne le e la imprimia sua

própria marca abrang e nte . Pois não só e xe rcia se u domínio tudo o que normalme nte aconte cia na vida cotidiana, como

não titube ava quando os cimos mais