Francisco Cândido Xavier

Parnaso de
Além-Túmulo
Ditado por

Espíritos diversos

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Índice
À guisa de prefácio .......................................................................... 4
Francisco Cândido Xavier ............................................................. 14
Palavras minhas ............................................................................. 15
De pé, os mortos!........................................................................... 21
1 Abel Gomes ............................................................................... 24
2 A. G............................................................................................ 25
3 Albérico Lobo............................................................................ 26
4 Alberto de Oliveira .................................................................... 27
5 Alfredo Nora.............................................................................. 30
6 Alphonsus de Guimarãens ......................................................... 32
7 Alma Eros.................................................................................. 35
8 Álvaro Teixeira de Macedo....................................................... 38
9 Amadeu (?) ................................................................................ 39
10 Amaral Ornellas ...................................................................... 40
11 Antero de Quental ................................................................... 43
12 Antônio Nobre ......................................................................... 56
13 Antônio Torres ........................................................................ 63
14 Artur Azevedo ......................................................................... 65
15 Augusto de Lima ..................................................................... 68
16 Augusto dos Anjos .................................................................. 74
17 Auta de Souza........................................................................ 106
18 B. Lopes ................................................................................. 118
19 Batista Cepelos...................................................................... 121
20 Belmiro Braga ....................................................................... 124
21 Bittencourt Sampaio .............................................................. 130
22 Cármen Cinira ....................................................................... 135
23 Casimiro Cunha ..................................................................... 147
24 Casimiro de Abreu ................................................................ 167
25 Castro Alves .......................................................................... 177
26 Cornélio Bastos ..................................................................... 185

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Cruz e Souza .......................................................................... 186
Edmundo Xavier de Barros ................................................... 206
Emílio de Menezes ................................................................ 208
Fagundes Varela .................................................................... 210
Guerra Junqueiro ................................................................... 214
Gustavo Teixeira ................................................................... 239
Hermes Fontes....................................................................... 240
Ignácio José de Alvarenga Peixoto ....................................... 244
Jesus Gonçalves..................................................................... 246
João de Deus.......................................................................... 247
José do Patrocínio.................................................................. 304
José Duro ............................................................................... 305
José Silvério Horta ................................................................ 307
Júlio Diniz ............................................................................. 309
Juvenal Galeno ...................................................................... 314
Leôncio Correia ..................................................................... 323
Lucindo Filho ........................................................................ 324
Luiz Guimarães Júnior .......................................................... 326
Luiz Murat ............................................................................. 328
Luiz Pistarini ......................................................................... 329
Marta ...................................................................................... 330
Múcio Teixeira ...................................................................... 342
Olavo Bilac............................................................................ 343
Pedro de Alcântara ................................................................ 350
Raimundo Correia ................................................................. 357
Raul de Leoni ........................................................................ 359
Rodrigues de Abreu............................................................... 364
Souza Caldas ......................................................................... 369
Um Desconhecido ................................................................. 377
Valado Rosas......................................................................... 386

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À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à

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revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias
e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto, nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria, senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo

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dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos
olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.

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O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções; ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.

Da luz do Criador nascemos. como a facilitarem de conjunto a identificação de cada um. Parnasianismo.Parnaso de Além-Túmulo 8 As de Napoleão 1º.. Aqui. . Do verde do lindo mar! É Casimiro. É ler Casimiro e reviver Primaveras. Do verde da Natureza. são incontestavelmente belas no fundo e na forma. Senão. a sobrevivência dos seus intérpretes. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer.. etc. Simbolismo. como retinem cristalinas e contrastantes as mais variadas formas literárias. Teresa de Jesus. Condoreirismo. não só concorrem poetas brasileiros e portugueses. Romantismo.Francisco Cândido Xavier . O pensamento sonhando E o coração a cantar. pelo contrário. mas objetivamente. é declamar Junqueiro e lembrar a Morte de Dom João. Múltiplas vidas vivemos. é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu. vejamos: Oh! que clarão dentro d’alma. Constantemente cismando. é recitar Castro Alves e sentir Espumas Flutuantes.. mas não características de tais entidades. para afirmar não mais subjetiva. aí se ostentam em louçanias de sons e de cores.

E isto o dizemos porque o médium Xavier. todos os mais. um quase adolescente. aí estão vivos.. os estrumes. E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda. cujo estilo não temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade personalíssima se impõe.Parnaso de Além-Túmulo 9 Para à mesma luz volver. feliz. esta produção. sequer.Francisco Cândido Xavier .. ardentes. nas preces da harmonia!. sem lastro. No firmamento em luz. ainda que premeditadamente. Duvidamos que o mais solerte plumitivo. recebe-a de jacto.. de grande cultura e treino poético. E todos. Descansa. o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar. É Castro Alves.. portanto. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando à luz das amplidões divinas. É Augusto dos Anjos. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. inconfundíveis na modulação de suas liras encantadas e decantadas. Esquece o verme. É Junqueiro. e mais – quando de alguns autores não conhece uma estrofe! ... Pairava na amplidão estranho resplendor. Era o festim do amor. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. agora vibrião das ruínas. as carnes.

é bem de ver-se que não teve. Órfão de mãe aos 5 anos. em linguagem eloqüente. Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. certo estamos. que faz do mestre-escola.Parnaso de Além-Túmulo 10 É extraordinário. nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. qual a Luz.Francisco Cândido Xavier . não pode ficar debaixo do alqueire. na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. *** Mas. que não podia ter o estímulo ambiente. será maravilhoso. muito além das quatro operações e da leitura corrida. nem um. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. o pai infenso a literatices e. verdade que. um galopim eleitoral e não vai. Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. mas é a verdade nua e crua. em particular. para não pretender colimar renomes literários. nascido ali assim em Pedro Leopoldo. também em tese. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. pequeno rincão do Estado de Minas. um quase adolescente. um acadêmico. em tese. que. em geral. Filho de pais pobres. pramido pelo ganha-pão. e aos confrades. de contrapeso. nem uma problemática hereditariedade. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família. . com borrifos de catecismo católico. um bacharel formado. ficará como baliza fulgurante. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto. esta obra mediúnica. ao demais. a Pátria e a Humanidade? Nada disso.

o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço. também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever. Nós mesmo vimos. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. mas da ferramenta por eles utilizada. nas quais estereotipa a sua figura moral. o médium. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários. como definir e transfixar a captação. nada nos disse o médium. certa vez.Parnaso de Além-Túmulo 11 Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que. no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio. a realização essencial do fenômeno? . torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. e não querendo. figuras de retórica. Não há ideação prévia. É um fato. em São Paulo. Agora. doutrinas. explosivo. Há vocábulos de étimo que desconhece. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. há fatos e recursos de hermenêutica. tanto quanto do seu manuseio. teorias científicas. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. fixação de imagens. por outro lado. cujo flagrante não presenciamos – ele. não há encadeamento de raciocínios. É tudo inesperado. mas. que ignora. endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. porém. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar.Francisco Cândido Xavier .

que mal podemos imaginar e que. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. aos cépticos. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis. na radiofonia. mais sutis e delicados do que esses que. para melhor explicar. ou taliscas. Catões e Zoilos de compasso e metro. encarregado de apresentar esta obra. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. amiúde. fica-lhes a liberdade de conjeturar. em suma. por mais insólito que seja. devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão. precipuamente. por vindos de tão alto. ocorrem na telepatia. *** Como nota final aos argos da crítica. racional e logicamente devem existir. de maneira impressionante. Aos outros.Francisco Cândido Xavier . para só . que nada explicam. enfim.. Tal como no-lo deram. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. no entanto. que participa do meio físico contingente. e isso ele o faz a seguir. sem contudo negar. não só por nos falecer autoridade e competência. porque o fato aí está na plenitude de sua realidade.. antes complicam. ou a fatores outros. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados. vale sempre por mil e uma teorias. em tudo. e um fato.Parnaso de Além-Túmulo 12 Só o médium poderia fazê-lo. diremos que. de um trabalho de identificação autoral. faisqueiros de nugas e nicas. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. Trata-se. na volúpia de escandir quand même. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica.

e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. nascido em 28 de maio de 1874. Foi jornalista.Parnaso de Além-Túmulo 13 apreçarem a obra que ora lhes apresentamos. estão estampadas na edição de janeiro de 1955. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. M. conseguiu. inclusive a Presidência nos anos 1915. Foi guarda-livros. RJ. Quintão1 1 MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO. na Estação de Quirino. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século. invejável cultura humanística.Francisco Cândido Xavier .) . estudioso incansável. para serem public adas após a sua desencarnação. Como membro do Grupo Ismael. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios. como autodidata. no Rio de Janeiro. muito apreciados. foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. (Nota do Editor. Chefe de família numerosíssima. como jovem sem recursos financeiros. depois de lutar com imensas dificuldades. Marquês de Valença. Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria. 1918. nas posições mais modestas do comércio. dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. integrando-lhe o quadro social por 44 anos. 1919 e 1929. este último editado pela FEB. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador. Em 1939. Ingressou na FEB em 1903.

Francisco Cândido Xavier . goza ele ainda de sincera admiração em outros países.” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século.. “Há Dois Mil Anos. respectivamente. Respeitado e estimado em todo o Brasil. desencarnados em 1960 e 1915. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus. em janeiro de 1959. primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. onde é popularíssimo. Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. Criatura simples.. afável e operosa. Castelhano. Japonês. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. Aposentou-se como funcionário público federal. Viajou para o exterior algumas vezes. em 2 de abril de 1910. Inglês e Francês. diversos deles publicados em Esperanto. sempre no exercício do seu mediunato. o “Parnaso de Além-Túmulo”. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. publicou.Parnaso de Além-Túmulo 14 Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. MG. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica. MG. onde residiu até dezembro de 1958. . em julho de 1932. Transferiu-se para Uberaba.

órfão de mãe aos cinco anos. quando então consegui um emprego no comércio. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. das quinze horas às duas da manhã. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso. como o são as lições das escolas primárias. quando contava oito anos.Francisco Cândido Xavier . em casa. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos. É verdade que. onde o serviço dura das sete às vinte horas.Parnaso de Além-Túmulo 15 Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. mas onde o trabalho é menos rude. estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. Filho de um lar muito pobre. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade. Minas. que acima de tudo ama a verdade. num grupo escolar. E. pude chegar até ao fim do curso primário. em 1910. porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. com um salário diminuto. Mas. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. história e vernáculo. estudar como? Matriculando-me. porém. constantemente. se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro. quanto à sua formação. sempre estudei o que pude. E até aqui. mas meu pai . essa situação modificou-se em 1923. julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal.

Francisco Cândido Xavier . onde se não pode pensar em letras. neste ponto. freqüentando-a mesmo com amor. mas. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus.Parnaso de Além-Túmulo 16 era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. foi sempre alheio à literatura. sequer. pioras de amargos padecimentos morais. de penosos deveres. Foi quando decidimos solicitar o auxílio de um distinto amigo. foi acometida de terrível obsessão. onde então. desde os tempos de criança. como eu. ofereceu-nos até a sua residência. de desconforto. pois. espírita convicto. os meus desejos de estudar. por diferençar muito pouco essas questões. como verdadeiramente não podem. sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. bem distante da nossa. José Hermínio Perácio. Até 1927. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. Verdadeiro discípulo do Evangelho. ambiente de pobreza. num ambiente totalmente . eis que uma das minhas irmãs. o Sr. Fui pois criado com as teorias da igreja. a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. para mim. para nossa casa. em maio do ano referido. realizar as minhas esperanças. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra. todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. tanto à sua família. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. Os meus familiares não estimulavam. Prosseguindo nas minhas explicações. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros. até hoje. Vários dias consecutivos foram. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. O meu ambiente. sempre a braços. Jamais tive autores prediletos.

Aí. as suas faculdades mediúnicas. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. com ingentes sacrifícios. quando na Terra. em 1944. que regressara ao Além em 1915. Resolvemos. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas. que a minha mãe. médium dotada de raras faculdades. a vidência. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. simultaneamente. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. desenvolvendo. de maneira clara e mais intensamente. orientando-se quanto aos seus deveres. minha irmã hauria. (Nota do médium para a 4ª edição. para nosso benefício. que se tornou inabalável. desenvolveram-se em mim. como o são os daqueles confrades a que me referi. para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam.) . a audição e outras faculdades mediúnicas. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida. que essa senhora desconhecia. entrando em pormenores da nossa vida íntima. por intermédio da esposa do nosso amigo. então.Parnaso de Além-Túmulo 17 modificado. com a graça de Deus. 2 2 Só nos últimos dias de 1931. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina.Francisco Cândido Xavier . sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. semimecânico.

psicografando-as. a nossa alegria aumentava. e. era a de que vigorosa mão impulsio- . decorridos dois anos. controladas pela sua senhora. em consciência. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. em companhia de sua esposa. contudo. entre as suas mediunidades. A sensação que sempre senti. chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas. os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. por conhecer as minhas imperfeições. Nossas reuniões contavam. baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. prosseguindo em nossas reuniões. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. o que perdura até hoje. ao escrevê-las. do corrente ano. categoricamente. porém. assinadas por nomes respeitáveis.Parnaso de Além-Túmulo 18 Daí a pouco. Não desanimamos. nas reuniões. a moral profunda que era ensinada. Em agosto. porém. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar. Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre. apesar de muito a contragosto de minha parte.Francisco Cândido Xavier . porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. grande número de assistentes. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio. conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. ornada das mais superiores qualidades morais e que. O que posso afirmar. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. parece que pesava muito. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época. assim. não posso dizer que são minhas. alma nobilíssima. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. é que.

experimentando sempre no braço. a não ser esses escritos. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade . acontecendo o mesmo com o cérebro. ao recebermos uma destas páginas. por momentos. melhor o resultado obtido. mantidas desde os 5 anos de idade. apesar de todo o meu bom desejo.3 3 Ao escrever estas palavras. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. sem que se produzisse escrito algum. Certas vezes. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse. Passavam-se às vezes mais de dez dias. Muitas vezes. jamais obtive outra coisa.Parnaso de Além-Túmulo 19 nava a minha. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo. ao psicografá-las. Doutras vezes. é o que experimento. frisar aqui também. fisicamente. doutras.Francisco Cândido Xavier . o nome de qualquer dos comunicantes. não sentindo. julgando minha obrigação. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. esse estado atingia o auge. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. que alguém mas ditava aos ouvidos. na fenomenologia espírita. o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. em nossas preces. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. quanto menor o número de assistentes. em particular. que. as menores impressões físicas. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. onde eu as lia e copiava. e. parecia-me ter em frente um volume imaterial. porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância. era necessário recorrermos a dicionários. pertencem igualmente à fenomenologia espírita.

Parnaso de Além-Túmulo 20 Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. Cármen P. Quintão. por intermédio de instrumento tão mesquinho. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. ainda. transmitindo. Terei feito compreender. Perácio. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e. noutros. M. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. a verdade como de fato ela é? Creio que não. porém. E aqui termino. todavia. os seus salutares ensinamentos. etc.Francisco Cândido Xavier . o carinhoso interesse do distinto confrade Sr. Pedro Leopoldo.?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está. dezembro de 1931. Francisco Cândido Xavier nas sessões espíritas. a quem me lê. Um desses que haja. desde a infância. rizinhos ridiculizadores. e dou-me por compensado do meu trabalho. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e. os meus saudares. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. A todos eles. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. Há de haver. entre mil dos primeiros. que inspiraram esta obra. que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. Também isso são fenômenos espíritas. (Nota da Editora) . com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo.

segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos. Nas minhas atuais condições de vida. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. Decerto. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva.4 A tarefa é difícil. ao surgir a 1ª edição do Parnaso. 4 Refere-se à 2ª edição. no domínio do conhecimento e da sensação. publicada em 1935. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. os campos se apresentariam como desertos. os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de Além-Túmulo”. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. o mundo constituiria um conjunto de aspectos inverossímeis e inesperados.Parnaso de Além-Túmulo 21 De pé. em julho de 1932. Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias.) 5 .Francisco Cândido Xavier . como se os nossos amargores. (Nota da Editora) Alude às crônicas que ele. escrevera no Diário Carioca. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5 . que aparecerá brevemente em nova edição. Individualmente. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno. (Nota da Editora. quando encarnado. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade.

Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos.Francisco Cândido Xavier . Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa. de mulher e de menina. em nome da nacionalidade. aguardando a sua palavra. o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo.. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante. e na tristeza majestosa do ambiente. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência. Todos aí estão dentro das suas características. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. concitou-os a auxiliar as manobras militares. Casimiro com a sua sensibilidade infantil. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. a visitar os cruzadores de guerra. os mortos!. – De pé. como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. dirigiu-se aos mortos em termos comovedores. Junqueiro com a sua ironia. Conta-se que na guerra russo-japonesa.. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. terminada a batalha de Tsushima. . Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos.Parnaso de Além-Túmulo 22 Mas é razoável que apareçamos no mundo. Na atualidade. Antero com a sua rima austera e dolorosa.

editados pela FEB. como a que se inseriu nesta página. edições de 10 e 12 de julho de 1932. sob a orientação do Anjo Ismael. MA. Liberto dos liames da carne.. Vale destacar “Brasil. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo. Pátria do Evangelho”. acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”. e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. Humberto de Campos6 (Espírito) 6 HUMBERTO DE CAMPOS Veras. em 1886. Ditou-nos 12 livros. e desencarnado no Rio de Janeiro. escritor brasileiro. de Miguel Timponi. Coração do Mundo.Parnaso de Além-Túmulo 23 As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. temos fome. Temos frio. Foi jornalista e deputado federal. (Nota da Editora) . zelosa de suas conquistas. entre o assombro e a esperança. com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. FEB). das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz. mas esses mantos estão rotos!. em 1934. já em 9ª edição. páginas 60 a 64. Produção literária variada quão vultosa. temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. 4ª ed. dois anos depois passou ele a valer-se. sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X. A Ciência.Francisco Cândido Xavier . ainda não ouviu a sua vibração misteriosa.. membro da Academia Brasileira de Letras. mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis. visando à cristianização da Humanidade. como Espírito.

dos quais dois já editados pela Federação. Trabalhemos na dor ou na alegria. Na conquista de luz da Vida Eterna. Espírito dinâmico. Mas vós. Nas torturas de um novo cativeiro. deixou alguns livros inéditos. Asperezas dos homens da caverna. Eis que a Terra tem crimes e tiranos. como lobo carniceiro. além de copiosa obra esparsa. posto que fisicamente inválido. no turbilhão da sombra imensa. Mas vós tendes Jesus em cada dia. Ambições. Ameaça a verdade e humilha a crença. Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro.Francisco Cândido Xavier . desenganos.Parnaso de Além-Túmulo 24 1 Abel Gomes ESCRITOR. . poeta e professor. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934. desvarios. Tendes convosco o Excelso Companheiro.

Irmã da paz e da serenidade.Parnaso de Além-Túmulo 2 A. G. Morte Silenciosa madona da tristeza. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza.. Filhos da luz de uma outra Natureza. calmo e austero.Francisco Cândido Xavier . Num dilúvio de lírios e de rosas. Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso. À esperança de todos os meus dias! 25 . A morte abriu-me as catedrais radiosas. Que abriu meus olhos na imortalidade.. Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias.

Do meu porto Ao caro amigo M.Francisco Cândido Xavier . em prosa e em verso. Ante o novo caminho ilimitado. Depois de atravessar a sombra imensa. É doce descansar após a lida. Rememorando as dores que passaram. colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. Funcionário público. Das angústias e sonhos do passado. E dos quadros risonhos do meu porto.Parnaso de Além-Túmulo 26 3 Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa. Banhar o coração na luz da vida. Não conservo senão o Amor e a Crença.. Adeus mágoas da noite estranha e densa. Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! . Quintão Viajor vacilante e extenuado..

parnasiano de escol. O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno.. No pavor de esperar a angústia que vem perto!. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia. . em 1937. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração.Parnaso de Além-Túmulo 27 4 Alberto de Oliveira FLUMINENSE. E no escuro bulcão só Jesus persevera. Desespera. Entre as vascas da morte. a alma pobre. que sepulta a quimera. em 1859. e falecido em Niterói. tudo é vão.Francisco Cândido Xavier . Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. nascido em Palmital de Saquarema. Nessa grande amargura. Farmacêutico. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto.. sobre a estrada sombria. soluça. o peito exangue e aberto. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre. Jesus Quanta vez. dedicou-se principalmente ao Magistério. entre escombros. neste mundo. em rumo escuro e incerto. Do mundo é a escuridão... Como a luz imortal do amor que nunca morre.

Agora. abatido em seu horto. que é náufrago sem porto. Sente o extremo pavor que a morte lhe revela. Seja a bênção de amor a luz do teu destino.Parnaso de Além-Túmulo Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana.. Não te aflija a miséria. Do último dia O homem. 28 . no último dia. Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. na dor da alma perjura. foge à sombra e à vingança. como raios de aurora. compreende. Seu coração é um mar que se apruma e encapela. Nas trevas do ladrão. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. arrima-te à esperança. Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela. Tudo o que era vaidade. No pungente estertor do peito quase morto. o ninho e a sepultura. hoje e amanhã.Francisco Cândido Xavier . Planta a bênção da paz. Do pobre coração. ajuda e passa. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino.. Não troques mal por mal. Esclarece a alegria e consola a desgraça. agora é desconforto. Na eterna lei de amor que consagra a criatura. mundo afora. Irradia o perdão e atende.

Conservando Jesus por verdade e caminho. Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo. 29 .Parnaso de Além-Túmulo Somente o que venceu nesse mundo mesquinho. homem vão? Cala em ti todo alarde. Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais.Francisco Cândido Xavier .

Francisco Cândido Xavier . Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. ante o sol da Graça. Agora é que entendo isso. nem ata. breve. esta choça. 1 Lasneau amigo. .Parnaso de Além-Túmulo 30 5 Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. Poeta e jornalista. não é bilhete. Detendo por balda nossa Descrença.. É minúscula palhoça. no município de Piraí. É feio talhão de roça. Carta ligeira Meu Lasneau. Não é ofício. tornou-se funcionário da Central do Brasil. Estado do Rio. A Terra. Cheia de lama e fumaça. aposentando-se como Agente de 1ª classe. passa. guerra e cachaça. É o coração que desata Meus pesares num lembrete. colaborou em várias revistas e jornais. Onde a carne. Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa. e desencarnou em 13 de novembro de 1948..

Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece. A vida real começa. 2 Oh! meu caro. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto. Além da prisão de osso. 31 .Francisco Cândido Xavier . É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz. Desejo que a luta cesse.Parnaso de Além-Túmulo Espere sem alvoroço. Que a coisa melhore e. Não me olvide em sua prece. se eu pudesse Dizer tudo o que não disse. é clara a messe Da sementeira de asnice.. passe.. face a face.

Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921. Tangei harpas de esperança. Ó crentes de uma outra vida! .Francisco Cândido Xavier . Escada de Jacob. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura.. Nas lutas de vossa esfera.Parnaso de Além-Túmulo 32 6 Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães. eterna e imensa. jornalista e poeta. . Que andais no mundo exilados. Magistrado.... etc. Septenário das Dores. qual se afirma em suas obras: Dona Mística.. notabilizou-se principalmente pela tonalidade mística do seu astro. poeta mineiro. Nos caminhos enevoados. Kiriale. natural de Ouro Preto. Aos crentes Ó crentes de uma outra vida. Porque a Morte é a primavera Luminosa. Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!..

em volutas de flores e de incenso.. Achou. Vozes de sinos pelos santuários.. Rezando as orações dos Septenários. Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres.. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas... Dos Ofícios. no Espaço luminoso e imenso. Enchendo as grandes vastidões serenas. E seguindo outros seres solitários.Francisco Cândido Xavier . De vos cantar.Parnaso de Além-Túmulo Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que. amortalhadas.. Almas tristes de freiras e sórores. velhas cenas. eu vos pertenço. Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor. Eu ressurjo nos místicos prazeres. das Novenas. Retomo velhos quadros. 33 . O perfume das hóstias consagradas. dos Terços.

. o mundo inteiro vos festeja.. Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas. Senhora. que vos vejo nos caminhos.Parnaso de Além-Túmulo A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado. Um turbilhão de vozes e de lírios. Chorar. Em magnificência ampla e radiosa.. Cantai. Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios. como cantáveis no passado. porém. como inda faz a alma cativa! Ó sinos dolorosos e plangentes. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos. Nos altares simbólicos da Igreja! Eis. em ondas luminosas. Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos..Francisco Cândido Xavier . 34 .

o Amado espera. guardas o vinagre dos desenganos. o envenenado licor dos caprichos. Em que estenderás ao seu amor infinito 35 . E dia virá. Seu coração freme de júbilo. O Senhor passa todos os dias.. No entanto. O Amado é incapaz de violentar a tua alma.Parnaso de Além-Túmulo 7 Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra.Francisco Cândido Xavier . Na estrada longa do destino. Acolá. Mas. Todavia. Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos. Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás. choras e desesperas. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos.. Aqui. até agora.. Distribuindo os dons celestiais... É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão. Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas. Assim também. Seu carinho aguarda a confiança espontânea..

Francisco Cândido Xavier . Concedeu-lhe oportunidades diferentes. porém. feriu-se em dolorosas experiências. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas.. jamais o deserdou por isso. O irmão Por que ajuízas com ironia. Ao influxo do bendito esquecimento. Quando penetrou noutros círculos. Por vezes. O Amado. De tempos a tempos. Em busca da criancinha abandonada. Deu-lhe novas forças. sofreu.Parnaso de Além-Túmulo O cálice do coração lavado e vazio. Lutou. Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas. Como pai carinhoso. Depois. 36 . Buscou-o no fundo dos abismos. Fê-lo dormir no regaço..

Parnaso de Além-Túmulo Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez. Dando ao mundo o que possui de melhor. 37 . Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens. Se já atingiste Algum topo de colina. faze-lhe o bem que possas.Francisco Cândido Xavier . Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente. E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês. Ama-o.

celeste.Francisco Cândido Xavier . Ao turbilhão de cinza e esquecimento. Publicou. de alma consumida. A alma transpõe o túmulo chorando. E quem da luz não fez templo e guarida. Desce gemendo. Toda vaidade ao báratro se atira. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. Desfaze a teia da filáucia humana. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil. Finda a festa de baldo riso infando. . Qual folha solta ao furacão violento. O gozo desfalece à própria gana. na Bélgica. em breve. Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira. em livro.Parnaso de Além-Túmulo 38 8 Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. Que a Morte. humilha e desengana A demência da carne que delira... Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade. soberana.

Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada.Francisco Cândido Xavier . A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar.Parnaso de Além-Túmulo 9 Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida. Venho testemunhar a luz de onde regresso. De dúvida. Também tive a minhalma outrora perturbada. Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida. Que abandona a matéria exânime e cansada. Incitando vossa alma aos planos invisíveis. incerteza e angústias consumida. Onde vive e se expande o Espírito liberto. empobrecido e incerto. 39 .

deixou dois volumes de Poesia. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade. Rosa mística da fé. Rainha! Estrela da Humanidade. Mensageira da ternura. Providência dos que choram Nas sombras da desventura. consagrados pela crítica coeva. Bendita sois vós. Talento brilhante.Parnaso de Além-Túmulo 40 10 Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público.Francisco Cândido Xavier . O Senhor sempre é convosco. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós . além de copiosa literatura teatral e doutrinária. Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923. Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime.

Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana. Oh! Divina Soberana. espera e crê. além da Cruz. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama.. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz.. Nossa porta de esperança. Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime.. Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória. cinza e areia. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – 41 . Às dores. Trabalha. Desde a paz da Manjedoura. Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia.Francisco Cândido Xavier . Assim seja para sempre..Parnaso de Além-Túmulo A Mãe das mães desvalidas.

Serve sem perguntar por “onde”. Purifica-te e cresce. “como” e “quando”. ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz.Parnaso de Além-Túmulo São portas aurorais para a Mansão Divina. E. no País das Estrelas! 42 .Francisco Cândido Xavier . amando por vencê-las.. nos braços do Tempo..

Eis que a Terra te acusa.. Como a Grande Mendiga do Universo!. soluçando.Francisco Cândido Xavier . Sob o alarme guerreiro. da Paz e do Direito.. formidando. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas. Num caminho infeliz. em 1842. Ciência de ostentação. nos Açores. Longe da Luz. arma de efeito.Parnaso de Além-Túmulo 43 11 Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel. em 1891. Fomentando o princípio desumano Da ambição onde a força prolifera. caracterizando-se pelo seu espírito filosófico. sombrio e inverso. Investigando a entranha da monera. Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era. ... e desencarnado por suicídio. A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano.

Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!.Parnaso de Além-Túmulo Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora. Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras. Amparai o que anseia... Vosso amor. No labirinto amargo da existência. eu te adorei. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora.Francisco Cândido Xavier . 44 . luta e chora. Visão de tristes faces cismadoras. É a luz dos tristes e dos desterrados.. Nos crepes do Silêncio amortalhada. À morte Ó Morte. que enche os céus ilimitados. Esperança dos pobres desvalidos!. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas.. Que sois toda Bondade e Complacência. como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos.

O gozo era a mentira dum momento.Francisco Cândido Xavier . Ao meu olhar de triste e de descrente. Numa senda mais triste e mais sombria. Só existia a dor. Por onde penetrei no Sofrimento. amarga e inconsolável. E escancaraste a porta escura e fria. ela somente. Batendo alucinado à tua porta.Parnaso de Além-Túmulo Busquei-te. Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. 2 Misantropo da ciência enganadora. Depois da morte 1 Apenas dor no mundo inteiro eu via. eu que trazia a alma já morta. E tanto a vi. Os prazeres. Escorraçada no padecimento. Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível. Olhar de pensador amargurado. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. 45 .

Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. Não o via e.Parnaso de Além-Túmulo Que era na dor. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. Morri.Francisco Cândido Xavier . No seio dessa ciência tão volúvel. em toda hora. todavia. Pela voz da vaidade. 3 Depois de extravagâncias de teoria. que se eleva. Recamada de dor profunda e intensa. Ela era o laço eterno e indissolúvel. gemendo. 46 . Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava. Nesse anelo cruciante e intraduzível. visão consoladora. Que a morte era um enigma solúvel. Nas vastidões da terra úmida e fria. Vim. no entanto. Podia ver. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada. encontrar as luzes puras Da verdade brilhante. Iluminando todas as alturas. De ver o Deus de Amor. reconhecendo. então. Sobre o problema trágico. insolúvel. de quem descria.

fugindo ao mundo. cansado e moribundo: – 47 . Ao viver da minhalma sofredora. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo. E nunca encontraria abismo horrendo. porém. A medonha figura de gigante Do Remorso. Da morte a Paz busquei. na Terra. Dizendo-lhe. O Remorso Quando fugi da dor. Sem que a Paz almejada conseguisse. Era de ouvir-lhe o grito gemebundo.. Encontrei os Remorsos e o Tormento.Francisco Cândido Xavier . Divisei aos meus pés. como se fora Apossar-me do eterno esquecimento. Andei cego..Parnaso de Além-Túmulo Soneto Quisera crer. E em vez de imperturbáveis quietitudes. Desvairado. Sua voz cavernosa e soluçante!. Recrudescendo as minhas dores rudes. que existisse Esta vida que agora estou vivendo. De amargoso penar que se me abrisse. de olhar grave e profundo. suplicante. Aproximei-me dele. de mim diante. ao sepulcro fui descendo.

. Acordando-me em lágrimas. eu te acompanho. criou obra tamanha. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem. Do espírito de amor ao mal imenso. Onde se perde a luz em noite escura. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada. quando penso No mar humano. corvo horrendo. gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor. É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo “Que fazes ao meu lado. Que se vive no abismo tenebroso. senão Deus. Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono. 48 .. Sentindo o horror que nasce dessa vida. Se enlouqueci no meu degredo estranho. encapelado e imenso. Nesse abismo de treva a bênção pura. Mais se me aumenta a chaga dolorida. Sente o assédio do mal.

Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente. Oh! se eu pudesse. Onde se agitam turbilhões de esferas. aquece e banha? Quem.. o Impenetrável. diria eternamente. No coração dos homens e das feras.. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! 49 . Que a luz. senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. somente o Eterno. Os soluços. os gemidos. Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente. a mágoa mais pungente. Poderia criar o imensurável E o Universo infinito criaria!.. a excelsa luz.Francisco Cândido Xavier . intérmina piedade.Parnaso de Além-Túmulo O espaço e o tempo. as amplidões e as eras. Suprema paz. E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse. A dor mais rude. No coração do mar e da montanha! Deus!.. Aos flagelados e desiludidos. os prantos.

Francisco Cândido Xavier . Mas que chega no mundo muito tarde. Despedaçou-se à falta dessa crença. não possui. 50 . Que as grandes luzes místicas revela. Dentro da vida sem compreendê-la. Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz. Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa. distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade. ó vós que estais na Terra. Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza.. Ah! Crer! bem que. De tão pequena dor fazendo alarde. na Terra.. Desvairado de angústia e de descrença.Parnaso de Além-Túmulo Mas. dizei-lhes. Quando entre conjeturas me perdi. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa.

Se a amargura das lágrimas se aviva. que é da alma rediviva. na Crença e na Esperança. Se o tormento da vida recrudesce. Sobre as dores da pobre alma cativa. Misericordiosa e compassiva.Parnaso de Além-Túmulo O pranto é a flor de aromas da saudade. Mão divina A luz da mão divina sempre desce. esperai a Providência Com os sentimentos puros. transformai-o em gozo alto e perfeito. Aguardai a abundância da outra messe De venturas. Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem.Francisco Cândido Xavier . Buscando a paz depois das grandes lutas. Confiando. angústias e cansaços. diamantinos. Procura a luz sublime dos espaços. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições. Mas. Que perfuma e crucia o vosso peito. Em santa e esperançosa claridade. Que está nas sendas lúcidas da Prece. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos 51 .

Turbas de almas escravas de agonias.Parnaso de Além-Túmulo A paz e as luzes que eu não alcancei. Como um vergel azul de lírios brancos. Supremo engano Vê-se da Terra o Céu. bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. em toda a vida. Essas compactas legiões sombrias. Ao palmilhar estradas escabrosas. Miseráveis Espíritos que choram. e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas. Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram. sob os arrancos. Com que andei entre queixas dolorosas. Onde mora a ventura.Francisco Cândido Xavier . Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz. 52 . Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles.

Cheios de vida e de infinitos bens. somente.. em minhas dores..Parnaso de Além-Túmulo Sob os golpes da dor. Deus não representa A personalidade humanizada. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor. de angústia e de tormenta.Francisco Cândido Xavier . rijos e francos. A paz livre de trevas e pavores. Pelos seres terrenos inventada. Antegozei. de cólera violenta. às vezes. Que entre anseios e angústias conheci! Mas. Do imperturbável nada que não tens! Incognoscível Para o Infinito. quanto o vão mortal inda se engana. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos. Com teus grandes olimpos majestosos. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. Cheia. orbe da lágrima e do erro. Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! 53 .

Quem vai de alma gemente e consumida. no mundo. no mundo inteiro. E no meio de todas as canseiras Cheguei. Porque em tudo. Coroado de folhas de loureiro.. brasonado cavaleiro. Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!. Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre. e.. Nos labirintos da Filosofia. o homem divisa A figura das dúvidas que matam. todavia..Francisco Cândido Xavier . Nunca.. no mundo da Agonia.. O meu erro. além.. na Terra. às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!. Onde a grande certeza principia. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere. enfim. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás.. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. Fim de toda a amargura da descrença.Parnaso de Além-Túmulo Fatalidade Crê-se na Morte o Nada. 54 . a crença se realiza.. chora e pensa.

Aos tenebrosos pântanos da Morte.Francisco Cândido Xavier . em voz soturna: – “Insensato! aonde vais. Cavaleiro e corcel. sem norte?” E impeliu. sobre a humana furna. angustiada.Parnaso de Além-Túmulo Mas a Verdade. 55 . Gritou-lhe. vaidade e orgulho. sem detença e sem barulho. sem Deus.

Quadras de um poeta morto Coração. Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais. Voltam sim. .Francisco Cândido Xavier . Deixou um livro inconfundível e. As almas das raparigas Inda sonham nos choupais. que importa lá? Porque os amores fiéis. muito estimado – Só – e Despedidas. Nem a morte os vencerá. E por que não? Os corpos daí nos soltam.Parnaso de Além-Túmulo 56 12 Antônio Nobre NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade.. não vos canseis De bater. Como às aves o alçapão. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro. edição de 1902... ainda hoje. em 18 de março de 1900. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam..

Um dia o riso lhe foge. quem ri hoje. Que choram nas horas mortas. os fantasmas da rua.. Às vezes acham-se fojos Onde há música e festins.. Venturas da boa sorte. Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. Vós que amais a luz da Lua. Sem que o veja escapulir. que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus.Parnaso de Além-Túmulo Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados. Contudo. Nem pó e nem solidão.. De vossa alma abri as portas Para. Corações despedaçados. E há muitos cardos e tojos 57 . acima de tudo Devemos amar a Deus.Francisco Cândido Xavier . Nem sempre poderá rir. Riquezas. Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus. Quem riu ontem. Porém. não é assim..

estenderia Minhas capas de luar.. Para quem a padecer Vive aí na sepultura. Guardando as gotas de pranto Numa urna cor da aurora. Chorai! chorai orfãozinhos.. Se eu pudesse.Parnaso de Além-Túmulo Entre as flores dos jardins. No sepulcro não termina O novelário do amor. Mal vais. Vossas dores amargosas: Achareis noutros caminhos As vossas mães extremosas. Sobre os filhos da agonia Que andam no mundo a penar. Deixa cantar. A morte só pode ser A vida risonha e pura. No Universo há céus profundos. Nesse mundo miserando Toda ventura é ilusória.Francisco Cândido Xavier . se vais caminhando Na ambição de ouro e glória. Teu coração sonhador. ó menina. Um anjo cheio de encanto Vive sempre com quem chora. 58 .

Aqui. Sonho. Que os interesses resuma. Há quem faça aí mil contas. Sem fazer conta nenhuma. Aos mendigos desprezados Não ridicularizeis. Luz que se estende à pobreza. claridades. fiandeiras. Oh! almas enamoradas. Na escuridão do infortúnio. O raio de primavera Que aí jamais encontrou.Parnaso de Além-Túmulo Cheios de vida e esplendor.Francisco Cândido Xavier . Cantigas do coração. São senhores despojados Dos seus tesouros de reis. Um mundo é um ninho de amor. Tecei sonhos. Ah! que sinto aqui saudades Das noites de São João. a alma inda espera O alguém que na Terra amou. Mas morrem cabeças tontas. A caridade é a beleza De um divino plenilúnio. Vivei aí nas clareiras De luzes alcandoradas. Um céu é um ninho de mundos. 59 . estrelas.

Francisco Cândido Xavier . Seguindo a alma nos sonhos iludida.. Minha terra portuguesa! . Do Além Pudesse o nosso olhar.... quem há de Com o problema de sermos ou não sermos. porém. vagueando os ermos.. Preocupar-se aí. E da luz da Verdade não descrermos. Pois que o ardente desejo de o sabermos É sempre o anelo falso da vaidade? Peregrinos da dor. na dor andamos Sem que a nossa miséria se desfaça No escabroso caminho onde marchamos. por meu mal. Acompanha-me a tristeza Das saudades. Ver através da própria soledade A expressão luminosa da Verdade. Meu querido Portugal! . Até que a dor unindo-se à desgraça Descerre os véus que encobrem outra vida. Naquelas toadas de outrora As moçoilas coimbrãs. 60 ..Parnaso de Além-Túmulo Na minha vida de agora Não canto as festas louçãs.

A Primavera vem por outras portas. 61 . Sob os ares sadios de outros mundos! Ao mundo A Terra é o vasto abismo onde a alma chora. para os grandes bens. Lodoso chavascal onde se avista A podridão dos vermes que apavora. E além da amarga vida de segundos. Ou a dor amarga e rude em que te cortas. Dormirás no meu seio o último sono.” Escutava essas vozes comovido. E murmurava a alma – “Findo o Outono. entristecido. Ressurgi da tortura e da tristeza.Parnaso de Além-Túmulo Soneto “Quando cobrir-se o chão de folhas mortas – Meu coração dizia em grave entono – Extinguindo-se a vida que comportas. para que exista A perfeição da luz deslumbradora. O vale de amarguras do Salmista. Morto de angústia. morto de incerteza. Aguardando o sol-posto. Precisamos da carne que aprimora Com o camartelo mágico do artista...Francisco Cândido Xavier . Não existe no túmulo o abandono. Mas.

mocidade ardente. Marchai sorrindo. Porque da tua dor alcei meu vôo Para a mansão das luzes opulentas. 62 .Francisco Cândido Xavier .. Clareando o porvir almo e risonho. ó mocidade! Moira Encantada que ri nos prados verdes. ébria de sonho!. Ébria de aroma e luz.Parnaso de Além-Túmulo Terra. Na exaltação do amor e da saúde. Nos poemas de luar que conceberdes! Ide cantando. do sol-nascente.. o sol que doira O riso que espalhais sem compreenderdes. Triste mundo de chagas pustulentas! À Mocidade Cantai! cantai. Glorificai. Cantai o amor que é luz que se entesoira. Teu rigor nos redime e nos eleva. Mas és ainda o cárcere da treva.. ditosa. Alvorada em abril. Vibrai na luz da vida em que viverdes. doce juventude. Expandi-vos na primavera loira. tranqüilamente eu te abençôo..

Do qual perdi a luminosa essência Na cristalização dos meus pesares. falecendo. . Pois triste e atordoado inda carrego O negro esquife do meu próprio sonho. como cônsul adjunto do Brasil. Cheio de luz das coisas invulgares. Poeta e escritor. Tarde reconheci minha falência. Tombei exausto. Infeliz do meu ser irredimido. – Abismo tenebroso que eu transponho.Parnaso de Além-Túmulo 63 13 Antônio Torres NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885. Terminados os múltiplos azares. E da morte. Ordenou-se sacerdote. na cidade de Hamburgo. amargurado e cego. abandonando mais tarde a profissão eclesiástica. Esquife do sonho Tive um sonho de amor e de inocência. em 1934.Francisco Cândido Xavier . No silêncio das cinzas tumulares. De minha quase inútil existência. no abismo indefinido.

Revendo os dias tristes do passado. 64 . Filosofia rude e amara.. Que as trevas mais compactas aclara. Crença é o perfume d'alma que se enflora Com a luz divina.. – A minha aspiração de cada hora.Parnaso de Além-Túmulo Nada. não fosse tão ousado.. Nos desvios e excessos da razão. Antes. resplendente e rara Da Fé. Vi que troquei a Fé pela ironia.Francisco Cândido Xavier . com pena embora De abandonar a crença que esposara.. porém. Na qual acreditei. Pois nem sempre a razão profunda e fria Alivia ou consola o coração. única Luz da única Aurora. Nada! .

muito a medo. Viu que a esposa beijava um seu amigo. assim. era preciso Que a sua esposa. Poeta.. . e.Parnaso de Além-Túmulo 65 14 Artur Azevedo NASCIDO em São Luis. dama de juízo... Penetrou no seu quarto com um sorriso Às dez horas da noite. 2 No belo palacete do Furtado. Miniaturas da sociedade elegante 1 Adriano Gonçalves de Macedo. Sobre o divã. devagar. que tragédia após esse perigo. Membro e fundador da Academia Brasileira de Letras. jornalista e crítico. onde ocupou a cadeira de Martins Pena. comediógrafo. no Maranhão. Homem de cabedais e alma sem siso. da sala de jantar.Francisco Cândido Xavier . Não na visse nem mesmo por brinquedo: Dona Corália Augusta Colavida Estaria nessa hora recolhida? Levantou a cortina. Uma carta de amante – era um segredo – Ia abri-la.. a 7 de julho de 1855 e falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908. Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação. Mas.

. poetas.“Esse livro. Realizara alentada conferência. interessado. Foi um sucesso. conselheiros. Bacharel delambido e enamorado. Numa corrida louca. Foram levar-lhe um abraço camarada. Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores. Protegido dos membros da regência. Recamado de quadros indecentes. Era um compêndio de pornografia.. muito aflita: . Toma o moço um livrinho encadernado. 66 . 3 Dom Castilho. Mas a jovem retoma-o. E ele. Revirando-o nas mãos. E a esposa Ana Fulgência. notável latinista. é meu breviário!” Diz inquieta.Francisco Cândido Xavier . Que primor de moral! e os companheiros Escritores.Parnaso de Além-Túmulo Palestrava a galante Mariquita Com um pelintra afetado. Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. De sobre a grande cômoda bonita. Antonico. cínico e falsário. Sobre rígido assunto moralista. Nele via uma grande alma de artista. assaz catita. Mais o olhava e mais se ria.

.Parnaso de Além-Túmulo No apartamento escuro da criada.Francisco Cândido Xavier . 67 ..

Parnaso de Além-Túmulo 68 15 Augusto de Lima POETA mineiro. Tudo era languidez. elevando-se aos céus. esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas. Além se divisava a solidão da estrada. Na clareira. Servo amado de Deus. . onde o Sol feria os vegetais. Amarela de pó. Naquele dia. tendo ocupado a presidência dessa instituição. Ali vivia Anchieta.. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. o doce missionário. Agreste serrania. humilde e solitário. Ninguém! Nem uma sombra se movia. imitador de Assis. desânimo e torpor. E.. espelho de bondade. O doce missionário Sertão hostil. Viam-se florescer bromélias e boninas. Carinhoso pastor. tristonha e desolada. perdoando a maldade. Era intenso o calor. Tendo por companhia A cruz do Nazareno. orador e publicista. militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. Magistrado íntegro.Francisco Cândido Xavier . nascido em Sabará. Que na humildade achara a vida mais feliz. Minas. Abençoando o bem.

ao termo da viagem. o bom pajé. Nem árvores umbrosas e nem fontes.. o humilde pegureiro Avista um mensageiro. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. Somente o Sol ferino e destruidor. Para arrancar à dor o pobre penitente. – “Meu protetor – diz ele –.” . Em tão rudes e aspérrimos caminhos! . Convertido por vós à luz da vossa fé. Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa. ao longe. o pastor não se deplora. Que calcina. Abandonando o ninho agreste e solitário. Que penosa jornada..” E isso dizendo. Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor. Que Jesus vos ampare. Há solidão na estrada.. em aflição. Dirige-se-lhe a casa. Entretanto..“Oh! doce filho meu. inflamando os horizontes. Agoniza na taba.Francisco Cândido Xavier . que vindes de passagem.Parnaso de Além-Túmulo Eis que o irmão de Jesus. o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário. 69 . Que tem oferecido a Deus o seu amor. Pairam no ar excessos de calor. Eis que a sede o devora.

Na vibração dos sons. que te ama e te venera. Na corola de luz de todas as florinhas. no sofrimento. Seja alegria ou dor. Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores.” Terminando a sorrir a espontânea oração. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio.. Juntinhas. de luz e caridade. por tudo o que nos dás. 70 .. Luz e consolação. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas. Na dor.. todo amor. em nossa própria cruz.Francisco Cândido Xavier . das meigas avezinhas. Numa ideal combinação Formam um pálio protetor. Cobrindo o doce irmão Que ia ofertar amor.. Eterno Pai de amor. Eis que nos arredores Congregam-se apressadas Todas as avezinhas. Senhor. No coração do bom. tudo é ventura e paz.Parnaso de Além-Túmulo A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento. E. Numa férvida prece. Ele ainda agradece: – “Sê bendito. Inspirada em tão santa devoção. No canto. amparo e luz. Na estação outonal. No azulíneo do céu. no cálice das rosas. na loura Primavera. na irradiação da luz. asas aconchegadas.

Evolando-se puro ao seio de Jesus..Parnaso de Além-Túmulo Em nome do Senhor. Repartindo a Virtude.. Pelos caminhos. casto. humilde e isento de pecado. Modesto. Em meiga mansuetude. O enviado do Bem e da Virtude Agradecia ao Céu. Lábios sorrindo. a Graça e os Dons Que a palavra divina do Cordeiro Prometeu aos pacíficos e aos bons Do mundo inteiro. o coração em luz. 71 . Glorificando as dores da alma triste. Ia caindo o dia No poente de paz e de harmonia. Que ia seguindo. Brilhava nova luz.Francisco Cândido Xavier . Foi-se aumentando O alado bando Dos bondosos e ternos passarinhos. Chegara ao seu destino. O santo de Assis No suave mistério dos espaços. Santa Maria dos Anjos inda existe. feita de crença e amor: Era a bênção dos Céus. Com a mesma luz divina dos seus traços. Aureolando com amor o Discípulo Amado. a bênção do Senhor.

Procurando salvar Os nossos irmãos Homens mergulhados Entre as noites sombrias dos Pecados!.Francisco Cândido Xavier . que enxugam todo o pranto E que levam consigo Todo o consolo amigo Da Esperança no Céu. Das paragens etéreas Da sua ideal igreja. Não nos cansemos de glorificar A caridade imensa do Senhor.. dourada Pelos astros de mística alvorada. Sua sabedoria e seu amor. A luz dos sóis da etérea Natureza... Sob a paz de Jesus. Numa doce e ideal Eucaristia. E à voz suave e dúlcida do Santo. Daquela mesma Umbria do passado..Parnaso de Além-Túmulo Uma nova Porciúncula. irmãs Flores. São Francisco de Assis abraça e beija 72 . singela e boa.. Derramando no Além ignorado Os sonhos de Virtude e Perfeição. irmãos Anjos. A Terra escura e triste se povoa De anjos de amor. Aí se rejubila. “Irmão Sol. Cheia de encantamento e de oração.. terna e tranqüila. O Esposo da Pobreza No seu manto de amor e de alegria Inda abre os braços para os pecadores.

Santo de Assis. à luz da imensidade. divino “poverello”.. 73 . Amparando-lhe a alma combalida Nos desertos de lágrimas da Vida.. que devasta Todo o bem..Parnaso de Além-Túmulo O homem que sofre todas as misérias. Santo de Assis.Francisco Cândido Xavier . irmão da Caridade... Quero ainda abençoar-te a vida inteira... vi tua luz singela e casta Beijando as minhas lepras asquerosas. Nas amarguras do meu pesadelo De vaidade do mundo.. Que me curaste as lepras e a cegueira. E o conduz Ao regaço divino de Jesus!. Depois da morte. Uma chuva de lírios e de rosas Lavou-me o coração de pecador E guardei para sempre o teu amor.

muita vez me consumia Perquirindo nas leis da Biologia As expressões orgânicas das formas. porque o fundo Do númeno às eternas rutilâncias. O fenômeno apenas. Eram partes do Todo nas Substâncias Desde o estado prodrômico do mundo. . No rubro incêndio de batalha acesa. A essência onicriadora reformando. suficiente para lhe dar personalidade original. Era professor no Colégio Pedro 2º. alias. inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de sua predileção. Perpetuando-se em continuidade.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 74 16 Augusto dos Anjos PARAIBANO. Minas. Via Deus adstrito à Natureza. deixou um só livro – Eu – que foi. Com o espírito absconso em paroxismos. Concepção panteística. na cidade de Leopoldina. Voz do Infinito 1 No excêntrico labor das minhas normas Na Terra. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914. Deus era a lei de eternos transformismos. englobando As substâncias todas na Unidade.

Assim vivi na presunção que via. Dominava-me todo o medo horrível. A coroa aromática das flores. Dos cumes da Ciência e do saber. A alma era a molécula. desde o embrião inicial. Era um mero atavismo revivendo. Notava as pestilências cadavéricas Iguais à carne Angélica da infância. a matéria apodrecer. De idéia que esteriliza e desensina. Afastada do Todo Universal. E com certezas lógicas. Loucura que igualava Messalina À pureza lirial da Mãe do Cristo. Os princípios genéricos do ser. A luz dessa dourada ignorância. A sutilez do arminho que se veste. Vi.Francisco Cândido Xavier . Do meu viver. No pantanal da lama em que eu vivia. Irmanadas aos pútridos fedores De emanações pestíferas da peste! Extravagância e excesso jamais visto. E na individualidade indivisível 75 . numéricas. sofrendo. que eu via transtornado: Eu era um átomo individuado Em cerebralidade putrescível.Parnaso de Além-Túmulo O corpo. porém.

.Parnaso de Além-Túmulo Ouvi a voz esplêndida e terrível Da luz.. iguais aos odres Onde se guarda o fragmento imundo. E os instintos hidrófobos.Francisco Cândido Xavier . na luz etérica a dizer: 2 “Louco. Olhos cegos às chamas da bondade De Deus e à divina misericórdia. Que espalha o bem e as auras da concórdia No coração de toda a Humanidade. Que na Terra não viu os esplendores E as ignívomas luzes da virtude. esquelético fantasma Que gastaste a energia do teu plasma Em combates estéreis. E tanto viste os corpos e as matérias No esterquilínio generalizados. Alma pobre. Vias os teus iguais. que emerges de apodrecimentos. Vendo somente a cárie dos conjuntos. famulentos. Em teus dias inúteis. 76 . Entre as sombras das lágrimas terrenas. Em meio de excrescências e misérias Que corrompeste a íntima saúde Da tua alma cegada de amargores. danados. foste apenas Um corvo ou sanguessuga de defuntos. De todo o esterco que apavora o mundo E os tóxicos letais dos corpos podres.

negro e horrível. Da confusão dos seres embrionários. desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. Vitalizando corpos multiformes. em eternos infinitos! Vozes de uma sombra Donde venho? Das eras remotíssimas. Das células primevas. Do silêncio da mônada invisível. Da Terra no vultoso e imenso abdômen. vibrião das ruínas. Reconheci que a vida continuava Infinita. as carnes.Francisco Cândido Xavier . Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. Venho dos invisíveis protozoários. Filhos do pranto que me espedaçava. No turbilhão de todas as vertigens. fundas e enormes. Do tetro e fundo abismo. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando a luz das amplidões divinas. os estrumes. Em mil transmutações. E sufocando gritos. Sofri. A infinita desgraça de ser homem. Venho da fonte eterna das origens. Esquece o verme. Emergindo das cósmicas matérias. das bactérias. Das substâncias elementaríssimas.” 3 Calou-se a voz. 77 .Parnaso de Além-Túmulo Descansa. agora.

Descortinando as luzes do futuro. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres. voltei desse laboratório. Simbiose da dor e da tristeza. Um estafermo e um Tales de Mileto. Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. Durante penosíssimos minutos. a asa do inseto. não perceberás. E nem compreenderás como se opera 78 . analisando os fatos. Como animálculo medonho. Onde me revolvi como infusório. Enigmas insolúveis e profundos. apenas fui terrível presa. Como existiram. A razão do completo e do incompleto. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. Sombra egressa de lousa dura e fria. obscuro. A dor. Inda que desintegres energias. A flor da laranjeira. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra.Francisco Cândido Xavier . essa tirânica incendiária. Depois.

E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia. As epidermes e as aponevroses. 79 . o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo. A luz de Miguel Angelo nas artes. O céu iluminado. E a transubstanciação da guerra em paz. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas. A atividade e a inatividade. Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã.Parnaso de Além-Túmulo A mutação do inverno em primavera. Como vivem o novo e o obsoleto.Francisco Cândido Xavier . O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. As grandes atonias e as nevroses. Mostrando as luzes da imortalidade. O laconismo e a prolixidade. Como vive o canário junto ao corvo. Produto da experiência de Hahnemann. A noite da ignorância e o sol da Ciência. A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade.

E o jardim rescendendo de perfumes.Francisco Cândido Xavier . Repleto de dejetos e de estrumes. As idéias conexas e as loucas. Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. A teoria cristã e Augusto Comte. As coisas substanciais e as coisas ocas. Assombrosas antíteses no mundo. 80 . Vaso de carne podre. Junto dois palacetes higiênicos. Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. os vermes. o cemitério. Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. Os milhões de corpúsculos do ovário. É o gigante e o germe originário. A alma pura do Cristo e a de Tibério. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. E o desconhecido e o devassado. Os lombricóides mínimos.Parnaso de Além-Túmulo As atrações e as grandes repulsões. Onde há somente um óvulo fecundo. O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo. Em prodigiosas manifestações. Em contraposição com os paquidermes.

Homem! por mais que a idéia tua gastes. É a voz humana em intérminas nevroses. atrozes. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. Que inspiram pavor e inspiram medo. Na solução de todos os contrastes. Gritos de feras em paroxismos. sociológicos. Não saberás o cósmico segredo. Milhões de vozes. Aquilo que está longe e o que está perto. Seja nas concepções dos ateísmos. Outras vozes. 81 . Cosmopolitismos.” Voz humana Uma voz. O que não tem sinal e o que tem marca. Os fenômenos todos geológicos. confusa. científicos. Uivando subjugadas e ferozes. Buscando as perfeições do Amor em Deus.Francisco Cândido Xavier . Psíquicos. Duas vozes. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. A que se acolhem míseros ateus.Parnaso de Além-Túmulo Os terrenos povoados e o deserto. Como as tuberculoses e a anasarca. As atrofias e a hipertrofia. Para a Vida que eterna se renova. A funda simpatia e a antipatia. Caminharás lutando além da cova.

Enceguecido e louco então que eu era. 82 . É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. Nos distúrbios sutis da hipocondria. seres inorgânicos. Que eu às vezes na Terra empreendia. As luzes d'alma em trágicos segredos. Nas defectividades da estesia. Nos vastos campos da Psicologia. dos astros à monera. insaciada. Buscava as almas. Nas lágrimas. titânicos. Alma Nos combates ciclópicos. que gargalhando em nossas dores. Somente achava corpos na existência. Nutrir-se de famélicos prazeres. A dor. Que não via. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. Nos instintos soezes e tirânicos. nos risos e nos pânicos.

Em sexualidades e histerismos. estrambótica. Na agregação da carne e dos humores. E nisto achar fantásticos prazeres. 83 . Multiplicando as lágrimas e os trismos. Serpentes entre escrófulas e helmintos. se apaga Ao furacão indômito das dores. hipertrófica.Parnaso de Além-Túmulo Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos.Francisco Cândido Xavier . parece Cataclismo dos grandes cataclismos. fraquíssima. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. sem vigor. materializados. Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras. nervos. Atrocidade das atrocidades. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. Que. Tendo a alma – centelha. Nos recantos dos mundos inferiores. Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores. Voracidade onde a alma se mergulha. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. apodrece. Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. Que atrofiada. que. tegumentos.

Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. A cadeia de impulsos e de instintos. Das origens às súbitas asceses. Mas a análise crua do que eu via. Nos rochedos. a onda sonora. Rudimentos dos seres planetários. No profundo silêncio dos inermes. Que percorrem o espaço imensurável. Inferiores e rudimentares.Parnaso de Além-Túmulo Espíritos em ânsias retroativas. Nas ferezas do instinto. A mesma luz dos corpos estelares! 84 . Hedionda lição de anatomia. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável. No transcorrer das vidas sucessivas. atassalhados. O anseio da vida. É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução.Francisco Cândido Xavier . nas plantas e nos vermes. Transformando-se em luz. em sentimentos. Veríamos o evolver dos elementos. No assombroso prodígio das esteses.

85 . Viemos do principio das moneras.Parnaso de Além-Túmulo É que. Buscando as perfeições absolutas. Dissolvidos na terra famulenta. Heterogeneidades da Substância. Larva repugnante e vermiforme. Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância. dos invisíveis microcosmos. Ao monólito enorme das idades. O homem é fruto insólito da ânsia. Do intravascular princípio informe. Nos íntimos recôncavos da placenta. Tudo é clarão da evolução do cosmos.Francisco Cândido Xavier . Era um feixe de mônadas de vermes. Argamassando um Todo miserável. A quietação dos túmulos inermes. Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras. Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável. Enjaulados no cárcere das lutas. Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável.

Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome.Francisco Cândido Xavier . Depois da estercorária microbiana. Não há luta mavórtica que o dome. Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem. Volve o Espírito ao páramo celeste. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel.Parnaso de Além-Túmulo 2 Após a introspecção do Além da Morte. universal. Vendo a terra que os próprios ossos come. Ou venenada lâmina que o corte. De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. Onde a divina essência se reveste Da substância fluida. 86 . toda a bílis do iracundo. Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte.

se mistificasse No anonimato. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho. e por mais que o procurasse. entro Em relação com o mundo onde concentro 87 . E. se não vos declarasse. com intelecto de arbusto. O mesmo triste e estrábico produto. Jamais cri. lúcido. Levantar-me do leito de Procusto. em brasa. Sou eu. Atramente a gemer a mágoa e o luto.. Extremamente injusto Seria.Parnaso de Além-Túmulo Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente. À Terra volvo.. com Haeckel. Nas mais contrárias idiossincrasias. então. Se vos mentisse. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. Inexprimível nas termologias. Dentro da noite É noite. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou. Quer com Darwin.Francisco Cândido Xavier . sendo eu o Augusto. ígneo. com Laplace. Sou eu que.

Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor. Sentindo-se em seus leitos como em ermos. É a ânsia afrodisíaca das bocas. As dolorosas mágoas dos enfermos. Mais o enigma do mundo se lhe aviva. Verminados. da perpétua grade. D'alma quebrando o cárcere do instinto. Às bactérias mais vis ambas trocando. São os ais dos leprosos desprezados. cruéis. As dores espasmódicas dos partos. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios. Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios. 88 . tremendo. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. São uivos dos instintos jamais hartos.Parnaso de Além-Túmulo O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. Em diferenciação definitiva. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos. Buscando ávida a luz. que hórrida sinto. Por mais que sonde. Que nas bestialidades se unem loucas. Deplorando o destino miserando..Francisco Cândido Xavier . – A misérrima e pobre Humanidade. Sentindo os próprios membros carcomidos. apodrecidos. A desgraça dos úteros falidos..

além das catacumbas. coagulado. Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria. Trazendo dentro d'alma. Vejo a guerra pestífera dos sexos. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. E com os meus pensamentos desconexos.Parnaso de Além-Túmulo É o grito. Essa angústia indomável. Dos desejos que não se realizaram. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo... ao próximo sol-posto. o anseio. E ainda transpondo o Azul sereno. Onde traguei meus grandes amargores. o veneno 89 . Abominando as coisas deste mundo. Asco e dó. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos. a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem. Desde o sol-posto. atrocíssima.. Fujo. e chegam-me fortes cheiros acres. Como o cheiro de sangue dos massacres. Terra!. Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento. decomposto.Francisco Cândido Xavier . Fétido. Sinto em minhalma o tóxico. envoltos na ânsia..

Desse teu escafandro de albuminas.Francisco Cândido Xavier . pura. Objetivando a personalidade. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada Nos turbilhões das lutas cognitivas. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. essa voraz liberticida. alma humana. Vem dessa Origem indeterminada. Vem através do Todo de elementos. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada.Parnaso de Além-Túmulo E a desdita dos seres sofredores. No transcendentalismo da Unidade. Na imensidade Alma humana. Em sucessivos aperfeiçoamentos. tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne. Até achar à perfeição profunda E indivisível. Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! 90 . Sob transformações consecutivas. e se confunda.

úlceras. Singrando a luz de céus incomparáveis. Não podes perceber as ressonâncias. Deus e Pai. Em pleno espaço – Imensidade de ânsias.. 91 . De gangliomas. execrável. Submersão nas fluídicas belezas. Aqui não há vertigens de nevróticos. Do teu laboratório de arterites. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos.. sem número. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades.Parnaso de Além-Túmulo Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis. Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas. Envergando os etéreos organismos. Sem aritmologias das distâncias. São vibrações das almas evolvidas E que. Ante a minhalma fulgem ideogramas. nas regiões imensuráveis. Formam luminosíssimas paisagens. concretizadas e reunidas. Combinações no mundo das imagens. sem fim. Sem limites. Deixai meu ser esdrúxulo. Pensamentos radiosos como chamas.Francisco Cândido Xavier . nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades. ó Artista Inimitável.

Parnaso de Além-Túmulo No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra. E sou o espectro das anomalias. Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade. levanta o véu do teu futuro. Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. Eis-me longe dos rudes estertores.Francisco Cândido Xavier . Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. 92 . Aos fracos da vontade Homem. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias. Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores. Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. Não sou o homúnculo da hominal espécie. que me aterra. Mas contérmino à carne.

93 . sofre e chora. Que o sol da tua mente. De arcangélicas flores de Harmonia. esplenda. sobretudo. Fonte da força e altíssimo elemento. nefasto. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. Mas. Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. Ouve-te sempre a ronda do mistério. observa o pensamento. Com os tônicos sagrados da Virtude. eterno. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude. Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama.Parnaso de Além-Túmulo Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero. Com a espada resplendente da virtude.Francisco Cândido Xavier . Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares Vivam livres de todos os pesares. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida. Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto.

Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia. Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: 94 . És mais.Francisco Cândido Xavier . Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. és muito mais. a alma da luz resplandecente. Movimentando células de argila. a energia Potencial que dá vida aos elementos. Reflexas das ações psicológicas. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica.Parnaso de Além-Túmulo Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. és a cintila Do Céu. Nas células primevas da existência. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência. És um ser imortal e responsável. Apesar das verdades fisiológicas.

com o pensamento almo e insondável. Livro onde o Criador Inimitável Grava. Segregadas num mundo amargo e infame. Glorificando o instinto e a inteligência.Parnaso de Além-Túmulo Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos. Faz-se mister que o cárcere a conclame. Estirpe das escórias planetárias. Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos.Francisco Cândido Xavier . Mas um mundo de deuses decaídos. o éter divino. 95 . Seus poemas de seres e universos. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias. Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Fez da Terra o brilhante gral da Ciência. É do mundo o Od ignoto. Árvore genealógica de párias. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias.

Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame. No labor anatômico. atro e mudo. Fora de toda a sensação nervosa. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências. Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários. luta e goza. De consumir as podridões de tudo. horrendo e rudo. Consciência de todas as consciências. sim. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas.Parnaso de Além-Túmulo A subconsciência Há. 96 . no estudo Do germe. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. em seus impulsos embrionários. Que o neurônio oblitera por momentos. a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre. No órgão morto. impassível. Nos seus medonhos ágapes mortuários.Francisco Cândido Xavier .

Como o bolor e o mofo sob as heras. Está nas luzes da sobrevivência. Vida e Essência. fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. Desorganização molecular.. Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria.. Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. Do portentoso amor de Deus oriundos. Que manifesta o espírito nos mundos.Francisco Cândido Xavier . A alma que é Vibração. Na ascendência de todos os destinos. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar. E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço. Ou condição diversa da substância. Fim das forças do plasma agonizante. 97 .Parnaso de Além-Túmulo No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas. No transcendentalismo das esferas.

98 .. Pavorosos esgares de gemido. Feito à noite de enigma profundo!. Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. de horror. E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas. de ânsia e de medo.. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas.Francisco Cândido Xavier . Vive o homem da Terra adormecido. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria. alta. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema. imortal. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. Entre as sombras das míseras estradas.Parnaso de Além-Túmulo Sob o acervo das células taradas. Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas. Homem da Terra! trágico segredo De miséria. Deixando corpos pelos cemitérios.

amargo e morto. E rasteja o dragão horrendo e informe. 99 . Visões apocalípticas do mal. Morre de frio e fel.Francisco Cândido Xavier . Desenhadas por corvos vagabundos. filosófico ou sem nome. Nas vitórias fantásticas do verme. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. de sede e fome. Quadros de sangue. Muralhas. Trevas. A civilização do desconforto. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas. O homem.Parnaso de Além-Túmulo Anjo da Sombra. De mentira e veneno cerebrais. Nas sombras Bombardeios. Ossuários tremendos sob as flores. mísero e perverso. Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. É o triunfo terrível do coveiro. Canhões. lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. Enquanto a desventura chora inerme.

No turbilhão das sombras negativas. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração. das causas positivas. Homem-verme Desolação. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas. vencendo o abismo!. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio. O homem sôfrego e bruto. verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta..Francisco Cândido Xavier . de ânsia em ânsia. na estrada eterna e justa.. 100 . Foi preciso “morrer” no campo inglório. Bem distante. Tem a chave do Céu. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. Mas só a Fé. Para encontrar esse laboratório De beleza. Confissão Também eu. Apesar de ingentíssimos labores. Não encontrei a luz das forças vivas. Terror e morticínio.Parnaso de Além-Túmulo Ai de vós nos abismos da aflição.

Parnaso de Além-Túmulo 101 É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância. o pântano terrível. Ao crepitar de rúbidos incêndios. este solo generoso. que detestavas. Exaltando a vaidade sem substância. Augusto. 7 Poesia recebida em 18 de junho de 1940. Sobre a idéia cristã medrando em germe.Francisco Cândido Xavier . De lodo e lama. Aqui. Em quase tudo. Ídolo podre sobre o esterquilínio. . Nas maravilhas de seus resplendores. Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão. Beija. Por toda a parte. Volta. Proclama a vida além das catacumbas. em sombra e vilipêndios. do pó que envolve as tumbas. Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. em Leopoldina. E onde sorveste o cálice amargoso. Augusto. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas. onde foi sepultado o poeta. buscaste o campo de repouso. escorre o sangue horrível.

102 . Feito de sânie e de cadaverinas. Nos turbilhões fatídicos da guerra. Sangrou Jesus em lágrimas divinas. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor. Em vão.. Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo.Parnaso de Além-Túmulo Ajoelha-te e lembra o último abrigo.. sobre o Calvário áspero e bruto. angústia e pena. de pranto e luto.. Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. Porque na luz dos círculos da Terra. em ruínas. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto.. Saturada de treva. A Lei Em reflexões misérrimas.Francisco Cândido Xavier . Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! . Ainda é Caim que impera sobre o mundo. absorto.

103 .“ Mas. Enfrentando o pavor da mesma treva. amigo. A molécula morta desafia. Encontrarás teus gritos solitários. uma voz da luz dos grandes mundos. Se não tens coração que aceite a crença. Espera a mão da morte excelsa. Cessa a miséria de teus raciocínios. e pensa.. Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários. O mistério da célula primeva. Desde o instante infeliz de Adão e Eva...” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários.. Em conceitos sublimes e profundos. Não insultes as leis universais. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!. Pára. Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento. Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta. Os impulsos dos sonhos embrionários.

Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta. Entre prantos pungentes. 104 .Francisco Cândido Xavier . A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. embora o Direito. A Civilização regressa à taba. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas.Parnaso de Além-Túmulo Que a carne volve ao pó. Multiplicando Herodes e Pilatos. Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. que é sempre o tigre carniceiro. Depois de vinte séculos ingratos. o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta. Trevas. A construção dos séculos desaba. Correm de novo as lágrimas divinas. exangue e fria. Canhões. Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio. Enquanto grita a turba ignara e injusta. Pois. Apaga-se o milênio. o Livro e a Toga.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio. Mas. através da tempestade. Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. É Jesus que. Novo sol banha o pélago profundo. 105 . acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue.

aos 24 anos. sofredor. E eu. que era irmã dos grandes sofredores. Rio Grande do Norte. em 1936. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas. Via presas do pranto e da agonia. Castriano. A segunda edição. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. traz uma biografia da Autora por H. E confiada na crença que tivera. feita em Paris. Deixou um único livro. Horto. Almas feridas e dilaceradas. em 1910. apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. teve uma terceira edição no Rio de Janeiro. muito místico. em Macaíba. . em outubro de 1899. Almas dilaceradas Quando.Parnaso de Além-Túmulo 106 17 Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. Espírito melancólico. na Terra inda. em dores. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados. em Natal. cuja primeira edição. portanto. Finalmente. prefaciada por Olavo Bilac.Francisco Cândido Xavier . desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. Sofria.

Que o coração dormente. Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida. porém. Deve fugir das horas de repouso. Há. Tal desalento e tantas desventuras. Minorando as alheias amarguras. que torna a alma florida. Somente a dor intérmina que mata 107 . Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. a pleno gozo.Francisco Cândido Xavier . Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata.Parnaso de Além-Túmulo Cheguei à luz da eterna primavera. Onde há paz para os pobres desgraçados. Sobrepujando instantes de alegria. tanta dor em demasia. E há também os reflexos da aurora De ventura. Aureolada de luz confortadora. A alegria fulgente e estremecida.

a paz e a crença. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores. o amor. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! 108 . porém. Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos. Senti. A mesma dor que eu tanto padecia. Se apenas vi. nevoentos. na própria Natureza. E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo. Então parti. Que se extinguia em atros sofrimentos..Parnaso de Além-Túmulo A alegria mais lúcida e mais pura. sem paz. O veneno da acerba desventura Que fere em nós a aspiração mais grata. a mágoa intensa Que rouba a luz.. serena e jubilosa. É que a dor da minhalma em tudo eu via. Sem as sombras da dor e da agonia.Francisco Cândido Xavier . minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora. porém. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. sem flores. Do meu viver sem luz.

Jesus. Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais.Francisco Cândido Xavier . ditosa agora. a vida inteira. Canto de luz dos páramos celestes.. Por teu amor. Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. eterna e derradeira!. Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais 109 . Em paz serena..Parnaso de Além-Túmulo Em paz Tanto roguei a paz consoladora. Durante os meus amargos sofrimentos. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso. Elevando a Jesus meus pensamentos. Abrasada de amor eu viveria. Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. meu Jesus. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado. Nessas paragens de deslumbramentos.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Depois da treva espessa da amargura:
Para exaltar as luzes que me deste
Na cariciosa e doce paz celeste,
Meu tesouro de fúlgida ventura;
Para contar tua bondade imensa
Aos meus irmãos, os homens pecadores,
Mergulhados na noite da descrença,
Nos abismos dos males e das dores;
Para falar a todas as criaturas,
Da tua alma esplendente de bondade,
Afastando as amargas desventuras
Do coração da pobre Humanidade!
Aos teus pés, meu Jesus, a vida inteira,
Abrasada de amor eu viveria,
Sorvendo a luz no cálix da harmonia,
Em paz serena, eterna e derradeira!...

Mãe
Ó minha santa mãe! era bem certo
Que entre as preces maternas estendias
As tuas mãos sobre os meus tristes dias,
Quando na Terra – que era o meu deserto.
Nos instantes de dor, bem que eu sentia
As tuas asas de Anjo da Ternura,
Pairando sobre a minha desventura
Feita de prantos e melancolia.

110

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Flor ressequida eu era, e tu o orvalho
Que me nutria, pobre e empalecida;
Era a tua alma a luz da minha vida,
Meu tesouro, meu dúlcido agasalho!...
Ai de mim sem a tua alma bondosa,
Que me dava a promessa da esperança,
Raio de luz, de amor e de bonança,
Na escuridão da vida dolorosa.
E que felicidade doce e pura,
A que senti após a treva e a morte,
Findo o terror da minha negra sorte,
Quando vi teu sorriso de ventura!
Então, senti que as Mães são mensageiras
De Maria, Mãe de anjos e de flores,
E Mãe das nossas Mães cheias de amores,
Nossas meigas e eternas companheiras!...

Prece
Estendei vossa mão bondosa e pura,
Mãe querida dos fracos pecadores,
Aos corações dos pobres sofredores
Mergulhados nos prantos da amargura.
Derramai vossa luz, toda esplendores,
Da imensidade, da radiosa altura,
Da região ditosa da ventura,
Sobre a sombra dos cárceres das dores!

111

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes,
Mais amor, desse amor que já nos destes,
Queremos nós em cada novo dia;
Vós que mudais em flores os espinhos,
Transformai toda a treva dos caminhos
Em clarões refulgentes de alegria.

Adeus
O sino plange em terna suavidade,
No ambiente balsâmico da igreja;
Entre as naves, no altar, em tudo adeja
O perfume dos goivos da saudade.
Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;
E a alma que regressou do exílio beija
A luz que resplandece, que viceja,
Na catedral azul da imensidade.
“Adeus, Terra das minhas desventuras...
Adeus, amados meus...” – diz nas alturas
A alma liberta, o azul do céu singrando...
– Adeus... – choram as rosas desfolhadas,
– Adeus... – clamam as vozes desoladas
De quem ficou no exílio soluçando...

Almas
Ó solitário das estradas,

112

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Desventurado pensador,
Há no caminho “almas penadas”
Que vão clamando desoladas
A dor e o pranto, o pranto e a dor!...
Vós, que o silêncio amais no mundo,
Em orações ao pé do altar,
Sob as arcadas silenciosas,
Almas feridas, desditosas,
Oram convosco a soluçar.
Ao descansardes, meditando,
À sombra de árvores em flor,
Sabei que às vezes sois seguidos
Pelas angústias dos gemidos,
De almas chagadas no amargor.
Clareie a luz do sol-nascente,
Negreje a treva na amplidão,
Gemem na Terra muitos seres
Pelos amargos padeceres
Depois da morte, na aflição.
Dai-lhes dos vossos pensamentos
Consolação que adoce a dor,
Dai um conforto à desventura,
A prece cheia de ternura,
Algo de afeto, algo de amor!...

Almas de virgens
Andam sombras errando abandonadas

113

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ao pé das lousas e das covas frias,
Almas de pobres freiras desamadas,
Perambulando pelas sacristias.
Almas das que não foram desposadas,
Como bandos de rolas erradias,
Angélicas visões de bem-amadas,
Mortas na aurora rútila dos dias...
Virgens mortas! Tristíssimas oblatas
De um sacrário de luz piedoso e santo,
Que sonhais entre os tálamos celestes,
Entoai nos céus as tristes serenatas
Com as vossas roxas túnicas de pranto,
Cantando à luz do amor que não tivestes!..

Carta íntima
Escuta, meu irmão! Pelo caminho
Da miséria terrestre, há muitas dores;
Muito fel, muita sombra, muito espinho,
Entre falsos prazeres tentadores.
Há feridas que sangram... Há pavores
De órfãos sem lar, sem pão e sem carinho:
Confortemos os pobres sofredores,
Almas saudosas do Celeste Ninho!
Jesus há de sorrir com o teu sorriso,
Quando faças no mundo o bem preciso,
Pelo que sofre em desesperação.

114

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todo o bem que plantares nessa vida,
Há de esperar tua alma redimida
Nos caminhos de luz e redenção!

Maria
Toda a expressão de ternura
Do mundo de provação,
Nos Céus ditosos procura
A sua excelsa afeição.
Consolo das mães piedosas,
Cheias de mágoa e de pranto,
Sobre quem atira as rosas
Do seu Amor sacrossanto.
Ninguém diz, ninguém traduz
Essa visão da Harmonia,
Visão de paz e de luz,
Paz dos Céus! Ave-Maria!

Mensagem fraterna
Meu irmão: Tuas preces mais singelas
São ouvidas no espaço ilimitado,
Mas sei que às vezes choras, consternado,
Ao silêncio da força que interpelas.
Volve ao teu templo interno abandonado,
- A mais alta de todas as capelas –

115

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E as respostas mais lúcidas e belas
Hão de trazer-te alegre e deslumbrado.
Ouve o teu coração em cada prece.
Deus responde em ti mesmo e te esclarece
Com a força eterna da consolação;
Compreenderás a dor que te domina,
Sob a linguagem pura e peregrina
Da voz de Deus, em luz de redenção.

Vinde!
Todo anseio da crença acalma as dores,
Toda prece é uma luz para quem chora,
A oração é o caminho cor de aurora
Para o sonho dos pobres pecadores!...
Ó corações que a lágrima devora!
Vinde, através dos rudes amargores,
Cantar na luz dos grandes esplendores
Vossa iluminação de cada hora!...
Vinde rememorar no espaço infindo,
Neste Lar de Jesus, ditoso e lindo,
As desventuras para bendizê-las...
Feliz o coração sereno e forte,
Que triunfa da lágrima e da morte,
Palpitando na esfera das estrelas!...

116

E percorre o silêncio do caminho. E os próprios sofrimentos da impiedade São as bênçãos de luz do seu carinho. Traz às sombras da vida a claridade.. 117 .Francisco Cândido Xavier . Ele chega. E o amor se perpetua.. Vem ao nosso amargoso torvelinho. faça frio ou tempestade. E protege a miséria mais sombria. É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia.. Como o Sol que dá vida sem alarde. E eis que Ele chega sempre de mansinho.Parnaso de Além-Túmulo O Senhor vem.. Veste o manto do amor e da verdade. Vem o Senhor que nunca chega tarde. Haja sol.

2 Uma campina de flores . município de Rio Bonito. Quais flores das primaveras. falecendo em 1916. a 19 de janeiro de 1859. E as almas puras. Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. Notabilizou-se no gênero descritivo. espaço em fora. eleitas. no Rio de Janeiro. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881). quando funcionário do Correio Geral. Modeladas pela dor.Parnaso de Além-Túmulo 118 18 B. Como lírios cor da aurora. Rosas de paz e de amor. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes. Vão todas. Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas.Francisco Cândido Xavier . Luminosas. rarefeitas. no Estado do Rio.

Francisco Cândido Xavier . Minúscula. Dos lábios de anjos formosos. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores. Nesse batismo de luz. Mirando-a enternecida.Parnaso de Além-Túmulo Em pleno espaço infinito. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. Beija-lhe a filha inocente. Recebendo entre outros gozos. E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. Cromos 1 Na alcova desguarnecida. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha 119 . O ósculo de Jesus. Sobre uma enxerga. a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida. embevecida.

Francisco Cândido Xavier . Do clarão da sua fé. Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado.Parnaso de Além-Túmulo À santa lá do altar. O Jesus que ele não vê. E com esta minha promessa.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. 120 . E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa. ora. implora Perdão para o seu pecado. suplica. Ao seu Jesus bem-amado. E pede. Cheio de lágrimas. Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. Vêem-se raios formosos. Dimanando luminosos.

Que me desse um consolo a tantas dores. Olavo Bilac. 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento .. soluço. Com ansiedade e temores dos galés. clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés.. na rua Pedro Américo. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. original e simples.Francisco Cândido Xavier . atribuindo-se a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. um dia.Parnaso de Além-Túmulo 121 19 Batista Cepelos POETA paulista. ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes. em 1915. desencarnou no Rio de Janeiro. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores. Desalentado e triste. Encaminhei-me à porta da Agonia. Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores. Corroído por chagas interiores. Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. pávida de medo. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza. exalta-lhe o estro espontâneo.

Cheia de tempestade e sofrimento. sim! depois de tantos anos De tormentos. dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa. Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. que está na dor depuradora. essa noite indefinida.Parnaso de Além-Túmulo Da minha dor imensa. a paz calma e serena. rude.. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora.. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora. Para beber no cálix da matéria 122 . Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora. o brando afago Da Luz. Tenebrosa. No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida. incompreendida.Francisco Cândido Xavier . Agora. Quando terei os bens. em meio aos desenganos. Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável. Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento. Onde o não-ser.

Parnaso de Além-Túmulo As essências das dores renegadas! 123 .Francisco Cândido Xavier .

notário público. 2 Com a ignorância proterva. Encontrei paz e conforto Na vida. . Ansiosa atrás do prazer.Francisco Cândido Xavier . Popularizou-se. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. Poeta. corre. depois. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. pela singeleza e espontaneidade da sua musa. Eis as rimas de outro norte. da qual foi um dos fundadores. depois da morte. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. Que a morte é o fim. luta e morre Sem jamais o conhecer. Que escreve o poeta morto. Minas. Iniciou-se na vida comercial e foi. Estou mais moço e mais forte.Parnaso de Além-Túmulo 124 20 Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. em Juiz de Fora. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. 3 Quanta gente corre. o homem pensa. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. sobretudo. e aí desencarnou em 1937. Sonha e chora. comediógrafo e jornalista nato.

125 . Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana.Parnaso de Além-Túmulo Não há ninguém que se forre. ao padecer. meu irmão. Inda é torre de Babel. Não corras atrás da sorte. 8 A Terra. guarda A fé do teu coração. Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. Nas mágoas do mundo. 4 Fecha a bolsa da ambição. 6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. da morte ao sorvedouro. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro. Tem coragem. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana.Francisco Cândido Xavier . para quem sente. Ninguém se acaba com a morte. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição. 7 Entre a fé e o fanatismo. Mas. Sobre a Terra. Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. O segundo é o dogmatismo.

na Terra sombria. Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa. Que o homem siga a Jesus. A essa estrada voltará. 10 Na vida sempre supus. em prol do Reino da Luz. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. 9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má.Parnaso de Além-Túmulo Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. Que. Quem é rico. quem é nobre. Corações de lodo e fel.Francisco Cândido Xavier . Sem muita filosofia. Basta. Com a bênção que Deus nos dá. Recorda que o mundo vão É grande necessitado. Que a mulher siga a Maria. É uma ventura ser pobre. Vais procurar a ventura? 126 .

127 . Eterna a fonte do amor. Modera-te na alegria.. Não vivas correndo a esmo. Acalma-te na aflição. Que símbolo sacrossanto!. Atapetados de espinhos. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia. Muita fronte encanecida É fronte de criançola. Toma posse de ti mesmo. No curso de aquisições.. Quem desce é riso enganoso. Não te aflijas. Esquece as inquietações.Francisco Cândido Xavier . pela dor. Quem sobe é suor e pranto. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. Não prendas o coração Nos laços da fantasia. O caminho é ilimitado. Não perguntes ao passado Pela sombra. Olha o monte luminoso.Parnaso de Além-Túmulo Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura. A bonança É flor de sabedoria.

Todo esforço com Jesus É vida na eternidade. Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa.Francisco Cândido Xavier . Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários. Mentiras da vaidade. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários. A mão terna do carinho 128 . Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória. 5 É ditosa no caminho. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória. 3 Dinheiro do mundo vão. Alegre como ninguém. Não trazem ao coração A luz da felicidade. Age sempre com bondade.Parnaso de Além-Túmulo No impulso que te conduz.

Francisco Cândido Xavier . 6 Angústias. danos.Parnaso de Além-Túmulo Que vive espalhando o bem. Tudo isso tenho visto. Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo. 129 . derrotas.

. Mas.Parnaso de Além-Túmulo 130 21 Bittencourt Sampaio SERGIPANO. Reformador. desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1895. deputado por sua província em duas legislaturas e Presidente do Espírito Santo. ou seja o Evangelho de João. Diretor da Biblioteca Nacional e jornalista de mérito. . Providência dos fracos pecadores. E. em magníficos versos brancos. por dar-nos obras como Jesus perante a Cristandade. Foi político ativo. ainda hoje se manifesta. aponta Poesias (1859) e Flores Silvestres (1860). nascido na cidade de Laranjeiras. A custódia das almas sofredoras. A salvação dos náufragos da vida. verdadeiro poema em prosa.Francisco Cândido Xavier . de 1937 (página 494). que é A Divina Epopéia. um dos mais brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita. como tal.. Anjo guiador dos homens desgarrados Do Evangelho de luz do Filho vosso. publicou-lhe a biografia. Virgem formosa e pura da bondade. Consolação e paz dos desterrados Do venturoso aprisco das ovelhas De Jesus-Cristo. mas omite a maior das suas obras. o Filho muito amado! Fanal radioso aos pobres degredados. no último quartel da vida terrena. À Virgem Vós sois no mundo a estrela da esperança. em 19 de fevereiro de 1834. é que Bittencourt Sampaio foi. A fonte de onde respigamos estes dados. tais como estes.

Estendei vossos braços tutelares À Humanidade inteira. No tenebroso báratro das dores.. Apiedai-vos dos frágeis caminhantes. Dai fortaleza àqueles que fraquejam. Fugitivos da luz que os esclarece! Anjo da caridade e da virtude. Enxugai-lhes as lágrimas penosas! Virgem imaculada de ternura. que padece. E corações farpeados de amarguras. Clarão que sobre as trevas da cegueira Expulsa a escuridão das consciências! Virgem da piedade e da pureza.Parnaso de Além-Túmulo Astro de amor na noite dos abismos. eterno e puro! Dulcificai as mágoas que laceram 131 . caminhando Em busca de outras noites mais escuras. Cegos desventurados. Afastados do amor e da verdade. Iluminai os cérebros descrentes. que lhes ensombra a mente e a vista... Fortalecei a fé dos vacilantes. Abençoai os mansos e os humildes Que acima de ouropéis enganadores Põem o amor de Jesus. Clareai as sendas obscurecidas Dos que se vão nos pântanos dos vícios!.Francisco Cândido Xavier . Existem almas míseras que choram Amarradas ao potro das torturas. Estendei vossas asas luminosas Sobre tanta miséria e tantos prantos. Espíritos na treva das angústias. Legião de penitentes voluntários. Mergulhados nas tredas tempestades Do mal..

Cremos em vós. Estendei. o vosso manto Constelado de todas as virtudes.. Mãe de Jesus.. Virgem pura.. Providência da pobre Humanidade!... Vinde a nós! nossas almas vos esperam. Afastando amarguras... Senhora. Farol brilhante iluminando os trilhos De todos os viajores que caminham Pela mão de Jesus. 132 . que os acalente e os conforte! Virgem. Sobre a nudez de tantos sofrimentos Que despedaçam almas exiladas No orbe da expiação que regenera. piedosa Virgem de bondade. que ampara e que redime. Atendei nossas súplicas..Parnaso de Além-Túmulo Pobres almas aflitas na voragem Das provações mais rudes e amargosas. repartido Entre os esfomeados e os sedentos De paz.. Conforto às almas tristes deste mundo. concedendo Claridades a estradas pedregosas. Ajudai-nos a fim de que a vençamos. Derramai sobre nós o eflúvio santo Do vosso amor. Ele será a luz resplandecente Sobre a miséria dos padecimentos.. Porto de segurança aos viajantes.. doce e bondosa. na vossa alma divina! Vinde! . Clarão de sol nas trevas mais espessas..Francisco Cândido Xavier . dai-nos mais força e mais coragem. Vinde a nós que na luta fraquejamos. Vinde. Almas de filhos míseros que sofrem. anjo de amor. O pão miraculoso.

