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AFFONSO DE E.TAUNAY

OA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

HISTORIA

DO CA FE

NO BRASIL

VOLUME PRIMEIRO

NO BRASIL COLONIAL

1 727— 1822

(TOMO I )

Edição da'

DEPARTAMENTO NACIONAL DO CAFÉ

Historia do Café no Brasil

AFFONSO DE E. TAUNAY

(DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS)

Historia do Café no Brasil

VOLUME PRIMEIRO

NO BRASIL COLONIAL

1 7 2 7 1*8 2 2

(TOMO I)

^

DEPARTAMENTO NACIONAL DO CAFE

Edição do

CÇÍO DE ESTATÍSTICA

AGO 3n 1939

BIBLIOTECA

DEPARTAMENTO NACIONAL DO CAFÉ

Rio de Janeiro

1939

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I. B. C.

BIBLIOTECA

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RIO DE jÀNei^O

PREFÁCIO

Editando a "História do Café no Brasil", obra que se

credencia ao apreço da elite intelectual pela amplitude de es-

tudos, levelações o pesquisas entrosadas em sua contextura, o

D. N . C. concorre para a difusão de trabalho que se tornara indispensável ao patrimônio ciãtural do pais. A trajetória da

civilização brasileira está sintctisada nas peripécias históricas

do café, e de tal sorte o progresso nacional se coapta e vin-

cula ao destino do produto quer èle, espellmndo-a, reflete toda

a evolução política, económica e social do Brasil. Urgia tra-

çar-se, larga e documentadamente, portanto, uma biografia

sistematizada do café, e o D . N .

C . , confiando ao Dr. Af-

fonso de E. Taunay a elaboração dessa tarefa dificílima, es- tava seguro de êxito, de ves que o laureado escritor é perso- nalidade que avulta, no beletrismo pátrio, como das mais bri- lhantes c autorizadas na matéria.

O café tem sido, desde os primórdios do século XIX, a viga mestra da economia brasileira, razão sobeja para que os

elementos ligados à sua história, esquecidos c dispersos, res-

surgissem ao nosso espírito, em um esforço de recapitulação

minudente, atualisando os fastos da vida nacional, desde a

cliegada da Corte portuguesa até à época hodierna. De D. João VI ao fim do regime monárquico, distenèc-se a "História do

Café no

Brasil". A pena magistral do

Dr. Affanso de E.

Taunay reanima, com singular belcsa, figuras, fatos e episó-

dios obscurecidos pelo tempo, mosirando-nos- como os cafe-

zais, gradativamente, foram plasmando uma nova sociedade,

modificando hábitos, alterando costumes, transfigurando ter-

nários, requintando ambientes. O vale do Paraíba, inundado

pela onda verde dos cafeeiros, iria representar uma força na

História política do Império. Todo êsse ciclo de esplendor e fortuna ê revivido nos capítulos que. se vão ler : o ouro abar-

rotando as arcas dos senhores de terras, afortunados

pelo

braço escravo; o cafezal se alastrando por montes e colinas,

desbravando matas, rasgando estradas, fundando cidades, dila-

PREFACIO

tando sempre a fronteira litorânea, que então dtdimitava a zona

rica do imenso império

brasileiro. A "História do Café no

Brasil," no género, é única, representando primorosa fonte de

conhecimentos que recreiam e instruam, vasados em linguagem

pura e magnífico estilo, característicos peculiares a todas as

obras do eminente escritor patrício. Vai para um lustro que o

Dr. Affonso de E. Taunay, a convite do D . N. C, trabalha na concatenação dos elementos documentais e históricos reuni-

dos nos vários volumes que constituem sua obra. O estudo da fase colonial, ora reproduzido, já fora editado pelo D. N . C. sob o título de "Subsídios para a História do Café no Brasil",

enriquecida, agora, pela parte mais ampla, que aborda os tem- pos imperiais. Evidentemente não se realiza, ainda, obra com-

pleta, de vez que lhe falta a fase republicana, tarefa de que

também se desobrigará, oportunamente, o Dr. Affonso de E. Taunay. Mo momento em que entregamos aos intelectuais brasilei-

ros a "História do Café no Brasil", resultante de um esforço

pertinaz e profundo, não nos devemos esquivar ao grato de-

ver de felicitar

o Dr.

