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Diego Galeano

CriminososCriminosos viajantesviajantes

circulações transnacionais entre Rio de Janeiro e Buenos Aires

|1890-1930|

Rio de Janeiro

2016

circulações transnacionais entre Rio de Janeiro e Buenos Aires |1890-1930| Rio de Janeiro 2016 Criminosos viajantes

Criminosos viajantes

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Copyright © 2016 Arquivo Nacional Praça da República, 173, Centro 20211-350, Rio de Janeiro, RJ Telefone: (55 21) 2179-1253

Presidenta da República Dilma Rousseff

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Diretor-Geral do Arquivo Nacional Ivan Fernandes Neves

Coordenadora-Geral de Acesso e Difusão Documental Maria Aparecida Silveira Torres

Coordenadora de Pesquisa e Difusão do Acervo Maria Elizabeth Brêa Monteiro

Supervisão editorial Alba Gisele Gouget

Edição de texto e revisão Alba Gisele Gouget e Mariana Simões Lourenço

Projeto gráfico

Tânia Bittencourt

Editoração eletrônica e capa Tânia Bittencourt

Imagem da capa: “Una nota pequeña”, Boletín de Policía, ano I, n. 11, Buenos Aires, 30 set. 1905, p. 22.

Galeano, Diego.

Criminosos viajantes : circulações transnacionais entre Rio de Janeiro e Buenos Aires, 1890-1930 / Diego Galeano. – Rio de Janeiro : Arquivo Nacional, 2016.

252p. : il. ; 25 cm. -- (Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa ; 33)

1º lugar no Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, 2013.

Inclui bibliografia.

ISBN: 978-85-60207-82-4

1. Criminosos. 2. Rio de Janeiro (RJ) – História. 3. Buenos Aires - His- tória. 4. América do Sul – História, 1890-1930. I. Título. II. Série.

CDD 364.98

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Diego Galeano

A Giuseppe Galeano, imigrante italiano procedente do porto de Gênova que desembarcou em Buenos Aires em um 1º de maio de 1909. Dia turbulento, célebre pelos disparos da polícia contra a multidão anarquista

A Bartolo Galeano, filho que Giuseppe gestou na Argentina, embora nascesse na Itália por uma confusão sentimental. Após viagens e guerras, embarcou rumo a Buenos Aires em dezembro de 1949, para reencontrar-se com sua bela namorada, Carmela Ruggieri

A Antonio Faustino Galeano, filho de Bartolo e Carmela, meu pai, meu mais fiel leitor

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Diego Galeano

Agradecimentos

Este livro é uma versão da minha tese de doutorado, mas também, indiretamente, o resultado de uma década de pesquisas voltadas para a história da polícia e do crime. Olhando um pouco para trás, creio recordar um ponto de partida ainda mais remoto: um curso de Introdução à Filosofia no início de meus estudos de graduação em sociologia na Universidade Nacional de La Plata e um texto: A verdade e as formas jurídicas, de Michel Foucault. A partir desse momento, o cami- nho foi longo e incluiu um crescente distanciamento das hipóteses foucaultianas, mas acredito não estar exagerando muito quando digo que grande parte das obsessões que desde então me acompanharam, assim como a própria fascinação pelo arquivo, saíram daquela leitura inicial, do impacto de sua prosa feiticeira.

O primeiro passo desse percurso fez com que eu me aproximasse dos historiadores. O Mestrado

em Pesquisa Histórica da Universidade de San Andrés, em Buenos Aires, foi sem dúvida uma de minhas melhores experiências acadêmicas como estudante. E se assim foi, isso se deve à pessoa que me formou, me ensinou a pesquisar e a pensar historicamente: Lila Caimari. O grupo Crimen y Sociedad, criado por ela há dez anos, do qual participo desde o primeiro dia, tem sido um es- paço de debate excepcional. Agradeço a todos os meus colegas do grupo por cada página lida, cada comentário crítico e cada hora compartilhada em Buenos Aires, Santa Fé, La Falda e outras cidades argentinas.

O pulo do mestrado ao doutorado, que me levou de Buenos Aires ao Rio de Janeiro, está narrado

na introdução deste livro. Os agradecimentos da tese, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro em julho de 2012, tentaram dar conta da imensa quantidade de pessoas que colaboraram com a pesquisa e a escrita, com destaque para seu mais cotidiano leitor e lúcido interlocutor, Juan Pablo Canala. Não pretendo ser aqui reiterativo do já escrito; no entanto, gostaria de mencionar diversas pessoas que estiveram presentes no também longo processo de transformação da tese em livro.

Marcos Bretas, orientador da tese e camarada de inúmeras aventuras: quanto mais difícil teria sido esta década de vida no Brasil sem seu apoio desde a primeira hora e sua amizade incondicional. Em todos esses anos, o livro se beneficiou de um rico diálogo intelectual com Amy Chazkel, Cristiana Schettini, Diego Armus, Dominique Kalifa, José Moya, Martín Albornoz, Osvaldo Barreneche, Sabrina Calandrón, Mercedes García Ferrari e, obviamente, Lila Caimari. Ao mesmo tempo, enriqueceu-se em viagens e leituras cruzadas com amigos jornalistas e escritores: Cristian Alarcón, Javier Sinay, Sebastián Hacher, Natalia Zuazo, Juliana Barbassa e meu cotolosano Leopoldo Brizuela.

O livro deve ainda muito à atenta leitura dos professores que integraram a banca de avaliação da

tese. Ernesto Bohoslavsky poderá reconhecer nesta reescrita respostas a sua pergunta sobre a Mafia

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Criolla. Espero que Álvaro Pereira do Nascimento também identifique os efeitos de seu comentário sobre as fotografias de ladrões conhecidos. André Rosemberg iluminou uma caixa dos arquivos da Prefeitura de Polícia de Paris. Por fim, José Murilo de Carvalho é cúmplice e responsável pela mudança no título (o original – disse– não era adequado para um livro). Mesmo que nenhum dos títulos que me passou em um papelzinho tenha sido o definitivo, a provocação ficou e conservo com carinho essa folha, hoje amarelada.

O primeiro manuscrito da tese foi preparado em portunhol. A escrita foi frenética, muitas vezes

apressada por distintos prazos. Mantinha as citações brasileiras em português, as argentinas em

espanhol e no meio ia escrevendo no idioma que podia. Um minucioso trabalho de edição foi necessário e, para isso, contei com a generosidade de muitas pessoas. Rachel Cardoso e, especial- mente, Daniel Silva, corrigiram partes do texto. Assim como nos agradecimentos da tese destaquei

o trabalho dos funcionários da Sala de Consultas do Arquivo Nacional, agora devo acrescentar

um reconhecimento a Maria Elizabeth Brêa, a Alba Gisele Gouget e a todos os colaboradores da Coordenação de Pesquisa e Difusão do Acervo, cuja intervenção foi fundamental para melhorar

mais uma vez o texto. E o que posso dizer de Cristiana Schettini? O fato de que o “frankenstenzinho”

– como ela costuma chamar os manuscritos ainda imaturos – se transformasse primeiro em uma

tese e depois em uma monografia para o Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, deve tanto, mas tanto, a Cristiana, que nenhum agradecimento seria capaz de expressar o tamanho de sua ajuda. Ela tem sido uma voz qualificada e uma amizade fundamental em todos esses anos.

Dedico este livro também à família e aos amigos. Aos meus pais, Antonio Galeano e Alejandra Graiver, e a minha irmã, Victoria Galeano, pelo amor de sempre. A Bernardete, Luciana, Tibor, Gus- tavo e Mariana, por serem parte essencial da minha vida no Brasil. A Lucía Trotta, Victoria Stringa, Carolina Soler, Ana Clara Pedersoli e Martín Menestrina, pela amizade de tantos anos. A velhos e nem tão velhos amigos do campo sociológico: Pablo de Marinis, Javier Auyero, Gabriel Kessler, Mario Pecheny, Juan Ignacio Piovani e Ryan Centner. Aos que passaram pela minha casa no Rio, ajudando a encurtar distâncias: Bryan Pitts, Belén Hirose, Juan Pedro Argento, Victoria Sosa, Cecilia Gil Mariño, Verónica Tell, Paul Hathazy, Guillermina Espósito, Marina Liberatori e Ramiro Tau. E, claro, a Vinícius Fadel, por todo o resto.

Quando o livro já estava a caminho, depois do Prêmio Arquivo Nacional, houve ainda lugar para uma nova reviravolta. Meu ingresso na PUC-Rio como professor do Departamento de História

me deu o privilégio de conviver com excelentes historiadores e queridíssimos amigos. Agradeço

a todos os meus colegas, aos alunos e funcionários o acolhimento e o carinho desde o primeiro

dia. Fizeram do meu lugar de trabalho um lar. Além do mais, eterno retorno: escrevo estes agra- decimentos a poucos metros da sala na qual Michel Foucault, em maio de 1973, ministrou as palestras que deram lugar ao livro A verdade e as formas jurídicas. Sempre voltamos ao primeiro amor, como diz o tango.

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Diego Galeano

Diego Galeano PUC-RJ, verão 2016

Sumário

Prefácio

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Introdução

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Capítulo 1 - Cartografias do crime na América do Sul

27

 

O

espaço atlântico sul-americano

31

Fluxos aluviais

36

Reincidentes, incorrigíveis e ladrões profissionais

40

Uma belle époque delitiva

48

Capítulo 2 - As polícias estrangeiras

57

 

Circulação de modelos policiais

64

As visitas de estudo

69

Entre a fascinação e o desencanto

79

Capítulo 3 - O bureau e o laboratório

89

 

Simulações e identidades

93

Os gabinetes antropométricos

100

A

linguagem universal

111

Capítulo 4 - Encontros de policiais

119

 

Uma liga contra sujeitos perigosos

126

Expulsões, telegramas e receios

137

Criminosos viajantes

9

Capítulo 5 - A sociedade dos malfeitores

149

 

A

Maffia Criolla e os gatunos internacionais

153

Histórias de punguistas viajantes

162

O

calão dos delinquentes

172

Capítulo 6 - A aristocracia do roubo

179

 

Cenas do rat d’hôtel

184

A

performance dos trapaceiros

193

Epílogo

209

Fontes

221

Bibliografia

231

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Diego Galeano

Prefácio

A apresentação de um livro num prefácio muitas vezes parece desnecessária. O Prêmio Arquivo

Nacional de Pesquisa evidencia a qualidade do trabalho e o interesse que merece despertar. Resta

então ao prefaciador sugerir possibilidades de leitura, interagir com o livro e seu autor. Nesse caso

é escrever sobre interações de muitos anos, sobre a trajetória de uma pesquisa que tive o prazer de acompanhar e o prazer maior ainda de ver o resultado.

Este é um livro sobre viagens, o que me faz sentir um pouco como se fosse um guia turístico. Em primeiro lugar há a viagem do autor, a decisão de vir da Argentina para iniciar um doutorado no Rio de Janeiro e não em Harvard ou Paris. Demorou pouco a encantar-se com a cidade, a fazer parte da identidade receptiva carioca, sin perder la ternura por Buenos Aires e La Plata. Trazendo um olhar que não se naturalizou, mas que valoriza o trânsito, a circulação como lugar constituinte de uma posição e de um problema. Ganhou o nosso mundo acadêmico com a presença desse pesquisador criativo, acho que perdeu a Universidade argentina.

Gostamos da ideia de que o mundo do saber é internacional, de que ideias não têm passaporte, ainda que algumas tenham patente e preço. As convenções sobre o crime, os criminosos e as for- mas punitivas estão entre as primeiras a se internacionalizar no século XIX, e foram ansiosamente recebidas nas novas nações latino-americanas, que também iniciaram uma troca entre elas. Códigos penais, instituições prisionais, saberes médicos, tudo era comparado e lido, ainda que valorizado de forma distinta. Na materialização dessas ideias em livros e revistas, muitas foram levadas de um país a outro, fazendo que hoje cada um guarde um pouco de uma história que não é propriamente sua. No limite, temos a viagem do Boletim do Serviço de Identificação do Rio de Janeiro, que parece só ter sobrevivido na biblioteca de um pesquisador argentino que foi parar em Berlim, e encontrado pela dedicação de Diego a seguir pistas. O fim das viagens pode ser inesperado.

Além das ideias, viajavam pessoas. Muitas em busca de novas oportunidades, outras levando suas crenças, vendendo seus produtos, algumas fugindo de perseguições, ou mesmo da miséria. Cresce até mesmo o viajar sem motivo, apenas pelo prazer, pelo aprendizado que se pode obter vendo “o mundo”. Essa viagem como elemento formador é parte do patrimônio das elites coloniais, ne- cessitadas de um banho de civilização. Do outro lado, tanto do conhecimento que temos sobre o nosso próprio século XIX é derivado da chamada literatura de viajantes, que aqui chegavam com

a missão de contar a seus conterrâneos como era a tal América, e que terminaram nos contando também, retrospectivamente, como éramos.

Do lado de cá, são inúmeros os viajantes em busca de sistemas policiais ou punitivos modernos, visitando a prefeitura de polícia de Paris, a Scotland Yard, ou prisões por diferentes partes da Europa. Começam a escrever e participar de discussões internacionais, mostrando a existência de outro

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continente. Criam revistas, traduzem livros, constituindo um espaço local de discussão de uma das grandes preocupações modernas. De lá começam a vir cientistas, criminólogos – ainda que

o

termo seja um anacronismo – difundindo o evangelho da investigação e do combate ao crime

e

ao criminoso. Nesse ponto a América do Sul foi pioneira na realização de congressos policiais,

ensaiando a organização de políticas comuns e a troca de informações sobre as práticas delitivas.

Isso era muito importante porque esses criminosos também viajavam. Militantes anarquistas, vistos como delinquentes, espalhavam suas teorias, fugiam de outras perseguições. O tráfico de escravas brancas se transformava numa grande preocupação internacional. Circulavam também ratos de hotel, estelionatários, falsificadores e passadores do conto do vigário. Uma fauna muito diversa se movimentava nas rotas do Atlântico Sul.

Por muito tempo, a história do crime e da polícia – já por si uma história muito nova – se concentrou em nos mostrar as cidades por dentro, as redes de controle e as formas de fugir delas, mergulhando nos cantos menos visíveis do urbano. O trabalho de Diego maneja com enorme elegância esse diversificado mapa de tantas pessoas e coisas a circular, abrindo novos horizontes para a pesqui- sa histórica, transnacional, ligando os cantos do Rio aos de Buenos Aires, ou estendendo-se por diversas outras cidades na mesma rota.

Vejo o Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, já uma tradição que perdura nesse país de iniciativas efêmeras, como o maior selo de qualidade atribuído às nossas pesquisas acadêmicas. O leitor que se aventurar a viajar com Diego terá a oportunidade de ver que a premiação é merecida, e que tem em mãos história de primeira qualidade.

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Diego Galeano

Marcos Luiz Bretas Professor do Departamento de História da UFRJ

Introdução

Da polícia argentina ao Arquivo Nacional do Brasil

Há alguns anos, quando Buenos Aires começava a sair da última crise argentina, recebi uma notícia:

a Divisão de Museus e Pesquisas Históricas da Polícia Federal autorizou-me a consultar seus arqui- vos. Era a porta de entrada para um pequeno território que, embora com o tempo tenha revelado suas lacunas, pareceu-me absolutamente fascinante no primeiro dia. Esse acervo policial sofreu uma série de dispersões e perdas, aparentemente irreparáveis. A documentação produzida pela antiga “Polícia de Buenos Aires”, desde sua criação na década de 1820 até que se transformou em polícia metropolitana em 1880, foi transferida ao Archivo General de la Nación. As centenas de documentos e caixas foram guardadas sob um critério quase indecifrável, mas ao menos ficaram

a salvo da trama desidiosa que ditou a evaporação do resto da documentação.

O arquivo da “Polícia da Capital” (1880-1943), no entanto, seguiu um caminho confuso. Pouco depois da celebração do primeiro centenário da República Argentina, o delegado Leopoldo López publicou a obra que inaugurou uma linhagem de historiografia endógena, institucional e panegírica, que em nossos dias ainda tem seus herdeiros. 1 Em 1962, seus defensores conseguiram

uma significativa conquista quando a chefatura fundou o “Centro de Estudos Históricos Policiais”

e o deixou nas mãos do principal historiador da polícia argentina, Francisco Romay, que pouco

depois doou à polícia sua biblioteca pessoal. 2 O manuseio da documentação do arquivo ficou

reservado ao círculo de policiais escritores concentrados em torno da figura de Romay. Após sua morte, o Centro de Estudos – que agora leva seu nome – passou a depender da Divisão de Museus

e Pesquisas Históricas. 3

Alguns anos antes de ser iniciada minha pesquisa, ao menos dois historiadores tiveram acesso ao arquivo policial, localizado num edifício na rua Chacabuco, em Buenos Aires. 4 Lá estavam os livros de registro de ocorrências e a documentação das seções de Investigação, Ordem Pública e Ordem

1 LóPEZ, Leopoldo. Reseña histórica de la Policía de la Capital.

2 Ver a disposição que circulou com a ordem de 3 de outubro de 1962 em ROMAY, Francisco L. Historia de la Policía Federal Argentina: orígenes y evolución, p. 7-8.

3 Sobre os arquivos policiais na Argentina, ver CAIMARI, Lila; NAZAR, Mariana. Detrás de una puerta gris: notas sobre los archivos policiales públicos argentinos.

4 Refiro-me aos trabalhos de GAYOL, Sandra. Sociabilidad en Buenos Aires: hombres, honor y cafés (1862-1910), e MOYA, José. Cousins and strangers: Spanish immigrants in Buenos Aires, 1850-1930.

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Social da Polícia da Capital. No entanto, quando pedi para ter acesso ao acervo, explicaram-me que o material havia se perdido numa inundação. O que estava ao meu alcance era a biblioteca de Romay, engrossada por doações posteriores, diminuída também por algumas “perdas” e guardada nos altos de uma delegacia do bairro Once.

Pela falta do arquivo da Polícia da Capital e de sua sucessora, a Polícia Federal Argentina, a pes- quisa que começava teve de se concentrar no período compreendido pela documentação do Arquivo Nacional da Argentina. No entanto, o acervo da biblioteca policial portenha continuava sendo útil por reunir fontes impressas, fundamentalmente as revistas e os relatórios anuais do Departamento de Polícia. A coleção de livros e folhetos foi, com o tempo, mostrando também alguns de seus tesouros. Se nas primeiras visitas precisei pedir aos empregados o material, sem

a possibilidade de me aproximar das prateleiras, em algum momento pude começar a vasculhar as estantes.

Certo dia encontrei uma fileira de livros que me chamou especialmente a atenção. A biblioteca tinha duas salas conectadas, sendo uma ocupada por leitores e outra reservada aos empregados. Na parede do fundo dessa segunda sala existiam várias estantes com tratados e manuais de criminalística escritos em diversos idiomas. Mais abaixo, empilhavam-se obras sobre a Interpol, delitos complexos e criminalidade transnacional. No extremo dessa fila, havia uns vinte livros sobre as polícias sul-americanas, em particular do Brasil e do Uruguai. Vários textos escritos por funcionários da polícia carioca conseguiram nesse dia desviar minha atenção do objeto de estudo. Nesse momento, porém, nada me inquietou mais que as atas de duas conferências sul-americanas de polícia celebradas em Buenos Aires, em 1905 e 1920, que tinham como objetivo a assinatura de convênios de cooperação na tarefa de controlar os “indesejáveis” e “sujeitos perigosos”. Saí da biblioteca com cópias dessas atas em minha máquina fotográfica e com a intenção de produzir um trabalho sobre as conexões entre os vigilantes da América do Sul. Não imaginava, então, que esse seria o primeiro passo para uma nova pesquisa e, muito menos, que por isso terminaria vivendo no Brasil.

