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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA FACULDADE DE ARQUITETURA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO ANETE

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA FACULDADE DE ARQUITETURA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO

ANETE REGIS CASTRO DE ARAUJO

ESPAÇO PRIVADO MODERNO E RELAÇÕES SOCIAIS

DE GÊNERO EM SALVADOR : 1930 – 1949

SALVADOR

2004

ANETE REGIS CASTRO DE ARAUJO

ESPAÇO PRIVADO MODERNO E RELAÇÕES SOCIAIS DE GÊNERO EM SALVADOR : 1930 – 1949

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor. Área de Concentração: Restauração Orientadora: Profª. Drª. Ana Fernandes

SALVADOR

2004

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA Faculdade de Arquitetura Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo

ANETE REGIS CASTRO DE ARAUJO

ESPAÇO PRIVADO MODERNO E RELAÇOES SOCIAIS DE GÊNERO EM SALVADOR: 1930 – 1949

Tese para obtenção do grau de Doutor em Arquitetura e Urbanismo

Banca Examinadora:

Ana Fernandes

Doutorado em Gerenciamento e Ambiente Université de Paris XII

Ana Alice Costa

Doutorado em Sociologia Política Universidad Nacional Autonoma de Mexico

Lígia Bellini

Doutorado em História Essex University - Grã Bretanha

Naia Álban Suárez

Doutorado em Arquitetura Universidad Politécnica de Madrid

Maria Marta Camisassa

Doutorado em História e Teoria da Arte Essex University - Grã Bretanha

Salvador, 05 de abril de 2004

A Paeta, meu companheiro

AGRADECIMENTOS

Na noite em que retornou do Chile, há quatro anos, a Profª Ana Fernandes me telefonou e disse: “Li seu artigo publicado na RUA, no avião, achei bárbaro. Agora você se inscreve no doutorado aqui da Faculdade !”. Foi quase uma ordem; uma das que acolhi pela vida afora, como dedicar-me a esta Tese foi um dos meus maiores prazeres. Por isso e por sua orientação agradeço-lhe sinceramente. Meus agradecimentos às professoras integrantes da minha Banca Examinadora, cujas sugestões bibliográficas e de conteúdo indicadas no Exame de Qualificação foram muito valiosas no resultado final deste trabalho. Agradeço aos amigos (as) da Faculdade de Arquitetura, especialmente a Naia Álban e Anna Beatriz, que deixaram a meu dispôr muitos dos livros aqui consultados. Agradeço aos amigos (as) que, por compartilharem muitas das minhas idéias, me estimularam. Agradeço aos meus familiares, homens e mulheres amados, pelo apoio recebido, em especial a Claudio, pois sem sua revisão e editoração, este trabalho não teria se concretizado.

Louise Burgeois Femme Maison - 1947 O edifício não se move de lugar onde o

Louise Burgeois Femme Maison - 1947

O edifício não se move de lugar onde o puzeram e assim deve ser a mulher:

tão amiga de estar em casa como se a casa e a mulher foram uma mesma coisa.

Berilo Neves, 1930.

RESUMO

Esta Tese trata da interação mútua entre a construção do espaço moderno e as relações sociais

de gênero na arquitetura residencial modernista produzida nas décadas de 30 e 40 do século

XX na cidade de Salvador, Bahia. Seu objetivo principal é compreender, através de uma

pesquisa em fontes primárias e secundárias, como uma fórmula arquitetônica: a divisão do espaço doméstico em três zonas - social, íntima e de serviço - foi repetida no tempo e como as instituições estabelecidas levaram o arquiteto, nas suas decisões projetuais, a reforçar as ideologias alí embutidas. Para entender como se deram as relações entre espaço arquitetônico e práticas sociais e entre arquitetura e ideologia foi necessário investigar a genealogia dessas

relações, desde o regime patriarcal - que dominou as relações sociais de família extensiva, nos

primeiros séculos da colonização - até a passagem do século XIX para o XX, quando então se institucionalizou a família nuclear. Por esta razão, o trabalho investiga, em paralelo à análise

das residências modernistas - cujos princípios estéticos são influenciados pelo modernismo

europeu do período entre guerras - a reflexão teórico-crítica das práticas e representações incluídas nessas habitações, apontando a manutenção da dualidade de gêneros em nossa sociedade. As casas analisadas não podem ser vistas apenas como estruturas utilitárias, mas como um projeto de vida a ser consumado, mergulhado em um mundo simbólico cujo conteúdo - ao menos em alguns aspectos - esperamos rever e transformar.

Palavras-chave:

arquitetura residencial, espaço privado, gênero, mulher, Salvador, educação,

ideologia, práticas sociais, representações.

ABSTRACT

This work deals with the mutual interaction between modern private space and gender relations in Salvador, State of Bahia - Brazil, in the thirties and forties, of the 20th century Its principal aims are to understand, through an investigation in primary and secondary sources, how an architectural model - the domestic space division into social, intimate and service areas - has been invariably repeated in time and also knowing how Institutions lead architects, through their design, reinforce ideologies linked to practices in domestic life. In order to grasp how the relations between domestic architectural space and ideology took place, it was necessary to investigate the origin of these relations and its transformations during patriarchal times. Patriarchal power has dominated social relations in the Brazilians “extensive” family from the first centuries of Portuguese colonization until the turn of the 19th to the 20th century, when the nuclear family was firmly established. For this reason the work investigates, in parallel to the analysis of the modernist houses, (whose aesthetic principles came from European modernism between wars) a theoretical critical approach regarding practices and representations inside the houses, pointing the maintenance of gender duality in our society, whose inequality we hope, at least in some aspects, to review and transform.

Keywords: residential architecture, private space, gender, race, woman, Salvador, education,

ideology, social practices.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

11

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA

17

1.1

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

34

2 A INSERÇÃO DA HABITAÇÃO NO ESPAÇO URBANO EM SALVADOR

37

2.1

PEQUENO HISTÓRICO

37

2.2

AS PRIMEIRAS TENTATIVAS DE MODERNIZAR SALVADOR: AS INTERVENÇÕES NA CIDADE

41

2.2.1 Higiene, habitação e relações sociais

43

2.2.2 Transporte

46

2.2.3 Questões estéticas

48

2.2.4 Educação

49

2.3 O DISCURSO HIGIENISTA CONTINUA

51

2.4 O GOVERNO DE J.J. SEABRA

54

2.5 AS VILAS OPERÁRIAS

57

2.6 ARQUITETURA E URBANISMO: NOVOS PENSAMENTOS E AÇÕES SOBRE A CIDADE

58

3 ARQUITETURA RESIDENCIAL EM SALVADOR

61

3.1

O ESPAÇO PRIVADO NOS SÉCULOS XVII, XVIII E XIX EM SALVADOR

61

3.1.1 Introdução

61

3.1.2 Espaço privado e relações domésticas

66

3.1.3 A rua e as casas

67

3.1.4 Indústria caseira: sociabilidade no trabalho

69

3.1.5 As casas e a rua

72

3.1.6 Intimidade, privacidade e sociabilidade

76

3.2 O ESPAÇO DOMÉSTICO POLIVALENTE DOS SÉCULOS XVII E XVIII

79

3.3 O ESPAÇO SEGREGADOR DO SÉCULO XIX: PRIMEIRA METADE

89

3.3.1 A introdução dos corredores

90

3.3.2 Os novos padrões de sociabilidade

93

3.4

SÉCULO XIX - SEGUNDA METADE: A IDEOLOGIA DO LAR

97

3.4.1

Contextualização histórica: imigração, composição familiar e o papel da mulher

97

3.4.2

A nova implantação da casa no lote

100

3.4.3

A instituição da “sala de visitas”

102

3.4.4

Discurso médico e espaço privado: o modelo tri - partite e a família nuclear

105

3.4.5

O papel do profissional (arquiteto, engenheiro ou projetista)

108

3.4.6

As novas tipologias residenciais

110

3.5

A PASSAGEM DO SÉCULO XIX PARA O SÉCULO XX

114

3.5.1

Intervenções urbanas e vida social no espaço público: a mulher na cidade

115

3.5.2

Tipologias residenciais

134

3.5.3

Legislação urbana e das edificações

140

4 ARQUITETURA RESIDENCIAL MODERNISTA NA EUROPA

143

4.1

ANTECEDENTES: O ESPAÇO PRIVADO EM QUESTÃO NOS ESTADOS UNIDOS E NA EUROPA

143

4.2

A GRANDE REVOLUÇÃO DOMÉSTICA NOS ESTADOS UNIDOS

144

4.2.1

A ideologia anti-feminista

150

4.3

A EXPERÊNCIA EUROPÉIA: TEORIA RACIONAL E FUNCIONALISMO COMO PRINCÍPIO

152

4.3.1

Para além do racionalismo

154

4.3.2

Idéias de funcionalismo

155

4.3.3

Dois registros da discussão modernista: classe e gênero

157

4.3.4

Os CIAMs

167

4.4

ARQUITETURARESIDENCIAL: CLIENTES ESPECIAIS E ARQUITETOS CONSAGRADOS

171

5

MODERNISMO EM SALVADOR: GÊNESE E DESDOBRAMENTOS

189

5.1

ANTECEDENTES NO BRASIL: CONTEXTO POLÍTICO E SOCIAL

189

5.2

O PODER DO DISCURSO URBANÍSTICO

190

5.3

A PRODUÇÃO DA CIDADE

192

5.4

O EPUCS -ESCRITÓRIO DE PLANEJAMENTO E URBANISMO DA CIDADE DE SALVADOR

200

5.5

O BOOM DA CONSTRUÇÃO

206

5.6

AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES MODERNISTAS NO BRASIL

208

5.7

ARQUITETURA RESIDENCIAL MODERNISTA EM SALVADOR

210

6 ARQUITETURA MODERNISTA E ESPAÇO PRIVADO EM SALVADOR

221

6.1

A DÉCADA DE 30: O INÍCIO DA ABSORÇÃO DA ESTÉTICA MODERNISTA

221

6.2

A HABITAÇÃO VERTICAL EM SALVADOR: DÉCADA DE TRINTA

243

 

6.2.1

Introdução

243

6.2.2

Edifícios de apartamentos: um empreendimento particular

249

6.3

A ESTÉTICA MODERNISTA NOS ANOS 40 E O TREINAMENTO DOS PROFISSIONAIS

253

6.4

EDIFÍCIOS PLURI-DOMICILIARES NA DÉCADA DE 40

266

6.5

ESPAÇO PRIVADO: CASAS UNI-DOMICILIARES A PARTIR DE 1945

272

 

6.5.1

O Parque Cruz Aguiar

279

6.5.2

A expressão modernista

284

6.6

O PAPEL E A EDUCAÇÃO DA MULHER A PARTIR DE 1945

296

6.7

DESFAZENDO NATURALISMOS

304

7 CONCLUSÃO

309

REFERÊNCIAS

 

315

11

INTRODUÇÃO

Entre os espaços arquitetônicos que mais interferem na vida das pessoas, ocupa lugar privilegiado o espaço privado das residências, até mesmo pelas transformações que os

indivíduos, as famílias e a sociedade atravessaram e vêm atravessando desde as primeiras décadas do século passado. No entanto, raramente são questionadas as proposições e condições que informam o programa da casa, seja na prática projetual ou nas reflexões teóricas e históricas relacionadas ao espaço privado.

A permanência do modelo de zoneamento tri-partite (áreas social, íntima e de serviço),

consolidado no final do século XIX e inerente ao programa da habitação na execução de projetos de arquitetura residencial, tem resistido no tempo, denunciando, de forma expressiva,

a carência de reflexão, principalmente acadêmica, sobre os temas da habitação e do habitar.

O reconhecimento de que o espaço arquitetônico é sexuado - e que reforça a ideologia

burguesa, cuja linguagem e história intelectual são construídas pela dualidade de gêneros - nunca é problematizado no exercício da arquitetura.

A dualidade masculino / feminino é uma formação discursiva, uma construção social

cuja inserção na arquitetura - outra formação discursiva 1 - tem sido pouco aprofundada, principalmente quando se trata da arquitetura na qual essa dualidade é mais marcada e demarcada: a arquitetura residencial. Assim, se o objeto é o espaço doméstico, tentar compreender como as relações de gênero são processadas no seu interior, problematizando-as,

torna-se essencial para deslindar seu funcionamento e objetivo no seio da sociedade. Este é o principal ponto que pretendemos desenvolver na nossa abordagem sobre o espaço privado moderno em Salvador, cuja historicização se faz necessária.

O espaço doméstico dos séculos XVII e XVIII - próprio da arquitetura vernacular, que

acolheu a vivência dos indivíduos no decorrer dos séculos da colonização portuguesa no Brasil - apresentou transformações muito lentas, em consonância com o ritmo das mudanças na sociedade patriarcal. A principal característica desta sociedade foi manter o controle das famílias detentoras de propriedades e dos ricos comerciantes sobre a cidade e do patriarca

sobre seus membros - notadamente as mulheres. Esse controle tinha o respaldo e o reforço da cultura religiosa, única dimensão intelectual da colônia. Códigos sociais de comportamento permearam a ocupação potencial dos espaços pela abertura ou restrição dos acessos e pela

1 No sentido foucaultiano. A idéia de que o edifício é um objeto ou uma entidade não discursiva ao redor do qual flutuam as palavras do discurso é desafiada por Michel Foucault. Para ele, uma formação discursiva refuta a distinção entre um tijolo e uma palavra; ambos podem assim ser um elemento de um discurso. HIRST (1993) p. 52 a 60.

12

determinação de barreiras físicas entre os mesmos, embora ações transgressoras fossem freqüentemente observadas. 2 As transformações econômicas, políticas, sociais, culturais e psicológicas do século

XIX aceleraram as mudanças que, com a emergência de novas técnicas e novos saberes,

veicularam novas ideologias na construção de um modo de vida burguês que pouco a pouco foi se consolidando - para a satisfação de seus representantes. Fascinados pelas influências teóricas oriundas do pensamento europeu - da área onde a revolução burguesa havia subvertido os padrões culturais e forjado um novo conteúdo ideológico -, substituem a

transplantação da cultura de características feudais, adaptável ao Brasil escravocrata, por uma

outra em que se alastram agora relações capitalistas. 3 A constituição de valores e ideais fundamentais - os quais incidiram diretamente sobre

a casa burguesa e foram elaborados no mesmo período da reestruturação da cidade - contou

com os saberes ligados à medicina e ao direito. Com a entrada da figura de um arquiteto /

autor, a repetição do ideal burguês de moradia - com suas zonas, social, íntima e de serviço atendendo a propósitos e convenções específicas - vai resultar em um modelo almejando outras classes, pois a burguesia, como assinala Foucault, trabalhou a si mesma, desenvolveu seu próprio tipo de indivíduo: para que certo tipo de liberalismo burguês se tornasse possível ao nível das instituições, foi necessário realizar, ao nível do que ele denominou micro- poderes, um investimento muito mais rigoroso, cuidadoso, nos corpos e comportamentos. 4 A preocupação maior foi então com a ordem dentro da rede de relacionamentos na família, para que fosse possível manter a ordem na sociedade. No caso da arquitetura doméstica, o programa então institucionalizado e consolidado na arquitetura modernista do século XX - ao qual o arquiteto vai conferir inteira e indiscutível legitimidade - pode representar uma forma ou um mecanismo de ação, entre tantos outros, de um desses micro-poderes. Pois aqui o interesse é mostrar como a produção arquitetônica está apoiada em um saber autoritário, também institucionalizado, presente na literatura especializada, e que precisa ser averiguado na sua repetição. 5 Por outro lado, a escolha do espaço privado moderno é devida tanto ao interesse na investigação sobre a produção da arquitetura moderna, a qual vem se destacando no meio

2 Para informações detalhadas sobre essas transgressões, v. ARAÚJO (1993), VAINFAS (1997), DEL PRIORE (1993) e LIMA (1987). Uma investigação específica sobre esta questão e sua ligação com o espaço doméstico nesse período parece ainda estar por ser feita.

3 WERNECK (1999) p. 39

4 FOUCAULT (1985)

5 Em relação à crítica inglesa, existem estudos sobre essa repetição nas leituras e recomendações de MUTHESIUS (1979), conforme descritas no seu clássico The English House. Outra investigação cobrindo a habitação européia, de meados do século XIX até as primeiras décadas do século XX, encontra-se em TEYSSOT (1991).

13

acadêmico, como à ausência de informações da produção de arquitetura residencial modernista em Salvador. Assim, concentramos nossa pesquisa - utilizando fontes primárias - a partir dos primeiros exemplares daquela arquitetura na cidade, isto é, entre 1930 e 1949. A abordagem escolhida se relaciona a duas problemáticas diferentes que se articulam separadamente: de um lado, a própria consideração do que conceitualmente significa arquitetura modernista e, do outro, a reflexão teórica sobre as relações de gênero que, inevitavelmente, ganha contornos específicos quando o tema é a habitação. Se definir arquitetura é uma questão complexa, parece que conceituar arte moderna ou arquitetura moderna e / ou modernismo é ainda mais problemático, embora no material pesquisado, no recorte escolhido, “arquitetura moderna” e “modernismo” sejam utilizados livremente. Tratando das variadas denominações da arte moderna, Argan argumenta que houve um período em que se pensou que a arte, para ser arte, deveria ser moderna - ou seja, refletir as características e as exigências de uma cultura preocupada com o progresso, e que a arte deste período é também conhecida como modernista, - programaticamente moderna. 6 Muitos autores, diante da conceituação complexa de modernismo, utilizam as definições de modernidade e modernização para então conceituar o modernismo. É em torno destes três conceitos que tem girado a reflexão sobre o mundo moderno e sua cultura. Como aponta Harrison 7 , na definição dos dois primeiros conceitos, as discordâncias são raras. Modernização refere-se “a uma série de processos tecnológicos, econômicos e políticos, associados à Revolução Industrial e suas conseqüências e modernidade refere-se às condições sociais e experiências que são vistas como efeitos desses processos”. 8 Modernismo, para o autor, corresponderia a uma “certa posição ou atitude que se caracterizaria como uma forma de resposta tanto à modernização como à modernidade”. Porém, quando a palavra é aplicada à arte, alguns problemas surgem. O mais grave seria a tendência de utilizar o termo de uma forma genérica, para cobrir as manifestações artísticas de

6 ARGAN (1987). Por outro lado, o uso do termo arquitetura moderna, em um sentido mais abrangente ou diante da preocupação com a sua gênese, varia de autor para autor. TAFURI (1979), por exemplo, defende que a arquitetura moderna nasceu na região da Toscana, norte da Itália, no ato da inserção da cúpula de Santa Maria das Flores, em Florença, criação renascentista primeira, do arquiteto Bruneleschi. Por outro lado, quando especula sobre o “eclipse da história”, significando a ruptura da arquitetura moderna com o historicismo, TAFURI (1982) atribui esta desvinculação “moderna” às vanguardas “modernistas”. Já FRAMPTON (1996) toma a obra de J. Sufflot, a Igreja de Santa Genoveva (hoje Panteão), em Paris, enquanto inovação estrutural e espacial e os projetos dos arquitetos do Iluminismo como expressões da gestação da arquitetura moderna. O século XX então corresponderia ao período de sua expansão.

7 HARRISON (2000).

8 Idem, p.6.

14

todo o período moderno. Para Harrison, “o modernismo trata antes de uma forma de ‘valor’ em geral associada a algumas obras que serviria para diferenciá-las das outras”. 9 Embora este conceito apresente dificuldades, 10 parece-nos que pode ser aplicado ao nosso caso, uma vez que temos como horizonte de preocupação identificar residências que, em Salvador, apresentem um valor vinculado à linguagem modernista européia (produzida no período entre guerras), semelhante àquelas já estudadas em outras cidades do país. 11 Desse modo, também seguimos a terminologia adotada por Weimer 12 , que identificou o mesmo tipo de casas em Porto Alegre, e denomina-as “modernistas” - em um recorte temporal que coincide com o da nossa pesquisa. Esclarecendo que estamos longe de uma unanimidade sobre o conceito, e considerando as diferentes modalidades existentes de modernismo, Weimer lembra que a modernidade não é unívoca, “sendo capaz de assimilar contrastes e matizes deste complexo século XX”. Esta diversidade é, para o autor, uma das grandes dificuldades conceituais e operacionais do DOCOMOMO, identificada, inclusive, nos diversos seminários nacionais e internacionais já promovidos por este órgão. Igualmente, se o DOCOMOMO, por motivo até mesmo simbólico, continua, em sua sigla, a se referir ao Movimento Moderno - quando sua “invenção” já é ponto pacífico para todos, em termos de construção historiográfica - é evidente que, nas suas publicações, a utilização do termo modernismo aplica-se às diferentes manifestações arquitetônicas encontradas nos países que compõem aquela organização. O uso do termo modernismo, no presente trabalho, está igualmente associado ao fato de que, nas publicações nacionais e locais consultadas - incluindo jornais e revistas, contemporâneas ao período em estudo, também se encontra a utilização dos dois termos “modernismo” e “arquitetura moderna”. 13 Da mesma forma, na literatura anglo- saxônica - cujo conteúdo é insumo constante neste trabalho - é freqüente o uso do termo modernismo. 14 Vale acrescentar que, tratando a presente pesquisa de questões ligadas sobretudo ao espaço e não à forma, a discussão e o aprofundamento dessas conceituações não são de fundamental importância, razão pela qual outra postura aqui adotada é evitar dar nomes às manifestações plurais da arquitetura moderna em Salvador - como é comum nas histórias

9 Idem, Ibidem.

10 O próprio Harrison aponta problemas na seleção dessas obras, uma vez que muitas tendem a não se relacionar seja com o processo de modernização seja com a experiência da modernidade.

11 Caso de São Paulo (DAHER, 1982 ), Maceió (SILVA, 1991) e Porto Alegre (WEIMER, 1998) entre outros.

12 Documentation and Conservation of buildings, sites and neighbourhoods of the Modern Movement

13 Muito embora as conceituações não estejam claras nas referidas publicações.

14 Variações no uso do termo existem na Espanha, onde modernismo significa art nouveau e na França, onde o termo tem conotação pejorativa. No Brasil parece que esta conotação também existe quando a referência é feita à arquitetura que está sintonizada com os principais princípios do “Movimento Moderno” (na sua vertente hegemônica, corbusiana). O termo mais adequado seria então arquitetura moderna.

15

oficiais da arquitetura brasileira, ainda presas às questões de estilo. Desse modo, não serão consideradas diferenciações sobre o que constituem, por exemplo, o proto-modernismo ou o art déco, citando-os apenas quando pertinente e esclarecendo nas notas. Tendo explicitado em termos gerais o tema principal do trabalho e sua dupla problemática, passaremos a descrever o percurso seguido nos capítulos, uma vez que a Tese, na sua elaboração, constou de idas e vindas: da pesquisa histórica a uma reflexão teórica e crítica, da descoberta de novos dados à tentativa de expor com alguma precisão a relação complexa entre espaço privado e público, da interferência do espaço doméstico nas relações sociais e destas sobre o espaço e, finalmente, pelos corredores dos arquivos onde - aliás - o trabalho árduo de ir e vir se concentrou. Tendo em vista o fato de que o estudo das relações entre arquitetura e gênero é pouco desenvolvido no país e diante da complexidade das teorias, percepções e reflexões sobre a questão da habitação e do habitar, foi necessário - no Capítulo 1 - esclarecer o percurso teórico que, partindo da diferenciação das conotações tão variadas que o espaço privado comporta, se estendeu da crítica ao projeto arquitetônico para o papel do arquiteto ou projetista, e daí para a reflexão epistemológica da própria disciplina arquitetura.

A Tese consta de mais cinco capítulos e uma Conclusão. Os Capítulos 2 e 3 consistem

em uma retrospectiva histórica. O primeiro se concentra nas transformações urbanas da Cidade de Salvador, privilegiando o tema da inserção - física, social e econômica - da habitação na mesma, desde o início da colonização portuguesa até as primeiras décadas do

século XX.

O Capítulo 3 se detém, com um respaldo teórico-histórico mais geral, em termos de

bibliografia, em descrições de práticas sociais no espaço privado, para daí percorrer algumas habitações soteropolitanas, tentando ler seus espaços à luz das mentalidades e práticas domésticas, das relações inter-pessoais, das fronteiras entre o privado e o público - nos séculos XVII, XVIII e XIX, em Salvador - e a transformação dessas experiências no tempo. Essa retrospectiva é necessária para entender as condições que possibilitaram a produção da arquitetura modernista e a influência que esta recebeu da cultura arquitetônica européia. Para isso, o Capítulo 4 se concentra, por um lado, em uma revisão histórica dos princípios que embasaram o modernismo europeu nos anos 20 e 30 do século XX, os quais exerceram influência sobre os métodos de projetação no Brasil nos anos subseqüentes. Por outro lado, o referido capítulo informa como se deu a emergência e a frustração das primeiras tentativas de abordar a questão de arquitetura e gênero pelos movimentos feministas, a partir de meados do século XIX, nos Estados Unidos, e depois, já no século XX, na Europa.

16

O capítulo termina com a análise descritiva de algumas residências americanas e européias que podem exemplificar certa transgressão do zoneamento da habitação acima referido. No Capítulo 5, voltamos para o Brasil e para Salvador, desvendando fatos e experiências que podem explicar a gênese e os desdobramentos da absorção, ou não, do pensamento urbanístico moderno entre profissionais e políticos da cidade. A adoção da estética modernista nas residências baianas, suas prováveis fontes e os principais protagonistas de sua difusão também são contemplados nesse capítulo. O Capítulo 6, cerne da pesquisa, analisa os espaços domésticos dos projetos encontrados nos arquivos e tenta, para compreender as relações sociais de gênero dentro daqueles espaços, perguntar em paralelo: quem são essas mulheres - as donas dessas casas? Qual a sua formação, seu processo de aprendizagem, onde e como as mesmas adquiriram conhecimento para tocarem suas vidas no mundo público e privado? Essa abordagem histórico-crítica não só conduz à compreensão da força com que um modelo de habitação se estabeleceu, como torna possível o entendimento de como diversas instituições - entre elas a família, a educação e a arquitetura - são responsáveis para que as coisas sejam como são. Pois é historicizando e questionando nossas instituições que nós revelamos sua construção artificial, portanto alterável. Brecht, cujo trabalho revelou o caráter mutável daquilo que se apresenta como familiar e imutável, já notava a dificuldade de romper o ciclo repetitivo de ações na sociedade, vinculado que está a controles específicos. 15 As convenções, como representações do que há muito não foi alterado, são bloqueios para a tomada de consciência e para uma mudança potencial.

15 BRECHT, Bertold, “Pequeno Organon para o Teatro” (1948), citado por PEIXOTO (1979). Notas reunid as nos escritos

parece impossível alterar o que nunca foi

sobre teatro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979 p. 337. Diz Brecht:

porque

alterado. Nós estamos sempre diante de coisas tão óbvias para nos aborrecermos em compreendê-las. O que os homens experienciam entre eles é pensado como “a” experiência humana. A criança, convivendo em um mundo de adultos, aprende

como as coisas funcionam lá

promovido pela sociedade, ela tende a vê-la como aquele grupo de seres como ela, como um todo que é maior do que a soma das partes e, portanto, não podendo ser, de modo nenhum, influenciado. Além do mais, ela estaria acostumada a coisas que não poderiam ser influenciadas; e quem desconfia do que elas estão acostumadas? PEIXOTO (1979) p. 342.

