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A EXPERIÊNCIA DO AMBIENTE NA PRESERVAÇÃO DO SÍTIO HISTÓRICO DE PARNAÍBA

Diva Maria Freire Figueiredo

Mestre MDU/UFPE; Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN-PI); professora do curso de Arquitetura e Urbanismo do Instituto Camillo Filho –Teresina-PI.

Circe Maria Gama Monteiro

D. Phil Oxford-UK; professora do programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano-UFPE.

Resumo

Esta pesquisa foi desenvolvida por se considerar a importância da ótica dos habitantes na apropriação da cidade e na seleção do que e do como preservar. Considerar a ótica dos habitantes, além da ótica dos profissionais da área, é importante para que o tombamento e outros instrumentos de proteção dos sítios históricos sejam incorporados pela população. Com o pressuposto de que o comportamento depende da imagem, a investigação explora variadas formas de apreensão do espaço construído do sítio histórico de Parnaíba, cidade antiga do litoral do Piauí, surgida durante o apogeu da economia do gado no nordeste brasileiro. Imagens e anseios de preservação ou transformação desse espaço, nas visões dos habitantes e de arquitetos especialistas em patrimônio, são estudados por suas representações das edificações. Utilizando a teoria das representações sociais, de Moscovici, como base teórica, a teoria das facetas e as classificações múltiplas, no desenho da investigação, e técnicas multidimensionais MSA e SSA nas análises dos dados, foram caracterizadas duas visões da preservação dos sítios históricos. Essas visões, previstas na hipótese da pesquisa – visão leiga, baseada na experiência, e visão técnica, na doutrina patrimonial – são ambas fortemente influenciadas pela época das edificações. As projeções produzidas pela técnica multidimensional SSA, ao se compararem os perfis dos grupos de respondentes dois a dois, também permitiram, através de uma análise de contigüidade regional, avaliar-se a extensão social do conceito de preservação. Uma das projeções tornou evidente a formação de duas regiões bem distintas – de um lado, a visão técnica, mais coesa; do outro, a visão leiga, mais diversificada –, ambas bastante coerentes com os perfis dos respectivos grupos de respondentes que representam. Esse resultado pode ser interpretado como representações de dois julgamentos sobre a preservação, baseadas em realidades também distintas: uma baseada no conhecimento ou saber técnico, outra fundamentada na experiência do ambiente. Todas as representações evidenciadas devem ser interpretadas como valores que enriquecem o processo de preservação e incorporadas às políticas oficiais, tornando a decisão quanto a que preservar mais democrática, e as representações do passado, a serem legadas às gerações futuras, identificadas com os diferentes grupos da sociedade brasileira.

Palavras-chave:

preservação.

patrimônio

cultural;

representações

sociais;

n. 34

2008

p. 119-142

Abstract

This research was developed for considering the importance of inhabitants' point of view about the appropriation of the city and about the choice of what and how to preserve. Considering the inhabitants' point of view, besides the point of view defended by the professionals of the area, is important to the protection's instruments of the historical heritage are incorporated by the people. Assuming that behaviour depends on image, the investigation explores different forms of apprehension of the building within the historical site of the town of Parnaíba, an old city on the coast of the state of Piauí, which grew at the time when the cattle trade in the Brazilian Northeast was at its peak. The study examines both the images and the desires for the preservation or transformation of the said area in the view of the town's inhabitants and of patrimony specialized architects, through their representations of the buildings. By applying Moscovici's Theory of Social Representations as a theoretical basis, Facet Theory and Multiple Classification for the research design, and MSA and SSA Multidimensional Techniques for the analysis of the data, it was possible to identify two views of the preservation of the historical sites. These views which had been hypothesized at the onset of the project, namely a lay view based upon experience and a technical view based on patrimonial doctrine, are both strongly influenced by the date of the buildings. The projections produced by the technical multidimensional SSA, when comparing the profiles of the three groups of investigated subjects - inhabitants of the Avenue, others inhabitants and specialist architects, two to two, also allowed, through an analysis of regional contiguity, to evaluate the social extension of the preservation concept. One of the projections turned evident the formation of two very different areas: on a side, the technical, more similar vision, of the other, the diversified lay vision; both quite coherent ones with the profiles of the respective groups of investigated subjects. This result can be interpreted as representations of two judgments about the preservation, also based on realities different: one based on the knowledge or technical knowledge; another based in the experience of the environment. All the evidenced representations should be interpreted as values that enrich the preservation process and also incorporated to the official politics, turning the decision with relationship to that to preserve

 
more democratic and the representations of the past will be
more democratic and the representations of the past will be

more democratic and the representations of the past will be

   
delegated to the future generations, identified with the different

delegated to the future generations, identified with the different

   

groups of the Brazilian society.

 
more democratic and the representations of the past will be delegated to the future generations, identified
   

Keywords: cultural heritage; social representations; preservation.

 
more democratic and the representations of the past will be delegated to the future generations, identified
   
     
 
more democratic and the representations of the past will be delegated to the future generations, identified
     
   

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Introdução

A prática da proteção de bens culturais no Brasil, iniciada ainda na década de 1930, esteve sempre dissociada de uma participação efetiva das comunidades diretamente afetadas pelas ações empreendidas pelos órgãos oficiais. As iniciativas de proteção eram, em sua grande maioria, desencadeadas e ultimadas por intelectuais que viam o patrimônio como expressão da própria nação.

Para seus mentores, ressalta Fonseca (1997, p.12), a legitimidade dessa prática protecionista, além de assentar-se no valor simbólico da nacionalidade, assenta-se também em valores culturais atribuídos a partir de critérios formulados por determinadas disciplinas, como a arte, a história, a arquitetura, a arqueologia e, recentemente, a etnologia e a antropologia. Na verdade, trata-se de uma ação, praticada por intelectuais, ligada ao domínio de algumas áreas do saber e que pressupõe dos usuários o conhecimento dos códigos dessas disciplinas; enfim, valores simbólicos com os quais um grupo muito reduzido da população brasileira se identifica.

Obter um melhor entendimento dos conceitos de sítio histórico e de preservação entre habitantes e técnicos da área, através dos valores associados à imagem que as pessoas possuem desse sítio, ou seja, das suas representações sociais, foi o objetivo da investigação de Figueiredo (2001), cujos resultados parciais serão aqui demonstrados. Particularmente, como o tema deste artigo sugere, interessa-nos discutir os resultados referentes à extensão social das representações da preservação junto à população da pesquisa, que evidenciou o importante papel da experiência do ambiente na formação do conceito de preservação entre os habitantes.

Como recorte espacial da investigação, a Avenida Presidente Vargas representava a diversidade física e funcional do sítio histórico de Parnaíba, núcleo urbano originado no século XVIII, com algumas características que auxiliaram a consecução do objetivo proposto. Parnaíba possui um sítio histórico com a particularidade de condensar diversos períodos históricos e configurações urbanísticas em uma área pouco extensa, estruturado por essa avenida central. Adicionava-se a isso o fato de esse sítio não ser reconhecido oficialmente, exceto pelo tombamento estadual de um pequeno trecho portuário às margens do rio

 
 
Como recorte espacial da investigação, a Avenida Presidente Vargas representava a diversidade física e funcional do
Como recorte espacial da investigação, a Avenida Presidente Vargas representava a diversidade física e funcional do

Igaraçu, o que tornava os habitantes da avenida, por pressuposto, menos

   
Igaraçu, o que tornava os habitantes da avenida, por pressuposto, menos

influenciados pelas posturas dos especialistas em patrimônio.

   

As iniciativas de proteção ao conjunto arquitetônico de Parnaíba partiram

 
As iniciativas de proteção ao conjunto arquitetônico de Parnaíba partiram
   

de tímidas iniciativas oficiais, de caráter eminentemente técnico, e não contaram

 
de tímidas iniciativas oficiais, de caráter eminentemente técnico, e não contaram

com um mínimo de envolvimento da população local, como um instrumento de

   
     

pressão política. As realizações do inventário e de um estudo de proteção para o

pressão política. As realizações do inventário e de um estudo de proteção para o

sítio histórico por Silva (1997) não trouxeram resultados efetivos, por carecerem do

     

interesse do poder público local e da comunidade.

   

A estagnação do crescimento econômico de Parnaíba não agiu a favor da permanência dos padrões de ocupação que consolidaram o sítio histórico. Por outro lado, agiu na imobilização dos habitantes em relação ao reconhecimento desse sítio como seu “lugar”, algo que lhes pertencia ou que lhes dizia respeito, lugar de vivência afetiva.

As limitações e a perda de eficácia das propostas de preservação até o momento efetivadas pelos órgãos oficiais decorrem de não se terem considerado as perspectivas dos usuários desse sítio assim como do desconhecimento de quais eram essas perspectivas e se elas referendavam a preservação. Deve-se considerar que os usuários, moradores e demais pessoas que ali desenvolviam

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atividades cotidianas não constituíam um coletivo único e homogêneo; representavam setores da sociedade com interesses e aspirações – sobre essa área – de ordem muito diversa.

A fim de se evidenciarem os aspectos pertinentes à escolha do tecido urbano de Parnaíba, situado ao longo da Avenida Presidente Vargas, contexto empírico da pesquisa, as questões relativas ao seu sítio histórico são abordadas sob uma perspectiva histórica. Essa abordagem culmina com a análise das forças que atuam sobre o tecido urbano tradicional, de mudança e de permanência, sobre sua forma e a forma das suas edificações.