De vossa caridade soberana.. reunida. A Rainha dos Anjos. Fortalecei-nos a alma dolorida Na redenção da iniqüidade humana. Implorando a piedade. Providência de todos os aflitos. Inundando de amor e de ternura As feridas cruéis e dolorosas. Neste banquete místico do amor.Parnaso de Além-Túmulo A Maria Eis-nos. Nossas sinceras preces ao Senhor. a pobre caravana Em fervorosas súplicas. ditosos e infinitos. 133 . Às filhas da Terra Do Seu trono de luzes e de rosas. Ela conhece as lágrimas penosas E recebe a oração da alma insegura. Ouvi dos Céus. Com o bálsamo da crença que promana Das luzes da bondade esclarecida. Senhora. Que campeia nas sendas espinhosas. a paz e a vida.. Estende os braços para a desventura.Francisco Cândido Xavier . Que a nossa caravana da Verdade Colabore no Bem da Humanidade. meiga e pura.

Mãe de todas as mães infortunadas. em vossas próprias almas. esposas. 134 . mãe bendita. Conforta os corações encarcerados Nas algemas do mundo amargo e aflito. Imitai-a na dor do vosso trilho!. Anjo consolador dos desterrados... que andam na Terra. E encontrareis. A alegria do reino de Seu Filho! À Virgem Do teu trono de róseas alvoradas. Mitiga a dor das almas desditosas Entre as sombras de míseras estradas. mães. Ao teu olhar. Não conserveis do mundo o brilho e as palmas. as lágrimas da guerra E os quadros de amargor. Estende. irmãs. No turbilhão dos homens e das coisas. as mãos radiosas Sobre a angústia das sendas escabrosas Onde choram as mães atormentadas.Parnaso de Além-Túmulo Filhas da Terra. São caminhos de luz para o Infinito.Francisco Cândido Xavier . Com tua alma de unos e de rosas.

o Sacrifício e a Humildade. e faleceu em 30 de agosto de 1933. Grinalda de Violetas. Em fúria iconoclasta. a alma rubra e inquieta. Saudava alvoroçado O segredo da noite e a luz clara do dia. Meu coração. A pomba predileta Do prazer..Parnaso de Além-Túmulo 135 22 Cármen Cinira NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu no Rio de Janeiro.Francisco Cândido Xavier . da ilusão e da alegria. Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava serem os seus versos de origem mediúnica... a Renúncia. Pisando sutilmente o meu caminho. Foste. Glorificou o Amor.. alegre cotovia. .. em minha fantasia: Primeiramente. austera e inclemente. Dor. Como o simum que arrasta As cidades repletas de tesouros Confundindo-as no pó. Sensibilidade. Quando chegaste de mansinho. despreocupada. E eu te enxerguei. Em meu engano. em 1902. Minha luz Eu era.. em obras como: Crisálida. A um dos belos tesouros que eu possuía E mo roubaste para sempre.

. Destruindo-os sem dó. Que eu pusera nos astros Em meio às melodias estelares! Mas. 136 . Minhas bonecas de biscuí. E humilhaste Meus sonhos de mulher e de menina. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo. Encheste a minha vida De um estupendo prazer. Tudo sofri. Foste a sombra divina Que acompanhou meus passos ao sepulcro. Prosseguiste.Parnaso de Além-Túmulo Foste aos meus ídolos mais caros.. por te querer.. Na tua obra silente e solitária. desde que chegaste. Minhas estatuetas singulares. ó Dor depuradora. Meus mármores de Paros. Meus cofres de alabastros. Porque representaste em meu destino.. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios. ó divina estatuária. Ó Dor. Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. E quebraste Minhas cítaras de ouro.Francisco Cândido Xavier .

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

De alma sofredora,
O fanal peregrino
Que me guiou constantemente
Através das estradas espinhosas
Para as manhãs radiosas
Da Luz Resplandecente...
Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa,
Pois da volúpia estranha dos teus braços,
Vim pelas mãos da morte complacente
Para a vida sublime dos Espaços!...

Aos Espíritos consoladores
Donde éreis vós, ó formas imprecisas
De arcanjos tutelares,
Cujas vozes suaves como brisas
Trouxeram-me nas dores,
No auge do meu sofrer, nos meus penares,
A irradiação de brando refrigério!...
Frontes aureoladas de esplendores,
Seres cheios de amor e de mistério,
Cujas mãos compassivas
Ungiram meu coração resignado
Com o bálsamo do olvido do passado,
E com os místicos olores
Das meigas sempre-vivas
Da fé mais luminosa e mais ardente...
Seríeis o fantasma imaginário
Da mórbida exaltação d'alma do crente?

137

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Não, porque sois os cireneus piedosos
Dos que vão em demanda do Calvário
Da Redenção, nos sofrimentos rudes;
Vindes das mais remotas altitudes
De sublimados mundos luminosos!...
Seres do Amor, jamais traduziria
O cântico de luz
Que trouxestes ao leito da agonia
Que eu transpus,
Cheia de desenganos e gemidos!...
Verto ainda os meus prantos comovidos
Lembrando-me do vosso Stradivárius,
Repetindo as cadências dos hinários
Dos orbes da Ventura e da Harmonia,
Onde habitais, glorificando o Amor
Que d'alma faz um ninho de alegria
E um foco de esplendor!
Em que sol deslumbrante, em qual esfera
Viveis a vossa eterna primavera?
Ó irmãos consoladores,
Que vindes confortar os pecadores
Penitentes da vida transitória,
Dai-me um pouco de luz da vossa glória,
Estendei-me uma única migalha
Da vossa paz, que nutre e que agasalha
Os corações iguais ao meu!...
Tenho sede do amor que enfeita o Céu!
Espíritos da luz radiosa e infinda,
Minhalma é fraca e pobre ainda;

138

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todavia, imortal,
Quero ter dessa luz resplandecente,
E quero embriagar-me inteiramente
Com os vinhos da alegria celestial.

Cigarra morta
Chamam-me agora aí
Cigarra morta,
E não podia haver melhor definição,
Porque caí estonteada à porta
Do castelo em ruínas,
Do desencanto e da desilusão!...
Minhas futilidades pequeninas...
Meus grandes desenganos...
Eu mesma inda não sei
Se é ventura morrer na flor dos anos...
Sei apenas que choro
O tempo que perdi,
Cantando em demasia a carne inutilmente;
E vivo aqui, somente,
De quanto idealizei
De belo, de perfeito, grande e santo,
Que inda hei de realizar
Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.
Dá-me força, Senhor,
Para concretizar meu anseio de amor:
Evita-me a saudade
Da minha improdutiva mocidade!

139

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Eu não quero sentir,
Como cigarra que era,
A falta das canículas doiradas
Sob a luz de ridente primavera.
Já que tombei cansada de cantar,
Calando amargamente,
Perdoa, Deus de Amor, o meu pecado:
Que eu olvide a cigarra do passado,
Para ser uma abelha previdente.

Era uma vez...
Era uma vez Cármen Cinira, Um coração
Cheio de sonho e flor, que mal se abrira
Nos jardins encantados da ilusão...
Estraçalhou-se para sempre
Na voragem
Das trevas, dos abrolhos!...
Era uma vez Cármen Cinira...
Uma suposta imagem
Da perene alegria,
Mas que trouxe em seus olhos,
Eternamente,
Essa amarga expressão de alma doente,
Cheia de pranto e de melancolia!...
Cármen Cinira! Cármen Cinira!
Que é da minha cigarra cantadeira?
Embalde te procuro.
Por que cantaste assim a vida inteira,
Cigarra distraída do futuro?

140

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Perturbada,
Aturdida,
Busco a mim mesma aqui nestoutra vida...
Onde estou, onde estou?
Minha vida terrena se acabou
E sinto outra existência revelada!
Não sei por que me sinto amargurada...
Sinto que a luz me guia
Para a paz, para um mundo de alegria.
Mas, ó imortalidade
Se na Terra eu te via
Como a aurora divina da verdade,
Não julguei que inda a morte me abriria
Esse cenário deslumbrante
De outros sóis e de outros seres,
E vejo agora
Que não amei bastante,
E não cumpri à risca os meus deveres!
A fagulha de crença
Que eu possuía,
Devia transformar numa fornalha imensa
De fé consoladora,
E incendiar-me para ser luzeiro.
Mas, ó Senhor da paz confortadora,
Eu vi chegar o dia derradeiro
Em minha dor, na máscara de festa,
E a morte me apanhou
Como se apanha uma ave na floresta.
Experimento a grande liberdade!
Todavia, Senhor, ampara-me e protege

141

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Minha triste humildade!
Eu te agradeço a paz que já me deste,
Mas eis que ainda te imploro comovida,
Porque me sinto em fraca segurança;
Deixa que eu guarde ainda nesta vida
Meu escrínio de estrelas da Esperança.

À Juventude
Juventude linda e ardente,
Mocidade querida que eu exorto,
Meu coração de carne, esse está morto,
Mas minha alma que é eterna está presente.
Zelai pelo plantio, ó juventude,
Das flores perfumadas da virtude,
Porque depois dos sonhos terminados
Em nossos ermos e últimos caminhos,
Ai! como nos ferem os espinhos
Das belas rosas rubras dos pecados!

O viajor e a Fé
– “Donde vens, viajor triste e cansado?”
– “Venho da terra estéril da ilusão.”
– “Que trazes?”
– “A miséria do pecado,
De alma ferida e morto o coração.
Ah! quem me dera a bênção da esperança,
Quem me dera consolo à desventura!”

142

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Mas a fé generosa, humilde e mansa,
Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura:
– “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos,
Que esclarece e conforta os sofredores!...
Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos,
Mas com Jesus um espinho tem mil flores!”

O sinal
Quando chegamos do País do Gozo,
Nossa alma sem repouso
Traz o sinal das trevas do pecado.
Nossa alegria é um riso envenenado.
A palavra disfarça o coração
E a nossa dor é desesperação.
Tudo é sombra. A verdade não tem voz.
Muita vez, tudo é queda dentro em nós.
Mas os que vêm do Mundo dos Deveres
Guardam a luz de místicos prazeres.
Não têm palmas da Terra impenitente...
Como tudo, porém, é diferente!...
Sua alegria é um fruto adocicado,
Sua palavra é um livro iluminado,
Sua dor alivia as outras dores.
Trazem o amor de todos os amores,
Revelando na vida transitória
O sinal do Calvário aberto em glória!

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Doces. Dentro da noite. lá fora. Beija o filho a mãezinha idolatrada. Ao pé da multidão. De esperança e de mel. Mas. a tristeza continua.Parnaso de Além-Túmulo Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos. Une-se o noivo à noiva bem-amada. Sob claro dossel. Ralado de tortura e sofrimento.Francisco Cândido Xavier . Há quem clama piedade e passa ao vento. A estrela de Belém volta. Sem a graça de um pão.. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia. em vagas de perfume. de novo. em plena rua. Cantando a excelsitude do Natal!.. O irmão abraça o irmão.. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! 144 . Em festiva oração. Nascem canções e flores de mansinho.. Sob a crença imortal. harmoniosos... ante os júbilos do povo. Há quem contempla o céu maravilhoso. A brilhar. Em édenes fechados de carinho. Há quem chora sozinho. cristalinos. há corações ao lume E há sempre um bolo.

que aceitaste a luz renovadora. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. aflita. 145 . Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz. fraternalmente. Temperado de amor.. Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus. Para unir-nos no Amor. Vem medicar quem geme na calçada!. Que só pede um sorriso brando à porta. quase morta. Há muita crença enferma.. de viagem. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria. Natal!. Volve o olhar compassivo à senda escura. Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós. Tu. Para tornar à luz. Prossegue o Mestre.. Vem amparar os filhos da amargura. Oferece à criança abandonada Um velho cobertor... Que não podem sorrir.. Que segue. Do Rei que se humilhou na manjedoura Para amar e servir.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Ah! como é triste a imensa caravana.

nem pousada Em nosso coração. em vão!. 146 . E encontra sempre a cruz. Um ninho pobre. ao fim da estrada.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Em vão buscando um quarto de estalagem... Por não achar socorro.

porém. Compreendi que os abrolhos . os desalentos. Fugi do pesar profundo. Nas radiantes alturas. Confiado no amor de Deus. para de todo cegar da outra aos 16. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. abrira os olhos Em meio de luzes puras. As mágoas.Parnaso de Além-Túmulo 147 23 Casimiro Cunha POETA vassourense. Em célico resplendor. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. uma triste particularidade a assinalar. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé. apenas freqüentou escolas primárias. Do azul imenso dos céus. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade. Pobre. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo. Mal. A alma ansiosa da Verdade.Francisco Cândido Xavier . ao demais espírita confesso. Lamentando os sofrimentos. na sua existência terrena. mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. Órfão de pai aos 7 anos. Há. por acidente. atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. Se tivesse tido maior cultura.

Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Que a Terra me oferecera. Encontram nestas moradas Tão formosas. 148 . Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. Aqueles que já sofreram No dever nobilitante. Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores. A meiga flor da Bondade. Provocando maldições. O aroma da Caridade Perfumando os corações. Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia. Que mata toda a alegria. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor. resplendentes.

Parnaso de Além-Túmulo Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas. sempre lindas. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura. Arauto do Onipotente. belos. deificados. O Senhor sempre clemente. Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. Os reflexos divinos Quais lírios iluminados. Pois agora na ventura Fruireis consolações. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. Que aportais neste momento.Francisco Cândido Xavier . ó vivente. Contemplai-vos nesta vida. Nesta esfera iluminada. Penetrarão sua mente. Luminosas. Acordai. pois. Alvos. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. 149 . Não vereis o sofrimento Retalhando os corações.

Só aproveita das cruzes. flores brilhantes. Que renegar eu tentara Como os míseros ateus. E feliz então busquei As bênçãos. a Jesus. Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei. Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos. Na tremenda tempestade Das dores e expiações. Venturoso. O Luzeiro da Bondade. O Mestre da Caridade. O grande Mestre do Amor!” Então. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. abençoei A dor que amaldiçoara. 150 . Das amargas provações. pois. Tão longe das grandes luzes.Parnaso de Além-Túmulo Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade.Francisco Cândido Xavier . A nossa alma que erra.

os amargores.Parnaso de Além-Túmulo Deixando-vos sem conforto. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal. São mensageiros felizes Nas radiantes alturas.Francisco Cândido Xavier . Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. Insuflando-vos coragem. Os prantos. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal. E os vossos filhinhos ternos. As frias noites sem luz. A alma tristonha e exul. O coração desolado. O peito dilacerado. Em meio das luzes puras. Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus. Alegrai-vos. Quais centelhas luminosas. Visitam os vossos lares Como gênios protetores. De outras rútilas esferas. Osculam-vos ternamente. pois. ao verdes 151 .

Como fúlgidos clarões. De pétalas multicores. De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. Ascensão Perguntai à flor virente. O que fazem cá no mundo. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo. Ela vos retrucaria: 152 . Venturosos. inocentes. Como sorrisos dos Céus. Se perguntásseis também. Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente.Parnaso de Além-Túmulo Quando partem sorridentes.Francisco Cândido Xavier . Eles farão despertar As alvoradas formosas. Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza. Tão viçosas. perfumadas.

Entre lírios. A alvorada rutilante Da sublime perfeição.Francisco Cândido Xavier . Marcha ao progresso incessante. Entre os lírios da Bondade.“Caminhamos na alegria. Só assim caminharemos Nessa eterna evolução.Parnaso de Além-Túmulo . 153 . Nessas trilhas luminosas.” Tudo pois. Espargindo a caridade. irmãos terrenos. Consolando a desventura. Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura. entre rosas. em ascensão. Para a Luz e para o Bem. Segui pois. Entre as rosas da Ternura. Caminhai sempre serenos. E ver depois a luz Da aurora de ventura. Chorar na escuridão Em dores mergulhado. E no Bem conquistaremos A suprema perfeição.

No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus. A caridade é o amor. 154 . Supremacia da Caridade A fé é a força potente Que desponta na alma crente. Que ilumina os corações. A esperança é flor virente.Francisco Cândido Xavier . Sorver dentro da treva O fel das amarguras. Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora. de vida e luz. Alva estrela resplendente. É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo. Depois. redentora. Que nos eleva até Deus. buscar o amor Nas lúcidas alturas. Reluzente. É possuir tesouros De paz.Parnaso de Além-Túmulo E após o sofrimento Ter gozo ilimitado. Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões.

Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor. Desterrado.Parnaso de Além-Túmulo Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. 155 . peregrino. Nada empana o seu fulgor. trazendo a luz. Na noite das trevas densas. A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. Versos Vivi na mansão das sombras. pois.Francisco Cândido Xavier . A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume. Sepultado. abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora. Refulgente. Seja. Que irrompe.

Nascendo. E a vida da alma é a nossa Liberdade. Alvo. Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. E dele fugi feliz. delicado. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo.Francisco Cândido Xavier . belo. Perfumando a luz do dia. Onde a alma é encarcerada Na aflição. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações. Onde as luzes recebemos Da Verdade. Morrendo. Pode existir a bondade Irradiando clarões. 156 . Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. É que a vida material É a prisão.Parnaso de Além-Túmulo Entrei no sepulcro escuro.

Porque não sabem que a morte É a nossa libertação. Sem saber que o desespero É porta para outra dor.Francisco Cândido Xavier . É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor. A palavra que reténs É tua serva querida. sem luz. É a flor cheia de aromas. Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados. Mas aquela que te foge É dona da tua vida.. 157 . Toda a esperança da fé. Que vive com a caridade. Com mágoa e desolação.. Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato. Cheia de viço e frescor. É realizada no mundo Da eterna felicidade.Parnaso de Além-Túmulo E o coração que cultiva A caridade e o amor.

O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores 158 . surge a alegria Dourando a manhã do Amor. Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. Assim. Medrando no coração. Volve ao Céu todo piedoso.Parnaso de Além-Túmulo Quem sofre resignado. Vai a dor. A alma encontra na Altura A luz. Coração que andas ferido!. nasce a flor. Após a morte descansa Quem luta. a ventura e a paz. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido. Quem tem a flor da humildade. Verá decerto a bonança. Cresce o broto. Sombra e luz Vem a noite. sem naufragar. depois da amargura Que a vida terrena traz. volta o dia.Francisco Cândido Xavier .

A morte é a deusa celeste Da vida. 159 . Que na noite de amarguras As almas vem despertar. O gozo é o próprio martírio. da plenitude. portanto.Parnaso de Além-Túmulo E somente frias dores No mundo ingrato colheu. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade.Francisco Cândido Xavier . Esperando uma outra vida Noutros planos.. É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. de verdade e luz: Sem paradoxo. Que a alegria da Virtude Faz. desabrochar. O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo.. A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor. noutro mundo. linda. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus.

De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. seculares. Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva. 160 .” Ao que ela replica.Parnaso de Além-Túmulo E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas. Caem copas opulentas. Continuando graciosas A tapetar as estradas. Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas. Mas se não for. filho. Ciência amiga. Venerandos. a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos.Francisco Cândido Xavier . dormiremos. humilde: – “Mais tarde. Andarás ao lado meu. pois não é. Serás o sósia da Fé. Se for sono.

Dentro da fé que os conduz.. Flores silvestres!. filho. E frontes ébrias de gozos. grite o mundo. São refletores Da bondade de Jesus.. Palmilha a estrada do amor. Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos. Imagem Dos bons e dos pequeninos. Sê. Nos dias mais tormentosos..Francisco Cândido Xavier .. como esta flor: Chore o homem. Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor. Na selva da vida humana Caem grandes.Parnaso de Além-Túmulo Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor. Mas. Flores silvestres da vida. os humildes da Terra. 161 . poderosos: Arcas repletas de ouro. Não caem.

Que tão distantes se vão. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. por assim dizer. intimamente pessoal.Parnaso de Além-Túmulo 162 Ao meu caro Quintão 8 Quintão. eu sei da saudade Que te aperta o coração.. depois de casada. . Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos. Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século. Dos nossos dias passados. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. A ermida branca e suave De ternos. atento mesmo a sua banalidade. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos.Francisco Cândido Xavier . também cegada de uma vista. Carlota é o nome da esposa do poeta cego.. por acidente. Vida de encantos divinos 8 Esta poesia singela e. doces carinhos. belas paisagens Cheias de vida e de cor. que o médium não podia conhecer. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia. Vassouras!. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor.

hoje os meus olhos Embebedam-se de luz. forte e feliz. Se pelas luzes dos Céus. Ah! Quintão. A minha pobre Carlota. no “O Pais”. Se pelas sombras da Terra. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor. irmão e mentor. Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus. 163 . Teu coração generoso De amigo. A tua doce amizade A luz do Consolador. O mestre da Velha Guarda. Meus pobres versos – “Singelos”. O raio de claridade Da noite da minha vida.Parnaso de Além-Túmulo Que eu via com os olhos d'alma. A companheira querida. Os artigos do Bezerra De outros tempos. Unida.Francisco Cândido Xavier . “Aves implumes” da dor.

Parnaso de Além-Túmulo Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa. O chamamento sublime Da Vida Espiritual. E o Mestre Amado é Jesus. Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. Que clareia toda a vida E ilumina além da morte.Francisco Cândido Xavier . É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança. 164 . Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria. Se buscas o Espiritismo. É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal. É uma fonte generosa De compreensão compassiva. divina e forte. Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola.

No bem que é bem substância Da crença que diviniza. Que abrace a nossa Doutrina. Verdade é que o coração. No Evangelho de Jesus. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão. 165 . Portanto.Francisco Cândido Xavier . A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo.Parnaso de Além-Túmulo Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. Há sempre muitos chamados. luta. a ganga. é nossa divisa Oração e Vigilância. e ação. O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados. Muita vez a água do céu Torna-se em lama. Penetra numa oficina De esforço. Escolhidos? muito poucos. Necessário é discernir A mistura. Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo. ao cair. o véu.

– Eis meu desejo de irmão.Francisco Cândido Xavier . Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo.Parnaso de Além-Túmulo Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. 166 .

no então município de Barra de São João. A mocidade era um hino De melodias suaves. No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. desencarnou aos 18 de outubro de 1860. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico. Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. A infância. acometido de tuberculose pulmonar. . Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril. sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho.Parnaso de Além-Túmulo 167 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense.Francisco Cândido Xavier . Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor. na Fazenda de Indaiaçu. um lago tranqüilo Onde começa a existência. com 21 anos de idade. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. hoje denominado Casimiro de Abreu. À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. Figura literária das mais típicas do seu tempo.

Do verde da Natureza. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. manhã ridente. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos. Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. De ternura e de saudade. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos. E na paisagem querida. De tristeza e de prazer. Constantemente cismando. Na tarde e no amanhecer. Igual a um canto sublime.Parnaso de Além-Túmulo O dia. Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma. 168 . O pensamento sonhando E o coração a cantar. Numa canção de alvorada. As carícias. A noite toda estrelada Após o doce arrebol.Francisco Cândido Xavier .

Se há tristezas.Parnaso de Além-Túmulo Da melodia das fontes. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos. Também há dias dourados De sol e de melodias. Quando eu cruzava as campinas. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. 169 . Recortada de palmeiras. Amargura e dissabor. As frondes cheias de amora. com o peito ao vento. Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo. Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida. Sem sombras de sofrimento.Francisco Cândido Xavier . Descalço. O manto de luz da aurora. A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra. As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. Onde rugem tempestades. se há saudades.

Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa. As galas da Natureza. Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor. namorados. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. Perfumando as pradarias 170 .Parnaso de Além-Túmulo Esperanças e alegrias. Que se beijam luzidias. A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores. Jardim de risos e flores Rolando no céu azul. Gargantas de ouro a cantar. Um paraíso de amores. Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor.Francisco Cândido Xavier . Retumba pelas montanhas. Os sonhos da mocidade. E trovadores alados. Ecoa de Norte a Sul. Heróis ternos. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. Onde há reis que são poetas.

De triste e rude carpir.. Se há noite escura na Terra. Também há dias dourados De juventude e esplendores. deslumbramentos Da Lua.. Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar. De aromas. Abarrotada de dores. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas. O prado perfuma os céus!. De áureos sonhos no porvir!. Desabrochando às centenas.Parnaso de Além-Túmulo Com seu hálito de amor.. É sempre risonho e forte. risos e flores. O Sol o prado ridente. cheias de olor. 171 . A noite. Na estrada onde o homem passa. Quem vive num éden desses. Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças. O dia todo é alvorada De doces encantamentos. De lágrimas e amargores. Sorrindo. Oferecendo-lhe graça.. Os astros o Sol-nascente. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar.Francisco Cândido Xavier .

172 . Os primorosos cabelos Enfeitados. Lavando a roupa às braçadas. De negras e longas tranças. Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados. Moreninha. De olhar sedutor e insonte. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros. Teus lindos pés descalçados. Moreninha.Parnaso de Além-Túmulo Lembranças No sacrário das lembranças. Moreninha. Rainha da Natureza. trigueirinha. à tardinha. Revejo-te. Moreninha. Moreninha. De miosótis singelos. Moreninha. Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha.Francisco Cândido Xavier .

O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha. Nas missas da capelinha. Moreninha. Enchendo a nave de odores. Moreninha. Moreninha.Francisco Cândido Xavier . Tão faceira! tão formosa! Moreninha. Fazendo-te mais bonita. O nosso idílio encantado. Quando te achavas sozinha.Parnaso de Além-Túmulo Nos fios d’água fresquinha. Sob o luar prateado. O vestidinho de chita. Moreninha. Moreninha. Os teus risos adorados. Fitando a luz do sol-posto. Sob as mangueiras copadas. A tua oração ditosa. De rosas estampadinha. Nos bandos de namorados. Moreninha. Desferidos à noitinha. 173 .

. de paixão. Ai! Ai! meu Deus. quem me dera Rever-te. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Ah! que eu possa hoje olvidar 174 . Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora.Francisco Cândido Xavier . Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa.Parnaso de Além-Túmulo Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade.. Rainha da Primavera. doce rainha. Recordando Meu Deus. Moreninha. Moreninha. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci. Daquela risonha aurora Do meu passado viver. deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!.

Mirar a luz das estrelas. De convites à oração. esferas. Sentar-me no prado agreste.Parnaso de Além-Túmulo Imensidades. Que das ruínas. e amar A campina. o mar. Minhalma retire as heras. Ouvir a voz da amplidão! Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar. Na fresca sombra dos vales. E contemple as primaveras Da vida que já deixei.Francisco Cândido Xavier . dos escombros. Meus sonhos encantadores. sofrer. meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. o Sol. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis. Enchendo as longes devesas. Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores. que ventura! Viver. Beijar as flores singelas. 175 . Que esperança. Minha terra. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores.

Francisco Cândido Xavier ..Parnaso de Além-Túmulo Campos verdes. Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível. Na excelsa Imortalidade. Da alvorada e do arrebol. Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando. 176 . Oh! Natureza da Terra. Verto prantos de saudade A luz da recordação. Que tesouros não exalas. Da existência transcorrida Guardada no coração. E dos cimos desta vida.. céus azuis Ser homem e ser criança. Revendo essa claridade.

Múltiplas vidas vivemos. com 24 anos de idade. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América. desencarnou a 6 de julho de 1871. E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor.Francisco Cândido Xavier . forja a grandeza Da sublime perfeição. Mocidade radiosa.Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. . Oficina onde a alma presa Forja a luz. Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos. Para à mesma luz volver. o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções. Sedentos de paz e amor. Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade. É a luta eterna e bendita. Em que o Espírito se agita Na trama da evolução.

o malho. A enxada fazendo o pão. A flor que. expirando. Nas madrugadas de luz. Pelas fainas do trabalho.Francisco Cândido Xavier . esplendor. Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. É a rija bigorna. A vida é luz. Pleno de seiva e verdor. dos tiranos. É a dor que através dos anos. mais galgar. 178 . Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. terna. Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes. Dos algozes. O fragmento do estrume. Anjos puríssimos faz. Em Carraras de eleição. Tudo evolui. tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. Em mensageiros de paz.Parnaso de Além-Túmulo É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo. Cai ao solo fecundando O chão duro que produz.

É Sócrates e a cicuta. Suas rútilas passagens Deixam fulgores. Oh! bendito quem ensina. Tirânico e lutador. É César trazendo a luta. É Anchieta dominando. Portentoso. 179 . A ensinar catequizando O selvagem infeliz. No sacrifício da cruz. Ou o sabre de Bonaparte. Sintetizando a piedade. É a lição da humildade.Parnaso de Além-Túmulo Deus somente é o seu amor. Na Terra. O grande conquistador. Em reflexos perenais. De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis. E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz.Francisco Cândido Xavier . É o sofrimento do Cristo. É Cellini com sua arte. jamais visto. Quem luta. imagens. O Universo é o seu altar. quem ilumina. às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais.

“Tende fé.Parnaso de Além-Túmulo Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia. O fiel desconhecido. Uma excelsa voz ressoa. Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! 180 . Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou. No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança. tende esperança. Nas sendas do progredir. Prêmio ou gládio vingador. Sou balança do destino. Sou morte – origem da vida. Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida. “Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade.Francisco Cândido Xavier .

Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. 181 . sou compensação. Meu braço – a revolução. O manto das trevas densas. Meu sonho é a evolução. Homem. Do porvir sou plenitude. Na absoluta eqüidade. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz. Meu verbo é a lei da Justiça. E sobre a crença o esplendor. se às vezes Simbolizo a guilhotina. sobre as descrenças. Austerlitz e Waterloo. Sepultura do presente. E por trabalhar com Deus. Consolo e alívio aos precitos. ouve-me. Aos bons. Da alegria sou saúde E do remorso o amargor.Francisco Cândido Xavier . E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. Que trazem os sofredores No jugo da escravidão.Parnaso de Além-Túmulo Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou. Sou águia libertadora Que abre.

. Mirabeau. Busquei Danton. Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada.Parnaso de Além-Túmulo Sou prisão ou liberdade. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir. Estrela – estendo-te lume.Francisco Cândido Xavier . E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou.. 182 . também se a tirania Arvora-se em lei na Terra. Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. Oásis – dou-te o repouso. E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove. Flor – oferto-te perfume. Arremesso a minha espada. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito. Faço cair as nações Como fiz Roma cair. Foi assim que fiz um dia. Nova aurora ou nova cruz. implacavelmente. Então. Ateio fogo aos canhões.