Mesmo se ela descobrir que aquilo que foi determinado pela ‘Providência’ foi, na verdade,

17

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA Os estudos e pesquisas sobre as habitações em geral - sejam em termos de produção nacional ou estrangeira - durante o século XX, resultaram, na maioria das vezes, em uma historiografia que privilegia os aspectos formais e estilísticos em detrimento dos espaciais e, uma vez se detendo na análise espacial, dificilmente questionam a distribuição e disposição dos cômodos no espaço doméstico, seus usos e o que representa em termos de construção social, abordagem principal deste trabalho. Desde o século XIX, a atenção dada à distribuição e disposição do espaço doméstico foi importante e decisiva no que tange ao estabelecimento de normas e diretrizes para o projeto. A difusão desses arranjos espaciais, no entanto, não se limitou a publicações dirigidas para um público de especialistas, mas igualmente - e talvez principalmente - para o público leigo. Isso não foi gratuito. É no desenrolar desse século que se deu a grande transformação da casa, principalmente do seu espaço interno, no sentido de valorizar a privacidade e de estabelecer um zoneamento espacial que divide a moradia em três setores: social, íntimo e de serviço. A partir de então, o programa da casa institucionalizou-se e só recentemente alguns autores têm problematizado as razões dessa institucionalização e do papel do arquiteto ou projetista, dos historiadores e dos teóricos, nesse processo. Começaremos analisando a produção desses historiadores e teóricos, no sentido de entender as razões pelas quais o tratamento do espaço privado - à exceção da abordagem teórica feminista mais recente, no exterior - parte sempre de esquemas funcionais a serem investigados, perpetuando assim o programa que certamente esconde os principais questionamentos que se podem fazer sobre o mesmo no projeto de habitação. Podemos dividir a produção bibliográfica sobre a casa em dois grandes blocos que norteará a nossa avaliação, no sentido de adotar uma nova base teórica que se ajuste ao nosso objetivo. O primeiro, mais descritivo, desenvolve abordagens vinculadas ora aos aspectos formais, ora aos espaciais da habitação. Para reduzirmos o elenco dessa produção, sua concentração será nas obras do século XX, o que significa dizer que trata-se do contexto da produção da arquitetura moderna - tema do nosso objeto de estudo - e da literatura arquitetônica a ela relacionada. O segundo bloco se deterá, particularmente, nas abordagens teóricas que vão além da questão específica da casa - inserindo-a em uma teia interdisciplinar que inclui as ciências humanas e a filosofia - com o intuito de questionar sua construção epistemológica. Todas as obras clássicas da história da arquitetura trazem, de uma forma mais ou menos extensa, considerações sobre a casa ou determinadas casas, pois a maioria delas se

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concentra nas obras de arquitetos consagrados 16 - identificando transformações estilísticas, buscando a origem e as causas dessas transformações e descrevendo as diferentes concepções volumétricas, plásticas e espaciais que resultaram da criação daqueles arquitetos. Além disso, é notória a ênfase dada à habitação ao ser feita qualquer referência à arquitetura moderna. Em termos de uma bibliografia mais ampla, a produção é enorme - incluindo a nacional e a estrangeira - cobrindo estudos tanto de vilas ou mansões das classes mais abastadas e de casas para a classe média quanto, e principalmente, daquelas destinadas à habitação popular, particularmente dos conjuntos residenciais. Porém, em todos os casos, um fato está sempre presente: a representação recorrente do programa, sendo mais simples ou mais complexo, mais reduzido ou mais amplo, termina por conter, invariavelmente, a concepção tri-partite da casa: áreas social, íntima e de serviço. O espaço privado está preso a esta condição e a razão, ou melhor, as razões do seu aprisionamento precisam ser investigadas. Talvez o ponto de partida da presente investigação seja averiguar o pensamento, a base histórico-teórica, que subjaz sob esse aprisionamento, uma vez que identificar outras razões - construídas historicamente, nas dimensões cultural e sócio-econômica, no caso aplicado ao Brasil e a Salvador - é um dos objetivos do presente trabalho como um todo. Para tanto, um caminho eficaz pode ser uma incursão sobre os fundamentos teóricos e as abordagens metodológicas dos autores que discorrem sobre o tema, ou que inserem na sua produção alguma descrição ou reflexão sobre ele. 17 E aí, parece que a primeira coisa a ser observada é o consenso sobre a casa ou abrigo como sendo a própria origem da arquitetura, isto é, o lar do primeiro homem. Nesse retorno às origens, a arquitetura conformaria todas as outras atividades humanas através da condição de abrigo primitivo. Uma revisão sobre as várias concepções desse abrigo nas formulações teóricas sobre a arquitetura e seu embasamento em estudos antropológicos, psicológicos, filosóficos ou poéticos é desnecessária. Muitos já o fizeram. 18 É necessário, porém, ressaltar que a recorrência ao tema do abrigo primitivo está vinculada à crença de que nele se instituiu o espaço desde sempre habitável, humanizado, enquanto essência da arquitetura. Entre os textos que mais reforçaram essa crença, na segunda década do século XX, está o “Construir, Habitar, Pensar”, de Martin Heidegger, que se tornou, no dizer de Arantes, uma referência fundante, sem a qual os arquitetos não sabem

16 Naturalmente existem as exceções ligadas particularmente aos estudos da arquitetura vernacular ou que incorporam questões de antropologia social e cultural à compreensão do habitat humano.

17 SCHULZ (1975), RIKWERT (1999), ROSSI (1995), FRAMPTON (1996).

18 A exemplo de RAPOPORT (1972), BACHELARD (1996), OLIVER (1972), LLEÓ (1998). Os mais recentes, no Brasil, foram trabalhos divulgados em rede, na revista virtual Vitruvius, em 2003. Um, do arquiteto mexicano Affonso R. PONCE (http://vitruvius.com.br/arquitextos/arq024/arq024/02.asp) apresentado no II Seminário Nacional de Arquitetura, intitulado Pensar e Habitar e outro de Jorge Marão Carnielo Miguel, intitulado Casa e Lar. A essência da arquitetura (http://vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp156.asp ).

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mais refletir sobre a sua disciplina. 19 Pois é em uma cabana na floresta - uma versão, reprodução ou repetição do abrigo primitivo - onde Heidegger realiza o seu “ser do construir”. Que esse texto seja um texto filosófico e não de arquitetura, como argumenta Arantes, não discutiremos aqui. Apontamos, contudo, que o mesmo - uma vez apropriado pelos arquitetos - afastou-se da vida concreta das pessoas nos seus espaços de vida cotidiana e de toda a problemática, social, psicológica e existencial aí embutida. Essa afirmação, no entanto, não impediu a transformação da vida cotidiana em poesia ou expressão poética 20 - prova disso é que já inspirou criações teóricas ou literárias e citações poéticas das mais belas - resultados das vivências carregadas de nostalgia que todos nós sentimos sobre a casa. No que diz respeito à casa e aos seus espaços interiores, o posicionamento acrítico dos arquitetos levou a uma idealização ou romantização da mesma, tomada apenas como o lugar do abrigo, da proteção, do aconchego, do íntimo, da convivência feliz com os familiares e amigos, ou seja, somente atributos de natureza positiva, afastando a possibilidade de reconhecimento daqueles outros - angustiantes, temíveis, opressores e repressores que também habitam a casa. 21 Inclusive aquela de Heidegger. Pois se a casa de “Construir, Habitar, Pensar” não acolheu o que não é familiar, conhecido; reprimindo as conotações do estranho, do temível, em “Ser e Tempo” - sua obra mais importante - o filósofo deixa o “ser do temer” habitar a casa. 22 E mais, aproxima-se do conceito de “estranho” em Freud 23 (retomado adiante nesse trabalho) quando diz que o temor se transforma em pavor e que “o referente do pavor é, de início, algo conhecido e familiar” - e que, uma vez deixando de sê-lo (familiar), o temor transforma-se em horror. 24 Assim, a escolha unilateral de um texto mais recente de Heidegger (“Construir, Habitar, Pensar”), em um momento em que existe um desejo de lealdade aos conceitos específicos da arquitetura enquanto disciplina que se quer autônoma, reforça o discurso da gênese da arquitetura e da formação do conhecimento que lhe é próprio. 25 Mas o que lhe é próprio? O conhecimento do que é próprio da arquitetura não é apenas uma questão de técnica - que um artesão ou construtor, sem dúvida, entendia - mas também de epistemologia, isto é, a forma sistematizada de adquirir conhecimento sobre arquitetura. Essa epistemologia foi

19 ARANTES,(1993).

20 Na poética de Rira Eng (1960) e de Virginia Woolf (1927) ou da escritora mineira, Adélia Prado, por exemplo.

21 Naturalmente que esses atributos negativos ou positivos ligados à casa variam, uma vez que não existe “a casa”, mas casas que se diferenciam quanto à sua pertença a diferentes classes sociais e diversidades culturais, no tempo e no espaço.

22 Agradeço a Liane Castro de Araujo a observação sobre o acolhimento desta idéia em Heidegger.

23 Os conceitos Heimlich e Unheimlich (familiar / conhecido e não familiar / estranho) embora pareçam opostos, vão se transformar um no outro: “Heimlich é Unheimlich”, segundo Freud. FREUD (1967)

24 HEIDEGGER (1995) p.197.

25 Esta gênese, no pensamento clássico, é formulada no século XVIII pelo Abade Laugier, como veremos adiante.

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formulada e reformulada em tratados tão antigos como o de Vitrúvio e constitui uma das principais (se não a principal) fontes de recorrência e repetição nos discursos de arquitetura. 26 Em “Os Dez Livros da Arquitetura”, Vitrúvio elenca uma série de conhecimentos que o arquiteto deve ter, como música, filosofia e história - além dos mais óbvios para o exercício do ofício de arquiteto - os quais acrescentam, para além do saber técnico, questões de significado, contexto e referências apropriadas e que resultam na valorização da autoridade para construir, sobre o conhecimento para tal. De fato, essa autoridade remonta ao De Architetura Libri Decem, segundo Ingraham, e são nas histórias narradas por Vitrúvio naquele primeiro discurso sobre arquitetura - para auxiliá-lo em sua argumentação - que podemos precisar as questões da propriedade. Podemos destacar duas dessas histórias: as explicações sobre as cariátides 27 e sobre a vitória dos lacedemônios sobre os persas 28 , pois mostram como as mesmas retratam os princípios aprovados da construção (autoritária) gerados exatamente dessas narrativas de “propriedade” cultural e política. E elas são muitas, segundo o próprio Vitrúvio: “Igualmente, existem outras histórias do mesmo gênero das quais é necessário que os arquitetos tenham conhecimento”. 29 Sabemos que as disciplinas, de um modo geral, protegem-se de saber aquilo que elas não são, porque, assim fazendo, habilitam-se a construir uma genealogia, um ponto de partida para si próprias, um fator de identidade. 30 Pode-se especular nesse sentido sobre a preocupação teórica recorrente, referida anteriormente, em relação à “construção” da origem da arquitetura a partir da “cabana primitiva”, que tem na obra Essay sur l’Architecture, do Abade Laugier, datado de 1763, a sua versão mais clássica (nos dois sentidos). 31 Antes dele e depois dele, expressões e

26 INGRAHAM (1988): 7 -13.

27 VITRÚVIO (1999). Cária, cidade do Peloponeso, aliou-se aos inimigos persas contra a Grécia, razão pela qual os gregos lhe declaram guerra. Os últimos, vitoriosos, destroem a cidade, matam os homens e escravizam as mulheres. Essa escravidão se torna então perpétua, através da imagem que os arquitetos passam a representar nos edifícios públicos: as mulheres cariatas suportando seu peso, para que sua pena, sofrida no lugar das penas da cidade, fosse transmitida aos pósteros. Segundo Vitrúvio, “os arquitetos devem conhecer a fundo essa e outras histórias para que, quando perguntados, saibam contá-las”. Primeiro Livro, p. 50.

28 Na batalha de Platéia, diz Vitrúvio, os lacedemônios, vencendo os persas, muito mais numerosos, celebraram “com glória o triunfo do butim e dos prisioneiros, erigiram o pórtico persa com despojos como monumento aos pósteros pela vitória; testemunho do mérito e do valor dos cidadãos no qual, suportando a cobertura, instalaram estátuas dos cativos em trajes bárbaros, representando-os punidos por seus agravos e orgulho para que os inimigos se intimidassem com receio dos efeitos de sua coragem e que os cidadãos, em vista de tal exemplo de virtude e eretos de glória, estivessem dispostos a defender a liberdade. Desde então, muitos erigiram estátuas representando persas a sustentar entablamentos e guarnições de seus edifícios, e a partir disso enriqueceram-se as obras com uma excelente variedade. Idem, p. 51.

29 Idem Ibidem

30 O ponto de partida (a origem) e a identidade são dois dos inúmeros conceitos questionados pelo pós-estruturalismo na sua contraposição ao pensamento metafísico ocidental no qual a construção de conceitos logicamente parametrados requisita, claramente, a procura de um posto de segurança para o pensar. In CRITELLI (1996).

31 Como Waismman sugere, a cabana primitiva de Laugier é a legitimação abstrato-formal da concepção clássica grego- romana favorecendo-a enquanto essência da arquitetura e universalidade do modelo. WAISMMAN (198?)

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representações as mais diversas, no espaço e no tempo, funcionam como a mais legítima validade do significado original - e portanto, essencial - das edificações destinadas ao homem, entre as quais a casa, sempre associada com o lar seguro, protetor, lugar de descanso e paz. No século XIX, John Ruskin, por exemplo, recoloca e reforça essa associação do lar como o lugar de refúgio separado daquele da indústria e do comércio:

“Esta é a verdadeira natureza da casa - é o lugar da paz - do abrigo, não só de todo dano, mas de todo o terror, dúvida e divisão. Na medida em que não for isto, não é uma casa; na medida em que as ansiedades da vida exterior penetram nela, que a inconsistência, o desconhecido, o desamor e a sociedade hostil do mundo exterior forem permitidos, seja pelo marido ou pela esposa, a atravessar a sua fronteira, ela cessa de ser uma casa”. 32

Já no século XX, Gaston Bachelard, ligando a casa com a memória e a imaginação dos que a habitam, vai relacionar o espaço habitado com a essência da idéia de casa:

“Na ordem dos valores, ambas (memória e imaginação) constituem uma união da lembrança com a imagem. Assim, a casa não vive somente no dia-a-dia, no curso de

uma história, na narrativa de nossa história. Pelos sonhos, as diversas moradas de nossa vida se interpenetram e guardam os tesouros dos dias antigos. Quando na nova casa, retornam as lembranças das antigas moradas, transportamo-nos ao país da

Infância Imóvel, imóvel como o Imemorial (

uma das maiores forças de integração para o pensamento, as lembranças e os sonhos

do homem.(

)

Pretendemos mostrar que a casa é

)

Sem ela o homem seria um ser disperso. 33

Se acrescentarmos a ilustração heideggeriana do significado simbólico da casa como o sítio de todos os eventos significativos da vida, do nascimento à morte, exemplificado na casa-cabana da Floresta Negra 34 , à expressão lírica de associações da casa com o paraíso, lugar de segurança, de paz, de depósito de memórias, certamente o que encontramos é sempre um reforço da casa como a gênese da arquitetura, idéia recorrente, como argumentamos, entre muitos teóricos contemporâneos. 35

32 Citado em HALL (1992), p.61. 33 BACHELARD (1996). p. 25 e 26. Porém, como a casa é experienciada no dia a dia (como afirma o próprio autor) ela é também “outra”, lugar de alianças e conflitos, exploração, trabalho concentrado para as mulheres. MCDOWELL (2002). Esta autora trata exatamente dessa dupla existência da casa como uma edificação e um paraíso e do lar como um lugar de trabalho, enquanto aborda também a nação como homeland (p.815 a 822).

34 Arantes atribui o exemplo encontrado por Heidegger, a casa isolada na floresta, a uma característica dos filósofos alemães, isto é, seu desprezo pela cidade, enquanto indivíduos anti-urbanos que são.

35 Podemos citar o próprio RIKWERT (1999). Um dos mais destacados teóricos contemporâneos da arquitetura, Rikwert, a partir de crença na essencialidade da cabana primitiva e acompanhando com preciosa erudição a relevância da mesma para os arquitetos e teóricos de todos os tempos (ele cobre inúmeros desde Vitrúvio a Le Corbusier, seja em citações textuais ou gravuras), recorre ao waning, objeto sagrado dos aborígenes australianos, um povo sem edifícios, para postular sua casa para Adão no Paraíso. O waning, para o autor, evoca, na sua fatura geométrica e sua carga simbólica, um nexo similar de noções primárias presentes nos exemplos por ele analisados (p.232 a 237).

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Para Ingraham, este momento de gênese, que é institucional, filosófico e lingüístico, é recuperado como “um ato poético e trágico - como um mito” que passa a pertencer a uma formação específica - a formação da arquitetura”. 36 Foi assim, importando o saber produzido por outras áreas do conhecimento, que a arquitetura abriu-se para o jogo das metáforas, onde é tão rica e, simultaneamente, se auto- formulou como uma disciplina, estabelecendo suas fronteiras e sua terminologia no sentido de conferir-lhe identidade. É a afirmação desta identidade que o posicionamento de teóricos e arquitetos contemporâneos busca reforçar nas suas abordagens para legitimar a autonomia da arquitetura, a exemplo de Rossi, Eisennman, Vidler 37 , e tantos outros. No texto “A Terceira Tipologia”, Vidler, defendendo o conceito de tipo em arquitetura, advogou que - depois de usar os paradigmas da cabana/natureza (analogia orgânica) 38 e da arquitetura / máquina (analogia industrial) ambas como legitimações externas à disciplina - a arquitetura corretamente adotou a terceira tipologia dos neo- racionalistas italianos os quais buscam sua inspiração e suas formas internamente, nos padrões físicos da cidade sincrônica. Assim, o ato de auto-formulação da arquitetura como disciplina e o seu reforço, paradoxalmente, fecha, na contemporaneidade, as fronteiras para a apropriação, pela arquitetura, de temas e conceitos de fora, que de início lhe foram úteis. Para Ingraham, a necessidade de ser um objeto formal e autônomo, construído segundo os termos e as condições de uma dada era ou ethos, e ainda mais, parecendo transcendê-los, protege - como conseqüência - a arquitetura de determinados tipos de investigação teórico-crítica. Aplicado ao nosso objeto específico - a organização espacial da casa e as implicações de relações sociais de gênero nela presentes - não é a necessidade e o desejo do abrigo, mas de um tipo específico de abrigo - abrigo adequado, concebido e construído de acordo com princípios que podem ser articulados para responder a funções e aspirações próprias e apropriadas, que interessa. E se o sujeito (universal), na sua postura clássica, iluminista, não habita uma edificação mas a idéia de uma edificação, a proposta aqui é tentar investigar o que, finalmente, está por traz dessa idéia.

36 INGRAHAM (1988) p.7. Mito aqui é entendido como entidade arcaica e regressiva repotencializado no seu valor em dado momento. SEVCENKO (1998) p.311.

37 VIDLER (1976), ROSSI (1995), EISENMAN (1984) p.155-172.

38 Vidler, no texto, localiza a fundação da tipologia no ideal da natureza (durante o Iluminismo), na ordem industrial da produção (durante o modernismo) e na cidade (durante o advento do pós modernismo). Para ele neste texto o tipo está ligado à origem da arquitetura.

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A posição de proteção que a arquitetura, como disciplina, se coloca, diante de uma

investigação teórica sobre a casa, por exemplo, parece que envolve questões vinculadas a aspectos de “propriedade” - facilmente observável enquanto termo indispensável recorrente

em arquitetura - e que, segundo Ingraham, diz respeito ao que é “próprio”, tanto no sentido de “adequado”, como de “posse”. 39 Por outro lado, a formulação do que é próprio na arquitetura é também a formulação de seu ser lingüístico e metafórico que foi simultaneamente “convocado e escondido” quando a disciplina foi concebida. Segundo Ingraham, adotar a abertura para uma crítica que não só escrutinize a história e o significado da arquitetura, mas também que admita que o arquiteto é o recontador do que é próprio, sociológica, política e ideologicamente dessa mesma arquitetura (daí a importância que a historiografia e o papel do arquiteto têm para o nosso tema) é que ela pode, de fato, construir para si novas possibilidades. Para esse fim, talvez um primeiro caminho seja duvidar de que, como entendido tradicionalmente, o poder e as propriedades da arquitetura derivem apenas de outras esferas culturais, de que o lugar arquitetural seja entendido como sendo relações de propriedade já colocadas econômica e culturalmente. É certo que as idéias científicas que governam a produção da arquitetura, como gravidade, forças e cargas dependem de uma atitude cartesiana em relação ao material e ao espaço e que idéias morfológicas e tipológicas que governam esse espaço e a forma arquitetônica - estabelecendo tipologias formais e funcionais - são dominadas por sistemas pré-existentes de propriedade, formulados social e culturalmente. Esses sistemas subsistem sob alegações irrefutáveis do que seja propriamente uma casa, por exemplo, como deve parecer seu espaço, materiais, ordem, disposição e distribuição de cômodos e assim por diante. 40

O modelo tri-partite sacramentado para o espaço privado, dominante nas sociedades

ocidentais por quase dois séculos, cujo entendimento constitui o maior desafio desse trabalho, poderia ser assim compreendido e explicado. Sua construção certamente envolve campos variados do conhecimento e de práticas políticas, econômicas, sociais e culturais. Mas, ao

39 Em inglês existem dois termos para designar esses significados: propriety (no sentido de adequado, apropriado) e property (no sentido de posse/ser dono). Interpretando o sentido como Laugier caracterizou o momento de transição de um frouxo grupo de galhos de árvores em “abrigo primitivo”, Ingraham observa que, seguindo o mito, nos movemos ou somos movidos de um estado passivo, pastoral, natural para um estado cultural, ativo; de um “estado de natureza” para um “estado de arquitetura”; de um abrigo acidental para um imóvel, propriedade de alguém ou de alguns. INGRAHAM (1988) p. 9. A autora utiliza a obra de Shakespeare, King Lear, sobre a partilha de suas terras e bens entre suas herdeiras, para discutir os termos property e propriety. Também para SIMÓ (1989), o aparecimento do sentimento do privado enquanto valor fundamental que incidiu sobre a casa burguesa foi um salto que incluiu o individual e o intransferível e mantém relação direta com a propriedade econômica. 40 Essas alegações estão, de certa forma, sendo questionadas pelo pensamento que introduz os conceitos contemporâneos de multiplicidade, fragmentação, caos, labirinto, rizoma, em contraposição aos conceitos clássicos de análise espacial ou cultural do pensamento metafísico, aplicados na arquitetura.

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mesmo tempo, poderíamos dizer que, recorrendo a Foucault, uma inversão é possível, econômica e culturalmente, em relação ao ato arquitetônico e ao objeto resultante - os quais não seriam explicados apenas em termos de cultura mas de uma “instância espacial da cultura”. É o que o filósofo / historiador afirma quando reivindica o tema do espaço, a análise arquitetural, espacial, e não temporal da cultura, confiando, na sua investigação sobre a história do conhecimento, nas demarcações espaciais, além das temporais. 41 Segundo Ingraham - para quem Foucault teria deixado as implicações espaciais de seu trabalho “amorfas e metafóricas” - nomear essas demarcações, parece, contudo, tornar a arquitetura um campo privilegiado de operações afastado das formas de dominação, embora relacionado às mesmas, e que, partir delas (demarcações) e do controle que podem exercer é o que, no fundo, interessaram ao historiador filósofo. Desse modo, essas demarcações parecem mais arquiteturais do que geopolíticas, por exemplo, - já que elas dependem de uma tensão entre o projeto e o ato de habitar. A força política do panóptico 42 , diz Ingraham, está na impossibilidade de separar seu ‘projeto’ político de suas funções e utilização. As metáforas espaciais que Foucault usa freqüentemente são eficazes em seu discurso porque elas já assumiram a estrutura (no projeto) da tipologia arquitetônica e a propriedade que designa as formas adequadas de habitar o espaço. 43 O importante nesse raciocínio é que, subsistindo sob a demarcação espacial do domínio, terreno, região, território, deslocamento, lugar, arquipélago - metáforas espaciais utilizadas por Foucault - estão, para Ingraham, as propriedades da cidade, sítio, contexto, escritório e casa. Essas propriedades estão emaranhadas com sistemas morais e políticos que emanam de algum lugar, mas a verdadeira noção de propriedade, a própria palavra, está ligada à posse da propriedade, à própria instância onde aquela propriedade habita, e assim, em um círculo, à arquitetura. Porém, o tema da casa, sua propriedade e propriedades, não encontram, no mesmo Foucault, uma acolhida própria. Ou melhor, nenhuma acolhida. É o que McLeod habilmente coloca em Everyday and Other Spaces. 44 O título já traz, embutida, a crítica. Em On Other Spaces, Foucault introduz o conceito de heterotopia - que ele distingue de espaços imaginários - as utopias. Em um texto mais poético que rigoroso, o autor sugere que os

41 FOUCAULT (1980), p.68 e FOUCAULT (1986) p.22-27.

42 Numa outra direção, analisando a força do panóptico ou de outras expressões para ordenar coisas e pessoas, Michel de Certeau, argumenta que “procedimentos” igualmente micros de transgressão são diluídos no dia-a-dia, onde o homem comum inventa o cotidiano, usando táticas de resistência, reapropriando-se dos espaços e do seu uso a seu jeito. DE CERTEAU (1996).

43 INGRAHAM (1992) p. 27.

44 MCLEOD (1996) p. 15 - 28.

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ambientes ou espaços qualificados como heterotopias (o teatro, o museu, o asilo, a prisão, o cemitério, a igreja, o bordel, a colônia), rompendo com as banalidades da vida quotidiana e garantindo insights da nossa condição, são privilegiados e carregados politicamente, suspendendo, neutralizando ou invertendo as relações que eles designam. Para McLeod, o que Foucault explicitamente omite é o lugar de trabalho, a rua, o play ground,o shopping center, os lugares de lazer diário (parques, cafés, restaurantes) e a casa. Considerando pertinente a concepção de “outro” em Foucault - pois ele sugere lugares e tempos reais e insiste em abordar as instituições e práticas, em termos políticos e sociais - McLeod estranha que o conceito, com sua ênfase na ruptura, exclui os lugares tradicionais das crianças e das mulheres (estas entram como objetos sexuais no bordel e no motel) dois grupos que mais mereceriam o rótulo de “outro”. E com um agravante, que deve ser ainda mais duro para as mulheres que executam o trabalho doméstico, em suas próprias casas: na exclusão da casa como uma heterotopia, a justificativa do filósofo é de que a casa “é um lugar de descanso”. Esta observação de McLeod, que vincula o espaço doméstico ao trabalho da mulher e a naturalização desse vínculo, estará na base das interpretações que serão desenvolvidas no decorrer deste trabalho. Com base em todas essas colocações, parece que algumas diretrizes podem ser consideradas na aproximação ao nosso objeto e universo de estudo. A primeira é considerar a casa como um objeto concreto, constituído de espaços de vivências, individuais e coletivas, de construção de representações e de papéis sociais que variam no tempo e no espaço, de experiências agradáveis e angustiantes, de alianças e de luta, de descanso e de trabalho, afastando-se, portanto, de uma visão mais idealizada da casa. A segunda é buscar uma abordagem metodológica que seja apropriada a esta escolha e ao próprio objeto, isto é, a associação da construção do espaço interno das residências de linguagem modernista, em Salvador, com as questões de gênero, durante as décadas de 30 e 40, do século XX. A escolha metodológica que adotamos - tanto do ponto de vista do objeto, a casa, lugar historicamente entendido como “o lugar da mulher”, quanto do ponto de vista do universo, no seu pertencimento a uma sociedade de base fundamentalmente patriarcal - está vinculada à teoria crítica feminista no seu aspecto principal, que é a discussão das relações sociais de gênero, no caso, aplicada ao espaço doméstico. Por esta razão, vimos levantando aspectos sobre a problemática da construção epistemológica da casa, no sentido de subverter as abordagens teóricas e metodológicas da maior parte do conhecimento produzido sobre esse tema. No Brasil, em contraste com outros países, a maioria dos estudos sobre a casa, particularmente na concepção do espaço privado

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em si e sua relação com o espaço urbano, ainda não focaliza a problemática de gênero, essencial para a compreensão do habitat doméstico. 45

A evidência de que são poucas as pesquisas, no país, que buscam identificar e analisar

questões ligadas às relações sociais de gênero na arquitetura, como também no urbanismo,

seja no campo da história da arquitetura e da cidade, da teoria ou do processo projetual, foi a principal razão que nos estimulou a desenvolver esta abordagem. A outra razão é a compreensão de que, na contemporaneidade, não existe mais lugar para analisar o espaço doméstico sem considerá-lo também na sua concretude, 46 ou seja, como suporte físico para o exercício daquelas relações e sua implicação na construção dos sujeitos, seus papéis, aspirações e realizações.

