Você está na página 1de 53

Prefeitura Municipal de Santos

ESTÂNCIA BALNEÁRIA
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO
DEPARTAMENTO PEDAGÓGICO

SANTOS E BRÁS
CUBAS

DEPEP
EQUIPE INTERDISCIPLINAR
Santos
2007
Introdução

Neste ano, comemoramos 500 anos do nascimento de Brás Cubas.


Em sua homenagem, a Prefeitura Municipal de Santos realiza desde
janeiro, inúmeras eventos voltados para o fundador da cidade.
Com o objetivo de subsidiar professores e alunos sobre o tema, a
Equipe Interdisciplinar, do Departamento Pedagógico da Secretaria de
Educação disponibiliza material, para a abordagem do assunto em aulas.
Complementando, uma exposição itinerante sobre Santos na época de
Brás Cubas, organizada pela Fundação Arquivo e Memória, percorrerá as
escolas da cidade.

Sumário

1- Material para o professor

• Santos de Brás Cubas – texto José Dionísio de Almeida, da


Fundação Arquivo e Memória de Santos. Material disponível no site
http://www.aprendebrasil.com.br/
• A Fundação de Santos na ótica de Benedito Calixto – Caleb Farias
Alves - Revista USP, nº 41.

2- Material para o aluno

• Entrevista com Brás Cubas – texto Adriana Negreiros Campos.


Material disponível no site http://www.aprendebrasil.com.br/
• Um passeio pela cidade de Santos – A TRIBUNA, 7/05/2000, texto
de Wilma Therezinha Fernandes de Andrade.
• Jogo Estrada do Tempo − Cristiane Eugênia Amarante.

3- Bibliografia

4- Sugestão de sites

2
Santos de Brás Cubas

1 – Portugal e a Expansão Marítimo-comercial

Na primeira metade do século XVI (1417), Portugal investe em


pesquisa, cria a Escola de Sagres, reunindo nela os melhores pilotos,
astrônomos, matemáticos, cartógrafos e construtores de navios da
época. Em conseqüência dos estudos e pesquisas sobre navegação
e astronomia que nela são desenvolvidos, Portugal transforma-se numa potência
marítima. Os conhecimentos sobre o mar, o céu e a navegação possibilitarão que se inicie
ainda na primeira metade do século XVI a era das navegações e dos descobrimentos,
tendo como seu principal condutor Portugal, iniciando a sua expansão marítimo-
comercial, que o tornaria nesta época uma das maiores potências econômicas do mundo.

2 – A viagem de Cabral

Dando continuidade ao processo de descobrimento de novas terras em função dos


conhecimentos sobre o mar, a construção de navios e as invenções importantes, como o
astrolábio e a bússola, que possibilita incursões mar adentro, é descoberto o Brasil em
1500 por Pedro Álvares Cabral, que saíra de Portugal com 13 caravelas e
aproximadamente 1500 homens. Portugal não deu muita importância para a descoberta
do Brasil. Nesta época os seus maiores interesses estavam voltados para Índias
(comércio de especiarias) e África ( tráfico de escravos).

3 – O início do processo de colonização

De 1500 a 1532, o Brasil é praticamente abandonado pelos portugueses, pois a princípio


não acharam que pudessem tirar algum proveito econômico das novas terras que haviam
descoberto. No entanto, outros países que concorriam com Portugal na conquista de
novas terras, tais como: Espanha, Inglaterra, Holanda e França, iniciaram um intenso
contrabando de pau-brasil com o apoio dos índios brasileiros. Essa presença constante
de estrangeiros no litoral do Brasil e a sua integração com os nativos por quase três
décadas colocam em risco o domínio português sobre as terras do Brasil. É por causa do

3
risco de perder as terras que havia descoberto que a coroa portuguesa decide iniciar o
processo de ocupação e colonização do Brasil.

4 – Brás Cubas e o Brasil

Neste meio tempo nasce em dezembro de 1507,


em Portugal, na cidade do Porto, filho de João
Pires Cubas e Isabel Nunes: Brás Cubas. Do
pouco que se conhece sobre Brás Cubas até a
sua chegada ao Brasil em 1532 com Martim
Afonso de Souza, sabe-se que tinha muito
prestígio junto ao Rei de Portugal: D. João III
possuía os Títulos Nobiliárquicos de Cavaleiro
Fidalgo da Casa de El-Rei e de Moço da
DESCOBRIMENTO DO BRASIL –
Câmara. Já no Brasil, assume enquanto Cândido Portinari 1954, óleo s/ tela, 98x79cm
Coleção Particular
donatário a tarefa de explorar as costas do Sul Rio de Janeiro

(Litoral Sul), fazer demarcações precisas para garantir a posse das terras sob o domínio
da coroa portuguesa. Brás Cubas trouxe consigo para o Brasil seus irmãos: Antônio
Cubas, Gonçalo Cubas e Catharina Cubas. Nos relatos existentes constam que Brás teve
uma filha e um filho, Pedro Cubas, que também foi Capitão-mor na Vila de Santos.

Imagem:
Mapas Históricos Brasileiros, enciclopédia Grandes Personagens da Nossa História. Abril Cultural, São
Paulo/SP, 1969. Reprodução do fac-simile existente na mapoteca do Ministério das Relações Exteriores,
situada no Rio de Janeiro, no então estado da Guanabara.

4
5 – Brás Cubas e suas terras

No Brasil, Brás Cubas recebeu de Martim Afonso de Souza, em 1532, por carta de
sesmarias, terras nos campos de Piratininga (hoje São Paulo) e, por um alvará de 1568,
obteve também sesmarias nas imediações do Rio de Janeiro. De Dona Anna Pimentel,
esposa e procuradora de Martim Afonso de Souza, Brás Cubas recebeu doação das
terras nas encostas do Morro São Jerônimo (Monte Serrat) às margens do Rio Jurubatuba
e a Ilha Pequena (Ilha de Barnabé). A presença e as iniciativas de Brás Cubas nesta
região e outras circunstâncias, tais como: ataques constantes de índios aos povoados e
vilas, invasão da Vila de São Vicente por Rui Mosquera e fortes ressacas por volta de
1542, criam as condições necessárias para que a Vila de Santos, já nesta época, torna-
se mais populosa e se desenvolve mais que as outras vilas e povoados da região, tais
como o aumento de população e o surgimento de pequeno comércio, já nesta época
fundamentado na chegada de navios ao precário porto em formação.

Fonte: Fundação de São Vicente, de Benedito Calixto.


Óleo sobre tela, 1900. Acervo do Museu Paulista da USP

6 – A transferência do porto

Brás Cubas morou na Ilha Pequena (Ilha de Barnabé) com seu pai, Pedro Cubas, e
iniciou o plantio de arroz, cana-de-açúcar e vários outros cereais, o que não prosperou
por causa dos ataques constantes de índios aos povoados e vilas da Região. Devido a
esses problemas, Brás Cubas transferiu-se para as terras que possuía na encosta do
Morro São Jerônimo. Nas proximidades desse morro já moravam alguns colonizadores:
Luiz de Góis e sua mulher, Catarina de Aguillar, Pascoal Fernandes e Domingos Pires.

5
Gradativamente foi comprando as terras ao redor das suas, pertencentes a esses
primeiros colonizadores. Juntamente com os primeiros povoadores, Brás Cubas toma a
iniciativa de transferir o porto da Ponta da Praia para essa região do centro, que era
conhecida como Lagamar de Enguaguaçu; constrói a Capela de Santa Catarina de
Alexandria na encosta de um pequeno morro ali existente, que passa a ser conhecido
como Outeiro de Santa Catarina, e posteriormente irá se transformar no marco do início
do povoamento de Santos; constrói, ainda, entre o local onde hoje está a Casa do Trem
Bélico e a Praça da República, o Pelourinho, que na época era o local onde se liam os
editais, decretos e leis que regiam o povoado - e depois Vila de Santos - antes da criação
da Casa do Conselho (Câmara Municipal) e, por fim, cria a Santa Casa de Misericórdia
de Todos os Santos, a exemplo das que existiam em Portugal, isto por volta de 1543.

Casa do Trem e Capela de Santa Catarina, Benedito Calixto.

7 – O povoado

No inicio da década de 1540, o povoado existente no lagamar de Enguaguaçu já é o mais


desenvolvido da região. Podemos dizer que esse desenvolvimento acontece por causa
das iniciativas já mencionadas, mas principalmente pelo porto que vai se constituindo. Os
navios que chegam mesmo que esporadicamente propiciam a formação de um pequeno
comércio, para onde os moradores das vilas e dos povoados trazem os produtos que
produzem para comercializar. O porto inicia nessa época a sua relação com a cidade,
promovendo uma interação que possibilita o desenvolvimento a ambos.

6
Essa é uma época e um tempo muito difícil para os primeiros povoadores de Santos: uma
terra desconhecida; doenças também desconhecidas; dificuldades de plantio e, nesse
primeiro momento do início do povoamento, o ataque de índios é constante. Podemos
dizer que a luta pela sobrevivência acontece em todos os níveis; para muitos, a cada dia
faz-se necessário escapar das doenças, da fome e dos ataques dos índios.
No que se refere aos índios, para tentar conter seus constantes ataques Brás Cubas, sob
as ordens de D. João III, o Rei de Portugal, constrói o Forte de São João da Bertioga, isto
no inicio da década de 1550.

8 – A Vila de Santos

O desenvolvimento do povoado, a sua estrutura e o seu porto,mesmo que precários


nesta época,oferecem aos moradores do lugar e da região uma possibilidade de
sobrevivência e uma perspectiva de futuro. O caráter, a disposição de luta, a
solidariedade que caracteriza o povo santista tem a sua formação nesta época, quando a
princípio todos se unem para criar uma condição de ocupação, de sobrevivência e de
desenvolvimento. Em 1545, Brás Cubas assume o cargo de Capitão-mor do povoado e
uma de suas primeiras medidas foi a de elevar o povoado à categoria de Vila, que por
meio do Foral, ficou sendo conhecido como Vila do Porto de Santos. Por falta de
documentos, não existe uma precisão sobre a data em que o Foral de Vila foi assinado
por Brás Cubas, mas uma data considerada pela maioria dos historiadores é 1° de
novembro de 1545 (Dia de Todos os Santos). Uma razão para esse documento ter sido
assinado nesse dia é a de se tornar uma das justificativas para que o nome da vila venha
a se Vila de Santos. Outra hipótese para o nome dado à Vila de Santos é a existência da
Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos, desde 1543. A partir de então, apesar
de todas as dificuldades que iria enfrentar, a tendência da Vila de Santos era a de se
desenvolver sempre e cada vez mais.

A Fundação da Villa de Santos - 1545


Reprodução: Benedito Calixto - Um pintor
à beira-mar - A painter by the sea,
edição da Fundação Pinacoteca
Benedicto Calixto, agosto de 2002,
Santos/SP

7
9 – Brás Cubas e sua importância

Brás Cubas é um dos personagens mais importantes da história do Brasil. Assumiu


todos os cargos importantes desta época: Capitão-mor da Vila de Santos, Alcaide mor,
Ouvidor, Provedor da Fazenda Real, Loco-tenente e Governador da Capitania de São
Vicente. São vários os fatores que fazem com que Brás Cubas assuma todos este
cargos: além de ser um homem de confiança do Rei de Portugal por causa de sua
lealdade e compromisso com o projeto de colonização do Brasil pelos portugueses, que
fica evidente nas poucas referências documentais existentes, Brás Cubas é um homem e
um administrador que tem uma visão de futuro. Cria toda a estrutura política e
administrativa que vai fazer de Santos uma das vilas mais importantes da capitania de
São Vicente, a ponto de vir a se tornar cabeça de Capitania de 1748 a 1765, isto é, toda a
Capitania de São Vicente foi governada de Santos; é um homem de muita fé, de coragem,
empreendedor, astucioso, não hesita diante dos perigos e dificuldades que são peculiares
à época em que viveu. O exemplo disto foi a firmeza com que sempre enfrentou o ataque
constante dos índios e dos piratas a partir de 1580; para isso, inicia a partir da década de
1550 um sistema de fortalezas para proteger toda a região.

