Francisco Cândido Xavier

Parnaso de
Além-Túmulo
Ditado por

Espíritos diversos

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Índice
À guisa de prefácio .......................................................................... 4
Francisco Cândido Xavier ............................................................. 14
Palavras minhas ............................................................................. 15
De pé, os mortos!........................................................................... 21
1 Abel Gomes ............................................................................... 24
2 A. G............................................................................................ 25
3 Albérico Lobo............................................................................ 26
4 Alberto de Oliveira .................................................................... 27
5 Alfredo Nora.............................................................................. 30
6 Alphonsus de Guimarãens ......................................................... 32
7 Alma Eros.................................................................................. 35
8 Álvaro Teixeira de Macedo....................................................... 38
9 Amadeu (?) ................................................................................ 39
10 Amaral Ornellas ...................................................................... 40
11 Antero de Quental ................................................................... 43
12 Antônio Nobre ......................................................................... 56
13 Antônio Torres ........................................................................ 63
14 Artur Azevedo ......................................................................... 65
15 Augusto de Lima ..................................................................... 68
16 Augusto dos Anjos .................................................................. 74
17 Auta de Souza........................................................................ 106
18 B. Lopes ................................................................................. 118
19 Batista Cepelos...................................................................... 121
20 Belmiro Braga ....................................................................... 124
21 Bittencourt Sampaio .............................................................. 130
22 Cármen Cinira ....................................................................... 135
23 Casimiro Cunha ..................................................................... 147
24 Casimiro de Abreu ................................................................ 167
25 Castro Alves .......................................................................... 177
26 Cornélio Bastos ..................................................................... 185

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Cruz e Souza .......................................................................... 186
Edmundo Xavier de Barros ................................................... 206
Emílio de Menezes ................................................................ 208
Fagundes Varela .................................................................... 210
Guerra Junqueiro ................................................................... 214
Gustavo Teixeira ................................................................... 239
Hermes Fontes....................................................................... 240
Ignácio José de Alvarenga Peixoto ....................................... 244
Jesus Gonçalves..................................................................... 246
João de Deus.......................................................................... 247
José do Patrocínio.................................................................. 304
José Duro ............................................................................... 305
José Silvério Horta ................................................................ 307
Júlio Diniz ............................................................................. 309
Juvenal Galeno ...................................................................... 314
Leôncio Correia ..................................................................... 323
Lucindo Filho ........................................................................ 324
Luiz Guimarães Júnior .......................................................... 326
Luiz Murat ............................................................................. 328
Luiz Pistarini ......................................................................... 329
Marta ...................................................................................... 330
Múcio Teixeira ...................................................................... 342
Olavo Bilac............................................................................ 343
Pedro de Alcântara ................................................................ 350
Raimundo Correia ................................................................. 357
Raul de Leoni ........................................................................ 359
Rodrigues de Abreu............................................................... 364
Souza Caldas ......................................................................... 369
Um Desconhecido ................................................................. 377
Valado Rosas......................................................................... 386

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À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à

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revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias
e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto, nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria, senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo

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dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos
olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções; ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.

Romantismo. é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu.. são incontestavelmente belas no fundo e na forma. Teresa de Jesus. Senão.. Múltiplas vidas vivemos. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. como retinem cristalinas e contrastantes as mais variadas formas literárias. não só concorrem poetas brasileiros e portugueses. etc. pelo contrário. Simbolismo. É ler Casimiro e reviver Primaveras. aí se ostentam em louçanias de sons e de cores.Francisco Cândido Xavier . Do verde do lindo mar! É Casimiro. mas objetivamente. Aqui.. a sobrevivência dos seus intérpretes. é declamar Junqueiro e lembrar a Morte de Dom João. Parnasianismo. como a facilitarem de conjunto a identificação de cada um. é recitar Castro Alves e sentir Espumas Flutuantes. para afirmar não mais subjetiva.Parnaso de Além-Túmulo 8 As de Napoleão 1º. mas não características de tais entidades. Do verde da Natureza. vejamos: Oh! que clarão dentro d’alma. O pensamento sonhando E o coração a cantar. Condoreirismo. Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer. Constantemente cismando. . Da luz do Criador nascemos.

É Castro Alves. E isto o dizemos porque o médium Xavier. os estrumes. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar.. de grande cultura e treino poético. feliz. sequer... Duvidamos que o mais solerte plumitivo.Francisco Cândido Xavier . as carnes. ardentes. esta produção. nas preces da harmonia!. E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando à luz das amplidões divinas. um quase adolescente. inconfundíveis na modulação de suas liras encantadas e decantadas. sem lastro. e mais – quando de alguns autores não conhece uma estrofe! . Era o festim do amor. No firmamento em luz. cujo estilo não temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade personalíssima se impõe. Descansa..Parnaso de Além-Túmulo 9 Para à mesma luz volver. ainda que premeditadamente. agora vibrião das ruínas. todos os mais. Pairava na amplidão estranho resplendor. portanto. recebe-a de jacto.. Esquece o verme.. aí estão vivos. É Junqueiro. É Augusto dos Anjos. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. E todos.

que faz do mestre-escola. certo estamos. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto. ficará como baliza fulgurante. pramido pelo ganha-pão. para não pretender colimar renomes literários. que. na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. em tese. . Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. em linguagem eloqüente. mas é a verdade nua e crua. e aos confrades. Filho de pais pobres. Órfão de mãe aos 5 anos.Francisco Cândido Xavier . um acadêmico. em particular. esta obra mediúnica. também em tese. o pai infenso a literatices e. ao demais. um quase adolescente. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. que não podia ter o estímulo ambiente. de contrapeso. muito além das quatro operações e da leitura corrida. nem uma problemática hereditariedade. nascido ali assim em Pedro Leopoldo. um galopim eleitoral e não vai. *** Mas. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. um bacharel formado. é bem de ver-se que não teve. verdade que. nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família. com borrifos de catecismo católico. em geral. a Pátria e a Humanidade? Nada disso. nem um.Parnaso de Além-Túmulo 10 É extraordinário. será maravilhoso. pequeno rincão do Estado de Minas. Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. não pode ficar debaixo do alqueire. qual a Luz.

porém. a realização essencial do fenômeno? . mas. É um fato. certa vez. de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar. Há vocábulos de étimo que desconhece. É tudo inesperado. o médium. Não há ideação prévia. por outro lado. Nós mesmo vimos. cujo flagrante não presenciamos – ele. em São Paulo. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. não há encadeamento de raciocínios. nada nos disse o médium. mas da ferramenta por eles utilizada. e não querendo. figuras de retórica. endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever. como definir e transfixar a captação. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. fixação de imagens. teorias científicas. Agora. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio. doutrinas. nas quais estereotipa a sua figura moral. tanto quanto do seu manuseio. há fatos e recursos de hermenêutica. explosivo. torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo. que ignora. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários.Francisco Cândido Xavier . o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço.Parnaso de Além-Túmulo 11 Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que.

vale sempre por mil e uma teorias. mais sutis e delicados do que esses que. na volúpia de escandir quand même. precipuamente. e um fato. antes complicam. e isso ele o faz a seguir. por mais insólito que seja. de maneira impressionante.. fica-lhes a liberdade de conjeturar. que mal podemos imaginar e que. por vindos de tão alto. porque o fato aí está na plenitude de sua realidade.Francisco Cândido Xavier . ou a fatores outros. que participa do meio físico contingente. encarregado de apresentar esta obra. amiúde. de um trabalho de identificação autoral. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina. sem contudo negar. enfim. aos cépticos. em suma. devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão. na radiofonia. Aos outros. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. faisqueiros de nugas e nicas. ou taliscas. ocorrem na telepatia. para só . no entanto. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis.. Catões e Zoilos de compasso e metro. Tal como no-lo deram. racional e logicamente devem existir. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. que nada explicam. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. Trata-se. para melhor explicar. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados. em tudo.Parnaso de Além-Túmulo 12 Só o médium poderia fazê-lo. *** Como nota final aos argos da crítica. não só por nos falecer autoridade e competência. diremos que.

) . foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. nas posições mais modestas do comércio. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. na Estação de Quirino. estão estampadas na edição de janeiro de 1955. 1918. para serem public adas após a sua desencarnação. invejável cultura humanística. Como membro do Grupo Ismael. (Nota do Editor. no Rio de Janeiro. muito apreciados. Chefe de família numerosíssima. M. Foi jornalista. inclusive a Presidência nos anos 1915. nascido em 28 de maio de 1874. Quintão1 1 MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO. Ingressou na FEB em 1903. Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século. estudioso incansável.Parnaso de Além-Túmulo 13 apreçarem a obra que ora lhes apresentamos. Foi guarda-livros. dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. como autodidata. depois de lutar com imensas dificuldades.Francisco Cândido Xavier . este último editado pela FEB. Marquês de Valença. e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. Em 1939. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador. integrando-lhe o quadro social por 44 anos. 1919 e 1929. como jovem sem recursos financeiros. RJ. conseguiu. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios.

primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. “Há Dois Mil Anos..Francisco Cândido Xavier . Respeitado e estimado em todo o Brasil. onde é popularíssimo. Aposentou-se como funcionário público federal. respectivamente. Transferiu-se para Uberaba. Viajou para o exterior algumas vezes. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século. Castelhano. sempre no exercício do seu mediunato. . publicou.Parnaso de Além-Túmulo 14 Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. afável e operosa. onde residiu até dezembro de 1958. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica.. em julho de 1932. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus. Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. desencarnados em 1960 e 1915. Criatura simples. MG. MG. Japonês.” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados. o “Parnaso de Além-Túmulo”. em janeiro de 1959. diversos deles publicados em Esperanto. Inglês e Francês. em 2 de abril de 1910. goza ele ainda de sincera admiração em outros países.

quando então consegui um emprego no comércio. porém. sempre estudei o que pude. como o são as lições das escolas primárias. que acima de tudo ama a verdade. E até aqui. Mas. órfão de mãe aos cinco anos. Filho de um lar muito pobre. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos. num grupo escolar. porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. das quinze horas às duas da manhã. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos. se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. em casa. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. quanto à sua formação. constantemente. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. pude chegar até ao fim do curso primário. E.Parnaso de Além-Túmulo 15 Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso. quando contava oito anos. onde o serviço dura das sete às vinte horas. com um salário diminuto. É verdade que. mas meu pai . julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal. em 1910. mas onde o trabalho é menos rude. estudar como? Matriculando-me. história e vernáculo.Francisco Cândido Xavier . prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade. Minas. essa situação modificou-se em 1923.

a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. para nossa casa. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra. espírita convicto. ofereceu-nos até a sua residência. Prosseguindo nas minhas explicações. sequer. foi acometida de terrível obsessão. sempre a braços. de desconforto. em maio do ano referido. foi sempre alheio à literatura. José Hermínio Perácio. por diferençar muito pouco essas questões. Verdadeiro discípulo do Evangelho. freqüentando-a mesmo com amor. mas. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. neste ponto. O meu ambiente. tanto à sua família. para mim. pois. desde os tempos de criança. Jamais tive autores prediletos.Francisco Cândido Xavier . Vários dias consecutivos foram. todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. como eu. como verdadeiramente não podem. onde se não pode pensar em letras. onde então. ambiente de pobreza. num ambiente totalmente . até hoje. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. realizar as minhas esperanças. os meus desejos de estudar. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. Foi quando decidimos solicitar o auxílio de um distinto amigo. Os meus familiares não estimulavam. bem distante da nossa. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. Fui pois criado com as teorias da igreja. Até 1927. pioras de amargos padecimentos morais. de penosos deveres. eis que uma das minhas irmãs.Parnaso de Além-Túmulo 16 era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. o Sr.

desenvolveram-se em mim. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. a vidência. orientando-se quanto aos seus deveres.) . para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam. simultaneamente. médium dotada de raras faculdades. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. por intermédio da esposa do nosso amigo. quando na Terra. que regressara ao Além em 1915. sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina. como o são os daqueles confrades a que me referi. em 1944. Aí. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida.Parnaso de Além-Túmulo 17 modificado. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos. entrando em pormenores da nossa vida íntima. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. que a minha mãe. que essa senhora desconhecia. as suas faculdades mediúnicas. semimecânico. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. de maneira clara e mais intensamente. 2 2 Só nos últimos dias de 1931. Resolvemos. que se tornou inabalável. com a graça de Deus. com ingentes sacrifícios. minha irmã hauria. a audição e outras faculdades mediúnicas.Francisco Cândido Xavier . então. (Nota do médium para a 4ª edição. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. desenvolvendo. para nosso benefício.

nas reuniões. porém. não posso dizer que são minhas. é que. porém. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre. assim. parece que pesava muito. controladas pela sua senhora.Francisco Cândido Xavier . a nossa alegria aumentava. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas. O que posso afirmar. em companhia de sua esposa. contudo. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. o que perdura até hoje. era a de que vigorosa mão impulsio- . apesar de muito a contragosto de minha parte. chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. e. psicografando-as. em consciência. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar. porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. prosseguindo em nossas reuniões. ornada das mais superiores qualidades morais e que. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época.Parnaso de Além-Túmulo 18 Daí a pouco. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas. os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. assinadas por nomes respeitáveis. a moral profunda que era ensinada. do corrente ano. decorridos dois anos. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. categoricamente. entre as suas mediunidades. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio. Não desanimamos. Nossas reuniões contavam. alma nobilíssima. grande número de assistentes. por conhecer as minhas imperfeições. ao escrevê-las. Em agosto. A sensação que sempre senti.