Essa ideia apareceu um pouco mais tarde, enquanto consultava a Galería de ladrones de la capital, uma coleção de duzentos retratos de indivíduos fotografados e detidos em diversas ocasiões pela polícia. O compilador era o comissário de investigações José S. Álvarez, que, pouco depois, sob

o pseudônimo de “Fray Mocho”, ficaria conhecido no ambiente das letras como escritor e diretor

da famosa revista ilustrada Caras y Caretas. Cada um dos retratos estava acompanhado por uma descrição dos antecedentes e da carreira delitiva desses “ladrões conhecidos”. O semblante do primeiro surpreendeu-me muitíssimo. Esperava encontrar ladrões de aspecto lastimoso, os gatunos que frequentemente aparecem como clientes fixos dos xadrezes policiais. Mas Ángel Artire (vulgo, Minga-Minga), da imagem número um, ostentava um elegante penteado, bigodes prolixamente cortados e um olhar sedutor que bem poderia ser o de um retrato artístico.

Segundo as folhas de antecedentes, Minga-Minga tinha 28 anos, havia nascido na Itália, mas fazia quinze anos morava em Buenos Aires. Tinha a pele branca, os olhos azuis, a barba e os bigodes loiros. Entre 1875 e 1886, acumulara trinta e nove entradas na polícia – muitas das quais, por roubo, haviam terminado com alguns meses de reclusão na Penitenciária Nacional. Ao final da lista de detenções, o comissário de investigações ensaiava uma breve descrição do retratado:

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É um hábil punguista, quer dizer, um indivíduo apto para inspecionar bolsos alheios sem ser notado. Nunca se arrisca em empresas grandes e perigosas. Viajou pelo Brasil e pelo Uruguai durante alguns anos e é de maneiras um tanto cultas. Agora costuma trabalhar também como vigarista, pois o fato de ser demasiado conhecido da polícia o impede de circular pelas ruas. 5

Um ladrão hábil, culto e viajante colocava novamente o foco da minha atenção nesses países sul-americanos. Poucas páginas adiante, o retrato número quinze era de outro italiano, chamado Ángelo Locio ou “Giambedi”. Este também viajava pelo Brasil aplicando os “contos do vigário” que lhe haviam deixado – segundo o policial – “uma herança para repartir entre os pobres”. Voltei, en- tão, às atas das conferências policiais. Detive-me nas palavras de um delegado chileno na reunião de 1905, advertindo seus colegas sobre a presença de “criminosos viajantes”, que aproveitavam os “fáceis meios de transporte” para circular entre o Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevidéu e Santiago do Chile. 6

A maior surpresa, no entanto, apareceu ao examinar outro livro que estava naquela estante da

biblioteca policial portenha, Os ladrões no Rio (1903), do delegado carioca Vicente Reis. Não apenas me deparei com relatos sobre criminosos viajantes num tom muito similar aos anteriores, mas com

o caso de Adolpho Silva, “filho de uma grande família de artistas do conto do vigário”, vinculado

a outros célebres “gatunos” que chegaram ao Brasil na década de 1880 “pelo Rio da Prata”. 7 Além disso, numa seção dedicada a enumerar os vigaristas que atuavam no Rio de Janeiro, aparecia Minga-Minga, o mesmo que abria a galeria de ladrões de Buenos Aires. Quem era este protagonista

dos relatos policiais argentinos e brasileiros? Uma extravagância da memória policial pinçada da grande maioria de ladrões comuns? Ou deve-se acreditar na hipótese do policial chileno sobre

a existência de uma verdadeira casta de criminosos viajantes? O que buscavam os policiais com

essas conferências sul-americanas? Teve o convênio que assinaram algum efeito sobre o trabalho

cotidiano de vigilância?

Mesmo tomando com extremo cuidado as acusações que esses textos faziam a respeito de homens

como Minga-Minga, essa primeira coincidência – ver seu rosto estampado em livros daqui e de

lá – era um forte indício da efetiva mobilidade territorial de certas práticas criminais na América

do Sul. A figura do criminoso viajante se insinuava além das acusações e fantasias policiais. Assim que soube que a documentação manuscrita da polícia carioca durante a Primeira República, di- ferentemente da situação que encontrara em Buenos Aires, era conservada no Arquivo Nacional do Brasil, foi apenas questão de cruzar a fronteira. Era possível me aventurar numa história social dessas práticas.

5 POLICíA de la Capital Federal. Galería de ladrones de la capital, 1880 a 1887, tomo 1, p. 8.

6 CONFERENCIA Internacional de Policía. Convenio celebrado entre las policías de La Plata y Buenos Aires (Argentina),

de Río de Janeiro (Brasil), de Santiago de Chile y de Montevideo (R. O. del Uruguay), p. 20.

7 REIS, Vicente. Os ladrões no Rio, 1898-1903, p. 150-155.

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Vestígios nos arquivos policiais

Policiais cruzando fronteiras nacionais para enfrentar um conjunto de práticas criminais territo- rialmente elusivas: eis aqui o objeto deste livro. A formação de uma rede de cooperação entre as forças policiais da América do Sul envolveu diferentes países, mas a intensidade dos intercâmbios concretos variava muito de acordo com as contingências dos laços bilaterais. Desde o final do sé- culo XIX, o vínculo entre as polícias das capitais da Argentina e do Brasil foi um dos mais fortes da região. De fato, a decisão de se realizar a primeira conferência sul-americana de polícia foi tomada no Rio de Janeiro, durante o Congresso Científico Latino-Americano de 1905, por representantes argentinos e brasileiros.

A abolição da escravatura e a proclamação da República mudaram a visão que uma parcela

das elites brasileiras tinha da Argentina. O fim da escravidão foi celebrado com manifestações populares nas ruas de Buenos Aires. Nesses anos, a imprensa carioca falou, como nunca antes, da “irmandade” entre Brasil e Argentina. Assim se iniciou um processo de estreitamento da relação bilateral que teve como ponto mais alto a majestosa visita do presidente Roca à capital brasileira, em 1899, e a viagem de Campos Sales a Buenos Aires no ano seguinte, retribuindo as gentilezas. Embora as relações diplomáticas entre os dois países tivessem seus altos e baixos, essa maior proximidade ampliou a circulação de informações e contatos em diferentes esferas institucionais. 8

Quando descemos aos subterrâneos da burocracia – neste caso, aos intercâmbios efetivos entre funcionários policiais – notamos que, mesmo os processos mais cordiais, e inclusive declara- damente amistosos do ponto de vista da retórica consular, estão abarrotados de desconfiança,

artimanhas e tensões mais ou menos silenciosas. Por isso, o escrutínio das cartas, telegramas

e ofícios, somados a uma infinidade de anotações feitas à margem por funcionários policiais,

são um contrapeso iniludível dos discursos solenes em visitas protocolares, congressos e conferências, embora esses últimos, lidos e relidos criticamente, possam também manifestar, segundo uma expressão de Carlo Ginzburg, “elementos não controlados”, alheios às intenções do produtor de um relato. 9

Que vestígios sobre a criminalidade viajante e os mecanismos de vigilância transnacional se en- contram nos arquivos policiais desses países sul-americanos? Que rastros permitem reconstruir a circulação de pessoas, tecnologias e informações de uma cidade a outra? Para responder a essas perguntas é preciso aferrar-se a uma premissa: interpretar a documentação dos arquivos poli- ciais implica uma compreensão sobre a agência que a produz, organiza e resguarda. “O arquivo supõe o arquivista: uma mão que coleciona e classifica”, observa Arlette Farge, num argumento que, mesmo sendo circular, indica a presença de um problema complexo. 10

8 Essa aproximação foi discutida por PREUSS, Ori. Bridging the island: Brazilian’s views of Spanish America and themselves, 1865-1912, p. 47-115.

9 GINZBURG, Carlo. El hilo y las huellas: lo verdadero, lo falso, lo ficticio, p. 15.

10 FARGE, Arlette. O sabor do arquivo, p. 11.

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A profusão de papéis que se apresentam como arquivos policiais deve ser interpelada em sua estrita materialidade. No Brasil e na Argentina, esses arquivos nasceram no espaço da burocracia estatal, junto com a própria figura do arquivista. A Polícia de Buenos Aires regulamentou em 1868, pela primeira vez, as funções do “encarregado do arquivo” e os procedimentos rotineiros para ordenar documentos, expedientes, ofícios e livros com índices para facilitar a busca nas estantes. Em contraste, o primeiro regulamento do serviço policial do Rio de Janeiro, após a proclamação da República, nada dizia sobre o arquivista. Logo depois da reforma policial de 1900, o novo decreto mencionava, sem dar muitos detalhes, a necessidade de organizar o arquivo como parte das tarefas dos escreventes. 11 Porém, quando assumiu a chefia de polícia em 1902, Antônio Car- doso de Castro descreveu a paisagem desoladora que encontrou ao entrar nas salas do arquivo da Polícia do Rio de Janeiro:

Visitei o Arquivo logo aos primeiros dias da minha administração e causou-me péssima impressão o abandono a que ele se achava reduzido. Instalado em duas salas, aliás amplas, mas acusando em cada canto um desasseio e uma incúria completos, não poderia ser aquela a repartição de consulta e guarda de papéis por mim desejada para a Repartição Central de Polícia. Os documentos, uns nas prateleiras, amarrados com cordéis e epigrafados com um quadrado de cartão e um número, outros distribuídos a granel por sobre o chão e as mesas desconjuntadas que constituíam o escasso mobiliário dessa dependência, pareciam pedir mão misericordiosa que os cuidasse e arrumasse metódica e convenientemente. O soalho, velho e podre, oscilava quando se dava um passo numa das salas, ameaçando desabar na ocasião menos esperada. 12

Não se percebe nessas palavras nenhuma inquietude pelo valor histórico da documentação, embora a questão não fosse alheia às preocupações das elites republicanas, que já estavam organizando o Arquivo Público Nacional e produzindo, em diálogo com outros intelectuais sul-americanos, relatos sobre as origens da nação. 13 Ao contrário, Cardoso de Castro explicava como havia melhorado a situação após a incorporação de um arquivista, com quem o próprio chefe acertou os “meios de aliviar o arquivo da pletora de papéis ali amontoados, eliminando-se para isso os lá guardados sem utilidade alguma”; isto é, uma parte dos documentos do período imperial, desde 1842 até 1889, “verdadeiras carradas de papéis inúteis” que foram descartados por falta de espaço. Também virou lixo uma série de objetos acumulados nas salas do arquivo, outrora utilizadas como depósito de “máquinas de jogo, camisas de força, padiolas, estandartes carnavalescos, carabinas imprestáveis, pandeiros, cornetas, alfarrábios sem préstimo”. 14

11 Decreto n. 1034A, de 1º de setembro de 1892, em Diário Oficial dos Estados Unidos do Brasil, XXI, n. 250, 14 set.

1892, e Regulamento para o serviço de Polícia do Distrito Federal. Decreto n. 3640, de 14 de abril de 1900, em Diário Oficial dos Estados Unidos do Brasil, XXIX, n. 107, 21 abr. 1900, art. 40.

12 Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Dr. J. J. Seabra, ministro da Justiça e Negócios Interiores, pelo chefe de polícia

do Distrito Federal A. A. Cardoso de Castro, Anexos ao Relatório apresentado ao presidente da República dos Estados Unidos do Brasil pelo Dr. J. J. Seabra, ministro da Justiça e Negócios Interiores, em março de 1904. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1904, p. 137.

13 DEVOTO, Fernando. La construcción del relato de los orígenes en Argentina, Brasil y Uruguay: las historias

nacionales de Varnhagen, Mitre y Bauzá.

14 Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Dr. J. J. Seabra, op. cit., p. 137-138.

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O que preocupava o chefe era a desordem e a entropia de um arquivo concebido com fins ad-

ministrativos bastante precisos. Durante o século XIX, os arquivos públicos foram incorporando ferramentas bibliográficas (repertórios, índices, catálogos) que buscavam ajustar um critério de ordenamento espacial para o acesso à documentação. Desse modo, outros dispositivos – como os ficheiros, as caixas e as estantes – apontavam para a colossal tarefa de estabelecer um sistema de registros que permitisse, de uma vez, movimentar e localizar os documentos. O arquivista deveria conseguir a quimera de converter um aparelho em constante transformação e caracterizado pela incorporação de novos papéis em um espaço fixo, previsível, onde cada coisa estivesse em seu lugar e pudesse ser encontrada. 15

É importante levar em conta essa dimensão cinética do mundo dos arquivos policiais. Nos projetos de códigos para a polícia portenha de 1894 e 1911, o arquivo aparecia como o núcleo de um vasto sistema de circulações. Em primeiro lugar, ocupava-se da conservação e classificação de todos os ofícios que o Departamento Central recebia das delegacias seccionais. O mesmo valia para os expedientes, notas e informações enviados pelas demais repartições públicas, incluindo o Poder Judiciário. Acumulava também as filiações dos criminosos, fichas de identificação, fotografias e prontuários pessoais, e coordenava a “troca de retratos, coleções ou reproduções de objetos com

as demais polícias nacionais e estrangeiras”. 16

Este livro analisa uma série de objetos localizados nos arquivos que podem ser interpretados como vestígios materiais da circulação internacional de saberes policiais. Não se trata unicamente de testemunhos que falam de outras coisas: eles mesmos são elementos cujo processo de produção merece ser explicado. Telegramas, retratos e álbuns fotográficos, fichas antropométricas e dati- loscópicas, instrumentos para medições corporais, manuais de criminalística: estamos diante de “artefatos portáteis”, concebidos para se inserir numa densa rede de intercâmbios. Assim como nas bibliotecas públicas e nas coleções dos museus de história natural, os cartões com fichas in- dividuais e os sistemas de classificação materializados em ficheiros dos gabinetes de identificação policial mostram-se como artefatos ligados a certas práticas de tráfego de objetos e informações. 17

As técnicas da polícia científica que desembarcaram em Buenos Aires e no Rio de Janeiro no final do século XIX acarretaram, além disso, um fetichismo em torno dos objetos do mundo delitivo. Se, na cena do crime, todo rastro – por mais trivial que parecesse – podia nos conduzir à reconstrução dos fatos, nenhum objeto deveria ser descartado a priori. Em estreita conexão com as práticas criminológicas da Escola Italiana e com os avanços da criminalística europeia, apareceram os pri- meiros “museus policiais” em Buenos Aires (1899) e no Rio de Janeiro (1912). Em ambos os casos,

15 PODGORNY, Irina. Fronteras de papel: archivos, colecciones y la cuestión de límites en las naciones americanas.

16 Artigo 365 do Proyecto de Código de Policía para la capital de la nación. Buenos Aires: Imprenta y Encuadernación

de la Policía de la Capital, 1894, p. 97. Artigos 1.038 e 1.043 do Proyecto de Código de Policía para la capital de la nación. Buenos Aires: Establecimiento Gráfico Colón, 1911, p. 278-279.

17 Um estado da bibliografia sobre a noção de “artefato” do ponto de vista da arqueologia e da história cultural

pode ser encontrado em HENARE, Amira; HOLBRAAD, Martin; WASTELL, Sari. Thinking through things: theorising artefacts ethnographically. Sobre a ideia da portabilidade dos objetos arquivísticos e museológicos, PODGORNY, Irina. Antigüedades portátiles: transportes, ruinas y comunicaciones en la arqueología del siglo XIX. A respeito das fichas de identificação policial como artefatos, CUNHA, Olívia M. Gomes da. La existencia relativa de las cosas (que reposan en los archivos): prácticas y materiales en relación.

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Diego Galeano

as coleções se aparelharam com objetos sequestrados pela polícia: restos de substâncias proibidas, chaves, facas, armas de fogo, máquinas para falsificar dinheiro, maletas com fundo falso, bigodes postiços etc. Os museus policiais não eram pensados como exposições para o público curioso, mas como instrumentos didáticos para os alunos das novas escolas de polícia. 18 Muitos desses objetos também aparecem nos arquivos policiais, seja de forma concreta ou por meio de reproduções fotográficas que eram anexadas aos processos, e podem ser lidos em sua dupla historicidade: são ao mesmo tempo vestígios das práticas sociais e das formas de ação policial.

Da mesma maneira, os materiais manuscritos e impressos manifestam outro lado da mobi- lidade espacial das fontes que manipulamos. Não obstante a maior parte dos arquivos aqui mencionados terem um critério “nacional” de organização de seus fundos, ao menos três tipos de documentação puderam ser reconhecidos como vestígios da circulação internacional entre as polícias da América do Sul. Em primeiro lugar, documentos já destinados a cruzar fronteiras:

pedidos de extradição, missivas diplomáticas, mensagens telegráficas, livros e folhetos tradu-

zidos para difusão em outros países. Em segundo, outro conjunto de escritos decorrentes de uma quantidade significativa de visitas institucionais, viagens de estudo, conferências policiais

e congressos científicos celebrados nas capitais sul-americanas desde o final do século XIX. Por

último, nas publicações institucionais, relatórios e revistas policiais foram aparecendo múltiplos

indícios dos intercâmbios transnacionais.

O acesso a esses três tipos de documentos foi diferente na Argentina e no Brasil. Isso se deve, fun-

damentalmente, à ausência de um arquivo policial em Buenos Aires para o período que abrange este trabalho. Esse é um grave obstáculo para qualquer pesquisa sobre o cotidiano do trabalho policial portenho, mas isso não significa que não existam fontes. O principal acervo que ainda pode ser consultado é a documentação institucional impressa, fundamentalmente a Revista de Policía, que, diferentemente dos periódicos produzidos pela polícia carioca, teve notável continuidade desde a década de 1890 até a de 1930. Outra fonte impressa utilizada foi a série de relatórios do Departamento de Polícia publicados anualmente desde 1868.

Mesmo assim, a ausência de documentação manuscrita em Buenos Aires fez com que esta pesquisa centrasse sua atenção no Arquivo Nacional do Brasil. Os papéis produzidos pela polícia carioca (particularmente por algumas de suas dependências, como o Corpo de Investigação e Segurança Pública, o Gabinete de Identificação e Estatística, a Inspetoria de Polícia Marítima) resultaram em peças fundamentais para o estudo histórico das circulações policiais sul-americanas. No fundo documental do Ministério da Justiça, onde se encontram as caixas do arquivo policial relativas ao período 1895-1924, não existe uma seção específica dedicada aos vínculos com outras polícias de países vizinhos. Porém, entre as mais de quinhentas caixas, aos poucos apareceram indícios de diversas trocas entre as polícias sul-americanas, com ou sem intervenção de autoridades di- plomáticas. Foram surgindo também séries de telegramas; comunicações informais com dados

18 A aparição dos primeiros museus do crime na Europa foi estudada por REGENER, Susanne. Criminological mu-

seums and the visualization of evil. Sobre o museu da polícia portenha, RODRíGUEZ, Adolfo E. Historia de la Policía Federal Argentina, tomo IV, 1880-1916, p. 214-215. MUSEO POLICIAL. Museo Policía Federal: 75 aniversario. E sobre a experiência carioca, ver: CARVALHO, Elysio de. A polícia carioca: a criminalidade contemporânea, p. 133; LOCARD, Edmond. A Escola de Polícia do Rio de Janeiro.

Criminosos viajantes

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sobre “indesejáveis” expulsos e “criminosos viajantes” para impedir o desembarque nos portos; permutas de fichas de identificação sobre “ladrões conhecidos” e suspeitos vários. 19

O Arquivo Nacional do Brasil possui ainda outro fundo documental importante: os processos de

expulsão de estrangeiros. 20 Os primeiros estudos históricos sobre as leis sancionadas na Argentina

e no Brasil no início do século XX focaram sua atenção no impacto que essas medidas regulatórias

tiveram na repressão à militância operária comunista e anarquista. 21 O acervo de processos de expulsão do Arquivo Nacional e outras fontes mostram, no entanto, que as leis foram aplicadas contra uma multiplicidade de práticas sociais que a polícia buscava controlar havia muito tempo. Entre elas, atividades conhecidas e reconhecidas como “criminalidade comum”.

