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ENCICLOPEDIA DELTA LAROUSSE F.D.U.U. . es -EDITORA DELTA S.A. RIO DE JANEIRO — BRASIL ‘TRADUGAO, ADAPTAQAO E AMPLIAGAO DA ULTIMA EDIGKO DA ENCYCLOPEDIE LAROUSSE METHODIQUE par Paut Avot LIBRAIRIE LAROUSSE — PARIS itsa_apqumetnos PELA Eprrdra Deut 8. A. Dmeyr0s De. TRADUGA_ PARA. A LINGUA PORTUGU! YSoceré ExcycLorémique Univensttte, zat 1960 VERSIFICAGAO EM LINGUA PORTUGUESA — 3239 Poema-objeto de Femand Léger para “Liberté”, de Paul #luard (Paris, 1958) . A VERSIFICACAO EM LINGUA PORTUGUESA © verso.€ seus apoios ritmicos, — A rima. — A aliterasis argleliamo. O acréetico. — O nimero fixo de slabas. — mento. — O — O encadea- ‘A estzolagio, — Os poemas de forma fixa. — O verso livre. © ‘verso ¢ seus apoios ritmicos. — © verso & a unidade ritmica do discurso -poético. Para salientar 0 ritmo se tém valido os poetas, nos varios idiomas, de recursos formais como cejam os acentos de intensidade, os valores de silabas (quantidade), as:rimas, a aliteragéo, 0 encadea- ‘mento, o paralelismo, 0 acréstico, 0 “niimero fixo de sflabas. Estudaremos aqui os que tém sido utilizados-em nosso idioma, a comecar pela rima A tima, — Rima é a igualdade ou semelhanga de sons na terminagio das! palavras: asa, casa; casa, cada, Na rima asa, casa ba paridade completa de ‘sons a partir da vogal tOnica; na rima asa, cada a paridade € s6 das vogais: as rimas do primeiro tipo se, chamam consoantes, as do se gundo toantes. Na lingua francesa costumavam os _poetas rimar também a consoante anterior % vogal tonica: € a chamada rima com consognte de apoio. Houve um poeta brasileiro que empregou intencionalmente ésse tipo de rima — Goulart de Andrade. Seu exemplo nio foi seguido. Admite-se entre as rimas consoantes a de vogal aberta com vogal fechada: bela, estréla. Tanto poetas-brasileiros como portuguéses rimam como consoantes duas. palavras que tém na silaba tonica um ditongo, outra uma vogal fechada ou aberta: beijo, desejo; beijo, Tejo (lorbela Espanea). Postas brasileiros tém pra- ticado tal rima com palaveas agudas: ‘azuis, luz (Alberto de Oliveira, Poesias, 1* série, Garnier, 1912, pag. 209). Poetas portuguéses imam os « ditongos nasais de e em: cées, elguéns. (Antdnio Nobre, “Males de Anto,” $6) Artur Azevedo ‘rimot, para efeito jocoso, @ palavra Iémpada com a palavra estampa, com- pletando a rima com a palavra tona da, que comega o verso seguinte, para cuja medida concorre: Mandowme o senhor vigério Que the comprasse uma limpada Para alumiar a estampa Da senhora do Rosério. Manuel Bandeira utilizouse désse tipo de rima em “Vulgivaga” e “Cancéo das légrimas de Pierrot”, Camaval, Poetas. brasileiros con- temporineos (Geir Campos, Cassiano Ricardo e outros), sem davida por influéncia de Louis Aragon, que foi o primeiro a usi-lo na poesia francesa, tém-no introduzido nos seus poemas, mas fazendo a ou as vogais atonas pertencer ao verso da rima e nao ao seguinte: +++ seu campandrio de ideal ladrilho, entre 0 azul do ar ¢ 0 chdo que palmilho, (Geir Campos, “O sino”, Arquipélago.) Pode a rima ser feita entre a palavra final de um verso e a palavra onde cai a_ primeira pausa do verso seguinte. Ba rima interior, que foi muito praticada pelos romAnticos em quadras de versos decassilabos: Dorme, que eu velo, sedutora imagem, Grata miragem que no érmo Dorme — Impossivel — que encontret na vidal Dorme, querida; que eu ndo volto aquil (“A Judia", de Tomas Ribeiro) Pagina de rosto do “Tratado de Metrificagio” de A. F. Castitho, Lisboa, 1858. Ha outros exemplos esporadicos de rima in- terior; assim, da palavra -firial de um’ verso com palavra anterior do mesmo verso: Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos (“Noturno de Belo Horizonte”, de Mario de Andrade); Unico € certo € apends 0 deserto /, Que éfruto do mondlogo absoluto ("O Rio da Divida”, O Arranharcéu de Vidro, de Cassiano Ricardo). Sio chamadas pobres, ¢ devem ser. evitadas, as rimas de palavras da mesma categoria grav matical: advérbio com advérbio, adjetivo com adjetivo, substantivo