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OS ATAQUES A DAMBA E OS SEUS VALENTES DEFENSORES

O comportamento das Forças Armadas Portuguesas na defesa de Angola tem,

como exuberância, demonstrado estarem impolutas as virtudes rácicas, e bem assim que a moderna geração se tem batido com a bravura e galhardia dos seus maiores, porque ela é uma das mais conscientes, determinadas e decididas que jamais existiu em Portugal. Agora, como sempre a sua acção fornece exemplos que amanhã entrarão na história, em nada deslustrando aqueles que o passado nos aponta. São alguns desses factos, que nos propomos relatar, e para isso ouvimos o tenente pára-quedista, Manuel Claudino Martins Veríssimo, um dos primeiros elementos da FAP a vir para Angola, defensor de Damba e de 31 de Janeiro e que melhor do que ninguém, nos poderá contar o que foram esses primeiros tempos. Quando dos incidentes subversivos verificados na capital angolana, comandava ele a Polícia Aérea, formada por praças do Serviço Geral. Mais tarde, a 16 de Abril, foi enviada uma secção da mesma para a Damba, em virtude da gravidade dos acontecimentos naquela região. Frisamos que a defesa de Damba foi feita com 9 homens da Polícia Aérea nos dois últimos ataques, por elementar espírito de justiça. Nesse mesmo dia vieram juntar-se a população de Damba, 60 colonos e alguns assimilados que desejaram acompanhá-los, vindos de 31 de Janeiro, que fica a 36 km da primeira, que é sede do concelho. A evacuação foi determinada superiormente, por se verificar que naquele momento, 31 de Janeiro, não oferecia condições de segurança mínimas que permitissem assegurar com êxito a sua defesa. Entretanto o Posto ficou entregue ao indómito cabo de sipaios Sebastião Dombaxe, permanecendo também no local o fiel soba Camasso; com eles estavam respectivamente outros sipaios e indígenas, mas que desertaram com medo das represálias, ou por estarem combinados com a rebelião. Dombaxe, aliás como jurara, morreu heroicamente agarrado à Bandeira Nacional, pagando com a vida a sua inconcussa fidelidade à Pátria, depois de esgotadas as munições e de se Ter defendido leoninamente, dando desta arte ao Mundo Português um digníficante exemplo de civismo e destemor, e o que é mais importante, provando a todo o mundo que não fazemos de facto discriminação racial.

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O segundo que como soba da região deveria ser respeitado, foi encontrado

trucidado junto a uma ribeira, como demonstração eloquente de que o genocídio não é mito. A corroborar esta asserção, há o caso verídico do assimilado Paulo Mucanza, libertado pelos brancos, depois de 9 dias de cativeiro, em que foi deliberadamente espancado pelos algozes da UPA, após lhe torturarem a filha e lhe assassinarem as nestas, cujo crime era serem mestiças. Voltando porém ao teor da narrativa e à Damba, referimos que no dia da chegada do tenente Manuel Veríssimo, a esta localidade, ( 16 de Abril ) se tinha verificado um violento ataque de rebeldes que ali entraram cantando, na certeza do seu triunfo contra tão diminuto e quase inerme adversário. Mas saíram-lhe errados os cálculos, porque a decisão e a coragem de todos os civis superaram o

rancor feroz de destruição dos bandoleiros, que puderam saquear a Administração donde roubaram a Bandeira que uns tantos desengonçando-se em saltos grotescos ostentavam um riso alvar. Foi então que os mestiços Carlos Ribeiro e Fernando Aleixo num gesto temerário e num formidável ímpeto de fervor patriótico, saltaram para a rua, correram sobre os energúmenos e conseguiram arrancar das ímpias mãos, à custa do próprio sangue derramado, o símbolo sagrado de Portugal que voltou a drapejar altaneiro no tope do reduto defensivo. No dia imediato teve alfim, o tenente Veríssimo e a sua pequena guarnição

militar o baptismo de fogo que resultou brilhante, pois felizmente não houve baixas e o inimigo foi repelido sem remissão.

