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DA OBRIGATORIEDADE DO USO DAS NORMAS TÉCNICAS

Sumário

DA OBRIGATORIEDADE DO USO DAS NORMAS TÉCNICAS................................1

Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas - Parte 1/4 - com base nos seus aspectos

legais...............................................................................................................1

  • 1 – Da necessidade da normalização..........................................................1

    • 1.1 – Constituição Federal e a legislação brasileira............................3

    • 1.2 – Importantes deduções lógicas e dúvidas resultantes.....................3

  • 2 – Da normalização oficial brasileira.......................................................4

    • 2.1 – Visão do CONMETRO sobre normas e regulamentos técnicos......5

    • 2.2 – Visão da ABNT: caráter voluntário do uso das normas.................6

    • 2.3 – Do uso compulsório dos regulamentos técnicos na construção

  • civil..........................................................................................................7

    • 3 – Da obrigatoriedade do uso das normas................................................7

      • 3.1 - Da obrigatoriedade do uso das normas nas obras públicas

    federais, desde 1962................................................................................8

    • 3.2 - Do uso obrigatório da norma do CUB.............................................9

    • 3.3 - Da obrigatoriedade do uso das normas na Lei de Licitações........11

    • 3.4 - Do uso obrigatório das normas de acessibilidade........................13

    • 3.5 – Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas citadas nos

    códigos..................................................................................................14

    • 3.6 – Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas na legislação

    ético-profissional..................................................................................14

    Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas - Parte 2/4 - nas relações de consumo

    .....................................................................................................................15

    • 4 – Das relações de consumo...................................................................15

      • 4.1 - O que é uma lei de ordem pública.................................................18

      • 4.2 – O CDC é uma lei de ordem pública, portanto cogente..................19

  • 5 - Da obrigatoriedade do uso das normas impostas pelo Código de

  • Defesa do Consumidor.............................................................................22 5.1 - Da hierarquia entre regulamentos e normas nas relações de consumo............23

    Da obrigatoriedade do uso das normas - Parte 3/4 - nas relações de consumo...........23

    6.1

    – Resoluções antigas do Conmetro sobre normas técnicas

    (revogadas posteriormente, em 1992)..................................................30

    • 6.2 – Do cancelamento das resoluções antigas do Conmetro sobre

    normas de uso não compulsório...........................................................31

    • 6.3 – Explicando as possíveis causas da divulgação equivocada quanto

    à não obrigatoriedade do uso das normas técnicas nas relações de

    consumo................................................................................................34

    • 6.4 – Da legalidade e obrigatoriedade do uso das resoluções do

    Conmetro..............................................................................................35

    • 6.5 – Conclusões quanto às relações de consumo................................37

    Da obrigatoriedade do uso das normas - Parte 4/4 - nas relações regidas pelo Código Civil brasileiro e conclusões finais......................................................................38

    • 7 – Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas no Código Civil em

    vigor (CCV)...............................................................................................38

    • 7.1 Tudo que se pagou presume-se verificado.......................................38

    • 7.2 CCV: vícios aparentes prescrevem no ato da entrega.....................39

    • 7.3 CCV também obriga o uso das normas técnicas..............................42

    • 7.4 CCV: vícios ocultos prescrevem em um ano....................................44

    • 8 Aspectos jurídicos da obrigatoriedade do uso das normas técnicas.....44

    • 9 Aspectos técnicos da obrigatoriedade do uso das normas técnicas......45

      • 9.1 ABNT DIRETIVA 2:2011...................................................................45

      • 9.2 Significados das expressões verbais “deve”, “convém que” e “pode”

    na ABNT diretiva 2:2011........................................................................46

    Conclusão final:...........................................................................................48

    Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas - Parte 1/4 - com base nos seus aspectos legais

    Data do artigo: 30/Junho/2015 Data da pesquisa: 24/Novembro/2016

    1 – Da necessidade da normalização Vivemos na “era da globalização”, onde a intensa troca dep antes. Veja descrição abaixo – consultada em 1º de maio de 2015 clicando aqui . COMO ELABORAR NORMAS O processo de elaboração de uma Norma Brasileira é iniciado a partir de uma Demanda, que pode ser apresentada por qualquer pessoa, empresa, entidade ou organismo regulamentador que estejam envolvidos com o assunto a ser normalizado. A pertinência da demanda é analisada pela ABNT e, sendo viável, o tema (ou o assunto) é levado ao Comitê Técnico correspondente para inserção no Programa de Normalização Setorial (PNS) respectivo. Caso não exista Comitê Técnico relacionado ao assunto, a ABNT propõe a criação de um novo Comitê " id="pdf-obj-2-2" src="pdf-obj-2-2.jpg">

    1 – Da necessidade da normalização

    Vivemos na “era da globalização”, onde a intensa troca de mercadorias e serviços entre as nações exige e tende a criar uma uniformização abrangente de critérios de qualidade na elaboração de projetos, fabricação de insumos, produtos, componentes, procedimentos de execução de serviços e assim por diante.

    A procura de parâmetros para a citada uniformização resultou na criação de organismos internacionais de normalização, tais como a ISO (International Organization for Standardization) e a IEC (International Electrotechnical Commission)

    O Brasil é representado na ISO pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), sociedade civil sem fins lucrativos que publica normas técnicas criadas com base em critérios próprios visando atender um consenso entre os participantes. Veja descrição abaixo – consultada em 1º de maio de 2015 clicando aqui.

    COMO ELABORAR NORMAS

    O processo de elaboração de uma Norma Brasileira é iniciado a partir de uma Demanda, que pode ser apresentada por qualquer pessoa, empresa, entidade ou organismo regulamentador que estejam envolvidos com o assunto a ser normalizado. A pertinência da demanda é analisada pela ABNT e, sendo viável, o tema (ou o assunto) é levado ao Comitê Técnico correspondente para inserção no Programa de Normalização Setorial (PNS) respectivo. Caso não exista Comitê Técnico relacionado ao assunto, a ABNT propõe a criação de um novo Comitê

    Técnico, que pode ser um Comitê Brasileiro (ABNT/CB), um Organismo de Normalização Setorial (ABNT/ONS) ou uma Comissão de Estudo Especial (ABNT/CEE).O assunto é discutido amplamente pelas Comissões de Estudo dos Comitês Técnicos, com a participação aberta a qualquer interessado, independentemente de ser associado à ABNT, até atingir um consenso, gerando um Projeto de Norma. O Projeto de Norma é submetido à Consulta Nacional pela ABNT, com ampla divulgação, dando assim oportunidade a todas as partes interessadas para examiná-lo e emitir suas considerações. A Consulta Nacional é realizada pela web, podendo ser acessada no link. A relação dos Projetos de Norma em Consulta Nacional é publicada também no Diário Oficial da União. Nesta etapa, qualquer pessoa ou entidade pode enviar comentários e sugestões ou então recomendar a sua desaprovação. Todos os comentários são analisados e respondidos pela Comissão de Estudo autora, que realiza uma reunião para análise das considerações recebidas. Todos os interessados que se manifestaram durante o processo de Consulta Nacional, a fim de deliberarem, por consenso, se este Projeto de Norma deve ser aprovado como Norma Brasileira. As sugestões aceitas são consolidadas no Projeto de Norma, que é homologado e publicado pela ABNT como Norma Brasileira, recebendo a sigla ABNT NBR e seu respectivo número. A relação das Normas Brasileiras em vigor está disponível para consulta no ABNTCatálogo.

    • 1.1 – Constituição Federal e a legislação brasileira

    O art. 59 da Constituição Federal de 1988 diz que o processo legislativo compreende a elaboração de emendas à Constituição, leis complementares, leis ordinárias, leis delegadas, medidas provisórias, decretos legislativos e resoluções, e prevê em seu parágrafo único que “Lei Complementar disporá sobre a elaboração, redação, alteração e consolidação das leis”, fato consolidado na LC 95/1988 e alterações posteriores.

    Por outro lado, consta da Constituição Federal esta importante disposição:

    1.2 – Importantes deduções lógicas e dúvidas resultantes É com base nessa disposição constitucional impositiva que

    1.2 – Importantes deduções lógicas e dúvidas resultantes

    É com base nessa disposição constitucional impositiva que resultam os seguintes corolários:

    • a) As normas técnicas criadas pela ABNT não passam pelos critérios

    impostos na Lei Complementar 95 para a criação das leis brasileiras e,

    portanto, normas técnicas não são leis.

    • b) Quando uma norma técnica for referendada por uma norma jurídica,

    por exemplo, resultar ou constar de uma lei ou for criada por ela, é um dever legal que seu atendimento seja obrigatório, conforme art. 5º, II, da Constituição Federal, acima citado.

    • c) Se num contrato entre particulares constar o cumprimento de uma

    norma técnica, a obediência a seus dispositivos passa a ser obrigatória entre as partes contratantes.

    DÚVIDAS: Mas a utilização de uma norma técnica deixa de ser obrigatória se não for citada expressamente em um dispositivo legal ou em um contrato? Em outras palavras, norma tem força de lei e é de uso obrigatório, embora não seja uma lei?

    Esta série de quatro posts esclarece e responde a essas indagações, começando com a apresentação comentada do uso compulsório de normas técnicas com vários exemplos baseadas na legislação brasileira.

    2 – Da normalização oficial brasileira

    A normalização oficial brasileira criou uma diferença fundamental entre “regulamentação” e “normalização”.

    A “regulamentação” sempre é estabelecida de forma autônoma pelo poder estatal, através de entidades federais criadas com base em legislação específica, sem participação de entidades privadas diretamente.

    Já a “normalização” pode ser criada por entidades privadas para disciplinar métodos de fabricação, aplicação, conformidade etc. Conforme decisão do CONMETRO, a ABNT foi indicada como FORO BRASILEIRO DE NORMALIZAÇÃO. [ver detalhes na Resolução n. 7/1992 do Conmetro, transcrita no item 6.2 do post [42]].

    Assim sendo, vigora no Brasil um sistema misto de regulamentos técnicos e normas técnicas, no qual as normas técnicas publicadas pela ABNT, por delegação do CONMETRO, estabelecem requisitos técnicos mínimos a serem atendidos pelos produtos ou serviços por ela abrangidos, ao passo que os regulamentos técnicos emitidos por órgãos federais competentes estabelecem, além de aspectos técnicos, outros requisitos, tais como:

    prazos para adequação, regras para fiscalização, sanções legais pelo seu descumprimento etc.

    Este tema é detalhado a seguir, apresentando as diferentes visões oficiais do CONMETRO e da ABNT a respeito.

    2.1 – Visão do CONMETRO sobre normas e regulamentos técnicos

    O INMETRO, como órgão executivo do CONMETRO, apresenta a sua visão sobre esse tema, em texto acessado no dia 1º de maio de 2015.

    DEFINIÇÕES DE REGULAMENTO TÉCNICO, NORMA E PROCEDIMENTO DE AVALIAÇÃO DA CONFORMIDADE

    AVALIAÇÃO DA CONFORMIDADE: Todo procedimento utilizado, direta ou indiretamente, para determinar que se cumpram as prescrições pertinentes dos regulamentos técnicos ou normas. Os procedimentos para a avaliação da conformidade compreendem, entre outros, os de amostragem, prova e inspeção; avaliação, verificação e garantia da conformidade; registro, acreditação e aprovação, separadamente ou em distintas combinações.