Affonso de E. Taunay pelo notável

lhe confiou, como

justa homenagem a uma das figuras máximas do beletrismo

brasileiro e um dos mais altos valores de nossa literatura his- tórica.

desempenho da tarefa que o D.

N.

C.

Jayme Fernandes Guedes.

ALGUMAS PALAVRAS DE EXPLICAÇÃO

Correspondendo a honrosa incumbência do digno presiden- te do Departamento Nacional do Café, o Sr. Dr. Armando Vi-

dal, abalançamo-nos a compendiar a historia da propagação ca-

feeira no Brasil, o que corresponde, como é obvio lembral-o, a

pretender esboçar vastíssimo quadro.

Assumindo a superintendência da grande organização eco- nomico-financeira, que é o Departamento, incluiu o Sr. Dr. Ar-

mando Vidal, em seu programa, uma série de iniciativas de or-

dem cultural, complementares de sua actuação agricola e com-

mercial em defesa do grande, do principal esteio da economia

brasileira.

Mandado reproduzir, em volume, a tiragem feita pelo Dr. Assis Chateaubriand. a 15 de outubro de 1927, para "O Jor-

nal", do Rio de Janeiro, em edição commemorativa da passa-

gem do segundo centenário da introducção do café no Brasil

escrevia o Dr . Armando Vidal

"O Departamento Nacional do Café, além das funcções de

regularização dos mercados, a mais sensível para o publico em

geral, tem alta finalidade cultural. Esta abrange todos os as- sumptos de natureza agricola, industrial e commercial do café.

e, bem assim, todos os estudos económicos, legislativos e histó- ricos sobre esse producto".

"Tres obras fundamentaes conta divulgar o Departamento

Nacfonal do Café: "Historia do café no Brasil". " Annuario

estatístico" e "Collecção geral da legislação cafeeira".

Presseguindo na directriz que tanto lhe recommenda a ele- vação mental e o interesse pela cultura, pediu-nos o Dr. Ar- mando Vidal uma exposição succinta do histórico da propaga-

ção cafeeira no Brasil, em suas linhas geraes.

Publicada esta pequena monographia, em meiados de 1934,

solicitou o Sr. Dr. Armanda Vidal que delia fizéssemos como

que um abstract, destinado a um dos mais bellos e prestigiosos

órgãos da imprensa illustrada universal Le Figaro Illustré.

A este resumo traduziu distincto homem de letras francez,

autor da versão para o seu idioma, de vários dos nossos livros

capitães : o Conde Mauricio de Périgny

AFFONSO DE E. TAVNAY

Dr. Armando Vidal o pe-

sado encargo de fazer um histórico do café no Brasil. Tal incumbência nos foi depois renovada pelos seus dignos

successores, Drs. Antonio L. de Souza Mello, Fernando Cos-

ta e Jayme Fernandes Guedes, não menos affeiçoados a que se realizasse tal tentamen a que davam o applauso de sua cultura

elevada e apego á tradição nacional.

Commetteu-nos depois o Sr.

La via é

-Não longa, mas longuíssima. táculos a vencer.

F cerrada, a série dos obs-

I

Immenso já se escreveu sobre o café no Brasil e fóra do

Brasil. Nem por menos podia ser, tratando-se de um dos mais

notáveis artigos do commercio universal e do sustentáculo prin-

cipal da economia brasileira.

A xeno-bibliographia, e a nacional, comprehendem verda-

deira bibliotheca, onde, ao lado de monographias valiosas, oc- corre enorme massa de escriptos, de relativa importância.

Em nosso paiz abundam as monographias, os estudos de toda a espécie relativos aos mil e um problemas do producto mestre de nossa riqueza . Nada mais natural, aliás

"O Brasil é o café", tal a phrase desde muito sahida dos lábios de um estadista do segundo Império e a cada passo re-

petida. E hoje, decorrido quasi um século após a enunciação

de tal axioma, pode-se dizer com toda a segurança : O Bra- sii ainda é o café!

