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CRIMES PROPRIAMENTE E IMPROPRIAMENTE MILITARES

Edeildo Rangel Santos Major da Polícia Militar do Estado da Bahia. Chefe de Análise de Inquéritos da Corregedoria da Polícia Militar.

Dentro de determinado universo de objetos, para se saber o que vem a ser um deles, a

priori, necessário se faz distingui-lo dos demais. É dizer: para se saber o que é algo, antes é

imprescindível saber o que ele não é.

Assim é que o crime propriamente ou impropriamente militar, enquanto objeto de

estudo, requer, para compreensão de seu conteúdo, uma abordagem dentro de um contexto maior,

qual seja a caracterização de crime militar.

Daí a indagação que ora se impõe:

– O que vem a ser crime militar? Eis uma questão de tormentosa e complexa elucidação.

O próprio Código Penal Militar não aporta o conceito de crime militar. A doutrina, por sua vez,

adota diversos critérios de classificação, o que torna ainda mais ingente a tarefa.

Jorge Alberto Romeiro esposa o entendimento segundo o qual “crime militar é o que a

lei define como tal”, revelando, portanto, o critério em ratione legis, em consonância com o

disposto no art. 124 da Constituição da República de 1988: “à Justiça Militar compete processar e

julgar os crimes militares definidos em lei” (grifei).

A discussão acentua-se quando se verifica que o texto da Carta Magna, em seu artigo 5º,

inciso LXI, recepciona a existência de crime propriamente militar, quando excepciona os casos de

transgressão disciplinar e os crimes propriamente militares ao assegurar que: “ninguém será preso

senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente,

salvo nos casos de transgressão militar ou crimes propriamente militar, definidos em lei”.

Além dos excertos acima evocados, se abstraí que a Constituição Federal de 1988 não

definiu o que é crime militar, tal como aludem outros dispositivos constitucionais: arts. 135, § 4º,

144, § 4º, delegando a atribuição ao legislador ordinário. Não obstante, a Carta Magna reconhece,

inequivocadamente, a existência de crime militar em nosso ordenamento jurídico.

Com efeito, é o art. 9º do CPM que prevê o que caracteriza crimes militares e os

classifica em crimes militares em tempo de paz e crimes militares em tempo de guerra.

Nossa abordagem, por motivos de ordem pragmática, se cingirá aos crimes militares em

tempo de paz.

Eládio Pacheco Estrela, em sua obra Direito Militar Aplicado, classifica os crimes

militares em três espécies, a saber: a) crimes propriamente militares; b) crimes impropriamente

militares; c) crimes próprios militares. Entretanto, há modernamente uma tendência à classificação dicotômica dos crimes militares: a) crimes propriamente militares; b) crimes impropriamente militares. Os primeiros, crimes propriamente militares, segundo a doutrina predominante, que se filia à doutrina clássica, a qual, por seu turno, baseia-se no direito romano, são aqueles que somente se encontram tipificados na lei penal militar e, em regra, somente por militar poderá ser cometido, pois consiste na violação de deveres restritos, que lhe são próprios, v.g., deserção, abono de posto. Os segundos, os impropriamente militares, consistem em crimes tipificados como militares por força de lei, em razão de determinadas circunstâncias, tais como, crimes praticados contra instituição militar, ainda que, perpetrado por civis, ou ainda, crimes praticados por militares em serviço, malgrado sejam tipificados nos mesmos moldes, inclusive com idêntico nomen iuris na lei penal comum, codificada ou extravagante. Portanto, há situações concorrentes, como o crime de furto, que, embora cometido por militar, não trata de violação a dever restrito, porquanto, pode ser também cometido por civil. Por conseguinte, o crime impropriamente militar não é apenas o cometido por civis contra militar, mas, também, aquele cometido por militar e que encontra previsão na legislação penal comum, como o homicídio, a lesão corporal, o peculato, a concussão etc.

Os derradeiros, crimes próprios militares, ainda na esteira de Jorge Alberto Romeiro, são aqueles que, malgrado sejam crimes que importem em violação de deveres restritos, inerentes somente aos militares – o que os incluem na categoria mais ampla dos crimes propriamente militares, isto é, que estão tipificados apenas na lei especial, o codex castrensis –, não podem ser praticados por qualquer militar, mas tão somente por aqueles que se encontrem em particular posição jurídica, v.g., os crimes do comandante (arts. 198 a 201, 372 e 378 do CPM) e os crimes praticados por subordinado (desacato a superior, art. 298, violência contra superior, art. 157, insubordinação, art. 167, todos do CPM); exercício de comércio por oficial da ativa, art. 204 do CPM, cujo autor invariavelmente será um oficial da ativa. Contudo, quando se trata de militares dos Estados, Distrito Federal e Territórios (policiais militares e bombeiros militares), a caracterização dos crimes militares torna-se ainda mais conflituosa. E assim é por força do art. 6º do CPPM que reza o seguinte, ipsis litteris, com grifos acrescentados:

Obedecerão às normas processuais previstas neste Código, no que forem aplicáveis, salvo quanto à organização de Justiça, aos recursos e à execução de sentença, os processos da Justiça Militar Estadual, nos crimes previstos na Lei Penal Militar a que responderem os oficiais e praças das Polícias e dos Corpos de Bombeiros, Militares.