O sítio histórico de Parnaíba

Núcleo de origem: surgimento e formação da vila

A cidade de Parnaíba, o mais importante centro urbano da região norte do estado do Piauí, teve origem na vila de São João do Parnaíba, fundada em 1762, por João Pereira Caldas, governador da então capitania de São José do Piauí, obedecendo à ordem específica da Carta Régia de 1761, que criava sete vilas em território piauiense, a partir de povoações já existentes, e elevava Oeiras à condição de sede da capitania.

1

Essa carta, segundo Delson (1979), se inseriu no quadro das medidas adotadas pela Coroa portuguesa para solucionar a ocupação das terras do nordeste brasileiro. Um programa planejado de construção de vilas seria uma maneira de proteger a colônia contra ataques espanhóis e estabelecer a autoridade da Coroa em um sertão dominado pelos interesses de latifundiários, desbravadores em conflitos permanentes com os índios e que se consideravam senhores das terras descobertas. O sertão do Piauí, por ser uma alternativa lógica à comunicação marítima entre os núcleos urbanos de São Luís e de Salvador, difícil e dispendiosa, foi escolhido para o primeiro experimento de planificação urbana no Brasil.

Em 1716, debelada a rebelião dos índios e amenizados os ânimos dos latifundiários, as autoridades locais do Piauí receberam as leis de planejamento que forneciam instruções para a fundação de duas vilas: a da Mocha, atual Oeiras, e outra

a ser construída na confluência dos rios Longá e Piracuruca, que mais tarde teria

originado Piracuruca. Contudo, nesse ponto, a pesquisadora acima citada reproduz

um engano da obra de Thedim Barreto, que interpreta a Carta Régia de 1761 como

sendo de 1716. A primeira faz uma série de recomendações de ordem urbanística e é

reproduzida no início da sua obra; a segunda, na realidade, não existiu.

O esclarecimento desse equívoco altera a cronologia das experiências

de planejamento urbano nos territórios do Piauí e do Ceará, invertendo as posições

da pesquisadora. As experiências iniciadas com a criação da vila de Aracati, em

1748, é que vão criar um modelo, aperfeiçoado pela Carta Régia de 1755, que cria a vila de São José do Rio Negro, e recomendado pelos portugueses nas demais iniciativas de planificação urbana daí para frente (Delson, 1979, p.24-56). Com o tempo, as disposições legais quanto à criação de vilas tenderam a se tornar mais exigentes, ao contrário de se tornarem mais flexíveis em Aracati, depois da experiência iniciada na vila da Mocha, defendida pela autora.

A fórmula iniciada por Aracati e aperfeiçoada pelo planejamento da vila de São José do Rio Negro foi tão bem-sucedida que suas leis de criação foram tomadas como as de uma cidade-modelo. Implantou-se, com essas experiências, a nova política de planificação, que se expandiu para as vilas das outras regiões do país, durante o século XVIII – inclusive para o Piauí –, através da Carta Régia de 1761.

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Sempre com o objetivo de impor a autoridade da Coroa, essa política se tornou mais rígida quanto à uniformidade do traçado e das casas. O planejamento contido nas ordens de 1761 previa fundar-se a vila a partir da paróquia pré-existente e reunirem-se os moradores da região para decidirem sobre localização da praça central – no centro da qual deveria se construído o pelourinho –; indicava a área para a construção da igreja matriz, da câmara, da cadeia e de outros órgãos com funções municipais; instruía para que se construísse um loteamento residencial retilíneo; e exigia que todas as moradias tivessem o mesmo estilo de fachada, a fim de se imprimir uma aparência harmoniosa ao traçado urbano.

A regularidade do traçado urbano e a uniformidade das casas tinham o objetivo de transmitir a impressão de autoridade estabelecida e era, sem dúvida, a reiteração da autoridade da Coroa que se pretendia obter com a instauração do novo povoamento. Surgia, então, no Brasil, o modelo de povoamento subsidiado pelo Reino, segundo uma série de normas e preceitos.

Para Barreto (1975, p.197), as instruções quanto ao desenho urbano das novas vilas foram sempre seguidas. O autor exemplifica sua afirmação citando as providências tomadas pelo governador, em 20 de dezembro de 1762, de remeter à câmara do Senado uma planta para regular o arruamento da vila de São João da Parnaíba e de, posteriormente, ter baixado ordens enérgicas a fim de se restabelecer a edificação de casas e efetivar-se a vila no local determinado.

Tais providências foram tentativas mal sucedidas do governo português de impor o estabelecimento da vila em local pouco propício ao seu crescimento, ficando fadado ao desaparecimento, por contrariar uma tendência local. Repetiam-se as circunstâncias verificadas na criação das vilas de Fortaleza e Aquiraz, no Ceará. De fato, em 1770, a vila de São João da Parnaíba, implantada no pequeno lugarejo de Testa Branca, foi transferida para o Porto das Barcas, feitoria próspera dominada pelas charqueadas, localizada às margens do rio Igaraçu, um dos braços com que o rio Parnaíba forma seu delta para lançar-se no Atlântico.

Testa Branca era uma localidade de somente quatro fogos, oito moradores livres e onze escravos, enquanto o Porto das Barcas era mais povoado, contando com estabelecimentos comerciais, armazéns e casas para oficinas. Sendo muito próximo da povoação, havia o inconveniente da insalubridade provocada pelo preparo da carne e o do processamento da sola. A escolha de Testa Branca pelas autoridades foi conseqüência da busca de um local mais salubre, preocupação que já se tornara habitual entre os portugueses, mas o aspecto econômico, visado pela indústria e o comércio, acabaria por predominar na efetivação da escolha do local político e administrativo.

O Porto das Barcas tem sua história ligada à figura de Domingos Dias da Silva, rico português que se instalou na região em meados do século XVIII, vindo do sul da colônia, e que se tornou proprietário de fazendas, charqueadas e várias embarcações que faziam o comércio entre a capitania e outros portos brasileiros. Além do comércio que mantinha com o Pará, o Maranhão, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, Domingos Dias da Silva exportava, anualmente, toneladas de charque para a Europa. Como conseqüência do poder econômico herdado dele, seus descendentes também desempenharam papel influente na história político- administrativa da capitania.

Segundo Mott (1985), dentre os documentos do século XVIII consagrados ao Piauí que eram conhecidos até aquela data, o relatório do ouvidor-mor Antônio José de Morais Durão, intitulado “A Descrição da Capitania de São José do Piauí”, de 1772, é o mais completo e traz informações preciosas sobre a vida socioeconômica sertaneja. Por alguns trechos, pode-se depreender que a vila denotava certa prosperidade, devido ao intenso movimento de exportação para vários portos, do norte e do sul do país. Era um empório comercial com uma estrutura urbana

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consolidada, merecendo destaque a igreja matriz, que, embora sem cobertura, era uma edificação sólida de cantaria, com linhas magníficas, na qual foram gastos 200 contos de réis (Mott, 1985, p.30-31).

Por outro lado, parte da descrição da vila destaca-lhe a insalubridade apontando como causa a proximidade dos abatedouros e curtumes. Tal fato explicava a preocupação dos administradores portugueses com a instalação de currais e matadouros longe das casas, decisão anteriormente tomada na criação da vila de Aracati, no Ceará. Ao mesmo tempo, evidenciava que as prescrições do modelo adotado como protótipo do desenvolvimento urbano, sancionado pela Coroa, nem sempre prevaleceu sobre as razões e os costumes locais.

Nunes (1975) também faz referência a outro documento, de 1775, deixado pela Junta Trina que governou o Piauí durante 22 anos, destacando o crescimento econômico de Parnaíba entre as vilas criadas em 1762, em obediência à Carta Régia de 1761:

“Igualmente devemos noticiar a V. Exa. que das seis vilas desta Capitania, criadas no ano de 1762, só a de S. João da Parnaíba, fundada na margem oriental do braço do Igaraçu, tem tido aumento e promete cada vez mais não só pelo negócio do porto de mar que se lhe introduziu, senão também pelas fábricas e manufaturas com que se acha; as mais estão no mesmo estado em que se lhes deu aquele nome, conhecendo-se unicamente por vilas em razão de terem Pelourinho, ou um pau cravado na terra a que se deu aquele apelido” (Nunes, 1975, p.129).

2

Dois mapas de Parnaíba referentes a esse período dão fundamentos para a análise da formação e do crescimento da vila.

Figura 1. Mapa Exacto da Villa de S. João da Parnaíba, de 1798.

consolidada, merecendo destaque a igreja matriz, que, embora sem cobertura, era uma edificação sólida de cantaria,

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A planta de 1798 (Figura 1) apresenta um tecido urbano às margens de um curso d'água, próximo à confluência com outros cursos de maiores proporções. Esse povoado é formado por 44 quadras retangulares, de diversas dimensões, distribuídas em volta de um grande largo quadrangular em cujo centro se destaca a presença do pelourinho. Duas igrejas são reconhecíveis nos desenhos rebatidos das fachadas. Uma via que nasce à beira do rio segue perpendicular, tangenciando

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o largo, na direção leste, percorrendo toda a extensão da malha urbana. Do outro lado do rio, é marcante a indicação da direção norte.

