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Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG

Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES IV SEMINÁRIO

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos

26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016

CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016
CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016

Organização:

CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016
CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016
CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016
CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016
CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016
CIDADES Visibilidades, Escalas Geográficas e Desafios Metodológicos 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016

Equipe Organizadora:

Professores:

Dr. Alides Baptista Chimin Junior – UNICENTRO

Dr. Álvaro Luiz Heidrich – UFRGS

Dr. Antônio Henrique Bernardes – UFF

Dr. Benhur Pinós da Costa – UFSM

Dra. Claudia Luisa Zeferino Pires – UFRGS

Dra. Joseli Maria Silva – UEPG

Dr. Marcio Jose Ornat – UEPG

Dr. Nécio Turra Neto – UNESP/PP

Dr. Nicolas Floriani – UEPG

Dra. Rosemere Santos Maia – UFRJ

Dr. Rosemberg Ferracini – USP/FE

Dra. Silvia Méri Carvalho – UEPG

Alunos:

Adelaine Ellis Carbonar dos Santos

Adriana Gelinski

André de Morais

Dimas Diego Gontarek

Fernando Bertani Gomes

Jessica Emanueli Moreschi Bedin

João Paulo Leandro de Almeida

Juliana Przybysz

Lucélia de Fátima Rodrigues

Mayã Pólo de Campos

Raony Tullio Carneiro

Rodrigo Rossi

Susana Aparecida Fagundes de Oliveira

Vagner André Morais Pinto

Tamires Regina Aguiar de Oliveira Cesar

William Hanke

Comitê Científico:

Dr. Álvaro Luiz Heidrich – UFRGS

Dr. Antônio Henrique Bernardes – UFF

Dr. Benhur Pinós da Costa – UFSM

Dra. Claudia Luisa Zeferino Pires

Dr. Nécio Turra Neto – UNESP/PP

Dra. Rosemere Santos Maia – UFRJ

Dr. Rosemberg Ferracini – USP/FE

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

4

CONFERÊNCIAS

6

Painel de Discussão 1 - Espaços e Territórios de Afirmação Diversos para

Contestar as Hierarquias Sociais

 

7

Pode o Estabelecimento de Vínculos Territoriais Permitir a Afirmação da Diversidade e da Contestação das Hierarquias Sociais? Álvaro Luiz Heidrich

8

Da

Espacialidade Histórico Vivencial à Territorialidade Político Fundiária:

(Des)Enquadramentos da Comunidade Quilombola de Pimenteiras do Oeste/RO. Cicilian Luiza Löwen Sahr, Zairo Carlos da Silva Pinheiro

24

A Presente Rede das Paróquias Católicas na Cidade de Campos dos Goytacazes – RJ. Julio César Mascoto

42

O Santuário Santo Antônio: Tramas de um Território Consagrado em Imbituva – PR. Leandro de Jesus, Wagner da Silva, Almir Nabozny

56

Cultura Cigana, um Híbrido? Bianca Ingredy Nazaré

 

71

A

Transformação

da

Territorialidade

Indígena

Parakanã.

Rodrigo

Wienskoski Araujo

 

82

Microterritorialidades Tradicionais no Espaço Urbano: Conflito de Imaginários Geográficos. Maximillian Ferreira Clarindo

96

Geografia do Trabalho em Pequenos Município: Questões Preliminares para Pensar esses Espaços. Adriano Makux, Caroline Aparecida Marchioro

Tracz

Paisagem e Arte: Edificações em Madeira nas Paisagens Paranaenses de

Irati retratadas em Quadros de Primo Araújo. Andressa Maria Ferrari

Dinâmicas Socioespaciais e Microterritorialidades Urbanas em Erechim –

RS. Paula Lindo, Igor Catalão

Os Negros do Norte de Minas: Comunidade Quilombola de Poções. Taís

118

133

150

Oliveira, Arlete Menezes Lourenço Bakovicz, Ivan Kojunski

168

Sujeito, Identidades e Mídias Sociais. Antonio Bernardes

182

Painel de Discussão 2 – Visibilidades Sociais e as Escalas de Análise

197

Microterritorialidades e Microterritorializações Urbanas. Benhur Pinós da

Costa

Microterritorialidades na Urbe Carioca: um Clube de Rapazes de Programa e

as Relações Homocomerciais no Século XXI. Miguel Angelo Campos

Ribeiro

Espaço Carcerário e as Múltiplas Perspectivas Escalares: o Institucional, o

Cotidiano e o Corpo. Rodrigo Rossi

O Conjunto Residencial Popular como ‘Microcosmo’: As ‘Capelinhas

Visitadoras de Lares’ e Suas Espacialidades. Sandro Murilo Pedrozo,

198

212

229

A Exclusão Social dos Catadores de Materiais Recicláveis na Cidade de

Guarapuava. José Clair da Luz

Mulheres Vítimas de Violência Sexual e os Significados de suas

Experiências Corporais: Eu Me Senti Violada, como se Alguém Tivesse

Ultrapassado Tudo. Mayã Polo de Campos

A Multiterritorialidade do Consumo: Um Estudo da Diversão Noturna em

Campos dos Goytacazes – RJ. Fernanda de Faria Viana Nogueira

As Relações entre Espaço Vivências Educacionais de Travestis e

Transexuais na Cidade de Ponta Grossa, Paraná. Adelaine Ellis Carbonar

dos Santos

A Dimensão Espacial da Pobreza Urbana: o Efeito-Vizinhança como Escala

264

283

300

314

de

Análise. Eduardo Marchetti Pereira Leão da Motta

325

Da

Totalidade ao Lugar: O Exemplo da Pink Elephant. Renata Sakurai

338

Moradores de Rua e suas Relações com o Espaço Urbano: Dos Subespaços

ao Território Descontínuo Paradoxal. Leonardo Lahm Palombini

Espaços

(In)Formais de Saúde em Curitiba – PR. Ramon Oliveira Bieco Braga

Análise da Apropriação de Espaços Urbanos de Ponta Grossa – PR por

‘Artistas de Rua’. Maiara Garbuio

Microterritorialidades no Município de Candói – PR: Os Skatistas como

Estudo de Caso. Alexander Matos de Souza, Clayton Luiz da Silva

Gênero e a Diferenciação Escalar das Adolescentes em Conflito com a Lei na Cidade de Palmeira – Pr entre 2010 – 2012. Jessica Emanueli

Moreschi Bedin

A Experiência do Cárcere Enquanto Elemento de Acesso às Diferentes

Espacialidades da Cidade de Ponta Grossa por Homens Ex-Detentos.

A (In)Visibilidade

360

377

387

402

416

dos

Garotos

de

Programa

no

Acesso

aos

Dimas Diego Gontarek

Entre (Multi)Territorialidades Urbanas: Tornando-se Morador(a) de Rua.

Raony Tullio Carneiro

A Busca do Reconhecimento das Mulheres do Campo em Arroio Grande,

Santa Maria /RS. Ana Justina da Fonseca Ziegler, Benhur Pinos da

427

445

457

Painel de Discussão 3 – Identidades e Espaços Políticos de Afirmação e

477

Empoderamento

Costa

Juventudes do Território Rural Serra Mar. Silvia Verona Zanol e Bruno

Franklin Lopes Gaspa

Os Guarani da Mata Atlântica: A Importância do Artesanato para

Subsistência em Áreas de Conservação. Sandra Dalila Corbari

A Importância de Políticas Públicas para a População não Heteronormativa:

A Escola Básica Carioca como um Território Equânime. Nathália Silva

478

490

Vieira

Micropolíticas no Campeche: entre Diagramas Cristalizados, Planejamento

509

Os Jovens do Quilombo dos Alpes e o Duelo Ético – Estético. Gisele

Santos Laitano

Vivência Espacial e Estigma de Mulheres Prostitutas na Cidade de Ponta

Grossa – PR. Juliana Przybysz

A Produção do Capital Espacial e da Visibilidade Social no Campo da

Diversão: o Caso dos Jovens do low. Elvis Christian Madureira Ramos

Gênero e Microterritorialidades Acadêmicas: Representatividade entre Homens e Mulheres na Autoria de Artigos Científicos Geográficos

Paranaenses. Vagner André Morais Pinto

Apropriação de Espaços Privados para Uso Público em Chapecó – SC.

Bruna Natali de Castro Keschner

Estudos Migratórios na Geografia: Lembranças Conservadoras, Projetos Emancipatórios. Thiago Romeu de Souza, Bismark Fernandes Gomes da

Silva, Irislaudo Erik Estevam da Silva

Taxas Percentuais de Reprovação das Instituições Públicas de Ensino Médio na Cidade de Ponta Grossa, Paraná. Susana Aparecida Fagundes de

Oliveira

544

556

573

592

608

621

638

As Estratégias Espacias e as Microterritorialidades da Parada LGBT em

Goiânia – GO. Jorgeanny de Fátima Rodrigues Moreira

Pureza e Perigo nas Representações Patrimoniais: Afirmações e

Contestações Identitárias numa Cidade Monumento. Patrício Pereira Alves

de Sousa

As Territorialidades e a Memória Ferroviária de Wenceslau Braz - PR: Uma Leitura Sobre as Possibilidades de Análise dos Discursos dos Espaços

Virtuais. Eliane Netrebka Ramos

Representações e Vínculos com o Território e Paisagens da Pesca Artesanal

na Colônia-Z-3, Pelotas – RS. Keli Siqueira Ruas, Álvaro Luiz Heidrich

650

667

685

704

Painel de Discussão 4 – Espaço Enquanto Forma de Regulação e Autonomia

722

Brasil – Paraguai: Considerações Sobre a 'Fronteira do Consumo'. Luana

Caroline Künast Polon

723

Ressignificando a Periferia: Conformação Simbólica do Espaço na Relação

Hip - Hop e Religião. Dalvani Fernandes

Vida Noturna, a Construção de um Objeto de Estudo para a Geografia.

Nécio Turra Neto

Na Rua o Close é Certo! Formação e Dinâmicas da Territorialidade Trans em Feira de Santana - BA, entre Encontros, Tensões e Identidades. Matteus

Freitas de Oliveira

Pessoas com Deficiência Visual e seus Espaço de Moradia: Reflexões Sobre o Cotidiano e suas Interações. Anna Paula Lombardi, Cicilian Luiza

Löwen Sahr

Gentrificação e a exclusão de sem teto no centro do Rio de Janeiro. Luis

736

752

769

787

A Participação Homossexual na Territorialidade Tradicionalista Gaúcha.

Edipo Djavan dos Reis Göergen, Benhur Pinós da Costa

BR - TRANS: Transitoriedades de Gênero entre o Espaço Absoluto e o Espaço Relativo – A Geografia e o Teatro Frente a uma Questão de Identidade. Ulisses da Silva Fernandes, Miguel Angelo Campos Ribeiro

823

840

Centralidades do Lazer Noturno em Marília e São Carlos. Tiago Ferreira

Lopes Machado

855

Os afetos da ‘Quebrada’ e o Eterno Retorno à Espacialidades de

Drogradicção de Jovens do Sexo Masculino das Periferias Pobres de Ponta

Grossa – PR. Fernando Bertani Gomes

O Trabalho como Território Heteronormativo: Resultados Preliminares de um Olhar para a Violência na Vivência de Mulheres Lésbicas, Bissexuais e

Transexuais. Rita Estela Salino

Conferência de encerramento – Geografias menores: potências na

educação. Wenceslao Machado de Oliveira Jr

871

886

904

APRESENTAÇÃO IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE

APRESENTAÇÃO

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

É com grande satisfação que oferecemos á comunidade científica da

Geografia o IV Seminário Nacional sobre Múltiplas Territorialidades e IV Seminário

Internacional sobre Microterritorialidades nas Cidades: Visibilidades, escalas

geográficas e desafios metodológicos, nos dias 26, 27, 28 e 29 de outubro de 2016

na Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Esta é a quarta vez que o evento se realiza. O primeiro Seminário

Nacional sobre Múltiplas Territorialidades aconteceu na Universidade Luterana

do Brasil (ULBRA), em Canoas-RS, no ano de 2004. No ano de 2007 este grupo

organizou o II Seminário sobre Múltiplas Territorialidades na UNIOESTE, na

cidade de Francisco Beltrão-PR, contando com a presença de Claude Raffestin,

professor da Universidade de Genebra. O I Seminário Internacional sobre

Microterritorialidades ocorreu em 2010 e foi promovido pela Escola de Serviço

Social da UFRJ. O II Seminário Internacional sobre Microterritorialidades nas

Cidades ocorreu em 2012 na UNESP (Presidente Prudente). No ano de 2014 o

evento foi realizado em Porto Alegre, promovido na UFRGS. Como pode ser

observado, o evento tem mantido regularidade e a rede de pesquisadores que

sustenta esta iniciativa tem alcançado resultados promissores.