Nada mais comprobatório de tal proposição do que o des- locamento do eixo económico nacional, para o sudoeste, desde

que as terras montanhosas, e portanto sujeitas á erosão* das

velhas zonas cafeeiras, cessaram de supportar as lavouras da

planta arábica.

Toda esta bibliographia brasileira encerra muitos capítulos

preciosos, envolve mil e um aspectos, por vezes superiormente

expostos, da historia, lacunosa, e não codificada, de um pano-

rama de civilização que ainda apresenta trechos a descrever e

a pintar. É um ensaio de consolidação da bibliographia existente que

agora nos abalançamos a realizar.

Assumpto das mais dilatadas proporções, o esforço que

exige apresenta-se realmente pesadíssimo. Para tanto nos valemos de excellentes trabalhos realizados

HISTORIA DO CAFE NO BRASIL

por verdadeira legião de trabalhadores e eruditos, antigos e

modernos

Impossível nos seria levar a cabo tão penoso labor, não

fôra o soccorro de taes monographistas Tratando-se de um histórico do café no Brasil, pareceu-

nos indispensável que a introducção a este trabalho compen-

diasse uma summula do que de mais autorizado se tem até hoje publicado sobre os primórdios da lavoura cafeeira, no Oriente,

assim como os principaes episódios da introducção do uso do

café nos grandes paizes occidentaes.

Delles, e cada vez mais notável, provocou o commercio da

fava de Moka a transplantação do cafeeiro á America antilhana

e á Guyana de onde veio ter ao Brasil.

Paturage et labourage ce sont les deux mamelles de la

France, apregoava como tanto é sabido, o grande ministro de

Henrique IV, numa phrase infinitas vezes repetidas. E mere- cendo sel-o, pois traduz a synthese de um estado económico na- cional, numa época em que não havia ainda industria e, por as- sim dizer, apenas officios, e quando a França mal esboçara a

sua politica colonial

A mesma orientação do espirito de Sully levou, em prin-

cípios do século XVIII, o illustre jesuíta italiano, João Anto-

nio Andreoni mais de século e meio tenazmente occulto sob

o pseudonymo celebre de Antonil, desvendado pela argúcia do sábio Capistrano de Abreu --a mesma orientação levou o il-

como o fez, o seu livro, no Brasil

lustre ignacino a intitular,

tão famoso.

Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas é o

titulo deste tratado, inestimavelmente precioso, em que se des-

crevem as duas grandes bases de toda a economia brasileira,

em princípios do setecentismo . As drogas vêm a ser o assucar

e o fumo. E as minas, as do enorme pactolo que apenas começava a

ser explorado, na região do hinterland fluminense, o do Espi-

nhaço e seus contrafortes.

já então duas vezes secular,

creara a canna de assucar. haviam, até fins do século XVII,

realmente prosperado e enriquecido os núcleos onde a gramí-

nea saccharifera vicejara, na tira do massapé de Pernambuco e

na mancha do Recôncavo bahiano

E, assim succedera até que os paulistas revelassem a enor- me bolsa de ouro nativo dos vales atormentados do Espinhaço. Mas esgotada esta e as outras, muito menos opulentas de Goyaz

e Matto Grosso, voltaria o assucar a ser a grande "mama" do

E,

com effeito ao

Brasil,

10 AFFONSO DE E. TAUNAY

* Brasil.

Até que occorresse o colapso da baixa de seu preço

como consequência das perturbações do commercio universal,

creadas pela Revolução Franceza, e o império napoleónico de que nascera a utilização do teor sacharino da beterraba.

Por todos os motivos, sobretudo os de ordem histórica, é

digna de reparos a injustiça enorme, praticada em 1822, quan- do, no escudo imperial do Brasil, recem-independente, deixou

de figurar uma haste de canna.

Mil direitos mais tinha ella

á homenagem de que o ramo de fumo

Só se comprehende, mesmo, esta exclusão por uma ques-

tão de ordem meramente esthetica, pelo facto de que os artistas

que compuzeram tal escudo, J. B. Debret e Felix Emilio Tau- nay entenderam que as córes do grão da rubiacea e a das flo- res do fumo permittiam mais feliz combinação e conjuncto me-

nos assymetrico, mais equilibrado do que se substituísse o ramo

do tabaco pela haste da canna.