O texto supratranscrito estabelece que as justiças militares estaduais somente terão

competência processual para julgar policiais militares e bombeiros militares – jamais terá civis como réus –, devido ao cometimento de crimes previstos no CPM. Destarte, alguns comandos do art. 9º do CPM não se aplicam integralmente às PPMM e aos CCBBMM, em razão de falecer competência às justiças militares dos Estados, senão vejamos:

No que toca ao art. 9º, inciso I, que trata dos crimes propriamente militares, aqueles que se encontram previstos apenas e tão somente no Código Penal Militar, como por exemplo, os crimes contra a segurança externa do país; os crimes contra a autoridade e disciplina militar, a exemplo do motim e da revolta; a aliciação e o incitamento; a violência contra superior ou militar de serviço; desrespeito à superior e a símbolo nacional ou à farda; a insubordinação; a usurpação, o excesso ou abuso de autoridade; a deserção; o abandono de posto entre outros, aos quais não se aplica a expressão “qualquer que seja o agente”, em razão da incompetência das justiças militares estaduais para processar civis; na Justiça Militar Estadual, somente o militar estadual poderá ser autor de crime militar, o que, segundo Paulo Tadeu Rodrigues Rosa, muitas vezes leva à impunidade. Segundo o comentado dispositivo, os crimes previstos no CPM serão considerados militares independentemente da qualidade do agente, desde que definidos de modo diverso na lei penal comum, ou nela não previstos, salvo disposição especial, como ocorre, por exemplo, no crime de furto de uso, não previsto na norma incriminadora comum. No entanto, no âmbito dos Estados da Federação e do Distrito Federal, caso o crime de furto de uso seja praticado por um civil, ainda que contra o patrimônio pertencente à administração militar ou dentro de estabelecimento militar estadual, o fato será atípico por falta de previsão desta espécie de crime no Código Penal Brasileiro. Ocorre que o civil que comete um crime contra as Instituições Militares Estaduais somente será julgado na Justiça Comum se existir algum ilícito estatuído no Código Penal brasileiro a que se subsuma a conduta praticada, caso contrário o fato será considerado atípico. Em seguida, o inciso II do mesmo art. 9º, que versa sobre os crimes impropriamente militares, os que se encontram previstos tanto no Código Penal comum como também no Código Penal Militar, como, por exemplo, o homicídio, o roubo, o furto, a lesão corporal, a corrupção, a concussão, o peculato etc., em função destes estarem tipificados isonomicamente na legislação penal comum, a saber:

Da alínea a – “por militar em situação de atividade ou assemelhado, contra militar na mesma situação ou assemelhado” –, deve ser desconsiderada a expressão “assemelhado”, em razão dessa figura não mais existir nas forças auxiliares assim como nas forças armadas brasileiras, pois hoje em dia, o que existe são funcionários civis que foram admitidos por meio de um concurso de provas e títulos, mas que ficam sujeitos aos Estatutos dos Servidores Públicos da União ou dos Estados.

Por outra banda, a expressão “militar em situação de atividade” abrangerá tanto os

militares das Forças Armadas como os das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares, ainda que estejam integrando a Força Nacional de Segurança. O sujeito passivo nas situações previstas na referida alínea será um outro militar também em atividade. Quanto à alínea b – “por militar em situação de atividade ou assemelhado, em lugar sujeito à administração militar, contra militar da reserva, ou reformado, ou assemelhado, ou civil” – não se aplica às PPMM e aos CCBBMM a expressão “assemelhado”, em face das razões anteriormente explanadas, sendo que, nesta hipótese, o crime militar também poderá ocorrer em lugar sujeito a administração pública militar, federal ou estadual, como por exemplo, nas dependências do Batalhão de Polícia de Choque ou nos 67 Km² da Academia Militar das Agulhas

Negras. Nestes casos, o sujeito ativo poderá ser militar em situação de atividade e o sujeito passivo, vítima, um militar da reserva remunerada, um militar reformado, ou mesmo um civil que se encontre no interior do local sujeito à administração militar.

