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Norbert Ebel

BOI E BURRO

OX UND ESEL

Portugiesisch von Christine Röhrig, São Paulo, 2005

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Christine Röhrig, christinerohrig@webcable.com.br

Förderung der Übersetzung durch: / This Translation was sponsored by:

Röhrig, christinerohrig@webcable.com.br Förderung der Übersetzung durch: / This Translation was sponsored by:

Norbert Ebel

BOi e Burro

Um tipo de peça de natal

Tradução Christine Röhrig

(1 ª versão – setembro 2005)

2 personagens

BOi, o boi

Burro, seu companheiro de estábulo

E uma misteriosa criança abandonada

Idade recomendada

Acima de 4 e adultos

Canção de natal do Burrico

Sou um Burro, um velho animal

I-a

Passei a noite de natal em Belém numa cocheira Vigiando a noite inteira i-a.

Estava eu lá bem quietinho

i-a

Só às vezes dava um coicinho Ao meu lado o BOi e o cavalo

Os três reis, nenhum vassalo

i-a

Jesus menino era uma graça

i-a

calmo, não fazia pirraça sorrindo tentava puxar

a barba do rei Baltazar

i-a

Mas papai José não gostou

i-a

olhou para Jesus e falou:

“menino preste atenção

barba de rei não se puxa não!”

i-a

Mas Maria, sua mulher

i-a

sorriu e falou a José:

“Amado, não se abOrreça espere até que ele cresça”

i- a

Mas os reis nem se importaram,

i-a

ao contrário, até gostaram

trouxeram sálvia e essências

e ouro em resplandecência

i-a

Só queriam comemorar

i-a

Os reis Belchior e Baltazar

E também o mouro Gaspar

Os reis só queriam brindar

i-a

Sou um Burro, um velho animal

I-a

Passei a noite de natal

em Belém, numa cocheira

Vigiando a noite inteira

i-a.

Numa noite supergelada de inverno, num estábulo em Belém Um boi, chamado BOi, sacudindo o frio do corpo, retorna alegre ao seu estábulo quentinho, para comer seu merecido jantar. Coloca o guardanapo, pega garfo e faca, abre o bocão e quando está prestes a saborear o capim cheiroso como se fosse uma grande porção de espaguete com molho de tomate, dá uma olhada na manjedoura e pára admirado.

BoI: Mas que diabos – (olha ao redor) Burro? – Burro! Não está? É típico, sempre

que a gente precisa dele

de todos os lados) Mas que porcaria! (procura pelo Burro) Burro! – Onde é que se enfiou? Não consegue ser pontual! Típico! (aproxima-se do corpo estranho) Mas quem é que fez uma coisa dessas?! Porcaria! – Burro! (tenta, cuidadosamente, afastar o corpo estranho de sua comida) Oh, ainda está

vivo, está se mexendo. Pior ainda! – Burro! (toma coragem e faz uma segunda tentativa de alcançar sua comida, a criança resmunga) Não, não, não! Nem pensar! Pssst! Quietinho, bem quietinho! Psst! (grita) BURRO!!!

(observa o corpo estranho em sua manjedoura

BuRRO: (que acabara de entrar, desavisado) Ahn, quê?

BoI: Mas onde é que diabos você se enfiou! Sempre que a gente precisa de você

BuRRO : Você não faz idéia do que foi que aconteceu hoje, você não vai acreditar! Eu já estava a caminho de casa, quando encontrei a velha dona Serafina deitada no chão, sabe aquela, a bruxa das verduras, lá da zona norte, ela escorregou na pista de gelo que as crianças fizeram na frente da quitanda dela, ficou ali deitada sem poder se mexer, parece que foi uma fratura da coxa do pescoço, parece não, foi isso mesmo, com toda certeza, então, aí eu tive de carregar a dona Serafina, carregar a velha bruxa no lombo e levá-la até o médico, sabe qual, aquele careca lá da zona sul, tive que atravessar a cidade inteirinha carregando a velha que não parava de se lamentar, e quando a gente chegou lá, demos com a cara na porta, daí a gente lembrou que o doutor estava viajando, de férias na estação de esqui nas montanhas de Golan e aí então que a dona Serafina começou a se lamentar de vez, que isso era uma catástrofe, ainda mais justo agora que os netos dela iam passar os feriados com ela e que ela não tinha nem feito bolo e como é que ela ia fazer agora, e nessas a gente voltando para a zona norte,

BoI: (enervado) Burro!

BuRRO:

taca atravessar a cidade

BOI: Chega!

BuRRO:

e quando a gente chegou,

BOI: Burro!

BuRRO:

a vizinha disse

BOI: (grita) Cala a boca!!!

BuRRO:

não, não foi isso que ela disse. Ela disse

(BOi olha muito bravo para

Burro. ) Eu não estava dizendo mais nada

Só pensei que fosse te interessar.

BOI: Estou interessado em bem outra coisa. (aponta a manjedoura)

BuRRO: Típico!

BOI: O que é isso aqui?

BuRRO: Tua manjedoura.

BOi: Estou falando: dentro da manjedoura.

Burro: Teu jantar.

BOi: Sei, sei, meu jantar

Burro: Tem algum problema? Não está bom? Está estragado ou mofado ou tem

pouco ou

(descobre o corpo estranho) Oh.

BOi: Pois é, oh. Mas por que cargas d’água ele foi parar na minha manjedoura?

Burro: Sei lá!

BOI: Se é para ser uma piada, eu não estou achando graça nenhuma!

BURRO: Pois é, nenhuma

BOI: Então tira ele de lá! Tira já!

BURRO: Mas não fui eu que coloquei aí.

BOI: Não quero nem saber! Tira já daí!