    REGULAMENTO TÉCNICO: Documento aprovado por órgãos governamentais em que se estabelecem as características de um produto ou dos processos e métodos de produção com eles relacionados, com inclusão das disposições administrativas aplicáveis e cuja observância é obrigatória. Também pode incluir prescrições em matéria de terminologia, símbolos, embalagem, marcação ou etiquetagem aplicáveis a um produto, processo ou método de produção, ou tratar exclusivamente delas.

    NORMA TÉCNICA: Documento aprovado por uma instituição reconhecida, que prevê, para um uso comum e repetitivo, regras, diretrizes ou características para os produtos ou processos e métodos de produção conexos, e cuja observância não é obrigatória. Também pode incluir prescrições em matéria de terminologia, símbolos, embalagem, marcação ou etiquetagem aplicáveis a um produto, processo ou método de produção, ou tratar exclusivamente delas.

    Tanto normas quanto regulamentos técnicos referem-se às características dos produtos, tais como: tamanho, forma, função, desempenho, etiquetagem e embalagem, ou seja, a grande diferença entre eles reside na obrigatoriedade de sua aplicação.

    As implicações no Comércio Internacional são diversas. Se um produto não cumpre as especificações da regulamentação técnica pertinente, sua venda não será permitida, no entanto, o não cumprimento de uma norma apesar de não inviabilizar a venda, poderá diminuir sua participação no mercado.

    2.2 – Visão da ABNT: caráter voluntário do uso das normas

    A visão da ABNT sobre esse tema consta no site da ABNT, acessado em 1º de maio de 2015, que afirma que “a norma é, por princípio, de uso voluntário”, conforme reproduzido a seguir:

    ...

    Norma

    é o documento estabelecido por consenso e aprovado por um

    organismo reconhecido, que fornece regras, diretrizes ou características mínimas para atividades ou para seus resultados, visando à obtenção de um grau ótimo de ordenação em um dado contexto.

    A norma é, por princípio, de uso voluntário, mas quase sempre é usada por representar o consenso sobre o estado da arte de determinado assunto, obtido entre especialistas das partes interessadas.

    VOLUNTARIEDADE DAS NORMAS

    Tipicamente, as normas são de uso voluntário, isto é, não são obrigatórias por lei, e então é possível fornecer um produto ou serviço que não siga a norma aplicável no mercado determinado.

    Em diversos países há obrigatoriedade de segui-las, pelo menos em algumas áreas (para o caso brasileiro, é o Código de Defesa do Consumidor) ...

    O caráter voluntário de uso das normas técnicas, conforme interpretação da ABNT, também constava em resoluções antigas do INMETRO, revogadas em 1992, após a entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor, tais como:

    • - na Resolução nº 06/1975, que definia classes de Normas Brasileiras;

    • - na Resolução nº 8/1975, cujos itens 2 a 5 estabeleciam critérios e diretrizes para classificação das Normas Brasileiras. Ver detalhes nos itens 6.1 e 6.2 do post [42].

    2.3 – Do uso compulsório dos regulamentos técnicos na construção civil

    Conforme ficou explicitado nos itens 2.1 e 1.2 anteriores, tanto a ABNT como o INMETRO concordam conceitualmente, com base nas definições por eles adotadas, que os regulamentos técnicos emitidos em nome do governo federal por órgãos federais competentes são de uso compulsório e as normas técnicas seriam de uso voluntário. Esses conceitos resultam da orientação geral imposta pela ISO, mas no caso brasileiro, contrariam a legislação interna ordinária, e não apenas no caso de relações de consumo, como já reconhece explicitamente a ABNT, como se prova a seguir.

    3 – Da obrigatoriedade do uso das normas

    As mudanças ocorridas na legislação brasileira ao longo do tempo implicaram na conclusão de que, além da obrigatoriedade do uso dos regulamentos técnicos, TAMBÉM EXISTE a obrigatoriedade do uso das

    normas técnicas, tanto nas relações de consumo, regidas pelo

    Código

    de Defesa do Consumidor, comentadas nos posts [41] e [42] como nas relações civis regidas pelo novo Código Civil, comentadas no post [43].

    Essa obrigatoriedade prevista nos dois Códigos acima citados também está consolidada nas doutrinas mais recentes publicadas, embora ainda existam alguns doutrinadores mal informados (detalhes no item 6.2 do post [42]), que continuam defendendo ponto de vista contrário, conforme apresentado no resumo esquemático abaixo e detalhado em seguida.

    As mudanças ocorridas na legislação brasileira ao longo do tempo implicaram na conclusão de que, além

    3.1 - Da obrigatoriedade do uso das normas nas obras públicas federais, desde 1962

    A Lei Federal n.º 4.150/1962 “institui o regime obrigatório de preparo e observância das normas técnica nos contratos de obras e compras do serviço público de execução direta, concedida, autárquica ou de economia mista, através da Associação Brasileira de Normas Técnicas e dá outras providências”. Ela vigora desde 1962, sendo, portanto, precursora do Sistema Sinmetro, e não consta como revogada até abril de 2015, e diz textualmente:

    “Art. 1º Nos serviços públicos concedidos pelo Governo Federal, assim como nos de natureza estadual e municipal por ele subvencionados ou executados em regime de convênio, nas obras e serviços executados, dirigidos ou fiscalizados por quaisquer repartições federais ou órgãos paraestatais, em todas as compras de materiais por eles feitas, bem

    como nos respectivos editais de concorrência, contratos ajustes e pedidos de preços será obrigatória a exigência e aplicação dos requisitos mínimos de qualidade, utilidade, resistência e segurança usualmente chamados "normas técnicas" e elaboradas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, nesta lei mencionada pela sua sigla "ABNT".

    “Art. 5º A “ABNT” é considerada como órgão de utilidade pública e, enquanto não visar lucros, aplicando integralmente na manutenção de sua administração, instalações, laboratórios e serviços, as rendas que auferir, em seu favor se manterá, no Orçamento Geral da República, dotação não inferior a dez milhões de cruzeiros (Cr$10.000.000,00).”

    Este artigo 5º deixou de ser aplicado na prática pelo Governo, criando muitas dificuldades para a sobrevivência da ABNT, que, com base nisso, tenta justificar os elevados preços de venda das normas técnicas, surgindo a dúvida: “As normas da ABNT são caras porque vendem pouco, ou vendem pouco porque são caras?”

    Portanto, esta Lei explicita que nas obras públicas federais é obrigatório o uso das normas técnicas, cujos parâmetros, segundo o texto do art. 1º acima sublinhado corrrespondem a requisitos mínimos de qualidade, utilidade, resistência e segurança, fato que rotineiramente é desconhecido tanto pelos contratantes como pelos contratados. Em outras palavras: é permitida a produção de produtos ou serviços com qualidade melhor que o disposto nas normas técnicas, mas fica proibida a produção abaixo desses requisitos mínimos.

    A atual norma ABNT NBR15575-1 (da série de seis, conhecidas como “normas de desempenho”) está em consonância com essa lei, criando para a construção civil três níveis de qualidade: M (mínimo), I (intermediário) e S (superior), e deixando claro que quando esse nível não for explicitado, será considerado obrigatoriamente como sendo de nível mínimo. Fica a critério do incorporador ou vendedor do imóvel classificá-lo em nível mais elevado, como fator de marketing, mas arcando com as consequências, entre as quais, o aumento dos prazos de garantia para os sistemas utilizados.

    3.2 - Do uso obrigatório da norma do CUB

    A norma “ABNT NBR12721 – Avaliação de custos unitários de construção para incorporação imobiliária e outras disposições para condomínios edilícios - Procedimento”, anteriormente NBR-140 da ABNT, foi criada com base no art. 53 da Lei n. 4591/1964, conhecida como Lei dos Condomínios e Incorporações, em cujo art. 53 consta a celebração de contratos do extinto BNH com a ABNT para que esta preparasse:

    I - critérios e normas para cálculo de custos unitários de construção, para uso dos sindicatos, na forma do art. 54;

    Il - critérios e normas para execução de orçamentos de custo de construção, para fins de disposto no artigo 59;

    III - critérios e normas para a avaliação de custo global de obra, para fins da alínea h, do art. 32;

    IV - modelo de memorial descritivo dos acabamentos de edificação, para fins do disposto no art. 32;

    V - critério para entrosamento entre o cronograma das obras e o pagamento das prestações, que poderá ser introduzido nos contratos de incorporação inclusive para o efeito de aplicação do disposto no § 2º do art. 48.

    § 1º O número de tipos padronizados deverá ser reduzido e na fixação se atenderá primordialmente:

    a) o número de pavimentos e a existência de pavimentos especiais (subsolo, pilotis etc);

    b) o padrão da construção (baixo, normal, alto), tendo em conta as condições de acabamento, a qualidade dos materiais empregados, os equipamentos, o número de elevadores e as inovações de conforto;

    c) as áreas de construção.

    Como resultado desse contrato com a A.B.N.T. surgiu no final de 1965 a norma NB-140 da ABNT, atual ABNT NBR12721:2006, que durante muitos anos foi a única norma técnica específica de uso compulsório na

    construção civil, por ter nascido para atender ao disposto em uma lei, no caso a 4.591.

    Assim sendo, o uso da ABNT NBR12721:2006 é obrigatório porque resultou de disposição citada em uma lei, no caso a Lei 4591 que regulamenta as incorporações, que é de 1965, e que em todas as suas várias edições manteve o conceito de “área privativa das unidades autônomas”, esclarecendo que nelas estão incluídas as áreas ocupadas pelas paredes internas e externas.

    Lamentavelmente alguns profissionais mal informados ainda confunde essas áreas privativas com as “áreas úteis” definidas na ABNT NBR14653-2, e mais conhecidas como “áreas de vassoura”, que excluem das áreas privativas as citadas áreas ocupadas pelas paredes.

    3.3 - Da obrigatoriedade do uso das normas na Lei de Licitações

    A Lei Nº 8.666/1993 “regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal, institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências” e diz em seu art. 6º:

    “Art. 6º Para os fins desta Lei, considera-se:

    IX - Projeto Básico - conjunto de elementos necessários e suficientes, com nível de precisão adequado, para caracterizar a obra ou serviço, ou complexo de obras ou serviços objeto da licitação, elaborado com base nas indicações dos estudos técnicos preliminares, que assegurem a viabilidade técnica e o adequado tratamento do impacto ambiental do empreendimento, e que possibilite a avaliação do custo da obra e a definição dos métodos e do prazo de execução, devendo conter os seguintes elementos: ...

    X - Projeto Executivo - o conjunto dos elementos necessários e suficientes à execução completa da obra, de acordo com as normas pertinentes da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT;”

    A definição de projeto básico dessa lei é muito genérica, e é uma das suas principais falhas, por permitir diversas interpretações.

