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Feminismo Radical: Histoéria, Politica, Acao (parte) Robyn Rowland e Renate Klein Introdugio Por conta de sua propria natureza, o feminismo radical se concentrou em criar sua teoria nos eseritos das vidas das mulheres ¢ da anélise politica da opressio das mulheres. Ponco tempo foi dedicado a definir e redefinir nossa “teoria” pelo propésito da teoria. Onde os feminismos socialista, liberal ¢, mais recentemente, pos-modemo possuem convenientes estruturas te6ricas existentes para manipular e re-manipular, as esticando como uma pele a0 longo do tambor das experiéneias das mulheres, o feminismo radical cria uma teoria politica e social da opressio das mulheres, e estratégias para acabar com essa opressfio que vem das experiéneias vividas das mulheres De tal modo, Janice Raymond escreve sua teoria das amizades das mulheres, sua paixio e os obstéculos envolvidos em se fazer amizade com mulheres. Assim o fazendo, ela critica a realidade hetero: o sistema de valores das mulheres como sendo “para” os homens, em que o Patriarcado se assenta. Kathleen Barry, Catherine MacKinnon, Susan Griffin e Andrea Dworkin documentam 0 tréfico intemacional de mulheres ¢ criangas, pomogratia ¢ estupro, criando uma anilise de poder da violéncia contra mulheres ¢ do abuso dos corpos das mulheres como uma circulagio intemacional, Feministas radicais frequentemente combinam eseritos e teoria eriativos, como na poesia e prosa de Adrienne Rich, Audre Lorde, Robin Morgan, Susan Griffin e Judy Grahn. Aqui, a paixio do feminismo radical pode ser inteiramente expressada, porque € uma teoria do emocional, assim como do intelecto racional. Teoria e pritica so entrelagadas interdependentemente. Anne Koedt, Judith Levine e Anita Rapone trabalharam nisso em sua introducio 4 Radical Feminism em 1973 quando esereveran © propésito em selecionar e organizar essa antologia era o de apresentar material de fonte priméria nfo tanto sobre, mas do Movimento Feminista Radical” (italico nosso, p. viii). Radical significa “pertencer 4 raiz”; o Feminismo Radical olha para as raizes da opressfio das mulheres. Como Robin Morgan diz: Eu me chamo uma Feminista Radical, e isso significa coisas especificas para mim, A etimologia da palavra “radical” se refere a “algo que vai 4 raiz”. Eu acredito que 0 sexismo é a raiz da opressio, aquela que, até ¢ a nao ser que extixpemos, continuari a se estender nos ramos do racismo, do ddio de classe, etarismo, competigio, desastre ecolégico e exploragao econdmica. [sso significa, para mim, que as assim chamadas revolugdes até a data foram golpes de estado entre homens, em uma tépida tentativa de podar os gallos, mas deixando a raiz cravada no propésito de preservar seu proprio privilégio masculino (1978, p.9). intento revolucionirio do feminismo radical ¢ expresso primeira e prineipalmente em seu centramento na mulher: as experiéncias e interesses das mulheres esto no centro de nossa teoria ¢ pratica. E a tnica teoria por e para mulheres, O feminismo radical nomeia todas as mulheres como parte de um grupo oprimido, salientando que nenhuma mulher pode andar na rua ou mesmo viver de forma segura em casa sem medo de violagdo dos homens Mas a feminista francesa Christine Delphy aponta que, como todas as pessoas oprimidas, miuitas mulheres nio gostam de aceitar que sto parte de um grupo oprimido, mal-entendendo uma andlise de poder como uma “teoria da conspiragao” e, eroneamente, sentindo uma ameaga ao seu senso de agéncia. feminismo em si mesmo frequentemente marginalizou o feminismo radical, se deslocando para um libertarianismo ficil e confortavel, salientando o individualismo ao invés, da responsabilidade coletiva; ou para o socialismo com suas estruturas jé prontas a atacar, 's homens mesmos. retirando o calor dos prineipais atores do patriaread Mais de dezesseis anos depois da publicagdo de Feminist Practice: Notes From the Tenth Year (1979) — um panfleto auto-publicado por um grupo inglés de feministas radicais — miuitos dos comentarios