BURRO: (examina a manjedoura com cautela) Oi. E aí? Quem foi que te colocou aí? Olha, ainda está vivo, está se mexendo.

BOI: Tanto pior, meu amigo, tanto pior!

BURRO: Não é melhor a gente deixar ele aí?

BOI: Em cima da minha comida? Tá maluco?

BURRO: É, em cima da comida não vai dar.

BOI: Não vai dar pra ficar em lugar algum! Aqui não é lugar para um, um pode ser?

o que

BURRO: Sei lá! Um bebê, um bebezinho. Um, xi, bebê humano.

BOI: Ah, não me diga. E pode me explicar o que um bebê humano está caçando na manjedoura de um boi?

BURRO: Ah, sei lá! Será que não é um bebê especial?

BOI: Então você é um Burro especial.

BURRO: Pode ser que seja o meni no Jesus.

BOI: BObagem!

BURRO: Por que não? É, por que não? Está na época e além disso está escrito, como é que é mesmo: “E aconteceu, naqueles dias, que saiu um decreto da ”

parte de César Augusto, para que todo

BOI: O quê?

BURRO: Um decreto da parte de César Augusto

BOI: Decreto?

BURRO: É, secreto,

secreto,

ah, você está me deixando confuso. Isso mesmo, um

decreto, é, um decreto, uma ordem que todo mundo se arrolasse

BOI: Arrolasse?

BURRO: É, se alistasse, alistasse. Manja, contar gente?

BOI: Tipo contar carneiros?

BURRO: É, tipo assim. E todos iam alistar-se.

BOI: Onde? Assim, sem mais nem menos?

BURRO: Não, cada um na sua própria cidade. Quer dizer, ali onde ele nasceu.

BOI: Sei, uma corrida desenfreada, uma multidão se aglomerando nas estradas!

BURRO: E no meio da multidão, subiu também José da Galiléia a fim de alistar-se com sua mulher, Margarida ou Marilda, não Maria, era Maria o nome dela.

BOI: O José e a Maria, no meio da multidão, pela estrada.

BURRO: É e a Maria estava grávida.

BOI: Grávida? Ela pra parir e ele sai com ela nesse estado?

BURRO: É, para Belém, onde ele tinha nascido.

BOI: Então vieram para cá?

BURRO: É. E quando chegaram aqui, o bebê queria sair da barriga.

BOI: Compreensível! Estava cheio de toda essa muvuca e desse empurrra- empurra na estrada.

BURRO: É, mas onde é que iam deixar a criança? As hospedarias estavam lotadas.

BOI: Todos os hotéis e pensões lotados? Os hoteleiros estavam quebrando a cabeça pra saber onde é que iam arrumar tantos ovos para o café da manhã de todos esses hóspedes.

BURRO: E aí José e Maria procuraram um celeiro, ou estábulo

BOI: Do tipo desse aqui? Não tinham nada que caçar aqui!

BURRO: É. E aqui a Maria deu à luz a seu filho e envolveu-o em panos e deitou-o na manjedoura e –

BOI: No meu capim?

BURRO: Onde mais? Não tinha lugar nos hotéis.

BOI: (desconfiado) Sei, sei, e isso tudo está escrito. Não sabia que você sabia ler.

BURRO: Pois é, é, na verdade eu ouvi dizer

quer dizer, me contaram.

BOI: Você não deve acreditar em tudo que te contam.

BURRO: E se for verdade?

BOI: Bobagem! Como é que você pode ter certeza que justamente este bebê aqui é o menino Jesus?

BURRO: Sei lá. Também diziam que “Todos ficaram a sua volta e que ele irradiava um brilho celeste”.

BOI: E? Você está vendo alguma coisa brilhar?

BURRO: (olha a manjedoura com esforço) Não. Não está brilhando.

BOI: Então!

BURRO: Mas ele está dormindo e talvez não brilhe quando dorme?

Pausa.

BOI: E os pais?

BURRO: Quem?

BOI: O tal José e a Marilda?

BURRO: Maria.

BOI: Foi o que eu disse. – Cadê eles?

BURRO: Sei lá. Fazendo compras? Presentes pro filho. Agora é época de dar presentes.

BOI: A essa hora? Não seja ridículo! Tira ele daí!

BURRO: Mas uma vez

que o menino Jesus está deitado na manjedoura, ao menos

uma vez você podia ter um pouco de paciência.

BOI: Menino Jesus para cá, menino Jesus para lá. – Estou é com fome e é agora!

BURRO: Não grita desse jeito! Você vai acordá-lo!

BOI: Pra mim está ótimo! Se acordar quem sabe sai daí sozinho.

BURRO: Acho que ele ainda é muito pequeno pra andar.

BOI: Então tira ele daí!

BURRO: Por que não tira você, ué?

BOI: Porque não fui em quem colocou ele aí.

BURRO: Nem eu.

BOI: (severo) Tira ele daí!

BURRO: Tá certo. (aproxima-se da manjedoura, enternecido observa o pequeno ser) Não é uma belezinha? Mais que gracinha!

BOI: (Revira os olhos)

BURRO: Tão pequeninhinho, tão delicadinho, que coisinha mais lindinha, bonitinha, cuticuticuticuti, bilubilubilubilu (pára de repente) Ele cuspiu em mim.

BOI: Bem feito. (imita, bilubilubilu

)

Será que agora você faria a enorme gentileza

de afastar essa coisa da minha comida!

BURRO: (aproxima-se da manjedoura de onde se ouvem gorgolejos) morder?

E se me

BOI: Morda de volta! Afinal você não tem esses dentões só para ficar ruminando porcarias.