    Em 1991 o atual Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), que então acolhia também os arquitetos, publicou sua Resolução nº 361, tentando esclarecer “a conceituação de Projeto Básico em Consultoria de Engenharia, Arquitetura e Agronomia.” Essa resolução melhorou apenas alguns aspectos dessa definição genérica e imprecisa, que, apenas para exemplificar, diz:

    As principais características de um Projeto Básico são:

    • a) desenvolvimento da alternativa escolhida como sendo viável, técnica,

    econômica e ambientalmente, e que atenda aos critérios de conveniência de seu proprietário e da sociedade;

    • b) fornecer uma visão global da obra e identificar seus elementos

    constituintes de forma precisa;

    • c) especificar o desempenho esperado da obra;

    • d) adotar soluções técnicas, quer para conjunto, quer para suas partes,

    devendo ser suportadas por memórias de cálculo e de acordo com critérios de projeto pré-estabelecidos de modo a evitar e/ou minimizar reformulações e/ou ajustes acentuados, durante sua fase de execução;

    • e) identificar e especificar, sem omissões, os tipos de serviços a executar,

    os materiais e equipamentos a incorporar à obra;

    f) definir as quantidades e os custos de serviços e fornecimentos com precisão compatível com o tipo e porte da obra, de tal forma a ensejar a determinação do custo global da obra com precisão de mais ou menos 15% (quinze por cento);

    • g) fornecer subsídios suficientes para a montagem do plano de gestão

    da obra;

    • h) considerar, para uma boa execução, métodos construtivos

    compatíveis e adequados ao porte da obra;

    i) detalhar os programas ambientais, compativelmente com o porte da

    obra, de modo a assegurar sua implantação de forma harmônica com os

    interesses regionais.

    Art. 4º - O responsável técnico pelo órgão ou empresa pública ou

    privada, contratante da obra ou serviço, definirá, obedecendo às

    conceituações contidas nesta Resolução, os tipos de Projeto Básico que

    estão presentes em cada empreendimento objeto de licitação ou

    contratação.

    § 1º - O nível de detalhamento dos elementos construtivos de cada tipo

    de Projeto Básico, tais como desenhos, memórias descritivas, normas de

    medições e pagamento, cronograma físico, financeiro, planilhas de

    quantidades e orçamentos, plano gerencial e, quando cabível,

    especificações técnicas de equipamentos a serem incorporados à obra,

    devem ser tais que informem e descrevam com clareza, precisão

    e concisão o conjunto da obra e cada uma de suas partes. (

    ...

    )”

    Já a ABNT NBR 13531:1996 – “Elaboração de Projetos de Edificações –

    Atividades Técnicas” exagera na sua definição de projeto de execução:

    “2.4.8 PROJETO PARA EXECUÇÃO (PE)

    Etapa destinada à concepção e à representação final das informações

    técnicas da edificação e de seus elementos, instalações e

    componentes, completas, definitivas, necessárias e suficientes à

    licitação (contratação e à execução dos serviços de obra

    correspondentes.

    Arrisco afirmar que só o “Grande Arquiteto do Universo” conseguiria

    atender a todas essas exigências, pois não poderia faltar nenhuma

    minúcia no detalhamento desses projetos, evidenciando que essa

    definição ainda precisa ser aperfeiçoada.

    3.4 - Do uso obrigatório das normas de acessibilidade

    Critérios de acessibilidade a edifícios podem ser especificados nos

    âmbitos municipal, estadual ou federal, além de constarem atualmente

    em 21 normas da ABNT.

    Por exemplo, no âmbito federal, a “Lei 10098/2000 - estabelece normas

    gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas

    portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras

    providências”. Portanto as normas de acessibilidade nelas citadas ou

    delas resultantes são de uso compulsório, a começar pela norma-mãe

    “ABNT NBR 9050 - Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e

    equipamentos urbanos”. Essas normas de acessibilidade são tão

    importantes que, como resultado de uma ação pública movida pelo

    Ministério Público do Paraná a ABNT celebrou um acordo,

    disponibilizando gratuitamente todas as 21 normas desse tema, que

    podem ser baixadas neste endereço , mantido pela Secretaria de Direitos

    Humanos da Presidência da República.

    3.5 – Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas citadas

    nos códigos

    Conforme consta no Dicionário de Tecnologia Jurídica de Pedro Nunes,

    12ª. edição, “CÓDIGO – Corpo orgânico de disposições legais

    articuladas e sistematicamente dispostas que regem cada ramo especial

    de direito”.

    Em poucas palavras, “Código” nada mais é do que um conjunto de leis, e

    se as leis são de uso compulsório, conforme art. 5º, inciso II da

    Constituição Federal, o disposto em Códigos também é de uso

    compulsório.

    Por exemplo, o Código de Edificações da cidade de São Paulo, muito

    reproduzido em códigos de outras cidades, apresenta uma longa lista de

    normas da ABNT., deixando claro que o desatendimento ao que nelas

    consta corresponde à infração ao Código de Edificações.

    3.6 – Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas na

    legislação ético-profissional

    Para os engenheiros vinculados ao CONFEA a obrigatoriedade do uso das

    normas técnicas decorre da aplicação dos seguintes itens previstos no seu

    Código de Ética (CONFEA (Resolução 1002/2002):

    “Art. 9º. No exercício da profissão são deveres do profissional(

    ...

    )

    IIIf) alertar sobre os riscos e responsabilidades relativos às prescrições

    técnicas e às conseqüências presumíveis de sua inobservância;

    IIIg) adequar sua forma de expressão técnica às necessidades do cliente

    e às normas técnicas aplicáveis;”

    Já para os arquitetos e urbanistas vinculados ao Conselho de Arquitetura

    e Urbanismo (CAU) a citada obrigatoriedade consta da própria lei que cria

    o CAU e regulamenta o exercício da profissão (Lei nº 12.378/ 2010):

    “Art. 18. Constituem infrações disciplinares, além de outras definidas

    pelo

    Código de Ética e Disciplina (

    ...

    )

    IX - deixar de observar as normas legais e técnicas pertinentes na

    execução de atividades de arquitetura e urbanismo".

    Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas - Parte 2/4 - nas relações de consumo

    Paulo Grandiski

    Fonte: http://blogs.pini.com.br/posts/normas-tecnicas-pericias/[41]-

    da-obrigatoriedade-do-uso-das-normas-tecnicas-parte-347794-1.aspx

    IIIf) alertar sobre os riscos e responsabilidades relativos às prescrições técnicas e às conseqüências presumíveis de

    4 – Das relações de consumo

    No Brasil as relações de consumo são regulamentadas pela Lei

    7080/1990, mais conhecida como Código de Defesa do Consumidor

    (CDC), que entrou em vigor em 11/3/1991, e que assim define consumidor

    e fornecedor:

    "Art. 2° do CDC ; Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que

    adquire ou utiliza produto ou serviço, como destinatário final"

    § único: Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que

    indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.

    São considerados como consumidores tanto os compradores individuais

    (pessoas físicas) como todos os tipos de empresas, sejam privadas ou

    públicas, inclusive autarquias, administrações públicas (Prefeituras,

    Governos Estaduais e União), desde que comprem e utilizem o bem ou o

    serviço para uso próprio, sem visar sua comercialização com terceiros ou

    sua introdução em outro bem produzido.

    Art. 3. do CDC: Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou

    privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados,

    que desenvolvem atividades de produção, montagem, criação,

    construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou

    comercialização de produtos ou prestações de serviços.

    §1. - Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.

    §2. - Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo,

    mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira,

    de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter

    trabalhista.

    As relações de consumo, conforme o CDC, são as relações existentes entre

    um consumidor final e o fornecedor nas compras e vendas de um produto

    ou nas utilizações ou prestações de serviços.

    Até a entrada em vigor do CDC, que ocorreu em 11 de março de 1991,

    consumidor era a pessoa que “consumia” (usava) um produto por algum

    tempo ou até o seu término, como ocorre no consumo de alimentos. Os

    bens duráveis, exatamente por serem duráveis, não eram considerados

    como consumíveis. Produto tinha conceito genérico de algo produzido

    pela agricultura ou pela indústria.

    Após a entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor esses

    conceitos foram muito ampliados:

    • - fornecedor deixa de ser apenas o comerciante que tinha relações diretas

    com o consumidor, para incluir os fabricantes, importadores, etc ..

    • - com a inclusão dos bens duráveis no conceito genérico de “produto”;

    • - os serviços foram incluídos como “consumíveis”;

    • - no conceito de “consumidor final” conforme art. 17 do CDC foram

    incluídos terceiros não envolvidos diretamente na relação de consumo,

    como, por exemplo, pessoa que passando pela calçada em frente a uma

    obra em construção que é atingido por material dela caído.

    No caso específico da compra e venda de imóveis é considerado como

    consumidor final aquele comprador que comprou o imóvel para nele

    morar. Quando a relação entre fornecedor e comprador não for de

    consumo, como, por exemplo, as existentes entre um incorporador e um

    capitalista, que comprou apartamentos ou lojas para revender ou alugar,

    aplicam-se a elas as regras do Código Civil em vigor (CCV) ou de outra lei

    mais específica a respeito, como detalhado no post [40].

    como consumíveis. Produto tinha conceito genérico de algo produzido pela agricultura ou pela indústria. Após ag or (CCV) ou de outra lei mais específica a respeito, como detalhado no post [40] . Na área da construção civil são consideradas como relações de consumo: - as que ocorrem entre o incorporador e o comprador de unidade autônoma onde ele pretende morar (caso das obras ainda a serem iniciadas ou em andamento) ou já mora (“consome”); - as que ocorrem entre o incorporador e o segundo comprador de unidade autônoma, que comprou do primeiro comprador que anteriormente " id="pdf-obj-17-44" src="pdf-obj-17-44.jpg">

    Na área da construção civil são consideradas como relações de consumo:

    • - as que ocorrem entre o incorporador e o comprador de unidade

    autônoma onde ele pretende morar (caso das obras ainda a serem

    iniciadas ou em andamento) ou já mora (“consome”);

    • - as que ocorrem entre o incorporador e o segundo comprador de unidade

    autônoma, que comprou do primeiro comprador que anteriormente

    morou no imóvel. Neste caso o segundo comprador se sub-roga nos

    direitos do primeiro, mas contando os prazos de garantia a partir da data

    da entrega do imóvel ao primeiro comprador.

