Francisco Cândido Xavier

Parnaso de
Além-Túmulo
Ditado por

Espíritos diversos

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Índice
À guisa de prefácio .......................................................................... 4
Francisco Cândido Xavier ............................................................. 14
Palavras minhas ............................................................................. 15
De pé, os mortos!........................................................................... 21
1 Abel Gomes ............................................................................... 24
2 A. G............................................................................................ 25
3 Albérico Lobo............................................................................ 26
4 Alberto de Oliveira .................................................................... 27
5 Alfredo Nora.............................................................................. 30
6 Alphonsus de Guimarãens ......................................................... 32
7 Alma Eros.................................................................................. 35
8 Álvaro Teixeira de Macedo....................................................... 38
9 Amadeu (?) ................................................................................ 39
10 Amaral Ornellas ...................................................................... 40
11 Antero de Quental ................................................................... 43
12 Antônio Nobre ......................................................................... 56
13 Antônio Torres ........................................................................ 63
14 Artur Azevedo ......................................................................... 65
15 Augusto de Lima ..................................................................... 68
16 Augusto dos Anjos .................................................................. 74
17 Auta de Souza........................................................................ 106
18 B. Lopes ................................................................................. 118
19 Batista Cepelos...................................................................... 121
20 Belmiro Braga ....................................................................... 124
21 Bittencourt Sampaio .............................................................. 130
22 Cármen Cinira ....................................................................... 135
23 Casimiro Cunha ..................................................................... 147
24 Casimiro de Abreu ................................................................ 167
25 Castro Alves .......................................................................... 177
26 Cornélio Bastos ..................................................................... 185

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Cruz e Souza .......................................................................... 186
Edmundo Xavier de Barros ................................................... 206
Emílio de Menezes ................................................................ 208
Fagundes Varela .................................................................... 210
Guerra Junqueiro ................................................................... 214
Gustavo Teixeira ................................................................... 239
Hermes Fontes....................................................................... 240
Ignácio José de Alvarenga Peixoto ....................................... 244
Jesus Gonçalves..................................................................... 246
João de Deus.......................................................................... 247
José do Patrocínio.................................................................. 304
José Duro ............................................................................... 305
José Silvério Horta ................................................................ 307
Júlio Diniz ............................................................................. 309
Juvenal Galeno ...................................................................... 314
Leôncio Correia ..................................................................... 323
Lucindo Filho ........................................................................ 324
Luiz Guimarães Júnior .......................................................... 326
Luiz Murat ............................................................................. 328
Luiz Pistarini ......................................................................... 329
Marta ...................................................................................... 330
Múcio Teixeira ...................................................................... 342
Olavo Bilac............................................................................ 343
Pedro de Alcântara ................................................................ 350
Raimundo Correia ................................................................. 357
Raul de Leoni ........................................................................ 359
Rodrigues de Abreu............................................................... 364
Souza Caldas ......................................................................... 369
Um Desconhecido ................................................................. 377
Valado Rosas......................................................................... 386

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À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à

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revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias
e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto, nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria, senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo

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dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos
olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções; ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.

Parnaso de Além-Túmulo 8 As de Napoleão 1º. Constantemente cismando. mas não características de tais entidades. não só concorrem poetas brasileiros e portugueses. Do verde do lindo mar! É Casimiro. é recitar Castro Alves e sentir Espumas Flutuantes. é declamar Junqueiro e lembrar a Morte de Dom João. Do verde da Natureza. É ler Casimiro e reviver Primaveras. para afirmar não mais subjetiva. mas objetivamente. aí se ostentam em louçanias de sons e de cores. como a facilitarem de conjunto a identificação de cada um. Teresa de Jesus.. a sobrevivência dos seus intérpretes. O pensamento sonhando E o coração a cantar.Francisco Cândido Xavier ... Na delicada harmonia Que nascia da beleza. pelo contrário. Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer. como retinem cristalinas e contrastantes as mais variadas formas literárias. Condoreirismo. . Simbolismo. Romantismo. é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu. Múltiplas vidas vivemos. Parnasianismo. vejamos: Oh! que clarão dentro d’alma. Senão. Aqui. etc. são incontestavelmente belas no fundo e na forma. Da luz do Criador nascemos.

A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. inconfundíveis na modulação de suas liras encantadas e decantadas. nas preces da harmonia!. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando à luz das amplidões divinas.Parnaso de Além-Túmulo 9 Para à mesma luz volver. Esquece o verme. um quase adolescente.. Duvidamos que o mais solerte plumitivo. feliz. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. Era o festim do amor. sem lastro. de grande cultura e treino poético. cujo estilo não temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade personalíssima se impõe. esta produção. E isto o dizemos porque o médium Xavier. No firmamento em luz. É Augusto dos Anjos.Francisco Cândido Xavier . ainda que premeditadamente.. aí estão vivos. E todos. ardentes. Pairava na amplidão estranho resplendor.. Descansa. agora vibrião das ruínas. É Castro Alves. portanto... e mais – quando de alguns autores não conhece uma estrofe! . todos os mais.. recebe-a de jacto. as carnes. os estrumes. o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar. E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda. É Junqueiro. sequer.

Filho de pais pobres. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família. verdade que. o pai infenso a literatices e. pequeno rincão do Estado de Minas. um quase adolescente. um galopim eleitoral e não vai. pramido pelo ganha-pão. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. esta obra mediúnica. de contrapeso. mas é a verdade nua e crua. ao demais. nem uma problemática hereditariedade. nascido ali assim em Pedro Leopoldo. a Pátria e a Humanidade? Nada disso. . em particular. que não podia ter o estímulo ambiente. para não pretender colimar renomes literários. em tese. *** Mas. que faz do mestre-escola. nem um. na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. qual a Luz.Parnaso de Além-Túmulo 10 É extraordinário. certo estamos. muito além das quatro operações e da leitura corrida. em linguagem eloqüente. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. ficará como baliza fulgurante. Órfão de mãe aos 5 anos. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. não pode ficar debaixo do alqueire. em geral. Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. um bacharel formado. será maravilhoso. é bem de ver-se que não teve. com borrifos de catecismo católico. também em tese. Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. e aos confrades. nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. que.Francisco Cândido Xavier . um acadêmico. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto.

Agora. no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio. teorias científicas. o médium. e não querendo. que ignora. explosivo. por outro lado. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. tanto quanto do seu manuseio. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. cujo flagrante não presenciamos – ele. nada nos disse o médium. não há encadeamento de raciocínios. É tudo inesperado.Parnaso de Além-Túmulo 11 Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que. de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar. também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever. Há vocábulos de étimo que desconhece. fixação de imagens. mas. É um fato. figuras de retórica.Francisco Cândido Xavier . endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. doutrinas. mas da ferramenta por eles utilizada. porém. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. há fatos e recursos de hermenêutica. a realização essencial do fenômeno? . torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo. Nós mesmo vimos. nas quais estereotipa a sua figura moral. Não há ideação prévia. como definir e transfixar a captação. em São Paulo. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. certa vez. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários. o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço.

em suma. no entanto. que mal podemos imaginar e que. precipuamente. sem contudo negar. em tudo. Tal como no-lo deram. racional e logicamente devem existir. e isso ele o faz a seguir. amiúde. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica. encarregado de apresentar esta obra. por vindos de tão alto. ou taliscas. na volúpia de escandir quand même. diremos que. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. ou a fatores outros. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis. para melhor explicar. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina.Francisco Cândido Xavier . *** Como nota final aos argos da crítica. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. de maneira impressionante. aos cépticos. faisqueiros de nugas e nicas. vale sempre por mil e uma teorias. ocorrem na telepatia. por mais insólito que seja. Trata-se. para só . Catões e Zoilos de compasso e metro. porque o fato aí está na plenitude de sua realidade.. que participa do meio físico contingente.Parnaso de Além-Túmulo 12 Só o médium poderia fazê-lo.. de um trabalho de identificação autoral. antes complicam. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. enfim. mais sutis e delicados do que esses que. Aos outros. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados. e um fato. na radiofonia. devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão. que nada explicam. fica-lhes a liberdade de conjeturar. não só por nos falecer autoridade e competência.

Ingressou na FEB em 1903. Como membro do Grupo Ismael. como jovem sem recursos financeiros. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador. Quintão1 1 MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO. Marquês de Valença. depois de lutar com imensas dificuldades. conseguiu. nascido em 28 de maio de 1874. 1918. (Nota do Editor. na Estação de Quirino.) . foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. 1919 e 1929. nas posições mais modestas do comércio. Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria. inclusive a Presidência nos anos 1915. RJ. Foi guarda-livros. integrando-lhe o quadro social por 44 anos. invejável cultura humanística.Parnaso de Além-Túmulo 13 apreçarem a obra que ora lhes apresentamos. muito apreciados. Foi jornalista. e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. estudioso incansável. Em 1939. no Rio de Janeiro. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. este último editado pela FEB. para serem public adas após a sua desencarnação. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios. Chefe de família numerosíssima.Francisco Cândido Xavier . Médium curador e espírita militante durante mais de meio século. M. dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. como autodidata. estão estampadas na edição de janeiro de 1955.

onde é popularíssimo. Inglês e Francês. o “Parnaso de Além-Túmulo”. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século. Castelhano. MG. Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. publicou. Aposentou-se como funcionário público federal. .Parnaso de Além-Túmulo 14 Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. diversos deles publicados em Esperanto. em janeiro de 1959. em 2 de abril de 1910. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus. desencarnados em 1960 e 1915. MG. Transferiu-se para Uberaba. afável e operosa. goza ele ainda de sincera admiração em outros países. sempre no exercício do seu mediunato. Respeitado e estimado em todo o Brasil. Criatura simples. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica. primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. “Há Dois Mil Anos. em julho de 1932. Viajou para o exterior algumas vezes.. respectivamente.. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. Japonês.Francisco Cândido Xavier .” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados. onde residiu até dezembro de 1958.

num grupo escolar. como o são as lições das escolas primárias. em 1910. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. quanto à sua formação. quando contava oito anos. constantemente. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos. em casa. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. que acima de tudo ama a verdade. prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade. onde o serviço dura das sete às vinte horas. órfão de mãe aos cinco anos. Filho de um lar muito pobre. sempre estudei o que pude. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. estudar como? Matriculando-me. Mas. mas onde o trabalho é menos rude. estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos.Francisco Cândido Xavier . essa situação modificou-se em 1923. pude chegar até ao fim do curso primário. porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. com um salário diminuto. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. quando então consegui um emprego no comércio. mas meu pai . Minas. história e vernáculo. das quinze horas às duas da manhã. É verdade que. E até aqui. E. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. porém.Parnaso de Além-Túmulo 15 Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal. se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro.

ambiente de pobreza. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus. eis que uma das minhas irmãs. como eu. Vários dias consecutivos foram. mas. Prosseguindo nas minhas explicações. realizar as minhas esperanças. o Sr. por diferençar muito pouco essas questões. de desconforto. Fui pois criado com as teorias da igreja. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra.Parnaso de Além-Túmulo 16 era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. até hoje. sempre a braços. Os meus familiares não estimulavam. em maio do ano referido. onde se não pode pensar em letras. os meus desejos de estudar. tanto à sua família. O meu ambiente. Verdadeiro discípulo do Evangelho. bem distante da nossa. foi sempre alheio à literatura. espírita convicto. freqüentando-a mesmo com amor. Até 1927. como verdadeiramente não podem. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. num ambiente totalmente . todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. neste ponto. Jamais tive autores prediletos. sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. pioras de amargos padecimentos morais. a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. foi acometida de terrível obsessão. para nossa casa. de penosos deveres. para mim. desde os tempos de criança. onde então. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. José Hermínio Perácio. Foi quando decidimos solicitar o auxílio de um distinto amigo. pois. ofereceu-nos até a sua residência. sequer. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros.Francisco Cândido Xavier .

os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. que essa senhora desconhecia. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina. com a graça de Deus. semimecânico. Aí. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. a audição e outras faculdades mediúnicas. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. com ingentes sacrifícios. como o são os daqueles confrades a que me referi.) . as suas faculdades mediúnicas. então. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas. orientando-se quanto aos seus deveres. médium dotada de raras faculdades. para nosso benefício.Francisco Cândido Xavier . desenvolveram-se em mim. minha irmã hauria. que regressara ao Além em 1915. 2 2 Só nos últimos dias de 1931. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos. desenvolvendo. para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam.Parnaso de Além-Túmulo 17 modificado. simultaneamente. quando na Terra. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida. de maneira clara e mais intensamente. que se tornou inabalável. sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio. a vidência. por intermédio da esposa do nosso amigo. que a minha mãe. em 1944. (Nota do médium para a 4ª edição. entrando em pormenores da nossa vida íntima. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. Resolvemos.

conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre. é que. Nossas reuniões contavam. categoricamente. porém. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época. do corrente ano. por conhecer as minhas imperfeições. os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. porém. ornada das mais superiores qualidades morais e que. chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. a nossa alegria aumentava. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. prosseguindo em nossas reuniões. a moral profunda que era ensinada. e. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas. contudo. Não desanimamos. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio. parece que pesava muito. porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. alma nobilíssima. ao escrevê-las. não posso dizer que são minhas. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas.Francisco Cândido Xavier . O que posso afirmar. Em agosto. entre as suas mediunidades. A sensação que sempre senti. nas reuniões. em consciência. era a de que vigorosa mão impulsio- . em companhia de sua esposa.Parnaso de Além-Túmulo 18 Daí a pouco. grande número de assistentes. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. controladas pela sua senhora. assim. decorridos dois anos. psicografando-as. assinadas por nomes respeitáveis. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. o que perdura até hoje. apesar de muito a contragosto de minha parte. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar.

onde eu as lia e copiava. fisicamente. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. quanto menor o número de assistentes. acontecendo o mesmo com o cérebro. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse.3 3 Ao escrever estas palavras. melhor o resultado obtido. Muitas vezes. que. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. frisar aqui também. as menores impressões físicas.Parnaso de Além-Túmulo 19 nava a minha. julgando minha obrigação. não sentindo. que alguém mas ditava aos ouvidos. Doutras vezes. apesar de todo o meu bom desejo. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. mantidas desde os 5 anos de idade. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. experimentando sempre no braço. doutras. jamais obtive outra coisa. Certas vezes. é o que experimento. pertencem igualmente à fenomenologia espírita. em particular. o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade . parecia-me ter em frente um volume imaterial. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo.Francisco Cândido Xavier . sem que se produzisse escrito algum. em nossas preces. ao recebermos uma destas páginas. porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância. ao psicografá-las. era necessário recorrermos a dicionários. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. o nome de qualquer dos comunicantes. na fenomenologia espírita. por momentos. a não ser esses escritos. e. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. Passavam-se às vezes mais de dez dias. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente. esse estado atingia o auge.

porém. Um desses que haja. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. a quem me lê. todavia.Parnaso de Além-Túmulo 20 Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. que inspiraram esta obra. Pedro Leopoldo. Perácio. (Nota da Editora) . que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo. Francisco Cândido Xavier nas sessões espíritas. entre mil dos primeiros. Também isso são fenômenos espíritas. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. etc. E aqui termino. por intermédio de instrumento tão mesquinho. os meus saudares. dezembro de 1931. Cármen P. o carinhoso interesse do distinto confrade Sr. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. noutros. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e. a verdade como de fato ela é? Creio que não. Quintão. M. Há de haver. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. A todos eles. e dou-me por compensado do meu trabalho. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e. com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. Terei feito compreender.?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está. ainda. transmitindo. rizinhos ridiculizadores.Francisco Cândido Xavier . os seus salutares ensinamentos. desde a infância.

no domínio do conhecimento e da sensação. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno. em julho de 1932. Nas minhas atuais condições de vida. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado. os campos se apresentariam como desertos. escrevera no Diário Carioca. como se os nossos amargores. 4 Refere-se à 2ª edição. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade.4 A tarefa é difícil.Parnaso de Além-Túmulo 21 De pé.) 5 . tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5 . Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. ao surgir a 1ª edição do Parnaso. Decerto. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de Além-Túmulo”. publicada em 1935. (Nota da Editora.Francisco Cândido Xavier . que aparecerá brevemente em nova edição. o mundo constituiria um conjunto de aspectos inverossímeis e inesperados. quando encarnado. Individualmente. (Nota da Editora) Alude às crônicas que ele.

como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram.. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência. em nome da nacionalidade. Junqueiro com a sua ironia. concitou-os a auxiliar as manobras militares. Todos aí estão dentro das suas características. – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos.. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama. dirigiu-se aos mortos em termos comovedores. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante.Francisco Cândido Xavier . – De pé.Parnaso de Além-Túmulo 22 Mas é razoável que apareçamos no mundo. Antero com a sua rima austera e dolorosa. Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo. de mulher e de menina. e na tristeza majestosa do ambiente. Conta-se que na guerra russo-japonesa. aguardando a sua palavra. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. terminada a batalha de Tsushima. Na atualidade. . Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos. Casimiro com a sua sensibilidade infantil. os mortos!. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. a visitar os cruzadores de guerra.

escritor brasileiro. temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. editados pela FEB. mas esses mantos estão rotos!.. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo. acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado. visando à cristianização da Humanidade. Vale destacar “Brasil. Temos frio. já em 9ª edição. como a que se inseriu nesta página. páginas 60 a 64. sob a orientação do Anjo Ismael. (Nota da Editora) . e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). Liberto dos liames da carne. que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz. Ditou-nos 12 livros. sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X. com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. temos fome. entre o assombro e a esperança. de Miguel Timponi. e desencarnado no Rio de Janeiro. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”. em 1886. o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. ainda não ouviu a sua vibração misteriosa. Foi jornalista e deputado federal. MA. zelosa de suas conquistas. das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. A Ciência. 4ª ed. Humberto de Campos6 (Espírito) 6 HUMBERTO DE CAMPOS Veras.. FEB). Produção literária variada quão vultosa. mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis.Parnaso de Além-Túmulo 23 As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. dois anos depois passou ele a valer-se. Pátria do Evangelho”.Francisco Cândido Xavier . Coração do Mundo. como Espírito. membro da Academia Brasileira de Letras. em 1934. edições de 10 e 12 de julho de 1932.

Eis que a Terra tem crimes e tiranos. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934. dos quais dois já editados pela Federação. Mas vós tendes Jesus em cada dia. Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro. Asperezas dos homens da caverna. Espírito dinâmico. desvarios. além de copiosa obra esparsa. no turbilhão da sombra imensa.Parnaso de Além-Túmulo 24 1 Abel Gomes ESCRITOR.Francisco Cândido Xavier . Nas torturas de um novo cativeiro. desenganos. posto que fisicamente inválido. Tendes convosco o Excelso Companheiro. Trabalhemos na dor ou na alegria. poeta e professor. . deixou alguns livros inéditos. Ameaça a verdade e humilha a crença. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. Mas vós. Ambições. Na conquista de luz da Vida Eterna. como lobo carniceiro.

Parnaso de Além-Túmulo 2 A.. Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza. calmo e austero. Num dilúvio de lírios e de rosas.Francisco Cândido Xavier .. Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias. Que abriu meus olhos na imortalidade. Morte Silenciosa madona da tristeza. Filhos da luz de uma outra Natureza. A morte abriu-me as catedrais radiosas. À esperança de todos os meus dias! 25 . G. Irmã da paz e da serenidade.

Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! . em prosa e em verso. Banhar o coração na luz da vida. É doce descansar após a lida. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa. Adeus mágoas da noite estranha e densa. Funcionário público. Depois de atravessar a sombra imensa. Das angústias e sonhos do passado. Não conservo senão o Amor e a Crença. Rememorando as dores que passaram. Ante o novo caminho ilimitado...Parnaso de Além-Túmulo 26 3 Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942. colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. Do meu porto Ao caro amigo M. Quintão Viajor vacilante e extenuado.Francisco Cândido Xavier . E dos quadros risonhos do meu porto.

em 1859. parnasiano de escol. entre escombros. Farmacêutico. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia. tudo é vão. neste mundo.Francisco Cândido Xavier . em 1937.. o peito exangue e aberto. Jesus Quanta vez... . Nessa grande amargura. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre. nascido em Palmital de Saquarema. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. a alma pobre.Parnaso de Além-Túmulo 27 4 Alberto de Oliveira FLUMINENSE. Entre as vascas da morte. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto. Do mundo é a escuridão.. E no escuro bulcão só Jesus persevera. sobre a estrada sombria. soluça. Desespera. dedicou-se principalmente ao Magistério. em rumo escuro e incerto. O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno. que sepulta a quimera. Como a luz imortal do amor que nunca morre. e falecido em Niterói. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração. No pavor de esperar a angústia que vem perto!.

Tudo o que era vaidade. 28 .Francisco Cândido Xavier . Esclarece a alegria e consola a desgraça. compreende.Parnaso de Além-Túmulo Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana. na dor da alma perjura. como raios de aurora. Do último dia O homem. no último dia. Irradia o perdão e atende. abatido em seu horto. Não te aflija a miséria. agora é desconforto. arrima-te à esperança. hoje e amanhã.. Na eterna lei de amor que consagra a criatura. Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. Do pobre coração. foge à sombra e à vingança. Nas trevas do ladrão. que é náufrago sem porto. Não troques mal por mal. mundo afora. ajuda e passa. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino.. Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela. Agora. Planta a bênção da paz. Sente o extremo pavor que a morte lhe revela. No pungente estertor do peito quase morto. Seja a bênção de amor a luz do teu destino. Seu coração é um mar que se apruma e encapela. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. o ninho e a sepultura.

Conservando Jesus por verdade e caminho.Parnaso de Além-Túmulo Somente o que venceu nesse mundo mesquinho.Francisco Cândido Xavier . homem vão? Cala em ti todo alarde. Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais. 29 . Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo.

breve. ante o sol da Graça. aposentando-se como Agente de 1ª classe. no município de Piraí. Carta ligeira Meu Lasneau.Parnaso de Além-Túmulo 30 5 Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. . É minúscula palhoça.. esta choça. É feio talhão de roça.Francisco Cândido Xavier . A Terra. guerra e cachaça. 1 Lasneau amigo. Não é ofício. Cheia de lama e fumaça. nem ata. não é bilhete. colaborou em várias revistas e jornais. tornou-se funcionário da Central do Brasil. Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa. Agora é que entendo isso. É o coração que desata Meus pesares num lembrete. passa.. Detendo por balda nossa Descrença. e desencarnou em 13 de novembro de 1948. Poeta e jornalista. Onde a carne. Estado do Rio.

Desejo que a luta cesse. 31 . A vida real começa. Que a coisa melhore e. É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz.Parnaso de Além-Túmulo Espere sem alvoroço. Além da prisão de osso.Francisco Cândido Xavier . passe. 2 Oh! meu caro. é clara a messe Da sementeira de asnice. Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece.. Não me olvide em sua prece. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto.. face a face. se eu pudesse Dizer tudo o que não disse.

Kiriale. Escada de Jacob.. notabilizou-se principalmente pela tonalidade mística do seu astro. Magistrado. Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!. poeta mineiro..Francisco Cândido Xavier . eterna e imensa. natural de Ouro Preto. jornalista e poeta. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura... etc. Nas lutas de vossa esfera.. Porque a Morte é a primavera Luminosa.Parnaso de Além-Túmulo 32 6 Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães. Aos crentes Ó crentes de uma outra vida. Nos caminhos enevoados. Tangei harpas de esperança. Ó crentes de uma outra vida! .. . qual se afirma em suas obras: Dona Mística. Que andais no mundo exilados. Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921. Septenário das Dores.

Vozes de sinos pelos santuários. no Espaço luminoso e imenso. O perfume das hóstias consagradas. eu vos pertenço.. dos Terços..Francisco Cândido Xavier . Enchendo as grandes vastidões serenas.. E seguindo outros seres solitários. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas. Retomo velhos quadros. Almas tristes de freiras e sórores. velhas cenas. Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor... Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo. De vos cantar. 33 .Parnaso de Além-Túmulo Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que. em volutas de flores e de incenso.. Rezando as orações dos Septenários. Dos Ofícios. Eu ressurjo nos místicos prazeres. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres. Achou. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores. amortalhadas. das Novenas.

.. Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos. Nos altares simbólicos da Igreja! Eis. Em magnificência ampla e radiosa. Cantai. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra.Francisco Cândido Xavier . Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios. Um turbilhão de vozes e de lírios. porém.Parnaso de Além-Túmulo A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado. em ondas luminosas. como cantáveis no passado. como inda faz a alma cativa! Ó sinos dolorosos e plangentes. o mundo inteiro vos festeja. Chorar. que vos vejo nos caminhos. Senhora. 34 . Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas.. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos..

Todavia. Em que estenderás ao seu amor infinito 35 . Acolá. O Senhor passa todos os dias. Distribuindo os dons celestiais. Seu coração freme de júbilo. Seu carinho aguarda a confiança espontânea. Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas. guardas o vinagre dos desenganos. Mas.Francisco Cândido Xavier .. Aqui. até agora. o envenenado licor dos caprichos. Assim também. Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás. E dia virá. No entanto. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão. choras e desesperas.Parnaso de Além-Túmulo 7 Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra.. Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos.. Na estrada longa do destino... É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho. O Amado é incapaz de violentar a tua alma.. o Amado espera.

jamais o deserdou por isso. Por vezes. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas. O Amado. feriu-se em dolorosas experiências.. porém. Como pai carinhoso.. Em busca da criancinha abandonada. Quando penetrou noutros círculos. sofreu.Parnaso de Além-Túmulo O cálice do coração lavado e vazio. Fê-lo dormir no regaço. Ao influxo do bendito esquecimento. Concedeu-lhe oportunidades diferentes. Depois. O irmão Por que ajuízas com ironia. Lutou. Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas. Deu-lhe novas forças.Francisco Cândido Xavier . De tempos a tempos. Buscou-o no fundo dos abismos. 36 .

Se já atingiste Algum topo de colina. E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês.Parnaso de Além-Túmulo Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez. 37 . Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente. Dando ao mundo o que possui de melhor. Ama-o. faze-lhe o bem que possas. Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens.Francisco Cândido Xavier .

em breve. O gozo desfalece à própria gana. Toda vaidade ao báratro se atira. Publicou. Que a Morte. Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade. .Parnaso de Além-Túmulo 38 8 Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. na Bélgica.Francisco Cândido Xavier . Qual folha solta ao furacão violento. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. em livro. Finda a festa de baldo riso infando. Desce gemendo.. E quem da luz não fez templo e guarida. Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira. Desfaze a teia da filáucia humana. soberana. humilha e desengana A demência da carne que delira. A alma transpõe o túmulo chorando.. de alma consumida. celeste. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil. Ao turbilhão de cinza e esquecimento.

Francisco Cândido Xavier . Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida. incerteza e angústias consumida. Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada. empobrecido e incerto. 39 . A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar. Também tive a minhalma outrora perturbada. Incitando vossa alma aos planos invisíveis. Que abandona a matéria exânime e cansada. De dúvida.Parnaso de Além-Túmulo 9 Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida. Venho testemunhar a luz de onde regresso. Onde vive e se expande o Espírito liberto.

Mensageira da ternura. Rosa mística da fé.Francisco Cândido Xavier . Talento brilhante. deixou dois volumes de Poesia. Providência dos que choram Nas sombras da desventura. além de copiosa literatura teatral e doutrinária. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos. Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade.Parnaso de Além-Túmulo 40 10 Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público. O Senhor sempre é convosco. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós . consagrados pela crítica coeva. Rainha! Estrela da Humanidade. Bendita sois vós. Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923.

Parnaso de Além-Túmulo A Mãe das mães desvalidas. Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz... Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória. Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Desde a paz da Manjedoura.Francisco Cândido Xavier . Trabalha. cinza e areia. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – 41 . Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia. Nossa porta de esperança. Assim seja para sempre. Oh! Divina Soberana. Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória. Às dores. espera e crê.. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama.. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia. além da Cruz.

. amando por vencê-las. nos braços do Tempo. Purifica-te e cresce. “como” e “quando”.Parnaso de Além-Túmulo São portas aurorais para a Mansão Divina.Francisco Cândido Xavier . ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz. no País das Estrelas! 42 . Serve sem perguntar por “onde”. E..

sombrio e inverso.. Como a Grande Mendiga do Universo!. soluçando. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas.Francisco Cândido Xavier . Ciência de ostentação. Eis que a Terra te acusa.. Investigando a entranha da monera. caracterizando-se pelo seu espírito filosófico... . arma de efeito. e desencarnado por suicídio. em 1842. Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era.Parnaso de Além-Túmulo 43 11 Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel. nos Açores. Fomentando o princípio desumano Da ambição onde a força prolifera. Longe da Luz. formidando. A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano. da Paz e do Direito. Num caminho infeliz. em 1891. Sob o alarme guerreiro.

Visão de tristes faces cismadoras. como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada. Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras. eu te adorei.. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos. Vosso amor. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora. Que sois toda Bondade e Complacência. É a luz dos tristes e dos desterrados. que enche os céus ilimitados. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas.Parnaso de Além-Túmulo Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!. Amparai o que anseia... luta e chora. 44 . Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. À morte Ó Morte.. Esperança dos pobres desvalidos!.Francisco Cândido Xavier . No labirinto amargo da existência. Nos crepes do Silêncio amortalhada.

Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível. ela somente. 45 .Francisco Cândido Xavier . eu que trazia a alma já morta. E escancaraste a porta escura e fria. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. Só existia a dor. amarga e inconsolável. E tanto a vi. Batendo alucinado à tua porta. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. Os prazeres. Ao meu olhar de triste e de descrente. Olhar de pensador amargurado. Escorraçada no padecimento. O gozo era a mentira dum momento.Parnaso de Além-Túmulo Busquei-te. Por onde penetrei no Sofrimento. 2 Misantropo da ciência enganadora. Depois da morte 1 Apenas dor no mundo inteiro eu via. Numa senda mais triste e mais sombria.

Iluminando todas as alturas. Pela voz da vaidade. De ver o Deus de Amor. Vim. Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada. No seio dessa ciência tão volúvel. então. Ela era o laço eterno e indissolúvel. Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava.Parnaso de Além-Túmulo Que era na dor. Nesse anelo cruciante e intraduzível. em toda hora. Podia ver.Francisco Cândido Xavier . no entanto. de quem descria. 46 . Que a morte era um enigma solúvel. reconhecendo. gemendo. Morri. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. Sobre o problema trágico. encontrar as luzes puras Da verdade brilhante. Nas vastidões da terra úmida e fria. Não o via e. 3 Depois de extravagâncias de teoria. Recamada de dor profunda e intensa. visão consoladora. que se eleva. todavia. insolúvel.

