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c o

por vivianne nunes

Música para tudo, música em tudo, música até no silêncio.

No silêncio dos tortuosos pensamentos, música para rir, música

para divertir, música para chorar.

A

música está conosco mesmo quando não a ouvimos e

quando não pensamos nela. Se a fala auxiliou a configurar

toda a vida humana como ela é hoje, a música também teve

o

seu papel importante. As primeiras tribos já tinham suas

músicas e danças, rituais que evoluíram para os sacerdotes

de

todas as religiões – o que não foi abandonado até hoje,

afinal, os cantos religiosos continuam a fazer parte de todas

as

crenças. As melodias sempre ajudaram a consolar corações

partidos, conquistar donzelas indefesas, celebrar batalhas,

motivar exércitos, protestar.

As

ruas do Brasil nos anos 60 e 70 gritaram por entre as linhas

das belas letras contra a Ditadura, as vozes de Elis, Caetano,

Gil, dentre outros, mostraram a todos que de banquinho e

violão não se vivia apenas, que o “barquinho velejando não se

calaria uma nação”. Alegria, alegria

Por enquanto não.

O

a

rock anos 80 levou voz a uma geração que teria que aprender

lidar com uma nova, e até certo ponto, ainda “gelatinosa

nova nação” a turma da colina, do Distrito Federal, observava

as

asas de Brasília tentando fazer o Brasil mostrar a sua cara.

Amarrados ao chão, chegamos aos anos 90, bebendo de volta

as

raízes sertanejas, misturando o bom e o ruim que o mundo

nos oferecia. Pop, funk, sertanejo, rock, axé, samba, pagode

Ande pelo dial do seu rádio, ou atualizando agora, role os

dedos pela tela do seu smartphone, e todas as batidas estarão

ao seu alcance.

A

Compasso nasce neste contexto. Neste caldeirão: o da

música sendo muito mais do que uma coisa, mas sim uma

verdadeira entidade, capaz de influenciar nos negócios, no

cotidiano, na moda e estar com você em todos os momentos e

situações. Cinema, moda, personalidades, turismo e negócios,

tudo no embalo dos mais diversos estilos.

pé na estrada que a nossa vida é cantar, ouvir, falar, discutir, entender e especialmente

pé na estrada que a nossa vida é cantar, ouvir, falar, discutir, entender e especialmente ouvir música! para essa nossa viagem já está garantida a trilha:

compasso, a trilha da sua vida!

EXPEDIENTE

a trilha: compasso, a trilha da sua vida! EXPEDIENTE “ música para tocar no estádio música

música para tocar no estádio música para escutar rádio música para ouvir no dentista música para dançar na pista música para cantar no chuveiro música para ganhar dinheiro ”

música para ouvir

chuveiro música para ganhar dinheiro ” música para ouvir música para ouvir Arnaldo Antunes FIAM –

música para ouvir Arnaldo Antunes

FIAM – FAAM CENTRO UNIVERSITÁRIO Esta é uma produção acadêmica dos alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo do FIAM – FAAM Centro Universitário como forma de trabalho de conclusão de curso, campus Ana Rosa.

DIRETORA DO NÚCLEO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS HUMANAS E DAS ARTES Ms. Simone Maria Espinosa

COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISMO Dr. Vicente William da Silva Darde

PROFESSORA ORIENTADORA Ms. Carla de Oliveira Tôzo

EDITORES-CHEFES Andressa Guedes Cancian

dessacancian@hotmail.com

Vivianne Nunes do Souto

nunesvivianne@gmail.com

COLABORADORES

FOTOGRÁFO

Luiz Henrique Nadais

lhnadais@gmail.com

DIRETORA DE ARTE

Tabata Resende

tabataresende@gmail.com

REPORTAGENS Andressa Guedes Cancian Vivianne Nunes do Souto

FOTOGRAFIAS Andressa Guedes Cancian Vivianne Nunes do Souto

facebook.com/RevistaCompasso Twitter: @RevistaCompasso Instagram: revistacompasso Snapchat: revistacompasso revistacompasso@gmail.com revistacompasso.wordpress.com

cortina

cortina Meio coxinha & Rock ‘n’ Roll 62. As respostas do Charada Brasileiro Na trilha do

Meio coxinha & Rock ‘n’ Roll

62.

As respostas do Charada Brasileiro

Rock ‘n’ Roll 62. As respostas do Charada Brasileiro Na trilha do som, se trilha uma

Na trilha do som, se trilha uma história

88.

O complemento perfeito para qualquer boa cena

Virando

gente

grande

06.

Como o mercado brasileiro de música vem se profissionalizando

o mercado brasileiro de música vem se profissionalizando Onde estamos agora? 48. Quando um muro ajudou

Onde

estamos

agora?

48.

Quando um muro ajudou a unir pedaços da vida de David Bowie

Dança das tintas

38.

Quando o amor por uma música ou banda deixa marcas

ajudou a unir pedaços da vida de David Bowie Dança das tintas 38. Quando o amor

Virando

gente

grande

O MERCADO DE SHOWS E DE GRANDES EVENTOS

VEM SE PROFISSIONALIZANDO CADA VEZ MAIS NO BRASIL, APESAR DE MOMENTOS DE CRISE

E INCERTEZA, DO ROCK AO SERTANEJO, NOSSO PAÍS SE TRANSFORMOU EM UM DOS MAIORES MERCADOS PARA SHOWS

por andressa cancian e vivianne nunes

P

Para quem é fã de música 2016 não foi definitivamente um ano fácil, e não estamos falando das perdas de grandes artistas, mas sim de como os nossos cofrinhos foram sacrificados. Apesar do nosso momento de incerteza política e econômica, com um período que começou com o dólar em alta batendo a barreira dos R$ 4,00, grandes nomes da música internacional fizeram a sua escala por aqui. Aerosmith, Black Sabbath, Guns n Roses, Coldplay, New Order, Scorpions Wilco, Andrea Bocelli, SimplePlan, Maroon 5, foram só alguns dos nomes que passaram por terras nacionais. Para 2017, além de megafestivais como o Rock in Rio, que teve a venda do seu Rock in Rio Card esgotada em apenas 2 horas, Maximus Festival, Tomorrowland e o Lollapalooza, Justin Bieber já mobilizou seus fãs que acampam com 5 meses de antecedência esperando o seu show e Sting está de malas prontas, além da promessa de grandes nomes não para de aparecer.

Aliás, foi justamente o Rock in Rio, em 1985, o responsável por colocar pela primeira vez o Brasil realmente na

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MONEY

trilha das grandes atrações musicais, apesar de esporádicas apresentações nos anos 70, e alguns embrionários eventos como o Balança mas não cai, foram os enlameados dias de janeiro de 85 que mudaram a história dos shows tupiniquis, depois que mais de 250 mil pessoas puderam ver nomes como Queen, Iron Maiden, Whitesnake, AC/DC, Ozzy Osbourne além da nata da música nacional com Rita Lee, Paralamas do Sucesso, Blitz dentre tantos outros abriram-se os portais do paraíso. Além das edições e da internacionalização do evento criado

por Roberto Medina, vimos surgir eventos como Hollywood Rock, Skol Beats, Claro Q é Rock, Planeta Terra, Motomix, Tim Festival, Close-Up Planet, Free Jazz, Maquinaria, SWU, Monsters of Rock, apenas para citar alguns. Mesmo que nem todos tenham sobrevivido, com certeza pavimentaram o caminho para

o que ainda está por vir.

Michael Jackson, Madonna, Paul

MacCartney, Rolling Stones, Bon Jovi, poderia ser no estádio do Morumbi, na pista de Atletismo do Ibirapuera,

ou na Praça da Apoteose, abrir o jornal

nos anos 90 era garantia de encontrar esses nomes com vendas de ingresso.

Plano Collor, hiperinflação, Plano Real, o mercado de shows sobreviveu

a todos os altos e baixos, a despeito do que acontece agora. E os números se mantêm animadores. Segundo pesquisa inédita feita pela consultoria PwC Brasil, o mercado de shows no país, que teve um lucro de R$357 milhões em 2013 pode ultrapassar a marca dos R$496 milhões até 2018. O país ocupa

o segundo lugar no mercado de eventos

musicais no ranking feitos com os membros da América Latina, perdendo apenas para o México. O turismo local também ganha com esse crescimento.

E não apenas do rock e de música

eletrônica esse boom se alimenta. Eventos como o Festival Promessa focado para o público evangélico mobiliza

milhares de espectadores. “É natural que uma empresa de mídia abra espaço

para os evangélicos. Eles hoje são cerca de 30% dos brasileiros e daqui a 10, 15 anos vão ser a metade do Brasil”, declarou Leo Ganem, diretor da agência UM Entretenimento ao Uol em 2014. Ganem foi o responsável por alavancar

a carreira de artistas como Michel

Teló e Maria Gadú. Estima-se que o mercado gospel no Brasil movimente entre gravadoras, editoras, confecções

e demais objetos de interesse carca de R$1,5 bilhão ao ano.

NO VAI E VEM DA SANFONA

Se tem um estilo que vem dominando

o mercado especialmente nos últimos

5 anos, aliás dominando novamente,

é o sertanejo. Depois de terem quebrado

as barreiras entre a roça e a cidade no

final dos anos 80, começo dos 90 com duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano dentre outros, o chamado sertanejo universitário de Fernando & Sorocaba, Luan Santana, Lucas Lucco abriu a porteira dos anos 2000

misturando ritmos, públicos, tecnologia

e profissionalização.

A F&S Produções Artísticas, produtora

fundada por Sorocaba, ocupa atualmente um endereço de R$3 milhões na capital paulistana. Sorocaba aliás é muito mais que um cantor, mas sim um verdadeiro empreendedor, além de agenciar a carreira de outros artistas como Thaeme & Thiago e Marcos & Belutti, e ser um dos maiores arrecadadores de direitos autorais no Brasil, segundo o Ecad, só em 2012 a sua arrecadação foi de cerca de R$200 milhões. Além disso, o cantor possui participação na franquia de restaurante Wendy’s, na rede de bares sertanejos Wood’s, e aparece como investidor de negócios no reality show SharkTank Brasil – Negociando com Tubarões, do canal Sony. O programa

– Negociando com Tubarões, do canal Sony. O programa Sorocaba e os jurados da edição brasileira

Sorocaba e os jurados da edição brasileira do Shark Tank, programa nos quais os “tubarões” escolhem novos negócios para investir. O cantor é campeão de arrecadação com direitos autorais no Brasil, além de empresariar outros artistas e possuir participação em redes de restaurantes e casas noturnas em todo país. (Fonte: Divulgação / Canal Sony)

é uma versão brasileira do reality com

é composto por: Chitãozinho & Xororó, Edson & Hudson e muitos outros.

magnatas, os “tubarões” dos negócios, interessados em dar apoio financeiro a ideias de novos empreendedores.

Citado por Guga, o Vila Mix certamente pode ser tratado como um dos maiores cases de sucesso dentro do segmento sertanejo. O festival passou por 22 cidades brasileiras em 2014, chegando como citado ser certificado pelo Guinness Book como a maior estrutura de palco do mundo para a edição de Goiânia com marcas de 2.788,39 m², isso tudo com apenas 5 anos de existência. Ele certamente foi o responsável por possibilitar a realização de outros grandes eventos como o Brahma Valley, porém o embrião dos grandes eventos está no circuito de rodeios. A Festa de Peão

é mover a montanha até Maomé. Sendo

não acontece no quintal de casa, o jeito

Quando o seu artista favorito não vai até você, ou quando um mega evento

de Barretos, realizada pela primeira vez

em 1956, recebe anualmente cerca de 900 mil visitantes e envolve quase 10 mil pessoas em sua organização, além disso

o Parque do Peão onde ocorre o evento

ocupa uma área de mais de 2 milhões de metros quadrados. Itú e Jaguariuna são duas outras cidades no qual eventos desse porte se destacam.

“Estamos nos profissionalizando cada vez mais. São centenas de pessoas envolvidas no gerenciamento da carreira deumartista,issovaidesdeosescritórios, que cuidam de cada detalhe, até os produtores que estruturam os grandes palcos e megaproduções. Hoje temos

produções gigantes, como o Villa Mix que bateu recorde no Guinness. Para isso

é necessário muita profissionalização.”,

explica Guga Pereira, sócio/diretor da LIVE Talentos, escritório de gestão de carreiras artísticas com um casting que

PÉ NA ESTRADA

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assim o mercado de shows movimenta também o turismo. De acordo com o estudo encomendado pela Entertainment Media Outlook, a receita do segmento aumentou de US$ 165 milhões em 2010, para US$ 205 milhões em 2014, e o

mercado de música certamente teve uma boa influência sobre isso. O Rock in Rio, já citado aqui anteriormente, causa um impacto na cidade do Rio de Janeiro de cerca de R$624,9 milhões de acordo com dados do Observatório do Turismo do Estado do Rio de Janeiro, entidade ligada

à Universidade Federal Fluminense. Em

declaração obtida no site do Ministério do Turismo, Gardênia Rogatto, gerente sênior da PwC Brasil, avalia também que, capitais menores podem sediar concertos internacionais – e descentralizar os eventos do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. “O brasileiro aproveita o fato de sair de sua cidade não só para assistir a um determinado show, mas também para explorar o que o destino oferece”

Foi nesse espírito, primeiramente de juntar os amigos para curtir boa música

ao vivo em lugares distantes que nasceu

a FriendsSession em Florianópolis. “Em

Floripa não tinha nenhum lugar que tivesse música ao vivo, e eu queria ver isso, foi então que eu tive a ideia de criar a BussSession., conta o fundador Fábio Nunes. A primeira edição da Bus Session, produto da FriendsSession, aconteceu devido a uma parceria entre ele e o namorado da sobrinha que tinha uma agência de viagens. Após isso, ingressou e começou a se arriscar sozinho para as próximas edições, o que acabou dando certo.

As excursões acontecem para shows em várias cidades do Brasil, e é uma verdadeira “festa sobre rodas”, onde os passageiros possuem um lugar para comemorarem e fazerem um “esquenta” para o evento ou carregar as baterias enquanto se prepara para o grande momento. Fábio conta que no começo era difícil, não conseguia parceria com as bilheterias para compra de ingressos

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MONEY

com as bilheterias para compra de ingressos 10 MONEY O festival VillaMix e a sua mega

O festival VillaMix e a sua mega estrutura reconhecida pelo Guinness Book. (Imagem: Cristiano Borges/UOL)

em primeira mão, então tinha que fazer tudo à moda antiga “Vim para São Paulo comprar os ingressos para o show do U2, comprei 72 ingressos, cerca de R$ 14 mil no bolso. Quando entrei no avião mandei mensagem para o pessoal dizendo que já estava voltando e com os ingressos em mão, tenho certeza que naquele dia tinha muita gente rezando por mim.”

Infelizmente, nem sempre tudo é um mar de rosas. As dificuldades que vão aparecendo ao longo do caminho, colocam a prova de até onde vale arriscar, visto que às vezes os ingressos podem ficar parados e o prejuízo ser ainda maior “Em novembro de 2010 eu fechei 16 ônibus, entre Porto Alegre e São Paulo, para o show do Paul McCartney. Quando foi em maio de 2011 ele voltou para um show no Rio de Janeiro. Eu comprei ingresso para 2 ônibus, porque na pré-venda o pessoal entrou e agendou que queria. Eu morri com mais ou menos uns R$ 11 mil de ingressos na mão. E sempre tem um boliviano nos shows, pode reparar que ele sempre vai estar lá. Eu dei três ingressos pista premium do Paul McCartney, o

equivalente a R$ 2.500,00, e ele me deu uma caneta dos Beatles e uma camiseta do Paul McCartney, ou seja, eu tenho os dois itens piratas mais caros da história.”, lembra Fábio.

Para ele o consumo de música mudou, e

a internet fez com que isso acontecesse

“Depois do mp3 as pessoas banalizaram

o consumo. Era caro comprar vinil no

Brasil, então quando você tinha, você cuidava, você casava. Hoje em dia o pessoa só fica, virou praticamente um Tinder de música.”, finaliza.

COLOCANDO NOS EIXOS

Com o histórico de quem já trabalhou no backstage de artistas como David Bowie, nas primeiras edições do Monsters of Rock dentre outros, Fabiana Lian viu de perto todas as mudanças que ocorreram por aqui em relação a este mercado, passando pela fase do “vamos ver no que vai dar”, decidiu fundar a OnStageLab em parceria com Bianca

dar”, decidiu fundar a OnStageLab em parceria com Bianca enlouquecidas, ficaram quietas. A Preta Gil estava

enlouquecidas, ficaram quietas. A Preta Gil estava fazendo um making off nos bastidores, e teve que explicar para todo mundo quem eram aquelas três pessoas, fiquei chocada.”, conta Fabiana.

O PARAÍSO DO MÚSICO (E DOS NEGÓCIOS)

Realizada anualmente a Expomusic chegou a sua 33ª edição e se torna mais um dos eventos a consolidar os números referentes ao crescimento do mercado musical. Foram atraídas mais de 42 mil pessoas para o evento. O quarto maior evento profissional da música no mundo movimentou vendas em torno de $240 milhões em instrumentos musicais, equipamentos, acessórios, tecnologia e outros produtos e serviços.

Fabiana Lian, fundadora da On Stage Lab durante a Expomusic 2016 (Foto: Vivianne Nunes)

Freitas. A missão da escola parece um pouco ambiciosa: mudar o panorama do mercado de shows no Brasil. Com

cursos intensivos e extensivos a escola

é inteiramente voltada para o mercado de entretenimento ao vivo e seu negócio, não sendo uma escola para quem quer necessariamente estar em

cima do palco, mas essencialmente atrás dele. Com cursos que vão desde

a parte técnica, até o agenciamento e

booking de artistas, a escola já recebeu

nomes como convidado para falar com

os seus alunos peso pesados como Greg

Graffin, vocalista do Bad Religion.

Não havia uma educação voltada para

a área do entretenimento, a partir,

disso nasceu a ideia de suprir essa necessidade. Tudo começou em 2009 quando aconteceu o primeiro curso independente chamado “Workshop de Shows Internacionais”, no hotel Hilton,

em São Paulo. Foi o primeiro ato concreto de influenciar o showbusiness

e mudar o conceito que era praticado anteriormente. Em 2014 nasceu a On Stage Lab.

A necessidade também se dá na

especialização e no fazer tudo com excelência. “O mainstream é ótimo, mas

ainda falta um pouco de indie. Falta prezar

por

essa excelência em melhorar.”, é o

que

conta Fabiana Lian. Conhecer como

funciona o mercado do show business se encaixar e trazer melhorias, é um dos passos que os alunos têm que passar para chegarem ao sucesso.

Trabalhar com música é prazeroso, ainda mais quando se gosta, mas nem sempre é uma tarefa fácil. Não precisa conhecer tudo, mas pelo menos um pouco de tudo, mesmo que você trabalhe exclusivamente para um estilo ou outro. “Uma vez fui no Prêmio Multishow. Chegamos lá e fomos para os nossos lugares. Na barricada que haviam montado próximo ao palco tinha várias meninas, e elas enlouqueciam a cada rapaz com o cabelo espetado que entrava, e eu não sabia quem eles eram, comecei a me perguntar: ‘eu trabalho com música mesmo?’ porque não conseguia acreditar naquilo. Um tempo depois, entrou no palco Caetano, Gil e Gal Costa, e as mesmas meninas que estavam

Com foco justamente nos números

e na retomada do segmento pela

primeira vez aconteceu as Rodadas de

Negócios, que rendeu algo em torno de R$3 milhões. Nos três primeiros dias

da feira, foram realizados 218 encontros

pré-agendados entre 35 empresas expositoras e 30 pequenos lojistas. Outra iniciativa inédita foi a criação do Rock Lounge, espaço que reuniu tatuadores, expositores de moda, vinis além de apresentação de bandas independentes como Toyshop, NDK e KickBucket. O encerramento do espaço foi feito pelo cantor Supla numa aparição surpresa show no palco flutuante montado sobre o palco do Anhembi.

Mas apesar de todas as situações, incertezas e certezas, é que o mercado

está se aproximando cada vez mais do fã, fazendo com ele viva essa experiência

da

melhor maneira possível, e o melhor

de

tudo, que se sinta em casa.

fazendo com ele viva essa experiência da melhor maneira possível, e o melhor de tudo, que

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Segue

o

As formas de compartilhamento ajudam na divulgação e reconhecimento do artista, já que o acesso é feito por qualquer um de qualquer lugar. Saber usar e torná-la uma aliada ferramenta de trabalho, faz com que o resultado seja ainda melhor que o esperado.

Qual a primeira coisa que você pega antes de sair de casa? Geralmente, o celular. Mas por quê? Porque estamos condicionados a isso, mesmo que não queiramos aceitar. Com a popularização dos smartphones e a facilidade do acesso à internet, mesmo que o serviço seja inferior ao que deveria ser, sair de casa sem ele pode ser uma tarefa difícil.

Ouvir músicas, assistir a vídeos, séries e filmes se tornou uma rotina e um item de prazer e distração para as pessoas. Mas como tudo isso é possível? A partir de uma coisinha chamada streaming. E o que significa? Streaming significa fluxo de mídia, em linguagem popular, e é uma distribuição de dados multimídia através da internet.

Com o mercado em expansão, mesmo no Brasil onde a qualidade do serviço de internet deixa muito a desejar, os usuários ainda preferem realizar o download e armazená-los em seus smartphones, computadores ou pen drives. Um relatório divulgado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (FPI) e pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) divulgada em junho de 2015, apontou que as assinaturas de streaming tiveram crescimento de 39% em 2014, e já representam quase 25% do mercado digital global. Já as vendas físicas recuaram 8%, e as receitas digitais cresceram 6,9%.

Como os artistas lucram com este tipo de serviço? A venda das vias físicas gera uma receita que é dividida para todos que fizeram parte daquele projeto, isso inclui: produtores, gravadoras, o próprio artista e demais. Mas, por meio das plataformas online, como é feita essa divisão e o repasse?

fluxo:

a nova era digital

Empresas de streaming já rendem US$ 1,8 milhões (cerca

de R$ 6 milhões) por ano no mundo, segundo a Federação de gravadoras do Estados Unidos (RIAA - Recording Industry Association of America ou Associação da Indústria de Gravação por andressa cancian

ou Associação da Indústria de Gravação p o r a n d r e s s

da

América). O repasse que é feito aos artistas é por volta

de

R$ 0,003 (valor estimado) por música tocada no Brasil.

