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Introdução ao Estudo da Segurança Pública

A segurança pública ao longo da história

Para início de estudo

Você está iniciando o estudo da segurança pública. Comecemos com um pouco de história,
então?

Nesta unidade você vai compreender que a segurança é uma necessidade básica da
vida humana em sociedade e possui duas dimensões: a Interna e a Pública, portanto, a partir
dessas características, você conhecerá um pouco mais sobre como processo se deu ao longo
da história, considerando, inclusive outros territórios, suas culturas e valores. Como surgiu a
Segurança Pública moderna e como as constituições contemplam o que se caracteriza um bem
fundamental para a manutenção da harmonia em sociedade e a preservação da dignidade
humana.

Acompanhe, então, cada seção, registre suas considerações, dialogue com os


colegas esta troca ajudará você no processo de construção da aprendizagem.

SEÇÃO 1 - Como era a segurança nos primórdios da vida humana?

Quando o ser humano passou a viver em sociedade, rapidamente percebeu que


necessitava de um código de convivência e de um grupo de pessoas que fizesse a garantia do
cumprimento desse código de convivência social. Senão, imperaria a lei do mais forte em
prejuízo da paz e da tranqüilidade.

O que seria necessário, então?


Em verdade, o nascimento do Estado, como ficção que reúne povo, território e
governo, deve-se à necessidade de as pessoas (povo), que vivem em dado território, em terem
uma parcela dessas pessoas (governo) fazendo por elas tudo aquilo que elas sozinhas não
conseguiriam fazer ou que, se o fizessem, fariam a duras penas.

É interessante você saber que Platão, na sua clássica obra “A República”, já faz
referência a isso quando diz que “O que causa o nascimento a uma cidade, penso eu, é a
impossibilidade que cada indivíduo tem de se bastar a si mesmo e a necessidade que sente de
uma porção de coisas”. Nos primórdios da civilização humana, então, as pessoas trataram de
se organizar para a vida em sociedade de tal forma que um grupo, escolhido entre toda a
população, passasse a fazer pelo povo tudo aquilo que ele não poderia fazer por si só e que
fosse de interesse público. Surgia, assim, a figura do servidor público.

Qual era a função deste servidor público diante da sociedade?


Este servidor público, que faz pelas pessoas tudo aquilo que elas não podem fazer por si só,
pode estar preocupado com a saúde do povo, com a educação, com a preservação do
ambiente, com a gestão dos recursos públicos e com a segurança do povo que vive no
território.

E a Segurança Pública, o que a caracteriza?


A segurança, enquanto necessidade básica da vida humana em sociedade, possui
duas dimensões, a saber:

• Segurança Interna
• Segurança Pública

Segurança Interna
Embora o nome insinue a pensar que seja uma segurança do interior de um Estado,
trata-se de todas as medidas adotadas para a garantia da SOBERANIA NACIONAL. A
segurança interna, portanto, é decorrente do agir, ou da prontidão para agir, de um grupo de
servidores públicos treinados e com os equipamentos necessários para responder com o uso da
força bélica a todas as violações, ou possibilidade de violações, das fronteiras do país, com o
desejo de garantir o exercício livre e soberano do governo. Estes funcionários são os militares
das Forças Armadas. Eles são guerreiros que, treinados para tal, combatem ao inimigo com o
desejo de eliminá-lo e, assim, garantir a soberania nacional.

Segurança pública
Esta possui uma dimensão diferente. Ela é exercida por uma gama de servidores
públicos, conforme ainda veremos mais à frente, para a garantia do exercício pleno da
cidadania, situação na qual o povo de um Estado vê seus direitos civis e políticos garantidos
pela ação do governo. Em outras palavras, a segurança pública, enquanto procedimento de
governo que busca fazer pelo povo tudo aquilo que ele não consegue fazer por si só para o
bem viver no território, visa a garantir um código de convivência social, materializado no
arcabouço legal vigente, onde estão expressas as vontades e desejos do povo, elaboradas e
votadas pelo Poder Legislativo, cujos integrantes ali estão por terem sido eleitos como
representante do povo para tal fim.