É importante observar que, fora do Brasil, a reflexão sobre o meio urbano, sua

constituição e história não se apegou apenas aos paradigmas já estabelecidos como norteadores de posições teóricas e práticas (tais como a produção do espaço e a dinâmica da força de trabalho), mas desenvolveu um outro aporte teórico (como a questão ou problemática das categorias de gênero e raça, em paralelo à de classe), ou seja, à construção epistemológica de novas categorias de análise para a compreensão, questionamento e transformação da realidade sócio-espacial. 47 Nos campos disciplinares voltados para a problemática urbana ou para a análise da construção dos espaços público e privado, como também na investigação histórica desses mesmos espaços, os “atores sociais” passaram a ser valorizados também naquelas práticas

sociais e espaciais baseadas nas diferenças sexuais, étnicas, culturais e religiosas. Um aspecto importante nesse sentido foi a contribuição das histórias social e cultural que, de um modo geral, tornou visível o papel das mulheres em todos os momentos da vida sócio-cultural e influenciou, diretamente, os estudiosos da construção do espaço urbano e arquitetônico, incluindo aí as investigações sobre o espaço doméstico vinculado à questão de gênero. 48

O termo gênero foi incluído nessas investigações como base para teorizar a diferença

sexual e, embora os usos sociológicos do termo possam incorporar tônicas funcionalistas ou

45 Referimo-nos aqui a parte dos países europeus, aos Estados Unidos, ao Canadá e à Argentina, que são aqueles dos quais temos notícias de pesquisas sobre o tema em questão.

46 Exceto, certamente, enquanto exemplo nas reflexões da filosofia da poesia e fenomenologia da imaginação, como faz Bachelard.

47 VALÉRY (2000) p.24. Valery observa que as categorias “domicílio”, “usuário”, “beneficiário”, “chefe da família” nas ações públicas de planejamento habitacional e urbano, mascaram a complexidade do meio social, homogeneizando sexo, geração, origem racial e cultural.

48 Esses trabalhos representam a maior parte da bibliografia utilizada na presente tese e, no caso, principalmente, de origem anglo-saxônica.

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essencialistas, as feministas escolheram enfatizar as conotações sociais de gênero em contraste com as conotações físicas do termo sexo. 49 Hoje, as abordagens feministas comportam uma grande heterogeneidade de aportes teóricos mas concordam em privilegiar esse aspecto essencial das relações humanas, ou seja, a relação entre os gêneros, tais como existiram e existem na sociedade. Concordam que essa relação é caracterizada por relações de poder definidoras de papéis que homens e mulheres desempenham em cada sociedade e as representações que cada gênero tem de si e do outro. 50 Ainda fora do Brasil, em relação à arquitetura e ao urbanismo, as teorias feministas representam um movimento de reflexão crítica e política com o objetivo de provocar uma mudança tanto no processo projetual - no sentido de uma redefinição desses papéis e representações - como no processo da prática historiográfica inaugurando uma reflexão teórico-crítica na abordagem da construção dos espaços público e privado. 51 Essas abordagens baseiam-se na certeza de que a construção social de gênero é uma produção histórica que reconstrói permanentemente papéis e representações não podendo ser, portanto, considerada como verdadeira e definitiva. 52 Grande parte das investigações sobre gênero e espaço doméstico discute e aponta a existência de espaços sexuados e esta é a base teórica principal que é adotada nesta tese, tanto na revisão histórico-crítica da produção do espaço privado do século XVII ao século XIX, desenvolvida no Capítulo 3, quanto na emergência da arquitetura modernista na Cidade de Salvador, entre os anos 1930 e 1949, recorte temporal da pesquisa.

49 SCOTT (1992) p. 63 a 95. A autora esclarece que nos Estados Unidos, “o termo é extraído tanto da gramática, com suas implicações sobre convenções ou regras (feitas pelo homem) do uso da lingüística, quanto dos estudos de sociologia e papéis sociais designados às mulheres e aos homens” (p.86).

50 Na verdade, as correntes teóricas feministas são diversas - uma vez que a observação da categoria gênero, usada primeiramente para analisar diferenças entre os sexos, foi estendida à questão das diferenças dentro da diferença (gênero feminino): mulheres de cor, mulheres judias, mulheres trabalhadoras pobres, mulheres lésbicas, mães solteiras, todas desafiando a hegemonia heterosexual da classe média branca do termo “mulheres” - argumentado que as diferenças fundamentais da experiência tornaram impossível reivindicar uma identidade isolada. Para detalhes ver Scott, Joan (1992). Dentro da diversidade de tendências, nos Estados Unidos, uma classificação (aparentemente) mais simples pode ser a

apresentada por Charlotte Bunch. Seriam três: a socialista feminista, a política reformista e a separatista cultural e espiritual.

O

“aparentemente” fica por conta de que a autora, denominando essas tendências como “alinhadas”, vai argumentar em favor

de

uma posição “não alinhada” que, a depender da problemática política a ser enfrentada, usa criticamente argumentações das

demais e de outras posturas independentes. Para detalhes ver: Bunch, Charlotte, Passionate Politics: Feminist Theory in Action New York: St. Martin’s Press, 1987.

51 Entre inúmeras contribuições podem ser destacadas, no que diz respeito às novas abordagens projetuais, os trabalhos de Diana Agrest, Elizabeh Gross, Elizabeth Wilson. Quanto às abordagens históricas podemos destacar SPAIN (1991), HAYDEN (1981), COLOMINA (1996), SIMÓ (1989), MC LEOD (1996), WIGLEY (1992).

52 VALÈRY (2000). A autora traça, no artigo citado, o percurso desenvolvido na França, a partir de 1970, dos estudos sobre

mulher e o espaço urbano. O objetivo dos mesmos foi incorporar a crítica feminista, tirando as mulheres da invisibilidade através da apreensão do conceito de gênero. São duas as correntes que Valèry identifica, baseadas nesse pressuposto.

A “essencialista” que postula a existência de uma figura essencial (“a mulher”, “a mãe”) - e que é desvendada ao estudar as

diferentes formulações históricas e sociais - e a “humanista”, onde não existe “a mulher’ mas sim mulheres e homens, seres

diferentes biologicamente, mas idênticos nos seus direitos, cujas relações resultam de um processo de dominação e subjugação variáveis no tempo e no espaço. (p. 24).

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Assim, entendemos que a definição de papéis e atribuições específicas dos homens e das mulheres tem um impacto profundo sobre a estruturação do espaço urbano e residencial e que, portanto, a necessidade da desconstrução da dicotomia - espaço privado (doméstico) e espaço público - está na base da argumentação desenvolvida neste trabalho. 53 É importante ressaltar que, embora os estudos sobre questões de gênero - na história da arquitetura e do urbanismo, nos Estados Unidos 54 e na Europa - tenham se desenvolvido apenas nas três últimas décadas, a perspectiva dessa possibilidade foi aberta desde os “novos problemas”, “novas abordagens” e “novos objetos”, característicos da metodologia de La nouvelle histoire, como colocados por Jacques le Goff e Paul Veyne, e que remonta à criação da Écoles des Annales de Marc Bloch e Fernand Braudel, desde os anos 1930. É a partir dela que entre os novos objetos da história estão incluídos: a vida privada (como os trabalhos que compõem a coleção organizada inicialmente por Philippe Ariès e Georges Duby, “História da Vida Privada” e, posteriormente, a “História da Vida Privada no Brasil”), a história das mulheres, a história da família e da infância todas elas distanciadas de uma narrativa linear, e que vão abrir inúmeras perspectivas, abordagens e áreas de estudo, entre as últimas a da relação entre gênero, arquitetura e urbanismo. 55 Os estudos de gênero ou sobre a mulher no Brasil estão sendo desenvolvidos em uma abordagem interdisciplinar, com envolvimento de pesquisadoras(es) de áreas tão diversas quanto história, política, ciências sociais, educação, saúde, geografia e direito. A participação das áreas de arquitetura e urbanismo parece ser uma das mais deficientes. Entre as pesquisas apresentadas nos dois últimos seminários nacionais de História do Urbanismo e da Cidade, realizados em Natal e Salvador, por exemplo, apenas dois trabalhos, de um total de mais de trezentos, contemplaram uma abordagem que privilegiou questões ligadas à inserção da mulher no espaço urbano. No que diz respeito à arquitetura residencial, mesmo nos livros recentemente publicados - é bem verdade que escritos por homens - a importante relação entre

53 A definição do espaço público como tradicionalmente masculino (o espaço do homem é a rua, a cidade) e do espaço privado como tradicionalmente feminino (o espaço da mulher é a casa e o entorno, o jardim), para grande parte dos autores consultados, leva a uma dicotomização que os classifica como antagônicos.

54 A produção acadêmica americana teve influência direta, naquele país, dos movimentos das minorias da década de 1960, nos quais a luta política feminista - que teve alcance mundial - foi essencial para a abertura da polêmica sobre gênero. Sem um conteúdo específico sobre gênero e urbanismo, Jane Jacobs - cujo livro The Death and Life of Great American Cities (1961) teve êxito internacional - entre outros posicionamentos, rejeita os conjuntos suburbanos que isolam as mulheres (e as crianças), se contrapondo ao zoning e, - na sua apologia à vida urbana, dinâmica, das metrópoles (reforçando continuamente a mistura das funções na cidade) aclama as condições que geram a convivência dos diferentes indivíduos, todos experienciando a vida pública. JACOBS (1961).

55 Estudos nesse campo em Salvador são inexistentes. O grupo de pesquisadoras pertencentes ao Núcleo de Estudo Interdisciplinar sobre a Mulher (NEIM), da Universidade Federal da Bahia, que produz trabalhos interdisciplinares, orienta teses e trabalhos acadêmicos em contato com as várias Unidades interessadas e organizam seminários locais e regionais, lamentam a ausência da FAUFBA nesse trabalho.

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espaço e vida social no espaço doméstico, vinculada a aspectos ligados ao gênero, não é discutida, embora seja tratada, porém ligada a fatos históricos “naturalizados” 56 . É importante relembrar que a arquitetura é aqui entendida tanto como objeto material resultante de um projeto, quanto como uma disciplina, que tem como domínio o conhecimento da arquitetura e como sujeito desse conhecimento o professor / pesquisador e / ou o profissional arquiteto que vai projetar o espaço em questão. Esse espaço, como formulado anteriormente, será abordado não como uma entidade física neutra, mas como protagonista das práticas sociais e simbólicas dos sujeitos, ou seja, o local onde os mesmos são constituídos. Por sua natureza histórica, é necessário esclarecer o conceito de história e o tipo de investigação teórica que consideramos adequados para o tema. Comecemos pela negação de que objetos históricos, quaisquer que sejam, sejam objetos naturais, em que apenas variariam as modalidades históricas de existência. Como observa Veyne, não existem objetos históricos fora das práticas, móveis que os constituem, não havendo, portanto, zonas de discurso ou de realidade definidas de uma vez por todas, delimitadas de maneira fixa, e detectáveis em cada situação histórica: “as coisas não são mais do que as objetivações de práticas determinadas, cujas determinações é necessário trazer à luz do dia”. 57 Trazer à luz do dia as determinações, o conhecimento e a interpretação do espaço privado e sua relação com as práticas sociais nele vividas, dentro de uma dada cultura, implica, entre outras, a abordagem metodológica indicada, mesmo ciente de que as correlações entre níveis sociais, indicadores culturais e representações não são estabelecidas facilmente. Essa dificuldade, inclusive, é que justifica a escolha metodológica desenvolvida pela teoria crítica feminista, a qual se insere no que vem sendo designada como História Cultural, pois trata-se de uma perspectiva de investigação histórica mais centrada nas práticas do que nas distribuições e mais nas representações do que nas repartições dos objetos. 58

56 O livro de VERÍSSIMO e BITTAR (1999) e o mais recente de LEMOS (1999) são dois exemplos. A observação “é bem verdade que por homens” não deve ser generalizada pois autores homens vêm absorvendo a problemática de gênero no exterior e, mais timidamente, no Brasil.

57 VEYNE (1982).

58 CHARTIER (1990). A análise cultural pode esclarecer as mudanças de conceitos como família, gênero, privacidade, relações domésticas entre pais, filhos, criados, agregados, como também desses com o mundo exterior. Os métodos de análise cultural de Michel Foucault e Peter Berger também são úteis para esclarecer essas mudanças. Em ambos, o conceito de “formação discursiva” é central, pois ele trata de discursos. As reconstruções históricas de Foucault confiam em fontes diversas (biografias, cartas, romances, poesia) e na linguagem como chave para entender o desenvolvimento do pensamento e da sociedade ocidental. A fenomenologia de Berger valoriza os significados subjetivos da vida social, os acordos sobre os quais a interação social é baseada e defende uma pesquisa descritiva de percepções comuns e intenções das pessoas na vida quotidiana. A linguagem é também, para ele, o sistema mais importante da sociedade.

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Por outro lado, uma dificuldade adicional da investigação proposta é que não existem muitas referências sobre a habitação dos séculos XVII e XVIII, em Salvador, cujo levantamento é importante para compreender como a vida doméstica foi modificada nos séculos subseqüentes. Exceto por algumas descrições de casas e sobrados em estudos elaborados pelos órgãos oficiais de preservação do patrimônio edificado 59 e estudos gerais de cultura material da vida doméstica, muito pouco é conhecido. Gravuras e livros daquele período sobre o tema em questão também são escassos. Referências sobre o espaço e a vida privada, no século XIX, contudo, estão presentes principalmente em desenhos e textos de viajantes estrangeiros 60 e nas interpretações dos mesmos por diversos autores nas décadas recentes. Informações em fontes primárias (a exemplo de projetos aprovados pela municipalidade 61 , testamentos e inventários) e secundárias, além da ficção literária, também são fontes importantes. 62 Um texto clássico sobre a descrição das casas coloniais brasileiras é “Casas de Residência no Brasil”, de Louis Vauthier, de onde outros autores têm retirado informações ao mesmo tempo em que enriquecem seu trabalho com outras descrições, usualmente tomando como referência os relatos dos viajantes ou investigando algumas fontes primárias e vários remanescentes ainda encontrados nas cidades mais antigas do país. Entre eles destacamos os livros “Quadro da Arquitetura no Brasil” de Nestor Goulart Reis Filho e “História da Casa Brasileira”, “Cozinhas etc.” e “A República ensina a morar (melhor)”, os dois últimos dedicados à produção paulista, todos de Carlos A. C. Lemos. Sobre as casas baianas, especificamente, muito pouco é conhecido. Contudo, o livro de Anna Amélia Nascimento, “Dez Freguesias em Salvador”, e a tese de mestrado de Maria do Carmo Almeida, “A Renascença Bahiana” (Distrito da Victoria) são referências no que diz respeito ao século XIX e à Primeira República, respectivamente. Os livros de Hildegardes Vianna, “A Bahia já foi assim” e “Antigamente era assim” trazem também informações preciosas sobre a casa e a vida doméstica em Salvador. No que diz respeito às casas dos segmentos de baixa renda a tese de mestrado de Luis Antonio Cardoso, “Entre Vilas e

59 Destaca-se aí, o trabalho pioneiro do Inventário de Proteção ao Acervo Cultural - IPAC-SIC, (1975) coordenado pelo arquiteto e professor Paulo Ormindo Azevedo. Contudo, sendo baseado em cadastros na época dos levantamentos, muitos exemplos já haviam sofrido alterações. Certamente uma consulta a fontes primárias nos arquivos municipais poderia fornecer algumas plantas e/ou outros materiais valiosos, contudo concentramos esta consulta nas primeiras décadas do século XX.

60 Alguns dos relatos de viajantes, nos séculos XVII e XVIII, são dados relevantes sobre o espaço e a vida privada no período.

61 Alguns desses exemplos, que, levantados pela pesquisadora Maria do Carmo Almeida, serão utilizados no Capítulo 3.

62 Como o recorte temporal proposto se concentra nas décadas de 1930 e 1940, as pesquisas iconográficas em fontes primárias se restringiram a este período.

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Avenidas. Habitação Proletária em Salvador” cobre o tema da habitação operária no período da Primeira República. Além do livro de Nascimento acima referido, de onde podem ser extraídas informações sobre as formas de sociabilidade no espaço público e privado, a construção da intimidade na família e as relações entre os diferentes grupos étnicos dentro da casa, o trabalho clássico do sociólogo Gilberto Freyre, “Sobrados e Mocambos”, é referência importante (embora já bastante questionada) para a construção dos modos de morar nas cidades brasileiras nos tempos coloniais. Trabalhos de pesquisa mais recentes sobre o tema da vida privada - ligados à intimidade, à sociabilidade, aos ritos e costumes e ao trabalho, incluindo-se aí a produção de bens para uso próprio ou dirigido ao mercado - vêm sendo desenvolvidos por historiadores sociais e culturais. Destacam-se aí aqueles constantes da coleção, já referida, “História da Vida Privada no Brasil”, dirigida por Fernando A. Novaes e organizado por Laura de Mello e Souza. Partindo da utilização exaustiva de fontes primárias e abrangendo o país como um todo, trazem informações valiosas sobre Salvador, sem, contudo, deter-se no espaço físico das habitações. 63 Também recentes são os diversos trabalhos desenvolvidos em Recife, em Porto Alegre, em Natal e em Brasília sobre a configuração do espaço privado no Brasil colonial, republicano e moderno, utilizando o procedimento metodológico denominado Sintaxe Espacial, elaborado por William Hillier e Juliette Hanson 64 e capaz de descrever objetivamente a estrutura espacial dos setores domésticos. Embora diferente, esta abordagem pode, em alguns casos a serem aqui analisados, trazer contribuições no cruzamento de interpretações. Finalmente, e certamente já subentendido no que foi até agora colocado, outro aspecto importante não pode ser omitido na análise dos espaços públicos e privados. Trata-se do fato de que os mesmos são permeados por ideologias que, embora mudem no tempo, apontam aspectos reveladores da sua força. Tratando do tema arquitetura e ideologia, Porphyrios 65 observa que a arquitetura como uma prática discursiva deve sua autoridade e coerência a um sistema de mitificação. Sendo uma forma de representação, o discurso da arquitetura naturaliza certos significados,

63 O método utilizado pelos autores da coleção, como referido acima, foi desenvolvido inicialmente pelos Annales, sob a influência de Fernand Braudel. Embora bastante esclarecedor em relação à investigação histórica (regras e técnicas) parece que certa neutralidade na base do método, afasta a possibilidade de um debate teórico crítico mais aprofundado.

64 Duas obras desses autores se destacam, HILLIER and HANSON (1994) e (1998).

65 PORPHYRIOS (1985). O posicionamento crítico do autor, em relação à ideologia é semelhante ao de INGRAHAM (1988) e INGRAHAM (1992).

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perpetuando práticas - no interesse de um poder hegemônico 66 - entre as quais, podemos incluir a repetição do modelo tri-partite nos projetos residenciais. O autor também argumenta que o status da arquitetura como ideologia “deriva do fato de que ela reflete a maneira na qual os agentes de uma cultura arquitetônica vivem as relações entre arquitetura como produção e arquitetura como instituição”. 67 É essa consciência que certamente muitos dos arquitetos e projetistas - enquanto agentes da cultura arquitetônica - não possuem, ou melhor, são essas implicações teóricas da prática de arquitetura que eles desconhecem. Produzir esse conhecimento através da investigação de como, no tempo, esse saber “incompleto” foi constituído é o que Porphyrios denomina História Crítica, na qual está também embutida uma dimensão política. A razão de ser da história crítica é exatamente a constituição da arquitetura como discurso e “no processo de tal constituição - o desmascaramento de um processo de mitificação seja quando e seja onde ele tenha lugar”. 68 Um aspecto, que consideramos básico na elaboração da nossa primeira hipótese, antes de iniciar a pesquisa, foi exatamente desvendar as razões da permanência do modelo tri- partite do espaço privado em Salvador que, consolidado no século XIX, terminou por ser reforçado na arquitetura modernista produzida entre 1930 e 1949, quando o discurso da “nova forma de morar” já fora desencadeado. 69 A razão dessa permanência corresponde certamente a um programa institucional (porque espaços projetados funcionam como espaços institucionais) estabelecido precisamente a serviço de uma ideologia que, segundo Foucault, pode ser entendida se o espaço privado for lido a partir das mentalidades e práticas domésticas, abordagem essencial para nosso tema. 70 Assim, para uma investigação crítica do espaço em questão, é indispensável conhecer e entender o significado da permanência do modelo tri-partite, que

66 Idem, p.16. O autor explica que os termos “poder” e “hegemonia” são usados no sentido dado por Poulantzas, isto é, “poder significando a capacidade de um grupo realizar seus interesses objetivos específicos” e hegemonia, indicando que o processo de realização de interesses não necessita “ser reduzido à pura dominação pela força ou violência mas, ao contrário, compreende a função da liderança e da ideologia por meio da qual relações sociais são fundadas sobre consentimento ativo”.

67 Instituição aqui é definida como um sistema de normas ou regras que é socialmente sancionado (como a de que as residências devem obedecer a um zoneamento).

68 PORPHYRIOS (1985) p.17.

69 Uma exceção em Salvador foi o Conjunto Habitacional do IAPI com suas lavanderias coletivas, o qual será abordado no corpo da tese. Esta informação, no momento, não inclui o questionamento da intensidade maior, ou menor, de que esse discurso tenha se tornado uma realidade.

70 De uma maneira mais geral, Foucault é interessado na avaliação da abordagem teórica da história e metodologia da crítica. Como um historiador das idéias, ele trata das estruturas subjacentes ao conhecimento em períodos culturais distintos que chama “episteme” e questiona na teoria da história as formas centradas no sujeito (rejeitando os principais conceitos da história das idéias, isto é, o autor, a obra, os livros, as influências) desenvolvendo sua análise do conhecimento através do conceito de “formação discursiva”, isto é, formas organizadas de enunciados produzidos por agentes de determinados saberes. No Capítulo 3 utilizaremos alguns autores brasileiros (Margareth Rago, Jurandir Freire Costa, entre outros) que se baseiam em Foucault para as suas formulações.

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envolve questões de dominação, exclusão, segregação, constituição dos indivíduos e vivências corporais. 71 Na Inglarerra, Robin Evans foi um dos historiadores que iniciou estudos sobre a relação entre a ideologia e o espaço privado através dos elementos arquitetônicos e sua disposição no espaço, da Renascença aos tempos modernos. Adotando o método instaurado pela École des Analles e desenvolvido por Foucault, utilizou plantas de residências, figuras humanas em pinturas e a literatura para descrever as relações humanas e entender seus modos de vida no espaço construído 72 . A questão da ideologia nos estudos sobre o espaço privado é também a preocupação de Michael Hays 73 , especialmente quando compara os interiores dos projetos dos arquitetos Adolf Loos e Hannes Meyer, os quais nos reportaremos no Capítulo 4. Beatriz Colomina, e Mary McLeod, com alguns títulos na presente tese, têm um vasto trabalho como precursoras do estudo das questões de gênero na arquitetura e a questão ideológica nelas embutidas, além de Trinidad Simó 74 que, utilizando-se de textos clássicos de Blondel e Cézar Daly, destaca o poder da ideologia burguesa, analisando alguns projetos de residências no século XIX, de autoria de Viollet Le Duc, entre outros. Finalmente, vale ressaltar que, sendo o tema do presente estudo ainda pouco explorado em nível nacional, muitas questões e conceitos aqui levantados podem estar sujeitos a revisões teóricas e metodológicas, o que estimula ainda mais a busca do conhecimento sobre arquitetura dentro de um enfoque interdisciplinar.

71 No que diz respeito às experiências corporais e à sexualidade, é importante o estudo de Foucault, em A História da Sexualidade (vol 1). Um dos aspectos analisados pelo autor são as mudanças operadas no período anterior ao século XVIII, onde havia uma familiaridade tolerante na sociedade quanto ao corpo - de vivências corporais exercidas com “naturalidade” - e que vão se deslocar até sua inexistência, no século XIX, ou seja, vão ser transformadas em “discurso”. O casal unido pelo matrimônio se impõe então como o modelo legítimo enquanto sexo destinado à procriação, seu quarto sendo o único locus da sexualidade reconhecido no espaço social.

72 Evans (1978) p.267 a 279. Evans argumenta que a casa, a partir do XIX, foi considerada como um item da produção, isto é, que o aspecto social da arquitetura, dentro da teoria e da crítica, teve mais a ver com a fabricação de edificações do que com sua ocupação. Com isto ele reforçou o enunciado de John Turner: "Habitação é uma atividade, não um lugar”, (e antes ainda, de Peter e Allison Smithson) como uma expressão relevante na abordagem dos estudos sobre o espaço privado das residências inglesas. Uma outra vertente bem anterior, nos anos 1960, na linha behaviorista (do campo da psicologia) questionou os programas residenciais devido a certas práticas institucionais e ideológicas por eles implicados. Nesse sentido, alguma literatura foi produzida por arquitetos. Sem uma base teórica forte e desenvolvendo com pouca profundidade a questão do sujeito, a abordagem desses autores resultou em uma solução ingênua para os problemas que colocaram. Contudo, pode-se considerar sua contribuição, pois, de alguma forma, eles levantaram questões relevantes sobre o tema. Ver MIKELIDES (1970).

73 HAYS (1992).

74 SIMÓ (1989).

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1.1 Procedimentos Metodológicos

Definido o tema e o objeto de estudo, a primeira preocupação foi identificar tanto as fontes bibliográficas, gerais e específicas, e arquivísticas que pudessem fornecer material de

base para o desenvolvimento do trabalho.

A pesquisa iconográfica nos arquivos da Prefeitura de Salvador foi desenvolvida na

medida em que as demandas foram surgindo e que a vontade e a coragem foram permitindo, iniciante que somos em pesquisar em fontes primárias. Em relação aos processos de solicitação de licença para construção foram dois os arquivos consultados: Arquivo Municipal da Fundação Gregório de Mattos (exemplares da década de 30) e da Superintendência de Construção Municipal - SUCOM (exemplares da década de 30 e 40). No arquivo da SUCOM, que abriga a grande maioria dos projetos consultados, foram vistos cerca de 10.200 processos. Esses processos variam de projetos com funções diversas (inclusive construção de garagens, galpões, muros, ampliações e reformas) a pedidos para reparos gerais, reforma de fachadas, inscrição de profissionais construtores na Prefeitura e solicitação de “habite-se”. Vale a pena ressaltar que, entre os projetos encaminhados para a municipalidade visando a obtenção de licença para construção a maioria apresenta uniformidade na sua apresentação, seja em número de plantas ou escala. Embora a maior parte contenha as plantas baixas, cortes e fachadas (as lacunas podem estar ligadas a desvios posteriores, causados por transferência de arquivos), além da planta de situação, as escalas variam (o mais comum é que

as plantas e cortes se apresentem na escala de 1:100 e as fachadas em 1:50). Por outro lado, a assinatura dos projetistas e/ ou construtores, uma vez que só são identificados através das mesmas, dificultam sua leitura, sendo que, às vezes, não há referência ao nome do construtor.