com substantivo, etc, so- bretudo nas formas demasiado abundantes, como 08 advérbios em mente, os adjetivos em _ ante ‘ou ente, os substantivos em ia ou eza, os verbos no infinitivo, no particfpio pasado, nos preté- rritos imperfeitos e perfeitos, etc. Todavia, podem tais, rimas admitir-se quando de palavras que emprestam forca de expressio a0 contexto, como se dé nas duas primeiras oitavas de Os Lusiadas. Nio procede, pois, a critica de Anténio Feliciano de Castilho classificando ‘de “‘imperdoaveis desares” as rimas assinalados, navegados, esfor gados, edificaram, sublimaram, gloriosas, ’ vicio- sas, valorosas, dilatando, devastando, libertando daquelas magistrais estrofes. Também sio de usar com grande cautela as rimas chamadas ricas ou raras, 0 oposto das rimas pobres ou triviais, e que soam as vézes tio’ afetadamente. Os versos que nao rimam sio chamados brancos ou soltos; os que esto fora da medida, quebrados, Ha quatro modos peincipats de dispor as rimas: emparethadas, cruzadas, enlagadas e misturadas. Rimas emparelhadas sio as que se sucedem duas a duas, como no “Minuete” de Gongalves Crespo: Espagoso € 0 saldo: jarras @ cada canto ‘Admirase 0 lavor do teto de pausanto, Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias: Um enorme sofd; largas tapegarias. Rimas cruzadas séo as que, em ver de se sucederem em parelhas, se alternam. Numa quadra, por exemplo, 0 primeiro veiso rima com 0 terceiro, e o segundo com 0 quarto: Na rua, @ direita, porqué é a minka dana, ‘A minha musa eo meu pendao. Mas @ minha esquerda na cama, Do lado do meu coracdo. (Heréldica", de Onestaldo de Pennafort.) ‘Nas rimas enlagadas, rimam-em: parélha dois versos entre dois outros também rimados: Vaise a primeira pomba despertada, Vai-se outra mais... Mais outra... E enfim dezenas De pombas vao-se dos pombais apenas Raia, sanguinea e fresca, « madrugada. (“As pombas”, de Raimundo: Correia.) Rimas misturadas sio-aquelas em que a su- cessio livre, como nestes versos de Alma em Flor de Alberto de Oliveira: Foi....nem Tembro bem que idede eu tinha, Se quinze anos ou mais; Creio que s6 quinze anos... Foi at fora ‘Numa fazenda antiga, 5 Com o seu engenho ¢ as alas De. risticas senzalas, Seu .extenso terreiro, Seu campo verde ¢ verdes canaviais Era... Também o més esquece agora ‘A infiel_meméria minhal Maio... junho... ndo sei se julho dige, Julho’ ou agésto. Seé que havia 0 cheiro Do sassafrds em flor; A notagéo das rimas se fax com letras mir niisculas, sendo os versos que rimam representados pela. mesma letra, Assim, o esquema de duas rimas emparelhadas € aa; de uma-quadra com rimas cruzadas, abab; de outra com simas enlaga~ das, abba; dos versos de Alberto de Oliveira citados atris, abcdeefbcadfg. A aliteragio. — No seu sentido geral, consiste a aliteragao em repetir um fonema em palavras 3240 seguidas, préximas, ou distantes mas simétri- camente dispostas, Em sentido restrito, é na poesia, a identidade da consoante inicial, ou da sflaba’inicial, de duas ou mais palavras num verso, Neste sentido definiu-a Pedro Henriquex Urefia como “rima ao contrério — rima dos comegos das palavras, em que basta a igualdade dos" sonidos iniciais ‘ou, em certas ocasides, 0 regulado contraste entre éles"’. A aliteragéo tem quase sempre efeito de harmonia imitativa: E, as curvas harpas de ouro acompanhanilo, Tibios flautins finiesimos gritavam; Crétalos claros de metal cantavam. (“A tentagio de Xendcrates", de Olavo. Bilac.) O mais longo exemplo de aliteragio em lingua portuguésa é 0 de Cruz e Souza em “Violdes ‘que choram...” (Faréis) : Vores veladas, veludosas vores, Voliipias dos viol6es, vozes veladas, Vagam nos velhos vortices velozes Dos ventos, vivas, vas, vulcanizadas. A aliteragio da vogal ténica tem 0 nome de eco: a aliteragio de Bilac, citada atris, é um bom exemplo de eco das vogais ténicas i e a O encadeamento. — Consiste 0 encadeamento em repetir de verso a verso fonemas, palavras, frases € até um verso inteiro, Foi recurso ritmi- co. muitissimo usado na poesia medieval e é freqiiente na poesia moderna em versos livres. Exemplos .colhidos em Augusto. Frederico Schmidt: No entanto éste motivo escondido existe. ‘Néo veio, esta tristera, da saudade da que é sempre a Ausente Nem da sua graga desaparecida..