Os servidores que trabalham comprometidos com o dever de promover a segurança


pública, diferentemente dos que trabalham para garantir a segurança interna, não possuem
inimigos. Se para estes servidores são inimigos todos aqueles que compõem a força invasora
do território ou que se dispõem a tomar as rédeas do governo, para aqueles outros, cujo objeto
laboral é a garantia do cumprimento do código de convivência social, intervindo sobre os
conflitos de interesses pessoais para garantir o interesse coletivo, não há quem seja inimigo.
Há, sim, infrator da lei (código de convivência social) que, naquele momento, transgrediu
uma norma vigente e, no momento e em nome do bem-estar coletivo, será, na forma da lei,
objeto de intervenção do Estado para que seja restaurada a ordem pública.

O infrator não é um inimigo dos servidores públicos encarregados da garantia da


segurança pública. Ele é um cidadão, por isso credor de todos os direitos e garantias
individuais, que cometeu um ato infracional a um dispositivo legal e, por isso e somente por
isso, deve ser sancionado na forma da lei.
O quadro a seguir permite uma visão do que foi dito: Esta concepção não é de
aceitação pacífica hoje, como nunca foi ao longo da história da humanidade, exatamente
porque os conceitos de defesa interna e segurança pública são confundidos e porque os
servidores de uma e outra atribuição, por vezes, foram os mesmos.

Voltando a Platão, há 2.500 anos, já tratava do assunto segurança como de grande


importância para a constituição das Cidades Estados, mas, você pôde perceber que havia
confusão de atribuições.

Veja o que ele diz referindo-se àqueles que seriam os guardiões da paz e da
tranqüilidade da cidade:
Sendo assim, filósofo, irascível, ágil e forte será aquele que destinamos a tornar-se
um bom guardião da cidade. Embora seja possível imaginar que esteja falando do servidor
engajado na defesa interna da cidade, logo adiante Platão deixa claro que fala também de
quem fará a segurança pública.

Acompanhe:
Tal será, então, o caráter do nosso guerreiro. Mas como educá-lo e instruí-lo? O
exame desta questão pode ajudar-nos a descobrir o objeto de todas as nossas pesquisas, isto é,
como surgem a justiça e a injustiça numa cidade. Precisamos sabê-lo, porque não queremos
nem omitir um ponto importante nem perder-nos em divagações inúteis. Veja que, se Platão
assim trata o assunto, pensador influente que é na formação do pensamento ocidental, é de se
esperar que todos os que o sucederam tenham sido conduzidos por essa linha de pensamento,
como de fato o foram. Assim, segurança pública, por muitos e muitos séculos, foi confundida
com defesa interna.

Mas como foi ao longo da história?


Há registro de que ao longo da história foram constituídos corpos de milícia com
função específica de polícia, dando a entender que ali o Estado estava prioritariamente
preocupado com a segurança pública. Acompanhe:
Na obra Historie de la Police, Marcel Le Clerè afirma ter encontrado nas
legislações dos antigos egípcios e hebreus prescrições nitidamente policiais. Em cada tribo
hebréia, segundo o autor, eram designados Intendentes de Polícia, os SARPAKALEK, para
policiarem os súditos e os víveres, e a cidade de Jerusalém, para que o policiamento fosse
mais eficiente, foi dividida em quatro setores, chamados quarteirões.
- Veja a função da Polícia na história em algumas partes do mundo oriental e ocidental:

a) No Egito
Um dos primeiros faraós do Egito, Menés, cita o mesmo autor, promulgou um
código em que seus súditos deveriam se cadastrar para o senso e, para tanto, deveriam
procurar os magistrados, que exerciam funções policiais.

b) Na Grécia
Apesar de os gregos terem legado à posteridade a palavra polícia, era a sociedade
que menos uso fazia da atividade policial, mercê do equilíbrio social e da consciência cívica
de seus cidadãos. A polícia confundia-se com o conjunto das instituições que governavam a
cidade. O grego entendia que um Estado bem policiado era aquele em que a lei, de um modo
geral, assegurasse a prosperidade e o equilíbrio social.

c) Em Roma
Roma, com uma população aproximada de 126.000 pessoas, era policiada por 7.000
homens (7 coortes vigilum), com 1.000 policiais cada uma delas. De início, as funções
policiais confundiam-se com as de judicatura.