A grande maioria dos processos (cerca de 80%) é de pedidos para construção de casas

proletárias - obedecendo aos modelos elaborados pela PMS, desde 1931. Entre as residências da classe média e alta, as de linguagem modernista alcançam um número ínfimo, isto é, não deve ultrapassar 15%, em relação aos outros “estilos”, se considerarmos as duas décadas em estudo.75 Projetos publicados na Técnica - Revista de Engenharia, também foram utilizados, principalmente por cobrirem os anos entre 1940 a 1944, período onde existe uma lacuna nos arquivos municipais, isto é não encontramos nos últimos, nem nas buscas em outros arquivos, exemplares daquele período.

75 A preocupação em dar atenção aos quantitativos só surgiu quando a consulta já estava em andamento, assim o cálculo, para números mais confiáveis, precisa ser revisto.

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Foram também consultados as seguintes bibliotecas e arquivos para obtenção de dados iconográficos e bibliográficos, aí incluindo jornais e periódicos, inclusive os especializados:

Arquivo Público Municipal Instituto Geográfico e Histórico da Bahia Fundação Clemente Mariani Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia Biblioteca Juracy Magalhães Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-BA)

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2 A INSERÇÃO DA HABITAÇÃO NO ESPAÇO URBANO EM SALVADOR

2.1 Pequeno Histórico

O primeiro núcleo da Cidade do Salvador, fundado na Baía de Todos os Santos, na primeira metade do século XVI, se desenvolvia em dois níveis, o que constitui sua principal característica até os dias de hoje. O trecho de terra entre a Baía e a escarpa rochosa servia ao

comércio e ao porto. O Governo, a Igreja e as residências estavam localizadas no topo da encosta. As residências de construção ainda muito precária, foram posteriormente substituídas por edificações mais sólidas a partir do século XVII (Fig. 1).

mais sólidas a partir do século XVII (Fig. 1). Fig. 1 - Parte do frontispício da

Fig. 1 - Parte do frontispício da Cidade do Salvador no século XVIII. Fonte: Vilhena (1969).

Até então, o centro administrativo, econômico e cultural da cidade era composto de dois bairros: a Sé, na Cidade Alta e o Bairro da Praia. A despeito da irregularidade do sítio, o primeiro assentamento era regular, seguindo o padrão geométrico das cidades construídas em Portugal, no início do século XIV, principalmente no Alentejo 76 . Logo depois, contudo, Salvador cresceu linear e paralelamente ao mar, e depois irregularmente, seguindo o sentimento e a prática do urbanismo português. (Fig. 2). 77

e a prática do urbanismo português. (Fig. 2). 7 7 Fig. 2 - Planta do trecho

Fig. 2 - Planta do trecho central da Cidade de Salvador Fonte: CEAB - Centro de Estudos da Arquitetura da Bahia - FAUFBa.

76 TEIXEIRA (1990) p.27. 77 SUÁREZ (1995).

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No século XVIII, Salvador ocupava uma posição importante de sede regional. Era constituída pelo centro de cidade e seis bairros que haviam se expandido espontaneamente nas colinas e vales que caracterizam a topografia da cidade. Parte desta expansão compreendia os bairros da Segunda Cumeada (Saúde, Desterro e Palma), assim denominados porque, para alcançá-los a partir do Centro, era preciso atravessar o vale (Figs. 3 e 4).

do Centro, era preciso atravessar o vale (Figs. 3 e 4). Fig. 3 - Planta de

Fig. 3 -

Planta de Salvador com indicação dos bairros acrescentados no século XVIII Fonte: IPAC/SIC (1975).

acrescentados no século XVIII Fonte: IPAC/SIC (1975). Fig. 4 - Perfis longitudinal e transversal do Bairro

Fig. 4 - Perfis longitudinal e transversal do Bairro da Saúde e sua ligação com o Pelourinho. Desenho: Anete Araujo.

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Salvador desenvolveu uma economia agro-mercantil desde o período colonial até as primeiras décadas do século XX. Pertenceu ao mercado internacional durante o período denominado Ciclo da Cana de Açúcar (nos séculos XVI e XVII) integrada ao fluxo comercial do capitalismo europeu. Assim, a cidade - cuja fundação tinha como principalis objetivos defender, proteger e administrar as Capitanias Portuguesas no Brasil -, com a introdução da cultura da cana de açúcar, acrescentou a função portuária, tornando-se o principal entreposto comercial de importações e exportações do Brasil colonial. As plantações e os engenhos encontravam-se concentrados principalmente no Recôncavo, a noroeste da Baía. Lá, os ricos proprietários de terras construíram o primeiro grande conjunto residencial da região, constituído pela Casa Grande, Capela e Senzala, o qual simbolizou o poder político da oligarquia rural baiana durante três séculos. Muitos dos proprietários, contudo, construíram amplas casas ou sobrados em Salvador, para onde vinham a negócios ou onde viviam com suas famílias durante períodos especiais do ano. Essas edificações localizavam-se principalmente no centro da cidade, entremeadas com casas térreas de artesãos, pequenos comerciantes e pessoas pertencentes às camadas mais pobres da população urbana. Com o desenvolvimento do comércio na cidade, a este estoque habitacional é acrescida a residência assobradada dos negociantes - cujas portas enfileiradas nos pavimentos térreos - onde a comercialização tinha lugar, conferiu um ritmo característico nas frontarias das construções. No século XVIII, Salvador já apresentava um conjunto homogêneo de construções, com funções mistas, todas localizadas nas testadas dos lotes, onde paredes “fronteiras” separavam o espaço público das ruas, largos e praças do espaço privado das residências (Fig. 5). Camadas sociais heterogêneas utilizavam esse espaço público onde atividades diversas tinham lugar, uma vez que ele abrigava a administração, o comércio e os serviços, inclusive os religiosos. Nele, as mulheres das camadas sociais média ou alta - certamente sempre acompanhadas, seja em suas liteiras ou a pé - eventualmente estavam também presentes no seu trajeto para a igreja ou para visitas locais. Nas residências, em geral, eram domiciliados grupos sociais heterogêneos, os “fogos”, famílias extensivas compostas de pais, filhos, parentes, agregados e escravos. Vivia esse grupo familiar sob a autoridade do chefe patriarca - fosse ele proprietário, comerciante ou letrado - replicando na cidade o domínio do senhorio rural sobre seus membros. As diferenças entre eles são relativas à massa de poder político e econômico que detinham; internamente, porém, sua ordem, hierarquia e seu comportamento eram idênticos. Por outro lado, a autoridade das famílias rurais estendia-se sobre o governo das municipalidades, fazendo da

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política uma extensão de seu ‘mandonismo’ e da cidade, na expressão de Freyre, o quintal de seu sobrado urbano. 78

expressão de Freyre, o quintal de seu sobrado urbano. 7 8 Fig. 5 - Desenho de

Fig. 5 - Desenho de trecho de um quarteirão no Pelourinho. Fonte: Acervo do IPAC/SEC. Desenho: Valdinei Nascimento.

A partir do início do século XIX, as mais importantes casas comerciais então estabelecidas em Salvador passaram a diversificar atividades, abrindo bancos, financiando produtos agrícolas e estimulando novos empreendimentos, como manufaturas e fábricas, assim contribuindo para o desenvolvimento econômico da cidade. Após o declínio dos principais cultivos, cana de açúcar e fumo 79 , a partir de 1850, o cacau - amplamente produzido no sul do estado por ricos fazendeiros - tornou-se um produto altamente lucrativo para a exportação, acelerando ainda mais o desenvolvimento econômico da Província, com repercussão visível na quantidade e qualidade construtiva das habitações da capital. Muitas das casas térreas mais simples localizadas na área central vão ser substituídas por sobrados de dois ou mais pavimentos e outras casas, assobradadas ou não, vão ser erigidas nos bairros mais afastados do centro, entre os quais Brotas, Federação, Itapagipe, Bomfim e Ribeira. Durante a segunda metade do século, mansões isoladas nos lotes vão constituir a principal tipologia no bairro da Vitória, área escolhida por estrangeiros e famílias mais abastadas, que abandonam seus sobrados, no centro da cidade, para usufruírem um novo estilo de vida, onde, aos poucos, a família extensiva é substituída pela família nuclear. As tipologias estilísticas variavam, incorporando o ecletismo, inclusive no seu viés neo-clássico (Fig. 6), enquanto expressão de uma burguesia que não queria mais se identificar com uma sociedade colonial, agora atrasada.

78 Para detalhes sobre esse poder privado que montou na cidade uma estrutura de dominação calcada no “mandonismo” ver FERRAZ (1994) p.98. 79 A concorrência com a produção do açucar nas Antilhas, as epidemias e a proibição do tráfico de escravos, em 1855, foram as principais razões para o declínio. Em 1855/1856, a cólera morbus matou 30.000 escravos no Recôncavo. In NASCIMENTO (1985).

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41 Fig. 6 - Mansão na Vitória, datada de meados do século XIX. Fonte: Acervo do

Fig. 6 - Mansão na Vitória, datada de meados do século XIX. Fonte: Acervo do CEAB: Centro de Estudos de Arquitetura da Bahia - FAUFBa.

Por outro lado, fábricas de têxteis e de manufatura de alimentos, aumentadas em número pela possibilidade de trabalho remunerado após a abolição dos escravos, vão dar início, a partir de 1890, a diversos complexos de habitação para trabalhadores em Salvador. Apresentando padrões diferenciados em relação às moradias já existentes na cidade eram denominados Vilas Operárias e erigidos pelos próprios proprietários das fábricas baianas. Todas essas ações trouxeram uma mudança na configuração social e física de Salvador, o que veio a repercutir em novos padrões não só de habitação mas também, e principalmente, do habitar. Durante o período Colonial e Imperial, havia uma produção doméstica de todas as coisas, de transporte de carga e de pessoas, de artesanato e serviços gerais devido à presença do trabalho escravo 80 . Agora, novas alternativas precisavam ser criadas, principalmente nos setores ligados à urbanização progressiva de Salvador. A implantação do sistema de transporte urbano resultou na possibilidade da expansão da cidade, permitindo o aparecimento de bairros residenciais mais ricos, em áreas anteriormente de baixa densidade, bordejando o mar. Novas aspirações passam a ampliar os horizontes de referências de uma burguesia nascente em relação a muitas áreas da existência, incluindo a habitação 81 . Vejamos como essas aspirações serão materializadas no espaço urbano.

2.2 As primeiras tentativas de modernizar Salvador: as intervenções na cidade

As transformações perseguidas pela burguesia brasileira, em geral, e pelos ricos comerciantes e fazendeiros baianos, em particular, estavam ligadas às representações que eles tinham de si próprios, de serem agentes do processo de construção do país - embora identificados com interesses do tipo colonial. Como tal, eles percebiam o estilo de vida da

80 Vale a pena notar que os viajantes, durante a segunda metade do século XIX, registraram sua surpresa em relação ao transporte de pessoas nas cadeiras de arruar, carregadas por escravos. A maioria desses visitantes é européia (principalmente ingleses, franceses e alemães) e alguns americanos. Uns estão de passagem, outros moram durante um período que variava de semanas, meses e até anos. AUGEL (1980). 81 FERNANDES e GOMES (1992).

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Corte Real, estabelecida no Rio de Janeiro a partir de 1808, e da própria Capital, como o foco de irradiação da civilização no país. 82 A organização política de base parlamentarista - durante o Império - estabelecida com

a Independência em 1822, criou os mecanismos através dos quais a conciliação entre os interesses regionais e nacionais facilitou as ligações entre as províncias e a Corte.

A participação no Parlamento institucionalizou a representação dos grandes fazendeiros

proprietários de terras no poder político nacional, alguns dos quais adquiriam títulos de nobreza concedidos pelo próprio Imperador. Através desse contato direto com o poder central, os chamados barões do Império reconheceram-se como agentes da civilização na ex-colônia. 83 Era preciso transformar a cidade, modernizá-la, inserí-la – enfim - no mundo “civilizado”. A identificação com os interesses europeus implicou em uma rejeição das

condições de existência na sociedade baiana, como também de sua história e de seu estilo de vida. Essa rejeição constituía um pólo da contradição na história baiana, entre repúdio e afirmação de sua herança cultural, o que será observado em eventos posteriores. 84 Porém, como a elite local da Bahia enfrentaria este sério obstáculo para a europeização de Salvador, transformando-a de uma cidade de 70% de pretos e mulatos em uma cidade branca? Como os diferentes tipos de “fogos” se ajustarão ao modelo da família nuclear?

E como o reforço nos papéis e relações de gênero se adaptarão à heterogeneidade desses

“fogos”?

De acordo com Fernandes e Gomes, a transformação de Salvador de uma cidade baseada na escravidão para uma cidade civilizada - que na verdade nunca chegou a se constituir - e o processo social ligado a ela não aconteceu em um pequeno período de tempo, no início do século XX, como amplamente aceito, mas durante um longo período a partir de quase um século antes, ou seja, desde o quadriênio 1810/1814, no governo do Conde dos Arcos. Essa transformação foi construída através de múltiplos interesses e ações, combinando várias esferas de intervenção e construindo na cidade uma nova heterogeneidade: uma que combina, lado a lado, o novo e o velho, interagindo e apoiando a superposição de diversas idealizações urbanas sobre a cidade. 85 Como visto acima, as novas condições econômicas e as experiências vividas pelo desenvolvimento comercial, após a Corte Portuguesa ter se estabelecido no Brasil, tornaram possível melhoramentos na área do Porto e nos bairros comerciais da Cidade Baixa: o apoio

82 REIS FILHO (1970) p.141.

83 Idem Ibidem.

84 SUÁREZ (1995).

85 FERNANDES e GOMES (1992) p. 55.

43

para estabelecer a Escola de Cirurgia (depois Faculdade de Medicina); a criação da Biblioteca

Pública e de um jornal diário 86 ; como também a construção de edificações monumentais a

exemplo do Teatro São João, do Passeio Público e da Associação Comercial todos erigidos

cenograficamentediante diante da baía; e finalmente a adoção de regulamentos para as

construções, objetivando regularizar e realçar a cidade - o que vai incidir diretamente na

concepção das residências tanto do ponto de vista espacial como estético.

Essas foram iniciativas que trouxeram novos elementos concretos na vida da cidade,

cujo significado

“estava altamente ligado às relações internacionais e idealizações dentro delas:

cidade mundial, cidade civilizada, cidade onde o europeu poderia perceber alguns de seus próprios elementos de referência. Mas a cidade real ancora-se ainda e no entanto numa cidade eminentemente colonial. Tímida em suas características físicas, acanhada em sua economia urbana, dominada pelo espaço privado, gerida por precária administração e dependente do braço escravo para seu funcionamento, ela é parte e condição da sociedade colonial e escravista”. 87

No entanto, a intensificação das ações para mudar a cidade, que - segundo os autores

citados - era ligada às questões da salubridade, do fluxo do tráfego urbano e da estética,só foi

realizada posteriormente, entre 1850 e 1890, em um segundo momento de modernização.

2.2.1 Higiene, habitação e relações sociais

A questão da salubridade vai estar ancorada em uma necessidade considerada

imprescindível: higienizar a cidade para a sua almejada transformação.

As medidas de higiene foram primeiramente tomadas enquanto ação de emergência

em 1855/1856, devido à epidemia de cólera que reduziu a população de Salvador em 16,8 %

em menos de dez meses. Para enfrentar a epidemia foi montado um aparato político e médico

para controlar a situação. 88 Nas décadas seguintes, o conhecimento especializado, aprendido

pelos doutores da Faculdade da Medicina, ofereceria as bases para a ação do poder público na

cidade em geral e nas habitações em particular. Esta ação foi então dirigida a todos os

segmentos da sociedade, mesmo porque a estratégia seguida visava consolidar a

universalização de novos padrões e valores, principalmente entre os que afirmavam ser o

Estado mais importante que o grupo familiar. 89

86 O primeiro jornal da Bahia foi “Idade de Ouro do Brasil” e, posteriormente, “O Constitucional”. MATTOSO (1978) p.

200.

87 FERNANDES e GOMES (1992) p. 56.

88 NASCIMENTO (1985).

89 FERRAZ (1994).

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Como aconteceu na Europa, esse conhecimento legitimou-se como o único a ser

aplicado na cidade, onde a “civilização” apresentava uma relação direta com a higiene. Sendo

a base de uma ampla estratégia de medicalização e normalização do espaço urbano, a

medicina social higienista teria na família um de seus alvos mais diretos. Inspirado no ideal racionalista e humanista dos médicos franceses, a racionalidade médica brasileira alegava que a falta de informações higiênicas - responsável pelos altos índices de mortalidade infantil e a saúde precária dos adultos - era um atestado da incapacidade da família oitocentista de preservar a vida de seus membros. 90 A aglomeração e a mistura de pessoas e atividades, uma vez vistas com restrição, vão acelerar o processo de desdensificação do centro da cidade, razão pela qual Nascimento explica a migração das pessoas ricas para o subúrbio, isto é, para os novos bairros da Vitória, Canela, Barra, Graça e Garcia. Os riscos causados pela superposição de atividades e vários

segmentos sociais vivendo juntos eram de contaminação

revoltas sociais. Os segmentos dominantes da sociedade sentiriam-se muito mais seguros longe da área central da cidade. 91 Os logradouros que compunham esses novos bairros - e principalmente o Passeio Público, de onde se descortinava a bela vista da baía - vão assim possibilitar a utilização mais ampla do espaço público, inclusive pelas mulheres nos seus passeios à pé. Sendo mais caracterizados como espaços de lazer, vão se diferenciar daqueles do século anterior, onde pessoas e atividades diversificadas emprestavam um caráter mais heterogêneo à ambiência.

A intenção de homogeneização entre os usuários que deveriam freqüentar o Passeio Público é

explicitada desde os primeiros anos da decisão de implantá-lo, no depoimento de J.R. de Brito, na Câmara: ”seria conveniente auxiliar a comunicação das famílias, estabelecendo um passeio público com as comodidades competentes para atrair o concurso dos moradores a verem-se e falarem-se (sic)”. 92 Nos novos bairros, os lay-outs das casas também mudaram, materializando aspectos de privacidade em relação à rua e dentro das casas, como também reforçando os papéis a serem cumpridos em relação às diferenças de gênero, faixa etária e classe. Esses papéis tenderam a intensificar hierarquias de classe e gênero, reforçando o modelo de segregação que começara a se estabelecer, aspectos a serem analisados no próximo capítulo. Viver nessas

mas também de deflagrador de

90 Idem p.93.

91 NASCIMENTO (1985)

92 SEGAWA, (1996) p.121. A área onde se construiu o Passeio Público era anteriormente destinada ao Jardim Botânico da cidade, cuja idéia de implantação surgiu em 1803. Seu apogeu foi na metade do século XIX e sua apropriação pelo Palácio do Governo se deu em 1914.

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novas habitações significava pertencer a esta nova burguesia “civilizada”. A influência dos estrangeiros, principalmente cônsules, cujas mansões eram concentradas na Vitória (Fig. 7) exerceu, daí em diante, um papel crucial na importância dada à localização da moradia em Salvador.

importância dada à localização da moradia em Salvador. Fig. 7 - Trecho do Corredor da Vitória,

Fig. 7 - Trecho do Corredor da Vitória, no princípio do século XX. Desenho: Anete Araujo (reconstituição livre).

A necessidade de separar tudo que poderia “contaminar” o corpo físico e social incluiria a construção de instituições especializadas distantes da cidade para abrigar os pobres, os loucos, os vagabundos. Existem em Salvador registros de muitas construções, reparos ou manutenção pública deste tipo, durante o século XIX. 93 Entre eles foram construídos abrigos para mulheres jovens, prisões, asilos para pobres e para loucos. O isolamento de mendigos em asilos, o primeiro sendo fundado em 1854, fez parte da “domesticação da natureza e desenvolvimento do gosto paisagístico”. Esta preocupação é percebida claramente no discurso do Presidente da Província, J. M. Wanderley, na inauguração do asilo, conforme citado e elogiado no texto de Nascimento. “Ele (o asilo) permitirá manter longe da nossa vista o triste quadro da mendicidade”. 94 O processo que valorizava a convivência da família nuclear burguesa na intimidade do lar, portanto, ocorreu paralelelamente à criação destas instituições destinadas ao isolamento dos indivíduos que não se ajustavam aos padrões da nova sociedade. A disseminação das formas de controle disciplinar em instituições especializadas, cujas ações eram baseadas no conhecimento jurídico e médico é o foco dos estudos de Michel Foucault a respeito das ligações entre “saber” e “poder”. Foucault argumenta, contra a visão negativa e centrada no exercício do poder soberano, durante o Ancien Régime, a visão produtiva do Iluminismo baseada no conhecimento, que é altamente implicada nas Instituições e em relações de poder definidas. As relações de poder são assim difusas e difundidas através de todo o corpo social

93 FERRAZ (1994); NASCIMENTO (1985); COSTA (1979). 94 NASCIMENTO (1985) p.78.

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configurando complexas redes e diversas relações como as de família-Estado. 95 No caso do

Brasil, o confisco e a punição - que caracterizavam a forma principal de exercício de poder no

período colonial - foram substituídos, na sociedade oitocentista, por uma nova tecnologia de

poder que será pensada e praticada pela medicina higienista do século XIX. 96

Um dos objetivos da medicina higienista, talvez sem consciência disso, segundo

Ferraz, é a construção de um novo tipo de indivíduo e população capazes de dar sustentação,

de um lado, à sociedade capitalista emergente e, de outro, às políticas de normalização do

poder estatal. Afirmando-se como ciência do social, essa medicina tem como alvo central o

exercício de poder na cidade, e dentro da cidade, a casa. A experiência baiana parece reforçar

a teoria foucaultiana, mas a maneira como ela se desenvolveu será ainda objeto de análise

posterior.

Uma outra especialização do conhecimento em Salvador foi representada pelos

engenheiros da Municipalidade, que elaboraram os meios de adequar os espaços público e

privado às regras higiênicas. Nas últimas duas décadas do século XIX, as instituições

sanitárias aumentaram, o sistema de esgoto foi planejado (embora não executado), edificações

insalubres foram desapropriadas. Os especuladores imobiliários, que antes atuavam

livremente, deveriam obedecer normas para construir, a exemplo dos recuos das casas,

embora a desobediência a essas regras fosse registrada com certa regularidade.

A aspiração de pertencer a uma cidade higiênica alcançou a esfera dos empregadores

que implementaram os projetos das Vilas Operárias. Elas começaram a ser construídas em

1890 e eram consideradas exemplo nacional. Embora em uma outra escala quantitativa,

algumas vilas tinham seus projetos baseados nos Tenement House, estabelecidos pelo

Governo Britânico, os quais tinham adotado o modelo casa/jardim para a habitação dos

trabalhadores.

2.2.2 Transporte Embora as gôndolas, transporte de tração animal, tivessem substituído os precários

“moxambombos” (Companhia de Omnibus) a partir de 1860 e cobrissem percursos nos dois

níveis da cidade (da Cidade Alta até a Barra e das Pedreiras até o Bonfim) 97 , melhoramentos

95 FOUCAULT (1977).

96 A cidade era então um caos incontrolável através do aparelho jurídico-policial, não tanto pela sua falta de autonomia, submisso que era às grandes famílias, mas pela própria ineficácia do mecanismo punitivo, onde a idéia de prevenção ainda não tinha sido colocada. É essa ineficácia do dispositivo jurídico policial que vai abrir espaço para a entrada em cena da racionalidade médica. Para detalhes ver FERRAZ (1994).

97 A Tarde (30/10/1914). Entrevista com Manoel Quirino intitulada “A Bahia de Nossos Avós” onde ele informa que a primeira mulher a subir em uma Gôndola foi a Condessa de Barral, “introduzindo assim o costume europeu entre nós”.

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nas vias e organização no Sistema de Transportes foram necessários, criando novos percursos, contribuindo na valorização do solo e incentivando a especulação.

A organização no Sistema de Transporte e fluxo de tráfego pretendia uma articulação

melhor não somente entre a Cidade Alta, Cidade Baixa, o Centro e os bairros afastados, mas também entre a cidade e a região, incluindo a rede ferroviária. Esse desenvolvimento, segundo Fernandes e Gomes 98 , reforçou o segmento empresarial que estava investindo na cidade, mantendo a economia em funcionamento. Sua presença, portanto, é indispensável para entender este novo momento da modernização. Algumas empresas de sistema de transporte passaram a operar em 1870 e redes primárias e secundárias de transporte implicavam em aperfeiçoar e alargar as ruas como também demolir

e erigir novas construções. Tudo isso, entretanto, não aconteceu sem conflitos.

Desapropriações eram necessárias e os proprietários apresentavam resistência. Entre as

Empresas de Transporte e os usuários – os quais reclamavam o valor das passagens cobradas e a baixa qualidade dos serviços, incluindo cumprimento dos horários - os conflitos eram constantes. Talvez essas tenham sido também as razões porque, até nos fins de 1880, as cadeiras de arruar estivessem ainda em uso.

O que importa é que o setor de transportes estava intimamente ligado com a formação

do mercado especulativo, que combinava investimentos locais, nacionais e internacionais na

formulação da dinâmica interna da cidade e suas relações regionais. 99 Esse setor vai estar ligado diretamente com a especulação no mercado do solo em Salvador, sendo crucial para entender o modo como as áreas residenciais foram distribuídas e valorizadas no espaço urbano. Além da Vitória, cuja ocupação se deu a partir de 1850, os bairros do Canela, Garcia, Barra e Graça e, posteriormente, os aprazíveis bairros balneários de Ondina e Rio Vermelho (o projeto da Praça Colombo, neste último, data da última década do século XIX) foram aqueles mais beneficiados pelos transportes e elementos de infra-estrutura e onde as residências dos segmentos médio e abastado da população baiana vão estar localizadas (Fig. 8).

98 FERNANDES e GOMES (1992)

99 FERNANDES e GOMES (1992) p.57

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48 Fig. 8 - Trecho da Rua do Canela, fotografado em 1915. Fonte: CEAB - Centro

Fig. 8 - Trecho da Rua do Canela, fotografado em 1915. Fonte: CEAB - Centro de Estudos de Arquitetura na Bahia FAUFBa.

2.2.3 Questões estéticas

A preocupação com o embelezamento da cidade era um aspecto importante no século

XIX, quando novos códigos estéticos foram introduzidos, possivelmente devido à Abertura

dos portos em 1916 e, posteriormente, à influência da Academia Imperial de Belas Artes do

Rio de Janeiro e à permanência de estrangeiros em Salvador desde o princípio do século. Essa

procupação podia ser observada pela presença no mercado de novos e suntuosos objetos e em

sua exposição tanto nas residências mais ricas como no próprio espaço urbano, no sentido de

forjar uma nova imagem da cidade. O discurso oficial que comemorou a celebração do

contrato da iluminação a gás para Salvador “usando como modelo a iluminação das cidades

de Londres, Paris e Rio de Janeiro” 100 foi enfático. Identificar-se com o Rio de Janeiro

significava imitar os costumes da Corte e adotar o gosto artístico do poder central era uma

postura que reforçava o poder local da burguesia soteropolitana. Desse modo, edifícios

oficiais eram construídos no estilo neoclássico, e mais tarde, no estilo eclético, seguindo a

linha conciliatória na polêmica dos estilos históricos, como o Rio de Janeiro já o fizera. 101

Desde o governo do Conde dos Arcos (1810-1814), a questão do embelezamento da

cidade era enfatizada através da criação da legislação das construções - como a proibição do

uso de muxarabis nas janelas, os melhoramentos das praças da cidade e, mais tarde, a

construção de novas ruas e praças nos bairros burgueses.

A arquitetura residencial desempenhou, então, um papel especial, empregando

citações de exemplos históricos europeus naquelas ricas casas do distrito da Vitória, nos

bairros da Vitoria, Canela, Barra, Graça e Garcia. Legislações específicas aí aplicadas, na

primeira década do século XX, enfatizavam essa preocupação estética quando o distrito é

eleito para representar os novos tempos progressistas da cidade. Em 1895, o Monumento ao 2

100 Falla do Presidente da província na abertura da Assembléia Legislativa da Bahia, por A. L. da Cunha. Bahia, 1867.

101 Os estilos neo (renascentista, gótico, barroco), o estilo oriental e outros - os quais constituíam variações do ecletismo - incomodavam os classicistas mais ortodoxos criando disputas.

