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A Utopia Social e Filantrópica do Conde de S. Bento

A Utopia Social e Filantrópica do Conde de S. Bento Trabalho de Pesquisa realizado no âmbito

Trabalho de Pesquisa

realizado no âmbito da Disciplina

Ciência Política

Turma 12º D/E

Docente responsável José Guilherme Abreu

Escola Secundária de D. Dinis Santo Tirso

Ano lectivo de 2009/2010

Índice

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Docente responsável José Guilherme Abreu Escola Secundária de D. Dinis Santo Tirso Ano lectivo de 2009/2010

1- Introdução

1.1- Apresentação e agradecimentos, Prof. José Guilherme Abreu 1.2- Enquadramento curricular do tema, Sarah Lotfy e Carla Barbosa 1.3- Utopias e Utopistas Sociais, Bárbara Borralho 1.4- Doutrina Social da Igreja, Andreia Carneiro e Cristiana Monteiro

2- Vida e Obra do Conde de S. Bento

2.1- Dados biográficos, Fábio Pacheco e Diogo Pinheiro 2.2- Acção benemérita e filantrópica, Fábio Pacheco e Diogo Pinheiro 2.3- Nobilitações Régias e Condecorações Civis, Carla Barbosa

3- O Legado do Conde de S. Bento,

3.1- O Testamento do Conde de S. Bento, Ana Raquel Soares e Marta Oliveira 3.2- A obra de José Luís de Andrade, Rui Ribeiro e Pedro Dias

4- Análise da Obra e da Acção do Conde de S. Bento

4.1- Pedagogia e pedagogos sociais, Helena Gomes e Marcelo Carneiro 4.2- O caso de Friedrich Frœbel, Rui Ribeiro e Pedro Dias 4.3- A Fábrica de Fiação de Santo Tirso, Fábio Pacheco e Diogo Pinheiro

5- Ilações finais, Fábio Pacheco, Diogo Pinheiro e Bárbara Borralho

5.1- Síntese, 5.2- Quadro Comparativo

6- Bibliografia

7- Anexos

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Fábio Pacheco , Diogo Pinheiro e Bárbara Borralho 5.1- Síntese, 5.2- Quadro Comparativo 6- Bibliografia 7-

1.1- Apresentação e agradecimentos:

1. Introdução

A ideia de realizar um estudo no âmbito da disciplina Ciência Política sobre o Conde de S.

Bento, resultou da visita que os alunos da turma D/E do 12º ano, em regime de aula, fizeram à Exposição sobre o Bicentenário do Conde de S. Bento que esteve patente na Biblioteca da Escola Secundária de D. Dinis, no início do 3º Período. Havendo previamente estudado as ideologias políticas, nomeadamente aquelas que mais se debruçaram, durante o século XIX, sobre a “Questão Social”, e que por isso viriam a de-

signar-se “ideologias socialistas”, os alunos foram tomando consciência de que o Conde de S. Bento era uma personagem que aparentemente se encaixava dentro da noção de “filantropia social ou patronal” que animava o ideário do chamado “socialismo utópico”.

A existência de habitações e de terrenos de cultivo no interior do recinto da Fábrica de

Fiação de Santo Tirso, fundada por iniciativa do Conde parecia indiciar a presença de refe- rências flagrantes aos objectivos e métodos preconizados pelos socialistas utópicos, tendo um aluno da turma referido que aquela fábrica lhe fazia lembrar um “Falanstério”. Pensei então que seria pedagogicamente interessante organizar uma pesquisa no sentido de tentar apurar, se possível, da consistência, ou não, da hipótese formulada. Entre outros aspectos que a seguir se enunciarão, tal objectivo era desde logo uma opor- tunidade adequada para ensaiar os passos da aplicação do método científico no desenvolvi- mento da investigação em Ciências Humanas, pois a formulação de hipóteses e a sua verifi- cação constituem passos metodológicos de importância capital para o ensaio de estudos cientificamente conduzidos, pois mesmo que a hipótese se viesse a manifestar como refu- tável ou inconfirmável, ainda assim ter-se-ia avançado na boa direcção no que concerne à aquisição e desenvolvimento de boas práticas, na organização da pesquisa e do estudo.

E foi isso, apenas, o que se fez. Não foi uma resenha biográfica sobre o Conde de S. Bento.

Não foi uma descrição das obras que ficaram a dever-se à acção benemérita do Conde, embora na pesquisa todas elas se encontrassem implicadas. Em vez disso, o estudo visou analisar o pensamento e a acção de alguns dos mais repre- sentativos utopistas, filantropos e socialistas cristãos do século XIX, tipificar algumas linhas de acção e verificar depois se essas mesmas linhas coincidiam ou se compatibilizavam com a linha de acção do Conde de S. Bento. Para tanto, a turma foi dividida em sete grupos de dois alunos cada, mais outro de um aluno, correspondendo estes oito grupos ao tratamento de outras tantas temáticas, funci-

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alunos cada, mais outro de um aluno, correspondendo estes oito grupos ao tratamento de outras tantas

onando como subtemas do tema global, de tal forma que o trabalho final resultou do concurso de todos esses subtemas, visando o esclarecimento possível da questão inicial.

Numa primeira fase, os alunos partiram à procura da informação necessária ao apuramento dos factos, cabendo aqui dirigir uma palavra de agradecimento ao Doutor Álvaro Moreira do Museu Abade Pedrosa, pelas facilidades dadas de requisção de bibliografia especializada

e pela cedência do restante material e informação concedida. Da mesma forma importa

agradecer ao Dr. Nuno Olaio do Centro Cultural de Vila da Aves, pelo envio de material muito detalhado sobre o monumento/estátua de homenagem ao Conde de S. Bento, Assim como importa agradecer também aos responsáveis e funcionários da Misericórida de Santo Tirso e da Biblioteca Municipal, pelo apoio e informações prestadas. Sintetizando, com este trabalho pretendia-se:

1. Aplicar e desenvolver conhecimentos adquiridos no âmbito do currículo de Ciência Política

2. Aprofundar conhecimentos sobre a História e a Sociedade da Comunidade

3. Integrar o estudo da Realidade Local no âmbito do conhecimento da Realidade Geral

4. Familiarizar os alunos com as rotinas de investigação em Ciências Humanas

Relativamente ao formato do resultado final da pesquisa, privilegiou-se a apresentação sucinta e sintetizada, resultante da análise directa das fontes e do apuramento dos factos, tendo sido pedido aos alunos para condensarem a informação obtida em tabelas, por forma

a que da análise dessas tabelas estes poderem retirar as necessárias ilações.