Através dessas representações, se reconhece o rio Igaraçu no curso d'água mais estreito, a Praça da Graça como logradouro central, as igrejas N. S. das Graças e N. S. do Rosário, a antiga Rua Grande – que sai da beira do rio – e as ruas adjacentes. O núcleo inicial da vila é delimitado por essa via, atual Presidente Vargas – ao norte – e pelas atuais Marques Herval – ao sul –, Conde D'eu – a oeste – e Almirante Gervásio Sampaio – a leste.

Figura 2. Mapa de 1809, encomendado por Carlos Cezar Burlamarqui, Governador da Capitania do Piauhy, a Ioze Pedro Cezar Menezes.

o largo, na direção leste, percorrendo toda a extensão da malha urbana. Do outro lado do

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No mapa de 1809 (Figura 2), de onze anos depois, a configuração da cidade é praticamente a mesma, à exceção do aparecimento de uma segunda praça, com a indicação do pelourinho. Nesse documento, mas especialmente na perspectiva aérea que o complementa, em que o observador foi colocado do outro lado do rio Igaraçu, distinguem-se os prédios da Matriz N. S. das Graças, representada de lado, e da Igreja N. S. do Rosário, pelo fundo. Além dessas duas edificações, sobressaem-se outros prédios remanescentes, cujo destaque é dado pelo número de pavimentos e/ou por figurarem nos primeiros planos da perspectiva. São eles: o sobrado de Simplício Dias; o sobrado do Mirante, cujo pátio interno apresenta o desenho de uma forca; e uma única capela, situada entre a praça e o porto. Essa teria sido a primeira capela da localidade, da época em que

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Porto das Barcas era ainda uma feitoria, à qual alguns historiadores fizeram

referência. A maneira como a vila é retratada, de uma visão que parte do rio, revela

a sua primazia como ponto de referência da localidade. O rio é o elemento de

ligação com outros centros, a porta de entrada de gêneros e pessoas, o meio de

comunicação e de transporte, propiciando a troca de mercadorias.

Na perspectiva, destaca-se um sobrado, localizado do outro lado da

Praça da Graça, de frente para a igreja matriz, o qual, pelas proporções do desenho

se aproxima, à primeira vista, a uma casa térrea. Trata-se de um dos dois indícios

da localização da Casa de Câmara e Cadeia, construída em 1775; o outro é a

presença da forca no pátio do sobrado do Mirante, mas sua localização em uma rua

adjacente à praça principal, e não nesse logradouro, como era usual, deixa dúvida

a respeito disso. Quanto ao pelourinho, outro importante símbolo da autoridade

portuguesa, que devia ser construído no meio da praça central, observa-se que sua

localização é representada de forma diferente nesses dois documentos. Enquanto,

no mapa de 1798, ele é colocado no centro da praça principal, ladeado pelas duas

igrejas, nos documentos de 1808 aparece no centro de uma praça localizada mais

ao sul, separada da primeira por uma quadra.Os dois mapas foram elaborados

alguns anos após a instalação da vila de Parnaíba. Pelos relatórios aqui citados,

esta já se mostrava bastante aumentada e economicamente promissora, devido ao

comércio marítimo, às fábricas e manufaturas ali instaladas, quando comparada às

vilas do interior. De fato, a presença de alguns sobrados na perspectiva de 1809 é

um indício de certa prosperidade, embora a maioria das edificações representadas

se caracterize pela simplicidade construtiva. No contexto da época, a posição

social mais elevada do proprietário era caracterizada pelo sobrado, de piso

assoalhado, distinguindo-o do habitante da casa térrea, de chão batido.

A produção e o uso da arquitetura dos núcleos urbanos coloniais baseavam-

se no trabalho escravo, e a vila de São João da Parnaíba, como as demais do século

XVIII, era limitada pelo nível tecnológico primário, baseado nesse tipo de mão-de-obra.

Tinha dimensões reduzidas e se apoiava no mundo europeu e no mundo rural

circundante para a solução de seus problemas de abastecimento. As ruas

apresentavam um aspecto uniforme, com casas térreas e assobradadas, construídas

sobre o alinhamento das vias públicas e sobre os limites laterais dos terrenos. Essas

características decorriam das antigas tradições urbanísticas de Portugal, transmitidas,

entre outras formas, pelas disposições legais, como se verificou no Piauí.

Porto das Barcas era ainda uma feitoria, à qual alguns historiadores fizeram referência. A maneira como

Os dois mapas acima referidos se constituem em levantamentos de

épocas diferentes, produzidos em um intervalo de onze anos, e fatores locais,

como os que determinaram a escolha da sede da vila, podem ser a explicação para

uma mudança na localização do pelourinho no transcorrer desses anos. Embora

nem todas as disposições fossem cumpridas, a formação do centro urbano de São

João da Parnaíba obedece, em linhas mais gerais, ao modelo traçado pela Carta

Régia de 1761, quanto ao desenho urbano, uma das primeiras ordens de uma série

a tratar do controle do desenvolvimento urbano na colônia. As ordens dessa carta

  • demarcação em linha reta, ou à régua, dos lotes destinados a residências,

não prescreviam dimensões definidas para a praça central nem para a largura das

ruas, como ocorrera em legislações posteriores. Mas as instruções insistiam na

garantindo disposição ordenada e em alinhamento às moradias e a adoção do

mesmo estilo nas fachadas das casas, para se obter uma impressão de

uniformidade e uma vista de conjunto harmoniosa: “[

...

]

o objetivo era criar uma

comunidade de aparência ordenada que logo à primeira vista desse a impressão

de que havia uma autoridade estabelecida” (Delson, 1979, p.19).

Expansão urbana

Vimos que o comércio se instala como ponto forte da economia da vila de

Parnaíba na segunda metade do século XVIII, tendo como base de escoamento

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das mercadorias a navegação fluvial e marítima, que recebeu considerável impulso

com a criação da alfândega em 1822, por D. João VI. Em 1844, Parnaíba foi

elevada à categoria de cidade, constituindo-se em um dos principais pólos

econômicos do estado.

No início do século XX, a vocação comercial exportadora, inicialmente

marcada pela produção do charque e, depois, do algodão, do fumo, do couro e de

sementes de origem extrativista, cresce, com o comércio internacional da cera de

carnaúba, de amêndoas e de óleos. Tal vocação, associada à localização

estratégica, fez de Parnaíba a única cidade do Piauí a manter permanente contato

tanto com a cultura européia e a do sul do país, durante os séculos XVIII e XIX, e

com a americana, durante o século XX, quanto com a cultura agreste do interior do

estado. O contato com o interior – levando-lhe os produtos industrializados vindos

de fora e escoando os seus produtos – inicialmente era feito pelo transporte fluvial,

mas, posteriormente, na primeira metade do século passado, passou a ser feito

pelo ferroviário e, mais recentemente, depois da década de 1950, pelo rodoviário.

Essa característica fez surgir e foi consolidando, ao longo do tempo, um

sítio histórico singular. Em uma área relativamente pequena do tecido urbano,

coexiste o modelo luso-brasileiro do início da sua formação, no século XVIII, com a

arquitetura oitocentista maranhense e as influências de outras épocas mais

recentes, recebidas de outras praças. O tecido urbano tradicional inicia nas margens

do rio Igaraçu e estende-se por uma área de cerca de 1 Km de extensão, ao longo da

Avenida Presidente Vargas, antiga Rua Grande, até a ferrovia (Figura 3). Durante o

século XIX, a cidade não cresceu ao norte desse eixo, por constituir-se em área

sujeita à inundação, condições ambientais já destacadas por Durão no século XVIII.

Do outro lado, ao sul, contornando a Praça Santo Antônio, foram edificados

exemplares arquitetônicos baseados no ecletismo do início do século XX.

Figura 3. Mapa do IBGE representando o tecido urbano de 1999, ao qual se sobrepôs o traçado do final do século XVIII, mostrado nos mapas de 1798 e 1809.

Legenda: Preto = Tecido urbano do final do século XVIII Cinza claro = Tecido urbano até
Legenda:
Preto = Tecido urbano do final do século XVIII
Cinza claro = Tecido urbano até 1950
Cinza médio = Tecido urbano após 1960
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A partir da década de 1950, com a ênfase crescente no sistema de

transporte rodoviário, a cidade se expande para além desses limites, em

continuidade ao traçado ortogonal, já presente no seu núcleo original. A área de

expansão diferencia-se do tecido tradicional pelas grandes e largas avenidas,

quarteirões maiores e pela forma das construções, presas a padrões construtivos,

técnicos e estilísticos, mais atuais.

O conjunto das edificações mais antigas de Parnaíba, cuja construção e

uso apoiavam-se no regime escravista, está no núcleo original, cujo perímetro é

estabelecido pelo mapa da Figura 3, a maior parte remanescente do século XIX, e

teria sido bem maior, de acordo com Silva (1997). Foi substituído progressivamente

pelo ecletismo do princípio do século XX, em decorrência das relações de

produção e consumo, tornando-se o fator mercantilista determinante na sua

configuração urbanística, desde o seu início. Primeiramente, a substituição foi

provocada pelo crescimento do comércio de exportação e importação, que atinge o

apogeu durante a Segunda Guerra Mundial, e, mais recentemente, por novo surto

de expansão desse setor.