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de Julho, através de eleição popular, vai se instalar no Campo Grande, praça de irradiação das

vias para aqueles bairros nobres e para o centro. 102

A paisagem dos jardins era também europeizada: árvores e plantas importadas;

enquanto as nativas eram desprezadas. Como afirma Freyre:

“a segunda metade do século XIX significou, entre outras tendências a serem estudadas, o sentido de procurar ser, nas cidades, o mais parecido possível com os europeus, desprezando as árvores africanas e asiáticas, plantas e frutas que já estavam climatizadas, porque muitos brasileiros refinados tornaram-se envergonhados delas. Envergonhados da manga, do dendê, do fruta-pão, do côco, cujos sabores eram saboreados às escondidas”. 103

Essas eram, portanto, as respostas para os obstáculos postos para a concretização da

cidade branca, devido à própria estrutura da sociedade e da população baiana - com seu

passado colonial e escravista. A cidade tenderá a se setorizar através da materialização das

novas aspirações, nos bairros burgueses - como a presença de árvores plantadas nos passeios e

de mansões imitando, entre os jardins floridos, a renascença italiana e o classicismo

francês. 104 Esse agenciamento paisagístico - na passagem do século XIX para o século XX -

se tornaria modelo para os jardins das classes alta e média. Embora muito menores,

representavam exemplo de bom gosto. Muitos do seus ocupantes não podiam mais aceitar as

frutas tropicais ou qualquer vestígio de criação de animais, elementos comuns nos jardins de

seus antepassados.

2.2.4 Educação Para que se viabilizassem todos esses aspectos, dentro de uma perspectiva de

compreensão da classe dominante ante à necessidade de adotar novos estilos de vida, era

necessária a formação dos seus representantes, homens e mulheres. Os primeiros preparando-

se para atuar como jornalistas, políticos, padres e médicos (envolvendo, portanto, a Igreja

Católica e a Faculdade de Medicina) eram responsáveis pela formação das elites. 105 Nessas

instituições a categoria de gênero, determinando os direitos e deveres dos homens e mulheres,

guiava o processo de ensino e aprendizagem. 106 Para a educação feminina, a polidez, a

102 ALMEIDA (1997).

103 FREYRE (1968) p.783.

104 FERNANDES e GOMES (1992) p.64.

105 REIS (1998). Os homens de elite, segundo Reis, eram identificados por critérios econômicos e prestígio social incluindo os funcionários administrativos, negociantes, proprietário de terras, pecuaristas, senhores de engenho. Essa diversidade resultava em formas diversas de absorção dos padrões de comportamento burgueses.

106 Idem. A autora informa que entre os “catecismos” de conteúdo moral, político e religioso, dirigido à educação das mulheres, destacou-se pela história de vida de seu autor e pela erudição, a obra “Um Tratado sobre a educação de Cora” (daí o título da sua dissertação), publicado nos meados do século XIX pelo Dr. José Lino Coutinho, um liberal formado em Coimbra, que defendia a educação para a mulher. Reconhecia ele que a nova mulher de elite estava ligada ao novo homem, ilustrado e civilizado. Cora era sua filha com Ildefonsa Laura Cezar, primeira poetiza a publicar versos na Bahia.

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ilustração e, principalmente, a maternidade, além de princípios higiênicos - eram base para os novos critérios de conduta social. Divulgar as normas e padrões de educação e comportamento influenciados pelo “Ideal das Luzes” através de periódicos, jornais e manuais diversos - no Brasil do Segundo Império - era uma forma de compensar, nos padrões de civilidade, a face constrangedora da escravidão. Desse modo, a identidade feminina estava sendo construída através da imprensa, onde jornalistas e médicos assinavam artigos diversos (entre os vários periódicos publicados em Salvador, um único, o Recreio das Senhoras, era editado por mulheres, as quais usavam pseudônimos e abreviaturas), incluindo manuais de etiqueta - que estabeleciam novos critérios de diferenciação social, definidores das normas de conduta femininas no mundo público e

privado: “O interior da casa atestava riqueza, revestido com papel da Inglaterra (

) Por entre

móveis e cortinas, no segundo andar, via-se uma mulher especial, cuja imagem os jornais delineavam”. 107 As normas de conduta e as atividades de mãe e dona de casa que tornaram-se forma de

distinção para a classe urbana abastada, funcionários públicos, comerciantes e proprietários urbanos, lembra Pedro, eram formuladas por homens que compunham o judiciário, chefiavam

a polícia, o exército e a administração, e que decidiam sobre a educação, diziam sermões,

votavam e eram votados: Prescreviam a forma de “ser” distinto e civilizado que incluía modelos idealizados para as mulheres, as quais deviam restringir-se aos papéis femininos. 108 Muitos conteúdos das teses elaboradas na Faculdade de Medicina da Bahia envolviam

a “higiene na construção da mulher civilizada” onde tanto a mulher reclusa quanto a de

“costumes civilizados” sofrem críticas, pois esses costumes civilizados eram, na verdade, muitas vezes, desprezados pelas mulheres. 109 Para Reis, por exemplo, no dia-a-dia das baianas, os modelos europeus da moda não dominavam. No interior da casa, praticava-se a “cultura do desalinho”, revelando as contradições do sistema patriarcal: as práticas de vestir não acompanhavam as noções de reclusão, os costumes se aproximavam mais dos das escravas do que das européias. A casa, para a autora, representava um ambiente de “liberdade”, em contraposição ao gosto “barroco”

pelo luxo - revelando diferenças nos códigos brasileiro e europeu, percebidas por Maria

107 PEDRO (1994) p.38.

108 Idem, p.45.

109 O comportamento dos homens, contudo, não era diferente. Lindley, em sua “Narrativa de uma viagem ao Brasil,” (p.177) diz que eles despiam-se imediatamente de todos os atavios tão logo entravam na residência: “alguns envergam um gibão ou jaqueta fina, ao passo que outros ficam em ceroulas e camisa”. Citado em ARAÚJO (1997), p.120.

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Graham em sua visita à Bahia na segunda década do século XIX. 110 Podemos entretanto - recorrendo a Richard Sennet - lembrar que, nas sociedades francesa e inglesa do século XVIII, o uso de roupas simples e folgadas no espaço privado ganhava a preferência em todas as classes sociais. Para ele, surgiu aí “o primeiro dos termos de separação entre o domínio público e o domínio privado: como o privado era o mais natural, o corpo começa a surgir nele como em si mais expresssivo”, e continua: Na rua, por contraste, eram usados trajes que marcavam de modo reconhecível o lugar de quem os vestia ( )” Por outro lado, o discurso da libertação mariana e o investimento na caridade feminina pregado pela Igreja católica “construía” a mulher na representação católica. Dos dois mitos antagônicos para representar a mulher, Eva (o mal, o pecado e a traição) e Maria, (a maternidade, a virtude e o amor), ambos confirmavam, por parte da doutrina católica, o controle das mulheres pelo pater-famílias, obrigando-as a obedecer às ordens do pai ou do marido. A instrução das mulheres era principalmente ministrada nos educandários religiosos - particularmente nos conventos da Soledade e Mercês. 112 O controle e a construção dos papéis e práticas culturais da mulher, ou seja, o discurso do gênero vai encontrar reforço no discurso do espaço, como veremos no decorrer da defesa do argumento aqui pretendido.

111

2.3 O discurso higienista continua

O que mais nos interessa nesse longo processo de modernização, que tem seu terceiro período nas duas primeiras décadas do século XX - discutido adiante - são as implicações do projeto higienista, como Fernandes e Gomes colocam. Enquanto o projeto desenvolveu-se através de múltiplas ações das instituições públicas, sejam jurídicas, educacionais ou administrativas, ele alcançou três campos diferentes: o espaço público, o espaço privado e o

estilo de vida. Perseguindo a normatização das moradias, invadiu a vida da família e tentou estruturar e levar à mesmice o comportamento individual e da coletividade, através dos usos dos espaços públicos e privados. 113 De fato, mais do que quaisquer tipos de construções funcionais, foram as edificações residenciais aquelas mais intensamente atingidas, enquanto alvo de discursos e práticas

110 REIS (1998). A autora analisa as descrições dos viajantes, entre outras, o choque de Lindley diante do comportamento dos baianos à mesa (incluindo comer de mão) e as observações de Maria Graham: mulheres “indecentemente desalinhadas” “para ser fidalga em público é preciso que a mulher o seja na vida privada”, foram as expressões da inglesa, que visitou a Bahia em parte dos anos 1821, 1822 e 1823.

111 SENNET (1998) p.91.

112 MATTOSO (1978). Destacando a função social da mulher na educação dos próprios filhos e de filhos de parentes e agregados, Mattoso informa que ela ingressa no magistério como professora a partir de 1832. É, portanto, a própria mulher, afirma ela, que transmite às crianças aqueles valores que constróem a sua submissão (p.198).

113 FERNANDES e GOMES (1992).

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normativas; os espaços domésticos sendo então (idealmente) submetidos a uma ordem estável, necessária às novas funções urbanas agora modernizadas. Porém, enfatizam os autores, esse projeto de modernização nunca foi completamente realizado. Entre os muitos obstáculos para o seu sucesso, a rejeição ou a resistência das pessoas à alteração de seus costumes, o que alcançava até mesmo a classe dominante, como visto acima, também contribuiu. Assim, a despeito do esforço realizado pelo poder público, Salvador deixava uma péssima impressão aos seus visitantes. Na verdade, enquanto a cidade estava sendo modernizada, ela estava sendo segmentada espacialmente, mostrando claramente a diversidade de condições higiênicas entre as novas áreas e as antigas. Os ricos habitavam as primeiras, os pobres as últimas. Se, anteriormente, a prática de exclusão era principalmente relacionada com a raça, na cidade ‘modernizada’, o novo sistema de exclusão estabelecido era baseado na classe. Na prática, raça e classe eram preconceitos que se superpunham, alcançando a ambos, pobres e negros (ou mulatos) que, na sua grande maioria, eram atributos do mesmo indivíduo. O zoneamento espacial na cidade se consolida assim nas últimas décadas do século XIX. Próximo ao Porto estavam localizadas as casas de importação e exportação e as sedes das instituições financeiras; na parte central da cidade alta, as instituições governamentais, os escritórios profissionais, o comercio varejista; para o sul e sudeste dessa zona mais densificada, a zona residencial das colinas do Garcia, Graça e Canela (a Vitória já estava ocupada); na orla marítima, reservada para as habitações da classe alta, localizavam-se de forma esparsa vilas de pescadores; e finalmente, para o norte e a nordeste do Centro, na área de Itapagipe, o subúrbio ferroviário estava destinado às fábricas e casas proletárias. 114 Por sua vez, os bairros da Segunda Cumeada, Desterro, Palma e Saúde, eram predominantemente residenciais e ainda apresentavam uma população heterogênea, cujo poder aquisitivo - maior ou menor - se refletia tanto na variedade das tipologias habitacionais de implantação ainda colonial como nos ornatos exteriores das residências, alguns representativos da uma versão popular duradoura de gosto eclético (Fig. 9). Essas casas - que no Censo de 1855 já representavam 72,11% em relação àquelas de dois ou mais pavimentos, conforme Cardoso, continuavam a ser construídas mais ou menos na mesma proporção, até as primeiras décadas do século XX. Embora erigidas em largos e ruas, primárias ou secundárias, com diferentes valores locativos e estilisticamente

114 CARDOSO (1991).

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diversificadas, suas concepções espaciais eram semelhantes, como veremos no próximo capítulo.

eram semelhantes, como veremos no próximo capítulo. Fig. 9 - Trechos da Rua do Alvo, no
eram semelhantes, como veremos no próximo capítulo. Fig. 9 - Trechos da Rua do Alvo, no

Fig. 9 - Trechos da Rua do Alvo, no Bairro da Saúde. Fonte: Araujo (1987). Desenho: Anete Araujo

Vale ressaltar que no centro da cidade, que abrigava uma grande parte da população, o uso residencial continuava em paralelo a atividades de serviço e comércio. Com o passar dos anos, se o abandono do centro e das áreas próximas pelos moradores proprietários leva à sua desdensificação, elas vão paulatinamente abrigar a crescente classe trabalhadora, seja através da tugurização dos sobrados antigos ou da construção de “casinhas” em qualquer espaço disponível, usualmente construídas em cul-de-sac muito estreitos. Esse agenciamento espacial denominado de “avenidas” já tinha sido adotado anteriormente, quando o modelo era o das “ilhas” do urbanismo português, descrito por Teixeira. 115 Os especuladores da construção, na mudança do século, construíam rapidamente essas “avenidas”, de forma barata e com pouquíssimo controle por parte do poder público. Na verdade, Nascimento afirma que, desde o fim do tráfico de escravos, pequenos grupos de casas eram construídos para fins de locação. Muitas eram de construção bastante precária, pois somente após o estabelecimento das normas da Constituição Republicana, o discurso oficial preocupou-se com elas. Isto foi principalmente devido à abolição dos escravos, quando uma grande quantidade de força de trabalho tornou-se necessária, implicando em nova demanda de novas moradias. As leis governamentais eram criadas concedendo isenção de taxas para aqueles que investissem em habitação para a população de baixa renda naqueles anos (1870 a 1930). A quantidade de casa proletárias construídas na cidade alcançou 50,17 % do total, incluindo as unidades das Vilas Operárias. Esse índice mostra que os investimentos em casas para trabalhadores continuavam sendo lucrativos, portanto aumentando em número, enquanto investimentos na produção de casas para segmentos de maior renda eram poucos, correspondendo a 3,8% no mesmo período. 116 De acordo com Cardoso, o domínio do

115 TEIXEIRA (1990).

116 CARDOSO (1991), p.149.

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mercado de casas mais simples era exercido por pequenos e médios investidores (75,28%), ao menos durante a Primeira República. 117

2.4 O Governo de J.J. Seabra

Esse terceiro momento de modernização de Salvador, que teve lugar principalmente entre 1912 e 1916, no primeiro Governo Seabra, correspondeu a um período de recuperação da economia baiana, quando a Bahia era o maior estado produtor de cacau do país e quando os grupos industriais conseguiram se organizar de modo mais eficaz. Para garantir o fluxo do comércio internacional, era necessário desenvolver os meios de comunicação, ampliar o aparato administrativo do estado, promover a interpenetração dos interesses local, nacional e internacional como também atentar para as demandas habitacionais decorrentes do aumento da população urbana, conjunto de preocupações que veio resultar em novas intervenções na cidade. 118 Essas intervenções ocorreram em paralelo à mudanças, tanto na inserção das habitações no espaço urbano como no interior das mesmas. Novas relações familiares no espaço doméstico vão ser acompanhas por novas práticas no espaço público, principalmente por parte das mulheres, que passam a usufruí-lo com mais freqüência. O modelo de intervenção urbana então implementado foi influenciado pelo projeto de renovação urbana do Rio de Janeiro, realizado por Pereira Passos, em 1902-1906. Entretanto, a reforma em Salvador esteve mais no âmbito das idéias e projetos do que em ações aplicadas efetivamente no urbano. 119 No centro de Salvador, a malha não mudou e o que caracterizou a reforma foram os alargamentos das ruas existentes (possibilitados pelas demolições), embora o objetivo principal, conclui Pinheiro, coincidisse com aquele almejado tanto no Rio de Janeiro quanto

117 Idem p. 152.

118 FERNANDES e GOMES (1992).

119 PINHEIRO (2002). O engenheiro Francisco Pereira Passos, entre 1902 e 1906, realizou a renovação urbana do Rio de Janeiro. Foi diplomado na École des Ponts et Chaussées, no período em que Hausmman estava realizando sua grande intervenção em Paris, entre 1853 e 1860. Sua atuação no Rio foi considerada uma influência do “urbanismo demolidor” defendido pelo prefeito parisiense. Pinheiro faz uma análise aprofundada desse possível jogo de influências, ligado tanto ao método de ação quanto à forma final da intervenção. A autora comenta com detalhes os projetos desenhados para o Rio de Pereira Passos (e os de Seabra em Salvador), executados ou não, inspirados no urbanismo europeu. No que diz respeito à ação do prefeito de Paris alguns autores, incluindo Pinheiro, chamam a atenção de que a demolição dos velhos quarteirões, afastando os pobres para fora dos muros, tinha também como objetivo evitar o perigo que os mesmos apresentavam para a segurança do Estado. A retificação e a largura das novas vias respondiam a uma preocupação policial pois dificultava a construção de barricadas enquanto facilitava a ação da cavalaria. Outros autores, a exemplo de Sennet, levantam também razões comerciais, numa economia de desenvolvimento estatal real: as ruas tortuosas de Paris dificultavam o acesso dos consumidores quando as lojas de departamentos tinham que atrair os clientes da cidade para completar suas vendas. A criação dos grands boulevards hausmmannianos facilitariam esse acesso, possibilitado pelo deslocamento muito mais rápido. Para detalhes, v. Sennet (1999) p.179 a 181.

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na Paris de Hausmmann: otimizar o deslocamento, ligar pontos da cidade, facilitar a introdução dos meios de transporte eletrificados. 120 Assim, a intervenção de Seabra envolveu a demolição de vários quarteirões e diversos

monumentos, incluindo religiosos. 121 Sua concentração correspondeu à área entre a Praça Municipal e o Campo Grande, para dar lugar à então larga Avenida Sete de Setembro.

O Campo Grande era a maior praça da cidade de onde irradiavam as vias em direção aos

bairros residenciais do Canela, Garcia, Vitória, Graça, Barra - os quais, juntamente com o Garcia, Mercês, Aflitos e Rio Vermelho, constituíam o Distrito da Vitória. A construção e melhoramentos dessas vias demandaram grandes investimentos e imenso número de operários

e iam configurando as novas áreas nobres da cidade. Nessas áreas, como vimos, foram

erigidas as residências mais reprtesentativas do projeto higienista e estético da cidade, recebendo um tratamento diferenciado na legislação para a aprovação de projetos. 122 Tais projetos apresentavam uma preocupação com a privacidade no agenciamento dos espaços internos da casa e na sua implantação: distanciada da rua, diferentemente das construções coloniais. Analisando essas transformações nas diversas cidades brasileiras, Marins chama a atenção que “a diferenciação entre as ruas e as casas, entre espaços ‘públicos’ e ‘privados’, deveria ser ainda acompanhada pela geografia de exclusão e de segregação social, que acabava separando em bairros distintos os diversos segmentos da sociedade”, e continua:

“Privacidade, portanto, não poderia mais se confundir com domesticidade, com os simples limites da casa, mas escapava para uma dimensão que abarcava os convívios, os vizinhos - todos sujeitos a uma mesma gramática de comportamento”. 123 Estamos muito distantes da convivência de segmentos heterogêneos e comportamentos diferenciados no mesmo espaço público nas ruas, praças e largos dos tempos coloniais O resultado desse projeto de reforma urbana, inspirado em um modelo ideal de espacialização foi alimentado em um longo processo de modernização, que revelou sua nova face: “segmentado e polarizado ele domina e homogeneíza, mas não consegue atingir, em seu padrão de sincronia, todas os espaços e práticas sociais que estruturam a cidade”. 124

120 Idem, p. 207. A eletrificação dos transportes públicos, em Salvador, iniciada em 1897, se estende pelas linhas dos bairros nobres e proletários nos anos subseqüentes e, em 1920, todas as linhas já estão eletrificadas.

121 A proposta da demolição da Catedral da Sé, por ser a mais polêmica, resultou em um debate polarizado em duas posições, durante nada menos que seis anos: “preservar a Catedral” ou “modernizar a cidade”, destruindo o monumento, opção então vitoriosa. Para detalhes ver Fernando da Rocha Peres, Memórias da Sé. Salvador: Macunaíma,1974.

122 Para detalhes, ver ALMEIDA (1997).

123 MARINS (1998) p.136.

124 FERNANDES e GOMES (1992) p.59.

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De fato, o saber urbanístico utilizado reduzia os problemas da cidade ao âmbito da aplicação das técnicas e saberes supostamente neutros e divorciados de determinações políticas, ao mesmo tempo em que procurava assumir para si o papel de auxiliar na construção de uma nova ordem pública. Assim, o espaço urbano associava-se muito mais ao poder público que à vida pública - no sentido dado por Sennet, isto é, de contato entre diferentes; agora os diversos segmentos da população iam para as ruas ocupando espaços diferenciados - resultantes da segregação social que lhe serviu de fundamento. Se atentarmos para o paralelismo entre essas intervenções urbanas e o início do desenvolvimento de um comércio mais elitizado - concentrado na Rua Chile e adjacências - podemos considerar as observações de Sennet sobre a diferença entre a sociabilidade nas ruas entre os séculos XVIII 125 e XIX 126 nas cidades européias. Se aqui, no oitocentos, a cidade se torna mais aberta às mulheres de elite - quando comparado aos séculos anteriores - a percepção do âmbito público também muda. Para Sennet, o investimento de sentimentos pessoais 127 e a observação passiva estavam se unindo: estar em público era ao mesmo tempo uma experiência pessoal e passiva. Por outro lado, se no novo contexto urbano um número maior de estímulos incitava as mulheres a usufruir do espaço público, novas aspirações e frustações emergiam quanto ao horizonte moral e social a elas reservado: o espaço da rua é repartido de forma desigual. Locais, horários circunscritos e acompanhantes regem a presença da mulher na cidade. Códigos morais rígidos espreitam sua conduta enquanto, para os homens o espaço público é familiar. Nele, se criam identidades coletivas e se estabelecem sociabilidades exclusivamente masculinas. 128

125 O século XVIII é, para o autor, o paradigma de experiência mais intensa das pessoas no domínio público, centralizada em torno de uma burguesia em ascensão e de uma aristocracia em declínio, a cidade sendo um meio no qual estranhos podem se encontrar. SENNET (1998) p. 68.

126 Em relação ao século XIX, Sennet coloca quatro questões a respeito da vida pública: i) o efeito da questões materiais (população e economia); ii) a introdução da categoria personalidade individual, possibilitando eventualmente abalos profundos no domínio público; III) a identidade ‘silenciosa’ do homem público (no XVIII a identidade é a do homem/ator, esforçando-se para dar cor ao relacionamento com os outros, dar forma aos intercâmbios sociais, criar um sentido convincente de platéia) e a quarta referente à ligação entre a personalidade em público e a regulamentação moderna da intimidade. As três primeiras tratam da herança adquirida do século XVIII e sua deformação e a última, de como o século XIX preparou terreno para a extinção moderna da res publica. SENNET (p. 160, 161). Voltaremos no próximo capítulo a esta quarta questão.

127 O autor se refere aqui ao estímulo provocado, pelo comércio, ao consumo dos objetos no sentido de revestí-los de significações pessoais. No Capítulo 3, veremos como esse processo se deu em Salvador.

128 SCHPUN (1997).

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2.5 As Vilas Operárias

A defesa da cidade higiênica, contudo, continua reforçada não somente nas esferas governamental e administrativa, mas também através de estratégias patronais, na moldagem

do novo trabalhador que viverá com sua família nas Vilas Operárias. As altas inversões de capital na habitação das classes trabalhadoras em Salvador estavam ligadas principalmente à produção de têxteis, como parte de uma estratégia para aumentar a produtividade na indústria através de mecanismos que permitiam assegurar a fixação e reprodução da força de trabalho. Variando em dimensões, número de unidades habitacionais e equipamentos de uso comunal, as Vilas Operárias foram construídas principalmente no período da Primeira República. Situadas em sua maior parte na península itapagipana, onde estava sediada a maioria das fábricas, as moradias, de uma modo geral, obedeciam a padrões semelhantes. Grupos de casas localizadas em vias públicas também foram erigidos para abrigar famílias operárias, conforme ilustração abaixo (Fig. 10), parte de um conjunto de oito unidades, localizado na Estrada da Fonte Nova.

de oito unidades, localizado na Estrada da Fonte Nova. Fig.10 - Parte de um conjunto de

Fig.10 - Parte de um conjunto de oito casas para operários na Estrada da Fonte Nova, ainda existentes. Desenho: Anete Araujo

As Vilas Operárias foram instrumentos eficientes de propagação das ideologias das classes dominantes, como aconteceu também na Inglaterra, no século XIX. As famílias eram controladas através das facilidades comunais dentro das próprias Vilas e ratificadas pela posição conservadora e moralista do patrão, refletida nos regulamentos estabelecidos pelo mesmo. 129 Mudanças no estilo de vida alcançaram a própria constituição da família. A variedade da composição familiar - encontrada no Censo de 1855 130 -, decresceria no tempo, desde que apenas a família nuclear - constituída por um chefe trabalhador assalariado e seus dependentes familiares - tinha acesso aos programas de habitação. Isto reforçou a

129 CARDOSO (1991). Os regulamentos das Vilas Operárias variavam desde o controle em relação à entrada de pessoas que não moravam lá, até o horário de abrir a fechar os portões ou de desligar a luz elétrica durante a noite.

130 No Censo de Salvador são oito os tipos de agrupamentos familiares classificados por Nascimento. Ver Capítulo 3.

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noção de família nuclear como a ideal, além de legitimar os papéis: do homem - no trabalho, fora do âmbito doméstico, e o da mulher - dentro de casa, os quais repercutiam diretamente nas relações de gênero. Facilmente conclui-se que os proprietários das fábricas tinham como aspiração não somente abrigar os trabalhadores e auferir lucros crescentes através do aumento da produção. Pretendia-se também assegurar os padrões de decência e moralidade, tão elogiados nos projetos de habitação dos ingleses cujos modelos estavam sendo copiados. Marion Roberts argumenta que, na Inglaterra, a ênfase na moralidade é exemplificada no próprio enfrentamento ao problema de carência de habitação. Entre as preocupações de abastecimento, valor dos aluguéis, equipamentos urbanos, falta de conservação das moradias e super população, este último item foi considerado o prioritário pelo Primeiro Ato do Parlamento - que regulamentou a Habitação da Classe Trabalhadora (Lodging Housing) - revelando o medo da imoralidade e do incesto, presentes na mente dos reformadores. Daí o reforço na suburbanização baseada na noção de uma família ideal - constituída de um homem provedor com sua mulher e crianças dependentes -, para reformar os desobedientes, enquanto servia de exemplo para os outros. A ideologia da domesticidade, a organização familiar e o comportamento doméstico das classes dominantes eram assim transferidos para as pessoas da classe trabalhadora. 131 A responsabilidade da mulher pelo trabalho doméstico, a criação das crianças e, posteriormente, o conceito de “salário família”, negociado entre os empregadores e os sindicalistas - sugeriram que a mulher não tinha direito a um trabalho remunerado, reforçando assim um dos princípios mais importantes do desenho arquitetônico, de que “o lugar da mulher é a casa”.

2.6 Arquitetura e urbanismo: novos pensamentos e ações sobre a cidade

No período que cobre a Primeira República e adentrando os anos trinta, a inserção da habitação no espaço urbano foi puntuada pela consolidação de formas de morar diferenciadas - devido à heterogeneidade do próprio corpo social, em cujos extremos encontravam-se a nova burguesia baiana (privilegiando cada vez mais os bairros nobres) e os aglomerados das casas pobres que começavam a se multiplicar na cidade. Entre 1935 - ano em que se realizou a primeira Semana de Urbanismo - e a instalação

do Escritório de Planejamento e Urbanismo da Cidade do Salvador (EPUCS), em 1943, a

131 ROBERTS (1991). No Brasil, em uma pequena brochura, Margareth Rago analisa justamente este aspecto da transferência de valores da classe alta para as demais e a conseqüência da mesma sobre os movimentos anarquista e feminista no Brasil. Para detalhes ver RAGO (1998).