Segundo informações do Spotify, 70% dos lucros são repassados para os produtores de conteúdo. Os centavos pagos por cada play ainda precisam ser divididos pelos artistas com intermediários: gravadoras, editoras e demais

agregados. No Brasil, a briga ainda se agrava com a presença

do Ecad (Escritório Central de Direitos Autorais). O órgão

que arrecada direitos autorais no país por execução pública, busca responder na Justiça a pergunta essencial para sua atividade: Streaming é execução pública ou privada?

O diretor de Brasil e LATAM da ONErpm, Arthur

Fitzgibbon, plataforma de distribuição digital, conta que

a transparência é uma parte fundamental para que esse

serviço aconteça da melhor forma possível “Os relatórios

são absolutamente transparentes. Essa reclamação acontece

quando há problemas em quem recebe os relatórios das lojas digitais. No caso da ONErpm, recebemos os relatórios e mostramos a receita de música por música, em que loja que foi, em que país, e o mês que houve o consumo. Quando fazemos nossos relatórios, mostramos tudo isso, e até quanto cada loja nos pagou e quanto ficou líquido para cada artista. Um fator muito importante é que o artista deve se envolver e

conseguir ler os relatórios, sejam eles financeiros ou analíticos.

A transparência existe no digital e é uma regra.”

Muitos artistas entraram em guerra contra os serviços. Taylor Swift, uma das maiores vendedoras, lidera a luta

pela transparência do serviço e pagamento mais justo. Adele decidiu não disponibilizar seu álbum “25” em nenhum serviço e, nos primeiros dias de lançamento, vendeu mais de 3 milhões de cópias. Um dos gêneros que entraram com força

no mundo digital e se deu muito bem, foi o canal Kondzilla,

que assina diversas faixas de artistas do funk, que hoje já trabalha para mais de 42 mil artistas e quase 1.000 selos.

Em contrapartida, diversos artistas utilizam estes serviços para divulgarem o seu trabalho e torna-lo conhecido, visto que: é uma plataforma fácil de ser manuseada, acessada e compartilhada a qualquer hora e lugar. Henrique Camacho, DJ e produtor musical que já tocou com grandes nomes da cena eletrônica, entre eles Reckzet e Mandraks considera o serviço importante para divulgação do trabalho e reconhecimento do público. “Hoje funciona muito melhor do que há 3 anos atrás, porque meu som não era muito conhecido, então eu lançava as músicas pelas melhores gravadoras para venda, até que uma música minha alcançou a 8ª posição no ranking mundial.

Depois disso, muita gente passou a conhecer minhas músicas.” Lançar uma música pela gravadora e depois disponibilizá-

la para download, ajuda na divulgação e as pessoas que fazem

o download colaboram com uma espécie de “marketing

gratuito”, divulgando a música de determinado artista para

um amigo, parente ou conhecido. A caminho do trabalho

ou da escola, no fone de ouvido ou no som do carro, ao ouvir e contar para alguém sobre ela, você divulga o artista. Quem nunca disse ou ouviu: “ouve essa música aqui, acabei de descobrir essa banda, tem umas músicas bem legais”. Pronto. Está feita a divulgação. E vai acontecendo no boca a boca, nos downloads e compartilhamentos.

Além de DJ e produtor musical, Henrique também abriu sua

própria gravadora, a Purple Haze Records, onde também divulga suas músicas, não somente nas plataformas online. “Meu foco com a gravadora é o público de fora. No Brasil

é muito difícil vender música, quem compra mesmo são os

gringos. Então deixo meu som com uma característica mais europeia para venda, e com uma ‘pegada’ mais brasileira para free download aqui.”

E

nessa história toda, o que compensa mais? Investir e fazer

o

lançamento por uma boa gravadora, ou disponibilizar para

todos terem acesso? Hoje o marketing acontece mais no mundo virtual, através de downloads e compartilhamentos. Os CD’s foram ficando um pouco para trás, e o investimento

em videoclipes e vídeos de divulgação já é maior para

chamar atenção pelo visual. O maior festival de música eletrônica Tomorrowland é adepto dos vídeos de divulgação,

por exemplo. A cada edição, é disponibilizado no canal oficial

do Youtube um vídeo feito pela produção do evento, no qual

eles fazem um recorte dos melhores momentos e pequenos

diálogos dos frequentadores contando suas experiências e o

que mais gostam e chamam a atenção. O after movie, como é

chamado, é uma forma de deixar aquele “gostinho de quero mais”. Lembrar de todos os momentos que você viveu e os artistas que você viu, e caso não tenha ido, atiçar o seu eu interior para tentar ir na próxima vez para também tentar viver aquela experiência denominada única.

O mercado ainda é irregular, mas estima-se que o crescimento

pode chegar até 10% ao mês em consumo do digital,

e pode crescer constantemente até 2019. Os tempos

mudaram, e com ele a forma que as pessoas consomem,

por isso, os consumidores foram se adequando e se acostumando a consumir diretamente no digital, o que fez o

CD e DVD perderem um pouco das vendas e de espaço no

mercado, apesar dessa queda ocorrer na maior parte das vezes

por conta da pirataria, que ainda é um problema muito forte.

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tablet, carro, Playstation,
TC e Android Wear
Sil Rigote, e a bandeira do U2Br em Nova Iorque, levando os sonhos e a

Sil Rigote, e a bandeira do U2Br em Nova Iorque, levando os sonhos e a marca cada vez mais longe. (Foto: arquivo pessoal / U2BR)

Conexão

Musical

COMO A INTERNET E AS REDES SOCIAIS MUDARAM A FORMA DE UNIÃO DOS FÃS E DO CONSUMO DA MÍDIA

Uma “

me marcou foi ver o crescimento do U2BR de forma exponencial. O site completa 10 anos em 2016, e foi crescendo aos poucos. Em 2011, no dia dos shows aqui no Brasil, eu lembro de passar na fila e o pessoal me reconhecer, e falar que adorava nosso trabalho, dando parabéns por ele. Isso me deixou completamente atônita. E feliz em saber que contribuímos de algum modo para que as pessoas realizassem seu sonho de ver um show do U2.”

das coisas que mais

Viver em grupo é garantia de sobrevivência para praticamente todos os animais inclusive para seres humanos. Só que para nós deixou de ser uma necessidade física e se tornou uma necessidade social. Uma mesa de bar no final do expediente, uma arquibancada em um jogo de futebol, as tias e avós trocando receita e histórias que nos fazem passar vergonha. Desde que possamos trocar experiência e nos sentirmos inclusos, o tempo voa e tudo se encaixa.

Clube do livro, fã-clubes, torcidas organizadas com um amor em comum que se reúnem.

Pessoas

Se antes as adolescentes nas décadas passadas se reuniam para trocar recortes de revistas, pôsteres e fotos dos seus gatinhos da música, cinema, televisão e afins, e os meninos se reuniam para trocar figurinhas, a chegada da internet mudou tudo, não o que é feito, mas como é feito.

Primeiramente sem a conexão de alta velocidade, e tecnologias como o HTML 5, o flash e tantas outras surgiram as listas de e-mail e fóruns de discussões. Milhares e milhares de mensagens trocadas diariamente tratando sobre o que interessava. Então com a evolução da tecnologia, o desenvolvimento e mais fácil acesso as

por vivianne nunes

linguagens de programação que passaram a ser apenas de domínio dos webmasters com surgimento de plataformas que possibilitaram a criação de sites mesmo que o usuário não possuísse grande conhecimento técnico, a substituição da conexão discada e outras melhorias, começaram a surgir os sites dedicados a séries de TV, música e outros assuntos. Qualquer um sentado em sua casa e apenas com um equipamento simples, conseguiria criar uma página, que poderia tratar desde o bolo de cenoura da sua avó até dos filmes alemães expressionistas. Claro que nada parecido com o que temos hoje, mas o intuito era o mesmo de antes, o mesmo aliás de fanzines, revistas e tantos antes: fornecer conteúdo sobre o assunto e a interação entre os interessados.

O termo fansite ou fã-site só começou a ser usado no

início dos anos 2000, quando finalmente podemos dizer que as ferramentes de internet passaram a ser um pouco mais inclusivas. Harry Potter, One Direction, Jonas Brothers, Ed Sheeran, e tanto outros fenômenos que nasceram essencialmente no universo teen, duradouros ou não, certamente não teriam a metade do alcance que obtiveram

se não fosse a dedicação de milhares de pessoas que em

torno de todo o planeta começaram a propagar informações

sobre eles.

Propagar tornou-se maior ainda. O verbo de ação da atualidade é o viralizar quando dado assunto começa a ficar grande demais até para o seu próprio espaço reservado e alcança os que não seriam os interessados habituais. O viral coincide com o surgimento das redes sociais, a tal da web 2.0 quando deixamos de ser apenas consumidores de conteúdo e passamos a ser produtores, mesmo que irracionalmente e de forma involuntária. Orkut no começo, depois Twitter, Facebook, Youtube, Instagram, Snapchat e tantas outras ferramentas acabaram por, repetindo o clichê “derrubar barreiras”, além disso podemos dizer que passamos a ser a geração da “segunda tela”, ou seja não basta ver um programa de TV, precisamos estar conectados ao Twitter comentando tudo o que está acontecendo, e claro não fazer isso sozinho, mas com todos os outros que estão em suas casas.

Os números sobre fã-sites são enormes, para cada página oficial de um artista podem existir mais 2 ou 200 não oficiais mantidas pelos seus seguidores e em todas as plataformas:

algumas atuam em várias frentes, outras apenas via redes sociais, mas o que importa é estar conectado, o número de visitas pode passar facilmente dos milhares por dia.

Conteúdos mais simples, elaborados

pode achar de espaços dedicados a artistas de forte apelo popular como Wesley Safadão, Jorge & Mateus, bandas internacionais “gigantes” como U2, ou aquela página tímida do artista iniciante que toca em bares ou a banda cover que tenta o seu espaço na noite.

e os assuntos? Você

Um dos portais que funciona em praticamente todas as frentes é o U2BR (u2br.com), com 10 anos de existência é

o maior portal em língua portuguesa sobre os irlandeses do

U2. São mais de 110.000 curtidores na página do Facebook, 10.000 no Twitter e 16.000 no Instagram, sem contabilizar ainda os acessos ao seu site e visualizações de vídeos no Youtube, ele já virou referência quando falamos sobre a banda. Alessandra Mendonça, uma das administradoras do site comenta: “Uma das grandes maravilhas dos fã-sites em geral, é poder reunir pessoas em torno de um gosto em comum. Encontrar em um só espaço uma comunidade em que abrange os mesmos interesses que você, possibilita um enlace entre os fãs, um lugar específico onde as pessoas

possam falar sobre seus gostos de forma mais incisiva. E com

a internet, essa união alcançou níveis altíssimos. Você pode ter amizade com outras pessoas que moram a quilômetros e quilômetros de distância, mas que compartilham dos mesmos gostos, e a quais provavelmente você não iria conhecer se não fosse justamente o fã-site. Portanto, acho mais do que sensacional essa união promovida pelos sites.”

Rob Black, responsável pelo único site em homenagem a cantora Alicia Keys em terras nacionais (aliciakeys.com.br)

18

SINTETIZADOR

também salienta os prazeres de se manter uma página:

“Recebemos muitos elogios por ser o único site brasileiro dedicado a cantora. A ideia surgiu de alguns fãs que curtiam muito o som da Alicia no começo de sua carreira. Aconteceu uma identificação reciproca e como não havia

nenhum meio que a divulgava muito, então foi uma forma de unir e juntar as pessoas para saber mais sobre a artista. Sem dúvidas, a melhor história foi a realização de nosso sonho de ver Alicia cantar pela primeira vez no Brasil, após longos anos divulgando, fazendo promoções

e lutando para trazer o show para o nosso país. A cereja

do bolo foi o reconhecimento dela e de sua equipe, que nos concederam a honra de conhecê-la pessoalmente, durante um dos shows realizados no Brasil. Cada tipo de artista tem alguma forma de interação com os fãs. No nosso

exemplo, como ‘AKFAM’, como se chamam os fãs de Alicia,

a proximidade acabou acontecendo de forma natural, por

que sempre estamos presentes em tudo que acontece com

a Alicia, seja divulgando, seja promovendo a sua carreira, etc. Simplesmente aconteceu aproximação, pois ela curte conhecer e saber quem são os fãs que a acompanham. ”

Falando em cantoras, uma das que merece destaque no Brasil

é a Anitta, que já pode ser considerada sem dúvidas uma das

divas da música pop nacional. O Central Anitta (centralanitta.

com) tenta manter a sua musa sempre em destaque mostrando um trabalho de qualidade desenvolvidos por fãs dedicados. “Acompanhar o trabalho e a vida de um artista torna-se uma tarefa do nosso dia-a-dia, tais quais nossos empregos ou nossas universidades. Mesmo com tantos afazeres e responsabilidades cotidianas, nos sentimos no dever de cobrir para o público que nos acompanha cada passo dado por nosso pupilo, afinal isso

é o compromisso que assumimos e tudo isso constitui a tal

ligação referida, do artista para conosco. Nós, fã-sites, somos

incumbidos de facilitar e estimular essa proximidade, essa ligação. Senti que a maioria dos fã-sites sobre Anitta seguiam uma estrutura um tanto quanto informal e até mesmo pessoal demais. Estava faltando algo com mais formalidade, que

transmitisse segurança e seriedade, senti, algo em algum formato jornalístico, mesmo que amador. Daí então, tive a ideia de criar o fã-site com a tentativa de me aproximar desses moldes. Com o tempo, reuni um grupo de pessoas com interesses em comum e hoje o nosso fã-site cresce de forma gradual aos nossos esforços

e compromissos. Não nos classificamos como os melhores

do ramo nem mesmo sabemos se chegamos ao objetivo da ‘formalidade jornalística’, mas estamos satisfeitos com o que a Central Anitta é.”, afirma um dos administradores do site Lucas Porto, 20 anos, morador do Guarujá e Monitor de Qualidade em uma grande empresa de telecomunicações.

Manter um fã-site, é algo trabalhoso. A maioria dos que o fazem, acabam por ter que administrar o seu espaço no tempo livre

acabam por ter que administrar o seu espaço no tempo livre Membros da equipe do Coldplay

Membros da equipe do Coldplay Brasil durante o Meet & Greet com a banda, durante os shows de abril deste ano. (Foto: arquivo pessoal / Coldplay Brasil)

entre outras atividades: “Ah, o trabalho é muito, rs. Basicamente existem quatro frentes em um site de tamanho médio a grande (como o U2BR). Existem aqueles que ficam responsáveis pelo

conteúdo que alimenta diariamente o site (aqui dividido entre conteúdos autoral e reprodução de notícias), aqueles que cuidam das redes sociais (responder aos fãs, atualizar as redes ), os que atuam na parte de logística de colocar o site funcionando (trabalhando com provedor, layout, e etc ), e os que gerenciam

o site em si. Portanto, da bastante trabalho, mas a recompensa de manter um bom canal sobre o seu artista favorito, e ver

a recompensa com o feedback dos fãs, é o bastante para continuar.”, complementa Alessandra.

Marcelo Monteiro, estagiário, 18 anos, morador de Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul é um dos que está por trás do Coldplay Brasil, e o que começou quando mal tinha entrado na adolescência endossa o coro de trabalho, porém feito com amor e dedicação. “Era 2013, eu tinha uns 14 ou 15 anos e, a caminho da escola, tive a ideia de criar um blog sobre a banda e, ao longo daquela semana, fui desenvolvendo a ideia durante o trajeto. Sempre gostei muito do mundo dos blogs e, isso misturado com minha paixão pelo jornalismo, era tipo a faca e o queijo na mão para que tudo funcionasse bem. E funcionou, estamos no ar há quase quatro anos e somos considerados um dos maiores fã-sites sobre Coldplay no mundo. Uma parte do conteúdo no Facebook, por exemplo, é publicada em três línguas diferentes (português, inglês e espanhol) devido ao grande público estrangeiro que temos. Ele também chega a diversos brasileiros que não residem no Brasil mas que procuram informação de qualidade sobre a banda em sua língua nativa. Podemos ser só um fã-site, claro, mas temos nossos

princípios de publicação (que logo estarão devidamente prontos e disponibilizados em nosso site) e procuramos sempre fazer um trabalho de qualidade.” O reconhecimento além de ser feito pelos próprios fãs, no caso deles também chegou aos seus ídolos. “Nossa melhor história é de quando estávamos no show da banda no Allianz Parque (em abril deste ano), em São Paulo. Ganhamos da Warner Music Brasil um meet and greet com a banda, e quando estávamos a caminho do encontro com eles, demos as mãos. Naquele mesmo momento, a Lianne La Havas fazia o show de abertura e tocava a música Unstoppabble. Foi um momento em que, realmente, ninguém poderia nos parar. Foi muito mágico, e a música se tornou muito significante para a equipe (e, claro, o encontro com a banda foi incrível!).”

Porém tudo isso compensa, sendo apenas mais uma das tantas formas dos fãs se sentirem perto dos ídolos e interagirem entre si. “O artista tem que estar conectado com seus fãs. Afinal, eles são o próprio termômetro do sucesso. Acredito que muitos artistas buscam uma proximidade junto a seus fãs, e o fã-site vem a se tornar um veículo para tanto, possibilitando uma ligação mais estreita entre ambos.”, conclui Alessandra.

vem a se tornar um veículo para tanto, possibilitando uma ligação mais estreita entre ambos.”, conclui

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Era tudo para mim, fazia os meus dias mais alegres, coloridos, divertidos. E, de repente, virou fumaça. Tudo que vivemos juntos são apenas lembranças, nada mais do que isso, mesmo que tenham durado apenas alguns meses.

Quando um relacionamento chega ao fim, buscamos, de diversas formas, procurar algo para distrair a cabeça, esquecer do que aconteceu e seguir em frente, apesar de todas as confusões e tristezas que carregamos no peito.

Na maioria das vezes você sempre escuta uma música que se encaixa perfeitamente naquele momento que vocêestápassando.Eisquesurge,Taylor Swift. A cantora norte-americana é bem conhecida no mundo musical por se inspirar no término de seus relacionamentos para escrever músicas que chegam ao topo das paradas de sucesso. Cada música escrita conta um pouco, mesmo que supérfluo, de como foi o relacionamento. Forever & Always, por exemplo, foi em homenagem ao também cantor Joe Jonas, da banda Jonas Brothers. O fim chegou após uma ligação dele que durou 27 segundos. A música fala que tudo estava correndo bem, mas, de repente, em um telefonema, tudo desmoronou. We are

never ever getting back together, também foi escrita para um ex, neste caso, o ator Jake Gyllenhaal, mas o romance durou apenas dois meses.

Não só de músicas “diretas” se vive um cantor. Aqui no Brasil, muitos cantores também são considerados, e indicados, para se ouvir quando está nessa situação. Quer um exemplo? Jorge & Mateus. A dupla sertaneja conquistou o país, mas conquistou ainda mais aquela pessoa que quer ficar em casa chorando as mágoas abraçada ao travesseiro, assistindo um filme mais dramático ainda e comendo brigadeiro.

Henrique & Juliano também vão nessa mesma linha. Quer poesia mais que “[ ] de copo sempre cheio e coração, tô me tornando um cara solitário e frio, vai ser difícil eu me

apaixonar de novo, e a culpa é sua [

tem explicação melhor para dizer que você não quer mais nada com ninguém. E o Fernando & Sorocaba, hein? Se você se achar muito, pode ser esquecido na gaveta.

]”? Não

O QUE IMPORTA, É QUE VOCÊ SEMPRE PODE ACHAR OUTRO BAR, OUTRA MÚSICA. ENTÃO, BOA SORTE PRA VOCÊ, É O FIM DO NOSSO AMOR.

por andressa cancian

para sempre? nem sempre

Porque até para terminar um relacionamento e superá-lo, precisa de trilha sonora

tão perto tão longe Alguns fatos marcam a vida não apenas de uma única pessoa,

tão perto tão longe

Alguns fatos marcam a vida não apenas de uma única pessoa, mas parece que de toda humanidade. A sensação é de que, não importa quantos anos você tinha na época, você vai sempre se lembrar do que estava fazendo, por exemplo, quando as torres gêmeas caíram, quando o Brasil tomou 7 x 1 da Alemanha ou quando ouviu sobre a morte de Michael Jackson.

Era uma segunda-feira de janeiro, uma madrugada/manhã preguiçosa, desenrolei a smartcover do meu iPad, rotina diária para ver a temperatura, quando me deparei com um alerta em inglês da CNN: “David Bowie

dies at age 69”

Como explicar, como chorar,

como trabalhar

ali, mas nunca esteve aqui. Um vazio

enorme, uma dor gigantesca

Ele sempre esteve

Falta de

ação

Catatonia

Mas

como explicar a ausência e a falta de alguém que na realidade nunca esteve presente do seu lado?

2016 parece fadado a entrar para a memória de muitos como

o ano no qual a música morreu: foram-se David Bowie, Prince,

Billy Paul

como lidamos com a perda de pessoas que ao mesmo tempo

estão tão perto e tão longe de cada um de nós?

Outras artes também perderam seus nomes, mas

A morte das pessoas famosas, dos

artistas e ídolos sempre mexeram com o imaginário e o sentimental de

muitos pelo mundo afora, da mesma maneira que “criamos um apego” que beira o irracional aos nossos

ídolos, sentimos a sua ausência da mesma maneira como a de um ente

Passamos por todas as fases

do luto, muitas vezes não saímos da

primeira delas: a negação, quando não queremos aceitar a partida Quantos já não ouviram que Elvis está vivo, mesmo que teoricamente tenha partido há 40 anos?

querido

A morte não apenas avassala, mas

Quando um famoso

deixa a vida, os abutres voam, como em

busca de um pequeno pedaço da carne

A vida, a obra, tudo é

vasculhado, e a espetacularização beira,

em muitos casos ultrapassa, a falta de

A sociedade do espetáculo

espera pelas fotos do cadáver, pelos escândalos da vida pregressa, pela

disputa de herdeiros

fascina pelo seu tom inexplicável, e ainda atinge níveis maiores como todos os pontos da vida de qualquer

Um casamento, um

nascimento, um divórcio

celebridade

Morto vale

A morte

respeito

que ali está

também fascina

por vivianne nunes

mais do que vivo, vende mais, se cultua

Talvez o caso emblemático seja

o de Michael Jackson: que depois de

Rei do Pop - para muitos já falido

e decadente - acabou por depois

de sua partida tornar-se “o morto mais lucrativo”. Suas dividas foram saudadas, seu legado ressuscitado.