|. (repetisio de for i nema) Pensei em mortos que morreram entre indiferentes. Pensei nas velhas mulheres... (repetisio de palavra) ‘Otho o cfu e enfim descanso. Otho 0 cfu © as estrélas fri ‘Olho 0 céu.alto ¢ enorme ¢ descanso. Olbo’ 0 eéu frio ¢ simples... (repetigio de frase) No principio foi um balanso continuo e vagaroso. Depois fot descendo uma. sombra indistinta, Un grande leito surgiu ¢ lengéis brancos como esbuma. No principio foi um balango continuo e vagaroso. Depois tudo cessou. (repetisio de verso) Qs dois primeiros exemplos sio do poema “Tristeza desconhecida”; 0 terceiro, do poema “Descanso”; 0 quarto, do poema “Génese I” (Canto da Noite.) © paralelismo, — Paralelismo é repetigio de idéias, sinonimia de vocébulos. Cantiga de amigo de Pero’ Gongalves de Pérto Carreiro, trovador portugués do tempo de Afonso III. ~ VERSIFICACAO EM LINGUA PORTUGUESA — 3241 ; Q anel do meu amigo Perdio 0 lo verde. pinho E chor'eu, bela! Q anel do meu amado Berdi-o 50 lo verde ramo . E chor'eu, bela! Perdi-o so lo verde pinho; Por en chor'eu, dona virgo, E chor'eu, bela! Perdivo so lo verde amo; Por en chor'eu, dona d'algo, E chor'eu, bela! Nessa cantiga hi, de estrofe a estrofe, re- petigdo de ideia, sinonfmia de vocébulos ( amigo, amado; pinho, ramo; dona virgo, dona d'algo). ‘A par désse paralelismo, ocorre também o en- cadeamento pela repetisao’ dos versos. “Perdi-o s0 lo verde pinho” e “Perdi‘o solo verde ramo,” raxio por que receberam as cantigas medievais désse tipo 0 nome de paralelisticas encadeadas. © acréstico. — No acréstico as letras iniciais dos versos formam um nome de pessoa ou coisa: reside na escrita e nao € percebido pelo ouvido, Exemplo: * Maria, tens no teu vulto A grasa da ave e da flor. Rendovte mais do que amor 1 Imenso: rendote culto.” Ah! como a mae do Senhor. © niimero fixo de silabas. — A contagem das sflabas no verso (metro) difere da contagem gramatical: 0 poeta pode elidir uma vogal na vogal seguinte dentro de uma palavra, ou da silaba final de uma palavra para a silaba inicial da palavra seguinte. A’ primeira figura se chama sinérese; & segunda, sinalefa, Assim, em “pieda- de” as. silabas gramaticais si0. quatro; mas 0 metrificador, elidindo a vogal i na vogal ¢, pode reduzir as silabas da palavra a trés: pie-davde. No membro de frase “entre estas” conta o gramatico quatro silabas; 0 poeta, porém, elide ‘oe final de “entre” no ¢ inicial de “estas” € conta 86 trés silabas. A elisio: pode atingir mais, de duas vogais, como na frase “quero a estréla”, cujas sllabas métricas sio quatro: que-roaes-tré ‘la, Umas vogais sio- mais duras de elidir que outras: as elisdes violentas como atéa-govra (até agora), atéeu (até eu) comunicam ao verso certa férca escultural, a0 passo que 0s hiatos, isto €, a nao elisio das vogais, lhes confere certa suavidade’ musical melédica, A escolha da elisio, ou do hiato depende da natureza do verso e do gésto do poeta. Nao se admitem, porém, as sinalefas de duas vogais Stonas, 0 que tornaré o verso demasiado frouxo: no poema’ péstumo de Goncalves Dias intitulado “No jardim":o verso “De Inglaterra a prin cesa” é ‘um septissilabo frouxo, porque obriga ao hiato do ¢ no i, ou do a no a. Se a Ultima palavra do verso fér paroxitona, grave se chama éle; se oxitona, agudo; se pro- 3342. — LINGUA E LITERATURA paroxitona, esdnixulo. Contame as sflabas Promicas até a ltima vogal t6nica do. verso. Bamos abaixo quatro versos de Artur Azevedo, grafando em itilico as silabas contadas: Costumam-argorre os-i-ricos Versosfanernes-te estilo: “Twésisto ewsowequilo, Twésassada ewes-sim.” ‘Tal sistema de contagem, também usado no idioma francés, foi introdutido em nossa lingua por Antnio Feliciano de Castilho no seu Trev Tado de Metrificacéo Portuguésa. Antes déle, contavam-se tddas as sflabas do verso grave, nao