10 – As bandeiras

No inicio da década de 1560, Brás Cubas, sob as ordens da coroa portuguesa, organiza
uma bandeira (expedição) pelo interior do Brasil além de objetivar o apresamento de
índios para trabalhar nos engenhos e outras pequenas indústrias da região (curtumes), e
fazer reconhecimentos dos rios e das terras que encontrassem pelo caminho. Organizada
por Brás Cubas, provavelmente foi a primeira bandeira a desbravar o sertão em busca de
ouro, escravos e reconhecimento do território a ser colonizado. Nos séculos posteriores,
essa prática se tornou comum, descobrindo-se ouro e diamantes em Minas Gerais e
expandindo o território do Brasil, tornando-o o que ele é nos dias de hoje. Ao se propor a
organizar e comandar essa expedição e enfrentar as doenças, os perigos da selva e os
ataques constantes dos índios, Brás Cubas demonstrava toda a sua coragem e
disposição para servir a coroa portuguesa e o seu projeto de colonização do Brasil. O
ouro que Brás Cubas procurava só iria ser encontrado numa bandeira posterior, também
por ele organizada e financiada, mas comandada por Luiz Martins. A notícia da
descoberta do ouro é enviada ao governador da Bahia.

8
11 – Época de ataques

A partir de 1580, a região e a Vila de Santos começam a sofrer uma série de ataques de
piratas e corsários que invadiam e saqueavam as vilas e os povoados da região, levando
tudo que havia de precioso e o necessário para abastecer os seus navios. O pior desses
ataques é feito por Thomas Cavendish, que invade a Vila de Santos no dia 25 dezembro
de 1591, com mais de 200 homens, e ocupa o Colégio de São Miguel, que pertencia aos
jesuítas. A sua presença é avassaladora para a região: saqueia tudo o que é possível;
destrói todos os engenhos existentes, que nesta época são aproximadamente cinco;
queima a Capela de Santa Catarina, joga a imagem da santa no mar; enfim, fica
aproximadamente um mês barbarizando a região. Podemos dizer que esta presença de
Thomas Cavendish se deve a um comunicado enviado à Inglaterra de um inglês John
Whitall que morava em Santos, informando que o Provedor Brás Cubas e o então
Capitão-mor Jerônimo Leitão haviam lhe dado a certeza de haverem encontrado minas
de ouro e prata nas incursões que haviam sido feitas pelo sertão do Brasil. A partir destas
primeiras invasões, intensificam-se as construções de uma rede de fortalezas com o
objetivo de proteger a Vila de Santos de outros possíveis ataques; sendo assim, foram
construídos os seguintes fortes: Forte da Vila ou do Centro (meados do século XVI); Forte
de São Tiago ou São João (1547); Forte de São Felipe (1552); Fortaleza da Barra Grande
(1584); Forte do Góes (1767); Fortaleza de Santo Amaro (segunda metade do século
XVI); Forte do Augusto (1734). A princípio as construções destes fortes demonstram a
importância que Brás Cubas juntamente com outros colonizadores haviam dado à região
com a construção de toda uma estrutura político-administrativa, fazendo com que na Vila
de Santos fossem centralizadas todas
as decisões políticas, econômicas e
também toda a defesa desta região do
litoral. É interessante saber que
Guarujá e Cubatão foram distritos de
Santos até 1939 e Bertioga até o início
da década de 1990.

Detalhe da obra: Estácio de Sá em São Vicente, 1565 –


Benedito Calixto. À esquerda, vê-se o Forte de São Tiago,
em Bertioga/SP. Hoje Forte São João.

9
12 – Santos e a formação do Brasil

Na década de 1590, a Vila de Santos já havia se consolidado como uma das mais
importantes da Capitania de São Vicente e a mais importante desta região que hoje
conhecemos como o litoral de São Paulo. Nesta época, o porto de Santos mesmo sendo
bastante precário, conseguia aglutinar um pequeno comércio que se desenvolvia
gradativamente e era para onde aqueles que conseguiam plantar ou produzir qualquer
outro tipo de mercadoria afluíam para venda ou troca. As doenças, a fome, o ataque dos
índios e dos piratas jamais conseguiram baixar o ânimo destes primeiros colonizadores,
que sob o comando de Brás de Cubas por mais de cinco décadas defenderam este
território e foram criando as condições necessárias para que pudessem sobreviver e ter
uma qualidade de vida um pouco melhor. Na verdade, esses primeiros colonizadores
estavam fazendo muito mais do que isto, na sua luta pela sobrevivência e ao defender
estas terras que haviam ocupado na primeira metade do século XVI criavam os
fundamentos da sociedade santista. O que nós somos enquanto povo nos dias de hoje foi
sendo constituído desde a chegada dos primeiros colonizadores e do início do
povoamento junto ao Outeiro de Santa Catarina. Podemos dizer ainda mais, e, com toda
certeza, que a formação do Brasil e civilização brasileira tem início com a colonização do
Brasil por esta região e principalmente por Santos e pelos santistas que estão presentes
em todos os fatos e acontecimentos importantes da história do Brasil.

13 – Brás Cubas , homem de coragem e luta

Brás Cubas, tendo uma personalidade forte e sendo um homem de coragem e luta,
desbravador, de uma visão de futuro e de uma capacidade administrativa muito grande,
dedica a maior parte de sua vida a transformar a sesmaria que havia recebido num
povoado promissor, que pelo seu desenvolvimento é elevado à categoria de vila. A partir
de então, a Vila de Santos não pára de se desenvolver e é elevada à categoria de cidade
no dia 26 de janeiro de 1839. Nesses primeiros momentos, quando o povoado e a Vila de
Santos vão construindo as bases sociais, políticas e econômicas que irão torná-la uma
das cidades mais importantes do Brasil em termos históricos e culturais, tem a sua frente
o fidalgo português Brás Cubas que juntamente com os outros portugueses, constrói o
povoado e a vila, orienta, administra e se coloca à frente das lutas e dos enfrentamentos

10
necessários para que o povoado, a vila de Santos e o seu povo subsistam. Enfrenta a
fome, as doenças, os índios que atacam constantemente (envia para Ubatuba uma
expedição coordenada pelo padre José de Anchieta para negociar com os tupinambás,
que se organizavam para atacar os povoados e vilas da região) os piratas que vêm
saquear o fruto do trabalho, colabora na estrutura e na expulsão dos franceses do Rio de
Janeiro. Podemos dizer que a presença de Brás Cubas nesses primeiro tempos é de
fundamental importância para que Santos se constitua como povoado e vila e
,posteriormente, na qualidade de cidade.

14 – A homenagem a Brás Cubas

Brás Cubas, depois de uma longa vida e de serviços prestados à coroa portuguesa e ao
Brasil, morre em 1592, seu corpo é enterrado na Capela Mor da Igreja da Misericórdia,
que foi reformada em 1754. Essa igreja foi demolida em 1908 e se localizava onde hoje é
a Praça da República, em frente à Alfândega. Segundo Frei Gaspar da Madre de Deus,
monge e historiador beneditino do século XVIII, a lápide de Brás Cubas tinha a seguinte
inscrição:
“S.ª de Braz Cubas Cavalleiro Fidalgo da Casa dEl Rey. Fundou e fez esta Vila fendo
Capitam, e Casa de misericórdia anno de 1543 descobrio ouro e metaes anno de 60 fez
Fortaleza por mandado d’ El Rey D. JoãoIII. Falleceo no anno. De 1592 a.”

Os dias de hoje

Nos dia de hoje, a cidade de Santos é uma das mais importantes em termos históricos e
culturais do Brasil. É também uma das mais antigas, pois ,como vimos, o início de seu
povoamento e a sua formação está ligada à chegada de Martim Afonso de Souza a esta
região para dar início à colonização do Brasil. O povoado se constituiu em vila, tendo a
frente Brás Cubas, transformou-se em cidade em 1839 e, até aproximadamente 1900,
ocupou o espaço urbano que conhecemos como Centro Histórico de Santos,
compreendido entre o Outeiro de Santa Catarina, a Igreja do Valongo e do Cais (antiga
Praia) até as encostas do Monte Serrat. Hoje a cidade possui um patrimônio histórico e
cultural de inestimável valor relacionando a nossa história à presença dos índios,
escravos, caiçaras, piratas, ruas, praças e edificações que são verdadeiras referências da
história da cidade e do Brasil; surgiram personagens importantes e fundamentais para a
nossa história, tais como: Bartolomeu de Gusmão, José Bonifácio e Mário Covas; o povo

11
santista, desde os primeiros momentos de sua formação, sempre esteve presente nas
lutas em sua defesa: índios e piratas num primeiro momento, posteriormente se faz
presente nas lutas pela Abolição dos Escravos e Proclamação da Republica no século
XIX. Já em meados do século XX, participa incansavelmente da luta contra a ditadura
militar e pela autonomia político-administrativa da cidade que havia sido cassada pelo
militares. O precário porto do século XVI e os trapiches do século XIX se transformam no
século XX no maior porto da América Latina.

José Dionísio de Almeida


Historiador

12
A fundação de Santos sob a ótica de Benedito Calixto
Caleb Faria Alves (*)

Artigo publicado na Revista USP nº 41, de março/maio de 1999, páginas 120 a 133
editada pela Coordenadoria de Comunicação Social da Universidade de São Paulo
(USP), com o objetivo de analisar os painéis pintados por Calixto no Palácio da Bolsa
do Café, em Santos, em 1922.

Santos é uma das raras cidades paulistas das quais dispomos de uma grande
quantidade de imagens referentes ao seu período colonial, imperial e também da primeira
república. Essas imagens foram inicialmente produzidas por um dos primeiros grandes
pintores do estado de São Paulo, Benedito Calixto de Jesus [1]. Dedicado a temas
históricos e a paisagens, suas telas são registros raros e preciosos das cenas e dos
eventos marcantes do passado dessa cidade, bem como de vistas urbanas e de marinhas
à época em que ele viveu.

Uma das características que mais ressalta aos olhos nas suas telas e paisagens
históricas é o movimento nelas sugerido, tanto no espaço quanto no tempo. Esse
movimento nos permite inserir Calixto no debate que tomou grande vulto na virada do
século em São Paulo, a respeito dos eventos ocorridos nos primórdios da colonização
portuguesa, e que envolvem a fundação da cidade de Santos e os fatos marcantes da
história paulista. Este artigo é dedicado a uma análise dos painéis pintados por Calixto no
Palácio da Bolsa do Café, em Santos, em 1922, através da qual pretendemos situar a sua
posição frente a esse debate e o seu papel enquanto um dos construtores dessa história.

Esse painel é, sem dúvida, um de seus mais conhecidos e importantes trabalhos.


Constitui-se de três telas: a primeira, Porto de Santos em 1822; a segunda, Fundação da
Villa de Santos - 1545; e a terceira, Porto de Santos em 1922. Dois anos após a morte de
Calixto, seu amigo e colega do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Júlio
Conceição, realizou um levantamento de suas telas no qual assinala 28 quadros
identificados como "desdobramentos da tela Santos de 1822" [2].

Ao observarmos o conjunto todo fica evidente que o foco de atenção de Calixto é a


transformação urbana sofrida por Santos ao longo de toda sua história, com destaque
para três momentos de especial importância para a pátria: o momento do descobrimento,
isto é, a fundação da cidade e a sua emancipação à categoria de vila; a independência
(1822); e o ano em que pinta os painéis (1922), data na qual se comemora o centenário
da independência. As telas apontadas por Júlio Conceição como desdobramentos desses
painéis são closes do mesmo, e referem-se a edifícios de interesse público, igrejas e
capelas, a câmara, vistas do porto, uma fazenda, edifícios de empreendimentos
empresariais importantes e um carro de boi.

