Kamile Girão e Editora Wish

2016 - 2017
Todos os direitos reservados
Capa e diagramação: Marina Avila
Leitura crítica: Alba Marchesini Milena
Revisão: Tayanne Alves

“— O senhor é mesmo muito bondoso, — disse Bela. —
Confesso que o seu coração me agrada muito. Quando penso nele,
o senhor não me parece tão feio.
— Ah, senhorita, é verdade, — respondeu a Fera. — Tenho
um bom coração, mas sou um monstro.
— Muitos homens são mais monstruosos, — disse Bela,
— e gosto mais do senhor com essa aparência que daqueles que,
por trás da aparência de homens, escondem um coração falso,
corrompido, ingrato.”

A Bela e a Fera

13 de abril, 2012

capítulo 1

Quando terminei de passar o delineador, acreditei que finalmente estava pronta.
Encarei o rosto no espelho. Os olhos
claros daquele falso eu, embora relativamente
pequenos, pareciam mais destacados por conta
da maquiagem escura, e o gloss, de cor terrosa,
ressaltava a boca. Levei uma mão aos meus
cabelos compridos e a imagem me imitou,
deslizando as unhas vermelhas por entre os
fios loiros. Eu e o reflexo nos encaramos, nos
estudando e procurando defeitos escondidos
por debaixo de qualquer detalhe.
Mas não havia nada de errado. Eu
estava perfeita.
Joguei meu cabelo para o lado e me
analisei no espelho pela última vez. O blush
forte e a pintura marcada dos olhos me envelheciam o bastante para que eu pudesse
entrar na festa sem ser barrada. A roupa
também havia sido escolhida com o mesmo
objetivo: o vestido era um tomara-que-caia
verde e super colado, com estampa floral, que
delineava minhas curvas e dava volume aos

meus modestos seios. De adereços, escolhi apenas dois anéis e um
brinco pequeno. O salto prateado que calçava aumentava a minha
altura em, pelo menos, quinze centímetros. Vibrei, cem por cento
certa de que a noite seria a noite. Definitivamente, eu não parecia
ter dezesseis – quase dezessete – anos, o que validava todas as três
horas gastas na minha transformação.
Sim, horas. O processo todo não demorava tudo isso, mas eu
não acertava a mão de primeira na maquiagem. Nunca consegui.
E, como se não bastassem as inúmeras vezes em que me sujei – não
fazia a menor ideia de por que diabos eu me borrava tanto para
passar o rímel –, a luz do meu banheiro, que já me parecia fraca,
estava perdendo a sua já pouca potência. Era quase impossível fazer
um trabalho digno daquele jeito.
Na verdade, às vezes eu tinha a ligeira e desagradável impressão de que não havia nenhuma lâmpada verdadeiramente potente no
mercado. Não importava quantas vezes as trocássemos, não existia
qualquer uma que pudesse resolver o problema.
Baguncei mais um pouco meus fios e fiquei encarando outra
vez a falsa Ravena do espelho. Sorri, satisfeita, e ela me retribuiu
o sorriso.
Saí do banheiro da minha suíte e voltei ao quarto. Peguei a
bolsa de mão que estava largada em cima da cadeira giratória. Nela,
havia tudo que eu precisava para a noite: gloss, rímel, absorvente,
celular, carteiras de identidade falsa e verdadeira, e dinheiro. Tirei
o celular da bolsa e chequei o horário, quase sendo cegada pelo brilho do aparelho. Micael estava cinco minutos atrasado. Eu sempre
soube que pontualidade nunca foi o seu forte, mas o que custava se
programar para chegar cedo no horário marcado?
Suspirei irritada, mas não surpresa. Talvez fosse a minha
ansiedade para me ver livre das paredes do meu quarto, ou apenas
a necessidade de reencontrar pessoas e me divertir numa sexta à
noite, que me pilhava até mesmo com os tradicionais atrasos de