Teorias da conspiração, “showmeral”

Livros, documentários,

Mais

filmes, entrevistas exclusivas,

mais

Mais

depoimentos, produtos licenciados, gravações perdidas, fotos vendidas

A engrenagem da indústria mórbida

gira e os cofres enchem. Fascina, lucra, amedronta.

A dor, a espetacularização, as lágrimas

verdadeiras, o legado, o vazio Inerentes como a nossa finitude, serão para sempre, verdadeiros, eternos.

as lágrimas verdadeiras, o legado, o vazio Inerentes como a nossa finitude, serão para sempre, verdadeiros,

TENDÊNCIA PARA A PRÓXIMA ESTAÇÃO? SER VOCÊ. SEGUIR ESTILOS OU BUSCAR INSPIRAÇÃO FAZ PARTE DA VIDA DOS AMANTES DE MODA, MAS O QUE REALMENTE IMPORTA É SE SENTIR BEM

MODA

SONORIZADA

por andressa cancian crédito fotos: luiz nadais

S Sua banda favorita está vindo para um show bem na sua cidade. Lugar escolhido,

S Sua banda favorita está vindo para um show bem na sua cidade. Lugar

escolhido, tudo marcado com a galera, ingresso na mão, mas só falta

escolher o tal look do dia. Você passa em frente uma loja

vê uma camiseta um pouco simples e sem graça. Continua a busca.

Chega em outra e diz “nossa, que espetáculo! ”. Você nem pensa e logo

uma coisa

e

já decide qual levar.

As camisetas de banda foram evoluindo com o passar do tempo,

deixando de ser aquela coisa monótona e sem graça para virar item de estilo e um diferencial na escolha das roupas para o dia a dia. Tornou-se um item fashion e de desejo, no qual você precisa não somente porque gosta daquela banda, mas porque você quer usar aquilo e é diferente de tudo que tem no guarda roupa. Deixou de ser usada somente para homenagear o ídolo no dia do show para agora poder fazer diversas combinações, incluindo no ambiente de trabalho, desde que, usadas com bom senso e em situações que não exigem tanta formalidade.

Agora quem pensa que o universo da moda e música só se unem com as camisetas está enganado. Em março, a linha de roupas para skatistas Supreme, lançou uma coleção da banda de heavy metal britânica Black Sabbath que conta com jaquetas, bonés, camisetas e moletons. Em 2015, a marca da pimentinha vermelha lançou uma coleção inspirada nos Beatles com óculos e relógios totalmente estilizados e modernos, além das embalagens também terem um diferencial. A aposta de 2016 foi na união de Cazuza + Legião Urbana, que traz para a coleção a inspiração na vida e na carreira dos dois maiores nomes da música.

A ideia é equilibrar o look. “Pode-se introduzir elementos mais sutis derivados de

couro e PU, como jaquetas, saias, sapatos um pouco mais pesados, balanceando com peças de tecidos mais leves e alfaiataria.”, conta a designer Tabata Resende, que também é formada em Moda.

Há artistas que buscam levar toda sua personalidade para as roupas que usam no

dia a dia, e principalmente em seus shows, afinal, a roupa realmente é um item de personalidade e expressão. Conhecida pelo estilo excêntrico e singular, durante

o VMA (Video Music Awards) em 2010, Lady Gaga chamou a atenção de todos ao

carne. Não demorou muito

para que chovessem críticas em cima da cantora, principalmente de grupos ativistas defensores dos animais. Outro artista que preza pela exclusividade, mas não é tão polêmico assim, fica por conta do charada brasileiro, Supla. Seu estilo é irreverente, e e a maioria de suas roupas são feitas exclusivamente para ele, se tornando únicas.

aparecer no tapete vermelho usando um vestido feito de

Por falar em Supla, a mocinha que faz dueto com ele na música Amor Entre Dois Diferentes possui uma iniciativa que une moda e música. Isa Salles é cantora e idelizadora do projeto chamado Eu Visto Som, no qual letras de músicas de artistas independentes são estampadas em camisetas, e parte da renda da venda é revertida para apoiar esses artistas. Isa concorda quando dizemos que moda e música caminham juntas, e conta que os artistas têm um interesse em ter sua própria camiseta como forma de divulgação do seu trabalho, mas acabam desistindo da ideia por diversos motivos “Eu estou dos dois lados do tabuleiro, sou artista independente e microempresária no ramo da moda. Então foi mais fácil compreender as necessidades dos parceiros.” Ela também fala um pouco sobre como funciona o projeto “As camisetas são vendidas na plataforma de e-commerce da Eu Visto Som e fabricadas sob demanda. Isso elimina o risco de acumular

SERTANEJO NÃO É SÓ BOTA E CHAPÉU

Quando se fala em sertanejo, a primeira coisa que passa pela cabeça de uma pessoa é alguém usando jeans apertado, camisa xadrez, chapéu de cowboy e botas de cano alto com esporas mas saiba que isso virou passado, ou pelo menos, encontra-se somente nos filmes, ou em rodeios mais tradicionais e “a caráter”. O sertanejo também conquistou seu espaço no mundo fashion. Recentemente, uma grife conhecida por ter um estilo mais irreverente e rocker, a Cavalera realizou um desfile para anunciar o lançamento da nova coleção de Verão da marca, na qual o tema era Nossa Moda de Viola. A coleção faz uma mistura entre o sertanejo e o rock, que é uma característica forte da marca, além de exaltar a beleza e a cultura brasileira, com estilos totalmente contrários aos pensamentos de um total sertanejo, contando com peças modernas e adaptáveis a qualquer situação.

Enquanto o desfile acontecia, diversos nomes do sertanejo se apresentavam no palco e cantavam grandes sucessos do gênero. Fernando Zor, da dupla com Sorocaba, Thaeme

& Thiago, Milionário e grandes nomes da era de viola e do sertanejo universitário

estiveram presentes para prestigiar, homenagear e participar do lançamento da coleção.

O ponto alto do desfile foi o encerramento com todos os convidados cantando a

clássica Evidências com pequenas lágrimas escorrendo na lateral do rosto. Alberto Hiar, dono da marca, contou em entrevista a Vogue Brasil que: “A nossa intenção é quebrar paradigmas. No lugar de repudiar, queremos juntar diferentes universos e revelar o melhor de cada um deles.” Juntar o estilo rocker de ser da Cavalera e a essência e irreverência do sertanejo.

estoque e permite grades extensas com maior customização

do produto. O artista recebe parte do lucro das camisetas vendidas, equivalente aos royalties. Em alguns casos, é possível utilizar a iniciativa como plataforma de Crowdfunding.” Além

de ser uma forma de divulgação do artista, também é um item

fashion para se ter no guarda roupa “A Eu Visto Som também tem

a missão de seguir tendências para impulsionar as vendas dos

artistas parceiros e divulgar o trabalho para um público antes desconhecido.” Conta Isa.

A ORIGEM DA PARCERIA

A moda e a música sempre andaram juntas, e um dos

momentos mais importantes da história foi o que os americanos chamaram de “Invasão Britânica” e os ingleses de “Swinging London” na década de 1960. Nessa época vinham

ao mundo os Baby Boomers, que é uma definição genérica para crianças nascidas durante uma explosão populacional. Na

década de 1960, os filhos dos Baby Boom possuíam liberdade e poder de compra, a partir daí, começaram a consumir moda

e música. Nesse momento, Mary Quant afirmou que não

foi a inventora da minissaia “Foi a rua quem a inventou.” Londres virou o sonho de consumo de cada jovem, era o impulso das correntes musicais. Em 1964 os Beatles fizeram sua primeira aparição na TV, no programa Ed Sullivan Show. Com isso, todos queriam consumir tudo relacionado aos jovens de Liverpool: desde os cortes de cabelo até os ternos.

28 BLUE SUEDES SHOES

As bandas britânicas como Rolling Stones, The Kinks e The Animals lotavam shows nos Estados Unidos e começaram a influenciar moda, cultura e comportamento.

Para Tabata, os maiores ícones que influenciaram a moda foram os Beatles, Sex Pistols, David Bowie, Michael Jackson

e Kurt Cobain. Foram grandes ícones da música e ainda

mais na moda, sempre com figurinos ousados, diferentes

e simbólicos. Cada um com sua personalidade e estilo

irreverente, o que fazia com que cada coleção lançada com esses nomes virasse referência e sinônimo de sucesso de vendas e elogios.

O NASCIMENTO DE UMA MARCA DIFERENCIADA

Londrina, 2004, nasce a Reverbcity. A partir da paixão por música do criador da marca, Tony Strauss, que vivia no Japão, frequentava vários shows e escrevia muito, para registrar e lembrar todos esses momentos. Após ser afetado por uma doença, Tony voltou para o Brasil e percebeu que a maioria das camisetas existentes aqui eram de rock, e não havia muita coisa voltada para o público indie. Foi então que criou a primeira estampa, da banda Modest Mouth, e começou a vender para amigos. Como sobraram algumas peças, decidiu postar as fotos no Fotolog, e viu a procura crescer. Percebeu que diversas pessoas tinham interesse por esse tipo de banda, que era muito difícil de encontrar por

aqui. A ideia inicial era criar um selo independente de uma gravadora, mas as dificuldades o fizeram mudar de rumo.

Márcio Araújo, responsável pelas mídias da empresa Reverbcity acredita ser fundamental inovar na forma de vender e produzir camisetas, ou seja, não dá mais só para trabalhar com o tradicional. “Mudou a forma que se consome. Antigamente, o pessoal buscava umas bandas mais obscuras e desconhecidas, hoje em dia são bandas mais clássicas.”

O perfil do público da marca varia entre 18 e 24 anos, divididos em 60% feminino e 40% masculino, e o ponto central de vendas é São Paulo, apesar da loja ser paranaense, seguida por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Brasília. As estampas são criadas a partir de 3 caminhos “primeiro escolhemos o que queremos fazer, o que a gente acha legal e o que se parece com a marca; temos um peso nas redes sociais, então o que a galera pede por lá a gente busca fazer; e acompanhar o que acontece lá fora para traçar um caminho e trazer um pouquinho pra cá.” , conta Márcio. Ele também diz que às vezes tentam se aventurar em uma coisa mais radical e diferente, mas nem sempre vende. “Aqui só acontecia o tradicional, então quisemos mudar isso. Mesmo assim, quando a gente tenta tirar o nome da banda fica mais difícil de vender, ainda estão acostumados com o tradicional. Já teve casos de a gente demorar 5 meses para criar uma estampa.”

PAIXÃO POR ESTILO

Com apenas 12 anos de idade conheceu uma banda, e o amor por ela se estende até os dias de hoje, já com 40 anos. Fabiano “Mad” é profissional de TI e fã do U2. Com um guarda roupa com cerca de 62 camisetas dos irlandeses, e ele garante que não são apenas para ficarem guardadas “As camisetas não são apenas para coleção, eu uso elas diariamente. Destas posso

dizer que umas 30 são oficiais da banda, compradas em shows ou pela internet no site oficial.” Mas essa coleção já passou por oscilações e já fez os números aumentarem ou diminuírem. “A primeira que eu comprei foi no show de São Paulo em 1998, que eu não tenho mais. Hoje tenho no meu guarda roupa 62, mas já teve muitas camisetas. Posso dizer que mais de 40

- que não serviam mais - eu tive que doar.” Mad explica que

tem um site que você pode escolher qualquer capa de álbum para fazer uma camiseta, e é de lá que também vem boa parte da coleção. Mesmo no meio de tantas camisetas, sempre tem uma que se destaca e toma o posto de preferida. “A minha preferida e que não troco por nada, é uma da Vertigo Tour que comprei no show de Honolulu, no Hawaii, em dezembro de 2006 em que a abertura do show foi do Pearl Jam, a segunda banda do coração.” Mesmo com todas as estampas possíveis para uma camiseta que fazem parte da sua coleção, Mad sempre encontra mais uma para fazer companhia às outras. “A última aquisição foi em uma visita ao Rock n Roll of Fame em Cleveland para uma festa dos 40 anos do U2. Encontrei 2 camisetas oficiais que eu não tinha e, prontamente comprei pra elas entrarem na coleção.”

ESPORTE FASHION

Esporte também influencia a moda, aliás, tudo serve de influência e inspiração. Você sabe como surgiu os raglans? Ou melhor, você sabe o que é raglan? Reza a lenda que ele possui esse nome porque foi feito especialmente para o 1º Barão da Cidade de Raglan, um vilarejo no País de Gales, Reino Unido. O militar britânico Lord FitzRoy Somerset, havia perdido o braço direito em uma batalha, o que fez com que a principal característica do modelo fosse uma manga mais curta que a outra. Mas foi na segunda metade do século XX que se popularizou nos Estados Unidos, como conhecemos até hoje. Ficou popular entre os jovens por se aparentar com uma peça de uniforme de baseball. Então, nesse período, o pessoal do rock ‘n’ roll começou a utilizá-la como alternativa das clássicas t-shirts.

Então, nesse período, o pessoal do rock ‘n’ roll começou a utilizá-la como alternativa das clássicas

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O PARAÍSO DA MÚSICA

Quando você pensa em música, mesmo sendo mais voltada para o rock ‘n’ roll, qual lugar te vem na cabeça?

Sim. Estamos falando da Galeria do Rock. Camisetas, imãs de geladeira, bolsas, funkos e bonecos. Tem de tudo e para diversos gostos, por mais incrível que pareça. Lá você encontra desde o clássico até o moderno, diversos itens inspirados naquele artista que você tanto admira, e que estouram seus tímpanos de tanto que os ouve.

A moda vem e vai, e às vezes vem e fica, mas a cada estação, cada coleção, cada lançamento, há peças que se tornam únicas e fazem um sucesso tão grande, que acabam por se tornar os clássicos. Colocar um pouco de personalidade e essência em cada peça ou acessório, é o diferencial para a cada lançamento, para que aquela peça seja lembrada, mas o importante é ser você mesmo que seja estranho, seja você, mesmo que seja bizarro.

mas o importante é ser você mesmo que seja estranho, seja você, mesmo que seja bizarro.
Da esquerda para a direita: camiseta Supla & Isa Salles, para Eu visto o Som.
Da esquerda para a direita: camiseta
Supla & Isa Salles, para Eu visto o Som.
Camiseta Ozzy Osbourne, Consulado do Rock.
Raglan Ramones por Sound City.
Camisetas e acessórios: arquivo pessoal.

32 BLUE SUEDES SHOES

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Camiseta Pernambucanas, misturando dois ícones: Micky Mouse e o logo da banda Metallica. Camiseta e
Camiseta Pernambucanas,
misturando dois ícones: Micky Mouse
e o logo da banda Metallica.
Camiseta e acessórios, acervo pessoal.

34 BLUE SUEDES SHOES

Camiseta Vitrinepix trazendo títulos das músicas da banda irlandesa U2. Acessórios e camiseta acervo pessoal.
Camiseta Vitrinepix trazendo títulos das
músicas da banda irlandesa U2. Acessórios
e camiseta acervo pessoal.

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Vestido Bowie por Ellus. Vestido e acessórios acervo pessoal.
Vestido Bowie por Ellus.
Vestido e acessórios acervo pessoal.

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Vestido Bowie por Ellus. Vestido e acessórios acervo pessoal. 36 BLUE SUEDES SHOES 37

37

DANÇA

DAS

TINTAS

A tatuagem surgiu como uma representação, e é até os dias. Junto da inspiração e de uma boa dose de música, ela pode se tornar a nota musical da partitura que é o corpo

por andressa cancian

M arcar a pele. Desde sua invenção, se é que podemos chamar assim, a tatuagem sempre foi usada para fazer uma demonstração de arte, seja para eternizar algo que gosta, como forma de ritual ou diferenciação de tribos. Cada método fez com que a tatuagem ficasse conhecida como é até os dias de hoje.

A música serve para nos ajudar a relaxar, marcar momentos e histórias, demonstrar sentimentos e traduzir tudo que sentimos em uma única canção. E se ela também servir como fonte de inspiração para tudo isso?

Fazer uma homenagem a quem se ama, seja ele da família ou algum famoso, um mantra que utiliza para a vida, um símbolo que tenha um significado importante, ou até mesmo um desenho que achou bonito e gostaria de carregar consigo. Motivos não faltam para se fazer uma tattoo, basta escolher um desenho de inspiração, decidir o local a ser tatuado e encontrar o seu estúdio, depois disso, mão à obra. Mas pode-se dizer que nem sempre foi fácil assim escolher uma tatuagem, pois elas sempre carregavam um significado muito forte e podiam até ser estereotipadas.

“ESCOLHI UMA IMAGEM QUE NÃO ERA CAPA DE NENHUM ÁLBUM, QUE É O QUE GERALMENTE OS FÃS FAZEM. QUERIA ALGO QUE REPRESENTASSE A BANDA E OS INTEGRANTES. A GENTE ADQUIRE UM AMOR PELA BANDA. EU NÃO CONSIGO IR EM UM SHOW E FICAR PULANDO E GRITANDO IGUAL TODO MUNDO, EU FICO ADMIRANDO O MÁXIMO QUE EU POSSO, E PRATICAMENTE SÓ CHORO.” _SYSTEM OF DOWN, DENISE GONÇALVES

ADMIRANDO O MÁXIMO QUE EU POSSO, E PRATICAMENTE SÓ CHORO.” _SYSTEM OF DOWN, DENISE GONÇALVES 38

_O INÍCIO

Não se sabe ao certo quando a tatuagem começou a ser utilizada, mas em 3300 a.C foi encontrada uma múmia em uma geleira derretida nos Alpes, após diversos estudos, mostrou ter 61 tatuagens. Na Grécia Antiga, escravos, espiões e criminosos eram marcados para serem reconhecidos. Foi descriminada, estereotipada e marcada como algo negativo, mas aos poucos foi ganhando seu espaço e rompendo barreiras.

Com o passar dos anos, suas técnicas foram aprimoradas para facilitar o trabalho e melhorar o resultado do desenho.

Não existia as facilidades que temos nos dias de hoje, então o jeito era se virar com o que tinha e fazer dar certo. A tatuagem sempre foi usada em diversas situações: buscar proteção divina, rituais de passagem, distinguir a qual tribo pertenciam e marcar alguém como sua propriedade, mas como ela era feita? Eram utilizados ossos finos como agulha e um tipo de martelo para introduzir a tinta na pele. Somente em 1891 Samuel O’Reilly, um imigrante irlandês, patenteou a primeira máquina elétrica para fazer tatuagem, a qual conhecemos até hoje.

ÖTZIL, O HOMEM DE GELO

a qual conhecemos até hoje. ÖTZIL, O HOMEM DE GELO 40 BLUE SUEDES SHOES _A GOSTO

40 BLUE SUEDES SHOES

_A GOSTO DO FREGUÊS

“Eu busco inspiração na própria pessoa, no que ela mais gosta de fazer e qual a relação dela com aquilo que ela escolhe tatuar. Alinho isso com o meu repertório e juntos tentamos construir algo que represente tudo aquilo”, conta Thomaz Schimidt, tatuador no estúdio Golden Tattoo Company. Ele busca na essência da pessoa traduzir aquele sentimento em forma de desenho, criando algo no qual ela possa se orgulhar toda vez que olhar “Uma vez veio uma menina que queria tatuar o rosto do Lucas do Fresno, mas não queria que parecesse ele. Conversamos, mostrei alguns desenhos, ela também deus sugestões e no fim criamos uma paisagem com um retrato ao fundo, que era ele.”

Quando a tatuagem começou a se popularizar, os estilos e as cores não eram tão diversificados. Os traços eram mais grossos e as cores mais utilizadas eram as primárias, para facilitar na hora de preencher o desenho “Hoje aumentou muito a gama de cores e estilos. Se antes alguém te dissesse que ia fazer uma tatuagem em aquarela, geométrica ou pontilhismo, você achava loucura.”, explica Mariana Amaral que é tatuadora no estúdio Dark Art Tattoo, e fã das técnicas de aquarela e sketch (estilo rascunho).

fã das técnicas de aquarela e sketch (estilo rascunho). Vivemos na era da modernidade, mas alguns

Vivemos na era da modernidade, mas alguns pensamentos ainda são relacionados ao século passado, onde a tatuagem era dita como uma

coisa marginalizada, não como ela se transformou hoje: uma manifestação de sentimento, movimento cultural e uma forma de arte. Ela acaba por se tornar estigmatizada e as pessoas tatuadas sofrerem preconceito por onde passam.

É o que conta a psicóloga Milena do

Amaral “O preconceito diminuiu, mas ainda se faz presente, sobretudo em

empresas mais tradicionais onde o tema

de diversidade não é abordado.”

Há também quem dedique seu tempo a buscar e se aprofundar um pouco mais

nesse universo dos rabiscos. A estudante

de Jornalismo Maria Iara, mergulhou

de cabeça nesse universo e levou para

o tema do seu TCC (Trabalho de

Conclusão de Curso) “Estou fazendo uma junção do feminismo, liberdade do corpo e como a tatuagem é uma forma de expressão, libertação e autonomia

do

corpo feminino. E por que e quando

as

mulheres fazem tatuagem.”