sobre o lugar do feminismo radical ainda permanecem verdadeiros. Ns podemos todas concordar que nés nos chamariamos Feministas Radicais € de que queremos fazer algo a respeito do fato de que sentimos que nossa politica foi perdida, se tornou invisivel, no estado atual do WLM [Homen’s Liberation Movement], Sentimos que isso foi em parte culpa do proprio Feminismo Radical, visto que na Inglaterra nfo eserevemos muito por nés mesmas — coneentrando na ago — e assim sendo definidas (difamadas?) por outros por omissio. Sentimos que o Feminismo Radical tem sido uma, se nao a, maior forga no WLM desde seu inicio, mas assim que as facgdes comegaram a aparecer, raramente foram as mulheres que se chamavam feministas radicais que definiram © feminismo radical. Durante muito tempo, foi utilizado como um termo de injtiria para cercar aqueles aspectos do WL que assustavam aquelas preocupadas com a aceitagdo masculina, aqueles aspectos que mais ameagavam, sua imagem de respeitabilidade. Feministas radicais se tornaram um objeto social de escdmnio que aquelas mulheres e homens poderiam entio se dissociar. feminismo radical p6s-60 também tinha sua histéria no ativismo das mulheres do passado, Por exemplo, Hedwig Dohm na Alemanha, Susan B, Anthony, Matilda Joslyn Gage @ Charlotte Perkins nos EUA, Christabel Pankhurst (antes de seu socialismo) e Virginia Woolf na Inglaterra e Vida Goldstein na Austrélia sto apenas algumas de nossas predecessoras.' Em novembro de 1911, na Inglaterra, uma revista feminista radical, The Free Woman, comecou a publicar semanalmente como um forum para ideias revolucionaias sobre mulheres, casamento, politica, prostituigdo, relagdes sexuais e questdes relativas & opressio das mulheres e estratégias para acabar com ela. Foi banida por livreiros, ¢ muitas suftagistas objetaram a ela por causa de sua posigio critica na luta pelo voto como a questio tinica que garantiria a igualdade das mulheres. “O feminismo é a questio toda; a emaneipagao politica, uma questo derivada”, elas esereveram (em Tuttle: 1986, p. 117). Principios Definitorios do Feminismo Radical Como 0 espago é limitado, nos concentramos nos principios gerais compartilhados pelas varias correntes no interior do feminismo radical ao invés das diferengas entre eles. O primeiro e fundamental tema é o de que as mulheres como um grupo social s4o oprimidas por homens como um grupo social e de que essa opressio & a opressio primdiria para as mulheres. O patriarcado € a estrutura opressiva da dominagao masculina. © feminismo radical toma visivel 0 controle masculino assim que é exercido em toda esfera das vidas das mulheres, tanto piiblica quanto privada. Entio, a reprodugdo, 0 casamento, a heterossexualidade compulséria e a maternidade so locais primarios de ataque e preveem mnudanga positiva " Veja Dale Spender (1983), para uma compilacdo de escritos histéricos sobre tedricas feministas. Robin Morgan capta a excitagao do feminismo radical em sua definigio em Going Too Far. .. Nao foi... Uma asa ou um brago ou um dente da Esquerda — ou Direita — ou nenhum outro grupo masculino-definido, masculino-controlado. Era algo bastante Outro, algo em si mesmo, uma politica totalmente nova, uma maneira inteiramente diferente e assombrosamente radical de perceber a sociedade, uma questo senciente, a vida em si mesma, o universo. Era uma filosofia, Era imenso, Era também mais decididamente um Movimento real, auténomo, esse feminismo, com todas as forgas que implicava. E com todos os males também — as familiares disputas mortiferas. Uma segunda caracteristica elementar do feminismo radical é a de que é criado por mulheres para mulheres. Christine Delphy coloca que as pessoas da Esquerda, por exemplo, estio lutando em nome de outro alguém, mas que _. As contradigdes que resultam dessa situagio sfo externas ao feminismo. Nao estamos lutando por outros, mas por nés mesmas. Nés ¢ ninguém mais so as vitimas da opressio de que estamos denunciando e lutando contra. E, quando falamos, nfo é em nome ou no lugar de outros, mas em