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MARIA, CORREDENTORA COM CRISTO

– Maria presente no sacrifício da Cruz.

– Corredentora com Cristo.

– Maria e a Santa Missa.

I. AO LONGO DA VIDA terrena de Jesus, sua Mãe Santa Maria cumpriu a


vontade divina e atendeu-o com solicitude amorosa, em Belém, no Egipto, em
Nazaré. Teve para com Ele todos os cuidados normais de que precisou, iguais
aos de qualquer outra criança, e também as atenções extraordinárias que
foram necessárias para proteger a sua vida. O Menino cresceu, entre Maria e
José, num ambiente cheio de amor sacrificado e alegre, de protecção firme e
de trabalho.

Mais tarde, durante a sua vida pública, Maria poucas vezes seguiu o Senhor
de perto, mas Ela sabia a cada momento onde o seu Filho se encontrava, e
chegava-lhe o eco dos seus milagres e da sua pregação. Jesus foi algumas
vezes a Nazaré, e então demorava-se um pouco mais com a sua Mãe; a
maioria dos seus discípulos já a conhecia desde as bodas de Caná da
Galiléia1. Salvo o milagre da conversão da água em vinho, em que teve uma
participação tão importante, os Evangelistas não nos falam de que tivesse
presenciado nenhum outro milagre. Como não esteve presente nos momentos
em que as multidões vibravam de entusiasmo pelo seu Filho. “Não a vereis
entre as palmas de Jerusalém, nem – afora as primícias de Caná – à hora dos
grandes milagres. – Mas não foge ao desprezo do Golgota; ali está, «iuxta
crucem Iesu», junto à cruz de Jesus, sua Mãe”2.

Deus amou a Virgem de um modo singular. Não a dispensou, no entanto, do


transe do Calvário, permitindo-lhe que sofresse como ninguém jamais sofreu,
excepto o seu Filho. Nesses momentos angustiantes, poderia ter-se retirado
talvez para a intimidade da sua casa, longe do Calvário, na companhia amável
das mulheres da aldeia; “ao fim e ao cabo, nada podia fazer, e a sua presença
não evitava nem aliviava as dores nem a humilhação do seu Filho. Mas não o
fez. E não o fez pela mesma razão pela qual uma mãe permanece junto do
leito do filho agonizante, apesar de nada poder fazer pela sua sobrevivência”3.
Enquanto o drama caminhava para o seu desfecho, foi-se aproximando pouco
a pouco da Cruz; os soldados permitiram-lhe que se aproximasse.

Jesus olha para Maria e Maria olha para Jesus. Numa estreitíssima união,
Maria oferece o seu Filho a Deus Pai, corredimindo com Ele. Em comunhão
com o Filho dolente e agonizante, suportou a dor e quase a morte; “abdicou
dos direitos de mãe sobre o seu Filho, para conseguir a salvação dos homens;
e para apaziguar a justiça divina, naquilo que dela dependia, imolou o seu
Filho, de modo que se pode afirmar com razão que redimiu com Cristo a
linhagem humana”4.
A Virgem não só “acompanhou” Jesus, mas esteve unida activa e
intimamente ao sacrifício que se oferecia naquele primeiro altar. Participou de
modo voluntário na redenção da humanidade, consumando o fiat – faça-se –
que havia pronunciado anos antes em Nazaré. Por isso podemos pensar que
Maria está presente em cada Missa, nesse ato que é o centro e o coração da
Igreja. Esta realidade ajudar-nos-á a viver melhor o sacrifício eucarístico –
unindo à entrega de Cristo a nossa, que também deve ser holocausto –, e a
sentir-nos muito perto de Nossa Senhora.

II. DO ALTO DA CRUZ, Jesus confia a Santa Maria o seu Corpo Místico, a
Igreja, na pessoa de São João. Sabia que necessitaríamos constantemente de
uma Mãe que nos protegesse, que nos levantasse e intercedesse por nós. A
partir desse momento, “Ela cuida e cuidará da Igreja com a mesma fidelidade e
a mesma força com que cuidou do seu Primogénito desde a gruta de Belém,
passando pelo Calvário, até o Cenáculo de Pentecostes, onde teve lugar o
nascimento da Igreja. Maria está presente em todas as vicissitudes da Igreja
[...]. Está unida à Igreja de modo muito particular nos momentos mais difíceis
da sua história [...]. Maria aparece-nos particularmente próxima da Igreja,
porque a Igreja é sempre como o seu Cristo, primeiro ainda Menino e depois
Crucificado e Ressuscitado”5.

A Virgem Santa Maria intercede para que Deus imprima na alma dos
cristãos os mesmos anseios que pôs na dela, o desejo corredentor de que
todos os homens voltem a ser amigos de Deus. “A fé, a esperança e a ardente
caridade da Virgem no cume do Golgota, que a tornam Corredentora com
Cristo de modo eminente, são também um convite para que cresçamos, para
que sejamos humana e sobrenaturalmente fortes diante das dificuldades
externas; um convite para que perseveremos sem desanimar na acção
apostólica, ainda que por vezes pareça não haver frutos ou o horizonte se
apresente obscurecido pela potência do mal.