“ESTAVA PASSANDO POR UM MOMENTO DE TRANSFORMAÇÃO LOGO APÓS UMA AMIGA FALECER. ESCOLHI O HORUS BORUS PORQUE É UMA QUESTÃO DE EVOLUÇÃO, DE VOCÊ SEMPRE ESTAR EVOLUINDO, E O MANTRA ‘ON NAMAH SHIVAUA - COLOCO-ME DIANTE DE SHIVA’, DIZ QUE ALGUMA COISA TEM QUE MORRER PARA OUTRA PODER NASCER, E ISSO TEVE QUE ACONTECER COMIGO.” _HORUS BORUS E MANTRA, PITTY, VICTOR BARBOSA

41

_GALERIA DO SOM

Como tudo que fazemos possui um significado, com a tattoo não é diferente. E quando ela é combinada com uma letra que marcou sua infância, seu primeiro beijo, um momento de dificuldade ou uma coisa que você goste fica melhor ainda. E é isso que a nossa galeria vai mostrar: pessoas que buscaram na música uma fonte de inspiração para carregar sempre consigo uma lembrança.

de inspiração para carregar sempre consigo uma lembrança. “ESCUTEI A PRIMEIRA VEZ QUANDO TINHA 12 ANOS,
de inspiração para carregar sempre consigo uma lembrança. “ESCUTEI A PRIMEIRA VEZ QUANDO TINHA 12 ANOS,

“ESCUTEI A PRIMEIRA VEZ QUANDO TINHA 12 ANOS, E SIGNIFICA ‘SER VOCÊ MESMO É O MELHOR QUE POSSA SER’, FAZ PARTE DA MINHA PERSONALIDADE. SE VOCÊ NÃO SE MOSTRAR, SUA EXISTÊNCIA NÃO FAZ SENTIDO.” _BE YOURSELF, AUDIOSLAVE NICOLAS ADÃO

“GOSTO DESSA MÚSICA, ACHO ELA MEIO ‘SAFADINHA’, ENTÃO DECIDI FAZER NO JOELHO. E TAMBÉM AS ASSINATURAS DOS MEUS DOIS BEATLES PREFERIDOS.” _HAPPINESS IS A WARM GUM, THE BEATLES E ASSINATURA DE PAUL MCCARTNEY E GEORGE HARRISON, ELAINE ABREU

“A TATUAGEM É UM QUESITO PESSOAL, TEM QUE SER ALGO QUE GOSTE. EU ME IDENTIFICO MUITO COM AS LETRAS DAS MÚSICAS, POR ISSO ESCOLHI FAZER.” _BRASÃO DO MATANZA, YAN PAIVA

POR ISSO ESCOLHI FAZER.” _BRASÃO DO MATANZA, YAN PAIVA por vivianne nunes I’ve got you under
POR ISSO ESCOLHI FAZER.” _BRASÃO DO MATANZA, YAN PAIVA por vivianne nunes I’ve got you under

por vivianne nunes

I’ve got you under my skin

você sob a minha pele, Cole Porter escreveu, Sinatra imortalizou, o amor tão grande tão forte que pode ser sentido embaixo da pele.

Eu tenho

Embaixo da pele, por sob a pele, algo que você não pode esquecer, não quer e nunca vai, algo que literalmente se torna tão marcante que precisa levar consigo o tempo todo. Pode ser a marca de uma superação, a lembrança de um amor não correspondido, as lembranças de um momento bom ou apenas marcas de uma bela bebedeira, mas quando decidimos fazer uma tatuagem – lembra dos puxões de orelha da sua mãe? - é algo que desejamos para sempre, algo que por qualquer motivo que seja precisamos para completar a nossa existência. Mesmo que muitos hoje em dia acabem por fazê-lo apenas por considerar uma tatuagem, na essência a tatuagem sempre foi um rito de passagem algo para eternizar um fato.

Quando escolhemos nos marcar com uma música ou qualquer homenagem a uma banda ou artista, colocamos a nossa vida e a história daquela canção, pessoa no mesmo tempo / espaço, passamos a ser um, unidos com aquilo para sempre, vamos passar os dias até sermos velhinhos justificando o porquê (não que alguém tenha nada a ver com a escolha do outro), e sorrindo ou chorando com aquele trecho, aquela frase, aquele olhar, aquela capa de álbum. A tatuagem mostra ao mundo quem somos e coloca um pouco dele dentro da gente, fazendo transparecer aquilo que já não conseguimos mais guardar no peito, e colocamos na pele.

Maud Stevens Wagner, uma das primeiras mulheres tatuadas, artista de circo, 1907 (fonte:

Maud Stevens Wagner, uma das primeiras mulheres tatuadas, artista de circo, 1907 (fonte: https://www.findagrave.com/cgi-bin)

Linha do tempo da tatuagem

3300 A.C - “Ötzil, o Homem de Gelo”

múmia com cerca de 5.300 anos achada em geleira derretida nos Alpes, depois de estudos científicos mostrou ter 61 tatuagens pelo corpo;

2000 AC – A tatuagem já era comum

na China

2160 AC – A tatuagem se torna prática em

alguns pontos e classes no Antigo Egito;

1000 AC – A Arte da Tatuagem começa a

se popularizar;

700 AC – Donos de escravos começam

1800 – Soldados e marinheiros difundem

a tatuagem na Europa;

1870 – Primeiros estúdios de tatuagem são

abertos nos Estados Unidos e Inglaterra;

1891 – Samuel O’Reilly patenteia a primeira

máquina elétrica de tatuagem;

1895 – Machado de Assis publica uma

a

marca-los na Antiga Grécia. Espiões

crônica no jornal carioca A Gazeta de

e

criminosos em geral também eram

Notícias, que envolve um homem tatuado;

marcados;

300 AC – No Japão a tatuagem começa

a ser usada com sentido pejorativo;

500 – As tatuagens começam a adquirir

caráter religioso;

787 – O Papa Adriano proibe a prática

da tatuagem;

1600 – A arte da tatuagem se populariza

no Japão;

1691 – O marinheiro e explorador William Dampher traz da Polinésia “Prince Giolo, Principe Pintado” que é colocado em exposição em Londres;

1766 – James Cook, descobridor do surfe,

capitão inglês, usa em seus diários a palavra tattoo pela primeira vez, derivada de

tatau, o som feito quando as rudimentares tatuagens eram feitas com finos ossos de madeira e um martelinho)

1862 - O futuro rei Eduardo VII da

Inglaterra, durante as Cruzadas em Jerusalém tem uma cruz tatuada em seu braço;

1904 – João do Rio, escreveu uma crônica

na revista Kosmos A tatuagem do Rio, que aborda a prática no Brasil;

1923 – Publicada em O Paiz, matéria

com os marinheiros do cais da Quinze de Novembro no Rio de Janeiro

sobre as tatuagens dos marinheiros

e seus significados;

1927 – O Presidio do Carandiru, reportagem

publicada no Correio Paulistano em 05 de agosto, traz detalhes sobre a vida dos presos no Carandiru, em São Paulo,

e detalhes sobre as tatuagens que ostentavam;

1939 – Nazistas começam a usar tatuagens

para marcar seus prisioneiros, especialmente os judeus que eram encaminhados aos

campos de concentração;

1945 – O Japão começa a ligar a Yakuza

(máfia japonesa) às tatuagens;

1955 – Robert Mitchum aparece com as

palavras “Amor e Ódio” tatuado nos dedos filme Mensageiro do Diabo

1961 – A cidade de Nova York bani a

tatuagem após epidemia de hepatite B;

1970 - é aberto no Brasil o primeiro estúdio

profissional de tatuagem, na cidade de Santos pelo dinamarquês Knud Harald Lykke Gregersen, conhecido como Tattoo Lucky, ele foi o primeiro a utilizar máquina elétrica no país;

1974 - Don Ed Hardy abre o primeiro

estúdio nos padrões mais próximos do que

conhecemos hoje: atendimento com hora marcada e desenhos customizados, São Francisco, Estados Unidos;

1979 – Caetano Veloso lança Menino do Rio,

a letra teve como inspiração o surfista José

Artur Machado, o Petit, que possuía uma tatuagem de dragão no lado esquerdo do braço.

Menino do Rio/ Calor que provoca arrepio/ Dragão tatuado no braço/ Calção corpo aberto no espaço/ Coração, de eterno flerte/ Adoro ver-te

1991 – Surge o tratamento a laser para

remoção de tatuagem;

1999 – É lançada a Barbie Butterfly Art, a

boneca vinha com uma tatuagem removível;

2004 – Dezembro, lançada uma linha de roupas inspirada pelo trabalho original de Ed Hardy;

2016 – A estimativa é que a indústria

de tatuagem movimente 1,65 bilhões de dólares anualmente.

Musicoterapia:

quando a arte e a saúde se misturam

HISTÓRIA
HISTÓRIA

A MÚSICA ESTÁ PRESENTE EM TODOS OS LUGARES, NOS CERCANDO EM TODOS OS MOMENTOS DA VIDA. PARA QUEM PROCURA UM TRATAMENTO DIFERENCIADO, PODEMOS CONSIDERÁ-LA COMO ALGO BENÉFICO PARA OS QUE FAZEM USO DESSA PRÁTICA

por andressa cancian

um profissional da área e poder realizar atendimentos e tratamentos, a pessoa deve ser graduada em Musicoterapia,

ou ter uma especialização na área para

adquirir e aprimorar seu conhecimento e suas técnicas em aulas práticas e teóricas.

A musicoterapeuta Cristiane Amoro-

sino, conta que não existe receita para o tratamento, e cada caso precisa de muito estudo. “Existem as abordagens receptivas, que são audições sonoro musicais,

e interativas, onde o profissional e o cliente fazem a música juntos. Tudo depende dos objetivos e das necessidades apresentadas.” Pode ser feita individualmente ou em grupo e aplicada a crianças, jovens, adultos e idosos. A música é uma coi-

sa natural de expressão do ser hu-

mano, portanto, o conhecimento técnico e a formação em músi- ca não são necessários para os pacientes, apenas sentir e dar o seu melhor

durante o tratamento. Pode auxiliar

na

prevenção, reabilitação e tratamen-

to,

mas também pode ser prejudicial se

usada de maneira inadequada. “Na epi- lepsia musicogênica pode ter efeitos devastadores, já em pacientes com Alzheimer, as respostas são altamente positivas. Então, sua utilização deve ser feita de forma responsável e por um pro- fissional qualificado.”, explica Cristiane.

Quando estamos felizes, geralmente, escutamos uma música alegre e agitada. Quando estamos tristes, a tendência é ouvir uma música mais suave, ou até mesmo melancólica. Mas e quando estamos doentes, que música devemos ouvir? Muitas vezes preferimos o silêncio ao som nos fones de ouvido, mas às vezes a música certa pode nos ajudar no processo de cura.

Fazendo a trilha sonora de diversas situações do cotidiano, a música também pode ajudar no tratamento de doenças, através de seu ritmo, melodia e harmonia, tais como: Alzheimer, Parkinson,Demências,AVCs,Distúrbios da Fala e da Linguagem, TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) dentre outras. Além de promover a comunicação, relacionamento e desenvolvimento para que o indivíduo alcance uma melhor qualidade de vida.

Cada caso é tratado como único, mas há etapas em que o paciente deve passar para que possa dar início ao tratamento. O musicoterapeuta atua em Centros de Reabilitação, Hospitais, Centros Psiquiátricos, Instituições Governamentais como SUS e SUAS, Clínicas e Consultórios. Para se tornar

46 BLUE SUEDES SHOES

Descoberta em meados da Segunda Guerra Mundial, os soldados que sofreram algum tipo de acidente eram estimulados com música durante o processo de recuperação. Os que participaram dessa técnica, se recuperaram mais rapidamente do que os outros que não foram submetidos à música e tiveram tratamento convencional. Em 1950 foi fundada a Associação Nacional para Terapia Musical nos Estados Unidos, e em 1968, na Argentina, aconteceu a primeira jornada Latino- Americana de Musicoterapia. No Brasil, a técnica chegou somente em 1971. E no ano seguinte já foi criada a primeira graduação no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro, reconhecida pelo Conselho Federal de Educação.

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Uma crise, uma cidade,

um reencontro.

desencontro,

um

Como a união

mudou a trajetória da música

onde estamos agora?

BOWIE + BERLIM

por vivianne nunes

“Had to get the train (Tive de pegar o trem) From Potsdamer Platz (Em Potsdamer Platz) You never knew that (Você nunca soube que) That I could do that (Que eu poderia fazer isso) Just walking the dead (Apenas andando com os mortos)

Sitting in the Dschungel (Sentado no Dschungel) On Nürnberger Strasse (Na Rua Nürnberger) A man lost in time (Um homem perdido no tempo) Near KaDeWe (Perto da KaDeWe) Just walking the dead (Apenas andando com os mortos)

Where are we now, where are we now?” (Onde estamos agora, onde estamos agora?)

50 A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

08 de janeiro de 2013, 05 horas da manhã, depois de

mais de 10 anos de silêncio, no dia em que completou 66 anos, David Bowie despertou o mundo, como sempre havia feito. O homem das estrelas, aquele que caiu na Terra,

e havia se retirado dos palcos em 2004, depois de sofrer um ataque cardíaco e passar por uma cirurgia de emergência na Alemanha, surpreendia a todos e colocava na internet uma música nova, prenúncio do álbum que sairia em março

do mesmo ano

Quase ninguém esperava, quase ninguém

acreditava que isso seria possível, Bowie simplesmente havia se retirado dos palcos, sem uma palavra definitiva,

sem um ponto final, sem promessa alguma. Passara a última década sendo apenas um dos tantos moradores de Nova York, passando por todos, criando sua filha, vivendo com

a sua família. Poucos eventos, participações especiais, mas nada de concreto sobre que rumo tomaria.

Eeleagoravoltava,voltava“caminhandoporentreosmortos”

na cidade que o reinventara tantos anos antes. O Bowie dos anos 2010 procurava as mesmas raízes do Bowie do final dos anos 70 remetendo em sua nova música a paisagem que

marcou a sua vida – e toda a história da música no século XX:

Berlim. A paisagem alemã era citada

embarcamos com ele tentando se encontrar novamente. A voz estava lá, ele em excelente forma, colocando sua emoção nas ruas que o resgataram antes, mas não era uma nostalgia melancólica, vazia ou datada. Era sentimento, saudade, verdade, emulados em uma sonoridade que carregava não apenas um pouco do melhor que foi produzido por outros

artistas durante o período no qual a sua carreira se encontrou em hiato, mas nos anos 80 e 90 pelo próprio e pelos demais.

Um homem perdido no tempo diz ele

mesmo tendo gravado todo o seu trabalho em Nova York ele nos leva de volta, uma Cruzada. Jonathan Barnbrook, artista responsável pela criação da capa do álbum The Next Day, que seria lançado na sequência, afirma que a música é “uma comparação entre a Berlim de quando o Muro caiu e a Berlim de agora.” A inspiração para o seu trabalho também veio daquele tempo, daquele lugar: a capa da obra-prima Heroes lançada por David em 1977.

Postdamer Platz,

E perdido no tempo,

Nina Lemos, escritora e jornalista brasileira, moradora da capital alemã, reflete sobre a ligação da canção com a cidade:

“Acho que Starman é essa da Berlim do passado, né? Mas acho que a mais da minha vida e da vida de quem vive aqui agora é Where are we now?, que fala dele procurando essa Berlim onde ele viveu. Todos nós que moramos aqui a procuramos!”

onde ele viveu. Todos nós que moramos aqui a procuramos!” Para entender a volta de Bowie

Para entender a volta de Bowie

a Berlim, devemos mover nossos

olhos e ouvidos um pouco antes até mesmo dele ter feito a pausa em sua carreira, é o que pensa Mauricio Coletto responsável pelos vocais na banda tributo David Bowie Project Brasil: “Para entender a volta dele a

Berlim, precisamos voltar ao final dos anos 90, se pegarmos a discografia dele nessa época, você tem o álbum Hours de 1999, e toda a discografia dele nessa época. Você tem músicas como Thursday’s Child: lembrança da infância dele, tem Seven que também

é lembrança da mesma fase, você tem

várias músicas nas quais ele começa a fazer um autoquestionamento. Desde

o final dos anos 90 ele tinha começado

um momento de introspecção que fica mais evidente em Hours e depois em Heathen, quando ele escreve Slip Away que já é um pouco das lembranças dele do final dos anos 70. É uma época em que ele coloca a alma dele, você sente

a alma dele e os medos que ele tinha

mesmo sendo rico, famoso e poderoso.

É quando ele começa a passar por um

período de questionamento. Ele estava envelhecendo e vendo o fim se aproximar. Quando você chega em The Next Day eu tenho a sensação pelo que eu vejo no histórico do disco e pelas letras que estão ali de que ele já está meio de saco cheio dessa elucubração dele de tentar se entender, ele está em uma fase de ‘vamos parar com isso e tentar entender melhor’ e acaba fazendo a letra de Where Are We Now?, uma espécie de momento que ele vive de 1977 e 1979 em Berlim,

que ele está vivendo de novo em 2013 com todas as suas lembranças. É um saudosismo simbólico, lá eu me descobri, lá eu me redescobri e agora estou me redescobrindo de novo. É o início de uma ruptura, de uma preparação para o final que vai chegar em Blackstar” (último álbum do cantor, lançado no início deste ano no seu aniversário e dias antes da sua morte).

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52 A DOIS PASSOS DO PARAÍSO Thin White Duke O HOMEM QUE CAIU NA TERRA

52 A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

Thin White Duke

O HOMEM QUE CAIU NA TERRA

Eu honestamente não sei onde o verdadeiro David Jones está. Eu tenho tantas conchas, que me esqueci qual o aspecto da pérola.” (David Bowie, revista Playboy, Setembro, 1976)

O ano era 1976, David Robert Jones, desembarcava em Berlim acompanhado de James Newell Osterberg. Ambos com 29 anos. David, inglês, passara os últimos anos

redefinindo a história da música, moda, comportamento

e atitude sexual não apenas na sua terra natal, mas em

todo o mundo. Ele já havia sido Ziggy Stardust, Aladdin

Sane, Halloween Jack e chegava na cidade não apenas com

o mesmo visual da sua última encarnação: o Thin White Duke (Magro Duque Branco), mas também caminhando

e parecendo exatamente com Thomas Jerome Newton, o

alienígena que havia interpretado em O Homem Que caiu na Terra; os cabelos ruivos em um laranja único, a pele muito branca, a magreza excessiva. O filme havia sido filmado no ano anterior, no deserto do Novo México e o diretor Nicolas Roeg havia determinado ser David perfeito para o seu personagem principal depois de assistir ao documentário Cracked Actor. Produzido pela BBC em 1974, o programa expunha a fragilidade, o distanciamento e o estranhamento do cantor motivado pelo vício em cocaína, no banco de trás de limusines, no backstage dos seus shows quando ele parecia deslocado o resto da humanidade, tão real e tão estranho, que na visão de Nicolas ele não precisaria interpretar o alienígena do filme, ator e persona pareciam um só ser.

James, Jim ou Iggy Pop. Nascido no Michigan, norte dos

Estados Unidos, não apenas já havia escrito suas páginas na história da música, mas já tinha ido do céu ao inferno. O padrinho do punk, formara em 1967 com Dave Alexander e

os irmãos Ron e Scott Ashenton os Stooges, e apenas um ano

depois eles assinariam um contrato com a Elektra Records, e em 1970 lançariam Fun House até hoje cultuado por muitos como o melhor disco de punk já feito. Gravado com crueza, ele surgiu de um grande amontoado de jam sessions, as vezes nem tão bem-sucedidas dos seus integrantes. Apesar de hoje ser considerado uma obra-prima, na época as vendas não decolaram. Eles eram barulhentos, rápidos, inovadores,

inconsequentes. O que produziam no palco era o retrato do que passavam em sua vida pessoal, sem regras, com excessos por todos os lados. As performances no palco do vocalista

Iggy podiam incluir sangue, acidentes, xingamentos, brigas

e provocações à plateia. A gravadora então resolveu não

arriscar um terceiro disco e sem rumo a banda parecia fadada a chegar ao seu fim. Foi quando em 1971, Iggy Pop

e David Bowie se cruzaram no Max’s Kansas City em Nova

York, e a empatia de duas figuras tão diferentes foi imediata. Um em ascensão e o outro em decadência. Bowie usando seu

prestigio trouxe os Stooges à Columbia Records e acabou sendo o responsável pela mixagem do terceiro trabalho da banda, Raw Power assinado agora por Iggy e The Stooges. Mesmo com todas as tentativas de resgate, em 1973, menos de um ano depois do lançamento, os integrantes da banda já se encontravam novamente separados, demitidos por

gastarem a maior parte das verbas da gravadora com bebidas

e drogas e sem perspectivas do que viriam a encarar.

“Eu apenas coloquei meu verdadeiro eu no filme naquela época. Foi o primeiro filme que eu fiz. Eu estava praticamente ignorando o procedimento (de se fazer filmes), então eu estava indo muito por instinto, e meu instinto estava bem dissipado. Eu só aprendia as falas para aquele dia e as fazias do modo como eu estava me sentindo. E não era tão difícil. Eu me sentia tão alienado quanto aquele personagem era. Foi uma performance

naturalmente bonita

Eu estava totalmente inseguro com cerca de 10 gramas (de cocaína) por dia. Eu estava

fora de mim do começo ao final.” (Bowie, Variety, 1992)

Uma boa exibição de alguém caindo literalmente na sua frente.

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Em 1975 Jim se internou em um hospital psiquiátrico em Los Angeles, após dois anos vivendo na cidade em base de favores e fugindo de problemas legais e financeiros. A sua internação era mantida com base no seguro saúde pago por sua mãe. Uma das suas únicas visitas era seu amigo David, que ainda envolto em seu próprio vício levava cocaína como presente. A antiga amizade foi retomada e Iggy passou a fazer parte do séquito que seguiu Bowie durante a turnê de 1976, Isolar, que promovia o disco Station to Station. Bowie foi acusado de ser um manipulador, um aproveitador, a fim de ganhar certa credibilidade na missão de salvamento de Iggy. O fato é que a união dos dois modificou para sempre ambos e os caminhos do rock.

THE IDIOT

O luxuoso Chateau D’Hérouville fica a 40 quilômetros de

Paris, e foi lá que Iggy e Bowie começaram os trabalhos que deram origem ao primeiro disco solo dele: The Idiot. Bowie tocou vários instrumentos, foi co-compositor em diversas letras e dirigiu seu companheiro aos microfones, além de ajudar na formação da banda que o acompanharia. As músicas da parceria Pop / Bowie distanciavam ele de tudo o que havia feito com os Stooges e ajudaria Bowie a começar seu caminho em direção a sua “trilogia de Berlim”; “Iggy foi uma cobaia para o que eu queria fazer com o som”, afirmou. Era um trabalho mais sombrio do que tudo o que ele havia feito também. Terminado os trabalhos na França, eles seguiram para Munique, em direção ao Musicland Studios, um antigo bunker nazista convertido em espaço para gravações.

Finalmente a Alemanha em definitivo tomava forma na vida de Bowie, mas o seu fascínio pelo país era antigo. Ele passaria a transmitir toda a admiração que possuía pelo expressionismo do cinema alemão para a música. O seu interesse pelo chamado Krautrock do Kraftwerk, Neu! e Tangerine Dream apenas crescia. Em 1976, ele havia sido apresentado ao autor Christopher Isherwood, cuja a visão da boêmia pré-guerra de Berlim descrita no Livro The Berlin Stories, serviu como inspiração para o musical Cabaret um dos filmes favoritos do cantor.