    • - as que ocorrem entre o incorporador e o condomínio, com relação às

    suas áreas comuns, sendo neste caso o condomínio representado pela

    Comissão de Representantes (durante as obras) ou pelo Síndico (após a

    sua primeira eleição, após a entrega do prédio);

    Doutrinadores e a jurisprudência esclareceram que o CDC não se

    aplica , por exemplo:

    • - na compra e venda de glebas e terrenos, nas quais se aplicam as regras

    do Decreto-lei nº 58, de 10 de dezembro de 1937 e legislação posterior;

    • - nas vendas de unidades de incorporações imobiliárias, onde são

    aplicadas as regras da Lei 4591, de 16 de dezembro de 1964, em particular

    artigos 32 e seguintes, e legislação posterior;

    • - nas relações entre uma empresa incorporadora e uma empresa

    construtora, nas quais aplicam-se as regras do Código Civil em vigor;

    • - nas relações condomínio-condômino, onde agora são aplicadas as regras

    do Capítulo do Condomínio Edilício (art. 1331 e seguintes do Código

    Civil), que revogaram tacitamente a maioria dos artigos do Capitulo I da

    Lei 4591/1964;

    -nas locações, onde se aplicam as disposições da Lei do Inquilinato (Lei

    8245:1991 e alterações posteriores);

    • - na prestação de serviços por advogados.

    morou no imóvel. Neste caso o segundo comprador se sub-roga nos direitos do primeiro, mas contando

    4.1 - O que é uma lei de ordem pública

    Na área do direito a expressão “de ordem pública” tem um significado

    especial, diferente do que os leigos poderiam interpretar, como, por

    exemplo, como se fosse uma lei à qual foi dada intensa divulgação em

    público. Efetivamente:

    LEI DE ORDEM PÚBLICA : É toda lei imperativa ou proibitiva, que

    organiza, disciplina e garante as condições existenciais da sociedade e o

    seu funcionamento, que defende o interesse de todos, e não pode ser

    alterada pela vontade ou por convenções dos particulares; que assegura

    a ordem coletiva e os bons costumes, o respeito às leis e aos princípios

    institucionais da nação.” [DICIONÁRIO DE TECNOLOGIA JURÍDICA,

    de Pedro Nunes, 12. Edição]

    Como corolário dessa definição, percebe-se que do ponto de vista

    jurídico:

    Na área do direito a expressão “de ordem pública” tem um significado especial, diferente do que

    4.2 – O CDC é uma lei de ordem pública, portanto cogente

    O Código de Defesa do Consumidor (CDC) acompanhou a evolução do

    Direito no sentido de limitar a autonomia da vontade dos contratantes,

    impondo normas de ordem pública, conforme previsto expressamente em

    seu art. 1°:

    "O presente Código estabelece normas de proteção e defesa do

    consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos dos

    arts. 5º, inciso XXXII, 170 inciso V, da Constituição Federal e art. 48 de

    suas Disposições Transitórias”.

    A defesa do consumidor é simultaneamente um princípio constitucional e

    de ordem pública e, portanto, as regras impostas pelo CDC às relações de

    consumo, são irrenunciáveis, cogentes e que transcendem aos interesses

    particulares.

    Essas diretrizes envolvendo o conceito de “lei de ordem pública” são tão

    importantes que o autor costuma recomendar aos seus alunos em sala de

    aula que repitam as três linhas desta frase em voz alta e em uníssono,

    como se fossem componentes de um coral (técnica de Lozonov para

    facilitar a memorização):

    Essas diretrizes envolvendo o conceito de “lei de ordem pública” são tão importantes que o autor

    É oportuno distinguir aqui ato anulável de ato nulo. O ato anulável pode

    ser retificado e, portanto, surtir posteriormente seus efeitos. Já o ato nulo

    não sobrevive, pois já é gerado com vício fatal, ficando valendo o estado

    primitivo da situação, como se o ato nulo não tivesse sido praticado.

    Exemplificando, é como se fosse um bebê que não foi gerado – não houve

    o encontro do espermatozoide com o óvulo - (ato nulo), fato que é

    completamente diferente para o bebê que foi gerado, nasceu, viveu

    durante um certo tempo – “valeu” nesse período - e depois morreu (a

    vida foi anulada posteriormente).

    Dessa interpretação jurídica podem ser tiradas duas importantes

    conclusões:

    a) pelo fato de o CDC se autodeclarar como “lei de ordem pública”,

    portanto imperativa, todas as suas disposições devem ser consideradas

    como cogentes, ou seja, de uso obrigatório: paira acima do CDC apenas a

    CONSTITUIÇÃO FEDERAL, ou seja, exceto se alguma disposição sua

    fosse considerada como inconstitucional, tudo o que nela constar é de uso

    cogente.

    b) sendo uma lei de ordem pública, suas disposições não podem ser

    alteradas contratualmente, por vontade dos contratantes, sendo

    consideradas nulas de pleno direito as cláusulas contratuais que a

    contrariem. ATENÇÃO: São apenas as cláusulas que contrariem o CDC

    que são consideradas nulas (como se nunca tivessem existido),

    permanecendo válidas todas as demais cláusulas contratadas livremente

    entre as partes.

    Apenas para exemplificar: o CDC estabelece em seu artigo 26:

    Art. 26 do CDC: “O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil

    constatação caduca em ...

    II – 90 (noventa) dias, tratando-se do fornecimento de serviço ede

    produtos duráveis.

    § 1º Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega

    efetiva do produto ou término da execução dos serviços.

    Assim sendo, NAS RELAÇÕES DE CONSUMO, são nulas as

    cláusulas contratuais que constam em muitos Manuais do

    Proprietário, indicando que a garantia da obra quanto a vícios

    aparentes caduca no ato da entrega das chaves. Na verdade, até

    90 dias contados da entrega das chaves, como consta do CDC, o

    consumidor tem o direito de reclamar dos vícios aparentes,

    mesmo os de fácil constatação, e mesmo que tenha assinado

    termo de recebimento da unidade em que declara que

    examinou minuciosamente a unidade qe que nada encontrou

    de irregular”.

    Também são nulas as cláusulas contratuais que estabelecem que a data

    inicial da contagem dos prazos corresponde à data do auto de conclusão

    (“habite-se”), conforme afirmam respeitados doutrinadores,

    interpretando literalmente o final do parágrafo 1º do art. 26 do CDC, que

    se refere ao “término da execução dos serviços” como referência ao

    “habite-se”. Essa interpretação, salvo melhor juízo, é equivocada, pois, se

    fosse válida, bastaria ao fornecedor retardar a entrega das chaves em 90

    dias após o “habite-se” para impedir que o consumidor pudesse reclamar

    dos vícios aparentes, fato totalmente nulo, por contrariar uma lei de

    ordem pública, como se declara o próprio CDC.

    ATENÇÃO: Contrariando a afirmação acima, o ANEXO D da NBR15575-1

    diz em seu item D.3.2.1 que “A contagem dos prazos de garantia indicados

    na Tabela D.1 inicia-se a partir da expedição do “Auto de Conclusão,

    denominado “Habite-se”. Essa afirmação pode ser interpretada da

    seguinte forma:

    • - os prazos estabelecidos nessa Tabela D.1 são prazos sugeridos pela

    norma, mas não são prazos normativos cogentes, pois constam de um

    ANEXO INFORMATIVO da norma, e conforme a DIRETIVA ABNT, Parte

    2 (que corresponde à norma brasileira de fazer normas) apenas os anexos

    normativos fazem parte da norma; os anexos informativos contém

    informações cujo atendimento não é compulsório.

    • - uma simples norma técnica não pode revogar o disposto numa lei de

    ordem pública, como é o Código de Defesa do

    Consumidor. Portanto a contagem de prazos a partir do “habite-se” não é

    defensável para curtos prazos de garantia;

    • - não obstante, a contagem de prazo a partir do “habite-se” é defensável

    para itens com prazos de garantia mais longos, que, indepententemente

    do uso do bem, começam seu período de lenta deterioração até mesmo

    antes da entrega das chaves, tais como os que ocorrem com as estruturas

    de concreto, pinturas e revestimentos externos, etc.

    5 - Da obrigatoriedade do uso das normas impostas pelo Código

    de Defesa do Consumidor

    O CDC estabelece em seu art. 39 a obrigatoriedade do uso das normas,

    nos seguintes termos:

    "Art.39 do CDC: É vedado ao fornecedor de produtos ou

    serviços, dentre outras práticas abusivas:

    VIII - colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou

    serviço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos

    oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem,

    pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra

    entidade credenciada pelo Conselho Nacional de Metrologia,

    Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro).

    5.1 - Da hierarquia entre regulamentos e normas nas relações

    de consumo

    Observar que o inciso VIII do art. 39 do CDC cria uma sequência

    hierárquica de normas nas relações de consumo, que deve ser

    interpretada da seguinte forma:

    • a) em princípio, aplicam-se as normas expedidas pelos órgãos federais

    competentes, que, no caso brasileiro, equivalem aos regulamentos

    técnicosemitidos por órgãos ou CONSELHOS criados por força de Lei

    Federal específica. Por exemplo, na área da construção civil podem ser

    citados:

    • - CONMETRO – Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e

    Qualidade Industrial, que publica a maior parte dos regulamentos

    técnicos aplicáveis à construção civil através do INMETRO (ver item 6);

    • - CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, que publica

    regulamentos técnicos sobre resíduos da indústria de construção civil;

    • - ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil, que publica regulamentos

    técnicos sobre heliportos, helipontos, pistas de pouso, etc.;

    • - ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que publica

    regulamentos técnicos sobre construção de hospitais, condições de

    instalação e manutenção de aparelhos e sistemas de ar condicionado, etc.

    • b) não havendo regulamento técnico específico, devem ser aplicadas as

    normas técnicas da ABNT, que foi definida oficialmente pelo INMETRO

    como o FÓRUM BRASILEIRO DE NORMATIZAÇÃO;

    • c) não podendo atender aos dois itens anteriores, pela inexistência de

    regulamentos técnicos federais ou normas da ABNT, ou quando estas

    estiverem desatualizadas, seguir disposições de normas mais recentes de

    organismos internacionais credenciados pelo CONMETRO, tais como as

    normas ISO, IEC, DIN, AFNOR, etc.

    Da obrigatoriedade do uso das normas - Parte 3/4 - nas relações de consumo

    Paulo Grandiski

    Fonte: http://blogs.pini.com.br/posts/normas-tecnicas-pericias/[42]-

    da-obrigatoriedade-do-uso-das-normas-parte-3-350013-1.aspx

    Paulo Grandiski Fonte: http://blogs.pini.com.br/posts/normas-tecnicas-pericias/[42]- da-obrigatoriedade-do-uso-das-normas-parte-3-350013-1.aspx 6 - Do sistema nacional de metrologia (Conmetro e Inmetro) O

    6 - Do sistema nacional de metrologia (Conmetro e Inmetro)

    O Sistema Nacional de Metrologia (Sinmetro), que tem como seu órgão

    normativo o Conselho Nacional de Metrologia (Conmetro) e como órgão

    executivo central o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e

    Qualidade Industrial (Inmetro) foram criados em 11 de dezembro de 1973

    pela Lei nº 5966.

    As respectivas competências foram alteradas ao longo do tempo, sendo

    regidas atualmente pela lei 9933, de 20 de dezembro de 1999, com

    alterações introduzidas pela Lei nº 12.545/2011.

    Entre as alterações ocorridas na legislação acima citada, é importante

    destacar que no texto original do art. 1º da Lei 5966 que criou o Conmetro

    ele seria o órgão encarregado de formular e executar, entre outros itens, a

    política nacional de normalização industrial tendo, entre suas finalidades,

    a de “estabelecer normas referentes a materiais e produtos industriais

    (art. 3º d).