O evento foi desenvolvido para criar espaço de discussão de diferentes

posições teóricas e a difusão de pesquisas sobre as concepções e práticas

atuais relacionadas ao conceito de território. Sua contribuição está pautada pela

sistematização do estado atual da produção científica sobre a

multiterritorialidades e microterritorialidades. Tem como metas a) Discutir teorias

e métodos de pesquisa nas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas que abordem

as culturas urbanas na atualidade; b) Aprofundar a discussão sobre os conceitos

de território e territorialidade em suas múltiplas escalas. c) Aproximar o debate

sobre culturas e territorialidades a partir de uma perspectiva interdisciplinar e

a partir de uma perspectiva interdisciplinar e ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n.
IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

transdisciplinar (assistentes sociais, geógrafos, antropólogos, sociólogos,

educadores e demais interessados pelo tema; d) Promover o intercâmbio de

diferentes pesquisadores (professores, acadêmicos, pós-graduandos) de

diferentes instituições que desenvolvam seus trabalhos relacionados ao tema.

O formato da programação do evento é inovador e tem como finalidade

ampliar o acesso de jovens pesquisadores e produzir visibilidade de seus

trabalhos científicos. Sendo assim, a programação foi desenvolvida com base

em proposições que foram submetidas e avaliadas, sem ter previamente uma

estrutura fechada com pesquisadores já experientes e reconhecidos no campo

geográfico 1 .

Enfim, o evento certamente amplia o escopo de abordagem da

Geografia, não apenas constituindo inovações temáticas, mas também teóricas

e metodológicas e abrindo espaços de enunciação à jovens pesquisadores.

1 Os autores são responsáveis pela revisão gramatical, normas da ABNT e pelo conteúdo e opiniões contidas nas reflexões.

ABNT e pelo conteúdo e opiniões contidas nas reflexões. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
CONFERÊNCIAS IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE

CONFERÊNCIAS

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Trajetórias das Territorialidades de/em Ação - Tributo a Doreen Massey

Wolf - Dietrich Gustav Johannes Sahr

Micropotências na Educação: as Geografias Menores

Wenceslao Machado de Oliveira Jr

as Geografias Menores Wenceslao Machado de Oliveira Jr ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Painel de Discussão 1 - Espaços e Territórios de Afirmação Diversos

para Contestar as Hierarquias Sociais

Afirmação Diversos para Contestar as Hierarquias Sociais ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n.
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Pode o Estabelecimento de Vínculos Territoriais Permitir a Afirmação da Diversidade e da Contestação das Hierarquias Sociais?

Álvaro Luiz Heidrich Instituto de Geociências, UFRGS

Resumo O artigo retoma a discussão sobre territorialidades locais, compreendidas por meio da relação estabelecida por comunidades e seus atores com espaços em processo de apropriação. Discorre-se sobre análises realizadas dessa questão, as quais culminaram na elaboração do conceito de vínculos territoriais, articulando-as com estudos similares. As situações e processos estudados são compreendidos pelas ações de apropriação do espaço, concepção fundamentalmente associada à ideia de criação, como concebida por Henri Lefebvre. Expõe-se a seguir o problema de que a apropriação constituinte de territorialidades locais também se embate em tensões e conflitos com as territorialidades geradas por poderes formais e institucionais. Desse modo, como visto na proposição conceitual, os vínculos territoriais dizem respeito a ações de condução da vida, territorialidades autocentradas e externalidades, desterritorialização e reterritorialização dominantes. Compreendemos que está em jogo o desejo de dominação por parte dos sujeitos identificados com a integração social geral e os que almejam a construção das autonomias e reconhecimento das diferenças. Essas lógicas se encontram em conflito, duelando motivações, interesses, estratégias, estilos de vida, vínculos sociais e territoriais. Palavras-Chave: apropriação, consciência territorial, ocupação, uso, vínculos territoriais

Could the Establishment of Territorial Bonds Allow the Affirmation of Diversity and the Contestation of Social Hierarchies?

Abstract This article resumes the discussion about local territorialities, understood through the relationship established by communities and their actors with spaces in the process of appropriation. Analyses of this question are reviewed, culminating in the elaboration of the concept of territorial bonds and articulating them with similar studies. The situation and processes studied are understood through the actions of appropriation of space—a conception fundamentally associated with the idea of creation as conceived of by Henri Lefebvre. The problem that the appropriation that constitutes local territorialities also collides with tensions and conflicts with the territorialities generated by formal and institutional powers is then exposed. Thus, as seen in the conceptual proposition, the territorial bonds concern actions of conduction of life, self-centered territorialities and externalities, dominant deterritorialization and reterritorialization. The will to domination by the subjects identified with general social integration and those who aim at the construction of autonomies and acknowledgement of differences is understood as relevant to the question studied. These

is understood as relevant to the question studied. These ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

logics are in conflict, dueling motivations, interests, strategies, lifestyles, social and territorial bonds. Keywords: appropriation, territorial consciousness, occupation, usage, territorial bonds.

Introdução

Trago para este painel um conjunto de argumentos – agrupados em torno do

termo 'vínculos territoriais' – desenvolvidos com o objetivo de compreender as

situações nas quais comunidades e seus atores estabelecem ligações com um

espaço em processo ou situação de apropriação por eles mesmos. Essa formulação

foi inicialmente elaborada para o estudo de processos de exclusão e inclusão

associados a territorialidades locais 2 e retomada com certa frequência, submetendo-

a a outros cenários. Nem tanto a expressão aqui tomada, mas muito mais o seu foco

podem ser vistos em outros estudos (DI MÉO & PRADET, 1996; VERMEERSCH,

2006; HAESBAERT, 2014) em que grupos ou comunidades e suas relações internas

trazem suas referências espaciais como suporte de suas identidades, constroem

estratégias, enfrentam conflitos ou apenas configuram suas singularidades.

Considerei na referida formulação, vínculos territoriais como “resultantes das

, [que] dependem, portanto, de uma

ações ou práticas de condução da vida

relação com as externalidades, com os vários âmbitos da integração socioespacial”

(HEIDRICH, 2006, p. 42).

Concebemos que “por meio do estabelecimento de vínculos, por criações ou

invenções humanas, através das práticas sociais, é que se produz território, que se

constitui uma territorialidade” (HEIDRICH, 2006, p. 27). Muito embora tenhamos

tomado a fundamental inspiração nas ideias de Henri Léfèbvre (2000) sobre a

produção do espaço, não adoto como tem sido bastante corrente nos estudos de

enfoque territorial no Brasil, a noção de que o território resulte de um equivalente

2Pesquisa realizada em 2000/2001, com resultados apresentados originalmente no trabalho. 'Territorialidades de exclusão e inclusão social: relações da sociedade com o espaço em situações de pobreza e de construção de vida econômica e de consciência' (HEIDRICH; CARVALHO, 2001).

e de consciência' (HEIDRICH; CARVALHO, 2001). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n. 1
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IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

mecanismo de produção do espaço social. Do ponto de vista de uma Geografia de

enfoque social, o território se

refere ao ESPAÇO SOCIAL limitado, ocupado e utilizado por distintos grupos sociais como consequência da colocação em prática de sua TERRITORIALIDADE ou do campo de PODER sobre um espaço exercido pelas instituições dominantes (JOHNSTON, GREGORY e SMITH, 2000 [1981], p. 562).

Em muitos estudos, o que se vê pelo aspecto instaurador das múltiplas

feições das territorialidades humanas é bastante reconhecido por apropriação do

espaço. Este termo possui significado bastante específico na referida obra de Henri

Léfèbvre, mas também, uma compreensão mais ampla em outros trabalhos, por

vezes conceituais e outras etimológicas mesmo 3 . Para ele, a apropriação tem a ver

com espaço adaptado para o viver, acompanhado pela imaginação sobre o que se

vive no lugar apropriado, e com seus usos associados. O ato ou a ação culmina

como criação. Por isso, entendo que se coaduna em muito com o que vimos

estudando atualmente por territorialidades e territórios que se originam da invenção,

por mais que no espaço social ainda se mantenham as ações concebidas de

3 Ver em Paul Claval (1999) o sentido bastante amplo de território como espaço de apropriação coletiva por um grupo, um povo ou até mesmo o Estado. Em Robert Sack (2009 [1986]), apesar de não ser trazida como termo teórico chave, apropriação é utilizada em referência a área tomada dos indígenas na colonização da América. Em Guy Di Méo e Pascal Buléon (2007) apropriação, assim como qualificação e designação, é vista como uma ação transformadora do espaço em território. Não é preciso arrolar tantos outros, mas há um enfoque em que a apropriação é vista como meio de manter domínios ou posições no espaço social. Tem a ver bastante com um espaço praticado, mas sem referência ao enfoque lefebvriano e à noção marxiana de apropriação: o sentido dado por Pierre Boudieu (2013) se refere à posse de bens e de espaço físico, mas que todavia possuem relação com as posses de todos os tipos de capital (econômico, social e cultural). O autor, assim como Henri Léfèbvre, não trabalha com a denominação de território, mas de um espaço social marcado por posições em sua estrutura e por lugar(es) “como o sítio em que um agente ou uma coisa se situam, ‘têm lugar’” (p. 133). Ganha sentido em sua arquitetura teórica a colagem que se faz dos atributos a certa localização. Isto tem permitido, porém, a tradução desse termo como território, para se reportar aos efeitos carregados ao espaço, nas posições ocupadas, mas não dominadas. Para este enfoque ver o estudo de Luciana Andrade e Leonardo Silveira (2013).

ver o estudo de Luciana Andrade e Leonardo Silveira (2013). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa,
IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

ordenamento e controle dominantes. A coerência com o fato territorial está

justamente ai, pela possibilidade da tensão entre poderes, pela constatação de que

o conquistado ou dominado não seja um absoluto.

Para explicitar essa discussão, primeiramente retomo um pouco das

análises possibilitadas pelo conceito de vínculos territoriais e, em seguida, teço

considerações que o envolvem esse enfoque com as tensões e problemas das

territorialidades humanas e conflitos territoriais.

Territorialidades Locais e Vínculos Territoriais

O objeto de investigação que oportunizou chegar à compreensão de

vínculos territoriais como prática associada à apropriação do espaço por

comunidades e grupos consistiu em analisar situações de exclusão e inclusão social.

Com tal pressuposto buscamos verificar aspectos associados a esse problema

acompanhando quatro situações em que as relações estabelecidas com seus

contextos diferiam em termos de seus vínculos o lugar e o amplo território:

moradores de rua na cidade de Porto Alegre, reassentamentos urbanos populares

também desta cidade, acampamentos de mobilização social por reforma agrária

(municípios de Viamão e Tupanciretã, Rio Grande do Sul) e reassentamentos rurais

(municípios de Charqueadas e Encruzilhada do Sul, Rio Grande do Sul) e

associações e pequenos produtores ecologistas (município de Morrinhos do Sul, Rio

Grande do Sul).

Compreendemos a situação dos moradores de rua pela degradação de seus

vínculos em geral, constituindo grupos sobremaneira segregados, quase sem

direitos e carência ou ausência de condições de garantia da vida. Os vínculos de

apropriação do espaço em geral se caracterizam pela ocupação de locais públicos

do meio urbano. Também as submoradias, construídas em áreas verdes ou qualquer

as submoradias, construídas em áreas verdes ou qualquer ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

brecha de espaço, são comuns. Pela condição que se encontram, agem com

intenção limitada de tentativas de reprodução da sua vida. Coleta de esmola e

alimento constitui uma cena comum do meio urbano de grandes cidades. Também

limitada pode ser vista a sua participação no âmbito sociopolítico. Pertencem à rua

como a um espaço geral que quase nunca é permanente. Por isso, também estão

limitados na elaboração de algum valor, qualquer bem material ou transformação de

estruturas locais.