Às margens do rio estão os galpões portuários, construídos em alvenaria

de pedra e cal de conchas, referências dos primeiros tempos. Próximo dali, a cerca

de 300 metros de distância, situa-se a Praça da Graça, com suas duas igrejas

assinaladas em documentos do final do século XVIII, ainda hoje existentes, apesar

de bastante modificadas. No seu entorno, o arruamento, também remanescente do

núcleo original e mais antigo, algumas ruas com sobrados e casas térreas coloniais.

Nessas ruas, os lotes são mais estreitos e profundos e há indicação de um forte

adensamento, conformação típica do parcelamento do solo desse período.

A Avenida Presidente Vargas, antiga Rua Grande, no século XVIII já era a

via de ligação do porto ao núcleo urbano. Ela prossegue seu curso como eixo

estruturador do crescimento da cidade, tornando-se, a partir de então, a essência

do segundo momento urbanístico, que atinge o apogeu no início do século XX e

culmina com a ligação do porto à ferrovia, já na década de 1940.

Planejada em novos padrões, ao gosto estético do início do século,

segundo Silva (1997), a avenida reflete a evolução da arquitetura urbana de

Parnaíba. Na extremidade do rio Igaraçu, prevalece um conjunto de arquitetura

 

luso-brasileira, com alvenaria de pedra e cal, faiança e ferro forjado, mesclada com

   
luso-brasileira, com alvenaria de pedra e cal, faiança e ferro forjado, mesclada com a carnaúba e
 

a carnaúba e a telha vã, adaptadas ao meio e ao clima equatorial. Na extremidade

 
luso-brasileira, com alvenaria de pedra e cal, faiança e ferro forjado, mesclada com a carnaúba e
luso-brasileira, com alvenaria de pedra e cal, faiança e ferro forjado, mesclada com a carnaúba e

oposta, a arquitetura ferroviária da década de 1940 expressa o novo tempo da

   
 
expansão ferroviária do Brasil, que aconteceu no período de transição entre os

expansão ferroviária do Brasil, que aconteceu no período de transição entre os

   

séculos XIX e XX, responsável pela disseminação simultânea de inovações

 
técnicas e a introdução de materiais construtivos e decorativos, de produção

técnicas e a introdução de materiais construtivos e decorativos, de produção

   
 

seriada, na arquitetura tradicional brasileira.

     
 
Entre os dois extremos, o rio e a ferrovia, ao afastar-se do núcleo original,

Entre os dois extremos, o rio e a ferrovia, ao afastar-se do núcleo original,

     

novas formas de parcelamento e tendências arquitetônicas se impõem como

   

testemunhos de novos tempos, incorporando os benefícios da sociedade industrial.

As mudanças socioeconômicas e tecnológicas produzem reflexo nas formas de

habitar e construir, distinguindo-se as casas de porão alto e de jardins laterais,

implantados em lotes mais largos, modelo predominante nas cidades brasileiras

dessa época.

Os produtos do trabalho assalariado e da mecanização, associados às

novas técnicas, que marcam o fim do trabalho escravo, são introduzidos nas

residências e nos prédios comerciais: os palacetes de fachadas rebuscadas devem

transmitir a posição social do proprietário. Entre esses produtos, destacam-se os

gradis de ferro fundido, estucaria, vidraçaria, azulejaria, louças e metais, bandeiras e

lambrequins recortados em serra de fita, pastilhas, ladrilho hidráulico e telha plana.

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O ecletismo predomina entre as demais influências estrangeiras da

primeira metade do século XX. O art decó se destaca nas construções comerciais,

nos prédios, nos monumentos públicos e se estende para as luminárias e o

mobiliário, conferindo a uma classe cosmopolita, que não se identifica com o

colonial, um ar de modernidade, propiciado pelo concreto armado, pelas

superfícies cristalizadas e de vidro, em desenhos geométricos abstratos. Além do

art decó, o art noveau dos elementos construtivos e decorativos dos palacetes, as

casas de pó de pedra de inspiração inglesa, os chalés e bangalôs de linguagem

ornamental e romântica e a arquitetura ferroviária da década de 1940 da estação.

“Nessa paisagem, onde o Porto foi o contato com a sociedade européia, e a ferrovia o mais forte sinal de interiorização, além da navegação fluvial, o edifício de União Caixeiral sobressai- se como símbolo de uma nova mentalidade empresarial” (Silva, 1997).

Durante o século XIX e a primeira metade do XX, o traçado ortogonal do

início da formação do núcleo urbano, de eixos N-S e L-O, continuou a se expandir,

até atingir a ferrovia a leste, as margens do Igaraçu ao norte, e a linha de contorno

formada pelas ruas Luís Correia e Humberto Campos, que se encontram nas

imediações da Santa Casa de Misericórdia, ao sul (Figura 3).

O fim do ciclo da cera de carnaúba, logo depois da Segunda Guerra

Mundial, provoca a perda do dinamismo econômico na região. Desse modo, a

cidade fica a salvo de grandes pressões especulativas, embora, nas duas décadas

seguintes, tenha-se acelerado o crescimento da população urbana, que atinge, na

de 1970, sua maior taxa de crescimento geométrico, conforme dados do IBGE. A

população urbana, que, na década de 1950, era de 30.174, chega quase a

quadruplicar em meados dos anos 1990, atingindo 112.586 habitantes, de acordo

com o censo de 1996. Esses números são dados preliminares, em função da

instalação dos 73 municípios posteriormente à data de referência da contagem, 1º

de agosto de 1996 (Tabela 1).

Correspondendo ao intenso crescimento populacional iniciado na

década de 1960, a expansão do tecido urbano continua, agora com uma trama de

eixos ortogonais, ligeiramente inclinada em relação à anterior. Devido à barreira

natural formada pela sinuosidade do leito do rio nas outras três direções, ultrapassa

a via férrea, desenvolvendo-se na direção leste. Nas últimas décadas, esse tecido

multiplicou-se várias vezes, configurando-se um contraste com os períodos

anteriores, quando levou dois séculos para ser consolidado (Figura 3).

Tabela 1. População total, urbana, rural, taxa de crescimento geométrico anual – 1950-1996

 

POPULAÇÃO DE PARNAÍBA

 
 

URBANA

RURAL

TAXA DE

 

CRESCIM.

ANO

TOTAL

ABSOLUTA

% SOBRE

TOTAL

ABSOLUTA

% SOBRE

TOTAL

GEOMÉTR.

ANUAL

  • 1950 61,11

49.369

30.174

19.195

38,89

  • 1960 62,41

62.719

39.145

23.574

37,59

2,42

  • 1970 72,13

87.864

63.379

24.485

27,87

3,42

  • 1980 77,63

102.181

79.321

22.860

22,37

2,52

  • 1996 90,36

124.593

112.586

12.007

9,64

1,31

Fonte: IBGE, 1984 /1985/ 1996.

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Contexto atual

O sítio histórico não institucionalizado, entendido como o testemunho

remanescente das primeiras adaptações espaciais, dos primeiros critérios de

instalação e de apropriação do solo, relacionadas ao traçado urbano e a uma

função, peculiar e orientadora de seu desenvolvimento, compreende um setor

urbano – tecido tradicional localizado entre o rio e a ferrovia – que ainda é o pólo

comercial e administrativo da cidade. A permanência da condição de núcleo central

integrado à dinâmica urbana, ligada à fase inicial de organização espacial centro-

periferia, é o contrário do que vem ocorrendo em outras cidades maiores, onde os

antigos centros estão deixando de responder pelas principais atividades

econômicas e de serem pontos de convergência da população, sendo substituídos

por novas centralidades.

O crescimento da cidade ocorrido nas últimas décadas provocou

alteração na configuração funcional da área, sobrepondo-se a econômica sobre a

residencial. As mudanças mais significativas ali introduzidas, de iniciativa oficial e

particular, incidiram prioritariamente sobre o núcleo original e mais antigo,

substituindo antigas edificações ou alterando o desenho dos logradouros públicos.

Destacam-se, entre elas: o remodelamento da Praça da Graça e dos seus imóveis,

onde se concentram os bancos e os serviços públicos, e as construções da ponte

sobre o rio Igaraçu, de uma loja de departamentos e de um edifício de múltiplos

pavimentos, todos na Avenida Presidente Vargas.

Por toda a área, muitas casas perderam a função original de residência,

substituída pela de clínicas médicas, escritórios, lojas e serviços, o que revela a

desvalorização do local para moradia. Não se encontram sinais de abandono ou

arruinamento, a não ser no sobrado de Simplício Dias e em alguns poucos

armazéns das docas, apesar de alguns imóveis mais antigos estarem sem uso.

A construção da ponte, e a lógica da reorientação do tráfego que a

acompanhou, mudando a hierarquia das vias, contribuíram para o aumento da

acessibilidade ao sítio histórico, integrando-o ao restante da cidade. Essa

integração, por sua vez, é ambivalente. Como efeitos positivos, ela atrai

investimentos, revigora a economia, diversifica as funções e, em última análise,

assegura a sua continuidade como núcleo central. Como efeitos negativos,

 
constatam-se as atuais tendências de desvalorização para a habitação, de
constatam-se as atuais tendências de desvalorização para a habitação, de

constatam-se as atuais tendências de desvalorização para a habitação, de

     
   
adaptações funcionais – geralmente realizadas sem preocupação com a

adaptações funcionais – geralmente realizadas sem preocupação com a

   
 
preservação da memória arquitetônica – e de eliminação sumária de casas antigas

preservação da memória arquitetônica – e de eliminação sumária de casas antigas

   

para darem lugar a novos prédios. Em curto prazo, a tendência de supressão da

 
habitação pode comprometer a diversidade de funções e o uso em diferentes

habitação pode comprometer a diversidade de funções e o uso em diferentes

   
   

horários. Da mesma forma, as alterações e substituições dos prédios antigos

     
 
podem provocar a perda da identidade do sítio histórico.

podem provocar a perda da identidade do sítio histórico.