Importan no entanto dizer que o desenvolvimento deste estudo deparou-se com problemas que contrariaram a obtenção de conclusões esclarecedoras, desde logo começando pela carência de estudos de raiz que pudessem fornecer os dados que a sua realização exigia,

pois a figura do Conde de S. Bento ainda não se encontra estudada pela literatura especia- lizada com a profundidade que este trabalho requeria, uma vez que como é óbvio essa investigação não pode ser realizada no âmbito de estudos de nível secundário. Importará aguardar que a investigação especializada investigue melhor esta curiosa figura da filantropia social portuguesa. Uma figura que não é única, pois a mesma se enquandra no âmbito do painel de “brasileiros de torna viagem” que enriquecidos com os negócios do Eldorado brasileiro, e não deixando descendência legítima, regressam endinheirados à Pátria, onde doam em Testamento parte muito significativa dos seus bens, servindo as Misericórdias locais de zeladores e administradores de um património que por vezes chega

a ser avultado, como sudece com o Conde de Ferreira, que de melhor (e primeiro) irá

definir os contornos identificadores da figura do afortunado “brasileiro-e-benemérito”

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de melhor (e primeiro) irá definir os contornos identificadores da figura do afortunado “brasileiro-e-benemérito” 4

1.2- Enquadramento curricular do tema:

O trabalho sobre a Utopia Social do Conde de S. Bento, realizado no âmbito da disciplina de Ciência Politica insere-se, de acordo com o programa da disciplina, em moldes gerais, no que diz respeito ao desenvolvimento de aptidões e conhecimentos de fundo, como se refere:

Finalidades:

1.

Proporcionar conhecimentos básicos relativos a vida política, quer em geral, quer especificamente em Portugal

2.

Potenciar o desenvolvimento de uma perspectiva crítica sobre o mundo e sobre a vida em sociedade.”

Relativamente a metas específicas de aprendizagem, o mesmo programa refere:

Objectivos gerais

Do domínio cognitivo:

Compreender a complexidade política, articulando-a com a sociedade, com a economia e com a evolução das mentalidades.

Do domínio socioafectivo:

Desenvolver a capacidade de trabalhar em grupo e individualmente;

Assumir opiniões próprias, de forma esclarecida e fundamentada;

Desenvolver as capacidades de argumentação e reflexão.

Competências relativas ao saber fazer:

Ler e interpretar diferentes tipos de documentos relativos aos temas da disciplina;

Construir textos fundamentados e coerentes;

Utilizar técnicas de pesquisa, de tratamento e de apresentação de informação;

Competências relativas ao saber ser:

Colaborar de forma responsável nas tarefas propostas;

Adoptar atitudes de tolerância, de solidariedade, de cooperação e de não-discriminação;

Tematicamente, o trabalho inseria-se no currículo de Ciência Política, como se segue:

Unidade II – As Ideias Politicas no Quadro do Estado Moderno

2.3 – As ideologias políticas

2.3.2 – As principais correntes ideologicas: Socialismo.

Sobre os métodos de abordar e desenvolver o tema o Programa refere:

Gestão do tema

Partindo de um conceito simples de ideologia política, estendida como conjunto de valores colectivos orientados para a acção, deverão ser reconhecidas as principais correntes ideológicas no quadro constitucional.

Os alunos deverão identificar o socialismo e os seus pensadores de referência, nomeadamente, os utopistas Robert Owen, Charles Fourrier e o Conde de Saint-Simon.”

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seus pensadores de referência, nomeadamente, os utopistas Robert Owen, Charles Fourrier e o Conde de Saint-Simon

1.3- Utopias e Utopistas Sociais:

O Socialismo surge de início como uma continuação do período do Iluminismo, em

França, no século XVIII e teve de conectar-se às ideias base que já existiam. No entanto a

fonte verdadeira do socialismo reside nas condições económicas, na consciencialização para

os antagonismos entre as classes existentes na sociedade moderna – as que têm e as que

não têm, assalariados e burgueses – e a anarquia existente.

Se nos referirmos ao socialismo num sentido amplo podemos incluir quase tudo o que se

opões ao individualismo, ou seja, a todas as doutrinas e teorias que se ocupem

primordialmente do sector social, do conjunto de relações humanas dando preponderância

aos aspectos individualistas. Em comum aos vários movimentos socialistas ao longo dos

tempos surge a preocupação em melhorar a sociedade, tornando-a mais justa e igualitária,

combatendo tudo o que se opusesse a esse ideal.

Os primeiros socialistas – catalogados para a posteridade como “utópicos” – são bastante

diferentes dos que se seguiram. As suas teorias eram muito incoerentes em certos aspectos

mas que, apesar disso, não podem ser consideradas como simples “utopias”. No entanto,

geralmente, não passavam disso, de formulações teóricas. Este primeiro pensamento

socialista influenciava alguns sectores da sociedade mas não o movimento operário (mais

tarde denominado de “proletariado” propriamente dito; “o socialismo e o movimento

operário não sabiam encontrar-se”.

O pensamento dos socialistas utópicos foi formulado, no início, por Saint-Simon, Charles

Fourier, Louis Blanc e Robert Owen. No século XIX, com o capitalismo a desenvolver-se

desde a Revolução Industrial, aumenta nas cidades o número de operários a trabalhar para

receberem baixos salários. As críticas ao liberalismo resultam da constatação de que a livre

concorrência não trouxe o equilíbrio prometido e esperado, instaurando, pelo contrário

uma ordem injusta e imoral.

Os diversos teóricos do socialismo possuem diferentes ideias e propõem soluções distintas,

porém é possível reconhecer algumas semelhanças entre elas:

Tentam reformar a sociedade com a ajuda e boa vontade de todos;

Todas as tentativas não ultrapassam uma tendência fortemente filantrópica e paternalista:

melhoria de alojamentos e higiene, aposta na educação através da construção de escolas, aumento dos salários, redução de horas de trabalho…

Seguidamente, recorrendo a um quadro, passo a apresentar os principais socialistas

utópicos que iniciaram movimentos em prol desse mesmo socialismo nos seus países:

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apresentar os principais socialistas utópicos que iniciaram movimentos em prol desse mesmo socialismo nos seus países:
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7

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8

8
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Após uma leitura atenta de todas estas características dos principais socialistas utópicos, é impossível, no âmbito deste trabalho, não estabelecer algumas comparações relativamente à obra social levada a cabo pelo Conde de S. Bento. A diferença mais notória entre eles reside sobretudo na religião, uma vez que o Conde de S. Bento era um devoto enquanto Fourier, por exemplo, critica a religião.

De seguida apresento um quadro com os aspectos em comum entre os socialistas utópicos

e as obras sociais do Conde de S. Bento:

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apresento um quadro com os aspectos em comum entre os socialistas utópicos e as obras sociais
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Por uma análise atenta do quadro é possível notar que a obra social do Conde de S. Bento é bastante semelhante ao que era defendido e apregoado por Robert Owen. A preocupação com a educação e com a garantia de emprego às pessoas de forma a melhorar a sociedade são pontos importantes e fulcrais. Muita da acção benemérita do Conde é em tudo idêntica ao pensamento socialista. Contudo é de louvar que o Conde de S. Bento foi para além da Utopia e transformou em realidade a educação, a agricultura, a indústria e a religião na antiga vila (agora cidade) de Santo Tirso.