BURRO: (faz que vai tirar a trouxa da manjedoura) Sabe o que é, dá só uma

olhada, ele tá fazendo uma cara tão esquisita. Não sei não quer.

acho que ele não

BOI: Não quer, não quer! Desde quando se pergunta as crianças o que querem? Anda logo!

BURRO: (tira a trouxa da manjedoura com cuidado, a criança chora) Ó aí ó, tá vendo, ele não quer!

BOI: Não dá pra agüentar! Será que não é possível comer o jantar sossegado!!!?

BURRO: Melhor eu colocar ele de volta.

BOI: De jeito nenhum! Suma com ele daqui! Fora do estábulo! Não dá pra agüentar!!!

BURRO: Mas lá fora tá um frio de trincar!

BOI: Ele que pensasse nisso antes!

BURRO: Lá fora vai congelar!

BOI: BObagem! Eu também não congelo lá fora!

BURRO: Mas é que você tem um pelo bem grosso.

BOI: Talvez cresça pelo nele se ele ficar lá fora.

BURRO: Desalmado.

BOI: Repete! O que que eu sou?

BURRO: Desalmado.

BOI: Eu ralo o dia inteiro, fico puxando o arado com as costas como um

BURRO: BOi?

BOI: Com certeza!

BURRO: Eu também! Pois eu também!

BOI: Você? Quando muito você carrega as velhas pela cidade e descansa em cada esquina, enquanto elas põem as últimas fofocas em dia, isso sim

BURRO: Também é trabalho!

BOI: O quê? Es palhando essas histórias sem pé nem cabeça, que eu ainda tenho que ficar ouvindo de noite? Em vez de deixar eu ingerir sossegadamente um pouco de alimento para recuperar as forças

BURRO: Mas eu deixo

BOI: Como, se tem um babão, deitado em cima da minha comida, assim sem mais nem menos!? E você ainda diz que eu sou um o quê??? Espera aí! (quer agredir o Burro)

A criança chora mais alto ainda; começa uma perseguição desenfreada.

BURRO: (segura a criança como um escudo) Cuidado! Se cair

BOI: Que caia!

BURRO: Não caia não!

BOI: Não estou nem aí!

BURRO: Cuidado!

BOI: Então tira daí, covarde!

!

BURRO: Ponho aonde?

BOI: Onde ninguém pisar!

BURRO: Onde é que ninguém pisa? Não tem nenhum lugar além da

BOI: Oqueoquê! Falei pra tirar daí!

BURRO: (mostra a manjedoura) Ali?

BOI: De jeito nenhum!

BURRO: Mas então onde? Onde? Me fala! Onde é que eu devo ir???

BOI: Não dá pra agüentar! (considerando que a criança não dá sossego e chora cada vez mais alto) Tá certo, por mim, coloca aí dentro de novo. Pois não, coloca de volta na manjedoura! Não dá pra agüentar!

Burro coloca o bebê de volta; a criança cala.

BURRO: Viu só!

BOI: Tá, tá, tá!

Pausa; os dois se encaram em silêncio, ofendidos.

BOi: (resolve de repente) Então tá, você que quis! (vai até a porta do estábulo e abre)

Lá fora -- tempestade e nevasca.

BURRO: O que eu quis?

BOI: Ou eu ou o menino Jesus. Pode escolher. Eu vou lá fora e só volto quando essa coisa tiver sumido daqui. (sai; fecha a porta)

BURRO: Mas – lá fora está frio. BOi! BOi! (corre até a porta e abre-a) Está muito frio aí fora!

BOI: Você não se importa com isso! (fecha a porta)

BURRO: Mas, não –

BOI: (abre a porta) E você disse que o meu pelo é grosso.

BURRO: Espera!

BOI: O quê?

BURRO: Ah, nada não.

BOI: O quê?

BURRO: Tem corrente de ar!

BOI: Desde quando virou sensível?

BURRO: Não é por nós, é o pequeno.

BOI: Estou falando, leva embora! Eu vou! (fecha a porta)

BURRO: Mas – como é que eu posso – onde é que eu levo? BOi! BOi!

BOI: (abre a porta) O que foi?

BURRO: Como é que eu posso – pra onde eu levo?

BOI: Problema seu! Enterra, ou joga pela chaminé, ou transforma numa cenoura

ri) Não seria nada mal, uma cenoura, haha, uma cenoura

poderia comer

(feroz)

Comer! (fecha a porta)

Ao menos eu

BURRO: Mas – (resignado) O que é que eu vou fazer com você? Não posso fazer você desintegrar no ar. Não é minha culpa, sabe, não é mesmo. Eu ficaria

com você, mas ele

fundo ele tem um bom coração mas às vezes está terríve

ele é sempre assim, como vou dizer

não leve a mal, no terrivelmente

cansado, e aí só quer saber de descansar, sabe, e aí

Boi (abre a porta) Se você quer que eu não só congele mas também morra de fome, continue fazendo assim! (fecha a porta)

BURRO: Mas o que estou fazendo? Eu podia levar você embora. Pra velha dona Serafina? A velha bruxa da verdura da zona Norte, sabe? Hoje de manhã ela

escorregou na pista de gelo

nem com ela. Fratura da coxa superior do pescoço, escorregou e ploft, a coisa foi feia, sabe. – E outra pessoa lá da cidade? Bom, iam adorar, bem no meio do feriado, todos cheios de coisas pra fazer. Não ia ser uma boa, sabe. Você ia parar direto na soleira da porta, no meio da neve. Horrível! (pensa) Esconder? Talvez seja uma boa. Eu te escondo um pouco até ele se acalmar. Depois de comer ele costuma melhorar de humor, sabe. (experimenta diversos esconderijos, todos os cantos, mas sempre fica visível. Finalmente coloca-o no chão e cobre-o de palha. Um esconderijo miserável) Mas você tem de ficar bem quietinho. (Vai até a porta e abre-a)

Ah não, só que ela agora não está podendo

BOi está quase congelado.

