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PELOS SEUS FRUTOS OS CONHECEREIS

– Os frutos bons só podem vir de uma árvore sã. Os falsos mestres.

– O relacionamento com Deus e as obras do cristão.

– Os frutos amargos do laicismo. Reconduzir todas as coisas a Cristo.

I. O SENHOR INSISTE em múltiplas ocasiões no perigo dos falsos profetas,


que levarão muitos à ruína espiritual1. No Antigo Testamento também se
mencionam estes maus pastores que causam estragos no Povo de Deus.
Assim, o profeta Jeremias denuncia a impiedade daqueles que profetizam em
nome de Baal e desorientam o meu povo de Israel... Transmitem-vos vãos
oráculos; contam-vos fantasias, e não as palavras do Senhor... Não enviei tais
profetas; são eles que correm; nem jamais lhes falei; e, no entanto, proferem
oráculos2.

Não demoraram também a aparecer no seio da Igreja. São Paulo chama-os


falsos irmãos e falsos apóstolos3, e põe de sobreaviso os primeiros cristãos
para que os evitem; São Pedro chama-os falsos doutores4. Nos nossos dias,
também têm proliferado os mestres do erro; têm semeado em abundância más
sementes e têm sido causa de desconcerto e de ruína para muitos.

No Evangelho da Missa de hoje, o Senhor adverte-nos5: Guardai-vos dos


falsos profetas, que vêm a vós com pele de ovelha, mas por dentro são lobos
vorazes. É muito grande o mal que causam às almas, pois os que se
aproximam deles em busca de luz encontram trevas, e, quando procuram
fortaleza, encontram incerteza e debilidade.

O próprio Senhor nos previne que tanto os verdadeiros como os falsos


enviados de Deus serão conhecidos pelos seus frutos: Pelos seus frutos os
conhecereis, diz-nos Jesus. Porventura colhem-se uvas dos espinhos ou figos
dos abrolhos? Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e a árvore má dá frutos
maus. Não pode uma árvore boa dar maus frutos, nem uma árvore má dar
frutos bons. Nesta passagem do Evangelho, o Senhor põe-nos de sobreaviso
para que estejamos vigilantes e sejamos prudentes com os falsos doutores e
com as suas doutrinas enganosas, pois nem sempre será fácil distingui-las.
Quantas vezes a má doutrina se apresenta revestida de uma aparência de
bondade e de bem! Quantas vezes se apresenta como a única interpretação
correcta do Evangelho, forçando o sentido das palavras, o magistério da Igreja
e a realidade histórica! Mas os frutos estão à vista: esses falsos enviados
desunem o rebanho, separam-no do tronco fecundo da Igreja e muitas vezes
acabam eles próprios por desertar. Devemos rezar sempre para que o Senhor
abrevie esses tempos de prova que às vezes permite e fortaleça sempre a sua
Igreja enviando-lhe bons pastores.

II. AS ÁRVORES BOAS dão frutos bons. E a árvore é boa quando por ela
corre seiva boa. A seiva do cristão é a própria vida de Cristo, a santidade
pessoal, que não se pode suprir com nenhuma outra coisa. Por isso, não
devemos separar-nos nunca d’Ele: Quem está unido comigo, e eu com ele,
esse dá muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer6. No relacionamento
com Jesus, aprendemos a ser eficazes, a estar alegres, a compreender, a
amar de verdade, a ser, enfim, bons cristãos.

A vida em união com Cristo ultrapassa necessariamente o âmbito individual


do cristão em benefício dos outros: daí brota a fecundidade apostólica, já que
“o apostolado, seja qual for, é uma superabundância da vida interior”7, da união
vital com o Senhor. Lembremo-nos, porém, de que “esta vida de união íntima
com Cristo se nutre dos auxílios espirituais comuns a todos os fiéis, muito
especialmente da participação activa na sagrada liturgia. Os leigos devem
servir-se desses auxílios de tal forma que, ao cumprirem devidamente as suas
obrigações no meio do mundo, nas circunstâncias ordinárias da sua vida, não
separem a união com Cristo da sua vida privada, antes cresçam intensamente
nessa união realizando as suas tarefas em conformidade com a Vontade de
Deus”8.

O trato com Jesus na Sagrada Eucaristia, a participação na Santa Missa –


verdadeiro centro da vida cristã –, a oração pessoal e a mortificação, terão
umas manifestações concretas à hora de realizarmos as nossas obrigações, ao
entrarmos em contacto com outras pessoas, católicas ou não, e ao cumprirmos
os nossos deveres cívicos e sociais. Se descuidássemos esta profunda união
com Deus, a eficácia apostólica com aqueles com quem nos relacionamos ir-
se-ia reduzindo até extinguir-se, e os frutos se tornariam amargos, indignos de
serem apresentados a Deus. “Entre aqueles para quem é um fardo recolher-se
no seu coração (Jer 12, 11) ou que não querem fazê-lo – indicava São Pio X –,
não faltam os que reconhecem a consequente pobreza da sua alma, e se
desculpam com o pretexto de que se entregaram totalmente ao serviço das
almas. Mas enganam-se. Tendo perdido o costume de tratar com Deus,
quando falam d’Ele aos homens ou dão conselhos de vida cristã, estão
totalmente vazios do espírito de Deus, de modo que a palavra do Evangelho
parece como que morta neles”9.