Quando se delinea a articulação de moradores ocupantes de áreas

'irregulares' e, especialmente, quando a essas ocupações se associam os

movimentos de luta por moradia e aos processos de reassentamento urbano, com

mais evidência se faz presente o fortalecimento de relações intragrupo, em geral

compreendidas por sua mescla com o lugar de reivindicação e ocupação, as

relações entre os sujeitos das práticas que se fazem naquele e com o próprio

espaço. É o que vimos do reassentamento Loteamento Cavalhada, por parte do

grupo de moradores 4 oriundos da Vila Cai-Cai, uma ocupação de área pública à

beira do Guaíba. No grupo pesquisado foi especialmente a combinação entre o lugar

da moradia e a atividade laboral à localização associada e uma atuação em

comunidade a instauração de perspectivas de condução da vida. Evidentemente as

situações são variantes em termos de coesão social e que dependem múltiplos

fatores, mas pode-se dizer que quanto mais forem as experiências compartilhadas

em grupo, mais ganha sentido uma memória que as remetem ao grupo e sua

vinculação ao espaço vivido. Trajetórias comuns permitem identificar uma memória

coletiva (POLLAK, 1992), trazidas do lugar anterior ao local do reassentamento,

suas referências materiais e de práticas, oportunizando o estar junto na

reelaboração das referências socioterritoriais.

4Fizeram parte do reassentamento moradores de mais outras três ocupações, fato que estabeleceu dificuldades de coesão social entre os diferentes grupos.

dificuldades de coesão social entre os diferentes grupos. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Nas modalidades de apropriação do espaço pelo MST (Movimento dos

Trabalhadores Rurais Sem Terra) - o acampamento e o assentamento rural -

compreendemos sinais de ruptura com as formas hegemônicas, notadamente pela

organização coletiva do acampamento e de muitos assentamentos. As relações

constituídas com o espaço, como o vínculo de posse, engendram possibilidades de

maior socialização entre os praticantes e a participação na sociedade, além grupo,

mediada pelo interesse coletivo. Através da criação do fato territorial - do

acampamento - o movimento busca uma forma autônoma de condução da vida

(HELLER, 1970, p. 40). Além da conquista de terra para viver e trabalhar, o

sentimento de pertencimento e uma consciência territorial passam fazer parte da

intercessão entre territorialidade local e as escalas mais abrangentes.

As comunidades de agricultores ecologistas são as que vimos com mais

forte vínculo de consciência territorial, de compreensão de sua existência ligada ao

meio ambiente e ao sentido da vida. Também expressam rupturas com a

territorialidade moderna pela ressignificação de sua produção agrícola, de ser

orientada por um valor ético-ecológico-comunitário e não essencialmente mercantil.

Esses pequenos produtores organizam-se em associações locais, têm apoio técnico

de organizações voltadas para a promoção da agricultura e a sua comercialização.

Além da produção local, uma outra atividade importante destas associações consiste

na organização de feiras, que além terem a comercialização por objetivo, também

têm a meta da divulgação do consumo de produtos orgânicos, da prática ecológica e

da crítica ao modo de vida tradicional. A prática parece implicar na constituição de

um modo de vida bastante distinto do que é a formalidade da vida moderna.

O acompanhamento desses casos nos permitiu vê-los como situações

vividas por indivíduos ou grupos sociais em relação ao espaço social.

Compreendemos bem, já em outros estudos de que “a exclusão social retira ou

afasta as pessoas da integração apropriação-valorização-consciência, assim como

apropriação-valorização-consciência, assim como ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n. 1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

alternativas de inclusão produzem, novos vínculos com o território” (COSTA et. al.,

2007, p. 10).

Rosa Maris Rosado (2009a) acompanhou a evolução do grupo de

moradores do reassentamento urbano que relatamos acima e pode constatar

modificações em suas relações constitutivas de vínculos territoriais. Originalmente

observou a prática da apropriação do espaço do galpão de reciclagem, com o

emprego de táticas de preservação de acesso ao próprio grupo, a criação de um

campo, e do modo de agir, no habitus da reciclagem. A autora compreendeu o

[no qual] as práticas cotidianas de

trabalho com o lixo estão sujeitas a certos mecanismos de controle, mas que por

meio de ‘táticas’ inovadoras e criativas as catadoras buscam resistir” (ROSADO,

2009b, p. 234).

Todavia isso não garante a conquista. Um vínculo pode ser quebrado,

tornado frágil, assim como foi fortalecido. A prática que o constrói não é isolada, sem

relação com o espaço social. No caso das trabalhadoras do galpão a

desconstituição das redes de relações externas, como a redução do fornecimento de

recicláveis pelo serviço de coleta municipal, implicou na redução dos ganhos e

trouxe importantes alterações. Elas provocaram a perda de vínculos do grupo com o

galpão e o afastamento de pessoas importantes na articulação das redes internas a

ele, fragilizando sua condição enquanto território (ROSADO, 2009a, p. 197). O

processo as fez voltarem à rua, como catadoras, fazendo-as reconstruírem suas

táticas, alterando o campo. Desse modo, perda ou alteração de vínculos está muito

perto do que se explícita por desterritorialização, muitas vezes ligadas à mudança do

meio, a uma inovação, como bem identificou (RAFESTIN, 1987).

As práticas de ocupação, uso e a sua compreensão mesclam experiências e

identidades são, portanto, formadoras de um conjunto/contexto socioespacial que

diz respeito à apropriação. Conferem às ações o sentido de território inventado,

vinculado ao grupo praticante. Dizem respeito a território, pois se colocam em

galpão “como um espaço de resistência

se colocam em galpão “como um espaço de resistência ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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diálogo as externalidades com o que se pratica. Certamente sofrem a mediação do

social, pois não são autônomas como um criar independente sujeito apenas à

vontade.

Apropriação e Conflitos Territoriais

Investigação que realizamos com ocupações irregulares na cidade de Porto

Alegre revelou que sua constituição caracteriza-se por duas estratégias: (1) de um

lado a busca da cidade, como alternativa ao mercado de terras urbano, não apenas

para a moradia, mas para ter acesso ao conjunto de atributos desse espaço, como o

de centralidade que reúne as possibilidades de trabalho, acesso a serviços de

saúde, escola para os filhos, etc.; (2) de outro, pelo fato da ocupação integrar-se à

cidade, compor a feitura de espaço urbano, ganha deste as qualidades do mesmo,

inclusive a de valorização de mercado, permitindo aos ocupantes negociarem o

espaço ocupado e utilizarem essa prática como estratégia de reprodução social

(auferir renda) e ao mesmo tempo atuarem como reprodutores do mercado de terras

(HEIDRICH, 2013).

Junto às ocupações, contudo, associam-se práticas bastante comuns, não

apenas da formação inicial desses espaços, mas associadas ao viver das pessoas,

grupos ou comunidades. São variantes, assim como as situações de compreensão

delas e dos espaços vividos. São múltiplos os fatores associados, como: tempo de

convivência em grupo, a precarização das condições de reprodução social

(ocupação e geração de renda, carências de saúde e instrução, condições sanitárias

e ambientais do lugar), segregação ou conflito entre grupos no local de ocupação ou

assentamento, a diferença sociocultural (étnica, de lugar de origem, religiosa), etc.

Além deste aspecto interior, as ocupações projetam-se para a cidade como um

território identificado e nesse diálogo estabelecem tensões com os territórios da

e nesse diálogo estabelecem tensões com os territórios da ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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cidade, como pela própria formação do espaço em singularidade e pelos

movimentos reivindicatórios de urbanização.

Como a territorialidade é um constructo articulado à ideia do que se tem do

que se vive o âmbito do multiterritorial então, é vasto. Nesse sentido, Ana Stumpf

Mitchell compreendeu certa gama de violência com a lógica territorial – a

constituição de espaços apropriados por relações de poder (2011, 2012). Em seu

estudo sobre o estabelecimento de vínculos territoriais por uma comunidade com

laços estreitos com o meio ambiente, agricultores, alguns deles ecologistas,

percebeu lógicas distintas. Para ela, a lógica

baseada na dominação da natureza é doente, pois fragmenta-se da natureza. A violência da lógica territorial, assim eu entendo, não atingiria diretamente pessoas em sua generalidade, mas seres desprovidos, pelo imaginário de quem classifica, de humanidade segundo uma territorialidade moderna. Atingiria os seres que fazem parte da “natureza”, os não-normais. O projeto moderno era de inclusão, mas através da tentativa de homogeneização, de padronização. A consideração da diferença faz sentido quando relativa ao que é considerado “normal”. Nesse contexto, são “anormais” os não-brancos, não heterossexuais, não-racionais, não- destros, os portadores de deficiências físicas ou mentais. A modernidade incluiu a diferença tentando padronizá-la, normalizá-la, mantendo-a na periferia (MITCHELL, 2012, p. 44-45).

O ganho de compreensão conquistado com essa formulação é, para nós,

importante evidência da relação tensionada entre as construções humanas

objetivadas como territoriais e as sociais, aquelas objetivadas para um

espalhamento geral, como por exemplo a ideia de direito, a relação de mercado, o

capitalismo, etc

Vemos como um jogo ininterrupto, mas que não se poderia traduzir

de que tudo é territorial, pelo fato de ocorrer em espaço amplo, geral, transterritorial.

Território é sempre criação que se incorpora em espaço social, mas que também

pode ser destruído.

em espaço social, mas que também pode ser destruído. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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Com sentido bastante aproximado ao que estamos chegando Stéphanie

Vermeersch (2006) aborda vínculos territoriais e sociais de modo articulado, no

estudo de bairros e ativistas que, são muito mais 'missionários de um projeto de

sociedade' do que ativadores de uma política urbana. São muito mais formuladores

de um projeto urbano voltado à promoção de um viver conjunto de todas as

populações no espaço do bairro.

Encontra-se bastante o aporte ao termo como expressão de significado

linguístico, embora, evidentemente, reportado à noção territorial. É o que se vê no

trabalho de Fabiano Soares Magdaleno, que analisa a relação de deputados com

suas regiões de inscrição eleitoral e grupos de representados. Também considera

que esses atores estão vinculados a apropriações simbólicas territoriais, e que “o

próprio exercício da função de representante político já pressupõe, em si, uma

territorialidade, entendida aqui como um estratégia de poder que visa o controle de

pessoas e coisas” (MAGDALENO, 2009, p. 13).

Os vínculos expressam a relação com o território, com força ou fragilidade,

quando se considera a natureza da relação dos atores em relação ao espaço. Esse

aspecto se evidencia em relação ao lugar de moradia quando comparados a

chegada de novos moradores. A segunda residência em balneários, como foi, por

exemplo, analisado para o município de Natal, Rio Grande do Norte (FONSECA,

ALVES e LIMA, 2013), revela que o vinculo com o lugar é concebido por uma mescla

de diversas significações ancoradas na busca de um “bem estar familiar” em

ambiente de paisagem com beleza cênica. A “busca de um maior contato com a

natureza [está] entre os principais valores atribuídos para as localidades de segunda

residência, e são neste sentido, propiciadoras de novas relações identitárias com o

lugar” (p. 17).

Essa identificação com o lugar, contudo, nem sempre incluirá a participação

das pessoas mais antigas, já estabelecidas nele. Ao contrário desta observação, o

fato mais comum é ocorrer o estranhamento de parte dos primeiros moradores, os

ocorrer o estranhamento de parte dos primeiros moradores, os ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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estabelecidos, em relação aos outsiders (ELIAS e SCOTSON, 2000) Demonstra-se

assim, que certo senso de apropriação do lugar ou a evidenciada identidade dos

novos grupos são fatores de tensões ou, pelo menos, de territorialidades duplas ou

multifacetadas.

A situação de moradores que migram para lugares os quais já possuem

territorialidades plenamente constituídas faz os que chegam se confrontarem com

territorialidades de que não fazem parte. Todavia, o novo assentamento pode

comportar a construção de sentimentos de pertencimento que colaboram para

ampliação e estreitamento de vínculos do novo grupo ao lugar. No entanto, não

significa dizer que se compartilha o mesmo imaginário, tradições arraigadas e até

mesmo as vivências conflitantes. Guy Di Méo e Jackie Pradet (1996)

compreenderam isso junto ao Vale do Aspe, nos Pirineus Ocidentais, em que se

antepõem dois tipos de moradores em suas compreensões relativas ao território

local: os autóctones e os neos 5 . Todavia ambos são do lugar, considerando que os

autóctones ali nascidos ou chegados antes, mas os neos (migrantes mais recentes)

já ocupam o lugar há uma boa quinzena de anos 6 . De um lado, os autóctones

guardam expectativa por modificações regionais, interligação por melhoramentos

rodoviários com a Espanha, por exemplo, com a ideia do Vale do Aspe usufruir de

benefícios e crescimento econômico. Do outro, os neos, esperam que o vale se

mantenha tradicional e suas paisagens preservadas.

