Você está na página 1de 22

Universidade de São Paulo - FEA

Formação Econômica e Social do Brasil II

São Paulo - FEA Formação Econômica e Social do Brasil II Aula 1 - Política Econômica,

Aula 1 - Política Econômica, 1889-1913 (parte 1)

Formação Econômica e Social do Brasil II Aula 1 - Política Econômica, 1889-1913 (parte 1) Renato
Formação Econômica e Social do Brasil II Aula 1 - Política Econômica, 1889-1913 (parte 1) Renato
Renato Perim Colistete
Renato Perim Colistete
2016
2016

Objetivos

• Nesta aula começamos a análise da política econômica no período de 1889 a 1913, tratando inicialmente do Encilhamento.

• Vamos recuperar as raízes do Encilhamento no final do Império e na transição para o regime republicano, enfatizando as concepções sobre a política bancária e do crédito.

• Ao final, veremos alguns dados que sintetizam os resultados macroeconômicos do período.

Abolição e finanças

Houve prosperidade econômica e relativa estabilidade financeira a partir de 1875, ano da última grande crise.

A bandeira da indenização aos proprietários de escravos foi derrotada e a abolição pura e simples veio pelas mãos do Gabinete conservador de João Alfredo (10/3/1888 a junho/

1889).

Dois efeitos apontados pela literatura: i) dificuldades financeiras dos fazendeiros com a abolição e disposição (motivos econômicos e políticos) do governo em auxiliá-los; ii) monetização dos contratos na agricultura, gerando escassez de numerário.

Pluralidade de emissão

Até então, as emissões de papel-moeda haviam sido estabilizadas (de 1879 a 1885) e complementadas por empréstimos externos (1883). Com a crise da abolição, havia duas alternativas: emissão pelo Tesouro ou pelos bancos.

A emissão pelos bancos foi vitoriosa, assim com a tese da pluralidade de emissão (em vez de um banco centralizado). O Gabinete de João Alfredo lançou o decreto nº 3.403 de 24/11/1888.

O decreto permitia autorizar bancos a emitir bilhetes conversíveis em moeda corrente, lastreados em apólices da dívida pública, isto é, contra depósito na Caixa de Amortização de valor equivalente em apólices da dívida pública interna. Limite de 20 mil contos de réis por banco e de 200 mil contos no total.

Caixa de Amortização

Criada pela lei de 15 de novembro de 1827 para a administração da dívida pública interna e externa (emissão, amortização, resgate, substituição e pagamento de juros das apólices da dívida pública).

Posteriormente (1836) a Caixa de Amortização passou a ser responsável pela emissão e circulação do papel-moeda.

Critérios rígidos e transparentes de gestão: i) Junta Administrativa da Caixa independente do Tesouro Público, composta por dois representantes do Ministério da Fazenda, o Inspetor-Geral da Caixa e cinco “capitalistas nacionais” (comerciantes-financistas); ii) prestação de contas (balanço) anual à Câmara dos Deputados e publicação semestral na imprensa de todas as operações da Caixa.

As medidas

Outros pontos do decreto de 24 de novembro de 1888:

a) bilhetes aceitos em todas as repartições arrecadadoras exceto para

pagamento de direitos de importação e juros da dívida interna, pagos em moeda corrente. Pleno curso entre bancos;

b) bilhetes deveriam ser pagos à vista aos portadores e os bancos deveriam

manter em caixa 20% em moeda corrente para atender seu pronto pagamento; apenas previsão de que, se houvesse corrida aos saques, banco poderia emitir letra pagável em 15 dias, retornando depois ao normal;

c) o decreto (art. 5º) definia um mecanismo de transição para um regime

metálico (Padrão Ouro), via troca dos depósitos em títulos da dívida pública por moeda metálica (incentivada por meio de aumento da emissão na proporção de 1:3) e o recolhimento gradual do papel-moeda em circulação.