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cidade se tornou objeto de pensamentos e ações. As últimas - posteriormente voltadas apenas para melhoramentos urbanos, - não corresponderam, no entanto, às expectativas e aspirações resultantes das novas diretrizes urbanas traçadas pelo poder público e pelos urbanistas baianos. Entretanto, este foi um período em que uma série de loteamentos para uso residencial (alguns em áreas de expansão da cidade, como a Pituba) foi implantada. Esses loteamentos obedeciam a configuração dos sítios, normalmente acidentados, e receberiam o novo estoque habitacional da cidade. Sua localização variava entre bairros nobres como Graça e Barra Avenida, passando por Nazaré e Barris, alcançando também bairros mais populares como Brotas, Mares e Penha, na cidade baixa. 132 Algumas empresas de construção trouxeram novas concepções estruturais e espaciais baseadas na versatilidade do concreto que vão permitir a verticalização das habitações em Salvador, possibilitando a absorção da nova arquitetura. Inicialmente aplicada em obras de exceção, o modernismo também vai alcançar residências uni familiares baianas, dispersas pelos bairros da cidade. A adoção de edifícios modernos, por outro lado, vai ser acelerada posteriormente, a partir do crescimento econômico e urbano, em conseqüência do descobrimento do petróleo no último ano da década de trinta.

132 PLANDURB, Órgão Central de Planejamento. Inventário de Loteamentos. Estudos Normativos, nº 2. Salvador: PMS,

1976/1977.

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3 ARQUITETURA RESIDENCIAL EM SALVADOR

3.1 O Espaço Privado nos Séculos XVII, XVIII e XIX em Salvador

O urbanista de hoje está tão acostumado a pensar que a economia de uma área ‘combina’ com o nível de afluência de seus habitantes, que é difícil retratar o sistema de vizinhança anterior ao século XIX tal como realmente era, com sua mistura de diversas classes em prédios vizinhos, quando não na mesma casa, e com a mistura de diferentes espécies de comércio, lojas, e até pequenas feiras para servir a essas clientelas variadas.

Richard Sennet, 1999

3.1.1 Introdução Grande parte dos estudos clássicos sobre a habitação, no que diz respeito à sua

organização espacial, é fundamentada em aspectos relativos ao preenchimento,

freqüentemente patente, das necessidades humanas como abrigo, privacidade, conforto e

independência que a casa pode proporcionar. Essa postura ou afirmação, de alguma forma,

esconde o fato de que a organização do espaço privado - como o entendemos na sociedade

moderna - tem uma origem e um propósito. Assim, um olhar histórico embasado

conceitualmente neste sentido é o único meio para reconhecer que mudanças ideológicas e

sociais afetaram sua organização. É necessário, portanto, como aponta Rakatanski 133 , ler o

espaço privado à luz das mentalidades e das práticas domésticas, incluindo relações entre

gêneros, pais e filhos, patrões e criados, dentro e fora, privado e público, o que é suposto ser

visto, tocado, cheirado, ouvido.

Dessa forma é indispensável entender como as pessoas experienciavam e pensavam

suas vidas no espaço privado bem como sua relação com o espaço público, nos séculos XVII,

XVII e XIX, e a transformação dessas experiências no tempo. A preocupação com a

distribuição e disposição do espaço doméstico, com a localização das envasaduras e a

instalação de infra-estrutura em busca de conforto, independência e privacidade, através do

agenciamento da arquitetura, se estabelece no século XVII na Europa, enquanto sua adoção

em Salvador é bastante recente, isto é, não antes dos meados do século XIX.

Desse modo, comparando com a Europa, essa aspiração se estabeleceu aqui cerca de

dois séculos depois. Autores europeus, como Robert Kerr, identificam o requisito da

privacidade na Inglaterra mesmo antes, na planta da casa elizabetana do século XVI.

Elogiando sua disposição, Kerr reforça sua “superioridade” porque “os cômodos de uma casa

devem ser essencialmente privados e a área destinada aos empregados deve ser separada do

133 RAKATANSKI (1992)

62

corpo principal da casa, de tal forma que o que se passa no interior de cada lado da fronteira seja invisível e inaudível para o outro”. 134 De fato, Evans, considerando a introdução dos corredores enquanto um instrumento agenciador da privacidade, data seu aparecimento na Inglaterra em 1597, época da popularidade da casa elizabetana. Citando Sir R. Pratt, sobre a criação de uma passagem para empregados, em uma casa de sua propriedade em Coleshill, Bershire, ‘para impedi-los de atravessar o caminho dos cavalheiros e das damas’, Evans afirma: “Não há nada de novo nisto, a novidade era o emprego consciente da arquitetura para aquele fim - uma premonição daquilo que iria garantir uma vida doméstica tranqüila em épocas vindouras.” 135 Na verdade, a prescrição de privacidade no espaço doméstico já se evidencia, no século XV, no “Da Re Aedificatória”, de L.B.Alberti, onde se estabelecia um espaço masculino, do qual dependiam novos tipos de escrita, e acolhia o conhecimento imaterial enquanto à mulher era dado um quarto de vestir, espaço de máscaras materiais, fora do quarto de dormir. Aliás, Wigley atesta que, datado do século XV, o primeiro espaço privado foi mesmo o gabinete de estudos do homem, um pequeno espaço fechado, fora e ao lado do quarto, no qual ninguém poderia entrar, um espaço intelectual exterior àquele da sexualidade:

“Ele passava de cômodo a cômodo até alcançar seu gabinete secreto onde ninguém tinha acesso exceto ele próprio.” 136 Esses cômodos emergiram no século XIV e gradualmente tornaram-se comuns no século seguinte. Eles foram o resultado da transformação de uma peça do mobiliário localizada no quarto - uma escrivaninha com fechadura - em um cômodo, denominado closet fechado à chave, fora do quarto. 137 Também na sua interpretação histórico-sociológica da evolução da sociedade da corte francesa, Norbert Elias observa que os séculos XVI e XVII viram o triunfo do individual na vida quotidiana (porém não como uma ideologia que só vem a se consolidar no século XIX). Para ele, a sociedade da corte indica a transição de um Estado fraco, característico do período medieval, para a poderosa monarquia administrativa que, usando recursos previamente

134 KERR (1864) p. 68. Em um outro livro How to plan English Residences, de 1871, Kerr prescreve 27 cômodos necessários para uma casa (sem contar com os halls e as galerias), descrevendo o uso de cada um por sexo. In SPAIN (1991) p. 113. A autora faz uma ampla leitura crítica das obras (textos e projetos) de Kerr.

135 EVANS (1978) p. 272

136 WIGLEY (1992) p. 346. O autor refere-se a “Life of S. Kath”, 1430 (Roxb), citado em O.E.D. (Oxford: Claredon Press, XIX33) vol. X p. IXVIII: “He passed from chambre to chambre tyle he come yn to hir secret study where no creature used to come but hir self alone”.

137 Idem, p.347. O termo “closet”, explica Wigley, foi usado neste sentido nos séculos XVI e XVII. “We doe call the most secret place in the house appropriate unto owne private studies a closet” (“Nós denominamos o lugar mais secreto da casa, apropriado para nosso estudo privado, um closet”) Day, English Secretary (1586), citado em O.E.D. vol.II, p. 520.

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monopolizados pelas famílias e corpos privados, começa a redefinir as fronteiras da vida privada, as quais se refletiram no arranjo do espaço doméstico do século XVI em diante. 138 Comentando Elias, Eleb-Vidal 139 observa que dormir só, banhar-se sem testemunhas, fazer isoladamente as necessidades naturais se tornam condições de dignidade pessoal, prescrições que passaram a fazer parte dos tratados do bem viver. No século XVII, os tratadistas e arquitetos trabalham para codificar de forma científica esse domínio do saber: a arte da distribuição dos espaços da habitação, da disposição dos cômodos, da adequação dos costumes - embora mantendo a ornamentação das fachadas como meio de representação social. Novas disposições espaciais, por exemplo, foram adotadas, sejam associadas com a necessidade de privacidade na vida amorosa ou para conversações políticas ou comerciais. É interessante notar que a inserção de pessoas que não pertenciam ao universo familiar no espaço doméstico da casa, seja para tratar de temas vinculados à produção e comercialização de bens, seja para discussões políticas (os reis e altos funcionários também davam audiências em seus palácios e mansões) significava a presença do que era público no espaço privado. Essas práticas, de certa forma, faziam com que as casas fizessem parte da cidade, a casa acolhendo em sua privacidade a vida pública, caracterizando uma subordinação do individual à sociedade civil, evidenciando assim o conceito de cidade enquanto locus de interesse coletivo, muito diferente da atualidade onde a multiplicação de casas produz cidades por adição de indivíduos privados. Eleb-Vidal concentra um dos aspectos de sua investigação na formação dos projestistas (neste período e posteriormente, no século XIX), para ela surpreendente pelo conteúdo não apenas social e psicológico, mas também, e principalmente, moralista. São invenções e rupturas, inovadoras, neste domínio do saber, cada período se jactando da “melhor arte de viver”. Compreender essa atitude e suas conseqüências - não como fato individual, mas como característica de uma profissão, dentro de um papel social sempre assumido - implica mergulhar na história da arquitetura doméstica, de descobrir suas raízes, suas primeiras elaborações teóricas e as doutrinas em que se desdobram as mesmas. De fato, na segunda metade do século XIX, paralelamente ao discurso higienista, à literatura e à enorme produção de cultura popular, muitos livros sobre a arquitetura doméstica foram publicados na Europa, não só aqueles manuais mais populares, de autoria leiga, mas também de arquitetos, teóricos e historiadores reconhecidos, a exemplo de Viollet le Duc, Cézar Daly e Robert Kerr. Essas obras, diferentemente daqueles tratados de arquitetura que se

138 CHARTIER (1990).

139 ELEB-VIDAL; DEBARRE-BLANCHARD (1989).

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preocupavam fundamentalmente com os princípios teóricos daquela arte - com categorias de beleza, harmonia e proporção -, concentravam-se principalmente no programa, distribuição, dimensões, funções e propriedade dos cômodos dentro das casas, tendo assim, como principal

propósito, lançar as bases para a prática da arquitetura naquela área. Através da análise desses textos não é difícil concluir que a leitura fácil dos mesmos, com diversas ilustrações esclarecedoras, poderia alcançar tanto arquitetos quanto um público mais amplo, isto é, aquele segmento da sociedade que necessitava consolidar a sua identidade. Como argumenta Bresciani, a burguesia do século XIX não é mais aquele monstro sem face e sem identidade do século XVIII, nem aristocrata nem pobre. Tendo superado essa dicotomia, ela tinha adquirido o hábito da leitura, sejam publicações ou romances, assim elaborando sua identidade a partir de novos valores, entre os quais a constituição da privacidade. 140 Entre as obras dos autores acima referidos, podemos destacar "How to Build a House" de Viollet le Duc, "L'Architecture Privée au XIX Siècle sous Napoleon III" de César Daly, ambos publicados na França 141 e "The English Gentleman's House", já comentada, de Robert Kerr, na Inglaterra, pois elas ilustram bem o nosso propósito neste trabalho. 142

O livro de Viollet le Duc, o arquiteto francês mais influente do século XIX, combina

uma animada narrativa de uma família aspirando construir uma casa ideal, através de seu principal personagem, Paul, com o seu aprendizado da ‘arquitetura prática’, guiado por um mestre arquiteto. O autor, através dos capítulos sucessivos vai desenvolvendo temas como distribuição, disposição e dimensão dos cômodos, assim como instruções técnicas, ilustradas

com pranchas e diagramas. O público a ser atingido era claramente o arquiteto prático e o amador, que poderiam aprender como “responder às várias necessidades e condições de uma morada moderna”.

O livro de César Daly foi publicado em Paris em 1864. Sua abordagem em relação à

arquitetura residencial não apenas a pressupõe como um abrigo contra as manifestações da natureza, mas como um lugar onde um estilo de vida é imposto por uma sociedade sobre os seus membros. As divisões dentro da casa em zonas diferentes para propósitos sociais, íntimos e de trabalho doméstico devem, contudo, corresponder à renda dos moradores,

140 BRESCIANI (1992) p. 20.

141 DALY (1864). As referências sobre Viollet le Duc estão na versão em inglês How to Build a House (1876).

142 A influência de obras deste tipo, pode ser identificada em obras anteriores, como o “Précis des Leçons d’Architecture”, de J.N.L.Durant, no início do século XIX e o Cours d' Architecture Civile ou Traité de la Decoration, Distribuition et Construction des Batiments, de autoria da J. F. Blondel, publicado em 1871. Além da ênfase no papel da estética (uso das ordens clássicas) como sinal de representação social nas casas abastadas, Blondel desenvolve uma teoria da disposição do espaço interno da casa de acordo com a posição social de seus ocupantes.

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trazendo assim à discussão, mesmo que superficialmente, a questão das casas não burguesas e, conseqüentemente, as regras que deveriam ser aplicadas a elas. Para Eleb-Vidal, esses e outros autores pretendiam hierarquizar o luxo, ir ao encontro do fausto aristocrático - que valorizava as fachadas em detrimento dos arranjos internos. Citando Rammé: ‘Habita-se uma casa no interior e não no exterior’; a autora argumenta que o gosto vai enfatizar o conforto. Embora o aparecimento do termo conforto no contexto do bem estar doméstico esteja documentado no século XVIII 143 , na França do início do século XIX representava um signo de importação recente, como assinala Eleb-Vidal, e a expressão, que se escreve em itálico e em inglês ‘comfort’, significava e era reconhecida como uma das qualidades de boa casa. 144 Conforto, de fato, é aquela qualidade que Kerr valorizava e que, segundo ele, “um cavalheiro do presente destaca entre as demais: privacidade, conveniência, propriedade, salubridade e elegância”. 145 Segundo Rybczynski, a importância do conforto para Kerr devia-se ao seu significado, que era o de desfrute passivo da casa por seus proprietários, enquanto que a comodidade designava, para o inglês, o funcionamento correto da casa: dizendo respeito aos empregados, necessitava de pouca explicação. 146 Pelo pouco que foi observado, ficam claros dois aspectos, quanto à abordagem de Kerr em relação às questões de classe, gênero e faixa etária: a importância dada aos aspectos de propriedade (adequação) na distribuição e funcionalidade dos cômodos e, nos atributos da casa, uma concepção masculina, já muito clara no próprio título “A Casa do Cavalheiro Inglês”. 147 Resumindo, a arte da distribuição, baseada no conhecimento de funções e objetos úteis adequados e apropriados aos espaços domésticos, patrocina um discurso especificamente arquitetural, a partir do século XVIII. 148 Esse discurso, entretanto, faz parte de um processo mais amplo onde, segundo Sennet, o palco do mundo público teria sido usurpado pela cena psíquica privada em detrimento tanto

143 RYBCZYNSK (1993). Rybzynski investiga o termo “conforto” em seus diversos significados no tempo e remonta ao período da Idade Média, o aparecimento de uma palavra especial para designar um atributo particular do espaço doméstico, no sentido de compreender como o mesmo apareceu no século XVIII, (p. 32 a 35).

144 ELED-VIDAL; BEBARRE BLANCHARD (1985).

145 KERR (1864) p. 67.

146 RYBCZYNSKI (1993) p.164.

147 Entre os projetos da autoria de Kerr, analisados por Daphne Spain, na Vila Bearwood (“ o zenith do planejamento doméstico vitoriano”) foram detectadas cinco escadas de um pavimento para outro, pois, além da segregação principal da casa - que era a separação entre a ala dos patrões da dos criados, com mensagens óbvias de inferioridade social - a mesma era também diferenciada por gênero, aí refletindo e perpetuando o status mais alto do homem, também entre os subalternos (a escada dos criados era separada da escada das criadas). SPAIN (1991) p. 109 a 140.

148 Esse discurso inclui a distinção entre privado e público e implicou uma segregação sexual crescente, na qual a definição do espaço público tinha como chave o espaço político reservado aos homens. Nos pubs e inns (tavernas) inglesas, no final do século XVIII e início do XIX, os homens e mulheres estavam juntos (freqüentemente cantando, reivindicando, preparando manifestações, se operários). Aos poucos a presença das mulheres se torna marginal, inabitual e depois francamente excepcional. PERROT (1988) p.218.

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do indivíduo como da sociedade. Argumentando que a dicotomia natureza / cultura começou

a tomar forma no século XVIII - quando nossos antepassados buscaram imagens e

experiências que pudessem exprimir esta oposição, de modo a atribuir uma forma social

concreta à busca de felicidade -, seu desenvolvimento foi então construindo a distinção entre

privado e público, identificando o natural com o privado e o cultural com o público. 149

Sintonizado com esse processo, é aquele discurso arquitetural como teoria que, se

desenvolvendo no século XIX, vai enfatizar a privacidade e os outros atributos que a casa

burguesa vai necessitar. Ele vai influenciar a concepção espacial das residências no Brasil e

em Salvador, primeiramente utilizada nas casas do bairro da Vitória. Antes disso, a

arquitetura doméstica baiana e brasileira ainda apresentava espaços com pouca ou nenhuma

preocupação com a privacidade. 150

3.1.2 Espaço privado e relações domésticas

A análise da produção do espaço privado, no período do século XVII ao século XIX,

em Salvador, pretende articular a disposição dos cômodos e sua utilização, como também as

relações interpessoais e as práticas sócio-culturais no interior dos mesmos, não esquecendo aí

as áreas livres dos lotes urbanos, representadas principalmente pelos quintais. 151 Vale salientar

que as dificuldades relativas ao estudo da arquitetura doméstica no Brasil, neste recorte

temporal (séculos XVII e XVIII e parte do XIX) estão vinculadas particularmente às suas

características vernaculares, isto é, à ausência da figura de um autor, a sua produção privada, e

conseqüentemente, a ausência de desenhos ou textos explicativos sobre o tema. 152 A

abordagem nestes séculos não levantará, portanto, a questão do papel do arquiteto ou

projetista - que constituirá variável importante na análise do espaço doméstico no final do

século XIX e no modernismo das primeiras décadas do século XX. Contudo, a investigação

pode ser acompanhada e esclarecida através de referências a exemplos europeus, nos quais

nossas edificações foram freqüentemente baseadas.

Embora seja metodologicamente útil partir do esquema tradicional na historiografia,

identificando funcionalmente as áreas social, íntima e de serviço da habitação, evitaremos esta

abordagem pois ela pode levar a uma análise circular e inoperante, dividindo o espaço

doméstico em zonas estanques, cuja existência é exatamente o que estamos tentando entender

e questionar. Contudo, um estudo das tipologias habitacionais é necessário a par do exame da

149 SENNET (1998) p. 91.

150 VAINFAS (1997).

151 HOLTHE (2002).

152 Existem exceções, principalmente no XIX quando é possível identificar plantas e/ou projetos com autoria, alguns dos quais serão examinados adiante.

67

organização do espaço privado enquanto suporte físico facilitador ou inibidor das relações e

práticas sociais dentro dele. Também necessário é ir além do espaço da casa e tentar

desvendar sua relação com o espaço público da rua.

3.1.3 A rua e as casas

A configuração urbana da cidade do Salvador, desde a sua fundação até o século XIX,

apresentava ruas de aspecto uniforme, isto é, era baseada em um tipo de lote com

características muito bem definidas: estreitos e profundos, variando de cinco a dez metros de

largura e vinte a trinta metros de frente a fundo. As casas térreas e os sobrados eram

construídas em fileiras, isto é, as paredes laterais coincidiam com os limites dos lotes. Esta

disposição seguiu as antigas tradições de Portugal e a presença de becos, que permitia ainda

mais a concentração das casas é, talvez, um exemplo de alto gregarismo, herdado pelos

colonizadores portugueses, de influência mourisca e mediterrânea.

Esta concentração de casas pode ser facilmente vista em uma gravura do século XVIII,

reproduzida no livro Cozinhas

da autoria de Carlos Lemos, 153 na qual se vê um trecho da

cidade de Salvador (Fig.1). 154 As chaminés nela representadas reportam ao clima frio

europeu, constituindo uma influência da arquitetura portuguesa na colônia. Posteriormente,

devido ao clima tropical do país, esses elementos finalmente desapareceram. 155

etc,

esses elementos finalmente desapareceram. 1 5 5 etc , Fig. 1 - Gravura antiga, mostrando a

Fig. 1 - Gravura antiga, mostrando a concentração de casas em Salvador, no século XVIII. Fonte: Lemos (1978)

As edificações também apresentavam certa uniformidade baseada na repetição das

casas medievais portuguesas e, posteriormente, nas regulações do século XVII, as Cartas

Reais, que desejavam assegurar aquela uniformidade. Segundo Teixeira, essas edificações

153 LEMOS (1978).

154 A mesma gravura, colorida, está representada em REIS FILHO (2000) e identificada como o “Morgado de Santa Bárbara” (p. 42). O original, segundo o autor está no Arquivo do Estado da Bahia, 1764-1785, p. 317.

155 GLÜPPEL (2000). Aautora esclarece que a chaminé cai em desuso no Brasil porque uma vez que o espaço para o cozimento dos alimentos vai se localizar no exterior da moradia, assimilando uma prática indígena, não era necessário afastar, do seu interior, o calor e a fumaça.

68

eram facilmente adaptadas às condições tropicais através de inovações locais: tetos altos, paredes que não alcançavam os tetos, janelas de venezianas e varandas. 156 Não existiam jardins, 157 apenas quintais, e o esquema geral observado no país, como mostra Reis Filho, envolvia a própria idéia na qual a rua era concebida: “Em uma época, em que as ruas não eram pavimentadas, era impossível pensar em uma rua sem edificações; ruas sem edificações, definidas por cercas, eram estradas, não ruas”. 158 Entremeados com as ruas estavam os largos e as praças, onde edificações religiosas dominavam a paisagem urbana. Igrejas e conventos, em particular a Companhia de Jesus - cuja associação com a empresa ultramarina incumbiu-se da catequese e da tarefa do ensino religioso no sentido de desenvolver os preceitos católicos - vai exercer muita influência na educação e no viver e conviver das pessoas, no espaço público e privado. 159 Por outro lado, o desenho urbano de Salvador não obedeceu a um projeto, exceto o do primeiro assentamento, trazido pelos primeiros colonizadores, no início do século XVI, o qual obedecia a uma malha regular. As ruas, atravessando o vale para alcançar a segunda cumeada, espontaneamente seguiam em direção ao topo das colinas, no final do século XVII. Sobre o assunto Nascimento comenta: “Examinando os documentos, parece que primeiro vieram as casas e depois as ruas”. 160 Reforçando este aspecto, para Murillo Marx, não existia uma regulação ou modulação rigorosa nas concessões de terras no Brasil. A questão sobre o que veio antes o arruamento ou a concessão do terreno fica, também para ele, sem resposta (incluindo ai a área e a forma das frações de solo, onde o beneficiado erigia sua moradia). 161 E é, certamente, a preponderância da esfera privada sobre a pública que vai marcar indelevelmente a fisionomia da moradia, onde a família proprietária administrará a cidade colonial segundo seus interesses privados. 162 Era em torno das casas

“que se arrumavam as ruas, necessariamente desalinhadas. Quintais dos sobrados, as ruas abrigavam animais domésticos, serviam para o corte da lenha e o despejo dos dejetos dos moradores. Além disso, a própria arquitetura das casas usava a rua como um seu prolongamento: para ela abriam-se diretamente as janelas e portas, e nela as calhas jogavam a água de chuva”. 163

156 TEIXEIRA (1990) p. 31.

157 Leila Algranti observa a presença de jardins, alguns na frente das casas coloniais brasileiras (p. 91, 94, 97), porém, em Salvador, parece que não foram localizados registros dos mesmos antes do século XIX. ALGRANTI (1997).

158 REIS FILHO (1970) p. 27

159 Para as mulheres, por exemplo, a permissão para sair de casa era principalmente para fazer visitas e ir às missas, até mesmo diariamente.

160 NASCIMENTO (1986) p. 30.

161 MARX (1991) p.77.

162 MURICI (1988).

163 Idem, p.52.

69

Enlameadas nos dias chuvosos, e poeirentas no estio, as ruas não possuíam

iluminação, restringindo seu uso praticamente ao período diurno.

No que diz respeito às tipologias das casas urbanas comuns, os vários autores que se

dedicaram ao estudo da arquitetura colonial brasileira parecem concordar que, deixando de

lado a diferença entre casas e sobrados 164 , a única diferenciação era representada por aquelas

localizadas nas esquinas dos logradouros. Em Salvador, essas edificações eram chamadas de

“casas de oitão” e, como possuíam duas fachadas para a rua, sua disposição em planta variava

mais de acordo com o uso (se comercial, residencial, serviço ou uso misto) em ambos os

lados. Incluídos ou não nesta categoria também são construções especiais de Salvador os

solares, nobres ou não, que por suas características e arranjos específicos merecem destaque

na análise do espaço privado a que nos propomos.

As diferenças entre as casas térreas e os sobrados, segundo Reis Filho, eram baseadas

na renda do morador, revelando a relação entre os tipos de casas e os segmentos sociais.

O piso, nas casas térreas, era usualmente de barro batido, enquanto nos sobrados eram de

pranchões de madeira. “Morar em um sobrado significava riqueza e morar em uma casa térrea

significava pobreza”. 165 Reis Filho argumenta que esta diferença comportava também um

significado simbólico, porquanto nos sobrados o pavimento térreo era utilizado por escravos e

animais, sendo algumas vezes deixado vazio. Somente quando os proprietários eram

comerciantes, os cômodos térreos eram mais valorizados pois eram utilizados para abrigar os

estoques e a comercialização de bens, muitas vezes produzidos no próprio domicílio.

Também Mattoso reforça a desvalorização do pavimento térreo em Salvador onde

“apenas famílias humildes aceitavam morar, confirmando que o primeiro indício da

decadência de uma família era sua mudança para um alojamento térreo. Na ocorrência de tal

infortúnio,a família tornava-se extremamente discreta, evitando todo convívio social.” 166

3.1.4 Indústria caseira: sociabilidade no trabalho

Sobrado ou casa térrea, a maioria das habitações, além de domicílio, era também uma

unidade de produção e consumo, onde mulheres, jovens e crianças participavam da produção

de artigos variados. Papel essencial nessa atividade tinham os quintais, pequenos ou grandes,

164 O termo “sobrado” vem de “sobra”, designando o espaço sobrado ou ganho devido a um soalho suspenso e no século XVIII podia significar o próprio soalho. Para detalhes ver LEMOS (1996) p. 38.

165 REIS FILHO (1970). Esta afirmação parece ser válida apenas durante um certo tempo, pelo menos na Bahia, já que

Nascimento se refere à existência de ricas casa térreas, “pavimentadas com tijolos ou cerâmicas coloridas. Muitas tinham

riqueza de acabamentos, dependendo da imaginação e fortuna do proprietário”.

NASCIMENTO (1986) p. 20.

166 MATTOSO (1992) p.447.

forro

de

madeira

no

teto

e

70

totalmente integrados às construções. Versáteis e complementados, às vezes por acessos auxiliares, como becos e vielas. 167 A distância da Metrópole e o atraso das embarcações - na difícil travessia marítima que prejudicava o abastecimento - levaram os colonos dos primeiros tempos a desenvolver

suas habilidades manuais e a aprender com os gentios da terra a fabricar utensílios e preparar os alimentos disponíveis. Como responsáveis pela organização doméstica, cabia às mulheres o preparo da mandioca e do milho, salgar o peixe e a carne, modelar o barro, trançar cestos, esteiras e redes, fabricar vassouras e velas e utensílios diversos, além da limpeza e arrumação da casa.

O comando dos escravos e dos índios domésticos também ficava sob sua responsabilidade.