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em realidade a educação, a agricultura, a indústria e a religião na antiga vila (agora cidade)

1.4- A Doutrina Social da Igreja:

No século XIX, o desenvolvimento da ideologia socialista estabeleceu-se como suporte de pensamento político entre diversos movimentos operários. As revoluções e os protestos colocavam os trabalhadores como personagens munidos de uma visão política contrária aos pressupostos que explicavam o sistema capitalista. Desta maneira, o ideal da luta de classes deixa de ser uma mera interpretação para figurar vários eventos da época. Atenta a estas transformações, a Igreja Católica decidiu reunir os seus principais dirigentes para discutir as questões envolvendo a relação entre burguesia e proletariado. Ao mesmo tempo, deve-se destacar que essa mesma preocupação ligava-se ao conteúdo ideológico de muitos movimentos que pregavam explicitamente o fim das manifestações religiosas. A ideia da crença religiosa como coisa prejudicial começava a preocupar os clérigos. No ano de 1891, o papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum. Segundo este documento, o papa estabelecia a sua expressa oposição à luta entre classes defendida pela doutrina marxista. Em seu lugar, o líder máximo da Santa Sé colocava a religião como um instrumento capaz de arrefecer as desigualdades no mundo. Dessa forma, a moral e o amor cristão de empregados e empregadores poderiam ser ponto fundamental para que a justiça social fosse alcançada. Com o tempo, vários cristãos fortaleceram a sua preocupação para com os problemas de cunho político e social. No século XX, o envolvimento da Igreja com esses temas aprofundou-se quando o Concílio Vaticano II (1962 - 1965) reafirmou o papel social e político a ser exercido pelo cristão. Nessa mesma época, o movimento da chamada Teologia da Libertação fez com que muitos clérigos e fiéis realizassem projetos sociais e organizassem discussões políticas no interior das paróquias. Actualmente, muitos representantes mais conservadores da Igreja defendem que o envolvimento dos católicos devem restringir-se apenas aos assuntos de ordem espiritual. Paralelamente, também pode-se ver que o próprio comportamento religioso contemporâneo veio a desarticular essa associação entre fé e política. Hoje em dia, a busca pelo conforto material imediato e o ideal de salvação individual contribuíram para que a “igreja politizada” perdesse seu espaço. Na encíclica Rerum Novarum, o Papa reconhece a gravidade das questões sociais provocadas pelo capitalismo, pelo que só os valores cristãos poderiam corrigir esses males sociais. Mas, ao mesmo tempo, ele colocou-se contra quaisquer alternativas igualitárias, revolucionárias, ao afirmar que "a teoria socialista da propriedade colectiva deve

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alternativas igualitárias, revolucionárias, ao afirmar que "a teoria socialista da propriedade colectiva deve 13

absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles membros a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranquilidade pública." (Rerum Novarum, n. 7) No entender dos teóricos do socialismo cristão, o cristianismo tem em si mesmo valores socializantes, pelo que o

capitalismo é reconhecido como contrário aos valores da fé cristã.

A par do enquadramento da doutrina da Igreja, pode ainda falar-se de socialismo cristão,

que é um movimento político de esquerda que defende simultaneamente ideais cristãos e socialistas. Os millitantes deste movimento advogam que o socialismo e o cristianismo estão ambos interligados e são compatíveis um com o outro.

O socialismo de matriz cristã, comumente denominado pelos católicos de Movimento

Social Cristão ou Movimento Cristão Social, teve o seu início em meados do Século XIX, nas obras de vários doutrinários cristãos (ex: Henri de Saint Simon, Lamennais, Albert de Mun, Frederick Denison Maurice, Charles Kingsley, Thomas Hughes, Frederick James Furnivall, Adin Ballou e Francis Bellamy). Estes escritores propunham um socialismo novo, baseado nos ideais do cristianismo, oposto à luta de classes e ao ateísmo, mas preocupado com as reivindicações das classes pobres e trabalhadoras, propondo um governo mais justo e uma sociedade mais equilibrada. Este novo socialismo, afastado do materialismo marxista, defende as organizações sindicais, as lutas dos trabalhadores em prol de melhores condições de trabalho e de vida e a justiça social.

O socialismo cristão desenvolveu-se, mais tarde nos círculos católicos, como um ramo ou

variante progressista da catolicismo social no qual o socialismo cristão ganhou muita força após a encíclica "Rerum Novarum" do Papa Leão XIII, que em oposição ao socialismo de Proudhon e, mais tarde, ao marxismo ou socialismo científico, mas opondo-se também e

de igual modo ao capitalismo, o catolicismo social recusa a luta de classes, promove a

colaboração entre patrões e trabalhadores e prega a aplicação da doutrina católica e a intervenção do Estado para corrigir os males criados pela industrialização, criando uma maior justiça social e uma distribuição mais equitativa da riqueza produzida e pretendia

assim constituir uma resposta cristã para a questão social alternativa à corrente dominante

da Associação Internacional dos Trabalhadores (depois Internacional Socialista).

Em Portugal o socialismo cristão teve inicio com a AC Acção Católica, de onde sairam

mais tarde lideres do MDP/CDE e na JOC Juventude Operária Católica, actualmente está

no Portugal Pró-Vida.

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sairam mais tarde lideres do MDP/CDE e na JOC Juventude Operária Católica, actualmente está no Portugal

Os principais aspectos desta temática encontram-se condensados na seguinte tabela:

Corrente

Autor

Ideias

Exemplos

Obras

 
 

Freiherr

Defendeu os direitos da Igreja frente ao Estado Alemão.

Fundou as ordens religiosas de irmãos da escola e das irmãs da escola, para trabalhar nos estabelecimentos educativos que tinha criado.

A

questão

von

operária

e

o

Ketteler

cristianismo

 

Reivindicou o aumento de salários, férias, redução da carga horária de trabalho e eliminação do trabalho infantil.

(1864)

Catolicismo

social

Trabalhou para instituir orfanatos e para resgatar lares. Em 1851 fundou a Congregação das Irmãs da Divina Providência.

 

Frederick

Acredita que a política não deve ser separada da religião

Em 1848, fundou uma escola superior para mulheres.

The Kingdom of Christ (1838)

Denison

Maurice

 

Admirador das ideias de Robert Owen

Em 1854, criou uma escola para trabalhadores.

Robert

Defende que a iniciativa privada tem um papel fundamental a desempenhar no processo de melhoria das condições de vida das pessoas, de superação da desigualdade social e econômica.

Construiu, em Lanark, casas melhores para seus empregados, construiu uma escola e ainda montou, em sua empresa, um armazém onde as mercadorias poderiam ser adquiridas a um preço mais justo. Reduziu a jornada de trabalho para dez horas diárias, recusou-se a con- tratar crianças com idade inferior a dez anos.