fe contava a tltima do verso esdrixulo, ¢ con’ siderava-se incompleto o verso agudo, pelo que contava como duas a viltima silaba métrica. Des: tarte, o$ versos de Artur Azevedo citados acima eo ‘chamados heptassilabos (de sete silabas) segundo 0 sistema de Castilho, hoje prevale- ente, e& octossilabos (de ito silabas) segundo © sistema antigo, que ainda prevalece na lingua espanhola, e que em moss idioma pretendeu festaurar 0 professor M. Said Ali. Advirtase que se trata de mera questio de nome, que no afeta a estrutura do verso. Chama-se ceswra 2 pausa intencional prati- cada; no interior do verso, As duas partes, nem sempre iguais, em que fica o verso dividido pela cesura se dio nome de hemistiquios. A cesura funciona como. apoio ritmico na estrutura do verso longo. Exemplos em decassilabo, hendecas- sflabo e dodecassilabo: i Sete anos de pastor| Jacd servia (Cambs) ~ Tange 0 sino, tan|ge numa voz de chdro (Vicente, de Carvalho) ‘As méos da minka Méelsébre a minha cabeca (Olegirio fi Mariano) « ‘A pausa final do verso pode recair em pa lavra que deixa incompleto o sentido da frase, o qual se vai completar nd primeira ou primeiras palavras do verso seguinte. Para a primeira si faba tonica déste € entio transferida a pausa, ¢ a dese efeito ritmico se dé em francés o nome enjambement, para tradugio do qual propés Said ‘Ali 0 vocdbulo:cavalgamento. Na estrofe 60 do Canto V de Os Lusiades ocotrem trés belos exemplos de enjambement: Desferse a nuvem negra ¢ c'uin sonoro Bramido-muito longe 0 mar soou, Eu, levantando as mdos ao santo ebro Des Anjos, que tdo longe nos guiou, ‘A Deus pedi que removesse os duros Casos que Adamastor contou futuros. A nomenclatura dos versos regulares, como foram praticados em nossa lingua até o advento da poesia modernista, se fax mediante prefixos gregos, designativos dos numeraisde 1.até 12: ‘monossilabos, dissilabos, trissilabos, tetrassilabos (também se” diz quadrissilabo), pentassflabos (redondilha menor), hexassilabo (redondilha me- nor ou herdico quebrado, heptassilabo (redon- ditha maior ou simplesmente redondila), octos- Glabo, eneassilabo ¢ dodecassilabo (alexandrino). Foram raros, os exemplos de metros mais longos (Bilac escreveu' em versos de 14 silabas o seu soneto “Cantilena”). Os metros.de uma, duas e trés silabas nao comportam senéo uma’ pausa, “Mirio de Andrade usou com freqiiéncia o primeiro no poema “Dangas”: quebra Gueime vreina dance sangue goama. Exemplo notavel de dissilabos € 0 poema “A valsa” de Casimiro de-Abreu: Tu, ontem, Ne danga, Que cane, Voavas.. + . Na sitira de Gongalves Dias “A certa autor ridade” (Obras Péstumas) os wltimos dezenove versos so trissilabos: Realmente, Coronel, = Tens uma alma Bem cruel... (Os metros de quatro silabas podem levar paisa interior na primeira (Murchamse as” flores), na segunda (Entéo brincando) ‘ou na terceira (Salomé vinha). . ‘A redondilha menor (cinco sflabas) pode levar pausa interior em qualquer das quatro primeiras silabas: ‘Trépida batia A géta no vidro, Escorrendo logo, E sem cair, trémula. Pode ainda levar mais de uma patsa interior (Nao sei, nem. vi, era). © mesmo se passa com 0s hexassilabos ¢ os heptassllabos. Bstes, redondilhas maiores, si0 0 metro da preferéncia popular. Exemplos de uns e de outros: . Sumiuse o sol espléndido Nas vagas rumorosas. (6 silabas) Aud nas fléres se encontra ‘A diferenca da sorte Umas enfeitam a vida, Outras enfeitam « morte, (Redondilbas) Os octossflabos foram raros antes de Castilho. Bate estreveu: “O-metro de oito silabas, pode-se dizer. que ainda nio é usado em portugués.” VERSIFICACAO EM LINGUA PORTUGUESA — 3243 Acrescentando: “.. .quando mais e melhor culti- vado, a julgarmorlo pelos seus elementos, e pelo que os franceses déle tém chegado a fazer, pode * vir ainda a set muito apreciado”. O vaticinio realizowse. Os poetas parnasianos serviram-se déle com freqiiéncia, nunca deixando, porém, de fazer cesura na quarta sflaba. Por que me vens con 0 mesmo riso, Por que me vens coma mesma vex Lembrar aquéle paraiso...? (Requiescat™, de Bilac) No entanto jé Castilho registrava outias pau- sas: na segunda silaba (Morrer e sem ao meu encanto); na terceira e na sexta (Terno amor que me fax feliz); Machado de Assis empregou- vas tédas em “Mésca azul”, “Flor da mocidade” e outros poemas. : Dos metros de nove sflabas mais usual € 0 que leva pausa na terceira e na sexta silaba, como 0 praticou 0 nosso Gonsalves Dias na so berba maldigéo do velho tupi de “I-Juca-Pirama”: ‘Tu choraste em presenca da morte? eal ‘Na presenga de estranhos choraste? 