O regime metálico

Porém, o novo gabinete liberal do Visconde de Ouro Preto (7/6/1889) suspendeu a conversão por apólices (antes de ser implementada) e autorizou 3 bancos a emitir bilhetes conversíveis em ouro: Banco Nacional do Brasil, Banco de São Paulo e Banco do Comércio (dec. nº 10.262 de 6/7/1889).

Razões do novo sistema: a alta do preço externo do café, o aumento das colheitas e a maior entrada de capital externo levaram o câmbio ao nível da paridade legal (27 dinheiros, pence/mil-réis, definida em 1846), criando expectativa de prosperidade e estabilidade duradouras.

Paralelamente, o gabinete do V. de Ouro Preto fechou com os bancos um elevado montante de empréstimos à lavoura: 172 mil contos, financiados pelo lançamento de apólices do Tesouro. Além de atender às necessidades dos fazendeiros, o crédito era também uma arma para combater a hostilidade crescente contra a Monarquia – que não foi bem-sucedida, como sabemos.

Crédito aos fazendeiros

O crédito aos fazendeiros seguiu a política já iniciada pelo Gabinete anterior de João Alfredo. Os empréstimos eram de 1 a 5 anos, garantidos por hipotecas, equipamentos ou mesmo colheitas ainda não realizadas (no entanto, o crédito liberado por João Alfredo em 1 ano foi de apenas 18 mil contos, contra 170 mil contos durante o Gabinete do Visconde do Ouro Preto).

O sistema era altamente vantajoso para os bancos. O acordo era que o governo transferisse aos bancos recursos a juros zero, com contrapartida no mesmo valor pelos bancos, sendo os recursos emprestados aos fazendeiros a 6% a.a (na verdade, apenas para quitar obrigações de curto prazo). Os bancos, porém, emprestaram valores muito menores do que o estabelecido e operaram basicamente com recursos públicos isentos de juros (no período do Visconde de Ouro Preto, 170 mil contos contra 26 mil contos dos bancos).

O alto retorno resultante do esquema montado pelo governo estimulou os bancos a expandir rapidamente suas operações de crédito, bem como induziu a criação de novos bancos. 14 novos bancos foram fundados apenas em 1889. A expansão do crédito levou a um forte aumento das cotações na bolsa do RJ, dominada pelas ações dos bancos.

O novo regime republicano

O novo governo provisório, tendo Rui Barbosa no Ministério da Fazenda, apostou em uma política extrema de pluralidade de emissão, revertida porém já no final de 1890.

De início, o governo provisório deferiu todos os pedidos já solicitados de incorporação de bancos de emissão, 10 ao todo (até então apenas o Banco Nacional havia emitido os bilhetes com base em depósito em ouro, pela lei de novembro de 1888).

A autorização permitiu emitir na proporção de 1:3, como na lei de 1888. Porém, o número de bancos implicaria grande expansão dos bilhetes, aproximadamente uma emissão de 600 mil contos, em menos de 3 meses. Mas foram dados (no decreto de 27 de dezembro de 1889) 3 meses para que os bancos passassem a emitir; não conseguiram e as autorizações caducaram.

A legislação do governo provisório

O novo governo adotou sua primeira legislação bancária com o decreto nº 165 de 17 de janeiro de 1890, que substituiu a lei de 1888 do Império. Ao mesmo tempo, as incertezas da mudança política tiveram seu efeito: êxodo de capital para o exterior e paralisação ou encarecimento do crédito. Principais pontos da lei de 1890:

a) Brasil dividido em 3 zonas: a do Norte, da BA ao AM; a do

Centro, com RJ, SP, MG, ES, PR, SC; e a do Sul, RS, MT e GO; b) cada zona com um banco; c) bancos poderiam criar agências e sucursais em sua zona;

b) emissões teriam por limite o valor das apólices mas seus bilhetes

teriam curso na própria zona, e de zona a zona seria estabelecida uma conta de compensação entre bancos;