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Micael. Desde o início do terceiro ano do ensino médio, eu mal saía
de casa e, quando o fazia, geralmente era para resolver as pendências
da nossa festa de formatura. Não porque eu não quisesse passear, a
questão era que a escola consumia boa parte do meu tempo. Baladas
com as amigas rarearam e eu sentia falta da agitação costumeira
das festas, por mais que passasse quase 2/3 da noite sentada à mesa.
Queria me divertir, dançar, beber uns drinques e ser cantada por
rapazes mais velhos – ainda que não ficasse com nenhum, era o tipo
de coisa que fazia bem ao ego. Por isso, mal acreditei quando surgiu
a oportunidade de ir a uma balada na White Elephant, a boate mais
cara e inacessível da cidade, com Micael, e de agitar a minha vida
social há muito entregue às teias.
Para passar o tempo e me desligar do nervosismo, fui escutar
música. Não a tradicional que sempre escolho, mas faixas que me
fizessem chegar à pista de dança já no pique. Deu certo, deu para
me acalmar – até o momento em que meu celular vibrou, vinte minutos depois, e soube que Micael finalmente havia chegado. Abri a
porta do meu quarto e saí disparada em direção à sala de estar, na
maior velocidade que dá para correr em cima de um salto quinze e
casualmente tropeçando na escada. Nem me importei. Já sentia os
pés formigando de ansiedade e o gosto do álcool invadindo a minha
boca. Nunca pensei que fosse querer chegar em casa com calos e
cheirando a bebida.
Minha mãe estava sentada no sofá na sala, que ficava com as
costas voltadas para a escadaria que levava aos quartos. Da distância
onde eu estava, só conseguia ver um desenho mal feito do seu coque
de cabelo, mas senti o cheiro da comida requentada e logo soube que
ela jantava. A televisão estava ligada em alguma cena de The Vampire
Diaries, prendendo completamente sua atenção e, por isso, ela não
me percebeu. Não achei ruim e também não fiz questão de lhe dar
nenhum beijo de despedida. Mamãe simplesmente não poderia ver

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meu look da noite, ou então teríamos um belo problema, com sermões
sobre como garotas da minha idade deveriam se vestir.
No mínimo, mamãe me chamaria de vadia. E estou sendo
bondosa com a escolha da ofensa.
— Estou saindo, mãe – avisei, fazendo a minha parte de filha
que se importa com a preocupação, ainda que pouca, dos pais.
— Para...? – ela me perguntou sem nem ao menos se virar
para mim. Esse era o lado bom de mamãe ser uma maníaca em
seriados – eu conseguia a sua atenção só quando realmente queria.
— Com o Micael. E as meninas vão encontrar a gente lá – minha
mãe confiava plenamente em Micael, então não precisei dar mais
detalhes sobre minha saída. Para ela, se eu estivesse acompanhada
dele poderia ir até mesmo ao inferno.
— Juízo – ela desejou. — E não volte tarde.
Concordei e saí. Porém, meu entusiasmo arduamente alimentado durante a semana diminuiu. Devo ter congelado por um
minuto ou perto disso. Beleza, fazia algum tempo que eu, dedicada
ao meu confinamento estudantil pré-vestibular, não saía de casa
para ir nem mesmo para o jardinzinho que existia à frente do nosso
duplex, mas quando foi que a noite ficou ainda mais escura do que
o normal? Mal dava para ver meio metro diante dos meus pés! De
repente, o mundo virou uma espécie de produção do Tim Burton,
quando, até alguns dias atrás, parecia um local ideal para os meus
pequenos pôneis pinotearem por aí. Tive a desagradável impressão
de que não era apenas a iluminação da casa que estava mais fraca,
mas que as luzes dos postes também não andavam cumprindo muito
bem o seu serviço.
Por reflexo, fiquei tentada a coçar os olhos, mas me lembrei da
sessão quase interminável de maquiagem e resisti. Tentei entender
a razão para aquilo. Talvez fosse uma sensação temporária causada
pelo estresse e pela ansiedade ou algo do tipo. Pareceu coerente, e
me convenci de que era vista cansada. Porém, fiquei nervosa e até