Francisco Cândido Xavier . Das cidades fiz ossuários. Dos campos Saaras ardentes.” Portanto. Espera-me com fervor. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor. Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta. orgulhosa. Apaguei a luz do amor. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa. Horrenda. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos. Serei tua doce amante. Olha o Sol de fronte erguida. Trucidei réus inocentes. Que espedaça os teus heróis. 183 .Parnaso de Além-Túmulo Diante de tanto horror. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. Que jamais teve presente. E mostra biliões de sóis. homem. Agora é reconstruir. Abrir-te-ei meus tesouros. E mostra biliões de mundos. Nem passado nem porvir. fria. Morte. se tens Por bússola o Bem na vida.

Tebas.Parnaso de Além-Túmulo Conduzo seres aos Céus.Francisco Cândido Xavier . Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos. E como faz às cidades. 184 . À luz da realidade. Revivem na velha Europa. Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas. Em queda descomunal. Remodela humanidades No progresso universal. Nínive. Tudo em seu seio revive: Esparta. Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação.

cresce a treva entre os escombros.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. O viajor errante encontra a estrada. adiada e emurchecida. Sem Jesus. Vence o deserto áspero e inclemente. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros. A esperança. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida. Vai com Jesus! não temas! crê somente! . Refloresce ao clarão de outra alvorada. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada. Que o reconduz à terra estremecida. poeta e jornalista. Nascido na capital de São Paulo. a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909. A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia.Francisco Cândido Xavier . Foi grande abolicionista e espírita militante.

Sustentando o fulgor da luz da Vida. Das dores e da lágrima incontida. Poeta de emotividade delicada. no Estado de Minas. Sobe da Terra pelo espaço eleito. Funcionário público. marcar sua individualidade literária. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. . estranha e louca. No turbilhão de todas as esferas!.Francisco Cândido Xavier . Sua vida foi toda dores. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE. soube. Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito. Formando a rede eterna e incompreendida. mercê de um simbolismo inconfundível. das quimeras. Das ilusões. Numa imensa espiral.. dos risos. Estrangulando a voz exausta e rouca. Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898..

um passo adiante. Mundos de amor no claro azul distante. Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados. trêmulos. sozinhos. Prisioneiros da angústia e da quimera. Nos desertos dos áridos caminhos. Abandonados. Revestidos de acúleos acerados. No turbilhão dos grandes desgraçados. sendo na Terra os esquecidos. 187 . As geenas do pranto acorrentados. Corações a sangrar. Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida. Que são. Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos. São os heróis das lutas torturantes. bruxuleante.. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos.Francisco Cândido Xavier . E além dos trilhos de ásperos espinhos. Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia. Aluviões de peitos sofredores. ermos de amores.Parnaso de Além-Túmulo Heróis Esses seres que passam pelas dores..

Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores. aflita. Do monturo pestífero emergindo.Francisco Cândido Xavier . A brancura das pétalas abrindo. Assim também do túmulo asqueroso. E como o lodo é o berço vil de flores. Qual essa flor fragrante. Luz que sobre negrumes se avistasse. Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias 188 . Como se a neve alvíssima a orvalhasse. Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso. As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce. como a face Dum querubim angélico sorrindo.Parnaso de Além-Túmulo Chorai! que a imensidade inteira chora. Sobre a lama ascorosa refulgindo. sonhando.

Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras. . deixamo-lo aqui registrado. dominados De esperanças. Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume. radiosas formas claras.Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. anseios e alegrias. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto. e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. A alma livre contempla o novo dia. Céus distantes que vemos. Longe das dores do passado incerto. Anjos da Paz. que no-las remeteu. De lindos firmamentos estrelados.Francisco Cândido Xavier . sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo. Desse mundo de sombra e de agonia. ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto. Com a alvorada da Paz. Por supormos fato inédito.

Nos sofrimentos purificadores. Sem conhecer a luz de uma alvorada. Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos.. Sob a noite das grandes amarguras. Forçando as portas da Beleza Eterna. Numa visão mirífica. “Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras Que caíram exânimes na estrada. que a luz acaricia! Alma liberta. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras. Penetra o mundo da imortalidade. redimidos. Como heróis dos deveres e das dores! 190 . Vê a aurora depois da noite escura. Onde aportam ditosos. aniquilados.Parnaso de Além-Túmulo Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida. Entre canções de luz e liberdade.. superna. redimida e pura. Glória aos milhões de todas as criaturas.Francisco Cândido Xavier . Glória à pobre criatura desprezada.

Francisco Cândido Xavier . Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. Nos exílios do pranto e da saudade. Cheio das luzes do porvir eterno. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé. Guardai a voz da Terra Prometida. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo. Como arautos de todas as virtudes. Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno.Parnaso de Além-Túmulo Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade. o tormentoso Averno. Mas não te esqueças desse mundo avaro. no horizonte claro. Sobre as ressurreições da alma gloriosa. Sabei vencer entre as vicissitudes. 191 . a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa. O teu destino esplendoroso e raro. O escuro abismo. Segue cantando.

Que faz da vida a rede de esplendores. Que coroa de luz a alma impoluta. Mas lembra-te do orbe da impiedade. A canção da vitória ali se escuta. compassivos. fitando a imensa altura.Parnaso de Além-Túmulo Volve os teus olhos ternos. De alma ofegante e coração aflito: Considerai. Onde venceste a carne soluçando. Na paz quase integral e absoluta. Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura 192 . Considerai. Céu Há um céu para o Espírito que luta No oceano dos prantos salvadores. Céu repleto de vida e de fulgores. Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade. ó pobres caminheiros. Da alma livre das penas e das dores. Que na Terra viveis como estrangeiros.Francisco Cândido Xavier .

Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. luminosa. Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente. Beleza sossegada e silenciosa. Sou teu irmão. Abandona a prisão. ignota.Francisco Cândido Xavier . até partires Nas asas brancas da Felicidade. No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! 193 . esperança. Sentindo a vida de outra natureza. Da Luz branca da Paz. dorida e ansiosa. trêmula e acesa. presa Às cadeias da carne tenebrosa. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura.Parnaso de Além-Túmulo No tormento que punge e dilacera. Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura. Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera. Um mistério divino há nesse instante. É o augusto momento em que a alma.

indefinido. mais escassos. E os prazeres mais pobres. E o mistério dos célicos abraços. De outro mundo de luz. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria. Há a promessa de vida em outro mundo.Francisco Cândido Xavier . etérea. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores Na vastidão serena dos Espaços. Na mais sagrada das hierarquias. das Preces e das Cores. Dos Perfumes. Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio. Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas. 194 . Epopéias de Sons e de Esplendores. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores. Se queres Se queres a ventura doce.Parnaso de Além-Túmulo No silêncio de cada moribundo.

. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto. De benditas e eternas claridades. Os calcetas dos erros. Sofri na Terra junto aos condenados.Francisco Cândido Xavier . Dos prazeres mundanos esquecido. do Gemido. À dor Dor. Encarcerado nas sinistras grades. és tu que resgatas. Aferidora da Justiça Extrema. Seres escarnecidos. Outro Job pelas chagas da matéria. dos pecados. torturados. Que surgem do pretérito de crimes. Do Soluço.Parnaso de Além-Túmulo Viverás na mansão triste.. Sob os teus pulsos. Ó portadora do tormento acerbo. que redimes Os grandes réus. funérea. em vez do réprobo que eu era. do Pranto. 195 . fortes e sublimes. os míseros culpados. Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. Bendita a hora em que me pus à espera De ser. Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo.

De maravilhas de ouro e de alegrias. todo o pranto. É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres. entretanto. sem luz e sem conforto.Parnaso de Além-Túmulo O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. 196 . fatal e avaro. Serás pobre de luz se não sofreres. Ser-te-ão como trevas. porém. E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. Cheias de risos e de pedrarias. Tive um passado fúlgido de glórias. Sentindo as dores desse desamparo. e. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias. das dores meritórias. Sem reparar. Todo o fel que tragares.Francisco Cândido Xavier . Sofre Toda a dor que na vida padeceres. Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. noutras sombrias Sendas tristes.

no silêncio. Aves e flores. Cantem no mundo todas as quimeras. E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! 197 . Abre a tua consciência para as luzes E. misterioso e santo..Francisco Cândido Xavier . nas atmosferas. Nos horizontes. no mundo que o mal encheu de cruzes. Chorando a mesma dor que o mundo chora. Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos. humilha-o. amplidões e mares! Vibrai comigo. Meus passados. O hino da luz. Doma o teu coração. vibrai nos ares.. multidões de seres. Exaltai-vos na vida de minhalma. Do Bem encontrarás a eterna aurora. Sobre o aroma das novas primaveras. vence-o. e.Parnaso de Além-Túmulo Pois que a dor é a saúde dos prazeres. Exaltação Harmonias do Som. Foge à revolta. recônditos pesares. Exaltai minhas dores de outras eras. dobra-o. Desdobrai-vos luzeiros estelares.

há sobre as humanas Vozes que se lamentam nas torturas.Francisco Cândido Xavier . As segundas. 198 . Como um coro dulcíssimo de hosanas. suplicando. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados. Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras. Outras vozes mais doces e mais puras. Silenciosa. muda. Desce dos Céus a voz amiga e mansa. de bênçãos soberanas. tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade. As primeiras são feitas de amarguras.Parnaso de Além-Túmulo Vozes Há sobre os prantos. A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura. Quanto mais sofre. Sobe da Terra a queixa soluçando. Remontando aos Espaços constelados.

Que é a existência na prova dolorosa. que é pão dos infelizes. Canta e vibra num dia de bonança. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas. Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras. Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas. Nessa jornada eterna da Esperança. infinita. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa. Glória da Dor.Francisco Cândido Xavier .. humilde e boa. 199 . Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas.. incertas.Parnaso de Além-Túmulo E ao fim de cada noite tormentosa. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. Luminosa e divina.

. na noite da amargura. Ah! meus longínquos arrebatamentos. Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura. Como folhas levadas pelos ventos. Amarguras e dores e canseiras. Quanta vez.. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos... Que vos fostes nas lágrimas ligeiras. torturados! 200 . firmamentos. Ide e pregai.Parnaso de Além-Túmulo Horizontes. abafando os meus soluços. Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura.Francisco Cândido Xavier . nas horas derradeiras!. Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia. estrelas. Sobre a qual vossa vida já descansa. O evangelho do amor e da esperança. Presa de sonhos e estremecimentos De esperança.

Redentora de todos os pecados. promissora e ativa. Em seu labor fecundo e peregrino. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa. que traz a verde oliva Da paz. Mão radiosa. Manifestando as glórias da Beleza!.Francisco Cândido Xavier . Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia. 201 .Parnaso de Além-Túmulo Conduzi a mensagem luminosa Da caridade. Das consciências libertas da impureza. É a vibração do espírito divino. A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave. lúcida e piedosa. De bens paradisíacos se priva. Misericórdia. que acaricia e que abençoa. Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte. a qual para ser boa.

De que a morte voraz faz seu consumo.Parnaso de Além-Túmulo Do homem. Nesse mundo de lutas fratricidas. Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. Num contínuo combate pavoroso. É ter no Além castelos de ventura. E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. Todo o sonho carnal vaga sem rumo. como passas. Prosseguindo na estrada luzidia. Entre as aluviões de cinza e fumo.Francisco Cândido Xavier . Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças 202 . Ofertando-os ao mundo que te odeia. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias. A vida se alimenta de outras vidas. de orgulhos e de raças. Com a bondade mais pródiga e mais pura. Tudo no mundo passa. Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças. esquece a lúrida maldade.

Também vivi as lágrimas obscuras. Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento. Surdas batalhas. Iguais às vossas.. Além da morte. sob as maiores Desventuras do mundo. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai.Francisco Cândido Xavier . Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento. Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores. de luz. Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre.. batalhas e tormentas. de amor.. varado de amargores. que uma vida eterna e grande. rudes e incruentas.Parnaso de Além-Túmulo Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando.. E sustentei. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!. míseras criaturas. almas sedentas De paz. sob as dores De misérias. 203 . de alma pura.

Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura. Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!. ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura. 204 . Pobres da Terra. Glória aos humildes Ai da. E esperai a vitória alta e suprema.Parnaso de Além-Túmulo Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura.. Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena. seres infelizes. Que Jesus vos prepara além da morte. No bergantim sagrado da Esperança.Francisco Cândido Xavier . Cheios de prantos e de cicatrizes. Não maldigais a ulceração da algema. Levantai vosso olhar sereno e forte.. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores. Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. ambição do mundo.

Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores. Rompe algemas de trevas e granito. Vós que sois. no esforço do amor puro e bendito. sobre a Terra.Parnaso de Além-Túmulo Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores. 205 . sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade. Guardai-lhe a sacrossanta claridade. os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros.Francisco Cândido Xavier . Não vos importe o espinho ingrato e acerbo. É a caravana de batalhadores Que. Na palavra e nos atos. Aliviando os seres sofredores. Espalhada nas sendas do Infinito.

no Estado de Goiás. nascido em 1861. Foi poeta e desenhista notável. Morte. filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros.. fumo e cinza ao fundo da cratera. a fama. Esvaiu-se a vaidade!. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. Em cenário diverso aprimorando as cenas. desvenda à Terra os planos que descobres. Que além do gelo atroz que te reveste os muros.Francisco Cândido Xavier . Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus.. em 17 de janeiro de 1905. nos círculos escuros.. Os júbilos e as penas. sempre a vida. a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro. porém. vibrando noutra esfera. Há vida.. Continuam. Desencarnou no Distrito Federal. a vida eternamente. A alegria que exalta e a dor que regenera.Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros EDMUNDO Xavier de Barros.. como capitão da arma de Cavalaria. . o prazer e as ilusões terrenas São lodo.. nem o fim! A vida. Vida Nem a paz..

sem Deus. Em derredor da Terra. Sem furtar-se. estrelas cantam hinos. Glorificando a luz onde a Verdade mora. Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo. 207 .. as lágrimas e os sonhos. Ave triste da noite... à luta que aprimora.. Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam. esquivando-se à aurora.Francisco Cândido Xavier . O homem é o semeador dos seus próprios destinos. Santificar a dor.Parnaso de Além-Túmulo Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos. sobre a fronte do mundo!. porém. Para ver a extensão da noite estranha e densa.

. Procurando tomar o tempo vosso. Musa vivacíssima e fulgurante. e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918. Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. quanto pela opulência das rimas. além de Mortalhas. de outras vezes.. . Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis.. 1909. e Poesias. Longe das anedotas indecentes. em 1866. 1901. distante da garrafa. Mas que não se entristece e nem se abafa. era sobretudo ativamente humorística. versos satíricos postumamente colecionados. Sou o Emilio. Recitando epigramas descorteses. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes. nascido em Curitiba. contudo. Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível. Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses. Legou-nos Poemas da Morte. sem deixar de ser profunda.. Distinguiu-se pela altaneza dos temas.Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro.Francisco Cândido Xavier .

Pois na hora do “salva-se quem pode”. Nas quais.. (Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai.. Como a quase saudade do presunto. que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio. Apesar do meu cérebro bestunto.Francisco Cândido Xavier . Muita gente nem fica de ceroulas. tolerai o meu assunto. O elo que nos unia.Parnaso de Além-Túmulo Aos meus amigos da Terra Amigos. Que nutre um corpo empanturrado e feio. porém. o vinho não explode. conservei-o. Espero-vos aqui com as minhas festas. 209 . Nem há cheiro de carnes ou cebolas. Evitai as comidas indigestas.

Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade. Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!. da liberdade..Francisco Cândido Xavier . Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante..Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas. Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis. em 1875 – depois de uma existência tormentosa. Fluminense. as noites. que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor. as auroras. Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens. desencarnou com 34 anos. da perfeição. Hinos de amor. que a verdade .

Irmãos.. Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas. 211 . redivivo!. Sendas de sonho e báratros escuros.. Descansei sobre as ilhas de repouso. Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas. distantes. confundidas Entre estrelas igníferas. E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência.. Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro. Que transmudas em rosas os espinhos. Em retiros de amor calmo e sereno. E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso. Habitei os palácios encantados. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas.Francisco Cândido Xavier . Em lindos arquipélagos distantes.Parnaso de Além-Túmulo Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível. Visões de sóis eternos. Empunhando o saltério da esperança. radiosas. Pude transpor abismos de ouro e rosas. Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível. Vastros portentosos. desferindo Harmonias de amor e claridades..

Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz. Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra. A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca. Ah! Morte!.. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor. divinos. Mundos de dor e mundos de alegria. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros. somente o amor. O amor. nutre e dá vida. Roubando-nos afetos e consolos. Um detalhe minúsculo. Amando-se da vida os bens mais nobres. A morte corrobora as nossas crenças.Parnaso de Além-Túmulo Onde o solo é formado de ouro e neve.Francisco Cândido Xavier . Quando a esperamos tristes e abatidos. 212 . Somente o amor é a vibração de tudo! Vi céus por sobre céus inumeráveis. nesses orbes lúcidos. As nossas esperanças mais profundas. Se o mundo abafa em nós toda a alegria. Lá. Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. um fragmento Da Criação infinita e resplendente. jubilosa..

Pelos beijos dos seres bem-amados. Outras almas guiando em labirintos Para a luz. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. Ela é somente o exílio temporário. Ansiando mais luz. Pela visão dos céus resplandecentes. mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! 213 .Francisco Cândido Xavier . Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. dos escravos Das aflições.Parnaso de Além-Túmulo E aponta-nos o céu. para a vida e para o amor! Que representa a Terra. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade. É apenas um degrau na imensidade. Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. Morte! que te abençoem sofredores. Onde as almas ditosas se engrandecem. Sobre a fronte de todos quantos sofrem. Que te bendiga o espírito abatido. Como um canto sublime de esperança. Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne. das dores. Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda. a imensidade.

é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis. A noite era de sonho e névoa luminosa. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel. por sua produção de agora. Notável. pela sua veia combativa e satírica. Padre João meditava. a terra. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal.Francisco Cândido Xavier . O meigo padre João. orando ao Deus de amor: Revia em pensamento . mas o fulgor das idéias. sobretudo. nas mesmas diretrizes.. vemos. o mar. poeta português. nascido em 1850 e desencarnado em 1923.. Um puro coração.

Era um vulto sublime. Era o meigo Pastor irradiando a luz. O farol da verdade ao humano coração. Iluminando a vida. Daquela igreja fria. Imóvel dominando o âmbito vazio. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. a ermida solitária. então. Notando a diferença enorme. desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. meditando. Da igreja de Jesus. O sacerdote. Feita de amor e luz. 215 . Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível. Por anos inclementes Em séculos sem fim.Francisco Cândido Xavier . Aos pecadores dando amigas esperanças. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. imaculado. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. fugindo aos irmãos seus. Conhecendo no padre o gêmeo de Caim. o imáculo Jesus. extraordinária. Inflamado de fé. E viu da sua igreja o erro tão profundo. inerte e frio. de pau. Oferecendo amor em flores de bondade. Que fazia descer o amor às multidões. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. Iluminando o mundo. excelso. Comparou. Era o Anjo do Bem. De paz e de perdão. Afastado da luz.Parnaso de Além-Túmulo Uma luz singular nas dobras do passado.

à natureza em flor.. E no sonho da luz fulgente do passado. endeusas a matéria. E fugindo a correr da porta semi-aberta. 216 . Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. matando a paz. E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho. Despiu-se do negrume espesso da batina. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava. E transformas o padre em trapo de miséria. de eterna perfeição. a chorar. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado.. Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. a floresta. de amor. Torturas a verdade. As árvores. o espírito gelado. Com o coração sangrando em úlceras de dor. a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus. Penetrou soluçando a ermida então deserta.Parnaso de Além-Túmulo Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. Encaminhou-se ao campo. E fitando. Sentiu seu coração em dores lacerado. E como se o animasse uma chama divina. Crestando a fé. Teve medo e receio. roubando a luz.Francisco Cândido Xavier . a flor. os mares. túrbida e falaz. o céu estrelejado. Fitou extasiado a natureza em festa. A luz radiosa e bela.

Crepúsculo.. Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu. Desprezo-te. Ruínas de maldade estúltica a cair. Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo.Parnaso de Além-Túmulo Num farrapo de sombra. 217 . Eu vejo-o. Na piedade. Submergido em pranto. no amor. Guiando-me o farol da fúlgida Razão. exótica e execrável. nas preces da harmonia!. E eu quero abandonar a noite da prisão.. Horas de solidão. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. Caridade Caía a noite em paz. ó torreão de séculos trevosos. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. desde a flor às luzes estelares. feliz. Pairava na amplidão estranho resplendor. Prefiro a liberdade e a vida no futuro. No firmamento em luz.Francisco Cândido Xavier . Horas quedas. Era o festim do amor. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. Pelas planícies ledas.

Era bem a visão da mágoa e da invernia. sangrentos nos trabalhos. a imensidão do espaço. Como poça de sangue. cortando. Andorinhas gentis. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando. em flor.. De quem ama a existência plácida da aldeia. As árvores senhoris. do amor e da inocência. Elevavam-se ao céu silenciosas.. em busca dos seus ninhos! Repousavam. Almas feitas de luar. de cândida frescura. em rimas soberanas. mudas. os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa. despidas dos seus galhos. tardígradas do inverno. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua. Vivendo a vida doce. Sentinelas da dor nas regiões desnudas. imaculada e pura. Que vibrasse. o aroma dos trigais. Sinistramente. os colibris doirados. Exalando. Reunidas no lar caridoso e terno.. Caía a noite em paz. Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. relicários da essência Da verdade e do amor. horrendamente informe. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. Pipilavam febris no beiral dos telhados. por entre os negros mantos De espessa escuridão. Os poemas de luz. tremendo. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. Almas puras. 218 .Parnaso de Além-Túmulo A asa ruflando inquieta. de exaltações. Canções de oiro e de sol das almas virginais.Francisco Cândido Xavier . Como braços em cruz. de prantos!. que nascem das choupanas. a sorrir..

Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão. sentia a dor dos que não têm carinhos. à lide que os consome. A dor que dobra e vence as multidões ignaras. Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras. Que se vão de longada ao longo dos caminhos. esplêndido e profundo. Que derruba os casais e come o pão das searas.Francisco Cândido Xavier . Que palpita nos reis. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar.Parnaso de Além-Túmulo E eu pedia ao Criador da imensidade etérea. que anda nas meretrizes. Em mim. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. Onde sobrasse a angústia. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. Que levasse o amor onde faltasse o lar. Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes. Que vão cedo ao trabalho. onde andasse o penar. 219 .. que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz. O castelo real e a cabana do pobre. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes. Filhos da obediência. Suas faces e a fronte. Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria.. Era como a piedade iluminando o mundo. alvas como alabastros. anhos de mansuetudes.

chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados. nas aflições. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa. e com ansiedade levo-a A quem. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro. Levo sol. As rosas festivais das frescas alamedas. Abranjo em meu amor a alma dos continentes. Sou o farol da legião dos pobres sofredores. a seita e as gentes.Francisco Cândido Xavier . que. adornando as campinas. em vez do sono à sesta. Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. Como pairo a sorrir por cima de um monturo. Desço das vastidões dentro das horas mudas. Para mim. Emitia esplendor sua túnica de arminhos. Para levar a luz. que ampara a dor e vela os sonhos darte. 220 . pão e luz.. – “Meu nome é Caridade.. Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!. Amo o trabalhador. engendra a paz das searas.. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas. balsamizando as dores. Ando por toda a terra. E quando a tarde chega.. Quem és tu? – murmurei. Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras.Parnaso de Além-Túmulo Pareciam do alvor das estrias dos astros. não existe a classe. Atravesso o oceano e atravesso os países.

como idolatro as crianças. Amo o templo e amo a escola. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço. Amo a fera bravia. Nunca a lisonja fiz. nem recebo homenagens. Não conheço nações. Ao pé do altar da fé. e as aves da floresta. como amo o luto e a festa. no sopé dos patíbulos. creches e orfanatos. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. nas ermidas. as mágoas e esperanças. Não me regem as leis que regem um país. entro nos palacetes. que. 221 . talvez.” “Caridade! – tornei. Jamais pude escolher entre Roma e Paris. Sem toques de clarins e sem espalhafatos. Amo o goivo e o lilás. comovida. Oro em qualquer lugar. Que não te quer. Beijo um cadáver nu. Visito os hospitais. o mesmo charco imundo. como osculo os heróis. Confortando o amargor. corro do brejo aos sóis. Idolatro os senis. Guardo comigo a dor. nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. consolando a miséria. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos. É por isso. Não conheço horizontes. Vivo fora do plano imundo da matéria. amo o bem que consola. Subo da Terra ao Céu. Lodo fenomenal de descrença e malícia. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes. alma de fariseus. Amo o bem que alivia. A Humanidade é a mesma. Vou ao cárcere escuro.Parnaso de Além-Túmulo Que abarrotam de olor as primaveras ledas. Minha missão é amar. nos montes.Francisco Cândido Xavier .

De nada serve o livro a um povo sempre cego. as batinas e a estola. E se alguém reclamar. há canhões na Alemanha. jogue-se-lhe a metralha. Rindo na podridão. Se o canhão não chegar. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. Girândolas ao ar. transudando a miséria. pague um tributo novo. A sociedade vil é quase a mesma Impéria. onde fundaste a escola. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios. Que esta plebe é de cães. Propague-se impiedade. Ao raiar a manhã. ponha-se a honra ao prego. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica.. há mosteiros na Espanha. Para que se não veja a ruína e os cemitérios. que esta plebe é submissa. espalhe-se ignorância. Ele fez podridões de imundos cemitérios. Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. cheias de sentinelas. aromas os fedores. asfixie-se a infância. a forca e a guilhotina. Celas que são prisões. causa nojo a política. Morre o bem. toque-se para a missa. que reclamar. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. Onde criaste o ideal e a inspiração divina. morre o amor. 222 . Onde existe o grilhão dentro de escuras celas. honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. Onde puseste a luz.Parnaso de Além-Túmulo Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. E se o povo chorar. Mate-se a mocidade. Fez a bomba explosiva. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. flores sobre os lameiros. O homem pôs o missal. que se açoite esse povo! Alguém.Francisco Cândido Xavier . E se a fome vier.

não discuto. Não reconhece a lei que emana dos monarcas. se Goethe ou Shakespeare. Caridade? o mundo é sempre assim. eu não sei.“Antes de tudo. Almoça e ceia o luar. poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade. corre o fecho às janelas. Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma. Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. toma vestes singelas. a esta nada escapa.Parnaso de Além-Túmulo E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz. Para fazer o bem. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre 223 . Nunca soube notar. Raciocina.Francisco Cândido Xavier . Se viveram maus reis. Somente lhe interessa a sorte das criaturas. Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . nem sabe discernir Qual deles foi maior. Para o seu labutar. amigo. o Papa a Rotschild! Que queres. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo. o Papa o oiro vil. Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. entre más soberanas. Eu só quero saber onde há miséria e luto. Sabe somente ver as dores infinitas. morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. Não entende Voltaire. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet. Se Calígula quis endeusar um cavalo. nem más literaturas. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. Jesus amava o pobre.

desde o nascer da aurora. Nunca reza em latim. Para buscar a dor da orfandade que chora. nunca fez procissões. Sabe amar e querer flores e passarinhos. dor. E não vai desfolhar misérias nos jornais. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. nem divisa a ralé. Passa no mundo a pé. Onde se mete a flor excelsa da virtude. Nem problemas sociais. Os mendigos e os reis. Corre. não está nas pelejas. os palácios e os ninhos! 224 . nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. Luz para desfazer a baixeza de instintos. jamais amaldiçoa. corre por toda a Europa. Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas. não lhe estorva a política. Jamais focalizou questões eleitorais. Foge da discussão. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. misérias. Jamais toma lugar para fazer sermões. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. Sabe somente que ama e também que perdoa. Que falta o amor e o pão. onde escassa é a saúde. jamais anda de sege. Não lhe pode abalar a opinião da crítica. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos. Olha sem se anojar.Parnaso de Além-Túmulo De fulgentes milhões para humilhar o pobre. Não conhece opinião.Francisco Cândido Xavier . Nunca viu povoléus. Sopa para matar a fome dos famintos. Não vai à Terra Santa em peregrinações. Sabe onde falta sol. água e calor nos ninhos. mágoas. sem se cansar. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie. Entra no lupanar.

Noite de neve atroz. Sabe rasgar o peito. recôndito e diverso. Existe no Universo. É preciso que eu vá visitar os covis. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor. Sabe o bem. Que ouvem as tentações do beiral das estradas. A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda.. Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua. Estou com o lavrador na tarefa das searas.. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. noite de desventura! 225 . Vou subir a colinas e descer aos valados. Minha missão é amar os vermes e os países!.. Como do seu farnel. Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. Procurando os pardais. Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia. Procuro a pomba e a fera.” Muito tempo passara e a noite inda era escura. Poeta amigo. Não existe num mundo. Necessário é que eu siga em minhas romarias. Chama-me o sol redor. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor.Francisco Cândido Xavier . chama-me a orfandade.Parnaso de Além-Túmulo Tem abnegação. Amparar o chacal. para guiar felizes. donde foge a alegria. tomo o arado e a charrua. melros e cotovias. Vai a todo lugar. as aves e os reptis. Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda. Desce ao antro sem paz.. Para guiar os maus.

O inverno e o pesar. O mundo famulento.. que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais. Corpos de podridão.Parnaso de Além-Túmulo Foi-se a linda visão. a Terra. Repartindo o seu pão de carícias divinas. Anjos açucenais que a miséria devora. 226 . filhas que adoro tanto. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!. dissipando as neblinas.. há aroma e luz na beira dos caminhos. Calcular a extensão de tantas amarguras. Almas na escuridão da noite sem aurora. fustigadas de pranto. árvores. Harmonias sutis. parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro. esquálidos e nus..) Não sabeis.. Pobrezitos sem pão. e aos olhos da minhalma. Como as aves gracis em vôos nos trigais. Cantos de rouxinóis. não sabeis. Lírios no lamaçal das grandes desventuras.Francisco Cândido Xavier . Existências em flor. fruto e flor. urnas de lama e pus. No entanto.