Recrudescendo as minhas dores rudes. De amargoso penar que se me abrisse. E nunca encontraria abismo horrendo. E em vez de imperturbáveis quietitudes. Aproximei-me dele. Sem que a Paz almejada conseguisse. Dizendo-lhe... Era de ouvir-lhe o grito gemebundo. Ao viver da minhalma sofredora. Desvairado. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo. Sua voz cavernosa e soluçante!. Andei cego. ao sepulcro fui descendo. O Remorso Quando fugi da dor. fugindo ao mundo.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Quisera crer. de mim diante. Da morte a Paz busquei. como se fora Apossar-me do eterno esquecimento.Francisco Cândido Xavier . porém. Encontrei os Remorsos e o Tormento. suplicante. A medonha figura de gigante Do Remorso. na Terra. de olhar grave e profundo. cansado e moribundo: – 47 . que existisse Esta vida que agora estou vivendo. Divisei aos meus pés.

Mais se me aumenta a chaga dolorida... gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor. Se enlouqueci no meu degredo estranho. 48 . Nesse abismo de treva a bênção pura. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem.Francisco Cândido Xavier . quando penso No mar humano. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada. corvo horrendo. criou obra tamanha. Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono. Sente o assédio do mal. Do espírito de amor ao mal imenso. É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura. Acordando-me em lágrimas. senão Deus. eu te acompanho. encapelado e imenso.Parnaso de Além-Túmulo “Que fazes ao meu lado. Que se vive no abismo tenebroso. Onde se perde a luz em noite escura. Sentindo o horror que nasce dessa vida.

diria eternamente. aquece e banha? Quem. A dor mais rude. senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. a excelsa luz. Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente. Os soluços. No coração dos homens e das feras.. o Impenetrável. os gemidos. Aos flagelados e desiludidos. Oh! se eu pudesse. Suprema paz.. as amplidões e as eras. a mágoa mais pungente. Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! 49 . E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse. Onde se agitam turbilhões de esferas. os prantos.Parnaso de Além-Túmulo O espaço e o tempo..Francisco Cândido Xavier . somente o Eterno. Poderia criar o imensurável E o Universo infinito criaria!. intérmina piedade. Que a luz. No coração do mar e da montanha! Deus!..

50 . distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade. na Terra. Que as grandes luzes místicas revela. Mas que chega no mundo muito tarde. dizei-lhes. Despedaçou-se à falta dessa crença. Desvairado de angústia e de descrença. Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz.Parnaso de Além-Túmulo Mas. Ah! Crer! bem que. Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza.. Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa.Francisco Cândido Xavier .. Dentro da vida sem compreendê-la. ó vós que estais na Terra. não possui. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa. Quando entre conjeturas me perdi. De tão pequena dor fazendo alarde.

Mão divina A luz da mão divina sempre desce. angústias e cansaços. Buscando a paz depois das grandes lutas. transformai-o em gozo alto e perfeito. Que perfuma e crucia o vosso peito. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições. Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem. Em santa e esperançosa claridade.Parnaso de Além-Túmulo O pranto é a flor de aromas da saudade. que é da alma rediviva. Que está nas sendas lúcidas da Prece. Misericordiosa e compassiva. Aguardai a abundância da outra messe De venturas.Francisco Cândido Xavier . na Crença e na Esperança. Sobre as dores da pobre alma cativa. Mas. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos 51 . Procura a luz sublime dos espaços. esperai a Providência Com os sentimentos puros. Se o tormento da vida recrudesce. Confiando. diamantinos. Se a amargura das lágrimas se aviva.

Ao palmilhar estradas escabrosas. Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles. Onde mora a ventura. Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. Essas compactas legiões sombrias. Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram.Francisco Cândido Xavier . bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. Turbas de almas escravas de agonias. Como um vergel azul de lírios brancos. Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz.Parnaso de Além-Túmulo A paz e as luzes que eu não alcancei. Supremo engano Vê-se da Terra o Céu. sob os arrancos. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas. Miseráveis Espíritos que choram. em toda a vida. 52 . Com que andei entre queixas dolorosas. e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida.

Cheios de vida e de infinitos bens. orbe da lágrima e do erro.. Que entre anseios e angústias conheci! Mas. Antegozei. Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra. às vezes. Pelos seres terrenos inventada. em minhas dores.Francisco Cândido Xavier . somente. Com teus grandes olimpos majestosos.Parnaso de Além-Túmulo Sob os golpes da dor. Cheia. de cólera violenta. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos. A paz livre de trevas e pavores. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. de angústia e de tormenta. quanto o vão mortal inda se engana. Deus não representa A personalidade humanizada. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor.. rijos e francos. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! 53 . Do imperturbável nada que não tens! Incognoscível Para o Infinito.

Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!. Quem vai de alma gemente e consumida.. O meu erro.Parnaso de Além-Túmulo Fatalidade Crê-se na Morte o Nada. Nos labirintos da Filosofia. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás. Porque em tudo. no mundo inteiro. Onde a grande certeza principia. E no meio de todas as canseiras Cheguei.. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. 54 .. às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!.. todavia. e. no mundo. além. chora e pensa.Francisco Cândido Xavier . Nunca. Coroado de folhas de loureiro.. Fim de toda a amargura da descrença. o homem divisa A figura das dúvidas que matam. no mundo da Agonia. Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre... enfim.. a crença se realiza. brasonado cavaleiro. na Terra. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere.

sem norte?” E impeliu. sem Deus. sobre a humana furna. Gritou-lhe. em voz soturna: – “Insensato! aonde vais.Parnaso de Além-Túmulo Mas a Verdade. angustiada. 55 . sem detença e sem barulho.Francisco Cândido Xavier . vaidade e orgulho. Cavaleiro e corcel. Aos tenebrosos pântanos da Morte.

muito estimado – Só – e Despedidas.. que importa lá? Porque os amores fiéis. Voltam sim. Quadras de um poeta morto Coração.Parnaso de Além-Túmulo 56 12 Antônio Nobre NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade. As almas das raparigas Inda sonham nos choupais. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam. Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais.. edição de 1902. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro. E por que não? Os corpos daí nos soltam.Francisco Cândido Xavier . Como às aves o alçapão. ainda hoje. não vos canseis De bater. Nem a morte os vencerá.. .. em 18 de março de 1900. Deixou um livro inconfundível e.

Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus. Quem riu ontem. Que choram nas horas mortas. Às vezes acham-se fojos Onde há música e festins. não é assim. Venturas da boa sorte.. Nem sempre poderá rir. Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. Vós que amais a luz da Lua. os fantasmas da rua. que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus. Sem que o veja escapulir.Parnaso de Além-Túmulo Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados. Nem pó e nem solidão. acima de tudo Devemos amar a Deus.. Contudo.. Corações despedaçados.Francisco Cândido Xavier . Porém. E há muitos cardos e tojos 57 . Um dia o riso lhe foge. De vossa alma abri as portas Para.. quem ri hoje. Riquezas.

No Universo há céus profundos. Teu coração sonhador. No sepulcro não termina O novelário do amor. Chorai! chorai orfãozinhos. 58 .. Nesse mundo miserando Toda ventura é ilusória. Um anjo cheio de encanto Vive sempre com quem chora.. Mal vais. Guardando as gotas de pranto Numa urna cor da aurora. Se eu pudesse. Vossas dores amargosas: Achareis noutros caminhos As vossas mães extremosas.Parnaso de Além-Túmulo Entre as flores dos jardins. Para quem a padecer Vive aí na sepultura. Deixa cantar. estenderia Minhas capas de luar.Francisco Cândido Xavier . A morte só pode ser A vida risonha e pura. ó menina. se vais caminhando Na ambição de ouro e glória. Sobre os filhos da agonia Que andam no mundo a penar.

Na escuridão do infortúnio. claridades. Há quem faça aí mil contas. Cantigas do coração. Luz que se estende à pobreza. Oh! almas enamoradas. Um céu é um ninho de mundos. Sem fazer conta nenhuma. Tecei sonhos. Um mundo é um ninho de amor. Mas morrem cabeças tontas. Vivei aí nas clareiras De luzes alcandoradas. 59 . Ah! que sinto aqui saudades Das noites de São João. Que os interesses resuma. O raio de primavera Que aí jamais encontrou.Francisco Cândido Xavier . A caridade é a beleza De um divino plenilúnio. a alma inda espera O alguém que na Terra amou. São senhores despojados Dos seus tesouros de reis. Aqui. Sonho.Parnaso de Além-Túmulo Cheios de vida e esplendor. fiandeiras. estrelas. Aos mendigos desprezados Não ridicularizeis.

Do Além Pudesse o nosso olhar. vagueando os ermos. quem há de Com o problema de sermos ou não sermos. Até que a dor unindo-se à desgraça Descerre os véus que encobrem outra vida..Parnaso de Além-Túmulo Na minha vida de agora Não canto as festas louçãs. Pois que o ardente desejo de o sabermos É sempre o anelo falso da vaidade? Peregrinos da dor. porém. Acompanha-me a tristeza Das saudades. E da luz da Verdade não descrermos. por meu mal.. na dor andamos Sem que a nossa miséria se desfaça No escabroso caminho onde marchamos. Meu querido Portugal! .. Seguindo a alma nos sonhos iludida. Naquelas toadas de outrora As moçoilas coimbrãs. Minha terra portuguesa! . Preocupar-se aí.Francisco Cândido Xavier . 60 ... Ver através da própria soledade A expressão luminosa da Verdade..

Não existe no túmulo o abandono.. Morto de angústia. Aguardando o sol-posto.Parnaso de Além-Túmulo Soneto “Quando cobrir-se o chão de folhas mortas – Meu coração dizia em grave entono – Extinguindo-se a vida que comportas. A Primavera vem por outras portas. Mas.Francisco Cândido Xavier . Precisamos da carne que aprimora Com o camartelo mágico do artista.” Escutava essas vozes comovido. 61 . Ressurgi da tortura e da tristeza. E murmurava a alma – “Findo o Outono. para os grandes bens. morto de incerteza. Dormirás no meu seio o último sono. O vale de amarguras do Salmista. para que exista A perfeição da luz deslumbradora. Sob os ares sadios de outros mundos! Ao mundo A Terra é o vasto abismo onde a alma chora. E além da amarga vida de segundos. Ou a dor amarga e rude em que te cortas.. entristecido. Lodoso chavascal onde se avista A podridão dos vermes que apavora.

Vibrai na luz da vida em que viverdes. 62 ... ó mocidade! Moira Encantada que ri nos prados verdes.Parnaso de Além-Túmulo Terra. Clareando o porvir almo e risonho. Porque da tua dor alcei meu vôo Para a mansão das luzes opulentas. do sol-nascente. ébria de sonho!. Teu rigor nos redime e nos eleva. ditosa.Francisco Cândido Xavier . Expandi-vos na primavera loira. mocidade ardente. Glorificai.. Nos poemas de luar que conceberdes! Ide cantando. Marchai sorrindo.. Mas és ainda o cárcere da treva. Alvorada em abril. o sol que doira O riso que espalhais sem compreenderdes. doce juventude. Ébria de aroma e luz. Cantai o amor que é luz que se entesoira. Triste mundo de chagas pustulentas! À Mocidade Cantai! cantai. Na exaltação do amor e da saúde. tranqüilamente eu te abençôo.

Tarde reconheci minha falência.Francisco Cândido Xavier . como cônsul adjunto do Brasil. Infeliz do meu ser irredimido. E da morte. Do qual perdi a luminosa essência Na cristalização dos meus pesares.Parnaso de Além-Túmulo 63 13 Antônio Torres NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885. amargurado e cego. De minha quase inútil existência. No silêncio das cinzas tumulares. em 1934. falecendo. . abandonando mais tarde a profissão eclesiástica. Esquife do sonho Tive um sonho de amor e de inocência. Poeta e escritor. Cheio de luz das coisas invulgares. Pois triste e atordoado inda carrego O negro esquife do meu próprio sonho. na cidade de Hamburgo. – Abismo tenebroso que eu transponho. Ordenou-se sacerdote. no abismo indefinido. Terminados os múltiplos azares. Tombei exausto.

porém. Na qual acreditei. Que as trevas mais compactas aclara. resplendente e rara Da Fé. Nada! .... Revendo os dias tristes do passado.. não fosse tão ousado. Filosofia rude e amara. 64 . Antes.Parnaso de Além-Túmulo Nada. com pena embora De abandonar a crença que esposara. – A minha aspiração de cada hora. Vi que troquei a Fé pela ironia. Crença é o perfume d'alma que se enflora Com a luz divina. Pois nem sempre a razão profunda e fria Alivia ou consola o coração.Francisco Cândido Xavier . única Luz da única Aurora. Nos desvios e excessos da razão.

a 7 de julho de 1855 e falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908. comediógrafo. Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação. Não na visse nem mesmo por brinquedo: Dona Corália Augusta Colavida Estaria nessa hora recolhida? Levantou a cortina. da sala de jantar. Miniaturas da sociedade elegante 1 Adriano Gonçalves de Macedo. Penetrou no seu quarto com um sorriso Às dez horas da noite. devagar.. Sobre o divã. Viu que a esposa beijava um seu amigo. e. . que tragédia após esse perigo. Membro e fundador da Academia Brasileira de Letras.Parnaso de Além-Túmulo 65 14 Artur Azevedo NASCIDO em São Luis.Francisco Cândido Xavier . jornalista e crítico... onde ocupou a cadeira de Martins Pena. Poeta. assim. dama de juízo. Uma carta de amante – era um segredo – Ia abri-la. 2 No belo palacete do Furtado. Homem de cabedais e alma sem siso. Mas.. no Maranhão. era preciso Que a sua esposa. muito a medo.

Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. Foi um sucesso. E ele. Que primor de moral! e os companheiros Escritores. Revirando-o nas mãos. Recamado de quadros indecentes. Foram levar-lhe um abraço camarada. E a esposa Ana Fulgência. Toma o moço um livrinho encadernado.Francisco Cândido Xavier . Era um compêndio de pornografia. assaz catita. 3 Dom Castilho. Bacharel delambido e enamorado. Numa corrida louca. Nele via uma grande alma de artista.. notável latinista. é meu breviário!” Diz inquieta. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores. Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o. Antonico. Sobre rígido assunto moralista.. De sobre a grande cômoda bonita. interessado. conselheiros. muito aflita: . 66 . Protegido dos membros da regência. Realizara alentada conferência.“Esse livro. cínico e falsário. Mas a jovem retoma-o. Mais o olhava e mais se ria.Parnaso de Além-Túmulo Palestrava a galante Mariquita Com um pelintra afetado. poetas.

Parnaso de Além-Túmulo No apartamento escuro da criada... 67 .Francisco Cândido Xavier .

E. elevando-se aos céus. Naquele dia. Viam-se florescer bromélias e boninas. perdoando a maldade. Servo amado de Deus. Além se divisava a solidão da estrada. Ninguém! Nem uma sombra se movia. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934.Francisco Cândido Xavier . esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas. Minas. O doce missionário Sertão hostil. espelho de bondade. Era intenso o calor. onde o Sol feria os vegetais. militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. . Agreste serrania. Amarela de pó.Parnaso de Além-Túmulo 68 15 Augusto de Lima POETA mineiro. Tendo por companhia A cruz do Nazareno. orador e publicista.. o doce missionário. imitador de Assis. Ali vivia Anchieta. desânimo e torpor. Na clareira. Magistrado íntegro. Abençoando o bem. Carinhoso pastor. Tudo era languidez.. Que na humildade achara a vida mais feliz. tendo ocupado a presidência dessa instituição. tristonha e desolada. humilde e solitário. nascido em Sabará.

– “Meu protetor – diz ele –.. ao termo da viagem. Em tão rudes e aspérrimos caminhos! .Parnaso de Além-Túmulo Eis que o irmão de Jesus. Somente o Sol ferino e destruidor. 69 . Que tem oferecido a Deus o seu amor. em aflição. o pastor não se deplora. Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor. Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa.“Oh! doce filho meu. Eis que a sede o devora. que vindes de passagem. Pairam no ar excessos de calor. Abandonando o ninho agreste e solitário. o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário. Que Jesus vos ampare. Que penosa jornada.. Nem árvores umbrosas e nem fontes. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. Dirige-se-lhe a casa..” . Há solidão na estrada. inflamando os horizontes. o bom pajé. Convertido por vós à luz da vossa fé. ao longe. o humilde pegureiro Avista um mensageiro.Francisco Cândido Xavier . Agoniza na taba. Que calcina. Para arrancar à dor o pobre penitente. Entretanto.” E isso dizendo..

asas aconchegadas. que te ama e te venera. No azulíneo do céu. E.Francisco Cândido Xavier . Numa férvida prece.. na loura Primavera. Eis que nos arredores Congregam-se apressadas Todas as avezinhas. No canto. por tudo o que nos dás. Eterno Pai de amor. Luz e consolação.. no sofrimento. Na vibração dos sons. no cálice das rosas. Senhor.. Inspirada em tão santa devoção. Ele ainda agradece: – “Sê bendito. na irradiação da luz. Numa ideal combinação Formam um pálio protetor. todo amor. No coração do bom. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas. das meigas avezinhas. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade. amparo e luz. Na dor. Cobrindo o doce irmão Que ia ofertar amor. Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores. Na corola de luz de todas as florinhas. 70 . Seja alegria ou dor.. Na estação outonal. em nossa própria cruz. Juntinhas. de luz e caridade.” Terminando a sorrir a espontânea oração. tudo é ventura e paz.Parnaso de Além-Túmulo A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento.

Com a mesma luz divina dos seus traços. humilde e isento de pecado. 71 . Chegara ao seu destino. Brilhava nova luz. Lábios sorrindo. O enviado do Bem e da Virtude Agradecia ao Céu.. Modesto. Ia caindo o dia No poente de paz e de harmonia. O santo de Assis No suave mistério dos espaços. Repartindo a Virtude. Aureolando com amor o Discípulo Amado. Santa Maria dos Anjos inda existe. Glorificando as dores da alma triste.Francisco Cândido Xavier . Pelos caminhos. Evolando-se puro ao seio de Jesus. Em meiga mansuetude. o coração em luz. Que ia seguindo. casto..Parnaso de Além-Túmulo Em nome do Senhor. a Graça e os Dons Que a palavra divina do Cordeiro Prometeu aos pacíficos e aos bons Do mundo inteiro. Foi-se aumentando O alado bando Dos bondosos e ternos passarinhos. feita de crença e amor: Era a bênção dos Céus. a bênção do Senhor.

O Esposo da Pobreza No seu manto de amor e de alegria Inda abre os braços para os pecadores. Derramando no Além ignorado Os sonhos de Virtude e Perfeição.Francisco Cândido Xavier . singela e boa.. que enxugam todo o pranto E que levam consigo Todo o consolo amigo Da Esperança no Céu. terna e tranqüila. Aí se rejubila.Parnaso de Além-Túmulo Uma nova Porciúncula. Das paragens etéreas Da sua ideal igreja. dourada Pelos astros de mística alvorada. Daquela mesma Umbria do passado. Numa doce e ideal Eucaristia.. irmãs Flores. A luz dos sóis da etérea Natureza. São Francisco de Assis abraça e beija 72 . Procurando salvar Os nossos irmãos Homens mergulhados Entre as noites sombrias dos Pecados!. Cheia de encantamento e de oração. “Irmão Sol. Não nos cansemos de glorificar A caridade imensa do Senhor. Sob a paz de Jesus. Sua sabedoria e seu amor.. E à voz suave e dúlcida do Santo.... A Terra escura e triste se povoa De anjos de amor. irmãos Anjos.

vi tua luz singela e casta Beijando as minhas lepras asquerosas. Depois da morte.. irmão da Caridade.. Uma chuva de lírios e de rosas Lavou-me o coração de pecador E guardei para sempre o teu amor.Francisco Cândido Xavier . Santo de Assis. que devasta Todo o bem.. Nas amarguras do meu pesadelo De vaidade do mundo. à luz da imensidade. Amparando-lhe a alma combalida Nos desertos de lágrimas da Vida. Que me curaste as lepras e a cegueira.Parnaso de Além-Túmulo O homem que sofre todas as misérias. 73 . Santo de Assis.. Quero ainda abençoar-te a vida inteira..... E o conduz Ao regaço divino de Jesus!. divino “poverello”.

Minas. Deus era a lei de eternos transformismos. O fenômeno apenas. Via Deus adstrito à Natureza.Parnaso de Além-Túmulo 74 16 Augusto dos Anjos PARAIBANO. Com o espírito absconso em paroxismos. No rubro incêndio de batalha acesa. Perpetuando-se em continuidade. Concepção panteística. . deixou um só livro – Eu – que foi. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914. A essência onicriadora reformando. alias. Eram partes do Todo nas Substâncias Desde o estado prodrômico do mundo. englobando As substâncias todas na Unidade. na cidade de Leopoldina. muita vez me consumia Perquirindo nas leis da Biologia As expressões orgânicas das formas. Voz do Infinito 1 No excêntrico labor das minhas normas Na Terra. porque o fundo Do númeno às eternas rutilâncias. inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de sua predileção. Era professor no Colégio Pedro 2º. suficiente para lhe dar personalidade original.Francisco Cândido Xavier .

sofrendo. a matéria apodrecer. No pantanal da lama em que eu vivia. que eu via transtornado: Eu era um átomo individuado Em cerebralidade putrescível. A alma era a molécula. Assim vivi na presunção que via. Dominava-me todo o medo horrível. A sutilez do arminho que se veste.Parnaso de Além-Túmulo O corpo. numéricas. Era um mero atavismo revivendo. Vi. Os princípios genéricos do ser.Francisco Cândido Xavier . porém. Loucura que igualava Messalina À pureza lirial da Mãe do Cristo. A coroa aromática das flores. Dos cumes da Ciência e do saber. De idéia que esteriliza e desensina. E na individualidade indivisível 75 . A luz dessa dourada ignorância. Notava as pestilências cadavéricas Iguais à carne Angélica da infância. desde o embrião inicial. Afastada do Todo Universal. Irmanadas aos pútridos fedores De emanações pestíferas da peste! Extravagância e excesso jamais visto. E com certezas lógicas. Do meu viver.

76 . Em meio de excrescências e misérias Que corrompeste a íntima saúde Da tua alma cegada de amargores. Olhos cegos às chamas da bondade De Deus e à divina misericórdia.. E os instintos hidrófobos. foste apenas Um corvo ou sanguessuga de defuntos. iguais aos odres Onde se guarda o fragmento imundo. danados. Que espalha o bem e as auras da concórdia No coração de toda a Humanidade. Vendo somente a cárie dos conjuntos. Alma pobre. De todo o esterco que apavora o mundo E os tóxicos letais dos corpos podres. Que na Terra não viu os esplendores E as ignívomas luzes da virtude. Vias os teus iguais. Entre as sombras das lágrimas terrenas. famulentos.Francisco Cândido Xavier .. Em teus dias inúteis. que emerges de apodrecimentos.Parnaso de Além-Túmulo Ouvi a voz esplêndida e terrível Da luz. esquelético fantasma Que gastaste a energia do teu plasma Em combates estéreis. na luz etérica a dizer: 2 “Louco. E tanto viste os corpos e as matérias No esterquilínio generalizados.

Das células primevas. Do silêncio da mônada invisível. A infinita desgraça de ser homem. Reconheci que a vida continuava Infinita. desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. em eternos infinitos! Vozes de uma sombra Donde venho? Das eras remotíssimas. Sofri.Francisco Cândido Xavier . No turbilhão de todas as vertigens.” 3 Calou-se a voz. Esquece o verme. Vitalizando corpos multiformes. agora. fundas e enormes. Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. Venho dos invisíveis protozoários. Em mil transmutações. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando a luz das amplidões divinas. Filhos do pranto que me espedaçava. Do tetro e fundo abismo. E sufocando gritos. vibrião das ruínas. as carnes. 77 .Parnaso de Além-Túmulo Descansa. Emergindo das cósmicas matérias. os estrumes. Venho da fonte eterna das origens. Das substâncias elementaríssimas. negro e horrível. Da confusão dos seres embrionários. das bactérias. Da Terra no vultoso e imenso abdômen.

Onde me revolvi como infusório. A razão do completo e do incompleto. A flor da laranjeira. Durante penosíssimos minutos. Depois. Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. Como existiram. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres. Como animálculo medonho. Simbiose da dor e da tristeza. E nem compreenderás como se opera 78 . A dor. Descortinando as luzes do futuro. apenas fui terrível presa. Sombra egressa de lousa dura e fria.Francisco Cândido Xavier . a asa do inseto. obscuro. voltei desse laboratório. Enigmas insolúveis e profundos. analisando os fatos. não perceberás.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. Inda que desintegres energias. essa tirânica incendiária. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. Um estafermo e um Tales de Mileto.

A noite da ignorância e o sol da Ciência. Como vivem o novo e o obsoleto. 79 . O laconismo e a prolixidade. Como vive o canário junto ao corvo. Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã. A luz de Miguel Angelo nas artes. O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. Produto da experiência de Hahnemann. O céu iluminado.Parnaso de Além-Túmulo A mutação do inverno em primavera. Mostrando as luzes da imortalidade. E a transubstanciação da guerra em paz. o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo. E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia.Francisco Cândido Xavier . As grandes atonias e as nevroses. As epidermes e as aponevroses. A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade. A atividade e a inatividade. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas.

Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. A alma pura do Cristo e a de Tibério. Onde há somente um óvulo fecundo. 80 . A teoria cristã e Augusto Comte. Vaso de carne podre. Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. Em prodigiosas manifestações. As idéias conexas e as loucas. os vermes. Em contraposição com os paquidermes. Assombrosas antíteses no mundo. É o gigante e o germe originário. Os lombricóides mínimos. Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. Repleto de dejetos e de estrumes. Junto dois palacetes higiênicos.Francisco Cândido Xavier . o cemitério. E o desconhecido e o devassado. As coisas substanciais e as coisas ocas. Os milhões de corpúsculos do ovário. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. E o jardim rescendendo de perfumes. O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo.Parnaso de Além-Túmulo As atrações e as grandes repulsões.

” Voz humana Uma voz. Cosmopolitismos. confusa. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. É a voz humana em intérminas nevroses. 81 . Aquilo que está longe e o que está perto. Duas vozes. Seja nas concepções dos ateísmos. Outras vozes. O que não tem sinal e o que tem marca. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. Na solução de todos os contrastes. sociológicos. científicos. Psíquicos. A funda simpatia e a antipatia. Gritos de feras em paroxismos.Francisco Cândido Xavier . Homem! por mais que a idéia tua gastes. Não saberás o cósmico segredo. Os fenômenos todos geológicos. Milhões de vozes. Como as tuberculoses e a anasarca. Para a Vida que eterna se renova. Buscando as perfeições do Amor em Deus.Parnaso de Além-Túmulo Os terrenos povoados e o deserto. Que inspiram pavor e inspiram medo. Caminharás lutando além da cova. Uivando subjugadas e ferozes. A que se acolhem míseros ateus. atrozes. As atrofias e a hipertrofia.

A dor. Somente achava corpos na existência. É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres.Parnaso de Além-Túmulo É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. Que não via. Alma Nos combates ciclópicos. As luzes d'alma em trágicos segredos. seres inorgânicos. Nutrir-se de famélicos prazeres. titânicos. nos risos e nos pânicos. que gargalhando em nossas dores. Nas lágrimas. Nos vastos campos da Psicologia.Francisco Cândido Xavier . 82 . insaciada. Enceguecido e louco então que eu era. Nos distúrbios sutis da hipocondria. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. Que eu às vezes na Terra empreendia. Nas defectividades da estesia. Nos instintos soezes e tirânicos. dos astros à monera. Buscava as almas.

Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores. nervos. Voracidade onde a alma se mergulha. parece Cataclismo dos grandes cataclismos. Tendo a alma – centelha. materializados. hipertrófica. que. Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras.Parnaso de Além-Túmulo Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos. sem vigor. Multiplicando as lágrimas e os trismos. Que atrofiada. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. Atrocidade das atrocidades. apodrece. Que. Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. 83 . E nisto achar fantásticos prazeres. tegumentos. Em sexualidades e histerismos. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. Na agregação da carne e dos humores. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. estrambótica.Francisco Cândido Xavier . Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. fraquíssima. Serpentes entre escrófulas e helmintos. Nos recantos dos mundos inferiores. se apaga Ao furacão indômito das dores.

Parnaso de Além-Túmulo Espíritos em ânsias retroativas. Mas a análise crua do que eu via. Que percorrem o espaço imensurável. Rudimentos dos seres planetários. a onda sonora. nas plantas e nos vermes. O anseio da vida. No profundo silêncio dos inermes. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável. No transcorrer das vidas sucessivas. Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. em sentimentos. A mesma luz dos corpos estelares! 84 . Veríamos o evolver dos elementos. Nos rochedos. Hedionda lição de anatomia. Transformando-se em luz. Nas ferezas do instinto. atassalhados. Inferiores e rudimentares. No assombroso prodígio das esteses. A cadeia de impulsos e de instintos.Francisco Cândido Xavier . Das origens às súbitas asceses.

A quietação dos túmulos inermes. Argamassando um Todo miserável. Do intravascular princípio informe.Francisco Cândido Xavier . Tudo é clarão da evolução do cosmos. Buscando as perfeições absolutas. Era um feixe de mônadas de vermes. Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância. Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável. Larva repugnante e vermiforme. Nos íntimos recôncavos da placenta. Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras. Heterogeneidades da Substância.Parnaso de Além-Túmulo É que. Viemos do principio das moneras. 85 . Enjaulados no cárcere das lutas. Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável. O homem é fruto insólito da ânsia. Ao monólito enorme das idades. dos invisíveis microcosmos. Dissolvidos na terra famulenta.