A tradição dos grandes panoramas das nossas praias, cidades e florestas está,
obviamente, ligada aos artistas viajantes e aos membros da Missão Francesa. Mas o que

13
os pintores do Rio de Janeiro demoraram décadas, ou mesmo séculos, para produzir, em
termos de visões diferenciadas das mesmas vistas [3], Calixto realizou sozinho nos seus
quadros. Uma diferença grande, entretanto, impõe-se, os viajantes produziram
testemunhos do que viram, enquanto Calixto pinta baseando-se em documentos
históricos. Calixto faz as vezes, assim, de um falso viajante. Desse modo, as suas telas
adquirem um caráter diferenciado em relação àquelas de seus predecessores. Enquanto
os trabalhos desses aventureiros podem ser considerados documentos originais, porque
produzidos em tempo real aos acontecimentos retratados, mesmo levando em conta
todas as orientações de composição a que estivessem condicionados, Calixto, não sendo
testemunha, produz teses sobre a história.

Calixto participa ativamente do momento de nascimento de uma nova abordagem


da história que recoloca em outras bases a presença e a importância do estado de São
Paulo para a história pátria, orientada por uma perspectiva científica. São Paulo, por essa
época, ainda não tinha plena convicção nem consenso a respeito dos fatos que
marcaram, e com os quais poderia representar, o seu desenvolvimento. O Instituto
Histórico e Geográfico de São Paulo foi fundado apenas em 1895 e com o objetivo
diferenciado em relação ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no qual se inspira.

"Havia, nesse novo estabelecimento, a intenção de imprimir uma marca ao mesmo tempo comum ao
modelo ilustrado e civilizado idealizado pelo IHGB, e, por outro lado, bastante diversa da forma original, já
que se buscava destacar primordialmente uma suposta especificidade paulista. 'A história de São Paulo é a
história do Brasil', era uma frase sem dúvida de efeito, mas que ao abrir o primeiro volume da revista do
grêmio paulista representava, antes de mais nada, uma clara provocação" [4].

O instituto paulista nasce, ademais, com forte inclinação republicana e o brasileiro


carregava anos de serviços prestados ao Império.

A participação do pintor nesse debate se dá através dos seus pincéis e de seus


escritos. Calixto foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e também
membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, contribuindo com vários
textos a respeito, principalmente, das cidades litorâneas e dos primeiros colonizadores
vindos ao Brasil.

Não há, entretanto, uma relação de primazia dos textos sobre as telas. As suas
pesquisas históricas ora servem aos textos, ora apenas às telas, e freqüentemente a
ambos. O painel para o Palácio da Bolsa do Café é extremamente revelador no que diz
respeito às construções históricas de Calixto, à sua maneira de equacionar a história de
São Paulo e sua importância para a história nacional. A análise dessa obra pode
contribuir para entendermos melhor tanto as tendências artísticas quanto a perspectiva
dos membros desses institutos na virada do século (N.E.: de XIX para séc. XX) em São
Paulo.

14
ILUSTRAÇÃO 1 - A Fundação da Villa de Santos - 1545
Reprodução: Benedito Calixto - Um pintor à beira-mar - A painter by the sea,
edição da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, agosto de 2002, Santos/SP

A Fundação da Villa de Santos - 1545 e a Genealogia Paulista

Comecemos com uma descrição desses três painéis pela tela central, A Fundação
da Villa de Santos - 1545 (Ilustração 1), o mais complexo do conjunto por causa dos
vários dados históricos que evoca. Inicialmente chama-nos a atenção o fato de que
Santos se apresenta como vilarejo já razoavelmente desenvolvido, com um certo número
de construções, ou seja, Calixto apresenta Braz Cubas, o conhecido fundador da cidade,
mais como propulsor oficial do que já existia do que como um fundador propriamente dito.
Um segundo ponto em evidência é a confirmação da edificação da Igreja da Misericórdia
por parte de Braz Cubas, representado pelas obras em destaque no segundo plano da
tela. As outras edificações são: à esquerda dessa igreja, a Casa do Conselho, e à direita,
mais ao fundo, a capela de Santa Catarina, construída sobre o outeiro do mesmo nome
por Luiz Góes e sua esposa, d. Catarina de Aguilar.

Observando o painel da esquerda para a direita, vemos os seguintes personagens:


no alpendre da Casa do Conselho e na escada que leva ao pátio estão os "homens bons
na vereança" e fidalgos da época. No pátio, ao pé da escada, vemos lanceiros e
alabardeiros, e logo atrás desses um grupo de personagens, que se estende até o lado
esquerdo de Braz Cubas, composto pelos primeiros governadores das capitanias de São
Vicente e Santo Amaro: capitão Antônio de Oliveira, capitão Gonçalo Afonso, capitão
Jorge Ferreira, capitão Antônio Rodrigues de Almeida, capitão Francisco de Morais
Barreto etc., e também pelo primeiro juiz pedâneo da cidade, Pedro Martim Namorado, e
pelo juiz Cristovão Aguiar Altero.

Os religiosos que aparecem em frente ao pelourinho são o pároco Gonçalo


Monteiro, e ao seu lado os dois franciscanos que fundaram a primeira igreja de Santo
Antônio em São Vicente. Mais à direita na tela, segurando um livro, está o escrivão e
tabelião Pedro Fernandes, irmão de Pascoal Fernandes. Em seguida figuram vários dos
primeiros povoadores de Santos: vemos Luís de Góes pousando a mão direita sobre o
ombro de seu filho, Serapião de Góes, e ao lado dele Pascoal Fernandes e Domingos

15
Pires; as damas, atrás desse grupo, são: d. Catarina de Aguilar, mulher de Luiz Góes, e
outras matriarcas da genealogia paulistana; e à sombra do velho ingazeiro "Iguassu" está
sentado "mestre Bartholomeu", e de pé, o seu filho.

Os povoadores do planalto estão representados através dos personagens em


segundo plano no lado direito. Em destaque aparece João Ramalho e a seu lado o
"almotacéu de São Vicente" -Antônio Rodrigues-sua mulher, filha do chefe índio
Piquerobi, e sua filha, Antônia Rodrigues, que casou com Antônio Fernandes. Os índios
que aparecem em ambos os lados do painel são, na esquerda, prestando tributos e
trazendo oferendas nativas, índios tupis e guaianazes; no lado direito, ainda presos ao
trabalho escravo, segurando apetrechos de trabalho, os índios carijós. As demais figuras
que aparecem no fundo são fidalgos, mulheres e operários [5].

É evidente a preocupação de Calixto com a genealogia paulista nesse painel, pois


não se trata de um público qualquer, mas de uma rica descrição da composição social da
vila, das famílias e suas descendências e da sucessão do poder político, religioso e
administrativo. Há ainda um outro elemento no qual Calixto empenhou seus
conhecimentos históricos sobre as famílias vicentinas: o friso que emoldura o painel. Nos
quatro cantos deste, ele destaca o nome de quatro donatários e de suas respectivas
donatarias: no canto superior esquerdo podemos ler o nome de Martim Affonso de Souza
e da Capitania de São Vicente; em segundo lugar, no mesmo lado, no canto inferior,
aparece o nome da condessa de Vimieiro e da Capitania de Itanhaém; no canto superior
direito, o marquês de Cascaes e Capitania de Santo Amaro; e, abaixo dele, no quarto
canto, o marquês de Aracaty e Capitania de São Paulo.

A ordem de leitura, começando por Martim Affonso, é a mesma da sucessão de


posse e de nomenclatura das terras às quais pertenceu a cidade. Os vários nomes das
capitanias, portanto, sugerem que as terras originais de Martim Affonso receberam
denominações distintas ao longo do tempo. Esse dado parece estranho se atentarmos
para o fato de que ao tempo da condessa de Vimieiro, herdeira de Martim Affonso, existiu
uma outra capitania com o nome de Capitania de São Vicente, possuída pelos
descendentes de Pero Lopes, dando a entender que ela herdou as terras e outros
herdaram o nome da capitania, e mais estranho ainda porque o marquês de Cascaes se
auto-intitulava donatário da Capitania de São Vicente, e não de Santo Amaro,
contrariamente ao que Calixto indica no seu painel.

Essa sucessão aparentemente estranha se explica pelo fato de que Calixto


acreditava que os descendentes de Pero Lopes, entre eles o marquês de Cascaes,
donatário da Capitania de Santo Amaro, vizinha ao Norte à de São Vicente, haviam
usurpado os direitos dos legítimos descendentes de Martim Affonso, entre eles a
condessa de Vimieiro.

A condessa por várias vezes impetrou recursos nos tribunais da época para reaver
seus direitos e foi bem-sucedida em várias ocasiões, recuperando temporariamente os
direitos sobre Santos. Porém o marquês sempre conseguia reverter a situação a seu favor
e reaver a posse das terras. Os subterfúgios utilizados pelo marquês foram: contestar os
marcos originais de delimitação territorial das capitanias; contestar a legitimidade da
linhagem dos descendentes de Martim Affonso, uma vez que entre os mesmos se
encontrava um membro bastardo; e aliciar os membros das câmaras, do governo geral, e
o próprio rei, a seu favor.

16
O marquês defende, num processo contra a condessa, que a ilha de São Vicente,
citada originalmente como limite ao Norte da donataria de Martim Affonso, é a ilha
conhecida hoje como Ilha Porchat, também chamada à época de Ilha do Mudo, e que
divide as baías de Santos e São Vicente, municípios vizinhos localizados na mesma ilha
de São Vicente. Consegue o marquês, assim, incluir Santos em suas propriedades,
reduzindo as terras da condessa desse ponto até a Ilha do Mel, hoje porto de Paranaguá.
A Capitania de São Vicente continua existindo, mas Santos pertencia agora à capitania
vizinha, a de Santo Amaro.

Com o tempo, o marquês teria usurpado também o nome da donataria vizinha,


passando a autodenominar-se donatário da Capitania de São Vicente, abandonando a
nomenclatura original das terras de seu ancestral (Capitania de Santo Amaro). A
condessa de Vimieiro adotou o nome de Capitania de Itanhaém porque transferiu a sua
sede para a cidade assim denominada.

Mais tarde, como a Vila de São Paulo havia tomado partido do marquês nas suas
disputas, foi recompensada com o título de cabeça da capitania, e esta passou a
denominar-se Capitania de São Paulo, e Santos ficou então sob sua jurisdição.

Essa confusão de nomes e limites teria passado desapercebida a muitos


historiadores, segundo Calixto, e suas posições causaram certa querela no Instituto
Histórico e Geográfico de São Paulo. Calixto, ao recusar a associação do nome do
marquês à Capitania de São Vicente, colocando-o como donatário da Capitania de Santo
Amaro, e também a inclusão da condessa na galeria dos donatários ilustres, evidencia
uma situação de ilegitimidade, de injustiça.

Esta situação contrasta com a perfeita ordem do momento da fundação da cidade,


quando tudo parece em completa harmonia. O momento da fundação transcorre numa
celebração que faz transparecer a hierarquia de autoridade na vila, que pode ser lida nos
cargos dos personagens dispostos em seqüência de subordinação, da esquerda para a
direita, inicialmente os vereadores, em posição mais elevada, no alpendre, depois os
capitães e os juízes, em seguida os povoadores, pairando à frente de todos o capitão-
mor, Braz Cubas, e os religiosos.

Aqui e ali figuram ainda fidalgos, e outros povoadores de menor importância, e os


soldados. A presença no mesmo grupo dos ex e futuros capitães de ambas as donatarias
sugere uma convivência e sucessão pacífica, reforçando a presença da ordem pública
com o seu reconhecimento e respeito por todos. Esse momento teria sido seguido por
outro de instabilidade no que diz respeito à ordem pública, conforme as figuras no friso o
sugerem.

O painel pode ser visto, assim, como um empenho de Calixto no sentido de


recuperar a verdadeira linhagem santista e paulista, o papel histórico legítimo dos
herdeiros de Martim Affonso, e também como uma denúncia da usurpação dos direitos
desses descendentes com conivência do poder real.