nosso proprio nome e em nosso proprio lugar (1984, p. 146). © feminismo radical salienta que a “emancipagao” ou a “igualdade” em termos masculinos nio € o suficiente. Uma revolugao total das estruturas sociais e a eliminagdo dos processos do patriarcado sio essenciais. Em seu artigo publicado originalmente em 1979, entitulado “I Call Myself a Radical Feminist”, a escritora britanica Gail Chester delineou sua posigo, claramente se definindo como “ativa por e acreditando na necessidade de um movimento revolucionario forte ¢ auténomo da libertagao das mulheres” (p. 12). Para ela, 0 feminismo radical é tanto socialista em seu intento e revolucionario, Mary Daly define 0 feminismo radical em termos da selfhood das mulheres. Reivindincando ¢ refazendo a linguagem, ela exorta as mulheres a tomarem seus Eus verdadeiros de volta, e se tomarem auto-ativas, auto-respeitosas. Em Gyn/Ecology (1978), ela chama o feminismo radical a “jomada das mulheres se tomando” (p. 1). Mary Daly tem um_ estilo unico no qual ela re-trabalha a linguagem para propositos feministas radicais. Seu trabalho ¢ apaixonado, poético e lida com a dimensao espiritual. Ela vé a tarefa feminista radical como uma mudanca de consciéneia, redescobrinde 0 passado e criando 0 futuro através da “alteridade” radical das mulheres. Em suas préprias palavras (p. 39): “O Feminismo Radical nao € reconciliagao com o pai. Ao invés disso, & afirmar nosso nascimento original, nossa fonte original, movimento, surto de viver. Esse encontro de nossa integridade original é relembrar nossos Eus”. Na introdugio a primeira questio do jornal feminista francés Questions Feministes (1977) — um jornal de teoria feminista radical — as editoras identificam sua perspectiva politica como feminista radical, reconhecendo que a luta politica que estio envolvidas & contra “a opressio das mulheres pelo sistema social patriarcal” (p. 5). Elas esbogam alguns dos principios basicos do feminismo radical: a noo de que a existéncia social dos homens ¢ das mulheres foi criada ao invés de ser parte de sua “natureza”: o direito das mulheres ndo a serem “diferentes”, mas de serem “auténomas”; e uma abordagem materialista em analisar a opressfio das mulheres baseada na premissa de que as mulheres formam uma classe social baseada no sexo. Como Kate Millet (1971) escreveu: “o sexo é uma categoria de status com implicagies politicas’ De que as mulheres formam um grupo, isso pode ser comparado com uma classe social como uma parte inerente da teoria feminista radical. Ti-Grace Atkinson escreveu em 1974 que “a andlise comega com a raison d’étre feminista de que as mulheres s4o uma classe, de que essa classe é politica por natureza, e de que essa classe politica é oprimida, Desse ponto em diante, 0 feminismo radical se separa do feminismo tradicional” (p. 41). Ela via o “sistema homem/mulher” como “a primeira e mais fundamental instaneia da opressio jnumana”, acrescentando que “todos os outros sistemas de classe so construidos em cima dele”. Ela escreve: As mulheres nio serdo livres até que todas as outras classes oprimidas estejam livres. Nao estou sugerindo que as mulheres trabalhem para libertar as outras classes. No entanto, no caso das mulheres oprimindo outras mulheres, 0 exercicio do privilégio de classe por identificagio na realidade encaixa a classe sexual, Ao identificar seu interesse com aquele de qualquer classe de poder, estari dese modo mantendo a posigao daquela classe. Tao longo quanto qualquer sistema de classe & deixado em pé, permanece nas costas das mulheres (1974, p. 73). Na Introdugao a Feminist Practice: Notes from the Tenth Year (1979), os prineipios do Women’s Liberation foram claramente delineados. Desse manifesto, podemos reunir alguns tépicos comuns: o feminismo radical insiste em que mulheres como uma elasse social ou grupo social sto oprimidas por homens como um grupo social assim como individualmente por homens que continuam a se beneficiar dessa opressio e nao fazem nada para mudar isso; o sistema através do qual os homens fazem isso foi denominado patriarcado; © feminismo radical é centrado na mulher e salienta tanto 0 pessoal quanto 0 politico ¢ a necessidade pela agdo e responsabilidade coletivas; & o “poder” ao invés da “diferenga” que determina a relagdo entre mulheres e homens. E, finalmente, de que “tudo quanto fizermos, que desfrutemos de nds mesmas enquanto isso!”