Esses processos de expulsão incluíam papéis incriminatórios, depoimentos de falsas testemunhas (quase sempre policiais, apresentados como “funcionários públicos”), folhas de antecedentes e,

às vezes, retratos fotográficos dos acusados. Ao ver cada um desses rostos retratados de frente

e de perfil pela câmera policial, muitas vezes me questionei sobre as implicações éticas do meu

trabalho. Se por acaso esses sujeitos não prefeririam ser esquecidos a reaparecerem resgatados por um historiador, a partir das palavras acusadoras dos vigilantes e do relato daquelas duvidosas testemunhas, e de “confissões” nas quais se adivinha todo o peso da violência institucional. Não era a veracidade do relato o que me preocupava, porque as autobiografias de criminosos ou as narrativas da imprensa operária não resultam, nesse sentido, menos problemáticas. Era essa apa- rição (tão poderosa) do olhar de uma pessoa estampada num retrato fotográfico, recordando-me que esses fragmentos do arquivo policial não eram nada mais que “vestígios brutos de vidas que não pediam absolutamente para ser contadas dessa maneira”. 22

Como escrever então a história desses criminosos viajantes sem ouvir suas próprias vozes? Como contá-las sem cair no que Gilles Deleuze chamou de “indignidade de falar pelos outros”? 23 O que me autoriza a reconstruir o que resta de uma biografia quase perdida, a não ser pelos registros policiais e judiciários? Estas perguntas se fizeram presentes cada vez que tive de decidir entre incluir um nome, reproduzir um retrato fotográfico ou citar as palavras de uma autoridade esta- tal. Uma opção sempre à mão para moderar essas inquietudes era a possibilidade de mudar os nomes, empregar somente as iniciais, talvez os pseudônimos, ou inventar nomes fictícios para personagens mencionados nos documentos. No entanto, ao transtorno que eu poderia provocar em qualquer historiador que quisesse revisar o mesmo processo (afinal, é para isso que se deve citar a fonte), somava-se a incerteza sobre a veracidade dos nomes.

19 ARQUIVO NACIONAL (AN). Fundo GIFI/Documentos de Polícia (1895-1924).

20 AN. Seção de Documentos do Executivo e do Legislativo, Processos de expulsão de estrangeiros, fundo IJJ7,

caixas 126 a 179.

21 MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário, 1890-1920; SURIANO, Juan. Trabajadores,

anarquismo y Estado represor: de la Ley de Residencia a la Ley de Defensa Social (1902-1910), e COSTANZO, Gabriela. Los indeseables: las leyes de Residencia y Defensa Social. Para complementar as informações dos processos de expul- são de estrangeiros, consultei também o Arquivo Histórico do Itamaraty, no Rio de Janeiro, onde estão as listas de banidos e outros dados que oferecem um panorama quantitativo mais completo.

22 FARGE, Arlette. O sabor do arquivo, p. 13.

23 ARTIèRES, Philippe. La sombra de los prisioneros sobre el tejado: las herencias del GIP, p. 148.

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Não existiam, naquela época, registros civis que pudessem garantir, com um mínimo de certeza, se Minga-Minga havia sido registrado ao nascer como Ángel Artire ou se este era um dos tantos nomes que podia ter inventado, ao longo de sua vida, para escapar das perseguições policiais. Raramente algum dos expulsos aparecia fichado com menos de três nomes; em alguns casos, nem sequer se sabia exatamente onde haviam nascido, e as informações vacilavam ainda sobre a idade ou o estado civil. Alfred Matfeld, José Ritter, Fritz Steinhoff, Alberto Routho e Alberto Landi eram, para a polícia carioca, a mesma pessoa. Mas em nenhum momento se esclarecia, e nem se podia esclarecer, qual era seu “nome verdadeiro”. Ora identificado como holandês, ora como argentino; ora viúvo, ora solteiro – o fato é que nenhuma dessas incertezas impediu que ele fosse expulso em 1907, embarcado para Buenos Aires no porto de Santos. 24 Inventar um nome a mais para Alfred, José, Fritz ou Alberto seria, da minha parte, quase um ato de arrogância. Simplesmente tratarei de narrar – com a maior honestidade possível – as deliciosas espertezas desse punhado de ladrões viajantes e, também, seus numerosos padecimentos.

Histórias transnacionais

Arquivos e bibliotecas nacionais forneceram então as fontes necessárias para narrar uma história transnacional. De fato, a periodização delimitada entre as décadas de 1890 e 1930 não corresponde a recortes da história política dos dois países, tampouco está ligada estritamente à cronologia das fontes consultadas. A última década do século XIX marca o início de um processo de “transna- cionalização” da vigilância policial, um fenômeno com dimensões mundiais no qual os países da América do Sul, especialmente Argentina e Brasil, ocuparam um lugar preponderante. Os primeiros capítulos deste livro estudam uma série de viagens de policiais sul-americanos à Europa e uma intensificação do tráfego mundial de saberes policiais, em que as tecnologias para a identificação de pessoas tiveram grande destaque.

Embora nunca tenha cessado o vínculo com as polícias europeias, construído ao longo do oito- centos, as três primeiras décadas do século XX foram marcadas por uma ampliação significativa da cooperação entre as polícias da América do Sul, consagrada nas conferências de Buenos Aires de 1905 e 1920. Numa época de conflitos bélicos agudos no mundo ocidental, não foram poucos os especialistas europeus que consideraram o espaço atlântico sul-americano um terreno propício para o crescimento da polícia internacional.

Além disso, este trabalho tenta mostrar que a aproximação entre os policiais da Argentina e do Brasil não ficou restrita à celebração de reuniões e à retórica dos discursos solenes. Intercâmbios concretos de informação, circulação de telegramas e fichas de identificação para a vigilância dos portos, e também receios, mais ou menos dissimulados, entre as polícias de ambos os países se- rão objeto dos últimos capítulos, concluindo-se com uma análise sobre o controle da mobilidade territorial de algumas práticas delitivas.

24 AN. Fundo IJJ7, caixa 130; fundo GIFI, caixa 6C 222 (1907); Arquivo Histórico do Itamaraty (AHI). Ofícios de polícia,

caixa 300-3-6 (1907).

Criminosos viajantes

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As trocas entre as polícias do Rio de Janeiro e de Buenos Aires são estudadas aqui do ponto de vista da história transnacional. No entanto, essa perspectiva de análise está longe de ser inequívoca. Pressupõe a construção de um problema que, por atravessar as fronteiras de um Estado nacional, envolve ao menos dois países. Nesse sentido, não se limita aos métodos da “história comparada”. Ao comparar, muitas vezes se assume que as unidades de estudo confrontadas, submetidas a um jogo de operações analógicas, à busca de contrastes, isomorfismos e correlações, são na verdade unidades perfeitamente distinguíveis: cidades, regiões ou países. A história transnacional, por sua vez, trabalha com unidades que são, ao mesmo tempo, mais amplas e mais restritas que aquelas da historiografia que compara “casos nacionais”. Mais amplas porque pressupõem algo mais que um Estado nacional; mais restritas porque não abrangem, a priori, a totalidade do território de um país, mas as zonas concretamente envolvidas nos intercâmbios, cruzamentos e conexões transnacionais. 25

A história transnacional tenta mostrar as fissuras que se abrem nas fronteiras dos países. Neste

livro, essas fronteiras não são entendidas como um marco estável a partir do qual se delimita o objeto de estudo: elas mesmas são uma questão problemática a ser examinada. Não se pensa o problema de pesquisa como um modo de analisar as relações internacionais entre a polícia bra- sileira e a argentina, simplesmente porque não existia, em nenhum dos dois países, um sistema nacional de polícia ao qual se pudesse atribuir capacidade de ação.

Se alguma vez são empregadas expressões como “policiais brasileiros” ou “vigilantes argenti- nos”, é porque esse rótulo nacional estava presente como categoria identitária. Mas quando se diz que o olhar está voltado para um espaço de interações entre Rio de Janeiro e Buenos Aires, esse recorte deve ser tomado ao pé da letra. A rota entre essas capitais formava parte de um território que optei por chamar de “espaço atlântico sul-americano”, marco geográfico

e histórico que será o cenário do livro. Esse território estava habitado por uma multiplicidade

de sujeitos cujos laços sociais, trajetórias de vida e construção de identidades coletivas tomam como ponto de referência aquilo que autores vinculados aos estudos migratórios denominam “espaço social transnacional”. 26

Dessa perspectiva, partilho com vertentes da literatura sociológica sobre a mundialização um olhar crítico para as limitações do “nacionalismo metodológico”. 27 Porém, isso não implica diluir a

25 Nos últimos anos, alguns historiadores partidários do chamado “transnational turn” argumentaram em defesa

da história transnacional a partir de uma recusa tout court do método comparativo. Por exemplo: SIEGEL, Micol. Beyond compare: comparative method after the transnational turn. Ver, também, WERNER, Michael; ZIMMERMANN, Bénédicte. Beyond comparison: histoire croisée and the challenge of reflexivity. No entanto, outros autores conside- ram que a abordagem das conexões transnacionais, as trocas de ideias, tecnologias, objetos e pessoas através das fronteiras não exclui a história comparada e pode, pelo contrário, enriquecê-la. Entre esses estão: PRADO, Maria Ligia Coelho. Repensando a história comparada da América Latina, e PURDY, Sean. A história comparada e o desafio da transnacionalidade.

26 FAIST, Thomas. The volume and dynamics of international migration and transnational social spaces; PRIES, Ludger.

The disruption of social and geographic space: US-Mexican migration and the emergence of transnational social spaces.

27 BECK, Urich. La sociedad civil trasnacional: cómo se forma una visión cosmopolita. WIMMER, Andreas; GLICK

SCHILLER, Nina. Methodological nationalism and beyond: nation-state building, migration and the social sciences.

22

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dimensão nacional até fazê-la desaparecer na linguagem abstrata da fenomenologia global. Estudar relações sociais que atravessam fronteiras, redes de vínculos de longa distância e de cabotagem, fluxo de pessoas, objetos e informações através dos mares, diversos processos nos quais o local e o mundial se articulam de forma complexa: nada disso traz, como corolário forçado, uma afirma- ção do caráter obsoleto dos Estados e das nações. De fato, se verá que as fronteiras nacionais e as autoridades que as custodiam podem constituir também sérios obstáculos para a mobilidade territorial e a vida de certos sujeitos. A expulsão de estrangeiros no Brasil e na Argentina, no iní- cio do século XX, mostra que as nações e os nacionalismos, ainda que fossem invenções frágeis e “comunidades imaginadas”, podiam se traduzir em mecanismos coercitivos concretos para a regulação das relações sociais.

No campo da história da ciência, dos intelectuais e das elites técnicas, os estudos transnacionais têm apontado algumas discussões relevantes para o tema abordado neste livro. Interessam-me, especialmente, as críticas ao “modelo difusionista”, isto é, a chave de leitura que interpreta o mo- vimento mundial de ideias como um processo de transmissão do centro à periferia. Esta matriz de pensamento gira em torno da noção de “influência”: as ideias viajam de um lugar a outro, mas se trata de um percurso de mão única, partindo de um centro produtor de conhecimentos em direção a uma periferia receptora. 28 Estudos sobre a organização de conferências internacionais, missões científicas, viagens e migrações de intelectuais em diversos espaços do saber mostra- ram o surgimento de redes transnacionais, fluxo de ideias com múltiplos destinos e processos de hibridação de conhecimentos. 29 A dimensão transnacional das reformas modernizadoras nos Estados latino-americanos, o intenso tráfego de modelos institucionais e o deslocamento de es- pecialistas entre os países foram objeto de várias pesquisas sobre planificação urbana, políticas sociais, econômicas e sanitárias. 30

Por sua vez, a circulação de ideias criminológicas, de projetos de reforma penal, policial e penitenciária recebeu também maior atenção dos historiadores nos últimos anos. Os con- gressos internacionais penitenciários e de antropologia criminal, celebrados desde o último quarto do século XIX, criaram um marco inédito de intercâmbios entre especialistas em escala

28 Uma crítica pioneira a esse modelo de difusão foi feita pelo sociólogo norte-americano Edward Shils num

trabalho publicado em 1961, no qual argumenta que a mundialização do campo intelectual deve ser pensada como

a conformação de uma “comunidade intelectual transnacional”. Essa comunidade tem múltiplos centros de atração

(Shils os denomina “metrópoles”), ao redor dos quais giram diferentes círculos de “provincialismo intelectual”. SHILS,

Edward. La metrópoli y la provincia en la comunidad intelectual. Na América Latina, os críticos literários e historia- dores da cultura também discutiram essa questão, como RAMA, Ángel. Transculturación narrativa en América Latina,

e RAMOS, Julio. Desencuentros de la modernidad en América Latina.

29 CHARLE, Christophe; SCHRIEWER, Jürgen; WAGNER, Peter (ed.). Transnational intellectual networks: forms of

academic knowledge and the search of cultural identities; ZIMMERMANN, Eduardo. Global intellectual elites.

30 RODGERS, Daniel T. Atlantic crossings: social politics in a progressive age. DEZALAY, Yves; GARTH, Bryan G. The

internationalization of palace war: lawyers, economists, and the contest to transform Latin American states. Ver tam- bém os trabalhos incluídos no dossiê “Transmissão e herança científica: Europa e América Latina”, na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 433-557, abr.-jun. 2008. É ainda importante a discussão sobre o caso das reformas urbanas de inspiração “haussmaniana”: NEEDELL, Jeffrey. Rio de Janeiro and Buenos Aires:

public space and public consciousness in fin-de-siècle Latin America. GORELIK, Adrián. La grilla y el parque: espacio público y cultura urbana en Buenos Aires, 1887-1936, p. 115-124.

Criminosos viajantes

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mundial. 31 Essa época foi marcada por uma crescente inquietação com a existência de novas formas de criminalidade internacional, vinculadas ao que Peter Hungill denominou “época neotécnica”, em referência à proliferação das tecnologias de transporte e comunicação base-

adas na eletricidade. 32 Nas polícias da Europa e das Américas se propagou um discurso sobre

a suposta face sinistra da modernização técnica, refletida nos múltiplos usos “criminais” das inovações tecnológicas, desde o mercado de tráfico de mulheres até os atentados anarquistas

e os bandos de ladrões viajantes. 33

Essa preocupação encontra-se nos fundamentos das primeiras iniciativas de cooperação poli- cial. A partir da Conferência Internacional pela Defesa Social contra o Anarquismo (Roma, 1898) até a consolidação definitiva da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol), ao término da Segunda Guerra Mundial, estende-se um complexo processo de aproximação entre as polícias, a respeito do qual ainda pouco se sabe. 34 Algumas pesquisas dedicaram-se a inves- tigar o lugar ocupado pelo movimento transnacional de ideias, técnicas e especialistas para a modernização das polícias sul-americanas no século XX, dando ênfase à transmissão de saberes

e ao treinamento para a repressão política. 35 No entanto, falta examinar ainda outras direções desse processo, começando por revisar o próprio peso da América do Sul na rede mundial de cooperação policial. Pensar as polícias do Rio de Janeiro e Buenos Aires como simples recepto- ras periféricas de ideias produzidas nas regiões centrais (seja nos países da Europa Ocidental até meados do século XIX, ou nos Estados Unidos na segunda metade do século XX) impede a análise do nascimento de um espaço transnacional irredutível a olhares de mão única.

É imprescindível regressar a esses primeiros passos da cooperação policial sul-americana para

compreender a posição de seus protagonistas. Depois de uma série de encontros entre policiais sul-americanos na década de 1900, o jurista argentino Luis Reyna Almandos, discípulo do in- ventor do sistema de identificação por impressões digitais, apresentava no Congresso Científico

31 KALUSZYNSKI, Martine. The International Congresses of Criminal Anthropology: shaping the French and inter-

national criminological movement, 1886-1914. Diversos trabalhos deram conta do impacto desses congressos na

América Latina, em especial: OLMO, Rosa del. América Latina y su criminología. Trabalhos mais recentes têm criticado

a visão de Rosa del Olmo e de outros criminologistas críticos latino-americanos que leram a relação com a Europa sob

a chave da teoria da dependência cultural, como, por exemplo: SOZZO, Máximo. ‘Traduttore traditore’: importación

cultural, traducción e historia del presente de la criminología en América Latina. Ver, também, MELOSSI, Dario; SOZZO, Máximo; SPARK, Richard. Travels of the criminal question: cultural embeddedness and diffusion.

32 HUGILL, Peter. Global communications since 1844: geopolitics and technology.

33 DEFLEM, Mathieu. Technology and the internationalization of policing: a comparative-historical perspective;

KNEPPEr, Paul. The invention of international crime: a global issue in the making, 1881-1914.

34 Os estudos, além do mais, têm sido muito descontinuados no tempo. Ver: BACH JENSEN, Richard. The Interna-

tional Anti-Anarchist Conference of 1898 and the origins of Interpol; NADELMANN, Ethan. Cops across borders: the internationalization of US criminal law enforcement; DEFLEM, Mathieu. Policing world society: historical foundations of international police cooperation.

35 Ver CANCELLI, Elizabeth. De uma sociedade policiada a um Estado policial: o circuito de informações das polí-

cias nos anos 30; HUGGINS, Martha. Polícia e política: relações Estados Unidos/América Latina. MARTINS, Marcelo T. Quintanilha. Policiais habilitados não se improvisam: a modernização da polícia paulista na Primeira República

(1889-1930).

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Diego Galeano

Americano de Buenos Aires um projeto curioso. Convocava os países a formarem uma polícia mundial mediante a firmação de um tratado de defesa mútua, inspirado no funcionamento da União Postal Universal. O núcleo da proposta era compor uma rede de trocas internacionais de antecedentes, baseando-se nas informações das novas fichas datiloscópicas. Para Reyna Alman- dos, a origem dessa ideia era latino-americana, embora aceitasse que outros lhe reclamassem

a paternidade europeia. Ao fim e ao cabo, dizia, não importava tanto “a procedência das ideias

quando as consideramos úteis”. 36 Nesse tom vacilante, entre a piscadela fraternal da colaboração

e a vaidade do protagonismo mundial, vão se acomodando os discursos da cooperação policial sul-americana.

36 REYNA ALMANDOS, Luis. Unión policial universal: sus bases, p. 6.

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26 Diego Galeano

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Capítulo 1

Cartografias do crime na América do Sul

Nós, os americanos, se desejarmos cumprir a missão histórica que nos foi reservada, preci-

] Todo trabalho feito

no sentido de libertar a jovem América do flagelo do crime, constitui uma obra meritória.

Rosendo Fraga, chefe da Polícia de Buenos Aires (1905)

samos fechar as portas aos malfeitores proscritos em outras regiões. [

Na primavera de 1894, Buenos Aires permaneceu agitada algumas semanas por um crime misterio- so. A polícia havia encontrado um cadáver esquartejado, ninguém sabia quem era o morto e, claro, menos ainda quem era o assassino. A descoberta macabra ocorreu em diferentes dias, à medida que as partes do corpo iam aparecendo espalhadas pela cidade. Em um primeiro momento foi a vez do tronco desprovido de membros e de cabeça. O médico da polícia, Agustín Drago, analisou o fragmento, observando que o assassino havia cuidadosamente colocado sal grosso e serragem nas articulações para estancar o sangramento. Pela ausência de marcas no corpo, sugeriu a hipótese de estrangulamento, mas não poderia ter certeza sem o resto da vítima. Apesar dos avanços no campo da medicina legal e dos primeiros passos da polícia científica, que Drago percebeu rapidamente ao criar o Gabinete de Identificação Antropométrica, apenas um torso, nesse momento, era uma pista muito fraca. Por isso, as especulações se concentraram nas suposições policiais sobre o lugar em que parte do corpo fora encontrada, as tavernas e bordéis da área, os suspeitos de costume.