    Em outras palavras, entre as várias funções originais que caberiam ao

    Conmetro desempenhar, estava também a de criação de normas

    referentes a produtos e materiais industriais, conforme seu art. 3º d.

    Em consequência disso, caberia ao Inmetro, como seu órgão executivo, a

    elaboração dos respectivos Regulamentos Técnicos, além da criação

    de normas técnicas na sua área de competência.

    Depois de o Conmetro ter designado a ABNT como Foro Brasileiro de

    Normalização em 1992 (veja item 6.2 adiante), a lei 9933, em 1999,

    introduziu uma “inversão” de funções entre eles, estabelecendo no § 2º do

    seu art. 2º que “Os regulamentos técnicos deverão considerar, quando

    couber, o conteúdo das normas técnicas adotadas pela Associação

    Brasileira de Normas Técnicas”. Esta alteração cria as seguintes dúvidas,

    ainda não esclarecidas: Os regulamentos técnicos estariam obrigados

    compulsoriamente a obedecer às normas técnicas da ABNT, quando

    forem pertinentes ao tema tratado (produtos ou serviços)? Ou apenas

    deveriam utilizá-los como fonte de referência (“considerá-los”), mas

    podendo alterá-los, tendo em vista a hierarquia desses órgãos?

    Fica assim indicada a relevância do disposto na Lei 9933/1999, da qual

    reproduzo abaixo seus primeiros cinco artigos, estando indicadas como

    (NR) as novas redações nela introduzidas em 2011 pela Lei 12545.

    LEI 9933/1999

    - Art. 1º Todos os bens comercializados no Brasil, insumos,

    produtos finais e serviços, sujeitos a regulamentação técnica,

    devem estar em conformidade com os regulamentos técnicos

    pertinentes em vigor.

    Art. 2º O Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e

    Qualidade Industrial - Conmetro, órgão colegiado da estrutura do

    Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, criado

    pela Lei nº 5.966, de 11 de dezembro de 1973, é competente para

    expedir atos normativos e regulamentos técnicos, nos campos

    da Metrologia e da Avaliação da Conformidade de produtos,

    de processos e de serviços.

    § 1º Os regulamentos técnicos deverão dispor sobre características

    técnicas de insumos, produtos finais e serviços que não constituam

    objeto da competência de outros órgãos e de outras entidades da

    Administração Pública Federal, no que se refere a aspectos relacionados

    com segurança, prevenção de práticas enganosas de comércio, proteção

    da vida e saúde humana, animal e vegetal, e com o meio ambiente.

    § 2º Os regulamentos técnicos deverão considerar, quando couber, o

    conteúdo das normas técnicas adotadas pela Associação Brasileira de

    Normas Técnicas.

    Art. 3º O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia

    (Inmetro), autarquia vinculada ao Ministério do Desenvolvimento,

    Indústria e Comércio Exterior, criado pela Lei n. 5.966, de 1973, é

    competente para: (NR).

    I - elaborar e expedir regulamentos técnicos nas áreas que lhe forem

    determinadas pelo Conmetro;

    II - elaborar e expedir regulamentos técnicos que disponham sobre o

    controle metrológico legal, abrangendo instrumentos de medição; (NR).

    III - exercer, com exclusividade, o poder de polícia administrativa na

    área de Metrologia Legal;

    IV - exercer poder de polícia administrativa, expedindo regulamentos

    técnicos nas áreas de avaliação da conformidade de produtos, insumos e

    serviços, desde que não constituam objeto da competência de outros

    órgãos ou entidades da administração pública federal, abrangendo os

    seguintes aspectos: (NR).

    • a) segurança; (NR)

    • b) proteção da vida e da saúde humana, animal e vegetal; (NR).

    • c) proteção do meio ambiente; e (NR).

    • d) prevenção de práticas enganosas de comércio; (NR).

    V - executar, coordenar e supervisionar as atividades de metrologia

    legal e de avaliação da conformidade compulsória por ele

    regulamentadas ou exercidas por competência que lhe seja delegada;

    (NR)

    VI - atuar como órgão acreditador oficial de organismos de avaliação

    da conformidade; (NR)

    VII - registrar objetos sujeitos a avaliação da conformidade

    compulsória, no âmbito de sua competência; (NR)

    VIII - planejar e executar atividades de pesquisa, ensino e

    desenvolvimento científico e tecnológico em metrologia, avaliação da

    conformidade e áreas afins; (NR).

    IX - prestar serviços de transferência tecnológica e de cooperação

    técnica voltados à inovação e à pesquisa científica e tecnológica em

    metrologia, avaliação da conformidade e áreas afins; (NR)

    X - prestar serviços visando ao fortalecimento técnico e à promoção da

    inovação nas empresas nacionais; (NR)

    XI - produzir e alienar materiais de referência, padrões metrológicos e

    outros produtos relacionados; (NR)

    XII - realizar contribuições a entidades estrangeiras congêneres, cujos

    interesses estejam amparados em acordos firmados entre si ou entre os

    respectivos países, como uma única ação; (NR)

    XIII - designar entidades públicas ou privadas para a execução de

    atividades de caráter técnico nas áreas de metrologia legal e de

    avaliação da conformidade, no âmbito de sua competência

    regulamentadora; (NR)

    XIV - atuar como órgão oficial de monitoramento da conformidade aos

    princípios das boas práticas de laboratório; (NR)

    XV - conceder bolsas de pesquisa científica e tecnológica para o

    desenvolvimento de tecnologia, de produto ou de processo, de caráter

    contínuo, diretamente ou por intermédio de parceria com instituições

    públicas ou privadas; (NR)

    XVI - estabelecer parcerias com entidades de ensino para a formação e

    especialização profissional nas áreas de sua atuação, inclusive para

    programas de residência técnica; (NR)

    XVII - anuir no processo de importação de produtos por ele

    regulamentados que estejam sujeitos a regime de licenciamento não

    automático ou a outras medidas de controle administrativo prévio ao

    despacho para consumo; e (NR)

    XVIII - representar o País em foros regionais, nacionais e internacionais

    sobre avaliação da conformidade. (NR)

    § 1º Para o exercício da competência prevista no inciso V do caput, o

    Inmetro poderá celebrar, com entidades congêneres dos Estados, do

    Distrito Federal e dos Municípios, convênios, termos de cooperação,

    termos de parceria e outros instrumentos contratuais previstos em lei.

    (NR)

    § 2º As bolsas de que trata o inciso XV do caput poderão ser concedidas

    para estrangeiros que preencham os requisitos legais para a

    permanência no País. (NR)

    Art. 4º O Inmetro poderá delegar a execução de atividades de sua

    competência.

    § 1º. As atividades materiais e acessórias da metrologia legal e da

    avaliação da conformidade compulsória, de caráter técnico, que não

    impliquem o exercício de poder de polícia administrativa, poderão ser

    realizadas por terceiros mediante delegação, acreditação,

    credenciamento, designação, contratação ou celebração de convênio,

    termo de cooperação, termo de parceria ou instrumento congênere, sob

    controle, supervisão e/ou registro administrativo pelo Inmetro. (NR)

    § 2º As atividades que abrangem o controle metrológico legal, a

    aprovação de modelos de instrumentos de medição, fiscalização,

    verificação, supervisão, registro administrativo e avaliação da

    conformidade compulsória que impliquem o exercício de poder de

    polícia administrativa somente poderão ser delegadas a órgãos ou

    entidades de direito público. (NR)

    Art. 5º. As pessoas naturais ou jurídicas, públicas ou privadas,

    nacionais ou estrangeiras, que atuem no mercado para prestar

    serviços ou para fabricar, importar, instalar, utilizar, reparar,

    processar, fiscalizar, montar, distribuir, armazenar,

    transportar, acondicionar ou comercializar bens são obrigadas

    ao cumprimento dos deveres instituídos por esta Lei e pelos

    atos normativos expedidos pelo Conmetro e pelo Inmetro,

    inclusive regulamentos técnicos e administrativos. (NR)

    processar, fiscalizar, montar, distribuir, armazenar, transportar, acondicionar ou comercializar bens são obrigadas ao cumprimento dos deveres

    Cumpre informar que o Inmetro está começando a emitir portarias

    envolvendo a certificação obrigatória pelos fabricantes de alguns

    materiais de construção. Estas decisões são muito importantes para os

    construtores, pois, na prática, estes ficam desobrigados da execução de

    ensaios de recebimento desses materiais, bastando comprar de

    fabricantes certificados. Exemplos:

    - Portaria nº 73, de 17 de março de 2010 manteve a certificação

    obrigatória das barras e fios de aço destinados a armaduras para

    estruturas de concreto armado, inclusive para produtos importados, que

    já era exigida desde 2005 pela Portaria Inmetro n.º 210/2005. A Portaria

    003/2011 regulamenta a etiquetagem do Selo de Identificação de

    Conformidade.

    • - Portaria nº 101, de 16 de julho de 2001, que estabelece certificação

    compulsória para fusíveis dos tipos cartucho e rolha;

    • - Portaria nº 127, de 29 de junho de 2005, apresenta critérios

    metrológicos de comercialização e verificação de tamanhos de blocos

    cerâmicos. Exige que os blocos cerâmicos estruturais tenham estampadas

    as letras EST.

    6.1 – Resoluções antigas do Conmetro sobre normas técnicas

    (revogadas posteriormente, em 1992)

    A linha do tempo apresentada a seguir resume as mudanças ocorridas nas

    Resoluções do Conmetro, antes e depois da entrada em vigor do Código

    de Defesa do Consumidor, que são detalhadas nos textos a seguir.

    - Portaria nº 101, de 16 de julho de 2001, que estabelece certificação compulsória para fusíveis

    Em 31 de dezembro de 1975 o Conmetro publicou a sua Resolução nº

    7/1975 que resolvia:

    1) Identificar a Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT como

    órgão integrante do Sistema Nacional de Metrologia, Normalização e

    Qualidade Industrial, no que se refere a normalização;

    2) Autorizar o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e

    Qualidade Industrial - INMETRO a celebrar convênio com a ABNT,

    objetivando estimular as atividades de elaboração de normas

    voluntárias, dentro de diretrizes, critérios e prioridades aprovadas pelo

    CONMETRO;

    3) Autorizar o INMETRO a celebrar convênio com a ABNT, visando o

    seu funcionamento como um “forum” do Sistema, com vistas à

    harmonização do interesse público, das empresas industriais e do

    consumidor, de acordo com diretrizes e critérios aprovados pelo

    CONMETRO;

    Em 29 de abril de 1976 o Conmetro divulgou a Resolução nº 8/1975,

    datada do ano anterior, mas só publicada no Diário Oficial da União de 03

    de junho 1976 que regulamentou quatro tipos de normas técnicas,

    identificadas como NBR1 até NBR4.

    6.2 – Do cancelamento das resoluções antigas do Conmetro

    sobre normas de uso não compulsório

    A Lei 8078, de 11 de setembro de 1990 é conhecida como Código de

    Defesa do Consumidor (CDC), e previa um prazo de carência de seis

    meses para sua entrada em vigor, o que ocorreu em 11 de março de 1991.

    Portanto nesta data entrou em vigor o CDC, que explicitava em seu art.