De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. Onde a divina essência se reveste Da substância fluida. Não há luta mavórtica que o dome. Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte. 86 .Parnaso de Além-Túmulo 2 Após a introspecção do Além da Morte. Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem. Ou venenada lâmina que o corte. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel. Volve o Espírito ao páramo celeste. Vendo a terra que os próprios ossos come. Depois da estercorária microbiana. universal. toda a bílis do iracundo.Francisco Cândido Xavier .

lúcido.Parnaso de Além-Túmulo Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente. Inexprimível nas termologias. em brasa. Atramente a gemer a mágoa e o luto. com Laplace. O mesmo triste e estrábico produto. Sou eu. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho.. com intelecto de arbusto. e por mais que o procurasse. se mistificasse No anonimato. Sou eu que. Quer com Darwin.. ígneo. se não vos declarasse. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou. Nas mais contrárias idiossincrasias. entro Em relação com o mundo onde concentro 87 . Levantar-me do leito de Procusto. À Terra volvo. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. com Haeckel. E. Se vos mentisse. então.Francisco Cândido Xavier . sendo eu o Augusto. Dentro da noite É noite. Jamais cri. Extremamente injusto Seria.

cruéis. tremendo. – A misérrima e pobre Humanidade. A desgraça dos úteros falidos. Sentindo-se em seus leitos como em ermos.Parnaso de Além-Túmulo O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. 88 . D'alma quebrando o cárcere do instinto. que hórrida sinto. São os ais dos leprosos desprezados.. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios.. apodrecidos. É a ânsia afrodisíaca das bocas. As dores espasmódicas dos partos. Em diferenciação definitiva. São uivos dos instintos jamais hartos. Verminados. Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor. da perpétua grade.Francisco Cândido Xavier . Mais o enigma do mundo se lhe aviva. Sentindo os próprios membros carcomidos. Que nas bestialidades se unem loucas. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos. Deplorando o destino miserando. Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios. Às bactérias mais vis ambas trocando. Buscando ávida a luz. Por mais que sonde. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. As dolorosas mágoas dos enfermos.

coagulado. Fujo. ao próximo sol-posto. atrocíssima. Dos desejos que não se realizaram. Essa angústia indomável. Desde o sol-posto. E com os meus pensamentos desconexos.. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. envoltos na ânsia. Como o cheiro de sangue dos massacres. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas. além das catacumbas. E ainda transpondo o Azul sereno. Fétido.Parnaso de Além-Túmulo É o grito. decomposto. Terra!. e chegam-me fortes cheiros acres. Asco e dó. Sinto em minhalma o tóxico. o anseio. Vejo a guerra pestífera dos sexos. Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo... Onde traguei meus grandes amargores. o veneno 89 ..Francisco Cândido Xavier . Trazendo dentro d'alma. Abominando as coisas deste mundo. a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem.

essa voraz liberticida. No transcendentalismo da Unidade. Sob transformações consecutivas. Objetivando a personalidade.Francisco Cândido Xavier . pura. alma humana. Na imensidade Alma humana. Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! 90 . Vem dessa Origem indeterminada.Parnaso de Além-Túmulo E a desdita dos seres sofredores. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada Nos turbilhões das lutas cognitivas. Em sucessivos aperfeiçoamentos. Até achar à perfeição profunda E indivisível. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. Desse teu escafandro de albuminas. Vem através do Todo de elementos. e se confunda. tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne.

Pensamentos radiosos como chamas.. sem número. sem fim. Sem limites. Singrando a luz de céus incomparáveis. Envergando os etéreos organismos. Não podes perceber as ressonâncias.Francisco Cândido Xavier . Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos. Deus e Pai. Formam luminosíssimas paisagens. 91 . Do teu laboratório de arterites. nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades. Submersão nas fluídicas belezas. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades. concretizadas e reunidas. Aqui não há vertigens de nevróticos. Em pleno espaço – Imensidade de ânsias. De gangliomas. execrável. Ante a minhalma fulgem ideogramas. úlceras. Sem aritmologias das distâncias.. São vibrações das almas evolvidas E que. nas regiões imensuráveis. Deixai meu ser esdrúxulo.Parnaso de Além-Túmulo Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis. ó Artista Inimitável. Combinações no mundo das imagens.

Eis-me longe dos rudes estertores. Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra. Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. E sou o espectro das anomalias. Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade. levanta o véu do teu futuro. Aos fracos da vontade Homem. que me aterra. 92 . Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores. Não sou o homúnculo da hominal espécie. Mas contérmino à carne.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas.

Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude.Parnaso de Além-Túmulo Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero. Mas. Ouve-te sempre a ronda do mistério. sofre e chora. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares Vivam livres de todos os pesares. sobretudo. Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida. esplenda. Com a espada resplendente da virtude. De arcangélicas flores de Harmonia. Fonte da força e altíssimo elemento. nefasto. eterno. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto. 93 . Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama.Francisco Cândido Xavier . Com os tônicos sagrados da Virtude. observa o pensamento. Que o sol da tua mente.

Reflexas das ações psicológicas. Apesar das verdades fisiológicas. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. és muito mais. a alma da luz resplandecente. Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: 94 .Parnaso de Além-Túmulo Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. És mais.Francisco Cândido Xavier . Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia. És um ser imortal e responsável. Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. és a cintila Do Céu. a energia Potencial que dá vida aos elementos. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica. Movimentando células de argila. Nas células primevas da existência.

Livro onde o Criador Inimitável Grava. 95 . Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos. Mas um mundo de deuses decaídos. Seus poemas de seres e universos.Parnaso de Além-Túmulo Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos. Estirpe das escórias planetárias. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias. Árvore genealógica de párias.Francisco Cândido Xavier . Faz-se mister que o cárcere a conclame. com o pensamento almo e insondável. É do mundo o Od ignoto. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias. Segregadas num mundo amargo e infame. Fez da Terra o brilhante gral da Ciência. Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Glorificando o instinto e a inteligência. o éter divino.

luta e goza. atro e mudo. horrendo e rudo. sim. No labor anatômico. em seus impulsos embrionários. Nos seus medonhos ágapes mortuários. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas. No órgão morto. De consumir as podridões de tudo.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo A subconsciência Há. 96 . Que o neurônio oblitera por momentos. no estudo Do germe. Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame. Consciência de todas as consciências. a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre. impassível. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. Fora de toda a sensação nervosa. Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários.

Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular.. Na ascendência de todos os destinos. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar. E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço.Parnaso de Além-Túmulo No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas.. Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria. Desorganização molecular. Como o bolor e o mofo sob as heras. 97 . Do portentoso amor de Deus oriundos. A alma que é Vibração.Francisco Cândido Xavier . Que manifesta o espírito nos mundos. Ou condição diversa da substância. No transcendentalismo das esferas. fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. Está nas luzes da sobrevivência. Vida e Essência. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. Fim das forças do plasma agonizante.

Homem da Terra! trágico segredo De miséria. de horror. Pavorosos esgares de gemido. Deixando corpos pelos cemitérios. 98 .Francisco Cândido Xavier . E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas. de ânsia e de medo. Feito à noite de enigma profundo!. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas.Parnaso de Além-Túmulo Sob o acervo das células taradas. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas.. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria.. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. Entre as sombras das míseras estradas. Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. alta. imortal. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema. Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas. Vive o homem da Terra adormecido.

Visões apocalípticas do mal. 99 . Desenhadas por corvos vagabundos. lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. E rasteja o dragão horrendo e informe. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas. Trevas. mísero e perverso. de sede e fome. Ossuários tremendos sob as flores. amargo e morto.Francisco Cândido Xavier . Morre de frio e fel. Canhões. filosófico ou sem nome. É o triunfo terrível do coveiro.Parnaso de Além-Túmulo Anjo da Sombra. Quadros de sangue. A civilização do desconforto. O homem. Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal. Nas sombras Bombardeios. Muralhas. Enquanto a desventura chora inerme. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. De mentira e veneno cerebrais. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. Nas vitórias fantásticas do verme.

. 100 . No turbilhão das sombras negativas. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração. Confissão Também eu. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. Tem a chave do Céu.. verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta. Terror e morticínio. O homem sôfrego e bruto. Homem-verme Desolação. Não encontrei a luz das forças vivas. vencendo o abismo!. Apesar de ingentíssimos labores.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Ai de vós nos abismos da aflição. das causas positivas. Foi preciso “morrer” no campo inglório. Bem distante. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio. na estrada eterna e justa. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas. de ânsia em ânsia. Para encontrar esse laboratório De beleza. Mas só a Fé.

que detestavas. Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. E onde sorveste o cálice amargoso. do pó que envolve as tumbas. Augusto.Francisco Cândido Xavier . Sobre a idéia cristã medrando em germe. Proclama a vida além das catacumbas. Beija. Volta. Exaltando a vaidade sem substância. Nas maravilhas de seus resplendores. em Leopoldina. Ao crepitar de rúbidos incêndios. Augusto. Por toda a parte. Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão. este solo generoso. em sombra e vilipêndios. onde foi sepultado o poeta. 7 Poesia recebida em 18 de junho de 1940.Parnaso de Além-Túmulo 101 É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância. De lodo e lama. escorre o sangue horrível. Aqui. Ídolo podre sobre o esterquilínio. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas. . Em quase tudo. buscaste o campo de repouso. o pântano terrível.

Sangrou Jesus em lágrimas divinas. Feito de sânie e de cadaverinas.Parnaso de Além-Túmulo Ajoelha-te e lembra o último abrigo. Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! . angústia e pena. absorto. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo. Nos turbilhões fatídicos da guerra. Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor.. 102 . Porque na luz dos círculos da Terra. Ainda é Caim que impera sobre o mundo. A Lei Em reflexões misérrimas.. em ruínas. Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. sobre o Calvário áspero e bruto. Em vão. de pranto e luto.Francisco Cândido Xavier ... Saturada de treva. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto.

.Parnaso de Além-Túmulo Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento. Cessa a miséria de teus raciocínios.“ Mas. 103 . Em conceitos sublimes e profundos. e pensa. Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta. Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios. Se não tens coração que aceite a crença. Espera a mão da morte excelsa.Francisco Cândido Xavier .. A molécula morta desafia.. Não insultes as leis universais. Enfrentando o pavor da mesma treva. Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários. uma voz da luz dos grandes mundos. Os impulsos dos sonhos embrionários.. O mistério da célula primeva.” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários. Pára. Encontrarás teus gritos solitários. amigo. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!. Desde o instante infeliz de Adão e Eva.

A Civilização regressa à taba. que é sempre o tigre carniceiro. Correm de novo as lágrimas divinas. embora o Direito.Parnaso de Além-Túmulo Que a carne volve ao pó. Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta. o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta. Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. Canhões. Trevas. 104 . Multiplicando Herodes e Pilatos. Pois. Enquanto grita a turba ignara e injusta. A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. exangue e fria. A construção dos séculos desaba. Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. Entre prantos pungentes. Depois de vinte séculos ingratos. o Livro e a Toga. Apaga-se o milênio.Francisco Cândido Xavier .

através da tempestade. Mas.Parnaso de Além-Túmulo Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio. 105 .Francisco Cândido Xavier . acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue. Novo sol banha o pélago profundo. É Jesus que. Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo.

teve uma terceira edição no Rio de Janeiro. aos 24 anos. em Natal. traz uma biografia da Autora por H. A segunda edição. desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. Deixou um único livro. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos.Parnaso de Além-Túmulo 106 17 Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. em Macaíba. Finalmente. portanto. Horto. E eu. apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. Almas feridas e dilaceradas. prefaciada por Olavo Bilac. . Castriano. em outubro de 1899.Francisco Cândido Xavier . em 1910. Rio Grande do Norte. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. em 1936. cuja primeira edição. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados. em dores. E confiada na crença que tivera. na Terra inda. feita em Paris. Almas dilaceradas Quando. sofredor. Sofria. Via presas do pranto e da agonia. Espírito melancólico. que era irmã dos grandes sofredores. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. muito místico.

Parnaso de Além-Túmulo Cheguei à luz da eterna primavera. Deve fugir das horas de repouso. Aureolada de luz confortadora. E há também os reflexos da aurora De ventura. que torna a alma florida. Minorando as alheias amarguras. Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura. a pleno gozo. Onde há paz para os pobres desgraçados. Que o coração dormente. Tal desalento e tantas desventuras.Francisco Cândido Xavier . Somente a dor intérmina que mata 107 . porém. Há. A alegria fulgente e estremecida. tanta dor em demasia. Sobrepujando instantes de alegria. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata. Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida.

Do meu viver sem luz. serena e jubilosa. A mesma dor que eu tanto padecia.Francisco Cândido Xavier . porém. sem paz. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. O veneno da acerba desventura Que fere em nós a aspiração mais grata. minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora. o amor. Senti. E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo. Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos.. a mágoa intensa Que rouba a luz. nevoentos. Que se extinguia em atros sofrimentos. É que a dor da minhalma em tudo eu via. Então parti. na própria Natureza. a paz e a crença. porém. Sem as sombras da dor e da agonia. sem flores.Parnaso de Além-Túmulo A alegria mais lúcida e mais pura. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores.. Se apenas vi. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! 108 .

Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. Nessas paragens de deslumbramentos.Parnaso de Além-Túmulo Em paz Tanto roguei a paz consoladora... Elevando a Jesus meus pensamentos. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. a vida inteira. Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais 109 . eterna e derradeira!. Por teu amor. ditosa agora. Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado. Em paz serena. Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso. Durante os meus amargos sofrimentos. Canto de luz dos páramos celestes. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais.Francisco Cândido Xavier . Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. Jesus. Abrasada de amor eu viveria. meu Jesus.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Depois da treva espessa da amargura:
Para exaltar as luzes que me deste
Na cariciosa e doce paz celeste,
Meu tesouro de fúlgida ventura;
Para contar tua bondade imensa
Aos meus irmãos, os homens pecadores,
Mergulhados na noite da descrença,
Nos abismos dos males e das dores;
Para falar a todas as criaturas,
Da tua alma esplendente de bondade,
Afastando as amargas desventuras
Do coração da pobre Humanidade!
Aos teus pés, meu Jesus, a vida inteira,
Abrasada de amor eu viveria,
Sorvendo a luz no cálix da harmonia,
Em paz serena, eterna e derradeira!...

Mãe
Ó minha santa mãe! era bem certo
Que entre as preces maternas estendias
As tuas mãos sobre os meus tristes dias,
Quando na Terra – que era o meu deserto.
Nos instantes de dor, bem que eu sentia
As tuas asas de Anjo da Ternura,
Pairando sobre a minha desventura
Feita de prantos e melancolia.

110

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Flor ressequida eu era, e tu o orvalho
Que me nutria, pobre e empalecida;
Era a tua alma a luz da minha vida,
Meu tesouro, meu dúlcido agasalho!...
Ai de mim sem a tua alma bondosa,
Que me dava a promessa da esperança,
Raio de luz, de amor e de bonança,
Na escuridão da vida dolorosa.
E que felicidade doce e pura,
A que senti após a treva e a morte,
Findo o terror da minha negra sorte,
Quando vi teu sorriso de ventura!
Então, senti que as Mães são mensageiras
De Maria, Mãe de anjos e de flores,
E Mãe das nossas Mães cheias de amores,
Nossas meigas e eternas companheiras!...

Prece
Estendei vossa mão bondosa e pura,
Mãe querida dos fracos pecadores,
Aos corações dos pobres sofredores
Mergulhados nos prantos da amargura.
Derramai vossa luz, toda esplendores,
Da imensidade, da radiosa altura,
Da região ditosa da ventura,
Sobre a sombra dos cárceres das dores!

111

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes,
Mais amor, desse amor que já nos destes,
Queremos nós em cada novo dia;
Vós que mudais em flores os espinhos,
Transformai toda a treva dos caminhos
Em clarões refulgentes de alegria.

Adeus
O sino plange em terna suavidade,
No ambiente balsâmico da igreja;
Entre as naves, no altar, em tudo adeja
O perfume dos goivos da saudade.
Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;
E a alma que regressou do exílio beija
A luz que resplandece, que viceja,
Na catedral azul da imensidade.
“Adeus, Terra das minhas desventuras...
Adeus, amados meus...” – diz nas alturas
A alma liberta, o azul do céu singrando...
– Adeus... – choram as rosas desfolhadas,
– Adeus... – clamam as vozes desoladas
De quem ficou no exílio soluçando...

Almas
Ó solitário das estradas,

112

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Desventurado pensador,
Há no caminho “almas penadas”
Que vão clamando desoladas
A dor e o pranto, o pranto e a dor!...
Vós, que o silêncio amais no mundo,
Em orações ao pé do altar,
Sob as arcadas silenciosas,
Almas feridas, desditosas,
Oram convosco a soluçar.
Ao descansardes, meditando,
À sombra de árvores em flor,
Sabei que às vezes sois seguidos
Pelas angústias dos gemidos,
De almas chagadas no amargor.
Clareie a luz do sol-nascente,
Negreje a treva na amplidão,
Gemem na Terra muitos seres
Pelos amargos padeceres
Depois da morte, na aflição.
Dai-lhes dos vossos pensamentos
Consolação que adoce a dor,
Dai um conforto à desventura,
A prece cheia de ternura,
Algo de afeto, algo de amor!...

Almas de virgens
Andam sombras errando abandonadas

113

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ao pé das lousas e das covas frias,
Almas de pobres freiras desamadas,
Perambulando pelas sacristias.
Almas das que não foram desposadas,
Como bandos de rolas erradias,
Angélicas visões de bem-amadas,
Mortas na aurora rútila dos dias...
Virgens mortas! Tristíssimas oblatas
De um sacrário de luz piedoso e santo,
Que sonhais entre os tálamos celestes,
Entoai nos céus as tristes serenatas
Com as vossas roxas túnicas de pranto,
Cantando à luz do amor que não tivestes!..

Carta íntima
Escuta, meu irmão! Pelo caminho
Da miséria terrestre, há muitas dores;
Muito fel, muita sombra, muito espinho,
Entre falsos prazeres tentadores.
Há feridas que sangram... Há pavores
De órfãos sem lar, sem pão e sem carinho:
Confortemos os pobres sofredores,
Almas saudosas do Celeste Ninho!
Jesus há de sorrir com o teu sorriso,
Quando faças no mundo o bem preciso,
Pelo que sofre em desesperação.

114

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todo o bem que plantares nessa vida,
Há de esperar tua alma redimida
Nos caminhos de luz e redenção!

Maria
Toda a expressão de ternura
Do mundo de provação,
Nos Céus ditosos procura
A sua excelsa afeição.
Consolo das mães piedosas,
Cheias de mágoa e de pranto,
Sobre quem atira as rosas
Do seu Amor sacrossanto.
Ninguém diz, ninguém traduz
Essa visão da Harmonia,
Visão de paz e de luz,
Paz dos Céus! Ave-Maria!

Mensagem fraterna
Meu irmão: Tuas preces mais singelas
São ouvidas no espaço ilimitado,
Mas sei que às vezes choras, consternado,
Ao silêncio da força que interpelas.
Volve ao teu templo interno abandonado,
- A mais alta de todas as capelas –

115

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E as respostas mais lúcidas e belas
Hão de trazer-te alegre e deslumbrado.
Ouve o teu coração em cada prece.
Deus responde em ti mesmo e te esclarece
Com a força eterna da consolação;
Compreenderás a dor que te domina,
Sob a linguagem pura e peregrina
Da voz de Deus, em luz de redenção.

Vinde!
Todo anseio da crença acalma as dores,
Toda prece é uma luz para quem chora,
A oração é o caminho cor de aurora
Para o sonho dos pobres pecadores!...
Ó corações que a lágrima devora!
Vinde, através dos rudes amargores,
Cantar na luz dos grandes esplendores
Vossa iluminação de cada hora!...
Vinde rememorar no espaço infindo,
Neste Lar de Jesus, ditoso e lindo,
As desventuras para bendizê-las...
Feliz o coração sereno e forte,
Que triunfa da lágrima e da morte,
Palpitando na esfera das estrelas!...

116

Traz às sombras da vida a claridade. Ele chega. É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia.. Vem o Senhor que nunca chega tarde. E eis que Ele chega sempre de mansinho.Parnaso de Além-Túmulo O Senhor vem..Francisco Cândido Xavier . Haja sol. E os próprios sofrimentos da impiedade São as bênçãos de luz do seu carinho. 117 . faça frio ou tempestade. Vem ao nosso amargoso torvelinho. Como o Sol que dá vida sem alarde.. Veste o manto do amor e da verdade. E percorre o silêncio do caminho.. E o amor se perpetua. E protege a miséria mais sombria.

Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas. E as almas puras. município de Rio Bonito. Notabilizou-se no gênero descritivo. no Estado do Rio. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes. Modeladas pela dor. no Rio de Janeiro. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881). quando funcionário do Correio Geral. Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. espaço em fora. rarefeitas. eleitas. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança. Vão todas. falecendo em 1916. Quais flores das primaveras. Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. Luminosas. 2 Uma campina de flores .Parnaso de Além-Túmulo 118 18 B. a 19 de janeiro de 1859.Francisco Cândido Xavier . Rosas de paz e de amor. Como lírios cor da aurora.

Recebendo entre outros gozos. Beija-lhe a filha inocente. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores. Dos lábios de anjos formosos. embevecida.Parnaso de Além-Túmulo Em pleno espaço infinito. Nesse batismo de luz.Francisco Cândido Xavier . Mirando-a enternecida. Cromos 1 Na alcova desguarnecida. O ósculo de Jesus. Sobre uma enxerga. E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha 119 . a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida. Minúscula. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores.

suplica. Do clarão da sua fé.Francisco Cândido Xavier . Ao seu Jesus bem-amado.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado. Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa. 120 . implora Perdão para o seu pecado. Cheio de lágrimas. Dimanando luminosos. E pede. E com esta minha promessa. Vêem-se raios formosos. ora. O Jesus que ele não vê.Parnaso de Além-Túmulo À santa lá do altar.

ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes.. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro. Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. Encaminhei-me à porta da Agonia. desencarnou no Rio de Janeiro. na rua Pedro Américo. soluço.Francisco Cândido Xavier . exalta-lhe o estro espontâneo. pávida de medo. em 1915. Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores. Com ansiedade e temores dos galés. atribuindo-se a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento . Corroído por chagas interiores. Olavo Bilac. Desalentado e triste. clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza. original e simples. Que me desse um consolo a tantas dores.Parnaso de Além-Túmulo 121 19 Batista Cepelos POETA paulista. um dia.. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores.

Quando terei os bens.. que está na dor depuradora. Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. incompreendida. Para beber no cálix da matéria 122 . essa noite indefinida.Parnaso de Além-Túmulo Da minha dor imensa. Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável. No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora. Agora. a paz calma e serena. sim! depois de tantos anos De tormentos. Cheia de tempestade e sofrimento. o brando afago Da Luz.. Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento. dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa. Onde o não-ser. rude. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora. Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora. em meio aos desenganos.Francisco Cândido Xavier . Tenebrosa.

Parnaso de Além-Túmulo As essências das dores renegadas! 123 .Francisco Cândido Xavier .

o homem pensa. notário público. Iniciou-se na vida comercial e foi. corre. depois. 2 Com a ignorância proterva.Parnaso de Além-Túmulo 124 20 Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. Eis as rimas de outro norte. Estou mais moço e mais forte. . em Juiz de Fora. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. comediógrafo e jornalista nato. Que a morte é o fim. Encontrei paz e conforto Na vida. Ansiosa atrás do prazer. sobretudo. luta e morre Sem jamais o conhecer. depois da morte. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. e aí desencarnou em 1937. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. Poeta.Francisco Cândido Xavier . Minas. 3 Quanta gente corre. Sonha e chora. pela singeleza e espontaneidade da sua musa. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. da qual foi um dos fundadores. Que escreve o poeta morto. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. Popularizou-se.

meu irmão. Tem coragem. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. ao padecer. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro. Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana. O segundo é o dogmatismo. 6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção.Parnaso de Além-Túmulo Não há ninguém que se forre. da morte ao sorvedouro. Mas. para quem sente. Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. Não corras atrás da sorte.Francisco Cândido Xavier . Nas mágoas do mundo. 7 Entre a fé e o fanatismo. Inda é torre de Babel. Sobre a Terra. Ninguém se acaba com a morte. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição. 4 Fecha a bolsa da ambição. guarda A fé do teu coração. 8 A Terra. 125 .

Basta. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. Que o homem siga a Jesus. Recorda que o mundo vão É grande necessitado. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença. na Terra sombria. quem é nobre. Que. 9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má. Corações de lodo e fel. Quem é rico. A essa estrada voltará. em prol do Reino da Luz. Com a bênção que Deus nos dá.Francisco Cândido Xavier . É uma ventura ser pobre. Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa. Que a mulher siga a Maria. Sem muita filosofia.Parnaso de Além-Túmulo Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. Vais procurar a ventura? 126 . 10 Na vida sempre supus.

Toma posse de ti mesmo. Quem sobe é suor e pranto.. Não prendas o coração Nos laços da fantasia. A bonança É flor de sabedoria. Modera-te na alegria..Parnaso de Além-Túmulo Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura. O caminho é ilimitado. Que símbolo sacrossanto!. Atapetados de espinhos. Não perguntes ao passado Pela sombra.Francisco Cândido Xavier . No curso de aquisições. Acalma-te na aflição. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia. 127 . Não vivas correndo a esmo. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. Eterna a fonte do amor. Muita fronte encanecida É fronte de criançola. Esquece as inquietações. Não te aflijas. pela dor. Olha o monte luminoso. Quem desce é riso enganoso.

Todo esforço com Jesus É vida na eternidade. Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória.Francisco Cândido Xavier . A mão terna do carinho 128 . Age sempre com bondade. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários. 5 É ditosa no caminho. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória.Parnaso de Além-Túmulo No impulso que te conduz. 3 Dinheiro do mundo vão. Não trazem ao coração A luz da felicidade. Alegre como ninguém. Mentiras da vaidade. Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa. Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários.

Tudo isso tenho visto. derrotas.Parnaso de Além-Túmulo Que vive espalhando o bem. danos. 6 Angústias. 129 . Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo.Francisco Cândido Xavier .

no último quartel da vida terrena. Diretor da Biblioteca Nacional e jornalista de mérito. aponta Poesias (1859) e Flores Silvestres (1860). tais como estes. por dar-nos obras como Jesus perante a Cristandade.Parnaso de Além-Túmulo 130 21 Bittencourt Sampaio SERGIPANO. E. A custódia das almas sofredoras. A salvação dos náufragos da vida. A fonte de onde respigamos estes dados. mas omite a maior das suas obras. . Consolação e paz dos desterrados Do venturoso aprisco das ovelhas De Jesus-Cristo. publicou-lhe a biografia. que é A Divina Epopéia. deputado por sua província em duas legislaturas e Presidente do Espírito Santo. Mas. em magníficos versos brancos. Providência dos fracos pecadores. Virgem formosa e pura da bondade. em 19 de fevereiro de 1834.. ou seja o Evangelho de João. verdadeiro poema em prosa. ainda hoje se manifesta. Anjo guiador dos homens desgarrados Do Evangelho de luz do Filho vosso. desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1895. um dos mais brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita. Foi político ativo. como tal. é que Bittencourt Sampaio foi. de 1937 (página 494). nascido na cidade de Laranjeiras. À Virgem Vós sois no mundo a estrela da esperança. Reformador. o Filho muito amado! Fanal radioso aos pobres degredados.Francisco Cândido Xavier ..

. Espíritos na treva das angústias. eterno e puro! Dulcificai as mágoas que laceram 131 . Mergulhados nas tredas tempestades Do mal.. Clarão que sobre as trevas da cegueira Expulsa a escuridão das consciências! Virgem da piedade e da pureza.. Fortalecei a fé dos vacilantes. Iluminai os cérebros descrentes. No tenebroso báratro das dores. Dai fortaleza àqueles que fraquejam. que lhes ensombra a mente e a vista. Estendei vossas asas luminosas Sobre tanta miséria e tantos prantos.Francisco Cândido Xavier . que padece. Legião de penitentes voluntários. Enxugai-lhes as lágrimas penosas! Virgem imaculada de ternura.. E corações farpeados de amarguras. Apiedai-vos dos frágeis caminhantes. Existem almas míseras que choram Amarradas ao potro das torturas. Abençoai os mansos e os humildes Que acima de ouropéis enganadores Põem o amor de Jesus. Cegos desventurados.Parnaso de Além-Túmulo Astro de amor na noite dos abismos. caminhando Em busca de outras noites mais escuras. Afastados do amor e da verdade. Fugitivos da luz que os esclarece! Anjo da caridade e da virtude. Clareai as sendas obscurecidas Dos que se vão nos pântanos dos vícios!. Estendei vossos braços tutelares À Humanidade inteira.

anjo de amor. Vinde a nós que na luta fraquejamos. na vossa alma divina! Vinde! .Parnaso de Além-Túmulo Pobres almas aflitas na voragem Das provações mais rudes e amargosas. 132 .Francisco Cândido Xavier . Derramai sobre nós o eflúvio santo Do vosso amor.. Clarão de sol nas trevas mais espessas.. Sobre a nudez de tantos sofrimentos Que despedaçam almas exiladas No orbe da expiação que regenera. Vinde a nós! nossas almas vos esperam... Almas de filhos míseros que sofrem. Providência da pobre Humanidade!. Conforto às almas tristes deste mundo. Afastando amarguras.. Virgem pura.. Cremos em vós.. Atendei nossas súplicas. dai-nos mais força e mais coragem... doce e bondosa. Farol brilhante iluminando os trilhos De todos os viajores que caminham Pela mão de Jesus. Porto de segurança aos viajantes.. Ajudai-nos a fim de que a vençamos. que os acalente e os conforte! Virgem. o vosso manto Constelado de todas as virtudes.. repartido Entre os esfomeados e os sedentos De paz. O pão miraculoso. concedendo Claridades a estradas pedregosas. Vinde. Mãe de Jesus. Estendei. Ele será a luz resplandecente Sobre a miséria dos padecimentos.. Senhora. que ampara e que redime. piedosa Virgem de bondade.