. Teoria e Pratica Porque a teoria é baseada nas experiéncias de vidas das mulheres, é parte do sistema de valores do Feminismo Radical que “o pessoal é politico”. Nas palavras de Gail Chester (1979, p. 13): impossivel de desenvolver na auséneia de pritica, porque nossa teoria & aquela pritica e teoria Feminista Radical & aquela teoria que se segue @ pritica e € nossa pritica é nossa teoria”. Mal-entendidos ocorreram porque criticos afirmam que © feminismo radical rejeitou a teoria. Mas ele sempre manteve que nés sim precisamos da teoria para entender as experiéneias das mulheres, para avaliar as causas da opressio das mulheres ¢ para elaborar estratégias para a ago. Mas nés sin» rejeitamos a teoria que é muito esotérica, muito desconectada da realidade das experiéneias das mulheres, muito inacessivel 4 maioria das mulheres, para quem o feminismo é suposto de servir: teoria que nés, em outro ugar, entitulamos “teoria desengajada” Chester argumenta que a teoria feminista radical nao foi reconhecida como “uma teoria” porque nem sempre foi esctita (p. 14): “Se sua teoria & encamada em sua pritica, entio © modo como vocé age politicamente tem tanto direito de ser tomado como uma colocagdo séria de sua posigao tedrica quanto escrever em um livro que dificilmente alguém, lerd de qualquer maneira’. Charlotte Bunch escreveu que a teoria ndo é “simplesmente intelectualmente interessante”, mas que é “crucial a sobrevivéncia do feminismo”. Nao é um exercicio académico, mas “um proceso baseado na compreensio e avango do movimento ativista” Renate Klein e Robyn Rowland, Feminist Theory into Action The Politics of Engagement, Australian Women’s Studies Association Annual Conference, University of Sydney, September, 1992 (nao publicado). (1983, p. 248). Para este fim, a teoria feminista radical nfo é um exercicio objetivo, desvinculado das mulheres em si mesmas. Uma teoria que comega com as mulheres, coloca as mulheres ¢ suas experigneias no centro e nomeia a opressio das mulheres, envolve uma vi 0 holistica do mundo, uma analise que sonda cada faceta da existéncia das mulheres. Nao é, como Bunch indica, uma “longa lista das ‘questdes das mulheres", mas “fornece uma base para entender cada area de nossas vidas... Politica, cultural, economica e espiritualmente” (1983, p. 250). Bunch adverte feministas radicais contra se tomarem cansadas e sentindo que a teoria feminista € muito lenta em trazer mudanga. Nestes momentos, “feministas so tentadas a submergir nossos insights em uma das duas teorias progressivas de realidade ¢ mudanga dominantes do século: liberalismo democritico e socialismo Marxista” (p. 250). Bunch argumenta que, enquanto 0 feminismo pode aprender de ambas as correntes de teoria, ele nao deve ser embutido dentro deles ou atado a eles porque nossa visio do mundo é uma visto alternativa que é auténoma e centrada nas mulheres. Para ela, a teoria “tanto cresce do ativismo e o guia em um proceso continuo, em espiral” (p. 251). Pode estar dividida em quatro partes interrelacionadas: uma descrigio do que existe e a nomeagao da realidade; uma andlise do porqué a realidade existe e a origem da opressfio das mulheres; estratégias sobre como mudar essa realidade; e determinar uma visio para o futuro (pp. 251-53). Um exemplo da coalescéncia entre a teoria e a pritica é desenvolvimento da ago coletiva. Através do trabalho coletivo, o feminismo radical tentou eliminar 0 conceito de hierarquia que posiciona o poder nas mios de uns poucos em cima dos muitos. Trabalhar ‘numa maneira cooperativa para um objetivo comum dé valor para cada mulher, permitindo a ela uma voz, ainda assim, fazendo todos os membros responsiveis coletivamente pela ago, Um