A New View of Society (1813)

Socialismo

Owen

cristão

 

Report

to

the

County

of

Lanark (1829),

The New Moral World (1834)

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Owen cristão   Report to the County of Lanark (1829) , The New Moral World (1834)

2- Vida e Obra do Conde de S. Bento

2.1- Dados biográficos

O Conde de São Bento, Manuel José Ribeiro, que nasceu em Santo Tirso em 2 de Agosto

de 1807 e ali morreu em 26 de Março de 1893, filho de Domingos José Ribeiro e de sua mulher D. Rosa Maria Martins.

Embarcou para o Brasil com 11 anos de idade, depois de receber alguma instrução elementar na escola de sua terra. O navio porém foi assaltado por piratas e o jovem só com muita dificuldade conseguiu regressar a Portugal, depois deste primeiro malogro.

Ajudado pelo seu conterrâneo Manuel Luís de Paiva, teve como empregado da casa do comendador José Bento da Silva, seu primeiro patrão.

Até 1832 andou à procura de fortuna por algumas cidades do Baixo Amazona (Santarém e Alenquer), regressando a Santa Maria de Belém, onde se fixou na casa de José Pais de Sousa ate 1837, ano em que se estabeleceu por conta própria.

Em 1874, numa das suas visitas a Portugal, já 67 anos, não mais voltou ao Pará, instalando-

se definitivamente na vila de Santo Tirso.

Auxiliado pelo seu sobrinho José Luís de Andrade liquida a sua casa comercial no Brasil e transfere para Portugal a grande fortuna que possuía.

Um ano depois do seu regresso, 1875, era agraciado com a Comenda de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

Por Decreto-Lei de 20 de Janeiro de 1881 foi Comendador Ribeiro agraciado com o título

de Visconde de São Bento.

No princípio de 1882 adquiriu o novo titular a casa e a quinta do mosteiro de Santo Tirso.

As «Quintas do Mosteiro, de Dentro e de Fora» são hoje ocupadas pela Escola Agrícola do seu nome, que o Conde de São Bento após as ter comprado, doou à Santa Casa da Misericórdia com o fim de ali instalar um Asilo Agrícola.

A

3 de Janeiro de 1886 foi inaugurado na vila o edifício para uma ampla escola de ambos

os

sexos mandada construir e mobilar pelo Visconde de São Bento.

Por Decreto de 6 de Maio de 1886 foi o Visconde de São Bento elevado a Conde.

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e mobilar pelo Visconde de São Bento. Por Decreto de 6 de Maio de 1886 foi

Em 9 de Agosto de 1890 foi concedida ao Conde de São Bento a medalha de ouro de Instrução Nacional.

O

Conde de São Bento cedeu todo o terreno que o hoje é ocupado pelo Parque D. Maria

II

(anteriormente tinha o nome e de Praça Conde de São Bento).

É

nesta praça a poente que encontramos o edifício que o Conde mandou construir para o

Hospital da Misericórdia e, como tal, serviu o concelho durante longos anos.

Os seus sentimentos filantrópicos levaram-no a dotar aquela vila com grandes benefícios:

fundou uma escola e um hospital, custeando o respectivo funcionamento, restaurou a capela do Senhor dos Passos, assegurou as despesas do culto, e cedeu vastos terrenos da sua quinta à Câmara Municipal da vila para abertura de novas ruas.

Construiu a Fábrica de Santo Tirso, a primeira empresa industrial desta vila, garantindo trabalho para 40 operários tirsenses.

Por outro lado, teve também preocupações religiosas, tendo feito uma série de benefícios à Igreja de Santo Tirso, bem como a reedificado a Capela do Senhor dos Passos.

No dia 26 de Março de 1893, faleceu o Conde de São Bento que residia numa casa de azulejos situado no Campo 29 de Março, actual Praça Conde de São Bento.

O Conde de São Bento repousa no jazigo que lhe foi mando erigir por seu sobrinho e

herdeiro José Luís de Andrade e que se acha colocado ao meio do claustro da igreja.

Fora da Vila a sua actividade também foi meritória: reconstruiu a igreja de Santiago da Carreira (V. N. de Famalicão) e da matriz de Santiago dos Arcos; mandou construir as capelas de Santa Cristina, de Santiago de Bougado e de Nossa Senhora das Dores, na Trofa, etc

Tem um monumento em Santo Tirso, com estátua, inaugurado em 1892 e foi dado o seu nome à Escola Pratica de Agricultura, na mesma vila.

O título de Visconde foi-lhe concedido em 1881 por D. Luís, e o mesmo monarca elevou-

o a Conde em 1886.

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mesma vila. O título de Visconde foi-lhe concedido em 1881 por D. Luís, e o mesmo

Súmula dos dados

 

Manuel José Ribeiro, Conde de São Bento, nasceu na Quinta de Poldrães, em S. Miguel das Aves, Concelho de Santo Tirso a 2 de Agosto de 1807, e morreu em

1807

Snato Tirso, no dia 26 de Março de 1893. Era filho de Domingos José Ribeiro

e

de sua mulher D. Rosa Maria Martins, ambos de origem modesta.

1818

Embarcou para o Brasil com 11 anos de idade

 

Procurou fortuna por algumas cidades como Santarém e Alenquer, regressando

1832

a

Santa Maria de Belém, onde se instalou em casa de José Pais de Sousa ate

1837.

1874

Instalou-se definitivamente na vila de Santo Tirso.

 

Auxiliado pelo seu sobrinho José Luís de Andrade liquidou a sua casa comercial

1874

no Brasil e transferiu para Portugal a sua grande fortuna.

1875

Agraciado com a Comenda de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

1881

Por Decreto-Lei de 20 de Janeiro de 1881 o Comendador Ribeiro foi agraciado com o título de Visconde de São Bento por D. Luís.

1882

Adquiriu a quinta do mosteiro de Santo Tirso.

 

Em 3 de Janeiro foi inaugurado na vila um edifício para uma ampla escola de

1886

ambos os sexos mandada construir e mobilar pelo Visconde de São Bento.

1886

Por Decreto de 6 de Maio de 1886 o Visconde de São Bento foi elevado a Conde por D. Luís.

1890

Em 9 de Agosto foi concedida ao Conde de São Bento a medalha de ouro de Instrução Nacional.

1892

Foi inaugurado em Santo Tirso um monumento com a sua estátua.

 

O seu nome foi dado à Escola Prática de Agricultura de Santo Tirso que passou

1892

a

designar-se: Escola Profissional Agrícola Conde de S. Bento

1893

Morreu em Santo Tirso em 26 de Março de 1893.

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designar-se: Escola Profissional Agrícola Conde de S. Bento 1893 Morreu em Santo Tirso em 26 de

2.2- Acção benemérita e filantrópica

Para dar conhecimento das acções de beneficência por parte do Conde de S. Bento, as mesmas foram divididas por três tabelas. A primeira tabela refere as doações feitas fora do país, nomeadamente no Brasil. A segunda refere as acções beneméritas feitas em Portugal excluindo as doações relativas a Santo Tirso, pois estas encontram-se se na tabela posterior.