    39, VIII a compulsoriedade do uso das normas técnicas nas relações de

    consumo, conforme já apresentado no item 4 deste post. Por causa dessa

    publicação, o CONMETRO emitiu a sua Resolução nº 1, de 08 de janeiro

    de 1992, publicada na fl. 490, seção I, do Diário Oficial da União de 14 de

    janeiro de 1992, que considera como norma brasileira toda norma emitida

    pela ABNT, reservando ao Inmetro o direito de regulamentar nos campos

    de saúde e segurança do consumidor e meio ambiente conforme pode ser

    visto a seguir:

    RESOLUÇÃO N. 01 DO CONMETRO, DE 08/01/1992

    O CONSELHO NACIONAL DE METROLOGIA NORMALIZAÇÃO E

    QUALIDADE INDUSTRIAL - CONMETRO, no uso das atribuições que

    lhe confere o art. 3. da Lei n. 5966, de 11 de dezembro de 1973.

    Considerando a nova política industrial brasileira que estimula a

    descentralização das atividades de normalização;

    Considerando a necessidade de agilizar a emissão de normas

    brasileiras;

    Considerando o Programa Federal de Desregulamentação;

    Considerando o Código de Defesa do Consumidor que estabelece como

    prática abusiva a colocação no mercado de qualquer produto ou serviço

    em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais

    competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação

    Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo

    CONMETRO, resolve:

    • 1 - Definir como Norma Brasileira toda e qualquer norma

    elaborada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou

    outra entidade credenciada pelo CONMETRO de acordo com

    diretrizes e critérios determinados por este Conselho;

    • 2 - Atribuir ao INMETRO em articulação com os órgãos

    governamentais, a atividade de supervisão das normas que repercutam

    nas áreas de segurança, saúde e meio ambiente, no sentido de verificar

    se os interesses públicos, das empresas industriais e dos consumidores

    foram harmonizados;

    • 3 - Revogar as Resoluções 03/75 e 04/76 que definem Norma Brasileira;

    • 4 - Revogar a Resolução n. 06/75, que define classes de

    Normas Brasileiras, e os itens 2, 3, 4 e 5 da Resolução n.

    8/75 que estabelecem critérios e diretrizes para classificação das

    Normas Brasileiras.

    • 5 - Revogar a Resolução n. 10/75 que atribui ao INMETRO a tarefa de

    classificar e/ou registrar as normas existentes no país.

    Valendo-se das prerrogativas da sua Resolução nº 1/1992, o Conmetro

    divulgou sua Resolução nº 7 de 24 de agosto de 1992 designando a ABNT

    como Foro Nacional de Normalização, com o seguinte texto:

    RESOLUÇÃO N. 7 DO CONMETRO, DE 24/08/1992

    "

    ...

    Considerando

    a conveniência de descentralizar a atividade de

    normalização na direção dos setores produtivos e, como consequência, a

    necessidade de homogeneizar a atuação e integrar as diversas entidades

    que atuarão na atividade de normalização, resolve:

    1

    - Que o Sistema de Normalização do SINMETRO terá um foro de

    normalização, único.

    • 2 - Designar a Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT como

    o Foro Nacional de Normalização.

    ...

    • 3 -Delegar à Entidade Foro de Normalização - ABNT a execução do

    credenciamento de Organismos de Normalização Setorial - ONS.

    ...

    • 5 - Atribuir ao INMETRO, a tarefa de supervisionar o atendimento, por

    parte dos órgãos integrantes do Sistema de Normalização, aos critérios

    e diretrizes deste Conselho, e também, no âmbito governamental, a

    tarefa de órgão articulador para a edição de Regulamentos Técnicos

    pelos órgãos competentes, principalmente nas áreas de saúde,

    segurança, meio ambiente e proteção ao consumidor.

    • 6 - Centralizar a numeração das Normas Técnicas Brasileiras no Foro

    Nacional de Normalização - ABNT estabelecendo que:

    6.1 - O sistema de numeração a ser adotado é o seqüencial, precedido da

    sigla NBR (NBR - nº seqüencial).

    6.2 - A numeração deve prosseguir a partir do número seguinte ao da

    última Norma Técnica Brasileira registrada pelo INMETRO."

    Por causa do item 6 acima, a antiga numeração de normas da ABNT cai

    em desuso, e portanto a NB-1 da ABNT - PROJETO E EXECUÇÃO DE

    OBRAS DE CONCRETO ARMADO deve ser referida como NBR 6118, a

    NB-502 da ABNT - AVALIAÇÃO DE IMÓVEIS URBANOS, passa a ser a

    NBR 5676, e assim por diante, sendo o “R” representativo de “norma

    registrada no INMETRO”.

    6.3 – Explicando as possíveis causas da divulgação equivocada quanto à não obrigatoriedade do uso das

    6.3 – Explicando as possíveis causas da divulgação equivocada

    quanto à não obrigatoriedade do uso das normas técnicas nas

    relações de consumo

    Apenas para registrar as falhas de divulgação quanto à compulsoriedade

    do uso das normas técnicas, acima citada, informo que:

    A Súmula nº 2, de 19/04/1993, da Secretaria de Direito Econômico do

    Ministério da Justiça, publicada no D.O.U. de 26/04/1993 dizia

    erradamente: “As Normas Técnicas consensuais ou voluntárias são, por

    sua natureza e origem, de cumprimento facultativo”, desconhecendo o

    cancelamento desses tipos de normas em 1992.

    Esse fato foi corrigido pela Nota Conjunta nº 318, de 29/09/2006, do

    Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, da mesma SDE

    dizendo: “as normas técnicas são obrigatórias no âmbito das relações de

    consumo” e declarando sem efeito a citada Súmula nº 2/1993!

    Antigos fatos semelhantes levaram um gaiato desconhecido, no final do

    século XIX a afirmar “No Brasil há dois jeitos de fazer as coisas: o jeito

    certo, e o jeito do Governo”. Essa frase jocosa e genérica pode não ser

    válida, mas que, conforme provado acima, pelo menos até 2006, de

    forma esporádica, ainda era verdadeira!

    A primeira edição do livro CÓDIGO BRASILEIRO DE DEFESA DEO

    CONSUMIDOR COMENTADO PELOS AUTORES DO ANTEPROJETO

    foi publicada em 1990, quando ainda existiam esses quatro tipos de

    normas técnicas, que eram citados na 1ª edição, mas que foram revogados

    em 1992 [vide item 6.2 anterior].

    Esse livro publicado pelos autores do anteprojeto do CDC foi um sucesso

    de vendas, exigindo sucessivas reimpressões, mas sem atualizar a

    revogação em 1992 desses quatro tipos de normas.

    Até a 8ª edição, publicada em 2004, página 360, ainda constava

    equivocadamente o seguinte texto:

    [9.9] OS DIVERSOS TIPOS DE NORMAS BRASILEIRAS – No Brasil há

    basicamente quatro tipos de normas técnicas: NBR1 (normas

    compulsórias, aprovadas pelo CONMETRO, com uso obrigatório em

    todo o território nacional); NBR2 (normas referenciais, também

    aprovadas pelo Conmetro, sendo de uso obrigatório para o Poder

    Público); NBR3 (normas registradas, de caráter voluntário com registro

    efetuado no Inmetro, de conformidade com as diretrizes e critérios

    fixados pelo Conmetro); NBR4 (normas probatórias, registradas no

    Inmetro, ainda em fase experimental, possuindo vigência limitada).

    Esse livro foi muito vendido graças à credibilidade de seus autores, tendo

    seus conceitos reproduzidos por vários outros doutrinadores, que repetem

    até hoje a informação errada da existência de normas não de uso

    compulsório, que não existem desde 1992.

    6.4 – Da legalidade e obrigatoriedade do uso das resoluções do

    Conmetro

    A legalidade do uso das resoluções do Conmetro, na visão do Superior

    Tribunal de Justiça consta do Recurso Especial nº 1.102.578 do STJ (MG

    N.2008/0266102-6), que teve como relatora a Min. Eliana Calmon, e cuja

    ementa diz:

    EMENTA

    ADMINISTRATIVO – AUTO DE INFRAÇÃO – CONMETRO E

    INMETRO– LEIS 5.966/1973 E 9.933/1999 – ATOS NORMATIVOS

    REFERENTES ÀMETROLOGIA – CRITÉRIOS E PROCEDIMENTOS

    PARA APLICAÇÃO DE PENALIDADES – PROTEÇÃO DOS

    CONSUMIDORES – TEORIA DA QUALIDADE.

    1.

    Inaplicável a Súmula 126/STJ, porque o acórdão decidiu a querela

    aplicando as normas infraconstitucionais, reportando-se en passant a

    princípios constitucionais. Somente o fundamento diretamente firmado

    na Constituição pode ensejar recurso extraordinário.

    • 2. Estão revestidas de legalidade as normas expedidas pelo

    CONMETRO e INMETRO, e suas respectivas infrações, com o objetivo

    de regulamentar a qualidade industrial e a conformidade de produtos

    colocados no mercado de consumo, seja porque estão esses órgãos

    dotados da competência legal atribuída pelas Leis 5.966/1973 e

    9.933/1999, seja porque seus atos tratam de interesse público e agregam

    proteção aos consumidores finais.

    Precedentes do STJ.

    • 3. Essa sistemática normativa tem como objetivo maior o respeito à

    dignidade humana e a harmonia dos interesses envolvidos nas relações

    de consumo, dando aplicabilidade a ratio do Código de Defesa do

    Consumidor e efetividade à chamada Teoria da Qualidade.

    • 4. Recurso especial conhecido e provido. Acórdão sujeito às disposições

    previstas no art. 543-C do CPC e na Resolução 8/2008-STJ.

    A obrigatoriedade do cumprimento das normas expedidas pelo

    Conmetro e Inmetro consta nos itens 2 e 3 da Ementa do REsp 1167019 /

    MG julgado pelo STJ em 10/08/2010:

    “2. É pacífico o entendimento do Superior Tribunal de Justiça

    no sentido da obrigatoriedade do cumprimento das normas

    expedidas pelo Conmetro e Inmetro, com o objetivo de

    regulamentar a qualidade industrial e a conformidade de

    produtos colocados no mercado de consumo, seja porque

    estão os respectivos órgãos revestidos da competência legal

    atribuída pelas Leis n. 5.966/1973 e 9.933/1999, seja porque

    seus atos tratam de interesse público e agregam proteção aos

    consumidores finais.

    3. Precedente: REsp 1.102.578/MG, Rel. Min. Eliana Calmon,

    Primeira Seção, DJe 29.10.2009 - submetido à sistemática dos

    recursos repetitivos.

    Esclarecimento: A Lei 5966/1973 instituiu o Sistema Nacional

    de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial e a lei

    9933/1999 “Dispõe sobre as competências do Conmetro e do

    Inmetro, institui a Taxa de Serviços Metrológicos”.