No dia seguinte à descoberta do tronco, apareceu um pacote com os braços e as pernas enro- lados em papel de jornal, enquanto a cabeça foi encontrada algumas semanas depois por duas crianças que brincavam perto do rio da Prata. O enigma correu pela imprensa de imediato, não faltaram comparações com Jack, o Estripador, e a cada dia que passava, aumentava a pressão sobre as autoridades para revelar o mistério. A polícia aproveitou o clamor popular e organizou uma

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exposição pública no Departamento Central: durante vários dias, os portenhos puderam desfilar diante de fotografias da cabeça, um retrato a óleo em que se reconstituía o rosto da vítima, um busto de gesso esculpido por um artista famoso e vários objetos encontrados junto aos pacotes que continham as partes do cadáver.

Foi assim que se começou a esclarecer o crime. Um grupo de franceses assegurou que se tratava de François Farbos, um carteiro recém-chegado de Bordéus. Em pouco tempo, o grupo desvendou

a identidade do assassino, outro francês chamado Raoul Tremblié. Não eram exatamente imigran-

tes que vinham para ingressar no mercado de trabalho e “fazer a América”. Farbos e Tremblié se

conheceram ainda na França, cruzavam com frequência o Atlântico e costumavam alugar quartos para passar dias em Buenos Aires usando nomes falsos. Eram sócios em um negócio bastante rentável: dedicavam-se ao contrabando de moedas de cobre. Essa era uma das tantas artimanhas nascidas da desvalorização do papel moeda na Argentina, logo após a crise financeira de 1890, que havia provocado um incessante aumento na cotação do ouro.

As desvalorizadas moedas argentinas, então, se compravam por pouco dinheiro e se vendiam como metal fundido. Segundo explicava um policial em um livro que dedicou ao caso, um dos franceses enviava ao outro dinheiro que lhe permitia adquirir certa quantidade de moedas argentinas de um e dois centavos. O carregamento de moedas viajava por mar até a França dentro de baús construídos com fundo e paredes falsas, para burlar os controles aduaneiros. Na Europa, as moedas podiam ser vendidas após serem fundidas, pelo que se obtinha um capital consideravelmente maior se comparado ao gasto na Argentina, contemplando, ademais, os custos da viagem de navio. 1

Aparentemente, uma briga entre Farbos e Tremblié, talvez a ambição do segundo para ficar com todo o ganho ou evitar pagar uma dívida a seu companheiro, terminou nesse esquartejamento.

A polícia recolheu provas bastante contundentes contra Tremblié e soube que ele havia embar-

cado com destino a Dunquerque pouco depois do crime. Embora as viagens em navios a vapor houvessem diminuído significativamente o tempo da travessia transatlântica, outro avanço tec- nológico do oitocentos foi fatal para o destino de Tremblié. Um telegrama para a polícia francesa

foi suficiente para que o esperassem no porto de Dunquerque, o detivessem e confiscassem seus baús, nos quais encontraram a carga de moedas argentinas. O governo francês recusou um pe- dido de extradição da justiça argentina e submeteu o assassino a julgamento em sua terra natal. Condenado à morte, sua sentença terminou sendo comutada e Tremblié passou o resto de seus dias na prisão de Saint-Omer.

Três décadas mais tarde, a polícia da capital brasileira solicitava a seu governo a expulsão dos ita- lianos Francisco Barbieri e Vicente Perniconi, acusados de integrar um grupo dedicado a diversos tipos de roubo. No começo do século XX, tanto o Brasil como a Argentina sancionaram uma série de leis de expulsão de estrangeiros que previam procedimentos sumários, sem intervenção do Poder

1 UN ANTIGUO COMISARIO DE POLICíA. El descuartizador: historia íntima de un asesino, p. 78-79. Sobre o affaire Tremblié, ver GALEANO, Diego. Escritores, detectives y archivistas: la cultura policial en Buenos Aires, 1821-1910, p. 129-142. Segundo um jornal brasileiro, em 1867, o tráfico ilegal de moedas de cobre tinha deixado a capital quase sem troco e somente circulavam notas de dez, vinte e trinta mil réis. Ver: A falta de trocos. Os ladrões de casaca no Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, p. 3, out. 1867.

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Judiciário (salvo em casos de pedido de habeas corpus), fundamentados em frágeis depoimentos, poucas testemunhas e alguma informação elaborada pela polícia. No caso de Barbieri e Perniconi, essa informação era – em relação à média – bastante abundante. A folha de antecedentes – várias fichas datiloscópicas e retratos fotográficos produzidos pelo Gabinete de Identificação – estava acompanhada por um anexo da Seção de Investigações. Nele estava relacionado o arsenal de utensílios para roubar apreendido dentro de uma casa, no Rio de Janeiro:

Uma pistola Colt calibre 38, número 50.585; uma pistola Colt calibre 45, número 149.037; uma pistola Parabellum calibre 45, número 5.649, modelo de 1916, sendo de cano longo; cinco pen- tes pertencentes à mesma arma; sete pentes da pistola Colt calibre 38; uma máquina portátil

própria para furar ferro; um arco de pua de carpinteiro, para furar madeira; uma chave inglesa;

um alicate; um lima murça; 14 brocas de

uma grifa de ferro para segurar encanamento; [

diversas dimensões para furar ferro; um parafuso de ferro e para torno; oito parafusos de ferro; uma chapa de ferro para experiência; dois pares de luvas; uma lata pequena contendo ela:

duas blusas zuarte, uma gorra de casimira, um mapa das cidades de Rio e Niterói, um mapa da Viação Férrea de Brasil; um mapa de Brasil, da República Oriental de Uruguai, de Paraguai. 2

]

Por que junto a todos esses objetos, além dos mapas do Rio de Janeiro e arredores, havia um da rede ferroviária brasileira e outros de países sul-americanos? Os testemunhos recolhidos nos ex- pedientes nos dão alguns indícios. Quando os dois foram detidos, Francisco tinha 33 anos, havia nascido em Catanzaro, estava casado e declarava ser sapateiro. Vicente era dois anos mais novo, solteiro, nascido em Regalbuto e dizia ser pedreiro. Ambos sabiam ler e escrever. Perguntaram a eles quando e como haviam chegado ao Brasil: na resposta, coincidiram na data (havia uns três meses que estavam no país), mas divergiram sobre o meio de transporte. De acordo com Vicente, chegaram por via marítima, em um navio procedente de Buenos Aires, enquanto Francisco afir- mou terem ingressado por trem, também da Argentina, atravessando a fronteira na altura do Rio Grande do Sul. 3

A hipótese dos investigadores da polícia carioca era que Vicente e Francisco formavam, junta-

mente com um argentino, uma quadrilha de “gatunos internacionais” que praticava roubos em vários países da região. Esses gatunos eram – assim como muitos dos anarquistas banidos pelas

leis de expulsão de estrangeiros – sujeitos nômades, que circulavam com frequência tanto entre

a Europa e o continente americano como entre os próprios países sul-americanos. Entretanto,

diferentemente dos militantes libertários, não estavam tão interessados em lutar contra o status quo, mas em aproveitar as múltiplas rotas delitivas que esse status quo tornava possível.

A polícia os prendeu, os retratou e tirou suas impressões digitais, práticas que nessa época os vi-

gilantes repetiam com o resto dos ladrões e trapaceiros conhecidos. No entanto, não era possível amalgamar tão facilmente Francisco e Vicente com os demais personagens do crime urbano. O

estereótipo de ladrão pobre, analfabeto e desordeiro, cuja existência é confirmada por grande

2 ARQUIVO NACIONAL (AN). Fundo IJJ7, caixa 133: expulsão de Francisco Barbieri (1928). Cópia do auto de apre- sentação e apreensão.

3 Idem, caixa 133: expulsão de Francisco Barbieri (1928). Auto de qualificação; caixa 142: expulsão de Vicente Perniconi (1928). Auto de qualificação.

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parte da historiografia do crime na América Latina, pouco nos serve para pensar quem eram esses dois italianos, a quem vemos nos retratos de frente e perfil arrumadamente penteados, ambos vestidos com terno, um com gravata, o outro com laço.

Dificilmente um gatuno do submundo sul-americano usaria essas vestimentas, teria a barba e a costeleta rigorosamente aparadas, e acumularia tantas milhas de viagem marítima como Francisco e Vicente. E menos ainda viajaria com o arsenal que a polícia encontrou na casa que ocupavam no Rio de Janeiro, enumerado no inventário e registrado por uma fotografia incluída nos expedientes.

e registrado por uma fotografia incluída nos expedientes. “Fotografia do interior de um dos quartos” Processo

“Fotografia do interior de um dos quartos” Processo de expulsão de Francisco Barbieri, 1928 (Arquivo Nacional, fundo IJJ7, caixa 133)

Na imagem podem ser vistos outros instrumentos não incluídos no inventário, como um par de bigodes falsos, usados para mudar o aspecto físico nos roubos ou nas viagens. Outra fotografia mostra duas camas do quarto que eles dividiam, cada uma com uma maleta de via- gem ao lado. Como os baús de Tremblié, equipados com fundo falso, as malas de Francisco e Vicente eram uma ferramenta a mais em seu instrumental de ladrões profissionais. Dessa vez, tiveram de usá-las para abandonar o Brasil forçados pela polícia. Segundo o procedimento de expulsão, o ministro da Justiça os declarou “elementos nocivos à sociedade e prejudiciais para os interesses da República” e decretou que abandonassem o território nacional. Em 8 de janeiro de 1929, Francisco foi embarcado rumo a Gênova no vapor Conte Verde e Vicente regressou à Itália no vapor Arlanza.

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Embora separados por muitos anos, os casos de Tremblié e dos italianos expulsos sugerem secretas ligações. Uma densa rede de circulações transatlânticas e regionais, alimentadas por um contexto geral de migrações maciças que sacudiam cidades e sociedades. Tecnologias que mudavam a duração das viagens e os tempos da comunicação. Sujeitos que transformavam essas tecnologias em novos modos de roubar nos quais a mobilidade territorial passava a ser fundamental.

Pedidos de extradição, pedidos de expulsão: múltiplas respostas, frequentemente insuficientes, para conter essas práticas delitivas que inquietavam cada vez mais os leitores de jornais. Esses leitores consumiam uma renovada imprensa policial que usava o telégrafo para difundir crimes de outros países, numa circulação que se dava não somente do Norte até o Sul (sem precisarmos ir tão longe, o affaire Tremblié foi acompanhado pela imprensa carioca e parisiense e Albert Ba- taille o incluiu na sua prestigiosa recopilação de Causes criminelles et mondaines). Por último, a incipiente polícia científica, desde as técnicas mais artesanais empregadas para identificar Farbos até as fichas datiloscópicas usadas nas expulsões, foi o resultado de uma densa trama de inter- câmbios internacionais. De Paris a Buenos Aires e do Rio da Prata aos principais portos brasileiros, escutava-se o mesmo clamor: onde havia ladrões viajantes, as polícias necessitavam de vigilantes cada vez mais modernos.

O espaço atlântico sul-americano

Os criminosos e os policiais que este livro seguirá circulavam em um espaço transnacional: a rota ultramarina que unia os dois grandes portos do rio da Prata (Buenos Aires e Montevidéu) com as cidades portuárias brasileiras e, atravessando o oceano Atlântico, com Lisboa, Porto, Vigo, Barcelona, Gênova, Nápoles e outros destinos europeus. Durante o século XIX, o Brasil imperial e as “Repúblicas do Prata” estreitaram vínculos, firmaram tratados de paz, comércio e navegação, intensificando, dessa forma, a circulação de pessoas e mercadorias. O grande fluxo de migrantes europeus e a modernização dos transportes incentivaram o crescimento dessas rotas.

As distâncias são algo mais que uma realidade física, segundo insistiu Braudel, o grande historia- dor do Mediterrâneo: elas têm uma dimensão temporal que depende diretamente da capacidade tecnológica para viajar no espaço. 4 Na extensa historiografia sobre as migrações internacionais, muito se discutiu sobre os fatores que impulsionaram o deslocamento de europeus e asiáticos para as Américas. Embora haja divergências sobre o peso concreto das inovações no transporte marítimo para a decisão de emigrar, ninguém duvida das transformações que o navio a vapor provocou nas viagens.

Os avanços na indústria naval levaram a uma substituição paulatina dos veleiros pelos vapores que, somada ao melhoramento dos motores, reduziu bastante o tempo da travessia. Nas décadas de 1850 e 1860, ao embarcar em um veleiro, o emigrante da península Ibérica encarava uma viagem de aproximadamente cinquenta dias, duração sujeita às inclemências do tempo e à sorte das correntes marítimas. No entanto, desde o início dos anos 1870, um vapor que partia de Lisboa

4 BraudEl, Fernand. La méditerranée et le monde méditerranéen a l’époque de Philippe II, p. 10-15.

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com destino ao Rio de Janeiro, sem escalas, demorava quinze dias, e do noroeste da Espanha até

o rio da Prata, cerca de vinte dias. Essas cifras se reduziram um pouco nas primeiras décadas do

século XX, mas ainda estavam longe do grande salto provocado pela introdução do navio a vapor. 5

A incorporação de novos materiais na construção dos cascos aumentou a capacidade de carga e

melhorou as condições da viagem transatlântica. Não apenas pela previsibilidade na duração do trajeto, mas pelo conforto a bordo, que até para os passageiros de terceira classe chegava a ser consideravelmente maior que nos veleiros.

As bases materiais do transporte ultramarino, o comércio e os circuitos de emigração delineavam, assim, este espaço atlântico sul-americano, que deve ser entendido como uma região historica- mente constituída e não como um território dado pelas características naturais, divisões políticas ou administrativas dos estados. 6

Espaço atlântico: não se trata aqui apenas de águas, mas de grandes cidades e portos, em um fragmento da rota marítima que se estende de Buenos Aires ao Rio de Janeiro. Espaço dinamizado por práticas sociais, agitado por um intenso movimento de homens e mulheres que convertiam as cidades em territórios de interação entre anônimos. Tanto no Brasil como na Argentina, os poli- ciais advertiam sobre novas experiências delitivas que muito tinham a ver com essas vicissitudes.

O recorte geográfico reforça, então, a hipótese de uma rota de circulações delitivas e policiais,

reconstruída com base nas fontes documentais. Indagar os vínculos “entre” Buenos Aires e Rio de Janeiro implica, ao menos, três movimentos. Em primeiro lugar, a delimitação de um espaço que constitui, ao mesmo tempo, algo mais e algo menos que um território cercado por fronteiras nacionais: algo mais, porque ultrapassa as linhas jurídicas que separam os países; algo menos, porque deixa de fora grande parte do imenso território da Argentina e do Brasil (neste caso, não apenas o interior como também os importantes portos de Salvador e Recife). 7 Em segundo lugar,

a definição de um ponto de vista: analisaremos os fluxos da rota traçada a partir dessas capitais

sul-americanas por meio dos escritos de seus políticos, jornalistas, literatos, mas igualmente dos policiais e das vozes de diversos sujeitos que ficaram registrados na documentação policial. Por último, apesar desses recortes, abundam no relato menções a outras cidades abrangidas nessa rota: Montevidéu, Porto Alegre, São Paulo e seu porto de Santos serão frequentes coprotagonistas,

em razão da espessa trama de relações que unia essas cidades com Buenos Aires e Rio de Janeiro.

Se delimitar o espaço implica uma operação de recorte, inevitavelmente surge uma série de exclusões geográficas nada irrelevantes. Recorde-se que os ladrões italianos expulsos em 1929

5 CosTa lEiTE, Joaquim da. O transporte de emigrantes: da vela ao vapor na rota do Brasil, 1851-1914; e moYa, José. Cousins and strangers: Spanish immigrants in Buenos Aires, 1850-1930, p. 35-43.

6 Constitui uma “região” no sentido que este termo adquire para a historiografia regional, embora frequentemente

seus estudos tendam a identificar-se com a história agrária e incluam poucas análises transnacionais. LINHARES, Maria Yedda; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Região e história agrária. BLACHA, Noemí Girbal de. La historia regional hoy: balances y perspectivas con enfoque agrario.

7 A tese de Cleide de Lima Chaves, ainda que centrada nas relações comerciais e no controle de epidemias de doenças infectocontagiosas em um período anterior, oferece um panorama sobre o espaço atlântico sul-americano através de uma rota mais ampla, que se estende do Rio da Prata até a Bahia. CHAVES, Cleide de Lima. De um porto a outro: a Bahia e o Prata (1850-1889).

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guardavam, em um quarto, mapas da rede ferroviária brasileira, do Paraguai e do Uruguai. Este simples dado é um indício, entre tantos outros, da existência de mais duas rotas frequentadas por criminosos viajantes, trajetos que ainda constituíam um desafio para os mecanismos de vigilância policial. A primeira dessas rotas pode ser traçada pelo que alguns autores chamam de “espaço flu- vial platino”: os dois grandes rios que formam a bacia do Prata, o Paraná e o Uruguai, confluem no grande estuário chamado rio da Prata, por cujas águas eles têm saída para o Atlântico. Navegável em quase todo o seu trajeto e ramificações, suas águas conectam cidades portuárias do litoral argentino (Rosário, Paraná, Goya, entre outras) e uruguaio (Salto), com os estados brasileiros do Rio Grande do Sul (Itaqui e São Borja) e Mato Grosso (Corumbá), e com cidades da Bolívia e Paraguai, começando pela capital do país, Assunção. 8

Durante a segunda metade do século XIX, esse espaço de grande movimentação cresceu como

articulador da economia regional em virtude da exportação de produtos primários para a Europa

e também pelas próprias relações comerciais entre os países. Junto com o comércio legal, con-

trabandistas, ladrões de gado e bandidos escolheram essas cidades de fronteiras elásticas para desenvolverem suas atividades, muitas vezes protegidos por fazendeiros e coronéis. Os ladrões viajantes utilizavam essas rotas fluviais para escapar da perseguição policial e para buscar novos

rumos em cidades onde o dinheiro circulava intensamente. 9

Tanto o “espaço fluvial platino” como o “espaço atlântico sul-americano” constituem regiões histó- ricas delineadas pelo comércio, pela circulação de pessoas e por uma infinidade de práticas que levavam os sujeitos a atravessarem as fronteiras. Evitaremos o recurso a outros conceitos mais uti- lizados entre os historiadores das relações internacionais, em particular a noção de “Cone Sul”. Esta enteléquia geopolítica tem fronteiras bastante confusas, que incluem os territórios da Argentina, do Chile e do Uruguai, embora alguns autores adicionem Bolívia e Paraguai, e às vezes o sul do Brasil. A debilidade do conceito de Cone Sul para a história transnacional não se limita à indefinição de seus limites, mas é aprofundada pelo caráter a-histórico desse espaço marcado por profundas assimetrias e durante muito tempo atravessado por territórios fracamente conectados entre si. 10

A isso se soma o problema das categorias identitárias, já que até o segundo pós-guerra não existia a

ideia do Cone Sul. Em troca, a expressão“sul-americano”havia adquirido uma força especial nos países meridionais, em oposição ao“pan-americanismo”promovido pela política exterior dos Estados Unidos com a intenção de tirar a Grã-Bretanha de sua posição privilegiada no continente. Quando policiais do Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai, Peru e Bolívia se reuniram em 1920 e discutiram um convênio para o intercâmbio de informações, chamaram a reunião de Conferência Sul-Americana de Polícia. Esta iniciativa de aproximação entre as polícias foi concebida nos congressos científicos latino- americanos, realizados em Montevidéu (1901) e no Rio de Janeiro (1905). Neste último, o argentino

8 MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de. Un ciclo comercial en la Cuenca del Plata (1850-1920).

9 A centralidade econômica do “espaço fluvial platino” foi analisada em duas teses de doutorado, que enfocaram problemas e períodos diferentes: MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de. A livre navegação dos rios Paraná e Uruguai: uma análise do comércio entre o Império brasileiro e a Argentina (1852-1889); e OLIVEIRA, Vítor Wagner Neto de. Nas águas do Prata: os trabalhadores da rota fluvial entre Buenos Aires e Corumbá (1910-1930).