Na civilização romana é que a atividade policial alcança maior semelhança com a


estrutura e função dos órgãos das sociedades contemporâneas. A atividade policial se organiza
de forma modelar, fazendo eco à necessidade de disciplina da vida social e de garantia da
ordem pública e de proteção individual e coletiva. Tudo, naturalmente, para que não houvesse
perturbação do pleno domínio do imperador.

Você sabia?
Que durante a Idade Média, o poder esteve nas mãos dos senhores feudais e da
Igreja Católica? É, os senhores feudais tinham seus próprios exércitos para defesa de seus
feudos e a Igreja como única fonte de controle social; e, que a Igreja católica usou seus fiéis
como inquisidores para policiar os hereges, interrogá-los sob tortura e mandá-los,
posteriormente, para a fogueira, caso não professassem os dogmas da Santa Igreja?

Posteriormente, com a queda do feudalismo e o início da Reforma, os reis


começaram a ter em suas mãos um poder absoluto. Começava o despotismo, o Estado-
Policial. As pessoas
eram oprimidas pelo Estado para a manutenção do “status quo”.

As liberdades individuais eram permanentemente desrespeitadas. A teoria do


Estado-Polícia entra em crise no século XVIII. O paradigma da separação dos poderes e da
liberdade individual, desconhecida pela autocracia e pelo despotismo vai destruindo a base do
Estado absoluto.

A Revolução Francesa, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,


aboliu os privilégios, colocou todos os cidadãos no mesmo plano de igualdade, conferindo-
lhes idênticas regalias e deveres. Em conseqüência, impôs um sistema de segurança,
separando a polícia da magistratura.

E, no Brasil, como surgiu a polícia e a idéia de Segurança Pública?

A história da Polícia no Brasil remonta ao século XIX, mais precisamente ao ano de


1808, com a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, fugindo da invasão de Napoleão
a
Portugal.

Quando aqui chegou, D. João VI trouxe consigo a Divisão Militar da Guarda Real
de Polícia, considerada como sendo o embrião da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro,
iniciando assim a história da Segurança Pública no País.
Na época da declaração da Independência, em 1822, a segurança da população se
confundia com a própria segurança do país. Não se tinha nessa época a noção que temos hoje
a respeito de segurança pública, tampouco organizações que se dedicassem exclusivamente a
este mister. A própria legislação era omissa quanto a esse assunto. A Constituição do Império,
de 1824, por exemplo, nada referenciava a respeito de segurança pública.

A primeira lei que trata do assunto foi a Lei Imperial de 1º de Outubro de 1828, que
dispunha em seu art. 66: Das Câmaras Municipais - TÍTULO III - Posturas Polícias art. 66 –
Terão a seu cargo tudo quanto diz respeito à polícia, (...)
pelo que tomarão deliberações, (...)”.

Como você pôde observar, a lei delega às Câmaras Municipais o exercício do poder
de polícia. Em 1831, durante a regência do Padre Diogo Antônio Feijó, os governos
provinciais são conclamados a extinguir todos os corpos policiais então existentes, criando,
para substituí-los, um único corpo de guardas municipais voluntários por província. São
criados então os
Corpos de Guardas Municipais Voluntários, por meio de Lei Regencial. Estes
Corpos de Guardas se constituíram no embrião das Polícias Militares em quase todos os
Estados da Federação.

Por motivos diversos, mas igualmente, com uma visão bastante avançada, Feijó
determina que a nova polícia brasileira deveria ser hierarquizada e disciplinada, composta
exclusivamente por voluntários que se dedicassem permanentemente, em tempo integral e
com todas as suas energias, aos misteres policiais.