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mesmo assustada. Eu definitivamente não nasci para substituir a
Helena Boham Carter e ser a nova musa do Tim Burton.
Respirei fundo, tentando manter o controle. Pisquei os olhos
algumas boas vezes, a ponto de ver pequenos brilhos coloridos
dançarem à minha frente. Certa de que aquilo me ajudaria a voltar
a enxergar e um pouco mais calma, procurei a chave do portão
na minha bolsa. Não só demorei a encontrá-la como também não
consegui inseri-la no buraco da fechadura sem a ajuda do brilho
máximo do celular. No meio de toda aquela escuridão repentina,
destrancar um portão pareceu uma ação tão difícil quanto dar um
salto mortal numa competição de ginástica olímpica.
Foi aí que eu percebi que minhas mãos estavam trêmulas e
repentinamente suadas.
— E aí, Vena?
Quando finalmente abri o portão, encarei a silhueta robusta
que estava encostada no carro estacionado próximo da minha calçada. Era difícil até mesmo enxergar Micael direito. Não pude ver sua
pele morena, seu sorriso sempre brilhante e seus olhos pequenos.
Também não deu para conferir que roupa ele vestia, se ele usava
tênis ou sapatos, ou se havia deixado o cabelo desorganizado como
sempre. Só conseguia distinguir um desenho mal feito do seu corpo,
projetado pelas luzes da rua, e o fraco brilho do celular na sua mão.
Estanquei entre a minha casa e a rua. Pisquei novamente.
Micael continuou sendo como um rascunho estragado por manchas
de tintas escuras. Engoli em seco, meio petrificada, meio em choque.
— Ei, o que foi? – perguntou, com um tom de voz preocupado. Percebi seu vulto se aproximando e estendendo a mão para me
ajudar. — Parece que você está vendo um fantasma!
A voz dele conseguiu acender em mim alguma reação. Não
sabia o que falar porque, afinal, que raios estava acontecendo ali?
Não que o meu mundo noturno fosse uma cópia perfeita da minha

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realidade matutina, mas, definitivamente, alguém resolveu apagar as
luzes no momento em que o sol desceu no horizonte, e sem me avisar.
— Quase meia hora de atraso – minha voz não saiu mais alta
do que um sussurro assustado. — E eu detestei a sua roupa, Micael.
Francamente, como você pode sair assim de casa?
Não há como detestar o que não se vê, mas não queria deixar
Micael preocupado ou reticente sobre a nossa saída. Ele certamente
se assustaria se eu dissesse “não estou vendo um fantasma, nem você
e, para ser sincera, nem o resto do mundo”, e desistiria de qualquer
balada para ficar em casa vendo Hora de Aventura na TV. Além do
que, havia uma parte de mim que acreditava que não existia motivo
para eu entrar em pânico. Só precisava fazer o resto do meu corpo
também crer nisso, porque minhas mãos continuavam suadas e a
respiração, acelerada.
O problema era que Micael me conhecia tão bem que chegava a
assustar, e eu sabia que não dava para mentir para ele por muito tempo:
— Mas foi você quem me deu essa blusa, Vena – ele pareceu
confuso, e sua afirmação me desarmou. Será que Micael, com toda
a sua capacidade sobre-humana de me compreender, havia notado
que eu não via direito nem meio palmo à frente do meu nariz? Será
que ele havia percebido o meu andar vacilante e cuidadoso? Será
que ele teria a resposta necessária para me acalmar? Relaxa, isso é
besteira. Vive acontecendo comigo também.
Micael era meu amigo mais antigo, filho de um cardiologista
colega do meu pai. Nosso convívio começou cedo, mas aumentou
quando passamos a estudar na mesma escola. Ok, inicialmente ele
gostava de puxar meus cabelos trançados e eu, de dar socos em seu
rosto, mas qual boa história de amizade começa com “você quer ser
meu amiguinho?”?
Continuamos no mesmo colégio pelo resto da nossa vida
estudantil e, com o tempo, a implicância e as brigas da infância rarearam. Embora ele fosse um ano mais velho que eu e fizesse uma

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série acima, conseguimos manter a amizade. Estávamos sempre
grudados pelos corredores da escola, e as coisas só tomaram um
rumo diferente quando Micael reprovou o segundo ano do ensino
médio e seus pais acharam por bem trocá-lo de colégio – o que
não atrapalhou muita coisa no nosso convívio. Ainda éramos uma
espécie de Han Solo e Chewbacca – o que, às vezes, era um grande,
grande problema.
— Bom... – respirei fundo e empinei o nariz. Era a melhor coisa
que eu poderia fazer para disfarçar. — Enjoei da cara dessa blusa.
Entrei no carro o mais rápido que pude para não abrir mais
brechas. Outra daquelas e eu denunciaria que havia uma coisa realmente errada comigo.
— Sua mãe chiou por causa da nossa saída? – ele quis saber,
se acomodando no banco do motorista e colocando o cinto de segurança. Pela minha resposta ríspida à sua primeira pergunta, logo
soube que sim, aparentemente eu estava ótima. No estado abusado
e normal de Ravena (agora) Sombra.
Prendi a respiração mais uma vez. Dentro do carro, a coisa
ainda era pior. O mundo não era apenas mais escuro, virara indistinguível. Não soube identificar se a razão era o fumê nos vidros
ou se o problema era eu mesma. A única coisa da qual me dei conta
foi de que não eram apenas as minhas mãos suadas: meu corpo
inteiro estava gelado. Se eu não me controlasse, teria um piripaque
em poucos segundos.
— Nem percebeu – respondi, me esforçando ao máximo
para parecer tranquila. Tirei o celular da bolsa e comecei a mexer
nele: eu precisava de qualquer tipo de luz, ainda que fosse uma
que praticamente me fizesse ver brilhinhos coloridos. — E eu não
deixaria de sair mesmo se ela insistisse muito.
— E o seu pai? – Micael deu partida e, como o rapaz certinho
que é, voltou a sua atenção 100% para o trânsito.
— Deve estar brincando de médico com alguma vadia por aí.