    6.5 – Conclusões quanto às relações de consumo

    O art. 39, inciso VIII do Código de Defesa do Consumidor apresentado no

    item 5 do post [41] explicita a obrigatoriedade jurídica do uso das normas

    técnicas nas relações de consumo, que também são citadas nos seus

    artigos 18. §6º e 20 §2º que respectivamente consideram como

    impróprios para consumo os produtos “em desacordo com as normas

    regulamentadoras de fabricação, distribuição ou apresentação” e “os

    serviços

    ...

    que

    não atendam as normas regulamentares de

    prestabilidade”

    Além disso, o art. 7º do CDC diz que “Os direitos previstos neste Código

    não excluem outros decorrentes

    ...

    da

    legislação interna ordinária,

    regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas

    competentes, bem como dos que derivem dos princípios gerais do

    direito, analogia, costumes e equidade”, fatos que transformam este art.

    7º num grande “guarda-chuva” que abriga todas as leis comuns (incluindo

    o disposto em todos os Códigos) e os usos e costumes locais.

    Finalmente o CDC apresenta no seu art. 54 as possíveis sanções

    administrativas para o fornecedor no caso de desobediência às suas

    disposições cogentes e no art. 62 as possíveis sanções penais, cujas

    reproduções seriam despiciendas neste post.

    Assim sendo, da leitura atenta de todos esses artigos citados do CDC

    resulta a seguinte conclusão:

    Da obrigatoriedade do uso das normas - Parte 4/4 - nas relações regidas pelo Código Civil

    Da obrigatoriedade do uso das normas - Parte 4/4 - nas relações regidas pelo Código Civil brasileiro e conclusões finais

    Paulo Grandiski

    Fonte: http://blogs.pini.com.br/posts/normas-tecnicas-pericias/[43]-

    da-obrigatoriedade-do-uso-das-normas-parte-4-355959-1.aspx

    Da obrigatoriedade do uso das normas - Parte 4/4 - nas relações regidas pelo Código Civil

    7 – Da obrigatoriedade do uso das normas técnicas no Código

    Civil em vigor (CCV)

    O Código Civil em vigor (CCV) corresponde à Lei nº 10406, de 10 de

    janeiro de 2002, que entrou em vigor em 11 de janeiro de 2003.

    Embora tenha entrado em vigor depois do Código de Defesa do

    Consumidor (11 de março de 1991), seu texto-base é mais antigo, e nele

    não constam regras tão explícitas quanto às do art. 39 inciso VIII do CDC

    no que se refere à obrigatoriedade do uso das normas técnicas nas

    edificações; não obstante, elas existem, e podem ser deduzidas por

    interpretação de alguns de seus artigos, a seguir apresentados e

    comentados.

    7.1 Tudo que se pagou presume-se verificado

    O parágrafo único do art. 1241 do antigo Código Civil Brasileiro, de 1916 já

    dizia “Tudo o que se pagou, presume-se verificado” e a doutrina e

    jurisprudência nele baseadas concluíam, por dedução, que o prazo para

    reclamar de vícios aparentes, nas relações civis, prescrevia no ato da

    entrega do imóvel. O art. 614 do atual Código Civil em vigor substituiu o

    citado art. 1241, acrescentando a importante ressalva do seu segundo

    parágrafo, que veio a reforçar a citada dedução:

    Art. 614 do CCV - Se a obra constar de partes distintas, ou for de

    natureza das que se determinam por medida, o empreiteiro terá direito

    a que também se verifique por medida, ou segundo as partes em que se

    dividir, podendo exigir o pagamento na proporção da obra executada.

    Parágrafo primeiro: Tudo o que se pagou presume-se verificado.

    Parágrafo segundo: O que se mediu presume-se verificado se, em trinta

    dias a contar da medição, não forem denunciados os vícios ou defeitos

    pelo dono da obra ou por quem estiver incumbido da sua fiscalização.

    O §2º do art. 614 ressalva um prazo de 30 dias após a medição dos

    serviços para o dono da obra reclamar de vícios ou defeitos não

    constatados pela fiscalização quando da medição. Constatadas essas

    falhas, o dono poderá exigir sua reparação, retendo o valor do serviço

    correspondente ou, a seu exclusivo critério, tolerar a falha, mas com

    abatimento do preço, conforme o disposto no art. 616 do CCV.

    A presunção de verificação dos serviços por parte fiscalização, quando da

    medição, citada no art. 614 é relativa, e não absoluta, não valendo, por

    exemplo, nos casos de pagamento antecipado da prestação de serviços:

    como poderia o proprietário fiscalizar um serviço ainda não executado?

    Além disso, o proprietário pode, mas não tem a obrigação de fiscalizar a

    execução do serviço durante seu andamento, podendo fazer a sua

    verificação apenas no final da obra, através da contratação de

    profissionais especializados em inspeção predial. Enquanto a ABNT não

    publicar norma específica a respeito, os interessados podem utilizar a

    “NORMA PARA PROCEDIMENTOS TÉCNICOS DE ENTREGA E

    RECEBIMENTO DE OBRAS DE CONSTRUÇÃO CIVIL” do IBAPE/SP,

    disponível aqui.

    7.2 CCV: vícios aparentes prescrevem no ato da entrega

    Art. 615 do CCV - Concluída a obra de acordo com o ajuste, ou o costume

    do lugar, o dono é obrigado a recebê-la. Poderá, porém, rejeitá-la, se o

    empreiteiro se afastou das instruções recebidas e dos planos dados, ou

    das regras técnicas em trabalhos de tal natureza.

    Art. 616 do CCV - No caso da segunda parte do artigo antecedente, pode

    quem encomendou a obra, em vez de enjeitá-la, recebê-la com

    abatimento do preço.

    Comentários:

    O art. 616 do CCV abre uma interessante alternativa para resolução

    amigavel de vícios aparentes, constatados na vistoria de recebimento do

    imovel, mediante acerto financeiro estabelecido de comum acordo entre

    as partes.

    Não havendo esse acordo, o comprador pode “rejeitar a obra”, ou seja, se

    recusar a receber o imóvel, se o empreiteiro se afastou das regras técnicas

    (incluidas as constantes em contratos, projetos específicos ou nas normas

    técnicas).

    Com base no disposto no §1º do art. 614 e neste artigo 615 do CCV vários

    doutrinadores concluem que o comprador deve examinar a obra no ato da

    entrega e exigir sua correção, se o empreiteiro desatendeu às

    especificações contratuais, de projetos fornecidos ou às normas técnicas.

    Assim sendo, eles concluem por raciocínio indireto, que, se o comprador

    pode rejeitar a obra por não atendimento ao disposto nas normas

    técnicas, sua utilização é obrigatória nos casos das relações

    civis regidas pelo CCV.

    Assim sendo, o ato da entrega da obra deve ser feito formalmente, por

    escrito, explicitando assim a data de início da contagem dos prazos legais

    de garantia, decadência e prescrição para vícios redibitórios, ocultos, ou

    que afetem a solidez e segurança da obra (ver art. 618 do CCV).

    Porisso o empreiteiro deve manter sob sua guarda o livro conhecido como

    diário da obra, onde devem constar todas as instruções técnicas do

    responsável técnico pela obra e as não técnicas impostas pelo

    proprietário, para que este não possa vir a reclamar delas posteriormente.

    Pela resolução 1024/2009 do CONFEA o diário da obra agora tem o nome

    de “LIVRO DA ORDEM”, que deve ser regulamentado pelos CREAs

    estaduais (no caso de São Paulo, o que foi feito pelo Ato Normativo

    6/2012 do CREA/SP).

    Transcrevo abaixo alguns exemplos de texto dos doutrinadores acima

    citados.

    “Se tais defeitos forem visíveis, a responsabiidade do construtor cessará

    se o comitente receber a obra sem protesto formal (C.C. art. 615). Curso

    de Direito Civil Brasileiro, Maria Helena Diniz, Editora Saraiva, 2002,

    página 281;

    “O ato da entrega é bastante importante, pois entregue a obra e sendo

    esta aceita pelo comitente, a responsabilidade do empreiteiro termina,

    subsistindo quanto aos vícios ocultos e quanto à solidez e segurança da

    obra, nos termos do art. 618 do Código Civil (356). Assim no ato da

    entrega, os riscos com o perecimento ou deterioração da coisa são

    transferidos ao comitente. Comentários ao Codigo Civil – Volume 7 arts.

    565 a 652, Teresa Ancona Lopes, Editora Saraiva, 2003, página 281.

    (356) “Essa opinião é também de Caio Mário da Silva |Pereira,

    Instituições de direito civil; declaração unilateral de vontade;

    responsabilidde civil, 4. Ed., Forense, v.3 p.286, que tem por base

    Espinola e De Page.”

    Outros doutrinadores não têm essa visão determinística, alegando que o

    conceito de vício aparente como vício de fácil constatação, mesmo para

    um leigo, é altamente subjetivo, pois depende, entre outros aspectos, do

    tempo utilizado na vistoria e na atenção dispensada pelo comprador, no

    ato do recebimento. Assim sendo, bastaria ao comprador alegar

    dificuldade na constatação do vício aparente para ele poder ser

    classificado como vício oculto, aplicando-se a eles o prazo prescricional de

    um ano previsto no art. 445 e seu parágrafo único do CCV.

    Atenção: Esse argumento de dificuldade na constatação visual cai por

    terra se o comprador apresentar “laudo de inspeção judicial” assinado por

    profissional legalmente habilitado.

    7.3 CCV também obriga o uso das normas técnicas

    A parte final do art. 615 do Código Civil em vigor esclarece que o

    proprietário da obra poderá rejeitá-la se o empreiteiro:

    • - se afastou das instruções não técnicas dadas pelo proprietário;

    • - dos projetos legais aprovados;

    • - dos projetos técnicos de autoria de outros profissionais fornecidos pelo

    proprietário.

    • - desobedeceu as “regras técnicas em trabalhos de tal natureza”, ou seja,

    dos regulamentos e normas técnicas.

    Do acima exposto resultam dois importantes corolários:

    • - o empreiteiro não pode obedecer às instruções do proprietário-leigo se

    elas constituirem infrações às normas técnicas;

    • - o empreiteiro tem a obrigação de examinar antecipadamente os

    projetos recebidos, denunciando falhas técnicas facilmente constatáveis

    por um profissional especializado, exigindo sua correção antes da

    execução.

    Atenção: Esta última exigência já constava como responsabilidade do

    executante da obra no item 5.6.1a) da ABNT NBR5671:1990 –

    Participação dos Intervenientes em Serviços e Obras de Engenharia e

    Arquitetura, já existindo Comissão de Estudos da ABNT encarregada de

    sua atualização.

    Por ser oportuno, transcrevo a seguir as importantes conclusões do Dr

    José Geraldo Brito Filomeno, que foi secretário da Comissão de Juristas

    autora do anteprojeto do CDC, que conclui pela obrigatoriedade do uso

    das normas técnicas em seu “Manual de direitos do consumidor”, 5 ed.