     

Esses efeitos podem ser claramente observados ao longo da Avenida

   

Presidente Vargas, que bem sintetiza as diversidades funcionais e formais da

configuração urbanística do sítio histórico. À medida que se distancia do rio, os

lotes se alargam, as edificações se afastam em uma lateral, depois se afastam

frontalmente e, finalmente, são localizadas no interior do lote, com amplos jardins

na frente e nas laterais. Da mesma maneira, alteram suas formas e estilos, que

acompanham as épocas de ocupação do tecido urbano: do lado do núcleo original,

as construções tradicionais, de características coloniais e neoclássicas, e as

primeiras substituições, com edificações de linhas modernas e tendências mais

recentes; do outro lado, que caracteriza a primeira zona de expansão, as casas de

porão alto, os sobrados ecléticos, as edificações art decó, os bangalôs, as

construções modernas etc.

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Essa avenida passou a ser a ligação do continente às várias localidades

da ilha grande de Santa Isabel e o acesso principal ao núcleo central da cidade.

Dessa forma, intensifica-se o seu uso e o das suas edificações: ela se transforma

num corredor movimentado, com vários pontos de paradas de ônibus, pleno de

vitalidade em seu maior trecho, promovido pelo novo caráter integrador.

Entretanto, no trecho inicial, próximo ao rio, as construções são

subutilizadas, desagregadas do ambiente urbano. De um lado, pela decadência do

transporte fluvial e a perda das funções portuárias; de outro, pelas próprias

características de construção da ponte. A sua base, de grandes dimensões, avança

cerca de dois quarteirões de comprimento sobre o continente, elevando-se em

altura, o que diminui a visibilidade do conjunto arquitetônico, dificulta o acesso às

edificações e prejudica a integração ao meio ambiente.

Próximo ao rio, um acervo edificado desintegrado da dinâmica cotidiana

da cidade e, mais adiante, uma área viva, repleta de funções diversificadas,

comportando escolas, igreja, serviços, comércio e algumas residências. Em um

trecho, a desintegração promove um processo de desvalorização das edificações

portuárias, como, por exemplo, no conjunto Porto das Barcas, que sobrevive de

atividades subsidiadas pelo Estado. Noutro trecho, a integração promove um

excessivo vigor econômico, aumentando a demanda pelo setor de serviços e de

comércio para o uso das edificações existentes, a maioria construções residenciais

que, obrigadas a se adaptar às novas funções, nem sempre compatíveis com suas

características, perdem total ou parcialmente sua integridade original.

Vistas sob a perspectiva da preservação, duas partes distintas do conjunto

arquitetônico e urbanístico de Parnaíba convivem em uma mesma via: uma parte

ameaçada pela desvalorização funcional, outra pela substituição e alterações

indiscriminadas. Como tal, a cidade oferece um recorte físico substancial para se

investigar o desafio de preservar acompanhando os valores e as necessidades da

sociedade contemporânea, questão primordial para a implantação de qualquer

política oficial de preservação desse peculiar sítio histórico, cujo sucesso depende

do envolvimento dos diferentes atores sociais que ali atuam.

A Avenida Presidente Vargas expressa com legibilidade a diversidade,

física e funcional, do tecido urbano de Parnaíba, a sobreposição e justaposição das

várias camadas temporais, modeladas pelas práticas urbanizadoras da sociedade

 
várias camadas temporais, modeladas pelas práticas urbanizadoras da sociedade
várias camadas temporais, modeladas pelas práticas urbanizadoras da sociedade
     

local sobre o meio. Dessa forma, segundo Zancheti e Lacerda (1999, p.20), como

   
local sobre o meio. Dessa forma, segundo Zancheti e Lacerda (1999, p.20), como
   

processo histórico e cultural, a avenida expressa a relação dialética entre a

 
 
várias camadas temporais, modeladas pelas práticas urbanizadoras da sociedade local sobre o meio. Dessa forma, segundo

continuidade e a mudança, as duas forças básicas ordenadoras da urbanização – a

 

continuidade, considerada como o uso de elementos e estruturas urbanas

 
continuidade, considerada como o uso de elementos e estruturas urbanas

existentes, incorporando pequenas transformações para adaptá-los a novos usos

   
     

e modos de vida; a mudança, em oposição a isso, como processo radical de

e modos de vida; a mudança, em oposição a isso, como processo radical de

transformação ou substituição desses elementos a fim de atender os mesmos

     

requisitos sociais.

   

As duas forças sugerem uma inquietação de caráter divergente que

algumas atividades econômicas assumem nos sítios históricos, onde o

desequilíbrio pode ser fatal: a supremacia da sustentabilidade econômica em

detrimento do valor documental desses sítios.

Portanto, como preservar? Como compatibilizar a preservação do

patrimônio cultural das nossas cidades com os valores e as necessidades da

sociedade contemporânea?

Os bens imobiliários de valor histórico, quando institucionalmente

delimitados, constituem o patrimônio oficial e, por isso, merecem ser preservados:

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“[

...

]

a efetivação da preservação dos bens culturais só se

encontra socialmente definida, ou seja, só aparece como fato

social, quando o Estado assume a sua proteção e através da

ordenação jurídica, os institui e delimita oficialmente enquanto

bem cultural, regulamentando o seu uso, a finalidade e o

caráter desses bens dentro de leis específicas de propriedade,

zoneamento, uso e ocupação do solo” (Milet, 1988, p.18).

Mas o Estado, aos poucos, vem se retirando de cena, deixando de ser o

principal gestor do espaço urbano, conseqüência de uma séria crise fiscal,

provocada pela nova ordem econômica global. Diante dessas circunstâncias,

algumas correntes de pensamento indicam que a sustentabilidade de qualquer

política urbana somente poderá ser garantida se existir envolvimento dos atores no

processo, através de uma amarração de valores e práticas culturais sedimentadas

historicamente.

Muitas são as questões que permeiam a preservação de um sítio

histórico como o de Parnaíba. Por coerência histórica, a questão principal é o

significado que pode assumir essa preservação, isto é, o desafio atual de

compatibilizá-la com os valores e as necessidades da vida contemporânea,

articulado a uma política de preservação oficial e às formas de conceituação e

apropriação dos atores sociais locais.

Representações sociais do patrimônio cultural

Canclini (199, p.112) declara que toda cultura seleciona e combina

constantemente suas fontes. Assim, as representações culturais são encenações

que adaptam o que elegem e apresentam de acordo com a capacidade de

captação e compreensão dos receptores. Como Riegel (1984) havia notado no

começo do século e, recentemente, Feilden e Jokilehto (1995, p.36) o fizeram, os

valores culturais ligados aos objetos patrimoniais e sua relação com os

observadores atuais são necessariamente interpretações subjetivas, sujeitas às

características de nosso tempo. Tais interpretações influem no desenvolvimento e

na adoção de políticas de proteção e tratamento, uma vez que elas determinam o

caráter cultural intrínseco desses objetos, o grau de interesse geral neles e no seu

 

contexto ambiental.

 
contexto ambiental. Os temas que recentemente dominam as discussões no âmbito do patrimônio cultural apontam no
contexto ambiental. Os temas que recentemente dominam as discussões no âmbito do patrimônio cultural apontam no
   
Os temas que recentemente dominam as discussões no âmbito do

Os temas que recentemente dominam as discussões no âmbito do

     
   

patrimônio cultural apontam no sentido de uma política preservacionista

democrática: a relação da cidadania com a legitimação da política preservacionista;

 
contexto ambiental. Os temas que recentemente dominam as discussões no âmbito do patrimônio cultural apontam no
   
 
o reforço à identidade local através das práticas patrimoniais como reação à

o reforço à identidade local através das práticas patrimoniais como reação à

   

tendência de homogeneização cultural do mundo globalizado; e a progressiva

diminuição do papel do Estado como principal gestor do espaço urbano.

     
 
contexto ambiental. Os temas que recentemente dominam as discussões no âmbito do patrimônio cultural apontam no
     

Entretanto, captar as visões, os conceitos e valores dos habitantes que

     
   

vivem nos sítios históricos urbanos ainda não é condição para a implementação

 

dessa política. Há uma carência de estudos sobre o que e como preservar na

perspectiva do habitante e na dos arquitetos especialistas. Os estudos nessa área

têm se concentrado nos inventários e levantamentos que privilegiam a leitura das

características desses ambientes feita pelos especialistas. Sendo assim, como

pretender que a compreensão da importância do patrimônio cultural seja

incorporada pela população, que o tombamento ou outros instrumentos de

proteção façam sentido para ela, se não compreendemos a ótica do usuário na

apropriação da cidade e na seleção do que e como preservar?

Para Gonçalves (1996, p.82-83), os objetos patrimoniais, aqueles

selecionados para constituírem o patrimônio, são submetidos às várias ações de

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preservação, do resgate à restauração, basicamente para serem exibidos e

contemplados. É, de certa maneira, conceber o conhecimento como

representação visual, pois o que eles representam – e como representam – é

autenticado pela exibição. Pela utilização de meios visuais e pela reprodução do

princípio epistemológico do conhecimento como produto da visão, o patrimônio

cultural pode ser visto como uma alegoria visual.