10 Um panorama da historiografia do Cone Sul pode ser consultado nos diversos trabalhos que integram o volume

coletivo: RAPAPORT, Mario; CERVO, Amadeo Luiz (comp.). El Cono Sur: una historia común.

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Juan Vucetich propôs a criação de uma“polícia internacional sul-americana”, baseada em um convênio entre as dez repúblicas então existentes, não obstante Equador, Colômbia e Venezuela nunca tivessem participado das conferências. 11

Naquele ano de 1905, foi publicado um livro inovador intitulado La policía en Sudamérica. Tinha como autor Alberto Cortina, embora fosse patrocinado pela chefia de polícia da província de Buenos Aires e pelo próprio Vucetich, que então dirigia o Gabinete de Identificação Datiloscópica, na cidade de La Plata, capital daquela província. Além de incluir uma explícita diatribe contra a Doutrina Monroe e os interesses norte-americanos sobre a América Latina, Cortina expunha os motivos do caráter “sul-americano” dessas reuniões:

Cada instituição policial sul-americana tem que ser como uma porção de uma corrente de segurança pública, de alguma forma encadeada às demais; a corrente poderá ter anéis bem diferentes, segundo a organização e os meios, mas o fato de que se consiga encurralar com

ela a delinquência sul-americana, será um sucesso honroso e útil para todos. 12

Polícia sul-americana, criminalidade sul-americana. Apesar da aparente abstração, essas catego- rias giram, ao longo do livro, em torno da existência de um problema concreto: “hoje os maiores criminosos, cuja vida é impossível em um país, mudam com surpreendente facilidade graças aos cada vez mais fáceis e rápidos meios de transporte”, escreve Cortina. 13 Esta hipótese sociológica anunciava a presença dos ladrões viajantes que, assim como os anarquistas transumantes, tinham um alto grau de mobilidade entre os países sul-americanos abordados mais detidamente na obra (Argentina, Uruguai, Brasil e Chile).

A menção ao Chile indicava que a inquietação policial não se esgotava no espaço atlântico. De fato, outra rota sugerida pelos mapas que os ladrões italianos tinham guardado era a rede ferroviária. O trem conectava os grandes portos ultramarinos com cidades do interior, mas também com outros países da região, como o Chile, sobretudo depois da inauguração do Ferrocarril Transandino, em 1910. Essa via de transporte foi usada, por exemplo, por uma mulher chilena que a polícia de São Paulo acusou, em 1930, de “gatuna internacional” para iniciar seu processo de expulsão. Ela adqui- riu esse qualificativo não apenas por ser uma estrangeira no Brasil, mas pelas informações que a polícia paulista recolheu por meio da permuta de fichas de identificação com seus pares de Buenos Aires e Santiago. Se confiarmos no pressuposto que guiava essa rede de inteligência policial (quer dizer, que se tratava, em cada caso, da mesma pessoa), ela tinha nascido em Valparaíso, estivera detida quatro vezes em Santiago, acusada de diversos roubos, e ainda havia perambulado com sua profissão por Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo. Tinha então 27 anos e, nos arquivos policiais, fora registrada com cinco nomes diferentes. 14

11 VUCETICH, Juan. Congreso Policial Sudamericano: su necesidad y manera de promoverlo. In: TERCEIRO CON-

GRESSO Científico Latino-Americano (CCLA). A polícia argentina e a polícia brasileira.

12 CORTINA, Alberto. La policía en Sudamérica, p. 21.

13 Idem.

14 AN. Fundo IJJ7, caixa 131: expulsão de Aminta Victoria Palma (1930).

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A questão é que os criminosos viajantes se moviam por navios e trens, com frequência combinando

diversos meios de transporte. A rede ferroviária unia os grandes portos a cidades do interior, que,

como sugerem as crônicas da época, serviam muitas vezes de refúgio para ladrões perseguidos pela polícia. É preciso considerar a extensão dessa rede. Se nos primeiros anos da República o

Brasil tinha cerca de 10 mil quilômetros de vias férreas, na década de 1930 superaria os 30 mil quilômetros. A malha ferroviária argentina era ainda mais significativa. Enquanto em 1870 come- çava a se estender ao sul e ao oeste de Buenos Aires, com mais de 700 quilômetros de vias, até

o final do século, com incentivo dos investimentos britânicos, estava em torno dos 17 mil e, no início dos anos 1930, chegava a quase 40 mil quilômetros. 15

Considerando que o território do Brasil era o triplo do argentino, pode-se dimensionar melhor o alcance da densa rede ferroviária que tinha Buenos Aires como eixo e que, em meados do século XX, era uma das mais ramificadas do mundo. Na Divisão de Investigações da Polícia da Capital, existia uma “Seção de Embarcadouro” ocupada da vigilância dos portos e estações de trem. Um relatório de 1914 oferece uma radiografia do uso desses meios de transporte ao longo de um ano. Nesse período, haviam ingressado no porto 1.510 vapores de ultramar que transportaram 503.062

passageiros (somando entradas e saídas) e 4.565 navios procedentes do sistema fluvial em que viajaram 406.028 pessoas. Entretanto, o Ferrocarril del Sud – apenas ele – somava dez milhões de passageiros que entravam e outros dez milhões que saíam da capital por ano. Pelo Ferrocarril del Pacífico haviam entrado dois milhões de passageiros e um milhão havia saído. No total, incluindo

o movimento do Ferrocarril del Oeste, o Central Argentino, o Central Córdoba e outras linhas me- nores, o número total de viagens de trem era de aproximadamente 45 milhões por ano. 16

Transatlânticos, navios fluviais, trens. Entre o final do século XIX e o começo do XX, o espaço atlântico sul-americano aparece como um território marcado pela mobilidade. Muitos eram os que percorriam grandes distâncias, viajavam, buscavam novos rumos, instalavam-se em outro lugar. Embora os luxuosos vapores que chegavam aos portos e a extensão da rede ferroviária fossem percebidos como indiscutíveis sinais de progresso, os policiais levantavam a voz para advertir sobre os efeitos indesejados da modernização que se refletiam no mundo do crime. Em 1895, o futuro chefe da polícia carioca, João Brasil Silvado, expressava esta preocupação de uma forma certamente elegante. Assegurava que tinha visto na Europa como os criminosos aproveitavam as “vantagens dos trens de ferro, da abundância e velocidade destes”, que conectavam facilmente vários países nesse continente, onde “a locomoção é coisa facílima” e um passageiro podia “tomar um café em Berlim, almoçar em Liège e jantar em Paris, tudo no mesmo dia”. 17

Essa modernidade cinética chegou à América do Sul, desafiando, inclusive, suas colossais distân- cias. E com ela foram aparecendo diversas práticas delitivas que incorporavam os transportes ao modus operandi dos criminosos. Mais à frente, veremos que a cooperação internacional e a adoção de novas tecnologias, como o telégrafo, foram vistas pelos policiais como respostas necessárias

15 C ARDOSO, Ciro F. S.; PÉREZ- B RIGNOLI , Héctor. Historia económica de América Latina, v. 2, p. 69-75.

16 POLICíA de la Capital Federal. La Policía de Investigaciones: su misión, organización y funcionamiento, p. 34-36.

17 SILVADO, João Brasil. O serviço policial em Paris e Londres, p. 112.

Criminosos viajantes

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ante o avanço tecnológico da “criminalidade profissional”. Mas parte da sensação de descontrole das forças policiais emanava das próprias dificuldades para vigiar cidades que atravessavam transformações demográficas profundas, em cujas ruas se viam circular rostos novos a cada dia.

Fluxos aluviais

Nos primeiros anos do século XX, os leitores de folhetins e romances policiais sabiam das aven- turas dos criminosos viajantes. Talvez nunca tivessem visto um, mas conheciam as preocupações de Sherlock Holmes e os roubos de Arsène Lupin, o famoso gentleman-cambrioleur criado pelo escritor francês Maurice Leblanc. Fora do universo da ficção, embora totalmente articulada com

ele, a imprensa sul-americana oferecia notícias sobre esses ladrões cosmopolitas que percorriam

o mundo. 18 Os delitos contra a propriedade, como diziam os especialistas, haviam se convertido também em uma profissão internacional.

A criminalidade viajante nascia da revolução nos transportes, do incremento das migrações e do

desenvolvimento das cidades. As capitais situadas na rota atlântica sul-americana eram naquela época habitadas por imigrantes de distintos países, desembarcados havia anos, meses ou dias, mas sempre enfrentando o anonimato como um elemento da vida cotidiana. A figura do “recém- chegado” era central para a experiência urbana do Rio de Janeiro e Buenos Aires durante a belle époque, assim como era fundamental a preocupação sobre a suposta face perversa das imigra- ções massivas: o sujeito se infiltrava nas multidões de migrantes para ganhar muito dinheiro com pouco trabalho.

“Somos hospitaleiros até a imprudência, e por isto mesmo, e porque a vida é fácil, a vigilância pequena e a tolerância excessiva, o Rio vai se tornando um refúgio de criminosos escorraçados de todas as partes do mundo”, escrevia o literato brasileiro Elysio de Carvalho, diretor do Gabinete

de Identificação e Estatística da polícia carioca. Esta “invasão sinistra”, acrescentava, “exige que

a nossa hospitalidade seja mais circunspecta e que os nossos portos não se abram facilmente a

estes imigrantes heterogêneos que, longe de representarem a elite dos países donde procedem, são o rebotalho, a ralé, o excremento das populações estrangeiras”. 19

Os temores em relação aos criminosos viajantes se alimentavam de um discurso mais amplo sobre os efeitos nocivos da imigração descontrolada. Essa preocupação fin-de-siècle raramente apareceu entre os intelectuais liberais que projetaram as políticas populacionais para as novas repúblicas sul-americanas, em particular os argentinos, que tinham sido especialmente otimistas com a chegada dos imigrantes europeus. 20 As estratégias restritivas e seletivas do início do século

18 CARVALHO, Elysio de. Arsène Lupin, cambrioleur gentleman. In: Sherlock Holmes no Brasil, p. 139-142. Em português,

o livro de Maurice Leblanc, Arsène Lupin, gentleman-cambrioleur (1907), recebeu o título de Arsène Lupin, ladrão de casaca, tradução menos literal que a usada na obra em espanhol, Arsenio Lupin, caballero ladrón. A expressão “ladrão de casaca” já havia sido utilizada como título de um jornal que apareceu no Rio de Janeiro em 1867 (Os ladrões de casaca no Rio de Janeiro) e que denunciava a ação de diferentes criminosos de colarinho branco.

19 CARVALHO, Elysio de. A delinquência dos estrangeiros. Boletim Policial, Rio de Janeiro, ano VII, n. 6, p. 222-223,

jun. 1913.

20 HALPERíN DONGHI, Tulio. ¿Para qué la inmigración? Ideología y política en la Argentina (1810-1914).

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XX

apontavam precisamente para uma mudança nas regras do jogo de um processo que já levava

décadas. Ao longo do século XIX, a migração transoceânica adquiriu dimensões até então inéditas.

Em particular, o fluxo de migrantes da Europa para as Américas manteve números bem altos até a Primeira Guerra Mundial, e um pouco mais baixos nos anos de 1920, até sua eventual paralisação,

logo após a crise internacional de 1929. Apesar das diferenças entre as estatísticas dos países de emigração e das nações que recebiam os imigrantes, de 1815 a 1930, mais de cinquenta milhões

de pessoas deixaram a Europa rumo ao continente americano. Os Estados Unidos foram o país

que registrou o maior número de imigrantes nesse período (32,6 milhões), seguido por Canadá

(7,2), Argentina (6,4) e Brasil (4,3). 21

A presença da América Meridional como horizonte desse movimento migratório foi ainda mais

significativa a partir do último quarto do século XIX. Durante a etapa que ganhou o epíteto de “migrações maciças”, os portos do Atlântico sul-americano se apresentaram como destinos bas- tante atrativos. Embora os Estados Unidos mantivessem seu claro predomínio sobre os mais de trinta milhões de migrantes que chegaram às Américas entre 1881 e 1915 (o país recebeu cerca de 70% desse contingente), a Argentina passou a ocupar o segundo lugar acumulando quase 14% da

imigração europeia, e o Brasil assumiu o terceiro com 9%, pouco acima do Canadá. No entanto, se desconsiderarmos os países da América do Norte, a Argentina e o Brasil receberam nesse período quase a totalidade dos europeus que escolheram migrar para a América Latina. 22

A

maior parte desses imigrantes não era representada pelos camponeses das Ilhas Britânicas e

da

Europa setentrional que se orientaram em primeiro lugar para os Estados Unidos, tampouco

pelos alemães e italianos do norte que povoaram as colônias agrícolas de São Paulo, Santa Catarina

e Rio Grande do Sul antes de 1880. Nessa nova etapa, predominaram os imigrantes do sul e do

leste da Europa, a maior parte deles homens jovens, pouco qualificados, que buscavam mercados com maior demanda de mão de obra e, eventualmente, melhores salários. “Fazer a América” era

o lema que abreviava a expectativa de acumular poupança para regressar com dinheiro a seus

países de origem. Em muitos casos, esse retorno foi uma realidade: mais da metade dos italianos

e pouco menos da metade dos espanhóis que ingressaram na Argentina entre 1861 e 1920 volta-

ram à Europa. E no Brasil, considerando um período mais curto (1899-1912), retornaram 65% dos imigrantes que haviam desembarcado. 23

Esse ciclo esteve marcado por outros contrastes significativos, comparando-se os casos de Argen- tina e Brasil. Em primeiro lugar, as imagens que circulavam na Europa sobre as condições de vida em ambos os países eram bem diferentes. À grande quantidade de informações sobre maiores oportunidades de trabalho e melhores salários no Pampa argentino, somavam-se a perspectiva de encontrar em Buenos Aires um clima mais parecido com o europeu, o temor às doenças tropicais

no Brasil e o comentário disseminado sobre o tratamento quase escravista denunciado pelos tra-

balhadores das fazendas de café do vale do Paraíba. Esses fatores motivaram uma intensa política

21 BAINES, Dudley. Emigration from Europe, 1815-1930, p. 1-2. SILVA, Hernán; BRANDAO, Álvaro Santos et al. Inmi-

gración y estadísticas en el Cono Sur: Argentina, Brasil, Chile, Uruguay.

22 KLEIN, Herbert S. Migração internacional na história das Américas.

23 DEVOTO, Fernando. Historia de la inmigración en la Argentina, p. 73.

Criminosos viajantes

37

de propaganda e subsídios à imigração organizados pelo estado de São Paulo, enquanto na Argen- tina a política de passagens subsidiadas esteve limitada a um breve período na década de 1880. 24

Por outro lado, a imigração europeia teve impacto desigual nas mudanças demográficas dos países. Entre os censos de 1890 e 1940, o Brasil passou de 14,3 para 41,2 milhões de habitantes, podendo-se

dizer que quase triplicou sua população, enquanto a Argentina foi de 3,9 milhões, em 1895, para 14,1 milhões, em 1940. Este seria um aumento maior, mas a distância parecia mais ampla considerando

a participação dos imigrantes no crescimento vegetativo, que entre 1840 e 1940 foi de 58% na Ar-

gentina e 15% no Brasil. Isso fica claro na disparidade, entre os dois países, das taxas de imigrantes

sobre o total de habitantes segundo os censos nacionais: se, em 1914, representavam 30% da po- pulação argentina e 50% dos habitantes da cidade de Buenos Aires, em 1920 apenas superavam 5% da população do Brasil, alcançavam 15% dos habitantes da capital, Rio de Janeiro, e 35% da cidade de São Paulo (cujo estado concentrava mais da metade dos imigrantes do país). 25

Nas últimas décadas do século XX, foi tomando força um discurso que associava o aumento da população estrangeira à presença de uma criminalidade nova e a cada dia mais robusta. Essa ideia circulou – com diferentes nuances – de Buenos Aires ao Rio de Janeiro, abrangendo, obviamente, São Paulo. No Brasil, desde os primeiros anos republicanos já se ouviam vozes de advertência sobre os efeitos da imigração europeia no crime urbano. A construção de estatísticas criminais que desagregavam as taxas por nacionalidade era um sintoma dessa preocupação. De fato, dois importantes criminologistas brasileiros, José Viveiros de Castro e Cândido Mota, publicaram estudos que identificariam nessas estatísticas uma clara tendência nas taxas delitivas do Rio de Janeiro e de São Paulo: os espanhóis e os italianos se destacavam entre as ofensas físicas e os crimes contra

a pessoa; os russos, os alemães e os polacos dominavam o lenocínio; os portugueses costumavam ser golpistas hábeis e a população negra se impunha no mundo da gatunagem. 26

Durante a primeira década da República, manifestou-se na cidade de São Paulo um visível temor

em razão do aumento dos delitos. Nas estatísticas publicadas pela Secretaria de Justiça entre 1894

e 1916, os números relativos aos aprisionamentos coincidiam com a proporção de estrangeiros e

nativos que mostravam os censos. Mas a imprensa insistia no perigo dos “alienígenas” e das “etnias indesejáveis”, especialmente os italianos do sul e os judeus russos, que os jornais imaginavam se infiltrarem entre os trabalhadores honestos que entravam em massa pelo porto de Santos. 27 A produção de veracidade por meio de números estava presente também nos relatos do Boletim Policial, publicado no Rio de Janeiro pelo Gabinete de Identificação e Estatística. No primeiro exemplar, depois de analisar a informação recolhida, o chefe da polícia concluía, lacônico: “A nossa estatística criminal é tristemente desfavorável aos estrangeiros”. 28

24 BERNASCONI, Alicia; TRUZZI, Osvaldo. Las ciudades y los inmigrantes: Buenos Aires y São Paulo (1880-1930).

25 FAUSTO, Boris; DEVOTO, Fernando. Brasil e Argentina: um ensaio de história comparada (1850-2002), p. 174-178.

26 CASTRO, José Viveiros de. Ensaio sobre a estatística criminal da República; MOTA, Cândido Nogueira da. A justiça

criminal na capital do estado de São Paulo.

27 FAUSTO, Boris. Crime e cotidiano: a criminalidade em São Paulo (1880-1924), p. 71-81.

28 Boletim Policial, ano I, n. 1, Rio de Janeiro, maio 1907, p. 4. Ver, também, BRETAS, Marcos Luiz. Ordem na cidade:

o exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro, 1907-1930, p. 87.