Nas casas mais ricas, as mulheres da família eram poupadas dos trabalhos mais pesados, mas

a organização das atividades e a administração dos serviços eram apenas delas. 168 Para

Algranti, não surpreende que nas denúncias sobre as práticas judaizantes, referentes aos costumes domésticos, feitas aos visitadores inquisitoriais na Bahia, as mulheres fossem os alvos preferidos das acusações. 169 A fiação do algodão e a tecelagem para a indústria caseira de fabricação de roupas, panos diversos e rendas para adornar as redes e tecidos completavam a atividade feminina dentro da casa neste setor; atividades que, antes que a manufatura industrial se estabelecesse na província, além de incorporar escravos ou servos, incluía jovens e até crianças. Em relação às crianças, o serviço doméstico se confundia com a aprendizagem, constituindo assim uma forma muito comum de educação. Como observa Ariès, analisando a questão da educação das crianças na Europa, meninos e meninas aprendiam na prática, absorvendo uma bagagem de conhecimentos através da experiência prática e o valor humano que pudessem possuir. 170 Muitos dos produtos eram fabricados nos telheiros, cobertos de telha ou palha, localizados nos quintais. Nesses, a criação de aves, de porcos e eventualmente de outros animais domésticos, e o plantio de frutíferas, vegetais e de flores 171 , seja para consumo dos

167 HOLTHE (2002).

168 ALGRANTI (1997). A valorização ou não do trabalho das mulheres varia de autor para autor. FREYRE (1968, p.109) embora detalhe o trabalho de supervisionar e administrar a casa pelas mulheres, menospreza-o, enfatizando que as mesmas “apenas” comandavam seus escravos, mucamas e moleques - e ARAÚJO (1997), por sua vez, enfatiza o ócio entre as

mulheres de classe social alta “as quais se prostravam molemente sobre esteiras

específica utilizada pelo último autor optamos pela visão de Algranti, embora admitindo também a prática do ‘nada fazer’ entre as ‘senhoras’.

169 Idem, p.120. Os próprios colonos, segundo Algranti, contavam aos visitadores o que “sabiam ou ouviam sobre as práticas domésticas de seus vizinhos”, tais como trocar água dos cântaros quando morria alguém na casa, trocar de roupa aos sábados e não trabalhar nesses dias (não cozer ou fiar) e até a forma de amortalhar o corpo de um ente querido. Muitas delas, cristãs novas, administravam a casa a partir de suas tradições sem se preocupar com os olhares do marido, dos de casa ou mesmo dos vizinhos (p.121).

170 ARIÈS (1981) p.228.

171 HOLTHE (2002).

”.

Por falta de documentação mais

71

habitantes ou para comercializar, reforçava o domicílio como uma unidade de produção e consumo. Aos homens cabia, dentro do universo doméstico, o fabrico de redes de pesca, a curtição do couro e a fundição, além da própria construção e melhoramentos das moradias ou

a administração destas tarefas entre as famílias de classe mais alta. 172 Seja como for, trabalho

e lazer se confundiam no dia a dia dos colonos e, de um modo geral, as ocupações domésticas eram vistas como um “não trabalho”, seja de homens ou mulheres e podiam ser feitos a qualquer hora. 173 Porém, a permanência da mulher no interior da casa - a maioria das vezes atribuída à exigência de sua reclusão em uma sociedade patriarcal - estava principalmente vinculada à sua função econômica. Para Costa “a mulher era o capitão do mato, o gerente e o caixeiro do marido, a que estava habilitada a zelar pelo patrimônio doméstico do marido”. Dependente deste, moral, afetiva, econômica, religiosa e juridicamente prestava-se docilmente a organizar

a produção econômica da casa. A auto-suficiência das residências contava, portanto, com essa mão de obra não remunerada, necessária ao despotismo senhorial sobre a cidade. 174 Seja o português que chega ou o nascido aqui, o proprietário de terras ou o empresário,

o homem é um senhor, é um homem de comércio, faz contatos exteriores, seu trabalho é a

esfera pública. Para Reis Filho, suas ambições são, ao mesmo tempo, senhorial e burguesa, mercantil e principesca. 175 Nessas famílias, a divisão de trabalho é rígida, o chefe da casa fora do domicílio, a mulher no seu interior 176 , até mesmo porque não havia necessidade de ausentar-se de casa para obter o que precisava, pois o que não era produzido no meio doméstico era oferecido nas portas das casas pelos mascates e, posteriormente, pelas vendedoras de quitutes, de bebidas, tecidos, bordados, geralmente escravas de ganho - que se tornariam em Salvador figuras típicas, com seus trajes variados e coloridos, carregando enormes tabuleiros. Assim as descreve Mattoso, em relação ao século XIX:

“Carregando enormes tabuleiros na cabeça, as ganhadeiras alegram a cidade com seus gritos e seu bom humor, enquanto bandos de crianças vão correndo atrás, seguindo as mães pelas ruas que serpenteiam nos flancos das colinas. A agitada Salvador de então é uma cidade colorida, onde a abundância de fontes cristalinas atenua a miséria dos mais pobres”. 177

172 ALGRANTI (1997), p.126.

173 ARAÚJO (1993).

174 COSTA (1979) p.102.

175 Reis Filho, Nestor Goulart. Evolução Urbana no Brasil p. 149, 150, citado por COSTA (1979).

176 O isolamento e os costumes da família no interior da casa é testemunhado por visitantes que aqui aportaram. AUGEL

(1980)

177 MATTOSO (1997), p.164. A maioria das mercadorias, segundo Mattoso, era preparada pelas próprias donas de casa e pelas escravas.

72

A legislação metropolitana protegia as mulheres, assegurando à mão de obra feminina

a exclusividade na atividade de comércio ambulante de “toda sorte de comestíveis pelo

miúdo, como também vinhos e aguardentes” 178 para com seu ganho honesto, exercido no

espaço público, sustentar suas famílias - pois muitas delas constituíam grupos familiares

estáveis. 179

Vale lembrar a diferenciação na percepção desse espaço público pelas mulheres, como

coloca Castro, denunciando a heterogeneidade de experiências das mesmas no cotidiano. Pois,

se para as sinhás, o público é o lugar do pecado e do perigo em contraposição à casa como

lugar de proteção, do controle e do exercício da autoridade -, para as escravas ou criadas, a

rua é o lugar tanto de trabalho como de liberdade, do exercício do lúdico e do erótico, isto é,

espaço para a vida privada, longe dos patrões, enquanto a casa é lugar de trabalho, de

disciplina mais rígida e muitas vezes de punição. 180

3.1.5 As casas e a rua

Voltada para o interior no seu burburinho cotidiano, no entra e sai dos escravos, no

atendimento aos vendedores e na recepção dos vizinhos ou visitas casuais, a habitação urbana

em Salvador, desde os primeiros séculos da colonização até o século XIX, tem outra

característica: é seu contato direto com a rua. As casas térreas de porta e janela, ou janelas,

pois o número delas dependia do tamanho da casa e, portanto, das posses da família, eram, no

início da colonização, as mais comuns (Fig. 2). Os sobrados foram posteriormente sendo

erigidos, muitas vezes substituindo casas térreas de estrutura construtiva precária.

casas térreas de estrutura construtiva precária. Fig. 2 - Protótipo da casa térrea colonial em Salvador.

Fig. 2 - Protótipo da casa térrea colonial em Salvador. Fontes: descrições e ilustrações em fontes diversas: Vauthier (1975), Reis Filho (1976) Rolnik (1985). Desenho: Anete Araujo

Nas casas térreas mais simples, a loja - primeiro cômodo na seqüência de setores do

espaço doméstico, poderia ser usada para vender mercadorias, como oficina para o artesão ou,

178 ARAÙJO (1997) p. 197.

179 NASCIMENTO (1986).

180 CASTRO (1992).

73

sendo ampla o suficiente, ser dividida em cômodos para aluguel. 181 Essas funções variadas possibilitavam seu uso por adultos e crianças, proprietários e empregados, senhores e escravos. Os escravos também podiam dormir nas lojas, exceto quando a casa fosse construída em uma encosta e dispusesse de espaço suficiente no porão para abrigá-los ou quando houvessem construções erigidas para tal fim no quintal. 182 Em casas bastante modestas era comum a existência de duas alcovas - ou apenas uma, entre o cômodo da frente

e o posterior. Atravessando este cômodo, um corredor levava a uma sala posterior 183 com largas janelas - a “varanda”, assim chamada por ser uma referência às varandas das casas mais simples construídas no século XVI. A varanda pode ter sido uma contribuição dos índios nativos que utilizavam espaços abertos, cobertos com palha - as mulheres para cozinhar, os homens para dormir, em redes que eles moviam no ar, quando o ar não se movia o bastante

para refrescá-los. Outra referência sobre as varandas, nas nos oferece Carlos Lemos, quando

varanda alpendrada, onde

comia, conversava e fazia a sesta na rede bem ventilada, de malhas grandes. A varanda, lugar de refeições e estar, consagrou-se na habitação do brasileiro remediado”. 184 O espaço entre o cômodo da frente e a varanda era reservado usualmente para quartos que se comunicavam - as alcovas - que não apresentavam portas ou janelas que os conectassem com o exterior. Para esse isolamento das alcovas também poderia ter contribuído

a exigüidade da largura do lote. Entre os diversos cômodos da casa brasileira, a alcova é um dos mais polêmicos. O consenso sobre seu uso ou propósito só é mais preciso enquanto lugar do sono, do sexo e do recolhimento da mulher o qual, se voluntário ou não, já tende para o dissenso entre os historiadores. 185 Talvez resíduo da maneira reclusa como a mulher era tratada na cultura árabe, o fato é que a precariedade técnica da alcova (representada pela ausência de luz solar e

diz que o colono português adotou para seu lugar de estar

“a

181 No século XIX, quando essa sala da frente passa a ser chamada “sala de visitas” as denominações de “fechada” ou “aberta” vão lhes ser acrescentadas. No primeiro caso, se ela dispõe de corredor - outro compartimento - com entrada independente da rua, e no segundo, quando a porta era voltada diretamente para a rua. HOLTHE (2002) p.121.

182 COSTA (1989) p.180 . A autora esclarece que esses aposentos podiam receber diversas denominações: senzalas, quartos para negros (ou para empregados) ou armazéns.

183 Holthe observa que essas salas posteriores, chamadas de sala de jantar no século XIX, podiam conter também o fogão. Em alguns dos inventários que pesquisou existem referências de “sala de jantar que serve de cozinha” ou “sala de jantar onde é a cozinha”, lembrando que Vauthier - analizando as casas mais humildes de Recife também se refere a essa combinação de usos no mesmo cômodo. HOLTHE (2002) p.123. Essas observações reforçam a idéia da freqüência de cômodos polifuncionais nas casas soteropolitanas, que será desenvolvida adiante neste Capítulo.

184 LEMOS (1978) p.46.

185 Para detalhes ver ALGRANTI (1997). A autora, alinhada entre aqueles estudiosos que não reforçam a idéia da alcova como lugar de reclusão da mulher, diz que tais alcovas, dispostas no centro das habitações, “podiam ser aproveitadas tanto para quartos como para instalação de capela ou despensa”; e Sylvio de Vasconcellos considera que o isolamento das alcovas seria mais resultado das imposições de laterais fechadas por contigüidade a construções vizinhas (citado em Algranti, p. 102)

74

ventilação), de qualquer forma, poderia facilitar a disposição ativa de proteção que o chefe da casa almejava para as mulheres de sua família. Nos fundos, separada ou comunicando-se com a varanda e com o quintal, estava a cozinha, cuja localização - exterior ao corpo da casa - é atribuída à influência indígena:

fumaça e calor poderiam assim ser evitados, diante do clima quente. 186 No quintal, eram lavadas louças, panelas, roupas e podia-se criar aves e/ou porcos e plantar vegetais para consumo dos habitantes ou para comercializar. Os quintais variavam quanto às dimensões, em função da renda dos habitantes ou da importância - funcional ou simbólica - que lhe conferiam. A justaposição de vários quintais constituía assim, na parte central do quarteirão, um espaço mais ou menos verde e era, com freqüência, o “palco da vida íntima dos moradores que por eles se avizinhavam”. 187 Sua vegetação, por outro lado, “em contraste com as cores claras das edificações e a aridez das ruas e praças públicas, desempenhava papel importante na formação de um caráter paisagístico próprio para a cidade”. 188 Este caráter era reforçado nas casas limítrofes da cidade, onde os quintais desciam até chegar ao vale - e onde geralmente corria um riacho de água fresca. Segundo Suárez, “Para o costume europeu, no caso particular português, se constituía um verdadeiro oásis de prazeres tropicais. Intimidades espaciais de seus moradores escondidas por detrás das pesadas e grossas paredes das fachadas”. 189 Em resumo, exceto para as mulheres da casa que usualmente viviam entre as alcovas, a varanda, e o quintal, o cômodo da frente era lugar de contato entre as pessoas de diferentes etnias e idades. A varanda era utilizada por todos, como uma sala de estar, uma sala de refeições, para algum trabalho doméstico e para o lazer das crianças. Era o espaço onde as visitas eram recebidas e os escravos também aí tinham acesso. Descrições desses usos múltiplos, segundo os autores consultados, estão presentes de forma consensual nos relatos dos viajantes. 190 A partir da segunda metade do século XIX, a maioria das famílias da classe média vivia nesse tipo de casa, cujos cômodos já tinham denominações específicas: sala de visita,

186 GLÜPPEL (2000).

187 MATTOSO (1978) p.194

188 HOLTHE (2002) p. 4.

189 SUÁREZ (1995) p.82. 190 MATTOSO (1978); NASCIMENTO (1985); ROLNIK (1985); ALGRANTI (1997); AUGEL (1980) baseiam suas descrições principalmente nesses relatos. Augel destaca a surpresa dos viajantes com o isolamento das famílias, gerando desconfianças, e o distanciamento com que seus membros os tratam, embora “atenção e cortesia sejam características da nação”. As mulheres são vistas ora como recatadas, ora como sedutoras, e as visões sobre os relacionamentos entre diferentes (em etnia, classe social ou gênero) também variam. A autora chama a atenção para o cuidado com o relativismo das informações (até mesmo por serem indispensáveis) exigindo sempre uma reflexão crítica devido tanto às questões ligadas ao etnocentrismo como à personalidade, necessidade e motivações pessoais das testemunhas. Preconceitos do observador, como também as experiências que ele tem oportunidade de vivenciar - na opinião da autora - dificultam estudar a vida privada.

75

quarto da sala, quarto do meio, quarto de dentro ou sala de jantar, sala de jantar, copa (quando havia), a cozinha 191 e o banheiro (a maioria das vezes ainda do lado de fora ou anexo à cozinha, em um puxado), os quais careciam de água encanada e esgoto. Para os banhos eram utilizados a bacia e um caneco. 192 O banheiro era utilizado apenas para o banho, as latrinas se localizando também no quintal, mas em cômodos separados. 193 Denominados de “quarto de banho” ou “sala de banho”, os banheiros podiam também estar localizados nos pavimentos superiores dos sobrados. 194 Os sobrados, embora variando em relação às dimensões 195 e organização espacial, também possibilitavam encontros entre as pessoas, senhores e escravos, crianças e adultos, homens, mulheres, visitantes (Fig. 3). Isto não significava, como bem afirma Rolnik, que não existissem preconceitos. Os sobrados eram as residências das famílias mais ricas que, juntamente com os agregados (a maioria parentes ou pessoas mais pobres que faziam trabalhos domésticos em troca de abrigo e alimento) e os escravos constituíam uma comunidade na qual o chefe da família, paternalisticamente, comandava a vida de todos. Existiam regras não escritas, criadas pelo chefe, em relação ao comportamento dos escravos, agregados e membros da família - esta comunidade, de alguma forma, enclausurada - onde “cada-um-saber-qual-era-o-seu-lugar” era uma recomendação básica que não deveria ser esquecida. 196

básica que não deveria ser esquecida. 1 9 6 Fig. 3 - O sobrado, enquanto unidade

Fig. 3 - O sobrado, enquanto unidade de produção e consumo, facilitava a comunicação entre seus usuários. Desenho: Anete Araujo. Fonte: textos e desenhos de autores diversos.

191 Holthe detalha cuidadosamente, no caso de Salvador, a cozinha externa, chamada “cozinha fora” ou “cozinha separada” que, localizada no quintal, afastava do corpo da casa, o calor excessivo, a fumaça, a sujeira e o barulho constantes, uma vez que o cozimento de alimentos, freqüentemente, não se limitava ao consumo da casa, mas era destinado à comercialização. HOLTHE (2002) p. 151 a p.155. Algranti também se refere a chamada “cozinha suja”, a do quintal, para contrapor à “cozinha limpa”, localizada, no caso das casas mais ricas, no corpo da casa. ALGRANTI (1997) p. 102.

192 MATTOSO (1978) p.194.

193 HOLTHE (2002) O autor explica que, contudo, não foi possível, a partir das fontes utilizadas (testamentos, inventários, vistorias), a identificação das dimensões e das características construtivas desses banheiros e latrinas existentes nos quintais.

194 Idem, p. 141.

195 A largura dos sobrados variava, a testada dos seus lotes podendo ser tão reduzidos quanto às das casas térreas ou alcançar nove a dez metros, eventualmente mais.

196 ROLNIK (1985).

76

A estratificação social do sobrado era vertical, isto é, a segregação espacial, exceto nas

longas horas de desempenho do trabalho, isolava os escravos nos cômodos do térreo, nas lojas

ou nos porões que, no caso de Salvador, devido ao relevo, eram muito comuns. Nos

pavimentos superiores se localizavam os diversos cômodos para uso da família.

Nesses sobrados, o cômodo da frente (ou loja), no pavimento térreo, era utilizado para

comércio, depósito ou alojamento de escravos - e eventualmente para cocheira e estábulos 197 ,

não sendo utilizado pela família. 198 Os demais, tinham funções variadas. A cozinha,

normalmente localizada em um puxado, como na casa térrea, comunicava-se com o quintal,

seja no mesmo nível deste ou acima, seu acesso sendo por uma escada exterior. No primeiro

andar, estavam localizados: o salão da frente, cômodo de maior representação social, e as

alcovas, todos com portas voltadas para os cômodos adjacentes e variando em dimensão e

número. A varanda do fundo poderia ser repetida nesse pavimento, e a sua utilização era

diversificada da mesma forma que a das casas térreas.

Concluindo, o que caracterizava essas moradias eram as funções superpostas de seus

cômodos: os da frente abrigavam diversas funções, a varanda era um lugar onde diferentes

atividades aconteciam - as crianças não tinham uma área especial para brincar. A disposição

espacial e sua múltipla funcionalidade permitiam a reunião das pessoas na vida diária

enquanto os quartos intercomunicantes promoviam encontros casuais entre as pessoas dentro

do espaço privado da casa, caracterizando uma “intimidade social” que não propiciava

espaços para a vida privada individual, à exceção - talvez - das alcovas.

3.1.6 Intimidade, privacidade e sociabilidade

Como corretamente afirma Algranti, na sociedade colonial brasileira o domicílio se

sobrepõe à família. Tantas foram as formas que a família colonial assumiu e tão múltiplas e

diferenciadas foram as uniões que características regionais devem ser avaliadas

cuidadosamente.

Se o casamento foi importante para o projeto colonizador do Estado e da Igreja, ele

foi, em Salvador, uma instituição de elite até mais ou menos a metade do século XIX,

resultando em grupos familiares (os mais) variados, segundo a classificação feita por

Nascimento 199 - a partir do Censo de 1855 - a qual será motivo de análise adiante.

197 HOLTHE (2002) p. 133,134,135.

198 Existem variações. Mattoso se refere à descrição clássica da casa do grande negociante: no térreo o armazém, depósito de mercadorias; no primeiro andar os aposentos da família; no segundo, abrigavam-se os caixeiros, no terceiro a escravatura, no quarto e quinto novamente as mercadorias. A autora também observa a pouca informação sobre o número de cômodos e sua distinção específica nos inventários post mortem do século XIX e a ausência de plantas que sejam contemporâneas das casas. MATTOSO (1978) p.175. Para outras variações consultar HOLTHE (2002).

199 NASCIMENTO (1985).

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Tomando como ponto de partida a organização da casa, os diferentes segmentos sociais aí domiciliados, a variedade de atividades aí sediadas e uma disposição espacial que promovia encontros constantes, indaga-se se interações sociais mais intensas - com características de intimidade, inclusive dos corpos e sentimentos - não se desenvolveu no espaço privado em Salvador, paralelamente àquela sociabilidade convencional desenvolvida na rua. Se, para Algranti, a sociabilidade no Brasil colonial ocorreu predominantemente fora de casa, onde os indivíduos se identificavam socialmente pelas suas vestes e pelos ofícios, poderíamos arriscar que, em Salvador, uma outra forma de sociabilidade acontecia dentro da casa, aquela que é característica das sociedades pré-modernas, tecnologicamente pouco desenvolvidas. Petonnet, recorrendo à Leroy Gourhan, diz que os indivíduos nas sociedades pré- modernas, na falta de equipamentos especializados, utilizavam o corpo e as mãos em um conjunto de atividades enquanto comungavam as mesmas experiências corporais na vida quotidiana. Como o trabalho braçal ou artesanal leva a uma fadiga física, muscular, as funções corporais vão determinar relações sociais fisicamente mais próximas e o pudor - com significado social definido - é mais relaxado, comportando experiências e valores que contribuem para uma sociabilidade mais “íntima”. 200 É possível que essa interpretação seja pertinente na interação dos grupos sociais em convívio nas moradias baianas. 201 Augel, tratando das opiniões dos viajantes estrangeiros sobre os diferentes hábitos domésticos e em público nota que havia “em casa, uma relativa promiscuidade, tanto entre sexos como entre as classes sociais.” 202 Com seu traço fortemente patriarcal, os “bons” hábitos da convivência privada também estavam ausentes, sejam regras civilizadas às refeições ou a negligência quanto ao vestuário caseiro e aos cuidados higiênicos, inclusive por parte das mulheres. 203 Para Muricy, essa rusticidade dos costumes também pode ser explicada pelo tipo de dominação dos potentados rurais, fazendo com que no interior das residências ocorresse uma simplicidade niveladora, ao mesmo tempo em que se estabelecia não o espaço privado do

200 PETONNET (1974). O argumento de Gourhan é que existe uma correlação profunda entre os costumes ligados ao corpo e

o desenvolvimento tecnológico, defendendo que na evolução histórico cultural da humanidade, uma mudança lenta se operou

no homem por intermédio de seu corpo, introduzindo novos costumes, seja do corpo em relação à matéria ou em relação ao corpo do outro. Esse desenvolvimento subtraiu os antigos costumes, que passam a ser rejeitados ou esquecidos, entre os quais

a inclusão na vida social das funções corporais (como dormir, lavar-se, cuspir) e a expressão menos contida da afetividade, da

vida emocional, que também era social.

201 Mesmo considerando a especificidade de uma sociedade escravista, ou talvez, devido a ela. A miscigenação que resultou nos variados tipos brasileiros (mulato, pardo, cafuzo etc) pode inclusive ter aí uma de suas explicações. Outros costumes instituídos no Brasil colonial como o banho no quarto, ajudado por escravo ou escrava e a instituição da ama de leite também podem ser citados. VAINFAS (1997) estudando as relações pluriétnicas da colonização lusitana no Brasil, embora atentando para a misoginía e o racismo que as caracterizavam (p.241) chama a atenção de que, até o século XVIII, se falava com mais franqueza sobre aspectos da vida institiva e os impulsos eram expressos mais livremente, através de palavras e atos (p.269).

202 AUGEL (1980) p.180.

203 DEL PRIORE (1993).

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núcleo familiar mas um espaço familiar que era também o espaço dos afilhados, da parentela espiritual e política. 204 Caracterizando a casa colonial não como o espaço da intimidade isolada da família, mas como o espaço da dispersão, da parentela, dos agregados e também dos escravos (cuja presença no espaço doméstico é assídua e numerosa) a autora argumenta que, ao lado dos primeiros - pela necessidade do reconhecimento de sua humanidade para efeitos de uma tática de dominação precisa - “os escravos também foram elementos de dispersão do sentimento de intimidade da família, pela negação de sua humanidade”. 205 A interpretação de Muricy, contudo, não invalida a hipótese da existência de uma intimidade dos corpos e sentimentos nas interações entre os diversos grupos sociais, pois a dispersão aludida poderia estar inviabilizando as práticas de intimidade familiar, enquanto propiciando contatos freqüentes entre os membros dos diferentes grupos. 206 Por outro lado, a disposição em fileira das fachadas das edificações - configurando ruas de formas e dimensões variadas e caracterizando uma vizinhança que misturava sobrados, ricos ou mais modestos, com casas térreas, grandes ou pequenas -, mostra que a localização das moradias não era importante na definição do status e que as pessoas de diferentes classes sociais compartilhavam o espaço público das ruas e aí se socializavam (Fig.4). Como bem lembra Rolnik - em uma observação que, dependendo das circunstâncias, pode ser contestada - seu encontro no espaço público não parecia perigoso ou ameaçador: a distância moral neutralizava a proximidade física; o rigor dos sinais, a hierarquia e as formas diferentes do vestuário regulava a familiaridade da vida coletiva. 207

regulava a familiaridade da vida coletiva. 2 0 7 Fig. 4 - A utilização da rua

Fig. 4 - A utilização da rua promovia encontros de pessoas de diferentes classes sociais e etnias. Desenho: Anete Araujo. Fonte: textos e desenhos de autores diversos.

204 MURICI (1988) p.59.

205 Idem p.109.

206 Esses contatos entre diferentes podiam resultar em alianças ou conflitos. Algranti observa, por exemplo, que o vai e vem dos escravos responsáveis pelo abastecimento de água “propiciando encontros entre os cativos e os inevitáveis mexericos sobre o que se passava nos domicílios” era mais um fator que contribuía para devassar o cotidiano dos indivíduos. ALGRANTI (1997, p.103). E Vainfas - que trabalhou principalmente com os documentos das visitações diocesanas e inquisitoriais - mostra como esses mexericos “entre a população colonial, livre ou escrava, branca ou mestiça, rica ou desvalida, por medo do Poder ou dele cúmplice” se transformaram em denúncias, “favorecidas pela escassez de privacidade que caracterizava a vida íntima de cada um”. VAINFAS (1993) p.228.

207 ROLNIK (1985).

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Uma contestação desta imagem pacífica do espaço público, por exemplo, pode ser representada pelos acontecimentos que anteciparam a insurreição dos malês, em meados do século XIX, em Salvador. Grupo religioso de negros nagôs islamizados, os malês eram

letrados, liam o Alcorão e deixaram registros históricos, inclusive dos inquéritos policiais que apuraram a revolta. Embora representassem numericamente um pequeno contingente da população escravizada no Brasil, revelaram-se coesos e capazes de se sublevar, num exemplo

de maior importância da capacidade de rebelião escrava no período imperial. 208

Espacialmente, as ruas estreitas definidas pelas edificações repletas de aberturas promoviam a comunicação do espaço interior com o espaço exterior, tornando mais fácil a comunicação entre as pessoas. Quando elas não estavam “dentro” da casa ou nos quintais, só podiam estar “fora” (isto é, na rua) muito diferente daqueles que habitam uma casa isolada, com áreas frontais e laterais disponíveis. Uma vez que o espaço urbano abrigava também diferentes atividades, as ruas eram freqüentemente usadas, sendo portanto um lugar de sociabilidade. Como comentou Marins, discordando da opinião de Gilberto Freyre, houve um certo exagero afirmar que os sobrados e as ruas eram inimigos, na generalidade das cidades brasileiras. Dos sobrados e das casas térreas das cidades, o que se deve observar de mais vibrante - para Marins - é o intenso entra e sai nas portas, uma diluição contínua dos espaços - até por necessidade de sobrevivência - no cotidiano, dos muitos pobres que habitavam as cidades brasileiras. O isolamento dos sobrados e as ilusões de reclusão e discrição foram representações vivenciadas pelas elites. 209

3.2 O Espaço Doméstico Polivalente dos Séculos XVII e XVIII

No século XVII, a casa urbana em Salvador, além de ocupar os limites do lote, que era

o arranjo comum dos tempos coloniais, tinha duas características: uma é a disposição

seqüencial dos cômodos; a outra, notadamente no caso dos solares e das casas maiores, era a ausência de corredores como espaço de circulação conduzindo aos cômodos, exceto quando resultante da forma alongada do lote. A ausência de corredores e a existência de muitas portas em cada cômodo, permitindo o tráfego entre eles, são crucialmente importantes como evidência do milieu social que lhes cabia servir de suporte físico. De fato, mesmo nas casas mais ricas, não havia preocupação de contenção e isolamento de compartimentos individuais onde preservar o “eu” dos demais. Este fato traz à tona duas questões já apontadas: uma

relacionada com uma sociabilidade mais fácil e fluida dentro da casa, a outra relacionada com o corpo e as práticas sociais ligadas ao mesmo.