Uma das provas mais evidentes desses fatos, segundo Calixto, era justamente a
obediência desses primeiros povoadores e seus descendentes ao tronco genealógico de
Martim Affonso, através da incontestável aceitação da autoridade de Braz Cubas, capitão-
mor de Martim Affonso, desconhecendo os povoadores e demais autoridades de Santos
qualquer obediência aos descendentes de Pero Lopes [6].

17
ILUSTRAÇÃO 2 - Porto de Santos em 1822
Reprodução: Benedito Calixto - Um pintor à beira-mar - A painter by the sea,
edição da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, agosto de 2002, Santos/SP

18
Porto de Santos em 1822 e Porto de Santos em 1922: a paisagem urbana
Comparando os três painéis, percebemos que a rica composição de personagens,
presente na cena central, contrasta incrivelmente com a absoluta ausência de qualquer
figura humana, ou de qualquer indício de atividade nos painéis laterais. O meio físico é
isoladamente destacado frente ao social, e este último é representado em primeiro plano
em relação às construções apenas no painel central. Calixto parece querer salientar que o
meio faz o homem, apresentando um encadeamento entre um elemento inicial, a terra,
um segundo, o homem, e, finalmente, as edificações por ele construídas.

Esse meio está mais detalhado nos dois painéis laterais e sua análise revela a
relação proposta por Calixto entre os homens e a natureza. O primeiro deles (Ilustração 2)
apresenta uma composição bastante rara no que diz respeito à divisão entre água e terra.
Geralmente, os paisagistas escolhem ou o ponto de vista próximo ao espelho d'água,
descortinando no horizonte a faixa litorânea, ou a perspectiva oposta, de uma localidade
elevada os olhos descansam montanha ou cidade abaixo até encontrarem o mar.

Calixto pinta uma porção de terra, outra de água fluvial, mais uma de terra insular,
e o mar ao fundo, só então o céu desponta. A própria porção de terra de onde se avista a
paisagem é uma ilha.

Poucos retrataram de um ponto de vista elevado e frontal, o encontro da água com


a terra numa cena litorânea, nessa ordem, com o porto e as grandes naus à frente. Esse
ponto de vista permite que se dê um grande destaque para o traçado urbano da cidade de
Santos. A costa da ilha de São Vicente é bastante regular e paralela aos limites superior e
inferior da tela, dando quase a idéia de um retângulo encimado por alguns pequenos
montes.

O traçado das ruas, quase todas paralelas, com poucas vias sinuosas, e também
os percursos das águas e dos caminhos que atravessam a ilha, apontam, de maneira
simétrica, para o horizonte, para o ponto de fuga da tela. A extrema regularidade das
linhas é quebrada pelos montes, pelo pequeno pedaço da Ilha de Santo Amaro ao fundo à
esquerda, e pelos acessórios postos na mesma direção (a vegetação em primeiro plano à
esquerda da paisagem).

Para a paisagem à direita (Ilustração 3) Calixto escolheu um ponto de vista


diferente e que, exceto pelo porto, pouco lembra uma cidade litorânea. A paisagem é
tomada do Morro do Pacheco, na própria ilha. Avista-se dali a face Norte da ilha, com
destaque para o canal que aparece do lado esquerdo da tela e dobra à direita mais
adiante, passando entre as ilhas de São Vicente e Santo Amaro, ao encontro do mar,
formando um "L" de cabeça para baixo. O mar, à direita do ponto que estamos, não
aparece. Alguém que desconhecesse a cidade de Santos e visse a cena provavelmente
suporia tratar-se de um porto fluvial.

19
ILUSTRAÇÃO 3 - Porto de Santos em 1922
Reprodução: Benedito Calixto - Um pintor à beira-mar - A painter by the sea, edição da
Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, agosto de 2002, Santos/SP

Do lado direito, aparecem novamente acessórios em forma de vegetação, uma


árvore mais alta e uma porção de terra descendente da direita para a esquerda.
Simétrico, porém invertido, ao acessório da paisagem Santos em 1822, no outro extremo.

Se examinarmos cuidadosamente o traçado urbano de Santos nessa segunda


paisagem urbana, verificaremos que a cidade parece planejada. Os quarteirões são
incrivelmente simétricos, salvo poucas exceções. Entre os edifícios há dois que se
destacam a catedral e o palácio da Bolsa do Café. Fora isso, o único elemento que
sugere alterações na representação é o próprio porto e seus armazéns. É uma cidade
linear, serena, com quarteirões perfeitamente dispostos como num tabuleiro de xadrez.

Esses três painéis são ladeados por um friso onde estão desenhadas figuras de
aves brasileiras e, nos cantos, emblemas e frases. Os desenhos das aves lembram os

20
registros que os viajantes faziam da nossa fauna, numa espécie de inventário de animais,
e as frases têm evidente inspiração positivista. Começam na esquerda com "trabalho e
ordem" e finalizam na direita com "evolução e progresso".

De costas para o mar: o vitral e os grandes períodos do desenvolvimento do Brasil

Encimando os painéis há um grande vitral de nove metros (Ilustração 4), também


desenhado por Calixto, que complementa, como mostraremos, a idéia de processo
histórico. Estranhamente ausente do levantamento de Júlio Conceição sobre trabalhos de
Calixto relacionados a este painel, ele é fundamental para a compreensão do mesmo. O
vitral também está dividido em três cenas, cada uma representando um dos três "grandes
períodos do desenvolvimento do Brasil"; segundo a concepção de Calixto, são eles: "A
Penetração e Conquista do Sertão pelos Bandeirantes", "A Lavoura e Abundância", "A
Indústria e o Comércio".

Ao contrário do primeiro, não há localização precisa das cenas nem se trata de


panoramas. São alegorias dos "grandes períodos". Na cena central, um bandeirante
encontra com a mãe d'água e algumas ninfas num quadro bucólico de descoberta em
meio à generosa natureza. Apesar da presença dos animais peçonhentos e perigosos, a
mãe d'água convida o bandeirante oferecendo-lhe seus tesouros, como se não houvesse
perigo algum. O bandeirante parece destemido a enfrentar e sobrepujar os perigos da
selva representados pelas cobras e jacarés.

Na cena da lavoura, uma deusa da abundância ou fertilidade recompensa o esforço


do agricultor com a fartura. Na cena consagrada à indústria e ao comércio, estão
representadas algumas figuras em meio a colunas clássicas, insinuando o aprendizado
dos ofícios por um operário que segura uma roda, diretamente das deusas da ciência,
trajando as togas gregas.

Há uma relação proposta entre os três grandes momentos da nação e os três


grandes momentos da evolução urbana de Santos. O período da busca bandeirante dos
tesouros da terra é um momento de descobertas e ocupação de território; o período
seguinte, da agricultura, é de desenvolvimento e estabelecimento de pequenos núcleos
fixos; e o terceiro é quando há o grande crescimento urbano impulsionado pela indústria e
pelo comércio. Uma fase servindo de impulso à outra e todas elas se refletindo na cidade
de Santos, num percurso que vai do natural ao urbano, da descoberta e ocupação ao
estabelecimento de grandes contingentes humanos, intermediado pela agricultura.

O conjunto, painéis e vitral, converge a atenção do observador para o painel central


descrito anteriormente, o da fundação da vila de Santos, cuja cena é destacada por
Calixto como ponto culminante de todo o processo histórico analisado. Esse painel
contrasta com os que o ladeiam, como já frisamos. No entanto, a relação com a idéia de
crescimento urbano continua presente e é enfatizada através das obras de construção da
Igreja da Misericórdia e dos demais edifícios ao fundo. O destaque escolhido para o
pequeno núcleo inicial é justamente o da ampliação do mesmo, ou seja, da construção de
mais um edifício. Podemos reparar que a idéia de "processo", de uma obra em
andamento, é reforçada pelo destaque dado por Calixto aos andaimes, necessários ao
trabalho de alvenaria, que se apóiam nas paredes da futura igreja.

21
Braz Cubas está em pé sobre a pequena plataforma que sustenta o pelourinho,
símbolo do poder público e da justiça durante o período escravista. Aqui também nota-se
uma nova perspectiva temporal, a sucessão dos governadores, dos trabalhadores, dos
antigos e novos povoadores, e, acima de tudo, na formação de uma genealogia
paulistana, como bem o percebeu D'Alvin, a partir da mistura entre as raças, nas figuras
de João Ramalho e Piquerobi, o primeiro retratado, e o segundo representado por sua
filha, que desposou Antônio Rodrigues.

No conjunto, emerge uma equação cujos protagonistas são a linhagem paulista, o


meio físico e a manifestação do resultado desse encontro ao longo de alguns séculos de
convivência, nos quais é possível distinguir o progresso e o desenvolvimento através de
marcos significativos, a fundação, a agricultura e o estabelecimento da indústria e do
comércio. A cidade é o lugar por excelência da consolidação dessas conquistas, o centro
decisório, o catalisador. O seu crescimento linear, regular, constante, é uma espécie de
prova desse progresso. Benedito Calixto apresenta Santos como o berço do país. Os
lapsos de tempo servem para permitir o acabamento dessa vocação construtiva inicial de
um poder público obreiro.

Curioso nisso tudo é que Santos não recebe destaque enquanto cidade litorânea,
parece haver uma distância entre a cidade e o mar. Os pontos de vista de Calixto,
panoramas da cidade de Santos que realizou, são tomados sempre do Oeste para o
Leste: a cidade parece vista de uma montanha, margeando um rio ou um lago, como se
tivéssemos que descer encosta abaixo e atravessar o canal para adentrá-la.

A cidade começa e se desenvolve, assim, de costas para o oceano. A Serra do Mar


está implícita. É dali que temos as melhores vistas panorâmicas de Santos e de toda a
ilha de São Vicente. A cidade se apresenta mais como abrigo e ponto de chegada de
quem desce a serra do que de quem vem pelo mar. Nesse sentido, o que se valoriza é o
porto exportador e não importador. Exportador dos nossos produtos agrícolas.
Convergência e conseqüência de um processo de desenvolvimento que aconteceu no
interior.

ILUSTRAÇÃO 4 - Vitral representando os três grandes períodos do desenvolvimento do


Brasil, segundo Calixto

22
O traçado urbano em xadrez

É importante ressaltar, para entendermos melhor os painéis de Calixto, que sua


obra é contemporânea à elaboração de uma série de projetos de reurbanização da cidade
de Santos, e que esses projetos compartilham, entre si e com as telas de Calixto, uma
série de elementos visuais recorrentes, denunciando, assim, todo um hábito visual
presente naquela época, ligado à idéia de um traçado de ruas bastante uniforme.

Como a maior parte das cidades portuguesas, Santos não se desenvolveu,


entretanto, dessa maneira simétrica. Segundo carta de Tomé de Souza destinada ao rei
em 1 de junho de 1553, "estas duas vilas de São Vicente e Santos não estão cerquadas e
as casas de tal maneira espalhadas que não se podem cercar senão com muito trabalho
e perda os moradores, porque tem casas de pedra e cal e grandes quintais e tudo feito
em desordem, por onde não lhe vejo melhor telha que em cada uma delas que fazer-se
no sítio em que puder e mais convinhável para sua defensão, cada uma seu castelo, e
desta maneira ficarão bem, segundo a qualidade da terra e tudo deve-se logo prover nisto
que com razão de ver fazer, doutra maneira estão mal" [7].

Para Sérgio Buarque de Holanda, as cidades portuguesas se caracterizavam pela


ausência de rigor, "sua silhueta se enlaça na linha da paisagem" [8].

A cidade espanhola seguiu um caminho completamente diferente: "[...] o próprio


traçado dos centros urbanos na América Espanhola denuncia o esforço determinado de
vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato definido da
vontade humana. As ruas não se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do
solo, impõem-lhe antes o acento voluntário da linha reta. O plano regular [...] foi
simplesmente um triunfo da aspiração de ordenar e dominar o mundo conquistado. O
traço retilíneo, em que se exprime a direção da vontade a um fim previsto e eleito,
manifesta bem esta deliberação." [9].