1 Nao descende o cobarde do forte: Pois choraste, meu filho ndo és! “Qualquer outra composigéo deturparia esta me- dida”, lecionou Castilho. Nao se pode dizer tal do eneassilabo acentuado na, quarta silaba, tio “Imagistralmente empregado no poema “Plenilinio” de Raimundo Correia: a Além nos ares, .trémulamente, Que visdo branca das puvens sai? Luz entre as frangas, fria e silente; Assim mos ares, trémulamente, Baléo aceso, subindo vai. ‘Temos que se podem construir eneassilabos com pausa na segunda e na quinta sflabas (Néo sei nem preciso saber nada) ou ssmente na quinta (Nao imaginei coisa nenhuma): tudo depende da habilidade e gésto do poeta, O metro de dex, silabas, chamado verso herdico porque foi preferido para os: poemas épicos, ow ainda italiano, porque da Itélia o trouxe Si de Miranda para Portugal, leva ordiniriamente _pausa na sexta silaba (Vai-se a primeira pomba despertada), ou entio na quarta e na oitava (Ora (diteis) ouvir estrélas! Certo). Todavia, aparece aqui e ali na poesia italiana, misturado aos versos désse tipo, outro com pause na quarta na sétima sflaba (Ma se conoscer la prima radice, Dante). Tal verso ji era conhecido na peninsula ibérica sob o nome de gaita galega. Pagina de rosto do ““Tratado de Versificagdo” de Olavo Bilac ¢ Guimaraens Passos (Rio’ de Jatieiro, 1905). Enoontramolo de vez ei quando em Camées: Pésto que todos Etiopes eram; Doce repouso de minha lembranga. Também em Antonio Ferreira ¢ Si de Miranda, Outra variedade de decassilabo € 0 que trax pausa na segunda ¢ na sétima si- labs (A férrea, precipitada bigoma). Conde- noua Castilho e talvez. por isso no tenha sido usada_pelos nossos rominticos, parnasianos ¢ simbolistas, Hoje sio muito encontradigos em nossa poesia ésses e outros decassilabos corfentes a poesia francesa, como os que levam pausa na quinta e na oitava silabas, ou ainda .na quinta e na sétima: * © sonho pastou. Trax magoado o rit, Magoeda a cabega exposta @ humidade. ("Rondé de Colombina™, de Manuel Bandeira.) © metro de onze sflabas, chamado de arte maior, as vézes leva pausa na segunda, na quinta € na citava silabas e entio pode oferecer um ritmo enérgico, pelo que foi preferido por Gon- galves Dias em alguns de seus poemas indianistas de feigio épica: Sao rudos, severos, cobertos de gléria, ‘Jé prélios incitam, jd. cantam vitdria. ("I—Juca. Pirama") 3244 —'LINGUA E LITERATURA ‘As vézes pode levar pausa apenas na quinta silaba e entao 0 efeito é, ao contrario, de extrema dogura: Ail hd quantos anos que eu parti chorando Déste meu saudoso, carinhoso lar! © nome alexandrino dado ao metro de doze silabas deriva do Roman-d’Alexandre le Grand, comegado no século XII por Lambert Licors ¢ terminado no século seguinte por Alexandre de Bernay. $6 *penetrou em nossa lingua pelos meados do século XIX. Castro -Alves usou-o em seus poemas “Poesia e mendicidade”,’““A Boa Vista", “Pelas sombras”, “O tonel das danaides", “Immensis orbibus anguis”, “Deusa incruenta™ “No monte”. Usou-o, porém, como o praticam 08 poetas de lingua espanhola, isto é, como com- posto de dois versos de seis sflabas, mas sem atender & exigéncia de nfo terminar 0 primeiro hemistiquio em palavra esdraxula e, quando ter- minar em palavra grave, comegar 0 segundo hemistiquio por vogal (Era uma tarde triste, mas Timpida e serena). Os nossos parnasianos obedeceram estritamente A ligio dos clissicos franceses na maneira de cesurar o alexandrino. Todavia, cléssicos ¢ parnasianos nem sempre fa- ziam,coincidir a pausa do sentido com a pausa do