BURRO: Pode entrar, ele foi embora.

BOI: BOm. Já não era sem tempo! Nos meus chifres já estão se formando caramelos de gelo. (olha ao redor) Como foi que se livrou, tão rápido?

BURRO: Simplesmente joguei pela janela. Ploft!

BOI: Ploft?

BURRO: É, ploft, sumiu!

BOI: Desalmado!

BURRO: Eu? Só porque você falou

BOI: Só porque eu falei, só porque eu falei! Não tem vontade própria?

BURRO: Você fica falando, faz isso, faz aquilo, e daí eu faço e aí você briga comigo!

BOI: Não estou nem aí, com o que eu falei e deixei de falar e com o que você fez. O que importa é que a coisa foi embora e finalmente vou conseguir jantar sossegado. (quer se atirar na comida)

(debaixo da palha ouve-se choramingar)

BOI: Burro?

BURRO: O quê?

BOI: O que é isso?

BURRO: O quê?

BOI: Esse choramingo.

BURRO: Que choramingo? Onde?

BOI: Eu é que te pergunto!

BURRO: Pois é, você é que me pergunta. Não estou ouvindo.

O bebê chora mais alto.

BOI: Teus ouvidos entupiram?

BURRO: Ah, esse? Bem, esse, sei lá. Deve vir lá de fora. Também hoje o vento está assobiando que é uma barbaridade (abre a porta)

BOI: (que há tempo descobriu o monte suspeito de palha) Burro!

BURRO: Oi, o quê?

BOI: Fecha a porta e pára de disfarçar!

BURRO: (o faz) Disfarçar o que

BOI: Está ouvindo, não vem de fora.

BURRO: Não?

BOI: Quer dizer que você jogou ele pela janela?

BURRO: É sim.

BOI: Mas não vem de fora!

BURRO: O bebê?

BOI: O choro!

BURRO: Vai ver que entrou engatinhando? Só pode ser na hora que a porta estava aberta.

BOI: Ah, então agora de repente ele sabe engantinhar?

BURRO: Vai ver que é um bebê superdotado.

BOI: Burro! Vê se não me irrita! Você sabe muito bem de onde é que vem. Vou sentar nesse monte de palha e esperar até que você se livre.

BURRO: Não! No monte de palha não! No monte você se sentar em cima.

tem o

você vai se sujar se

BOI: Ai, quanta preocupação. (quer sentar-se)

BURRO: Pára! Não! Espera! Tá, certo, vou admitir, eu não joguei ele para fora. Está aí embaixo.

BOI: E por que, diabos

BURRO: Ai, não, não fique furioso. Eu não pude, entende? Não sou um desalmado.

BOi está perplexo; o bebê começa a berrar.

BURRO: Vou colocá-lo de volta aí, senão vai sufocar, ou alguém ainda acaba caindo em cima. (coloca a criança na manjedoura)

BOI: Atreva-se!

BURRO: Mas aí dentro ele ao menos fica quieto.

O bebê fica quieto.

BOI: (controla-se) Então você pôs ele pra fora. BOm, meu amigo, então presta bem atenção: se você não quiser, que eu coloque você junto com esse chorão babão para fora, faça alguma coisa para que suma daqui.

BURRO: Está certo. (desesperado) – Mas o quê?

BOI: Não faço idéia. Vai procurar os pais ou alguém que possa cuidar dele. Aqui é que não pode ficar.

BURRO: Tá certo, tá certo, eu vou! Eu faço qualquer coisa pra gente voltar a ficar em paz. – Mas se eu não encontrar ninguém, não pense que eu vou voltar. (quer sair)

A criança começa a chorar.

BOI: Burro! Espera um pouco, Burro!

BURRO: O que foi?

BOI: Por que é que será que está choramingando agora? A gente nem está mexendo nele?

BURRO: Sei lá. Para mim tanto faz. Eu vou atrás dos pais, eles devem saber. (quer sair)

BOI: Burro, não me deixa sozinho com esse chorão! Faz ele ficar quieto!

BURRO: “Procura os pais dele!”, “Faz ele parar!” – O que mais???

BOI: Primeiro uma coisa, depois a outra.

BURRO: O que primeiro?

BOI: Faz ele parar de chorar! – Por favor!

BURRO: Tá bom. (vai até a manjedoura e olha para dentro) Pssst! Ei, menininho Jesus, você tem de ficar quietinho. Psst, pssst! Eu vou procurar o papai e a mamãe, e quando eu voltar, vai ter uma surpresinha, tá? Mas só se você ficar bonzinho, tá? Bem bonzinho, tá?

O bebê continua chorando.

BURRO: Será que está com fome? Talvez ele precisa comer

BOI: Se eu preciso comer, não interessa a ninguém

BURRO: O que será que esse bichinho come?

BOI: Não faço a mínima idéia. O que é que você come?

BURRO: Eu? Ãhn, como a planta cardo, gosto de cardo. E você?

BOI: Capim! (lança olhar lânguido para o capim na manjedoura)

BURRO: Não, de capim ele não gosta. Nem tocou.

BOI: Mas esse tal de cardo, também não.

BURRO: Não.

BOI: Leite, seu tapado! Quando se é pequeno e não se tem dentes e não se sabe ruminar o que resta?

BURRO: Leite!!! Claro! – Vou até o estábulo vizinho buscar algum!

BOI: (chama por ele) E não esquece dos pais.