exemplo da fundamentagao do ativismo na teoria emerge na anélise das questdes dolorosas e torpes centrando nas muitas violéncias contra as mulheres: espancamento, estupro, incesto, violéncia reprodutiva e feminicidio. Organizagdes de base no nivel da existéneia e sobrevivéncia diaria de mulheres, por exemplo no interior do Rape Crisis Centre Movement e do Domestic Violence Movement, salientam a luta continua contra © abuso patriarcal. Também salientam a crenga de que em todos os dias de nossas vidas, as mulheres podem conttibuir para o desgaste da auto-imagem negativa ¢ o senso de falta de poder que a sociedade dominada pelos homens nos transmite. Assim, a revolugio acontece todo dia, ndo em um futuro imaginado. Nas palavras de Gail Chester: Porque o Feminismo Radical ndo reconhece uma divisdo entre nossa teoria & pratiea, somos capazes de dizer que a revolugdo pode acontecer agora, através de nés tomando acées positivas para mudar nossas vidas... E uma visio muito mais otimista © humana da mudanga do que a nogao definida pelos homens da construgdo em dirego a uma revolucdo em algum ponto em um futuro distante, uma vez que todas as preparagdes foram feitas (1979, pp. 14-15). Patriareado feminismo radical vé o patriarcado como um sistema de valores universal, embora se mostre em diferentes formas cultural e historicamente.’ Ruth Bleier o define deste modo: Por patriarcado, me refiro ao sistema histérico da dominago masculina, um, sistema comprometido na manutengo e reforgo da hegemonia masculina em todos os aspectos da vida — privilégio e poder pessoal e privado, assim como privilégio e poder piblico. Suas instituigdes direcionam e protegem a distribuigdo de poder ¢ privilégio daqueles que sio homens, repartidos, no entanto, de acordo com classe social e econdmica e raga. O patriarcado toma diferentes formas ¢ desenvolve especificas instituigdes de apoio ¢ ideologias durante diferentes periodos historicos e economias politicas (1984, p. 162). patriarcado & um sistema de estruturas e instituigdes eriadas por homens de forma a sustentar ¢ recriar © poder masculino e a subordinagio feminina. Tais estruturas ineluem: instituigdes tais como a lei, a religido e a familia; ideologias que perpetuam a posigio “naturalmente” inferior das mulheres; processos de socializago que garantem que as mulheres ¢ homens desenvolvam comportamentos ¢ sistemas de erengas aproptiades a0 grupo poderoso ou menos poderoso a que pertencem As estruturas do patriarcado que foram estabelecidas de forma a manter 0 poder masculino foram claramente analisadas por feministas radicais. Estruturas econdmicas foram tratadas por, por exemplo, Lisa Leghorn e Katherine Parker (1981); Marilyn Waring (1988) ilizagiio da Prue Hyman (1994). Hilda Scott (1984) claramente demonstra o aumento da femi pobreza. Estruturas politicas, legais e religiosas sio dominadas pelos homens que garantem, * Para exemplos de sua universalidade, veja Morgan (1984) e Seager e Olson (1986). que eles mantenham essas posigdes. O direito das mulheres de votar ¢ somente um evento recente historicamente. No interior da profissio legal, poucas mulheres sentam nos bancos mais altos do sistema da corte. No interior do dominio privado da familia, do casamento e da reprodugao, os homens estruturaram um sistema por meio do qual a capacidade reprodutiva da mulher a deixa vulnerdvel, explorada domesticamente, ¢ frequentemente aprisionada na dependéncia econdmica. A ideologia patriareal mantém essas estruturas. A familia é mantida através do conceito de amor roméntico entre homens e mulheres, quando na realidade contratos de casamento tiveram tradicionalmente uma base econdmica. O trabalho das mulheres no interior da familia, que tem sido nao renmunerado € nao reconhecido, e que inclui prestar servigo emocional aos membros da familia, bem como prestar servigo fisico, continua a ser definido como um “trabalho de amor”. Homens manejaram a criar uma ideologia que define 08 homens como donos “naturais” do imtelecto, da racionalidade e do poder de governar