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— Ainda tá desse jeito? – suspirou. Não eram poucas as vezes
em que eu relatava as confusões que os casos extraconjugais do meu
pai causavam na nossa casa. — E sua mãe não se manifestou dessa vez?
— Pra quê? – mamãe precisava de alguém que bancasse as
suas compras, a malhação e a TV a cabo. Não seria um bom negócio
brigar com o marido por causa de umas puladas de cerca, mesmo que
isso significasse se submeter a uma série de humilhações, incluindo
receber ligações das amantes num sábado à noite, no meio de um
jantar em família. Eu, porém, não me incomodava e nem exigia mais
que minha mãe tomasse alguma atitude. Desisti dela tanto quanto
ela desistiu do seu próprio orgulho.
O assunto morreu e ficamos em silêncio. Estar tão vulnerável ao escuro não só me deixava impaciente e nervosa, como
me fazia me apegar a qualquer alternativa que pudesse minar
aquela sensação desagradável de parcial cegueira. Fiquei tentada a
coçar meus olhos, como se isso pudesse resolver algo, mas acabei
massageando uma das minhas têmporas com a mão direita para
ver se o incômodo diminuía. Não diminuiu e não resolveu nada
– apenas aumentou a minha ansiedade. Voltei a mexer no celular,
sem coragem alguma de encarar Micael e tentando me distrair.
Se não dava para me consertar, que pelo menos eu conseguisse
desviar o foco dos meus pensamentos.
— Tudo bem? – ele perguntou, olhando de relance para mim.
Tive vontade de gritar: “não, não está tudo bem, para o carro
agora!”. Mas, em vez disso, apenas rebati a pergunta:
— E por que não estaria? – continuei com os olhos grudados
no celular, sem saber mais o que estava vendo ou deixando de ver.
As imagens se embaralhavam, mas evitava encarar a silhueta do
meu melhor amigo.
— Sei lá. Você tá tão quieta e isso não é normal.
— Não tenho nada para falar.
— Tem certeza de que não quer voltar para casa? – aquela

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habilidade me irritava na maior parte das vezes. Pare de ler meus
pensamentos, Micael!
Rolei os olhos.
— Se tiver alguma consideração por mim, nem pense em fazer
isso! – falei, mexendo na alça da bolsa.
— Ok, ok, afetadinha! Não está mais aqui quem falou – sua
voz animada mostrava que Micael esperava alguma reação positiva
minha. Não recebendo, voltou a ficar quieto.
O fato era que o meu ânimo para a dita saída estava desaparecendo. Se aquilo fosse realmente sintoma do estresse, talvez o
melhor remédio fosse ficar em casa e hibernar por algumas horas
para ver se meu corpo voltava a funcionar. Mas era óbvio que eu
não poderia voltar! Não depois de ter me produzido inteira e de ter
anunciado via redes sociais qual era o meu destino naquela noite.
Se não, para que todo aquele trabalho? Ficar arrumada fatalmente
para ver a novela das oito? Não, obrigada, eu estava dispensando.
Quando cansei de fingir que o celular servia para me distrair,
encostei a cabeça no apoio do carona e me permiti olhar para Micael.
Não dava para ver muito dele, além de um contorno mal feito que
parecia ser o seu. Percebi, porém, que seu rosto estava voltado para
frente e que ele mantinha a concentração no trânsito. Me perguntei
se Micael por acaso tinha as mesmas sensações que as minhas, mas,
se fosse o caso, ele não dirigiria com tanta segurança. E, ainda que
não conseguisse captar quase nada dele naquele breu, eu sabia que
ele não estava nem um pouco alarmado. A possibilidade de provocar
um acidente passava longe da sua realidade.
Mas invadia a minha. Se fosse eu naquele volante, possivelmente já teria derrubado um poste em cima das nossas cabeças.
— Cuidado para não se apaixonar – ele brincou quando me
percebeu o encarando. — Eu sou muito irresistível, você sabe.
— Vai se catar, Micael!
Micael sabia exatamente quando eu tinha ou não vontade para