Paira o clarão do amor. Vinde comigo ver a dor dos desgraçados 227 . Às regiões da glória intérmina da luz. Sobre o escuro. Que o grão de areia une ao roble secular. Que sublime conduz aos planos celestiais. Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças. que une a pomba às rosas.. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. mesquinhas.Parnaso de Além-Túmulo A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins. Que irmana a fera e a rosa.Francisco Cândido Xavier .. Que faz da Caridade a flama da Virtude. filhas minhas. Fez também o soluço e a lágrima dorida. O amor que fraterniza. as aves e os chacais. Filhas que Deus me deu. Que liga o verme ao mar. o amor que dá saúde. Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. vinde alegres. comigo. Há risos e esplendor e há prantos. E se fez a bondade envolta de esperanças. Criou a dor clareando a escuridão da vida. das lepras mal cheirosas. Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis. Espargindo dos céus as glicínias formosas. A lágrima da dor é estrela que transluz. porém. edênico e sem par. misérrimas.

Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. Perpassam colibris. com os corpos cancerados. Cheios de sânie e pus. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos.Parnaso de Além-Túmulo Que chorando se vão. por este mundo afora. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos. esta hora calma e mansa. também. E acharemos no fim da romaria imensa. O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário. pois. sem pátria e sem abrigo. Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas. chilreia a passarada. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança. à treva a luz da aurora. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. 228 . Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós. Nutrindo o coração na fonte da esperança. Conduzamos conosco a luz da Caridade. a Caridade e a Crença. Em que há músicas no ar e olores nas estradas. Espalhemos a Fé. Dando consolo à dor. Aproveitemos.Francisco Cândido Xavier .

Castelãs juvenis. Represam-se no olhar do Filho de Maria. e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes.Parnaso de Além-Túmulo Vinte séculos de dor.Francisco Cândido Xavier . Os lendários heróis no dorso dos corcéis. turbas de gozadores 229 . E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou. valentes brasonados. humilde e silencioso. Açoitado. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. Caravanas de reis nos tronos passageiros. traído e calmo. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. ensangüentado. Cavalheiros gentis. Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina. Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. de pranto e de agonia. Dois mil anos de dor. Viram-no seminu. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. silencioso. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. Artistas e histriões. poetas e trovadores. na cruz. partindo como tantos.

Francisco Cândido Xavier . Estende o seu perdão cheio de mansuetude. sim. O sacrifício e a dor do eterno visionário. Agora vêem. Hoje mais nada são que míseros mendigos. depois. mataram-se os irmãos. agora transformados Nos párias do amargor. E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. sublime e silencioso. Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição. tigres. no topo do Calvário. Lobos.Parnaso de Além-Túmulo Inda vieram. o pranto. 230 . nos grandes desgraçados. O Mestre prosseguiu. a guerra e a fome. o anjo da virtude. chacais. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. Multiplicando a guerra. as lutas e a chacina. Desolação e horror. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade. Contemplaram Jesus no cume da colina. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. Mas os soberbos reis e césares antigos. Os nobres doutro tempo. na capa dos cristãos.

esplêndida. Ensinai catecismo em todas as escolas. Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. É preciso instalar a Inquisição de novo. calmo e silencioso. operosa e triunfante. proclamai o dogma divino! Fazei bulas. 231 . De saber a verdade acerca do Destino.Parnaso de Além-Túmulo E do cimo da cruz. A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador. Formai sob a batina as gerações vindoiras. Comei Jesus no pão refogado em falerno. Consola a multidão com o seu olhar piedoso. procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. torcei as leis. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa.Francisco Cândido Xavier . Cortai a asa de luz de toda liberdade. trazei Loiolas. Ponde sobre a esperança o inferno que flameja. Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras. Proclamai. viceja. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé. Afogai na descrença a pobre Humanidade. Contendo a aspiração indômita do povo.

absolvei magnatas. Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados. Porque. Só a Igreja possui a santa autoridade. Fazei autos-de-fé. Entre encomendações. vendei o ensino e a prece.Francisco Cândido Xavier . Transformai todo templo em balcão de bentinhos. Interpretai Jesus no prisma do interesse. em verdade. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. Lede com desassombro o intrépido Barônio. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. Dentro das presunções da infalibilidade. sermonatas. Lembrai a Inquisição e a história do papado. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente. Traficai com o altar. discursos. Retende na memória os erros do passado. Aprovai. Ponde em cada recanto um novo Torquemada.Parnaso de Além-Túmulo Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. Incensai Harpagões. 232 . Esquecei sobre a lama os pobres indefesos. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. Com representações em todos os caminhos. aplaudi as grandes simonias. E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu. Anatematizai todas as heresias.

. carabinas. Clareando o porvir ignoto dos destinos. enfim. Fazendo-vos ouvir..Parnaso de Além-Túmulo Sobre o luxo gritai no púlpito florido. Gritai que o mundo está perverso e corrompido. É feita nos clarões das grandes epopéias.. Que traz. e a bênção de Maria. metralhas. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude. arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus. Da mentira que. irmão. A discórdia infundi! Nutri regionalismos.Francisco Cândido Xavier . Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo. Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos. Mas. consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. Se puderdes. A abençoar fuzis. porém. a luta das idéias. Incentivai com ardor os rubros fanatismos.. tomando a vossa pena. 233 . ouvi minha voz impávida e serena!. A luta da verdade. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. não alcança a virtude.

da tiara. Olvidai convenções. Imóvel.Parnaso de Além-Túmulo Criar uma ficção e excomungar de oitiva. em tinta espessa e forte. um pálido abantesma. Representa-se a peça antiga da quaresma. O pobre Senhor-Morto. Num cenário infantil. Que a Igreja representa. sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas. congregações. Filha da estupidez bisonha e condenável. Talhado de encomenda. Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco. pois. Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus.. Jamais enxovalheis o vosso ministério. Como as grandes funções do entrudo e do confete. ao sol que tudo aclara. É próprio das paixões e próprio da inventiva. 234 . papado. a vítima e comparsa Do Papa. “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas. Deixai a insensatez dos clérigos. Paródia de uma dor sublime e incomparável.. anual. arrecadando esmolas. que se repete. Acostumai-vos. feito de gesso e lacas. É o ator da paixão. Nunca vos entregueis a tanto despautério. o explorador santíssimo da farsa. Que a Verdade jamais se vende no mercado.Francisco Cândido Xavier .

porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores. A função quaresmal prossegue. Precisais cultivar o nosso dogma eterno. Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos.Parnaso de Além-Túmulo Com latim. Comte. 235 . bandeiras e sacolas. Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar. Fora das concepções altíssimas da Igreja. Coquelin tonsurado. Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes. desconforme. seus embaixadores. cantochãos. Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido.Francisco Cândido Xavier . certamente. Das chamas infernais. Calvino. o espírito moderno. De eterna submissão ao Papa que é infalível. A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. obeso. Sentinelas da fé. sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme. Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno. Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé. Wesley. criaturas inferiores Dirigem.

Sofismá-lo. As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude. a Luz. Procurou lestamente o calmo presbitério. 236 . Resmungando um latim exótico e confuso. Vivei. a Liberdade. Sentimentos de fé e catolicidade.. rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. contentes na virtude. Reformistas quaisquer?. segundo o gesto em uso. Obedecei à Igreja em sua Santidade.. em santa penitência. o Senhor que ele esquece. Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência. a toda a Humanidade. Satanás que os fulmine A falta de fervor tem feito heresiarcas.Francisco Cândido Xavier . Com um aceno abençoou. A Humanidade está sob o império do demo. E abominando o Cristo. Necessário se faz prender quem raciocine. enformá-lo. Que é o traço de união do arcano da Trindade. Amando a caridade. Terminou a oração. é cometer um crime. caros irmãos. E depois de exercer seu santo ministério. Sede firmes na fé. É preciso antepor. O dogma é uma lei benigna e sublime. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. a humilde singeleza.Parnaso de Além-Túmulo Toda ordem de Roma é boa e indiscutível. Tem até corrompido os padres e os monarcas.

Dos atos a lição. Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo.. Para tanta extorsão impune e criminosa. Não se lembrou que houvera o bom samaritano. Propagando a cegueira. Nos pântanos letais e lúgubres de Roma. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário.Francisco Cândido Xavier . confeitos. da caridade o templo. E após se abastecer pantagruelicamente. 237 . Porque a verdade pura. Morre sem remissão de horrível carcinoma. ambrosias. o lídimo Evangelho.Parnaso de Além-Túmulo Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. Sereno. Esquecido Jesus. inadequado e velho. doces raros. sem bispo e Vaticano. Terminada que foi a sacra pantomima. cavando um negro abismo. a guerra e o fanatismo. a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência.. Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário. Licores. Sem artigos de fé. Com o seu rubro sermão. Opíparo jantar regado a vinhos caros. adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera. Em paz sacramental. A Igreja que foi pura e que já foi divina. moscatéis. Era um livro escurril. recheios. Da doutrina cristã. olvidou-lhe a doutrina. Jesus apenas fora a máscara piedosa. Por isso. ó meus irmãos do altar e da batina.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! 238 .

Que a morte é vida para os nossos sonhos. ansioso. falecendo em 1937. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas. Com que angústias te vi. Nos supremos e tristes estertores!. banhado em pranto. Conduzindo-me à luz doutra paisagem. nascido na cidade de São Pedro. Poemas Líricos... as mãos tranqüilas. Chorei de gratidão ao pressenti-las. E paraíso para as nossas dores.. Escreveu Ementário. Ó terra de São Pedro. Era a morte. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas.. Trabalha e espera sob os céus risonhos. que amo tanto. em março de 1881. A São Pedro de Piracicaba Último instante. . cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem.Francisco Cândido Xavier . a crença era meu pajem E buscando-lhe. Graças a Deus.Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA.

a terra que lavrara. Perdeu tudo no instante da colheita. e suicidou-se no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930. rude e bisonho. – Sonho lindo que a nada se compara. desgraçado e desditoso. Passados os trabalhos e os tormentos. Quando aguardava a messe. Poeta de grande relevo emocional. Gênese. E o pobre. em 1888. E de alma ingênua e coração risonho. . A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho. Eis que aparecem os arrasamentos. jubiloso. seu último livro. chorando.Francisco Cândido Xavier . o lavrador que fez. nasceu na Vila de Boquim. Esperou confiante o sol da seara. tendo publicado Apoteoses..Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO.. Lâmpada Velada e Fonte da Mata. deixou firmada sua personalidade literária. Soneto Sou. Regou. Numa grande esperança insatisfeita. Não reparou o labor triste e enfadonho.

Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado. E o triste engano da celebridade. 241 . incorpórea. Do que chamamos – a felicidade. Renovar minhas síncopes de dor. Mas só colhi os frutos maus da Terra. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia. Senhor.. Redizer minhas mágoas. Como fizera de minha arte um hino. Após a derrocada Das construções de um sonho superior. Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos. Tudo outrora. É perpetrar amargas redundâncias. minhas ânsias. Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino. E fui de vale em vale. Do sofrimento fiz o apostolado. serra em serra. As promessas pueris da falsa glória. Buscando a imagem fúlgida.Francisco Cândido Xavier ..Parnaso de Além-Túmulo Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado.

de fama e glória.. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória Da crença e da bondade.. Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira. Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza. Tudo em volta de mim era a cegueira. O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas. E a carne subjugou-me inteiramente. de dor e de miséria. Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! 242 .. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença.Parnaso de Além-Túmulo Na minha pobre vida abandonada. Que torturou a minha vida inteira. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições. Tudo sofri.. E a desgraça suprema o amortalhou. Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza. Fez-me fraco e descrente. no passado. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado.Francisco Cândido Xavier .

243 . Cheio de amaridúlcida ansiedade. meu Deus.. o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!.Francisco Cândido Xavier . Que a confiança.. Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição. pois. em Ti me anime. A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção...Parnaso de Além-Túmulo Relevaste.

Francisco Cândido Xavier . Revela. Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia .. “minado pela nostalgia”. Redivivo Divina lira. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. onde veio a falecer em 1793. ainda. amena.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto. de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer. A Pátria linda Que faz vibrar Todo o meu ser. Musa que inspira Meu coração A relembrar.. A luz sem par. Celebra. Volta. A vida plena. A paz sublime. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África.

Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz. Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz. O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção. Lira divina. A nova era Do meu Brasil. Ditosa e crente.. Enfraquecer-te Nas lutas mil.Francisco Cândido Xavier . Chorando alhures. Não mais procures. Canta somente. Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem.Parnaso de Além-Túmulo De amor cristão. Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo.. Sepulcro além. 245 .

ó Dor piedosa e justa.Francisco Cândido Xavier . dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui.. Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas E algemaste-me a lenho estranho e duro. Onde. Nume solar pairando no monturo. Terno. em 1930.... . Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen. Ouviste-me. internou-se num hospital. o choro e as pragas. Libertaste meu ser à Luz Celeste. Doce e invisível no caminho escuro!. Anjo da redenção! bendito sejas!. flamejas! E agora brado. onde desencarnou. Estado de São Paulo.Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902. em silêncio. e onde dirigia um Centro Espírita. na cidade de Borebi. Mas. escondendo as flores com que afagas. em 16 de fevereiro de 1947. enfim. de alma robusta: – Deus te abençoe. da cruz de feridas que me deste. sublime e fúlgido.

em 1830. Portugal. e desencarnado em 1896. então.Francisco Cândido Xavier . afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. E vi senhores . A procurar. Só a ilusão Duma ventura. de modo inconfundível.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines. No coração Da criatura. Qual o tesouro O mais profundo. E vi. a suavidade e o ritmo da sua lira. As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade. A perscrutar Qual a verdade. Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse. Nestas poesias palpita. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país.

Parnaso de Além-Túmulo Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder. Ricos solares Dos protegidos. Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos. Perante a mão Da fria dor.. Sempre a abater Os desgraçados.. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo. Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão. E ainda aí Não pude achar 248 . Depois. porém. Heróis valentes Cá nesta vida. Busquei os lares.Francisco Cândido Xavier . Os potentados Com seus valores Bem se julgavam Onipotentes.

Jovens e belas.Parnaso de Além-Túmulo O que eu ali Fui procurar.. Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura.. supremo.Francisco Cândido Xavier . Insuperável. Eu vi mulheres Nos seus prazeres. Fanadas flores. Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados. Mágoa insanável. belos. miseráveis Párias da vida. Que. Das diversões. Somente encontram Dores que afrontam. Onde se aninha E se amesquinha A multidão 249 . Pobres donzelas. Luz sem fulgores. Alvas estrelas De formosura. Deixam o teto Do seu afeto Maior.

Belas outrora. É o que produz Todo o amargor. sorrir. Almas impuras. Só sentimentos Que trazem presas. A ver se esquece O que padece. Aniquiladas. Gozar. Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. Julgando crer Que está a ver O paraíso.Francisco Cândido Xavier . Ensandecidas As criaturas Outrora puras. Só pensamentos Das impurezas. Ao som da festa.Parnaso de Além-Túmulo Que busca rir. Mas este riso. Desiludidas! 250 . A maior dor. E esmagadas. No entanto agora Flores perdidas. À meia luz.

A traição. De uma alegria Jamais sentida.Francisco Cândido Xavier . Toda a maldade Da hipocrisia. As pedrarias Tão luminosas. Tristonho assim. Pois só cobriam Míseros trapos. Notas atrozes. Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. Eram sombrias. então. Pobres farrapos De almas perjuras 251 . enfim. A grosseria.Parnaso de Além-Túmulo Nesse recinto Eu vi. Eram trevosas. Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores. Dissimulado. E tudo. Desconhecida Naquele meio. A iniqüidade.

Francisco Cândido Xavier . Dando-lhe a calma Que necessita.Parnaso de Além-Túmulo Ao seu Criador. Desanimado. Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita. E. Desiludido. Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. Me respondeu: “Filho bendito 252 . Fracas criaturas Baldas de amor. Só contemplei O mal que vi. condoído.” Mas uma voz Do azul do Céu. Só conheci E encontrei. Pronta e veloz. gemem. Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram.

E no Infinito Tudo o que fiz. Nos prantos seus. Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso. ainda. Donde provém A grande paz. Em todos os seres. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas. O grão tesouro. Nada se perde. Contempla.Parnaso de Além-Túmulo Do meu amor. Desenganadas Nas perdições. Vi transformadas Todas as cenas. O sumo bem. A Terra linda E então verás. Está na luta. Sou teu Senhor. 253 . Assim tornando O ser feliz.Francisco Cândido Xavier . Mais fino ouro Dos filhos meus.

Nas esperanças. A amarga dor. crianças. Gotas singelas. Por entre flores. Lágrimas belas. Jovens. Brotar a flux No coração De cada ser.Parnaso de Além-Túmulo Homens. Por entre a luz. Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris. Nas grandes penas. Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! 254 . Em profusão. Sorri. Meigas. Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. serenas.Francisco Cândido Xavier . mulheres. chorei. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei.

Lágrimas lindas São transformadas. Reconhecendo Que aqui nos Céus. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo. Jóias divinas Do escrínio santo. 255 . Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus. Fui então vendo. E vi. Quando voltavam Do seu exílio. Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra. Em profusão.Parnaso de Além-Túmulo Depois. Gemas brilhantes. Primor de encanto Do amor de Deus. Vale profundo De mágoa e dor. Que os coroavam Com gemas finas. então.Francisco Cândido Xavier .

Bendito o Pai. Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora. 256 . Felicidade Ao peregrino. Sejam benditas. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura.Francisco Cândido Xavier . Que entre os seres do Além é sempre igual. As pequenitas Gotas de pranto. fulgentes E deslumbrantes. Tranqüilidade. Que nem Ofir Pôde possuir. Com a lágrima bela.Parnaso de Além-Túmulo Alvinitentes. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda. Ricas. O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus.

Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz. Vai ali encontrar Consolação. aonde o pecador. imaterial. a Luz e a Vida. na provação. Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer. Pelo poder da Fé.Francisco Cândido Xavier . País dos Céus. Para se achar o Amor. Mansão de claridade e pulcritude 257 .Parnaso de Além-Túmulo No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor.. Doce Mansão de Paz. na Terra apetecida.. Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!. que se antevê. Onde impera a bondade do Senhor! Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul. Venturosa região do espaço Além. A morte é um sono doce. Depois de bem sofrer aí a dor. basta crer Na Paz do Céu. Onde há trégua à tristeza e ao padecer.

Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido. Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. Porém. Imenso e lindo. Iluminadas Do Criador. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! Dentro das lutas. 258 .Francisco Cândido Xavier . Estremecido. Nessas regiões Onde há mansões Purificadas. um dia. O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor. Gozam do afeto extremo de Jesus.Parnaso de Além-Túmulo Onde os bons. que adoraram a Virtude.

É que verei Se o que ensinei Ao teu valor.. Já te mostrei A lei do amor. sofrer. do Mal. porém. Conquistarás A grande paz.. Risos e flores. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor.. Luz do Senhor – O sumo bem. Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui.Francisco Cândido Xavier .. Do sacrifício!. E se aprenderes Saber viver.Parnaso de Além-Túmulo Tredas disputas Do Bem. Mágoas e dores. Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres. Tu lutarás. Por entre espinhos. Sorrir. A grande luz 259 .

A dor. Pra conquistares A luz.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Que eu. Nessas moradas Iluminadas Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço. teu Jesus. o amor Do teu Senhor. Reservarei E hei de guardar Para a tua alma. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos. Ao regressar. Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura. Tranqüilamente. A boa estrada E com carinho 260 . Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho.

Teus pensamentos. Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se. Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem Os sofredores. Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros. Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar. E ora conduz Teus sentimentos. Que cultivei Dentro em teu ser. Caminha avante. À perfeição Do coração.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. Sê sempre amigo Dos sofredores. 261 .

Então.Parnaso de Além-Túmulo Ambiciosos. nasceu Num lar ditoso. Se assim fizeres E procederes. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar. Sempre cumprindo Os teus deveres. e ria 262 . Dos venturosos. Frios. Onde a alegria Reinava. Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz. Pecaminosos. Em mensageiro Do Deus de amor. faustoso.Francisco Cândido Xavier . Régio. austeros. A conquistar Maior ventura. Rútila e pura Aqui no Céu.

Rico alcaçar Dos abastados. Ganhou saber Nobilitante. Desses palácios Materiais. Lindos. Naquele lar. Era adorado.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária 263 . Mas irreais. formosos. Por planetária. Ainda criança. A luz brilhante Dessa ciência Que. Belo esplendeu. Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu. Felicitado Nessa abastança. na existência. Na mocidade. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos.

Ele esplendeu No vão saber. Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade. Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor. O infeliz ser Viveu dos lábios. Despreocupou-se Com a consciência. brilhou. Fulgiu.Parnaso de Além-Túmulo A lei de Deus. Mas renegou 264 . Cheio de luz.Francisco Cândido Xavier . Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. Refugiou-se Na vã Ciência. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus. Na Academia Dos homens sábios. Mas sem olor. Tornou-se esquivo.

E da existência Da própria alma Por fim descreu. Só procurou Brilhar. Os próprios filhos. Filho do Mal. Somente amando Sua ciência Enganadora. Como um ateu. Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura. Nunca buscou. Assim. Os desprezou.Francisco Cândido Xavier . A imensa luz Espiritual. Sempre espalhou. 265 .Parnaso de Além-Túmulo A lei do amor. Nossa esperança Encantadora. Dele esperando Sua ventura. fulgir. A relegar. Suaves brilhos Da nossa vida. cumprir Sua missão.

infeliz. avara 266 . feias.Parnaso de Além-Túmulo Em profusão. Nunca pensou Uma ferida. Suas idéias Tristonhas. De quem fugia Sem compaixão! Enfim. Jamais o quis. Nessa existência Que passa breve!. Cruel. um dia. Do ateísmo Desventurado. A morte amara.Francisco Cândido Xavier . A Parca fria. Não consolou O que sofria. viveu Só na Ciência. Nunca estancou Uma só lágrima. Que brota n'alma Desiludida. O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas. Porém.

Do sono amargo Em que viveu. Dentro da dor.Parnaso de Além-Túmulo E dolorosa. Abandonado. então.Francisco Cândido Xavier . Onde. 267 . E o conduziu Para o Infinito. assim. Por onde sempre Se comprazera. O arrebatara Nessa escabrosa Escura via. Do seu amor. Amargurado Na aflição! Somente. Sentiu seus olhos Enevoados. Sentiu-se. Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo Em que vivera. Ele acordou Do seu letargo. num grito. Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. Lembrou de Deus.

Por isso. Pelo viver Que demandaste.Francisco Cândido Xavier . Jamais soubeste Te conduzir. agora. Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. E assim cumprir O teu dever.Parnaso de Além-Túmulo A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração. Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer. Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz. Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar 268 .

A consciência! 269 . Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação. Oferecer À Humanidade. Foi convertida Em fero braço Esmagador. O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho.Parnaso de Além-Túmulo E assim curar A alheia dor. E até negaste A existência Da própria alma. Entre alegrias.Francisco Cândido Xavier . À perfeição. Em luz perdida. Que então devias. O grande amor – Fraternidade. Dos próprios seres Que te adoravam. Que mais te amavam. À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres. Foste inimigo.

Frios horrores.Francisco Cândido Xavier . Correu sozinho 270 . Ele chorou E lamentou. Por muitos anos.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente.. Padecimentos. Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato. Que assim trilhara Na perdição. Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever. Seus desenganos Na senda triste. E o pranto atroz Jorrou. Fatal. Entre lamentos E dissabores. Do coração Do miserável. Continuamente. amara. então. Envergonhado.. Espezinhado Na sua queda.” Calou-se a voz.

E. Sofreu. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão. Assim lhe era Retribuído. O mesmo bem Que ele fizera. Só encontrava Consolação Nas lágrimas tristes 271 .Francisco Cândido Xavier . Perambulou Qual Aasvero.. A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho. muitas vezes. O seu olhar. Desanimado. Pedindo luz. Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou. E o pobre Espírito Desiludido. Supliciado. Amargurado. clamou. Desamparado.Parnaso de Além-Túmulo O mundo inteiro..

Cheia de unção Por entre prantos. Cruel e atroz. Extenuada No atro sofrer. Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado. Experimentada. A alma triste E solitária. Eu me perdi Por meu querer. santos. Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis. Pois não cumpri O meu dever!. Formosos.. Fui a grilheta Da impiedade. Até que um dia Em que sofria. 272 . Mais padecia A dor feroz. Ó bom Jesus! E mesmo assim. Tendo comigo A tua luz.Francisco Cândido Xavier ..Parnaso de Além-Túmulo Que derramava Em profusão.

Francisco Cândido Xavier . Mas tu que és bom.. Sempre viver Na singeleza. Quero sofrer Dura pobreza. No meu viver Sem luz. Tão justo e santo. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei.Parnaso de Além-Túmulo Pobre calceta Da iniqüidade. E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!. Para que seja Exterminado O meu orgulho. Sabes do pranto Das minhas dores. Dá-me o acúleo Da expiação. Não quero ter 273 . O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei.. Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação. sem flores.

Onde se encontra Maior ventura. Então serei Ramo perdido. Quero ganhar 274 . Não quero ter. Árido e seco Pelo vergel Enflorescido.Francisco Cândido Xavier . O próprio lar.Parnaso de Além-Túmulo Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. Nessa batalha Que empreenderei. jamais. Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. Não quero ver O dealbar De uma esperança. Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação. Incompreendido Em minha dor. Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. Nunca.

Francisco Cândido Xavier . Cruéis e duras Das aflições. Só é formosa. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa. Ó bom Jesus. portanto. 275 . Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. o pão. Quando aliada Da caridade. Claro e sublime Para o meu crime. Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes. O puro amor. O agasalho. Com meu trabalho. Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras.Parnaso de Além-Túmulo E conquistar A luz. Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei.

Quero sofrer Com humildade. Enfim.Parnaso de Além-Túmulo Neste planeta.Francisco Cândido Xavier ... E sempre ter Em mim bondade. A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena. Feliz dulçor Da caridade!. Seja bendito. perdido.. Deu-lhe o perdão. Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão. Pelo infinito Desenrolar E perpassar 276 . Viver somente Pela voxagem Das desventuras. Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado. Como a violeta Sob a folhagem.” E o Mestre Amado..

Parnaso de Além-Túmulo De toda a idade. O bom Jesus. Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas. Belas. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável. com sua luz E terno amor. E assim lhe disse: 277 . Rude e cioso Do seu poder E vão saber. Que. Do Criador! Na estrada de Damasco Num certo dia A Ambição. De parceria Com o Orgulho. Escuta a prece De quem padece.Francisco Cândido Xavier . queridas. Incomparável. Chamou o homem Jatancioso.

E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação. É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos. 278 . Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver.Francisco Cândido Xavier . Glorificado De grão-senhor!” E o pecador. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos. Faze-os vassalos No teu reinado. tu és Senhor potente. Grande e valente Aqui no mundo. Ser imperfeito Se achasse embora.Parnaso de Além-Túmulo “Homem. E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes.

O Deus de amor.Parnaso de Além-Túmulo A seu agrado. A este mundo Ingrato e feio A redimir. Que então lhe diz: “Mas. Foi sem demora Então chamado Por um juiz De retidão. E o bom Jesus. Que tudo vê. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai. O Filho amado Que à Terra veio. E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão 279 . e o bom Deus Que está nos Céus. Nosso Senhor.Francisco Cândido Xavier . Bem satisfeito. Que é a Consciência. Mestre da luz. O Criador. Nesta existência De provação.

Em sua cruz!” Mas. procura Melhor ventura Em só buscar. A relegar Toda a maldade. o tal homem Tão orgulhoso. Seguir Jesus Em sua dor.Parnaso de Além-Túmulo Tu deves dar. Lindos. Em seu amor. Nunca negar A tua mão. 280 . Do teu viver. Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. risonhos. Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. E espalhar Somente amor.Francisco Cândido Xavier . Assim. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos. Que já se achava Bem poderoso. Acompanhar. Com alegria.

Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão.Parnaso de Além-Túmulo Isso seria Obedecer E se humilhar. Enquanto ele Só te oferece Amargas dores.Francisco Cândido Xavier . Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário. Desolações. E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido. Tendo o poder Pra dominar. Tristes agruras. Eles. Nós concedemos Ao teu valor 281 . Assim. então. Cruéis espinhos. buscou E perguntou Aos companheiros. E o tal Jesus.

Há de levar Esse teu sonho De amar.Francisco Cândido Xavier . assim. Vale o gozar Constantemente. Lindos brasões. Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir. sofrer. Exprime a dor E não a luz. O louco amor Do teu Jesus. quando 282 . Essa é apenas O frio nada. Mais saberá O que é existir. Porque a morte Tão renegada. Ao caos medonho Do mais não-ser.” E assim. Pois vindo a Parca Bem de repente.Parnaso de Além-Túmulo De grão-senhor Sublimes flores. A vida aqui Só é formosa Para quem goza. E pois.

Nessa oficina Grande e divina Da Criação. Fê-lo abatido E desolado. Onipotente. A mensageira Da perfeição. A lapidária. Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro. Na caridade. No cumprimento Dos seus deveres. Chegou a Dor Humildemente. Na mansuetude. E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. Na humildade. A eterna obreira.Parnaso de Além-Túmulo O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. 283 .Francisco Cândido Xavier .

E que. num brado 284 . Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser. Só encontrou O juiz reto. então.Francisco Cândido Xavier . Depois. O Magistrado Incorrutível Da consciência.Parnaso de Além-Túmulo Na submissão Do coração Ao sofrimento. Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores. De mui sofrer E padecer Na expiação. Altivos filhos Da veleidade. Reconheceu A nulidade. A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia.

Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Indescritível. Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem. Em conseqüência. Com a maioria Da Humanidade. A esquecer Tudo o que seja Espiritual. Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres. Ermo de amor. Contemplará 285 . Para a alegria Fatal converge O seu viver. A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade. Porque verá. Efêmero gozo Do material. Para o enganoso.