Mulheres sto “por natureza” submissas, passivas e dispostas a serem chefiadas. Processos tais como a socializagio de criangas encorajam que essa situagiio continue. Assim, por exemplo, em jogos de playground, garotos logo aprendem que eles sio para agit © as meninas, para criar “audiéneia” para as perfomances masculinas. A construgio da familia ¢ da dependéncia econémica das mulheres nos homens também se interrelaciona com a ideologia da realidade hetero* ¢ das estruturas da heterossexualidade. Adrienne Rich (1980) analisou a natureza compulsoria da heterossexualidade e sua fungdo enquanto uma instituicao politica. Ela argumenta que os homens temem que as mulheres possam ser indiferentes a eles e de que “os homens poderiam, ser autorizados ao acesso emocional — portanto econémico ~ de mulheres apenas nos termos de mulheres” (p. 643). A natureza compulséria da heterossexualidade define o acesso dos homens as mulheres como natural e de seu direito, Em uma anilise mais ampla, Janice Raymond (1986) eriou o termo realidade hetero, que é a crenga de que, em nosso mundo, o propésito das mulheres ¢ de ser “para os homens” A realidade hetero determina que as mulheres solteiras sao definidas como “soltas” no sentido promiscuo. Assim, o estado de estar livre e independente em relagdo a um homem é traduzido como um estado negativo de estar disponivel a qualquer homem. sistema patriareal esta localizado no interior de um sistema de linguagem e de conhecimento que constrdi a masculinidade e a feminilidade em apoio do desequilibro de ‘No original, hetero-reatity. (N. da.) 10 poder estabelecido, Dale Spender consignou essas questées através de sua anilise da linguagem, mostrando como os homens construiram e controlaram a linguagem de forma a reforgar a posigio subordinada das mulheres (Spender: 1980). Ela também reivindica “mulheres de ideias” historicamente € 0 conhecimento que ctiaram. Em Women of Ideas € What Men Have Done to Them, ela escreve: Eu aceitei que uma sociedade patriareal depende em grande medida das experincias e valores de homens sendo percebidos como o sinico quadro vilido de refergncia para a sociedade e de que é por isso de interesse do patriarcado prevenir as mulheres de compartilhar, estabelecer e afirmar sua real igualdade, seu vilido e diferente quadro de referéncia, que ¢ © resultado de experiéneia diferente. (1982, p. 5). Spender salienta que os homens controlaram o conhecimento e, por isso, tomaram as mulheres invisiveis no mundo das ideias. Estruturas no interior do patriarcado sto estabelecidas de forma a manter a visio de que no ha qualquer problema com o fato de que homens so mais poderosos que mulheres. Como ela diz (1982, p.7): “O patriareado requer que qualquer conceptualizagio do mundo em que os homens ¢ seu poder sio um problema central deve se tomar invisivel e irteal. Como pode o patriareado se dar ao luxo de aceitar que os homens sao um problema sétio?” patriareado também possui uma base material em dois sentidos. Primeiro, os sistemas econémicos so estruturados tais que as mulheres tém dificuldade em obter trabalho remunerado em uma sociedade que valoriza somente o trabalho pago e na qual o dinheiro é a moeda do poder. E extremamente dificil para mulheres sem independéncia econémica sustentar a si mesmas sem auxilio da familia. E dificil deixar um marido brutal, recusar prestagiio de servigo sexual, emocional e fisico aos homens, ter uma opinido desigual em decisdes que afetam suas proprias vidas, tais como aonde podem viver. O feminismo radical, portanto, salientou a necessidade para as mulheres de exercer poder econdmico em seu proprio direito. O servigo doméstico ndo remunerado na casa é primario em apoiar © sistema patriarcal. Christine Delphy. cujo Feminismo Radical deriva de uma base Marxista, argumenta que “o patriarcado é o sistema de subordinagao das mulheres aos homens em. sociedades industriais contemporiineas, de que esse sistema possui uma base econdmica, e de que essa base é 0 modo de produgao doméstico” (1984, p. 18). E também um