Conseqüentemente, entre os valores culturais e socioeconômicos

associados ao ambiente construído, os quais as teorias da preservação,

difundidas pelas cartas patrimoniais, pressupõem na demarcação do universo a

preservar e que são a base para o estabelecimento de uma política de proteção e

tratamento, destacam-se aqueles que apresentam como principal suporte do

conhecimento a visão.

Como enfatiza Monteiro (1995, p.910), a pesquisa ambiental, em seu

objetivo de investigar a relação entre o ambiente e os indivíduos ou grupos sociais

que neles habitam, considera esse ambiente em seus componentes físicos e

sociais. Tais componentes imprimem qualidades ao ambiente, mas este só se

torna significante na presença da experiência. A experiência dos lugares é

adquirida pelas pessoas, de forma diferente, desenvolvendo neles locais

atividades diversificadas: morar, trabalhar, descansar, socializar-se etc.

A fim de se entenderem os conceitos de preservação do sítio histórico de

Parnaíba dos habitantes, tanto proprietários ou usuários diretos quanto usuários

indiretos dos imóveis da Avenida Presidente Vargas, e os dos especialistas em

5

preservação, por meio das representações sociais dos dois grupos, a hipótese da

existência de representações peculiares a cada grupo foi estabelecida. Em

seguida, se fez um paralelo entre essas representações. Assim, a visão técnica e a

visão leiga da preservação de sítios históricos seriam supostamente construídas

por processos diferentes, mas ambas a partir dos componentes que caracterizam

as edificações desses ambientes, usados livremente pelas pessoas como critérios

de avaliação.

Preservação, para os habitantes de Parnaíba, é ainda um conceito

abstrato, dada a ausência de proteção oficial do sítio histórico. Contudo, valores

socioculturais e econômicos associados a experiência, conhecimento histórico,

afetividades e simbolismos locais fundamentariam a visão leiga da preservação,

afetividades e simbolismos locais fundamentariam a visão leiga da preservação,
afetividades e simbolismos locais fundamentariam a visão leiga da preservação,

que reconhece a necessidade de se preservarem certas edificações.

   
que reconhece a necessidade de se preservarem certas edificações.
   

O processo de construção dos arquitetos especialistas seria uma

 
O processo de construção dos arquitetos especialistas seria uma

representação técnica, referenciada por um conhecimento teórico, disseminado

   
 
afetividades e simbolismos locais fundamentariam a visão leiga da preservação, que reconhece a necessidade de se

pelos princípios práticos das cartas patrimoniais, que, por sua vez, utilizam os

 
   

valores culturais – artísticos, históricos, de antiguidade, arquitetônicos,

     

urbanísticos etc. –, pressupostos das teorias da preservação.

urbanísticos etc. –, pressupostos das teorias da preservação.
       
   

aspectos teóricos e metodológicos

Com a teoria das facetas, usada na avaliação ambiental para clarificar

universos de pesquisa complexos, construiu-se uma sentença definindo os

componentes, ou facetas – por hipótese –, envolvidas na emergência do conceito de

preservação. Foram evidenciados e descritos os componentes das edificações do

sítio histórico de Parnaíba, especificamente da sua avenida central, que poderiam

ser determinantes da formação da sua imagem e valor. Essa avenida, antiga Rua

Grande e atualmente Presidente Vargas, foi usada como referência espacial por

estruturar o sítio e dar legibilidade à diversidade das formas arquitetônicas e

urbanísticas de diferentes períodos históricos em seu curto traçado.

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As categorias ou facetas hipotéticas basearam-se nas teorias modernas

da preservação, orientadoras de uma prática contumaz de se considerarem certos

componentes das edificações como critérios para a seleção do que preservar:

“Em que medida a pessoa x moradores, técnicos avalia que

edificações de Parnaíba de ESTILO; PROPRIEDADE;

ESTADO DE CONSERVAÇÃO; USO; CARACTERIZAÇÃO e

LOCALIZAÇÃO devem ser preservadas? {1-definitivamente

sem importância, 2-sem importância, 3-pouco importante, 4-

importante, 5-muito importante, 6-importantíssimo}”

(Figueiredo, 2001, p.55).

Figura 4. Fotografias de algumas das 27 edificações da Avenida Presidente Vargas,

em Parnaíba, escolhidas para a classificação dos habitantes e dos especialistas.

Representam diferenciados estilos, propriedades, estados de conservação, usos,

caracterizações e localizações.

Edificação 03
Edificação 03
Edificação 05
Edificação 05
Edificação 04
Edificação 04
Edificação 06
Edificação 06

O processo da classificação, próprio da teoria das representações

sociais, foi usado como instrumento de coleta de dados, um mecanismo básico de

geração das representações. Vinte e sete fotografias das edificações da Avenida

Presidente Vargas, geradas a partir da sentença estruturadora, foram usadas

como elementos de classificação pela população da pesquisa para captar-se o

conteúdo das representações dos respondentes quanto à preservação desse sítio

histórico e analisar-se o seu nível de consenso. Na escolha das edificações,

procurou-se assegurar a representação de toda a diversidade dos elementos que

formavam os componentes ou facetas físicos, artísticos, econômicos e

socioculturais ali existentes (Figura 4).

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Para a classificação, mostrou-se a cada pessoa um conjunto de

fotografias e pediu-se que as separasse em grupos segundo o critério de

importância para preservação previamente concebido, em diferentes graus, para

se captar o conteúdo das representações dos respondentes quanto à preservação

desse sítio histórico e analisar-se o seu nível de consenso.

A população da pesquisa compreendia um grupo de arquitetos

especialistas em patrimônio e dois grupos de habitantes da cidade de Parnaíba:

usuários diretos da Avenida Presidente Vargas e usuários do centro, nas

imediações dessa via. Essa diferenciação visou captar representações tanto das

pessoas que possuíam interesse mais direto nas edificações da avenida quanto

das menos comprometidas com essas edificações, mas que utilizavam a sua

vizinhança, ou seja, tinham experiência com aquele ambiente.

Vários fatores influíram na determinação do tamanho da amostra: o

dimensionamento mínimo necessário para que fossem exploradas as estruturas

subjacentes de muitos sujeitos em um estudo que buscava entender as

representações na perspectiva dos grupos, observando-se aí tanto a diversidade

quanto o que havia de comum e compartilhado, a complexidade do processo de

classificação e de coleta de dados e a disponibilidade de tempo de um único

pesquisador para realizar os trabalhos de campo. Considerando-se tais fatores,

foram escolhidos 68 sujeitos para elaborarem as classificações, divididos nos três

grupos da população: 22 arquitetos especialistas; 23 habitantes, usuários diretos

dos imóveis da avenida; e 23 usuários das imediações da avenida.

A escolha do método de análise levou em conta a natureza qualitativa dos

dados e a natureza do assunto investigado, as representações sociais de

diferentes grupos de pessoas, que demandavam, respectivamente, o uso de

estatísticas não-paramétricas e procedimentos estatísticos que preservassem a

integridade dos dados. A escolha recaiu sobre a técnica estatística

multidimensional, a análise da estrutura de similaridade – SSA – que foi bastante

profícua quanto aos conceitos investigados nos três grupos de respondentes.

A técnica de análise da estrutura de similaridade – SSA (Similarity

Structure Analysis) –, usada para os dados da classificação dirigida, é, de acordo

com Monteiro & Loureiro (1994, p.66-67), um escalonamento multidimensional

não-métrico, no qual as observações são representadas como pontos em um

 
 
não-métrico, no qual as observações são representadas como pontos em um espaço euclidiano. Ela se fundamenta
não-métrico, no qual as observações são representadas como pontos em um espaço euclidiano. Ela se fundamenta

espaço euclidiano. Ela se fundamenta no princípio da proximidade, ou

   
espaço euclidiano. Ela se fundamenta no princípio da proximidade, ou

contigüidade, e as relações de similaridade entre os itens (observações, perguntas

   

de um questionário, ou classificações de elementos) são traduzidas, na

 
de um questionário, ou classificações de elementos) são traduzidas, na
   

configuração geométrica, em termos da distância entre pontos, representando o

   
 
não-métrico, no qual as observações são representadas como pontos em um espaço euclidiano. Ela se fundamenta

grau de correlação entre duas variáveis. Isso significa que a maior correlação entre

 
   

essas variáveis decorre da maior proximidade entre elas. Dessa forma, regiões de

     

contigüidade são formadas através das relações de similaridade, e as hipóteses

 
contigüidade são formadas através das relações de similaridade, e as hipóteses
     

iniciais, fundamentadas na teoria das facetas, são transformadas em hipóteses

     
   

regionais, que, na pesquisa em questão, foram: estilo, propriedade, estado de

 
 

conservação, uso, caracterização e localização.

Hipóteses regionais mantêm também íntima relação com as medidas

racionais dos sujeitos sobre o conceito investigado. Isso quer dizer que a

mensuração científica do conceito “preservação arquitetônica e urbanística” só se

tornou possível pela compreensão da composição interna desse conceito. Por meio

delas, procurou-se destacar regiões que correspondiam aos elementos de cada

componente ou faceta considerada. Assim, quanto ao estilo, por exemplo, destacou-

se a região onde se concentravam edificações coloniais, outra região das arts decó,

outra das ecléticas, e assim por diante, repetindo-se o processo para as demais

facetas, ou componentes hipotéticos da pesquisa, e sua composição interna.