Para o Bem exalçar. suave e triste.Francisco Cândido Xavier . pura e santa.Parnaso de Além-Túmulo Todo o esplendor. a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz. de amor e luz. Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz. Nessas mansões. A eterna luz. Angústia materna “Ó Lua branca. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens. se acaso viste Nos firmamentos o filho meu. Na ascensão para o Belo e para o Amor. Lua. Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia. que nos conduz À divina alegria. . fitando o céu – Dize-me. tornando-os mais unidos.A Mãe pedia. Que a Terra toda inunda de esplendor. 286 . No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. Do eterno amor Do bom Jesus.

que encantador Meu anjo belo como a açucena. ouviu: – “Ilha pacífica. Sou eu no mar do éter infindo. extasiada. E dos seus cantos.. da esperança. E das ausências conheço o pranto.. Como era grácil.. . Lua serena. Dum filho amado que a gente tem. Sentiu-lhe os raios. responde-me sem demora. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz. Deixou vazio meu doce lar. conheço-o bem!. Continuava.“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos.” E a Mãe aflita. Deixou minhalma triste e chorosa.. – “Então..Parnaso de Além-Túmulo A Morte ingrata.Francisco Cândido Xavier . Se tu soubesses. sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?..” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto. Fitou a estrela que lhe sorriu. Cheio de vida. cheio de amor!. feliz. Oh! se o conheço. fria e impiedosa.. 287 . martirizada. Roubou-me o sonho – deu-me o penar.

Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também. Em mim a noite não tem guarida. Gritou-lhe a pobre desconsolada... Porque tu guardas o filho meu. Todo vestido dum brilho santo. se me detestas. Senti a falta das primaveras. Do Senhor tenho doce trabalho. Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade. cheia de flores!. 288 .. sorrindo.Parnaso de Além-Túmulo Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro.. Aqui em tudo floresce a vida. Notou de logo seu filho lindo.” – “Se tu me odeias. ditoso e lindo. mãezinha amada. Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho.Francisco Cândido Xavier . Flores que afastam as agonias. banhada em pranto. Senti a falta desta alvorada!. Vida risonha.. Ó linda estrela que adorna o céu.” – “Quase te odeio.” A mãe saudosa. Num belo raio de luz.. Aqui terminam os dissabores. luz de alvorada.

. se mais não pude Ficar contigo na escuridão. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus.. pôs-se a chorar. Faço-te um ninho ditoso e belo. Jardins e luzes e fantasias... tristonha e rude.. também há fontes. Paz e ventura. E não podias partir assim. perdoa. Daqui te vejo. fugi da dor. Aqui.“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar.Francisco Cândido Xavier . estranhamente.. A Terra amarga. 289 . alguém me disse. Aqui é tudo felicidade. E. Muito pertinho do amor de Deus!. castelos e melodias.Parnaso de Além-Túmulo Não resisti. carícia e amor! Ó mãe. menos saudosa. Que tu te foste. Já não me embala tua meiguice. Envenenava meu coração. Lamentos do órfão Minha mãezinha. Sonhos. Viu-se mais calma. Sóis rebrilhando nos horizontes. na estrela. triste sem mim. Tanta era a saudade! Voltei do exílio.

.. te beijar.. minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo. Tudo é silêncio tristonho e escuro. pergunto à ave. E me respondem em voz suave: 290 . Que sofro e choro.Parnaso de Além-Túmulo Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus. De nos meus braços. Que me fugiste sem me levar. Numa alegria terna e louçã. mãe. que possui a luz. Mas tanto tempo faz que partiste. outro Jesus. Que de mim faça. Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro. Quando regressas dos Céus supremos. do teu querido. beijo o meu pranto. saudoso e triste. Outros meninos alegres vejo.. Que te procuro chamando em vão!. só noutra vida!. Somente a mágoa vem-me afagar. Há quantos dias que te procuro.Francisco Cândido Xavier . Tudo é saudade no coração. Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! .” Pergunto à fonte. Só noutra vida. E abraço o espaço... Sem esperanças de te encontrar. Um dos seus anjos.

” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela. no entretanto. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você. Nem para dar-me consolação..“ O mar e a noite me crucificam. que mágoas soltas Andam cortando meu coração. E me conforta. Ajoelhada. Cheios de angústias. . ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais.Parnaso de Além-Túmulo “Nós não sabemos! nós não sabemos!. mas. do céu. ai! não voltas. E ela retruca. Quando é que voltas desse país. Vejo-te linda nos sonhos meus. banhada em pranto. estás bonita 291 ..” Sempre te espero. Multiplicando meus pobres ais. Diz-me que vens e diz que te vê. e.Francisco Cândido Xavier . E de mãos postas aos pés de Deus. meu doce bem?” Ele responde. grave..” Pergunto à flor que engalana a aurora. Ó mãe querida.” Somente a nuvem. Tanta saudade. quando eu imploro. à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!. Sempre a meus olhos. consoladora: “Depois da morte serás feliz.

como um jasmim! Porém conheço que estás aflita. Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança 292 .. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços. Então.Parnaso de Além-Túmulo Qual uma rosa. Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores. Já não suporto tantos cansaços!.Francisco Cândido Xavier . Sentindo o anélito do teu beijo. Tremo de anseio. Junto da fonte que canta e ri. Quanta amargura. entrego-me ao meu desejo.. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura. Se não voltares.. Foge comigo para outra luz!.. Para quem segue triste e sozinho.. O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida.. sorrio. Com o pensamento junto de mim. Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho.. calo.. Volta depressa! guardo-te flores.

E ela chora. Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos. à luz dessa manhã. a sua dor. Chega-te a mim: sou tua irmã. muito ao largo.Francisco Cândido Xavier . Abre-lhe a porta. E passa o gozo. Diz-lhe. ao gosto amargo. O seu destino. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome. Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. E a fada. espera a ventura Com fé. Eis que a Fortuna se lhe esconde. com perseverança. 293 .Parnaso de Além-Túmulo Responde-lhe com brandura: – Meu filho. Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça.

Pedir a quem. Senhor. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão. portanto. Pedindo a luz.Parnaso de Além-Túmulo Oração A Ti.Francisco Cândido Xavier . O impenitente Na expiação. De Ti eu quero Me aproximar! 294 . Sou eu. Confio e espero. Pedindo o bem E a salvação. Senão a Ti. Meu coração Imerso em dor Aflito vem. somente. Em Ti.

Senhor. Assim. contente. O Amor é a lei. Bem sei. É porque andei Longe do Amor. Ditosamente.Francisco Cândido Xavier . Elevo a prece Do coração.Parnaso de Além-Túmulo Consolo santo. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça. 295 . Buscar os Céus. A Ti. Cheio de unção. Se sofro e choro. Rogando amor. Para o meu pranto Venho implorar. Se me demoro No padecer. Que me ensinaste E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse. Senhor. No meu viver.

Francisco Cândido Xavier . Como perdida. da bonança. E entre as virtudes. Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação 296 . Vaidosa e bela. Mãe piedosa!. Depois. na existência.. E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer. E mais adiante topa a Desgraça.. E vem a Vida por dar-lhe a Dor. No esquecimento do próprio ser. Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos. dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício. Escolhe sempre flores do vício. Sublime estrela que brilha No céu da paz. cansada e já comovida. Acorre à Morte por dar-lhe a Vida. e já sepultada. Quando só pede luz e amor.Parnaso de Além-Túmulo Fala à Ventura com riso irmão. E altiva e rude lhe esconde a mão.

Sobre tanta desventura.Parnaso de Além-Túmulo Dos pobres. Dai paz a toda discórdia. Livrai-nos do abismo tredo Dos males.. Que apavora. dos oprimidos Deste vale de gemidos. Deste mundo de tormentos. De tão grandes sofrimentos. Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade. Senhora. Trégua à dor!.Francisco Cândido Xavier . Compadecei-vos. Que sois a terna clemência 297 . dos desgraçados. Estendei o vosso manto De bondade e de ternura. Dos corações desolados Na aflição. A vossa misericórdia. Protegei os pecadores No degredo. Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor.. dos amargores. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos.

O coração tocado de agonias. Tende na vossa fé a bíblia santa.Francisco Cândido Xavier . Que vos possam compreender. Além Além da sepultura. Lá palpita a beleza onde a alma canta. Além da morte. Pois tendo ouvidos não ouvem. Prisioneiros da dor que fere e espanta. Que a este mundo sucedem-se outros mundos.. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos. O trabalho divino continua. entre ovelhas desgarradas. A luz do amor que vibra e revigora. 298 .Parnaso de Além-Túmulo E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem. E vendo não querem ver.. a vida tumultua. E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora. Ó corações que a lágrima devora. a nova aurora Luminosa e divina se levanta. E em vossa luta o bem de cada hora.

Do caminho de lágrimas sombrias. Feliz o coração que espera e ora...Parnaso de Além-Túmulo O Mestre chora como Jeremias. água do amor. Vendo o mundo nas lutas condenadas. Preces infindas e desesperadas. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além. pela oração profunda e imensa. 299 . Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina. o luminoso bem divino. Demorando as vitórias do Evangelho. Dois milênios contando o grande ensino Do Amor.. Sobre as desolações do mundo velho.Francisco Cândido Xavier . Que suaviza os rigores da existência. A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece... Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência. Mas. pura e divina. em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade.. Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Enquanto o mundo anseia. irmãos! Desdobrai as vossas velas!. Vinde.. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade. Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto. Nos caminhos translúcidos da Crença.. Rumo ao país ditoso da bonança. errante e aflita. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita. pura e infinita!. É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus. A terra da união e do conforto.. 300 . Fraternidade Fraternidade é árvore bendita. Que habitaremos na Imortalidade.. Que reside convosco em noite escura. estranho e aflito. A prece alcança as bênçãos do Infinito. É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca. Vós que chorais ao coro das procelas. Nunca olvideis a Excelsa Claridade.

Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. Senda de paz e de felicidade. Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos. Rogamos acendais a Luz da Vida.. Na luz das luzes do Consolador. 301 . Em direção à Fonte Eterna e Pura. Nos caminhos da lágrima e da dor. O Evangelho. Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade. Mas os túmulos falam pela estrada. Tendes convosco a Chama Adormecida.. É a escada de Jacob vencendo o abismo. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor. Ó torturados corações humanos. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós.Francisco Cândido Xavier . Ante os desfiladeiros da impiedade.Parnaso de Além-Túmulo Somos todos a Grande Humanidade. na luz do Espiritismo. Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz.

Vós. amor e graça. Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? Por que não veio até nós. E exclama. Na noite de Natal – “Minha mãe. por que Jesus. – “Deixai virem a mim os pequeninos!. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos.. de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória. Pelos caminhos da imortalidade.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça. Entre flores e alegrias.Francisco Cândido Xavier . enquanto a turba observa e passa..” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura. Cheio de amor e grandeza. Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” 302 . que tendes a fé que ama e consola.

Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração. Jesus ficou Nas palhas.Francisco Cândido Xavier . sem proteção. Às vezes. Em terna melancolia: – “Por certo.Parnaso de Além-Túmulo – “Acredito.. em tudo e por tudo.” 303 . de olhos fixos Na luz do céu que sorria. Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe. A luminosa humildade!. penso também Nos trabalhos deste mundo. Que o Mestre da Caridade Mostrou. meu filhinho.. Concluiu com sentimento.

e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade. impetuoso político e grande orador. das graças do templo aos sarcasmos da rua. poeta. além da noite que se adensa. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua. aos 9 de outubro de 1853. A alvorada feliz de um mundo livre e novo. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista. se engalana.Francisco Cândido Xavier . no entanto. Irmãos do meu Brasil. jornalista. Não mais senzala hostil. romancista. nem recua. Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal. Mas a luz do Senhor não teme.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. combatendo a descrença. escura e desumana. Descortinando. Na ansiedade e na dor. . Estado do Rio de Janeiro.. sublime.. continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. encantado e divino. A incompreensão do amor.. E. E desencarnou a 29 de janeiro de 1905.. membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Farmacêutico. Erige a liberdade augusta e soberana.

A vida é vibração ilimitada. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899. Perambula na dor da tua noite aziaga. infinda. Aos homens Volta ao pó dos mortais. Tomé. Musa amargurada. o mais além da Terra. depressa. E o seu grande mistério existe em toda parte. deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. Onde o sonho termina e a vida recomeça. . A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte.. homem que vens. coloca as mãos na tua própria chaga.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 José Duro POETA português. Volve ao sono cruel da tua carne obscura. Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria.. Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia.Francisco Cândido Xavier . Para depois ouvir a voz da sepultura.

Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada. então. ao pé do corpo imundo. E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja. agrilhoado ao mundo. Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte. 306 .Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera. E pude. Prisioneiro da mágoa. Escravizado ao pranto. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena. Onde fulgura o sol do verdadeiro amor. a triste senda escura. voar para a mansão serena. onde perece o amor. Algum tempo eu sofri.

Senhor. Seja o teu nome sublime.Parnaso de Além-Túmulo 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. De paz e de claridade Na estrada da redenção. Nos Céus. Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra. Santificado. Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus. meu Senhor. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade. Na luz dos sóis infinitos. que estás nos Céus.Francisco Cândido Xavier . Que em todo o Universo exprime Concórdia. ternura e amor. Perdoa-nos. Evita-nos todo o mal. como em toda a Terra De luta e de sofrimento. Dá-nos o pão no caminho. 307 . Feito na luz. no carinho Do pão espiritual.

Assim seja.Parnaso de Além-Túmulo Os débitos tenebrosos. Auxilia-nos. De iniqüidade e de dor. 308 . Distante da vossa luz.. De passados escabrosos. Nos sentimentos cristãos. Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade.Francisco Cândido Xavier . Com a proteção de Jesus. Sobre o mundo de desterro. também. Onde se faça a vontade Do vosso amor. Livra a nossa alma do erro.. A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem.

as suas qualidades primaciais de prosador. Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. notabilizou-se mais como romancista.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor.Francisco Cândido Xavier . Buscando a paz da humildade. A santa luz da harmonia. Entregou-se à Natureza. faze-te esposo Da pobreza desvalida. Abandonara a vaidade. em 1871. Com este pseudônimo. sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Assim que deixara a orgia No castelo. O Esposo da Pobreza Francisco de Assis. Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu. E nas horas de repouso. ouve. di-lo um comentador. um dia. A edição póstuma de Poesias exaltou. ninguém . Francisco. nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo.

Francisco Cândido Xavier . Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. Que é a grande felicidade De todos os corações. doce e pura. Que não fiam. Nos celeiros da fartura. conforta os desgraçados. E sobretudo. Flagelados pela dor.. Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins. que não tecem. Bênção do Céu. Vai. Sedentos e esfomeados. inda via. As aves que não trabalham E no entanto se agasalham. 310 .Parnaso de Além-Túmulo Vai aos Céus sem a bondade. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria. A seiva misteriosa No seio dos vegetais. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins. Quem alivia e consola. Buscando a graça do orvalho. Saltando de galho em galho. Esquece as imperfeições! ..

Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza.. então. amenidade. Que não tendo amor nem luz. Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores. Fragrâncias.Parnaso de Além-Túmulo A sacrossanta harmonia Do coração sofredor. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas. Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus. Submerso o coração Em sublimes alegrias. 311 . Poema de singeleza Esplendente e delicada.. Ornamentada de flores Que os meus encantos resume.Francisco Cândido Xavier . das margaridas. Francisco de Assis.

312 . Entretanto. As ovelhinhas balindo. Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. Tão cheia de desventura. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura. As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs. Caridosa ventura No abril das almas irmãs. imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria. Nessa mesma primavera Dos rutilantes espaços. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus.Parnaso de Além-Túmulo Aromas. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus.Francisco Cândido Xavier . Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia. Ó Terra. alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando.

..... Sorrindo.. Cantando.Parnaso de Além-Túmulo Aves e anjos Passarinhos. passarinhos.. Hino terno de esperanças Das aves e das crianças. Cantando. Com as pétalas orvalhadas..Francisco Cândido Xavier . Crianças... 313 . Açucenas perfumadas. Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores. Vai-se com a luz misturando. Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas. Aconchegados nos ninhos.. Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo.... Sorrindo. Lares de amor doce e brando.... Cantando. Sorrindo. anjos suaves.

couves. Sem descanso. Planta o milho. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro. então. o seu trabalho. Três quartas partes de tudo . Rasga a terra. Persegue-lhe a precisão. É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo. Tudo ajeita. Inda é espessa a escuridão. corta os matos. Já chega de repousar!” Busca. tudo faz.Francisco Cândido Xavier . Silvio Romero. Sua musa foi elogiada por Castilho. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come. Pobres Mal clareia o Sol a serra. Machado de Assis. Ao levantar-se da cama. planta a cana. A fome lhe bate à porta. José de Alencar. a labutar.Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade. Batatas. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito. Luta e sua. não tem paz. etc. com 95 anos de idade. feijão. em 1931. Ao acordar. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”.

Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. Nada existe no paiol. As plantas já se amarelam. Então. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover. Se geme. O estômago pede mais. Arde a terra. Redobra o pobre os serviços.Francisco Cândido Xavier . nos seringais. E sempre resignado. resolve pedir 315 . Mas se quer repetições. Quando a semente germina E os ramos querem crescer. Não possui um só real Pra consultar um doutor. O pobre nunca descrê. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor. Contudo. Não vem a chuva. Ah! que a água já está pouca Nos rios. Espalha o pé nos gerais. Que cuide dos mandiocais. porém.Parnaso de Além-Túmulo Pertencem ao seu patrão. Quando o pobre vai à mesa. que o vê. se sofre dor. queima o Sol. ele espera sempre Do Deus que o ama.

quanta tortura. Mas o patrão avarento Não adianta vintém. As promessas aos seus santos. Se tem pão não tem saúde. Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. Não lhes pode dar a missa. humilde e paciente. Arrasta-se e vai ao médico E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender. Que fulge no coração. os pais. Trabalha para comer. Dá-lhes porém seu tesouro. Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor. Que o padre cobra demais. o chá. E põe em prática os meios: As beberagens. Regressa para o seu lar. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar.” O pobre. 316 . Mesmo assim.Parnaso de Além-Túmulo Ao patrão que sempre o tem. Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho.Francisco Cândido Xavier . Os vinhos de jatobá.

Após a morte. A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. A casa faz alarido.Francisco Cândido Xavier . não tem Quem o ampare. Não tem casas de morada. Que na treva lhe dá luz. Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. O braço amigo de alguém. 317 . Que o cura na enfermidade. amor. Que o conforta na desgraça E ampara na provação. Mormente dum rico mau. quem o ajude. O carinho dessa mão. Sextilhas Quando a morte chega em casa. onde existem Justiça. ganha pau. Nem terrenos. nem ovil. ventura. Mal do pobre se não fora. E em vez de pão.Parnaso de Além-Túmulo Se tem saúde. Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil. Os cães o tocam da porta. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. Se bate à porta do rico.

Esteja distante ou perto. O povo está reunido Quando a morte chega em casa. Se tem pratas no baú. A morte não quer saber. Ela vem buscar alguém. 318 . Pedro ou José É o seu nome de batismo.Francisco Cândido Xavier . Não quer saber se ele tem. Se pratica o mal ou o bem. Se Sancho. Ela vem buscar alguém. Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é. Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça. A morte não quer saber Se é preto como urubu.Parnaso de Além-Túmulo Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. Não lhe pergunta qual é A sua religião. Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. De quem precisa por certo. Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus.

para o rico Nunca tem contemplação. Não perde tempo em clamor.. O que segue vai com unção. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído.Francisco Cândido Xavier . Para a morte não existe Anéis de grau de doutor. Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre. Para a morte não existe.. Se esse alguém vai-se casar. Ela vem de supetão Para o pobre. Nada disso a morte quer. Em atenções e conversas. 319 .Parnaso de Além-Túmulo Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. Nem mulher bonita ou feia. Nem procura examinar. Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador. Nem homem alegre ou triste. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno. Saúde. para o rico. beleza e dor. Se tem pai e se tem mãe. Para o pobre.

Francisco Cândido Xavier .... Com receio de ir ao fundo. galé. Galeno sem nó. Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus. Tateando dificilmente No meio da escuridão. De cá Que amargo era o meu destino!. Nem tão boa coisa é. Viver na Terra e somente Remando contra a maré. Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus.. Nem tão boa coisa é. É ele mesmo quem faz. Entremeados de prantos. Há quem estime? Talvez. Sentir as disparidades 320 ...Parnaso de Além-Túmulo O que segue vai com unção. Tristezas no coração. Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês.. Mas para mim que só fui.. Tantas dores em conjunto. Na tempestade ou na paz.

Da treva. Nas guerras de toda parte. Já não é próprio de mim. O pranto ferve na Terra.. Ver uns rindo e outros chorando. Nem tão boa coisa é. Da carne. Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim. do desconforto. salta acolá. 321 . Tantas misérias sentir. O mal sufocando o mundo. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é.Francisco Cândido Xavier . Meus irmãos de Fortaleza.. Pobre filho da ralé. Nas secas do Ceará. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé. Não é possível porque... da ingratidão. do Canindé. Nem tão boa coisa é. Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão.Parnaso de Além-Túmulo Das vidas cheias de dor. Mas falar demais agora. Salta aqui. Do Crato.

Francisco Cândido Xavier . Jogar pérolas a tolos. Nem tão boa coisa é.Parnaso de Além-Túmulo Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé. 322 .

Mas. ai! pobre de mim!. e desencarnou no Rio de Janeiro.. no Estado do Paraná. . jubilosamente.Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865.Francisco Cândido Xavier ... esmagado de angústia e de carinho. densa e fria. deixou inúmeras obras. Choro de amor. em junho de 1950. revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!.. Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E. Ao compasso do Amor e da Harmonia. Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha.. reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço. Mundos celestes.. Professor e poeta. Surgem constelações do Novo Dia Muito longe da Terra descontente.

Flores Exóticas. 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas. jornalista. Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora. Ébria de paz e de imortalidade.Francisco Cândido Xavier . Virgilianas. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. a seu tempo. A beleza profunda e peregrina. compositor musicista e tradutor renomado. vive em tudo. em Vassouras. etc. Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. em menina. onde ele tem precioso jazigo. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século. é hoje um nome esquecido. exceto uma senhora que. Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora. Médico. Sem as sombras das lutas desumanas. conta em sua bibliografia Poemetos. e conquanto fosse intelectual de prol. fora dos meios culturais. Não mais a noite. lhe assistira aos funerais. agora. . A alma vitoriosa entoa hosanas. oferecido pela população local.Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. Latinista de prol.

325 . Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Não lamenteis quem parta ao fim do dia.

Soneto Na escuridão dos anos procelosos. volver ao lar primeiro. Da velhice nos dias mal vividos. comediógrafo e diplomata. . Carimbos. Acharia nos céus maravilhosos. sobressai Sonetos e Rimas. em 17 de fevereiro de 1845. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos.. que ainda hoje se lê com encanto. Nas esteiras de prantos esquecidos. Soluçando empolgado de ventura. aos tempos bonançosos.Francisco Cândido Xavier . Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Entre suas obras. e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade. Pairar no Além!.. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. etc.. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. nascido no Rio de Janeiro. Noturnos.Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro. vislumbrando a Imensidade. Lírica. Ressurgido em perene mocidade. Foi jornalista.

327 . Divinal era a luz que resplendia. Em revérberos lindos de alvorada. Nova era a vida. Nas carícias risonhas dos caminhos. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada. De volta.Francisco Cândido Xavier . nova a estrada Que minhalma extasiada percorria. Envoltos em ternuras e em carinhos. Voltei.Parnaso de Além-Túmulo Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia. e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos.

. membro da Academia Brasileira de Letras.. e vasta colaboração na Imprensa. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos. . distante. conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes). Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores. Desolado viajor.Francisco Cândido Xavier . nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro. além ainda... Sara (poema).. em 1929. Bacharel em Direito. Poeta de grande e viva inspiração. Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto...Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE. Aureolada de eternos resplendores. Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores. Além ainda. ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho. Na alvorada perene da harmonia..

inédito. Residiu durante algum tempo na Capital Federal.. Foi um atormentado pelas enfermidades. . Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória. Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo.. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida. Aos clarões imortais do Novo Dia. Estado do Rio.. e faleceu. deixando.Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada. a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira. Brilhando além da lápide sombria. no começo do ano de 1918. aos 41 anos de idade. à rua dos Voluntários.. No estranho portal No último instante. Um sonho. Publicou dois livros. onde colaborou em vários jornais. um terceiro: Agonias e Ressurreição. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. naquela mesma cidade.Francisco Cândido Xavier . A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida. Um golpe.

Ler a sua epopéia feita de astros. porém. que é Pai bondoso. O firmamento. A vida é o eterno bem que nos foi dado. Sorrir aos infelizes. Ter a bondade ingênua das crianças. Tudo o que nos rodeia. Onde outras almas sentem fome e sede. E a alma que se abandona. Atenuar a dor alheia. . as alvoradas.Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se.. Dar sorrisos.. os corações. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor. de justiça. Para que o multiplicássemos indefinidamente. Ao sofrimento ou ao bem-estar. dar carícias.Francisco Cândido Xavier . a ave. Agradecer a Deus. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu. dar luzes. Aqui o incluímos. atenta a magnitude do seu estro. É um deserto sem oásis. Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida. o luar.

E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos. Que se estende infinita no Infinito.. Dar a lição de paciência se sofremos. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes. Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter.Francisco Cândido Xavier ..Parnaso de Além-Túmulo Dar tudo quanto temos. Unidade Todos nós somos irmãos. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares. Dar um pouco de gozo se gozamos. 331 . Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador.. Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares. Terras e almas.. Tudo isto é amar multiplicando a vida. Infinitas e esplendorosas. Porque os nossos espíritos São unos na essência.

Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei. pois.Parnaso de Além-Túmulo As quais no divino equilíbrio do Amor Buscam a perfeição indefinida. Encerra em si Todos os mundos. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica. O qual. por uma disposição inexplicável. Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus. Vivereis dentro de sagrados coletivismos. 332 . Sem egoísmos. Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. Porquanto. Espiritualmente. O mesmo sonho. Somos filhos de um só Pai. da Terra O caminho comum da vossa salvação. Todos nós somos irmãos.Francisco Cândido Xavier . Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito. A mesma dor na luta A prol da redenção. mais além Das fronteiras planetárias.

do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo. Lá dentro. Tão amargos pesares. .. “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso. Como incontáveis são as almas humanas.Francisco Cândido Xavier . Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz. Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. Só há um recurso: Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas. 333 . Pontificava o Anjo da Justiça.. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!.. Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira. Pela porta escura do remorso... Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis. E infinitos seus estados de consciência. Para sanar tão estranhas feridas. Banha-te nas suas águas cristalinas.“ “Filha – respondeu compassivo –.

É para a Humanidade A promessa da Paz. Nos dias amargurados que transcorrem. Reconheceu o luminoso Anjo da Dor. de cuja fonte límpida promana a Salvação...Parnaso de Além-Túmulo Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos.. O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas. E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino. Inçados de perigos E de dores amargas. E ainda hoje. E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!. Banhou-se na água lustral dos tormentos. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção. cheios de confiança! 334 . Conduzida pela Dor. O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes. A fonte que desaltera todos os sofredores. Apegai-vos a Ele.. E nos seus braços magnânimos e compassivos..” E a pobre regressou.. Submergiu-se no regato encantado.Francisco Cândido Xavier .

És alma em ascensão para Deus. A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes.. Longe das lágrimas Do orbe obscuro. Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte.. Dos prantos e das provações remissoras!.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Ele é a misericórdia personificada. Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra.. Ouvi a sua voz No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos. Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual. O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem.. Acima de todas as coisas transitórias. A tua inteligência e o teu sentimento 335 .

. Misteriosa. No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos..Parnaso de Além-Túmulo São fulcros de luz imperecível. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza. Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor. – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres. Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto. suave. 336 . Na amargura e na dor. Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram. doce. E sentirás uma carícia branda. Buscando Deus. Que sonham e choram.Francisco Cândido Xavier .

. do repouso. Se ama a prece e a pureza. Mas um dia. 337 . Juraste fidelidade só a Deus. Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração.. Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas. Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo.Parnaso de Além-Túmulo Ao pé do altar Eu vivia no Claustro. Se tens a Fé mais pura. Está sempre em meio às tentações Para vencê-las. Esmagá-las com o Bem. Não te esqueças que a Caridade. Disse-me alguém: “Minha filha.Francisco Cândido Xavier . Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas. Na sombra silenciosa dos mosteiros. Não permanece No recanto das sombras. A Esperança mais linda. O anjo que nos abre as portas da Ventura. Destruí-las com Amor.

Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o. Atraída pela Verdade. Sê a abnegação e a bondade serena. pois. Que contigo é seu filho dileto. E só a dor que nos crucia 338 . Não te retires.. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus. sem reserva. A tua esperança em Deus Será dilatada. Será um hino constante subindo aos Céus. Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria.. do mundo. Darás a Deus. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas.Francisco Cândido Xavier . Sê a mãe desvelada. Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas. brandamente.Parnaso de Além-Túmulo A solidão da cela é um crime. A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. Dos mais rudes pesares. A irmã consoladora. Desprezando o repouso e a soledade. a tua alma Amando o próximo.

atropeladas pelo mal. Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria. Estendendo os seus braços tutelares 339 . – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura. Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras.Parnaso de Além-Túmulo Ou a dor que consolamos. Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos. Vertidos na corola imensa das dores. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas. Espezinhadas pelo sofrimento. Amarguradas e infelizes. Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. Fustigadas pelo furacão da desgraça.Francisco Cândido Xavier . Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente.

Que nos ampara e guia em nossa cruz.Francisco Cândido Xavier . Veleje tranqüilamente. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio. E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas. que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!. Buscando o porto esperado com ânsia.. Levando-nos ao Céu. Com as suas velas alvas e pandas. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras. Porque se apegaram A âncora da Fé.. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas. É. Lenindo os padeceres Das mães desoladas. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo. E sendo o arrimo de todas as criaturas. Maria é o anjo. pois. sobretudo.Parnaso de Além-Túmulo Às mães carinhosas e desprotegidas. Como náufragos de uma tormenta gigantesca. Balsamizando os pesares. Para que o Brigue da Esperança. Ao seu olhar compassivo. A Virgem da Pureza 340 .