O dispositivo de defesa foi estabelecido em três frentes, de acordo com a

disposição triangular do casario e das vias de acesso existentes. O tenente

Veríssimo ficou com a Policia Aérea no sector que foi atacado sendo os outros dois atribuídos a uma secção cada, do pelotão de pára-quedistas do comando do alferes Mota que se encontrava ali de passagem com destino a diferente missão. Vejamos agora o que se passou, segundo relato que nos foi transmitido. Eram 6 horas da manhã quando por entre o cacimbo pegajoso e espesso se começou a ouvir um estranho clamor, que se ia avolumando cada vez mais, de gritos ululantes, soltados por centenas de vozes, num coro desarmónico e impressionante: UPA ! UPA ! UPA ! Maza ! Maza ! Logo a seguir recortaram-se na cortina de névoa acizentada, vultos negros, dançando como possessos e entoando gritos de guerra. Para quem conhecia os hábitos pacíficos das tribos do Congo nacional, em tantos e tantos anos de comunhão compreensiva, tornava-se evidente que aqueles homens ferozes estavam sob o efeito de drogas excitantes, como a « liamba » que lhes foram ministrados pelos feiticeiros nefastos e por ordem dos chefes que comodamente pontificam em Leopoldville.

À frente vinham os mais velhos e destacadamente um rapaz de 14 anos que

os incitava vociferando e cabriolando, seguindo-se em vários escalões restantes. Estavam todos armados com mocas e canhangulos que brandiam por cima das cabeças e envergavam alguns os calções azuis dos « Kintuadi » ( UPA ). A cerca de 20 metros começaram a arremessar pedras que apanhavam no chão e a disparar em seguida os seus « trabucos » cujo estrondear só encontrou eco no estilhaçar de vidros e no ruído do impacto da complexa metralha nos muros. Aos nossos primeiros tiros de carabina replicam com uma nova descarga e avançam imperturbáveis porque as balas do branco são « Maza » ( água ) e eles haviam-se previamente desssentado por ordem dos Quimbandeiros, na ribeira de

água « santa » que os tornava imunes.

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CAPITÃO PÁRA-QUEDISTA

MANUEL CLAUDINO MARTINS VERÍSSIMO

Medalha de Prata de Serviços Distintos com Palma

Demonstrou em todo o trabalho que realizou e em todas as acções que tomou parte, em Angola, possuir excepcionais qualidades de comando, organização e improvisação e um também excepcional valor em combate. Encarregado inicialmente das tropas de polícia e defesa próxima da Base Aérea 9, houve-se muito bem, instruindo-as e dando-lhes acentuado espírito combativo. Responsável pela defesa da povoação de Damba e depois pela reconquista e defesa da de 31 de Janeiro, para o que em ambos os casos dispôs de uma força de 10 homens mostrou toda s sua estatura, repelindo em poucos dias quatro ataques de grande número de rebeldes, um dos quais, em 31 de Janeiro, em condições particularmente difíceis. O acerto das suas decisões e a bravura das suas acções granjearam-lhe o respeito dos seus chefes e da administração dos populações de Damba e de 31 de Janeiro.

A pouco mais de 10 metros, o tenente Veríssimo no seu sector enfrentando o avanço das hordas inimigas, deu então a voz do FOGO e logo se seguiu o matraquear fogoso das pistolas-metralhadoras. Há corpos caídos pelo solo, ceifados pela nemésica rajada, mas a par desses vêem-se outros jorrando sangue dos mais dispares ferimentos seguirem alucinados sempre em frente, insensíveis à dor, até caírem como autómatos a quem a corda se quebrasse. As primeiras filas foram quase destroçadas, mas a elas outras se seguiam, descarregando as suas armas primitivas mas eficazes na mesma cadência hipnótica e suicida, contra as dizimadoras automáticas. As vagas humanas vão saltando sobre os que caíram sem um murmúrio, mas começaram a perceber que há algo de surpreendente naquela barragem de fogo implacável e mortífera, que se torna intransponível. E então o espanto transmuda-se em pavor, quando reconhecem a improficuidade do seu maléfico afã contra aquela gente que deveria ser chacinada e não cedia uma polegada sequer de terreno. O pavor, transforma- se, por sua vez em pânico ao sentirem-se alvejadas de través por outras daquelas malditas máquinas de fogo crepitante, que vão fazendo uma extensa sementeira de corpos de ébano, a estrebuchar com dores na arena barrenta, empapada de humidade e cheia de poças dum viscoso mais vermelho. Eram as Boinas Verdes que entravam em acção. Então no meio da confusão e do troar da intensa fuzilaria, faz-se ouvir a voz do chefe pronunciando gravemente: « Ukindi Hia Mazahu ! » que os sequazes com desespero vão repetindo, como eco de trovão repercutindo-se pelas quebradas dos montes: « Ukindi hia mazahu ! Ukindi hia mazahu !