O conflito territorial entre atores institucionais e coletividades ganha cada vez

mais recorrência nas sociedades racionais. O recurso à territorialidade como

propensão nos contextos mais complexos das civilizações modernas, como

instrumento de solução dos problemas já foi apontado por Robert Sack (2009 [1986])

e para associar a informação ao território, este fato destacado também por Claude

5Expressões utilizadas no original, que podem ser mais bem entendidas pelos termos difundidos estabelecidos e outsiders, pois possuem significados idênticos em ambas as pesquisas de Guy Di Méo; Jackie Pradet (1996) e de Norbert Elias e John Scotson (2000). 6Considerando a data de referência da publicação e de realização da pesquisa, o período das mudanças é dos anos 1970.

da pesquisa, o período das mudanças é dos anos 1970. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa,
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Raffestin (1987). O pensamento moderno procura dirimir o conflito a partir da ideia

da ordem política, de seguir uma lógica abstrata, construída para um interesse geral

(WEBER, 1997 [1922]).

De um lado estão as relações de poder sobre o espaço das instituições e de

outro dos indivíduos, grupos ou comunidades (FOUCAULT, 1984, 1985;

RAFFESTIN, 1993). A evidência disto é, por exemplo, o acondicionamento, de certa

forma a reclusão 7 , por que passam os grupos e comunidades indígenas e

quilombolas, como também a limitação do fazer de populações tradicionais em áreas

protegidas. Essas territorialidades não possuem natureza essencialmente política.

Antes de se projetarem com tal objetivação são, como denominou Paul Little (2002),

territorialidades sociais nas quais a apropriação dos bens, o uso da materialidade e

os imaginários são coletivos 8 . Em oposto, a regularização e proteção de terras são

funções de Estado e não se aceitam outras formas de territorialidade (SAHR; SAHR,

2009). Ambos os poderes, porém, são constituídos por atores que engendram a

territorialidade (TIZÓN, 1996). E a relação, em geral o tensionamento de lógicas e

seus conflitos, vai se constituindo e contribuindo na elaboração de espaço

geográfico, social, cultural e político.

Para ir Adiante

Visualizo um problema neste ponto, considerando o que trouxe a discussão

até aqui. O argumento discutido sobre a ideia dos vínculos territoriais possui

entrelaces com a abordagem territorial corrente, notadamente no encontro destas

duas lógicas, de atores formais e informais que fazem emergir conflitos e tensões.

Em geral o estudo das coletividades explora a constituição de suas territorialidades e

suas práticas vinculadas. No entrechoque com a territorialidade hegemônica,

7Ver os estudos de Rogério Haesbaert (2006, 2008 e 2014). 8Ver também ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de (2008).

2014). 8Ver também ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de (2008). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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entretanto, ganha expressão a força do que é funcional-racional, político-estatal,

legitimados pelos referentes cotidianos da identidade.

A princípio não está em jogo o desejo de dominação por parte dos sujeitos

identificados com a integração social geral (HEIDRICH, 2006). Mas suas lógicas se

encontram em conflito, duelando motivações, interesses, estratégias, estilos de vida,

vínculos sociais e territoriais 9 . Aquilo que é o âmbito geral – a integração social geral,

o espaço social amplo – de todas as relações está apoiado por um lado em práticas

disciplinares gerais e, por outro, por estratégias de contenção territorial

(HAESBAERT, 2008). E o poder que emana daí tem a ver com o consentimento

(BOBBIO, 1987; CASTRO, 2005). O que se vive é uma realidade que ao mesmo

tempo nos separa e nos une (ALVES, 1987). O território de todos abre uma chance

geral, porém regrada para isso, para um hegemônico. Ainda, o que predomina é

argumento do interesse geral, vividos intensamente pelo sujeito moderno (HALL,

2006).

Compreende-se bastante bem o argumento teórico delineado pelas

injunções de poder e isso é uma generalização essencial para a consideração das

práticas socioespaciais como aspectos formadores do espaço. É necessário, porém,

detalhar esse esquema, compreender as maneiras pelas quais nos associamos a

uma apropriação do espaço em geral e nas múltiplas variações dessa prática.

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1987.

9 Interessante discussão, feita por Marcelo Souza (2001) é provocativa para uma reflexão desta questão. Inclusive a ideia de territorialidade autônoma como uma referência importante para se analisar a territorialidade social, como foi compreendida por Paul Little (2002).

social, como foi compreendida por Paul Little (2002). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
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Da Espacialidade Histórico Vivencial à Territorialidade Político Fundiária: (Des)Enquadramentos da Comunidade Quilombola de Pimenteiras do Oeste/RO

Cicilian Luiza Löwen Sahr Zairo Carlos da Silva Pinheiro

Resumo

As comunidades quilombolas no Brasil foram reconhecidas por uma Política do Estado e

definidas como grupos ‘étnico-raciais’ com relações ‘territoriais específicas’ no início da década de 2000. Desde então vem se buscando um enquadramento da vida cotidiana de grupos reais à visão do Estado. Busca-se aqui contribuir para o avanço nas reflexões teóricas conduzidas por diversos autores que vem apontando contradições nesse processo

a partir de estudos empíricos. Desta forma, apresenta-se uma análise sobre os

(des)compassos entre as espacialidades histórico vivenciais e a territorialidade político fundiária a partir das narrativas de quilombolas de Pimenteiras do Oeste em Rondônia. A análise se desenvolve a luz da história oral e é subsidiada em uma perspectiva fenomenológica centrada no homem (individual-coletivo) em diálogo com seu entorno (sentido lato). Acredita-se que uma ciência sensível problematiza as existências sociais na totalidade a partir de suas dinâmicas (trans)locais. Palavras–Chaves: Quilombolas; Espacialidades; Narrativas; Pimenteiras do Oeste/RO.

From Historical and Lived Spatiality to Political and Tenure-Based Territoriality: (Dis)Framing the Quilombola Community of Pimenteiras do Oeste/Rondônia

Abstract The Brazilian Maroon communities called quilombolas have been defined and recognized through governmental policies as ‘ethno-racial’ groups related to ‘specified territories’ in the beginning of the 2000s. Since then, attempts have been made to frame the everyday life of real groups into a vision of State. From such a perspective, some theoretical reflections have arisen by authors who, in their empirical studies, appoint contradictions as a result from this process. Our critical analysis mainly refers to distancing/relating historical and lived spatialities on one hand and political and tenure-based territorialities on the other as expressed in narratives of the Quilombolas of Pimenteiras do Oeste (Rondônia). The analysis is based on oral history experiences and sustained by a phenomenological approach centered on individual-collective humans in dialogue with their environment (in the broadest sense). Such a scientific awareness could reveal the social being in its totality based on (trans)local dynamics.

Keywords: Quilombolas; Spatiality; Narrative; Pimenteiras do Oeste/Rondônia.

Introdução

Narrative; Pimenteiras do Oeste/Rondônia. Introdução ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n. 1
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Desde 2003, quando as comunidades quilombolas no Brasil foram

reconhecidas por uma Política do Estado e definidas como grupos ‘étnico-raciais’

com relações ‘territoriais específicas’ (BRASIL, 2003), vem se buscando um

“enquadramento hermenêutico da vida cotidiana de grupos reais à visão do Estado”

(TOMASI, LÖWEN SAHR e SAHR, 2016, p. 60). Assim, “Supostas ‘tradições’ e

‘interpretações’, cujas categorias são muitas vezes fornecidas através de

terminologias propostas por cientistas ou membros dos próprios órgãos públicos” (p.

60) vem sendo conectadas às vivências cotidianas de quilombolas, forçando uma

homogeneização do grupo.

Portanto, a discussão que se trava neste artigo não tem a pretensão de ser

um ponto de partida, mas sim de contribuir para o avanço nas reflexões conduzidas

por diversos autores que vem apontando as contradições no processo que aqui se

analisa. Löwen Sahr et al. (2011), com relevância no cotidiano de quilombolas,

apresentam um grande esforço na tentativa de transposição da geograficidade

histórico existencial em territorialidade político fundiária de Estado. Silva (2013)

aponta a contradição em se tentar a integração do quilombola como cidadão

‘moderno’ com base na comprovação de suas resistências através de suas

‘tradições’. As reflexões desses autores se baseiam na realidade empírica das

comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, na sua porção paranaense.

Pinheiro (2014) e Pinheiro e Löwen Sahr (2016) demonstram, através de

narrativas de quilombolas do Vale do Guaporé rondoniense, que a suposta ‘volta ao

passado’ é prospectiva e que, assim, o ‘ser quilombola’ só ganha sentido para os

sujeitos em uma perspectiva presente. Tomazi, Löwen Sahr e Sahr (2016) mostram

que, muitas vezes, onde se espera ‘tradição e continuidade’, tanto na organização

da política dos quilombolas como na prática das religiões afro-americanas, o que se

tem de fato é maleabilidade, transformação e até ‘criação’ de formas culturais

transformação e até ‘criação’ de formas culturais ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n.
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IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

singulares em resposta a situações específicas. As reflexões teóricas partem da

análise empírica de uma comunidade quilombola dos Campos Gerais paranaenses.

Desta forma, diante da realidade vivida pelos quilombolas de Pimenteiras do

Oeste em Rondônia e tendo em vista a política preferencial para quilombolas

promovida pelo governo federal, este artigo busca refletir sobre os (des)compassos

entre as espacialidades histórico vivenciais e a territorialidade político fundiária a

partir das narrativas destes sujeitos. Para dar conta dessa estrutura complexa se

dividiu o texto em dois momentos que se complementam: o das espacialidades e o

das territorialidades.

A análise aqui proposta se desenvolve a luz da história oral (MEIHY, 1996),

sendo subsidiada pela perspectiva da teoria fenomenológica. Esta tem a

comunidade estudada enquanto fenômeno, isto é, enquanto atividade centrada no

homem (individual-coletivo) na realização de uma geograficidade (DARDEL, 2011)

peculiar em diálogo com seu entorno (sentido lato). Acredita-se que uma ciência

sensível problematiza as existências sociais na totalidade a partir das dinâmicas

(trans)locais.

A Espacialidade Histórico Vivencial

Neste primeiro momento, que analisa a espacialidade das relações histórico

vivenciais construídas pelos sujeitos ao longo de suas trajetórias, mostrar-se como a

formação socioespacial dos sujeitos é fluída, vagueando entre a ancestralidade

africana, a cor da pele negra, as raízes em Vila Bela, tida como ‘cativeiro’, e a

chegada ao Seringal Santa Cruz, primeiro local de vivência da comunidade estudada

em Pimenteiras do Oeste.

A ideia de ‘origem’, venha de qual meio for, é fundamental para qualquer

formação social. Sem uma presença forte dela, não faria sentido qualquer a ideia de

meus pais me falavam que nós

naturalidade. Ela é gerada pela linguagem falada: “

nós naturalidade. Ela é gerada pela linguagem falada: “ ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

era

coisa só

negro e tudo puxado de Vila Bela

sujeito é transitiva, não é de um lugar determinado. A cor da pele por si só poderia

sozinha dar conta

nossa família vem da escravidão. Tal escravidão tem referencia em um espaço

individual-coletivo

A antiga capital do Mato Grosso, Vila Bela da Santíssima Trindade, é o ponto

focal que mantêm a sustentação espacial no imaginário, como diz Hermelino: “A

Minha avó também era de Vila Bela

a ser azul

ser

preto que chega

negro mesmo!” (29). Todavia, a ênfase está no vigor e na convicção do

nossa família vem da escravidão

tanto por lado de pai e mãe

tudo é uma

é tudo negro e tudo puxado de Vila Bela

” (TARCÍSIO – 34) 10 . O é tudo

justifica que a sustentação socioespacial do

é tudo negro, mas é reforçada ainda por um passado escravo

tudo puxado de Vila Bela.