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conversar ou o que aconteceria caso insistisse em algo que eu não
quisesse. Tínhamos uma boa conexão e, por isso, não eram poucos
os boatos que corriam alegando que tínhamos um caso. Como nada
chegou diretamente a nós, nos fazíamos de inocentes. Primeiro
porque realmente nunca tivemos nada. Segundo porque de nada
adiantaria gastarmos saliva para explicar histórias que continuariam a ser repetidas várias e várias vezes, independentemente de
ser ou não verdade. E terceiro, e não menos importante, porque tais
histórias ajudavam Micael a encobertar mais ainda a sua discreta e
secreta atração por garotos.
Os boatos também não me atrapalhavam em nada na questão
de ficar com um cara ou não. Por exemplo, até agora meu fica com
Túlio, o menino mais bonito e charmoso do 3º D, não foi prejudicado
por nenhuma fofoca em relação a mim e Micael. E Túlio tinha quase
100% de certeza de que a preferência de Micael, definitivamente,
não era a mesma que a dele.
Não fazia muito tempo que eu e Túlio ficávamos – três meses,
talvez. Ainda mantínhamos a coisa meio velada porque não estávamos a fim de que as pessoas nos enchessem o saco – assim como eu,
Túlio tinha uma legião de fãs devotas e ex-namoradas rancorosas na
escola, e assumir um namoro comigo possivelmente me condenaria
à fogueira. Além do quê, a última coisa que eu pretendia era perder a
paciência com mais um novo grupo de garotas que me detestavam.
Minha cota de estresse já estava bem preenchida, obrigada.
Mesmo assim, eu estava realmente disposta a esperar o fim do
terceiro ano para assumir o namoro, mesmo que a minha vontade
fosse a de gritar para os quatro ventos que estávamos juntos. Eu
amava Túlio de uma forma que chegava a doer – tanto que não pensei
duas vezes quando ele mostrou o primeiro sinal de querer tirar a
minha virgindade. Não foi a experiência mais doce e romântica que
eu imaginei para a minha primeira vez, mas foi especial justamente

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porque foi com ele. Eu tinha a absoluta certeza de que não existia
outro cara para mim na face da Terra.
Meus pensamentos foram interrompidos no momento em
que Micael estacionou. Ele foi o primeiro a sair do carro e eu o
acompanhei poucos segundos depois, ainda temerosa sobre o que
poderia me esperar naquela noite. Assim que pus meus pés na rua,
foquei na fila comprida de pessoas que esperavam entrar na festa.
Aquilo me deixou mais ansiosa do que o normal e, por isso, a minha
primeira intenção foi ver quem estava ali, quem era bonito e quem
não era, quem se vestia bem ou mal. Eram detalhes importantes
quando se vai a um lugar como a White Elephant pela primeira vez.
Mas não deu certo. As pessoas dali nada mais eram do que
borrões. Eu ouvia os seus burburinhos e suas risadas altas, sentia o
cheiro de perfume caro e do álcool que consumiam previamente,
mas essa realidade não me aparecia com nitidez. Todas as imagens
que eu pouco conseguia detectar pareciam distorcidas e macabras.
Travei pela segunda vez enquanto os borrões dançavam à minha
frente, me fazendo perder a noção do que era real e do que era alucinação. Dava para perder o senso de realidade daquele jeito, e eu
estava com o meu juízo perto de entrar em pane. Umedeci o lábio,
sentindo aquela vontade insana de começar a chorar feito criancinha com medo do bicho papão. Porém, não havia nenhum bicho
papão para temer. O monstro ali era eu. Era de mim mesma que eu
sentia medo, da forma estranha como meu corpo reagia, da falta de
controle sobre aquela escuridão.
— Vena, o que é que tá pegando? – Micael perguntou, tocando
meu ombro com leveza. — Se você estiver se sentindo mal, podemos
ir embora. Eu aviso pras meninas que furou.
A ideia era tentadora. Eu só queria dormir para acordar bem e
livre daquele pesadelo, mas outra parte de mim queria cumprir o objetivo da noite e acreditar que meu mal era falta de diversão e de algumas
boas doses de álcool. Um pouco disso e eu ficaria normal mais uma vez.

