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Guinga

Por Marcus Tardelli

Ensaio elaborado especialmente para o projeto Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia, patrocinado pela Petrobras através da Lei Rouanet

Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar – o Guinga - vem se firmando como um dos maiores nomes da música brasileira dos últimos tempos. Reinventor de diversos estilos musicais, sempre com uma assinatura muito particular, sua obra já pode ser considerada definitiva e de suma importância para a música brasileira. Seu veículo para compor é o violão, instrumento com o qual se relaciona desde a adolescência. O Guinga violonista também se torna único à medida que é fruto direto de suas próprias composições. O artista grandioso vem se somar à sua personalidade contraditória e extremamente rica - um ser humano com profunda sensibilidade e conhecimento de vida – o que o torna causa e conseqüência de sua própria arte.

Sua obra, sempre guiada pela inspiração e pelas tradições populares, também transparece refinados padrões estéticos. Por um lado, isso faz com que Guinga fique restrito a poucos, se distanciando do que vem predominando no mercado. Mas para as pessoas de sensibilidade, sua música é fulminante. E não são poucas. A música de Guinga atualmente vem influenciando toda uma geração de compositores e músicos. Virou referência para artistas como Chico Buarque, Michel Legrand, Ivan Lins, João Bosco, Paco de Lucia e Hermeto Pascoal, entre outros.

Sua formação musical é praticamente autodidata. Na verdade, sua maior escola foi ouvir música. Passou quase todas as madrugadas de sua vida ouvindo os grandes compositores e músicos nas rádios, além da convivência com os artistas de sua época. No final dos anos de 1960, mesmo tomado pela música, Guinga decidiu por uma carreira acadêmica, se formando posteriormente em Odontologia. Mas a música jamais o abandonou. Muito ao contrário, tomou conta de sua vida a ponto do compositor ofuscar o dentista, culminando no abandono definitivo da Odontologia. Na realidade, a arte escolhe o artista, não o oposto. Era só uma questão de tempo para que Guinga se tornasse um dos maiores artistas brasileiros.

O Compositor

São notáveis as qualidades de Guinga como músico: o intérprete, o violonista, o arranjador. Mas todas essas capacidades servem a um único propósito: o compositor. Compor é o que há de mais representativo em sua arte. É praticamente uma sina em sua vida, uma necessidade quase que fisiológica.

Guinga é daqueles grandes compositores que, além de expressarem toda a perfeição estética, beleza e originalidade em sua obra, possuem uma ligação com o impalpável. São como fios condutores da “grande música”, a qual vem cercada de profundidade, de inspiração e de emoção. Na música de Guinga existem elementos subliminares que vão além da sofisticação melódica ou das inusitadas soluções harmônicas e rítmicas. Esse elemento é a memória afetiva, a nostalgia de um tempo remoto. Tempo em que as rádios tocavam valsas, choros, modinhas e sambas-canções e a vida corria tranqüila nos subúrbios do Rio de Janeiro.

Conseqüentemente, seu processo de criação está diretamente ligado à inspiração. Se ela não está presente, nada feito. Para ele, não há outro meio de se chegar à música.

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Além disso, Guinga tem uma bagagem musical incrível. Passou quase que a metade de sua vida ouvindo música. É conhecedor profundo de música clássica, jazz e música brasileira. Dentre os compositores que mais o influenciaram estão Villa-Lobos, os impressionistas franceses como Ravel, Debussy e Fauré, Pixinguinha, Garoto, Ernesto Nazareth e Tom Jobim. Por outro lado, é notável como consegue filtrar todas essas influências e sintetizar um Brasil tão intenso e rico em sua obra.

Muitos ainda enxergam Guinga como um grande violonista que apenas compõe seu próprio repertório, quando na verdade é o compositor que quase sempre molda o violonista. Talvez essa imagem equivocada se deva ao fato de sua performance nos shows ser mais evidente aos insensíveis do que o compositor por trás do violão. Na realidade, a importância da música de Guinga para o Brasil sequer começou a ser avaliada com profundidade. Mas a natureza não dá saltos e o tempo, só o tempo, coloca tudo nos seus devidos lugares.

A Obra

Poucos compositores brasileiros traduziram de forma tão clara o Brasil como Guinga. Sua música traz toda a riqueza rítmica, melódica e harmônica de vários cenários da música brasileira, desde a seresta e o choro passando pelos ritmos nordestinos, valsas, toadas e sambas, até outras influências como o jazz, o fox e o tango, porém sem se prender demais a nenhum desses estilos, misturando ritmos, criando uma linguagem única, uma assinatura.