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As considerações sobre existência ou inexistência de ordem entre

elementos de cada faceta, de acordo com a teoria, deram fundamento à base

lógica para as várias estruturas regionais. Segundo Shye (1994, p.117-118),

hipóteses regionais, uma vez confirmadas, revelam um aspecto relativamente

estável do conceito em estudo, dando-lhe legitimidade, e revelam também a

estrutura interna dos conceitos, possibilitando a percepção de componentes

empiricamente verificáveis e da forma (em linguagem geométrica) como esses

componentes se inter-relacionam.

Os dados empíricos da classificação dirigida para captar o conceito de

preservação dos respondentes foram codificados e organizados em forma de

matriz de dados: cada linha com os escores de um sujeito referentes a uma série de

variáveis, ou seja, os escores referentes à escala de respostas apresentada pelo

racional comum da sentença estruturadora de preservação, assinalados para cada

edificação, cada coluna representando uma – e apenas uma – variável, ou seja,

uma edificação. Inversamente, para a captação do perfil dos respondentes ao

fazerem suas classificações, foco principal dessa análise, a matriz foi invertida: as

edificações organizadas nas linhas e os sujeitos nas colunas.

As análises das projeções geométricas produzidas pela SSA para a

investigação, uma para cada grupo da população pesquisada, revelaram relações

e regras implícitas nos dados obtidos, que seriam imperceptíveis em análises

6

quantitativas usuais .

Representação social da preservação das edificações do sítio histórico

de Parnaíba

Pela técnica da SSA, usada na análise dos dados obtidos, as hipóteses

iniciais foram parcialmente confirmadas quanto aos componentes, ou facetas,

considerados influentes na composição interna do conceito de preservação e

quanto à composição interna de algumas dessas facetas. Mas, à medida que

algumas hipóteses eram contrariadas, revelavam-se novos critérios considerados

pela população da pesquisa na preservação das edificações.

O teste das facetas, ao permitir a regionalização dos elementos das

 

facetas no espaço, mostrou quais delas constituíram critérios atuantes na

   
facetas no espaço, mostrou quais delas constituíram critérios atuantes na formação dos conceitos das pessoas quanto
 

formação dos conceitos das pessoas quanto à preservação das edificações, caso

 
facetas no espaço, mostrou quais delas constituíram critérios atuantes na formação dos conceitos das pessoas quanto
facetas no espaço, mostrou quais delas constituíram critérios atuantes na formação dos conceitos das pessoas quanto
   

da nova faceta época/idade, e como elas atuavam nessa formação. Foi

 
evidenciada a existência de uma relação hierárquica entre os elementos das

evidenciada a existência de uma relação hierárquica entre os elementos das

   

facetas época/idade, caracterização e localização, na visão técnica e na visão

     
 
leiga, e entre os do uso, na visão leiga. Por outro lado, estilo/forma, nas duas

leiga, e entre os do uso, na visão leiga. Por outro lado, estilo/forma, nas duas

   
     

visões, bem como uso e propriedade, na visão técnica, mostraram-se consistentes

 
nas estruturas internas dos conceitos, mas somente para a captação das

nas estruturas internas dos conceitos, mas somente para a captação das

     

diferenças qualitativas entre as edificações, uma vez que não havia implicação de

   

ordem ou hierarquia entre essas estruturas.

As facetas época/idade e caracterização apresentaram desempenhos

extremamente semelhantes na formação do conceito de preservação das edificações.

Devido ao papel hegemônico que exerceram nas visões de todos os grupos, tanto na

visão técnica quanto na leiga, elas podem ser consideradas representações culturais,

isto é, foram mais compartilhadas durante um período longo.

Além de evidenciar o conteúdo das representações sociais do conceito

de preservação, da sua composição interna, isto é, dos elementos ou variáveis

influentes tanto na visão dos habitantes quanto na dos especialistas, a técnica da

SSA, fundamentada na teoria das facetas, permitiu, ainda, através da contigüidade

regional, avaliar-se a extensão social desse conceito.

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Extensão social das representações da preservação

As diferenças nas visões de cada um dos três grupos de respondentes da

pesquisa foram exploradas, à semelhança da investigação desenvolvida por

Roazzi, comparando-se, através da SSA, os perfis dos respondentes dos três

grupos quanto às classificações relativas ao grau de preservação das edificações

do sítio histórico. A análise SSA, neste caso, posicionou no espaço cada

respondente, de acordo com sua maneira de classificar as edificações.

A comparação foi feita entre os perfis de cada dois grupos, totalizando

três comparações. Não se fez a comparação dos três juntos devido ao grande

número de variáveis, que ocasionaria altos níveis de “coeficiente de alienação”,

distanciando os resultados da realidade.

Segundo Roazzi (2001), “a importância nesta análise multidimensional é

a possibilidade de descobrir a estrutura relacional entre os grupos”, a partir do

reconhecimento dos padrões de partição do espaço em regiões.

A projeção SSA que comparou os dois grupos de habitantes não foi

reproduzida, porque não foram distinguidas regiões no espaço. As posições dos

respondentes distribuíram-se de forma intercalada no espaço da projeção

geométrica, com a maioria dos dois grupos concentrando-se no canto superior, à

esquerda. Os poucos restantes ficaram mais distanciados entre si. O resultado

representou visões mais consensuais da maioria dos dois grupos de habitantes,

das quais divergiram somente quatro habitantes de fora da avenida e cinco da

avenida. Esses grupos não puderam ser diferenciados nas suas visões, mais

compartilhadas, porque se basearam em uma mesma realidade da experiência

dos habitantes.

A Figura 5, que compara o perfil dos habitantes da avenida e dos

especialistas, por sua vez, mostra uma clara diferença entre os dois grupos de

respondentes, evidenciando duas visões distintas. Houve uma clara configuração

modular das regiões: uma central, representando a visão dos especialistas; e outra

espalhada em volta dessa primeira, representando a visão dos habitantes da

avenida. Poucos, entre os especialistas, somente três deles, se afastaram dessa

região central, partilhada pela maioria do grupo e mais seis habitantes da avenida,

mostrando maior similaridade entre os perfis individuais dos primeiros, e poucas

mostrando maior similaridade entre os perfis individuais dos primeiros, e poucas
mostrando maior similaridade entre os perfis individuais dos primeiros, e poucas

divergências entre eles.

   
divergências entre eles.
   

A estrutura relacional modular entre os dois grupos revelou o papel

 
A estrutura relacional modular entre os dois grupos revelou o papel

regulador da visão dos especialistas sobre a visão dos habitantes da avenida. Esse

 

fato é compreensível, por se tratar do grupo de habitantes de maior nível de

 
fato é compreensível, por se tratar do grupo de habitantes de maior nível de
   

instrução e permeável ao saber técnico das teorias da preservação, realidade

   
     

própria dos especialistas, disseminada através de jornais, da televisão e de outras

própria dos especialistas, disseminada através de jornais, da televisão e de outras

formas de comunicação.

     
   

O valor histórico marcante nas duas visões indicou a preponderância de

um conhecimento comum, oriundo do saber erudito, como determinante da visão

técnica, própria dos especialistas e, por isso, mais compartilhada entre os

membros do seu próprio grupo, mas também influente na visão dos habitantes da

avenida. Esta última baseou-se em realidades diferentes, ou seja, os respondentes

desse grupo foram influenciados tanto pela experiência quanto pelo conhecimento

técnico, difundido pelos meios de comunicação, o que a tornou mais diversificada

entre os respondentes do próprio grupo, e diferente da visão técnica.

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Figura 5. Comparação entre o perfil dos habitantes da avenida e o dos especialistas.

LEGENDA Habitantes da Avenida ( A1 - A23 ) Arquitetos especialistas ( E1 - E22 )

LEGENDA

  • Habitantes da Avenida ( A1 - A23 )

  • Arquitetos especialistas ( E1 - E22 )

Figura 6. Comparação entre o perfil dos habitantes de fora da avenida

e o dos especialistas.

LEGENDA Arquitetos especialistas ( E1 - E22 ) Habitantes de fora da Avenida ( H1 -

LEGENDA

  • Arquitetos especialistas ( E1 - E22 )

  • Habitantes de fora da Avenida ( H1 - H23 )

Na Figura 6, que compara o perfil dos habitantes de fora da avenida com o

dos especialistas, estão os dois grupos que mais se diferenciaram em suas visões.

No lado superior da projeção, uma região mais fechada representa a visão dos

arquitetos especialistas. No centro dessa região houve a penetração de alguns

indivíduos do grupo dos habitantes de fora da avenida. A região correspondente a

esse grupo se desenvolve de modo mais espalhado no lado oposto, na parte

inferior da projeção. A estrutura relacional entre os dois grupos não apontou

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ordenamento ou influência de uma visão sobre a outra. Percebeu-se, sim, uma

região intermediária, que representa visões comuns entre representantes dos dois

grupos, ou seja, visões consensuais em relação à preservação de algumas

edificações do sítio histórico. Mas também ficou evidente a formação de duas

regiões bem distintas, que traduzem com mais consistência algumas conclusões já

previstas na hipótese inicial da pesquisa: a visão técnica – mais coesa –, de um

lado, e a visão leiga – mais diversificada –, do outro, ambas bastante coerentes

com os perfis dos respectivos grupos de respondentes que representam.