Parnaso de Além-Túmulo – Mãe das mães. 341 .Francisco Cândido Xavier .

alheio à recompensa. em cântico divino Do trabalho imortal. Que o trabalho. Da beleza do herói ao verme pequenino.Francisco Cândido Xavier . Autor de inúmeras obras literárias.. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna. Júbilo de ajudar. por si. Tudo se agita e vibra. Trabalha e serve sempre. Desde o fulcro solar ao fundo da caverna. é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito. e desencarnou em 1926. . luta e contentamento. Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa.. brunindo a vida eterna!. no Estado do Rio Grande do Sul. Desde a flor da montanha às trevas do granito.Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858. Tudo na imensidão é serviço opulento. Buscando a solução da dor e do destino.

inquire o brado Da justiça sem Deus.. Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918. que trêmula se entrega. implacável e cega.. Surda à lição do amor. Considerado. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta.. – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. “Crucificai-o!” – exclama. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado. Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema. ansiosa se congrega.Francisco Cândido Xavier . ao seu tempo. . E debaixo do apodo e ensangüentada a face.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro. Para a consumação dos festins do pecado. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado. A multidão inteira.. Jesus!.... Jesus! Jesus!.. o Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Mas eis que todo o Azul celígeno estremece. Espia. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia. No derradeiro sono. em sombrios Pesadelos da carne palpitante.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante. sonda e chora. Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor. vacilante. no teu portal a alma tateia. instante a instante. Impassível. E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais. Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios.. descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas. No Horto Tristemente. inquire. Jesus fitando os céus. de Paz e de Alegria.Francisco Cândido Xavier . – “Se puderdes. Morte. duríssimo e refece.. meu Pai. 344 . cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!. em prece.” – dizia. Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas. afastai-o!. Sobre o meu peito em febre.

.“Amados. Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição..Francisco Cândido Xavier . a multidão fremente.” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: . Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte.Parnaso de Além-Túmulo Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora. da cruz.. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura. osculando-lhe a fronte. murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!. Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos. E sublime na fé mais vivida. – Raio de eterno sol na senda dos destinos. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. Na doce mansidão dos seres pequeninos. A crucificação Fita o Mestre. 345 .... eu vos dou meus últimos ensinos. Mestre!” E toma-lhe das mãos. de dor e desventura. E Jesus abençoando aquelas almas cegas.

sem cárcere mesquinho! 346 . derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente. E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes..“ Aos descrentes Vós.Parnaso de Além-Túmulo A negra multidão de seres que ainda ama. Contempla a vastidão celeste que o reclama. Alma doce e submissa. envenena e mata aos poucos. As hostes dos descrentes e dos loucos. Da fé viva. Soluça no silêncio. Que entorpece. Sobre tudo se estende o raio dessa chama. Sob os gládios da dor aspérrima.Francisco Cândido Xavier . não sabem o que fazem!. Começai outra vida em nova estrada. E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem. amargamente. Retrocedei dos vossos mundos ocos. Sem a idéia falas do grande Nada. Lança os marcos da luz na noite primitiva. que seguis a turba desvairada. Gritos e altercações! Jesus. Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. . meu Pai.

Sente o beijo de glória do Infinito!. adora.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. com desvelos. Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza. É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. quando. Aspirações do mundo miserando. 347 .. brancos os cabelos.. Nas lágrimas de dor do peito aflito!. anela e sente. Guardadas com ternura.. Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que. Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza. sofre e soluça. ansioso.. Rotas as carnes. Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo. Mas que o homem realiza apenas. onde a esperança sem repouso Luta. e sonha presa.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Tombe no caos do nada, em túrgida surpresa,
O que o homem pensou num sonho de demente,
Os mistérios da fé, fulcro de luz potente,
O templo, o lar, a lei, os tronos e a realeza;
Estertore e soluce exausto e moribundo,
Debilmente pulsando, o coração do mundo,
Morto à mingua de luz, ambicionando a glória;
O Espírito imortal, depois das derrocadas,
Numa ressurreição de eternas alvoradas,
Subirá para Deus num canto de vitória.

O Livro
Ei-lo! Facho de amor que, redivivo, assoma
Desde a taba feroz em folhas de granito,
Da Índia misteriosa e dos louros do Egito
Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma!
Vaso revelador retendo o excelso aroma
Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito,
O Livro é o coração do tempo no Infinito,
Em que a idéia imortal se renova e retoma.
Companheiro fiel da virtude e da História,
Guia das gerações na vida transitória,
É o nume apostolar que governa o destino;
Com Hermes e Moisés, com Zoroastro e Buda,
Pensa, corrige, ensina, experimenta, estuda,

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E brilha com Jesus no Evangelho Divino.

Brasil
Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça,
Da virtude ateniense à grandeza espartana,
O anjo triste da paz chora e se desengana,
Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,
Tribos, tronos, nações... tudo se esfuma e passa.
Mas o torvo dragão da guerra soberana
Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana,
Disputando o poder e denegrindo a raça.
Eis, porém, que o Senhor, na América nascente,
Acende nova luz em novo continente
Para a restauração do homem exausto e velho.
E aparece o Brasil que, valoroso, avança,
Encerrando consigo, em láureas de esperança,
O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Pedro de Alcântara
O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos, que, bem o sabemos, há quem diga não serem da sua lavra. Ignoramos por que
Dom Pedro 2º, alma boníssima, vibrátil e espírito culto, não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos, a
ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta
aos 20 anos. De qualquer forma, entretanto, o que se não poderá
negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que, de Dom
Pedro, conhecemos.

Meu Brasil
Longe do meu Brasil, triste e saudoso,
Bastas vezes sentia, mal desperto,
Com o coração pulsando, estar já perto
Do pátrio lar risonho e bonançoso.
E deplorava o rumo escuro e incerto,
Do meu desterro amargo e desditoso,
Desalentado e fraco, sem repouso,
O coração em úlceras aberto.
Enviava, a chorar, na aura fagueira,
Minhas recordações em terna prece
Ao torrão que adorara a vida inteira;
Até que a acerba dor, enfim, pudesse
Arrebatar-me à vida verdadeira.
Onde a luz da verdade resplandece.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

No exílio
Pode o céu do desterro ser tão belo,
Quanto o céu do país em que nascemos;
Nada faz com que o nosso desprezemos,
Acalentando o sonho de revê-lo.
Todo o nosso ideal pomos no anelo
De regressar, e voando sobre extremos,
Com o pensamento ansioso percorremos
Nosso amado rincão, lindo ou singelo.
Jaz no desterro a plaga da amargura,
De acerba pena ao pobre penitente,
De amaro pranto da alma torturada;
A alegria no exílio é desventura,
É a saudade na ânsia mais pungente
De retornar à pátria idolatrada.

Rogativa
Magnânimo Senhor que os orbes cria,
Povoando o Universo ilimitado,
Que dá pão ao faminto e ao desgraçado,
E ao sofredor os raios da alegria,
Se, de novo, no mundo, desterrado,
Necessitar viver inda algum dia,
Que regresse ditoso ao solo amado
Da generosa pátria que eu queria;

351

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Se é mister retornar a um novo exílio,
Seja o Brasil, lá onde eu desejara
Ter vertido o meu pranto derradeiro...
Que, novamente viva sob o brilho,
Da mesma luz gloriosa que eu amara,
Na alcandorada terra do Cruzeiro.

Soneto
No exílio é que a alma vive da lembrança,
Numa doce saudade enternecida,
Tendo chorosa a vista que se cansa
De procurar a pátria estremecida;
Com dolorosas lágrimas avança,
Do sonho que teceu e amou na vida,
Para a morte, onde tem sua esperança,
Na celeste ventura prometida.
E Deus, que os orbes cria, generoso,
Na vastidão dos céus iluminados,
Concede a paz ao triste e ao desditoso
Na clara luz dos mundos elevados,
Onde, do amor, reserva o eterno gozo
Para as almas dos pobres desterrados.

Página de gratidão
Tangendo as cordas da harpa da saudade,

352

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Venho ao Brasil buscar a essência pura
Do amor da pátria minha, da doçura
Da flor cheia do aroma da amizade.
Prende-me o coração a suavidade
Desse arroubo de afeto e de ternura
D'alma do povo meu, que de ventura
E de alegria o espírito me invade.
Do misterioso aquém da morte, eu vejo,
Sentindo, essa onda intensa e luminosa
Da afeição, que idealiza o meu desejo:
E tendo a gratidão por companheira,
Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa,
Amando mais a Terra Brasileira.

Oração ao Cruzeiro
(No cinqüentenário da Abolição)
Luminosas estrelas do Cruzeiro,
Iluminai a terra da Esperança,
Na doce proteção de um povo inteiro
Onde a mão de Jesus desce e descansa.
Símbolo sacrossanto de aliança
De paz e amor do Eterno Pegureiro,
Guardai as claridades da Bonança
Na vastidão do solo brasileiro.
Constelação da Cruz, cheia de graças,

353

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Transfundi numa só todas as raças,
No país da esperança e da bondade.
Que o Brasil, sob a luz da tua glória,
Possa escrever, no mundo, a grande história
Das epopéias da Fraternidade.

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil, símbolo da bonança,
Enquanto a guerra estruje indômita e sombria,
Sê nos planos de luta o sinal de harmonia,
Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança.
Assinalas, na Terra, o país da Alegria,
Onde toda a existência é um hino de abastança,
Guardas contigo a luz da bem-aventurança,
És o florão da paz, marcando um novo dia.
Nasceste sob a luz de um bem, alto e fecundo,
Nunca te conspurcaste aos embates do mundo,
Buscando iluminar as lutas, ao vivê-las...
É por isso que Deus, que te ampara e equilibra,
Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra,
E um coração azul, esmaltado de estrelas.

Brasil do Bem
Eis que o campo de sombra se esfacela
No doloroso e amargo cativeiro

354

Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro.. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa. Deus te guarde os tesouros da esperança. Como a doce promessa nos caminhos!. Grande Brasil do Bem e da Abastança. Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade.. heróica e bela. Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante. Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança. Meu Brasil. Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança. guarda a luz dessa vitória. Qual furacão no auge da procela. Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança. Aniquilando a Paz do mundo inteiro. Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro. 355 .Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Da guerra que ameaça o mundo inteiro.

Parnaso de Além-Túmulo Ama a Deus. Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho.Francisco Cândido Xavier . do Amor e da Verdade. Faze o bem. 356 .

. E como o anjinho débil que renasce. das ilusões desfeitas. se a Terra tivesse o amor. Magistrado. se cada . 2 Ah!. Chora. além de justo e bom. qual se encontrasse A luz primeira dos primeiros dias. porém. chora e sorri. Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas.Francisco Cândido Xavier .. membro da Academia Brasileira de Letras. E vê morrer seus ideais mais belos!. O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos.. litoral do Maranhão. À frouxa luz de uma ventura escassa.. Sob o infortúnio. O homem passa Atrás dos anos sem compreendê-los. sob os atropelos Da dor que lhe envenena o sonho e a graça. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911. Rasga-se a fantasia que o enlaça.Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859.. a bordo do vapor São Luiz. Longe. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração.. Depois do pesadelo das mãos frias. Sonetos 1 Tudo passa no mundo. na baía de Mangunça.

. Que jamais viu um raio de alvorada Dentro da noite eterna que lhe veio Do sofrimento que ninguém conhece. que ampara a vida torturada. A existência seria a ardente prece Erguida a Deus do seio da abundância.Francisco Cândido Xavier .. Ah! se os homens se amassem nessa estância A dor então desapareceria.. se cada seio De mãe nutrisse os órfãos..Parnaso de Além-Túmulo Homem pensasse no tormento alheio.. Se na estrada Do contraste e da dor houvesse o anseio Do bem.. Entre os hinos da paz e da alegria. Se tudo fosse amor. 358 .

A febre das paixões desaparece. a sua afirmativa nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais fulgurantes. Além te espera indômita batalha. Além de Ode a um Poeta Morto. Sob a luz da verdade se atenua. O Espírito a si mesmo reconhece.Francisco Cândido Xavier . Mas. Que nos traz o desânimo. nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado em Itaipava. Onde o suposto gozo se estraçalha Sob o guante acerado das provanças. com apenas 31 anos de idade. foi deputado estadual e posteriormente Secretário de Legação. Para cá do sepulcro a dor antiga. . de quem foi amigo dileto. considerada como seu livro de ouro. Mas a luta infinita continua. Entre os talentos da chamada nova geração. quando pensas que descansas. dedicada a Olavo Bilac. Luta Aí na Terra. Muita vez.Parnaso de Além-Túmulo 359 52 Raul de Leoni FLUMINENSE. as bem-aventuranças São o sonho que o Espírito agasalha. mesmo após a morte. a alma trabalha Buscando o céu das suas esperanças. a fadiga. deixou Luz Mediterrânea. Bacharel em Direito.

quanta agonia! Mas se o bem praticamos todo o dia. Junto à dor que esclarece e regenera. a alma sincera. sempre alheio à recompensa. Pelas sendas da vida nos espera. Julgando-se na eterna primavera. Se vivemos no mal. 360 . E ao tombarmos no ocaso da existência.. trabalha e espera. Cheio de amor e fé. venturosos!.. luminosos!. Dentro da expiação estranha e rude. Como somos felizes.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra Renascendo no mundo da Quimera. Ao colhermos a flor da juventude. Nos domínios do mal. Soneto Não te entregues na Terra à indiferença. Mas o tempo na sua mansuetude. nada há que vença A alma boa. É quando o nosso Espírito se ilude. No pensamento nobre persevera De servir. O desejo do Bem dilata a esfera Das luzes sacratíssimas da Crença. a alma pura. Nós revemos do livro da consciência Os caracteres grandes.Francisco Cândido Xavier .

361 . Desatando os grilhões.. Jamais medonha e trágica surpresa.. “Post mortem” Depois da morte. Cada instante de dor nos aprimora. para a tua alma.. a vida calma. que é o Amor eterno e ilimitado E a gloriosa síntese de tudo.. rompendo os laços Dessa animalidade atrasadora. Buscando o Indefinível. o Insondado. Heróis de novas lendas carlovíngias. O Sonho imanta as nossas almas. cinge-as. Terás na Terra. tudo aqui subsiste... Deus. então...Francisco Cândido Xavier . Nós todos vamos pela vida em fora Deixando no caminho os mesmos traços. Nós. E a morte não será. Que procura tolher os nossos passos. Aspirando os olores da Pureza!.Parnaso de Além-Túmulo Vive nas rutilantes almenaras Dos castelos do Amor de essências raras. Em Deus buscando a Perfeição que mora No cume inatingível dos Espaços!. Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo.

Presa dessa vaidade toda humana. que entrevemos.. 362 . Mas na Terra a nossa alma empobrecida. Quando a nossa alma chora nos extremos Dessa dor que no mundo nos assiste. A fé demolidora de montanhas. Do conforto celeste os bens supremos Ao coração desalentado e triste. Soneto Se todos nós soubéssemos na vida A Verdade grandiosa e soberana. Não faltaria o gozo que promana Dos sentimentos da missão cumprida.Parnaso de Além-Túmulo Neste Além que sonhamos. irreprimida. porém.. torvo e nefando. Para que brilhe a Perfeição da Vida. Vamos passando assim a vida inteira. Também existe aqui a austera pena A consciência infeliz que se condena. E a Morte continua eliminando A influência do mal.Francisco Cândido Xavier . Sem esposar a crença imorredoura. De desgraças e de erros se engalana Numa incerteza amarga. Por qualquer erro ou falta cometida. existe Aos amargosos prantos que vertemos. Doce consolação.

Nessa noite de dúvidas estranhas!.Parnaso de Além-Túmulo Quase imersos na treva da cegueira.. 363 ..Francisco Cândido Xavier . Sem vislumbrar a luz orientadora.

tuberculoso. em Campos do Jordão. meu Senhor. Noturnos e Sala dos Passos Perdidos. Vi-te. Estás na direção dos homens. Nunca pude enxergar As Tuas mãos suaves e misericordiosas. . É que Te achavas. Consolando os aflitos e os desesperados. e desencarnado. Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi. como ainda Te encontras. Em todos os caminhos de suas atividades terrestres.Parnaso de Além-Túmulo 364 53 Rodrigues de Abreu POETA nascido em Capivari. além de inúmeros trabalhos esparsos na imprensa do seu Estado. Onde gemiam as dores e as misérias da Terra. Nos bem-aventurados do mundo. Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome. Trazendo a visão doce do Céu Para o olhar angustioso de todas as esperanças.Francisco Cândido Xavier . São Paulo.. Nos caminhos mais rudes e espinhosos. Publicou Casa Destelhada. Foi cognominado – “o poeta triste das rimas róseas”. Senhor. Estás no templo de todas as religiões. Senhor! Eu não pude ver-Te. Onde busquem Teus carinhos As almas sofredoras. a 17 de setembro de 1899. E a verdade. aos 24 de novembro de 1927..

porém. Mocidade. . E entendi-Te.... Curando-me com a Dor. Cheia de piedade para com as suas fraquezas. Com o verbo silencioso do Teu amor. E não Te encontrava pelos caminhos ásperos. Entretanto.. alegria. sonho e amor. Com a mansidão de Tua misericórdia infinita. que a Terra fechara dentro de minhalma. E minha vida rolava no declive de todas as ânsias.. Vi que chegavas devagarinho. Quando Te vi na paz da Natureza. Multiplicaste o pão das minhas alegrias E abriste-me o Céu.. De Tua assistência invisível e poderosa. Nas Tuas maravilhas de beleza.Parnaso de Além-Túmulo 365 Sem que eles se apercebam De Tua palavra silenciosa e renovadora. Chamaste-me sem exclamações lamentosas. Inquietação ambiciosa de vencer. E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo. Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os homens. Iluminando o santuário do meu pensamento Com a Tua luz de todos os séculos! Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha. Não disseste o meu nome para não me ofender. Senhor. Chamaste-me.Francisco Cândido Xavier .

” “Ave Maria. Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos. O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória. Quando subi aos elevados promontórios da esperança.Parnaso de Além-Túmulo No Castelo encantado Eu ainda não era um homem.. cheia de graças.. Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma.. E quando quebrava os últimos altares. Tudo esqueci... Tudo sonhei contemplando o horizonte!. do coração. onde quase todos os frutos apodrecem. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: 366 . Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão.” Gotas do mel de amor. por infelicidade. Na embriaguez da ansiedade e do desejo. Gotas de mel. palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu... Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus. Na inquietação da carne e do desejo. E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas. Divisando os países da beleza. Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes..Francisco Cândido Xavier .

“Sou a Dor.Parnaso de Além-Túmulo “A sombra da ilusão envenena-te a vida. Que a senti junto a mim. Na minha estrada de alegria. Trago-te o pão dos grandes amargores. “Eu corrijo as paisagens interiores. Apodreceu meu coração em sua mão... Afastou-me a alegria da saúde.... “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados. E.. Fez de meu sonho a casa destelhada. “Guarda as minhas verdades. Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento. Fez fugir-se-me a noiva idolatrada. afoitamente.” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia. “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira. Casou-se comigo a Dor. desde esse momento. ficarei sempre contigo. 367 . Deixou-me só na lôbrega jornada. “Irás comigo a mundos ignorados.Francisco Cândido Xavier . Deu-me as sombras dos Campos do Jordão.. meu amigo. a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra. de tal maneira. Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia.

Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!. A cuja sombra o espírito descansa. Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade.. Pela sua porta estreita. Mas oh! suave milagre de ventura. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo. bom e fecundo. O único fruto eterno..Francisco Cândido Xavier . E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! 368 . Nas grandezas de Tua claridade. doce e balsâmica da crença. meu Senhor... Cala-se o meu verso humilde. Enxergando na tamareira da esperança. Tudo levou-me a dor incontentada.Parnaso de Além-Túmulo Crestou-me a flor ditosa da alegria. Pelos desertos áridos do mundo. Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz.. Sustentando a infeliz Humanidade.. Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença.. ó Senhor de Bondade. meu Senhor..

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

369

54
Souza Caldas
NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro, em 1762, e aí desencarnado em 1814. Formado em Direito pela Universidade de
Coimbra, abraçou mais tarde a carreira eclesiástica, ordenando-se
em Roma. Dizem que as suas melhores composições, as que o
levaram a ser preso pelo Santo Ofício, perderam-se. Acreditamos
que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos
Salmos de David, justamente, de suas obras poéticas, a mais
apreciada.

Ato de contrição
A vós
Senhor,
Meu Deus
De Amor,
Minhalma
Implora
A salvação!
Meu Pai,
Bem sei
Que mal
Andei,
Buscando
O erro
E a imperfeição;
Assim

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Pequei,
Na treva
Errei,
E jus
Eu fiz
A expiação.
Vós sois,
Porém,
Farol
Do Bem!
Ouvi
Dos Céus
Minha oração.
Sois vós
A luz,
E junto
A cruz
Do meu
Sofrer,
Quero o perdão;
Perdão
Que traz
Sossego
E paz
Ao meu
Viver
Na provação.
Suplico-o
A vós,

370

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Na dor
Atroz,
Amara
E rude
Da contrição!
Dai ao
Meu ser,
Aflito
Ao ver
O seu
Pecado,
A redenção;
E hei de
Poder
Feliz
Vencer
Do mal
Cruel
O atroz dragão!

Versão do Salmo 12
Senhor dos Mundos, na Terra inteira,
Os maus somente é que dominam,
Rudes tiranos e os impiedosos
De coração.
Ganham favores, buscam louvores,
Espezinhando seus semelhantes,
Tripudiando nas vossas leis,

371

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ímpios que são.
Causam a ruína da vossa casa,
Lançam injúrias ao vosso nome,
Adoradores da iniqüidade,
Da imperfeição.
Vossas ovelhas são confundidas,
E sufocadas pelo amargor,
Fracas e pobres andam saudosas,
Do vosso amor.
São elas todas, pobres e humildes,
Glorificai-as, meu Criador!
Alevantai-as do abismo escuro
Com a vossa luz!
Vossa bondade, imensa e eterna,
É a esperança dos pecadores;
Pai amoroso, salvai os homens,
Confio em vós!

Versão do Salmo 18
Por toda a parte
Veja a criatura,
Na noite escura
Da sua dor,
A eterna força
De um Deus clemente,
Onipotente,
Cheio de amor.

372

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Astros e mundos
No céu girando,
Aves cantando,
O mar e a flor,
Todos os seres
Hinos entoem,
Cantos ressoem
Ao Criador!
Eterno Artífice
Que os sóis modela,
Lustres da auréola
Da Criação,
Sois a bondade
A mais perfeita,
A Luz Eleita,
A salvação.
Doce refúgio
Dos desgraçados,
Aos meus pecados,
Muitos que são,
Imploro e clamo,
Com o meu espírito
Turbado e aflito,
Vosso perdão.
Que desprezei
O ouro brilhante,
Lindo e faiscante,
Bem sei, Senhor!
Como fugi
Da hora fugace
Que me afastasse
Do vosso amor!
Mas bem sabeis

373

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que a carne impura
Leva a criatura
A mais pecar;
Fazendo assim
Pra meu tormento,
Meu pensamento
Prevaricar.
Porém, o vosso
Amor profundo
Redime o mundo
Do padecer;
Dando-lhe o tempo
E áspera lida
Para na vida
Tudo vencer.
Vós que acendestes
Faróis brilhantes,
Sóis rutilantes
Dalmo esplendor,
Cantando a vida,
A onipotência
E a pura essência
Do vosso amor!
Que sois o sol
Dos universos,
Mundos dispersos
Na imensidão.
Além da força
Vós sois, também,
O sumo bem
E a perfeição
Que vence o mal,
O orgulho e a dor,

374

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que o pecador
No coração
Guarda com zelo,
Cruéis inimigos,
Que são amigos
Da perdição.
Misericórdia,
Assim espero,
Almejo e quero
Para que eu
E os meus irmãos
O mal deixemos
E abandonemos
Buscando o Céu.
Por vossa causa
O maior gozo,
Esplendoroso,
Desprezarei,
Para que eu viva
Na luz fulgente,
Eternamente,
Da vossa lei.
Assim, Senhor,
Minhalma aguarda
A luz que tarda
Ao mundo vão,
Que há de esplender
Nos homens todos,
Limpando os lodos
Da imperfeição.
Dominareis
Toda a impiedade
Pela verdade

375

Amparo e luz! 376 .Parnaso de Além-Túmulo Que em vós transluz! E.Francisco Cândido Xavier . servo. aguardo Do vosso amor Consolo à dor.

O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas. alma iludida. Coração enganado. Viu as almas tremerem. Pois no mundo pequeno da minhalma. 377 .Francisco Cândido Xavier . Não que eu fosse infeliz e desditoso. Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram. desditosas. Encontrei o prazer pelos espinhos. na aspereza dos caminhos. Ao trilhar os carreiros dos tormentos. Pois fui também humano entre os humanos. dos meus anos. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida. E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. Sob o peso da própria iniqüidade.Parnaso de Além-Túmulo 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos. Se eu quisesse gozar. teria o gozo. E através dos meus dias. Afastado do Puro e do Perfeito.

Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz. bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor. O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar.Francisco Cândido Xavier . O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia.Parnaso de Além-Túmulo Quando em dor me envolvia a desventura. E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. 378 . Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas. destruidoras. Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso. Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis. entre cansaços. Em torno dirigia Um último olhar. Agonizava o senhor Dos domínios extensos. Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista.

efêmeras realezas. De cólera severa Já que ele era o senhor. E em espasmos convulsos. Reclamou os seus servos com calor E. Que ninguém acudisse ao seu chamado. Tomado de energia.Parnaso de Além-Túmulo Martirizando as almas sofredoras.Francisco Cândido Xavier . entretanto. Estranhou revoltado. Imerso em turvação. E em atitude austera. derradeiros. A sua alma despida das grandezas. Somente. Mergulhado no pranto mais profundo. Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores. Contemplou seus tesouros passageiros. nenhum lhe obedecia. A exclamar. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores.. Das terrenas. às vezes. Bem após o transcurso de alguns anos De triste letargia. Expirou para o mundo O nobre castelão.. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho 379 . Opresso o coração.

Humilde penitente. Penetrada de doce claridade. da Luz do Bem: – “O que sofres. amigo. constantemente. Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações. O pobre sofredor. Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz.Francisco Cândido Xavier .. No auge do amargor. Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim. Todavia. E cheio de fervor. De luz confortadora. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente.Parnaso de Além-Túmulo Em ser incompreendido. De contínuos pesares e agonias. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade E lhe dizia Da beleza do Amor. Que hoje te envolvem os lúridos momentos 380 . é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. Durante o transcorrer de muitos dias. Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena. Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena..

O sentimento-luz. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor.. Serás agora escravo e não senhor. As mágoas escabrosas. E permite que voltes aos humanos. nem consolaste Aquele que sofria. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade. Porém. Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. a flor-tesouro. Pelas estradas rudes e espinhosas! 381 . a todo o instante.. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo. já não terás Efêmeras venturas. Voltarás. Jamais vestiste os nus.Francisco Cândido Xavier . Conhecerás As dores e amarguras. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém. Para que se dissipem teus enganos No amargor.Parnaso de Além-Túmulo Em rudes sofrimentos E estranhas maldições.

.Francisco Cândido Xavier .. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais. A ventura... Além.. Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida. fulguram sóis.. Não residem no Mal e sim no Bem. De alegria. Como se fora feita De luar. sobe. 382 .Parnaso de Além-Túmulo Abençoa o Senhor Que te concede a dor.. Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm. Transformados em notas musicais.” Nesga de Céu A alma extasiada Sobe.. De alegria perfeita. o fulgor. A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia.

Sorridentes. Ainda além. Cenários majestosos.Parnaso de Além-Túmulo Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis. mais além. que padeceu. radiantes.Francisco Cândido Xavier . Nos espaços sem termos. Aos clarões dessa aurora. Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos. E lembra-se que sofreu.. Ao longe. A alma chora Em êxtase profundo. A Via-Láctea transluz. Como um éden de luz E de amor. De perfeição e de felicidade! 383 . querida. muito ao longe. de beleza. flutuantes.. O mundo É um ponto negro que gira. onde a vida É a imortalidade Anelada. De pureza. Nesgas do céu. imagens de esplendor. Que amou.

em frente.. E. Em cima. luz.Francisco Cândido Xavier . Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado.. Feito de éter. Recamado de flores perfumosas. Mas cada gota amarga dos seus prantos 384 . Intérmina de gozos!. Como um país de doce primavera... Melodia.Parnaso de Além-Túmulo Em baixo as vastidões. Da mais pura alegria. Com os pensamentos puros e radiosos. de sonho.. Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. Vidas de estranha dor. Um futuro esplendente Pintalgado de rosas.. as emoções Do ilimitado. Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera. A alma se extasia Na luz do Eterno Dia. aroma!. O caminho é risonho.

Chorando. Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! 385 . Em suavíssima unção.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Agora É um raio de aurora. Que a engrinalda de luz. Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos. A pobre alma orando.

É que o Evangelho do Cristo amado. Não sou. em 1871. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. na cidade de Caratinga. Esclarecia meu coração. Quando no mundo de exílio e sombra. poetou e desencarnou. no entanto. que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu. cheio de escolhos. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val. Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte. Modesto quão talentoso. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso. Nas horas tristes e amarguradas.Francisco Cândido Xavier . Portugal. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio. – O mensageiro da Perfeição. aos 19 de janeiro de 1930. Na luta intensa que encheu meus dias.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo. Quando escutamos as vozes claras .

Da graça imensa que recebi. Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã. Graça divina de haver sofrido.Francisco Cândido Xavier .. Dor de quem sofre sonhando e espera. De quem me lembro na luz do Além. Lede o roteiro dos Evangelhos. Aos companheiros de luta e crença. 387 . De ser vencido no mundo vão. Deixo a minhalma falar aqui. na luz da prece. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma. E a paz na morte tereis também. que ficastes no mundo ingrato. então. Vós.Parnaso de Além-Túmulo Da consciência. Com fé sincera. E. eu pude adormecer Na paz serena. no Pai de Amor. Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor. doce e cristã.. Subi o Gólgota dos meus pesares. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão.

o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz.Parnaso de Além-Túmulo Nas desventuras da provação.Francisco Cândido Xavier . E a Morte trouxe-me a liberdade. Sonhos diletos de sofredor. Perdi na Terra doces afetos. --. A piedade. Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor.Fim --- 388 .

etc. em busca constante da paz no Reino de Deus.Francisco Cândido Xavier . colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. (1ª Epístola aos Coríntios. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. financeiramente. Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. O livro espírita. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. versículo 9. “Porque nós somos cooperadores de Deus. Irmão W.Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a).) . escolas para crianças e jovens carentes. As obras espíritas nunca sustentam.” Paulo. 3. Se você leu e gostou desta obra. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social. os seus escritores.