Após a análise da primeira tabela, podemos concluir que a quantia mais elevada dirige-se às meninas pobres e órfãs assim como às viúvas, mas, se efectuarmos o somatório das quantias restantes entregues a hospitais e afins, podemos concluir que, em conjunto, este tipo de instituições recebe aproximadamente metade de todos estes donativos.

Na segunda tabela verificamos uma panóplia de destinatários que variam entre hospitais, regiões do Norte de Portugal e centros de caridade (também no norte). Mais uma vez se verifica uma maior preocupação com os hospitais e estabelecimentos de caridade, facto este que se comprova pela maior quantia a estes atribuídas.

Na terceira e última tabela verificamos que, em relação às outras freguesias, Santo Tirso recebe mais obras de beneficência (apenas em número o podemos confirmar visto que não foram encontrados valores monetários). Verificamos também que, a maioria das obras e subsídios destinaram-se a fins religiosos.

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valores monetários). Verificamos também que, a maioria das obras e subsídios destinaram-se a fins religiosos. 19

3. O Legado do Conde de S. Bento 3.1- Testamento do Conde de S. Bento

do Conde de S. Bento 3.1- Testamento do Conde de S. Bento « Em nome de

«Em nome de Deus Amen. Eu Manoel José Ribeiro, estando de perfeita saúde e em perfeito juízo e não sabendo quando Deus terá determinado que findem meus dias de vida me deliberei fazer o meu testamento e última vontade que é como se segue. (…) Declaro que tenho vivido no estado de solteiro e nunca tive filhos (…) não tenho herdeiro algum a quem por direito compita a minha herança (…)»

Testamento do Conde de S. Bento, In,

Manoel José Ribeiro fez parte do grupo de muitos portugueses que voluntariamente emi- graram para o Brasil e, depois de longos e árduos anos de trabalho, conseguiu finalmente voltar de lá com a sua valiosa fortuna.

Fez várias tentativas para conseguir atingir o seu objectivo sendo que, das primeiras vezes que embarcou, para além dos barcos onde viajava serem de fraca envergadura, ou encontraram piratas que lhes roubaram ou depararam-se com tempestades.

Visto ter uma fortuna com muitos números, o Conde São Bento quis escrever o testamento um pouco mais cedo pois não queria que esse dinheiro caísse nas mãos erradas e o seu trabalho durante anos fosse feito para depois não honrar o esforço.

A sua fortuna teve vários destinatários sendo que, para além do seu sobrinho, José Luiz

d’Andrade, que ficou com o remanescente da fortuna (não sabendo nós ao certo o valor desta quantia) os seus bens foram muito bem distribuídos por hospitais, igrejas, estabelecimentos de caridade e pessoas carenciadas (pobres, doentes, viúvas e meninas pobres e escravos).

Na nossa opinião, o alto da sua herança foi o facto de ter concedido liberdade a todos os seus escravos e, para além da liberdade, a remuneração monetária por anos de sofrido trabalho. Mas a sua herança tem muito que se lhe diga.

A sua herança incidiu mais sobre os hospitais, sendo que no total cerca de 32.000$000

foram dirigidos para estes estabelecimentos; seguidos das pessoas carenciadas às quais contribui com aproximadamente 28.000$000 (este valor inclui o valor doado aos estabelecimentos de caridade); as igrejas que contou com um valor estimado em

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(este valor inclui o valor doado aos estabelecimentos de caridade); as igrejas que contou com um

24.500$000; mas também deixou umas pequenas quantias para o Governo Português, para

a sua casa comercial e deixou algumas quantias no banco para ficar a render para o seu herdeiro.

Podemos observar que, apesar de estar muitos anos no Brasil, e de ter sido este o país que

o pôs numa situação económica bastante avantajada, não esqueceu nunca as suas origens

sendo que a maior parte dos destinatários da sua herança se encontram em Portugal e, maioritariamente, se não um todo, no norte do país.

O Conde São Bento nomeou três pessoas para a sua herança: 1º- José Luiz d’Andrade

(sobrinho); 2º- Sr. Dr. Augusto Thyago Pinto; 3º- Sr. Victor Rodrigues d’Oliveira. O Conde

de São Bento decidiu nomear três herdeiros pois, se quando o Conde morresse, o seu

primeiro herdeiro também já se encontrasse morto, a sua herança passaria para o segundo e

se o mesmo tivesse acontecido com este, passaria para o terceiro. O seu verdadeiro

herdeiro foi a sua primeira opção, o seu sobrinho, que soube honrar a memória do tio e

continuar com a sua obra.

É também de salientar que, à morte do seu herdeiro, José Luiz d’Andrade, todo o seu

dinheiro passa para corporações religiosas e estabelecimentos de caridade à escolha do herdeiro.

21

todo o seu dinheiro passa para corporações religiosas e estabelecimentos de caridade à escolha do herdeiro.

Destinatários

Bens

Observaçõe

José Luiz d’Andrade

Casa comercial

Sócio da casa comercial

Casa comercial

400$000

Fundos da casa comercial

Governo Português

30$000

Inscrições do Governo Português

Bancos

Algumas quantias

A vencer juros. Quando o Conde morrer passa tudo para nome do herdeiro.

Destinatários

Bens

Observações

Todos os seus escravos, tanto de homens como de mulheres

Liberdade

Um ano depois de morrer (ao do seu herdeiro)

Escravos

100$000

Retirado do dinheiro da herança e sendo que 100$000 era por escravo

Missas

 

Retirado do dinheiro da herança (25dias pela sua alma e 25 dias pela alma dos avós)

Igrejas

500$000

Esmolas

Pobres

400$000

4$000 para cada pobre sendo que estes são escolhidos pelo herdeiro

Hospital dos Lazaros

8.000$000

Melhoramentos

Destinatários

Bens

Observações

Doentes do hospital dos Lazaros

40$000

Para cada doente

Hospital da caridade de Santo Tirso

4.000$000

Meninas pobres e honestas e viúvas nas mesmas circunstâncias

16.000$000

As esmolas serão de 500$000 sendo que estas são à escolha do herdeiro

Hospital da Ordem Terceira de São Francisco

4.000$000

 

Igreja de Senhor de Matosinhos

8.000$000

Senhor Bom Jesus de Braga

8.000$000

Obras

Destinatários

Bens

Observações

Igreja São Torquato

8.000$000

Obras

Hospital de Santo António - Porto

12.000$000

Hospital da Trindade - Porto

4.000$000

Estabelecimentos de caridade - Porto

12.000$000

Este dinheiro será distribuído por estes sendo escolhidos pelo herdeiro

José Luiz d’Andrade

Remanescente

22

dinheiro será distribuído por estes sendo escolhidos pelo herdeiro José Luiz d’Andrade Remanescente … 22