A alínea c – “por militar em serviço, em comissão de natureza militar, ou em formatura,

ainda que fora do lugar sujeito a administração militar contra militar da reserva, ou reformado, ou assemelhado, ou civil” –, por sua vez, prevê que os militares, mormente os federais, nem sempre se encontram aquartelados, aguardando ordens para entrar em ação. Existem outras atividades quotidianas que são desenvolvidas, sobretudo pelos militares federais, tais como solenidades e comissões militares, que se constituem atos de serviço, malgrado se encontrem fora de lugar sujeito à administração militar. Quanto aos militares estaduais, via de regra, encontram-se empenhados no

serviço de segurança pública desde as grandes metrópoles nacionais até os mais modestos municípios do país. O sujeito que sofre a ação delitiva, neste caso, poderá ser o militar da reserva, reformado, e também o civil. A expressão “assemelhado”, repita-se, não tem mais aplicação hodiernamente.

A alínea d – “por militar durante o período de manobras ou exercício, contra militar da

reserva, ou reformado, ou assemelhado, ou civil” – preceitua que, se o militar que se encontra em período de manobras ou exercício praticar qualquer ato ilícito contra um militar da reserva,

reformado ou civil, ficará sujeito a ser processado e julgado perante a Justiça Militar. Os militares estaduais também costumam participar de exercícios desta natureza, ainda que adaptados à atividade policial ou de bombeiro militar que lhe é peculiar.

A letra e – “por militar em situação de atividade, ou assemelhado, contra o patrimônio

sob a administração militar, ou a ordem administrativa militar” – buscou-se aqui proteger como bem

jurídico a administração militar e os princípios militares, que são os fundamentos de toda instituiçao militar, a hierarquia e a disciplina.

A letra “f” – “por militar em situação de atividade ou assemelhado que, embora não

estando em serviço, use armamento de propriedade militar ou qualquer material bélico, sob guarda,

fiscalização ou administração militar, para a prática de ato ilegal” –, por fim, previa, por exemplo,

que a mera utilização de arma de fogo pertencente à Corporação, independentemente de o policial

militar estar ou não de serviço, para a prática de ato ilícito (homicídio ou lesão corporal, por

exemplo), constituiria crime militar. Entrementes, a hipótese foi revogada pela Lei Federal nº

9.299/96 no que se aplica aos militares dos Estados, os quais por força da Emenda Constitucional nº

45/2004 devem ser processados e julgados quando acusados da prática de crimes dolosos contra a

vida que tenha como sujeitos passivos civis, sendo competente para processo e julgamento a justiça

comum, em regra, o Tribunal do Júri do local dos fatos. O crime de homicídio praticado por militar

(federal ou estadual) não deixou de ser crime militar impróprio, que também está previsto no CP

comum, mas passou por força de lei a ser julgado pela Justiça Comum, o que contrariou o disposto

nas normas constitucionais. Em que pese as alterações legislativas, o procedimento inquisitorial

com vistas à apuração da autoria e materialidade desses ilícitos continua a ser o inquérito policial

militar a cargo da Polícia Judiciária Militar.

O inciso III do art. 9º do Estatuto Repressor Castrense dispõe acerca dos “os crimes

praticados por militar da reserva, ou reformado, ou por civil, contra as instituições militares,

considerando-se como tais não só os compreendidos no inciso I, como os do inciso II”. Contudo,

por registrarem ocorrências insólitas não aprofundarei a análise, limitar-me-ei a pontuar que o

militar que se encontra na inatividade, na reserva, ou reformado, ainda mantém um vínculo estreito

com as Instituições Militares, e ainda continua sujeito aos regulamentos militares, com exceção dos

reformados, em algumas Corporações, e às disposições estabelecidas no Código Penal Militar.

Alfim, não se pode olvidar que as justiças militares estaduais não têm competência para processar e

julgar civis, inclusive devido à prática de crimes militares que atentem contra instituições militares.

À guisa de conclusão, destaco que, dentre os crimes militares, provavelmente os de mais

fácil caracterização e identificação sejam os crimes propriamente militares, tendo em vista sua

previsão expressa e exclusiva no Código Penal Militar, diferentemente dos crimes impropriamente

militares. Estes últimos, tendem conflitar com as figuras congêneres encontradiças na legislação

penal comum, mormente no Código Penal brasileiro, o que gera perplexidades na interpretação e

aplicação das normas, comum e especial, aos casos concretos.

Referências bibliográficas ESTRELA, Eládio Pacheco. Direito militar aplicado: vol. I. Salvador: Lucano, 1997. ROSA, Paulo Tadeu Rodrigues. Comentários aos arts. 1º a 37 do Código Penal Militar, Decreto- lei 1001, de 1969. 1ed. Belo Horizonte, 2013. ROTH, Ronaldo João. Justiça militar e as peculiaridades do juiz militar na atuação jurisdicional. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2003. SILVA JÚNIOR, Azor Lopes da. Crimes militares: conceito e jurisdição. Jus Navigandi, Teresina,

ano 10, n. 785, 27 ago. 2005. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/7195>. Acesso em: 2 jan.

2014.