Meu pai era negro assim

negro mesmo!.

preto que chega a ser azul

A linguagem abrangente também esta presente em Seu Eulálio: “Minha vó

que no tempo

é daqueles da origem que era

Aqueles africanos que eram vendidos da

” (13). Assim, o ser negro e o ser escravo se confundem com o ser marcado

Aqueles africanos que

Afra saiu de Vila Bela

dela não conheceu o pai

lá assim os filhos dela

Ela contava assim

o pai do pai do meu pai

é!

ferrado com ferro de marcar gado

África

a ferro, que é reforçado pela origem dos antepassados

eram vendidos da África.

Dona Alice vai diretamente fazendo ligação com sua descendência escrava

a partir de sua bisavó Catarina que era boliviana, demonstrando a fluidez dos

lugares e a ênfase na cor negra: “Ela era da Bolívia porque lá também tinha esses

Ela era sim bem negra

Meu bisavô também era como ela

africanos e tudo também

mesmo

escravos e tudo era marcado

o cabelinho mesmo bem carrapixinho

bem preto mesmo

Ele era de Vila Bela e foi para lá na Bolívia para pegar ela

10As falas dos sujeitos estão em fonte 10, e entre parênteses seu nome e o número que indica o parágrafo de onde foi recortado da narrativa completa que se encontra em nossa tese (PINHEIRO, 2014). As localidades apontadas nas falas foram sublinhadas e aparecem na Figura 1 para facilitar a contextualização espacial por parte do leitor.

facilitar a contextualização espacial por parte do leitor. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
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IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

(30). Assim, sua narrativa insere a africanidade brasileira num contexto mais

abrangente, se deslocando para o vizinho território boliviano o integra a uma cultura

afro americana 11 .

Seu Abel acrescenta ao ser africano também o ser da etnia indígena, que,

como é sabido, se fez presente no Brasil afora: “Eu vou procurar a origem né? Então

como diz

ele é da gema do Mato Grosso

” (1). Assim, não existe

apenas uma origem, tem-se um amalgamento indígena nesta africanidade, além de

uma mistura nordestina

Todavia, Seu Abel deixa claro:

rondoniense Pimenteiras do Oeste, onde nasceu e se criou.

Como era Santa Cruz no seu início? Para Seu Hermelindo: “Era tudo

esquisito lá a região de Santa Cruz

sacrifício muito

(18). Seu Firmino relata: “Santa Cruz ali era um vilarejo mais ou menos de trinta

” (4). Beca conta:

só que o

e índio.

índio

e

porque a origem é muito importante

Meu pai ele veio de Vila Bela

e tem uma mistura de rio grandense no meio

era lá de Vila Bela e nós somos aqui de Santa Cruz

e tem uma mistura de rio grandense no meio

nós somos aqui de Santa Cruz, ou seja, da

o trabalho às vezes era pouco

(3); “Eu quero dizer que

o produto mesmo era a borracha

casas

e todos os seringueiros iam para o seringal trabalhar

“Então todas as famílias tinha que pisar o seu arroz todo dia no pilão pra fazer o

almoço

pra fazer a janta

Plantava

aquela rocinha e quando acabava era limpado

no pilão

(16).

Observa-se que as falas acima não apresentam algo diferente de outros

modos de vida que existem nos interiores do vasto Brasil e mais especificamente na

Amazônia: o trabalho no seringal e a luta pela subsistência. As dificuldades no

trabalho e da vida economicamente pobre são marcas de todos eles. Mas o

11“O debate das culturas afro-americanas iniciou-se com as ideias de Melville Herskovits na University of Chicago (Illinois) e mais tarde na Northwestern University (também em Illinois) nos anos 1940. A abordagem cultural uniu pesquisas cubanas (Fernando Ortiz), brasileiras (Nina Rodrigues, Arthur Ramos), haitianas (Jean Price-Mars), norte americanas (Franklin Frazer, Zora Neale-Hurston), mexicanas (Gonzalo Aguirre Beltrán) e francesas (Roger Bastide, Alfred Metraux), entre outros.” (TOMASI, LÖWEN SAHR e SAHR, 2016, p. 61).

entre outros.” (TOMASI, LÖWEN SAHR e SAHR, 2016, p. 61). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa,
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IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

‘sofrimento’, real ou imaginário, é uma marca que une, de certa forma, aquilo que se

entende como o que foi a vida dos antepassados em outros lugares, como na África

e em Vila Bela.

Santa Cruz também teve seu ‘sofrimento’, eis uma justificativa plausível e

que tem ligação com o termo ‘cativeiro’ tão comentando pelos sujeitos e que traz à

tona a discussão contemporânea do ‘ser quilombola’. Nesse primeiro lugar de

chegada a Pimenteiras do Oeste, além da memória presente nas narrativas, as

reminiscências se resumem a ruínas de um antigo cemitério onde se encontram

enterrados seus antepassados.

A Territorialidade Político Fundiária

Neste segundo momento, busca-se compreender como a comunidade

estudada procura se enquadrar naquilo que é ‘sugerido’ pelo Estado e, via de regra,

também pela academia. Analisa-se a trajetória política do grupo quanto ao seu

reconhecimento, articulação com outras comunidades, bem como, sua luta pelo

direito a terra. As narrativas indicam como o ‘ser quilombola’ se descobre enquanto

necessidade para resolver questões do presente, em que o passado é ‘chamado’

para subsidiá-lo.

Os dois momentos, de um lado a vivência socioespacial e de outro a luta

pelo direito a terra enquanto território político, fazem parte do mesmo magma de

significações. Ambos estão inseridos num contexto ‘pós-moderno’, em que tudo

deve ser passado a limpo, ou o nada (imaginário) deve ficar de fora das conquistas

ou dos olhos (realidade) do Estado.

Para um homem como Seu Hermelindo, o ‘ser quilombola’ surge como

” (29); “A gente ficou sabendo

agora disso de quilombola

surpresa: “Mas eu não lembro dessas histórias não

” (24). Porém, assim que a ideia de ‘quilombola’ passa a

ser justificada pela comunidade, então, o mesmo sujeito pode falar com naturalidade

então, o mesmo sujeito pode falar com naturalidade ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

e tomar uma postura mais condizente com o discurso da vivência quilombola, já

prenhe de atitude política vindoura: “Acho importante sim essa ligação com esses

antepassados que vieram parar nessa região diretamente da África

né?” (30).

Essa importância, a ligação com esses antepassados que vieram

da África, é o

guia para que o ‘ser quilombola’ possa ir embasando seu território social na

atualidade.

Alguns narradores, como Izabel (Beca), analisam a questão a partir da

linguagem historiográfica:

Olha mesmo eu sabendo que eu sou descendente de uma história de nossos antepassados terem passado uma história muito triste

muito sofrida

Então

pra você ver que porque hoje eu falo que o Brasil hoje tem uma

porque você sabe que o Brasil é o que é

hoje graças ao trabalho sofrido com sangue do negro

dívida com os negros

dos

escravos trazidos pelos navios negreiros e chegava aqui eles não

tinham outra opção a não ser serem escravos

muito triste

né?

mas foram forçados

né? (BECA – 58).

De quê sofrimento fala a narradora ao expressar que nossos antepassados

? O triste não possui fronteira, assim,

quem se sente ‘triste’ não o sente porque vive essa tristeza do outro, mas é por não

terem passado uma história muito triste

poder vive-la de forma experimental que ela ganha sentido e força. O elo entre o

passado e o presente, para o ‘ser quilombola’, precisa ser justificado: Então pra você

ver que porque hoje eu falo que o Brasil hoje tem uma dívida com os negros. Mas se

Beca é também brasileira, não teria ela esta dívida para com seus antepassados?

Não, pois não há ser algum que veja a si mesmo enquanto parte do fenômeno. Todo

integrante de uma comunidade, seja ‘tradicional’ ou ‘modernizada’, é um ser que não

se enxerga em sua formatação.

Nesse sentido, de formação enquanto ser, é que se faz importante o estudo

de qualquer segmento social. Como é sabido, não houve país, Estado ou tribo que

não viveu um imaginário unificador para que se tornasse o que é (‘é’ em mutação).

para que se tornasse o que é (‘é’ em mutação). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa,
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Em síntese, entendemos o ‘ser quilombola’ como um dynaméi ôn (ser em

possibilidade) à maneira de Bloch (2005, p. 232), para quem não há separação entre

matéria e espírito, os quais estão se fazendo no agora e se encontram abertos ao

futuro.

Mas que é o futuro senão algo que pode não ter existido no passado, mas

que precisa de passado. Para Seu Tarcísio a linguagem em família o torna

‘quilombola’. Retornemos a uma de suas falas: “

era

coisa só

aponta que o ‘ser escravo’ e o ‘ser negro’, ou descender desse grupo, o torna o

meus pais me falavam que nós

tudo é uma

” (34). O tudo é uma coisa só

nossa família vem da escravidão

tanto por lado de pai e mãe

é tudo negro e tudo puxado de Vila Bela

‘quilombola’. Tal justificação é apropriada pela comunidade. Isso não é má fé e nem

ilusão por parte dos sujeitos, pelo contrário, todas as justificações são reais (para o

imaginário) desta comunidade.

A importância para o ‘ser quilombola’ se pauta também na migração, porém,

esta só tem sentido se o território tiver algo de escravidão. Seu Paulo comenta: “É

importante também ser reconhecido como descendente daqueles quilombolas é

muito

aqui é mais ou menos um quilombo

Seu Tarcísio, une-se ao

demonstrando que há uma desconfiança nos narradores de que, sem ter

Pimenteiras (e o antigo seringal de Santa Cruz) como quilombo, não há remanescia

quilombola. Desta forma, o ‘ser quilombola’ se apresenta como (trans)territorial, um

‘ser’ que migra com os sujeitos tanto no tempo como no espaço.

Quanto à etnia, é instigante a questão não africana quando Seu Paulo expõe

que, “Tudo era ali do Mato Grosso

” (16). 12 Para o

Bela

minha vó era até descendente de índio de Vila

muito importante

eu acho

muito importante

” (50). Na verdade o

Migraram de Vila Bela

tudo é uma coisa só de

de Seu Paulo,

aqui é mais ou menos um quilombo

Minha vó por parte de mãe também era dali de Vila Bela

12O Quilombo do Quariterê, no Mato Grosso, extinto em 1770 pelo sargento-mor João Leme do Prado, vindo de Vila Bela, não era composto somente de negros, havia no momento daquela invasão 30 índios (CRUZ, 2013).

havia no momento daquela invasão 30 índios (CRUZ, 2013). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

narrador o ‘ser quilombola’ se justifica também pela presença indígena, sem se dar

conta que o índio não veio da África, mas sob o ‘sofrimento’ é que se nota a força

daquilo que entendem como ‘tradição quilombola’. Não há o medo de se perder a

aura de remanescentes, o que comprova que o ‘ser quilombola’ é uma (re)criação,

isto é, uma readequação daquilo que o Estado ‘impõe’ para os sujeitos, e que os

mesmos respondem de uma forma ou de outra, sem se importarem com aquilo que

se ‘requer’ de uma ‘tradição quilombola’.

Salta aos olhos como o ‘ser quilombola’ precisa ir abrindo trincheiras, como

já demonstrado acima, e de como Beca, depois dessas trilhas cheias de

descobrimentos, suspira e afirma sem constrangimento algum: “Nós quilombolas

(42). Este nós afirmativo só foi possível porque agora ele tem base histórica, isto é,

é valorizado para que tenha ‘voz’. De onde veio o suspiro quilombolas? Para Beca:

(42). Mas só livros não seria o suficiente para este despertar. A mídia é um fator

forte, porém, não é ‘imposição’ de sentidos como muitos imaginam, ela precisa do

outro e que esse outro seja ‘influenciável’.

Beca é tida como iniciadora da ideia ‘quilombola’. A mensagem de

‘sofrimento’ faz parte dessa luta: “Até porque os negros tem uma história assim

né?” (BECA - 42). O muito sofrida aqui se une ao sentimento de

sofrimento pelo qual muitos dos sujeitos comentam que passaram. Esse sentimento,

mesmo que imaginário, não seria um movimento da comunidade para consigo

mesma? Na verdade, não poderia ter existido nacionalidade alguma sem o espírito

do ‘sofrer junto’ dando o impulso para que homens tão diferentes (sentido lato) se

achassem unidos por uma causa comum. Tomemos um acontecimento alhures para

ilustrar como todo movimento social é anônimo: “A Revolução Francesa não foi feita

ou liderada por um partido ou movimento organizado [

(HOBSBAWN, 2010, p. 105). Desta forma, questiona-se o pensamento

nem mesmo chegou a ter

“A primeira vez que eu ouvi falar foi quando eu estudava

lia muitos livros assim

muito sofrida

]

‘líderes’ [

]”

de que todo movimento ‘revolucionário’ é algo desse ou daquele segmento social.