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E vêem-se aqueles arrogantes guerreiros que vieram cantando e bailando na euforia dum triunfo antecipado, sofreram uma tal humilhação na derrota, que leva os que estão indemnes a esgueirarem-se taciturnos mas lépidos, para a espessura do matagal protector, enquanto os feridos os órgãos não vitais, vão galgando o mesmo trilho num, esforço arquejante e patético, que fica tracejado a vermelho até à verde ramagem do arvoredo onde se acoitam. Há na nossa banda um momento de suspensa ansiedade, até que um dos sipaios traduz ao comandante do baluarte de Damba:- Siô, eles estão gritando:

« fujam que não é água ! » Faz-se em seguida uma prudente batida na exploração do sucesso, para fazer prisioneiros, mas o mistério da floresta, com as suas profundas ravinas, havia tragado como que por enquanto a chusma fugitiva. Passaram-se longos minutos que mais pareceram dilatadas horas, mas o céu desanuviou-se e o Sol raia agora glorioso em sinal de vitória ! Os defensores saem para distenderem os nervos, fumando um cigarro ou bebendo uma merecida golada para lavar os pulmões do cheiro acre da pólvora que paira no ar.

sepultados os cadáveres

só restam os vestígios da contenda nas paredes

numa homenagem cristã

esburacadas como um crivo, onde se esventra a caliça, qual farda rota e suja de combate, pejada de condecorações ! Na igreja repica o sino festivamente, enquanto na pequena nave as mulheres e as crianças prosternadas, vão rezando em acção de graças : ave-maria! Bendita sois Vós !

Tudo terminara naquele memorável dia, o primeiro passado nas linhas de combate pelo pessoal da Força Aérea.

Na manhã seguinte deu-se outro recontro de pequena envergadura, como que a tactear o poder adversário, visto a guarnição ser menor por ausência dos pára-quedistas. Esta finta dos rebeldes foi prontamente parada motivando a sua fuga, não havendo a assinalar vítimas de parte a parte. No dia 9 houve o quarto e último ataque a Damba, que foi efectuado de surpresa e pela calada da noite, vindo os terroristas noutra direcção, porque tinham ido beber

« água da imortalidade » a outra ribeira, por indicação dos poderosos feiticeiros, como foi averiguado depois pelos prisioneiros feitos.

Momentos depois, da presença dos bandoleiros

« O Ministro do Ultramar e o Subsecretário da Aeronáutica com os mestiços Fernando Aleixo e Carlos Ribeiro, segurando a bandeira reconquistada »

Foi nessa altura que morreu o frade capuchinho italiano João Pedro, que, de carabina na mão, em frente à igreja onde se refugiavam mais de cem mulheres e crianças, foi atingido no cérebro por um tiro devastador de canhangulo, em luta contra a heresia que quereria devassar a casa de Deus. Aos gritos dilacerantes dos que assistem à cena, acorreu céleremente o tenente Veríssimo e o 1º. Cabo Máximo, que destemidamente à granada de mão e rajada de metralhadora, evitaram o massacre do estóico missionário triestino, afuguentando oportunamente o bando de abutres que já se debruçavam sobre a presa, a esvaiar-se em sangue.

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Com o auxilio oportuno dos soldados que electrizados acorreram junto do seu comandante, de novo os rebeldes tiveram que debandar através da escuridão, sem deixar os mortos, pelo receio incomensurável que têm da decapitação que os lançará nas trevas eternas e privará da ilimitada sobrevivência a quem tal suceder. É esse o anátema da sua crença ancestral, em que a vida constitui um ciclo alternante de luz e sombra na cavalgada do tempo. Este assalto noctruno foi o baixar do pano dos quatro dramáticos actos desenrolados na Damba, que talvez por ser considerada inacessível até ao momento presente foi deixada em paz, muito embora de quando em vez as hienas rosnem à sua volta. A lição de Damba, ficara, porém, bem decorada no espirito dos seus defensores, que agora sentiam o amparo da Força Armada.

( Os Minitros do Ultramar e Subsecretário da Aeronáutica, abraçando as tropas pára-quedistas, que obtiveram a 1ª. Reconquista do Congo, ocupando 31 de Janeiro. )

( Caçadores pára-quedistas em Maquela do Zombo )

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