Em 1834, a Lei Imperial nº 16, também chamada de Acto Addicional, uma espécie
de emenda à constituição do Império, delega às Assembléias Legislativas Provinciais a
competência para legislar sobre a Polícia e a Economia municipal.
Diz o texto da Lei Provincial nº 16 de 12 de Agosto de 1834: “art. 10 – Compete às
Assembléias Legislativas Provinciais: § 4º - Sobre a polícia e a economia municipal
precedendo propostas das Câmaras”.

Com base nessa Lei Imperial, foram criadas nas províncias as Forças Policiais, com
a função de atender aos interesses da Monarquia, evitar aglomeração de escravos e atender
aos anseios
da classe dominante, além de se constituírem em braço armado do poder público para
execução das posturas municipais.

Em 1840, a Lei Imperial nº 105 de 15 de Novembro, em seu art. 1º, definiu que o
termo polícia, de que tratava o § 4º do art. 10 do Acto Addicional de 1834: “(...) compreende a
Polícia Municipal, e Administrativa somente, e não a Polícia Judiciária”.

À época, as atividades de polícia judiciária ficavam a cargo dos magistrados, em


especial dos Juízes de Paz. A origem da Polícia Judiciária, como organização, remonta ao ano
seguinte, 1841, com a promulgação da Lei nº 261, de 03 de dezembro, que apresentava uma
organização policial incipiente, criando em cada província um Chefe de Polícia, com seus
delegados e subdelegados escolhidos dentre os cidadãos.

Durante o período Imperial, o Brasil se viu envolvido em muitos conflitos, internos


e externos. Em função disto, a Força Policial passou a atuar no campo da Defesa Interna e da
Segurança Nacional, agindo em conjunto com o Exército Brasileiro, tendo, muitas vezes
colaborado com este enviando tropas para compor seu efetivo.

E com a Proclamação da República?

Em 1889 é proclamada a República. O país passa por uma radical transformação


social e política. O Decreto nº 1, de 15 de Novembro, que instituiu a República,
responsabilizava os governos estaduais pela manutenção da ordem e segurança públicas e pela
defesa e garantia da liberdade e dos direitos dos cidadãos (art. 5º). Autorizava ainda aos
governos estaduais a criação de guardas cívicas para o policiamento de seus territórios (art.
8º).

A missão constitucional das Forças Públicas, durante o período da República Velha


variou entre a segurança pública, nos tempos de paz, e a defesa interna e territorial, durante os
períodos de conflito.

Pode-se observar ainda que a atribuição de legislar e regulamentar a segurança


pública competia aos Estados, configurando as Forças Públicas quase como exércitos
estaduais.

O período inicial da ditadura de Vargas foi muito conturbado, com a população


exigindo a volta da democracia, através de uma nova constituição e de eleições. Este quadro
era agravado pela recessão que se abateu sobre o mundo em 1929, cujos efeitos ainda podiam
ser sentidos no início da década de 30. Foi dentro deste contexto que ocorreu em 1932 a
Revolução Constitucionalista, em São Paulo.

Terminada a revolução, com a vitória das tropas da União, restava uma


preocupação ao governo federal: o poderio das Forças Públicas estaduais, que poderiam ser
utilizadas como exércitos estaduais, com a finalidade de se contraporem ao poder central.

O governo federal resolveu então controlar as Forças Públicas, fato que não ocorreu
durante a República Velha. Em 1934, novo acordo entre a União e os Estados ratifica o
acordo firmado anteriormente, tornando as Forças Públicas, oficialmente, força reserva de 1ª
linha do Exército.

A Constituição da República de 16 de Julho de 1934, em seu art. 5º, XIX,


demonstra claramente a intenção do governo federal de controlar as Forças Públicas.
Veja o que diz o texto constitucional: “art. 5º - Compete privativamente à União
legislar sobre: XIX – organização, instrução, justiça, convocação e garantias das forças
policiais dos Estados”.

Em seu art. 167 definia que as Forças Públicas eram consideradas reservas do
Exército. É a primeira referência constitucional (em nível federal) sobre as Polícias Militares
enquanto organizações.

As Forças Públicas adquiriam assim status constitucional. A partir do fim da II


Guerra Mundial começa uma era de grandes transformações no país e no mundo. O ano de
1945 representou a derrocada do Nacionalismo, com a queda do Nazismo, Salazarismo e
Fascismo na Europa e do Estado Novo no Brasil. O país entra numa era de redemocratização.