BURRO: Tá certo. (sai)

BOI: (olha pra manjedoura) E aí?

O bebê gorgoleja.

BOI: Está deitado na minha comida?

Bebê ri

BOI: Você bem que podia escorregar um pouco pro lado, para que eu possa comer um talinho

Bebê gorgoleja.

BOI: É sim. Você deixa eu alcançar o talinho?

Bebê começa a choramingar.

BOI: Seja bonzinho, eu só quero ,

Bebê grita.

BOI: Tá bom, tá bom, eu não quer o comer você. Eu só queria

O bebê chora mais alto.

BOI: Cala essa boca, o BObão, o paspalhão

Cada vez que o BOi aproxima a boca do capim, o bebê chora mais alto.

BOI: Assim não dá pra agüentar! Oh, seu sapo de brejo, eu devia

( quer bater,

mas desiste e recolhe-se num canto em busca de controle) Você tem sorte de eu ser tão bondoso.

O bebê cala.

BURRO: (volta com um saco de leite) Você não imagina! Lá fora tá o maior caos. Tem soldados por todo lado, armados com facas, vadiando pra lá e pra cá como se quisessem conquistar toda a Arábia e também tem uma estranha

ah

deformação com presentes.

BOI: Uma o quê?

BURRO: Uma degeneração oficial ou como se diz

BOI : De - ge o quê?

BURRO: Não, uma, uma detonação, quer dizer, delegação, isso mesmo, delegação. Tem três reis em visita oficial, vestidos com mantos coloridos e golas de pele e coroa, mas estão a pé, seguiram uma estrela e procuram um Matias.

BOI: E Quem é que é esse Matias?

BURRO: Sei lá, não entendi direito. Pode ser também que seja Massias ou coisa assim? Em todo caso, ãh, Salvador, querem presentear o Salvador.

BOI: Mas o que será que é o Salvador?

BURRO: Sei lá. Vai ver que era Saltador, ou Salgador ou sali

BOI: (olha pra criança choramingando e babando na manjedoura) Salivador! E afinal, você arranjou o leite?

BURRO: Ah sim, sim, ah sim, o leite! As vacas disseram que ele tem de tomar

devagarinho e que tem de ficar deitado no macio e no quentinho e tem de, ãh,

acho que é isso apetite!

(coloca

o pacote de leite na manjedour a) Pronto, bom

Criança continua chorando.

BURRO: Mas por que não está comendo, se está com fome?

BOI: Vai ver que nem está com fome e só quer encher a nossa paciência.

BURRO: Ou não gosta de leite.

BOI: BObagem! Todos os filhotes gostam de leite. Quando você era pequeno você também não gostava?

BURRO: E como! Toda vez que estava com fome – e era com bastante freqüência – eu ia até as tetas da minha mãe e mamava até ficar cheio. (olha para a criança que chora) Mas esse aqui

BOI: Ele não anda, não mama e rouba o último resto dos nossos nervos.

BURRO: Ele nem sabe andar! Entendeu, Boi, ele não sabe. Nesse caso a teta tem de chegar até o bebê (segura o pacote de leite em frente à boca do bebê)

Bebe com gula e cala.

BOI: (balançando a cabeça) Mas que coisa mais dependente esse menino humano.

BURRO: É, completamente indefeso. (ergue a criança da manjedoura para alimentá-la)

BOI: (quer se atirar no capim) Até que enfim!

BURRO: Alto lá! Mas o que você está fazendo? Quer comer tudo?

BOI: O que você acha?

BURRO: Mas não pode não! Onde é que ele vai deitar, se não sobrar nada na manjedoura? As vacas disseram que é pra ele deitar no macio.

BOI: Não estou nem aí! É meu estábulo, minha manjedoura e minha comida e estou pouco me lixando para esse chorão e eu vou comer e pronto.

BURRO: Desalmado!

BOI: Sou, e daí?

BURRO: Desnaturado!

BOi continua a comer sem se importar.

BURRO: Coitadinho do menininho Jesus! Mal chegou ao mundo e todos só pensam em si próprios. Teus pais simplesmente te deixaram aqui largado, nem ligando se você está com fome e passando frio, como esse desalmado aqui, que fica enchendo o bucho, tá vendo, só come, come e come e nem liga, é sim, não liga a mínima pra você. Você fazia idéia que sua vida ia começar assim?

BOI: (arrota) Manteiga derretida!

O bebê também arrota.

BURRO: Tava gostoso?

BOI: (junta discretamente o resto do capim) Ainda sobrou um pouco

BURRO: Perdeu o apetite?

BOI: Pra variar, hoje eles foram de novo muito generosos com a porção de comida.

BURRO: Viu só nenê -- a gente deu sorte! (deita a criança na manjedoura) E agora, dorme tá?

BOI: Você não é a mãe dele.

BURRO: Mas enquanto a mãe dele não vem

BOI: Você se mete nas coisas dela. E falando nisso, onde se enfiaram?

BURRO: Quem?

BOI: Os pais. O José e a Marilda!

BURRO: Maria.

BOI: Então, foi o que eu falei. Onde se enfiaram?

BURRO: Sei lá. Nenhuma pista dos pais. Perguntei por aí, tá o maior caos lá fora, ninguém quer saber de criança, só querem saber desse tal de Matias.

BOI: Quem?

BURRO: Todos! Os soldados e os diletantes oficiais.

BOI: Era melhor se fossem úteis e ajudassem a procurar os pais!

BURRO: Pode ser que eles tiveram de fugir.

BOI: Os soldados?

BURRO: Não, os pais, por causa dos soldados.

BOI: BObagem! Por que deveriam?