Não queremos com esses trechos de textos antigos questionar a veracidade das
telas de Calixto, mas ressaltar o surgimento de uma nova visão com relação ao meio
urbano e natural, ligada ao traçado retilíneo e regular. Essa nova concepção urbana está
diretamente ligada aos intoleráveis níveis de degradação ambiental a que a cidade estava
sujeita.

As condições sanitárias eram alarmantes e as epidemias que assolavam o local


eram constantes e sempre levavam consigo grande número de habitantes [10]. Contam
os viajantes, que por ali passaram, que o cheiro e a imundície eram insuportáveis e uma
grande multidão pobre e doente perambulava pelas ruas. Uma reforma urbana que
alterasse esse quadro se impunha como necessidade e como questão de saúde coletiva,
sendo amplamente discutida nos órgãos públicos e na imprensa.

Através desses planos, percebe-se que a cidade que habitava a imaginação dos
moradores de Santos abrangia o espaço para os passeios de bicicleta, restaurantes,
cafés e bares. Deveria parecer européia, mais precisamente, parisiense. Os sinais da
modernidade pululavam nos projetos que eram discutidos, e, entre os mais requeridos,
estavam os sanitários públicos: as plantas das praças continham sempre vários mictórios.
Sonhava-se com chafarizes, ruas largas para as caminhadas, muito ar fresco para o
deleite dos pulmões.

23
Os projetos elaborados pela comissão de saneamento denotam bem a expectativa
que se tinha com relação ao desenvolvimento futuro da cidade e também às projeções
dos moradores, políticos, sanitaristas, engenheiros e demais pessoas mais diretamente
envolvidas no processo, a respeito do traçado urbano de Santos.

Um primeiro exemplo é o projeto de expansão da cidade proposto pela Câmara


Municipal de Santos em 1896 (Ilustração 5). A legenda é muito simples, contém três itens:
quarteirões existentes, quarteirões projetados; ruas existentes prejudicadas no projeto em
xadrez. A particularidade que salta aos olhos é a ausência absoluta de qualquer via que
não seja retilínea, as poucas já existentes são as "prejudicadas no projeto".

Há uma predominância absoluta das linhas verticais e horizontais, sem qualquer


indicação de acidentes naturais, exceto as montanhas. As praças, indicadas pelos vários
"P", estão dispostas de maneira regular e, com exceção de duas, se encaixam
perfeitamente no espaço de um quarteirão, não provocando o menor desvio.

No que diz respeito à cidade antiga, localizada no lado Norte da ilha, os quarteirões
não são tão simétricos quanto nas outras partes, mas o traçado foi alterado de modo a
garantir a linearidade das ruas.

O projeto é de uma simplicidade e ao mesmo tempo de uma ingenuidade gritantes,


pois é absolutamente impraticável imprimir tal rede de vias numa topografia acidentada e
irregular como a da ilha de São Vicente, com seus promontórios, córregos e alagados.

Essa tentativa é uma entre muitas cuja execução, não sendo viável, foi
abandonada. O projeto finalmente aprovado e colocado em prática foi elaborado pelo
engenheiro chefe da Comissão de Saneamento, F. Saturnino Rodrigues de Brito, em
1910. O triunfo da linha reta se mantém, mas dessa vez os acidentes naturais (rios,
charcos, montes etc.) são equacionados.

Nas palavras do próprio Saturnino: "O nosso projeto tem o caráter dos traçados
reticulares não sistemáticos, com avenidas diagonaes que facilitem as communicações
dos arrabaldes" [11].

Um dos pontos de maior destaque nesse projeto é a separação do sistema de


coleta de esgoto do sistema de escoamento da água pluvial os canais que ainda hoje
cortam a cidade de Santos, responsável maior pelas epidemias e pelo mau cheiro).

Sobre esse complexo sistema de canais elaborados de acordo com as


necessidades regionais do escoamento da água imprimiu-se um sistema de vias retilíneo,
mas com várias diagonais. Na planta há dois tabuleiros em xadrez que se ligam, um que
abrange a maior parte da ilha e outro que ocupa a Ponta da Praia, o primeiro no sentido
Norte/Sul e o segundo no sentido Noroeste. A defesa que Saturnino fez nos jornais a
respeito de seu projeto associa diretamente o traçado retilíneo à solução mais eficiente e
econômica para o problema da água e da higiene.

Essas plantas revelam a preocupação dos munícipes e seus representantes em


elaborar um plano que solucionasse de maneira "racional" os problemas que os afligiam,
através da linearidade no traçado urbano, com uma planta que fosse passível de
execução dadas as características naturais da ilha.

24
As telas de Calixto tematizam esse debate e apresentam a sua versão para a
questão. Obviamente, sua preocupação não era a de um urbanista, mas a de um artista e
historiador que utiliza vários elementos comuns a essa discussão numa equação pictórica
própria que envolve a história de Santos e sua inserção na história da nação.

O ponto de vista escolhido para seus panoramas reforça a atenção do observador


sobre o traçado urbano. No Panorama de Santos em 1822 isto é evidente nos córregos e
trilhas que apontam para o lado oposto da linha em relação ao sítio original e que correm
perpendiculares a ruas verticais já existentes, como se os acidentes naturais que
condicionavam os caminhos dos passantes sugerissem uma propensão natural à
linearidade das vias, o que pode ser visto desde os tempos remotos da ocupação
daquelas plagas.

O efeito é reforçado pela convergência de todos os traçados em direção ao ponto


de fuga, situado exatamente na linha central e que divide a tela ao meio no sentido
vertical. A sensação causada é de repouso e conforto, os olhos descem montanha abaixo,
encontram a cidade plana cujo traçado aponta para o ponto de fuga no outro lado da ilha,
num percurso sem desvios ou acidentes. Parece espontâneo e lógico.

Já na sua apresentação de Santos em 1922, a ilha inteira está tomada pela


regularidade do xadrez. Se o ponto de vista em 1822 era quase que o melhor para a
perspectiva desejada, pois a cidade era apenas um pequeno núcleo a Oeste da ilha, em
1922 ele pode ser alterado, pois de qualquer ângulo que se observe a cidade o xadrez
urbano é evidente.

A unidade dos painéis: o momento da fundação

A unidade do conjunto é trabalhada por Calixto através dos acessórios, os quais


ele utiliza como recurso para fazer convergir todas as telas numa só perspectiva, como se
os traçados se unissem num único plano atemporal. Os acessórios cumprem o papel de
unificadores de todas as cenas numa única paisagem.

Se tomarmos as vistas isoladamente, elas parecem ter uma função meramente


decorativa, mas se atentarmos para o conjunto altera-se a percepção. Geralmente, os
acessórios são dispostos em ambos os lados de um panorama ou cena, de modo a
chamar atenção para a cena principal através de um contraste de luz entre esse plano e o
seguinte. No presente caso, os acessórios nos forçam a entender os painéis em conjunto.
Ao serem colocados em apenas um dos lados das paisagens periféricas, remetem para
um equilíbrio visual que só pode ser alcançado se tomarmos as três telas juntas. O
acessório da esquerda se complementa e se equilibra no da direita. Ambos emolduram o
conjunto todo como se fosse uma paisagem só.

Esse equilíbrio é reforçado pela diferença entre os pontos de vista pelos quais a
cidade é retratada, pois de qualquer lado que seja observada ela sempre apresentará
linhas horizontais e verticais em relação ao observador, paralelas às linhas dos pontos
cardeais Norte/Sul, Leste/Oeste, formando o mesmo tabuleiro em xadrez, na mesma
direção escolhida pelos projetos urbanos discutidos na época.

Num primeiro momento, no painel central, o traçado ainda é invisível, destacando-


se apenas o ímpeto construtor; no painel da esquerda ele está incompleto, mas

25
insinuante; no outro, em 1922, já terminado, tomando toda a ilha. A natureza, assim, é
também inserida na perspectiva temporal. Não se trata da natureza tropical que envolve,
estimula e intriga o observador, nem da natureza provedora. É uma natureza que tem em
si um plano, uma direção, e o desenvolvimento é justamente a comunhão da raça, da
linhagem genealógica legítima, do plano. O que está sendo retratado é a adequação de
um ao outro, coincidência feliz e promissora.

As telas de Calixto, assim como as dos viajantes, devem ser entendidas em


conjunto, embora o efeito por ele almejado seja diferente. Os viajantes retratavam várias
vistas como um esforço de registro da natureza, observar seus trabalhos é como
acompanhá-los em seu passeio. Calixto mantém esse efeito, mas acrescenta-lhe a
dimensão temporal. A cidade apresenta-se mutante no tempo, por isso não é solidamente
estabelecida, não tem nada que denote eternidade, muito pelo contrário, ela se transfigura
ao longo dos anos. Por outro lado, a relação com o solo ainda é uma relação de sujeição,
isto é, a cidade segue o traçado impresso "naturalmente" nos elementos da geografia da
ilha.

Nos pincéis de Calixto, a paisagem natural e a paisagem urbana não evocam


experiências díspares, não se contrapõem, elas se complementam em função de uma
perspectiva histórica na qual natureza e sociedade devem existir em sintonia uma com a
outra. À natureza, que tem em si um princípio racional, sobrepõe-se a sociedade numa
estrutura hierárquica ordenada, e o resultado é uma cidade cuja urbanização traduz as
qualidades dos dois primeiros elementos. A construção da cidade e seus prédios, e
principalmente o seu traçado urbano, é a resultante dessa conjugação, a prova de seu
acontecimento, da sua eficiência, da sua racionalidade.

A sua visão de uma cidade moderna e organizada, portanto, não implica o


rompimento com o passado, mas, justamente, o oposto: a cidade é moderna porque
credora do seu passado, isto é, credora da conjunção dos fatores que permitiram o seu
desenvolvimento. Os momentos celebrados nos painéis são aqueles nos quais essa
conjunção de elementos é reforçada: a fundação da cidade, independência e seu
centenário, épocas retratadas em paisagens serenas, calmas, que evidenciam a
organização social e urbanística.

Há, no entanto, um momento de perturbação dessa ordem, subentendida nos


nomes dos donatários ilustres realçados no friso, que denunciam as falcatruas do
marquês de Cascaes contra a condessa de Vimieiro, como mostramos anteriormente,
momento esse associado ao período colonial, no qual o próprio rei teria tomado parte no
conluio contra a condessa (Calixto, 1924).

À celebração da independência contrapõe-se a denúncia da colônia. Nessa


perspectiva, a fundação da cidade não tem sentido se for vista como um ato fechado em
si mesmo, mas como o ponto de partida de um processo que é preciso entender e
impulsionar, ou acontece o seu desvio, como na colônia.

O recurso unificador dos acessórios faz com que as referências temporais sejam
relativizadas. Benedito Calixto está naturalizando um processo, como se as leis da
natureza fossem tão verdadeiras que de qualquer ponto, no tempo ou no espaço, dadas
certas características, poder-se-ia adivinhar o desenvolvimento futuro ou o passado.

No painel central é onde se revelam essas características essenciais: esta cena


central parece mais um close de luneta tomado a partir de um dos pontos dos quais se

26
avista Santos, assemelhando-se a um destaque ampliado da paisagem, no qual se
enfatiza a configuração do povo, ou linhagem, e a tomada de contato efetivo, ordenado,
regulado pelo poder público, com a terra, o meio natural.
Ao contrário do que se poderia imaginar a princípio, ou seja, de que Calixto estaria
contestando a exatidão da data ou da autoria da fundação da cidade, ao apresentar
Santos já com algumas casas quando da chegada de Braz Cubas, ele o está reforçando
numa outra perspectiva, ou seja, está construindo a sua tese a respeito do momento da
fundação. Não exatamente o da chegada do primeiro português, do estabelecimento do
primeiro engenho, câmara, construção do porto ou qualquer outro indício físico específico,
mas o momento em que três fatores se conjugam: um novo povo, uma natureza e um
poder organizado e instituído. Para ele, esse encontro é o momento da fundação por
excelência.

ILUSTRAÇÃO 5 - Projeto de expansão da cidade de Santos.