Às filhas da Terra Do Seu trono de luzes e de rosas. reunida. Inundando de amor e de ternura As feridas cruéis e dolorosas. Nossas sinceras preces ao Senhor. ditosos e infinitos. Que a nossa caravana da Verdade Colabore no Bem da Humanidade. A Rainha dos Anjos. Ouvi dos Céus. Que campeia nas sendas espinhosas. meiga e pura. Implorando a piedade... Providência de todos os aflitos. Fortalecei-nos a alma dolorida Na redenção da iniqüidade humana. Com o bálsamo da crença que promana Das luzes da bondade esclarecida. De vossa caridade soberana. Senhora.Francisco Cândido Xavier . Estende os braços para a desventura. Neste banquete místico do amor. a pobre caravana Em fervorosas súplicas. a paz e a vida.Parnaso de Além-Túmulo A Maria Eis-nos. 133 . Ela conhece as lágrimas penosas E recebe a oração da alma insegura.

Parnaso de Além-Túmulo Filhas da Terra. Anjo consolador dos desterrados. Imitai-a na dor do vosso trilho!. Ao teu olhar... Mitiga a dor das almas desditosas Entre as sombras de míseras estradas. São caminhos de luz para o Infinito. 134 . Com tua alma de unos e de rosas. irmãs. esposas.Francisco Cândido Xavier . mãe bendita. Estende. mães. Não conserveis do mundo o brilho e as palmas. as lágrimas da guerra E os quadros de amargor. E encontrareis. que andam na Terra. as mãos radiosas Sobre a angústia das sendas escabrosas Onde choram as mães atormentadas. No turbilhão dos homens e das coisas. em vossas próprias almas. Conforta os corações encarcerados Nas algemas do mundo amargo e aflito. Mãe de todas as mães infortunadas. A alegria do reino de Seu Filho! À Virgem Do teu trono de róseas alvoradas.

austera e inclemente.Francisco Cândido Xavier . Glorificou o Amor. e faleceu em 30 de agosto de 1933. o Sacrifício e a Humildade.. em obras como: Crisálida.. alegre cotovia. Saudava alvoroçado O segredo da noite e a luz clara do dia. . a Renúncia. Grinalda de Violetas. Quando chegaste de mansinho. Em fúria iconoclasta. da ilusão e da alegria.Parnaso de Além-Túmulo 135 22 Cármen Cinira NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu no Rio de Janeiro. Foste. Dor. Como o simum que arrasta As cidades repletas de tesouros Confundindo-as no pó. Pisando sutilmente o meu caminho. Minha luz Eu era. A pomba predileta Do prazer.. Sensibilidade.. em 1902. despreocupada. A um dos belos tesouros que eu possuía E mo roubaste para sempre. Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava serem os seus versos de origem mediúnica. E eu te enxerguei. Em meu engano.. em minha fantasia: Primeiramente. Meu coração. a alma rubra e inquieta..

Minhas bonecas de biscuí. Ó Dor.. E humilhaste Meus sonhos de mulher e de menina. ó Dor depuradora. Meus cofres de alabastros. desde que chegaste. Que eu pusera nos astros Em meio às melodias estelares! Mas. Foste a sombra divina Que acompanhou meus passos ao sepulcro.Parnaso de Além-Túmulo Foste aos meus ídolos mais caros.Francisco Cândido Xavier . Prosseguiste. Na tua obra silente e solitária. Porque representaste em meu destino.. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios.. Destruindo-os sem dó. ó divina estatuária. E quebraste Minhas cítaras de ouro. Encheste a minha vida De um estupendo prazer. 136 . Tudo sofri. Minhas estatuetas singulares.. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo. Meus mármores de Paros. Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. por te querer.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

De alma sofredora,
O fanal peregrino
Que me guiou constantemente
Através das estradas espinhosas
Para as manhãs radiosas
Da Luz Resplandecente...
Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa,
Pois da volúpia estranha dos teus braços,
Vim pelas mãos da morte complacente
Para a vida sublime dos Espaços!...

Aos Espíritos consoladores
Donde éreis vós, ó formas imprecisas
De arcanjos tutelares,
Cujas vozes suaves como brisas
Trouxeram-me nas dores,
No auge do meu sofrer, nos meus penares,
A irradiação de brando refrigério!...
Frontes aureoladas de esplendores,
Seres cheios de amor e de mistério,
Cujas mãos compassivas
Ungiram meu coração resignado
Com o bálsamo do olvido do passado,
E com os místicos olores
Das meigas sempre-vivas
Da fé mais luminosa e mais ardente...
Seríeis o fantasma imaginário
Da mórbida exaltação d'alma do crente?

137

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Não, porque sois os cireneus piedosos
Dos que vão em demanda do Calvário
Da Redenção, nos sofrimentos rudes;
Vindes das mais remotas altitudes
De sublimados mundos luminosos!...
Seres do Amor, jamais traduziria
O cântico de luz
Que trouxestes ao leito da agonia
Que eu transpus,
Cheia de desenganos e gemidos!...
Verto ainda os meus prantos comovidos
Lembrando-me do vosso Stradivárius,
Repetindo as cadências dos hinários
Dos orbes da Ventura e da Harmonia,
Onde habitais, glorificando o Amor
Que d'alma faz um ninho de alegria
E um foco de esplendor!
Em que sol deslumbrante, em qual esfera
Viveis a vossa eterna primavera?
Ó irmãos consoladores,
Que vindes confortar os pecadores
Penitentes da vida transitória,
Dai-me um pouco de luz da vossa glória,
Estendei-me uma única migalha
Da vossa paz, que nutre e que agasalha
Os corações iguais ao meu!...
Tenho sede do amor que enfeita o Céu!
Espíritos da luz radiosa e infinda,
Minhalma é fraca e pobre ainda;

138

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todavia, imortal,
Quero ter dessa luz resplandecente,
E quero embriagar-me inteiramente
Com os vinhos da alegria celestial.

Cigarra morta
Chamam-me agora aí
Cigarra morta,
E não podia haver melhor definição,
Porque caí estonteada à porta
Do castelo em ruínas,
Do desencanto e da desilusão!...
Minhas futilidades pequeninas...
Meus grandes desenganos...
Eu mesma inda não sei
Se é ventura morrer na flor dos anos...
Sei apenas que choro
O tempo que perdi,
Cantando em demasia a carne inutilmente;
E vivo aqui, somente,
De quanto idealizei
De belo, de perfeito, grande e santo,
Que inda hei de realizar
Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.
Dá-me força, Senhor,
Para concretizar meu anseio de amor:
Evita-me a saudade
Da minha improdutiva mocidade!

139

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Eu não quero sentir,
Como cigarra que era,
A falta das canículas doiradas
Sob a luz de ridente primavera.
Já que tombei cansada de cantar,
Calando amargamente,
Perdoa, Deus de Amor, o meu pecado:
Que eu olvide a cigarra do passado,
Para ser uma abelha previdente.

Era uma vez...
Era uma vez Cármen Cinira, Um coração
Cheio de sonho e flor, que mal se abrira
Nos jardins encantados da ilusão...
Estraçalhou-se para sempre
Na voragem
Das trevas, dos abrolhos!...
Era uma vez Cármen Cinira...
Uma suposta imagem
Da perene alegria,
Mas que trouxe em seus olhos,
Eternamente,
Essa amarga expressão de alma doente,
Cheia de pranto e de melancolia!...
Cármen Cinira! Cármen Cinira!
Que é da minha cigarra cantadeira?
Embalde te procuro.
Por que cantaste assim a vida inteira,
Cigarra distraída do futuro?

140

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Perturbada,
Aturdida,
Busco a mim mesma aqui nestoutra vida...
Onde estou, onde estou?
Minha vida terrena se acabou
E sinto outra existência revelada!
Não sei por que me sinto amargurada...
Sinto que a luz me guia
Para a paz, para um mundo de alegria.
Mas, ó imortalidade
Se na Terra eu te via
Como a aurora divina da verdade,
Não julguei que inda a morte me abriria
Esse cenário deslumbrante
De outros sóis e de outros seres,
E vejo agora
Que não amei bastante,
E não cumpri à risca os meus deveres!
A fagulha de crença
Que eu possuía,
Devia transformar numa fornalha imensa
De fé consoladora,
E incendiar-me para ser luzeiro.
Mas, ó Senhor da paz confortadora,
Eu vi chegar o dia derradeiro
Em minha dor, na máscara de festa,
E a morte me apanhou
Como se apanha uma ave na floresta.
Experimento a grande liberdade!
Todavia, Senhor, ampara-me e protege

141

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Minha triste humildade!
Eu te agradeço a paz que já me deste,
Mas eis que ainda te imploro comovida,
Porque me sinto em fraca segurança;
Deixa que eu guarde ainda nesta vida
Meu escrínio de estrelas da Esperança.

À Juventude
Juventude linda e ardente,
Mocidade querida que eu exorto,
Meu coração de carne, esse está morto,
Mas minha alma que é eterna está presente.
Zelai pelo plantio, ó juventude,
Das flores perfumadas da virtude,
Porque depois dos sonhos terminados
Em nossos ermos e últimos caminhos,
Ai! como nos ferem os espinhos
Das belas rosas rubras dos pecados!

O viajor e a Fé
– “Donde vens, viajor triste e cansado?”
– “Venho da terra estéril da ilusão.”
– “Que trazes?”
– “A miséria do pecado,
De alma ferida e morto o coração.
Ah! quem me dera a bênção da esperança,
Quem me dera consolo à desventura!”

142

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Mas a fé generosa, humilde e mansa,
Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura:
– “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos,
Que esclarece e conforta os sofredores!...
Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos,
Mas com Jesus um espinho tem mil flores!”

O sinal
Quando chegamos do País do Gozo,
Nossa alma sem repouso
Traz o sinal das trevas do pecado.
Nossa alegria é um riso envenenado.
A palavra disfarça o coração
E a nossa dor é desesperação.
Tudo é sombra. A verdade não tem voz.
Muita vez, tudo é queda dentro em nós.
Mas os que vêm do Mundo dos Deveres
Guardam a luz de místicos prazeres.
Não têm palmas da Terra impenitente...
Como tudo, porém, é diferente!...
Sua alegria é um fruto adocicado,
Sua palavra é um livro iluminado,
Sua dor alivia as outras dores.
Trazem o amor de todos os amores,
Revelando na vida transitória
O sinal do Calvário aberto em glória!

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Mas.. Há quem chora sozinho. Doces.. ante os júbilos do povo. Há quem contempla o céu maravilhoso. Há quem clama piedade e passa ao vento. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia.. Nascem canções e flores de mansinho. de novo. cristalinos. Sob a crença imortal.Francisco Cândido Xavier . harmoniosos. Sob claro dossel. lá fora. Dentro da noite.. Em festiva oração. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! 144 . Sem a graça de um pão. a tristeza continua. O irmão abraça o irmão. Ralado de tortura e sofrimento. em vagas de perfume.. A brilhar. Beija o filho a mãezinha idolatrada. Cantando a excelsitude do Natal!. em plena rua.. Une-se o noivo à noiva bem-amada. há corações ao lume E há sempre um bolo. De esperança e de mel. Ao pé da multidão.Parnaso de Além-Túmulo Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos. Em édenes fechados de carinho. A estrela de Belém volta.

Temperado de amor..Francisco Cândido Xavier . quase morta. Natal!.. Há muita crença enferma. Do Rei que se humilhou na manjedoura Para amar e servir.. que aceitaste a luz renovadora. Tu. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. Vem medicar quem geme na calçada!. Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós. Para unir-nos no Amor. Prossegue o Mestre. 145 . Volve o olhar compassivo à senda escura. Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus. Para tornar à luz. Oferece à criança abandonada Um velho cobertor.Parnaso de Além-Túmulo Ah! como é triste a imensa caravana. aflita.. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria. Que só pede um sorriso brando à porta. Vem amparar os filhos da amargura. de viagem.. fraternalmente. Que segue. Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz.. Que não podem sorrir.

Um ninho pobre.Francisco Cândido Xavier .. ao fim da estrada. nem pousada Em nosso coração. E encontra sempre a cruz. 146 . em vão!..Parnaso de Além-Túmulo Em vão buscando um quarto de estalagem. Por não achar socorro.

Compreendi que os abrolhos . Fugi do pesar profundo.Parnaso de Além-Túmulo 147 23 Casimiro Cunha POETA vassourense. Do azul imenso dos céus. abrira os olhos Em meio de luzes puras. Confiado no amor de Deus. os desalentos. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. Se tivesse tido maior cultura. na sua existência terrena. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé. Mal. atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo. mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade. Em célico resplendor. Órfão de pai aos 7 anos. apenas freqüentou escolas primárias. Lamentando os sofrimentos. ao demais espírita confesso. As mágoas. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. porém. Há.Francisco Cândido Xavier . para de todo cegar da outra aos 16. A alma ansiosa da Verdade. Nas radiantes alturas. por acidente. Pobre. uma triste particularidade a assinalar.

resplendentes. Encontram nestas moradas Tão formosas. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor. Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza. Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia. Aqueles que já sofreram No dever nobilitante. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. Provocando maldições.Parnaso de Além-Túmulo Que a Terra me oferecera. O aroma da Caridade Perfumando os corações. Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. A meiga flor da Bondade. 148 .Francisco Cândido Xavier . Que mata toda a alegria.

Penetrarão sua mente. Pois agora na ventura Fruireis consolações. Contemplai-vos nesta vida. ó vivente.Parnaso de Além-Túmulo Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas. Nesta esfera iluminada. O Senhor sempre clemente. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora. pois. Arauto do Onipotente. Que aportais neste momento. Luminosas. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. 149 . sempre lindas. belos. Os reflexos divinos Quais lírios iluminados.Francisco Cândido Xavier . Não vereis o sofrimento Retalhando os corações. Alvos. deificados. Acordai. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura. Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora.

Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei. Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade. pois. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus.Francisco Cândido Xavier . Que renegar eu tentara Como os míseros ateus. O grande Mestre do Amor!” Então. Na tremenda tempestade Das dores e expiações. abençoei A dor que amaldiçoara. O Luzeiro da Bondade. 150 . Só aproveita das cruzes. A nossa alma que erra. E feliz então busquei As bênçãos. Venturoso. O Mestre da Caridade. flores brilhantes.Parnaso de Além-Túmulo Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. Tão longe das grandes luzes. Das amargas provações. Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. a Jesus.

Parnaso de Além-Túmulo Deixando-vos sem conforto. pois. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. ao verdes 151 . Em meio das luzes puras. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal. O coração desolado. os amargores. Visitam os vossos lares Como gênios protetores. Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. Quais centelhas luminosas. Osculam-vos ternamente. O peito dilacerado. E os vossos filhinhos ternos. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus. As frias noites sem luz. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal. Insuflando-vos coragem. De outras rútilas esferas. São mensageiros felizes Nas radiantes alturas.Francisco Cândido Xavier . A alma tristonha e exul. Os prantos. Alegrai-vos.

Ela vos retrucaria: 152 . Tão viçosas. Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente. De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. De pétalas multicores. O que fazem cá no mundo. perfumadas. Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza. Como sorrisos dos Céus. Eles farão despertar As alvoradas formosas. Ascensão Perguntai à flor virente. Se perguntásseis também. Venturosos. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo.Francisco Cândido Xavier . Como fúlgidos clarões. inocentes.Parnaso de Além-Túmulo Quando partem sorridentes.

E no Bem conquistaremos A suprema perfeição.Parnaso de Além-Túmulo . Chorar na escuridão Em dores mergulhado. em ascensão. E ver depois a luz Da aurora de ventura. Marcha ao progresso incessante. A alvorada rutilante Da sublime perfeição. Entre as rosas da Ternura. Para a Luz e para o Bem. Entre os lírios da Bondade. Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura.Francisco Cândido Xavier . Entre lírios. Nessas trilhas luminosas. irmãos terrenos. Segui pois. 153 . Consolando a desventura. Só assim caminharemos Nessa eterna evolução.“Caminhamos na alegria. Espargindo a caridade. entre rosas.” Tudo pois. Caminhai sempre serenos.

Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora. buscar o amor Nas lúcidas alturas. Que ilumina os corações. É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo.Parnaso de Além-Túmulo E após o sofrimento Ter gozo ilimitado. Supremacia da Caridade A fé é a força potente Que desponta na alma crente. Alva estrela resplendente. redentora. No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus. É possuir tesouros De paz. Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões. Reluzente. Que nos eleva até Deus. A caridade é o amor. 154 . A esperança é flor virente. Depois.Francisco Cândido Xavier . de vida e luz. Sorver dentro da treva O fel das amarguras.

155 . pois. Desterrado. Nada empana o seu fulgor.Francisco Cândido Xavier . Sepultado. Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor. peregrino. Seja.Parnaso de Além-Túmulo Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. Na noite das trevas densas. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume. trazendo a luz. Refulgente. abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora. Que irrompe. Versos Vivi na mansão das sombras. A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora.

Onde as luzes recebemos Da Verdade. Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. delicado. Morrendo.Francisco Cândido Xavier . Perfumando a luz do dia. 156 . É que a vida material É a prisão. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo. belo. Alvo. Nascendo.Parnaso de Além-Túmulo Entrei no sepulcro escuro. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações. Onde a alma é encarcerada Na aflição. E a vida da alma é a nossa Liberdade. Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. E dele fugi feliz. Pode existir a bondade Irradiando clarões.

É a flor cheia de aromas. Cheia de viço e frescor. Com mágoa e desolação. Sem saber que o desespero É porta para outra dor. Mas aquela que te foge É dona da tua vida.. É realizada no mundo Da eterna felicidade. Toda a esperança da fé. 157 . Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor.Francisco Cândido Xavier .. sem luz. A palavra que reténs É tua serva querida. É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato.Parnaso de Além-Túmulo E o coração que cultiva A caridade e o amor. Porque não sabem que a morte É a nossa libertação. Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados. Que vive com a caridade.

Sombra e luz Vem a noite. Após a morte descansa Quem luta. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido.Francisco Cândido Xavier . Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. Assim. Verá decerto a bonança. Coração que andas ferido!.Parnaso de Além-Túmulo Quem sofre resignado. volta o dia. A alma encontra na Altura A luz. Vai a dor. depois da amargura Que a vida terrena traz. sem naufragar. a ventura e a paz. Medrando no coração. Cresce o broto. O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores 158 . nasce a flor. Quem tem a flor da humildade. surge a alegria Dourando a manhã do Amor. Volve ao Céu todo piedoso.

de verdade e luz: Sem paradoxo. 159 . Esperando uma outra vida Noutros planos. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas. O gozo é o próprio martírio. Que a alegria da Virtude Faz. da plenitude. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade. desabrochar. linda.Parnaso de Além-Túmulo E somente frias dores No mundo ingrato colheu. A morte é a deusa celeste Da vida. A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor... noutro mundo. É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo.Francisco Cândido Xavier . portanto. Que na noite de amarguras As almas vem despertar.

a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos. Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas.Francisco Cândido Xavier . Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva. seculares. Venerandos. Se for sono. Serás o sósia da Fé. De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. Mas se não for. humilde: – “Mais tarde. filho. Caem copas opulentas. pois não é.” Ao que ela replica. Ciência amiga.Parnaso de Além-Túmulo E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas. 160 . Continuando graciosas A tapetar as estradas. Andarás ao lado meu. dormiremos.

Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor. Mas. 161 . Na selva da vida humana Caem grandes. grite o mundo... Nos dias mais tormentosos. E frontes ébrias de gozos. os humildes da Terra. poderosos: Arcas repletas de ouro.Parnaso de Além-Túmulo Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor. como esta flor: Chore o homem. Flores silvestres da vida. São refletores Da bondade de Jesus. Flores silvestres!. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos...Francisco Cândido Xavier . filho. Palmilha a estrada do amor. Não caem. Sê. Imagem Dos bons e dos pequeninos. Dentro da fé que os conduz. Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade.

Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século. Que tão distantes se vão. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. depois de casada. atento mesmo a sua banalidade. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia.. belas paisagens Cheias de vida e de cor. Dos nossos dias passados. que o médium não podia conhecer. doces carinhos. A ermida branca e suave De ternos. por acidente. Carlota é o nome da esposa do poeta cego.. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos. por assim dizer. Vida de encantos divinos 8 Esta poesia singela e.Parnaso de Além-Túmulo 162 Ao meu caro Quintão 8 Quintão. intimamente pessoal. .Francisco Cândido Xavier . também cegada de uma vista. eu sei da saudade Que te aperta o coração. Vassouras!.

O mestre da Velha Guarda. A tua doce amizade A luz do Consolador. no “O Pais”. forte e feliz.Francisco Cândido Xavier . irmão e mentor.Parnaso de Além-Túmulo Que eu via com os olhos d'alma. Se pelas luzes dos Céus. “Aves implumes” da dor. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor. O raio de claridade Da noite da minha vida. Os artigos do Bezerra De outros tempos. A minha pobre Carlota. Unida. Meus pobres versos – “Singelos”. 163 . Teu coração generoso De amigo. hoje os meus olhos Embebedam-se de luz. A companheira querida. Ah! Quintão. Se pelas sombras da Terra. Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus.

O chamamento sublime Da Vida Espiritual. 164 . É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal. Se buscas o Espiritismo. Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola. É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia. É uma fonte generosa De compreensão compassiva. Que clareia toda a vida E ilumina além da morte. E o Mestre Amado é Jesus. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria.Parnaso de Além-Túmulo Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa.Francisco Cândido Xavier . divina e forte. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança. Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança.

é nossa divisa Oração e Vigilância. A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo.Francisco Cândido Xavier . luta. Há sempre muitos chamados. No Evangelho de Jesus. Verdade é que o coração. Muita vez a água do céu Torna-se em lama. No bem que é bem substância Da crença que diviniza. Que abrace a nossa Doutrina. 165 . O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados. Portanto. o véu. Necessário é discernir A mistura. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão.Parnaso de Além-Túmulo Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. a ganga. e ação. Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo. Penetra numa oficina De esforço. Escolhidos? muito poucos. ao cair.

166 . Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo.Parnaso de Além-Túmulo Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. – Eis meu desejo de irmão.Francisco Cândido Xavier .

Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril.Parnaso de Além-Túmulo 167 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense. A mocidade era um hino De melodias suaves. A infância. um lago tranqüilo Onde começa a existência. À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. acometido de tuberculose pulmonar. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico. hoje denominado Casimiro de Abreu.Francisco Cândido Xavier . Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor. com 21 anos de idade. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. no então município de Barra de São João. sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho. Figura literária das mais típicas do seu tempo. desencarnou aos 18 de outubro de 1860. na Fazenda de Indaiaçu. No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. .

Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma. Constantemente cismando. Na tarde e no amanhecer. manhã ridente. Igual a um canto sublime. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. O pensamento sonhando E o coração a cantar. Do verde da Natureza. Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. A noite toda estrelada Após o doce arrebol. De tristeza e de prazer. De ternura e de saudade. Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. As carícias. 168 .Francisco Cândido Xavier . Numa canção de alvorada. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos. E na paisagem querida. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos.Parnaso de Além-Túmulo O dia.

Amargura e dissabor. Descalço. Quando eu cruzava as campinas. Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. Também há dias dourados De sol e de melodias. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. Recortada de palmeiras. Sem sombras de sofrimento.Francisco Cândido Xavier . As frondes cheias de amora. Onde rugem tempestades. O manto de luz da aurora. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos. se há saudades. Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo. Se há tristezas. As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além.Parnaso de Além-Túmulo Da melodia das fontes. 169 . A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra. com o peito ao vento.

E trovadores alados. Retumba pelas montanhas. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor. Gargantas de ouro a cantar. As galas da Natureza. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor. Um paraíso de amores. Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa. A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores. namorados. Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. Onde há reis que são poetas.Francisco Cândido Xavier . Heróis ternos. Ecoa de Norte a Sul. Jardim de risos e flores Rolando no céu azul.Parnaso de Além-Túmulo Esperanças e alegrias. Perfumando as pradarias 170 . Os sonhos da mocidade. Que se beijam luzidias.

O Sol o prado ridente. De triste e rude carpir. deslumbramentos Da Lua. De áureos sonhos no porvir!. Também há dias dourados De juventude e esplendores. Quem vive num éden desses. Os astros o Sol-nascente. Desabrochando às centenas. Se há noite escura na Terra. De lágrimas e amargores. Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar. Na estrada onde o homem passa. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar...Francisco Cândido Xavier . É sempre risonho e forte. cheias de olor. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas. 171 . Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças. A noite. De aromas.. risos e flores. Sorrindo.Parnaso de Além-Túmulo Com seu hálito de amor.. Oferecendo-lhe graça. O dia todo é alvorada De doces encantamentos. Abarrotada de dores. O prado perfuma os céus!.

Lavando a roupa às braçadas. Moreninha. 172 . Moreninha. Moreninha.Francisco Cândido Xavier . trigueirinha. Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados. Moreninha. Moreninha. Teus lindos pés descalçados. Moreninha. Revejo-te. Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha.Parnaso de Além-Túmulo Lembranças No sacrário das lembranças. Rainha da Natureza. De olhar sedutor e insonte. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros. Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. De negras e longas tranças. Os primorosos cabelos Enfeitados. à tardinha. De miosótis singelos.

A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha. Tão faceira! tão formosa! Moreninha. Enchendo a nave de odores. Quando te achavas sozinha. Sob o luar prateado. De rosas estampadinha. Fazendo-te mais bonita. Moreninha. O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. Desferidos à noitinha. Moreninha. Moreninha.Parnaso de Além-Túmulo Nos fios d’água fresquinha. Nas missas da capelinha. Moreninha.Francisco Cândido Xavier . O vestidinho de chita. Sob as mangueiras copadas. A tua oração ditosa. Fitando a luz do sol-posto. Moreninha. 173 . Moreninha. Nos bandos de namorados. Os teus risos adorados. O nosso idílio encantado.

Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa. Ah! que eu possa hoje olvidar 174 . Moreninha. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever. Daquela risonha aurora Do meu passado viver.. deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. quem me dera Rever-te.Parnaso de Além-Túmulo Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade. Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci. Rainha da Primavera. Recordando Meu Deus. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora. de paixão. Moreninha. Ai! Ai! meu Deus..Francisco Cândido Xavier . doce rainha.

Parnaso de Além-Túmulo Imensidades. Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei. Mirar a luz das estrelas. sofrer. que ventura! Viver. Sentar-me no prado agreste. Que das ruínas. Minha terra. e amar A campina. Minhalma retire as heras. De convites à oração. Beijar as flores singelas.Francisco Cândido Xavier . esferas. o Sol. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores. 175 . o mar. Que esperança. dos escombros. meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. Enchendo as longes devesas. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores. E contemple as primaveras Da vida que já deixei. Meus sonhos encantadores. Ouvir a voz da amplidão! Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar. Na fresca sombra dos vales.

. Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível. Na excelsa Imortalidade. Revendo essa claridade. Verto prantos de saudade A luz da recordação. Que tesouros não exalas.Parnaso de Além-Túmulo Campos verdes. Da existência transcorrida Guardada no coração. Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando.. céus azuis Ser homem e ser criança. E dos cimos desta vida. Da alvorada e do arrebol. Oh! Natureza da Terra. 176 .Francisco Cândido Xavier .

Francisco Cândido Xavier . Para à mesma luz volver. Mocidade radiosa. Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade. Oficina onde a alma presa Forja a luz. E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor. Em que o Espírito se agita Na trama da evolução. forja a grandeza Da sublime perfeição. Sedentos de paz e amor. Múltiplas vidas vivemos.Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. É a luta eterna e bendita. . com 24 anos de idade. o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções. Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos. desencarnou a 6 de julho de 1871. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América.

É a rija bigorna. Pelas fainas do trabalho. A vida é luz. Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes. tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. Cai ao solo fecundando O chão duro que produz. Nas madrugadas de luz. A enxada fazendo o pão. Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. expirando. dos tiranos. o malho. Anjos puríssimos faz. Tudo evolui. O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. Pleno de seiva e verdor. Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. É a dor que através dos anos. Em mensageiros de paz. A flor que. mais galgar. 178 . Em Carraras de eleição.Parnaso de Além-Túmulo É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo. Dos algozes. O fragmento do estrume. terna. esplendor.Francisco Cândido Xavier .

Em reflexos perenais. jamais visto. É Sócrates e a cicuta. às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais. Na Terra. O Universo é o seu altar. De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis. 179 . É Cellini com sua arte. Portentoso. É Anchieta dominando. O grande conquistador. imagens. A ensinar catequizando O selvagem infeliz.Parnaso de Além-Túmulo Deus somente é o seu amor. No sacrifício da cruz. Sintetizando a piedade. É o sofrimento do Cristo. Quem luta. Suas rútilas passagens Deixam fulgores. Ou o sabre de Bonaparte. Oh! bendito quem ensina. Tirânico e lutador. quem ilumina. É a lição da humildade.Francisco Cândido Xavier . E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz. É César trazendo a luta.

Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! 180 . tende esperança. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes. “Tende fé. Nas sendas do progredir. Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida. Sou balança do destino. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou.Francisco Cândido Xavier . O fiel desconhecido. Uma excelsa voz ressoa. Prêmio ou gládio vingador. No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança. Sou morte – origem da vida. “Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade.Parnaso de Além-Túmulo Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia.

Na absoluta eqüidade. ouve-me.Francisco Cândido Xavier . E por trabalhar com Deus.Parnaso de Além-Túmulo Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. Austerlitz e Waterloo. se às vezes Simbolizo a guilhotina. Aos bons. Meu sonho é a evolução. Meu braço – a revolução. Homem. E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. Do porvir sou plenitude. Consolo e alívio aos precitos. Sou águia libertadora Que abre. E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou. sobre as descrenças. 181 . Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. O manto das trevas densas. Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. Meu verbo é a lei da Justiça. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz. Sepultura do presente. E sobre a crença o esplendor. Que trazem os sofredores No jugo da escravidão. sou compensação.

Então.. Ateio fogo aos canhões. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. Flor – oferto-te perfume. implacavelmente. Nova aurora ou nova cruz. Estrela – estendo-te lume. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito.Parnaso de Além-Túmulo Sou prisão ou liberdade. Foi assim que fiz um dia. também se a tirania Arvora-se em lei na Terra. Busquei Danton. E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir. Faço cair as nações Como fiz Roma cair. 182 . Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada. Oásis – dou-te o repouso.Francisco Cândido Xavier . Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver. E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove. Arremesso a minha espada.. Mirabeau.