38

Diego Galeano

Em Buenos Aires, essa sentença era muito mais enfática e sua pregnância se notava na imprensa, na literatura e nos círculos científicos. Desde a década de 1870, a polícia difundia, em seus relató- rios anuais, estatísticas criminais separadas por nacionalidade, e até o final desse século manteve um discurso institucional que frequentemente acusava os imigrantes pelo aumento dos delitos urbanos. 29 Esse tema foi privilegiado ainda nos textos criminológicos, entre eles um livro de Moyano Gacitúa, que Lombroso qualificou, após sua publicação em 1905, como “o trabalho mais importante de sociologia e antropologia criminal surgido nestes dois últimos anos e em ambos os mundos”. 30 Tratava-se, ao menos, de um minucioso estudo das estatísticas que abordava o vínculo entre crime, raça e imigração. O corolário do livro dirigia um questionamento à política imigratória projetada pelos intelectuais liberais, founding fathers da nação argentina, em parti- cular Juan Bautista Alberdi. Para Moyano Gacitúa, pouca atenção se prestara à necessidade de selecionar os estrangeiros que chegavam ao país, levando em conta que a raça latina (italianos, espanhóis, portugueses) era mais propensa a cometer delitos. Embora o diagnóstico indicasse que a sociedade argentina ainda não apresentava realidades criminais “aberrantes e irreversíveis”, era preciso ficar alerta porque “tudo que se conhece hoje como provocação atrativa do delito está aqui latente ou militante em palpitação”. 31

A tese da periculosidade da raça latina tinha sido difundida, paradoxalmente, por criminologistas

italianos cujos textos, sobretudo os de Enrico Ferri, foram lidos na Argentina com muito entusiasmo. As teorias da degeneração e do atavismo criminal tiveram inclusive ressonância na imprensa, nos folhetins e nos romances populares. Os livros ¿Inocentes o culpables?, de Antonio Argerich (1884),

e En la sangre, de Eugenio Cambaceres (1887), narravam histórias de italianos que se infiltravam

na sociedade portenha, ascendiam socialmente à base de enganações e simulações, casavam-se com argentinas e passavam a seus filhos as características mais brutais de sua raça. 32 No entanto,

além dessas ficções condenatórias e das frequentes paródias da imprensa satírica, houve vozes que se levantaram contra essas leituras, desde romances que narravam histórias de pacíficos e laboriosos imigrantes, até visões dissonantes de criminologistas que refutavam as estatísticas desfavoráveis aos italianos e espanhóis. 33

Ainda assim, a maior parte dos discursos técnicos e populares que apontavam a imigração europeia como responsável por uma eventual escalada do crime serviram de ponto de partida para se dis-

29 Alguns historiadores mostraram que o nexo entre crime e imigração não se sustentava nem sequer nos próprios

dados difundidos nas publicações da polícia, em que os argentinos estavam sobrerrepresentados em relação às es- tatísticas populacionais. Ver: GARCíA FERRARI, Mercedes. Ladrones conocidos/sospechosos reservados: identificación policial en Buenos Aires, 1880-1905, p. 73-75. BLACKWELDER, Julia Kirk. Urbanization, crime and policing: Buenos Aires, 1880-1914. Uma das análises estatísticas mais minuciosas entre as publicadas pela polícia na década de 1880 foi: CASARIEGO, Alberto Méndez. La criminalidad en la ciudad de Buenos Aires en 1887.

30 MOYANO GACITúA, Cornelio. La delincuencia argentina ante algunas cifras y teorías, p. VI.

31 Idem, p. 23. Elysio de Carvalho defendia a mesma ideia que Moyano Gacitúa: “são estas nações precisamente”,

escrevia apontando Portugal, Espanha e Itália, “as que ocupam os três primeiros lugares na estatística de homicídios na Europa”. CARVALHO, Elysio de. A delinquência dos estrangeiros. Boletim Policial, ano VII, n. 6, jun. 1913, p. 218.

32 ONEGA, Gladys. La inmigración en la literatura argentina (1880-1910), p. 58-90. LAERA, Alejandra. Representaciones

obliteradas: inmigrantes y extranjeros en la novela popular argentina del siglo XIX.

33 SCARZANELLA, Eugenia. Ni gringos, ni indios: inmigración, criminalidad y racismo en la Argentina, 1890-1940, p. 36-37.

Criminosos viajantes

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cutir as políticas de atração e recepção de migrantes. Em particular, será aberta uma lacuna entre a noção de “imigrante” (apontada na República Argentina pela Lei de Imigração e Colonização de 1876) e a de “estrangeiro”, termo com conotações cada vez mais pejorativas que será protagonista das leis de expulsão sancionadas no início do século XX.

O imigrante era visto como uma pessoa nascida em outro país, mas transplantada para as terras sul-americanas que devia laboriosamente cultivar, incorporando-se ao mercado de trabalho. Ao contrário, o estrangeiro era representado como um sujeito errante, sem pátria, domicílio fixo ou intenção de se estabelecer. Por isso, os esforços se concentraram em separar com clareza esses dois grupos (os imigrantes dos estrangeiros, os desejáveis dos indesejáveis), embora ambos viajassem nos mesmos navios e chegassem pelos mesmos portos.

Na Argentina, a ideia do “aluvião” foi uma metáfora poderosa para dar conta da massa humana que ingressava nos países do Atlântico sul-americano. Carregada de simbologias marítimas, aludia a esse fluir de corpos cujo principal defeito não era que fossem muitos, mas, fundamentalmente, que fossem anônimos, desconhecidos, estranhos. Nos fluxos aluviais, cada sujeito perdia singula- ridade, tornava-se parte de uma multidão na qual, segundo os policiais, era muito difícil distinguir os trabalhadores dos perigosos. A amalgamação era um desses símbolos que acompanhava a imagem do aluvião.

Outra imagem era a da ressaca causada pela maré: os indesejáveis eram comparados com as im- purezas abandonadas pela água quando ela se retira. A imigração, “como a ressaca que as ondas lançam às praias do mar, com espólios bons e ruins, também traz de tudo, bons e maus elementos”. 34 Nesses termos pensava também o policial carioca Vicente Reis sobre os crimes cometidos por “mão de estrangeiros, na maior parte evadidos das prisões” e “impelidos pela enxurrada imigratória”. Reis, assim como Moyano Gacitúa, entendia que os indesejáveis ainda não constituíam um mal irreversível. Mas, como em qualquer aluvião, o perigo latente era que se instalassem na terra como uma inundação perene. Esse “transbordamento caudaloso”, escrevia o jurista argentino, essa “inva- são dominadora do crime”, podia se derramar furiosamente pelo solo dos países sul-americanos. 35

Reincidentes, incorrigíveis e ladrões profissionais

Quem eram esses sujeitos indesejáveis, esses ladrões viajantes acusados de infiltrar-se nos in- terstícios da sociedade aluvial? Certamente não eram aqueles assassinos monstruosos que os criminologistas do século XIX consagraram como estereótipos de criminoso nato. Ainda que alguns se aventurassem a buscar neles anomalias, a indagar sobre eventuais estigmas degene- rativos, a leitura mais aceita era de que se tratava de profissionais do delito. Era um fenômeno que os policiais consideravam endêmico às grandes cidades, berço desses sujeitos que faziam do roubo, da fraude e da extorsão um modus vivendi. Esse fenômeno pouco tinha a ver com os crimes de sangue e nem seguia as oscilações dos pequenos furtos que, segundo mostravam algumas

34 Boletim Policial, Rio de Janeiro, ano IV, n. 1, jun. 1910, p. 8.

35 REIS, Vicente. Os ladrões no Rio, 1898-1903, p. 2. MOYANO GACITúA, Cornelio, op. cit., p. VII.

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Diego Galeano

estatísticas, aumentavam em períodos de escassez de oferta de trabalho. Esses “profissionais” não eram os únicos que cometiam crimes na cidade, embora, como dizia o comissário de Investigações da polícia portenha, fossem cada vez mais abundantes, a ponto de constituírem uma “numerosa colônia lunfarda que mina nos submundos da população”. 36

José G. Rossi escrevia isso na revista de criminologia mais importante da América do Sul, publi- cação então dirigida por José Ingenieros. O tom do artigo não era nada alarmista: a evolução da criminalidade em Buenos Aires parecia acompanhar o crescimento da cidade e suas tendências estavam em sintonia com as principais capitais do mundo. A gatunagem era pensada como um fenômeno sazonal, próprio da “fome e da escassez do inverno”, enquanto os ladrões profissionais trabalhavam durante todo o ano e inclusive aproveitavam, especialmente, “os períodos de relativa abundância, quando sorri o bem-estar dos bolsos”. E quantos eram esses ladrões?

A

Polícia de Buenos Aires conhece mais de dez mil lunfardos [gatunos] profissionais, aos que

se

devem agregar os residentes desconhecidos e as colônias viajantes, hábil e magistralmente

organizadas, que caem como enxames de gafanhotos, dão seus golpes e desaparecem da cidade. Somando os conhecidos e os desconhecidos, pode-se assegurar que a cifra de nossa população criminal oscila entre quinze e vinte mil ladrões profissionais. 37

O cálculo era bastante curioso: subtraindo da cidade a população de mulheres, crianças, idosos

e deficientes, sobravam uns duzentos mil homens economicamente ativos; então, Rossi concluía que em Buenos Aires havia um ladrão profissional para cada quinze trabalhadores. Embora seja difícil avaliar essas estatísticas, a própria inclusão do artigo nos Archivos, periódico editado por José Ingenieros, era um sinal da presença de um verdadeiro tema de época que inquietava igual- mente a criminologistas e policiais.

Desde a criação do Compte Général de la Justice da França, em 1825, o registro de delitos em séries de estatísticas criminais foi uma prática estreitamente relacionada à preocupação com a reinci- dência. 38 Esse velho dilema jurídico era levado em conta pelos codificadores sul-americanos. No Brasil, por exemplo, constava no Código Penal do Império (1830), no qual uma das circunstâncias agravantes era “ter reincidido em delito da mesma natureza”. 39

O autor do primeiro projeto de Código Penal da República Argentina também incorporou esta

variável em sua argumentação sobre as penas. Para Carlos Tejedor, o reincidente era alguém que, depois de ter sofrido uma condenação por determinado delito, repetia voluntariamente, em menos de dez anos, “um crime da mesma espécie”, e por isso deveria ser castigado com uma pena maior

36 ROSSI, José G. La criminalidad profesional en Buenos Aires. Archivos de Psiquiatría y Criminología, Buenos Aires,

v. II, n. 1, 1902, p. 169.

37 Idem, p. 172.

38 ALLINNE, Jean-Pierre. Gouverner le crime: les politiques criminelles françaises de la révolution au XXI e siècle,

p. 192-195.

39 Código Criminal do Império do Brasil: anotado com as leis, avisos e portarias publicados desde a sua data até o

presente, art. 16, p. 17.

Criminosos viajantes

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que a recebida antes. Essa concepção punitiva da reincidência, tomada de fontes diversas e em particular do Código de Baviera, estava vinculada à ideia de consuetudo delinquendi. Segundo Tejedor, o agravamento do castigo por presunção de “hábito criminal” tinha uma longa linhagem no direito romano, que remetia pelo menos ao Código de Justiniano. 40

Durante duas décadas, o projeto de Tejedor seria sancionado em apenas algumas províncias ar- gentinas e, logo após os conflitos armados que resultaram na federalização da cidade de Buenos Aires, foi aprovado como Código Penal, entrou em vigência em 1887 e se manteve com algumas reformas até 1921. Impôs-se, assim, um agravamento da pena por reincidência, cingido, como no Brasil, a crimes do mesmo tipo, restrição à que se somava o período de dez anos após o qual não se computavam condenações anteriores. Entretanto, no final do século XIX já se ouviam questionamentos a esse critério restritivo. Os próprios difusores da Escola Positiva tomavam a doutrina da defesa social para sustentar a necessidade de uma profilaxia mais estrita destinada aos reincidentes, considerados, em grande medida, como sujeitos incorrigíveis.

A classificação proposta por Enrico Ferri, em sua Sociologia criminale (1884), foi uma das mais aceitas

pelos criminologistas sul-americanos: nela, as figuras do delinquente nato e do louco criminal se distinguiam dos delinquentes passionais, ocasionais e habituais. 41 Sem aparentes estigmas he- reditários, os criminosos habituais eram, na classificação do brasileiro Cândido Mota, indivíduos que se inclinavam aos delitos contra a propriedade, movidos mais por debilidade moral que por tendências inatas ao crime. 42 Muitas vezes essa situação de anomia os colocava no centro de uma trajetória iniciada com um delito de ocasião, que com o tempo se tornava hábito e, ao longo de alguns anos, resultava na formação do que Rossi chamava de “lunfardo profissional”.

O argentino Francisco de Veyga dedicou grande parte de seus escritos a esse tema, e com uma visão

particularmente próxima do olhar policial. Em 1899, a polícia havia criado no chamado “Depósito de Contraventores” um observatório criminológico. Esse espaço funcionou como um laboratório anexo à cátedra de medicina legal, onde o professor Veyga e seus alunos estudavam os detidos. 43

Diante do escrutínio dos estudantes, desfilavam sujeitos que a Polícia da Capital prendia por contravenções como embriaguez, desordem e uso de armas, mas, segundo criminologistas, esta era uma porta de acesso privilegiada ao “mundo dos delinquentes profissionais”. 44

Em uma conferência intitulada Los lunfardos, Veyga ensaiava uma radiografia desse tipo de crimi- nalidade, que, de acordo com ele, tinha como contraparte os delitos de sangue. Enquanto no crime passional “tudo é dramático e sempre original”, o delito habitual era visto como “um ato mecânico,

40 TEJEDOR, Carlos. Proyecto de Código Penal para la República Argentina, p. 193-197.

41 FERRI, Enrico. Sociologia criminale, p. 194-218.

42 MOTA, Cândido. Classificação dos criminosos, p. 72-77.

43 OLMO, Rosa del. Criminología argentina: apuntes para su reconstrucción histórica, p. 14; CREAZZO, Giuditta. El

positivismo criminológico italiano en la Argentina, p. 169-172.

44 BARBIERI, Pedro. La clínica criminológica del Depósito 24 de Noviembre. Archivos de Psiquiatría y Criminología,

Buenos Aires, v. V, n. 4, 1906, p. 297.

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Diego Galeano

de simples execução e sempre motivado por uma mesma tendência”. 45 Por isso, pensava-se que

a criminologia devia intervir por meio de uma dupla tarefa de observação do modo de vida dos gatunos, e diagnóstico para a determinação de medidas de defesa social.

Todos esses criminologistas coincidiam em um ponto: a ineficácia do direito penal frente ao delito profissional. A reclusão em prisões não era apenas insuficiente, mas ainda se convertera numa espécie de momento de passagem entre o criminoso ocasional e o habitual. No lugar de regenerar o ladrão, a prisão o recebia ainda imaturo, oferecia treinamento criminal com “lições dos mais execráveis bandidos” e o devolvia à rua convertido em um verdadeiro incorrigível. 46

A queixa recorrente sobre os efeitos perniciosos das prisões, sua condição de escola informal

para as carreiras criminais, se aplicava, sobretudo, aos ladrões profissionais. “O novato ingressa na cadeia com a mais grosseira ignorância sobre estes tópicos”, explicava um policial argentino, “mas em breve um caridoso companheiro de desgraças, antigo hóspede do estabelecimento, lhe ensina estas noções; um par de entradas mais e nosso sujeito se torna criminoso e criminalista.” 47

No último quarto do século XIX, essa preocupação com a reincidência era compartilhada por vários países e havia ocupado um lugar central nos debates da União Internacional de Direito Penal, cujos integrantes propunham incorporar a noção de “estado perigoso” como fundamento do castigo. De acordo com os seguidores desta escola, a única forma de combater essa “criminalidade ambiente”, de caráter endêmico, era deixar de punir o sujeito pelo que fazia e começar a castigá-lo pelo que ele essencialmente era. 48 E se ele fosse incorrigível? Uma medida que começou a se fortalecer em diferentes países da América Latina foi o confinamento de reincidentes em ilhas e colônias penitenciárias. Esta prática não era uma novidade e havia sido empregada por diferentes impérios desde o século XVI: a Grã-Bretanha deportava criminosos para suas colônias, especialmente para

a Austrália; Portugal enviava prisioneiros ao Brasil e, durante o Segundo Império, a França impôs penas de trabalhos forçados para povoar a Guiana e o arquipélago de Nova Caledônia. Os países sul-americanos independentes também empregaram a pena de desterro, fosse para reafirmar sua soberania nos confins de seus vastos territórios (como fizeram Chile e Argentina com a região do estreito de Magalhães e as ilhas Austrais) ou para deportar os condenados por certos crimes

– estupro, falsificação de moeda e, inclusive, contravenções – às colônias penitenciárias, como sucedeu no Brasil com Fernando de Noronha e ilha Grande. 49

45 VEYGA, Francisco de. Los lunfardos: psicología de los delincuentes profesionales, p. 8.

46 MOTA, Cândido. Classificação dos criminosos, p. 72.

47 Necesidad de una ley de reincidencias. Boletín de Policía, Buenos Aires, v. I, n. 4, p. 7-8, 15 jun. 1905. Além do

Brasil e da Argentina, os discursos sobre o “fracasso” das penitenciárias modernas e seus projetos de ressocialização dos criminosos atravessaram quase todos os países latino-americanos: AGUIRRE, Carlos. Cárcel y sociedad en América Latina.

48 ANCHORENA, José M. Paz. La noción de estado peligroso del delincuente. Revista de Criminología, Psiquiatría y

Medicina Legal, Buenos Aires, n. 5, p. 129-157, 1918. Sobre os usos da noção de periculosidade na Justiça argentina, ver: SALVATORE, Ricardo. Sobre el surgimiento del estado médico legal en la Argentina (1890-1940).

49 Sobre as deportações para a ilha de Fernando de Noronha e para a ilha Grande, ver: COSTA, Marcos Paulo Pe-

drosa. O presídio de Fernando de Noronha no século XIX; e SANTOS, Myriam Sepúlveda dos. Os porões da república:

a barbárie nas prisões da ilha Grande, 1894-1945, p. 109-118.

Criminosos viajantes

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Porém, a novidade finissecular foi a legislação sobre o desterro de reincidentes, tendência iniciada em 1885 pelos republicanos franceses com uma lei que determinava a relegação dos malfeiteurs d’habitude a destinos coloniais. 50 Nesse caso não se tratava tanto do aspecto jurídico do agra- vamento da pena por reincidência (récidive), mas da afirmação do reincidente (récidiviste) como categoria autônoma no campo das políticas criminais. O ladrão habitual e profissional se tornou

a pedra de toque desse universo, o eixo das mais candentes reivindicações para endurecer as

penas. Se até então o vadio era um sujeito incorrigível por antonomásia, o clima punitivo do final do século XIX consagrou o reincidente como principal candidato a ser embarcado pela força e desterrado para sempre. 51

Esses ventos de mudança sopraram rapidamente na América do Sul, sobretudo nos países que recebiam grandes ondas imigratórias. Uma das características distintivas atribuídas ao ladrão profissional era a capacidade de escapar da justiça, uma habilidade que incluía, fre- quentemente, viajar até outro lugar quando a polícia já conhecia seu rosto. Os reincidentes modernos eram temidos pelo seu alto grau de mobilidade territorial, por suas astúcias para se disfarçar, alterar a fisionomia e ocultar a identidade. Durante a primeira metade do século XX, os debates sobre a legislação penal envolveram frequentes reclamações para endurecer os castigos por reincidência, uma batalha que os defensores da doutrina do estado perigoso travaram contra as leis existentes.

O Código Penal de 1890, sancionado no Brasil pouco depois da proclamação da República, man-

teve a limitação de agravar apenas as recaídas em delitos da mesma natureza, entendendo por isso as violações a um artigo idêntico do código. 52 Na Argentina, esse mesmo critério restritivo

estabelecido no Código de 1886 foi objeto de dois questionamentos diferentes. Em primeiro lugar, os partidários da doutrina da periculosidade argumentavam que os ladrões raramente se dedicavam a uma especialidade única, entre as muitas que tinham à disposição no mundo do roubo. 53 Em segundo lugar, aparecia uma crítica à decisão de limitar o agravamento da pena aos delitos com condenação definitiva. Alguns críticos usavam os prontuários policiais para explicar que 90% dos ladrões habituais passavam pela justiça sem serem condenados e por isso era ne- cessário sancionar uma lei que, baseada no conceito de estado perigoso, permitisse “afastá-los indeterminadamente do meio social”. 54

50 KALUSZYNSKI, Martine. Le criminel à la fin du XIX e siècle: un paradoxe républicain. In: GUESLIN, André; KALIFA,

Dominique (ed.). Les exclus en Europe, 1830-1930. Ver, também, GODFREY, Barry; DUNSTALL, Graeme (ed.). Crime and empire, 1840-1940: criminal justice in local and global context. EMSLEY, Clive. Crime, police, & penal policy: European experiences, 1750-1940, p. 37.