Corinne Schwab, assistente pessoal de David encarregada de procurar um lugar para que os dois se instalassem na capital alemã, determinou o refúgio: 155, Hauptstraße, Schöneberg. A fachada pintada de creme, as portas em madeira marrom e metal. Algumas manchas de mofo, pé-

direito alto e uma escada em caracol seguindo pelo mosaico

de

lajotas que forrava o vestíbulo. Tudo bem longe da rotina

54

A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

e visão de um rockstar. Schöneberg era um bairro pobre,

dominado por imigrantes turcos e a comunidade gay da cidade, era afastado e barato. Coco como ficou conhecida, cuidava dos dois, inclusive de todos os seus gastos com

afinco. Havia bares, livrarias, ao lado do prédio o estúdio de tatuagem Lotus. Saindo dali era (e ainda é) possível passar algum tempo perdido no depósito na frente da Bucherhalle, um sebo que fica à esquerda por sob um toldo branco e amarelo. Havia bares, livrarias e um mercado a 10 minutos

de

caminhada.

O

lugar escolhido para a mixagem do álbum: Hansa

Tonstudio, ou o “Hansa ao lado do muro”, no coração da

capital alemã, ao lado da Postdamer Platz. Construído em 1912, servira como salão de baile durante a República de Weimar, nos anos 20 e 30 e também como sala de concertos para a Alemanha Nazista. A família de editores Meisel comprou o prédio principal em 1973: Meistersall, que foi convertido no Hansa 2 com 266 metros quadrados de área

e 7 de altura.

Além da parceria musical, ambos procuravam em Berlim um refúgio dos seus demônios: as drogas. Bowie posteriormente

se lembrou que não fora a ideia mais inteligente: “Eu e Iggy nos mudamos para a capital europeia da heroína. ”, afirmou

à MTV em 1995. O produtor Tony Visconti, envolvido

no projeto e colaborador de Bowie até o final da vida do

cantor, também opinou sobre a escolha da cidade: “Um paraíso para todos que quisessem ficar anônimos, como eles queriam ficar. ”

“Berlim foi o portal artístico e cultural da Europa nos anos 20 e literalmente, onde aconteceu tudo de importante nas artes. Eu queria me ligar nisso em vez de em Los Angeles e seu miserável comércio mágico” (Bowie em entrevista ao jornal britânico, The Guardian)

“Eu sou um colecionador. Eu sempre apenas pareci recolher personalidades, ideias.” (Bowie em entrevista a Russel Harty no London Weekend Television, 1973.)

UMA NOVA CARREIRA EM UMA NOVA CIDADE

Berlim e apenas mais dois na multidão. Jim e David podiam caminhar pela cidade, comprar tintas e voltarem para o seu apartamento passar a tarde discutindo arte, pintura e trocando experiências entre si ou podiam caminhar por

entre as barracas de antiguidade na Winterfeldplatz. Para

o jantar o local escolhido era o Cafe Exil em Kreuzberg,

geralmente na companhia de Coco. Outros locais incluíam o Dschungel 2, o restaurante Asibini e o Paris Bar em Kantstraße. No Café Anderes Ufer era comum encontrá- los prontos para o café da manhã, o local um reduto gay, quando acabou por ser atacado por um grupo homofóbico teve toda a sua restauração garantida e paga por David.

Hunt e Tony Sales que tocaram nas gravações dos álbuns de Iggy e Bowie e depois foram membros do Tin Machine nos anos 90 relembram a cidade:

Low o primeiro álbum daquela que ficou conhecida como “trilogia de Berlim” nasceu dos escombros da trilha nunca lançada por David para O homem que caiu na Terra – quando finalizado inclusive a capa do álbum traz Bowie com o estilo do seu personagem – mas ele não nasceu na capital germânica. Tony Visconti, Brian Eno e Bowie mais uma vez começaram os seus trabalhos na França. Brian Eno e Bowie se conheciam há cerca de 5 anos, mas nunca haviam trabalhado juntos apesar da admiração mútua. Eno um dos criadores do Roxy Music, assim como Bowie tinham definido o glam rock nos últimos anos, porém desde que iniciara a sua carreira solo se dedicava a sons experimentais.

Low e seus dois lados, o primeiro instrumental e o segundo com letras que podem soar até incompletas, desencontradas são o retrato perfeito de David naquele momento: sanidade afetada pelo histórico de drogas e álcool, um casamento em ruínas, a angustia pelo novo. Como o som dos sintetizados que, segundo Tony Visconti “fodiam com a noção do tempo”, David também estava deslocado, a margem daquela vida. David buscava se encontrar pela primeira vez na sua carreira. O etéreo, o escapismo, o deslocamento de uma nova cidade, tudo estava ali.

O trabalho foi recebido com estranheza pelos fãs e críticos,

faixas como Warszawa não podiam ser mais diferentes do que todas as outras apresentadas anteriormente. “A gravadora não gostou o que nos deixou muito felizes, tínhamos tido sucesso em sermos completamente radicais e diferentes.”, afirmou Tony Visconti.

Não houve divulgação ou turnê. O Bowie “low profile” saiu em turnê com Iggy Pop servindo como seu tecladista, tentando se manter o mais anônimo possível, ocupando

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seu canto do palco por trás do seu teclado como qualquer músico comum noite após noite. Para os que compravam o ingresso de Iggy esperando David era frustrante. Ele entrava se apresentava e assim acabavam todas as noites. Uma coletânea foi providenciada: Changes Bowie, foi pensando pela gravadora como algo para cobrir o buraco comercial deixado por Low.

O MURO

“O Muro era lindo – reconta Iggy Pop – ele criava uma ilha maravilhosa, da mesma forma que os vulcões criaram as ilhas no mar. As pressões antagônicas criavam um lugar que todo mundo diligentemente ignorava e ninguém te enchia. Era maravilhoso”

Na Berlim de 1977, David e Iggy produziram Lust for Life,

o segundo álbum do ex-vocalista do Stooges. A cidade pela

primeira vez aparecia decisiva nas letras, como em The Passenger, quando temos a sensação de acompanharmos

a visão da cidade pelos olhos de Bowie e Pop: (We’ll ride

through the city tonight / We’ll se te city’s ripped backsides /We’ll

see the bright and hollow sky )

Então finalmente chegamos a Heroes, o único dos 3 álbuns a ser gravado e produzido realmente na cidade, e ele em definitivo jamais seria possível sem Berlim e seu Muro que Bowie literalmente via da janela no magnífico Studio 2 do Hansa –

“Nós passearemos pela cidade essa noite Nós veremos os lados rasgados da cidade Nós veremos o céu claro e vazio”. – The Passenger

Bowie em Berlin, 1987, concerto na beira do Muro que marcou a cidade, a sua vida e a música para sempre (Fonte: DENIS O’REGAN/ WWW.CRUK.ORG/ BOWIEFFP)

o Meistersaal. Cercado pelo muro que dividia não apenas a

Alemanha, mas de certa forma todo o mundo em dois. O Muro de Berlim, suas sentinelas armadas e arame farpado literalmente ilhavam o Hansa dentro daquela realidade.

“Você se sente em Berlim ouvindo as músicas dele sobre Berlim! É como se a gente pudesse ver aquilo e viver um tempo que a gente não viveu, a da Berlim dividida pelo muro. Mais marginal do que ela é hoje, mas ainda viva, graças a Deus.” Nina Lemos

“Eu, eu posso me lembrar (Eu lembro) Parados, juntos ao muro (ao muro)

E as armas, dispararam sob as nossas cabeças (sobre as nossas cabeças)

E nós nos beijamos, como se nada

pudesse cair (nada pudesse cair)”

- Heroes, David Bowie

“Sou uma criatura regida pelo ambiente”, disse ele certa

vez. “Meus discos são expressões e reflexões desse ambiente. Heroes sem dúvida é, e é preciso entender isso para entender

o disco e a música”. Enquanto Eno empregava a sua técnica

de Cartões de Estratégias Oblíquas, cartões criados por ele com instruções e frases aleatórias como “Use uma ideia antiga” para estimular a composição, foi uma cena vista da janela que inspirou uma das letras mais emblemáticas de David. Ele estava sozinho no estúdio durante os intervalos das gravações quando observou pela janela um casal se beijando. Esse casal era Tony Visconti, que até então era casado, e Antonia Mass (que posteriormente atuaria como backing vocal da música que inspirou) com quem estava tendo um affair, aproveitando a sua paixão em meio as sombras do muro. (I, I can remember (I remember) / Standing, by the wall (by the wall) / And the guns, shot above our heads (over our heads) / And we kissed, as though nothing could fall (nothing could fall))

Ele vai falando sobre o muro. Ele faz uma ironia, um cinismo sobre a vergonha também: ‘And the shame, was on the other side’, a vergonha estava sempre do outro lado e não onde estávamos, era sempre assim, do outro lado do muro., complementa Mauricio Coletto.

Neuköln nome de um dos bairros de Berlim e V-2 Schneider, com o nome em homenagem ao co-fundador do Kraftwerk, Florian Schneider, ajudam a entender as cidades e os sentimentos de Bowie em relação a ela, mas certamente nenhuma outra letra resume a paisagem e os sentimentos de Bowie quanto Heroes; uma mistura de tristeza, euforia e melancolia.

Como na “batalha” da letra, Bowie encarava seus próprios fantasmas e medos. Ele havia levado seu filho para morar com ele desde o final do ano. Sua esposa Angie, ao chegar na casa onde morava na Suíça e perceber que seu filho havia sido levado, no começo de 1978, tentou suicídio. Além desse fato, Angie também esteve em Berlim tentando se reconciliar com o marido, e ao descobrir que a sua assistente Coco morava no mesmo apartamento que ele e Iggy, jogou pela janela todas as roupas dela. David teve uma crise nervosa e acabou sendo levado ao hospital com suspeita de ataque cardíaco. Bowie agora já distante da figura fantasmagórica de antes – ele havia inclusive aparecido no tradicional programa de natal de Bing Crosby comediante inglês e com ele gravara o dueto Peace on Earth/Little Drummer Boy como presente para o pequeno Zowie, que estava com 6 anos na época – apresentava uma imagem mais saudável e aparecia elegante, porém com visual bem mais simples dos coloridos anos anteriores. O tempo como pai que ele dizia ter perdido tentava ser recuperado, Zowie, que mais tarde mudaria seu nome para Duncan, estava matriculado em uma escola da cidade e os dois passavam muito tempo juntos. O divórcio de Mary Angela Barnett e David Robert Jones só foi assinado em 1980.

Barnett e David Robert Jones só foi assinado em 1980. Ao contrário de Low, Heroes originou

Ao contrário de Low, Heroes originou uma turnê mundial,

a Isolar II, e durante o seu intervalo David voltou a Berlim para gravar Just a Gigolo, filme dirigido pelo ator David Hemmings. Nele Bowie interpreta um oficial prussiano que

ao retornar à cidade após o término da Primeira Guerra

Mundial, sem perspectivas acaba se tornando um gigôlo

para mulheres ricas e solitárias. A motivação para que ele aceitasse o papel atendia por Marlene Dietrich, musa do cinema com o qual ele sonhava em conhecer e contracenar,

o que acabou por não acontecer já que as cenas delas foram

filmadas em Paris. O filme foi mal recebido pelo público e pela crítica. “Tive meus 32 filmes do Elvis em apenas 1 só.”, afirmou David anos mais tarde.

Stage foi o segundo álbum ao vivo lançado por David, chegou às lojas em 1978, gravado durante os shows nos Estados Unidos e pode ser considerado um trabalho de mestre em sua edição conduzida por Tony Visconti.

MOVE ON

O disco que encerra a trilogia, Lodger não foi gravado

em Berlim, mas inicialmente na Suíça e acabou por ser finalizado em Nova York. Bowie parecia que finalmente tinha se tornado diante de todos ele próprio e não apenas mais um dos seus personagens. Porém numa espécie de

anticlímax dos seus trabalhos anteriores Lodger apesar de ser um grande disco, soa mais fraco que os seus antecessores.

As 10 faixas do álbum tratam do deslocamento mais uma

vez, nos evocando lembranças de um narrador pulverizado

e não mais tão vinculado ao seu ambiente. Bowie voltava a

Nova York, assim como Iggy Pop que já começava a traçar seu novo caminho, tentando se livrar das especulações que era apenas uma sombra de seu amigo inglês. Lodger talvez seja o primeiro álbum a trazer Bowie acessível ao público em geral, é um disco que fica a margem de toda a sua discografia sendo adorado por alguns fãs e negligenciado por outros. Não há grandes inovações, experimentações musicais de 10 minutos, ou letras influenciadas tanto pela alma atormentada de seu compositor. É um disco clean, sem sobressaltos depois de dois outros trabalhos tão densos. Na capa, Bowie apareceu retratado pelo fotografo Brian Duffy, em um trabalho realizado em parceria com o

artista britânico Derek Boshier, sendo retratado como uma vítima de acidente, com o nariz aparentemente quebrado. A inspiração para o trabalho? O filme O Inquilino, de 1976, dirigido por Roman Polanski, que também encerrava a sua trilogia: “A trilogia do apartamento” composta por este

e mais dois outros filmes: Repulsa ao Sexo (1965), O bebê de Rosemary (1968).

Foi também nesse período que David abraçou em definitivo

o novo e forte mercado de videoclipes, quando iniciou

sua parceria com David Mallet para o vídeo de Boys Keep Swinging. A parceria duraria até os anos 90 marcando os dois Davids como verdadeiros artistas deste produto.

Quando Bowie deixa Berlim em definitivo, quando acaba essa fase qual o primeiro disco que ele lança? Let’s Dance que era totalmente diferente do que ele havia feito até então. Ele é dance, é diferente de tudo. Eu considero o Bowie um anarquista, tão anarquista que não tinha compromisso nem com ele mesmo. Mais uma vez ele se reinventava. “, afirma Coletto.

PARA SEMPRE

Adeus, David Bowie agora você está entre #Heroes. Obrigado por ter ajudado a fazer o muro cair.” Publicou no Twitter

o ministério das Relações Exteriores da Alemanha na

data da sua morte. Na realidade, Bowie e Berlim nunca mais se separaram, talvez tendo sido esse na realidade o relacionamento mais antigo que cultivou. Seus caminhos se cruzaram para sempre e influenciaram a carreira de tantos outros artistas. O primeiro nome do Joy Division foi Warsaw em homenagem a faixa de Low, U2 e Brian Eno seguiram para o Hansa Studio, na época em que o muro estava sendo derrubado no começo dos anos 90, quando a banda precisava de um novo caminho, apenas para citar alguns exemplos.

Em 1981 Bowie participou interpretado a si mesmo em uma cena do filme Christiane F. – Wir Kindle von Banhof Zoo (Eu, Christiane F, 13 anos, drogada e prostituída) durante um show em Berlim, além de assinar a trilha com versões de suas músicas em sua fase berlinense. O filme mostra a história de uma jovem e seus amigos viciados em drogas na cidade ao final dos anos 70.

1987, em junho, ele fez a sua mais emblemática viagem

a cidade dividida. O concerto para Berlim, com o palco

montado em frente ao prédio do parlamento alemão – o Reichstag – na região do Portão de Brademburgo, fez com que Heroes fosse ouvida dos dois lados do muro. Os berlinenses do lado oriental se amontoaram ao pé da muralha para ouvir o show. Foram 3 dias de apresentações. “Enviamos os nossos melhores pensamentos aos nossos amigos do outro lado do Muro.”

Na Hauptstraße 155, Schönenberg agora uma placa marca o lugar onde Bowie viveu. As mesmas paredes amarelas, mas não o mesmo mundo. Ele mudou e grande parte dessas mudanças

58 A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

de algum modo tiveram a contribuição dos sons que surgiram naquele lugar. O mundo nunca mais foi o mesmo, e nunca mais será sem a genialidade do antigo morador que encontrou a si mesmo e se reuniu na cidade dividida.

que encontrou a si mesmo e se reuniu na cidade dividida. “A Alemanha não tem pop

“A Alemanha não tem pop star deles, então, eles adotam as pessoas que moram aqui com um orgulho danado. O Bowie é um berlinense sem dúvida. Quando ele morreu foi capa de todos os jornais que o berlinense mais famoso tinha morrido. O Bowie está aqui o tempo todo, principalmente em Schönenberg e em Kreuzberg, onde ele saia, o bairro da balada. Na obra dele, claro, tem uma coisa especial de Berlim ali que só ele captou.” - Nina Lemos

Tentando encontrar sua nova face, no ensaio para a capa de Heroes, fotos por Masayoshi Sukita (fonte: Masayoshi Sukita/Outside the Lines)

59

BERLIM: COMO CHEGAR

Diversas companhias aéreas, como TAM, Lufthansa, KLM,

Alitalia, TAP, British Airways, Iberia, Air France, oferecem voos do Brasil para Berlim com apenas uma parada de escala. O tempo médio de viagem é de 14 horas com preços a partir de R$1500,00 em média (valores sem taxas e impostos). Os dois aeroportos da cidade: Tegel (recebe a maioria dos vôos intercontinentais) e Schönefeld (focado nas empresas low- cost, voos vindos da Europa Oriental e do Oriente Médio), são facilmente acessados pelo transporte público. A poucos minutos do Tegel ficam as estações Kurt-Schumacher-Platz

e Jakob-Kaiser-Platz, das linha 6 e 7 do metrô. As linhas de

ônibus 109 e X9, que saem do aeroporto, passam pela estação

Jakob-Kaiser-Platz e vão até a estação Zoologischer Garten.

A linha 128 passa pela estação Kurt-Schumacher-Platz, além

de uma linha expressa especial que já leva os passageiros ao centro da cidade na Alexanderplatz. Em Schönefeld as opções são os trens regionais RE7 ou RB14 que permite chegar as nas estações Alexanderplatz, Friedrichstr e Hauptbahnhof.

TRANSPORTE

Berlim é uma das capitais europeias que conta com um excelente transporte público composto por ônibus, trem e metro tram (uma espécie de bondinho). O U-Bahn é o metrô que se concentra no transporte subterrâneo, o S-Bahn faz a maior parte do seu trajeto na superfície, enquanto o primeiro se limita à cidade de Berlim, o segundo cruza as suas fronteiras. A rede de transporte público é dividida em 3 zonas: A, B e C e os bilhetes são comprados de acordo com a zona a qual deseja se alcançar. O sistema é totalmente integrado e existem variados tipos de bilhetes desde os unitários até os especiais para turistas. Para quem preferir utilizar táxi, o preço de início da corrida

é de 3,90 euros. O serviço também é bem confiável,

com motoristas educados e carros adequados. O Uber é

regulamentado na cidade, funcionando nos mesmos moldes com ajuda de seu app.

O aluguel de carro também pode ser uma boa opção, sendo

necessário apresentar o passaporte e a carteira internacional de habilitação. As estradas da Alemanha estão entre as mais bem conservadas do mundo e os preços de aluguel iniciam-se em geral com diárias de 30 euros.

HOSPEDAGEM

Berlim conta com uma vasta rede de hotéis e hostels, os

bairros mais procurados pelos turistas são Mitte (o centro turístico da cidade), o Tiegarten, Prenzlauer Berg (onde

se concentra grande parte da vida noturna da cidade),

Charlottenburg (onde ficava o centro da Berlim Ocidental).

A melhor época para visitar a cidade é a Primavera, quando

entra a chamada baixa temporada, e os preços caem além do clima favorecer a paisagem berlinense.

(INFORMAÇÕES PESQUISADAS EM SETEMBRO / 2016)

ALIMENTAÇÃO

Berlim é uma cidade com grande variedade de restaurantes, mas o destaque fica para a comida de rua, barata e tradicional. Lembre-se de experimentar o Currywust (criado durante a Segunda Guerra Mundial, o clássico da comida de rua alemã leva salsicha de porco e um molho a base de catchup e curry) e os mais tradicionais tipos de pães. A culinária alemã é vasta, porém há uma infinidade de opções. Para os que preferem economizar mais há sempre a opção de se aventurar pelos supermercados, com destaque para as redes Lidl, Aldi, Rewe e Kaiser’s.

CONHECENDO A BERLIM DE BOWIE

Além dos pontos a seguir, a sugestão é conhecer Berlim com

os seus fones de ouvido caminhando pelas mesmas ruas

e procurando suas próprias experiências, mas seguem os

caminhos por quais David Bowie trilhou sua histórica na cidade.

Hansa Studio Köthener Str. 38 | D - 10963 Berlin

É possível fazer um tour guiado pelo Hansa Studio, com

preços a partir de 15 euros. As visitas são agendadas e podem ser combinadas com outras opções de tour pela cidade, porém estão sujeitas a disponibilidade, já que o estúdio funciona normalmente como local de gravação para diversos artistas. Para mais informações acesse:

http://www.musictours-berlin.com/ (site em inglês e alemão)

Hauptstraße 155, Schöneberg

O apartamento e endereço principal de Bowie e Iggy Pop

enquanto estiveram na cidade. O local tem sido um ponto de peregrinação desde a morte de Bowie. Para chegar lá à estação mais próxima de metrô é a Ubahn Kiestpark – U7

O café favorito Neues Ufer Hauptstraße. 157 / 10827 Berlin–Schöneberg www.neuesufer.de

O café frequentado Por David e Iggy Pop fica a poucos

metros do seu antigo endereço, antigamente na época do seu ilustre morador atendia pelo nome de Anderes Ufer. Sente, tome uma xícara de café e tente imaginar como teria sido poder tê-lo visto cruzando aquelas mesmas portas.

Hotel Ellington Nürnberger Str. 50-55, 10789 Berlin www.ellington-hotel.com

Localizado na divisa entre Schöneberg e Charlottenburg,

o elegante edifício anos 20 com o seu estilo art-decó na

época do seu ilustre morador abrigava o Der Dschungel, uma espécie de Studio 54 alemão da época. Está a apenas 200 metros da U Augsburger Straße, linha U3 da U-Bahn.

S036

Oranienstraße 190, 10999 Berlin so36.de (apenas em alemão)

Pode ser considerada a versão berlinense do CBGB em

Nova York, com uma pegada punk rock, hoje abriga festas

e eventos com sonoridade que vão do reggae ao hip hop. A

melhor maneira de chegar ao local é utilizando o ônibus, a linha M29 Heinrichplatz, passa em frente ao local. Se preferir as duas estações de metrô mais próximas são U1 / U8 Kottbusser Tor e U1 Görlitzer Bahnhof.