Muitas vezes. em particular. mantidas desde os 5 anos de idade. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente.3 3 Ao escrever estas palavras. esse estado atingia o auge. sem que se produzisse escrito algum. era necessário recorrermos a dicionários. na fenomenologia espírita. que alguém mas ditava aos ouvidos.Parnaso de Além-Túmulo 19 nava a minha. o nome de qualquer dos comunicantes. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo. doutras. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade . pertencem igualmente à fenomenologia espírita. parecia-me ter em frente um volume imaterial. Passavam-se às vezes mais de dez dias. é o que experimento. melhor o resultado obtido. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. ao psicografá-las. acontecendo o mesmo com o cérebro. jamais obtive outra coisa. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. ao recebermos uma destas páginas. julgando minha obrigação. a não ser esses escritos. em nossas preces. frisar aqui também. as menores impressões físicas. não sentindo. e. por momentos. que. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. Doutras vezes. apesar de todo o meu bom desejo. quanto menor o número de assistentes. porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. Certas vezes. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. onde eu as lia e copiava. experimentando sempre no braço.Francisco Cândido Xavier . fisicamente.

desde a infância. Pedro Leopoldo. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. por intermédio de instrumento tão mesquinho. o carinhoso interesse do distinto confrade Sr. porém. que inspiraram esta obra. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e.Francisco Cândido Xavier . Perácio. rizinhos ridiculizadores. Há de haver. que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. os meus saudares. os seus salutares ensinamentos. ainda. que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo. etc. e dou-me por compensado do meu trabalho. A todos eles. M. Terei feito compreender. dezembro de 1931. noutros. todavia. entre mil dos primeiros. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. Quintão. Cármen P. Também isso são fenômenos espíritas. a verdade como de fato ela é? Creio que não. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. Francisco Cândido Xavier nas sessões espíritas. transmitindo.Parnaso de Além-Túmulo 20 Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. (Nota da Editora) .?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está. Um desses que haja. com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. E aqui termino. a quem me lê.

Parnaso de Além-Túmulo 21 De pé. ao surgir a 1ª edição do Parnaso. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5 . publicada em 1935.Francisco Cândido Xavier . Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade. segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos.4 A tarefa é difícil. quando encarnado. o mundo constituiria um conjunto de aspectos inverossímeis e inesperados. 4 Refere-se à 2ª edição. (Nota da Editora) Alude às crônicas que ele. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias. os campos se apresentariam como desertos. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. escrevera no Diário Carioca.) 5 . Nas minhas atuais condições de vida. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. como se os nossos amargores. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva. em julho de 1932. Decerto. no domínio do conhecimento e da sensação. Individualmente. que aparecerá brevemente em nova edição. os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de Além-Túmulo”. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. (Nota da Editora.

Conta-se que na guerra russo-japonesa. o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama. Todos aí estão dentro das suas características. aguardando a sua palavra. Casimiro com a sua sensibilidade infantil. concitou-os a auxiliar as manobras militares. – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. os mortos!. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência. Junqueiro com a sua ironia.Francisco Cândido Xavier .. Antero com a sua rima austera e dolorosa. – De pé. e na tristeza majestosa do ambiente. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo. a visitar os cruzadores de guerra. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. dirigiu-se aos mortos em termos comovedores. de mulher e de menina.. Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos. em nome da nacionalidade. Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante. terminada a batalha de Tsushima. Na atualidade.Parnaso de Além-Túmulo 22 Mas é razoável que apareçamos no mundo. .

membro da Academia Brasileira de Letras. sob a orientação do Anjo Ismael. das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. (Nota da Editora) . Liberto dos liames da carne. entre o assombro e a esperança. Ditou-nos 12 livros. A Ciência. e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X. com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. ainda não ouviu a sua vibração misteriosa. dois anos depois passou ele a valer-se. Humberto de Campos6 (Espírito) 6 HUMBERTO DE CAMPOS Veras. edições de 10 e 12 de julho de 1932. em 1934. zelosa de suas conquistas. mas esses mantos estão rotos!.. que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. Pátria do Evangelho”. como a que se inseriu nesta página. como Espírito. páginas 60 a 64. em 1886. Foi jornalista e deputado federal. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz. 4ª ed. Coração do Mundo. e desencarnado no Rio de Janeiro. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”.. o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. visando à cristianização da Humanidade. escritor brasileiro. editados pela FEB. MA. Temos frio. temos fome.Francisco Cândido Xavier . de Miguel Timponi. já em 9ª edição. Vale destacar “Brasil. Produção literária variada quão vultosa. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis. FEB). acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado.Parnaso de Além-Túmulo 23 As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo.

. Asperezas dos homens da caverna. Eis que a Terra tem crimes e tiranos. Espírito dinâmico. posto que fisicamente inválido. no turbilhão da sombra imensa. Nas torturas de um novo cativeiro. deixou alguns livros inéditos. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. poeta e professor. desvarios.Parnaso de Além-Túmulo 24 1 Abel Gomes ESCRITOR. além de copiosa obra esparsa. Mas vós tendes Jesus em cada dia.Francisco Cândido Xavier . Mas vós. Na conquista de luz da Vida Eterna. Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro. como lobo carniceiro. desenganos. Ambições. Ameaça a verdade e humilha a crença. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934. Tendes convosco o Excelso Companheiro. Trabalhemos na dor ou na alegria. dos quais dois já editados pela Federação.

. calmo e austero.Parnaso de Além-Túmulo 2 A. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza. Num dilúvio de lírios e de rosas. G. Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso.. A morte abriu-me as catedrais radiosas. Irmã da paz e da serenidade. Filhos da luz de uma outra Natureza.Francisco Cândido Xavier . Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias. Que abriu meus olhos na imortalidade. À esperança de todos os meus dias! 25 . Morte Silenciosa madona da tristeza.

E dos quadros risonhos do meu porto. Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! .Parnaso de Além-Túmulo 26 3 Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942. Adeus mágoas da noite estranha e densa. É doce descansar após a lida. Das angústias e sonhos do passado. Quintão Viajor vacilante e extenuado. Ante o novo caminho ilimitado. Do meu porto Ao caro amigo M.Francisco Cândido Xavier . em prosa e em verso.. Não conservo senão o Amor e a Crença. Funcionário público. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa. Depois de atravessar a sombra imensa.. colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. Rememorando as dores que passaram. Banhar o coração na luz da vida.

que sepulta a quimera. E no escuro bulcão só Jesus persevera. dedicou-se principalmente ao Magistério.Parnaso de Além-Túmulo 27 4 Alberto de Oliveira FLUMINENSE. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre. nascido em Palmital de Saquarema. soluça.. e falecido em Niterói. Entre as vascas da morte. No pavor de esperar a angústia que vem perto!. em 1859. a alma pobre. sobre a estrada sombria. entre escombros. parnasiano de escol. em 1937. em rumo escuro e incerto. Jesus Quanta vez. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração. o peito exangue e aberto. O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno. tudo é vão. Desespera. Nessa grande amargura. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia. Do mundo é a escuridão.Francisco Cândido Xavier . .. Como a luz imortal do amor que nunca morre.. Farmacêutico. neste mundo. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto..

Sente o extremo pavor que a morte lhe revela. abatido em seu horto. foge à sombra e à vingança. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. Seja a bênção de amor a luz do teu destino. Seu coração é um mar que se apruma e encapela. no último dia. Tudo o que era vaidade. como raios de aurora. Agora. Nas trevas do ladrão. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino. ajuda e passa. Do último dia O homem. Planta a bênção da paz. Esclarece a alegria e consola a desgraça. compreende.Francisco Cândido Xavier . Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. 28 . agora é desconforto. Não troques mal por mal.Parnaso de Além-Túmulo Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana.. que é náufrago sem porto. arrima-te à esperança. o ninho e a sepultura. na dor da alma perjura. Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela. hoje e amanhã. Na eterna lei de amor que consagra a criatura.. mundo afora. Não te aflija a miséria. Irradia o perdão e atende. Do pobre coração. No pungente estertor do peito quase morto.

Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo. 29 .Parnaso de Além-Túmulo Somente o que venceu nesse mundo mesquinho. Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais. Conservando Jesus por verdade e caminho. homem vão? Cala em ti todo alarde.Francisco Cândido Xavier .

1 Lasneau amigo. Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. Poeta e jornalista. Cheia de lama e fumaça. Agora é que entendo isso. É minúscula palhoça. não é bilhete. Carta ligeira Meu Lasneau. guerra e cachaça. tornou-se funcionário da Central do Brasil. A Terra. É feio talhão de roça. e desencarnou em 13 de novembro de 1948.. Não é ofício. nem ata.. Onde a carne.Francisco Cândido Xavier . no município de Piraí.Parnaso de Além-Túmulo 30 5 Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. aposentando-se como Agente de 1ª classe. esta choça. Estado do Rio. Detendo por balda nossa Descrença. passa. . Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa. É o coração que desata Meus pesares num lembrete. colaborou em várias revistas e jornais. ante o sol da Graça. breve.

31 .. face a face. Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece.Francisco Cândido Xavier . 2 Oh! meu caro. É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz. é clara a messe Da sementeira de asnice. Que a coisa melhore e.Parnaso de Além-Túmulo Espere sem alvoroço. A vida real começa. passe. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto. se eu pudesse Dizer tudo o que não disse. Não me olvide em sua prece.. Desejo que a luta cesse. Além da prisão de osso.

Aos crentes Ó crentes de uma outra vida.. notabilizou-se principalmente pela tonalidade mística do seu astro.Francisco Cândido Xavier . Nos caminhos enevoados. Que andais no mundo exilados.. jornalista e poeta. qual se afirma em suas obras: Dona Mística. Nas lutas de vossa esfera. Kiriale... .Parnaso de Além-Túmulo 32 6 Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães. Septenário das Dores. Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura. Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!. poeta mineiro. Escada de Jacob. Ó crentes de uma outra vida! . natural de Ouro Preto. eterna e imensa. etc. Magistrado.. Porque a Morte é a primavera Luminosa. Tangei harpas de esperança..

no Espaço luminoso e imenso. Eu ressurjo nos místicos prazeres. eu vos pertenço. das Novenas.. Rezando as orações dos Septenários..Parnaso de Além-Túmulo Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que. Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor. Retomo velhos quadros. amortalhadas. dos Terços. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas. De vos cantar. O perfume das hóstias consagradas. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres. 33 ... Dos Ofícios. Achou.Francisco Cândido Xavier . velhas cenas. Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores. E seguindo outros seres solitários.. Vozes de sinos pelos santuários. Almas tristes de freiras e sórores.. Enchendo as grandes vastidões serenas. em volutas de flores e de incenso.

34 ... Em magnificência ampla e radiosa. Um turbilhão de vozes e de lírios. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos.Francisco Cândido Xavier . Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra. o mundo inteiro vos festeja. que vos vejo nos caminhos. Senhora. porém. como cantáveis no passado. como inda faz a alma cativa! Ó sinos dolorosos e plangentes. Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos.Parnaso de Além-Túmulo A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado.. em ondas luminosas. Chorar.. Nos altares simbólicos da Igreja! Eis. Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas. Cantai.

até agora. Distribuindo os dons celestiais. Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas. Na estrada longa do destino. Seu coração freme de júbilo.Francisco Cândido Xavier . É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho.. o envenenado licor dos caprichos. O Senhor passa todos os dias. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos. choras e desesperas.Parnaso de Além-Túmulo 7 Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra. O Amado é incapaz de violentar a tua alma. Acolá... Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás. Mas. Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos. Em que estenderás ao seu amor infinito 35 . guardas o vinagre dos desenganos.. Aqui. No entanto. o Amado espera. Seu carinho aguarda a confiança espontânea. Todavia. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão. E dia virá.. Assim também..

Em busca da criancinha abandonada. Concedeu-lhe oportunidades diferentes. De tempos a tempos.Parnaso de Além-Túmulo O cálice do coração lavado e vazio.. jamais o deserdou por isso. Como pai carinhoso. 36 . Depois. Fê-lo dormir no regaço. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas. Por vezes. feriu-se em dolorosas experiências. Buscou-o no fundo dos abismos. Ao influxo do bendito esquecimento. Quando penetrou noutros círculos. Deu-lhe novas forças. O irmão Por que ajuízas com ironia.Francisco Cândido Xavier . Lutou. O Amado. sofreu. Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas.. porém.

faze-lhe o bem que possas.Francisco Cândido Xavier . Dando ao mundo o que possui de melhor.Parnaso de Além-Túmulo Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez. 37 . Se já atingiste Algum topo de colina. Ama-o. E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês. Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente. Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens.

celeste. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. na Bélgica.Parnaso de Além-Túmulo 38 8 Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. Desce gemendo. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil. Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira. A alma transpõe o túmulo chorando. em breve. . Desfaze a teia da filáucia humana. Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade..Francisco Cândido Xavier . em livro. Que a Morte. humilha e desengana A demência da carne que delira. de alma consumida. Ao turbilhão de cinza e esquecimento. E quem da luz não fez templo e guarida. Toda vaidade ao báratro se atira. Qual folha solta ao furacão violento. soberana.. Finda a festa de baldo riso infando. Publicou. O gozo desfalece à própria gana.

Onde vive e se expande o Espírito liberto. empobrecido e incerto. Venho testemunhar a luz de onde regresso. Incitando vossa alma aos planos invisíveis.Parnaso de Além-Túmulo 9 Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida. Também tive a minhalma outrora perturbada. Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida.Francisco Cândido Xavier . A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar. 39 . Que abandona a matéria exânime e cansada. Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada. incerteza e angústias consumida. De dúvida.

Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923. Providência dos que choram Nas sombras da desventura. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós . Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. deixou dois volumes de Poesia. Talento brilhante. Bendita sois vós.Francisco Cândido Xavier . Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade. Rainha! Estrela da Humanidade. O Senhor sempre é convosco. Mensageira da ternura. além de copiosa literatura teatral e doutrinária. consagrados pela crítica coeva. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos.Parnaso de Além-Túmulo 40 10 Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público. Rosa mística da fé.

Assim seja para sempre. cinza e areia. Desde a paz da Manjedoura. espera e crê. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia. Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime.. Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana. Trabalha. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória.. Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia..Parnaso de Além-Túmulo A Mãe das mães desvalidas. Às dores. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama. Nossa porta de esperança. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – 41 .. Oh! Divina Soberana.Francisco Cândido Xavier . Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória. além da Cruz.

ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz. nos braços do Tempo. Serve sem perguntar por “onde”... no País das Estrelas! 42 . “como” e “quando”.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo São portas aurorais para a Mansão Divina. E. amando por vencê-las. Purifica-te e cresce.