BURRO: Eu ouvi dizer que o rei, o Herodes está perseguindo eles.

BOI: Tá mais do que certo esse Herodes! Quem larga o filho em manjedouras estranhas merece ser castigado.

BURRO: Não, não, a criança. Ele está atrás da criança.

BOI: Por que estaria atrás da criança?

BURRO: Porque

porque é o rei dos judeus.

BOI: Rei dos judeus? Bobagem! É um menino chorão, babão, fraldinha isso sim, rei judeu coisa nenhuma. Você não pode acreditar sempre no que dizem.

BURRO: Mas dizem que todos adoram ele.

BOI: Quem?

BURRO: Os judeus?

BOI: Pra que que os judeus precisam de um rei?

BURRO: Vai ver porque todos tem um rei? Os e-gípcios e os sírios e os a-sírios e

os b-sírios e os

então, eles também querem ué.

BOI: Eles deviam estar felizes por não terem um. Assim também não precisam obedecer e podem fazer e deixar de fazer o que quiserem.

BURRO: Mas talvez eles precisem de um, para cuidar deles.

BOI: Cuidar deles! Cuidar deles! Esse porqueirinha aqui é que precisa de alguém para cuidar dele, isso sim, e logo! E se esse José e essa Marilda não aparecerem logo, então

BU: A gente fica com ele!?

BOI: (lança um olhar fulminante) Era o que faltava.

Batem à porta.

BURRO: Sim?

BOI: Quem é?

Em vez da resposta, batidas mais fortes.

BOI: Quem pode ser?

Os dois: Os pais!

BURRO: (olha pelo buraco da fechadura) Não, não têm cara de pais. Parece mais com a declinação oficial?

BOI: Quem?

BURRO: Esses três reis com coroas e mantos coloridos que procuram pelo Matias.

BOI: Não vamos deixar entrar! Três malucos, correndo atrás de uma estrela qualquer! E além do mais: eles estão procurando um tal de Matias que não é ele.

BURRO: Como você sabe?

Batem com força.

BOI: Então abre de uma vez!

BURRO: (abre) Sim? (volta) Lá fora tem um soldado do rei Herodes e quer levar a criança.

BOI: Até que enfim! Que leve de uma vez.

BURRO: Tá certo. (tira o bebê da manjedoura e leva até a porta)

BOI: Espera aí! Pergunta se ele é o pai!

BURRO: (pergunta) Não, não é.

BOI: Então ele que se escafeda daqui.

BURRO: Tá. (coloca a criança de volta na manjedoura e vai até a porta) Ele diz, pra gente se escafeder e talvez ele seja o pai sim.

BOI: Então que prove.

BURRO: O quê?

BOI: Ele que prove que é o pai. Daí a gente entrega.

BURRO: Como?

BOI: Descrevendo, por exemplo. Se é menino ou menina, se tem algum sinal de nascença ou uma verruga no bumbum ou coisa assim. E se acertar, daí ele primeiro vai levar uma surra. Largar uma criança desse jeito! Depois, por mim, pode levar.

BURRO: (fala com o soldado) Ele está furioso. Ele disse que para ele tanto faz com quem a criança se parece. Todas pertencem a ele. Está levando com ele todas que encontra pela frente.

BOI: Safado! O que ele quer com todas essas crianças?

BURRO: (pergunta) Não é para ele. É pro rei Herodes. Procura o menino Jesus, mas como ele não sabe qual bebê é o certo, ele está levando todos.

BOI: E posso saber o que o rei Herodes vai fazer com eles?

BURRO: (pergunta) Comer.

BOI: O quê?

BURRO: Ele vai comer todos.

BOI: Ué, será que o rei cansou de comer carne de boi?

BURRO: Você iria no lugar dele

você se sacrificaria pelo menino Jesus?

BOI: Nem passa pela minha cabeça! Além do mais você é que daria um ótimo salame.

BURRO: Eu? Ah, não, não, não, melhor não

não, sabe, ainda tenho tantos

planos pela frente

Jesus

ãh,

nesse caso, melhor então a gente entregar o menino

(tira a criança da manjedoura)

BOI: Espera aí! Primeiro ele vai ter de explicar porquê o rei Herodes está tão fissurado por carne de criança.

BURRO: Tá. (coloc a a criança na manjedoura, vai até a porta e pergunta) Isso é política, e de política a gente não entende.

BOI: Mesmo assim eu quero que me explique!

BURRO: É por causa da santidade. Se ele comer todos, vai ter certeza que o menino Jesus também está no meio, e depois dele ter comido o menino Jesus, ele vai ser tão santo e sábio como o menino Jesus será um dia.

BOI: Mas dá pra entender uma coisa dessas? Pergunte a ele se o rei Herodes também costuma comer a caixa inteira de bombons sortidos de uma só vez só para ter certeza que comeu junto o que tem recheio de marzipã!

BURRO: (pergunta) Sim, ele faz isso.

BOI: Como é que um rei pode ser tão idiota? Ele bem que precisaria ter um pouco mais de sabedoria nessa cabeça mole.

BURRO: BOm, a gente entrega então?

BOI: De jeito nenhum! Fala para esse cara aí fora: se for mesmo o menino Jesus eu prefiro comê-lo eu mesmo e aí vou ser duplamente mais inteligente que o rei Herodes.

BURRO: (fala ao soldado) Ele está superirado. Quer saber se nós somos os pais e o que temos a ver com isso.

BOI: Ele tampouco é o pai, do mesmo jeito que nós ou o rei Herodes e enquanto não aparecerem os verdadeiros responsáveis, a criança ficará onde está e basta!

BURRO: (transmite) Agora ele quer pegá-lo à força.