Paris Bar Kantstraße 152, 10623 Berlin http://www.parisbar.net

Bowie e Iggy levavam uma vida simples e modesta nos seus tempos na cidade, mas quando queriam ir a algum lugar mais elegante essa era a escolha. Bowie deu uma entrevista a Rolling Stone na época, falando sobre o seu período e sentimentos em

relação a cidade nesse local. Para chegar, vá utilizando o S-Bahn,

a estação mais próxima: S5S Strausberg Nord.

Neulkölln

Localizado na região sudoeste da cidade, como na época de Bowie concentra grande parte da população de origem turca que migra para a cidade. Recebeu uma faixa em sua homenagem no álbum “Heroes”. Vale sentar observar os moradores, comer um kebab. A pista do antigo aeroporto da cidade, o Templehof virou uma área de lazer muito frequentada no final da tarde. Como todos os outros pontos da cidade, o serviço de transporte público funciona muito bem no local.

Reichstag Platz der Republik 1, 11011 Berlin https://visite.bundestag.de/BAPWeb/pages/ createBookingRequest.jsf?lang=en (Em alemão e inglês)

Foi diante do prédio do Parlamento Alemão que Bowie fez os seus emblemáticos concertos em 1987. Inaugurado em 1894, no distrito de Mitte, é um dos locais mais visitados da cidade. A cúpula e o terraço do Reichstag podem ser visitados gratuitamente mediante agendamento. Devido a sua localização e importância há diversas maneiras de se chegar ao local: S-Bahn: Linhas S1, S2, S25, estação S+U Brandenburger Tor; Linhas S5, S7, estação Hauptbahnhof / U-Bahn: Linha

U55, estação Bundestag / Ônibus: Linha TXL, parada S+U Brandenburger Tor; Linha 100, parada Reichstag/Bundestag

Bösebrücke

A ponte citada em Where Are We Now?, foi o primeiro posto

de controle a ser aberto na noite de 9 de novembro de 1989, quando caiu o Muro de Berlim para que os cidadãos do lado ocidental e oriental da cidade pudessem se encontrar. A ponte construída por cima da linha do trem que liga os bairros Wedding (antiga Berlim Ocidental) e Prenzlauer Berg (Berlim Oriental) ficou fechada durante todo o período da existência do muro, ficando uma das extremidades em cada parte da cidade. Os trens na época só podiam passar por ela, sem pararem na estação que permaneceu fechada por mais de 30 anos. Para ir ao local, a estação Bornholmer Str, da S-Bahn, é a escolha mais acertada.

KaDeWe Tauentzienstraße 21-24, 10789 Berlin www.kadewe.de (apenas em alemão)

A Kaufhaus des Westens (Loja de Departamentos do

Ocidente) possui 60 mil metros quadrados (o que equivale

a nove campos de futebol), é a segunda maior loja de

departamentos da Europa, perdendo apenas para a Harrods em Londres. Juntamente com a estação Wittenbergplatz marca o centro de compras de Berlim. Para conhecer o paraíso das compras na cidade: U-Bahn: Linhas U1, U2 e U3 estação Wittenbergplatz / Ônibus: Linhas 100 e 200, parada Breitscheidplatz; Linhas M19, M29 e M46, parada

Wittenbergplatz

Potsdamer Platz www.potsdamer-platz.net

Localizada próximo ao Portão de Brandenburgo e do Reichstag, é um dos pontos mais agitados da cidade. A praça recebeu esse nome em 1831, devido ao portão que

do local permitia a saída para a estrada que levava a cidade de Postdam. Em 1838 foi construída uma estação de trem ligando as duas cidades, e em 1907 ela ganhou sua estação de metrô, e em 1924 recebeu o primeiro semáforo de Berlim.

O local foi fortemente bombardeado durante a Segunda

Guerra Mundial, e mais um dos pontos que foi dividido ao meio com a construção do Muro em 1961. S-Bahn: Linhas S1, S2 e S25, estação S+U Potsdamer Platz / U-Bahn: Linha U2, estação S+U Potsdamer Platz / Ônibus: Linhas M41 e M48, parada S+U Potsdamer

MEIO COXINHA

E ROCK ‘N’ROLL

por vivianne nunes

Não digo que a minha vida passou diante dos meus olhos, mas pelo menos os últimos meses e alguns anos dela tenho certeza. No prédio antigo com decoração clássica, móveis escuros que remetem a um charme antigo, carpete, detalhes em dourado e espelhos por todos os lados eu e minha “parceira no crime” deixamos uma chuvosa noite de terça-feira na caótica São Paulo para trás, aliás estamos bem no coração dela, na Praça da República. Somos informadas pelo porteiro que devemos esperar um momento até que o nosso anfitrião venha nos buscar.

Rimos nervosamente, as pernas dão aquela balançada enquanto encaramos nossos reflexos procurando um pouco da naturalidade que estava conosco na mesa do café que acabávamos de dividir. Era a última cena da nossa aventura que começara há um pouco mais de três meses, mas que vinha na realidade de algo muito anterior a isso.

Era o final dos anos 80 e o rock nacional - antes da explosão definitiva do sertanejo e da chegada do axé music e de outros ritmos - dominava a grande mídia. Sendo eu uma criança totalmente fora da curva que basicamente só ouvia Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Ultraje à Rigor, Legião Urbana, Michael Jackson e que com menos de um ano já tinha pulado em frente a tela da TV batendo os bracinhos diante do Queen no primeiro Rock in Rio me deparava com uma figura de cabelos brancos cantando de ternos coloridos

Pronto Tokyo

misturados a correntes e botas de couro

e Supla entravam para a minha playlist. Logo em seguida

ele aparece sendo o par romântico da nova princesinha do Brasil, Angélica em um dos VHS dos filmes dos Trapalhões que eu alugava, e enquanto eu via ele ali sensualizando inapropriadamente em um filme para os mais novos, coberto

de óleo, em um cenário que faria orgulho até aos roteiristas de 50 tons de Cinza cantando “E só pisa em mim, e pisa até ”

o fim

alcançava um posto novo. Entramos nos anos 90 e

um moreno, já em carreira solo há algum tempo, com cara

de bom moço, só que prometendo “não enterrar o meu osso no gramado da vizinha” com Roger Moreira, vocalista do Ultraje anima as tardes do extinto Clip Trip na TV Gazeta

e faz suas performances no Programa Livre do SBT. Ok, eu gostava mesmo daquele cara.

Onde ele estava nos anos 90? Depois de ter feito sucesso na minissérie global Sex Appeal, assinado contrato com a EMI

e tocado na segunda edição do Rock in Rio com performance

elogiada, largou tudo e foi morar nos Estados Unidos. Foi embora para Nova York ser um John Doe, como ele diria, ou em bom português um João Ninguém e viver a realidade de não ser mais o herdeiro nem dos Matarazzo, nem dos Suplicy, nem da linhagem de Barão ou de Conde, nem filho do então Deputado ou da sexóloga. Partiu porque

“Acho que o Supla teve muito mais necessidade de se rebelar contra dois pais famosos” Marta Suplicy, sobre os filhos, Folha de São Paulo 2008

não aguentava mais na sala da sua casa encontrar Lula sentado no sofá, José Genoíno e José Dirceu dentre outros dividindo a mesa do café da manhã. Partiu porque cansou de não ser levado a sério por ter vindo de uma família de berço, punk de boutique. Enquanto como ele mesmo diz “só não fazia favores sexuais para sobreviver”: quebrou paredes, jogou futebol em times formados basicamente por imigrantes colombianos, foi bouncer (algo parecido com os

“leões de chácara” no Brasil, figura responsável por manter

a ordem nos shows e bares), mas essencialmente pôde viver

seu “sonho punk rock”, virou vocal do Mad Parade que depois virou Psycho 69, tomou um tiro do seu guitarrista, foi capa de revista de tatuagem, mesmo tendo apenas uma que nasceu na adolescência como um cavalo alado e depois foi transformada no símbolo da morte. Conheceu e pode ser clicado por Bob Gruen, icônico fotógrafo responsável

por imagens de John Lennon, Led Zeppelin, Sex Pistols dentre tantos outros astros que entraram para a história da música. Veio ao Brasil em meio a essa louca vida abrir com o seu grupo a turnê de despedida dos Ramones, no Olympia antiga

e tradicional casa de shows da sua cidade natal. Tomou uma chuva de cusparadas, se perguntou o porquê, mas deixou para trás e seguiu em frente.

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“Eu estou triste, mas pelo menos eu vivi o David Bowie. Eu vi um show dele e foi o que me inspirou a pintar o cabelo de branco. Eu tinha 16 anos, tava jogando futebol na Noruega, aí acabou o campeonato, peguei o trem e desci em Hamburgo, ai desci e tinha um pôster do David Bowie tocando. Eu conhecia, mas não sabia muito. Aí eu fui ver o show, vi ele de terno, muito elegante, cantando muito bem, uma coisa bem britânica, e aquilo me inspirou em pintar o cabelo.”

Supla em entrevista a Bandeirantes na ocasião da morte de David Bowie em janeiro desse ano

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FAME

Supla nas primeiras fotos de divulgação da sua carreira nos anos 80 (Crédito: Mujica / Divulgação)

A porta do elevador se abre, os cabelos loiros que muitos

pensam ser em imitação à Billy Idol, mas na realidade foram inspirados em David Bowie já não são mais tantos quanto há alguns anos, afinal ele já é um senhor de 50 anos. Os sapatos brancos de bico finos, seus quase 1,90 de altura distribuídos em calça jeans, camiseta branca com estampa de caveiras estrategicamente destruída e um casaco preto com a gola levantada, uma mistura de Eduardinho, como a sua mãe o chama, Supla, Bruce Wayne e Batman nos recebe na entrada de seu esconderijo nem tão secreto (os moradores do Centro até certo ponto já se acostumaram ao vê-lo andando por aquelas ruas, e encontrá-lo dirigindo sua Harley-Davidson em algum ponto de São Paulo também não é tão difícil).

Acaba por ser impossível não lembrar da primeira vez que

o topei por aí. Nos anos 2000 Supla acabou se recriando no

Brasil e muito disso graças a arte de aprender a rir de si: Marcos

Mion decidiu que Green Hair ou Japa Girl caso prefiram era definitivamente o pior clipe do mundo e fazia questão de tirar onda com o seu autor – e consequentemente com os seus outros trabalhos –. “Papito”, entrou para o vocabulário de toda a audiência da MTV, bem como as imitações que o apresentador fazia do cantor.

Devido um pouco isso, e também a candidatura da sua mãe

prefeitura de São Paulo, Supla voltou ao Brasil em 2000

acabou recebendo uma ligação que mudou a sua vida, o

convite feito pelo próprio Patrão, também conhecido como Silvio Santos fez com que fosse parar no primeiro reality show brasileiro: a Casa dos Artistas. Não venceu o programa,

mas conquistou a simpatia de muitos que achavam que

ele era apenas um cara levemente estranho, um filhinho de papai desocupado que misturava inglês e português.

E foi nessa época que eu o encontrei nos corredores da

SP Fashion Week e simplesmente não tive coragem de trocar meia dúzia de palavras, e isso se repetiu por tantas vezes, tantos corredores, alguns shows, com direito a congelar literalmente quando ele se sentou ao meu lado em um dos

desfiles e me cumprimentou educadamente

e

a

Vai entender.

“Desculpem o atraso, a correria, mas é que eu estou com

a cabeça a mil, um milhão de coisas para resolver, um

milhão de compromissos” diz enquanto estende a mão para nos cumprimentar.

Encaro as rugas no rosto dele e lembrar que ele já tem 50 anos é no mínimo surreal. Apesar de muitos os acusarem de “Síndrome de Peter Pan”, ou seja, que ele se negue a crescer a qualquer custo.

Apesar de muitos os acusarem de “ Síndrome de Peter Pan ”, ou seja, que ele

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Cazuza, Nelson Motta e Supla na boate Hipopotamus, nos anos 80 no Rio de Janeiro

Cazuza, Nelson Motta e Supla na boate Hipopotamus, nos anos 80 no Rio de Janeiro (Foto: Ronaldo Zanon)

“Sério que alguém, realmente gosta do Supla?”, “Sério que alguém realmente escuta as músicas dele?”, “Sério que você acha ele bonito?” (Essa deixa pra lá). E foi daí que surgiu a ideia – e a necessidade – de entrevistá-lo. Sim, as pessoas gostam dele e sim, ele não é nenhum Peter Pan Punk. Supla tem que ser olhado como um caso único em toda a indústria musical brasileira, mesmo estando à margem do que é consumido em nosso país. Nos seus 30 anos de estrada manteve-se relevante sem nunca ter traído a verdade que desenvolveu para si. Ele é uma colagem de estilos difícil de se definir, mas impossível de se ignorar. Quem o acusa de não ser verdadeiro, de ser “punk de boutique”, de não ter talento, de só ter chegado a algum lugar por ser filho de quem é, se engana. Ele certamente é um dos únicos que consegue transitar por todos os veículos, falar com tantos públicos, faixas etárias, tanto que até certo ponto quando brinca com o título de “Rei da Mídia” que se autoproclamou, podemos dizer que mesmo megalomaníaco não é um fato mentiroso. Já apresentou programas ou quadros no SBT, Rede TV, MTV, Mix TV, Rede Record e Sony. Fez minissérie e novela, participou do Sítio do Pica Pau Amarelo, tudo na poderosa Rede Globo. Fez cinema, com direito a aparecer moreno, diferente e impecável como Mario Lago na cinebiografia de Noel Rosa. Cantou com Cauby Peixoto, misturou

bossa nova e rock transformando no que chamou de “bossa furiosa”. Com seu irmão João Suplicy fundou o Brothers of Brazil que viajou o mundo misturando o estilo dos dois e teve o seu nome dado apenas por Bernard Rhodes (ex-empresário do The Clash). Foi produzido por João Barone (baterista dos Paralamas do Sucesso) e junto com João por Jon Tiven que tem no seu currículo trabalhos com nomes que vão de Robert Plant a B. B. King, também com seu o Brothers excursionou tocando no Warped Tour o maior festival do verão dos Estados Unidos. Compôs com Cazuza, sentou no sofá de Hebe Camargo, na poltrona de Jô Soares, divertiu a plateia de

Ou seja diminui-lo a uma

mísera caricatura é no mínimo um erro.

Regina Casé e seu Esquenta

Ele segura a porta do elevador para nos dar passagem, está aí um dos traços que todos que o conhecem admiram: a educação e a simplicidade, o que acaba por lembrar que por trás de tudo, apesar que na realidade não importe, este é um filho da mais pura linhagem “quatrocentona paulistana”. Eduardo Smith de Vasconcellos Suplicy nasceu na madrugada de 2 de abril de 1966 na tradicional Maternidade de São Paulo a poucos metros da Avenida Paulista, vindo de uma linhagem com barões e condes envolvidos. Passou férias no castelo que a família de sua mãe construiu em Itaipava, na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro. Foi incentivado a

“Até hoje a língua inglesa invade a minha mente Quando você me escuta numa entrevista no rádio ou num programa de TV falando uma ou outra palavra em inglês, não é porque quero aparecer tipo um gringo bobo, mas sim algo que vem de modo natural e acabou virando até uma marca registrada.”

Trecho de Crônicas e fotos do Charada Brasileiro, livro que lançou esse ano, no qual explica que foi alfabetizado em inglês e por isso mistura os dois idiomas quando se expressa

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FAME

praticar polo pelo avô materno. Recebeu o começo da sua educação nos Estados Unidos, para onde foi aos 6 meses, seu pai havia recebido uma bolsa para estudar na MSU Michigan State University (curiosidade enquanto os Suplicys moravam no campus da MSU, na Cherry Lane, Iggy Pop virava aluno de outro campus no mesmo estado, só que na University of Michigan) e depois em colégios tradicionais de São Paulo, sendo inclusive convidado a se retirar do Colégio São Luís depois de não aceitar as críticas feitas por um dos padres a sua mãe, que falava abertamente sobre sexo no programa TV Mulher. Entrou em Economia na PUC-SP, seguindo o curso feito pelo seu pai, na universidade na qual sua mãe, e posteriormente seu irmão do meio André, se formou. Largou após 1 ano e meio, pois aí a sua banda, o Tokyo já havia estourado. O curso não foi trancado até hoje.

Seguimos para o pequeno, quente e antigo elevador, em direção ao segundo andar. “Eu tirei o dia para resolver as minhas pendências, já atendi uns grupos que precisavam também de ajuda para o TCC ”

“É a gente sabe que você não para”, completo. E sabemos mesmo. Nos últimos meses acompanhar mais de perto a

carreira dele acabou por deixar as duas editoras dessa revista

cansadas só de correr atrás da falta de rotina de Supla

voltando ao elevador. Aquilo era real? Estávamos realmente

no mesmo elevador que ele? Um pouco depois do show que fez em maio no Teatro João Caetano, tive a ideia de que ninguém seria a capa mais perfeita dessa edição, apresentei

a ideia a minha parceira que olhou desconfiada (a aventura

Mas

dela vocês leem daqui a pouco), tudo ótimo, tudo ok, mas a pergunta passava a ser “Como conseguir isso?”

Lábia, persistência e uma boa e certa dose de chatice, o approach mais direto começou quando eu levei para ele autografar durante o evento que aconteceu no mês seguinte no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo um vinil

promocional que tenho do Tokyo para autografar e enquanto ele assinava já comecei com aquela conversa; contei que estava terminando a faculdade, escrevendo uma revista sobre música

e que queria muito entrevista-lo para minha capa. “Vou pensar

com carinho, já ajudei algumas vezes. Me manda um e-mail falando sobre isso dizendo que você é a menina que me deu um beijo de batom vermelho e trouxe um vinil do Tokyo para eu autografar que não vou esquecer.” Bullshit, bobagem, pensei,

mas mandei a mensagem, claro. Auditório do Ibirapuera, 8 de julho, no show de celebração aos seus 30 anos de carreira – que contou inclusive com a brilhante presença da minha avó na fila A – lá fui eu para o camarim, colocar o dedo na cara dele e pedir para não me esquecer. Na semana seguinte levei reforços

e na companhia da minha fiel escudeira fomos conversar com

ele em um evento para o lançamento do seu livro, feito em

uma grande livraria. Seguiram-se meses de mensagens trocadas, telefonemas, certezas, incertezas até aquele momento em que desembarcávamos no hall do seu apartamento.

As paredes pintadas em um tom roxo extremamente forte, com fotos de ícones da música como John Lennon (e do próprio dono da casa) penduradas. Atrás uma grande porta branca separando aquele espaço do apartamento em si, o chão com ladrilhos pretos e brancos, um banco de couro preto.

Workaholic e perfeccionista são características tão presentes quanto a educação. Não é apenas que ele não para, mas sim que é praticamente um exército de um homem só. Ele é seu próprio empresário. Ele quem liga para as rádios quando lança uma música, acerta suas participações em programas de TV, contratos publicitários e afins, monta a banca de camiseta depois dos shows, ajeita as coisas no palco. Ainda dentro dessa faceta, seu faro para negócios parece muito bom. Virou brinquedo (a Estrela lançou um boneco seu na época da Casa dos Artistas), assinou uma coleção de roupas em parceria com a Riachuelo e camisetas com a King55,

“Se você escolher fazer música ou qualquer outra profissão se dedique.”

Conselho do pai Eduardo Suplicy reproduzido na biografia do cantor.

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emprestou sua imagem para vender desde biscoitos a anunciar site de vendas. No início desse ano fechou uma parceria com

a

Blondine, marca de bebidas do interior de São Paulo, para

o

lançamento da sua própria cerveja, a Papito. “Temos muita

sintonia com o Supla. Adoramos sua história e o seu jeito único. Procuramos sempre inovar, inspirar e aguçar a curiosidade dos apaixonados pelo universo cervejeiro”, afirma Juliana Behr, embaixadora da Blondine.

“Para que mesmo é o trabalho de vocês?”, depois de ouvir a explicação pergunta se trouxemos equipamento, tudo o que vamos e não vamos colocar, se vamos fazer algum vídeo para

postar na internet, no Youtube, se temos luz, microfone

perfeccionismo, tudo precisa estar impecavelmente alinhado com

a sua imagem, o seu trabalho, e o que quer mostrar.

Esse é o

Depois de termos cometido a gafe de jogar toda a bagagem que levamos em cima do móvel no qual ele gostaria de se sentar e acertar todos os detalhes técnicos, sentamos no chão diante dele e finalmente começamos a perguntar o que há tanto estávamos preparando.

CHEGANDO NOS 50 ANOS, OLHANDO TUDO O QUE JÁ FEZ, ROLOU UMA CRISE DE IDENTIDADE, UMA CRISE EXISTENCIAL? VOCÊ ACHA QUE SE SOMAR TUDO VOCÊ É UM CARA 100% REALIZADO OU FALTA MUITO

AINDA PARA FAZER? “Eu sou uma pessoa muita agradecida, me sinto privilegiado por estar com 50 anos e poder fazer até agora o que eu gosto. Minha carreira teve altos e baixos, na maioria altos e na minha vida pessoal não posso reclamar de

nada, crise de identidade

quis ser músico e quando você faz 18 anos tem aquele lance da faculdade, eu nem acabei terminando a minha porque eu já sabia o que queria fazer, mas eu tive aquilo, era uma profissão nova na minha família: ‘o cara vai ser músico, né?’. Meu pai não era músico, minha mãe não era música, eu sou o filho mais velho, foi como popped the cherry, quebrar a cereja. Era algo que não tinha na minha família esse tipo de profissão e eu fui o primeiro a fazer. Então ao longo das coisas, eu vou confessar eu nunca tive vontade de ser isso ou aquilo, eu cheguei a pensar em ser jogador de futebol, mas isso quando eu tinha 18, 19 anos, não dá para pensar nisso agora aos 50, que era uma coisa que eu gostava – aliás para quem já o viu jogando, especialmente no extinto Rock & Gol campeonato promovido pela MTV quando ganhou a alcunha de Juninho Papito sabe que ele joga muito bem – Eu queria muito ir no estádio do Santos – ele é torcedor do time – e falava ‘Nossa , eu jogo melhor do que aquele cara, o que aquele cara está fazendo?’ E tinha 30, 40 anos ”

Desde os 13, 14 anos eu sempre

Punk, esse seria o estilo como muitos o definiriam, mas certamente como já foi dito colocá-lo em apenas uma prateleira

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FAME

Brothers of Brazil, VMB 2012 (foto Leonardo Soares / Uol)

Brothers of Brazil, VMB 2012 (foto Leonardo Soares / Uol) é impossível. Escuta-lo falar sobre música

é impossível. Escuta-lo falar sobre música de qualquer estilo

é ouvir as palavras de alguém que é realmente apaixonado

pelo assunto e o conhece muito bem. Por exemplo, no livro Discoteca básica, 100 personalidades e seus 10 discos favoritos, de Zé Antonio Algodoal, na sua escolha ao lado e Bowie, Rolling Stones estão Vinicius de Moraes, Bob Marley, Caetano Veloso, Chico Buarque e Nina Simone, no mesmo livro seu irmão e parceiro João cita lembranças de ouvir o som do The Police vindo do quarto do seu irmão mais velho. Na sua biografia, seu pai cita nomes como Don McLean, Frank Sinatra, Tom Jobim, João Gilberto, Milton Nascimento, Roberto e Erasmo Carlos, Elis Regina dentre outros como parte integrante do playlist que ouvia com seu filho durante o período no qual moraram nos Estados Unidos.