Os novos bancos

e) bilhetes poderiam ser recebidos em todas as repartições arrecadadoras, tal como papel-moeda (mais amplo, portanto, que a lei do Império);

f) atividades permitidas aos bancos: desconto de promissórias, câmbio, depósitos, hipotecas de curto e longo prazo mediante emissão de obrigações hipotecárias, crédito agrícola, crédito para indústria, compra e venda de terras para loteamento, empresas de colonização, drenagem e prospecção de terrenos, exploração de minas e outras atividades industriais, e todas as operações de comércio e indústria.

Ou seja, os novos bancos autorizados e os antigos que se adaptassem seriam verdadeiros bancos universais (como os alemães), indo muito além das suas operações tradicionais de depósitos e desconto.

Novas companhias

Paralelamente, novas companhias foram criadas em diferentes setores da economia, muitas delas fraudulentas ou pouco viáveis economicamente.

A especulação com ações foi enormemente facilitada pela permissão (dada pelo decreto de 17/1/1890) de negociar as ações com apenas 10% de seu valor integralizado. Apenas quem tivesse o horizonte de ganho de curto prazo na compra e venda das ações se aventurava no mercado – com exceção do público em geral que não conhecia o que envolvia a operação dos especuladores.

Os próprios bancos subscreveram ações, pagando com seus próprios bilhetes (o público pagava em papel-moeda) e obtendo elevados ganhos com a especulação.

A explosão das emissões

A tentativa de organização do novo sistema sofreu sucessivas mudanças em um curtíssimo espaço de tempo.

Por exemplo, a emissão original de bilhetes definida pelo decreto de janeiro de 1890 foi de 450 mil contos, mas 14 dias depois foi reduzida para 200 mil contos. Contudo, em setembro de 1890 as emissões autorizadas aos bancos já acumulavam mais de 700 mil contos em circulação.

Da mesma forma, em 8 de março de 1890 o MF autorizou o Banco Nacional e o Banco do Brasil a emitirem em base metálica, na proporção de 1:2, com reembolso permitido somente quando e se a paridade chegasse a 27 dinheiros/mil-réis por 1 ano (paridade legal). Com isso, criou-se um sistema dual, com 2 bancos com base metálica e 6 com base em apólices.

Especulação e inflação

A dualidade gerou críticas imediatas, pois os 2 bancos emissores com base metálica podiam comprar ouro no mercado, depositar na Caixa de Amortização e emitir na base de 1:2, enquanto os outros (sob o regime de títulos públicos) emitiam na base de 1:1.

O Banco dos Estados Unidos do Brasil foi o primeiro a protestar e em 29 de agosto de 1890 ganhou o direito de depositar 25 mil contos em espécie e emitir cédulas bancárias em até o dobro do valor. Outros bancos ganharam o direito em setembro de 1890 (dec. no 782-A).

No conjunto (empréstimos à lavoura, política bancária, lançamento de novas sociedades anônimas), as medidas reforçaram a grande expansão monetária e do crédito iniciada no final do Império, com especulação na bolsa do Rio de Janeiro, inflação ascendente e depreciação cambial – ver tabela a seguir para o câmbio.

Taxas de câmbio mensais (pence/mil-réis)

Taxas de câmbio mensais (pence/mil-réis)

Fim da pluralidade

Diante do descontrole monetário e seus efeitos especulativos e inflacionários, a mudança na política de Rui Barbosa veio em 7 de dezembro de 1890, com centralização das emissões em um novo banco resultante de fusão (dec. nº 1.154).

O Banco dos Estados Unidos do Brasil e o Banco Nacional fundiram-se, sob o nome de Banco da República dos Estados Unidos do Brasil, tendo poder de emissão de cédulas bancárias contra títulos da dívida pública: circulação em todo o país à razão de 1:3, reembolso em ouro e à vista após 1 ano de paridade em 27 dinheiros.