Violentas batidas à porta.

BOI: Ele que tente! (avança furioso para fora)

Ouvem-se gritos e sons de luta e, de repente, silêncio.

BOI: (volta) Pronto! Desse nos livramos!

BURRO: E se ele voltar?

BOI: Pfff!

BURRO: Com todo o exército?

BOI: Ridículo! Tenho dois chifres bem saudáveis na cabeça e você duas patas traseiras bem fortes com as quais você vai chutar bem ali onde dói mais.

BURRO: Onde?

A criança choraminga.

BOI: (Balançando a cabeça) O que acontece com os homens? Ficam fazendo política, vão fazer compras, mas deixam seus filhos largados por aí!

BURRO: Por que está chorando agora? Já papou, está deitado no macio e no quentinho.

BOI: (pensativo) Se a gente tivesse deixado o soldado levar, agora teria sossego!

BURRO: (Tira a criança do berço) Ah não! Por que é que agora está tão molhado? Olha aí, tudo molhado! Ah não!

BOI: Vazou. Tomou leite demais e aí vazou.

BURRO: Que horror! Tudo molhado.

BOI: Meu capim!

BURRO: Me ajuda, BOi, fala o que devo fazer!

BOI: Não faço a mínima idéia. Enxugar, oras!

BURRO: Mas como? Com o quê?

BOI: Sei lá! Com as orelhas, com o nariz

BURRO: Com a língua?

BOI: O quê?

BURRO: Lamber, você disse enxugar com a língua?

BOI: Com a língua? Eu falei

BURRO: Eca!

BOI: Coragem!

é

que seja, pode ser com a língua.

BURRO: Não sei não, é muito

eca (supera) Hm. Até que não é tão ruim

gosto de camelo

quer dizer, de caramelo.

BOI: Caramelo?

BURRO: Quer experimentar?

BOI: Eca!

tem

BURRO: (devolve a criança limpa e seca na manjedoura) O que não se faz por um porqueirinha estranho

BOI: (ri) E você ainda quer ficar com ele, justo você? Quando já fica desesperado só porque vazou um pouquinho.

BURRO: Mas e se for o menino Jesus

BOI: Menino Jesus pra cá, menino Jesus pra lá

BURRO: Por você ele ia congelar na tempestade de neve ou virar picadinho

BOI: Burro!

BURRO:

BOI: Burro!

ou transformá-lo numa cenoura, só para o desalmado ter o que comer

BURRO: O quê?

BOI: Vamos ficar com ele!

BURRO: O quê??

BOI: Não tem ninguém além da gente. E enquanto os pais não vierem

BURRO: Logo, logo eles aparecem.

BOI: Tua crença é inabalável.

BURRO: Você não crê?

BOI: Enquanto não estiverem a gente precisa ser

BURRO: A gente precisa ser alguma coisa?

BOI: Ser os pais.

BURRO: Mas de que jeito?

BOI: Substituir pai e mãe.

BURRO: Mas isso não dá! Você mesmo disse

BOI: Você é a mãe.

BURRO: Eu? Por que eu? Por que não você?

BOI: Porque

porque tuas orelhas são mais compridas.

BURRO: Mas o teu nariz é mais molhado.

BOI: Eu sou a figura clássica do pai: orgulhoso, forte e durão no trato.

BURRO: Eu também.

BOI: Mães são delicadas e suaves e manhosas.

BURRO: A minha não.

BOI: O quê?

BURRO: A minha não. Minha mãe era forte, orgulhosa e durona no trato. – Como você.

BOI: Eu sou como a tua mãe?

BURRO: Bem, até que não, mas

BOI: Mas o quê?

BURRO: Mas o meu pai era bem diferente: delicado, suave e de noite sempre me contava histórias.

BOI: Era só o que faltava! Histórias!

BURRO: Por isso que eu acho que você bem que podia

BOI: O quê?

BU: Ser a mãe.

BOI: Sou totalmente inadequado para mãe.

BURRO: Eu também.

BOI: Tá vendo!

BURRO: Mas você ao menos podia tentar.

BOI: De jeito nenhum! Tenta você!

BURRO: Não dá.

BOI: Você não quer.

BURRO: Não consigo.

BOI: Porque é cabeça dura e teimoso e empacado!

BURRO: Mas você também não quer!

BOI: Não consigo!

BURRO: Porque é desalmado, bruto e metido!

BOI: Mas um de nós precisa

BURRO: Não eu!

BOI: Eu também não. (Pausa) Vamos tirar na sorte. Quem ganhar

BURRO: Será a mãe.

BOI: Jóquei -po.

BURRO: Tesoura corta papel, você ganhou, você é a mãe!

O BOi fica parado abestalhado, enquanto o Burro procura a roupa apropriada para vestir o BOi, veste o BOi de mãe e leva diante da criança. A criança começa a chorar.

BOI: Não dá pra agüentar! Mas o que foi agora?

BURRO: Será que ele imaginou os pais diferentes?

BOI: Que o quê! Faz ele parar, faz ele parar!

BURRO: Por que eu? Você que é a mãe.

BOI: Ah é. E o que faço como mãe?

BURRO: Sei lá. Canta uma canção.

BOI: Cantar? Mas vou cantar o quê?

BURRO: O que der na telha. Por exemplo como as velhas que levo pela cidade. (canta horrivelmente) “Bate o sino, pequenino, sino de Belém, venham ver Jesus menino no estábulo do BOi e do Burro, para o vosso bem”

BOI: Pára, pára! Não dá para agüentar!

BURRO: Não está gostando?

BOI: Era só o que faltava, que aqui ainda viessem Como se um já não bastasse!