    São Paulo, Atlas, 2001, p. 75/77:

    A ABNT, como se sabe, propõe-se a elaborar normas técnicas e a

    fomentar seu uso nos campos científico, técnico, industrial, comercial e

    agrícola, promovendo a participação das comunidades técnicas no

    desenvolvimento da normalização no país, representando-o junto às

    entidades internacionais de normalização e organizações similares

    estrangeiras, bem como conceder marcas de conformidade e outros

    certificados referentes à aplicação de normas e a colaborar com o

    Estado no estudo e solução de problemas relacionados com a

    normalização técnica geral. Pelo regime anterior de normalização,

    havia a discriminação quanto à "obrigatoriedade" ou não das normas

    técnicas no sentido retro apregoado, a saber: (a) as NBR 1 e 2 eram de

    caráter compulsório, sendo que a segunda somente assim era

    considerada em face de sua obediência pelo Poder Público, sendo a

    primeira universal; (b) NBR 3, de caráter não obrigatório, mas

    registrada no Inmetro; (c) NBR 4, normas probatórias, registradas no

    Inmetro, ainda em fase experimental. Hoje, entretanto, as normas

    técnicas são praticamente todas compulsórias, exatamente diante do

    mencionado inc. VIII do art. 39 do Código de Defesa do Consumidor, que

    na verdade insiste em chamar a atenção para todos que se dediquem a

    atividades econômicas que exigiam regramento mínimo, sobretudo no

    que concerne à qualidade e segurança dos usuários e consumidores,

    como requisitos mínimos, e que servirão de balizamento no caso de

    eventuais anomalias, defeitos ou vícios constatados em produtos e

    serviços. (grifo não existente no original. Prevalece entre nós o sistema

    híbrido, agora ainda mais reforçado pela delegação quase que total à

    ABNT e entidades por ela acreditadas. Ou seja, ao Estado, como não

    poderia deixar de ser, já que investido da soberania do país, compete

    sempre a fixação das normas gerais e condições da atuação das

    entidades do Sinmetro, enquanto que a essas incumbe a elaboração das

    normas, certamente auditadas e homologadas pelo Inmetro. (

    ...

    ) Por

    isso mesmo é que nos permitimos concluir o seguinte no tocante às

    normas técnicas e sua obrigatoriedade: 1º a qualidade não é apenas a

    adequação às normas técnicas, mas também, e principalmente, a

    satisfação do consumidor; (

    ...

    )

    3º diante do novo sistema nacional de

    metrologia e qualidade industrial, todas as normas técnicas elaboradas

    pela ABNT e demais entidades credenciadas passam a ser obrigatórias,

    até como garantia para os próprios fornecedores; (grifo não existente

    no original) Cláudia Lima Marques, Antônio Herman Benjamin e Bruno

    Miragem se manifestam no mesmo sentido: Se existem normas

    expedidas por órgãos oficiais, ou pela Associação Brasileira de Normas

    Técnicas ou outra entidade credenciada pelo INMETRO, devem elas ser

    cumpridas, mesmo não sendo obrigatórias para o fornecedor específico.

    7.4 CCV: vícios ocultos prescrevem em um ano

    A doutrina remansosa dos Tribunais indica que o recebimento da obra

    não exclui o direito do comprador de pleitear a correção de vícios ocultos,

    e portanto, só detectáveis mais tarde, dentro do prazo legal de prescrição

    de um ano para bens imóveis, conforme disposto no art. 445 do Código

    Civil e seu parágrafo único, ambos em vigor. Para maiores detalhes, veja

    posts [34] e [35] deste blog.

    Não obstante não se pode olvidar a importantíssima ressalva do art. 446

    do CCV, que afirma que não correm os prazos prescricionais desse art.

    445 na constância de cláusula de garantia, mas que “devem ser

    denunciados ao alienante nos 30 dias seguintes ao seu descobrimento,

    sob pena de decadência”.

    Outra alternativa para o comprador é a de provar a existência do vício

    oculto, e que ele tinha origem em falha original do construtor, através de

    vistoria judicial prévia, conhecida como “ad perpetuam rei memoriam”,

    com custo previamente definido em base de pelo menos 3 orçamentos.

    Após isso o comprador pode mandar executar o conserto, arcando com

    seu custo, e depois pedir ressarcimento judicial, dentro do prazo

    prescricional de 3 anos previsto no art. 206, §3º, inciso V do CCV que diz:

    “Prescreve

    ...

    em

    3 anos: V: a pretensão de reparação civil”.

    8 Aspectos jurídicos da obrigatoriedade do uso das normas

    técnicas

    Da longa argumentação apresentada nos posts [40] a [43] deste blog

    pode-se concluir que “as leis estão para os advogados assim como as

    normas técnicas estão para engenheiros e arquitetos”, e que, do ponto de

    vista puramente jurídico, por imposição do Código Civil em vigor (nas

    relações civis) e do Código de Defesa do Consumidor (nas relações de

    consumo) o uso das normas técnicas é obrigatório, aplicando-se o

    conhecido brocardo “DURUM EST, SED ITA LEX SCRIPTA EST” (“A lei é

    dura, mas assim está escrito na lei”), coloquialmente reduzido para

    “DURA LEX, SED LEX”.

    Convém lembrar que tanto o CDC como o CCV possibilitaram para grande

    parte dos casos a aplicação da teoria da responsabilidade objetiva -

    responsabilidade independentemente de culpa - ou seja, se a falha

    construtiva do construtor causar vícios, ou defeitos, ou danos a terceiros,

    ele será responsabilizado independentemente de haver sua culpa. Esta

    situação alterou profundamente a regra geral do Código Civil de 1917, que

    aplicava a teoria da culpa, que constava no antigo art. 159, que dizia

    “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência,

    violar direito ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano”

    9 Aspectos técnicos da obrigatoriedade do uso das normas

    técnicas

    9.1 ABNT DIRETIVA 2:2011

    Em 1999 a ABNT publicou sua Diretiva 3:1999, que correspondia a uma

    simples tradução da Diretiva 3 da International Organization for

    Standardization (ISO), entidade internacional, na qual representa o

    Brasil, que na prática correspondia à “norma brasileira de fazer normas”.

    A Diretiva 3:1999 foi substituída em 3/1/2011 pela nova ABNT DIRETIVA

    2:2011 cujo título é “Regras para a estrutura e redação de documentos

    técnicos ABNT”, atualmente em vigor, cujo item 4 diz:

    4 Princípios gerais

    4.1 Objetivo

    O objetivo de um Documento Técnico ABNT é estabelecer prescrições

    para facilitar o comércio e a comunicação em nível nacional. Para

    atingir este objetivo, o Documento Técnico ABNT deve

    • - ser tão completo quanto necessário, dentro dos limites estabelecidos

    pelo seu escopo;

    • - ser coerente, claro e preciso;

    • - levar em consideração o estado da arte;

    • - servir de base para o desenvolvimento tecnológico;

    • - ser compreensível para o pessoal qualificado que não participou da

    sua elaboração, e

    • - levar em consideração os princípios de redação de documentos (ver

    Anexo A)

    Assim sendo, ao menos na teoria da ABNT, as suas normas deveriam ser

    atualizada periodicamente para representar o estado da arte na data de

    sua publicação, o que infelizmente não ocorre no Brasil, onde a ABNT

    ainda está tentando cancelar, revisar ou atualizar, a cada 5 anos, muitas

    normas antigas, que não atendem às disposições da DIRETIVA 2:2011,

    como as que são comentadas a seguir.

    9.2 Significados das expressões verbais “deve”, “convém que” e

    “pode” na ABNT diretiva 2:2011

    A ABNT DIRETIVA 3:1999 introduziu nas normas brasileiras as

    diferenças conceituais da DIRETIVA 3 ISO para os verbos “deve”,

    “convém que” e “pode”, esclarecendo que o que se segue a “deve” é de

    uso compulsório. A ABNT DIRETIVA 2:2011, atualmente em vigor,

    manteve as três condições básicas desses verbos (exigências,

    recomendações e tolerâncias) conforme tabela abaixo, de minha autoria,

    que apresenta um resumo das tabelas originais da ABNT DIRETIVA

    2:2011.

    Assim sendo, ao menos na teoria da ABNT, as suas normas deveriam ser atualizada periodicamente para

    A tabela acima evidencia que a ABNT DIRETIVA 2:2011 permite

    classificar as desobediências às regras constantes em suas normas em dois

    grupos:

    - grupo das contrariedades graves, que desobedecem à compulsoreidade

    do uso do que se segue numa norma da ABNT à expressão “deve”, e que

    podem provocar patologias construtivas ao longo do tempo;

    - grupo das recomendações toleráveis que se seguem numa norma da

    ABNT às expressões “convém que” ou “pode”, pois correspondem a

    indicações sugeridas pelos membros das Comissões de Estudo para

    atender aos interesses dos compradores, mas reconhecendo “a priori” que

    existem outras soluções técnicas alternativas também tecnicamente

    corretas e aplicáveis.

    Assim sendo, pode-se concluir que:

    - grupo das recomendações toleráveis que se seguem numa norma da ABNT às expressões “convém que”

    10 Casos de exceção quanto à obrigatoriedade do uso das

    normas técnicas

    A exigência do uso compulsório das normas técnicas deve ser examinada

    nas circunstâncias fáticas de cada caso examinado, principalmente nos

    casos das citadas exigências com alternativas toleráveis que se seguem às

    expressões “convém que” e “pode”. Em perícias técnicas essa regra pode

    balizar a atitude do perito, mas não deve ser aplicada de forma

    implacável, ao pé-da-letra. O autor recomenda que sempre se use a frase

    de Marco Simonotti “Use conhecimento técnico enquanto puder, depois

    use o bom senso”, (Fondamenti di metodologia estimativa, Ed. Liguori,

    1989), pois existem várias hipóteses de exceção plenamente

    justificáveis, exemplificadas a seguir.

    • a) uso do que se segue ao verbo “deve” em normas editadas antes de 1999,

    pois o sentido de obrigatoriedade só foi criado com a edição da ABNT

    Diretiva 2 nesse ano, conforme detalhado no item 9.2 acima;

    • b) não há obrigatoriedade do que se segue às expressões “convém que” e

    “pode”, nas normas editadas após 1999, desde que as tolerâncias usadas

    pela construtora não tenham provocado danos ao comprador.

    Com efeito. Por corresponderem a uma síntese do conhecimento à época

    de sua elaboração é evidente que ao longo do tempo as normas técnicas

    podem ficar obsoletas, em virtude de novos conhecimentos adquiridos e

    que atendam aos interesses dos interessados.

    Assim sendo, do ponto de vista técnico é óbvio que a legislação não pode

    “engessar” o progresso da ciência e, portanto, o construtor que

    desenvolver ou tomar conhecimento de novas tecnologias apresentadas

    em normas internacionais mais recentes, em princípio, poderá utilizá-las.

    Não obstante, assumirá o ônus da prova da eficácia dessa nova tecnologia,

    pois se ela provocar vícios ou defeitos, ou causar danos, o construtor

    responderá por essas falhas.

    c) exigências normativas impraticáveis pelo fornecedor, quando duas ou

    mais normas técnicas apresentam exigências conflitantes entre si.

    Conclusão final:

    podem ficar obsoletas, em virtude de novos conhecimentos adquiridos e que atendam aos interesses dos interessados.