é algo desse ou daquele segmento social. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n.
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Assim, quem teria pensado isso de ‘remanescente quilombola’ em

Pimenteiras do Oeste? Não se pode indicar com precisão, pois há vários meios.

Indicar qual meio foi não é importante, mas dizer que o Estado foi o principal mentor

a partir da Carta Magna de 1988, isso é fato. Mas indicar não é praticar. A prática

necessita do ‘outro’ que se quer fazer agir. Esse ‘outro’, a comunidade pesquisada,

respondeu a partir do que sentiu em relação ao ‘ser quilombola’ que chegou a ela

através de vários meios.

Beca, entrementes, dá-nos uma pista: “Naquela época da escravidão isso

Então de uns tempos pra cá a gente

” (42). Os variados meios como os livros e a mídia, e

tendo como base o ‘sofrimento’ dos que foram escravizados tornaram o ‘ser

começou a ver na televisão

sempre me chamou a atenção nisso

quilombola’ plausível. É justamente este cenário que nos ilude de que houve um

‘apagamento da memória’. Porém, o que ocorre não é um ‘resgate’ e uma restituição

de uma memória perdida num passado esquecido. O que existe de fato é uma

(re)criação completamente nova para esse ‘ser’. Trata-se, de acordo com Arruti

(2006), da produção de novos sujeitos políticos, etnicamente diferenciados pelo

termo ‘quilombola’.

Não é por acaso que há uma luta para o ‘reconhecimento’ (enquadramento).

É preciso uma base e ela tem que ter uma ‘ligação’ com o ‘passado’ dos antigos

quilombos, mesmo o narrador não acreditando plenamente. No caso de Beca, ao se

referir a seu pai Hermelindo, ela aponta: “

de quilombolas

não se recorda: “É importante formar essa Associação de Quilombolas

vamos tocar agora como se nós fôssemos descendente quilombolas

importante

comentamos anteriormente. Porque se alguém entender como ‘ilusão’ a formação do

né?” (20). Que não se veja nisso uma má fé ou ilusão, como já

pai fala que não lembra desse negócio

” (42). Não somente Seu Hermelindo, mas também Seu Eulálio

dizendo

é

‘ser quilombola’, então, deve desconfiar de sua nacionalidade, pois toda

nacionalidade (seja ela qual for) é ‘forjamento’, isto é, imaginária ou criação social.

‘forjamento’, isto é, imaginária ou criação social. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n.
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Se se compreende que todo forjamento social é a única possibilidade desse mesmo

social ser realidade, então os receios se dissipam.

Portanto, até a tomada de consciência do ‘ser quilombola’ na comunidade é

marcada por empecilhos: “Aqui no início foi muito difícil

grande

que a gente ia ter algum beneficio do governo

expõe claramente a resistência inicial e desabafa: eles até não acreditavam muito.

Isto é, os sujeitos ainda não tinham noção da ideia de ‘quilombola’ e de que iriam ter

algum proveito por essa iniciativa.

O diálogo que norteou este imaginário pode ser demonstrado na fala que

segue: “

que já li de reconhecer essas comunidade assim dos municípios

na verdade que é uma dívida que o Brasil tem com os negros é uma dívida

(BECA – 53). Beca, ao estudar o assunto, encontra o Art. 68 da Constituição de

O artigo 68

” (BECA - 53). Neste trecho, Beca

teve uma resistência muito

eles até não acreditavam muito que a gente ia chegar a ser reconhecido

essa iniciativa do governo em se despertar e reconhecer

né?

no país

né?”

1988, no qual a narradora interpreta como um pagamento atrasado do Estado frente

aos maus tratos para com os negros, justificando que, como a comunidade é em sua

grande maioria de pele negra, nada mais justo.

Não é necessário se tocar no fator ‘escravidão’ ou no tema ‘quilombola’, para

Beca a cor da pele é o suficiente para unificar a luta de ontem, no agora. Ela diz:

“Pensava: ‘Pimenteiras

nós aqui somos 70% de população negra

nós somos a

maioria negra

’,

mas só pensava também e ficava quieto

né?

Não fazia uma

não fazia

” (BECA -43). Devemos salientar que esta narradora foi a única na

comunidade a ter uma formação escolar. Os livros foram seu meio, mas não

ligação de que isso podia ser uma herança dos quilombos

é isso

né?

Não

tornaram suficiente. Foi o contato com pessoas de fora que a suscitou iniciar o

processo de compreender que Pimenteiras era uma comunidade quilombola em

potencial.

que Pimenteiras era uma comunidade quilombola em potencial. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

As dificuldades encontradas para a formação desta comunidade enquanto

‘remanescente quilombola’ não se restringiram a uma questão de crença ou tomada

de consciência, envolveram também a própria organização política do grupo. Beca

esclarece:

Quando foi no final de 2009

Firmino [Prefeito]

com a assistente social assistente social na época

daí ela começou a falar com a gente que a gente podia se organizar

A associação (ARQOS) foi fundada em

na associação primeiro

na gestão

Ele teve em uma reunião lá em Porto Velho junto

agora já mais recente

Porque você sabe ela

a Nena

Hoje nós temos o Carlos [prefeito]

e

2010

foi quando a gente efetivou mesmo

né? (BECA – 47).

Nota-se nitidamente a influência exógena para que o ‘ser quilombola’ se

organize. Para a efetivação da Associação de Remanescentes Quilombolas de

Pimenteiras do Oeste (ARQOS), segundo Beca, foi necessário intenso trabalho de

esclarecimento das vantagens desse processo para os moradores do local.

Criada a Associação, o segundo momento foi o de formalizar o processo de

certificação de Pimenteiras como quilombola junto a Fundação Cultural Palmares, já

que grande parte da população passou a se reconhecer desta forma. O principal

problema foi o da recusa de se fazer da cidade de Pimenteiras uma comunidade

reconhecida. Ora, como certificar e, posteriormente, desapropriar uma cidade

inteira? Porém, após ser inviabilizada esta tentativa, os sujeitos reelaboraram o

pedido, que se voltou para uma localidade nos arredores do núcleo urbano de

Pimenteiras, o antigo seringal Santa Cruz.

Para Beca a pedra que faltava para alicerçar a herança quilombola tinha sido

encontrada: “Vila Bela é um quilombo

dos negros que fugiram e de lá os

pais de nossos pais

Cruz]

de que seu lugar poderia ter um desenvolvimento que rumasse ao futuro. Todavia,

né?” Para ela ter Vila Bela como um quilombo, abriu um novo horizonte: o

Uns nasceram lá e outros já nasceram aqui [Santa

né?

né?

Uns nasceram lá e outros já nasceram aqui [Santa né? né? ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

se para conquistar esse futuro fosse necessário se voltar para um ‘passado’, tanto

melhor.

A origem em Vila Bela, para os integrantes da comunidade, já havia se feito

com certa naturalidade. Mas o lugar reivindicado, Santa Cruz, não se fez sem

dificuldades. O primeiro elo encontrado foi a descida dos antepassados pelo rio

Guaporé da antiga capital do Mato Grosso para Rondônia, como já descrito. O elo

territorial para esta nova aventura de se tornar ‘remanescentes quilombola’ começou

para seu Tarcísio com a chegada em Pimenteiras do Oeste, que ainda nem existia

com esta denominação: “ nós parava lá aonde é o Renato hoje

Cruz

aqui [núcleo urbano] não tinha nada

este narrador a ‘conquista’ do território para quem se autodenomina ‘remanescente’.

Para Seu Firmino, a questão é política e passa pela luta por direitos: “Então

a imagem que eu tenho de ser remanescente quilombola é como se fosse um

processo de luta para conseguir adquirir os direitos que não tiveram durante a

escravatura

lá era a cidade,

lá em Santa

que hoje é uma estância de turismo

”(19).

então começou lá

O começou lá é o que justifica para

” (45). Seu Eulálio tem consciência da importância da certificação da

comunidade pela Fundação Cultural Palmares como um reconhecimento do governo

para com eles: “Se vir algum recurso pra gente

Negras ta funcionando

financiamento até de 15 mil reais

motor

através dessas Associação

Se vê ali em Pedras

fez

pra mim

por

que

aqui

não?

tem um cara que

fez financiamento pra comprar gado

comprou

é

tem prazos de pagamento

com umas taxas com juros muito mínima

” (20). Nota-se que os sujeitos não são iludidos ou

passivos frente ao fenômeno que bateu a sua porta. Há uma percepção clara para

Seu Eulálio dos possíveis ‘ganhos’ econômicos com a certificação.

Se outros lugares 13 se tornaram quilombola e com isso tiveram acesso a

políticas públicas específicas, para Pimenteiras não poderia ser diferente. Seu

13Segundo o Incra (2016), são seis os processos abertos em Rondônia para regularização fundiária de Comunidades de Remanescentes de Quilombolas, sendo que a comunidade de Jesus em São Miguel do Guaporé é a única já titulada.

Jesus em São Miguel do Guaporé é a única já titulada. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta
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IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Eulálio lamenta que o processo em Pimenteiras do Oeste tenha demorado tanto

quando comparado com o de outras comunidades quilombolas do Vale do Guaporé:

Costa Marques

tem mais tempo ainda

” (21). O ser a última, entretanto, não

significa a perca de esperanças.

A certificação da comunidade de Santa Cruz (BRASIL, 215) foi publicada no

Diário Oficial da União no dia 3 de dezembro de 2015. Para seu EULÁLIO é

fundamental que todos saibam que eles agora estão legalizados:

da Beira também

Forte Príncipe

“Pedras Negras já tem uns oito anos que começaram a organizar

São Miguel do Guaporé tem mais tempo

A nossa aqui foi a última

Tem que haver divulgação

saber que aqui em Pimenteiras tem Sabiam que aqui em Pimenteiras

mas não sabiam que era uma comunidade

uma comunidade quilombola

tinha pessoas negras

quilombolas

grupo mas legalmente não era reconhecido

agora que nós somos registrados

(21).

antes só era um

Observa-se a ênfase dada por Seu Eulálio a essa conquista. Antes

mas não sabiam que era uma

comunidade quilombolas. O ser negro é importante, mas não é conquista, já o ‘ser

quilombola’ representa reconhecimento pelo Estado e, consequentemente, a

esperança de um futuro melhor. A conquista em termos de território político fundiário

ainda é longa, mas deu-se o primeiro passo.

Pimenteiras do Oeste tinha pessoas negras

Conclusão

Observar-se que o ‘ser quilombola’, assim como uma planta, espera o tempo

certo e um solo propício para germinar e dar seus frutos. Para isso procura adubos

certos, que num primeiro momento são as iniciativas dadas pelo Estado (os

primeiro momento são as iniciativas dadas pelo Estado (os ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

enquadramentos), e por outro, as possibilidades inerentes aos sujeitos (os des-

enquadramentos).

As contradições, no sentido que não há uma ‘continuidade de tradição

quilombola’, aparecem na formação do ‘ser quilombola’, porém, não se pode ver

nisso algo de ilusão. Pelo contrário, deve se ver como algo bem fundamentado

socialmente, logo real, pois não há formação social algum que não seja um

‘forjamento’ (deliberado ou não, pouco importa) por parte dos que se propõem a

viver em prol de uma comunidade ou sociedade.

Nesse sentido, o enquadramento do ‘ser quilombola’ pelo Estado não pode

dar conta das singularidades do presente contidas na comunidade estudada, não

porque seja falsa a proposta, mas porque talvez nunca tenha havido aquilo que se

costuma chamar de forma ‘tradicional’ da quilombagem, mas mesclas e maneiras

diferenciadas dela. Se se justifica falar de remanescentes quilombolas para este

estudo, se deve entender como uma realidade inteiramente ‘nova’, mesmo que se

associe a um passado quilombola.