Esse resultado pôde ser interpretado como representações de dois

julgamentos sobre a preservação, baseadas em realidades também distintas: uma

baseada no conhecimento, ou saber técnico, o que a torna mais consensual,

portanto uma representação social emancipada; outra, fundamentada na

experiência do ambiente, bem mais heterogênea, porque acompanha a realidade

sociocultural de cada respondente, caracterizando-se, assim, representações

cognitivas individuais.

Conclusões

A comparação entre as visões de especialistas e de habitantes, quanto à

preservação das edificações, de acordo com os resultados da comparação dos

perfis dos grupos de respondentes, indicaram maior consenso dentro dos próprios

grupos. Os especialistas, naturalmente, demonstraram possuir um maior

compartilhamento em sua visão do que preservar, baseada na realidade do

conhecimento técnico, uma visão que pode ser considerada uma representação

social emancipada.

O grupo de habitantes de fora da avenida, por sua vez, demonstrou maior

susceptibilidade a que outros critérios determinassem sua visão, que se revelou

mais rica e diversificada e, conseqüentemente, menos consensual. Como era uma

visão fundamentada na experiência do ambiente, tornou-se bem mais

heterogênea, porque acompanhou a realidade sociocultural de cada respondente,

configurando-se, assim, representações cognitivas individuais. Esse grupo

apresentou o perfil mais heterogêneo, em relação aos demais, inclusive ao dos habitantes da avenida. A
apresentou o perfil mais heterogêneo, em relação aos demais, inclusive ao dos
habitantes da avenida. A escolaridade (Tabela 2) e a renda (Tabela 3) desse grupo
se aproximaram mais das características de uma parcela maior da população de
Parnaíba, o que o qualificou como o representante da visão leiga.
Tabela 2. Escolaridade dos habitantes de Parnaíba
ESCOLARIDADE
1º GRAU
2º GRAU
SUP. INC.
SUP. COMP.
HABITANTES
DE FORA
1
15
3
4
DA AVENIDA
4,3%
65,2%
13,0%
17,4%
HABITANTES
1
9
1
12
DA AVENIDA
4,3%
39,1%
4,3%
52,2%
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1 3 9

Tabela 3. Renda dos habitantes de Parnaíba

Tabela 3. Renda dos habitantes de Parnaíba RENDA (Sal. Min.) HABITANTES DE FORA DA AVENIDA 3

RENDA (Sal. Min.)

HABITANTES

DE FORA

DA AVENIDA

3

3 A 5

5 A 7

+10

8

6

6

3

34,8%

26,1%

26,1%

13,0%

-3

3 A 5

5 A 7

7 A 10

+10

HABITANTES

DA AVENIDA

2

4

3

3

11

8,7%

17,4%

13,0%

13,0%

47,8%

Mas houve também indicações de consenso entre a visão técnica e a

visão leiga em relação a várias edificações assim como em relação aos aspectos

que justificavam sua preservação, o que as tornava representações sociais. A

maioria dos respondentes concordou, por exemplo, em que determinadas

edificações eram tradicionais, construídas entre os séculos XVIII e XIX, originais

antigas, e como tal, possuíam grande importância para a preservação do sítio

histórico. No extremo oposto, a maioria também concordou na percepção de outras

três edificações como modernas, construídas após os anos 50 do século XX,

originais novas, ou seja, substituições de edificações antigas desaparecidas, por

isso não devendo ser preservadas. Tais representações estavam bastante

consolidadas na visão de um significativo número de respondentes de todos os

grupos, o que as qualifica como representações abrangentes e, por conseqüência,

hegemônicas, ou culturais.

Outro resultado de particular relevância foi o que demonstrou o

importante papel do uso residencial na formação da imagem do sítio histórico, na

visão leiga dos habitantes. Foi na zona da primeira expansão do tecido urbano,

além do núcleo original, que ainda preservava a função residencial, ao contrário da

zona antiga, tradicionalmente voltada para o comércio desde o tempo da economia

do charque, que a população de Parnaíba reconheceu a identidade da cidade. Ou

 
seja, era ali que se formava a imagem dela. Isso reforça e valida uma tendência que
seja, era ali que se formava a imagem dela. Isso reforça e valida uma tendência que

seja, era ali que se formava a imagem dela. Isso reforça e valida uma tendência que

   
vem se tornando cada vez mais comum entre os especialistas em conservação

vem se tornando cada vez mais comum entre os especialistas em conservação

   

urbana, o de considerar a habitação associada a outros usos, como nesse trecho

 
em questão, pressuposto para a sustentabilidade de qualquer sítio histórico, como

em questão, pressuposto para a sustentabilidade de qualquer sítio histórico, como

   
   

é para qualquer outra área de uma cidade, tanto na sua dimensão sociocultural

 
seja, era ali que se formava a imagem dela. Isso reforça e valida uma tendência que
   

quanto na econômica.

     
 
A presente investigação demonstrou que, na construção do patrimônio de

A presente investigação demonstrou que, na construção do patrimônio de

     

um sítio histórico, existem representações consensuais entre a visão técnica e a

   

visão leiga, pontos em comum que devem ser destacados na adoção das políticas

oficiais. Isso não significa que os demais valores e representações sociais

evidenciados pela investigação devam ser desconsiderados por essa política.

Representações emancipadas, determinadas tanto pelo saber técnico quanto pela

experiência dos habitantes, devem ser interpretadas como valores enriquecedores

do processo, e esforços devem ser envidados no sentido de torná-las consensuais

nos dois grupos. Para os especialistas, a via mais adequada para se atingir esse

consenso é a investigação empírica, tal qual a que aqui se desenvolveu. Para os

habitantes, a educação patrimonial balizada pelas evidências empíricas tornaria

mais fácil a obtenção do consenso em torno da preservação de valores

distanciados da sua vivência cotidiana.

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O mesmo tratamento deve ser dado às representações polêmicas, ou

seja, elas devem ser incorporadas no processo educacional, e a decisão quanto à

sua preservação – ou não – deve ser tomada de forma cada vez mais participativa,

já que se pretende legar às gerações futuras representações do passado

identificadas com uma parcela maior da população brasileira. Entretanto maior

identidade não implica necessariamente a prevalência das representações

culturais de uma maioria numérica da população, e sim a contemplação da

diversidade das representações dos diferentes grupos formadores da sociedade

brasileira, como prevê o preceito constitucional do Art. 216.

Conclui-se que a eficiência de qualquer política de preservação de uma

área urbana depende, cada vez mais, da incorporação da visão fundamentada na

experiência dos usuários. Uma vez que o enfoque atual da preservação é o de que

toda a cidade é um documento histórico, a forma de seleção do que preservar

torna-se menos evidente e muito mais complexa do que sendo exclusivamente

determinada pela visão técnica e, como tal, nos dias atuais, sem legitimidade.

Os

resultados

da

investigação

reiteraram

a

necessidade

de

se

explorarem os critérios de preservação empiricamente, de modo a enriquecê-los e

expandi-los, na incorporação de aspectos da história e da cultura locais, em busca

de uma maior diversificação dos valores a serem preservados.

NOTAS

NOTAS
NOTAS
     
NOTAS Nossa Senhora do Livramento do Parnaguá – atual Parnaguá –, Jerumenha, Campo Maior, São João
  • 1 Nossa Senhora do Livramento do Parnaguá – atual Parnaguá –, Jerumenha, Campo Maior, São João da

   

Parnaíba – atual Parnaíba –, Marvão – atual Castelo do Piauí –, Valença do Piauí, Piracuruca.

 
Parnaíba – atual Parnaíba –, Marvão – atual Castelo do Piauí –, Valença do Piauí, Piracuruca.
  • 2 Esses dois mapas, um de 1798 (Figura 1) e outro de 1809 (Figura 2), são reproduções da obra de Goulart

   

(2000) “Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial”. Visam permitir uma comparação do traçado da vila de

 
(2000) “Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial”. Visam permitir uma comparação do traçado da

São João da Parnaíba à época, com sua configuração urbanística atual. A primeira constatação é que a vila

   

apresentava um traçado ortogonal próximo do atual, que permanece no núcleo de origem, inclusive com as

     

inclinações das atuais ruas Conde D'eu e Duque de Caxias.

 
inclinações das atuais ruas Conde D'eu e Duque de Caxias.
  • 3 REIS FILHO, Nestor Goulart. Mapa exacto da Villa d' São João da Parnaíba – original manuscrito do Arquivo

     

Histórico Ultramarino, Lisboa, 1798. p.352. In: Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial. São Paulo:

   

Editora da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Fapesp, 2000, p.143.

  • 4 REIS FILHO, Nestor Goulart. Cópia da Villa de São João da Parnaíba – original manuscrito de José Pedro Cézar Menezes do Arquivo Histórico do Exército, Rio de Janeiro, 1809, p.352. In: Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Fapesp, 2000, p.142.

  • 5 Ver a teoria das representações sociais, de Moscovici, em: Farr (1994); Monteiro (1995); Ordaz (1998); Figueiredo (2001).

  • 6 Para maiores esclarecimentos acerca da teoria das facetas, das classificações múltiplas e as técnicas estatísticas multidimensionais, ver Canter, Brown, Groat (1985); Monteiro e Loureiro (1994); Shye (1994); Figueiredo (2001).

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