. arma de efeito. Fomentando o princípio desumano Da ambição onde a força prolifera... em 1842. soluçando. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas. caracterizando-se pelo seu espírito filosófico. . Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era. Como a Grande Mendiga do Universo!. Investigando a entranha da monera. A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano. nos Açores. Num caminho infeliz. Longe da Luz. Eis que a Terra te acusa. em 1891. Ciência de ostentação. sombrio e inverso. Sob o alarme guerreiro.. e desencarnado por suicídio. formidando.Francisco Cândido Xavier . da Paz e do Direito.Parnaso de Além-Túmulo 43 11 Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel.

Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras. Vosso amor. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora. luta e chora. 44 ...Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora. É a luz dos tristes e dos desterrados. Visão de tristes faces cismadoras. que enche os céus ilimitados. como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada. À morte Ó Morte. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas.. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos. Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. Amparai o que anseia. Esperança dos pobres desvalidos!. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!.. Nos crepes do Silêncio amortalhada. No labirinto amargo da existência. Que sois toda Bondade e Complacência. eu te adorei.

O gozo era a mentira dum momento. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. Olhar de pensador amargurado. E escancaraste a porta escura e fria. Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível. Depois da morte 1 Apenas dor no mundo inteiro eu via. amarga e inconsolável. Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. Só existia a dor. eu que trazia a alma já morta. Batendo alucinado à tua porta. 45 .Parnaso de Além-Túmulo Busquei-te. ela somente. Numa senda mais triste e mais sombria. Escorraçada no padecimento. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento.Francisco Cândido Xavier . Por onde penetrei no Sofrimento. Os prazeres. Ao meu olhar de triste e de descrente. E tanto a vi. 2 Misantropo da ciência enganadora.

Francisco Cândido Xavier . que se eleva. Podia ver. Que a morte era um enigma solúvel. de quem descria. Pela voz da vaidade. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. reconhecendo. encontrar as luzes puras Da verdade brilhante. todavia. então. Sobre o problema trágico. No seio dessa ciência tão volúvel. gemendo. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada. 3 Depois de extravagâncias de teoria. Recamada de dor profunda e intensa. insolúvel. Nas vastidões da terra úmida e fria. Nesse anelo cruciante e intraduzível. 46 . Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava. no entanto. Morri. Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. em toda hora. Ela era o laço eterno e indissolúvel. visão consoladora.Parnaso de Além-Túmulo Que era na dor. Vim. Não o via e. Iluminando todas as alturas. De ver o Deus de Amor.

A medonha figura de gigante Do Remorso. como se fora Apossar-me do eterno esquecimento. Aproximei-me dele. ao sepulcro fui descendo. Era de ouvir-lhe o grito gemebundo. Da morte a Paz busquei. fugindo ao mundo. E em vez de imperturbáveis quietitudes. porém. O Remorso Quando fugi da dor. na Terra. suplicante. Divisei aos meus pés. Recrudescendo as minhas dores rudes. Andei cego. E nunca encontraria abismo horrendo..Parnaso de Além-Túmulo Soneto Quisera crer.. Desvairado. Encontrei os Remorsos e o Tormento. Dizendo-lhe. De amargoso penar que se me abrisse. de olhar grave e profundo. Sua voz cavernosa e soluçante!. Sem que a Paz almejada conseguisse. Ao viver da minhalma sofredora.Francisco Cândido Xavier . cansado e moribundo: – 47 . de mim diante. que existisse Esta vida que agora estou vivendo. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo.

eu te acompanho. Nesse abismo de treva a bênção pura. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada. Sente o assédio do mal.. Onde se perde a luz em noite escura. gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem. É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura.Parnaso de Além-Túmulo “Que fazes ao meu lado. 48 . Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono. Do espírito de amor ao mal imenso.. Mais se me aumenta a chaga dolorida. Sentindo o horror que nasce dessa vida. Acordando-me em lágrimas.Francisco Cândido Xavier . Se enlouqueci no meu degredo estranho. encapelado e imenso. criou obra tamanha. Que se vive no abismo tenebroso. quando penso No mar humano. senão Deus. corvo horrendo.

senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. Poderia criar o imensurável E o Universo infinito criaria!. No coração dos homens e das feras. o Impenetrável.Parnaso de Além-Túmulo O espaço e o tempo.. intérmina piedade. Aos flagelados e desiludidos. os prantos.. Que a luz. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! 49 . as amplidões e as eras. aquece e banha? Quem.. a excelsa luz. No coração do mar e da montanha! Deus!. somente o Eterno. diria eternamente. Os soluços. Oh! se eu pudesse. os gemidos. Onde se agitam turbilhões de esferas. a mágoa mais pungente. Suprema paz. A dor mais rude. Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente.. Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente. E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse.Francisco Cândido Xavier .

Quando entre conjeturas me perdi. ó vós que estais na Terra. Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa. 50 . Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza. Ah! Crer! bem que. Mas que chega no mundo muito tarde. Dentro da vida sem compreendê-la. Que as grandes luzes místicas revela. na Terra.. dizei-lhes. Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz. Desvairado de angústia e de descrença. De tão pequena dor fazendo alarde. não possui. Despedaçou-se à falta dessa crença. distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa.Parnaso de Além-Túmulo Mas.Francisco Cândido Xavier ..

Parnaso de Além-Túmulo O pranto é a flor de aromas da saudade. diamantinos. Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem. Confiando. angústias e cansaços. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições. Misericordiosa e compassiva. Se o tormento da vida recrudesce. Mas. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos 51 . transformai-o em gozo alto e perfeito. que é da alma rediviva. Que está nas sendas lúcidas da Prece. Que perfuma e crucia o vosso peito. na Crença e na Esperança. Mão divina A luz da mão divina sempre desce.Francisco Cândido Xavier . Buscando a paz depois das grandes lutas. Sobre as dores da pobre alma cativa. Aguardai a abundância da outra messe De venturas. Procura a luz sublime dos espaços. Se a amargura das lágrimas se aviva. esperai a Providência Com os sentimentos puros. Em santa e esperançosa claridade.

Essas compactas legiões sombrias. Ao palmilhar estradas escabrosas. Como um vergel azul de lírios brancos.Parnaso de Além-Túmulo A paz e as luzes que eu não alcancei. 52 . Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. Miseráveis Espíritos que choram. Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles. Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram. e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida. Turbas de almas escravas de agonias.Francisco Cândido Xavier . Onde mora a ventura. sob os arrancos. bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. em toda a vida. Com que andei entre queixas dolorosas. Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz. Supremo engano Vê-se da Terra o Céu. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas.