3.2- A obra de José Luís de Andrade

“1832, Setembro, 25- Nascimento de José Luis de Andrade

Joze filho legitimo de Joaquim Luis e de Maria Roza do Lugar de Villa verde desta freguezia de São

Thomé de Negrellos Nasseo aos vinte e sinco de Setembro de mil e oito Centos e trinta e dous e aos vinte e

Sete do dito mês, e anno eu João Alvares Neto vigario desta Igraja o baptizei Solemnemente com a

imposição dos Santos Olios forão Seos padrinhos Antonio Joze Ferreira solteiro do lugar do Pedraçal, e

Queteria Maria viuva das Pombinhas ambos desta freguezia de São Thomé de Negrellos he neto materno

de Domingos Joze Ribeiro e de Roza Martins do lugar de Poldraens freguezia de São Miguel das Aves

termo de Barcellos e paterno de Antonio Luis e de Maria de Jezus desta freguezia de São Thomé

José Luis de Andrade, sobrinho de Conde S. Bento, recebeu ordens desse mesmo tio para dar aviamento a coisas notáveis que não nos podemos esquecer. Em primeiro lugar doou quatro contos à Junta da Paróquia de santo Tirso, para a recontrução do claustro da igreja que ruira. Este dinheiro foi concedido não só para este efeito como também para alguns melhoramentos da mesma igreja. Os quatro contos seriam pagos ao ritmo das obras e com o encargo de uma comemoração ao aniversário da morte de Conde S.Bento. José Luis de Andrade teve também uma importante contribuição no que toca à ampliação da residência paroquial

Aquando da morte do seu tio, deixando o Conde S. Bento ainda por acabar o mausoléu que se viria a levantar o claustro gótico do mosteiro, José Luis de Andrade decide mandar acabá-lo

Legado de José Luis de Andrade

Relação de Bens

Quinta de Fora e de Dentro, Azenha com três rodas, moinhos novos e casa de moradia, o Rego dos Frades

Fracção da Quinta de Dentro- as Nogueiras- a Norte e Ocidente da Igreja

Salão da Porta Branca

Quarto que fica debaixo da escada que dava servidão para a Sala da Porta Branca

Ala norte do segundo piso do 1ºclaustro

Coelheira

Escadaria para o Salão da Porta Branca, desde a Porta Branca

O Recibo (Sótão)

23

1ºclaustr o  Coelheira  Escadaria para o Salão da Porta Branca, desde a Porta Branca

4. Análise da Obra e da Acção do Conde de S. Bento

4.1- Pedagogia e pedagogos sociais

Jean-Jacques Rousseau

Jean-Jacques Rousseau nasceu em 1712 em Genebra. O seu nascimento coincide com o século das luzes, sendo por isso um dos filósofos iluministas mais importantes de sempre. Inspirou diversos movimentos que procuravam a liberdade, pois defendia que todos os homens nascem livres e que a liberdade faz parte da natureza do homem.

Apesar de ter desenvolvido teorias a diversos níveis, aqui iremos apenas focar as que são relativas à educação. Para tal, não podemos de deixar de falar na sua obra Emílio. Nesta obra, Rousseau fala-nos na importância da liberdade na educação, e na necessidade de oferecer um aprendizado que ensine a evitar a influência da opinião de outros. A educação deve ser assim, pela e para a liberdade. Uma curiosidade que não pode deixar de ser referida, é a “ironia” de que, anos antes de escrever Emílio, Rousseau deixou os seus cinco filhos num orfanato.

Johann Heinrich Pestalozzi

As obras de Rousseau influenciaram mentes em todo mundo. Johann Heinrich Pestalozzi foi um pedagogo suíço que nasceu na cidade de Zurique em 1746, cuja principal influência foi Rousseau e sua obra Emílio. Em obras como The Evening Hours of a Hermit (1780) ou Leonard und Gertrud (1781), Pestalozzi defende que a educação deveria ser feita não só a nível moral, mas também a nível intelectual, baseando-se na compreensão do mundo da criança. A aprendizagem deveria ser feita através de experiencias concretas e não através do tradicional método de ensino, a memorização.

Com a invasão francesa na Suíça, muitas crianças ficaram votadas ao abandono. Em 1798, Pestalozzi reuniu-as num convento abandonado e educou-as segundo as suas crenças.

Com o passar do tempo, as ideias pestalozianas foram-se difundindo pelo mundo. A implementação destas na América, foi feita por Joseph Neef, que mais tarde iria leccionar em New Harmony, o falanstério idealizado por Robert Owen, um famoso socialista utópico.

24

que mais tarde iria leccionar em New Harmony, o falanstério idealizado por Robert Owen, um famoso

Phillipp Emanuel von Fellebnberg

Fellenberg nasceu em 1771, na cidade de Berna no seio de uma família abastada. A intimidade existente entre seu pai e Pestalozzi, fez com que este fosse a sua principal influência. Viajando entre Berna, Paris e Alemanha, começou a aperceber-se da corrupção existente entre a vida política, o que fez com que se voltasse para a educação dos mais jovens.

Assim em 1799, comprou um terreno em Hoffwyl, perto de Berna, onde criou uma instituição que seguia os modelos estabelecidos por Pestalozzi. Com isto Fellenberg pretendia elevar as classes todas ao mesmo nível, e tornar a agricultura não só como a base da aprendizagem, mas como algo tão digno como a ciência.

Juntamente com a sua mulher, dedicou-se a esta instituição para o resto da sua vida.

Fellenberg acaba por vir a ser considerado como O Melhor Cidadão da Sua Pátria. Morre em 1844, em Berna.

25

sua vida. Fellenberg acaba por vir a ser considerado como O Melhor Cidadão da Sua Pátria.

Quadro Síntese dos Pedagogos Sociais

 

Jean Jacques Rosseau

Johann Heinrich Pestalozzi

Phillipp Emanuel von Fellenberg

Nacionalidade

 

Suíça

 

Suíça

Suíça

 

Nas suas defende que a

   

educação deve ser pela e

para

a

liberdade,

no

John Pestalozzi afirmava que a educação para além de moral, deveria ser intelectual. Pretendia que esta fosse baseada no afecto e na compreensão do mundo da criança, opondo-se assim ao sistema tradicional de aprendizagem através da memorização. Para ele o ensino deveria ser feito através de experiências concretas.

Inspirado por Pestalozzi, amigo de seu

sentido

de

criar

um

ambiente

á

sua

volta

pai, Fellenberg foi um pedagogo suíço

propicio

ao

seu

desenvolvimento

e

que defendeu o ensino da economia

Teorias

reprodução.

 

rural. Para ele o trabalho manual devia

Rosseau afirmava que “É necessário oferecer um aprendizado sobre a necessidade e evitar as influências da opinião dos outros”.

servir ao mesmo tempo à formação

intelectual

     

Criou uma escola em Hoffwyl onde,

além de ensinar economia rural,

Com a invasão francesa na Suíça, muitas crianças ficaram abandonadas. Pestalozzi reuniu-os num convento e educou-os segundo os seus ideais.

praticava a agricultura, e onde tinha uma

A

destacar, a sua obra

carpintaria e serralharia para construção

Acções

Emílio publicada em 1762,

na

qual apresenta as suas

de instrumentos agrícolas.

teorias sobre a educação.