A Constituição da República de 1946 mantém a competência da União para legislar


sobre a organização, instrução, justiça e garantias das Forças Públicas, agora denominadas
Polícias Militares (art. 5º, XV, “f”).

No início da década de 60, mais precisamente em 1964, o país voltou a passar por
momentos de turbulência política e social, que culminaram na Revolução de 31 de março de
1964. Novamente o país voltava a viver em um regime de exceção, com restrição das
liberdades políticas e individuais. Como em outras épocas de nossa história, esse regime
caracterizou-se pela centralização e excessivo controle sobre a Segurança Pública,
restringindo a liberdade dos Governadores de organizar os órgãos de segurança estaduais.

Uma alteração substancial na polícia ocorre em relação à missão, que deixa de se


preocupar somente com a segurança pública e passa a se preocupar com a segurança interna
dos Estados.

Diz a Constituição de 1967, em seu art. 13, § 4º: “As Polícias Militares, instituídas
para a manutenção da ordem e segurança interna nos Estados, (...), e os Corpos de Bombeiros
Militares são considerados forças auxiliares, reservas do Exército”.
Convém lembrar que a partir de 1964 as Polícias Militares passaram a ser
comandadas por Oficiais do Exército, que repassaram às Corporações os valores adquiridos
naquela Força Armada. Com isso as Polícias Militares passaram a dar maior prioridade à
defesa interna e à segurança nacional, em detrimento da segurança pública. Começava uma
era em que a Polícia seria considerada o braço visível do período ditatorial.

Você sabia?

Que com as revoltas estudantis ocorridas no ano de 1968, além de outros fatos, o
regime de exceção foi endurecido em 1969, resultando na publicação dos chamados Atos
Institucionais e na Emenda Constitucional nº 1, de 17 de Outubro de 1969, por muitos
considerada como uma nova Constituição Federal?
Essa emenda não alterou os dispositivos constitucionais previstos na Constituição Federal de
1967, no que se refere às Polícias. O artigo 183 define ainda as Polícias Militares como força
auxiliar e reserva do Exército, instituídas para a segurança interna e a manutenção da ordem
nos Estados.

Em 1985 o regime de exceção acaba entrando o país em uma fase de


redemocratização. Esta redemocratização se concretiza com a promulgação da atual
Constituição, em 1988, e com a realização de eleições diretas para Presidente da República
em 1989. Dentro deste contexto, ocorrem significativas mudanças no que se refere à
segurança pública em geral e, mais particularmente, às Polícias brasileiras.

Voltemos ao cenário internacional para análise da evolução das organizações encarregadas


de fazerem a segurança pública, para que possamos entender como é praticada hoje está
importante tarefa pública para gerar qualidade à vida humana em sociedade.
SEÇÃO 2 - Quando e como surgiu a segurança pública moderna?

Na Inglaterra, em 1829, coube a Sir Robert Peel, primeiro ministro inglês, homem de
ampla visão em problemas de criminalidade, enunciar os famosos princípios, que ganharia o
seu nome.

Veja o que Peel advoga em sua a tese:


“A polícia deve ser estável, eficaz e organizada militarmente,
debaixo do controle do governo. A missão básica para a
polícia existir é prevenir o crime e a desordem; a capacidade
da polícia realizar suas obrigações depende da aprovação
pública de suas ações. A polícia necessita realizar segurança
com o desejo e cooperação da comunidade, na observância da
lei, para ser capaz de realizar seu trabalho com confiança e
respeito do público. O nível de cooperação do público para
desenvolver a segurança pode contribuir na diminuição
proporcional do uso da força.”

Uso da força pela polícia é necessária para manutenção da segurança, devendo agir
em obediência à lei, para a restauração da ordem, e só usá-la quando a persuasão, conselho e
advertência forem insuficientes.
A polícia visa à preservação da ordem pública em benefício do bem comum, fornecendo
informações à opinião pública e demonstrando ser imparcial no cumprimento da lei.