modo de consumo ¢ de cireulagao de bens e difere do modo capitalista de produgao porque “aqueles explorados pelo modo doméstico de produgdo nao so pagos, mas ao invés disso mantidos ‘Nesse modo, portanto, o consumo nao est separado da producao, ¢ a distribuigao desigual de bens nao é mediado pelo dinheiro” (1984, p. 18). Delphy argumenta que a andlise da opressio das mulheres utilizando uma anilise tradicional de classe no é adequada porque nao pode explicar a exploragao especifica de mulheres nio remuneradas. Os homens sio a classe que oprime e explora as mulheres ¢ que se beneficia de sua exploragio. A segunda base material que 0 feminismo radical nomeia como crucial para a libertagdo das mulheres é a do corpo das mulheres em si mesmos. Internacionalmente, & © corpo de uma mulher que é a moeda do patriarcado. Kathleen Barry mostou em Female Sexual Slavery (1979) e em The Prostitution of Sexuality (1995) que 0 twifico internacional de mulheres opera consideravelmente para controlar as mulheres socialmente, Mulheres no casamento sao vistas como sendo “pertencidas” por seus maridos € ndo podem alegar um caso civil de estupro em muitos paises. Os corpos das mulheres sio usados na publicidade e na pomnogratia de modo semelhante, objetificados e definidos como “outros” e disponiveis para uso masculino, Como Delphy observa, “o feminismo, ao imprimir a palavra opressao no dominio da sexualidade, 0 anexou ao materialismo” (1984, p. 217). Os homens controlam as leis da reprodugio, por exemplo parlamentos masculino-dominados e companhias farmacéuticas masculino-conduzidas determina as formas de contracepgao disponiveis e a extensio de seu uso.’ Um governo masculino-controlado determina 0 acesso as mulheres a um aborto seguro, Leis desenvolvidas por homens determinam o poder civil ou falta de poder das mulheres em trazer acusagdes de estupro ou incesto contra homens. Homens como um grupo desfrutam dos privilégios do poder. E do melhor interesse dos homens em manter o sistema patriarcal existente, ¢ © mundo foi estruturado de forma a manter esse desequilibro de poder, por exemplo, em sua estruturagdo de desigualdade de pagamento, ¢ © mundo do traballio segregado por sexo. Eles precisam manter 0 trabalho aio remunerado de mulheres; prestago de servigo emocional e fisico por mulheres: 0 senso de estar no poder que eles sentem individual e coletivamente. Homens experienciam tanto o 9870). E uma as mulheres. De forma a tomar 0 medo ¢ a inveja do poder reprodutivo das mulheres (O’Brien: 1981; Rowlan firea da vida que pertence ao grupo menos poderosi controle de volta, os homens desenvolvem leis regulando ¢ controlando 0 aborto ¢ a 5 Feministas radicais também salientam a importancia de aplicar uma anilise centrada na mulher as varias formas de controle populacional, dado que oprimem mulheres nos assim chamados paises de Terceiro Mundo Veja, por exemplo, Vimal Balasubrahmanyan (1984) e Viola Roggenkamp (1984) sobre a india, e Farida Akhter (1987, 1992) sobre Bangladesh e Betsy Hartmann (1998), 12 contracepgao. Historicamente, eles combateram parteiras pelo controle do nascimento e, através dos novos desenvolvimentos de tecnologia reprodutiva, buscam controlar a concepeao em si (Rowland: 1992/1993) © poder masculino & mantido definido através de uma variedade de métodos: através de instituigdes no interior da sociedade, através da ideologia, através da coer¢do ou da forga, através do controle de recursos ¢ recompensas, através das politicas da intimidade, e através do poder pessoal. A rotulagem simplista de uma anélise do patriareado como uma “teoria da conspiragdo” convenientemente permite criticos do feminismo radical a demitir essa anilise da opressio das mulheres (veja também Chesler: 1994 sobre o patriarcado de ‘uma perspectiva de uma “perita”) Fonte: ROWLAND, Robyn; KLEIN, Renate. Radical Feminism: History, Politics, Action. In: Radically Speaking: Feminism Reclaimed. North Melbourne, Victoria: Spinifex Press, 1997. p.ol7. Tradugo Maria da Silva - www.materialfeminista.milharal.org