“Eu sou muito mais do que punk, eu não sou só punk, punk é uma das coisas da minha influência, nada mais. Eu sou muito mais do que estilo punk, punk é uma gíria, milhões de coisas podem ser punk. ‘Nossa o cara bateu o carro, você viu a cara da menina como ficou? Ficou punk’, ou então uma expressão, Robert De Niro acabou de usar a expressão punk, ele falando

sobre Donald Trump, ele falou assim ‘He is a punk’ o que ele quis

dizer com isso? Que ele é um punk, um idiota

de música punk? Du-du-du-du-du no baixão, assim (simula

estar tocando com os dedos), à la como o que os Ramones

Ah e estilo

Fizeram isso e nem sabiam o que era punk, nem

se consideram punks, é uma banda de rock, as pessoas falam punk-rock, mas eles se consideram uma banda de rock. Então pra mim é só uma das coisas, eu sou muitas coisas, se você me

desenharam

enquadrar em uma coisa só, pelo amor de Deus

na música por causa dos Beatles, talvez a atitude deles para a época era punk com aqueles cabelos franjinha, aquilo era um cabelo comprido para a época, eles estavam de terno, mas eram rebeldes.”

Eu entrei

Sobre os assuntos que acabam por sempre permear a sua vida,

a

tranquilidade com a qual lida é justamente a de alguém que

está há tanto tempo falando sobre isso que acaba por nem se

abalar mais. “

eu acho super de boa porque eu já me dou com essa situação faz 30 anos, Casa dos Artistas não, veio bem depois, mas eu já tinha lidado com fama, exposição, ser filho de político, então é uma coisa que vem naturalmente, às vezes enche o saco, às vezes não, eu não ligo muito.

aí não tem nenhum problema para mim, isso

Isso

No seu álbum a ser lançado nos próximos meses, ele coloca temas polêmicos na roda. Parça da Erva, fala sobre a legalização da maconha, com direito a clipe filmado em Venice Beach, Califórnia onde ele abertamente consome um baseado. Fanáticos Virtuais vai falar como sobre a internet e a relação das pessoas com ela. Trump! Trump! Trump! é uma crítica direta ao candidato à presidência dos Estados Unidos.

“Eu fiz a música do Trump porque estava nos Estados Unidos e

vi ele dar uma declaração que se estivesse na 5ª Avenida e desse

um tiro numa pessoa, as pessoas que votam nele continuariam

Falei ‘mas que tipo de declaração é essa de um

cara que quer ser Presidente dos Estados Unidos?’ Então acho que um trabalho muito importante de um artista é retratar

o tempo que estamos vivendo de uma certa forma, esse meu

novo álbum, ele vem totalmente assim, ele se chama ‘Diga o que você pensa’ e fala desses assuntos ‘Parça da Erva’, ‘Amor entre dois diferentes’ que eu estou celebrando as diversidades dentro do amor. ‘Parça da Erva’ fala da liberação da maconha e a música do Trump mesmo, uma música crítica contra ele por ser super machista e eu acho um trabalho tão sério quanto esse, tem que ser uma pessoa um pouco mais qualificada na minha opinião para ser presidente dos Estados Unidos. Anarquia Lifestyle que diz no sentido de liberdade, liberdade de expressão, de você poder ser quem você é, basicamente isso. Eu venho cantando esse tipo de coisa desde que eu comecei a minha carreira, pode ver pela musica Humanos, só que agora de uma outra forma, mais para os dias de hoje. É que o meu trabalho é retratar o que está aí acontecendo. Música não precisa ser só isso também pode ser música de amor, se você faz uma música de amor com alguma outra mensagem por trás ela fica muito mais interessante também do que fazer aquela velha música de amor romântico.”

a votar nele

Amor, sexo. Supla produziu algumas pérolas com o tema. Se tudo pode virar música, ele com certeza é prova disso com

“Tem o PT, PSDB, PMDB e o DEM / O PTB, o PSB, PR e sei lá mais quem / É mensalão, mensalinho, ele é meu amigo, ele é meu padrinho / Na eleição prometeu mas depois no seu bairro nunca apareceu/ Tem o PT, PSDB, PMDB e o DEM / O PTB, o PSB, o PR e sei lá mais quem / Vai se foder! Vai se foder! Vai se foder”.

Trecho de “Tudo pelo Poder”, lançada em 2014 pelo Brothers of Brazil, com letra de Supla, João Suplicy e Fabio Bopp.

títulos como Mão Direita, aliás música essa censurada pelo governo Sarney na época e que veio de uma peça de teatro escrita pela sua mãe, Por que eu só quero comer você, As Virgens, I like sex dentre outras.

“O pessoal fala o que quiser, crítica eu recebo o tempo inteiro, se eu for ficar atrás do que os outros estão pensando ou estão falando eu não sou mais eu, eu tenho que ser quem eu sou. Isso são sensações de um garoto pra mim, quando eu escrevi essas

Mão Direita, não é nem minha é de uns caras da peça

da minha mãe, mas eu me identifiquei com a música, música de

letras aí

masturbação eu era um adolescente, começando a descobrir sexo, no que mais você está pensando quando você é um adolescente?

E “comer você” – uma das favoritas de quem vos escreve – é uma

letra que é isso aí, é aquele tesão imediato, você quer comer a menina, ela só quer te comer, sei lá, então beleza, uma coisa que acontece com nós seres humanos. ”

Supla fala muito, fala rápido e de um jeito único que além de misturar o inglês com o português, tem um forte sotaque

paulistano que pode soar até caricato, mas ele te encara, te dá atenção como se aquele minuto fosse o mais importante. Com

o seu tempo apertado em meio a tantas coisas acontecendo os

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“O meu avô Luiz sempre me dizia: ‘Dinheiro vai

e

vem, mas a cultura

e

o conhecimento

são para sempre.”

Supla lembrando do seu avô em sua biografia.

sempre.” Supla lembrando do seu avô em sua biografia. Um Supla recém-nascido no colo dos pais.

Um Supla recém-nascido no colo dos pais. (foto: Arquivo pessoal)

instantes finais daquele pedaço de noite estavam terminando e para isso fomos a uma pergunta que por não ter sido respondida acaba por atestar muito o que foi dito ao longo dessas páginas.

SE VOCÊ ESTIVESSE A VENDA NUM SITE DE RELA- CIONAMENTOS, QUAL SERIA O SEU ANÚNCIO EM 140 CARACTERES? COMO VOCÊ SE DESCREVERIA EM UM TWEET? “Não faço ideia ”

Yes, deixamos o Supla sem palavras, o que pode parecer

Devido a isso ganhamos uma brechinha,

e para aproveitar colocamos um ping-pong:

impossível foi feito

HILLARY OU TRUMP? Nenhum dos dois;

JEAN WILLYS OU BOLSONARO? Eu não conheço direito Mas Bolsonaro não pelas coisas que eu vejo, que eu leio nos

jornais

opinião formada ainda;

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Jean Willys eu vejo alguma coisa, mas não tenho

FAME

SÃO PAULO OU NOVA YORK? Os dois;

ROCK OU BOSSA NOVA? Rock;

VIDA ON-LINE OU OFF-LINE? Off-line. Têm coisas boas on- line e off-line, mas tem que saber balancear. Eu gosto muito da vida on-line, mas é muito mais do que isso;

ZÉ DO CAIXÃO OU STEPHEN KING? Vamos dar para o brasileiro, Zé do Caixão;

CERVEJA OU WHISKY? Cerveja;

PAI OU MÃE? Não tem nem resposta esse aí

“Vamos levantar senhoritas”, ele nos estende a mão para nos ajudar a levantar, como um bom “menino de família”, voltamos

a encarar ele, que mais uma vez se transforma diante dos nossos

olhos, ele agora volta a ser mais Eduardo do que Supla. Tiro a minha coleção de vinis da sacola, e se ele volta a ser Eduardo, eu por alguns minutos me dou ao direito de voltar a ser apenas mais uma fã pedindo autógrafo para seu ídolo.

Depois de uma foto estrategicamente posada e devidamente conferida nos mínimos detalhes, voltamos ao mesmo elevador, ele continua falando sobre a sua vida, sobre os projetos que

estão por vir. Ele nos segue até a porta, abre para que deixemos

o prédio, tiramos uma foto por entre a noite que já deixara de

ser chuvosa. Nos despedimos. Ele entra na cafeteria que fica no andar térreo do seu prédio, cumprimenta o segurança, os que estão lá dentro viram o pescoço para observar o ilustre cliente. Esperamos sair do seu campo de visão e aquela sensação de vitória nos leva até o metrô. Nos abraçamos. Conseguimos cumprir nossa missão.

Te vejo de novo Champs, porque como você mesmo diz em

uma de suas letras

Mas a gente sempre quer mais.

diz em uma de suas letras Mas a gente sempre quer mais. As mil caras do

As mil caras do Charada

MONTAMOS UMA LINHA DE TEMPO PARA TE AJUDAR A DESVENDAR UM POUCO DAS MIL FACES DO NOSSO CHARADA BRASILEIRO

5/12/1964 - Marta Teresa Smith de Vasconcellos e Eduardo Matarazzo Suplicy se casam em São Paulo;

02/04/1966 – Nasce o primeiro filho do casal: Eduardo Smith de Vasconcellos Suplicy;

AGOSTO DE 1966 – a família se muda para os Estados

Unidos;

15/12/1968 – Nasce Andre, o segundo filho do casal;

14/06/1974 – João, o irmão caçula e futuro parceiro musical nasce;

DEZEMBRO DE 1972 – retorna ao Brasil com seu irmão André, mora com os avós maternos enquanto os pais permanecem estudando nos Estados Unidos;

1979 – Monta a sua primeira banda com seus vizinhos,

Os Impossíveis, que praticamente tocava apenas covers dos Beatles. Ele era o baterista;

1984 – Disputa o torneio de boxe Forja dos Campeões,

o mesmo que seu pai havia participado 20 anos antes. No mesmo ano grava a sua primeira demo com a banda

Metropólis, ainda apenas como baterista. Recebe um convite para integrar a banda Zig-Zag, que depois viraria

o Tokyo, já assumindo o posto de vocalista;

1985 – O Tokyo lança seu primeiro compacto pela Som

Livre com as músicas Humanos e Mão Direita. O primeiro disco traz a versão original de Garota de Berlim com a cantora alemã Nina Hagen;

1986 – Grava com a sua banda o clipe de Humanos

usando terno rosa e os cabelos já brancos em um estilo

à la David Bowie, o clipe foi filmado no Presídio do

Hipódromo;

1988 – O Tokyo chega ao fim;

1989 – Lança seu primeiro disco-solo intitulado apenas

Supla. O álbum conta com uma música escrita em parceria com Cazuza: Nem tudo é verdade;

1990 – Ganha o papel de par romântico de Angélica no

filme Uma escola atrapalhada. Além dos dois o filme conta com as participações do grupo Polegar em início de carreira, Gugu Liberato, a primeira aparição de Selton Mello e a última da formação original dos Trapalhões;

1991 – Se apresenta no Rock in Rio em janeiro e lança

seu segundo álbum, com o mesmo título da anterior e produção de João Barone, dos Paralamas do Sucesso;

1993 – Participa da minissérie Sex Appeal;

1994 – Muda-se em definitivo para Nova York.

Vira vocalista da Psycho 69;

1996 – Abre os shows do Ramones no Brasil com

a sua banda;

2000 – Volta ao Brasil para ajudar na campanha eleitoral

de sua mãe. Vira destaque na programação da MTV Brasil devido a Marcos Mion e Os piores clipes do Mundo;

2001 – Toca no terceiro Rock in Rio, participa do primeiro

reality show brasileiro, A Casa dos Artistas, de onde sai vice-campeão perdendo a vitória para a sua namorada dentro da casa, a atriz Bárbara Paz. No mesmo ano vende mais de 900.000 do álbum O Charada Brasileiro nas bancas de jornais;

2006 – Vive o ator Mario Lago na cinebiografia de Noel

Rosa, Noel – o poeta da Vila;

2007 – Atua como curador da exposição Rockers na FAAP

em São Paulo, trazendo as fotos feitas por Bob Gruen de

ídolos do rock;

2008 – Começa a se apresentar ao lado de João com

o duo Brothers of Brazil. Lançam seu primeiro álbum

no ano seguinte;

2012 – Vira jurado do Ídolos na TV Record;

2013 – Estreia na MTV Brasil Papito In Love, programa no

qual Supla procura uma namorada. A segunda temporada veio em 2015, dessa vez a vencedora se casaria em Las Vegas com o cantor. Até agora parece que o programa não deu resultado

2015 – O Brothers of Brazil se apresenta no Rock in Rio

com participação de Glen Matlock, baixista original

do Sex Pistols;

2016 – Celebra seus 50 anos de vida e 30 de carreira.

por andressa cancian

Um estilo de roupas único, feito sob medida. Um cabelo que aparece sempre impecável, mesmo depois de dar uma voltinha de moto. Um jeito meio brasileiro, meio gringo. Vem de uma família de políticos, mas não quis seguir esse rumo. Eduardo Smith de Vasconcellos Suplicy, vulgo Supla. Sim, o próprio Supla deu as caras nessa edição, mas podemos dizer que não foi uma tarefa tão fácil quanto se pode parecer.

Tudo começou com uma paixão, confesso que não minha. Chegamos ao ponto no qual tivemos que decidir nosso produto para fechar a faculdade com chave de ouro, e por que não dar continuação de uma coisa que foi boa e prazerosa de se fazer? Assim nasceu a 2ª edição da Compasso, mas não estou aqui para contar toda essa história, estou aqui para falar de outra coisa. A história do Papito.

Voltando ao assunto: tudo começou com uma paixão, a paixão de uma fã por seu ídolo. Em meio a tantas reuniões de pauta finalmente tivemos que nos perguntar: Quem será nossa capa? O Supla! Por que o Supla? E por que não o Supla? E na verdade, por que não o Supla? – quem nos conhece, pode imaginar quem disse cada frase desse mini diálogo - Nunca fui fã, mas conhecia. O que eu poderia falar de uma pessoa que eu mal sabia sobre sua vida e carreira? E, por mais incrível que pareça, em não muito tempo eu descobri.

14 de julho de 2016, Fnac da Avenida Paulista, lançamento do seu livro para comemorar seus 50 anos de vida e seus 30 anos de carreira. Foi um lançamento bem descontraído, um intermediador fazia algumas perguntas sobre o livro e alguns fatos de sua carreira, no final, foi aberto um tempo para perguntas do público. Naquele momento, de novo, eu me perguntei: por que não o Supla? Tem uma história de vida, de carreira, de loucura e sanidade, do básico ao surreal, do óbvio ao inimaginável. Naquele dia, o “aluguel” começou de verdade. A partir daí diversas mensagens foram enviadas pelo Messenger implorando ajuda, implorando uma entrevista, afinal, somos duas estudantes tentando fazer um trabalho para a faculdade, não duas jornalistas de grandes meios de comunicação, o que dificulta um pouco a situação, mas fomos persistentes.

Um belo dia, na verdade, um dia normal de trabalho, meu celular toca e aparece um número desconhecido. Pensei que era gravação, ou alguém me oferecendo um cartão que já estou cansada de recusar, mas para minha surpresa, o próprio Supla estava me

ligando. Fiquei sem palavras para responder e ter uma conversa normal, foi a emoção do momento. Ele disse que lembrava da gente, que iria dar a entrevista e iria marcar um dia para conversarmos, mas teria que ser rápido, meia hora do máximo. Concordei, afinal, não estava em posição de recusar nada. Liguei para a Vivi, essa emoção tinha que ser dividida com a pessoa que já dividiu várias horas e cafés comigo durante esse TCC, inclusive quem me fez embarcar nessa história. Caixa postal. Bombardeei mensagens no Whatsapp dela, até que sua mãe me ligou. Contei desesperada, e ainda anestesiada, a emoção que estava sentindo, que nós iriamos conseguir o que queríamos, que tudo daria certo, até que depois consegui falar com ela, aleluia! A emoção se transformou em duas emoções, duas alegrias e duas histórias.

Os dias e as semanas pareciam inter- mináveis, era mais fácil chegar o fim do mundo, mas não esse dia. Sutilmente, mandávamos mensagens pelo Messenger, “não esquece”, “ainda estamos esperando”, dentre tantas outras.

Até que outro belo dia, outra ligação. Outra corrente elétrica se estendeu pelo corpo para conseguir atender aquele telefonema sem surtar, talvez

aquele fosse o dia, mas não foi. Quase foi. Ligou somente para avisar que estava enrolado, e se estenderia para a próxima semana. É de acreditar, com a correria de: lança livro, lança música, dá entrevista para rádio, TV

e afins, acompanha os pais durante a

campanha eleitoral, e tudo isso sendo seu próprio assessor, é complicado até mesmo para um simples mortal.

A caminho do trabalho, o celular toca

com uma simples mensagem “hoje”,

e o sorriso já fica até mais largo que

o gato do filme Alice no País das Maravilhas. Ludmilla até toca no rádio para

compor a trilha sonora. É hoje!. Durante o dia o celular não desgrudava por um minuto. As horas foram passando e nada estava acontecendo, nem um simples sinal de vida.

Foram momentos de espera intermináveis. Quando eu não estava com a cabeça no mundo da lua ou então atrapalhada com as coisas do dia a dia, fazia uma pergunta a mim mesma: eu realmente estou tão ansiosa assim para falar com o Supla? Era uma situação um pouco complicada, mas eu realmente estava ansiosa, eu realmente também queria essa entrevista, e eu realmente abracei a ideia, então estava nela até o final, custe o que custar.

Era uma terça-feira. A tarde estava meio nebulosa e ameaçava chover. Olhava no relógio as horas que pareciam não passar, estávamos atarefadas e milhões de problemas para serem resolvidos, de preferência no mesmo dia, quando o celular toca. Não, não dava

para acreditar o contato que aparecia na tela do celular. O tempo para, o sangue ferve

e o corpo treme com o medo do que aquela ligação pode causar, mas é atendida. A

ligação não dura mais do que 3 minutos, tudo isso para dizer que tudo aconteceria naquela mesma noite, e a ansiedade tomou conta. Começou a correria para pegar tudo que precisávamos para dar seguimento a essa jornada, e deu certo.

Como combinado, nos encontramos na cafeteria que fica próxima a um prédio antigo no centro da cidade, tão excêntrico quanto seu morador, e discutimos tudo

que aconteceria. Parceiras de aula, trabalhos, da busca das pautas mais simples até as mais complexas, desde a uma simples reunião de pauta, até mesmo um show de banda cover. Revisamos as perguntas, tomamos um café, conversamos sobre coisas aleatórias para nos distrair e controlar o nervosismo, e ensaiamos uma certa naturalidade. Tudo isso porque nos próximos 30 minutos (tempo estabelecido para

a entrevista), precisávamos que a nossa sede de respostas fosse saciada. O relógio

marcava exatamente 20h. Corremos para o interfone e o chamamos pelo nome. O porteiro fez um pequeno cadastro e nos pediu que aguardasse. A porta do elevador se abre e tudo que vemos é aquele no qual corremos atrás por cerca de três meses igual cachorro corre atrás do rabo, mas a diferença é que nós conseguimos. No hall com paredes escuras, iluminação baixa e quadros de pessoas que são ídolos e inspirações, aconteceu nossa entrevista. Os minutos foram contados no relógio, e as perguntas escolhidas a dedo, tudo para que conseguíssemos tudo em tão pouco tempo. Ao final, o cavalheirismo prevaleceu e nos acompanhou até a porta, uma simples foto para recordar aquele momento como o dia em que conseguimos conquistar uma grande vitória, e com muito esforço.

Ele seguiu seu rumo para a cafeteria, e nós fomos para o metrô. Ele com a sensação de mais uma tarefa concluída, e nós que a nosso principal objetivo foi alcançado e nos abraçamos. Naquele momento percebemos que ele não é o rockeiro sem noção que muitos pensam, ou o filhinho de papai que muitos julgam, mas uma pessoa normal, que também pensa no próximo, tem o sonho que as coisas melhorem, e faz do seu próprio esforço seu sucesso.

Viagens, saguões de hotéis, portões de embarque. De norte a sul. Acompanhe as aventuras de alguém que faz de tudo para estar perto do seu ídolo, nem que seja por alguns segundos

por vivianne nunes

LIVIN LA VIDA LOCA

assamos por algumas sensações durante a nossa vida que são ao mesmo tempo constrangedoras, marcantes

assamos por algumas sensações durante a nossa vida que são ao mesmo tempo constrangedoras, marcantes e singulares. Os primeiros dias de aula, sejam eles os do maternal ou os da sua quinta pós-graduação, merecem destaque dentre eles. Aquela sensação de estranhamento mútuo, de tentar encontrar o grupo certo para fazer os trabalhos que parecem ser mais difíceis e complexos do que compor a nova versão da 9ª Sinfonia de Beethoven. Um verdadeiro cardume de peixes fora d’água nadando com os tubarões.