27
(*) Caleb Faria Alves é doutorando em Ciências Sociais pela FFLCH-USP.

--------------------------------------------------------------------------------

NOTAS:

[1] Benedito Calixto de Jesus foi pintor e historiador, nasceu em Itanhaém em 1853 e
morreu em São Paulo em 1927. Morou a maior parte de sua vida em São Vicente e ficou
conhecido como grande marinhista e pintor de temas históricos. Começou a carreira como
autodidata mas conseguiu meios, em 1883, para estudar na Academia Julian, em Paris.

[2] Essas 28 telas são as seguintes: "Rancho Grande - Terceira Igreja e Hospital da
Misericórdia", "Quatro Cantos e Casa das Beatas", "Largo da Matriz", "Collegio e
Quartéis", "Páteo da Cadeia", "Casa do Conselho", "Pelourinho e Arsenal de Marinha",
"Forte de Itapema", "Porto do Bispo", "Casa do Trem", "Capella de Santa Catharina",
"Casa forte do tempo de Martim Affonso em São Vicente", "Ruínas da Capella das
Neves", "Ruína da Capela de Frei Gaspar", "Fazenda do Acarahú", "Aspecto do Porto de
Santos" - Câmara Municipal de Santos; "O porto de Santos, antes do caes" - Benjamim de
Mendonça; "Praia do Consulado", onde se observa o antigo mercado, as longas pontes
de embarque/desembarque (anteriores à construção do caes, da estrada de ferro ingleza,
da Mesa de Rendas e das principais firmas commerciaes - Zerrener, Bullow & Cia.,
Augusto Leuba & Cia. e outras) - oferecido por Julio Conceição À Câmara Municipal de
Santos; "Capela da Graça" - Arcebispo D. Duarte Leopoldo, São Paulo; São Paulo, "Canto
de Praia", onde em 1532 desembarcou Martim Affonso - xxx; "Porto das Naus" - xxx;
"Porto Tumyaru" - xxx; "Carro de Boi" (2) - Família Calixto; "Convento de N. S. da
Conceição" - Itanhaém - xxx; "Praia de Peruhybe e Trabalho de Saneamento" - 1902 -
offerecido pelo auctor a Júlio Conceição; "O vulcão em Santos", no Macuco, setembro de
1896 - Francisco de Andrade; "O carro de boi" - família B. Calixto; "Eva no Paraíso" (Júlio
Conceição, Benedito Calixto - Traços Biographicos, Empreza Graphica da Revista dos
Tribunaes, 1929). É preciso frisar ainda que Calixto já havia pintado outros panoramas da
cidade de Santos ao longo de sua carreira, um dos quais, inclusive, lhe valeu uma
premiação na Exposição Geral de Belas Artes de 1898. (N. E.: alguns dos vínculos acima
podem levar a telas diferentes das citadas).

[3] A título de exemplo das recorrências nas paisagens cariocas elaboradas pelos
viajantes, podemos citar o que talvez seja a vista mais retratada: a Igreja da Nossa
Senhora do Outeiro, pintada por Thomas Ender, Ludwig Czerny, Pieter Godfred Bertchen,
entre outros. Uma visão mais aprofundada sobre as paisagens dos viajantes pode ser
encontrada na obra O Brasil dos Viajantes, particularmente no terceiro volume: A
Construção da Paisagem, de Ana Maria de Moraes Belluzzo, São Paulo, Metalivros, 1994.

[4] Lilia K. Moritz Schwarcz, Os Guardiões da Nossa História Oficial, Idesp, Série História
das Ciências Sociais, nº 9, 1989, p. 45.

[5] A identificação dos personagens e edificações foi baseada, principalmente, em


Thomas D'Alvin, O Grande Pintor Brasileiro Benedito Calixto, Sua Vida e suas Obras, in
revista Portugal, 23 de junho de 1927, 2ª série, nº 102, pp. 338-44, e nº 103, pp. 371-75.

[6] Calixto escreveu uma obra bastante aprofundada a esse respeito, na qual explicita a
sua visão sobre a sucessão dos direitos nas capitanias de Santo Amaro e São Vicente:

28
Benedito Calixto, Capitanias Paulistas, São Paulo, Estabelecimento Gráfico J. Rossetti,
1924.

[7] Tomé de Souza apud Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 26ª edição, José
Olympio, Rio de Janeiro, 1994, p. 75.

[8] Sérgio Buarque de Holanda, op. cit. p. 76.

[9] Idem, ibidem, p. 62.

[10] Entre 1849 e 1904 a febre amarela atinge a cidade 31 vezes, a varíola aparece em
1863, 1865, cinco vezes na década de 70, em 1887, 1888, 1892 e 1894. Outras doenças
constantes eram impaludismo, o sarampão e a tuberculose. Só a tuberculose matou mais
de cem pessoas por ano entre 1892 e 1913. Para mais dados ver Wilma Terezinha
Fernandes de Andrade, O Discurso do Progresso: a Evolução Urbana de Santos, 1870-
1930, tese de doutoramento apresentada à Faculdade de História da FFLCH-USP, 1989.
Nessa tese e no livro de Ana Lúcia Duarte Lanna, Uma Cidade na Transição - Santos:
1870-1913 (Hucitec e Prefeitura Municipal de Santos, 1996), pode ser encontrada uma
visão mais aprofundada das transformações urbanas sofridas por Santos no período.

[11] F. Saturnino Rodrigues de Brito, A Planta de Santos, São Paulo, Typographia Brasil
de Rothschild & Co., 1915, p. 11.

29
Esta entrevista é uma grande brincadeira...
Com a imaginação, você poderá conversar com este português de 500 anos e ficar
sabendo fatos importantes da sua vida.

Sempre notícias fresquinhas para você


Entrevista com Brás Cubas

Brás Cubas entrou para a história como o fundador da cidade de Santos e, nesta
entrevista, ele nos conta a sua versão dos fatos e outras curiosidades sobre a sua
longa vida.

O senhor ficou conhecido, na história do Brasil, como


o fundador da cidade de Santos. Isso lhe traz orgulho?

Claro, fico muito orgulhoso com essa homenagem e com a


minha estátua em mármore Carrara localizada na Praça da
República, no Centro da cidade. Na verdade, a estátua foi
inaugurada em 1908, em comemoração aos meus 400
anos, mas nasci em 1507, na cidade do Porto, Província
do Douro, em Portugal. Este ano celebro meu quinto
centenário. Sou considerado o grande fundador de
Santos, mas sem a ajuda de outros portugueses que
vieram comigo na expedição de Martim Afonso, eu nada
teria feito. Por isso, rendo homenagens aos meus
companheiros: Pascoal Fernandes, Domingos Pires, Luís
de Góis, José Adorno, e seus irmãos, André Botelho,
Mestre Bartolomeu e Jorge Ferreira.

Há poucos dados sobre a sua vida no período anterior


à vinda para o Brasil. Conte-nos sobre a sua infância.

Meus pais me entregaram à família de Martim Afonso,


para ser educado, quando eu tinha um ano de idade,
tornei-me seu criado e escudeiro, sempre o
acompanhando, por isso, quando Martim Afonso foi
nomeado para comandar a primeira esquadra com destino ao Brasil, vim com ele e com
outros companheiros dispostos a ter uma nova vida, encontrar ouro e prata e colonizar as

30
novas terras em nome do rei. Na época, estava com 25 anos e cheio de vida e
disposição.

Assim como seu pai, o senhor não era nobre e tão pouco possuía título de nobreza,
como então explica que ao morrer em, era um dos homens mais ricos da Capitania
de São Vicente?

Muita disposição e coragem, pois vim para o Brasil, não para o explorar, enriquecer e ir
embora, vim para fazer este lugar crescer, para construir a minha vida, fui agricultor, saí
à procura de ouro, persegui aprisionei indígenas para o trabalho com a cana, tive muitos
escravos.Vivi até os 84 anos, assisti ao crescimento desta cidade, lutei para transferir o
Porto dos Escravos (hoje Ponta da Praia), que não oferecia muita segurança às
embarcações que vinham à procura de abrigo, assistência, mercadorias, víveres para
seguir viagem, ou mesmo adquirir escravos, para um local mais seguro e protegido, no
lagamar do Enguaguaçu, hoje Centro de Santos, onde o nosso porto começou.

Mas como o senhor tornou-se o maior proprietário de terras de Santos?

Por minha amizade e lealdade, recebi sesmarias de Martim Afonso que, donatário da
Capitania de São Vicente, distribuiu pedaços de terras aos portugueses que vieram na
viagem. Primeiramente, recebi terras do Morro de São Jerônimo (hoje Monte Serrat), foi
lá minha primeira moradia e plantações de cana que eram moídas no Engenho de São
João, de José Adorno, este foi o primeiro engenho de Santos. Quando voltei para
Portugal, fortaleci minhas relações com a esposa de Martim Afonso, Ana Pimentel, e
consegui arrematar algum dinheiro para investir em novas terras. Primeiramente, enviei
meu pai para cuidar de outras terras que havia recebido pelos serviços prestados para o
lado de Jurubatuba e Ilha Pequena, hoje Barnabé, depois fui comprando as terras que
foram doadas aos outros portugueses, perto do Monte Serrat, do Outeiro de Santa
Catarina e depois quando finalmente me tornei governador da Capitania, consegui a
elevação do povoado à categoria de Vila, instalando o Conselho e as leis contidas no
foral.

De quem foi a idéia de instalar um hospital na Vila de Santos?

Dos moradores, pois era necessário ter um hospital para socorrer a população e aqueles
que chegavam a bordo de algum navio. O hospital foi inaugurado em 1542, nos mesmos
moldes das Santas Casas de Misericórdia de Portugal. O terreno foi doado por Luís de
Góis, ao lado da igrejinha de Santa Catarina.

Qual a sua relação com os nativos?

Para sobreviver, era necessário ter braços para o trabalho, por isso foram organizadas
expedições para aprisionar os índios. Eram eles que faziam todo o trabalho agrícola e
doméstico, pois, para os portugueses o trabalho manual sempre foi desvalorizado, por
isso, precisávamos de escravos, que também eram comercializados a outros
estrangeiros.

Além de aprisionar indígenas, quais eram os objetivos das expedições realizadas?

Como pessoa importante da capitania, eu tinha a função de organizar expedições


exploratórias pelo interior em busca de ouro e prata. Aproveitando as trilhas abertas pelos

31
índios, cruzando matas e rios, chegamos ao Morro do Jaguará, em São Paulo e lá
encontramos ouro.

O senhor faleceu no final do século XVI, logo depois da invasão do pirata


Cavendish. Como a população da Vila defendeu-se deste trágico acontecimento?
Era noite de Natal, estava na Igreja, que funcionava como Matriz, juntamente com mais
de 330 homens, as mulheres e crianças estavam em seus lares. De repente, a Igreja foi
invadida, prenderam-nos e iniciaram uma série de ataques, roubando tudo que
encontravam: ouro, comida, jóias, além, de mandar queimar os navios no porto, queimar
os engenhos e destruir vários prédios, espalhando ódio e medo em todas as pessoas.
Além de destruir a igreja de Santa Catarina, demonstraram desrespeito, jogando a
imagem da santa ao mar. Ficaram em Santos por dois meses, destruindo tudo que havia,
fiquei muito triste com essa situação e, logo depois, acabei morrendo de desgosto e
tristeza.
E hoje? Qual é o seu sentimento em relação à cidade que ajudou a construir?
Hoje vejo que a vila cresceu e transformou-se em uma grande cidade, em função da
participação de todos, pessoas importantes ou não que fizeram a história deste local.

Texto e criação: Adriana Negreiros Campos

32
Um passeio pela cidade de Santos
Texto publicado no jornal A TRIBUNA, 7/05/2000
Wilma Terezinha Fernandes de Andrade.

Reportagem interessante, em
que uma turma bem
interessada e curiosa descobre,
por meio de uma passeio, as
incríveis histórias da cidade de
Santos.