Agora é reconstruir.Parnaso de Além-Túmulo Diante de tanto horror. Trucidei réus inocentes. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa. 183 . Das cidades fiz ossuários.Francisco Cândido Xavier . Nem passado nem porvir.” Portanto. se tens Por bússola o Bem na vida. Que espedaça os teus heróis. Dos campos Saaras ardentes. Abrir-te-ei meus tesouros. Apaguei a luz do amor. Horrenda. Serei tua doce amante. Que jamais teve presente. Morte. Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta. E mostra biliões de sóis. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor. Olha o Sol de fronte erguida. Espera-me com fervor. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. orgulhosa. E mostra biliões de mundos. homem. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos. fria.

E como faz às cidades. Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação.Parnaso de Além-Túmulo Conduzo seres aos Céus. Revivem na velha Europa. Remodela humanidades No progresso universal. Tebas. 184 . Nínive. Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos. Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas. Tudo em seu seio revive: Esparta.Francisco Cândido Xavier . Em queda descomunal. À luz da realidade.

Que o reconduz à terra estremecida. poeta e jornalista. cresce a treva entre os escombros. A esperança. O viajor errante encontra a estrada. A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia. adiada e emurchecida. Vence o deserto áspero e inclemente. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada. Vai com Jesus! não temas! crê somente! .Francisco Cândido Xavier . a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. Foi grande abolicionista e espírita militante. Refloresce ao clarão de outra alvorada. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida. Nascido na capital de São Paulo. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros. Sem Jesus.

Funcionário público. Estrangulando a voz exausta e rouca. Poeta de emotividade delicada. no Estado de Minas. Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito.Francisco Cândido Xavier . Sobe da Terra pelo espaço eleito. Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras. . encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898. Numa imensa espiral. mercê de um simbolismo inconfundível. soube. marcar sua individualidade literária. dos risos. No turbilhão de todas as esferas!. Sua vida foi toda dores. Sustentando o fulgor da luz da Vida. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. Formando a rede eterna e incompreendida. estranha e louca.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE.. das quimeras. Das ilusões.. Das dores e da lágrima incontida.

um passo adiante. ermos de amores. Corações a sangrar. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos.Francisco Cândido Xavier . No turbilhão dos grandes desgraçados. sozinhos. Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados. sendo na Terra os esquecidos.Parnaso de Além-Túmulo Heróis Esses seres que passam pelas dores. Nos desertos dos áridos caminhos.. Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida. trêmulos. Mundos de amor no claro azul distante. São os heróis das lutas torturantes. Aluviões de peitos sofredores. 187 . Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia.. As geenas do pranto acorrentados. Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos. Revestidos de acúleos acerados. E além dos trilhos de ásperos espinhos. bruxuleante. Prisioneiros da angústia e da quimera. Abandonados. Que são.

As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce.Parnaso de Além-Túmulo Chorai! que a imensidade inteira chora. Qual essa flor fragrante. Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores. A brancura das pétalas abrindo. E como o lodo é o berço vil de flores. Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias 188 . sonhando. Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso. Do monturo pestífero emergindo. como a face Dum querubim angélico sorrindo. aflita. Sobre a lama ascorosa refulgindo. Como se a neve alvíssima a orvalhasse.Francisco Cândido Xavier . Assim também do túmulo asqueroso. Luz que sobre negrumes se avistasse.

Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras. De lindos firmamentos estrelados. Por supormos fato inédito. Longe das dores do passado incerto. dominados De esperanças. ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto.Francisco Cândido Xavier . . e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. Céus distantes que vemos. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto.Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume. Com a alvorada da Paz. anseios e alegrias. A alma livre contempla o novo dia. sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo. radiosas formas claras. deixamo-lo aqui registrado. que no-las remeteu. Desse mundo de sombra e de agonia. Anjos da Paz.

Onde aportam ditosos. Penetra o mundo da imortalidade. “Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras Que caíram exânimes na estrada. Nos sofrimentos purificadores. Sob a noite das grandes amarguras. Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras.Parnaso de Além-Túmulo Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. redimidos. redimida e pura. que a luz acaricia! Alma liberta. Entre canções de luz e liberdade. Sem conhecer a luz de uma alvorada...Francisco Cândido Xavier . Glória à pobre criatura desprezada. Forçando as portas da Beleza Eterna. Vê a aurora depois da noite escura. Glória aos milhões de todas as criaturas. superna. Como heróis dos deveres e das dores! 190 . Numa visão mirífica. Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos. aniquilados.

Como arautos de todas as virtudes. Mas não te esqueças desse mundo avaro. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé. O teu destino esplendoroso e raro. 191 . Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo. Cheio das luzes do porvir eterno. Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno. Nos exílios do pranto e da saudade. Guardai a voz da Terra Prometida. Segue cantando. O escuro abismo. o tormentoso Averno. Sabei vencer entre as vicissitudes. no horizonte claro. a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa.Parnaso de Além-Túmulo Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade.Francisco Cândido Xavier . Sobre as ressurreições da alma gloriosa.

Na paz quase integral e absoluta. Mas lembra-te do orbe da impiedade. Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura 192 . A canção da vitória ali se escuta. ó pobres caminheiros. Céu repleto de vida e de fulgores. compassivos. Que na Terra viveis como estrangeiros. Céu Há um céu para o Espírito que luta No oceano dos prantos salvadores. Da alma livre das penas e das dores. De alma ofegante e coração aflito: Considerai. fitando a imensa altura. Que faz da vida a rede de esplendores.Parnaso de Além-Túmulo Volve os teus olhos ternos. Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade. Que coroa de luz a alma impoluta.Francisco Cândido Xavier . Considerai. Onde venceste a carne soluçando.

presa Às cadeias da carne tenebrosa. até partires Nas asas brancas da Felicidade. Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. Abandona a prisão. trêmula e acesa. Sou teu irmão. É o augusto momento em que a alma. Um mistério divino há nesse instante. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura. No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! 193 . Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera. Sentindo a vida de outra natureza. esperança. Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente.Parnaso de Além-Túmulo No tormento que punge e dilacera. Da Luz branca da Paz. ignota. luminosa. dorida e ansiosa. Beleza sossegada e silenciosa.Francisco Cândido Xavier . Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura.

194 . Se queres Se queres a ventura doce. das Preces e das Cores. mais escassos.Parnaso de Além-Túmulo No silêncio de cada moribundo. Na mais sagrada das hierarquias. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria.Francisco Cândido Xavier . Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio. Dos Perfumes. De outro mundo de luz. E o mistério dos célicos abraços. E os prazeres mais pobres. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores Na vastidão serena dos Espaços. Epopéias de Sons e de Esplendores. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores. Há a promessa de vida em outro mundo. etérea. indefinido. Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas.

Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. fortes e sublimes. Seres escarnecidos. Sofri na Terra junto aos condenados.. dos pecados.Parnaso de Além-Túmulo Viverás na mansão triste. Outro Job pelas chagas da matéria. que redimes Os grandes réus. torturados. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto. do Pranto. Sob os teus pulsos. em vez do réprobo que eu era. Do Soluço. Dos prazeres mundanos esquecido. do Gemido. Que surgem do pretérito de crimes. és tu que resgatas.Francisco Cândido Xavier . 195 . Ó portadora do tormento acerbo. os míseros culpados.. funérea. Bendita a hora em que me pus à espera De ser. Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo. De benditas e eternas claridades. Aferidora da Justiça Extrema. Encarcerado nas sinistras grades. À dor Dor. Os calcetas dos erros.

Todo o fel que tragares.Parnaso de Além-Túmulo O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. 196 . É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres. Cheias de risos e de pedrarias. e. sem luz e sem conforto. Ser-te-ão como trevas. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias. Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. porém. Tive um passado fúlgido de glórias. Serás pobre de luz se não sofreres. Sentindo as dores desse desamparo. fatal e avaro. das dores meritórias. De maravilhas de ouro e de alegrias. noutras sombrias Sendas tristes. todo o pranto. Sem reparar.Francisco Cândido Xavier . entretanto. Sofre Toda a dor que na vida padeceres.

misterioso e santo. Chorando a mesma dor que o mundo chora. Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos. dobra-o. Aves e flores. Exaltai minhas dores de outras eras.Parnaso de Além-Túmulo Pois que a dor é a saúde dos prazeres. Doma o teu coração. Cantem no mundo todas as quimeras. vence-o. O hino da luz. no silêncio. Meus passados.Francisco Cândido Xavier . nas atmosferas. amplidões e mares! Vibrai comigo. recônditos pesares. Foge à revolta. Do Bem encontrarás a eterna aurora. Nos horizontes. vibrai nos ares. Sobre o aroma das novas primaveras. Desdobrai-vos luzeiros estelares.. humilha-o. Abre a tua consciência para as luzes E. Exaltai-vos na vida de minhalma. multidões de seres. E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! 197 .. Exaltação Harmonias do Som. e. no mundo que o mal encheu de cruzes.

A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura.Francisco Cândido Xavier . As primeiras são feitas de amarguras. Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados. Quanto mais sofre. Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. Como um coro dulcíssimo de hosanas. Outras vozes mais doces e mais puras. Sobe da Terra a queixa soluçando. suplicando. muda. As segundas. Silenciosa. de bênçãos soberanas. tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade. Desce dos Céus a voz amiga e mansa. 198 . Remontando aos Espaços constelados.Parnaso de Além-Túmulo Vozes Há sobre os prantos. há sobre as humanas Vozes que se lamentam nas torturas.

Canta e vibra num dia de bonança. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas.. que é pão dos infelizes. Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas. Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas. incertas. 199 . Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. Luminosa e divina.. Glória da Dor.Francisco Cândido Xavier . infinita. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa.Parnaso de Além-Túmulo E ao fim de cada noite tormentosa. Nessa jornada eterna da Esperança. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras. humilde e boa. Que é a existência na prova dolorosa.

Que vos fostes nas lágrimas ligeiras. Ide e pregai.Francisco Cândido Xavier . na noite da amargura. firmamentos. Quanta vez. Presa de sonhos e estremecimentos De esperança. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos. torturados! 200 ... Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura. nas horas derradeiras!.. Ah! meus longínquos arrebatamentos. O evangelho do amor e da esperança. Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura. abafando os meus soluços..Parnaso de Além-Túmulo Horizontes. Amarguras e dores e canseiras. Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia. Sobre a qual vossa vida já descansa. estrelas. Como folhas levadas pelos ventos.

De bens paradisíacos se priva. Redentora de todos os pecados. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa. Manifestando as glórias da Beleza!. 201 . Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia.Parnaso de Além-Túmulo Conduzi a mensagem luminosa Da caridade. Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte. Das consciências libertas da impureza. É a vibração do espírito divino. Em seu labor fecundo e peregrino. a qual para ser boa.Francisco Cândido Xavier . promissora e ativa. que acaricia e que abençoa. A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave. Mão radiosa. lúcida e piedosa. Misericórdia. que traz a verde oliva Da paz.

É ter no Além castelos de ventura. Tudo no mundo passa.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Do homem. E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. Num contínuo combate pavoroso. Prosseguindo na estrada luzidia. De que a morte voraz faz seu consumo. Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças 202 . Ofertando-os ao mundo que te odeia. Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças. Nesse mundo de lutas fratricidas. de orgulhos e de raças. A vida se alimenta de outras vidas. Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. Com a bondade mais pródiga e mais pura. esquece a lúrida maldade. Todo o sonho carnal vaga sem rumo. Entre as aluviões de cinza e fumo. como passas. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias.

Francisco Cândido Xavier . Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores. Surdas batalhas. batalhas e tormentas. 203 . Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre. de alma pura. Também vivi as lágrimas obscuras. Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento. E sustentei. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!.... sob as dores De misérias.Parnaso de Além-Túmulo Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando. que uma vida eterna e grande. Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento. Iguais às vossas. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai. varado de amargores. Além da morte. sob as maiores Desventuras do mundo. de amor. almas sedentas De paz. rudes e incruentas. de luz.. míseras criaturas.

Parnaso de Além-Túmulo Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura.. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!. Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena. Glória aos humildes Ai da. ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura. Que Jesus vos prepara além da morte. 204 . Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura.. Cheios de prantos e de cicatrizes. seres infelizes. ambição do mundo. No bergantim sagrado da Esperança. Levantai vosso olhar sereno e forte.Francisco Cândido Xavier . Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. Pobres da Terra. Não maldigais a ulceração da algema. Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores. E esperai a vitória alta e suprema.

Vós que sois. Guardai-lhe a sacrossanta claridade.Parnaso de Além-Túmulo Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores. 205 . Espalhada nas sendas do Infinito. Não vos importe o espinho ingrato e acerbo.Francisco Cândido Xavier . os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros. Rompe algemas de trevas e granito. sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade. Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores. É a caravana de batalhadores Que. Na palavra e nos atos. Aliviando os seres sofredores. sobre a Terra. no esforço do amor puro e bendito.

a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro. Os júbilos e as penas. desvenda à Terra os planos que descobres. Vida Nem a paz. no Estado de Goiás... Em cenário diverso aprimorando as cenas. filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros. a fama. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. A alegria que exalta e a dor que regenera.. em 17 de janeiro de 1905. o prazer e as ilusões terrenas São lodo. Desencarnou no Distrito Federal. Que além do gelo atroz que te reveste os muros. fumo e cinza ao fundo da cratera.. Continuam.. Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus. nem o fim! A vida. a vida eternamente...Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros EDMUNDO Xavier de Barros. sempre a vida.Francisco Cândido Xavier . porém. Esvaiu-se a vaidade!. . Morte. nos círculos escuros. como capitão da arma de Cavalaria. Há vida. vibrando noutra esfera. nascido em 1861. Foi poeta e desenhista notável.

. Ave triste da noite. Glorificando a luz onde a Verdade mora. estrelas cantam hinos. sobre a fronte do mundo!. Para ver a extensão da noite estranha e densa. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo. Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam.Parnaso de Além-Túmulo Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos. Em derredor da Terra. Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos.. Santificar a dor. à luta que aprimora.. porém.Francisco Cândido Xavier . Sem furtar-se. esquivando-se à aurora. 207 . as lágrimas e os sonhos. sem Deus.. O homem é o semeador dos seus próprios destinos.

Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. 1909. sem deixar de ser profunda. Legou-nos Poemas da Morte. . contudo.. Musa vivacíssima e fulgurante. Distinguiu-se pela altaneza dos temas. Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses. Procurando tomar o tempo vosso. Longe das anedotas indecentes. Sou o Emilio. e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918. e Poesias. Mas que não se entristece e nem se abafa. quanto pela opulência das rimas. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes. 1901. nascido em Curitiba. Recitando epigramas descorteses.Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro. em 1866. distante da garrafa... Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível.Francisco Cândido Xavier . além de Mortalhas. de outras vezes. era sobretudo ativamente humorística.. Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis. versos satíricos postumamente colecionados.

tolerai o meu assunto.. Nas quais. Pois na hora do “salva-se quem pode”.Francisco Cândido Xavier . O elo que nos unia. Que nutre um corpo empanturrado e feio. Muita gente nem fica de ceroulas.Parnaso de Além-Túmulo Aos meus amigos da Terra Amigos. Espero-vos aqui com as minhas festas. porém. o vinho não explode. Nem há cheiro de carnes ou cebolas.. Como a quase saudade do presunto. Apesar do meu cérebro bestunto. 209 . Evitai as comidas indigestas. que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio. (Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai. conservei-o.

Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis. Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!. da perfeição. Fluminense. da liberdade. Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade... as auroras. que a verdade . que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. em 1875 – depois de uma existência tormentosa. Hinos de amor.Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas. Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor. desencarnou com 34 anos. Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável.Francisco Cândido Xavier . as noites.

radiosas.. Descansei sobre as ilhas de repouso. Sendas de sonho e báratros escuros. 211 . Empunhando o saltério da esperança. desferindo Harmonias de amor e claridades.Parnaso de Além-Túmulo Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível.Francisco Cândido Xavier . Habitei os palácios encantados. distantes. Irmãos. Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro. Em lindos arquipélagos distantes. Que transmudas em rosas os espinhos. Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas.. Em retiros de amor calmo e sereno. Visões de sóis eternos. E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso... Vastros portentosos. confundidas Entre estrelas igníferas. Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível. redivivo!. E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência. Pude transpor abismos de ouro e rosas. Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas.

nesses orbes lúcidos. Lá. Somente o amor é a vibração de tudo! Vi céus por sobre céus inumeráveis. Mundos de dor e mundos de alegria. Amando-se da vida os bens mais nobres. O amor.Francisco Cândido Xavier . Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz. jubilosa. Se o mundo abafa em nós toda a alegria.. Ah! Morte!. Um detalhe minúsculo. Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros. Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. Roubando-nos afetos e consolos. Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra. 212 . um fragmento Da Criação infinita e resplendente. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor. A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca.. nutre e dá vida.Parnaso de Além-Túmulo Onde o solo é formado de ouro e neve. As nossas esperanças mais profundas. A morte corrobora as nossas crenças. divinos. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. Quando a esperamos tristes e abatidos. somente o amor.

Que te bendiga o espírito abatido. Sobre a fronte de todos quantos sofrem. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. Onde as almas ditosas se engrandecem.Francisco Cândido Xavier . mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! 213 . Pelos beijos dos seres bem-amados. Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. É apenas um degrau na imensidade. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade. Ela é somente o exílio temporário. dos escravos Das aflições. Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. Como um canto sublime de esperança.Parnaso de Além-Túmulo E aponta-nos o céu. para a vida e para o amor! Que representa a Terra. Morte! que te abençoem sofredores. Outras almas guiando em labirintos Para a luz. Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne. Ansiando mais luz. Pela visão dos céus resplandecentes. das dores. a imensidade. Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda.

orando ao Deus de amor: Revia em pensamento . o mar. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral. nascido em 1850 e desencarnado em 1923.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal. Padre João meditava. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis. poeta português. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. nas mesmas diretrizes. Um puro coração. pela sua veia combativa e satírica. é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras. a terra. Notável. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. A noite era de sonho e névoa luminosa. mas o fulgor das idéias. vemos.Francisco Cândido Xavier . O meigo padre João. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa... por sua produção de agora. sobretudo. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel.

então. Imóvel dominando o âmbito vazio. desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. de pau. Que fazia descer o amor às multidões.Parnaso de Além-Túmulo Uma luz singular nas dobras do passado. o imáculo Jesus. Notando a diferença enorme. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. Aos pecadores dando amigas esperanças. Era um vulto sublime. Afastado da luz. inerte e frio. De paz e de perdão. Inflamado de fé. Conhecendo no padre o gêmeo de Caim. Era o meigo Pastor irradiando a luz. Oferecendo amor em flores de bondade. extraordinária. Era o Anjo do Bem. Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível.Francisco Cândido Xavier . Por anos inclementes Em séculos sem fim. O sacerdote. imaculado. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. Daquela igreja fria. Iluminando o mundo. a ermida solitária. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. Feita de amor e luz. Comparou. Iluminando a vida. meditando. 215 . E viu da sua igreja o erro tão profundo. excelso. fugindo aos irmãos seus. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. Da igreja de Jesus. O farol da verdade ao humano coração.

Penetrou soluçando a ermida então deserta. Despiu-se do negrume espesso da batina. a chorar. Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado. túrbida e falaz. A luz radiosa e bela. Teve medo e receio.Parnaso de Além-Túmulo Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus. de amor. E fugindo a correr da porta semi-aberta.. Torturas a verdade. endeusas a matéria. As árvores. à natureza em flor. matando a paz. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava. os mares. Sentiu seu coração em dores lacerado. de eterna perfeição. a floresta.. o céu estrelejado. Crestando a fé. Fitou extasiado a natureza em festa. Encaminhou-se ao campo. E como se o animasse uma chama divina. a flor. E fitando. 216 . Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. roubando a luz. E no sonho da luz fulgente do passado. Com o coração sangrando em úlceras de dor.Francisco Cândido Xavier . E transformas o padre em trapo de miséria. E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho. o espírito gelado.

. Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. Na piedade. Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. no amor.. Caridade Caía a noite em paz. nas preces da harmonia!. Pelas planícies ledas. Submergido em pranto. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus. Prefiro a liberdade e a vida no futuro. Ruínas de maldade estúltica a cair. Era o festim do amor. Horas quedas. feliz. Horas de solidão. Pairava na amplidão estranho resplendor. exótica e execrável.Francisco Cândido Xavier . ó torreão de séculos trevosos. Desprezo-te. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. E eu quero abandonar a noite da prisão. desde a flor às luzes estelares. 217 . Eu vejo-o. Crepúsculo. No firmamento em luz. Guiando-me o farol da fúlgida Razão.Parnaso de Além-Túmulo Num farrapo de sombra.

Exalando. Reunidas no lar caridoso e terno. sangrentos nos trabalhos. em busca dos seus ninhos! Repousavam. em rimas soberanas. tardígradas do inverno.Parnaso de Além-Túmulo A asa ruflando inquieta.. Era bem a visão da mágoa e da invernia. Canções de oiro e de sol das almas virginais. Como poça de sangue. em flor. a sorrir. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. 218 . Que vibrasse. Como braços em cruz. mudas. De quem ama a existência plácida da aldeia. Elevavam-se ao céu silenciosas. Almas puras. o aroma dos trigais. Vivendo a vida doce. Pipilavam febris no beiral dos telhados. Sinistramente...Francisco Cândido Xavier . os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa. os colibris doirados. despidas dos seus galhos. que nascem das choupanas. a imensidão do espaço. cortando. de cândida frescura. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando. Caía a noite em paz.. tremendo. Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. de exaltações. imaculada e pura. de prantos!. Sentinelas da dor nas regiões desnudas. por entre os negros mantos De espessa escuridão. relicários da essência Da verdade e do amor. Andorinhas gentis. Os poemas de luz. As árvores senhoris. Almas feitas de luar. horrendamente informe. Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. do amor e da inocência.

Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes.Parnaso de Além-Túmulo E eu pedia ao Criador da imensidade etérea. sentia a dor dos que não têm carinhos. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes. que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz. que anda nas meretrizes. à lide que os consome. Que derruba os casais e come o pão das searas.. Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria. anhos de mansuetudes. Suas faces e a fronte. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar. Era como a piedade iluminando o mundo. O castelo real e a cabana do pobre. Que se vão de longada ao longo dos caminhos. alvas como alabastros. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. 219 . Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras. Onde sobrasse a angústia.Francisco Cândido Xavier . esplêndido e profundo. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. Que levasse o amor onde faltasse o lar. Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão.. onde andasse o penar. Que palpita nos reis. A dor que dobra e vence as multidões ignaras. Que vão cedo ao trabalho. Em mim. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. Filhos da obediência. Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo.

Emitia esplendor sua túnica de arminhos. Para mim. não existe a classe. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem. em vez do sono à sesta. balsamizando as dores. chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados.. adornando as campinas. Desço das vastidões dentro das horas mudas.. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. Sou o farol da legião dos pobres sofredores. Atravesso o oceano e atravesso os países. Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. – “Meu nome é Caridade. As rosas festivais das frescas alamedas. e com ansiedade levo-a A quem. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa. E quando a tarde chega. Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes. Para levar a luz. Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas. Levo sol.Parnaso de Além-Túmulo Pareciam do alvor das estrias dos astros. nas aflições. Ando por toda a terra. Quem és tu? – murmurei.Francisco Cândido Xavier . a seita e as gentes. que ampara a dor e vela os sonhos darte.. engendra a paz das searas. 220 . Abranjo em meu amor a alma dos continentes. pão e luz. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro. que. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!. Amo o trabalhador. Como pairo a sorrir por cima de um monturo.. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras.

o mesmo charco imundo. consolando a miséria. como idolatro as crianças. amo o bem que consola. Amo o goivo e o lilás. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos. que. Lodo fenomenal de descrença e malícia. e as aves da floresta. nem recebo homenagens. Guardo comigo a dor. alma de fariseus. creches e orfanatos. Subo da Terra ao Céu. Visito os hospitais.Parnaso de Além-Túmulo Que abarrotam de olor as primaveras ledas. Que não te quer. como amo o luto e a festa. Idolatro os senis. Ao pé do altar da fé. Sem toques de clarins e sem espalhafatos. Minha missão é amar. entro nos palacetes. Amo o templo e amo a escola. É por isso. 221 . como osculo os heróis. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço. no sopé dos patíbulos.Francisco Cândido Xavier . comovida. nas ermidas. Não conheço horizontes. E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. Nunca a lisonja fiz. Oro em qualquer lugar. nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. A Humanidade é a mesma. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. Jamais pude escolher entre Roma e Paris. Amo a fera bravia. Vou ao cárcere escuro. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes.” “Caridade! – tornei. corro do brejo aos sóis. nos montes. Amo o bem que alivia. Confortando o amargor. talvez. Não conheço nações. Não me regem as leis que regem um país. Vivo fora do plano imundo da matéria. as mágoas e esperanças. Beijo um cadáver nu.

honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. De nada serve o livro a um povo sempre cego. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica. há canhões na Alemanha. Que esta plebe é de cães. pague um tributo novo.. Ao raiar a manhã. Onde existe o grilhão dentro de escuras celas. transudando a miséria. cheias de sentinelas. E se a fome vier.Parnaso de Além-Túmulo Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. espalhe-se ignorância. Celas que são prisões. Para que se não veja a ruína e os cemitérios. a forca e a guilhotina. Rindo na podridão. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. E se alguém reclamar. Fez a bomba explosiva. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios.Francisco Cândido Xavier . A sociedade vil é quase a mesma Impéria. asfixie-se a infância. flores sobre os lameiros. que esta plebe é submissa. que reclamar. jogue-se-lhe a metralha. Propague-se impiedade. Ele fez podridões de imundos cemitérios. morre o amor. Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. Morre o bem. ponha-se a honra ao prego. Se o canhão não chegar. as batinas e a estola. E se o povo chorar. que se açoite esse povo! Alguém. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. toque-se para a missa. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. causa nojo a política. Onde puseste a luz. há mosteiros na Espanha. onde fundaste a escola. Girândolas ao ar. 222 . Onde criaste o ideal e a inspiração divina. O homem pôs o missal. aromas os fedores. Mate-se a mocidade.

nem más literaturas. a esta nada escapa.“Antes de tudo. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre 223 . Caridade? o mundo é sempre assim. Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. Se Calígula quis endeusar um cavalo. o Papa o oiro vil. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo. Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma. corre o fecho às janelas. morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade. Somente lhe interessa a sorte das criaturas. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. Raciocina. Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . eu não sei. Jesus amava o pobre. Se viveram maus reis. Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz. Não entende Voltaire. se Goethe ou Shakespeare. Para o seu labutar. Nunca soube notar. entre más soberanas.Parnaso de Além-Túmulo E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. amigo. Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. Eu só quero saber onde há miséria e luto. toma vestes singelas.Francisco Cândido Xavier . Para fazer o bem. Almoça e ceia o luar. Não reconhece a lei que emana dos monarcas. o Papa a Rotschild! Que queres. não discuto. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet. Sabe somente ver as dores infinitas. nem sabe discernir Qual deles foi maior.

Sabe onde falta sol. Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas. corre por toda a Europa.Parnaso de Além-Túmulo De fulgentes milhões para humilhar o pobre. Foge da discussão. nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. os palácios e os ninhos! 224 . não lhe estorva a política. Os mendigos e os reis. Não vai à Terra Santa em peregrinações. Para buscar a dor da orfandade que chora. não está nas pelejas. mágoas. onde escassa é a saúde.Francisco Cândido Xavier . Não conhece opinião. Nunca reza em latim. Não lhe pode abalar a opinião da crítica. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões. misérias. Onde se mete a flor excelsa da virtude. E não vai desfolhar misérias nos jornais. desde o nascer da aurora. Nem problemas sociais. jamais amaldiçoa. Jamais focalizou questões eleitorais. Corre. Entra no lupanar. água e calor nos ninhos. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. Sopa para matar a fome dos famintos. Olha sem se anojar. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. nunca fez procissões. sem se cansar. jamais anda de sege. Passa no mundo a pé. dor. Luz para desfazer a baixeza de instintos. Sabe amar e querer flores e passarinhos. Sabe somente que ama e também que perdoa. Jamais toma lugar para fazer sermões. Que falta o amor e o pão. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie. nem divisa a ralé. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. Nunca viu povoléus. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos.

Chama-me o sol redor. Poeta amigo. Estou com o lavrador na tarefa das searas. Sabe o bem.. para guiar felizes. Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda. Vai a todo lugar. Minha missão é amar os vermes e os países!.Parnaso de Além-Túmulo Tem abnegação. Desce ao antro sem paz.” Muito tempo passara e a noite inda era escura... Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. Procurando os pardais. Vou subir a colinas e descer aos valados. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. Sabe rasgar o peito. recôndito e diverso.Francisco Cândido Xavier . Noite de neve atroz. Amparar o chacal. tomo o arado e a charrua. as aves e os reptis. noite de desventura! 225 . A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade. Que ouvem as tentações do beiral das estradas. Existe no Universo. chama-me a orfandade. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua. Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda. Necessário é que eu siga em minhas romarias.. melros e cotovias. Procuro a pomba e a fera. Como do seu farnel. É preciso que eu vá visitar os covis. donde foge a alegria. Para guiar os maus. Não existe num mundo. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor. Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia.

que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro. Pobrezitos sem pão. Almas na escuridão da noite sem aurora. Harmonias sutis. e aos olhos da minhalma. há aroma e luz na beira dos caminhos. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!.Francisco Cândido Xavier . Lírios no lamaçal das grandes desventuras.Parnaso de Além-Túmulo Foi-se a linda visão.) Não sabeis. Cantos de rouxinóis. não sabeis. Anjos açucenais que a miséria devora. a Terra. urnas de lama e pus. parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas.. árvores. Repartindo o seu pão de carícias divinas. Existências em flor. filhas que adoro tanto. fustigadas de pranto. No entanto. Corpos de podridão. O inverno e o pesar. Calcular a extensão de tantas amarguras.. dissipando as neblinas... esquálidos e nus. fruto e flor. 226 . Como as aves gracis em vôos nos trigais. O mundo famulento.

Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. Espargindo dos céus as glicínias formosas. Que faz da Caridade a flama da Virtude. Paira o clarão do amor.Francisco Cândido Xavier . E se fez a bondade envolta de esperanças. Que liga o verme ao mar.. que une a pomba às rosas. Às regiões da glória intérmina da luz. filhas minhas. Fez também o soluço e a lágrima dorida. as aves e os chacais. porém.Parnaso de Além-Túmulo A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins. misérrimas. Sobre o escuro. A lágrima da dor é estrela que transluz. Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis. Criou a dor clareando a escuridão da vida. mesquinhas. das lepras mal cheirosas. Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. Vinde comigo ver a dor dos desgraçados 227 . comigo. edênico e sem par. Que irmana a fera e a rosa. Que o grão de areia une ao roble secular. o amor que dá saúde. Que sublime conduz aos planos celestiais.. Há risos e esplendor e há prantos. vinde alegres. Filhas que Deus me deu. O amor que fraterniza.

Perpassam colibris. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas. Em que há músicas no ar e olores nas estradas. Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos. Aproveitemos. por este mundo afora. chilreia a passarada. pois.Parnaso de Além-Túmulo Que chorando se vão. Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós. 228 . Nutrindo o coração na fonte da esperança. à treva a luz da aurora. também. O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário. a Caridade e a Crença. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos.Francisco Cândido Xavier . sem pátria e sem abrigo. com os corpos cancerados. Espalhemos a Fé. Cheios de sânie e pus. E acharemos no fim da romaria imensa. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. esta hora calma e mansa. Conduzamos conosco a luz da Caridade. Dando consolo à dor. Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança.

Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina. silencioso. Castelãs juvenis. turbas de gozadores 229 . na cruz. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou. Viram-no seminu. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. poetas e trovadores. Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. partindo como tantos.Parnaso de Além-Túmulo Vinte séculos de dor. ensangüentado. Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. humilde e silencioso. Os lendários heróis no dorso dos corcéis. e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes. Artistas e histriões. Açoitado. valentes brasonados. Dois mil anos de dor. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. Cavalheiros gentis. de pranto e de agonia. traído e calmo.Francisco Cândido Xavier . Represam-se no olhar do Filho de Maria. Caravanas de reis nos tronos passageiros.

Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição. Desolação e horror. nos grandes desgraçados. Hoje mais nada são que míseros mendigos. Lobos. Mas os soberbos reis e césares antigos. depois. agora transformados Nos párias do amargor. na capa dos cristãos. sublime e silencioso. a guerra e a fome. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. O sacrifício e a dor do eterno visionário. o anjo da virtude. sim. Contemplaram Jesus no cume da colina. Os nobres doutro tempo. 230 . Estende o seu perdão cheio de mansuetude. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade. chacais. mataram-se os irmãos. O Mestre prosseguiu. E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. o pranto.Parnaso de Além-Túmulo Inda vieram. tigres. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso.Francisco Cândido Xavier . Agora vêem. no topo do Calvário. as lutas e a chacina. Multiplicando a guerra.

torcei as leis. Ensinai catecismo em todas as escolas. Afogai na descrença a pobre Humanidade.Parnaso de Além-Túmulo E do cimo da cruz. esplêndida. viceja. operosa e triunfante. De saber a verdade acerca do Destino. É preciso instalar a Inquisição de novo. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé. Cortai a asa de luz de toda liberdade.Francisco Cândido Xavier . Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. 231 . Ponde sobre a esperança o inferno que flameja. Proclamai. calmo e silencioso. Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras. Formai sob a batina as gerações vindoiras. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa. Contendo a aspiração indômita do povo. Comei Jesus no pão refogado em falerno. trazei Loiolas. proclamai o dogma divino! Fazei bulas. A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador. Consola a multidão com o seu olhar piedoso.

Transformai todo templo em balcão de bentinhos. Fazei autos-de-fé. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. em verdade. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente. Porque. Anatematizai todas as heresias. Aprovai. E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu. Lede com desassombro o intrépido Barônio. Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. Com representações em todos os caminhos. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. Dentro das presunções da infalibilidade. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. vendei o ensino e a prece. aplaudi as grandes simonias. Interpretai Jesus no prisma do interesse. Incensai Harpagões. Retende na memória os erros do passado. Só a Igreja possui a santa autoridade. Entre encomendações. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados.Francisco Cândido Xavier . discursos. Traficai com o altar. Esquecei sobre a lama os pobres indefesos.Parnaso de Além-Túmulo Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. absolvei magnatas. sermonatas. Lembrai a Inquisição e a história do papado. Ponde em cada recanto um novo Torquemada. 232 .

.. ouvi minha voz impávida e serena!. Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. tomando a vossa pena. Fazendo-vos ouvir. Gritai que o mundo está perverso e corrompido. irmão. Incentivai com ardor os rubros fanatismos. Mas. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. enfim.. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas. e a bênção de Maria. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude. a luta das idéias. Se puderdes. Da mentira que. não alcança a virtude. carabinas. A abençoar fuzis. consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. 233 . Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos. A discórdia infundi! Nutri regionalismos. metralhas.Parnaso de Além-Túmulo Sobre o luxo gritai no púlpito florido.Francisco Cândido Xavier .. Que traz. porém. A luta da verdade. Clareando o porvir ignoto dos destinos. É feita nos clarões das grandes epopéias. arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus.

Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus. arrecadando esmolas. da tiara. pois. Deixai a insensatez dos clérigos. “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas. papado. em tinta espessa e forte. É o ator da paixão. ao sol que tudo aclara. Olvidai convenções. Que a Igreja representa. anual. Acostumai-vos. Imóvel. o explorador santíssimo da farsa. É próprio das paixões e próprio da inventiva. a vítima e comparsa Do Papa. Filha da estupidez bisonha e condenável. congregações. Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco. que se repete.. um pálido abantesma. 234 . Paródia de uma dor sublime e incomparável. O pobre Senhor-Morto. Que a Verdade jamais se vende no mercado.. Nunca vos entregueis a tanto despautério. Como as grandes funções do entrudo e do confete.Francisco Cândido Xavier . feito de gesso e lacas. Jamais enxovalheis o vosso ministério. Representa-se a peça antiga da quaresma. Num cenário infantil. Talhado de encomenda. sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas.Parnaso de Além-Túmulo Criar uma ficção e excomungar de oitiva.

Fora das concepções altíssimas da Igreja. Precisais cultivar o nosso dogma eterno. Wesley. porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores. Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos. De eterna submissão ao Papa que é infalível. 235 .Parnaso de Além-Túmulo Com latim. seus embaixadores. o espírito moderno. Calvino. sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme. Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar. Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. bandeiras e sacolas. obeso. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes. Sentinelas da fé.Francisco Cândido Xavier . A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno. cantochãos. Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido. Coquelin tonsurado. Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé. A função quaresmal prossegue. criaturas inferiores Dirigem. certamente. Comte. Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. Das chamas infernais. desconforme.

Francisco Cândido Xavier . Tem até corrompido os padres e os monarcas. Vivei. E abominando o Cristo. segundo o gesto em uso. 236 . Sede firmes na fé. Procurou lestamente o calmo presbitério. contentes na virtude. em santa penitência. E depois de exercer seu santo ministério. O dogma é uma lei benigna e sublime. a toda a Humanidade. Satanás que os fulmine A falta de fervor tem feito heresiarcas. a humilde singeleza. É preciso antepor.Parnaso de Além-Túmulo Toda ordem de Roma é boa e indiscutível. Reformistas quaisquer?. o Senhor que ele esquece. Sentimentos de fé e catolicidade. As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude. Necessário se faz prender quem raciocine. a Luz... rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. enformá-lo. A Humanidade está sob o império do demo. Que é o traço de união do arcano da Trindade. é cometer um crime. Obedecei à Igreja em sua Santidade. Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência. caros irmãos. a Liberdade. Terminou a oração. Resmungando um latim exótico e confuso. Amando a caridade. Com um aceno abençoou. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. Sofismá-lo.

Licores. Sem artigos de fé. ó meus irmãos do altar e da batina. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário. Da doutrina cristã. ambrosias. Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário. Em paz sacramental. Porque a verdade pura. Por isso. cavando um negro abismo.. sem bispo e Vaticano. confeitos. Para tanta extorsão impune e criminosa. Propagando a cegueira. 237 . a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência. Esquecido Jesus. Não se lembrou que houvera o bom samaritano. o lídimo Evangelho.Francisco Cândido Xavier . inadequado e velho. moscatéis. Nos pântanos letais e lúgubres de Roma. Opíparo jantar regado a vinhos caros. Terminada que foi a sacra pantomima.. Dos atos a lição.Parnaso de Além-Túmulo Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. Jesus apenas fora a máscara piedosa. E após se abastecer pantagruelicamente. Era um livro escurril. a guerra e o fanatismo. recheios. doces raros. da caridade o templo. A Igreja que foi pura e que já foi divina. Com o seu rubro sermão. olvidou-lhe a doutrina. Sereno. Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo. Morre sem remissão de horrível carcinoma. adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! 238 .

falecendo em 1937.Francisco Cândido Xavier . . Ó terra de São Pedro. Graças a Deus. E paraíso para as nossas dores. ansioso. Escreveu Ementário. Trabalha e espera sob os céus risonhos. Com que angústias te vi. Poemas Líricos. Era a morte. banhado em pranto. Que a morte é vida para os nossos sonhos. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas. que amo tanto. as mãos tranqüilas. nascido na cidade de São Pedro.. cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem. Chorei de gratidão ao pressenti-las.Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA. A São Pedro de Piracicaba Último instante. a crença era meu pajem E buscando-lhe. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas. em março de 1881.. Nos supremos e tristes estertores!. Conduzindo-me à luz doutra paisagem...

em 1888... tendo publicado Apoteoses. A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho.Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO. desgraçado e desditoso.Francisco Cândido Xavier . Poeta de grande relevo emocional. jubiloso. seu último livro. e suicidou-se no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930. deixou firmada sua personalidade literária. chorando. Regou. Soneto Sou. Lâmpada Velada e Fonte da Mata. a terra que lavrara. rude e bisonho. Não reparou o labor triste e enfadonho. Esperou confiante o sol da seara. Passados os trabalhos e os tormentos. – Sonho lindo que a nada se compara. . o lavrador que fez. Numa grande esperança insatisfeita. Gênese. Quando aguardava a messe. Perdeu tudo no instante da colheita. E de alma ingênua e coração risonho. Eis que aparecem os arrasamentos. nasceu na Vila de Boquim. E o pobre.

Renovar minhas síncopes de dor. É perpetrar amargas redundâncias.. Senhor.Parnaso de Além-Túmulo Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado.. Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos. minhas ânsias.Francisco Cândido Xavier . Como fizera de minha arte um hino. 241 . incorpórea. Mas só colhi os frutos maus da Terra. E o triste engano da celebridade. serra em serra. Tudo outrora. Do que chamamos – a felicidade. Redizer minhas mágoas. Buscando a imagem fúlgida. E fui de vale em vale. As promessas pueris da falsa glória. Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino. Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado. Do sofrimento fiz o apostolado. Após a derrocada Das construções de um sonho superior. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia.

Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença.. de fama e glória. E a desgraça suprema o amortalhou. E a carne subjugou-me inteiramente.Francisco Cândido Xavier . Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza. Tudo em volta de mim era a cegueira.... O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas. que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! 242 . Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. de dor e de miséria. Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira. Tudo sofri. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado. no passado. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória Da crença e da bondade.Parnaso de Além-Túmulo Na minha pobre vida abandonada. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições. Fez-me fraco e descrente. Que torturou a minha vida inteira.

em Ti me anime.. meu Deus. o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!.Parnaso de Além-Túmulo Relevaste.. Cheio de amaridúlcida ansiedade. Que a confiança. A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção.Francisco Cândido Xavier .. pois.. 243 . Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição.

Francisco Cândido Xavier . amena. Redivivo Divina lira. ainda. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África. “minado pela nostalgia”. Celebra. Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia . de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer.. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. onde veio a falecer em 1793. Musa que inspira Meu coração A relembrar.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto. A Pátria linda Que faz vibrar Todo o meu ser. A paz sublime. A luz sem par. Revela. A vida plena.. Volta.

Parnaso de Além-Túmulo De amor cristão. Não mais procures. O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção.Francisco Cândido Xavier . 245 . Enfraquecer-te Nas lutas mil.. Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz. Sepulcro além. Ditosa e crente. Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo. Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz. Chorando alhures.. Canta somente. Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem. Lira divina. A nova era Do meu Brasil.

onde desencarnou. Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen. . enfim.. Estado de São Paulo. internou-se num hospital. na cidade de Borebi. Anjo da redenção! bendito sejas!. da cruz de feridas que me deste.Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902. Onde.. escondendo as flores com que afagas. em 1930. Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas E algemaste-me a lenho estranho e duro. em silêncio. de alma robusta: – Deus te abençoe.. Libertaste meu ser à Luz Celeste. o choro e as pragas.Francisco Cândido Xavier . sublime e fúlgido. Ouviste-me. ó Dor piedosa e justa. em 16 de fevereiro de 1947. Nume solar pairando no monturo. flamejas! E agora brado.. dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui. e onde dirigia um Centro Espírita. Terno. Doce e invisível no caminho escuro!. Mas.

Francisco Cândido Xavier . É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. A perscrutar Qual a verdade. afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. Só a ilusão Duma ventura. Portugal. em 1830. Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse. Qual o tesouro O mais profundo. As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade. e desencarnado em 1896. No coração Da criatura. A procurar. Nestas poesias palpita. então. E vi. E vi senhores . a suavidade e o ritmo da sua lira.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines. de modo inconfundível.

. Perante a mão Da fria dor.Francisco Cândido Xavier . Ricos solares Dos protegidos. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo. Depois. Os potentados Com seus valores Bem se julgavam Onipotentes. Heróis valentes Cá nesta vida.. Sempre a abater Os desgraçados.Parnaso de Além-Túmulo Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder. E ainda aí Não pude achar 248 . porém. Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão. Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos. Busquei os lares.

Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. Que.Parnaso de Além-Túmulo O que eu ali Fui procurar. Onde se aninha E se amesquinha A multidão 249 . Jovens e belas. Fanadas flores. Alvas estrelas De formosura. belos. Pobres donzelas. miseráveis Párias da vida. Mágoa insanável.. Luz sem fulgores..Francisco Cândido Xavier . Somente encontram Dores que afrontam. supremo. Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados. Insuperável. Deixam o teto Do seu afeto Maior. Das diversões. Eu vi mulheres Nos seus prazeres.

À meia luz.Francisco Cândido Xavier . A maior dor. É o que produz Todo o amargor. sorrir. No entanto agora Flores perdidas. Almas impuras. Belas outrora. Ao som da festa. Julgando crer Que está a ver O paraíso.Parnaso de Além-Túmulo Que busca rir. Desiludidas! 250 . Aniquiladas. Só pensamentos Das impurezas. Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. Mas este riso. E esmagadas. A ver se esquece O que padece. Gozar. Ensandecidas As criaturas Outrora puras. Só sentimentos Que trazem presas.

A iniqüidade. então. De uma alegria Jamais sentida. Tristonho assim.Francisco Cândido Xavier . Notas atrozes. enfim. As pedrarias Tão luminosas. Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. E tudo. Eram sombrias. Dissimulado. Eram trevosas. Toda a maldade Da hipocrisia.Parnaso de Além-Túmulo Nesse recinto Eu vi. Pois só cobriam Míseros trapos. Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores. Desconhecida Naquele meio. A grosseria. Pobres farrapos De almas perjuras 251 . A traição.

Só conheci E encontrei.Parnaso de Além-Túmulo Ao seu Criador. Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita. Só contemplei O mal que vi. Fracas criaturas Baldas de amor. Desanimado. gemem.Francisco Cândido Xavier .” Mas uma voz Do azul do Céu. condoído. Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. Dando-lhe a calma Que necessita. Pronta e veloz. Me respondeu: “Filho bendito 252 . E. Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram. Desiludido.

253 . O grão tesouro. A Terra linda E então verás. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas. ainda. Nada se perde. O sumo bem. Está na luta. E no Infinito Tudo o que fiz. Contempla.Francisco Cândido Xavier . Nos prantos seus. Donde provém A grande paz. Vi transformadas Todas as cenas.Parnaso de Além-Túmulo Do meu amor. Sou teu Senhor. Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso. Mais fino ouro Dos filhos meus. Desenganadas Nas perdições. Em todos os seres. Assim tornando O ser feliz.

Parnaso de Além-Túmulo Homens. Lágrimas belas. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei. Em profusão. Nas esperanças. Por entre flores. Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. mulheres. Sorri. A amarga dor. Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris. Por entre a luz. Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! 254 . crianças. Jovens. Nas grandes penas. Meigas. Brotar a flux No coração De cada ser. Gotas singelas.Francisco Cândido Xavier . serenas. chorei.

Quando voltavam Do seu exílio. Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo. Reconhecendo Que aqui nos Céus. então.Francisco Cândido Xavier . Gemas brilhantes. Primor de encanto Do amor de Deus. E vi. Que os coroavam Com gemas finas.Parnaso de Além-Túmulo Depois. Vale profundo De mágoa e dor. Jóias divinas Do escrínio santo. 255 . Lágrimas lindas São transformadas. Em profusão. Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus. Fui então vendo.

256 . Sejam benditas.Francisco Cândido Xavier . Tranqüilidade. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. Bendito o Pai. fulgentes E deslumbrantes. As pequenitas Gotas de pranto. Com a lágrima bela. O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus. Ricas. Que nem Ofir Pôde possuir. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura. Felicidade Ao peregrino. Que entre os seres do Além é sempre igual.Parnaso de Além-Túmulo Alvinitentes. Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora.

que se antevê. a Luz e a Vida. na provação. Venturosa região do espaço Além. Vai ali encontrar Consolação. Onde impera a bondade do Senhor! Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul. Para se achar o Amor. Doce Mansão de Paz. País dos Céus. Depois de bem sofrer aí a dor. Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz. aonde o pecador. Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!. Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer.Parnaso de Além-Túmulo No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor. imaterial. Pelo poder da Fé. Mansão de claridade e pulcritude 257 .Francisco Cândido Xavier .. na Terra apetecida.. basta crer Na Paz do Céu. Onde há trégua à tristeza e ao padecer. A morte é um sono doce.

Imenso e lindo. Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. Iluminadas Do Criador.Parnaso de Além-Túmulo Onde os bons. Porém. Estremecido. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! Dentro das lutas.Francisco Cândido Xavier . Nessas regiões Onde há mansões Purificadas. O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor. um dia. Gozam do afeto extremo de Jesus. Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido. 258 . que adoraram a Virtude.

Luz do Senhor – O sumo bem. Tu lutarás. porém. Risos e flores. Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui. A grande luz 259 ... E se aprenderes Saber viver.Francisco Cândido Xavier . Já te mostrei A lei do amor. sofrer. Mágoas e dores. Do sacrifício!. Sorrir. Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres... do Mal. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor. Conquistarás A grande paz. Por entre espinhos.Parnaso de Além-Túmulo Tredas disputas Do Bem. É que verei Se o que ensinei Ao teu valor.

Francisco Cândido Xavier . Ao regressar. o amor Do teu Senhor. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos. Tranqüilamente. A dor.Parnaso de Além-Túmulo Que eu. Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho. Reservarei E hei de guardar Para a tua alma. Pra conquistares A luz. Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura. Nessas moradas Iluminadas Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço. A boa estrada E com carinho 260 . teu Jesus.

E ora conduz Teus sentimentos. Que cultivei Dentro em teu ser.Francisco Cândido Xavier . Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar. 261 . Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se.Parnaso de Além-Túmulo Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. Teus pensamentos. Sê sempre amigo Dos sofredores. Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem Os sofredores. Caminha avante. Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros. À perfeição Do coração.

Pecaminosos. Rútila e pura Aqui no Céu. Frios. austeros. Se assim fizeres E procederes. Dos venturosos. Onde a alegria Reinava.Francisco Cândido Xavier . Régio. Então. faustoso. Sempre cumprindo Os teus deveres. Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz. e ria 262 .Parnaso de Além-Túmulo Ambiciosos. Em mensageiro Do Deus de amor. nasceu Num lar ditoso. A conquistar Maior ventura. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar.

formosos. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária 263 . Era adorado. Naquele lar. Por planetária.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Rico alcaçar Dos abastados. Na mocidade. Ganhou saber Nobilitante. Desses palácios Materiais. Mas irreais. A luz brilhante Dessa ciência Que. Ainda criança. Lindos. na existência. Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu. Felicitado Nessa abastança.Francisco Cândido Xavier . Belo esplendeu.

Despreocupou-se Com a consciência. Tornou-se esquivo. Fulgiu. brilhou. Ele esplendeu No vão saber. Mas renegou 264 . O infeliz ser Viveu dos lábios. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus. Na Academia Dos homens sábios. Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade. Mas sem olor.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo A lei de Deus. Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor. Cheio de luz. Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. Refugiou-se Na vã Ciência.

E da existência Da própria alma Por fim descreu. A imensa luz Espiritual. cumprir Sua missão. Somente amando Sua ciência Enganadora. Dele esperando Sua ventura. Como um ateu. Nunca buscou. 265 . fulgir.Parnaso de Além-Túmulo A lei do amor. Filho do Mal. Nossa esperança Encantadora. Só procurou Brilhar. Os desprezou. Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura. Assim. Suaves brilhos Da nossa vida. Os próprios filhos.Francisco Cândido Xavier . Sempre espalhou. A relegar.

O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Em profusão. Não consolou O que sofria. Cruel. A morte amara. A Parca fria. viveu Só na Ciência. Do ateísmo Desventurado. avara 266 . Que brota n'alma Desiludida. Nessa existência Que passa breve!. Nunca pensou Uma ferida. feias. Porém. Nunca estancou Uma só lágrima. infeliz. um dia. De quem fugia Sem compaixão! Enfim. Jamais o quis. Suas idéias Tristonhas.

O arrebatara Nessa escabrosa Escura via. Por onde sempre Se comprazera. Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. Lembrou de Deus. Sentiu seus olhos Enevoados. Do seu amor. num grito. Do sono amargo Em que viveu. Amargurado Na aflição! Somente. Ele acordou Do seu letargo. Abandonado. Onde.Parnaso de Além-Túmulo E dolorosa. Sentiu-se. 267 . assim. Dentro da dor. E o conduziu Para o Infinito. então. Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo Em que vivera.Francisco Cândido Xavier .

E assim cumprir O teu dever. Por isso.Francisco Cândido Xavier . agora. Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar 268 . Jamais soubeste Te conduzir.Parnaso de Além-Túmulo A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração. Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz. Pelo viver Que demandaste. Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer.

O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho. À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres. Foste inimigo.Parnaso de Além-Túmulo E assim curar A alheia dor. Que então devias. O grande amor – Fraternidade. Dos próprios seres Que te adoravam. À perfeição. E até negaste A existência Da própria alma. Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação. Entre alegrias. Em luz perdida. Oferecer À Humanidade. Foi convertida Em fero braço Esmagador.Francisco Cândido Xavier . A consciência! 269 . Que mais te amavam.

Envergonhado. Que assim trilhara Na perdição.” Calou-se a voz. amara. Frios horrores. Padecimentos.. Seus desenganos Na senda triste. Ele chorou E lamentou. Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato. E o pranto atroz Jorrou. Entre lamentos E dissabores. então. Do coração Do miserável. Correu sozinho 270 . Por muitos anos. Espezinhado Na sua queda. Fatal..Francisco Cândido Xavier . Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Continuamente.

Assim lhe era Retribuído. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho. clamou. Desamparado. E. muitas vezes. Perambulou Qual Aasvero. Amargurado. Pedindo luz.Francisco Cândido Xavier . E o pobre Espírito Desiludido. O mesmo bem Que ele fizera... Só encontrava Consolação Nas lágrimas tristes 271 . Supliciado. A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo. Sofreu. Desanimado.Parnaso de Além-Túmulo O mundo inteiro. O seu olhar. Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão.

Ó bom Jesus! E mesmo assim. A alma triste E solitária. Fui a grilheta Da impiedade. Cheia de unção Por entre prantos. Experimentada. Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis. santos. Extenuada No atro sofrer.. Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado.. Tendo comigo A tua luz. Formosos. Até que um dia Em que sofria.Parnaso de Além-Túmulo Que derramava Em profusão.Francisco Cândido Xavier . Pois não cumpri O meu dever!. Mais padecia A dor feroz. 272 . Cruel e atroz. Eu me perdi Por meu querer.

O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei. sem flores. Não quero ter 273 . Quero sofrer Dura pobreza. Mas tu que és bom. Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei. Sabes do pranto Das minhas dores. No meu viver Sem luz.. Para que seja Exterminado O meu orgulho..Francisco Cândido Xavier . Tão justo e santo. Sempre viver Na singeleza.Parnaso de Além-Túmulo Pobre calceta Da iniqüidade. Dá-me o acúleo Da expiação. E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!.

O próprio lar. Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. Não quero ver O dealbar De uma esperança. Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação. Quero ganhar 274 . Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. Então serei Ramo perdido. Árido e seco Pelo vergel Enflorescido. Nunca. Incompreendido Em minha dor. jamais.Parnaso de Além-Túmulo Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. Não quero ter.Francisco Cândido Xavier . Nessa batalha Que empreenderei. Onde se encontra Maior ventura.

Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes. Com meu trabalho. Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei. o pão. Claro e sublime Para o meu crime. O puro amor. 275 . Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras. Só é formosa. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa. portanto. O agasalho. Cruéis e duras Das aflições. Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. Quando aliada Da caridade.Parnaso de Além-Túmulo E conquistar A luz. Ó bom Jesus.Francisco Cândido Xavier .

Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão. Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado.” E o Mestre Amado.. Seja bendito.. Enfim. Quero sofrer Com humildade. Pelo infinito Desenrolar E perpassar 276 . Feliz dulçor Da caridade!. Como a violeta Sob a folhagem. E sempre ter Em mim bondade. Deu-lhe o perdão..Parnaso de Além-Túmulo Neste planeta. Viver somente Pela voxagem Das desventuras.Francisco Cândido Xavier .. perdido. A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena.

O bom Jesus. Escuta a prece De quem padece.Parnaso de Além-Túmulo De toda a idade. Que. Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas. Belas. Do Criador! Na estrada de Damasco Num certo dia A Ambição. queridas. com sua luz E terno amor. Rude e cioso Do seu poder E vão saber.Francisco Cândido Xavier . De parceria Com o Orgulho. Chamou o homem Jatancioso. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável. Incomparável. E assim lhe disse: 277 .

Grande e valente Aqui no mundo.Francisco Cândido Xavier . É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos. Ser imperfeito Se achasse embora. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos. 278 . Faze-os vassalos No teu reinado. tu és Senhor potente.Parnaso de Além-Túmulo “Homem. E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes. E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação. Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver. Glorificado De grão-senhor!” E o pecador.

E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão 279 . O Criador. O Deus de amor. Que tudo vê. Mestre da luz. O Filho amado Que à Terra veio. Que então lhe diz: “Mas. Nesta existência De provação. Nosso Senhor. e o bom Deus Que está nos Céus. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai. Que é a Consciência.Francisco Cândido Xavier . A este mundo Ingrato e feio A redimir. Foi sem demora Então chamado Por um juiz De retidão.Parnaso de Além-Túmulo A seu agrado. Bem satisfeito. E o bom Jesus.

risonhos. Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. Nunca negar A tua mão. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos.Francisco Cândido Xavier . Que já se achava Bem poderoso.Parnaso de Além-Túmulo Tu deves dar. Em seu amor. Assim. Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. Do teu viver. Com alegria. 280 . o tal homem Tão orgulhoso. E espalhar Somente amor. Em sua cruz!” Mas. procura Melhor ventura Em só buscar. A relegar Toda a maldade. Seguir Jesus Em sua dor. Lindos. Acompanhar.

Enquanto ele Só te oferece Amargas dores. Cruéis espinhos. Nós concedemos Ao teu valor 281 . E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido. E o tal Jesus. Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário. Tristes agruras.Parnaso de Além-Túmulo Isso seria Obedecer E se humilhar. Assim. Desolações.Francisco Cândido Xavier . Eles. Tendo o poder Pra dominar. Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão. buscou E perguntou Aos companheiros. então.

quando 282 . sofrer. Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir.” E assim. Mais saberá O que é existir. Vale o gozar Constantemente. Há de levar Esse teu sonho De amar. Exprime a dor E não a luz. Essa é apenas O frio nada. Ao caos medonho Do mais não-ser. E pois. O louco amor Do teu Jesus. assim. A vida aqui Só é formosa Para quem goza. Porque a morte Tão renegada. Pois vindo a Parca Bem de repente. Lindos brasões.Parnaso de Além-Túmulo De grão-senhor Sublimes flores.Francisco Cândido Xavier .

Onipotente. No cumprimento Dos seus deveres. A eterna obreira. A mensageira Da perfeição. Nessa oficina Grande e divina Da Criação. 283 .Parnaso de Além-Túmulo O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. Na caridade. E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. Na mansuetude. Fê-lo abatido E desolado.Francisco Cândido Xavier . Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro. Na humildade. Chegou a Dor Humildemente. A lapidária.

Só encontrou O juiz reto. Altivos filhos Da veleidade.Francisco Cândido Xavier . Reconheceu A nulidade.Parnaso de Além-Túmulo Na submissão Do coração Ao sofrimento. num brado 284 . Depois. O Magistrado Incorrutível Da consciência. Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser. De mui sofrer E padecer Na expiação. então. Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores. E que. A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia.

Parnaso de Além-Túmulo Indescritível. Com a maioria Da Humanidade. Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto. Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres. Para a alegria Fatal converge O seu viver. Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem. Ermo de amor. Em conseqüência. Porque verá. Para o enganoso. A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade.Francisco Cândido Xavier . Efêmero gozo Do material. Contemplará 285 . A esquecer Tudo o que seja Espiritual.

Parnaso de Além-Túmulo Todo o esplendor. Para o Bem exalçar. . A eterna luz. Nessas mansões. Lua. No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. tornando-os mais unidos. suave e triste. 286 . a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz.A Mãe pedia. Do eterno amor Do bom Jesus. que nos conduz À divina alegria. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens. se acaso viste Nos firmamentos o filho meu.Francisco Cândido Xavier . Na ascensão para o Belo e para o Amor. pura e santa. Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia. Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz. Angústia materna “Ó Lua branca. fitando o céu – Dize-me. Que a Terra toda inunda de esplendor. de amor e luz.