É frequente então que – no melhor dos casos – só se dêem conselhos


rasteiros, sem conteúdo sobrenatural, ou doutrinas próprias, quando se deveria
dar a doutrina do Evangelho. Se se descuida a piedade pessoal, não se
produzem as obras que Deus espera de cada cristão. Da abundância do
coração fala a boca10; e se Deus não está no coração, como se poderão
comunicar as palavras de vida que procedem d’Ele?

Examinemos hoje como é a nossa oração: a constância e a pontualidade


com que a fazemos, o empenho com que procuramos afastar as distracções, o
esforço por fazê-la no lugar mais adequado, o recurso à Virgem Maria, a São
José, ao Anjo da Guarda, para que nos ajudem a manter um diálogo vivo e
pessoal com Deus, o propósito diário com que encerramos esses minutos de
meditação. Examinemos também como é o nosso interesse em viver na
presença de Deus enquanto caminhamos pela rua, enquanto trabalhamos, na
família, por meio de pequenos actos interiores com que elevamos o coração ao
Senhor. Lembremo-nos: a seiva não se vê, mas não haverá frutos se a seiva
deixar de circular.

III. ASSIM COMO O HOMEM que exclui Deus da sua vida se converte em
árvore má que dá maus frutos, a sociedade que pretende desalojar Deus dos
seus costumes e das suas leis produz males sem conta e gravíssimos danos
para os cidadãos que a integram. “Sem religião, é impossível que os costumes
de um Estado sejam bons”11. Surge então o fenómeno do laicismo, que quer
substituir a honra devida a Deus e à moral baseada em princípios
transcendentes, por ideais e princípios de conduta meramente humanos, que
acabam por ser infra-humanos. Ao mesmo tempo, pretende-se relegar Deus e
a Igreja para o interior das consciências e ataca-se com agressividade a Igreja,
o Papa, quer directamente ou em pessoas e instituições fiéis ao seu Magistério.

Não é raro então que “onde o laicismo consegue subtrair o homem, a família
e o Estado ao influxo regenerador de Deus e da Igreja, apareçam sinais cada
vez mais evidentes e terríveis da corruptora falsidade do velho paganismo.
Coisa que acontece também naquelas regiões onde durante séculos brilharam
os fulgores da civilização cristã”12. Esses sinais produzidos pela secularização
são evidentes em muitos países, mesmo de grande tradição e raízes cristãs,
onde esse processo progride a olhos vistos: divórcio, aborto, aumento
alarmante do consumo de drogas, criminalidade, desprezo da moralidade
pública... O homem e a sociedade desumanizam-se e degradam-se quando
não têm a Deus como Pai, um Pai cheio de amor, que sabe dar leis para a
própria conservação da natureza humana e para que as pessoas encontrem a
sua dignidade e alcancem o fim para que foram criadas.

Perante frutos tão amargos, nós, os cristãos, devemos corresponder com


generosidade à chamada recebida de Deus para ser sal e luz onde estivermos.
Devemos mostrar com obras que o mundo é mais humano, mais alegre, mais
honesto e mais limpo quando está mais perto de Deus. Vale a pena viver a vida
tanto mais quanto mais estiver informada pela luz de Cristo.

Jesus incita-nos continuamente a não permanecer inactivos, a não perder a


menor ocasião de dar um sentido mais cristão, mais humano, às pessoas e ao
ambiente em que estamos. Ao terminarmos a nossa oração, perguntamo-nos
hoje: que posso eu fazer na minha família, na minha escola, na Universidade,
na fábrica, no escritório, para que o Senhor esteja presente nesses lugares?

E pedimos a São José a firmeza de espírito necessária para levarmos todas


as realidades humanas a Cristo. Olhemos com esperança para o exemplo da
sua vida, pois dela “depreende-se a grande personalidade humana de José:
em nenhum momento surge aos nossos olhos como um homem preocupado
ou assustado perante a vida; pelo contrário, sabe enfrentar os problemas,
ultrapassar as situações difíceis, assumir com responsabilidade e iniciativa as
tarefas que lhe são confiadas”13.

Com a graça de Deus e a intercessão do Santo Patriarca, esforçar-nos-emos


com constância por dar fruto abundante no lugar em que Deus nos colocou.

(1) Cfr. Mt 24, 11; Mc 13, 22; Jo 10, 12; (2) cfr. Jer 23, 9-40; (3) Gál 2, 4; 2 Cor 11, 26; 1 Cor
11, 13; (4) 2 Pe 2, 1; (5) Mt 7, 15-20; (6) Jo 15, 5; (7) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus,
n. 239; (8) Conc. Vat. II, Decr. Apostolicam actuositatem, 4; (9) São Pio X, Enc. Haerent animo,
4-VIII-1908; (10) cfr. Lc 6, 45; (11) Leão XIII, Enc. Immortale Dei, 1-XI-1885; (12) Pio XII, Enc.
Summi pontificatus, 20-X-1939, 23; (13) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 40.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)