Num dia de sol, em Santos, na areia da Ponta da Praia, José Mathias, um garoto
esperto, conheceu um menino um pouco mais velho que ele e logo ficaram amigos.
Chamava-se Brás Felipe, e José Mathias achou que era um nome diferente.
Brás é uma homenagem a Brás Cubas, o fundador de Santos, e Felipe por causa
do rei Felipe II da Espanha.
 Que rei Felipe? Nunca ouvi falar.
 Olhe, foi ele que mandou fazer há mais de 400 anos a fortaleza que a gente vê
daqui do outro lado do mar, na entrada da Barra. Houve três reis com nome de
Felipe e eles reinaram em Portugal e Brasil entre 1580 e 1640.

José Mathias, que é bom em matemática, fez as contas na areia:


 Caramba, reinaram sessenta anos.
Nisto chegaram Ana Aparecida e Joana Vila Nova, duas meninas amigas de José
Mathias, e entraram na conversa.
 E para que construir uma fortaleza? - perguntou Joana.
Brás Felipe explicou:
 Porque, em, séculos passados, havia navios piratas e corsários que atacavam
o litoral do Brasil. A fortaleza tinha canhões que disparavam balas quase do tamanho de
uma bola de futebol. Senão os corsários atacariam a Vila de Santos para roubar a
população.
 Que ladrões! - disse Ana Aparecida.
 Por que você fala Vila de Santos? Santos é uma cidade grande, a maior do
litoral de São Paulo. Ela ocupa boa parte da ilha de São Vicente, disse Joana, que é boa
em Geografia.
José Mathias explicou:
 Santos não começou como cidade grande. Ela nasceu pequenina, como um
povoado chamado Porto de São Vicente.
 É isso aí, disse Brás Felipe. E tem mais. Muita gente pensa que Santos
começou junto ao Outeiro de Santa Catarina, no Centro da Cidade, mas começou mesmo
na Ponta da Praia.
 Aqui? Como? - perguntou José Mathias.

33
 Está vendo a Ponte dos Práticos? Ali era o Porto de São Vicente, até que Brás
Cubas transferiu o porto para onde é o Centro, perto da Alfândega, junto ao Outeiro de
Santa Catarina.
 E por que ele fez isso? - quis saber Ana Aparecida.
 Para que o porto ficasse num lugar mais abrigado dos inimigos de Portugal e
Espanha, que eram os corsários. E, também, porque perto há um morro com 150 metros
de altura, chamado hoje Monte Serrat, que do alto podia avistar toda a região e a entrada
da barra.
 Muito esperto esse Brás Cubas. E do que vivia o povo daquela época?
Perguntou José Mathias.
 No começo, disse Brás Felipe, do açúcar fabricado nos engenhos, mas quando
os europeus não compraram mais o açúcar da Capitania de São Vicente a situação ficou
ruim, como se diz...chegou a crise.
 Eu nunca ouvi falar nesse Outeiro de Santa Catarina. Que é outeiro, onde fica?
- perguntou Ana Aparecida.
 Outeiro quer dizer morro pequeno, respondeu Brás Felipe. Hoje demolido, não
existe mais, só sobraram dois blocos de rocha, onde um médico italiano, o Dr. João Éboli
construiu uma casa com jeito de castelo, bem cem anos atrás.
 Eu gostaria de ver este lugar, disse Ana Aparecida, apoiada por Joana.
José Mathias deu uma idéia:
 Podemos combinar ir até lá amanhã, que não tem aula. E passamos pela casa
do Paquetá, que mora perto.

No dia seguinte, José, Ana, Joana se encontraram com Brás


Felipe em frente à casa que João Éboli construiu em cima dos restos
do Outeiro de Santa Catarina, à Rua Visconde do Rio Branco, 48. As
meninas gostaram muito de ver que a casa estava sendo usada para
guardar fotografias e documentos antigos.
 Legal, assim a Casa do Outeiro fica conservada, aprovou
Joana.
Aí apareceu Paquetá, um mulato muito esperto que estuda na
classe de José Mathias. Sugeriu logo:
 Vamos ver a Casa do Trem?
 Que Casa do Trem é essa? - perguntou Ana.
Paquetá respondeu:
 É um sobrado branco, pertinho do Outeiro, construído pelos
portugueses. No século 18, servia para guardar armas, pólvora e
munição para enviar às fortalezas que protegiam as vilas ameaçadas
pelos navios corsários. Trem quer dizer coisa, objeto. Era um arsenal
de guerra.
O grupo, depois da Casa do Trem, decidiu continuar o passeio no Centro, para ver
onde aconteceu a História de Santos.
Passaram pela Praça da República, onde admiraram o monumento, em mármore
italiano, de Brás Cubas.
Além, de fundar Santos, ele criou a Irmandade da Misericórdia, que construiu um
hospital conhecido como o da Santa Casa, o primeiro do Brasil. José Mathias informou à
turma que a Santa Casa, no Bairro do Jabaquara, é o quarto hospital construído pela
irmandade.
Prosseguindo, passaram pelo conjunto das duas igrejas do Carmo, unidas por uma
torre, erguida no século 18, no estilo barroco, muito bonitas por dentro.

34
Vizinho do Carmo, entraram no Panteão dos Andradas, onde num belo salão, estão
os túmulos dos irmãos Andradas: José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da
Independência, e seus irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco. Foram patriotas que
muito amaram Santos e o Brasil.
Saindo dali, foram para a praça da Prefeitura e da Câmara Municipal.
Levados por Paquetá, que conhece bem o Centro, seguiram para a Rua XV de
Novembro.
 Aqui era a rua mais movimentada de Santos, famosa por causa do comércio do
café, ensinou Paquetá.
Joana também sabia das coisas.
 O café trouxe muito dinheiro para São Paulo e para o Brasil e o café saía pelo
porto de Santos.
 É verdade, disse Brás Felipe, e por causa
disso o cais do porto, construído pela Cia Docas de
Santos, cresceu tanto que tem mais de doze
quilômetros e atinge Guarujá e Cubatão. É o maior da
América Latina. ( atualmente o cais de Santos tem 14
km de comprimento).
Na Rua XV de Novembro, admiram a beleza do
Palácio da Bolsa do Café, com esplêndidas pinturas
de Benedito Calixto, mostrando três cenas da História
de Santos: a fundação; a segunda, Santos na época
da Independência, e a cidade, em 1922, quando foi
inaugurado o Palácio da Bolsa.
Percorrendo a Rua do Comércio, chegaram ao
bairro do Valongo. As crianças viram com tristeza as
ruínas de casarões abandonados que, no século 19,
abrigaram a prefeitura e a Câmara. Entraram no
Santuário da Igreja de Santo Antônio. Lá dentro,
descobriram uma grande capela perpendicular à nave
da igreja.
Brás Felipe explicou:  Santuário é um lugar
sagrado onde se fazem peregrinações e se pagam promessas. Em Santos há outro
santuário: a capela de Nossa Senhora do Monte Serrat.

Na volta, a turma tomou o ônibus


Circular 2, que trafega pela Conselheiro
Nébias, e passou pelos bairros entre o
Centro e a Orla da praia até o Boqueirão,
que foram povoados quando o café trouxe
riqueza para a cidade. Ana, que gosta de
andar de carro, reclamou do ônibus.
 Está muito bom, disse Joana,
antigamente aqui passavam os bondes,
primeiro puxado por burros, depois
elétricos.
 Eu nunca andei de bonde, disse
Ana.
 Existe um no Gonzaga, junto à
fonte luminosa, na Praça das Bandeiras. A gente pode entrar para ver como era lá dentro,
sugeriu Joana.

35
No Gonzaga, entraram no bonde, o que foi muito divertido. (hoje, as crianças
podem visitar o passado e fazer uma pequena vagem no tempo, passeando de bonde no
Centro de Santos). Depois, a turma foi até a Praça da Independência, onde está o
monumento dos Irmãos Andradas, que muito fizeram pela Independência e pelo
progresso do nosso país.
 O que eles fizeram pelo Brasil? - perguntou Paquetá.
 Eles eram a favor da abolição dos escravos, respondeu José Mathias.
 É verdade, acrescentou Brás Felipe, mas só depois da morte deles, foi
assinada a Lei Áurea em 13 de maio de 1888.
 É, mas isso mostra que não se deve desistir das boas idéias. Quando a notícia
chegou aqui, não havia mais escravos em Santos, opinou José Mathias.
E Paquetá disse logo:
 Isso mesmo! O povo santista era a favor da libertação dos escravos e apoiava
os quilombos, locais para onde os escravos fugiam para viver em liberdade.
 Quilombo aqui em Santos! Admirou-se Ana.
 Sim, senhora! Houve vários em Santos. O mais famoso foi o quilombo do
Jabaquara, dirigido por um ex-escravo, Quintino de Lacerda, onde viviam mais de 5mil
escravos fugidos, que trabalham na cidade, informou Paquetá.
Depois de admirarem o final da Avenida Costa, com suas belas palmeiras
imperiais, o grupo voltou à praia, e pelo jardim, andaram em direção ao José Menino.
Paquetá foi o que mais aproveitou o passeio, pois vive no Centro e mora no bairro do
Paquetá, de onde lhe veio o apelido, pois chama-se Paulo Gonçalves.
 Por que há poucos jardins no Centro?  perguntou Paquetá.
 Fácil, disse Ana, o Centro, que a gente chama de Cidade, foi durante séculos, o
lugar onde existiu Santos. Só depois do comércio do café é que a população começou a
crescer e ocupou a orla da praia, onde tinha bastante espaço.
José Mathias corrigiu.
 É, mas antes disso, as pessoas foram morar na Vila Mathias, na Vila Nova, no
Macuco ou nos morros, porque ficavam perto de onde trabalhavam: nos serviços da
Cidade ou no porto.
Brás Felipe acrescentou Veio muita gente de fora do Brasil: os portugueses,
espanhóis, italianos e outros.
Conversando, avistaram no jardim do José Menino uma estátua de bronze.,
 Quem é aquele homem de pé, desenrolando um mapa?  quis saber José
Mathias.
Ao chegarem perto Ana leu.
“A Saturnino de Brito, homenagem da cidade de Santos”.
Foi quando apareceu um jornalista que fazia uma reportagem sobre o saneamento
de Santos. Aproveitando a oportunidade, perguntou se as crianças permitiam ser
fotografadas junto ao monumento. Após a foto o repórter entrevistou o grupo:
 Vocês sabem quem foi Saturnino de Brito?
Ana e Brás Felipe sabiam que ele tinha construído os canais de Santos.
 Certo, mas porque Saturnino abriu os canais sabiam.
Brás Felipe sabia, mas ficou calado.
A jornalista chamada Madô esclareceu:
 Vocês vêem uma cidade bonita, mas no século passado, Santos tinha muitos
problemas de saúde. Havia epidemia de doenças graves como a febre amarela. Como a
maior parte do chão é plana, quando chovia, ficava tudo alagado e a doença é transmitida
por um mosquito que vive em águas paradas. Muita gente morreu de febre amarela e as
pessoas tinham medo de virem para Santos: os negócios do café ficaram prejudicados.
Então, o Governo do Estado aprovou e pagou o projeto de saneamento do engenheiro
Saturnino de Brito.

36
 Legal. Aí a febre amarela desapareceu, adivinhou Paquetá.
 Acabou, mas, antes disso, foi preciso construir nove canais para retirar as
águas paradas e usar a água do mar para limpar os canais, esclareceu a moça. E fazer
uma ótima rede de esgotos para sanear a Cidade.
No grupo, apesar de cansados, todos estavam satisfeitos. Enquanto faziam um
lanche e se distraíram, não notaram quando Brás Felipe desapareceu.
Combinaram então de se encontrar novamente. Decidiram subir os morros de Santos,
começando pelo Monte Serrat, para conhecer a capela e ver a cidade e toda a região do
alto, que faz parte do coral da escola, lembrou a música da fonte do Itororó:

“Fui no Itororó
Beber água não achei,
Achei bela morena
Que no Itororó deixei...”