. 287 . Sentiu-lhe os raios. Como era grácil. cheio de amor!. que encantador Meu anjo belo como a açucena. Se tu soubesses. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz. E das ausências conheço o pranto.. Continuava.” E a Mãe aflita. feliz.“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos. martirizada. Fitou a estrela que lhe sorriu. – “Então. Dum filho amado que a gente tem.Parnaso de Além-Túmulo A Morte ingrata.. extasiada. Deixou minhalma triste e chorosa.” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto. Roubou-me o sonho – deu-me o penar. responde-me sem demora.. conheço-o bem!. sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?.. Sou eu no mar do éter infindo. Deixou vazio meu doce lar.. fria e impiedosa. da esperança. Lua serena. ouviu: – “Ilha pacífica. E dos seus cantos.. Cheio de vida. . Oh! se o conheço.Francisco Cândido Xavier .

Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade.Parnaso de Além-Túmulo Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro.. banhada em pranto. Todo vestido dum brilho santo. Notou de logo seu filho lindo.. Aqui terminam os dissabores. Vida risonha. Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também. Ó linda estrela que adorna o céu.. ditoso e lindo. Gritou-lhe a pobre desconsolada. Num belo raio de luz. Em mim a noite não tem guarida.. 288 .Francisco Cândido Xavier ..” – “Se tu me odeias. sorrindo. Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho. luz de alvorada. Do Senhor tenho doce trabalho. Porque tu guardas o filho meu. mãezinha amada. Aqui em tudo floresce a vida. se me detestas. Senti a falta das primaveras.” – “Quase te odeio. Senti a falta desta alvorada!. Flores que afastam as agonias. cheia de flores!.” A mãe saudosa..

. pôs-se a chorar. Faço-te um ninho ditoso e belo. Que tu te foste. Sóis rebrilhando nos horizontes.. 289 . castelos e melodias.Parnaso de Além-Túmulo Não resisti. se mais não pude Ficar contigo na escuridão. E não podias partir assim. Viu-se mais calma. estranhamente. Já não me embala tua meiguice. Aqui.. Lamentos do órfão Minha mãezinha. Daqui te vejo. menos saudosa. fugi da dor. Aqui é tudo felicidade. E. também há fontes. perdoa. alguém me disse.. tristonha e rude.“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar.. carícia e amor! Ó mãe. triste sem mim. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus. Jardins e luzes e fantasias. na estrela. Tanta era a saudade! Voltei do exílio. Paz e ventura.Francisco Cândido Xavier . Sonhos. Envenenava meu coração.. Muito pertinho do amor de Deus!. A Terra amarga.

pergunto à ave. Tudo é silêncio tristonho e escuro. que possui a luz. Quando regressas dos Céus supremos. Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro. outro Jesus. De nos meus braços. Que me fugiste sem me levar. do teu querido.. Um dos seus anjos. saudoso e triste. Que te procuro chamando em vão!.” Pergunto à fonte.Parnaso de Além-Túmulo Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus. Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! . E abraço o espaço.Francisco Cândido Xavier ... beijo o meu pranto.. minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo. mãe.. só noutra vida!. Que sofro e choro. Sem esperanças de te encontrar. Outros meninos alegres vejo.. Só noutra vida. te beijar. Tudo é saudade no coração. Mas tanto tempo faz que partiste. Numa alegria terna e louçã. E me respondem em voz suave: 290 . Há quantos dias que te procuro. Somente a mágoa vem-me afagar. Que de mim faça.

ai! não voltas. mas. E de mãos postas aos pés de Deus. E me conforta.” Sempre te espero. à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!.Parnaso de Além-Túmulo “Nós não sabemos! nós não sabemos!. Multiplicando meus pobres ais. que mágoas soltas Andam cortando meu coração.Francisco Cândido Xavier . Vejo-te linda nos sonhos meus. Ajoelhada. quando eu imploro. grave. Diz-me que vens e diz que te vê. consoladora: “Depois da morte serás feliz. . Nem para dar-me consolação.” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela. e... Ó mãe querida. banhada em pranto. do céu. Tanta saudade.” Somente a nuvem. Cheios de angústias. Quando é que voltas desse país. no entretanto.. Sempre a meus olhos. E ela retruca.” Pergunto à flor que engalana a aurora. ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais.“ O mar e a noite me crucificam. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você. meu doce bem?” Ele responde. estás bonita 291 .

Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança 292 .. Sentindo o anélito do teu beijo.. Já não suporto tantos cansaços!.. Com o pensamento junto de mim.. Quanta amargura.Francisco Cândido Xavier .. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços. Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores. Volta depressa! guardo-te flores. Junto da fonte que canta e ri.Parnaso de Além-Túmulo Qual uma rosa. Então. Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura. calo. Foge comigo para outra luz!.. O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida. Se não voltares. entrego-me ao meu desejo.. Para quem segue triste e sozinho. como um jasmim! Porém conheço que estás aflita.. Tremo de anseio. sorrio.

Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça. Abre-lhe a porta. espera a ventura Com fé. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. Chega-te a mim: sou tua irmã. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome. ao gosto amargo. O seu destino. Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos. com perseverança.Parnaso de Além-Túmulo Responde-lhe com brandura: – Meu filho. Diz-lhe. E ela chora. Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos.Francisco Cândido Xavier . 293 . muito ao largo. E passa o gozo. à luz dessa manhã. Eis que a Fortuna se lhe esconde. a sua dor. E a fada.

Senão a Ti. somente. Pedir a quem. Pedindo o bem E a salvação. Confio e espero. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão. Sou eu. Senhor. Pedindo a luz. O impenitente Na expiação. portanto. Em Ti. De Ti eu quero Me aproximar! 294 .Parnaso de Além-Túmulo Oração A Ti.Francisco Cândido Xavier . Meu coração Imerso em dor Aflito vem.

Francisco Cândido Xavier . Se sofro e choro. Cheio de unção. Se me demoro No padecer. É porque andei Longe do Amor.Parnaso de Além-Túmulo Consolo santo. Assim. Senhor. Bem sei. No meu viver. Elevo a prece Do coração. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça. Que me ensinaste E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse. Para o meu pranto Venho implorar. Senhor. O Amor é a lei. A Ti. 295 . contente. Rogando amor. Ditosamente. Buscar os Céus.

Mãe piedosa!. Vaidosa e bela. E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer.. E entre as virtudes. dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício. E altiva e rude lhe esconde a mão. E mais adiante topa a Desgraça.Parnaso de Além-Túmulo Fala à Ventura com riso irmão.Francisco Cândido Xavier . Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos. Quando só pede luz e amor. Depois. cansada e já comovida. e já sepultada. E vem a Vida por dar-lhe a Dor.. da bonança. Como perdida. Sublime estrela que brilha No céu da paz. No esquecimento do próprio ser. Escolhe sempre flores do vício. Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação 296 . na existência. Acorre à Morte por dar-lhe a Vida.

Compadecei-vos.Francisco Cândido Xavier . Estendei o vosso manto De bondade e de ternura.Parnaso de Além-Túmulo Dos pobres. Que apavora. Dos corações desolados Na aflição.. Que sois a terna clemência 297 . dos desgraçados. Senhora. Trégua à dor!. dos amargores. Sobre tanta desventura. dos oprimidos Deste vale de gemidos. A vossa misericórdia. De tão grandes sofrimentos. Protegei os pecadores No degredo. Dai paz a toda discórdia. Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor. Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos. Livrai-nos do abismo tredo Dos males.. Deste mundo de tormentos.

Lá palpita a beleza onde a alma canta. a nova aurora Luminosa e divina se levanta. O coração tocado de agonias.. E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora. A luz do amor que vibra e revigora. Além da morte. Que a este mundo sucedem-se outros mundos.. Pois tendo ouvidos não ouvem. E em vossa luta o bem de cada hora. entre ovelhas desgarradas. Prisioneiros da dor que fere e espanta.Parnaso de Além-Túmulo E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem. E vendo não querem ver. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos. Além Além da sepultura.Francisco Cândido Xavier . 298 . Que vos possam compreender. O trabalho divino continua. a vida tumultua. Ó corações que a lágrima devora. Tende na vossa fé a bíblia santa.

. Demorando as vitórias do Evangelho. Do caminho de lágrimas sombrias.Francisco Cândido Xavier ... Feliz o coração que espera e ora. o luminoso bem divino. Que suaviza os rigores da existência.Parnaso de Além-Túmulo O Mestre chora como Jeremias. água do amor. Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência. Sobre as desolações do mundo velho. em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade... Preces infindas e desesperadas. A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece. Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina. 299 . pela oração profunda e imensa. pura e divina. Dois milênios contando o grande ensino Do Amor. Mas. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além.. Vendo o mundo nas lutas condenadas. Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas.

errante e aflita. Rumo ao país ditoso da bonança. Vinde. Nos caminhos translúcidos da Crença.. irmãos! Desdobrai as vossas velas!.. É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca. Que reside convosco em noite escura. A terra da união e do conforto. Nunca olvideis a Excelsa Claridade. Que habitaremos na Imortalidade.Parnaso de Além-Túmulo Enquanto o mundo anseia. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita. 300 . É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus. Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade.Francisco Cândido Xavier . pura e infinita!. Vós que chorais ao coro das procelas. estranho e aflito. Fraternidade Fraternidade é árvore bendita.. A prece alcança as bênçãos do Infinito..

Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz. Ó torturados corações humanos. O Evangelho. Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade. Senda de paz e de felicidade. Tendes convosco a Chama Adormecida.. Mas os túmulos falam pela estrada. Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade.. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. Na luz das luzes do Consolador. na luz do Espiritismo. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor. 301 . Ante os desfiladeiros da impiedade.Parnaso de Além-Túmulo Somos todos a Grande Humanidade.Francisco Cândido Xavier . Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos. Nos caminhos da lágrima e da dor. Rogamos acendais a Luz da Vida. É a escada de Jacob vencendo o abismo. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós. Em direção à Fonte Eterna e Pura.

Pelos caminhos da imortalidade. Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” 302 . – “Deixai virem a mim os pequeninos!.. Cheio de amor e grandeza. Vós. amor e graça.. enquanto a turba observa e passa. por que Jesus.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça.” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura. que tendes a fé que ama e consola. Entre flores e alegrias. Na noite de Natal – “Minha mãe.Francisco Cândido Xavier . Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? Por que não veio até nós. de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória. E exclama. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo – “Acredito. sem proteção. Em terna melancolia: – “Por certo. Às vezes. Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração. Concluiu com sentimento. Que o Mestre da Caridade Mostrou.. em tudo e por tudo.” 303 . penso também Nos trabalhos deste mundo. de olhos fixos Na luz do céu que sorria. A luminosa humildade!.. Jesus ficou Nas palhas. meu filhinho. Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe.

sublime. e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade. Descortinando. Na ansiedade e na dor. aos 9 de outubro de 1853. impetuoso político e grande orador. Estado do Rio de Janeiro. no entanto. escura e desumana.. nem recua. das graças do templo aos sarcasmos da rua. jornalista... A alvorada feliz de um mundo livre e novo. Erige a liberdade augusta e soberana. continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. se engalana. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. membro fundador da Academia Brasileira de Letras. poeta. além da noite que se adensa. E desencarnou a 29 de janeiro de 1905. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua. encantado e divino. Irmãos do meu Brasil. Mas a luz do Senhor não teme. Não mais senzala hostil. E.Francisco Cândido Xavier . A incompreensão do amor. combatendo a descrença. Farmacêutico.. . Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal. romancista.

Para depois ouvir a voz da sepultura. Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda.. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia. homem que vens. Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria. . deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. E o seu grande mistério existe em toda parte. coloca as mãos na tua própria chaga. Tomé. A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte. Perambula na dor da tua noite aziaga. infinda. o mais além da Terra. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”. Onde o sonho termina e a vida recomeça. Aos homens Volta ao pó dos mortais. A vida é vibração ilimitada. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899.Francisco Cândido Xavier .. depressa. Volve ao sono cruel da tua carne obscura.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 José Duro POETA português. Musa amargurada.

ao pé do corpo imundo. Prisioneiro da mágoa. voar para a mansão serena. 306 . E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja.Francisco Cândido Xavier . Escravizado ao pranto. Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena. Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada. Algum tempo eu sofri. agrilhoado ao mundo. Onde fulgura o sol do verdadeiro amor. a triste senda escura. então. onde perece o amor. E pude.

Perdoa-nos. Senhor.Parnaso de Além-Túmulo 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. Nos Céus. meu Senhor. no carinho Do pão espiritual. 307 . ternura e amor. Feito na luz. Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus. Que em todo o Universo exprime Concórdia.Francisco Cândido Xavier . como em toda a Terra De luta e de sofrimento. que estás nos Céus. Na luz dos sóis infinitos. Santificado. Seja o teu nome sublime. Dá-nos o pão no caminho. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade. Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra. De paz e de claridade Na estrada da redenção. Evita-nos todo o mal.

Auxilia-nos. Livra a nossa alma do erro. A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem. Onde se faça a vontade Do vosso amor. Distante da vossa luz. também.Francisco Cândido Xavier .. Assim seja. Nos sentimentos cristãos. Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade.. 308 . De iniqüidade e de dor. Com a proteção de Jesus. De passados escabrosos. Sobre o mundo de desterro.Parnaso de Além-Túmulo Os débitos tenebrosos.

di-lo um comentador. ninguém . Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. Buscando a paz da humildade. A santa luz da harmonia.Francisco Cândido Xavier . Assim que deixara a orgia No castelo. A edição póstuma de Poesias exaltou. Abandonara a vaidade. Entregou-se à Natureza. em 1871. E nas horas de repouso. Francisco. ouve. Com este pseudônimo. notabilizou-se mais como romancista. nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. O Esposo da Pobreza Francisco de Assis.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. um dia. pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho. principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor. as suas qualidades primaciais de prosador. faze-te esposo Da pobreza desvalida. Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo.

310 . Que não fiam. doce e pura. que não tecem. Esquece as imperfeições! . conforta os desgraçados. Quem alivia e consola. Sedentos e esfomeados. inda via. E sobretudo. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins.Parnaso de Além-Túmulo Vai aos Céus sem a bondade.Francisco Cândido Xavier . Saltando de galho em galho.. Bênção do Céu. Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins. Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. Nos celeiros da fartura. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria. As aves que não trabalham E no entanto se agasalham. Buscando a graça do orvalho. A seiva misteriosa No seio dos vegetais. Flagelados pela dor.. Que é a grande felicidade De todos os corações. Vai.

então. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas. Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores. Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus. Francisco de Assis. Que não tendo amor nem luz. das margaridas. 311 ..Parnaso de Além-Túmulo A sacrossanta harmonia Do coração sofredor. Ornamentada de flores Que os meus encantos resume.. Submerso o coração Em sublimes alegrias. Fragrâncias. Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza. Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza.Francisco Cândido Xavier . amenidade. Poema de singeleza Esplendente e delicada.

As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura. Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus. imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria. Nessa mesma primavera Dos rutilantes espaços.Francisco Cândido Xavier . alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando. As ovelhinhas balindo. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia. 312 . Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. Ó Terra. Caridosa ventura No abril das almas irmãs. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. Entretanto.Parnaso de Além-Túmulo Aromas. Tão cheia de desventura.

. Aconchegados nos ninhos.... Cantando. Sorrindo..Francisco Cândido Xavier .. Sorrindo. Com as pétalas orvalhadas.. Hino terno de esperanças Das aves e das crianças.. Cantando. anjos suaves.. Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo... passarinhos. 313 . Cantando..Parnaso de Além-Túmulo Aves e anjos Passarinhos.. Açucenas perfumadas. Crianças... Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas.. Lares de amor doce e brando. Vai-se com a luz misturando.. Sorrindo. Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores.

Já chega de repousar!” Busca. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”. Tudo ajeita. couves. A fome lhe bate à porta. Machado de Assis. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito. Sua musa foi elogiada por Castilho. Silvio Romero. É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo. feijão. Rasga a terra. planta a cana. corta os matos. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro.Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade. Ao acordar. Luta e sua. então. não tem paz. Persegue-lhe a precisão.Francisco Cândido Xavier . Batatas. Ao levantar-se da cama. Três quartas partes de tudo . o seu trabalho. Sem descanso. Inda é espessa a escuridão. José de Alencar. Planta o milho. com 95 anos de idade. em 1931. Pobres Mal clareia o Sol a serra. etc. tudo faz. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come. a labutar.

que o vê. se sofre dor. Contudo. queima o Sol. nos seringais. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. Quando a semente germina E os ramos querem crescer. Não vem a chuva. Espalha o pé nos gerais. Se geme. Redobra o pobre os serviços. Que cuide dos mandiocais. Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. O pobre nunca descrê. ele espera sempre Do Deus que o ama. Mas se quer repetições. E sempre resignado. Então. Nada existe no paiol.Parnaso de Além-Túmulo Pertencem ao seu patrão. Quando o pobre vai à mesa. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor. Ah! que a água já está pouca Nos rios.Francisco Cândido Xavier . resolve pedir 315 . porém. O estômago pede mais. As plantas já se amarelam. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover. Arde a terra. Não possui um só real Pra consultar um doutor.

As promessas aos seus santos. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar. Os vinhos de jatobá. os pais. o chá.Francisco Cândido Xavier . Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho.” O pobre. Trabalha para comer. Mas o patrão avarento Não adianta vintém. Que o padre cobra demais. Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. 316 . humilde e paciente. Que fulge no coração. E põe em prática os meios: As beberagens. Mesmo assim. Não lhes pode dar a missa. quanta tortura. Se tem pão não tem saúde. Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor.Parnaso de Além-Túmulo Ao patrão que sempre o tem. Dá-lhes porém seu tesouro. Regressa para o seu lar. Arrasta-se e vai ao médico E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender.

ventura. Se bate à porta do rico. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil.Parnaso de Além-Túmulo Se tem saúde. Sextilhas Quando a morte chega em casa. Que o cura na enfermidade. O braço amigo de alguém. A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. ganha pau.Francisco Cândido Xavier . Que o conforta na desgraça E ampara na provação. 317 . Que na treva lhe dá luz. E em vez de pão. onde existem Justiça. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. Após a morte. não tem Quem o ampare. Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. quem o ajude. Os cães o tocam da porta. A casa faz alarido. Mormente dum rico mau. amor. nem ovil. Não tem casas de morada. O carinho dessa mão. Nem terrenos. Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. Mal do pobre se não fora.

Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça. Ela vem buscar alguém. Se Sancho. Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é. Não quer saber se ele tem.Francisco Cândido Xavier . 318 . A morte não quer saber Se é preto como urubu. Se pratica o mal ou o bem. De quem precisa por certo. Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus.Parnaso de Além-Túmulo Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime. Esteja distante ou perto. Ela vem buscar alguém. Não lhe pergunta qual é A sua religião. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. O povo está reunido Quando a morte chega em casa. Se tem pratas no baú. A morte não quer saber. Pedro ou José É o seu nome de batismo.

Parnaso de Além-Túmulo Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. 319 . Para o pobre. Nem mulher bonita ou feia. para o rico Nunca tem contemplação. Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre. Nem procura examinar. Saúde. Se esse alguém vai-se casar. Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno. O que segue vai com unção. Para a morte não existe. Nem homem alegre ou triste.Francisco Cândido Xavier . Não perde tempo em clamor. Para a morte não existe Anéis de grau de doutor. Ela vem de supetão Para o pobre.. Nada disso a morte quer. Em atenções e conversas. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído. para o rico. Se tem pai e se tem mãe. beleza e dor..

Viver na Terra e somente Remando contra a maré... Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus.. Sentir as disparidades 320 . Nem tão boa coisa é. Há quem estime? Talvez.Francisco Cândido Xavier . Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês.. Tateando dificilmente No meio da escuridão. Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus.Parnaso de Além-Túmulo O que segue vai com unção. Com receio de ir ao fundo. Entremeados de prantos. É ele mesmo quem faz. Nem tão boa coisa é... Na tempestade ou na paz. Galeno sem nó.. Tristezas no coração.. De cá Que amargo era o meu destino!. galé. Mas para mim que só fui. Tantas dores em conjunto.

Já não é próprio de mim. Ver uns rindo e outros chorando. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é.Francisco Cândido Xavier . Nas secas do Ceará. Nas guerras de toda parte. Meus irmãos de Fortaleza. da ingratidão. Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim. Da treva. do Canindé. O pranto ferve na Terra. Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão. Do Crato. Da carne. Não é possível porque.. Nem tão boa coisa é. do desconforto.. Nem tão boa coisa é. salta acolá. 321 . Mas falar demais agora.. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé.Parnaso de Além-Túmulo Das vidas cheias de dor.. Tantas misérias sentir. Pobre filho da ralé. O mal sufocando o mundo. Salta aqui.

Jogar pérolas a tolos. Nem tão boa coisa é.Francisco Cândido Xavier . 322 .Parnaso de Além-Túmulo Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé.

Professor e poeta. em junho de 1950. revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!.Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865.. Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E... Surgem constelações do Novo Dia Muito longe da Terra descontente. e desencarnou no Rio de Janeiro. Mas. Ao compasso do Amor e da Harmonia.. jubilosamente.. Choro de amor. Mundos celestes. reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço. no Estado do Paraná.. densa e fria. esmagado de angústia e de carinho. . ai! pobre de mim!. deixou inúmeras obras.Francisco Cândido Xavier . Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha.

fora dos meios culturais. Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora. 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas. Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. a seu tempo. vive em tudo. Latinista de prol. lhe assistira aos funerais. em Vassouras.Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. em menina. Flores Exóticas. compositor musicista e tradutor renomado. Virgilianas. jornalista. A beleza profunda e peregrina. conta em sua bibliografia Poemetos. onde ele tem precioso jazigo. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. Ébria de paz e de imortalidade. agora. A alma vitoriosa entoa hosanas. oferecido pela população local. Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora. . e conquanto fosse intelectual de prol. Não mais a noite. é hoje um nome esquecido.Francisco Cândido Xavier . exceto uma senhora que. etc. Médico. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século. Sem as sombras das lutas desumanas.

Parnaso de Além-Túmulo Não lamenteis quem parta ao fim do dia.Francisco Cândido Xavier . Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade. 325 .

nascido no Rio de Janeiro. volver ao lar primeiro. . Noturnos. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. Pairar no Além!. Soluçando empolgado de ventura. sobressai Sonetos e Rimas. Foi jornalista.Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro. Soneto Na escuridão dos anos procelosos. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. vislumbrando a Imensidade. que ainda hoje se lê com encanto.. Carimbos. em 17 de fevereiro de 1845. e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Acharia nos céus maravilhosos... aos tempos bonançosos. etc. Entre suas obras. Da velhice nos dias mal vividos. comediógrafo e diplomata. Lírica.Francisco Cândido Xavier . Nas esteiras de prantos esquecidos. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos. Ressurgido em perene mocidade.

nova a estrada Que minhalma extasiada percorria. Nova era a vida. Em revérberos lindos de alvorada. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos. De volta. 327 . e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos. Divinal era a luz que resplendia. Voltei. Nas carícias risonhas dos caminhos.Parnaso de Além-Túmulo Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia.Francisco Cândido Xavier . Envoltos em ternuras e em carinhos.

Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores... Bacharel em Direito. além ainda. Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto... Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores. Poeta de grande e viva inspiração. membro da Academia Brasileira de Letras. Na alvorada perene da harmonia.. conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes). nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro.. em 1929. . Aureolada de eternos resplendores.Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE. distante. e vasta colaboração na Imprensa.. Sara (poema). ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho.Francisco Cândido Xavier . Além ainda. Desolado viajor. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos..

Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira.. Um golpe. no começo do ano de 1918. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida. um terceiro: Agonias e Ressurreição. Residiu durante algum tempo na Capital Federal.. onde colaborou em vários jornais. Publicou dois livros. Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. aos 41 anos de idade. A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida. Brilhando além da lápide sombria. Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória. No estranho portal No último instante. Estado do Rio.. deixando. à rua dos Voluntários.. e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada. Foi um atormentado pelas enfermidades. Um sonho. Aos clarões imortais do Novo Dia. naquela mesma cidade. . inédito.Francisco Cândido Xavier . e faleceu.

Ao sofrimento ou ao bem-estar. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu. porém. Para que o multiplicássemos indefinidamente.Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se. que é Pai bondoso. Ler a sua epopéia feita de astros.. . Agradecer a Deus. Onde outras almas sentem fome e sede. A vida é o eterno bem que nos foi dado. os corações. O firmamento. a ave. Ter a bondade ingênua das crianças. Atenuar a dor alheia. É um deserto sem oásis. dar luzes. atenta a magnitude do seu estro. as alvoradas. Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz. o luar. de justiça. E a alma que se abandona. Dar sorrisos. Aqui o incluímos. Tudo o que nos rodeia.Francisco Cândido Xavier .. dar carícias. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida. Sorrir aos infelizes.

Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares. Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter.Parnaso de Além-Túmulo Dar tudo quanto temos. Infinitas e esplendorosas.Francisco Cândido Xavier .. E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos.. Que se estende infinita no Infinito.. Tudo isto é amar multiplicando a vida.. 331 . Dar a lição de paciência se sofremos. Porque os nossos espíritos São unos na essência. Dar um pouco de gozo se gozamos. Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador. Terras e almas. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes. Unidade Todos nós somos irmãos. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares.

Parnaso de Além-Túmulo As quais no divino equilíbrio do Amor Buscam a perfeição indefinida. O qual. Vivereis dentro de sagrados coletivismos. Porquanto. por uma disposição inexplicável. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica. Sem egoísmos. mais além Das fronteiras planetárias. Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito. Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus. Encerra em si Todos os mundos. Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei. da Terra O caminho comum da vossa salvação. A mesma dor na luta A prol da redenção. Todos nós somos irmãos. Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. 332 . Espiritualmente. Somos filhos de um só Pai. pois.Francisco Cândido Xavier . O mesmo sonho.

Para sanar tão estranhas feridas. Lá dentro. Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz.... Pela porta escura do remorso. Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!. “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso. . Pontificava o Anjo da Justiça. E infinitos seus estados de consciência.. Tão amargos pesares.. Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. 333 .Francisco Cândido Xavier .“ “Filha – respondeu compassivo –. Só há um recurso: Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas. do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo. Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo. Banha-te nas suas águas cristalinas. Como incontáveis são as almas humanas.

E ainda hoje.. Nos dias amargurados que transcorrem. cheios de confiança! 334 .” E a pobre regressou. Banhou-se na água lustral dos tormentos. O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes. O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas.Parnaso de Além-Túmulo Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos..Francisco Cândido Xavier .. Reconheceu o luminoso Anjo da Dor. Submergiu-se no regato encantado.. de cuja fonte límpida promana a Salvação. A fonte que desaltera todos os sofredores. Conduzida pela Dor.. E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!. E nos seus braços magnânimos e compassivos. E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. Inçados de perigos E de dores amargas. Apegai-vos a Ele. É para a Humanidade A promessa da Paz.. Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção.

. Acima de todas as coisas transitórias.Parnaso de Além-Túmulo Ele é a misericórdia personificada. Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte. És alma em ascensão para Deus.. Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra.. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual. O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem.. A tua inteligência e o teu sentimento 335 . Longe das lágrimas Do orbe obscuro.Francisco Cândido Xavier . Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol. A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes. Ouvi a sua voz No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos. Dos prantos e das provações remissoras!.

doce. Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor. suave. – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres. Na amargura e na dor. Misteriosa. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. 336 . E sentirás uma carícia branda. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos. No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!.Francisco Cândido Xavier . Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram. Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza. Buscando Deus.Parnaso de Além-Túmulo São fulcros de luz imperecível... Que sonham e choram.

do repouso. 337 . Disse-me alguém: “Minha filha.Parnaso de Além-Túmulo Ao pé do altar Eu vivia no Claustro. Esmagá-las com o Bem. Não permanece No recanto das sombras. Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas. Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração. A Esperança mais linda. Juraste fidelidade só a Deus.. Está sempre em meio às tentações Para vencê-las. Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo. Não te esqueças que a Caridade.. Se tens a Fé mais pura. Se ama a prece e a pureza. Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas. O anjo que nos abre as portas da Ventura. Mas um dia.Francisco Cândido Xavier . Na sombra silenciosa dos mosteiros. Destruí-las com Amor.

Dos mais rudes pesares. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas. brandamente.. Desprezando o repouso e a soledade. A tua esperança em Deus Será dilatada. Não te retires. do mundo.. Darás a Deus. Sê a mãe desvelada. A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. a tua alma Amando o próximo. Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas. Será um hino constante subindo aos Céus. pois. sem reserva.Francisco Cândido Xavier . Sê a abnegação e a bondade serena.Parnaso de Além-Túmulo A solidão da cela é um crime. E só a dor que nos crucia 338 . A irmã consoladora. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus. Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o. Atraída pela Verdade. Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria. Que contigo é seu filho dileto.

Fustigadas pelo furacão da desgraça. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos.Francisco Cândido Xavier . Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. atropeladas pelo mal. E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente. Espezinhadas pelo sofrimento. Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. Estendendo os seus braços tutelares 339 . – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura. Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria. Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras. Vertidos na corola imensa das dores. Amarguradas e infelizes.Parnaso de Além-Túmulo Ou a dor que consolamos. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas. Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado.

Parnaso de Além-Túmulo Às mães carinhosas e desprotegidas. Lenindo os padeceres Das mães desoladas. pois.Francisco Cândido Xavier . sobretudo. Porque se apegaram A âncora da Fé. E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas.. A Virgem da Pureza 340 . Com as suas velas alvas e pandas. Balsamizando os pesares. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade. Levando-nos ao Céu. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio. Buscando o porto esperado com ânsia.. Como náufragos de uma tormenta gigantesca. E sendo o arrimo de todas as criaturas. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo. É. que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!. Veleje tranqüilamente. Que nos ampara e guia em nossa cruz. Ao seu olhar compassivo. Para que o Brigue da Esperança. Maria é o anjo. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras.

341 .Parnaso de Além-Túmulo – Mãe das mães.Francisco Cândido Xavier .

Desde a flor da montanha às trevas do granito. em cântico divino Do trabalho imortal. alheio à recompensa. Autor de inúmeras obras literárias. Trabalha e serve sempre.. por si. é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito. luta e contentamento.. Júbilo de ajudar. Tudo na imensidão é serviço opulento. Da beleza do herói ao verme pequenino. Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa. .Francisco Cândido Xavier . no Estado do Rio Grande do Sul. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna. brunindo a vida eterna!. Tudo se agita e vibra. e desencarnou em 1926.Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858. Buscando a solução da dor e do destino. Desde o fulcro solar ao fundo da caverna. Que o trabalho.