208 REIS (1988).

209 MARINS (1998).

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Este é, naturalmente, um entendimento bastante diferente do atual, em relação às características que o espaço privado deve ter. Nomeado por Kerr “thoroughfare rooms” (cômodos-rua) os quais “tornam impossível a domesticidade e o recolhimento” este era,

contudo, o arranjo espacial das casas baianas mais ricas do século XVII até o início do século XIX. 210 Vejamos dois exemplos do século XVII, na Freguesia da Sé, ambos habitados por uma só família, cujos membros provavelmente compartilhavam seus espaços com os agregados e os escravos. 211

O primeiro exemplo é o Solar Ferrão, moradia rica e verticalizada, apresentando dois

pavimentos e entresolho voltados para a rua, e cinco pavimentos na fachada posterior, voltados para o quintal. No entanto ela apresenta as mesmas características dos solares e residências abastadas da mesma época, isto é, a inexistência de corredores, e cômodos que se comunicam através de várias portas. Esse agenciamento em cômodos intercomunicantes é uma herança direta dos solares de nobres proprietários de terras em Portugal. Após abandonarem a adoção das casas-torre, preponderantes no período medieval, os portugueses passaram a construir suas residências - renascentistas ou barrocas -, nas formas mais variadas em planta (quadrada, em L, em U, em H) internamente, porém, seus cômodos eram sempre contíguos e ligados por portas que os conectavam diretamente, solução aliás comum nas residências européias. Exemplos de edificações portuguesas como a Casa de Mateus, em Vila Real, a Casa do Benfeito, em

Barcelos e o Palácio do Freixo, em Ponte de Lima - os dois últimos ilustrados abaixo (Fig.5) - podem comprovar esta afirmação. 212

A maioria desses solares portugueses apresenta simetria nas fachadas - como também

o Solar Ferrão (Figs. 6 e 7) - e comumente as fachadas são muito alongadas. Este aspecto foi também incorporado ao monumento baiano, após a sua ampliação no século XVIII.

210 Esses “thoroughfare rooms” eram considerados por Kerr como “a mais inaceitável forma de arranjo espacial” e foi o

costurando toda a disposição em seu conjunto, com um princípio ao

mesmo tempo simples e perfeitamente eficaz”. KERR (1864) p. 169.

211 Esses exemplos, como os demais utilizados neste capítulo (exceto quando indicado) foram retirados do Inventário de Proteção do Acervo Cultural IPAC-SIC. Salvador: Secretaria da Indústria e Comércio. Coordenação e Organização:

Azevedo, Paulo Ormindo e Araujo, Viviane.

212 AZEVEDO (1969). Alguns dos solares portugueses analisados por Azevedo possuem pátios internos, solução não assimilada na Bahia. A ilustração da Casa do Benfeito está na página 83 e a do Palácio do Freixo na página 87. A Casa do Mateus possui um enorme pátio e uma capela independente, embora adjacente ao solar.

corredor que, para ele, solucionou o problema

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81 Fig. 5 - Casa do Benfeito e Palácio do Freixo , solares portugueses onde os

Fig. 5 -

Casa do Benfeito e Palácio do Freixo , solares portugueses onde os corredores estão ausentes e os cômodos se comunicam diretamente através das inúmeras portas. Fonte: Azevedo (1969). Desenho: Anete Araujo.

portas. Fonte: Azevedo (1969). Desenho: Anete Araujo. Fig. 6 - Plantas do Solar Ferrão, mostrando os

Fig. 6 - Plantas do Solar Ferrão, mostrando os cômodos intercomunicantes e a simetria frontal. Fonte: Salvador: IPAC/SIC (1975 ). Desenho: Anete Araujo.

No Solar Ferrão, os salões principais do pavimento superior foram posteriormnete decorados e todos os cômodos apresentam grandes dimensões, inclusive o saguão de entrada, espaço característico das casas mais ricas. A entrada principal constitui um dos famosos exemplos de portada trabalhada em pedra na cidade. Nos pavimentos inferiores, se localizavam a cozinha, uma sala que poderia ser designada como copa, a despensa e as acomodações para os escravos. Embora o solar apresente alguns cômodos com certa especificidade funcional, o esquema total não oferece

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espaços para a reclusão privada, isto é, como muitos sobrados do seu tempo, os cômodos comunicavam-se uns com os outros, não existindo áreas independentes, sejam corredores ou passagens - para direcionar a circulação. 213 Entre os cômodos com função específica, seja em solares ou em sobrados e casas maiores, é comum aparecer uma capela para o estímulo das práticas religiosas, certamente uma estratégia para garantir a permanência da mulher em casa.

estratégia para garantir a permanência da mulher em casa. Fig. 7 - Fachadas frontal e lateral

Fig. 7 - Fachadas frontal e lateral do Solar Ferrão. Fonte: Boletim O Monumento. nº 3. Salvador. IPAC/SEC (1984). Desenho: Anete Araujo.

O Solar Ferrão foi ampliado em meados do século XVIII 214 e restaurado na década de 1980 quando foram descobertas, através de pesquisa arqueológica, tecnicidades insuspeitadas, como um monta-carga para levar alimentos da cozinha no subsolo para os pavimentos superiores e tubulações feitas de telhas espanholas, dispostas de cima para baixo, do sótão para o porão, formando um sistema de esgotos, que - passando pelos dormitórios - se dirigiam ao porão para serem recolhidos nos “tigres”. 215 Os dormitórios também eram multifuncionais, utilizados como local para os banhos, tomados em tinas ou grandes bacias, com o auxílio de outras pessoas, principalmente escravos, até a chegada da água encanada, dois séculos mais tarde. 216 Como os demais solares em Salvador, a existência de várias janelas nas quatro fachadas se distancia da solução das alcovas escuras onde, supõe-se, as mulheres ficavam isoladas nos sobrados e casas menores, colocando a questão de se este costume mudava de acordo com a classe social ou se a ausência de janelas devia-se às restrições impostas pelo lote. Esta hipótese sendo comprovada, apenas mostra que, nas casas ricas isoladas seus construtores souberam como tirar partido da localização da casa abrindo janelas para otimizar a iluminação e a ventilação, tão necessárias no enfrentamento do clima quente da cidade.

213 Passagens são pequenos vãos a partir dos quais se distribuem alguns cômodos. Nos projetos, do século XIX, encontrados nos arquivos, eles são assim denominados.

214 Nessa ampliação, a fachada sul, que também era vazada com janelas, foi bloqueada por paredes divisórias com portas de acesso para os novos cômodos.

215 As descobertas foram registradas durante a prospecção executada pelos técnicos do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. IPAC-SEC, no início da década em questão: depoimento do arquiteto Carlos Alberto Vieira, responsável pelos trabalhos de restauro do Solar Ferrão, à autora.

216 Ainda antes do uso de instalações hidráulicas foram utilizados banheiros em abóbadas de berço, onde os tanques eram enchidos com água transportada dentro de barris, em burros conduzidos por escravos. Ver HOLTHE (2002) nota 203, p.192.

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Uma outra hipótese é de que a maioria dessas mansões baianas pertencendo aos proprietários dos engenhos de cana de açúcar, no Recôncavo, transplantavam para a cidade o modelo avarandado das suas casas grandes, o qual possuía janelas ao redor de toda a casa. Eles podiam assim transferir e simbolizar, na cidade, aquilo que Gilberto Freyre apontou, isto é, seu papel de “cabeça da família” na sociedade patriarcal de então. Entretanto, como alguns proprietários não eram fazendeiros e sim ricos comerciantes, essa questão deve ser investigada mais cuidadosamente. De qualquer forma, a concepção e as características das moradias, ao que parece, são ainda vernaculares, mantendo a ausência da figura de um autor, e conseqüentemente, de desenhos ou outros documentos. Este fato dificulta sua análise, tendo em vista que os remanescentes dessas moradias, de uma maneira geral, já sofreram intervenções posteriores. O outro exemplo (Fig. 8) mostra em sua fachada uma grande semelhança com a casa vizinha, sugerindo inclusive que seria apenas uma unidade habitacional. Contudo, características das pilastras na fachada e algumas diferenças no tratamento interno depõem esta hipótese. Repetições de elementos nas fachadas, observados em outros exemplos na cidade, sugerem a existência de regulamentos para as edificações, no sentido de conferir-lhes uma uniformidade exterior. Esses regulamentos eram comuns no urbanismo europeu no começo do século XVII, podendo ter exercido influência na sede da colônia portuguesa. 217

influência na sede da colônia portuguesa. 2 1 7 Fig. 8 - Sobrado de três pavimentos

Fig. 8 - Sobrado de três pavimentos no distrito da Sé, datado do século XVII, cuja característica espacial são os cômodos intercomunicantes e a ausência de corredores. Fonte: Salvador. IPAC/SIC (1975). Desenho: Anete Araújo

Quanto ao uso do espaço doméstico, o pavimento térreo, incluindo o saguão, e o primeiro pavimento eram provavelmente utilizados na vida quotidiana. O segundo andar -

217 SALVADOR. IPAC/SIC (1975)

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principalmente o grande salão - era reservado para eventos especiais e festas razão para exibir

o tratamento nobre dos balcões nas fachadas e a decoração interior. O uso dos cômodos no

térreo provavelmente variava, segundo descrição anterior, podendo ser oficinas, lojas, ou área de dormitório para escravos. Esses cômodos eram, portanto, poli- funcionais, o mobiliário e objetos sendo os sinais de sua função a cada período de tempo. O mobiliário era precário, resumindo-se ao indispensável: mesas, poucas cadeiras, bancos e baús. Embora os apetrechos de cozinha fossem variados - sua presença facilitada pela própria produção doméstica da cerâmica - os utensílios de mesa também eram precários, sendo raro o uso de talheres, tornando comum a prática de comer com as mãos 218 , o que reforça aquele aspecto de familiaridade com o corpo, sugerido por Gourhan. Desse modo, existem poucas análises espaciais de residências do século XVII nos estudos da arquitetura no Bahia. 219 A maioria deles concentra-se nas influências da arquitetura doméstica européia, representada por construções medievais e pelos palácios do renascimento ou vilas palladianas, através de descrições formais ou espaciais sem vínculos com os estilos de vida dos seus habitantes. Parece, contudo, que não é falso concluir, destes e de outros exemplos ainda encontrados em Salvador, 220 que a matriz de cômodos que se comunicavam era apropriado para uma sociedade que não guardava restrições em relação à visão e ao contato corporal e na qual a vida gregária era habitual. Por outro lado, se no interior das casas, os cômodos eram geralmente pouco definidos

e as funções se sobrepunham, o mobiliário e os utensílios se restringiam ao indispensável (para o abrigo, o repouso, a alimentação e o trabalho) não sendo os mesmos, portanto, que distinguiam ricos e pobres, mas a fartura na mesa, o número de escravos, as jóias, o vestuário, as propriedades (inclusive de animais) e o status associado a cargos públicos). 221 No século XVIII, embora a organização espacial das casas térreas e dos sobrados seja um pouco mais complexa que a do século anterior, ainda guarda as mesmas características deste. Portanto, procurar variações em uma periodização dividida em séculos pode não ser a mais adequada para seu estudo. De fato, na bibliografia consultada, as transformações sofridas pelas residências setecentistas parecem estar mais vinculadas à dimensão das janelas (maiores) e à sua forma (ligeiramente abauladas na verga superior) e nos acabamentos das

218 ALGRANTI (1997)

219 Em Salvador a tese de doutoramento da Profª Odete Dourado é um dos poucos exemplos existentes: Solar Bandeira. Universitá degli Studi di Roma la Sapienza. Itália, novembro / 1987.

220 Podemos citar, entre outros, a casa natal de Gregório de Mattos, na Praça Anchieta, o Solar Bandeira, no Barbalho, a residência do Barão do Rio Real, em Nazaré e o Solar Berquó, na Rua Visconde de Itaparica, o qual apresenta um pequeno pátio interno que ilumina os cômodos adjacentes.

221 ALGRANTI (1997) p. 153.

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cornijas exteriores. Pode-se confirmar pelas plantas, conforme ilustração abaixo (Fig.9) a manutenção da matriz de cômodos comunicantes com várias portas e a ausência, na maior parte das casas, de corredores e passagens - o que ainda vai ser observado até a virada do século XVIII para o XIX.

vai ser observado até a virada do século XVIII para o XIX. Fig. 9 - Situação,

Fig. 9 - Situação, organização espacial interna e perspectiva do sobrado na Ladeira do Gravatá. Século

XVIII.

Fonte: Salvador: IPAC/SIC (1975). Desenho: Anete Araujo.

O saguão ou vestíbulo de entrada, enquanto espaço de transição entre o espaço público

e o privado, localizado entre a porta de entrada principal e a porta interior, passa a ser mais utilizado. Posteriormente, com dimensões variadas, essa peça de transição entre o público e o privado irá se tornar uma característica sempre presente na casa brasileira e baiana. Os exemplos mais populares, como observado anteriormente, prescindem do saguão e apresentam a disposição espacial anterior, com uma sala (loja) na frente unida por corredor à dos fundos, apresentando um ou dois quartos (alcovas) intercomunicantes no meio. Em virtude da sua localização na segunda cumeada, área de ocupação menos densa que o centro da cidade, esta casa, que possivelmente pertenceu a uma família numerosa, 222 dispõe de um acesso lateral conduzindo a um porão com três cômodos, permitidos pela existência da encosta. Esse acesso poderia conduzir a uma cocheira e/ou estrebaria para abrigar animais utilizados como meio de transporte, construções presentes em algumas casas urbanas de Salvador. 223

O ritmo simétrico observável na fachada não corresponde ao arranjo espacial interno

do edifício, exceto no saguão, onde duas portas conduzem a dois cômodos, sendo um de cada

222 Datada de início do século XVIII, a casa passou a pertencer ao Cônego José Lino da Silva, em 1788. IPAC-SIC (p.234) 223 HOLTHE (2002) p.134,135,159.

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lado. Existem outros exemplos em Salvador, onde a simetria axial foi aplicada. A simetria, tanto no interior quanto na fachada, era valorizada nas residências européias como um símbolo de status e, certamente, seu uso emprestava-lhe um caráter erudito diferenciando-o da expressão vernacular. Provavelmente sua aplicação no Brasil foi resultado da influência européia. 224 Internamente, neste caso, a simetria axial deu lugar a dois cômodos separados os quais não eram necessariamente atravessados pelas pessoas. O da esquerda, com portas voltadas para a rua podia abrigar uso comercial ou oficina. A outra sala, em sobrados de solução semelhante, era utilizada como gabinete pelo chefe da família para tratar de negócios, uma atividade que - nas casas térreas - continuava sendo exercida na varanda dos fundos. É possível que, aí, o chefe da casa também recebesse algumas visitas, excluindo-as do convívio das mulheres - costume comum entre as famílias ricas e remediadas desde os primeiros séculos da colonização até o século XIX. 225 Esta mudança - como também o acesso através de um pequeno corredor conduzindo à escada e aos dois cômodos do fundo - talvez permita constatar que o uso multifuncional dos cômodos já estivesse sendo substituído pela segregação de funções, ao menos nas casas mais ricas. Da mesma maneira que no Solar Ferrão, a casa não dispõe de alcovas, apresentando janelas nas quatro fachadas em ambos os pavimentos. No primeiro andar, os usos e atividades se desenvolviam do mesmo modo que no século anterior, pois aí estavam localizados tanto os quartos intercomunicantes como as salas de maior dotação espacial que abrigavam “alegres reuniões, onde moradores e convivas dançavam, jogavam cartas e conversavam entre comes e bebes”. 226 Um pequeno hall, no alto da escada, se não for resultado de um acréscimo posterior, já filtra a entrada de um quarto, arranjo ainda inexistente no século anterior. Assume-se, freqüentemente, que as casas urbanas e os sobrados brasileiros, sempre mantidos pelo trabalho escravo, apresentavam mais ou menos uma mesma distribuição. 227 Os grandes sobrados e os solares eram os únicos exemplos a apresentar variações, além das edificações - chamadas de oitão, em Salvador, - apontados por Nascimento. Os esquemas comumente utilizados, contudo, não são tipicamente baianos ou brasileiros. Suas origens estão na arquitetura medieval e renascentista de Portugal. As condições locais selecionaram os

224 Talvez do gosto classicista francês no século XVII, ou mesmo a regularidade axial dos séculos anteriores, da renascença italiana ou, principalmente, das vilas palladianas.

225 MATTOSO (1988)

226 ALGRANTI (1997) p.117

227 VAUTHIER (1975), REIS FILHO (1970), NASCIMENTO (1986).

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modelos importados e os adaptaram, acrescentando as largas varandas, aumentando a altura dos cômodos e construindo paredes mais baixas (meia-parede) que, embora ajudassem na ventilação, impediam o isolamento e um recolhimento maior. Sons e ruídos, movimentos e odores eram signos de comportamentos e ações facilmente identificáveis dentro do espaço privado doméstico 228 , não trazendo, em relação às experiências corporais, os constrangimentos que outras convenções sociais poderiam impor. Talvez cabe a sugestão de que essas ações domésticas, estando ligadas a costumes e práticas que ainda estavam em construção (pois seus autores, localizados em uma experiência ainda não vivenciada descobriam e se descobriam enquanto interagiam no cotidiano), fogem à possibilidade de uma interpretação conclusiva. O espaço doméstico - transplantado e adaptado - foi construído sem teorizações, portanto ainda carente de uma função reguladora explícita das relações sociais. 229 O que se pode inferir do agenciamento espacial é que ele se ajustava a um grupo familiar que não se modelava de modo a favorecer o aparecimento de comportamentos particularizados. Dessa indiferenciação dos interesses individuais dependia a estabilidade da família antiga. A vida doméstica fazia parte de uma cultura marcada pela heterogeneidade resultante dos três grupos humanos que concorreram para a chamada “colonização”, onde conflitos e acomodações tiveram lugar, mesmo considerando a hegemonia da cultura portuguesa (fosse na esfera social, religiosa, política ou doméstica) transportada para o Brasil. Desse modo, se o peso do regime patriarcal definiu as relações interpessoais e configurou os papéis dos indivíduos dentro do espaço doméstico (estabelecendo hierarquias e desigualdades racial e de gênero), as práticas cotidianas - facilitadas pela permissividade cultural do colonizador -, em seu conjunto, aproximaram as pessoas. Além disso a cultura material e imaterial produzida foram contaminadas pela influência dos segmentos subalternos. Assim é que, no exame tanto dos pequenos ritos ligados ao trabalho, aos costumes alimentares e medicinais, à vida sexual e à sociabilidade doméstica, quanto nos grandes ritos - como nascimento, batismo, casamento e morte 230 - que seriam enriquecidos posteriormente - observa-se que vão permanecer mais ou menos modificados, alguns elementos dessa cultura

228 VAINFAS (1993) p. 226, 227. O autor argumenta que é preciso divorciar, no caso da América portuguesa, a idéia de privacidade da id éia de domesticidade, e pontua: “As casas coloniais, fossem grandes ou pequenas, estavam abertas aos olhares e ouvidos alheios, e os assuntos particulares eram, ou podiam ser, com freqüência, assuntos de conhecimento geral”.

229 Neste sentido é que não estamos de acordo com a eficácia do método da Sintaxe Espacial, no caso da casa colonial, pois que a partir das análises dos espaços e fronteiras consideram-nas como rigidamente programadas. (ver AMORIM (2000)

p.14.

230 Para os pequenos ritos ver DEL PRIORE (1997). Sobre ritos ligados à morte ver REIS (1997) e REIS (1991).

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plural, como também práticas religiosas e de divertimento, música e danças, costumes ligados ao corpo e à sensualidade. A matriz de cômodos intercomunicantes, observada nas residências, é apropriada para um tipo de sociedade que se alimenta dessa sensualidade, que reconhece - no corpo - o indivíduo, e na qual o gregarismo é habitual. Este é um fator importante na explicação do “atraso” verificado no Brasil, em relação à Europa, onde tal disposição espacial, que privilegiava a aproximação dos corpos, é desafiada no século XVII e finalmente substituída, no século XIX, pela “planta corredor”. Na opinião de Evans, esta solução que segregava pessoas e evitava contatos certamente “era adequada para uma sociedade que considerava a sensualidade detestável, que via o corpo como um receptáculo para a mente e o espírito e na qual a privacidade era habitual.” 231 Como a intenção da presente análise é mostrar que, além dos aspectos mencionados, a organização espacial do espaço privado da casa estava direta e fortemente relacionada com o modo de vida que predominantemente tinha lugar aí, pode-se concluir que, se os arranjos espaciais interiores sofreram poucas modificações, eles apenas refletem o fato de que as práticas sociais de seus usuários também não mudaram. Para eles, todos os gestos e comportamentos que serão considerados nos códigos burgueses como pertencendo à esfera do íntimo, do secreto, do privado eram experienciados e manipulados com outros signos, os quais guiavam a ordem familiar e social: uma ordem onde apenas certas formalidades indicavam o lugar de cada um dentro da hierarquia nos costumes da casa. Foi necessário que as grandes mudanças causadas pela Revolução Industrial, na Inglaterra e a Revolução Francesa repercutissem no Brasil, no século XIX, para que sinais de transformações começassem a aparecer. A duradoura escravatura no país, entretanto, fez com que essas mudanças sobreviessem muito lentamente. Por outro lado, melhoramentos técnicos no processo construtivo e equipamentos em geral também só seriam introduzidos no Brasil posteriormente. A presença do trabalho escravo tornou o desenvolvimento dos sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário desnecessários. Eles apareceriam em Salvador apenas no meado do século XIX, pois antes, como sugere Lucio Costa:

“A máquina brasileira de morar, ao tempo da Colônia e do Império, dependia dessa mistura de coisa, de bicho e de gente que era o escravo. Se os casarões remanescentes do tempo antigo parecem inabitáveis devido ao desconforto, é porque o negro está ausente. Era ele que fazia a casa funcionar: havia negro para tudo - desde negrinhos sempre à mão para recados, até negra velha, babá. O negro era

231 EVANS (1978) p.277.

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esgoto, era água corrente no quarto, quente e fria; era interruptor de mão e botão de campainha; o negro tapava a goteira e subia vidraça pesada;era lavador automático, abanava que nem ventilador.” 232

3.3 O Espaço Segregador do Século XIX: Primeira Metade

Embora a expansão física de Salvador na virada do século XVIII para o XIX já apresentasse ocupações rarefeitas em áreas mais distantes do centro, a ocupação da área adjacente ao centro continuava, como continuava a construção de novas e melhores moradias, substituindo parte das casas mais simples e precárias ainda existentes. Enquanto os bairros mais distanciados do centro eram especificamente residenciais, o centro e as áreas próximas experienciaram a proliferação de diversas atividades que, misturadas com os diferentes segmentos sociais vivendo ali, constituíram, durante o século XIX, um espaço urbano e social bastante heterogêneo. Seus habitantes eram artesãos livres, alforriados, escravos, servidores civis, burgueses e nobres que viviam lado a lado, em um emaranhado de ruas, pequenas praças, largos e becos, que se espalhavam seguindo o relevo natural do terreno. 233 A população mais pobre era composta de migrantes rurais procurando trabalho, ex-escravos e escravos de ganho, homens e mulheres. Reunidos em grupos nos seus ‘cantos’ os escravos de ganho, enquanto esperavam por fregueses, fabricavam produtos como esteiras, gaiolas, balaios, chapéus, que podiam ser comercializados. 234 Os ricos eram principalmente os membros das famílias tradicionais de Salvador: fazendeiros ou comerciantes abastados e altos dignatários do governo. No meio, estava a população dedicada a atividades mais especializadas, principalmente os imigrantes - a partir de 1808 -, e os chamados remediados, constituindo a classe média local: homens e mulheres, artesãos e pequenos comerciantes, adultos e jovens os quais continuavam suas atividades artesanais, na casa e no quintal, produzindo bens indispensáveis para a subsistência e para o suprimento da vida quotidiana de todos, uma produção que ia se especializando gradativamente. O comércio, nos moldes observados nos séculos anteriores, era a atividade que mais se desenvolvia, estabelecendo aquele segmento que Werneck denomina a pequena burguesia no

232 COSTA (1962).

233 Em 1855, a população de Salvador era de cerca de 56.000 habitantes, a maioria vivendo nas áreas centrais. Dados coletados em um Censo nominativo, naquele ano, mostram que enquanto havia pessoas de todos os segmentos sociais compartilhando um mesmo espaço social na cidade, a população de elite estava decrescendo enquanto as classes de baixa renda estavam crescendo. As epidemias - que eram mais facilmente espalhadas nas áreas mais densas - seriam, de acordo com Nascimento, a principal razão da fuga das pessoas ricas para outros locais. NASCIMENTO (1986)

234 COSTA (1989)

90

Brasil. 235 Ainda localizadas nos pavimentos térreos das residências, essas atividades

reforçavam o modelo da edificação de uso misto, fosse aquele modelo pertencente a uma só

família ou aquele que, desde a sua construção original, era ocupado por várias famílias.

O último, segundo Nascimento, apresentava as unidades domiciliares distribuídas

verticalmente, desde o pavimento térreo, onde as lojas estavam localizadas. Sabe-se que essas

lojas não eram usadas necessariamente para comercializar. Eram moradas para as pessoas

mais pobres, geralmente pretos ou mulatos que “mereciam” proteção por parte dos habitantes

dos sobrados. Mas, principalmente, as lojas eram para alugar para moradia ou comércio. Esses

sobrados usualmente apresentavam muitas portas de entrada sendo que a mais adornada

conduzia aos pavimentos superiores, numa seqüência de escadas e patamares, constituindo

uma variante tipológica das edificações habitacionais. 236

3.3.1 A introdução dos corredores

A arquitetura doméstica brasileira, de acordo com os historiadores, não sofreu grandes

mudanças na primeira metade do século XIX, desde que os meios de construção e os modos

de morar ainda dependiam do trabalho escravo. Reis Filho afirma que um novo tipo de

residência, a casa térrea com “porão alto”, apareceu como uma forma de transição entre os

antigos sobrados e as casas térreas. Sendo o tipo de moradia mais comum para o segmento

médio da população, a distribuição espacial dos cômodos seguia, mais ou menos, os mesmos

padrões dos séculos anteriores. A construção em si foi aperfeiçoada, mas a implantação no

lote era ainda tradicional.

Depois da integração do país no mercado internacional, em 1808, e da Independência,

em 1822, a possibilidade de importar equipamentos e a presença de mão de obra especializada

- representada pelos imigrantes europeus - contribuíram para a alteração da aparência das

edificações ao longo da costa brasileira. Os novos elementos estilísticos desenvolveram-se em

duas versões, a versão oficial neoclássica da Corte e a simplificada, feita pelos escravos,

expressando nos pequenos detalhes as ligações que os proprietários das casas tinham com o

poder central no Rio de Janeiro. Sua presença “espreitava nas fachadas através do uso de

platibandas que substituíram os antigos beirais, por canos e pelo uso de vidros coloridos nas

portas e janelas, de vasos cerâmicos e esculturas do Porto que enfeitavam as fachadas”. 237