Cheia. quanto o vão mortal inda se engana. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor.. A paz livre de trevas e pavores.. Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra. somente. Com teus grandes olimpos majestosos. de cólera violenta. orbe da lágrima e do erro. em minhas dores. rijos e francos.Parnaso de Além-Túmulo Sob os golpes da dor. Que entre anseios e angústias conheci! Mas. Cheios de vida e de infinitos bens. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. às vezes. Deus não representa A personalidade humanizada. Do imperturbável nada que não tens! Incognoscível Para o Infinito. Pelos seres terrenos inventada. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! 53 . de angústia e de tormenta.Francisco Cândido Xavier . Antegozei.

e. além. a crença se realiza. o homem divisa A figura das dúvidas que matam. chora e pensa. enfim. Coroado de folhas de loureiro. Fim de toda a amargura da descrença. E no meio de todas as canseiras Cheguei. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás.. Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre.. Nos labirintos da Filosofia.. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere. no mundo inteiro.. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. Porque em tudo. Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!. Quem vai de alma gemente e consumida.Parnaso de Além-Túmulo Fatalidade Crê-se na Morte o Nada. às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!.. Nunca. todavia. no mundo da Agonia. na Terra. no mundo. brasonado cavaleiro. O meu erro... 54 ..Francisco Cândido Xavier . Onde a grande certeza principia.

sem Deus. em voz soturna: – “Insensato! aonde vais.Parnaso de Além-Túmulo Mas a Verdade. Cavaleiro e corcel. Gritou-lhe. sem detença e sem barulho. sobre a humana furna. sem norte?” E impeliu. Aos tenebrosos pântanos da Morte. vaidade e orgulho. 55 . angustiada.Francisco Cândido Xavier .

Quadras de um poeta morto Coração. que importa lá? Porque os amores fiéis.. Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais.Parnaso de Além-Túmulo 56 12 Antônio Nobre NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade.. não vos canseis De bater. Voltam sim. Deixou um livro inconfundível e. edição de 1902.. . Como às aves o alçapão. Nem a morte os vencerá.. em 18 de março de 1900. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro. ainda hoje. As almas das raparigas Inda sonham nos choupais. muito estimado – Só – e Despedidas.Francisco Cândido Xavier . E por que não? Os corpos daí nos soltam.

. Sem que o veja escapulir. De vossa alma abri as portas Para.. Que choram nas horas mortas. Vós que amais a luz da Lua. E há muitos cardos e tojos 57 . acima de tudo Devemos amar a Deus. Porém. Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. Nem sempre poderá rir. não é assim. Riquezas.. os fantasmas da rua. quem ri hoje. Um dia o riso lhe foge. Quem riu ontem. Nem pó e nem solidão. Contudo. que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus.Francisco Cândido Xavier . Corações despedaçados. Venturas da boa sorte. Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus.Parnaso de Além-Túmulo Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados.. Às vezes acham-se fojos Onde há música e festins.

. se vais caminhando Na ambição de ouro e glória. ó menina. A morte só pode ser A vida risonha e pura. Nesse mundo miserando Toda ventura é ilusória.Francisco Cândido Xavier . Para quem a padecer Vive aí na sepultura.. estenderia Minhas capas de luar. Chorai! chorai orfãozinhos. Se eu pudesse. Vossas dores amargosas: Achareis noutros caminhos As vossas mães extremosas. Teu coração sonhador. Deixa cantar. Mal vais. Guardando as gotas de pranto Numa urna cor da aurora. No Universo há céus profundos.Parnaso de Além-Túmulo Entre as flores dos jardins. No sepulcro não termina O novelário do amor. Sobre os filhos da agonia Que andam no mundo a penar. Um anjo cheio de encanto Vive sempre com quem chora. 58 .

Sonho. Sem fazer conta nenhuma. O raio de primavera Que aí jamais encontrou. Na escuridão do infortúnio. claridades. A caridade é a beleza De um divino plenilúnio. fiandeiras. 59 .Francisco Cândido Xavier . a alma inda espera O alguém que na Terra amou. estrelas. Cantigas do coração. Ah! que sinto aqui saudades Das noites de São João. Aqui. Tecei sonhos. Luz que se estende à pobreza. Aos mendigos desprezados Não ridicularizeis. Um céu é um ninho de mundos. Um mundo é um ninho de amor. Vivei aí nas clareiras De luzes alcandoradas. Mas morrem cabeças tontas. Oh! almas enamoradas. Que os interesses resuma. Há quem faça aí mil contas.Parnaso de Além-Túmulo Cheios de vida e esplendor. São senhores despojados Dos seus tesouros de reis.

Meu querido Portugal! ... por meu mal. Pois que o ardente desejo de o sabermos É sempre o anelo falso da vaidade? Peregrinos da dor. Seguindo a alma nos sonhos iludida. quem há de Com o problema de sermos ou não sermos. porém. E da luz da Verdade não descrermos.Francisco Cândido Xavier .. Até que a dor unindo-se à desgraça Descerre os véus que encobrem outra vida. 60 . vagueando os ermos. Minha terra portuguesa! . Naquelas toadas de outrora As moçoilas coimbrãs. Ver através da própria soledade A expressão luminosa da Verdade. Acompanha-me a tristeza Das saudades. na dor andamos Sem que a nossa miséria se desfaça No escabroso caminho onde marchamos... Preocupar-se aí. Do Além Pudesse o nosso olhar..Parnaso de Além-Túmulo Na minha vida de agora Não canto as festas louçãs.

. Dormirás no meu seio o último sono. para os grandes bens. morto de incerteza. Ou a dor amarga e rude em que te cortas.Parnaso de Além-Túmulo Soneto “Quando cobrir-se o chão de folhas mortas – Meu coração dizia em grave entono – Extinguindo-se a vida que comportas. E além da amarga vida de segundos. Não existe no túmulo o abandono. Mas. Aguardando o sol-posto.Francisco Cândido Xavier .. para que exista A perfeição da luz deslumbradora.” Escutava essas vozes comovido. Lodoso chavascal onde se avista A podridão dos vermes que apavora. E murmurava a alma – “Findo o Outono. entristecido. 61 . Sob os ares sadios de outros mundos! Ao mundo A Terra é o vasto abismo onde a alma chora. Precisamos da carne que aprimora Com o camartelo mágico do artista. O vale de amarguras do Salmista. Ressurgi da tortura e da tristeza. Morto de angústia. A Primavera vem por outras portas.

Parnaso de Além-Túmulo Terra. o sol que doira O riso que espalhais sem compreenderdes.. Marchai sorrindo. tranqüilamente eu te abençôo. Vibrai na luz da vida em que viverdes... Ébria de aroma e luz. Cantai o amor que é luz que se entesoira. ditosa. ó mocidade! Moira Encantada que ri nos prados verdes. Expandi-vos na primavera loira. do sol-nascente. Alvorada em abril. doce juventude. Na exaltação do amor e da saúde. ébria de sonho!. Mas és ainda o cárcere da treva. Glorificai. Nos poemas de luar que conceberdes! Ide cantando.. Clareando o porvir almo e risonho. Triste mundo de chagas pustulentas! À Mocidade Cantai! cantai. Porque da tua dor alcei meu vôo Para a mansão das luzes opulentas.Francisco Cândido Xavier . Teu rigor nos redime e nos eleva. mocidade ardente. 62 .