Mas assim procedendo deixavam de respeitar a verdade

histórica e, até, a realidade dos factos, pois, em 1822, o assucar

continuava a ser um género do commercio brasileiro incompa- ravelmente mais importante do que o tabaco e mais vultoso do que o próprio café.

Houvesse Antonil vivido e escripto o seu livro cento e vin- te annos mais tarde, já certamente attribuiria a primazia da

"cultura e opulência do Brasil" á planta do café e não á das

cannas na lavra do assucar dos engenhos reaes moentes e cor-

rentes .

Este primado, desde os principios do século XIX, se assig-

nala cada vez mais absorvente e até os nossos dias. continua

avassalador, imperioso

Quando, em 1927, por entre estrondosas festas, se celebrou

o segundo centenário da introducção do cafeeiro no BiHsil, via

Belém do Pará, pediu-nos a Çommissão Central, organizadora

do grande certamen de São Paulo, um lemma para as suas pu-

blicações e cartazes. Não hesitamos em lhe propor estas tres

palavras que nos parecem traduzir a synthese económica nacio-

nal horierna: Café, esteio do Brasil: Coffea Brasiliae fukrum.

E tivemos a grande satisfação de ver tal ponto de vista

immediatamente acceito, in totum. pelos nossos illustres consul-

tantes .

Com ef feito, que seria o Brasil, hoje, sem o café? Onde

iria procurar um succedaneo no commercio universal, artigo de tamanha valia e volume para as suas operações internacionaes no conjuncto dos negócios mundiaes? Que lhe daria pretexto

BISTOBIA DO CAFÉ NO BRASIL

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para a obtenção das letras do cambio indispensáveis á sua civi-

lização?

Sem o café seria o Brasil uma Angola, ou pouco mais.

Assim como na segunda metade do século XVIII a fuga-

cidade dos proventos do ouro trouxe o deslocamento da capi-

tal brasileira, da Bahia para o Rio de Janeiro, enriquecido pelo

commercio com as Minas Geraes, a cultura cafeeira provocou o

opulentamente notável do centro do Brasil em relação ás de-

mais zonas do paiz, a principio na região fluminense e da "Mat-

ta" de Minas, depois na de São Paulo. Para nós outros brasileiros, máxima debctur coffeae reve-

rentia seja-nos permittido escrever a paraphrasear a famosa phrase ciceroniana.

E realmente, repitamol-o, que seria o Brasil sem o café?

Que seria actualmente este enorme arcabouço sem ter, para o

representar no conjuncto do commercio universal, a manipu-

lação de um género de valor também universal?

Se temos câmbio, c'est toi divin café! apostrophemol-o com

o famoso hemístichio delileano.

Se o paiz possue o que possue, em matéria de apparelha-

mento e de recursos normaes: c'est toi divin café! Se não ca-

himos na estagnação dos paizes mineradores do Pacifico, es-

gotados os recursos extractivos: Cest toi divin café!

Se acabados os dias prósperos da canna de assucar e do ou-

ro não baixamos ás condições do atrazo de costa fronteira afri-

cana: c'est toi divin café!

E, com ef feito, que seria do Brasil imperial sem o café?

Que outro factor lhe poderia ter fornecido a potencia financei-

ra de que lhe decorreu, durante decennios, a hegemonia sul-

americana ?

Que seria do Brasil actual sem o café? Onde arranjar su-

bstituto* de seu valor para as exigências imperiosíssimas da ba-

lança do commercio, inexorável para com os povos que não pro- duzindo, regridem?

Onde descobrir género de igual valor monetário? De tão grande apreço e tão alta capacidade acquisitiva sob tão peque-

no volume?

Que era São Paulo antes do café? Dirão os sentimentaes,

a quem impressiona uma imagem de Euclydes da Cunha, a ver-

berar os "fazedores de desertos" que o café arrazou a flores-

ta e atraz de si deixou o ermo em terras fluminenses de serra

acima, nas mineiras da Matta e nas do norte paulista. Continua, em sua marcha, a esterilizar o sólo por toda a

parte onde passa a sua pomicultura, formosa entre todas.