Fazia também distribuição de sopa a

 

todos os necessitados que iam aprender

serviços rurais.

 

Discurso sobre as Ciências e as Artes”;

   

“Discurso sobre a origem da desigualdade”;

“The Evening Hours of a Hermit”;

Obras

“Leonard and Gertrude”;

“Discurso sobre a Economia Política”

“How Gertrude Teaches Her Children”

“Emílio”;

 

“Do Contrato Social”.

 
 

Apesar de ter tratado o tema da educação, Rosseau abandonou os seus 5 filhos.

As ideias pestalozianas foram implementadas na América por um dos assistentes de Pestalozzi, Joseph Neef, que mais tarde iria leccionar em New Harmony, Indiana.

Foi considerado o melhor cidadão da sua

Curiosidades

pátria.

26

iria leccionar em New Harmony , Indiana. Foi considerado o melhor cidadão da sua Curiosidades pátria.

4.2- O caso de Friedrich Frœbel

4.2- O caso de Friedrich Frœbel Vivência Filho de um pastor protestante, Friedrich Fr œ bel

Vivência

Filho de um pastor protestante, Friedrich Frœbel nasceu em Oberweissbach, no sudeste da Alemanha, em 1782. Adotado por um tio, viveu uma infância solitária, em que se empenhou a aprender matemática e a explorar as florestas perto de onde morava. Após cursar informalmente algumas matérias na Universidade de Jena, tornou-se professor e ainda jovem fez uma visita à escola do pedagogo Johan Heinrich Pestalozzi em Yverdon, na Suíça. Fundou sua primeira escola em 1816, na cidade alemã de Griesheim. Dois anos depois, a escola foi transferida para Keilhau, onde Froebel pôs em prática suas teorias pedagógicas. Em 1826, publicou o seu livro mais importante, “A Educação do Homem.” Em 1851, confundindo Frœbel com um sobrinho esquerdista, o governo da Prússia proibiu as actividades dos jardins-de- infância. O educador morreu no ano seguinte mas, os jardins-de-infância rapidamente

se

espalharam pela Europa e pelos Estados Unidos.

 

Frœbel considerava a Educação Infantil indispensável para a formação da criança – e

essa idéia foi aceite por grande parte dos teóricos da educação que vieram depois dele.

O

objetivo das actividades nos jardins-de-infância era possibilitar brincadeiras criativas.

Método

As atividades e o material escolar eram determinados de antemão, para oferecer o máximo de oportunidades de tirar proveito educativo da actividade lúdica. As brincadeiras previstas por Frœbel eram, quase sempre, ao ar livre para que a turma interagisse com o ambiente. Para Frœbel, era importante acostumar as crianças aos trabalhos manuais. A actividade dos sentidos e do corpo despertariam o “bichinho” do trabalho, que, segundo o educador alemão, seria uma imitação da criação do universo

por Deus.

de

Frœbel

Crença

Para Frœbel, a natureza era a manifestação de Deus no mundo terreno e expressava a unidade de todas as coisas. Isso tudo levava ao princípio de que a educação deveria trabalhar os conceitos de unidade e harmonia, pelos quais as crianças alcançariam a própria identidade e a sua ligação com o eterno. A importância do autoconhecimento não se limitava à esfera individual, mas seria ainda um meio de tornar melhor a vida em sociedade. Além do misticismo e da unidade, a natureza continha, de acordo com Frœbel, um sistema de símbolos conferido por Deus. Era necessário desvendar tais símbolos para conhecer o que é o espírito divino e como ele se manifesta no mundo.

de

Frœbel

A

criança, segundo o educador, trazia em si a semente divina de tudo o que há de

melhor no ser humano. Cabia à educação desenvolver esse “bichinho” e não deixar

 

que se

Frœbel adoptava, assim, a ideia contemporânea do "aprender a

aprender". Para ele, a educação se desenvolve espontaneamente. De modo geral, a pedagogia de Frœbel pode ser considerada como defensora da liberdade.

Ilações

Frœbel defendia a educação sem imposições às crianças porque, segundo a sua teoria, elas passam por diferentes etapas de capacidade de aprendizagem, com características específicas. Frœbel não fez a separação entre religião e ensino, consagrada actualmente, mas via a educação como uma actividade em que escola e família caminham juntas, outra característica que o aproxima da prática contemporânea.

finais

27

em que escola e família caminham juntas, outra característica que o aproxima da prática contemporânea. finais

4.3- Fábrica de Fiação e tecidos de Santo Tirso

1893

Foi nesta data, no dia 26 de Março que o Conde de São Bento morreu e deixou

sua vontade expressa em testamento da construção de um estabelecimento fabril na vila de Santo Tirso.

a

1894

A Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso ficava encarregue de executar a disposição testamentária referente à construção da fábrica de tecidos na vila planeada pelo Conde de São Bento.

1896

Iniciou-se a construção da fábrica.

1897

A

Fábrica já se encontra em funcionamento, tecendo panos crus, riscados e

fazendas.

1898

Tendo sido oficialmente inaugurada nesta data, as obras da construção da fábrica prologaram-se até 1900.

1898

A

chegada da primeira máquina a vapor que produzia energia suficiente para o

funcionamento de vários teares da fábrica.

1903

Foi alargada a produção ao sector da fiação, adaptando-se posteriormente às operações de acabamentos e tinturaria.

1900

Instalação de luz eléctrica no perímetro da fábrica.

1906

Este estabelecimento adopta a designação de “Fábrica de Fiação e Tecidos de Santo Tirso, Lda.”. Com o passar dos anos o número de trabalhadores foi aumentando consideravelmente. Em meados do século, a fábrica já contava com cerca de 1500 operários.

1908

D. Manuel II visita a fábrica de Santo Tirso. Esta visita revela a importância que este estabelecimento tinha alcançado no início do século.

1908

Neste período da industrialização algodoeira do concelho, este estabelecimento transformou-se numa escola, fornecendo formação aos seus empregados e servindo de exemplo para a criação de outras fábricas.

1990

Encerramento da “Fábrica de Fiação e Tecidos de Santo Tirso, Lda.”.

28

a criação de outras fábricas. 1990 Encerramento da “Fábrica de Fiação e Tecidos de Santo Tirso,

Fábrica de Fiação e tecidos de Santo Tirso

A “Fabrica de Tecidos de Santo Tirso”, somente tecelagem no início, surge no cruzamento de

interesses de uma burguesia têxtil, dos conhecimentos técnicos da época e da oportunidade para se construir um estabelecimento fabril na vila de Santo Tirso pela vontade expressa em testamento, do Conde de S. Bento.