A polícia sempre agirá com cuidado e jamais demonstrará que se usurpa do poder
para fazer justiça.

O teste da eficiência da polícia será pela ausência do crime e da desordem, e não


pela capacidade de força de reprimir esses problemas. A Polícia deve esforçar-se para manter
constantemente com o povo um relacionamento que dê realidade à tradição de que a polícia é
o povo e o povo é a polícia.
Perceba que a função da polícia passa a ser a de manutenção da ordem pública, da
liberdade da prosperidade e da segurança individual. É bem verdade que, embora date dessa
época o início da preocupação com a garantia dos direitos individuais, fruto da declaração dos
direitos humanos e do cidadão, em muitas sociedades o discurso dos dirigentes públicos de
segurança contemplou esses valores, mas as ações dos integrantes das corporações de
segurança foram em outra direção.

O que predomina é a filosofia do vigiar para punir, como orientação dos


organismos de polícia, no exercício da função segurança do Estado. Os estudos de Michael
Foucault deixam bem clara a forma como os dirigentes do Estado usam os organismos de
segurança pública, assim como diversas outras instituições públicas, para a manutenção do
“status quo”, trocando, apenas na forma, as estratégias de dominação usadas no período
anterior da história,
mas mantendo o mesmo propósito.

Foucault usa o panóptico como símbolo da vigilância adotada no início da era


moderna, que, a bem da verdade, ainda simboliza a prática dos aparelhos de repressão
contemporâneos. A seguir, a descrição do panóptico que ele faz no seu livro Vigiar e Punir:
nascimento da prisão, é o retrato de um sistema que cuida da normalidade para punir a todos
aqueles que fogem da normalidade definida pelo poder central do Estado e podem, de alguma
forma, gerar dificuldade para a governabilidade do país.

SEÇÃO 3 - O que é polícia política?

O início do século XX é o cenário onde impera nas organizações de segurança


pública, principalmente nas polícias, o modelo que depois passaria para a história denominada
de polícia política.

Neste período, quando eleito para ocupar um cargo do poder executivo, o político
constituía a sua polícia e passava a administrá-la para atingir os seus objetivos pessoais. O
agente de segurança, neste contexto, é considerado o último escalão na descentralização do
serviço público municipal. Ele é o representante ambulante de informações e queixas do
governo da cidade, acessível aos cidadãos que tenham alguma dificuldade ou delação a fazer.
O fato de o policiamento estar disponível em todas as horas do dia e da noite possibilita ao
agente de segurança prestar aos cidadãos e ao governo esse tipo de serviço.

Os trabalhos de segurança, nesse período, são realizados para manter o político no


poder a todo custo, mesmo que para isso fosse necessário corromper-se ou deixar de fazer
aquilo que, por dever de ofício, deveria ser feito. Além disso, a natural alternância no poder
dos dirigentes públicos não permitia uma profissionalização dos policiais, porquanto, quando
o dirigente público eleito saía do poder, com ele saíam também todos os policiais que com ele
tinham entrado. A cada período de gestão era feita toda uma renovação nos quadros da
polícia, não permitindo que houvesse um acúmulo de saber específico do ofício, tampouco
que houvesse uma estruturação organizacional dos departamentos de polícia que desse uma
aparência de organizado.
Fonte: Foucault. M. (Vigiar e punir, 1987)

A função segurança era desorganizada, os funcionários eram corruptos e altamente


comprometidos com os políticos que os haviam contratado.

O que substituiu a esta fase negra da segurança?