“Lutemos – lute cada um de nós! – contra esse acostumar-se, contra esse ir


tocando monotonamente, contra esse conformismo que equivale à inacção.
Olhemos para Cristo na Cruz, olhemos para Santa Maria junto à Cruz: sob os
seus olhos abrem caminho, com espantosa arrogância, a traição, a mofa, os
insultos...; mas Cristo, e, secundando a sua acção redentora, Maria, continuam
fortes, perseverantes, cheios de paz, com optimismo na dor, cumprindo a
missão que a Trindade lhes confiou. É uma batida à porta de cada um de nós,
a recordar-nos que à hora da dor, da fadiga e da contradição mais horrenda,
Cristo – e tu e eu temos que ser outros Cristos – dá cumprimento à sua missão
[...]. Decido-me a aconselhar-te que voltes os teus olhos para a Virgem e lhe
peças para ti e para todos: Mãe, que tenhamos confiança absoluta na acção
redentora de Jesus, e que – como tu, Mãe – queiramos ser corredentores...”6

Participar na Redenção, cooperar na santificação do mundo, salvar almas


para a eternidade: existe ideal maior para preencher toda uma vida? A Virgem
corredime junto do seu Filho no Calvário, mas também o fez quando
pronunciou o seu fiat – faça-se – ao receber a embaixada do Anjo, e em Belém,
e no tempo em que permaneceu no Egipto, e na sua vida normal de Nazaré...
Podemos ser corredentores, tal como Ela, durante todas as horas do dia, se as
cumularmos de oração, se trabalharmos conscienciosamente, se vivermos uma
caridade amável com aqueles que encontramos nas nossas tarefas, na família,
se oferecermos com serenidade as contrariedades de cada dia.

III. VENDO JESUS A SUA MÃE e o discípulo a quem amava, o qual estava
ali, disse à sua Mãe: Mulher, eis aí o teu filho 7. Era o último ato de entrega de
Jesus antes de expirar; deu-nos a sua Mãe por Mãe nossa.

Desde então, o discípulo de Cristo tem algo que lhe é próprio: tem Maria
como sua Mãe. O posto de Mãe na Igreja será de Maria para sempre: E desde
aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa8. Aquela foi a hora de Jesus,
que inaugurava com a sua morte redentora uma nova era até o fim dos tempos.
Desde então, diz Paulo VI, “se queremos ser cristãos, devemos ser marianos”9.
A obra de Jesus pode resumir-se em duas maravilhosas realidades: deu-nos a
filiação divina, tornando-nos filhos de Deus, e fez-nos filhos de Santa Maria.

Um autor do século III, Orígenes, faz notar que Jesus não disse a Maria:
“Esse também é teu filho”, mas: “Eis aí o teu filho”; e como Maria só teve Jesus
por filho, as suas palavras equivaliam a dizer-lhe: “Esse, daqui por diante, será
para ti Jesus”10. A Virgem vê em cada cristão o seu filho Jesus. Trata-nos como
se em nosso lugar estivesse o próprio Cristo. Como se esquecerá de nós
quando nos vir necessitados? Que deixará de conseguir do seu Filho em nosso
favor? Jamais poderemos fazer uma pálida ideia do amor de Maria por cada
um de nós.

Acostumemo-nos a encontrar Santa Maria enquanto celebramos ou


participamos da Santa Missa. “No Sacrifício do altar, a participação de Nossa
Senhora evoca-nos o silencioso recato com que acompanhou a vida de seu
Filho, quando andava pelas terras da Palestina. A Santa Missa é uma acção da
Trindade; por vontade do Pai, cooperando com o Espírito Santo, o Filho
oferece-se em oblação redentora. Nesse insondável mistério, percebe-se,
como por entre véus, o rosto puríssimo de Maria: Filha de Deus Pai, Mãe de
Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo.

“O relacionamento com Jesus, no Sacrifício do altar, traz consigo


necessariamente o relacionamento com Maria, sua Mãe. Quem encontra
Jesus, encontra também a Virgem sem mancha, como aconteceu com aqueles
santos personagens – os Reis Magos – que foram adorar Cristo: Entrando na
casa, encontraram o Menino com Maria, sua Mãe (Mt 2, 11)”11.

Com Ela, podemos oferecer a Deus toda a nossa vida – todos os nossos
pensamentos, anseios, trabalhos, afectos, acções, amores –, identificando-nos
com os mesmos sentimentos que teve Cristo Jesus 12: “Pai Santo!”, dizemos-lhe
na intimidade do nosso coração, e podemos repeti-lo interiormente durante a
Santa Missa, “pelo Coração Imaculado de Maria, eu Vos ofereço Jesus, vosso
Filho muito amado, e me ofereço a mim mesmo n’Ele, com Ele e por Ele, por
todas as suas intenções e em nome de todas as criaturas”13.

Celebrar ou assistir ao santo Sacrifício do altar tal como convém é o melhor


serviço que podemos prestar a Jesus, ao seu Corpo Místico e a toda a
humanidade. Junto de Maria, na Santa Missa, estamos particularmente unidos
a toda a Igreja.

(1) Cfr. Jo 2, 1-10; (2) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 507; (3) F. Suárez, A Virgem Nossa
Senhora, pág. 256; (4) Bento XV, Epist. Inter sodalicia, 22-V-1918; (5) K. Wojtyla, Sinal de
contradição, pág. 261; (6) A. del Portillo, Carta pastoral, 31-V-1987, n. 19; (7) Jo 19, 26; (8) Jo
19, 27; (9) Paulo VI, Homilia, 24-VI-1970; (10) Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de
São João, I, 4, 23; (11) Josemaría Escrivá, La Virgen, em Libro de Aragón, Caja de Ahorros,
Saragoça, 1976; (12) cfr. Fil 2, 5; (13) P. M. Sulamitis, Oración de la ofrenda al Amor
Misericordioso, Madrid, 1931.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)