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Me agarrei firmemente a essa hipótese.
— Estou legal – respondi enfática. — Não é nada.
Encarei-o, tentando me mostrar inabalável. Ousei até sorrir,
mas não imaginei como aquele sorriso meio amarelo deve ter parecido
para Micael. Estava bastante assustada para fingir estar bem. Porém,
por mais que eu quisesse descansar e dormir pela eternidade, o meu
orgulho era maior que o meu medo. E eu queria entrar naquela festa.
Saí do transe no momento em que dei meu braço a Micael,
como sempre fazemos quando andamos juntos, e caminhei em
direção à fila. Eu sentia seus olhos em mim, me analisando quase
que clinicamente, percebendo meu andar inseguro. Notando que,
pela primeira vez em dezesseis anos, estar em cima de um salto me
era um desafio.
Seguimos a longa linha de borrões e nos posicionamos atrás dela.
— Você é péssima em disfarçar, Ravena – ele comentou, quase
em um sussurro.
— Já me chamaram de dissimulada e tenho certeza de que
não foi à toa – rebati.
— Você está tremendo! – ele constatou. — Da onde isso é
estar legal?
— Santa Cher, só estou animada para minha noite, ok? Não
tem nada de anormal! – não havia segurança alguma em minha voz
e eu me alterei mais do que o necessário.
— Por quê? – Micael insistia. Ele estava preocupado comigo,
de verdade. Eu até sentiria pena dele se a pessoa em questão não
fosse eu mesma.
— Talvez porque estou na boate que eu mais queria conhecer,
com um salto de quinze centímetros e perto de me acabar de dançar?
Embora eu não visse, tinha a certeza de que Micael havia
acabado de revirar os olhos. Eu também sabia como deixar as pessoas nervosas.

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— Por que – ele continuou, reformulando a questão, — a sua
saúde é menos importante que sua vida social?
— Quem falou de saúde aqui? Você bebeu, Micael?
Ficamos calados até o momento em que chegamos à bilheteria.
Meu trajeto até lá foi feito com o maior cuidado possível. Agarrada
ao braço de Micael como se a minha vida dependesse disso, andava a passos lentos, enquanto ele seguia o meu ritmo. A cabine era
completamente escura, e eu não via nada. Engoli em seco, passando
da fase do desespero alarmante para o riso alucinado. Cara, aquilo
só podia ser brincadeira...
— Quantos ingressos? – perguntou a moça na bilheteria. Eu
não via suas feições por detrás do gradeado.
— Dois – respondi, abrindo a carteira para pegar o dinheiro.
— Inteiras, por favor.
— Identidade?
Quando olhei para a carteira, não vi nada. Havia ali cédulas,
cartões de crédito e as identidades que eu sempre carregava comigo – a
verídica e a falsa. Os meus fios de cabelo, até então perfeitamente lisos
pelo trabalho magnífico da chapinha, grudavam nas minhas costas
suadas. Respirei fundo. Nada de pânico, nada de pânico, nada de...
— Aqui, moça – disse Micael, retirando com presteza o documento falso da minha carteira e estendendo o próprio cartão de
crédito. — Pode deixar que eu pago o meu e o da senhorita aqui.
Após ter recebido os nossos bilhetes, ele entregou o meu.
— Não precisava ter feito isso! – falei, irritada, quando já
entrávamos na boate.
Ok, eu não conseguiria. Mas, mesmo assim, eu não pedi a
ajuda de Micael, pedi?
— Ah é? – pela primeira vez, ele falava comigo com desdém.
— Acredita que não era o que parecia? – ele bufou. — Realmente não
estou conseguindo entender o que tá havendo, Ravena. De repente,
você não é mais você.