Em meio a essa maré toda, eu cursava há alguns meses a minha primeira graduação. O curso: Automação de Escritórios e Secretariado na FATEC-SP,

e certamente enquanto todas ali

pareciam sereias destinadas a fisgar

o peixe perfeito e ser o protótipo de

secretária de futuro eu me sentia um filhotinho de baiacu com a barbatana meio torta. Mas em meio a tudo isso, em uma das tardes alguém me aborda: “Hey, eu vi você no TV FAMA! ”, olho para o topo da escada, era uma das garotas mais novas da minha turma que desembesta a falar: “Você estava com o Guga (Gustavo Kuerten, ex-tenista brasileiro líder do ranking mundial em 2000 e tricampeão de Roland Garros), logo falei para o meu pai: essa menina estuda comigo na faculdade, na minha classe. ”

E assim conheci Priscila de Souza Wlossak,

e a empatia foi imediata, pois descobrimos algo em comum: além de ambas sermos completamente foras dos padrões das outras com quem estudávamos,

erámos verdadeiras fangirls: eu, guguete, com minha avassaladora paixão (se conhecerem mais alguém assim me apresentem pois até agora continuo sendo

a única da espécie) e ela admiradora do cantor porto-riquenho Ricky Martin.

que se retirar das quadras, mas esse ano

brilhou na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, além de ter roubado uma fatia enorme do coração de todos ao ser condecorado como Labrador Humano nas transmissões da Rede Globo.

O dela continua mais ativo do que nunca,

passando inclusive por mais desafios do que muitos podem imaginar. Assumiu sua homossexualidade, tornou-se pai de gêmeos, virou jurado de reality show, cantou na Broadway.

E quanto a Priscila? Ela não perdeu

nada disso. E “ser adulta” e a tal da faculdade, ajudaram a poder acom- panhar tudo mais de perto. Viagens internacionais para vê-lo durante o musical “Evita” em Nova York, seguir

a turnê por boa parte do Brasil, dar

uma esticadinha até a Argentina, ir até

o Rio de Janeiro apenas para vê-lo no

aeroporto por apenas um minuto (um minuto cronometrado no relógio mesmo).

“Conheci o Ricky em 1996 quando tinha

11 anos de idade. Ele aparecia em todos

os lugares na mídia brasileira – “Maria”

era uma música quase onipresente - e comecei a me interessar pela vida e carreira dele.”, comenta. “Assistindo às suas participações nos programas de TV, eu o achei muito simpático, inteligente e carismático nas entrevistas, além, obviamente, de ser lindo.” A fase Menudo de Ricky já havia passado, e Priscila nem havia nascido quando a banda assolou o Brasil no início dos anos 80 levando milhares de adolescentes enlouquecidas aos seus shows.

Mas o primeiro contato com ele demorou anos para acontecer, foi um pouco antes de quando eu e Priscila nos conhecemos, aliás exatamente no mesmo ano, 2003. “Fiquei o dia todo

no Aeroporto de Guarulhos, esperando

O resultado da espera

ele desembarcar

E

no decorrer desses mais de 10 anos

foram algumas fotos e um autógrafo.”

de

amizade fui acompanhando todas as

76

PALCO

aventuras que minha amiga foi vivendo,

o meu objeto de afeto infelizmente teve

E essa que vos escreve lembra até hoje

deste “causo” sendo contado, das fãs

Nova York, novembro 2012 (Foto: arquivo pessoal, todas as da matéria)

até hoje deste “causo” sendo contado, das fãs Nova York, novembro 2012 (Foto: arquivo pessoal, todas
em carreata com as bandeiras de Porto Rico atrás do carro dele. “Nos anos 90

em carreata com as bandeiras de Porto Rico atrás do carro dele.

“Nos anos 90 e começo dos 2000 era bem difícil obter conteúdo, não havia Youtube, então as pequenas loucuras

se devem

o gesso do pé porque um clipe novo

dele estrearia na MTV e eu precisava

Em outro dia, ia passar uma

aparição dele na TV e, presa com o carro em uma enchente, saí debaixo do temporal enfiando o pé nas poças até o joelho para ligar do orelhão pra uma amiga gravar para mim (foi antes do celular se popularizar). Já deixei também de descer para o litoral de férias com minha família porque ele iria à Hebe e na nossa casa de praia sem parabólica, o SBT pegava pessimamente, quando pegava”

gravar

ir tirar

a

isso

Deixei

de

E que tal gastar uma pequena fortuna

e ir até um hotel 5 ESTRELAS apenas para tomar um iogurte (“foi só o que

desceu devido a ansiedade”) e observa-

lo com o seu staff, do outro lado de um

vidro, apenas degustando seu café da

78

PALCO

manhã. Uma notinha do desjejum mais caro da vida, mais umas boas risadas.

Em 2011, durante a turnê “MUSICA +ALMA+SEXO” que trouxe o cantor de volta ao Brasil, após uma longa ausência, nossa intrépida heroína seguiu o cantor por boa parte do país. O resultado? Fotos, autógrafos e aquela sensação de alma lavada que só nós, loucos de pedra, podemos entender.

Mas de tudo o que passou, Priscila destaca alguns momentos de maior emoção. “A maior aventura foi agora em março de 2016, quando eu vi três shows dele na argentina, dois em Buenos Aires e um em uma cidade chamada Junin, a 3 horas de ônibus de Buenos Aires (ele é muito amado no país, pode se apresentar em qualquer lugar que é garantia de ingressos esgotados.) Uma fã da Argentina que conhecíamos apenas dos grupos de fãs do Facebook comprou as passagens (não pudemos comprar aqui do Brasil porque o site da viação exigia o número do que seria

Ou seja, fomos

um ‘CPF argentino’

o número do que seria Ou seja, fomos um ‘CPF argentino’ no melhor estilo la garantia

no melhor estilo la garantia soy yo.) No trajeto, a estrada não era duplicada

e era totalmente rodeada por pastos, se

tivéssemos algum problema ou acidente ali, talvez demorasse bastante para sermos resgatados. Chegamos e voltamos bem (a rodoviária era minúscula e as empanadas vendidas lá eram horríveis,

sorte que eu tinha bolachas na mochila),

o show foi maravilhoso (aliás, dos três

foi o show em que eu fiquei mais perto,

quinta fila), enfim, deu tudo certo. Mas

Buenos Aires,

aí eu paro pra pensar

Mendoza, Bariloche, ok, são cidades

turísticas que muitas pessoas visitam

e

Junin?!!!

Nunca havia ouvido falar desse lugar em minha santa vida!!! Só Ricky mesmo para me fazer ir a esse lugar!!!!”

querem

conhecer

Agora,

Uma outra viagem marcante foi a ida

a Nova York, só para acompanha-lo no

musical Evita. “Fui, em 2012, a NY vê-lo no musical Evita, da Broadway, que ele estrelava. Fui em junho e,

enlouquecida para vê-lo de novo, voltei

Para ver o

à cidade em novembro musical novamente!

”.

E se para tudo isso haveria uma única

trilha sonora? “Tente outra vez”, do

Raul Seixas “

vida de fã é uma eterna tentativa”. Pois bem, as decepções estão presentes em uma certa – e boa quantidade de vezes

– “Momentos de espera em saguões de

hotel são bem torturantes, por causa da demora e também da incerteza dele aparecer ou não. Em muitas vezes fiquei esperando por algumas boas horas sem conseguir vê-lo. Em abril ele veio a São Paulo para participar de um evento beneficente. Nos quatro dias em que ele esteve aqui, percebemos que estava bem arredio e recluso - isso deve ser muito em função do namorado dele, que também veio. Ficamos, em um sábado, 12 horas na porta do hotel, das 11:00 h às 23:00. Descobrimos um bar aonde ele foi no sábado à noite e fomos lá, pegamos mesa na calçada para vê- lo sair. Somente aí tivemos chance de falar um pouco mais, mas ainda assim foi extremamente breve. Não sei o que estava acontecendo, obviamente gente famosa também fica doente, de saco

bem oportuna porque a

é

famosa também fica doente, de saco bem oportuna porque a é cheio, tem problemas, etc momentos

cheio, tem problemas, etc

momentos decepcionantes em relação a algumas fãs, coisas do convívio humano (traições, gente com duas caras, fofocas, etc)”

Há também

Apesar de alguns olhares meio desconfiados, e os comentários que desagradavelmente fazem sobre a “perda de tempo”, Priscila diz não sofrer julgamentos: “todos que me conhecem sabem que sou bem prudente e não tendo a cometer irresponsabilidades nas minhas peripécias de fã”.

E no final, vale ou não a pena? Para os

que acham que não, fica a sentença, a

resposta final, esse seria o pagamento,

a recompensa – apesar que, quem é fã

sabe que esse é um amor tão singular

e altruísta, o dar e se contentar com o

muito pouco em troca – “tenho grandes

amigos que só mesmo um ídolo como o

Ricky poderia ter me dado. “ (

só me trouxe coisas positivas, tanto que estou nessa há 20 anos. Não tenho

muito dinheiro, mas a vontade vê-lo me educou muito financeiramente

e me permitiu ir a Nova York em

“Tudo

)

2012 e agora para a Argentina, na turnê. Para comprar meu carro, por exemplo, tive bem mais facilidade, porque aprendi a poupar. Em termos de amizade, é fantástico conhecer gente que se identifica com você, é tão ou mais fã que você, e isso faz com que os laços se estreitem. Tenho hoje amigas que ultrapassaram a barreira de ‘coleguinhas de fã clube’ e se tornaram amigas de verdade, para compartilhar momentos bons e ruins da vida, com ou sem Ricky. Por ser um artista estrangeiro, também pude aprender espanhol, principalmente, de tanto ver programas com ele, ler reportagens, ver as letras das músicas, etc. Ser fã de algum artista internacional te ajuda demais a aprender algum idioma. Então, em resumo, eu diria que ser fã vai muito além, porque você se insere em uma atmosfera que envolve vários aspectos da sua vida”.

diria que ser fã vai muito além, porque você se insere em uma atmosfera que envolve

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O trovador Bob Dylan mais uma vez ajuda o mundo a sair da mesmice, misturando

O trovador

Bob Dylan mais uma vez ajuda o mundo a sair da mesmice, misturando as artes ao ser escolhido como o prêmio nobel de literatura de 2016

por vivianne nunes

I’m leaving tomorrow but I could leave today (Estou indo amanhã, mas poderia ir hoje) Somewhere down the road someday (Em algum lugar pela estrada, em algum dia) The very last thing that I’d want to do

(A última coisa que eu quero fazer)

Is to say I’ve been hitting some hard travelling too.

(É dizer que fui abatido por uma viagem difícil, também)

Essa é a última estrofe de Song to Woody, única composição escrita pelo jovem Bob Dylan no seu disco de estreia em

afirmar, pelo contrário. Não seguiu pelo “caminho seguro”, gravou álbuns que desagradaram, publicou livros, tentou

1962, nela ele homenageia uma das

a

sorte como ator e entrou os anos 80

inspirações do seu início de carreira,

com o status de muito mais do que

o

cantor folk Woody Guthrie. 54

um artista cult, mas um verdadeiro

anos depois, o nascido Robert Allen Zimmerman surpreendeu o mundo

rockstar. De 1988 a 1990 excursionou com o Traveling Wilburys, supergrupo

ao

receber uma singela homenagem: o

formado por ele, George Harrison, Jeff

Prêmio Nobel de Literatura de 2016. Originário de uma família de raízes judias russas, nascido nos Estados

Lynne, Roy Orbison e Tom Petty. No ano seguinte entrou para o Rock ‘n’ Roll Hall of Fame. Em 2006 Modern Times,

Unidos, Dylan escreveu seus primeiros poemas aos 10 anos e na adolescência

alcançou o topo das paradas e em 2015 surpreendentemente lançou Shadows in

de

forma autodidata aprendeu a tocar

the Night, álbum com cover de músicas

piano e guitarra. Em 1959, ao iniciar

consagradas na voz de Frank Sinatra.

os

seus estudos na Universidade de

Minnesota, direcionou o seu interesse musical do rock para o folk, inspirado justamente por Woody, que conheceria anos depois. Largando a universidade apenas um ano após o ingresso, mudou-

“Por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”, assim foi anunciada a justificativa para a sua premiação. O Dylan de Bob veio

se

para Nova York e sendo descoberto

inspirado pelo poeta galês Dylan

o

amor, capturaram as incertezas da

nos clubes da cidade, em 1962 já havia gravado seu primeiro álbum pela Columbia Records, mas só vendeu 5 mil cópias. Em 1963 lançou o que pode ser

Thomas. Sua voz anasalada, que a muitos não agrada, resgata o espírito dos trovadores, a sociedade, a vida,

considerado uma das mais significativas

juventude dos anos 60 / 70 em meio

letras da História: Blowin’ in the Wind.

ao novo mundo e as guerras. Suas

Dylan não ficou preso aos anos 60, como muito dos seus críticos gostam de

letras são verdadeiros poemas da sua

– da nossa – alma por entre linhas da vida que procuram um caminho por

entre medos, sombras, drogas, paixão, felicidade. Música e poesia são feitos

do mesmo DNA. Dylan faz companhia

a Rabindranath Tagore, que além de

poeta, também era músico e venceu a honraria em 1913.

A premiação de Bob reascendeu a velha

discussão entre “alta” e “baixa” cultura,

com narizes torcidos por parte daqueles

que não aceitam Dylan ao lado de nomes

como Samuel Beckett, William Butler Yeats, Pablo Neruda e Gabriel García

Márquez. O seu papel dentro do século

XX

é a síntese do multiculturalismo

que

foi o traço das últimas décadas.

Letras que citam de Shakespeare a

Bíblia, o céu, o inferno, questionando Deus, amor, política, escolhas. Mesmo

que até agora ele não tenha aceitado

formalmente o prêmio, o cowboy fanho, americano, judeu, torna-se o único a ter em sua carreira: Grammy, Pulitzer, Globo de Ouro, Oscar e Nobel, além

de ser parte do Rock’n Roll Hall of Fame. Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos e considerado por muitos um dos que está na lista do Nobel, deixou o ego de lado e elogiou, compreendendo

bem o espírito da honraria: “Dylan é o

brilhante herdeiro da tradição do bardo. Excelente escolha”

bem o espírito da honraria: “Dylan é o brilhante herdeiro da tradição do bardo. Excelente escolha”

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VEM DANÇAR COMIGO The Get Down chega ao Netflix colocando a história do hip-hop no

VEM DANÇAR COMIGO

The Get Down chega ao Netflix colocando a história do

hip-hop no serviço de stream e coloca o consagrado Baz Luhrmann na roda da nova tecnologia. (Divulgação / Netflix)

por vivianne nunes com colaboração de alex gonçalves, autor e crítico de cinema no cine resenhas, espaço que mantem na internet desde 2007 falando sobre os mais diversos gêneros do cinema.

Depois de ajudar a ressuscitar o gênero musical na virada do século, o cineasta Baz Luhrmann chega ao Netflix com uma série contando o surgimento do Rap e a cultura hip-hop nos anos 70

contando o surgimento do Rap e a cultura hip-hop nos anos 70 NETFLIX DISPONIBILIZOU NO SEU

NETFLIX DISPONIBILIZOU NO SEU CATÁLOGO The Get Down, a série produzida por Baz Luhrmann que tem como pano de fundo o nascimento do movimento hip hop e do rap nos Estados Unidos da década de 70. Com a queda do gênero disco music, a nova música surgia abrindo mão do som e se estruturando basicamente nas palavras para chegar

diretamente a mente e aos ouvidos do público. Uma música crua, uma conversa reta e franca mostrando a realidade daqueles que viviam à margem da sociedade, que se apoiava no uso do corpo e das mentes. O cenário escolhido: um recorte do Bronx, bairro predominantemente negro, violento e carente da cidade

de Nova York. Para a série (a mais cara produzida pela Netflix

até o momento) sair do papel levou mais de 10 anos – claro que

o começo do projeto não foi pensado para ser feito em parceria

com o serviço de vídeo streaming já que a tecnologia não existia no começo – mas uniu Baz a um time vencedor: Catherine Martin, que além de sua esposa é produtora ganhadora de 4 Oscars e 5 BAFTAs, mas fundamentalmente grandes nomes ligados a cultura de rua e ao surgimento do movimento como: o rapper Nas, o pioneiro Kurtis Blow e Afrika Bambaataa (o homem responsável por cunhar o termo hip hop, e como os personagens

da

série originário do Bronx) além de contar com a consultoria

de

especialistas e estudiosos do hip hop, coreógrafos e dançarinos,

conhecedores do grafite e de toda a cultura de rua.

O

resultado é uma série que vai além do que se propõe, não

se

limitando ao seu tempo / espaço, a revolução das ruas, a

pobreza, mas todo um panorama histórico da cidade de Nova York e a degradação da parte sul do Bronx naquele período.

A série acaba por agradar os que gostam ou não do estilo, mas

especialmente os que percebem a música como ferramenta social e de mudança.

O DESAFIO

O musical é considerado por muitos como último gênero do cinema, tendo surgido logo após a transição do filme mudo para o falado, o seu momento de esplendor se deu na chamada Era de Ouro em Hollywood – quando os grandes musicais como Nasce uma Estrela e Cantando na Chuva foram

produzidos -, após essa fase, principalmente com a chegada dos anos 80 o gênero acabou por ser levado ao ostracismo, porém não podendo ser decretado como extinto.

Nos anos 1990, o gênero entrou em uma crise ainda mais profunda com a invasão dos videoclipes. Embora muitos se assemelhassem a pequenas produções cinematográficas, a linguagemnãoencontravaressonâncianaartecinematográfica. Entra assim Baz Luhrmann, cineasta que então debutava com Vem Dançar Comigo, musical que colaborou para colocar o novo cinema australiano em evidência em Hollywood e no mundo fazendo coro ao também sucesso regado a grandes

hits do Abba de Priscilla: a rainha do deserto, filme de 1994. Foi no filme de Baz que a versão de John Paul Young para a balada romântica Love Is In The Air tomou de assolo as rádios

e apresentou o clássico a uma nova geração.

O sucesso da produção, protagonizada por Paul Mercúrio

e que traz um coletivo de dançarinos em busca de liberdade

artística, rendeu credenciais para Baz Luhrmann realizar Romeu + Julieta, a mais moderna adaptação da peça de Shakespeare. Paralelamente, os musicais foram rareando, com Evita sendo talvez a maior produção do gênero à época. Foi preciso que o

século XX chegasse ao fim para Luhrmann liderar isoladamente uma verdadeira revolução com Moulin Rouge.

Nesta premiada produção de 2001, o musical retomou o prestígio de um dos gêneros mais encantadores do cinema. Os segredos para o sucesso foram inúmeros: a aproximação da audiência com um romance de época com tintas contemporâneas, a mistura equilibrada de humor e tragédia, uma montagem que emula a agilidade dos videoclipes, uma química implacável entre os protagonistas e, principalmente, uma coleção de grandes músicos revisitando canções clássicas com um ritmo pop.

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FLAGRA

Além de cenas musicais interpretadas por Nicole Kidman

e Ewan McGregor, temos versões de Complainte De La Butte

interpretada por Rufus Wainwright, Diamond Dogs, por Beck, Nature Boy, por David Bowie e Massive Attack e Children Of The Revolution, por Bono, Gavin Friday e Maurice Seezer. Resultado da equação: Moulin Rouge respeita a essência de um grande musical e arrebata graças à sintonia de Baz Luhrmann com o que move neste tempo o cenário musical de qualidade.

“Lamentavelmente, o australiano sucumbiu à espalhafatosidade natural do gênero investindo em novos seguimentos com resultados insatisfatórios (O Grande Gatsby), quando não desastrosos (Austrália). Ainda assim, deixa um legado: se não fosse por Moulin Rouge, produções alternativas como Dançando no Escuro e 8 Mulheres afundariam sem a visão do musical como um bom negócio e outros títulos americanos como Chicago, Os Miseráveis e Dreamgirls jamais seriam viabilizados.” E o que afirma Alex Gonçalves, editor do Cine Resenhas.

Mas sendo o responsável por revitalizar o gênero, como podemos identificar os traços de Baz em uma série que traz como essência um gênero musical sem o som como base? Esse era um dos seus grandes desafios, que felizmente é cumprido com louvor. O cuidado com o uso das cores – os três primeiros filmes de Baz não à toa ficaram conhecidos como a trilogia da cortina vermelha, e o seu protagonista mais uma vez abusa desse tom nas telas – e o zelo com os movimentos retratados, mostra que ali está um trabalho de arte preocupado em respeitar os outros artistas que visa retratar.

Outro ponto forte do trabalho de Baz fica com a sua curadoria musical, com o pedigree de quem já teve de David Bowie a Beyonce nas suas trilhas. Os estilos e nuances são passados como fundo para a mudança do escopo, personagem e cenário, uma mesma cena pode misturar três ou quatro faixas

e gêneros sem que isso agrida os ouvidos do espectador,

mantendo a linearidade da narrativa mesmo com as nuances

sendo apresentadas.

Ezequiel (Justice Smith) e Mylene (Herizen Guardiola), ele com talento para música e rimas, ela filha de pastor que sonha em ser a nova diva da Disco Music nos anos 70. Uma história de amor improvável que serve de pano de fundo para o enredo de The Get Down (foto: Divulgação / Netflix)

C omo nos seus trabalhos anteriores, o amor, a sua conquista, o seu impossível serve como plano de fundo para transmitir a mensagem: o de como a população menos favorecida arrumava seus próprios e novos caminhos para mostrar a sua arte. As amizades construídas e dissolvidas, a união, a busca

pelo novo, pelo seu sonho é sempre embalada pela música que acaba por mais uma vez, como em todos os trabalhos do australiano em se tornar mais um personagem da trama, sem que tudo seja transformado em música e coreografia, ela tem personalidade, vida, sentimento e respiração. O apelo para o dramalhão é deixado de lado mesmo quando na primeira

lá e aqui

parte da série o apelo fica por conta de Ezekiel e a sua paixão por Mylene Cruz, que apesar de sonhar em ser uma diva da disco tem que seguir os passos do seu pai pastor.

Um elenco predominantemente latino e negro enche os olhos,

e o protagonista Ezekiel cativa, ao retratar um jovem, que

como tantos outros não sabe o que fazer com o seu talento,

e com o caminho que tenta conquistar. Podemos claro traçar

um paralelo com a periferia das cidades do Brasil, com as suas particularidades e os seus diversificados gêneros como funk, rap, samba, dentre tantos outros.

do Brasil, com as suas particularidades e os seus diversificados gêneros como funk, rap, samba, dentre
do Brasil, com as suas particularidades e os seus diversificados gêneros como funk, rap, samba, dentre

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