Os demais bancos teriam de utilizar seu direito de emissão em até 2 anos, depois deixariam de ser emissores.

Colapso

A demissão coletiva (21/1/1891) dos ministros do governo do Marechal Deodoro, inclusive de Rui Barbosa, levou ao MF dois nomes, Tristão de Alencar Araripe e o Barão de Lucena, que adotaram políticas que agravaram o quadro de instabilidade.

No final de 1891 o colapso dos preços das ações, a restrição ao crédito e o aumento dos juros já haviam degenerado em falências generalizadas de empresas, agravando-se ainda mais em 1892. O Encilhamento teve seu ápice e colapso nesse ano, mas os problemas perduraram até o final da década, como veremos adiante.

Em termos macro, os efeitos do Encilhamento foram: aumento da lucratividade e daí expansão da produção cafeeira; inflação; deterioração das contas públicas; deterioração das contas externas. Os anos seguintes foram de crise e instabilidade. Vejamos alguns dados macro a seguir.

O câmbio em perspectiva

O câmbio em perspectiva

Taxa de câmbio, Brasil, 1889-1930 (libra est./mil-réis e mil-réis/libra esterlina)

 

Período

pence/mil-réis

mil-réis/libra esterlina

 

Presidentes

1889

26,438

9,077

Deodoro da Fonseca

1890

22,563

10,638

 

1891

14,906

16,097

Floriano Peixoto

1892

12,031

19,950

 

1893

11,594

20,708

 

1894

10,094

23,769

Prudente de Moraes

1895

9,938

24,814

 

1896

9,063

26,490

 

1897

7,719

31,088

 

1898

7,188

33,380

Campos Salles

1899

7,438

32,258

 

1900

9,500

25,263

 

1901

11,375

21,304

 

1902

11,969

20,237

Rodrigues Alves

1903

12,000

20,184

 

1904

12,219

19,819

 

1905

15,679

15,238

 

1906

16,188

14,971

A

onso Penna

1907

15,219

15,917

 

1908

15,156

15,983

 

1909

15,156

15,983

 

Nilo Peçanha

1910

16,234

14,927

Hermes Fonseca

1911

16,109

15,044

 

1912

16,156

15,000

 

1913

16,109

15,044

 

1914

14,797

16,375

Wenceslau Braz

1915

12,563

19,272

 

1916

12,063

20,078

 

1917

12,828

18,893

 

1918

13,000

18,893

Delfim Moreira

1919

14,219

16,678

Epitácio Pessoa

1920

14,578

16,623

 

1921

8,359

28,981

 

1922

7,234

33,464

Arthur Bernardes

1923

5,422

44,561

 

1924

6,000

40,421

 

1925

6,156

39,385

 

1926

7,203

33,611

Washington Luis

1927

5,906

41,070

 

1928

5,953

40,743

 

1929

5,914

41,015

 

1930

4,859

44,329

 

Moeda e preços

Moeda e preços

E o crescimento do PIB

EncilhamentoEncilhamento GovernoGoverno CamposCampos SallesSalles crisecrise dodo EncilhamentoEncilhamento
EncilhamentoEncilhamento
GovernoGoverno CamposCampos SallesSalles
crisecrise dodo EncilhamentoEncilhamento

Questões

Considere as políticas do último gabinete do Império e avalie:

até que ponto o Encilhamento já havia se tornado irreversível antes da República? Ou a política bancária de Rui Barbosa seria o seu principal determinante?

Analise a concepção sobre a atuação dos bancos contida na lei de 17 de janeiro de 1890 de Rui Barbosa: qual era a viabilidade dessas instituições vingarem na época? A proposta era vantajosa para a economia?

Analise os efeitos das políticas adotadas para o câmbio no período. Em que medida a deterioração das contas externas foi determinante no colapso do Encilhamento?