Nas narrativas, a ausência de fixidez territorial e a presença de unicidade

étnica exigidas pelo Estado se contrapõem a um ‘ser quilombola’ que migra de

várias formas. Migra (trans)territorial e temporalmente, no caso de Vila Bela

(referência territorial e histórica) e outras localidades à beira do rio Guaporé. Migra

também etnicamente e quanto à cor da pele. Nas falas dos sujeitos observa-se que

esses associam o ‘ser quilombola’ tanto à maneira ‘tradicional’, sendo a pela negra a

herança da quilombagem, mas também aos indígenas e outros grupos que

igualmente vivenciaram o ‘sofrimento’ enquanto outra forma de expressão da

‘tradição quilombola’.

É necessário reforçar que se há algo de novo em nossa pesquisa frente a

outros trabalhos que estudaram as comunidades dita tradicionais, é que para estes

outros trabalhos há uma continuidade entre passado e presente para o fenômeno

atual do que seja chama ‘remanescentes quilombolas’. Para nós, ao contrário, não

quilombolas’. Para nós, ao contrário, não ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n. 1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

há continuidade alguma, mas algo radicalmente ‘novo’ dessa herança quilombola, da

qual o passado se diz justificar. Por outro lado, dizer que não há continuidade não é

demonstrar a falácia de que não há comunidade quilombola, e que tudo, então, é

mera ilusão dos sujeitos envolvidos.

Figura 1 - Localidades do Vale do Guaporé informadas nas ‘narrativas quilombolas’

Vale do Guaporé informadas nas ‘narrativas quilombolas’ Nota: Santa Cruz encontra-se em Pimenteiras do Oeste. Org.:

Nota: Santa Cruz encontra-se em Pimenteiras do Oeste. Org.: Löwen Sahr e Gomes.

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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

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253. Acesso em: 06/07/2016. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n. 1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

A Presente Rede das Paróquias Católicas na Cidade de Campos dos Goytacazes - RJ

Julio César Mascoto

Resumo

O projeto de pesquisa tem como objetivo de analisar e compreender a lógica da rede das

paróquias católicas da Igreja de São Salvador na cidade de Campos dos Goytacazes, norte do Estado do Rio de Janeiro e seu território religioso. O presente artigo está estruturado em duas partes, sendo que a primeira parte tem um breve histórico sobre a cidade de Campos dos Goytacazes e a construção da Igreja do Santíssimo Salvador, focando no território religioso, territorialidade religiosa, identidade, simbologia do catolicismo e as influências religiosas nos atores locais e a segunda parte é referente à dinâmica de influência da festa do Santíssimo Salvador na distribuição espacial da cidade de Campos dos Goytacazes e no que interfere na rede das paróquias católicas. Deste modo, propomos uma análise da rede das paróquias católicas da igreja de São Salvador e de como se constituem os processos de desterritorialização e reterritorialização no conceito de território em relação à festa do Santíssimo Salvador. Palavras-Chave: Rede; Território Religioso; Identidade cultural; Igreja; Festa Religiosa.

The Current Networks Of Catholic Parishes In The City Of Campos Dos Goytacazes - RJ

Abstract This research project aims to analyze and understand the logic of the Catholic parishes’ network belonging to the San Salvador’s church in the city of Campos dos Goytacazes, Rio

de janeiro’s north of the State and its religious territory. This article is structured in two parts,

the first one is a brief history of the Campos dos Goytacazes’ city and the construction of the Holy Savior Church, drawing attention to the religious territory, religious territoriality, identity, Catholicism symbology and religious influences on local actors. The second part, refers to the dynamic influence of the Holy Savior’s feast in the spatial distribution of the city of Campos dos Goytacazes and what it affects in the Catholic parishes' network. thus, we propose an analysis of the Catholic parishes' network of St. Saviour Church and how are the dispossession and repossession processes in the concept of territory in relation to the celebration of the Holy Savior. Keywords: Network; Religious territory; Cultural Identity; Church and Religious Party.

territory; Cultural Identity; Church and Religious Party. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n.
Introdução IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE

Introdução

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Em um mundo onde se encontram cada vez mais e presentes as redes, que

começam a crescer, se organizarem e reorganizarem a sociedade. Assim, como a

rede das igrejas católicas que contribuem para essa transformação social, cultural,

simbólica e espacial da cidade de Campos dos Goytacazes. O mundo globalizado,

de forma desigual, porém faz com que o acesso à informação e o diálogo entre as

pessoas, seja muito mais acessível, de maneira com que seja quase ilimitado,

possibilitando, então, a formação de amplas redes sociais, de comunicação, dentre

outras.

A Catedral Diocesana, e também, Paróquia do Santíssimo Salvador, está

localizada no município de Campos dos Goytacazes, Região Norte Fluminense,

Estado do Rio de Janeiro. Ele é o maior em extensão territorial do Estado, ocupando

uma área de 4.026.696 Km², com uma população estimada em 2015 de 483.970

habitantes.

A hipótese principal que fundamentou este trabalho parte do princípio de

que, houve um crescimento da rede das paróquias junto com o desenvolvimento da

cidade de Campos dos Goytacazes, contudo, há a necessidade dos atores que

participam de arranjos produtivos locais de articular, interagir e cooperar entre si

para que continuem exercendo atividades na Catedral Diocesana de São Salvador

para que a simbologia da igreja não desapareça. A rede das paróquias age dentro

do território sagrado, e também, no território da cidade, sendo esse considerado

território profano. Importante lembrar que a partir da rede das paróquias, outras

redes são criadas, e através das redes existem atividades, os fluxos, que seriam os

fluxos de pessoas, informações, capital, objetos. O mesmo ocorre quando os atores

da igreja ultrapassam a fronteira do território sagrado para exercerem atividades

religiosas para a população local, como a festa do Santíssimo Salvador, com a

concepção de “Des-re-territorialização” de HAESBAERT (2004).

de “Des-re-territorialização” de HAESBAERT (2004). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n. 1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Vejamos que a rede de paróquias da igreja de São Salvador colabora por

novas divisões espaciais do trabalho, maior intensidade do capital, circulação mais

ativa de mercadorias, mensagens, valores e pessoas, maior assimetria nas relações

entre os atores (SANTOS apud MARTIN LU 1984, p. 270-271), o mesmo ocorre com

os fluxos da rede de paróquias. Na festa do Santíssimo Salvador, outras redes são

formadas, através dos atores que colaboram com a organização da festa, assim

como outros grupos/sujeitos que frequentam a festa.

As redes que se configuram na atualidade possuem características distintas,

tais como as redes de infra-estrutura, que funcionam como suporte para o fluxo de

materiais e informações no território, como por exemplo as redes de transporte

(rodovias, ferrovias, etc.), e as de comunicação e informação (infovias, internet,

sistemas de comunicação via satélites, etc.) que apresentam-se como estruturas

que são resultado e resultante de uma maior tecnicização do espaço geográfico,

visando a realização ótima das ações empreendidas pelos agentes que delas

participam. (PEREIRA; KAHIL, 2006, p. 217-223)

Mapa de localização da cidade de Campos dos Goytacazes, Norte do Estado do Rio de Janeiro.

de Campos dos Goytacazes, Norte do Estado do Rio de Janeiro. Fonte: Google, 2016. ISSN 2525-6068

Fonte: Google, 2016.

Norte do Estado do Rio de Janeiro. Fonte: Google, 2016. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa,
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Rede e Território das Paróquias da Igreja de São Salvador

“As redes são formadas por troços, instalados em diversos momentos,

diferentemente datados, muitos dos quais já não estão presentes na configuração

atual e cuja substituição no território também se deu em movimentos diversos”

(SANTOS, 1996, p.263). O mesmo ocorre com a rede das paróquias da Igreja de

São Salvador, na cidade de Campos dos Goytacazes, em que tal rede se deu por

diversos “troços”, em diferentes momentos da construção e desenvolvimento da

cidade, acompanhando seu crescimento populacional e, mesmo com

transformações em sua rede urbana, todavia, está presente na atualidade.

Desta forma, observa-se que as redes são responsáveis pelas

transformações espaciais, assim, a igreja Católica de São Salvador é considerado

um modelador do espaço da cidade de Campos dos Goytacazes, atuando em

diferentes momentos. Desde a construção da igreja de São Salvador, a cidade tem

se desenvolvido por diversos aspectos, seja pela construção imobiliária, pelo porto

do Açu, etc., a demografia populacional tem aumentado com o tempo, de certa

maneira, a igreja Católica acaba acompanhando o crescimento da cidade e amplia-

se a rede de suas paróquias.

“Através das redes, podemos reconhecer, grosso modo, três tipos ou níveis

de solidariedade, cujo reverso são outros tantos níveis de contradições. Esses níveis

são mundiais, o nível dos territórios dos Estados e o nível local” (SANTOS, 1996, p.

270). Assim como Santos (1996) coloca, podemos trabalhar rede em diferentes

escalas, na pesquisa utilizamos a escala local para trabalhar o território da rede das

paróquias da igreja de São Salvador.

A rede de paróquias católicas da igreja de São Salvador aumentou junto com

o crescimento e desenvolvimento da cidade de Campos dos Goytacazes, hoje na

cidade são 24 paróquias, mais a paróquia mãe (igreja de São Salvador) que formam

a rede das paróquias. A Igreja de São Salvador é considerada paróquia, porém,

A Igreja de São Salvador é considerada paróquia, porém, ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016,
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

também é Catedral Diocesana da região Norte do Estado do Rio de Janeiro,

portanto, a igreja de São Salvador é quem tem domínio sobre todas as paróquias,

está no topo da hierarquia do poder econômico e político das igrejas Católicas no

território da cidade de Campos dos Goytacazes. Visando à ideia de hierarquia e

poder, a igreja São Salvador é a entidade religiosa com maior influência Católica,

assim podendo ditar regras para outras paróquias da cidade de Campos dos

Goytacazes e da região Norte Fluminense. O poder que está acima da Diocese de

Campos dos Goytacazes é a Arquidiocese do Rio de Janeiro, porém, o supremo

poder político e econômico da Igreja Católica do Brasil e do mundo está subordinado

diretamente à sede do catolicismo, o Vaticano.

Outro fator importante da pesquisa é a Geografia da Religião, que contribui

para que a rede das paróquias católicas permaneça “viva” é a questão da identidade

religiosa, da simbologia cultural da religião e dos atores locais. Segundo a autora

Rosendahl (2005, p. 25) “a Geografia da Religião deve ser compreendida como o

estudo da ação desempenhada pela motivação religiosa do homem em sua criação

e sucessivas transformações espaciais.” O sujeito que se identifica com a religião e

se sente motivado por ela, contribui para que a essência e identidade Católica não

sejam perdidas.

Vê-se, portanto, que território e identidade estão indissoluvelmente ligados. Lembremos que o território favorece o exercício da fé e da identidade religiosa do devoto. A religião só se mantém se sua territorialidade for preservada. (ROSENDAHL, 2008, p. 57).

“O território estabelece as relações de poder, ou seja, o território é suporte e

produto das ações dos atores sociais, que se apropriam do espaço e produzem

sistemas sêmicos cujos limites são os do território” (RAFFESTIN apud COSTA,

2005, p.85).

os do território” (RAFFESTIN apud COSTA, 2005, p.85). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Hoje as redes são produtoras de aceleração, e não é por outra coisa que a

sua característica primeira é a informação. A prioridade não é apenas distribuir,

ainda que essa atividade seja indispensável, mas o aspecto principal das redes

atuais é fazer circular dados e informações que precedem e organizam as atividades

de distribuição no território, e sob esse aspecto muitos dos fluxos que percorrem

redes diferenciadas não podem ser visualmente percebidos. (PEREIRA; KAHIL,

2006, p. 217-223)

Na rede das paróquias da igreja de São Salvador circulam fluxos, podendo

ser de informações, de pessoas, mercadorias, objetos, capital. Segundo Sposito

(2006, p. 57) “os fluxos, muitas vezes, são identificados de maneira abstrata, mas

estão livres dos controles do território.” Assim sendo, os fluxos que fazem parte da

rede de paróquias da Igreja de São Salvador podem ultrapassar o território religioso

da igreja e também o território da cidade de Campos dos Goytacazes. Nesse

sentido, a primeira característica de rede é ser virtual, a internet, aonde os fluxos de

informações chegam rapidamente, podendo ultrapassar fronteiras territoriais. “Ela

apenas é realmente real, realmente efetiva, historicamente válida, quando utilizada

no processo da ação.” (SANTOS, 1996, p. 277)

A seguir, o mapa de grafos da rede das paróquias da cidade de Campos dos

Goytacazes:

da rede das paróquias da cidade de Campos dos Goytacazes: ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa,
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Mapa elaborado por: SOUZA, Julio César Mascoto. 2016.