51 SOULA, Mathieu. Récidive et récidivistes depuis deux siècles.

52 CóDIGO Penal dos Estados Unidos do Brasil, promulgado pelo decreto n. 847, de 11 de outubro de 1890, art. 40.

53 Este ponto foi criticado por Piñero, Rivarola e Matienzo, os juristas argentinos que, em 1891, revisaram o código

vigente e fizeram uma proposta de reforma, embora ela não fosse aprovada e, como no Brasil, tenha sido mantido o critério restritivo. Ver: CREAZZO, Giuditta. El positivismo criminológico italiano en la Argentina, p. 77-82.

54 Reincidencia. Revista de Policía, Buenos Aires, v. XXIV, n. 561, 1º nov. 1921, p. 505-506. ANCHORENA, José M. Paz.

La noción de estado peligroso del delincuente. Revista de Criminología, Psiquiatría y Medicina Legal, Buenos Aires, n. 5, 1918, p. 138. DíAZ, Emilio. La reincidencia y el moderno concepto de la represión. Revista de Policía, Buenos Aires, v. XXI, n. 483, 1º ago. 1918, p. 317-318.

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De fato, apesar das resistências para reformar o Código Penal, o parlamento argentino aprovou, em 1895, uma lei que habilitava a pena de deportação após a segunda reincidência em delitos contra a propriedade, inspirada na legislação francesa de 1885. O lugar de reclusão era a ilha de Tierra del Fuego, um destino tão afastado de Buenos Aires que muitos dos prisioneiros termina- vam cumprindo sua pena somente com a duração da viagem de navio até o porto de Ushuaia. 55

O aguerrido jurista Enrique Zinny, partidário da pena de morte como medida de defesa contra

os incorrigíveis, lamentava que para os criminosos profissionais essa forma de deportação termi- nasse sendo percebida como “um breve passeio pelas ilhas do sul” antes de regressarem a Buenos Aires, verdadeiro “teatro de suas proezas”. Para Zinny, esse passeio, que ele também chamava de “descanso obrigatório” (de forma maliciosamente irônica, já que os presos viajavam entre dois

e três meses no armazém do navio com os pés acorrentados), deveria ser substituído por uma

deportação indeterminada às colônias rurais, única maneira de “aliviar a capital” dessa “praga de

delinquentes de ofício”. 56

Aos constantes pedidos de leis mais duras contra a reincidência, somaram-se, na Argentina, re- clamações para unificar os arquivos sobre antecedentes penais. O jurista Ernesto Quesada apre- sentou um projeto para a criação de um Arquivo de Reincidentes, no Ministério da Justiça. Além das discussões sobre a definição jurídica da reincidência, Quesada insistia sobre a necessidade de construção de um arquivo que os juízes pudessem usar para agravar as penas. Fazia tempo que em Buenos Aires era difícil saber quem era quem e, apesar de alguns policiais ainda se ufanarem de serem capazes de reconhecer a maioria dos criminosos habituais, a tática da memória visual estava totalmente ultrapassada pela realidade demográfica. “Quanto menos numerosa é a população de um lugar”, explicava Quesada, “mais viável é aquele sistema paternal de reconhecimento, porque nos vilarejos se conhecem todos, e a polícia, de olhos fechados, sabe qual é a vida e os milagres de cada um dos habitantes.” 57

Esse sistema de vigilância era usado informalmente desde o início da polícia portenha. Os agen- tes policiais depositavam certa confiança na capacidade institucional para observar in extenso o mundo da “gente do mal-viver”, conhecer quem eram os sujeitos que faziam do roubo sua forma de vida, registrar suas biografias no papel e reunir esses registros em arquivos. Sem dúvida, essa confiança se viu renovada nas últimas décadas do século XIX pelas possibilidades oferecidas pela fotografia. Os velhos livros de detenções e as filiações de criminosos (em que se anotavam nomes, pseudônimos, nacionalidade, idade, ocupações e descrições físicas) passaram a incluir retratos fotográficos. 58 Esta técnica foi utilizada para formar o que na Argentina foi chamado de “galerias de ladrões conhecidos”, coleções de retratos acompanhados de uma breve resenha da biografia delitiva, que chegaram inclusive a ser objeto de troca com outras polícias.

55 CAIMARI, Lila. Apenas un delincuente: crimen, castigo y cultura en la Argentina, 1880-1955, p. 69.

56 ZINNY, Enrique. La delincuencia en la ciudad de Buenos Aires: sus factores principales, p. 36-37.

57 QUESADA, Ernesto. Comprobación de la reincidencia, p. 57.

58 No final do século XIX, apareceram os primeiros álbuns fotográficos de criminosos no Brasil e na Argentina. Para

o caso argentino, ver GARCíA FERRARI, Mercedes. Ladrones conocidos/sospechosos reservados: identificación policial en Buenos Aires, 1880-1905, p. 55-111. E para o Brasil, KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. Negros no estúdio do fotógrafo: Brasil, segunda metade do século XIX, p. 205-259. PESAVENTO, Sandra J. Visões do cárcere.

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A categoria de “ladrão conhecido” teve um papel importante nas rotinas policiais desde a incor-

poração da fotografia, mas sua presença no mundo ibero-americano era de longuíssima data. Aparecia, inclusive, nas Siete Partidas do rei Alfonso X, em que se impunha pena de morte ao “ladrão

conhecido” que havia cometido vários roubos. 59 Esta expressão nunca adquiriu estatuto jurídico no período independente, nem formou parte de nenhum Código Penal, mas a polícia portenha

a incorporou em suas regulamentações internas. Em 1880, por exemplo, um decreto da chefia

observava que, para “efeitos policiais”, seriam considerados ladrões conhecidos aqueles sujeitos sentenciados por dois ou mais delitos contra a propriedade. Esse rótulo outorgava aos policiais o poder de submeter essas pessoas a uma “vigilância estrita e severa”, fotografá-las, distribuir seus retratos nas delegacias e pendurá-los nas paredes das repartições. 60 Na década seguinte, essas

prerrogativas foram ampliadas, permitindo que guardassem nos arquivos da Alcaldía de Policía (a cadeia da polícia) informações sobre sujeitos que tinham “o hábito de se juntarem com indivíduos retratados na galeria pública”. Além disso, cada vez que prendia um “L.C.” (sigla que começou a se popularizar para nomeá-los), a polícia devia expô-lo ao escrutínio de seus vigilantes, em uma ronda de reconhecimentos visuais para memorizar os rostos. 61

O projeto de Quesada apontava diretamente para as limitações desses registros de informação, que

considerava demasiado emaranhados na mecânica tão pouco legalista das suspeitas policiais. Além disso, havia o problema do alcance territorial dos arquivos. Por um lado, no caso dos imigrantes, era impossível agravar a pena computando condenações recebidas em seus países de origem, porque não existia um mecanismo confiável e simples para conseguir essa informação. E, ainda,

a própria Alcaldía de Policía registrava apenas os fatos delitivos da capital e isso significava que

sequer os crimes sancionados em outras províncias contavam na hora de avaliar a reincidência de um acusado. Mas a proposta de Quesada defendia a construção de um arquivo que diminuía

os privilégios da polícia e, por isso, foi uma das tantas disputas que a instituição manteve com o Poder Judiciário. Essa batalha se prolongaria até meados do século XX, quando se conseguiu criar

o

Registro Nacional de Reincidência graças ao sucesso da datiloscopia. 62

O

novo projeto obrigava os juízes a remeter uma cópia de suas sentenças a essa repartição recém-

criada do Ministério da Justiça, que ainda teria a seu cargo a elaboração de estatísticas criminais e carcerárias. Fora do alcance da polícia, o Registro Nacional de Reincidência guardaria essas infor- mações com caráter estritamente “reservado” e elas poderiam ser usadas apenas para responder pedidos formais do Judiciário. Embora os vigilantes não tenham manifestado grande resistência, pediram por meio de suas revistas que o chefe de polícia fosse designado como diretor “natural” da repartição, considerando que o arquivo policial reunia, naquele momento, mais de um milhão

59 LAS SIETE partidas del sabio rey d. Alfonso el X, tomo IV, p. 252.

60 MUJICA FARíAS, Manuel. Repertorio de policía: compilación de las disposiciones vigentes comunicadas por la

“orden del día” de la Policía de la Capital, 1880-1899, p. 303.

61 RODRíGUEZ, Adolfo E. Historia de la Policía Federal argentina, p. 177. Os policiais brasileiros também usavam as

expressões ladrão conhecido e gatuno conhecido. Ver BRETAS, Marcos Luiz. A guerra das ruas: povo e polícia na cidade do Rio de Janeiro, p. 105.

62 QUESADA, Ernesto. Comprobación de la reincidencia, p. 55-57. PROYECTO de ley. Registro Nacional de Reincidencia. In:

MEMORIA presentada al Honorable Congreso de la Nación por el ministro de Justicia e Instrucción Pública, tomo I, p. 11.

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de prontuários com informações sobre reincidentes e profissionais do delito, “minuciosas biogra- fias com infinidade de pormenores, utilíssimos, das atuações desses sujeitos”. 63 Mas, ao mesmo tempo, o autor trazia um argumento adicional que respondia diretamente ao problema do alcance territorial desses arquivos. Os prontuários e as fichas datiloscópicas que a polícia acumulava em seus armários não se limitavam a indivíduos domiciliados na cidade de Buenos Aires. Ainda que essa fosse a jurisdição que lhe correspondia, a Polícia da Capital trocava periodicamente infor- mações com outras polícias provinciais e, inclusive, “à maneira de gabinete central”, coordenava as permutas com países europeus e sul-americanos. 64

Assim chegamos a um ponto crucial. Muitos desses ladrões profissionais faziam parte dessas “colônias viajantes” às quais Rossi se referia, uma forma de migração derivada da lógica que governava suas práticas delitivas. Dedicados quase que exclusivamente aos atentados contra a propriedade, estavam longe daquilo que os criminologistas definiam como “delinquentes oca- sionais”. Ao contrário, os roubos eram para eles uma forma de vida, um ofício que se ensinava e se aprendia. Mover-se de um país a outro podia representar, nesse contexto, uma estratégia para buscar melhores oportunidades, escapar da perseguição judicial ou, ainda, ser parte do próprio modus operandi da especialidade, assim como sucedia com o tráfico de mulheres e com certas formas de estelionato.

As redes internacionais tecidas pela polícia constituíam um tipo de modernização paralela, in- formal na maioria dos casos, quase sempre à margem da justiça e dos consulados. Sem dúvida, a circulação transnacional de certos delitos foi o argumento privilegiado para justificar o avanço da cooperação entre policiais da América do Sul. Quando, em 1899, o presidente argentino, Julio A. Roca, empreendeu uma faustosa visita ao Brasil, Francisco Beazley, chefe da Polícia da Capital, integrou a comitiva que o acompanhou ao Rio de Janeiro. A chefia aproveitou a festiva ocasião para estreitar o contato com a polícia carioca, um diálogo que pretendia ampliar por fora da via diplomática. Diante da imprensa local, Beazley apresentava uma tese vital para a racionalidade que governaria os intercâmbios policiais. As capitais do Brasil e da Argentina eram para ele “os dois grandes centros de ação de delinquência sul-americana” e, quando a polícia de um país vigiava com rigor, “os amigos do alheio” decidiam migrar para refugiar-se no outro. 65

Esta tese pretendia explicar a intensa circulação de criminosos no espaço atlântico sul-americano, algo que o chefe de polícia e outros vigilantes portenhos diziam ter confirmado com seus próprios olhos no Rio de Janeiro. Quando da visita à Casa de Detenção da capital brasileira, encontraram vários ladrões bem conhecidos em Buenos Aires. 66 Esses eram os “reincidentes”, “incorrigíveis” e “delinquentes profissionais” que os policiais do Brasil e da Argentina começaram a perseguir com estratégias de colaboração internacional, envolvendo ainda outros países sul-americanos. As leis de expulsão de estrangeiros, sancionadas no começo do século XX, se converteriam em

63 El registro nacional de reincidencia y su instalación. Revista de Policía, Buenos Aires, v. XXI, n. 481, 1 jun. 1918, p. 271.

64 Registro nacional de reincidência. Revista de Policía, Buenos Aires, v. XXI, n. 487, 1 oct. 1918, p. 420-421.

65 Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 10 ago. 1899.

66 Idem, 13 ago. 1899.

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uma ferramenta de incomparável arbitrariedade, porque tornariam possível o velho sonho de se desfazer, literalmente, de parte dos “indesejáveis”. A mecânica concreta dessas expulsões inaugu- rou uma época de cooperação sem precedentes, coroada pelas duas conferências sul-americanas que tiveram lugar em Buenos Aires em 1905 e 1920. A cooperação policial sul-americana era uma novidade não apenas na região, mas no mundo todo.

Uma belle époque delitiva

Ao longo deste capítulo definiu-se o espaço atlântico sul-americano e analisaram-se as condi- ções tecnológicas que possibilitaram o traçado de suas rotas. Além disso, foram reconstruídos os discursos que denunciavam a presença de criminosos viajantes infiltrados entre os imigrantes e passageiros que dinamizavam essa vasta rede territorial. Falta agora examinar os nós dessa rede, as grandes cidades, particularmente as capitais da Argentina e do Brasil, e o ponto de partida é a última década do século XIX. A crise de 1890 afetou sensivelmente a vida nessas cidades. O crack financeiro se desencadeou em Buenos Aires e teve como efeito mais visível a quebra da companhia bancária Baring Brothers, provocada por seus investimentos no Rio da Prata e pela suspensão de pagamentos do Estado argentino. Embora a companhia tenha sido resgatada pelo Banco da In- glaterra, evitando que a crise se expandisse, o crash teve grande impacto na economia argentina, com a depreciação da moeda e revogação dos créditos.

As consequências chegaram ao Brasil no final daquele ano, derrubando os preços das ações e agravando uma instabilidade financeira que se arrastava desde a década anterior. Rui Barbosa,

primeiro ministro da Fazenda da República, deu continuidade à política de créditos outorgando

a diversos bancos o poder de emitir papel-moeda, o que provocou uma febre especulativa similar

à de Buenos Aires. Este processo ficou conhecido no Brasil como “encilhamento”, uma analogia

com a preparação dos cavalos antes das corridas. 67 Nos anos imediatamente posteriores à crise, produziu-se uma grande quantidade de relatos sobre a voracidade da cobiça nas grandes cida- des. Rio de Janeiro e Buenos Aires não apenas haviam se convertido em capitais republicanas e cosmopolitas, mas também no epicentro das especulações na bolsa de valores. Não foi por acaso que a Bolsa de Comércio se tornou a metonímia de todos os males e o cenário de romances que ofereciam uma espécie de assimilação literária da crise, como La bolsa, de Julián Martel, e O enci- lhamento, do visconde de Taunay. 68

A “febre do ouro” provocava uma forma particular de delírio, afundando os personagens dessas

ficções em uma busca desenfreada por dinheiro que sempre terminava na ruína, econômica e somática (enlouqueciam, adoeciam ou se suicidavam). Por isso, esses romances continham uma forte crítica à cidade moderna ou, melhor dito, à “vida espiritual” das metrópoles, usando uma

67 ROCCHI, Fernando. El péndulo de la riqueza: la economía argentina en el período 1880-1916, p. 37-40. Sobre o

encilhamento, ver: SCHULZ, John. A crise financeira da abolição, 1875-1901, p. 75-100.

68 MARTEL, Julián. La Bolsa (estudio social); TAUNAY, Visconde de. O encilhamento: cenas contemporâneas da Bolsa

do Rio de Janeiro em 1890, 1891 e 1892. Sobre esses romances, ver: LAERA, Alejandra. Danza de millones: inflexiones literarias de la crisis de 1890 en Argentina; e WASSERMAN, Renata Mautner. Financial fictions: Émile Zola’s L’argent, Frank Norris’ The pit, and Alfredo de Taunay’s O encilhamento.

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expressão de Georg Simmel. No mesmo momento em que se publicavam essas ficções financei- ras, o sociólogo alemão escrevia sobre a “intensificação da estimulação nervosa” como forma de

explicar a conexão entre o estilo de vida citadino e as interações monetárias. A cidade, sede indis- cutível das finanças, incrementava os processos mentais do cálculo abstrato, incitava o consumo

e excitava o sistema nervoso. 69

Nos romances de Martel e Taunay, a bolsa de comércio era uma metáfora do colapso geral das cidades e também de sua essência trapaceira. As capitais pareciam grandes montagens cenográfi- cas nas quais o dinheiro transmutava todo o tempo (de papel e moeda a títulos e ações), exibindo seu caráter artificioso. A “avareza destruidora” era, segundo esses escritores, responsabilidade dos adventícios rastaquouères. Os adventícios cariocas e portenhos apareciam representados por uma burguesia desprezível, vulgar, maniacamente voltada à busca de dinheiro e ao cultivo das aparências.

Esses romances protestavam contra os novos costumes e, por sua vez, revelavam que as fraudes e

a simulação não eram vícios exclusivos dos ladrões ditos “comuns”. As artimanhas dos falsários, dos vigaristas e dos impudicos “traficantes de carne humana” eram comparadas com as imoralidades dos novos-ricos, os trabalhos sujos elaborados nas elegantes corridas do hipódromo, as traições recíprocas dos sportsmen, as espertezas dos corretores da bolsa. Denunciavam, em suma, a ati- tude acolhedora com que a alta sociedade financeira recebia esses adventícios inescrupulosos, essa “multidão de especuladores, celebridades de um dia, formadas do nada graças às colossais

e fáceis operações da bolsa”. 70

As ficções financeiras faziam uma crítica que não se centrava nos vícios da plebe ou das chama- das “classes perigosas”. Embora o cenário narrativo fosse totalmente metropolitano, os cortiços, prostíbulos e casebres do submundo – temas prediletos do naturalismo vernáculo – ficavam em segundo plano. Seu lugar era ocupado por entidades bancárias, salões de baile, clubes e hipó- dromos, portadores de uma forma diferente de imoralidade. Nesse território, a Bolsa de Comércio era o eixo nevrálgico de todos os males ou, nas palavras de Taunay, o “centro miasmático” do qual emanavam todas as pestilências da febre do ouro. 71

As metrópoles sucumbiam à “febre imoderada dos desejos” e suas estruturas rachavam diante de uma cobiça que, segundo o criminologista Miguel Lancelotti, beirava as práticas criminosas. “As quebras fraudulentas, as falsidades de toda espécie” não tinham para ele outra explicação que “essa forma especial da vaidade humana que se traduz no amor ao luxo, ao toilette, às exibições aparatosas e deslumbrantes”. 72 Por isso advertia que a civilização moderna havia acarretado um

69 SIMMEL, Georg. Las grandes ciudades y la vida del espíritu. Cuadernos Políticos, México D. F., n. 45, p. 5-10, 1986.

Sobre a sociologia urbana de Simmel, ver FRISBY, David. Paisajes urbanos de la modernidad: exploraciones críticas,

p. 119-177.