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Ignorei o comentário e, assim que entramos na boate, resolvi
mudar o meu foco. Por algum milagre, a White Elephant não era tão
escura quanto eu imaginava, o que me trouxe uma certa segurança,
ainda que frágil. Havia um lustre, aparentemente de cristais, no
meio da pista e ele iluminava na medida certa para uma boate – o
que significava que não era muito. Minha sorte, porém, era que o
bar próximo da entrada tinha uma quantidade animadora de luzes
ligadas, voltadas principalmente para a adega. Não resolvia meu
problema, mas, se eu ficasse por ali durante a noite, dificilmente
daria com a cara no chão.
O único problema era que eu não queria passar a noite toda
sentada de frente para o bar. Não havia sentido para mim ir a uma
boate e não descer até o chão pelo menos uma vez.
Tentei me tranquilizar e acreditar que nada daria errado mais do
que já estava dando. Minha noite seria perfeita e agradável na medida
do possível, mesmo que não tivesse saído da forma como planejei.
Porém, no curto caminho da entrada para o bar, consegui a proeza
de esbarrar em três pessoas. Não que isso fosse algo muito fora do
comum para mim, já que eu fui abençoada no meu nascimento, no
melhor estilo Bela Adormecida, com a incrível habilidade de esbarrar
meus quadris nos cantos com mais facilidade do que qualquer ser
humano normal. O problema era o piso cheio de degraus da boate,
que luz nenhuma ali conseguiu me avisar antecipadamente. Quando
eu me desequilibrei feio e quase ganhei o prêmio da queda do ano,
Micael prontamente me segurou.
— Seu problema não é bebida, né? – perguntou, com os braços
fortes em torno da minha cintura.
Fiquei me perguntando se a minha maneira vacilante de andar
realmente dava a entender que eu estava bêbada, ou se aquela foi a
alternativa mais fácil para Micael tentar compreender o que havia
de errado comigo. Ainda assim, não achava que isso fosse razão
suficiente para ele me encarar e perguntar aquele tipo de coisa

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para mim. Tipo, para mim, que fazia o possível e o impossível para
manter alguma postura em qualquer lugar que fosse! Não tinha
uma alternativa melhor?
E aí eu fiquei com raiva. Realmente com raiva. Eu não era
obrigada a responder aquilo, era?
— Você está falando realmente sério ou tá apenas querendo
tirar uma com a minha cara? – perguntei, cruzando os braços sobre
o peito.
— Por que ainda insiste em ficar fazendo esse papelzinho? –
ele perguntou, incisivo.
— E desde quando eu sou de “papelzinho”, Micael? – aleguei,
indignada. — Não preciso e nunca precisei desse tipo de coisa! Se
eu disse que quero ficar nessa festa, eu vou ficar nessa festa. Ficou
claro ou é difícil entender?
— Tudo bem, então – disse deixando de lutar comigo. — Pois
fique aí. Vou procurar uma mesa pra gente e ligar para as meninas
pra saber se elas já chegaram.
Foi com um misto de satisfação e terror que percebi Micael
se distanciar. Agora estava pela minha própria conta e risco.
Respirei fundo, ajeitei os cabelos e o vestido e tentei me
tranquilizar. Tudo certo, nada de ruim iria acontecer. Certa disso,
tive a ideia mais estúpida do ano: fui caminhar pela boate. Porque,
claro, é a coisa mais ideal a ser feita quando você está enxergando
mal e o lugar não é iluminado o suficiente para evitar que você se
bata em qualquer um.
E foi o que aconteceu. A White Elephant já estava razoavelmente
cheia para que, vez ou outra, eu me esbarrasse em desconhecidos.
Não dava para escutar o que as garotas diziam quando eu me chocava contra seus corpos, fazendo-as se desequilibrarem, mas os
rapazes... Dava perfeitamente para ouvir suas risadinhas cheias de
segundas intenções, enquanto eles tentavam passar os braços pela
minha cintura e me puxar para mais perto.

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Diferentemente do que eu imaginava, não dava para conhecer
direito a boate. A partir de um determinado ponto, a White Elephant
se segmentava em duas áreas – imaginei que ambas realizavam
atrações diferentes – e, como o esperado, a iluminação mudava. No
segundo compartimento que entrei, não existia um lustre bonito e
elegante preso no meio da sala, e sim luzes negras formando figuras
geométricas no teto, ao melhor estilo filmes de ficção científica. E
foi naquela seção específica que eu me ferrei de vez, porque a única
coisa que conseguia enxergar era o brilho fraco das luzes negras.
Fiquei completamente às escuras.
Vencida pelo pavor, engoli em seco e abri a bolsa, à procura do
celular para ligar para Micael, mas, naquele barulho, eu não conseguiria
nem falar e nem ouvir nada. Peguei o celular ainda assim e, tentando
utilizá-lo como uma lanterna improvisada, tentei achar o banheiro –
o que parecia uma ideia inteligente, se pelo menos eu soubesse onde
ele ficava. Me senti uma completa idiota, tropeçando entre os vultos
que transitavam pela boate com a “lanterna” me guiando os passos.
Não demorou muito para achar. As portas dos banheiros
feminino e masculino estavam abertas, e foi a luz que saía de lá que
me conduziu e norteou. Não era lá um tipo de luz no fim do túnel e
nem aquelas coisas incandescentes de filmes, mas dava para o gasto
e me fez dispensar meu celular. Só precisei esperar um pouco na
frente de cada entrada para saber quem saía de onde. Não queria me
arriscar a entrar no lugar errado.
Me orientei pelas risadas e pelo timbre feminino das conversas, e logo soube que meu destino estava à esquerda. Quando entrei
no banheiro, quase senti as lágrimas de emoção brotarem nos meus
olhos. Era o primeiro lugar verdadeiramente bem iluminado que eu
entrava desde o momento em que pus os pés na rua. Ainda que as
luzes não fossem potentes – na verdade, eram bem parecidas com
as da minha casa –, já era alguma coisa e já me deixava aliviada. Eu
conseguia perceber as pessoas, agora. Ainda que seus detalhes per-