Mapa elaborado por: SOUZA, Julio César Mascoto. 2016. Rede e Territorialidade da Festa do Santíssimo Salvador

Rede e Territorialidade da Festa do Santíssimo Salvador

Outra discussão importante que será abordada é a questão da

territorialidade religiosa da festa do Santíssimo Salvador da igreja de São Salvador

da cidade de Campos dos Goytacazes. Buscando compreender a territorialidade

religiosa através do conceito de território, e as redes que são capazes de ser

formarem no território da festa. Assim, veremos que a territorialidade religiosa

abrange diversos aspectos que um dado território pode obter. Para Costa (2005), a

territorialização se constrói pela presença do grupo que se dá ao conjunto de

práticas que a igreja e seus membros exercem, independente de ser um espaço

sagrado fixo, ou não fixo. A Igreja é territorializada em seu lugar fixo, mas suas

territorialidades também podem ocorrer os processos de desterritorialização e de

reterritorialização quando grupos/sujeitos remetem atividades que ultrapassam as

fronteiras do território da igreja, assim sendo, as redes sociais entre os atores que

colaboram com a entidade religiosa (a igreja de São Salvador) também poderão

religiosa (a igreja de São Salvador) também poderão ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

ultrapassar as fronteiras do território sagrado criando fluxos de informações,

pessoas, dinheiro, objetos religiosos, etc., através do território territorializado.

Para Haesbaert (2004) “território e rede não são dicotomias, e que a rede,

ela pode sim ser um elemento que constitui o território.” Há outros autores que

abordam as teorias sobre território e rede separadas um do outro, ou subordinado

um ao outro, mas Haesbaert (2004) tem a percepção de tratar território e rede

juntos.

O território aparece como movimento que se repete e “territorializar-se

significa também, hoje, construir e/ou controlar fluxos/redes e criar referenciais

simbólicos num espaço em movimento, no e pelo movimento” (HAESBAERT, 2004,

p. 280).

Para Haesbaert (2004) a rede possui um duplo caráter territorializador e

desterritorializador e não anula o território:

Para nossos propósitos, a característica mais importante das redes é seu efeito concomitantemente territorializador e desterritorializador, o que faz com que os fluxos que por elas circulam tenham um efeito que pode ser ora de sustentação, mais ‘interno’ ou construtor de territórios, ora de desestruturação, mais ‘externo’ ou desarticulador de territórios (HAESBAERT, 2004, p. 294).

Dessa maneira, podemos visualizar as redes que ocorrem na Festa do

Santíssimo Salvador que é uma tradição de 363 anos com o efeito territorializador

desterritorializador. Iniciado em 1652, o evento é parte das raízes culturais e

religiosas de Campos dos Goytacazes e remonta à época da colonização e das

capitanias. A celebração homenageia Jesus Cristo, o São Salvador ou Santíssimo

Salvador, padroeiro da cidade. Além da programação religiosa - que conta com

da cidade. Além da programação religiosa - que conta com ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa,
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

procissão e benção da imagem do Santíssimo Sacramento, novenário e missas na

Catedral - há shows musicais de estilos variados, provas e festivais esportivos.

Rosendahl (2011) diz que o espaço sagrado, não associado

necessariamente a uma territorialidade definida, pode ser classificado como espaço

sagrado não fixo. Assim, é o que ocorre com a festa do Santíssimo Salvador, uma

festa itinerante que ultrapassa os limites da fronteira do território fixo/território

sagrado, a igreja. A festa do Santíssimo Salvador é realizada na Praça São

Salvador, local de convivência da população campista, e é localizado enfrente da

Matriz de São Salvador no centro da cidade. Assim sendo, Rosendahl (2008)

destaca que:

Territórios religiosos “são espaços qualitativamente fortes, constituídos por fixos e fluxos, possuindo funções e formas espaciais que constituem os meios por intermédio dos quais o território realiza efetivamente os papéis a ele atribuídos pelo agente social que o criou e controla.” (ROSENDAHL, 2008, p.56)

Analisando o espaço da Praça São Salvador, onde ocorrem todos os anos a

festividade da festa pode-se dizer que a praça seria classificada como um território

religioso não fixo, pois se realiza o processo de desterritorialização e

reterritorialização e que por tempo determinado a praça seria um território sagrado. A

desterritorialização para Haesbaert (2004) “em sentido amplo é sempre

acompanhada por uma reterritorialização: a desterritorialização absoluta não existe

sem reterritorialização”. (HAESBAERT, 2004, p. 131) A festa Religiosa é a mescla de

elementos da Igreja Católica e das tradições populares da cultura local, assim, é

possível manter a identidade cultural da religião através da territorialidade religiosa

que seus organizadores exercem sobre o território não fixo.

seus organizadores exercem sobre o território não fixo. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
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Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

Os territórios sempre comportam de si vetores de desterritorialização e de reterritorialização. Muito mais do que uma coisa ou objeto, o território é um ato, uma ação, uma rel-ação, um movimento (de territorialização e desterritorialização), um ritmo, um movimento que se repete e sobre o qual se exerce um controle. (HAESBAERT, 2004, p. 87)

“As redes são técnicas, mas também são sociais. Elas são materiais, mas

também são viventes.” (SANTOS apud PARROCHIA. 1993, p. 277) As redes que

surgem na festa do Santíssimo Salvador, são redes sociais de pessoas que

colaboram para elaborarem e organizarem a festa para a população, porém, existem

outras redes na manifestação da festa, como, as redes de informações para

divulgação, podendo ser em redes sociais e/ou panfletagens, rede de rádio,

cartazes, assim como Santos (1996) coloca que as redes são virtuais e ao mesmo

tempo são reais. “Como toso e qualquer objeto técnico, a realidade material

independente das redes é ser uma promessa.” (SANTOS, 1996, p. 277)

Segundo Costa (2005, p. 93) “a territorialização se constrói pela presença do

grupo que singulariza determinada parte do espaço por suas práticas culturais.”

Assim se dá pela elaboração e construção da festa que é realizada na Praça São

Salvador. Na análise de Bonnemaison (1981) a territorialidade “é uma oscilação

contínua entre, de um lado, o território que dá segurança, símbolo e identidade, e,

de outro, o espaço que se para a liberdade, às vezes também para a alienação”

(1981 apud ROSENDAHL; ZENY, 2005, p.12930). A identidade da festa é um fator

primordial para que se possa manter a identidade da Igreja e do catolicismo vivo.

Territorialidade religiosa, na abordagem da geografia cultural, significa o conjunto de práticas desenvolvidas por instituições ou grupos religiosos no sentido de controlar pessoas e objetos num dado território religioso. É uma ação para manter a existência, legitimar a fé e a sua reprodução ao longo da história da Igreja Católica no Brasil. (ROSENDAHL, 2005, p.108).

da Igreja Católica no Brasil. (ROSENDAHL, 2005, p.108). ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

Visibilidades, escalas geográficas e desafios metodológicos

A festa de São Salvador acaba sendo uma justificativa para que os devotos

possam legitimar a sua fé e também para que se mantenha viva a identidade e

simbologia da igreja e a cultura da religião católica.

Considerações Finais

O propósito neste trabalho foi enfatizar que a dimensão do território da Igreja

São Salvador atravessam suas fronteiras com a rede das paróquias na cidade de

Campos dos Goytacazes, e também faz parte de uma experiência multiterritorial,

diversificada, conectada e que promove simultaneamente territorializações e

desterritorializações. As práticas dos agentes sociais estão constantemente

construindo, destruindo e reconstruindo territórios, no que Haesbaert (2004) chama

de “des-re-territorialização”.

Campos do Goytacazes é uma cidade de história religiosa, onde a

passagem de diversos grupos católicos e a devoção dos fiéis deixou como herança

um grande número de igrejas construídas em épocas e em estilos diferentes. Assim,

com os crescimentos populacionais e devotos do catolicismo e o desenvolvimento

da cidade de Campos dos Goytacazes criou-se a rede das paróquias católicas,

através da “Igreja mãe”, a Catedral diocesana São Salvador.

Abaixo, observa-se a figura da Igreja de São Salvador que é o principal nó

da rede que dá origem a rede de paróquias católicas na cidade de Campos dos

Goytacazes e enfrente localiza-se a Praça de São Salvador onde ocorre a “Des-re-

territorialização” da festa do Santíssimo Salvador:

territorialização” da festa do Santíssimo Salvador: ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n. 1
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IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

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Figura 1- Igreja de São Salvador

e desafios metodológicos Figura 1- Igreja de São Salvador Fonte: Mapa da Cultura, 2011. Figura 2

Fonte: Mapa da Cultura, 2011.

Figura 2 – Praça de São Salvador

Mapa da Cultura, 2011. Figura 2 – Praça de São Salvador Fonte: arquivo pessoal, 2015. Através

Fonte: arquivo pessoal, 2015.

Através da rede das paróquias na cidade, acabam criando se outras redes,

por exemplo, a rede social de pessoa, que se relacionam da igreja mãe e nas

paróquias, a rede de informações, etc.

A rede também se dá pelos fluxos e pela fluidez que ocorrem na rede das

paróquias, podendo ser o fluxo de pessoas, dentre uma paróquia e outra, o fluxo

monetário, o dinheiro que é arrecadado nas paróquias, o dinheiro para a elaboração

da festa do Santíssimo Salvador, etc., Mas a fluidez não é uma categoria técnica,

mas uma entidade sociotécnica. “Ela não alcançaria as consequências atuais, se, ao

lado das novas inovações técnicas, não estivessem operando novas normas de

ação, a começar, paradoxalmente, pela chamada desregulação.” (SANTOS, 1999, p.

275) A estrutura evolutiva da rede das paróquias acaba estando ligada a evolução

de técnicas de outras redes, por exemplo, a evolução de novas redes compostas da

cidade de Campos dos Goytacazes que se interligam através dos nós inovando o

modelo de comunicação e a organização espaciais de variados agente sociais.

e a organização espaciais de variados agente sociais. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1
Referências IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE

Referências

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

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O Santuário Santo Antônio: Tramas de um Território Consagrado em Imbituva - PR

Leandro de Jesus

Wagner da Silva

Almir Nabozny

Resumo O presente trabalho apresenta uma compreensão sobre o processo de constituição de um santuário da Igreja católica Apostólica Romana em uma comunidade rural no município de Imbituva-PR. A interpretação é produzida a partir do entrelaçamento de reflexões em torno do conceito de território e territorialidade e de informações contidas em jornais, informativos produzidos pela igreja, assim como entrevistas com sujeitos envolvidos no projeto. No texto apresentam-se os principais agentes e aspectos relativos as dimensões materiais e simbólicas mobilizadas na constituição do santuário. A legitimidade da igreja na manipulação de símbolos religiosos, os rituais de consagração e narrativas acerca do santuário apontam para a especificidade do processo de produção deste tipo de configuração territorial. Palavras-chave: Espaço Sagrado; Territorialidade; Igreja Católica.

Saint Anthony’s Sanctuary: the Network of a Consecrated Territory in Imbituva- PR

Abstract This work presents an understanding regarding the foundation process of a sanctuary of the Roman Apostolic Catholic Church in a rural community in Imbituva county, Paraná. The presented interpretation stems from the interweaving of reflections around the concept of territory and territoriality, information given by newspapers and leaflets from the church, as well interviews with people engaged in the project. This paper describes the key factors and aspects concerning the material and symbolic dimensions activated in the foundation of a sanctuary. The legitimacy of the church in religious symbols manipulation, the rites of consecration and narratives upon the sanctuary point to the particularity of the formation process of this kind of territorial composition. Key words: Sacred Space; Territoriality; Catholic Church.

Key words: Sacred Space; Territoriality; Catholic Church. ISSN 2525-6068 UEPG – Ponta Grossa, 2016, v.1 n.
Introdução IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE

Introdução

IV SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE MÚLTIPLAS TERRITORIALIDADES E IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE MICROTERRITORIALIDADES NAS CIDADES:

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Em seu processo de desenvolvimento histórico, a Igreja Católica Apostólica