A fase denominada de polícia política foi substituída, por volta do ano 1910, pelo
que ficou conhecido como reforma ou fase da polícia profissional.
Duas grandes frentes foram atacadas para que houvesse a reforma. Veja quais foram:

a) A primeira resultou numa estruturação organizacional dos órgãos de polícia,


orientada pelos princípios da burocracia. Neles, profissionais de carreira ocupariam funções
com atribuições previamente definidas por uma estrutura hierarquizada, na qual poderiam
fazer progressão pelos critérios da antiguidade e do merecimento. Esse procedimento, além de
organizar a execução do serviço de segurança pública feita pelos policiais, ainda diminuiu a
influência política, antes muito marcante e com efeitos tão nocivos para os profissionais de
segurança.

b) A outra grande frente da reforma foi concentrada sobre a capacitação técnico


profissional dos agentes de segurança. Sobre uma e outra frente o americano O.W. Wilson
exerceu muita influência com os livros Organização da polícia e Administração da polícia.
Nessas obras o autor faz, de maneira inédita até então, uma detalhada descrição da estrutura
organizacional de um departamento de polícia e uma pormenorizada explicação de como o
policial deve agir para fazer segurança pública.

Para Wilson, fazer segurança é identificar pessoas e locais de risco e patrulhar esses
locais para prender as pessoas de risco. Ser profissional, então, é saber identificar as pessoas
de risco e aplicar as técnicas especificadas para reprimir eventuais ações dessas pessoas de
risco.

É importante compreender a importância dos fatores de risco no modelo de


policiamento preconizado pela reforma. Para O. Wilson o serviço policial existe por causa dos
riscos.

Esta fase que hoje ainda exerce influência no pensar e agir da segurança pública dos
países ocidentais, incorreu no erro de estabelecer que o profissionalismo policial implicava
atuar exclusivamente nos locais de prática de crime e violência para reprimir o criminoso.
Todas as demais necessidades que porventura pudessem ter os envolvidos na ocorrência
poderiam ser de qualquer outro órgão público menos da polícia, que já tinha feito o seu
trabalho combatendo o criminoso e que, por isso, deveria se retirar do local mesmo deixando
cidadãos desassistidos para trás.

SEÇÃO 4 - O que é a comunitarização do serviço de segurança?


A comunitarização do serviço de segurança é exatamente a fase seguinte à Reforma
que surgiu para corrigir os erros do denominado profissionalismo policial, que tanta antipatia
causava aos integrantes das organizações de segurança.

As causas da comunitarização foram os movimentos sociais durante as décadas de


1960 e 1970, que mostraram a crise do modelo da reforma e definiram as principais mudanças
para a polícia. Protestos contra as guerras, a favor dos direitos civis e outras reivindicações
sociais norte-americanos acabaram por incluir nesses movimentos as instituições policiais,
quase sempre encarregadas da repressão. A polícia se tornou um alvo desses manifestantes e,
de certa forma, obrigou as lideranças policiais a uma autocrítica sobre as polícias e práticas
policiais.

Define risco como toda a situação que possa gerar um incidente que requeira a
atuação policial. Os riscos podem gerar crimes, contravenções, acidentes e congestionamento
de trânsito, desaparecimento de pessoas e de objetos e outros incidentes que necessitam da
atenção da polícia.

Você sabia?

Que um episódio muito marcante foi a depredação dos órgãos públicos e viaturas
de polícia feita por negros de um bairro de ew York que protestavam contra a decisão
judicial de inocentar dois policiais que haviam matado por espancamento um negro, no ato de
uma prisão por motivo fútil?

Na ocasião, a polícia americana recorreu às Universidades para encomendar


pesquisas que mostrassem as razões pelas quais a população se levantava contra aqueles que,
em tese, deveriam ser amados por protegê-los. A constatação foi de que a polícia era vista
como uma entidade estranha à comunidade, porquanto os policiais eram vistos,
eventualmente, passando dentro de viaturas sem ter a menor intimidade com as crenças e
valores locais.
Quando paravam era para agravar uma situação de conflito já instalada.

Em decorrência das pesquisas foi redigido um relatório que orientava a polícia a


buscar na comunidade a parceria necessária para identificar problemas locais e agir de forma
criativa sobre as suas causas, respeitando as peculiaridades de cada localidade.

Passa-se a praticar uma polícia de proximidade, onde o trabalho dos servidores


públicos de segurança é executado para gerar qualidade de vida ao cidadão.

A seguir, desenvolva as atividades de auto-avaliação e retome


os conteúdos estudados lendo a síntese da unidade. É
importante que você também procure aprofundar seus estudos
fazendo leituras de materiais complementares.