Cheio de luz das coisas invulgares. amargurado e cego. Infeliz do meu ser irredimido. em 1934. como cônsul adjunto do Brasil.Francisco Cândido Xavier . falecendo. . Tombei exausto. Poeta e escritor. no abismo indefinido. Ordenou-se sacerdote. na cidade de Hamburgo. Esquife do sonho Tive um sonho de amor e de inocência. Pois triste e atordoado inda carrego O negro esquife do meu próprio sonho. – Abismo tenebroso que eu transponho. E da morte. De minha quase inútil existência.Parnaso de Além-Túmulo 63 13 Antônio Torres NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885. No silêncio das cinzas tumulares. Terminados os múltiplos azares. Tarde reconheci minha falência. Do qual perdi a luminosa essência Na cristalização dos meus pesares. abandonando mais tarde a profissão eclesiástica.

porém.. Crença é o perfume d'alma que se enflora Com a luz divina. com pena embora De abandonar a crença que esposara. Pois nem sempre a razão profunda e fria Alivia ou consola o coração. não fosse tão ousado. Filosofia rude e amara. resplendente e rara Da Fé. 64 . Antes.. Nos desvios e excessos da razão. Na qual acreditei.Francisco Cândido Xavier . – A minha aspiração de cada hora. Que as trevas mais compactas aclara.Parnaso de Além-Túmulo Nada. Nada! . única Luz da única Aurora.. Vi que troquei a Fé pela ironia.. Revendo os dias tristes do passado.

assim. jornalista e crítico. . devagar. era preciso Que a sua esposa. muito a medo. que tragédia após esse perigo.. comediógrafo. Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação.. Membro e fundador da Academia Brasileira de Letras. Sobre o divã. no Maranhão.Francisco Cândido Xavier . Penetrou no seu quarto com um sorriso Às dez horas da noite. da sala de jantar. a 7 de julho de 1855 e falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908. Viu que a esposa beijava um seu amigo. Mas. Homem de cabedais e alma sem siso. onde ocupou a cadeira de Martins Pena.Parnaso de Além-Túmulo 65 14 Artur Azevedo NASCIDO em São Luis. Uma carta de amante – era um segredo – Ia abri-la.. Miniaturas da sociedade elegante 1 Adriano Gonçalves de Macedo. Não na visse nem mesmo por brinquedo: Dona Corália Augusta Colavida Estaria nessa hora recolhida? Levantou a cortina.. Poeta. dama de juízo. e. 2 No belo palacete do Furtado.

interessado. notável latinista. Revirando-o nas mãos. poetas. é meu breviário!” Diz inquieta. E ele.Francisco Cândido Xavier . Sobre rígido assunto moralista. cínico e falsário. De sobre a grande cômoda bonita.. Era um compêndio de pornografia.Parnaso de Além-Túmulo Palestrava a galante Mariquita Com um pelintra afetado. Realizara alentada conferência. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores. Foram levar-lhe um abraço camarada. Recamado de quadros indecentes. Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. Antonico. Protegido dos membros da regência. Nele via uma grande alma de artista. muito aflita: . Foi um sucesso. Mais o olhava e mais se ria. assaz catita. Que primor de moral! e os companheiros Escritores. Bacharel delambido e enamorado. E a esposa Ana Fulgência. Numa corrida louca. conselheiros. Toma o moço um livrinho encadernado. Mas a jovem retoma-o. 3 Dom Castilho.“Esse livro. Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o. 66 ..

.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo No apartamento escuro da criada.. 67 .

Carinhoso pastor. espelho de bondade. militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. onde o Sol feria os vegetais. Na clareira. Tendo por companhia A cruz do Nazareno.. Tudo era languidez.. Era intenso o calor. nascido em Sabará. Ninguém! Nem uma sombra se movia. O doce missionário Sertão hostil. Abençoando o bem. Além se divisava a solidão da estrada. humilde e solitário.Parnaso de Além-Túmulo 68 15 Augusto de Lima POETA mineiro. imitador de Assis. esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas. Que na humildade achara a vida mais feliz. Magistrado íntegro. perdoando a maldade. Servo amado de Deus. elevando-se aos céus.Francisco Cândido Xavier . tendo ocupado a presidência dessa instituição. tristonha e desolada. Amarela de pó. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. orador e publicista. Minas. Ali vivia Anchieta. desânimo e torpor. Agreste serrania. Naquele dia. . o doce missionário. E. Viam-se florescer bromélias e boninas.

“Oh! doce filho meu. Que calcina. Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa. inflamando os horizontes. 69 . o bom pajé. Que Jesus vos ampare. Nem árvores umbrosas e nem fontes. Em tão rudes e aspérrimos caminhos! . ao longe. Dirige-se-lhe a casa. Entretanto. Há solidão na estrada. Pairam no ar excessos de calor. que vindes de passagem. – “Meu protetor – diz ele –. ao termo da viagem. Eis que a sede o devora. Que penosa jornada.Parnaso de Além-Túmulo Eis que o irmão de Jesus.” E isso dizendo.” ... Para arrancar à dor o pobre penitente. Abandonando o ninho agreste e solitário. o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário.. Somente o Sol ferino e destruidor. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor. o pastor não se deplora. Agoniza na taba. o humilde pegureiro Avista um mensageiro. Que tem oferecido a Deus o seu amor. em aflição. Convertido por vós à luz da vossa fé..Francisco Cândido Xavier .

Senhor.Francisco Cândido Xavier . No azulíneo do céu. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade. Na corola de luz de todas as florinhas. Numa férvida prece. em nossa própria cruz. E.. amparo e luz. todo amor. de luz e caridade. Inspirada em tão santa devoção.. Seja alegria ou dor.Parnaso de Além-Túmulo A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento. Na dor. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas. das meigas avezinhas. Eis que nos arredores Congregam-se apressadas Todas as avezinhas. tudo é ventura e paz. Cobrindo o doce irmão Que ia ofertar amor. Na vibração dos sons. Juntinhas.. Numa ideal combinação Formam um pálio protetor. no sofrimento. na irradiação da luz. asas aconchegadas. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio. Na estação outonal. que te ama e te venera. Eterno Pai de amor. no cálice das rosas. No canto. Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores. 70 .” Terminando a sorrir a espontânea oração. na loura Primavera.. Luz e consolação. Ele ainda agradece: – “Sê bendito. No coração do bom. por tudo o que nos dás.

71 . casto.Parnaso de Além-Túmulo Em nome do Senhor. Evolando-se puro ao seio de Jesus. Ia caindo o dia No poente de paz e de harmonia. a bênção do Senhor. humilde e isento de pecado. Santa Maria dos Anjos inda existe. Glorificando as dores da alma triste.. Que ia seguindo. O santo de Assis No suave mistério dos espaços. Em meiga mansuetude. feita de crença e amor: Era a bênção dos Céus. Foi-se aumentando O alado bando Dos bondosos e ternos passarinhos. Pelos caminhos. Aureolando com amor o Discípulo Amado. Modesto. Chegara ao seu destino. Com a mesma luz divina dos seus traços.. Lábios sorrindo. O enviado do Bem e da Virtude Agradecia ao Céu. Repartindo a Virtude.Francisco Cândido Xavier . Brilhava nova luz. a Graça e os Dons Que a palavra divina do Cordeiro Prometeu aos pacíficos e aos bons Do mundo inteiro. o coração em luz.