A fase inicial de sua obra está melodicamente ligada ao universo da seresta, da alma chorona e do romantismo do subúrbio. Suas harmonias, ainda tradicionais, já davam sinais de originalidade. Temos exemplos de belas melodias como "Bolero de Satã" (gravada por Elis Regina), "Valsa de Realejo" (gravada por Clara Nunes) e "Non Sense" (gravada por Miucha), que expressam bem essas influências.

Porém, o “divisor de águas” na música de Guinga foi conhecer Haroldo Hilário Bessa, amigo da família que o introduziu às harmonias de Garoto, Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Laurindo Almeida. A partir desse momento, o compositor começou a traçar definitivamente sua identidade musical.

Mesmo compondo muitas peças para violão ou temas instrumentais, a canção é o formato mais predominante na obra de Guinga. Até hoje são mais de 300 canções, muitas delas gravadas, outras inéditas, algumas delas perdidas ou esquecidas pelo próprio compositor. Em suas canções, fez parcerias com grandes letristas como Chico Buarque, Sérgio Natureza, Simone Guimarães e Nei Lopes, entre outros. Porém, os dois letristas mais representativos na sua obra, até hoje, são Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro. Na primeira fase de sua carreira, até meados dos anos de 1980, Guinga compôs com Paulinho Pinheiro canções imortais como "Senhorinha", "Saci", "Passarinhadeira" e "Non Sense". Mas foi com Aldir Blanc que o compositor saiu do consultório para o mundo. Seus dois primeiros discos tiveram quase na sua totalidade canções com letras de Aldir. São frutos dessa parceria verdadeiras obras-primas da música brasileira como "Catavento e Girassol", "Lendas Brasileiras", "Canção do Lobisomem" e "Neblina e Flâmulas", entre outras.

Atualmente, Guinga vem firmando parcerias com talentos da nova geração de letristas como Tiago Amude, Edu Kneip e Mauro Aguiar.

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O Violão

O violão é essencial para a música de Guinga. É o seu maior veículo para expressar sua arte. Todo seu processo de criação, suas idéias rítmicas, melódicas e harmônicas estão também ligadas à linguagem do violão, tudo passa por ali. Dessa forma, algumas músicas, mesmo feitas para serem cantadas, ficam com uma linguagem melódica peculiar do instrumento. Temos como exemplo dessa linguagem, notas de uma melodia que foram intuitivamente compostas no violão soando em arpejos (as notas vão ficando uma após a outra). Nesses casos, muitas vezes a voz ou os instrumentos que não têm o recurso do arpejo, não conseguem transmitir com a mesma intenção e veracidade a melodia criada pelo compositor, a qual foi intuitivamente sentida em arpejos.

Por outro lado, em outras canções, o seu instrumento tem um papel mais coadjuvante e a melodia nasce mais independente.

Através do violão, Guinga também é muito reconhecido e elogiado como instrumentista. Sua maneira de tocar está diretamente ligada à sua obra. É no violão que tudo começa e provavelmente tudo termina.

Uma característica muito particular do violonista (uma espécie de marca registrada no seu instrumento) é a maneira como utiliza as cordas soltas em combinação com determinados acordes. Muitas vezes esses acordes vão se alternando em posições absolutamente simétricas e a mesma corda solta vai soando em cores diferentes. Essa característica tornou-se um importante componente na sua identidade não só como violonista, mas como harmonizador, arranjador e compositor.

Guinga nunca teve a pretensão de ser violonista ou cantor. Seu objetivo sempre foi compor. Ele próprio admite que o cantor e o violonista vêm a calhar. Mas a imensidão de sua música torna o violonista e o cantor muito maiores do que poderiam ser, pois ambos estão a favor de sua arte.

Definições à parte

Hoje, vivemos em um mundo materialista que prefere enxergar o lado prático e superficial das coisas ao invés de olhar para os maiores e mais profundos valores da vida. Talvez esse Brasil global e banal nunca descubra Guinga. Mas artistas como ele existiram e sempre existirão, pois não dependem do conhecimento de outras pessoas e, sim, da própria sensibilidade para com os verdadeiros sentimentos que movem o planeta.

Definições à parte, falar da música de Guinga é quase que redundante. Nenhuma explicação seria capaz de dimensionar um artista como esse. Sua arte está além de qualquer julgamento meramente técnico.

Para entendê-lo em toda sua plenitude é preciso ouvir sua obra com profundidade, deixar-se envolver por toda a beleza e emoção recorrentes em sua alma de compositor pois, acima de tudo, a grande arte não existe para ser definida, mas sim para ser sentida.

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