70 MARTEL, Julián, op. cit., p. 152.

71 TAUNAY, Visconde de, op. cit., p. 301. A literatura modernista do século XIX soube elaborar um relato crítico a

respeito do culto ao dinheiro e ao consumo desenfreado, instalando uma suspeita sobre o próprio caráter civilizatório das grandes cidades. Ver SCHORSKE, Carl E. The idea of the city in European thought: Voltaire to Spengler, p. 103-104.

72 LANCELOTTI, Miguel A. El factor económico en la producción del delito. Criminalogia Moderna, Buenos Aires,

v. III, n. 16, feb. 1900, p. 496.

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tipo peculiar de miséria que não se esgotava nos infortúnios da pobreza. Esta “miséria dourada” alcançava a todos os estratos da alta sociedade, disposta a “recorrer a artifícios ilícitos e ilegais” para satisfazer seus inescrupulosos luxos.

Durante a belle époque, os cronistas da imprensa portenha e carioca ofereceram imagens de cida- des certamente preocupadas com a ostentação. Se Paris era o modelo a seguir, a modernização urbana chegou muito mais cedo a Buenos Aires do que ao Brasil, em meados da década de 1880, quando o prefeito Torcuato de Alvear iniciou uma série de inovações cirúrgicas que lhe valeram o apelido de “Haussmann argentino”. 73 A abertura da avenida de Mayo, grande bulevar de inspiração parisiense, com suas largas calçadas e seus cafés afrancesados, avançou graças à demolição de uma parte do centro colonial. 74 Após a inauguração, em 1890, foram sendo construídos, ao seu redor, hotéis luxuosos desenhados por arquitetos europeus e, com o tempo, a avenida se transformou num verdadeiro cartão-postal da modernidade portenha.

Também se destacava a rua Florida, o espaço das lojas mais sofisticadas, que em 1900 recebeu o presidente brasileiro Campos Sales com uma deslumbrante instalação de iluminação elétrica. Se prestarmos atenção aos relatos de brasileiros que viajaram a Buenos Aires nas três primeiras décadas do século XX, além de reafirmarem a fama de cidade europeia, sobressai a admiração que provocava sua fachada mais aristocrática. “A capital platina caracteriza a sua equiparação aos grandes centros cosmopolitas do globo: seus hotéis são monumentos”, escrevia Artur Dias, jornalista integrante da comitiva que acompanhou Campos Sales em sua visita. 75 Por sua vez, Mario Cattaruzza, em um livro que trazia uma visão muito mais crítica de sua estadia na Argentina, opinava que, ao lado da avenida de Mayo, “os grandes boulevards de Paris não têm nada de superior”. 76 A mesma impressão teve outro jornalista em 1916, quando viajou com uma delegação diplomática encabeçada por Rui Barbosa para assistir aos festejos pelo centenário da Independência. “Há certamente em Buenos Aires um pouco de ostentação de riqueza”, concluía após um passeio pela avenida Alvear, Palermo e seu hipódromo, cujos passeantes lhe outorgavam “um aspecto tão distinto como as dos prados de Paris e Londres”. 77 Por último, Luiz Amaral revelava, ainda em 1927, a persistência desse olhar:

Luxa-se muito em Buenos Aires. Os homens apuram os trajes, exigindo grandes esforços dos alfaiates. As senhoras ostentam-se engalanadas com os melhores tecidos e demonstram gosto apurado. É muito importante a indumentária na capital portenha. A falta de elegância deixa qualquer pessoa em situação de desprezível inferioridade. À primeira vista, tem-se a impressão de que em Buenos Aires só vivem milionários. 78

73 Embora o mito da cidade europeia estivesse fortemente ligado às reformas de Alvear, a inspiração francesa

na trama urbana de Buenos Aires existia desde muito antes. Uma genealogia desse mito pode ser encontrada em GORELIK, Adrián. ¿Buenos Aires europea? Mutaciones en una identificación controvertida, p. 71-94.

74 BRAUN, Carla; CACCIATONE, Julio. El imaginario interior: el intendente Alvear y sus herederos.

75 DIAS, Arthur. Do Rio a Buenos Aires: episódios e impressões d’uma viagem, p. 90.

76 CATTARUZZA, Mario. Buenos Aires: aspectos da cidade, o Congresso Pan-Americano, p. 24.

77 BRANT, Mario. Viagem a Buenos Aires, p. 70.

78 AMARAL, Luiz. A mais linda viagem: um “raid” de vinte mil quilômetros pelo interior brasileiro, p. 51.

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Mas, ao contrário do que sugeriam alguns desses relatos, o Rio de Janeiro da belle époque não pare- cia estar tão atrasado em suas pretensões de metrópole moderna. Assim como Buenos Aires, havia ultrapassado a faixa de um milhão de habitantes e podia se orgulhar de ter seu próprio Haussmann:

sob a mesma racionalidade política que orientou as reformas urbanas de Paris e Buenos Aires (edificar uma cidade moderna a partir dos seus escombros), o prefeito Francisco Pereira Passos iniciou uma série de demolições no velho centro, prolongando ruas e abrindo amplos bulevares. 79 A glamourosa avenida Central, inaugurada em 1905, nada tinha a invejar de sua antecessora portenha com os edifícios de estilo eclético que foram construídos ao longo de seu trajeto.

eclético que foram construídos ao longo de seu trajeto. Avenida Central S.a. [1906] Coleção Fotografias Avulsas,

Avenida Central S.a. [1906] Coleção Fotografias Avulsas, Arquivo Nacional.

Era precisamente o aspecto ostentoso dessas vias e de seus passantes o que incomodava alguns escritores, fundamentalmente os críticos das políticas urbanas que modernizavam as cidades expulsando as classes populares do Centro. Era o caso de Lima Barreto: em 1915, condenava es- sas “elegâncias idiotamente binoculares” que se multiplicavam junto com os bulevares. Para esse flâneur dos subúrbios cariocas, o Rio de Janeiro corria atrás da ilusão de parecer Paris ou, o que era ainda pior, sua versão sul-americana. “A obsessão de Buenos Aires sempre nos perturbou o julgamento das coisas”, insistia enfurecido com as fantasias de imitar essa cidade de longas ruas retas, realidade que julgava impossível para a geografia local interrompida por gigantescos mor-

79 BENCHIMOL, Jaime. Pereira Passos, um Haussmann tropical.

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“Buenos Aires. Os palácios da avenida de Mayo” Arthur Dias, Do Rio a Buenos Aires

“Buenos Aires. Os palácios da avenida de Mayo” Arthur Dias, Do Rio a Buenos Aires, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1901, p. 90.

ros. 80 Por isso ironizava os discursos que enalteciam a “rainha do Prata”, essa “verdadeira capital europeia”, essa cidade tão “limpa, bonita, elegante”, diante da qual o Rio de Janeiro ficava reduzido a uma mísera “estação de carvão”. 81 Edificar uma cidade europeia à custa da destruição e negação de outra cidade que agora sobrevivia nos subúrbios da capital: essa era a denúncia dirigida por Lima Barreto contra o culto às aparências.

Mas Buenos Aires também teve seus cronistas maldizentes da belle époque. Inclusive no momento de maior otimismo, em plenos festejos pelo primeiro centenário da Revolução de Maio – enquanto ilustres visitantes franceses, como Georges Clemenceau ou Jules Huret, estavam cheios de elogios em relação à Argentina –, o jornalista espanhol Miguel Toledano (com pseudônimo de Miguel Gil de Oto) chamava o país de “nação da quimera e da mentira”. 82 Para Toledano, Buenos Aires vivia um “delírio de grandeza”, imensa mise-en-scène pronta para desmoronar-se em pedaços a qualquer momento. O suporte era, por enquanto, essa grande montagem construída sobre o luxo fictício, por uma aristocracia rural que não pudera extrair nenhuma lição da crise de 1890. “Argentina é um país onde a confiança e o crédito são a base e essência da prosperidade e da vida”, escrevia Gil de Oto, “o governo, o comércio, as indústrias, os que têm algo e os que carecem de tudo, necessitam fingir um bem-estar que não gozam, para conseguir plata [grana].” 83

80 LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. A volta. In: Toda crônica, v. 1: 1890-1919, p. 166.

81 LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Recordações do escrivão Isaías Caminha, p. 136.

82 GIL DE OTO, Manuel. La Argentina que yo he visto, p. 151. Sobre Buenos Aires e os festejos do centenário, ver

SALAS, Horacio. Buenos Aires 1910: capital de la euforia, p. 41-54.

83 Ibidem, p. 44-45.

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Uma coisa não se pode negar: de Julián Martel a Alfredo de Taunay, de Lima Barreto a Gil de Oto,

a inquietação com os modos de circulação do dinheiro nas cidades estava vinculada à “simulação”.

Na Argentina, tornou-se um verdadeiro tema de época, tratado com igual fervor em textos cien- tíficos de criminologia e ensaios de interpretação nacional. A onda imigratória havia convertido Buenos Aires em um cenário de interações entre desconhecidos, uma massa confusa em que se misturavam todos os tipos de sujeitos. Assim imaginava José María Ramos Mejía, em Las multitudes argentinas, quando descrevia essa tipologia de arrivistas na qual despontavam duas variedades dos chamados guarangos: o canalha (“que ascendeu pela escada do bom vestir ou do dinheiro”) e

o burguês (“milionário improvisado nascido do sortilégio da loteria”). 84 Manuel Gálvez se mostrava

ainda mais preocupado com a simulação: o argentino, “superficial e exibicionista, tem a arrogância do ignorante metido e pratica um arrivismo desenfreado, ostentando seus desejos de rastaquouère

e sua forçada teatralidade”. 85

Os “vícios da cosmopolita Buenos Aires” faziam da cidade um teatro de simulações em que se usa- vam “todos os meios fraudulentos possíveis”: para Gálvez, simulavam-se o talento, a honestidade,

os vínculos sociais e políticos, a riqueza, o estudo, a fortuna com as mulheres, a fama literária ou científica. A sombra do adventício atravessava todas as conversações do patriciado portenho, se infiltrava nos bailes e revelava que seus espaços de sociabilidade eram mais permeáveis do que

a elite desejava. De fato, apesar de um dos seus filhos prediletos, Miguel Cané, sugerir de forma irônica que reconhecia os adventícios nos salões porque entravam “tropeçando com os móveis”, os contornos da alta sociedade eram certamente mais cinzentos. 86

Um espanhol que chegou a Buenos Aires em 1912, disposto a desfrutar de sua afamada vida noturna, fez uma leitura semelhante da situação. O “Conde Terol de Palma” havia tomado, no porto de Vigo, o vapor Cap, ocupando um luxuoso apartamento de primeira classe junto a duas mulheres, aparentemente sua esposa e sua sobrinha. O cronista da revista argentina Sherlock Holmes contava que, desde a viagem, o suposto conde começara a fazer bons contatos com ca- valheiros portenhos, diante dos quais demonstrou “atitudes de causeur e esportista insuperável”. Chegando a Buenos Aires, instalou-se em um dos melhores hotéis da avenida de Mayo e, pouco depois, embarcou as mulheres que o acompanhavam com destino ao Peru, onde dizia ter ações em minas de metais preciosos. Nesse momento, iniciou uma conquista da noite portenha que, graças à sua vestimenta e a certo ar de nobreza europeia, abriu-lhe as portas dos grandes salões. Aí se mostrou pouco preocupado com o que gastava, comprou custosos presentes a cantoras de cabaré e perdeu fortunas nas mesas de jogos dos clubes. 87

Talvez esse caso nunca tivesse repercutido se um empregado do hotel não o descobrisse uma noite, depois das três da madrugada, tentando roubar o quarto de outro hóspede. Na realidade, o suposto conde era o que os franceses chamavam de rat d’hôtel, ladrão especializado em desfalcar

84 RAMOS MEJíA, José M. Las multitudes argentinas, p. 320.

85 GÁLVEZ, Manuel. El diario de Gabriel Quiroga: opiniones sobre la vida argentina, p. 122.

86 CANÉ, Miguel. De cepa criolla, p. 124.

87 Los bribones aristocráticos. Sherlock Holmes, Buenos Aires, v. II, n. 68, p. 22-25, 15 oct. 1912. Sobre este caso, ver

também La nota policial: un personaje misterioso. Caras y Caretas, Buenos Aires, n. 733, p. 90-91, 19 oct. 1912.

Criminosos viajantes

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habitações do próprio lugar em que se hospeda. O criminalista Edmond Locard definia essa figura como um delinquente com aparência de verdadeiro homme du monde, habituado a chegar ao seu destino com malas cobertas dessas etiquetas de cores que indicavam a passagem pelos hotéis mais luxuosos da Europa. 88 A imprensa fez eco deste curioso ladrão aristocrata, uma “encarnação do banditismo cavalheiresco” que o cronista imediatamente associava a essa “malandragem de alto tom que desfilava ante os olhos atônitos dos espectadores de cinematógrafos”. 89 Na realidade, os delinquentes gentleman alcançariam fama especial na indústria do cinema, para onde se tras- ladou a devoção dos leitores pelos casos de assassinos seriais, estelionatários e ladrões viajantes que faziam uso dos mais modernos transatlânticos, telégrafos e, a partir do século XX, também de telefones, automóveis e aeronaves.

Fantômas foi, sem dúvida, uma das séries mais famosas e, como mostrou Dominique Kalifa, seu êxito denotava uma mutação na topografia do imaginário criminal. Paris estava perdendo sua condição de capital mundial da ladroagem, não apenas pela emergência dos Estados Unidos e seus gangsters, mas também pela aparição de inúmeras histórias que tratavam de um universo mais policêntrico, um espaço mundializado com gatunos que transitavam com suas ações por vários continentes. 90 No entanto, mesmo considerando a complexidade da relação entre as repre- sentações do crime e o seu devir concreto como prática social, proliferam os indícios da existência dessas novas formas delitivas, além de suas manifestações literárias e cinematográficas. Embora frequentemente incorram em excessos e dramatizações monumentais, jornalistas e literatos davam conta de algumas mutações efetivas nas trajetórias criminais.

O rato de hotel era um dos estereótipos do ladrão viajante, junto do punguista internacional, dos falsificadores de moedas e de alguns vigaristas. Além de certo nível de mobilidade territorial, era identificado por duas qualidades que o distinguiam dos pequenos ladrões urbanos. Em primeiro lugar, seu aspecto físico, em particular a vestimenta: “o ladrão dos nossos dias é um tipo como qualquer um de nós”, opinava o escritor brasileiro Elysio de Carvalho, já que, “vestindo-se com apurada elegância”, conseguia “todas as aparências de um verdadeiro gentleman”. 91 Similar impres- são causava ao delegado Alberto Dellepiane, o canfinflero, palavra da gíria portenha que aludia aos exploradores de mulheres. O policial arremetia contra este personagem, cuja elegância não negava, dirigindo igualmente seu discurso a uma cidade que exigia das pessoas apenas um sem- blante atraente, apresentar-se diante dos demais como “elementos triunfadores” e, na medida do possível, “sem ostentar o menor sinal de pobreza, único e exclusivo sinal que a sociedade rejeita”. 92

88 LOCARD, Edmond. Le crime et les criminels, p. 100-104.

89 Los bribones aristocráticos, op. cit., p. 22.

90 KALIFA, Dominique. La fin des classes dangereuses? Ouvriers et délinquants dans la série Des Fantômas (1911-

1913). In: KALIFA, D. Crime et culture au XIX e siècle, p. 116-129.

91 CARVALHO, Elysio de. História natural dos malfeitores: apontamentos. Boletim Policial, Rio de Janeiro, ano VII,

n. 6, jun. 1913, p. 143.

92 dEllEPiaNE, Alberto. El canfinflero. Sherlock Holmes, Buenos Aires, v. II, n. 58, 6 ago. 1912, p. 29. Ver também

MARIUS, Hugo. Plagas sociales: el canfinflero. Revista de Policía, Buenos Aires, v. XV, n. 357, 1 abr. 1912, p. 186.

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A segunda qualidade distintiva dos criminosos viajantes eram seus modos. Certo physique du

rôle delicado era necessário para ingressar em hotéis sem inspirar desconfiança, estabelecer con-

versações na primeira classe dos transatlânticos ou se aproximar de um cavalheiro para propor algum negócio. No Brasil, inclusive, vários deles ostentavam o título de “doutor” em alguns dos múltiplos pseudônimos que acompanhavam uma carreira delitiva. “Dr. Antônio” era o nome mais conhecido de Arthur Antunes, um rato de hotel que passou à fama porque suas memórias foram

publicadas. 93 Dr. Anísio e Dr. Cornélio eram dois dos ladrões que Elysio de Carvalho chamou de “moços bonitos” quando, em 1913, anunciou – com certo ar de paródia – que haviam acabado os tempos dos “ladrões de galinhas, sujos e repelentes”. 94 Ainda na década de 1930 se podiam ver

os retratos de alguns deles, como José Augusto Braga (Dr. Braguinha) e Paulo Alves Ferreira (Dr.

Junqueira), vestidos com elegantes trajes em um álbum fotográfico de ladrões cariocas. 95

O Dr. Antônio e o falso Conde Terol de Palma, assim como o esquartejador Raoul Tremblié, a qua-

drilha de ladrões viajantes italianos e outros tantos personagens cujas histórias iremos reconstruir

ao longo deste livro, não integravam as fileiras dos desclassificados da modernidade, essas “classes

perigosas” que, junto aos anarquistas e comunistas, pareciam monopolizar a atenção das polícias latino-americanas. Se seu status social era difícil de definir, não se pode duvidar de sua atitude blasé diante das lutas políticas. De quase todos, pode-se repetir o que já foi dito sobre a Camor-

ra, Al Capone e os pistoleiros de Chicago: “em geral, para eles eram indiferentes os movimentos

revolucionários”. 96 Ao contrário, sem ser capitalistas nem proletários, dedicavam-se a aproveitar

as estupendas oportunidades delitivas que o ethos burguês tornava possíveis, condição que pro-

vavelmente os relegou a uma categoria residual para a sociologia e a história do crime.

De qualquer maneira, devemos ser cautelosos em um ponto: o fato de se ter prestado escassíssima

atenção a essa sorte de belle époque delitiva não implica que os contemporâneos tivessem poucas no-

tícias sobre o fenômeno. Junto aos poeirentos papéis dos arquivos policiais, muitos são os documentos impressos que testemunham a existência dessa aristocracia do roubo tão frutífera no início do século

XX e, além disso, as vozes não são desconhecidas. Cronistas prestigiosos na imprensa carioca, como

Elysio de Carvalho e João do Rio, narraram tantas histórias de ladrões viajantes quanto os argentinos Eduardo Gutiérrez, Fray Mocho ou Roberto Arlt, e nenhum deles o fez com uma frase tão requintada

como a que o poeta Olavo Bilac registrou na Gazeta de Notícias de 10 de novembro de 1907:

Nesta época de hipercivilização, em que os gatunos e os meliantes de toda espécie deixam

de ser maltrapilhos e pés-no-chão, e apresentam-se como cavalheiros de mais fina sociedade,

(como é que

seria injusto que não lhes déssemos uma polícia digna deles, uma polícia tão

se diz agora?)

tão smart, tão dernier bateau, tão up-to-date como eles. 97

93 DR. ANTôNIO. Memórias de um rato de hotel: a vida do Dr. Antônio narrada por ele mesmo.

94 CARVALHO, Elysio de. História natural dos malfeitores: notas e crônicas. Boletim Policial, Rio de Janeiro, ano VII,

n. 4, p. 58-65, abr. 1913.

95 Ver os retratos, sem numeração de páginas, ao final do livro de PEDREIRA, Rolando. Lições de polícia prática

(seguida de uma galeria dos principais habitués das prisões do Distrito Federal).

96 ENZENSBERGER, Hans M. La balada de Chicago: modelo de una sociedad terrorista, p. 105.

97 BILAC, Olavo. Crônica, 10 nov. 1907, p. 850.

Criminosos viajantes

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