hemistiquio. Bilac e Guisnaraens Passos, no seu Tratado de Versificacao, exemplificam como certo 0 verso Davathe a custo a sombra escassa e per quenina porque a vogal final do primeiro hemis- tiquio (014 de séimbra) se elide na vogal ¢ inicial do segundo hemistiquio; ¢ como errado 0. verso Davarlhe a custo a sombra fraca ¢ pequenina, por nao haver elisio, No entanto a maneira na- tural de ler ambos os versos € fazendo duas pausas intetiores, a primeira em custo, a segunda em escassa e fraca, Best ritmo ternario, sem atengio A cesura mediana, ‘e outros, como o guaternario (3+3+3) ¢ os: de corte irregular so correntes na moderna poesia de lingua por- tuguésa, Exemplos de Ribeiro Couto: © obhar nevoento... 0 passo lento... sonolento, E em meio aquele desalinho pitoresco.. « Pelos caminhos levando félhas de céres... As caricias delicadiisimas da esséncia. .. Néles nio ha a elisio mediana, mas o ritmo 0 mesmo que resulta da leitura natural dos versos seguintes de Francisca Jilia, onde existe a elisto: Sao esqueletos que de bracos levantados. . E senta-se. Compse as roupas. Olha em tOrno... © Natureza, § Mae pérfidal tu, que crias... Tanto abérto, que se transforma € se rendva... Di-se o nome de versificagio polimétricd aquela em que se misturam dois ou mais metros. A. mistura de decassilabos com hexassilabos se da a-denominagio de silva, Estrofago. — O discusso poético ora se apre- senta em’ forma corrida, ora distribuido em grupos de versos, que se denominam estrofes, estncias, cobra. ou talho (poesia trovadoresca) e copla (cangées populares). Composigées ha em que um certo numero de versos sio repetidos depois de cada estrofe: € 0 refrdo, refrém ow estribilho. ‘As estrofes podem ser simples, isto é, formadas de versos da mesma medida; compostas, onde certos versos maiores se compdem com outros menores; e livres, onde se admitem versos de qualquer medida, Nas estrofes compostas 0 verso maior ‘6 nor- mativo, ¢ 0 seu ntimero de silabas impée 0 do verso menor. Assim, a0 heptassflabo se associa © de trés ou quatro silabas; a0 decassilabo, 0 hexassflabo; ao hendecassflabo, 0 pentassilabos a0 alexandrino, os de oito, seis ou quatro silabas. Segundo as estrofes se compéem de dois, trés, quatro, cinco, seis, oito ou dex versos, re~ cebem respectivamente as denominagies de dis- ticos, tercetos ou tristicos, quadras ou quartetos, quintilhas, sextilhas, oitavas e décimas. As, estro- fes de sete e nove versos nao tém nome especial. O poema de um s6 verso se denomina monéstico. © distico € muito empregado pélo povo nos seus adagios (Agua mole em pedra dura / Tanto. bate até que fura). Exemplos famosos sio ‘os de Guerra Junqueiro em “A ligrima” ¢ 0 de Castro Alves ém “O ‘tonél das. danaides. O- esquema das rimas é aa, bb, cc, ete. No poema em-tercetos 0 esquema & aba, beb, cdc, ded, e assim por diante, sendo ad libitum G niimero déles, mas a titima estrofe deve ser uma quadra, Se, por exemplo, o iltimo terceto houver sido ded, a quadra obedeceré ao esquema efef. Tal & 0 tipo clissico de’tercetos, que era muito empregado para as elegias, epistolas ¢ éclogas. Os tercetos dos sonetos, apresentam di- versas disposigées de rimas: aba, bab; aab, ccb: abc, abe; & outras Nas quadras as rimas se dispdem das seguintes. maneiras: abcb; abab, abba, Os versos “podem. ter todos a mesma medida, ou os impares uma € 0s pares outra, ou ainda os ‘trés primeiros uma e 0 quarto outra, Exemplo do primeiro tipo, a quadra popular. Do segundo: Debrugada nas. éguas de um regato A flor disia em véo rente, onde bela se mirava... ‘Ai, néo me deixes, ndo!” (SNéo me deixes!", de G. Dias.) Aci Exemplo do terceiro tipo: No ar sossegado um sino canta,’ : Um sino canta no ar somibrio. Palida, Vénus se levanta... Que frio! A. quintitha clissica, como foi praticada por Si de Miranda, obedece a um dos dois esquemas abadb e abbeb: Os santos de longas terras Sempre foram mais buscados, Os da nossa estéo cansados. Busquemos santos das serras Que esto mais desocupados. Escrever com louvaminhas, ‘Nao € minha profissac