Jesus!. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema.. A multidão inteira.. Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras.Francisco Cândido Xavier . Considerado. Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema. E debaixo do apodo e ensangüentada a face. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918. Surda à lição do amor.. o Príncipe dos Poetas Brasileiros.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado.. ansiosa se congrega. que trêmula se entrega... – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. inquire o brado Da justiça sem Deus. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta. . “Crucificai-o!” – exclama. Para a consumação dos festins do pecado. ao seu tempo.. Jesus! Jesus!.. implacável e cega.

Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas. Mas eis que todo o Azul celígeno estremece. No Horto Tristemente. No derradeiro sono. E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais. descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas. vacilante. instante a instante. meu Pai. em sombrios Pesadelos da carne palpitante.. Sobre o meu peito em febre.. Espia. Morte. afastai-o!. Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor. Jesus fitando os céus. 344 . de Paz e de Alegria. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia. duríssimo e refece.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante. – “Se puderdes.” – dizia.Francisco Cândido Xavier . no teu portal a alma tateia. sonda e chora. em prece. Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios. inquire. Impassível. cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!.

osculando-lhe a fronte.. Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos. Mestre!” E toma-lhe das mãos...“Amados. Na doce mansidão dos seres pequeninos. da cruz.” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: . – Raio de eterno sol na senda dos destinos. A crucificação Fita o Mestre. a multidão fremente. de dor e desventura. E sublime na fé mais vivida. murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!. 345 . eu vos dou meus últimos ensinos. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. E Jesus abençoando aquelas almas cegas..Parnaso de Além-Túmulo Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora. Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição..Francisco Cândido Xavier .. Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura.

Contempla a vastidão celeste que o reclama. Sobre tudo se estende o raio dessa chama. E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença. Alma doce e submissa. amargamente. Começai outra vida em nova estrada. Retrocedei dos vossos mundos ocos.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo A negra multidão de seres que ainda ama. que seguis a turba desvairada. Que entorpece. As hostes dos descrentes e dos loucos. Sem a idéia falas do grande Nada. Da fé viva. Sob os gládios da dor aspérrima. Gritos e altercações! Jesus.. Lança os marcos da luz na noite primitiva. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. não sabem o que fazem!. Soluça no silêncio. Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. envenena e mata aos poucos. derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente. . sem cárcere mesquinho! 346 . E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes. meu Pai.“ Aos descrentes Vós.

Nas lágrimas de dor do peito aflito!. Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza. brancos os cabelos. ansioso. Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que. anela e sente.Francisco Cândido Xavier . É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. Rotas as carnes. Mas que o homem realiza apenas. adora. Aspirações do mundo miserando. e sonha presa.. sofre e soluça.. 347 . onde a esperança sem repouso Luta. com desvelos. Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza. Guardadas com ternura. quando.Parnaso de Além-Túmulo Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. Sente o beijo de glória do Infinito!... Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Tombe no caos do nada, em túrgida surpresa,
O que o homem pensou num sonho de demente,
Os mistérios da fé, fulcro de luz potente,
O templo, o lar, a lei, os tronos e a realeza;
Estertore e soluce exausto e moribundo,
Debilmente pulsando, o coração do mundo,
Morto à mingua de luz, ambicionando a glória;
O Espírito imortal, depois das derrocadas,
Numa ressurreição de eternas alvoradas,
Subirá para Deus num canto de vitória.

O Livro
Ei-lo! Facho de amor que, redivivo, assoma
Desde a taba feroz em folhas de granito,
Da Índia misteriosa e dos louros do Egito
Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma!
Vaso revelador retendo o excelso aroma
Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito,
O Livro é o coração do tempo no Infinito,
Em que a idéia imortal se renova e retoma.
Companheiro fiel da virtude e da História,
Guia das gerações na vida transitória,
É o nume apostolar que governa o destino;
Com Hermes e Moisés, com Zoroastro e Buda,
Pensa, corrige, ensina, experimenta, estuda,

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E brilha com Jesus no Evangelho Divino.

Brasil
Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça,
Da virtude ateniense à grandeza espartana,
O anjo triste da paz chora e se desengana,
Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,
Tribos, tronos, nações... tudo se esfuma e passa.
Mas o torvo dragão da guerra soberana
Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana,
Disputando o poder e denegrindo a raça.
Eis, porém, que o Senhor, na América nascente,
Acende nova luz em novo continente
Para a restauração do homem exausto e velho.
E aparece o Brasil que, valoroso, avança,
Encerrando consigo, em láureas de esperança,
O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Pedro de Alcântara
O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos, que, bem o sabemos, há quem diga não serem da sua lavra. Ignoramos por que
Dom Pedro 2º, alma boníssima, vibrátil e espírito culto, não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos, a
ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta
aos 20 anos. De qualquer forma, entretanto, o que se não poderá
negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que, de Dom
Pedro, conhecemos.

Meu Brasil
Longe do meu Brasil, triste e saudoso,
Bastas vezes sentia, mal desperto,
Com o coração pulsando, estar já perto
Do pátrio lar risonho e bonançoso.
E deplorava o rumo escuro e incerto,
Do meu desterro amargo e desditoso,
Desalentado e fraco, sem repouso,
O coração em úlceras aberto.
Enviava, a chorar, na aura fagueira,
Minhas recordações em terna prece
Ao torrão que adorara a vida inteira;
Até que a acerba dor, enfim, pudesse
Arrebatar-me à vida verdadeira.
Onde a luz da verdade resplandece.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

No exílio
Pode o céu do desterro ser tão belo,
Quanto o céu do país em que nascemos;
Nada faz com que o nosso desprezemos,
Acalentando o sonho de revê-lo.
Todo o nosso ideal pomos no anelo
De regressar, e voando sobre extremos,
Com o pensamento ansioso percorremos
Nosso amado rincão, lindo ou singelo.
Jaz no desterro a plaga da amargura,
De acerba pena ao pobre penitente,
De amaro pranto da alma torturada;
A alegria no exílio é desventura,
É a saudade na ânsia mais pungente
De retornar à pátria idolatrada.

Rogativa
Magnânimo Senhor que os orbes cria,
Povoando o Universo ilimitado,
Que dá pão ao faminto e ao desgraçado,
E ao sofredor os raios da alegria,
Se, de novo, no mundo, desterrado,
Necessitar viver inda algum dia,
Que regresse ditoso ao solo amado
Da generosa pátria que eu queria;

351

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Se é mister retornar a um novo exílio,
Seja o Brasil, lá onde eu desejara
Ter vertido o meu pranto derradeiro...
Que, novamente viva sob o brilho,
Da mesma luz gloriosa que eu amara,
Na alcandorada terra do Cruzeiro.

Soneto
No exílio é que a alma vive da lembrança,
Numa doce saudade enternecida,
Tendo chorosa a vista que se cansa
De procurar a pátria estremecida;
Com dolorosas lágrimas avança,
Do sonho que teceu e amou na vida,
Para a morte, onde tem sua esperança,
Na celeste ventura prometida.
E Deus, que os orbes cria, generoso,
Na vastidão dos céus iluminados,
Concede a paz ao triste e ao desditoso
Na clara luz dos mundos elevados,
Onde, do amor, reserva o eterno gozo
Para as almas dos pobres desterrados.

Página de gratidão
Tangendo as cordas da harpa da saudade,

352

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Venho ao Brasil buscar a essência pura
Do amor da pátria minha, da doçura
Da flor cheia do aroma da amizade.
Prende-me o coração a suavidade
Desse arroubo de afeto e de ternura
D'alma do povo meu, que de ventura
E de alegria o espírito me invade.
Do misterioso aquém da morte, eu vejo,
Sentindo, essa onda intensa e luminosa
Da afeição, que idealiza o meu desejo:
E tendo a gratidão por companheira,
Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa,
Amando mais a Terra Brasileira.

Oração ao Cruzeiro
(No cinqüentenário da Abolição)
Luminosas estrelas do Cruzeiro,
Iluminai a terra da Esperança,
Na doce proteção de um povo inteiro
Onde a mão de Jesus desce e descansa.
Símbolo sacrossanto de aliança
De paz e amor do Eterno Pegureiro,
Guardai as claridades da Bonança
Na vastidão do solo brasileiro.
Constelação da Cruz, cheia de graças,

353

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Transfundi numa só todas as raças,
No país da esperança e da bondade.
Que o Brasil, sob a luz da tua glória,
Possa escrever, no mundo, a grande história
Das epopéias da Fraternidade.

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil, símbolo da bonança,
Enquanto a guerra estruje indômita e sombria,
Sê nos planos de luta o sinal de harmonia,
Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança.
Assinalas, na Terra, o país da Alegria,
Onde toda a existência é um hino de abastança,
Guardas contigo a luz da bem-aventurança,
És o florão da paz, marcando um novo dia.
Nasceste sob a luz de um bem, alto e fecundo,
Nunca te conspurcaste aos embates do mundo,
Buscando iluminar as lutas, ao vivê-las...
É por isso que Deus, que te ampara e equilibra,
Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra,
E um coração azul, esmaltado de estrelas.

Brasil do Bem
Eis que o campo de sombra se esfacela
No doloroso e amargo cativeiro

354

.Parnaso de Além-Túmulo Da guerra que ameaça o mundo inteiro. Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro. Aniquilando a Paz do mundo inteiro. Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança. 355 . Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa. Qual furacão no auge da procela. Como a doce promessa nos caminhos!.. Meu Brasil. Grande Brasil do Bem e da Abastança. guarda a luz dessa vitória. heróica e bela.Francisco Cândido Xavier . Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade. Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante. Deus te guarde os tesouros da esperança. Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança. Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro.

Francisco Cândido Xavier . Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho. Faze o bem. 356 . do Amor e da Verdade.Parnaso de Além-Túmulo Ama a Deus.

Rasga-se a fantasia que o enlaça. na baía de Mangunça. Sonetos 1 Tudo passa no mundo. À frouxa luz de uma ventura escassa. Sob o infortúnio. Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas. Magistrado. Longe. a bordo do vapor São Luiz. E vê morrer seus ideais mais belos!. O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração. sob os atropelos Da dor que lhe envenena o sonho e a graça. 2 Ah!. porém.. se cada . O homem passa Atrás dos anos sem compreendê-los. chora e sorri.. Depois do pesadelo das mãos frias. E como o anjinho débil que renasce.Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859. se a Terra tivesse o amor.. litoral do Maranhão. Chora. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911. membro da Academia Brasileira de Letras..Francisco Cândido Xavier .. além de justo e bom. das ilusões desfeitas.. qual se encontrasse A luz primeira dos primeiros dias.

se cada seio De mãe nutrisse os órfãos. A existência seria a ardente prece Erguida a Deus do seio da abundância.. Que jamais viu um raio de alvorada Dentro da noite eterna que lhe veio Do sofrimento que ninguém conhece... Se tudo fosse amor.. Se na estrada Do contraste e da dor houvesse o anseio Do bem. que ampara a vida torturada. Ah! se os homens se amassem nessa estância A dor então desapareceria.Francisco Cândido Xavier . 358 .. Entre os hinos da paz e da alegria.Parnaso de Além-Túmulo Homem pensasse no tormento alheio..

com apenas 31 anos de idade. Mas a luta infinita continua. nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado em Itaipava. Entre os talentos da chamada nova geração. Além te espera indômita batalha. deixou Luz Mediterrânea.Francisco Cândido Xavier . Sob a luz da verdade se atenua. . de quem foi amigo dileto. a alma trabalha Buscando o céu das suas esperanças. Além de Ode a um Poeta Morto. O Espírito a si mesmo reconhece. dedicada a Olavo Bilac. Para cá do sepulcro a dor antiga.Parnaso de Além-Túmulo 359 52 Raul de Leoni FLUMINENSE. Que nos traz o desânimo. quando pensas que descansas. Bacharel em Direito. as bem-aventuranças São o sonho que o Espírito agasalha. A febre das paixões desaparece. a fadiga. Muita vez. Onde o suposto gozo se estraçalha Sob o guante acerado das provanças. a sua afirmativa nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais fulgurantes. Luta Aí na Terra. considerada como seu livro de ouro. foi deputado estadual e posteriormente Secretário de Legação. Mas. mesmo após a morte.

sempre alheio à recompensa. Dentro da expiação estranha e rude.. a alma pura. No pensamento nobre persevera De servir.Francisco Cândido Xavier . O desejo do Bem dilata a esfera Das luzes sacratíssimas da Crença. Ao colhermos a flor da juventude. Mas o tempo na sua mansuetude. Se vivemos no mal. a alma sincera. quanta agonia! Mas se o bem praticamos todo o dia. Como somos felizes. nada há que vença A alma boa. venturosos!.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra Renascendo no mundo da Quimera.. Cheio de amor e fé. Julgando-se na eterna primavera. E ao tombarmos no ocaso da existência. luminosos!. Soneto Não te entregues na Terra à indiferença. trabalha e espera. Nós revemos do livro da consciência Os caracteres grandes. É quando o nosso Espírito se ilude. 360 . Pelas sendas da vida nos espera. Junto à dor que esclarece e regenera. Nos domínios do mal.

Aspirando os olores da Pureza!. que é o Amor eterno e ilimitado E a gloriosa síntese de tudo. 361 .. então. Terás na Terra. Nós. cinge-as. Jamais medonha e trágica surpresa.... Deus. O Sonho imanta as nossas almas. “Post mortem” Depois da morte... Heróis de novas lendas carlovíngias. para a tua alma.Parnaso de Além-Túmulo Vive nas rutilantes almenaras Dos castelos do Amor de essências raras. Nós todos vamos pela vida em fora Deixando no caminho os mesmos traços. rompendo os laços Dessa animalidade atrasadora. Desatando os grilhões. a vida calma. Em Deus buscando a Perfeição que mora No cume inatingível dos Espaços!... tudo aqui subsiste. Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo.Francisco Cândido Xavier . E a morte não será. Que procura tolher os nossos passos. Cada instante de dor nos aprimora. Buscando o Indefinível. o Insondado.

De desgraças e de erros se engalana Numa incerteza amarga. Do conforto celeste os bens supremos Ao coração desalentado e triste. Para que brilhe a Perfeição da Vida. Mas na Terra a nossa alma empobrecida. E a Morte continua eliminando A influência do mal. Também existe aqui a austera pena A consciência infeliz que se condena.. existe Aos amargosos prantos que vertemos. irreprimida. porém.Francisco Cândido Xavier . Soneto Se todos nós soubéssemos na vida A Verdade grandiosa e soberana. Por qualquer erro ou falta cometida.. Sem esposar a crença imorredoura. A fé demolidora de montanhas. que entrevemos. Presa dessa vaidade toda humana. 362 . Quando a nossa alma chora nos extremos Dessa dor que no mundo nos assiste. Doce consolação.Parnaso de Além-Túmulo Neste Além que sonhamos. Vamos passando assim a vida inteira. Não faltaria o gozo que promana Dos sentimentos da missão cumprida. torvo e nefando.

.Parnaso de Além-Túmulo Quase imersos na treva da cegueira.. 363 . Nessa noite de dúvidas estranhas!.Francisco Cândido Xavier . Sem vislumbrar a luz orientadora.

Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome. Trazendo a visão doce do Céu Para o olhar angustioso de todas as esperanças. Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi. Onde busquem Teus carinhos As almas sofredoras.Francisco Cândido Xavier . tuberculoso. Estás na direção dos homens. Estás no templo de todas as religiões. . E a verdade.. a 17 de setembro de 1899. Foi cognominado – “o poeta triste das rimas róseas”. aos 24 de novembro de 1927..Parnaso de Além-Túmulo 364 53 Rodrigues de Abreu POETA nascido em Capivari. Senhor! Eu não pude ver-Te. Publicou Casa Destelhada. É que Te achavas. Nos bem-aventurados do mundo. São Paulo. Noturnos e Sala dos Passos Perdidos. meu Senhor. Vi-te. Em todos os caminhos de suas atividades terrestres. em Campos do Jordão. como ainda Te encontras. Nos caminhos mais rudes e espinhosos. e desencarnado. além de inúmeros trabalhos esparsos na imprensa do seu Estado. Consolando os aflitos e os desesperados. Senhor. Nunca pude enxergar As Tuas mãos suaves e misericordiosas. Onde gemiam as dores e as misérias da Terra.

sonho e amor. Quando Te vi na paz da Natureza. . Chamaste-me. Mocidade. Com a mansidão de Tua misericórdia infinita. Com o verbo silencioso do Teu amor. Senhor. Chamaste-me sem exclamações lamentosas. Cheia de piedade para com as suas fraquezas. Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os homens. Curando-me com a Dor. E entendi-Te. Iluminando o santuário do meu pensamento Com a Tua luz de todos os séculos! Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha.Francisco Cândido Xavier . E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo. porém. Multiplicaste o pão das minhas alegrias E abriste-me o Céu... E minha vida rolava no declive de todas as ânsias. Nas Tuas maravilhas de beleza. que a Terra fechara dentro de minhalma. alegria.. Vi que chegavas devagarinho. Não disseste o meu nome para não me ofender. Entretanto.Parnaso de Além-Túmulo 365 Sem que eles se apercebam De Tua palavra silenciosa e renovadora. De Tua assistência invisível e poderosa.. E não Te encontrava pelos caminhos ásperos. Inquietação ambiciosa de vencer...

. Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão. por infelicidade. Quando subi aos elevados promontórios da esperança. Gotas de mel. onde quase todos os frutos apodrecem.Parnaso de Além-Túmulo No Castelo encantado Eu ainda não era um homem. Tudo sonhei contemplando o horizonte!. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: 366 . palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu. Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus. cheia de graças. do coração. Divisando os países da beleza....Francisco Cândido Xavier .” “Ave Maria. Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma... Na embriaguez da ansiedade e do desejo. Tudo esqueci. E quando quebrava os últimos altares.. Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos. O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória.” Gotas do mel de amor.. Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes. E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas. Na inquietação da carne e do desejo.

Fez fugir-se-me a noiva idolatrada.Parnaso de Além-Túmulo “A sombra da ilusão envenena-te a vida. Afastou-me a alegria da saúde.” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia.. E. Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia... “Guarda as minhas verdades. “Sou a Dor. Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento. Deu-me as sombras dos Campos do Jordão. “Eu corrijo as paisagens interiores. Trago-te o pão dos grandes amargores. Casou-se comigo a Dor. Que a senti junto a mim. 367 . ficarei sempre contigo. de tal maneira. Deixou-me só na lôbrega jornada. Fez de meu sonho a casa destelhada. desde esse momento. “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados.. meu amigo. “Irás comigo a mundos ignorados. afoitamente. Na minha estrada de alegria. Apodreceu meu coração em sua mão..Francisco Cândido Xavier . a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra. “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira...

. Enxergando na tamareira da esperança.. Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade. Mas oh! suave milagre de ventura.Francisco Cândido Xavier .. A cuja sombra o espírito descansa. E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente. Pela sua porta estreita. Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença. Nas grandezas de Tua claridade... ó Senhor de Bondade. doce e balsâmica da crença. meu Senhor. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! 368 . meu Senhor. Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo. Sustentando a infeliz Humanidade. Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!.. O único fruto eterno..Parnaso de Além-Túmulo Crestou-me a flor ditosa da alegria.. Pelos desertos áridos do mundo. Cala-se o meu verso humilde. Tudo levou-me a dor incontentada. bom e fecundo.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

369

54
Souza Caldas
NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro, em 1762, e aí desencarnado em 1814. Formado em Direito pela Universidade de
Coimbra, abraçou mais tarde a carreira eclesiástica, ordenando-se
em Roma. Dizem que as suas melhores composições, as que o
levaram a ser preso pelo Santo Ofício, perderam-se. Acreditamos
que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos
Salmos de David, justamente, de suas obras poéticas, a mais
apreciada.

Ato de contrição
A vós
Senhor,
Meu Deus
De Amor,
Minhalma
Implora
A salvação!
Meu Pai,
Bem sei
Que mal
Andei,
Buscando
O erro
E a imperfeição;
Assim

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Pequei,
Na treva
Errei,
E jus
Eu fiz
A expiação.
Vós sois,
Porém,
Farol
Do Bem!
Ouvi
Dos Céus
Minha oração.
Sois vós
A luz,
E junto
A cruz
Do meu
Sofrer,
Quero o perdão;
Perdão
Que traz
Sossego
E paz
Ao meu
Viver
Na provação.
Suplico-o
A vós,

370

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Na dor
Atroz,
Amara
E rude
Da contrição!
Dai ao
Meu ser,
Aflito
Ao ver
O seu
Pecado,
A redenção;
E hei de
Poder
Feliz
Vencer
Do mal
Cruel
O atroz dragão!

Versão do Salmo 12
Senhor dos Mundos, na Terra inteira,
Os maus somente é que dominam,
Rudes tiranos e os impiedosos
De coração.
Ganham favores, buscam louvores,
Espezinhando seus semelhantes,
Tripudiando nas vossas leis,

371

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ímpios que são.
Causam a ruína da vossa casa,
Lançam injúrias ao vosso nome,
Adoradores da iniqüidade,
Da imperfeição.
Vossas ovelhas são confundidas,
E sufocadas pelo amargor,
Fracas e pobres andam saudosas,
Do vosso amor.
São elas todas, pobres e humildes,
Glorificai-as, meu Criador!
Alevantai-as do abismo escuro
Com a vossa luz!
Vossa bondade, imensa e eterna,
É a esperança dos pecadores;
Pai amoroso, salvai os homens,
Confio em vós!

Versão do Salmo 18
Por toda a parte
Veja a criatura,
Na noite escura
Da sua dor,
A eterna força
De um Deus clemente,
Onipotente,
Cheio de amor.

372

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Astros e mundos
No céu girando,
Aves cantando,
O mar e a flor,
Todos os seres
Hinos entoem,
Cantos ressoem
Ao Criador!
Eterno Artífice
Que os sóis modela,
Lustres da auréola
Da Criação,
Sois a bondade
A mais perfeita,
A Luz Eleita,
A salvação.
Doce refúgio
Dos desgraçados,
Aos meus pecados,
Muitos que são,
Imploro e clamo,
Com o meu espírito
Turbado e aflito,
Vosso perdão.
Que desprezei
O ouro brilhante,
Lindo e faiscante,
Bem sei, Senhor!
Como fugi
Da hora fugace
Que me afastasse
Do vosso amor!
Mas bem sabeis

373

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que a carne impura
Leva a criatura
A mais pecar;
Fazendo assim
Pra meu tormento,
Meu pensamento
Prevaricar.
Porém, o vosso
Amor profundo
Redime o mundo
Do padecer;
Dando-lhe o tempo
E áspera lida
Para na vida
Tudo vencer.
Vós que acendestes
Faróis brilhantes,
Sóis rutilantes
Dalmo esplendor,
Cantando a vida,
A onipotência
E a pura essência
Do vosso amor!
Que sois o sol
Dos universos,
Mundos dispersos
Na imensidão.
Além da força
Vós sois, também,
O sumo bem
E a perfeição
Que vence o mal,
O orgulho e a dor,

374

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que o pecador
No coração
Guarda com zelo,
Cruéis inimigos,
Que são amigos
Da perdição.
Misericórdia,
Assim espero,
Almejo e quero
Para que eu
E os meus irmãos
O mal deixemos
E abandonemos
Buscando o Céu.
Por vossa causa
O maior gozo,
Esplendoroso,
Desprezarei,
Para que eu viva
Na luz fulgente,
Eternamente,
Da vossa lei.
Assim, Senhor,
Minhalma aguarda
A luz que tarda
Ao mundo vão,
Que há de esplender
Nos homens todos,
Limpando os lodos
Da imperfeição.
Dominareis
Toda a impiedade
Pela verdade

375

aguardo Do vosso amor Consolo à dor. Amparo e luz! 376 .Parnaso de Além-Túmulo Que em vós transluz! E. servo.Francisco Cândido Xavier .

Se eu quisesse gozar. Ao trilhar os carreiros dos tormentos. na aspereza dos caminhos. Pois no mundo pequeno da minhalma. Pois fui também humano entre os humanos. Não que eu fosse infeliz e desditoso. Viu as almas tremerem. Sob o peso da própria iniqüidade. dos meus anos. E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. teria o gozo. Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram. alma iludida. Afastado do Puro e do Perfeito. O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas.Francisco Cândido Xavier . Encontrei o prazer pelos espinhos. desditosas. 377 . E através dos meus dias. Coração enganado. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida.Parnaso de Além-Túmulo 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos.

Em torno dirigia Um último olhar.Parnaso de Além-Túmulo Quando em dor me envolvia a desventura. Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis.Francisco Cândido Xavier . Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista. Agonizava o senhor Dos domínios extensos. destruidoras. E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia. Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso. entre cansaços. O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar. bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor. 378 . Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz. Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas.

De cólera severa Já que ele era o senhor. nenhum lhe obedecia. A sua alma despida das grandezas. Bem após o transcurso de alguns anos De triste letargia. Das terrenas. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho 379 .. Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores. Expirou para o mundo O nobre castelão. entretanto. efêmeras realezas. Imerso em turvação. Tomado de energia. E em espasmos convulsos. Estranhou revoltado. às vezes. E em atitude austera. Contemplou seus tesouros passageiros. Somente. Opresso o coração.Francisco Cândido Xavier . Que ninguém acudisse ao seu chamado.Parnaso de Além-Túmulo Martirizando as almas sofredoras. Reclamou os seus servos com calor E. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores. derradeiros. Mergulhado no pranto mais profundo.. A exclamar.

Penetrada de doce claridade. E cheio de fervor. Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena. constantemente. Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações.. Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim.Parnaso de Além-Túmulo Em ser incompreendido. De contínuos pesares e agonias. da Luz do Bem: – “O que sofres. Humilde penitente. De luz confortadora. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente.Francisco Cândido Xavier . O pobre sofredor. No auge do amargor. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade E lhe dizia Da beleza do Amor. Todavia. Que hoje te envolvem os lúridos momentos 380 . amigo. Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz. é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. Durante o transcorrer de muitos dias. Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena..

Francisco Cândido Xavier . As mágoas escabrosas. Porém. Jamais vestiste os nus. a flor-tesouro. Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. O sentimento-luz. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém. Voltarás. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade.. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo. nem consolaste Aquele que sofria.Parnaso de Além-Túmulo Em rudes sofrimentos E estranhas maldições.. Conhecerás As dores e amarguras. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor. E permite que voltes aos humanos. já não terás Efêmeras venturas. a todo o instante. Serás agora escravo e não senhor. Para que se dissipem teus enganos No amargor. Pelas estradas rudes e espinhosas! 381 .

. De alegria.” Nesga de Céu A alma extasiada Sobe. sobe. Além.Francisco Cândido Xavier . Transformados em notas musicais.. fulguram sóis. A ventura. De alegria perfeita.. Não residem no Mal e sim no Bem... Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida.Parnaso de Além-Túmulo Abençoa o Senhor Que te concede a dor. Como se fora feita De luar. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais... A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia.. Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm. o fulgor. 382 .

Como um éden de luz E de amor.Francisco Cândido Xavier . muito ao longe. mais além. querida. onde a vida É a imortalidade Anelada. Nos espaços sem termos. De pureza. Ao longe.. Sorridentes. imagens de esplendor. E lembra-se que sofreu. Cenários majestosos. Aos clarões dessa aurora. Nesgas do céu. que padeceu. Ainda além. Que amou. flutuantes. A Via-Láctea transluz. de beleza.. radiantes. Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos. O mundo É um ponto negro que gira. A alma chora Em êxtase profundo. De perfeição e de felicidade! 383 .Parnaso de Além-Túmulo Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis.

Francisco Cândido Xavier . Mas cada gota amarga dos seus prantos 384 . Intérmina de gozos!. em frente.Parnaso de Além-Túmulo Em baixo as vastidões. A alma se extasia Na luz do Eterno Dia.. luz. Melodia. aroma!.. Em cima. as emoções Do ilimitado. de sonho.. Vidas de estranha dor. Da mais pura alegria. O caminho é risonho. E.. Como um país de doce primavera. Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado. Um futuro esplendente Pintalgado de rosas. Recamado de flores perfumosas. Com os pensamentos puros e radiosos... Feito de éter. Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera.

Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! 385 . Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos. Em suavíssima unção. Chorando.Parnaso de Além-Túmulo Agora É um raio de aurora. A pobre alma orando.Francisco Cândido Xavier . Que a engrinalda de luz.

no entanto. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. Nas horas tristes e amarguradas. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val. foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso. Na luta intensa que encheu meus dias. Não sou. Quando escutamos as vozes claras . aos 19 de janeiro de 1930. Esclarecia meu coração.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo. cheio de escolhos. em 1871. Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte. – O mensageiro da Perfeição. na cidade de Caratinga. Modesto quão talentoso. Quando no mundo de exílio e sombra. que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu. É que o Evangelho do Cristo amado. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio. Portugal. poetou e desencarnou.Francisco Cândido Xavier .

Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã. De ser vencido no mundo vão. Graça divina de haver sofrido.. Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor. Subi o Gólgota dos meus pesares. De quem me lembro na luz do Além. no Pai de Amor.. na luz da prece. Lede o roteiro dos Evangelhos. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão. Aos companheiros de luta e crença. Deixo a minhalma falar aqui.Parnaso de Além-Túmulo Da consciência. Vós. E. então.Francisco Cândido Xavier . 387 . Dor de quem sofre sonhando e espera. E a paz na morte tereis também. que ficastes no mundo ingrato. Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. doce e cristã. Da graça imensa que recebi. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma. eu pude adormecer Na paz serena. Com fé sincera.

Francisco Cândido Xavier . o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz. Sonhos diletos de sofredor. --. Perdi na Terra doces afetos.Parnaso de Além-Túmulo Nas desventuras da provação.Fim --- 388 . A piedade. Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor. E a Morte trouxe-me a liberdade.

colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos.) .Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a). escolas para crianças e jovens carentes. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. versículo 9. Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. 3.” Paulo. “Porque nós somos cooperadores de Deus. em busca constante da paz no Reino de Deus.Francisco Cândido Xavier . Se você leu e gostou desta obra. Irmão W. (1ª Epístola aos Coríntios. os seus escritores. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social. financeiramente. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. As obras espíritas nunca sustentam. etc. O livro espírita.

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