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AF F ON SO DE E. TAUNAY

Mas não se esqueçam os acerbos reparadores que se real-

mente despiu terrenos mal feitos e ásperos, e esgotou-os tempo-

rariamente, operou admirável transmutação de valores. A sei- va da rubiacea deu o ouro com que se fizeram dezenas de mi-

lhares de kilometros de ferro-vias, fez surgir a civilização á fa-

ce das terras onde após as fazendas vieram as cidades.

" Heri solitudo hodie civitas!" Quantas e quantas das nos- sas cidades fluminenses, mineiras e paulistas não poderiam ado-

ptar como divisa este mote? E não é um surto idêntico o que

o café está provocando, exactamente nos dias de hoje, nas zo-

nas ruraes do noroeste paulista, do noroeste paranaense hon-

tem solidão, hoje cheio de cidades

E onde está este outro esteio da nossa economia nacional

sobretudo depois que a borracha baqueou? Não é do café que

o Brasil haure os seus recursos essenciaes? Já não se calcula

que rendeu ao paiz perto de cincoenta milhões de contos de reis?

Assim com o maior espirito de justiça se celebrou em toda

a extensão nacional, nas zonas cafeeiras e nas não cafeeiras, a

ephemeride faustosíssima e bicentenária de maio de 1727.

E as vozes da gratidão relembraram os nomes dos bene-

méritos do paiz, esses precursores que alicerçaram a grandeza

do Brasil agricola moderno nas sementeiras da planta arábica. Sim, porque, irretorquivelmente, ha mais de um século se

pode af firmar

Coffea Brasilkie fulcrum!

II

Até ha bem pouco era a historia do café no Brasil a mais

defeituosa

Sobre ella não havia senão summanas indicações, descon-

nexas lacunosissimas, sobretudo, perdidas na massa de 'enorme

documentação inaproveitada pela legião dos repetidores impeni-

tentes uns dos outros, que assentaram arraiaes no estudo de nos-

sos fastos.

Algumas tentativas sérias se fizeram, de longe em longe,

desde os tempos em que Monsenhor Pizarro, Ayres do Casal,

Sylvestre Rebello nos forneceram escassíssimas notas sobre os

primórdios da cultura cafeeira em nossa terra. Facto curioso : nos escriptos do primeiro brasileiro que tra-

tou de café Fr. José Marianno da Conceição Velloso, nem uma única nota occorre historiando a introducção da rubiacea

no Brasil.

E, no emtanto, a respeito da fava arábica imprimiu o il-

HISTORIA DO CAFf; NO BRASIL

13

lustre franciscano primeiro talvez dos scientistas nascidos

no Brasil e cujo valor seria absurdo querermos frizar dois

livros assaz volumosos do seu O fazendeiro do Brasil sobre as excellencias do café e suas vantagens para a grande colónia por-

tugueza.

Nada mais fez porém do que traduzir uma série de traba-

lhos francezes e inglezes, sem, no etntanto, lhes appôr uma úni- ca nota nacional.

Tão mal esclarecidos permaneceram, durante mais de um

século, os fastos do café entre nós, que, nem sequer, foi o pu-

blico brasileiro informado da verdade sobre os factos da pri-

meira apparição da rubiacea no seu paiz.

Totalmente ignoravam os nossos antigos monographistas o

papel capital que, acerda do caso, representa o Pará e nem se-

quer parecem ter jámais ouvido falar no nome do introductor

do café no Brasil : Francisco de Mello Palheta Nem mesmo os mais notáveis como Borges de Barros, Vis-

conde da Pedra Branca, em

1813, Ayres do Casal em 1817,

Monsenhor Pizarro em 1820, José Silvestre Rebello em 1833, Balthasar da Silva Lisboa em 1835, Januário da Cunha Barbo-

sa em 1842 e até o eminente botânico Francisco Freire Allemão

em 1856.

Escrevendo em 1860 a sua Monographia do cafeeiro e do

café mostrava Frederico Burlamaqui, aliás homem de notável

instrucção, ignorar o que quer que fosse sobre os factos capi-

tães de 1727 e de seu determinador

Assim também, em 1879, Paulo Porto Alegre na sua aliás excellente Monographia do café ou Theodoro Peckolt na His-

toria das plantas alimentares e de gozo do Brasil.