Tirar unhas'ao leao Pora pélas nas galinhas, Outros o facam, que eu nio. Outros esquemas: ababa, abba, aabab. B ainda, deixando 0 primeiro verso sélto: abcbe ou abccb. A sextitha antiga era de uma s6 rima_nos segundo, quarto sexto versos (abcbdb). Assim compds Gonsalves Dias as suas Sextilhas de Frei ‘Antio. "A sextilha moderna usa outros esquemas, com duas rimas (ababab, abbaab, abbaba) ou trés (aabccb, podendo. os versos em b ser de metro menor que os versos em a, e sendo. de ordinério a grave e b agudo). Os rominticos cultivaram muito a sextilha do tipo desta de Casimiro de Abreu: Eu nasci além dos mares Os meus ares, ‘Meus améres ficam' Id! — Onde canta nos retiros Seus suspiros, Seus suspiros 0 sabid! Av estrofe de sete versos foi muito usada na poesia trovadoresca e a distribuicao das rimas era habitualmente abbacca. “Pedro Ivo” de Alvares' de Azevedo esti escrito em -decassilabos, salvo 0 sétimo verso, que & herdico quebradoj rimando segundo 0 esquema aabebbc. Em “Pequenino morto” de Vicente de Carvalho 0s versos sto hendecassila- bos, salvo o tiltimo, que é pentassilabo, ¢ rimam abacbac. Na “Ultima cangio do beco” de Manuel Ban- deira, escrita em redondilhas, rimam apenas o segundo e o sétimo verso. 5 ‘A oitava apresenta um tipo invariavel, a char mada heréica, e outro variivel, a lirica. A oitava herdica, assim denominada por. ser 2 usual nos poemas épicas, compéese de decas- silabos, que obedecem 20 ‘seguinte esquema de rimas: abababec, como se pode verificar em ‘qualquer estrofe de Os Lusiadas. A oitava Ifrica admite grande variedade. Pode ser a simples. justaposigao. de duas quadr ababcded ou abbacdde. Tem, porém, mais ‘uni- dade nos esquemas abbcadde, aaabcecb, abcbdddb. Exemplo do primeiro tipo: A pethice tom oie uta em graves Pensamentos; A mocidade tem sonhos, VERSIFICACAO EM LINGUA PORTUGUESA — 3245 A inféncia, presseritimentos. Leva a morte a cada instante Uma esperanga perdida, Sonhar, pressentir, pensar... E nisto se esvai a vida. (“Infincia, mocidade, velhice"”, de Prancisco Otaviano.) Exemplo do segundo: Uma tarde cor de rosa... Uma vila assim modesta, Assim tristonha como esta... De pescadores, também... Sébre a planicie avenosa Por onde 0 Jordao deriva, Pousa a sombra evocativa Das montanhas de Siquém... (Vicente de Carvalho) Os roménticos cultivaram ése tipo de oitava, mas deixando sem rimao primeiro e o quinto verso. (Casimiro de Abreu, “Meus oito anos”). Exemplo do terceiro: . Quando 9 sot queima as estradas, Enos vdrzcos cbrasades Do vento. as quentes lufadas Erguem novelos de pé: Como é doce em meio ds canas Sob um teto de lianas, Das ondas nas espadends Banhar-se despida e sé! (ONa fonte”, de Castro Alves.) Exemplo do quarto: Entdo repeti ao povo: — Desperta do” sono, teu! Sansdo! derroca as édlunas! Quebra os ferros, Prometeu! Vesiivio curyo — néo pares, Ignea coma sélta ads ares, Eri lavas inunda os mares, Mergulha 0 glédio no céu! (*Pedro Ivo”, de Castro. Alves.) Tipo especial de oitava é o triolé, forma me- dieval, hoje sb empregada na poesia ligeira, na qual o primeiro verso.se repete como quarto, eo primeiro e 0 segundo como sétimo e oitavo. Exemplo: As cantiges que tu centas Fogem-me os mdgoas antiges. .. Sao tao alegres ¢ tantas As cantiges que tu cantas! ‘Minhas tristezas espantas Com: tuas velhas cantigas As cantigas que tu cantas Fogem-me as mdgoas antigas. (Valentim Magalhies) ‘A. estzofe de nove versos, pouco usada, pode ser definida como uma quadra e uma quintilha justaposta. Na cantiga de amor de Airas, Nunes que comeca pelo verso “Amor. faz, a mim amar tal senhor” a distribuigio das simas & ababeddcd. No poema “Visio” emprega Machado de Assis o esquema aabedbedb. . A estrofe de dez versos, a décima, € a jus taposigio de uma quadra'e uma sextilha, ou 3246 — LINGUA E LITERATURA de duas quintilhas. Exemplo da primeira € a seguiate esparsa de Side Miranda: A vossa bule de amor ‘Nao é pera tdda a gente: Perdoa a culpa sémente, A pena néo, nem a dor. E assi faz amor com ela, Que com esperanca.incerta Traz 6 mare morte