No testamento de Manuel José Ribeiro, Conde de S. Bento o benemérito tirsense deixa um legado destinado à construção na vila de Santo Tirso de uma fiação de algodão.

Após a sua morte, o seu testamentário José Luís de Andrade, lega todos os bens à Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso.

Será esta instituição a encarregada de executar a disposição testamentária referente ao estabelecimento da fábrica. O processo tem início durante o ano de 1894 através de concurso público.

Do regulamento do concurso constava a obrigatoriedade da nova fábrica empregar 50 trabalhadores, preferencialmente de Santo Tirso e ainda que o investimento da sociedade no capital social da empresa fosse pelo menos de 20.000$00 reis. Cumpridos estes requisitos, iniciou-se a construção da fábrica, em 1896.

Em 1897 já se encontra a laborar, tecendo panos crus, riscados e fazendas. Tendo sido oficialmente inaugurada em 1898 as obras de construção irão prologar-se até 1900. Em 1903 alarga a produção ao sector da fiação, adaptando-se posteriormente às operações de acabamentos e tinturaria.

Em 1906 este estabelecimento adopta a designação de “Fábrica de Fiação e Tecidos de

Santo Tirso, Lda.”. No final de oitocentos, após poucos anos de funcionamento contava com 400 trabalhadores, número que viria a crescer, empregando 1500 trabalhadores em meados do século, alcançando 2000 trabalhadores pouco antes do seu encerramento em

1990.

A

fábrica de Santo Tirso recebeu várias visitas ilustres, das quais se destaca a de D. Manuel

II

em 1908. Esta visita revela a importância que este estabelecimento tinha alcançado no

início do século.

Fábrica de características modernas neste período da industrialização algodoeira do concelho, transformou-se numa escola, fornecendo formação aos seus empregados e servindo de exemplo para a criação de outras fábricas.

29

numa escola, fornecendo formação aos seus empregados e servindo de exemplo para a criação de outras
Salão de tecelagem – final do séc. XIX Antigo salão de tecelagem com os teares

Salão de tecelagem – final do séc. XIX

Antigo salão de tecelagem com os teares para produção de riscados e “zephires”. Pode- se observar um pormenor da linha de eixo que tocava as várias máquinas por transmissão aérea.

que tocava as várias máquinas por transmissão aérea. Central termoeléctrica – foto do final do século

Central termoeléctrica – foto do final do século XIX

A fábrica recorreu desde o início à energia termoeléctrica como fonte privilegiada, para

o funcionamento de várias máquinas. Data de 1898 o primeiro registo de uma máquina

a vapor com destino a este estabelecimento, produzindo antes do virar do século

energia suficiente para o funcionamento de vários teares. Procederá em 1900 à instalação de luz eléctrica no perímetro da fábrica. Pode-se observar na fotografia a primeira máquina a vapor de cilindro horizontal.

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no perímetro da fábrica. Pode-se observar na fotografia a primeira máquina a vapor de cilindro horizontal.

5- Síntese

Efectivamente, o Conde de S. Bento foi um grande impulsionador e factor de desenvolvi- mento da vila, actualmente cidade, de Santo Tirso. Destacou-se pelas diversas acções que efectuou quer a nível social, quer a nível económico. Desde muito jovem, Manuel José Ribeiro, o Conde de S. Bento, começou por viajar, sendo a sua primeira viagem efectuada ao Brasil, quando tinha apenas onze anos, depois de receber alguma formação ou instrução na sua escola.

De facto, a vida fora do país não foi fácil para o jovem, pois foram muitas as adversidades que lhe foram surgindo ao longo do tempo, desde o assalto ao navio em que embarcava até

às muitas dificuldades que teve para fazer fortuna.

Após 56 anos fora de Portugal, dos quais viajou pelo continente europeu e americano, em

busca de ideais e decerto fortuna, o Conde de São Bento regressou ao seu país e instalou-se definitivamente na vila de Santo Tirso. Com o auxílio do seu sobrinho, José Luís de Andrade, transferiu para Portugal a grande fortuna que possuía no Brasil. Depois de se instalar definitivamente em Santo Tirso, o Conde começou a implementar as suas ideias e projectos que tinha em mente, fruto dos conhecimentos e experiência adquirida nas viagens. Assim sendo, começou por adquirir a quinta do mosteiro de Santo Tirso. De seguida, o Conde mandou construir na vila uma escola prática de agricultura, planeada e mobilada por si que visava receber órfãos e abandonados do concelho, aos quais seria ministrado mais tarde o ensino primário agrícola. Em 1892, passou a designar-se Escola Profissional Agrícola Conde de S. Bento.

O Conde fundou ainda um hospital, restaurou a capela do Senhor dos Passos, assegurou as

despesas do culto, e cedeu vastos terrenos da sua quinta à Câmara Municipal da Vila, para a construção de novas ruas. Após a morte do Conde de São Bento, em 1893, foi ainda construída em Santo Tirso uma Fábrica de Fiação, concretizando-se assim um dos seus objectivos firmados em testamento.

A Santa Casa da Misericórdia foi a instituição que ficou encarregue de executar a construção da fábrica que foi inaugurada em 1898. Com o passar do tempo a fábrica foi evoluindo e o número de trabalhadores foi aumentando ano após ano. Em conclusão, entendemos que o Conde de São Bento teve indubitavelmente um grande contributo para o crescimento de Santo Tirso, que hoje recorda com grande saudade e gratidão esta emblemática figura da cidade.

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para o crescimento de Santo Tirso, que hoje recorda com grande saudade e gratidão esta emblemática

Quadro comparativo entre os Socialistas Utópicos e o Conde de S. Bento

Quadro comparativo entre os Socialistas Utópicos e o Conde de S. Bento 32

32

Quadro comparativo entre os Socialistas Utópicos e o Conde de S. Bento 32

6- Bibliografia:

DIAS, José Amadeu Coelho, O Conde de S. Bento: um avense benfeitor de Santo Tirso. In “Sétimas Jornadas Culturais de Vila das Aves”. Vila das Aves: Fábrica da Igreja de S. Miguel das Aves,

1993.

PEREIRA, Maria Manuela Prior Caldas, Conde de S. Bento, Nome Ilustre de Santo Tirso, S. Tirso, Câmara Municipal, 1984

PIMENTEL, Alberto, Santo Thyrso de Riba d'Ave, Santo Tirso, Club. Thyrsense, 1902

SANTOS, Eugénio dos, (dir.), Os Brasileiros de Torna-Viagem no Noroeste de Portugal. Catálogo da Exposição, Lisboa, C.N.C.D.P., 2000.

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, (dir.), Os Brasileiros de Torna-Viagem no Noroeste de Portugal. Catálogo da Exposição , Lisboa, C.N.C.D.P.,

ANEXOS

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ANEXOS 34

Dossier Iconográfico

Dossier Iconográfico 35
Dossier Iconográfico 35
Dossier Iconográfico 35
Dossier Iconográfico 35
Dossier Iconográfico 35

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Dossier Iconográfico 35