FISHEYE

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manecessem obscurecidos, eu sabia que havia gente de verdade ali,
não borrões, pessoas sem rosto saídas dos piores pesadelos infantis.
Peguei o celular, um pouco mais confiante, e disquei o número.
Micael atendeu na primeira chamada.
— Desistiu de bancar a idiota autossuficiente? – ele me provocou. Sua voz saía abafada por uma batida alta de música eletrônica.
Resolvi não insistir naquele assunto e nem rebater.
— As meninas te ligaram? – perguntei. Minhas amigas haviam me garantido que não demorariam a chegar, mas, para quem
disse que estaria na fila na hora que a boate abrisse as portas, elas
estavam bem atrasadas.
— Nenhuma. Não te deram notícia?
— Não. Sabe que a Raquel está com esperança de ficar com
você de novo, não sabe?
Ele suspirou, um sinal bastante discreto e que me revelava
por completo o seu pensamento: Raquel ainda não havia percebido. E, pelo visto, Micael não estava confortável o suficiente para
minar suas esperanças. Uma parte dele ainda queria acreditar que
ela poderia ter uma chance.
— Você tá onde? – ele não parecia animado em discutir aquilo.
— No banheiro da ala 2. Me encontra aqui? Fiquei a fim de
ver essa nova atração.
Ele concordou e encerrou a ligação. Me voltei para o espelho
que estava às minhas costas e tentei me observar. Dava para ver
alguma coisa, pelo menos, e isso acendeu em mim uma chama de
esperança. Eu enxergava. De uma maneira estranha e até mesmo
assustadora, mas enxergava. E só essa certeza conseguia repor uma
segurança que, há tão pouco tempo, estava em colapso.
Ajeitei os cabelos e saí do banheiro, andando com confiança pelo
espaço que, mais uma vez, se tornou escuro. Mas, no momento em
que eu caminhava com a certeza de que nada daria errado, a segunda
atração anunciada naquela noite entrou e o meu inferno começou.

20 |

KAMILE GIRÃO

Um holofote de luz forte e branca foi ligado. A claridade foi
tudo que meus olhos conseguiram captar e, por longos e desesperadores instantes, eu me senti completamente cega. Paralisada, não
consegui mover um músculo sequer, enquanto aquela imensidão
branca me consumia. Minha respiração estava ofegante. Meus dedos
seguraram com mais força o celular. Perdi a noção de vez e gritei
por Micael como se, no meio daquela multidão, ele conseguisse me
escutar. Eu queria sair dali, queria voltar a ver as pessoas, nem que
fossem apenas os borrões. Fiquei sem senso de direção e, quando
resolvi dar um passo para a frente, fui violentamente empurrada
para a direção oposta. Caí e ainda consegui quebrar o salto, machucar o pé e bater a minha cabeça no chão. Uma queda digna de ser
registrada como a pior de todas.
O sangue começou a correr pelo corte em minha testa. Continuava sem ver absolutamente nada, e o barulho da atração silenciava
as vozes que me cercavam. Ainda assim, ridiculamente jogada no
chão, numa posição de completa vulnerabilidade, sem ter a quem
recorrer e completamente cega, eu comecei a rir.
E ri porque era humilhação demais para que eu me atrevesse
a chorar.

Este projeto está sendo financiado coletivamente
no site: www.catarse.me/livrofisheye até fevereiro
de 2017. Por favor, ajude a realizá-lo adquirindo seu
exemplar ou divulgando para seus amigos <3

FISHEYE

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