BURRO: Só pensei que

BOI: Além do mais você canta mal pra Burro.

BURRO: Tem gente que acha que eu tenho até talento. Então canta você, já que sabe melhor.

BOI: Eu? Ai minha nossa! O que vou cantar “Aveee Mari hil daa gra há há zia pleee eee nnaaa”

BURRO: Ave

o

quê?

BOI: Marilda

BURRO: Maria

BOI: Canta!

BURRO: Por que essa?

?

BOm, já que insistem:

BOI: Talvez ela apareça se a gente chamar ela bem alto, essa Maria, aí ela vem buscá-lo. “Aaavveee Ma

Criança chora

BURRO: Assim não dá! Se você chorar desse jeito não vai conseguir dormir.

BOI: E já estou com dor de ouvido dessa sua choradeira.

BURRO: Deve ter coisa melhor. Mais suave, mais delicada, calma

BOI: O que as mães de bois cantam quando dão de mamar aos bezerrinhos

BURRO: O que as mães de burros cantam antes de dormir quando os burrinhos abaixam as orelhas

BOI: E os pais dos burros?

BURRO: E os pais dos bois?

BOI: Não cantam?

BURRO: Sei lá

BOI: Hm, talvez

AMBOS: Música de Buboirro?

Improvisam e juntos inventam uma música bem suave inconfundível, como só BOis e Burros conseguiriam, num leve ritmo de rumba e que talvez de longe ”

lembre a antiga ária: “Dorme meu querido, dorme em paz

de Johann Sebastian Bach ou “O vento me contou uma história” de Zarah Leander ou “For a friend” de Jimmy Somerville.

do oratório de natal

A criança adormece – BOi e Burro quase adormecem também.

BURRO: (bem no papel de pai) Nós também deveríamos ir dormir. Amanhã você tem de sair cedo.

BOI: Eu? Não. Por quê?

BURRO: Buscar leite.

BOI: Eu não bebo leite pela manhã.

BURRO: O bebê! Quando acordar vai estar com fome.

BOI: Leite? Mais leite?

BURRO: Tanto quanto você conseguir arranjar.

BOI: Tá bom.

BURRO ajeita o estábulo.

BOI: (mexe na criança) Xi, eu acho que ele já Burro, me ajuda!

que ele vazou de novo. Burro?

BURRO insensível esclarece que os serviços maternos são de respons abilidade do BOi.

BOI: Mais que porcaria! Mas é de vo

– tá certo, tá certo, não precisa chorar, tudo

menos chorar, seu chorãozinho! Vou ter de lamber

esteja olhando (lambe até secar) Tá dormindo. Psst!

espero que ninguém

BURRO: Ah bom, então ps st!

BOI: E a gente devia fazer o mesmo. Amanhã será um dia difícil.

Deitam.

BOI: Melhor a gente colocar ele no meio. É mais quentinho.

BURRO: Tá. BOa noite. (pausa) Oi, BOi?

BOI: Hm?

BURRO: E se não for o menino Jesus?

BOI: Pois foi o que eu falei.

BURRO: Não, estou dizendo, se tivessem achado meninos Jesus em todos os lugares?

BOI: Me deixa em paz com essas besteiras!

BURRO: E se encontraram um no curral e outro na cocheira ali do lado e outro com as cabras no alto da montanha e com os cavalos lá embaixo no córrego e, é, com as galinhas e com os porcos? Já pensou, meninos Jesus em toda parte! E os bichos tendo de cuidar.

BOI: Então é porque os pais levaram eles lá para esconder do rei Herodes. E amanhã de manhã, quando os soldados tiverem ido embora, eles vão voltar para buscá-los.

BURRO: E se não voltarem?

BOI: Daí pode ser que essa tal de Marilda

Maria apareça.

BURRO: Mas se nem ela

e se esse nem for o verdadeiro menino Jesus?

BOI: Daí amanhã a gente vai alimentar ele do mesmo jeito e lamber para secar e

depois

alimentar

até que alguém venha buscá-lo. Certo?

BURRO: Certo, BOa noite. (pausa) Mas BOi?

BOI: O que é agora?

BURRO: Isso vai ser puxado pra você, se durar muito tempo.

BOI: É, pois é.

BURRO: Pois é. (pausa) Mas Boi.

Boi: Quê?

BURRO: Nós podemos cuidar dele juntos.

BOI: BOa idéia! BOa noite!

BURRO: BOa idéia. BOa noite! Vamos cantar de novo?

Cantarolam a música do BUBOIRRO enquanto adormecem. A luz vai caindo aos poucos. Se olharmos bem, podemos perceber um leve brilho acima das cabeças deles.

fim

Ao final da apresentação de MarbUrg, em vez da música do BUBOirro, tocaram uma fita com a história de natal. Por isso o texto original:

Capítulo 2 – evangelho segundo Lucas

2:1

 

E aconteceu, naqueles dias, que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse.

2:2

 

(Este primeiro alistamento foi feito sendo Cirênio governador da Síria.)

2:3

E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.

2:4

 

subiu da Galiléia também Jos é, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi chamada Belém (porque era da casa e família de Davi),

E

2:5

 

a

fim de alistar-se com Maria, sua mulher, que estava grávida.

2:6

 

aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz.

E

2:7

 

deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.

E

2:8

 

Ora, havia, naquela mesma comarca, pastores que estavam no campo e guardavam durante as vigílias da noite o seu rebanho.

2:9

 

eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor.

E

2:10

 

o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo,

E

2:11

 

pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor.

2:12

 

isto vos será por sinal: achareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.

E

2:13

 

E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus e dizendo:

2:14

Glória a Deus nas alturas, paz na terra, BOa vontade para com os homens.

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