Iriam depois para o morro de São Bento para visitar o


Museu de Arte Sacra.
Noutro dia, iriam ao Museu de Pesca, na Ponta da Praia,
onde a História de Santos começou, quando os portugueses
em naus e caravelas descobriram a nossa região, em 1502.
Não podiam avisar o misterioso Brás Felipe, mas sabiam
que ele apareceria quando se encontrassem.
Havia ainda tanto que descobrir! Como é gostoso
conhecer a História no seu lugar!

37
Você lembra que Santos era uma vila que fazia parte da Capitania de São Vicente,

e que começou a se desenvolver por causa do plantio da cana-de-açúcar e do


porto?
Martim Afonso trouxe a planta e montou engenhos, na Capitania de São Vicente.
Nesses engenhos, a cana era transformada em açúcar.
As pessoas que trabalhavam nos engenhos eram índios que foram escravizados
pelos portugueses.
O açúcar produzido nos engenhos era mandado para Portugal pelo Porto de
Santos.
No início, o açúcar só era produzido aqui. A Vila de Santos crescia cada vez mais.
Mais tarde, em Pernambuco, começaram a surgir outros engenhos de cana-de-
açúcar. Como Pernambuco é mais perto de Portugal, os navios portugueses deixaram de
vir buscar o açúcar em Santos.
Por causa disso, as coisas foram ficando difíceis.
Você, agora, está no século XVII e irá viajar por um período da História da Vila de
Santos.
Para viajar nessa história, você terá que percorrer a Estrada do Tempo. Mas
cuidado! Muitas surpresas o esperam nesse caminho. Algumas pedras estão faltando e
você terá que vencer os desafios com seus amigos para concluir a viagem.
Boa sorte!
Cristiane Eugênia Amarante
Regras do jogo:
Participantes: 2 a 4 jogadores.
Peças do jogo: 1 tabuleiro e 24 cartas.
Peças complementares (não inclusas no material): 1 dado e
1 clipe colorido para cada jogador.
Objetivo: Percorrer a Estrada do Tempo.
Como jogar?
1. Recorte as quatro peças que compõem o tabuleiro, assim como as fichas, e depois
cole-as em uma superfície mais firme (pode ser cartolina ou papel cartão).
2. Utilize lápis de cor e caneta hidrocor para colorir o tabuleiro.
3. Após cortar as fichas, faça um monte ao lado do tabuleiro colocando-as na ordem
numérica.
4. Faça um sorteio para começar o jogo.
5. Jogue os dados e, em cada pedra numerada da estrada, pare e leia a carta de número
correspondente. Conheça um pouco da história da Vila de Santos e siga a instrução
sozinho, ou acompanhado dos seus amigos, de acordo com o que a carta pede.
6. O tabuleiro está dividido em 4 partes. As partes A e B são inscrições sobre Santos no
século XVII, e as partes C e D sobre o século XVIII.
7. Vence o jogo quem chegar primeiro ao destino final.

Para conservar melhor seu jogo, guarde-o em uma caixa de papelão.

38
1 3
2 Os corsários eram piratas que
A Vila de Santos foi invadida O Engenho dos Erasmos era tinham autorização dos reis dos
por um corsário Holandês o mais importante da Vila de seus países para invadir terras
chamado Spilbergen. Santos. Por ter sido e saquear navios dos países
Ele conseguiu vencer o ataque incendiado, deixou de inimigos.
da Fortaleza da Barra, produzir açúcar. A Holanda era inimiga de
seqüestrou um navio português Isso trouxe muitos prejuízos! Portugal. A Vila de Santos
e incendiou o Engenho dos Volte 2 casas. pertencia a Portugal.
Erasmos. Para se proteger de outros
A Vila sofreu muito com esse ataques, avance 2 casas e
ataque. traga um amigo com você.
Volte 3 casas.

5
Os portugueses não estão
4 mais explorando o açúcar
Os moradores da Vila produzido aqui na Vila de 6
procuraram abrigo na Capela Santos. Muitos moradores da Vila de
de Nossa Senhora do Monte Agora, só se interessam pelo Santos vão embora daqui
Serrat e a santa realizou seu açúcar do nordeste. porque não conseguem mais
primeiro milagre, fazendo O Porto deixa de funcionar ganhar dinheiro e partem com
desabar parte do morro em como antes. Não há quase os bandeirantes.
cima dos corsários, impedindo- embarque de açúcar. O porto O vilarejo fica quase vazio.
os de maltratarem mais a está parado. Para partir junto com os
população. bandeirantes, jogue outra vez
Avance 2 casas cada jogador. Fique uma rodada sem jogar. e leve um amigo junto.

8
7 Os moradores da Vila de
Santos que continuaram 9
Os bandeirantes são homens
morando aqui começaram a Esses produtos eram vendidos
brancos que partiam para o
plantar e vender o que colhiam para os moradores dos
interior do Brasil em busca de
dessas plantações. povoados de Bertioga, São
ouro.
Isso foi bom para a Vicente e Piratininga.
Também “caçavam” índios para
sobrevivência desses Esse comércio entre as vilas foi
serem vendidos como escravos
moradores e também para o muito importante nesse
para os donos de engenhos do
desenvolvimento de um novo período, pois poucos navios
nordeste.
tipo de comércio. atracavam no nosso porto
Escravizar pessoas é algo
Avance 5 casas, cada nesse momento.
horrível!
jogador. Avance 1 casa.
Volte 10 casas.

39
40
10
Para vir de Piratininga (que 12
hoje conhecemos como São 11 Como o Rio de Janeiro ficava
Paulo) demorava muito, porque Os bandeirantes encontram mais perto de Minas Gerais
o caminho era percorrido a pé muito ouro em Minas Gerais e que Santos, os bandeirantes
no meio da mata. voltam a utilizar o Porto de constroem um novo caminho.
As pessoas mais importantes Santos para embarcar esse O ouro passa a ser enviado
eram carregadas por índios ouro. para Portugal pelo Porto do Rio
escravizados. Vamos ajudar Isso faz com que haja mais de Janeiro.
esses índios a chegarem progresso para a Vila de Nosso porto volta a ser
mais rápido? Santos. prejudicado.
Avance 3 casas e convide um Jogue outra vez. Volte para onde está seu
amigo para ajudá-lo nessa último companheiro.
tarefa, avançando junto com
você.

14 15
13 Bartolomeu Faria reúne seus
Bartolomeu Faria, que era um
Nesse novo século, o Porto de escravos, invade o depósito
homem rico e que morava
Santos volta a ser utilizado onde ficavam as sacas de sal,
longe, em Taubaté, ficou
quando Portugal começa a pega quantas quer, paga o
furioso, porque ele precisava
mandar sal para o Brasil. valor que acha justo e volta
viajar dias, descendo a serra
Mas o sal era pouco e por isso para Taubaté.
pelo meio da mata, para
muito caro. Reúna seus amigos e
comprar pouco sal e pagando
Só as pessoas com muito participe dessa revolta,
muito dinheiro.
dinheiro podiam comprar o sal. avançando 2 casas cada um.
Então, ele elabora um plano.
Avance 1 casa.
Jogue outra vez.

16
Como Portugal não tinha muito
sal para mandar para o Brasil e 17 18
Santos não tinha mais produtos Para resolver o problema da Morgado de Mateus faz com
para mandar para Portugal, o pobreza na Vila de São que os fazendeiros, donos de
porto ficou prejudicado. Vicente, o rei de Portugal engenho, voltem a plantar
Às vezes, só vinha um navio manda para cá um homem cana-de-açúcar no Interior da
por ano. chamado Morgado de Mateus. Capitania de São Vicente, que
Isso fez com que a Vila de Será que ele vai conseguir ganha um novo nome:
Santos voltasse a ter sérios transformar a situação? Capitania de São Paulo.
problemas. Pense positivo, A região volta a crescer!
Todos sofrem com isso, avance 1 casa. Avance 2 casas cada jogador.
voltem 1 casa cada jogador.

41
42
20 21
19 Para melhorar o transporte da Agora, sim!
Não era fácil trazer a cana-de- cana até a Vila de Santos, é Esse caminho da Calçada do
açúcar produzida no interior construído um caminho pela Lorena faz com que fique mais
para a Vila de Santos, porque a serra do mar, que foi chamado fácil levar produtos para o
descida da serra era muito de Calçada do Lorena. interior e trazer cana para a Vila
difícil. Muitas pessoas participaram da de Santos, no lombo das
construção desse caminho. mulas.
Volte para uma casa anterior Avance 5 casas e traga um O caminho é feito de pedra e
à do último jogador. amigo para ajudá-lo, possui muitas curvas. Mas é
avançando junto com você. uma construção bastante
avançada para a época.
Jogue outra vez.
23
Esse açúcar é enviado para
22 Portugal pelo porto de Santos.
O Engenho dos Erasmos, que Muitos escravos trabalham
tinha sido incendiado, passa carregando esse açúcar em 24
por reformas e volta a funcionar caixas de madeira muito A Vila de Santos volta a
a todo vapor. pesadas. crescer, tornando-se uma vila
Além de transformar a cana em Nesse século, os escravos não muito importante. Por causa
açúcar, também está são mais indígenas. São disso, muitos navios chegam
produzindo outros produtos negros trazidos da África. com mercadorias de Portugal e
como aguardente e rapadura. Ajude os escravos a carregar carregam o açúcar para lá.
Isso é bom para a nossa Vila. as caixas. Avance 5 casas.
Avance 5 casas cada jogador. Avance 2 casas e convide
seus amigos para ajudá-lo
nessa tarefa avançando 2
casas com você .

43
44
45
46
47
48
49
50
51
52
Bibliografia

ANDRADE, Wilma T. F. Presença da Engenharia e Arquitetura – Baixada Santista .


São Paulo: Nobel, 2001.
____________________Santos – um encontro coma História e Geografia. Santos:
Leopoldianum Editora Universitária, 1992
BARBOSA, Maria V., DIAS, Nelson S. & CERQUEIRA, Rita M.M. Santos na formação
do Brasil: 500 anos de História. Santos: Secretaria Municipal de Cultura, 2000.
BUENO, Eduardo. Náufragos, Traficantes e Degredados. Rio de Janeiro: Objetiva,
1999.
_______________Brasil: uma História A incrível saga de um país, São Paulo: Editora
Ática, 2003.
CABOCLO, Eliane e Irene Barcelos. Gente de São Paulo São Paulo da Gente São
Paulo: Editora do Brasil, 2001.
CARDOSO, David. Santos na História do Brasil. Santos: Grupo Rodrimar.
GOMES, Marco Antônio Ferreira. Nosso Amigo Solo. São Paulo: Embrapa Meio
Ambiente, 2003.
GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO & al. Gohajo – Capitania Hereditária de São
Vicente.São Vicente, 2002.
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO VICENTE. Poliantéia Vicentina – 450
anos de Brasilidade. São Vicente: Caudex, 1992.
NEMI, Ana Lúcia Lana. Didática de História: o tempo vivido, uma outra história? São
Paulo: FTD, 1996.
O PODER DA COMUNICAÇÃO. Coleção de Olho no mundo. Editora Abril, 2000.
Parâmetros curriculares nacionais: história, geografia / Secretaria de Educação
Fundamental. _ BRASÍLIA, MEC/SEF
QUEIROZ, Júlio Ferraz de. Água sempre presente na vida. São Paulo: Embrapa Meio
Ambiente, 2003.
RODRIGUES, Olao. Cartilha da História de Santos. Santos:PRODESAN, 1980.
________________Nos tempos dos nossos avós - Santos de ontem . Santos:
Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras, 1976.
SANTOS, Francisco Martins. História de Santos (vol. I, II e III). São Vicente: Caudex,
1986.
SILVA, Luciano de Lima. Município de Teresópolis: Os Grupos, os Espaços, os
Tempos. Rio de Janeiro, RJ; ACESS Editora, 1997.

Sites

www.novomilenio.inf.br/santos

www.santos.sp.gov.br

www.vivasantos.com.br

www.usp.br/prc/engenho

53