E, facto curioso, tudo provinha da falta de pesquisa, aliás

facílima, desde que já em 1847 publicara a Revista do Institu-

to Hisíorico Brasileiro e Viagem e visita em o bispado do Grão

Fr. João de São José Quei-

Pará, em 1762 e 1763, do bispo D.

roz.

Se os autores nacionaes revelam tal insciencia, que esperar

dos estrangeiros?

Já, em 1910, imprimindo-se o quarto tomo do Livro do centenário, trouxe outro desenvolvimento, em matéria de dados

para o histórico do café, a pequena memoria de Moura Brasil alli inserta. Verdade é que tivera inspirador do mais alto qui-

late : Capistrano de Abreu Em 1915 divulgou Manoel Barata preciosos informes com-

pendiando documentação nova, variada e abundante, em sua

memoria : A antiga producção e exportação do Pará.

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A F F O N S O DE E. TA VN AY

Afinal a occurrencia do segundo centenário do café, em

1927, promoveu notável recrudescência da inspecção dos fastos

cafeeiros, cabendo enorme parte desse conjuncto á do esclare-

cimento dos factos dos primeiros annos.

Com a confecção do numero especial do "O Jornal", ten-

tamen verdadeiramente notável, ensejo houve para que se es-

crevessem numerosas memorias de cunho histórico muitas del-

ias realmente valiosas.

No meio dessa enorme contribuição representada pelas mil e muitas paginas dos dous alentados tomos, editados pelo De- partamento Nacional do Café, quanta cousa valiosa

Abre-se a documentada monographia de Basilio de Maga-

lhães Quem era Francisco de Mello Palheta onde, o douto his-

toriador aproveitou os ricos subsídios esparsos de Capistrano,

Rio Branco, Rodolho Garcia, Barata, etc, e outros elementos oriundos do próprio esforço.

Do grande trabalhador a quem se deve este estudo de gran- de valia ainda recolheu a obra duas outras contribuições de lar- go e valoroso tomo: Bibliographia brasileira e estrangeira so- bre o café no Brasil e As lendas em tomo da lavoura do café.

Seu filho e discípulo, Hildebrando de Magalhães, tão pre-

maturamente desapparecido, galhardamente lhe acompanhou os passos, publicando uma "monographia", reimpressa em 1934, sob o titulo perfeitamente cabível de Historia do Cafá, excel-

lente trabalho sob todos os pontos de vista.

São estas as memorias básicas da edição de "O Jornal",

onde se contém enorme copia de artigos históricos, vários del-

les excellentes mas de muito menor tomo, comtudo, do que os

dos dois eruditos acima citados.

Além deste material bibliographico, grande copia de outros elementos existe em livros, periódicos e publicações de hemero- teca, assignalados na resenha larga e utilíssima, mas ainda for-

çosamente bem lacunosaj de Basilio de Magalhães.

Oos elementos regionaes avultam sobretudo, como é de es-

perar, nas grandes regiões cafeeiras do paiz.

Assim, ha immenso onde respigar, e numa documentação

do melhor quilate. E é deveras de se lastimar que em publica- ção official como essa que, em 1929, fez imprimir o governo do

Estado de Minas Geraes, para commemorar o segundo cente-

nário do cafeeiro no Brasil, vejamos apparecer, como base para

a historia da introducção do café no paiz, um romance pseudo-

historico filiado á escola notabilizada pelos processos do mestre

humorista Mendes Fradique.

HISTORIA DO CAFÉ XO BRASIL

III

Já que o estudo por nós emprehendido teve de tomar as di-

mensões pedidas pela vastidão e a importância do assumpto, entendemos que se tornava absolutamente imprescindível pre-

cedel-o por um apanhado da historia geral do café, até a im-

plantação definitiva, da rubiacea em nossa terra.

Para tanto nos valemos sobretudo de duas obras realmen-

te notáveis.

É a primeira a monumental monographia de William H.

Ukers, o AU about coffee, publicada em 1922, obra que repre-

senta uma summula de esforços realmente prodigiosos.

É a segunda incomparavelmente menor como porte, e o seu

programma annuncia, aliás,