certa Leandro, ¢ Hero a janela, ‘Assi que de amor ¢ dela ‘Mais se abraca que se aperta. Exemplo da segunda, do mesmo autor: Assi me tém repartido Extremos que ndo entendo; De téda parte corrido, De t8das desacorrido, De nenhuma me defendo. A vida estd mal’ segura, Eu tenho outro mor cuidado: Que mal em tanto estimado Que nesta desaventura Me faz desaventurado! Poemas de forma fixa. — Os principais poemas de forma fixa cultivados et:nossa lingua Fo 0 sonéto, o rondé, o rondel, a balada, 0 canto redl, 0 vilancete, a vilanela, a sextina, o pantum e, 0 haicai. sonéto apresenta duas variedades: 0 sonéto italiano © 0 sonéto inglés sonéto italiano compde-se de dois quartetos . e dois tercetos, A ~distribuigio das rimas @ nuito variavel. No, sonéto cléssico.os quartetos Go construidos sdbre duas rimas; os tercetos, sbbre duas ou trés.- Eis os esquemas para os quartetos: abba | abba; abab | abab. Para, os Goreetos: cde | ded; cde | cde; ced | eed; cdd. | ded; ede | ded; cde | ede. Biconsiderado irregu- facidede misturar os dois esquemas de quarteto; por exemplo, ximar num quarteto abba e no ‘outro baab ou abab ou baba. ‘Mais irregular ainda @ nao rimar os versos do segundo quarteto com os do primeiro (abab |cded). O esquema que parece comunicar 20 sonéto maior unidade ¢ Farmonia formais é abba | abba | cdc | ded. Exemplo de Bocage: Sobre estas durss, cavernosas’fragas, Que o marinho furor vai carcomendo, ‘Me estdo negras baixies n’alma fervendo, ‘Como fervem no pego as créspas vagas. Razdo feroz, 0 coragdo me indagas, De meus erros a sombra esclarecendo, E vs néle (ai de mim!) palpando ¢ vendo De agudas ansias venenosas chagas. Gego a meus males, surdo a teu reclomoy Mil objetos de horror co a idéia eu corro, Solto gemidos, ldgrimas derramo Razdo, de que me serve o feu socorro? Mandasme ndo amar: ett ardo, et amo; Dizesme que sossegue: eu pena, eu morro. “Di-se o nome de coroa' de sonetos a uma série de quinre, em que, a partir do segundo, cada um ‘tem como. verso verso do sonéto anterior, ¢ o décimo quinto se Compée dos versos repetidos, 08 quais devem formar um sentido, Geir Campos renovou entre nds essa facanha virtuosistica, mas’ fugindo 20 esquema ortodoxo das rimas, quer dizer, riman- do livremente ¢ as vézes nao rimando. Os poetas modernos, iliés, tém tomado em relagio & construcao do sonéto italiano téda sorte de liberdades. Jorge de Lima, em seu Livro de Soietos, rima as vézes apenas dois versos quais” quer ou nfo rima nenhuns ou sima os quartetos segundo 0 esquema abcd | abd, etc. Cassiano Ricardo rima, no sonéto “O. herdi triste", apenas ‘os tiltimos versos dos quartetos € tercetos (Iuas, ruas, duas, suas); em outro sonéto (“Eva ma tutina”) sustenta uma rima Gnica nos versos pares dos quartetos, no segundo verso do priv Ineiro terceto € no’ primeiro verso do” segundo quarteto. Outros poetas vio ao ponto de nio guardar da forma do sonéto italiano senfio a Gistribuigio em dois quartetos e dois tercetos: sonetos (se ainda se poder chamar assim) em versos livres. © sonéto inglés, s6 muito recentemente intro- duzido em nossa lingua, compoe-se-de trés quar tetos e um distico, Obedece ao esquema abab | cded | efef | gg ou abba | cdde | effe | eg, fixado por Surrey 20 tempo de Elisabet. $6 tem pois de comum com o.,sonéto italiano 0 nimero de versos. No tiltimo dos “Quatro sofetos de meditagio™, de Vinicius de Morais, os versos estio agrupados como 0 sio os de um sonéto italiano, mas na realidade constituem um sonéto inglés: teés quartetos, com rimat independentes, @ um distico, Como tal vamos transcrevé-lo: Apavorado acordo em teva. O luar B como o expectro do mew sonho em mim E sem destino, ¢ louco, sou 0 mar Patético, sondmbulo ¢ sem fim, Desgo da noite, envolto em sono; Como imds, atraioo firmamento Enquanto os bruxos, velhos ¢ devassos, ‘Assoviam de mim na vox do vento. eos braces Sou 0 mar! sou 0 mar! meu corpo informe Sem dimensdo ¢ sem razdo me leva Para o siléncio onde o Siléncio dorme Enorme. E como 0 mar dentro da treva Num. constante arremésso largo €