Das paragens etéreas Da sua ideal igreja. O Esposo da Pobreza No seu manto de amor e de alegria Inda abre os braços para os pecadores.. Numa doce e ideal Eucaristia.Francisco Cândido Xavier . singela e boa.. “Irmão Sol. Daquela mesma Umbria do passado. Sob a paz de Jesus. que enxugam todo o pranto E que levam consigo Todo o consolo amigo Da Esperança no Céu. São Francisco de Assis abraça e beija 72 . Cheia de encantamento e de oração. irmãs Flores.Parnaso de Além-Túmulo Uma nova Porciúncula. Não nos cansemos de glorificar A caridade imensa do Senhor. Procurando salvar Os nossos irmãos Homens mergulhados Entre as noites sombrias dos Pecados!. Aí se rejubila. Derramando no Além ignorado Os sonhos de Virtude e Perfeição. irmãos Anjos. terna e tranqüila. dourada Pelos astros de mística alvorada... A Terra escura e triste se povoa De anjos de amor.. E à voz suave e dúlcida do Santo. A luz dos sóis da etérea Natureza. Sua sabedoria e seu amor..

Quero ainda abençoar-te a vida inteira.. irmão da Caridade. Depois da morte. Santo de Assis.. Santo de Assis.. divino “poverello”. Nas amarguras do meu pesadelo De vaidade do mundo. Uma chuva de lírios e de rosas Lavou-me o coração de pecador E guardei para sempre o teu amor.. que devasta Todo o bem.Parnaso de Além-Túmulo O homem que sofre todas as misérias. Amparando-lhe a alma combalida Nos desertos de lágrimas da Vida... à luz da imensidade.Francisco Cândido Xavier . vi tua luz singela e casta Beijando as minhas lepras asquerosas. E o conduz Ao regaço divino de Jesus!.. Que me curaste as lepras e a cegueira.. 73 .

A essência onicriadora reformando. Deus era a lei de eternos transformismos. na cidade de Leopoldina. suficiente para lhe dar personalidade original. alias. O fenômeno apenas. deixou um só livro – Eu – que foi. porque o fundo Do númeno às eternas rutilâncias. Eram partes do Todo nas Substâncias Desde o estado prodrômico do mundo. . Voz do Infinito 1 No excêntrico labor das minhas normas Na Terra. englobando As substâncias todas na Unidade. muita vez me consumia Perquirindo nas leis da Biologia As expressões orgânicas das formas. Era professor no Colégio Pedro 2º. No rubro incêndio de batalha acesa. Minas. Perpetuando-se em continuidade.Parnaso de Além-Túmulo 74 16 Augusto dos Anjos PARAIBANO. Concepção panteística. Com o espírito absconso em paroxismos. inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de sua predileção. Via Deus adstrito à Natureza.Francisco Cândido Xavier . Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914.

A coroa aromática das flores.Francisco Cândido Xavier . Vi. Dos cumes da Ciência e do saber. numéricas. Do meu viver. que eu via transtornado: Eu era um átomo individuado Em cerebralidade putrescível. Assim vivi na presunção que via. a matéria apodrecer. sofrendo. Irmanadas aos pútridos fedores De emanações pestíferas da peste! Extravagância e excesso jamais visto.Parnaso de Além-Túmulo O corpo. De idéia que esteriliza e desensina. desde o embrião inicial. A alma era a molécula. A luz dessa dourada ignorância. Afastada do Todo Universal. Os princípios genéricos do ser. Dominava-me todo o medo horrível. Loucura que igualava Messalina À pureza lirial da Mãe do Cristo. E na individualidade indivisível 75 . porém. A sutilez do arminho que se veste. Notava as pestilências cadavéricas Iguais à carne Angélica da infância. Era um mero atavismo revivendo. E com certezas lógicas. No pantanal da lama em que eu vivia.

Que espalha o bem e as auras da concórdia No coração de toda a Humanidade. Em meio de excrescências e misérias Que corrompeste a íntima saúde Da tua alma cegada de amargores. que emerges de apodrecimentos.. na luz etérica a dizer: 2 “Louco. E tanto viste os corpos e as matérias No esterquilínio generalizados. Vias os teus iguais. Entre as sombras das lágrimas terrenas. De todo o esterco que apavora o mundo E os tóxicos letais dos corpos podres. esquelético fantasma Que gastaste a energia do teu plasma Em combates estéreis. 76 .. Alma pobre.Francisco Cândido Xavier . danados. foste apenas Um corvo ou sanguessuga de defuntos. Olhos cegos às chamas da bondade De Deus e à divina misericórdia.Parnaso de Além-Túmulo Ouvi a voz esplêndida e terrível Da luz. famulentos. E os instintos hidrófobos. Vendo somente a cárie dos conjuntos. Que na Terra não viu os esplendores E as ignívomas luzes da virtude. Em teus dias inúteis. iguais aos odres Onde se guarda o fragmento imundo.

Em mil transmutações. Esquece o verme. Emergindo das cósmicas matérias.Parnaso de Além-Túmulo Descansa. Venho da fonte eterna das origens. No turbilhão de todas as vertigens. em eternos infinitos! Vozes de uma sombra Donde venho? Das eras remotíssimas. Filhos do pranto que me espedaçava. Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. Das células primevas.Francisco Cândido Xavier . E sufocando gritos.” 3 Calou-se a voz. desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. Da Terra no vultoso e imenso abdômen. Da confusão dos seres embrionários. agora. as carnes. negro e horrível. 77 . Venho dos invisíveis protozoários. Do silêncio da mônada invisível. A infinita desgraça de ser homem. Das substâncias elementaríssimas. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando a luz das amplidões divinas. Reconheci que a vida continuava Infinita. das bactérias. Sofri. vibrião das ruínas. Vitalizando corpos multiformes. fundas e enormes. Do tetro e fundo abismo. os estrumes.

Enigmas insolúveis e profundos. Um estafermo e um Tales de Mileto. apenas fui terrível presa. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. não perceberás. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. a asa do inseto.Francisco Cândido Xavier . A dor. obscuro. Inda que desintegres energias. Simbiose da dor e da tristeza. A flor da laranjeira. voltei desse laboratório. essa tirânica incendiária. Durante penosíssimos minutos. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra. Depois. Descortinando as luzes do futuro. Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. analisando os fatos. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres. Como animálculo medonho. Como existiram. A razão do completo e do incompleto. Onde me revolvi como infusório. E nem compreenderás como se opera 78 . Sombra egressa de lousa dura e fria.

A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade.Francisco Cândido Xavier . o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia. A noite da ignorância e o sol da Ciência. Como vivem o novo e o obsoleto. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas. O laconismo e a prolixidade. As grandes atonias e as nevroses. Produto da experiência de Hahnemann. Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã. A atividade e a inatividade.Parnaso de Além-Túmulo A mutação do inverno em primavera. E a transubstanciação da guerra em paz. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo. O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. Mostrando as luzes da imortalidade. As epidermes e as aponevroses. O céu iluminado. 79 . A luz de Miguel Angelo nas artes. Como vive o canário junto ao corvo.

E o jardim rescendendo de perfumes. Repleto de dejetos e de estrumes. Assombrosas antíteses no mundo. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. As idéias conexas e as loucas. o cemitério.Francisco Cândido Xavier . A alma pura do Cristo e a de Tibério. A teoria cristã e Augusto Comte. Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo. Onde há somente um óvulo fecundo. Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. 80 . Os lombricóides mínimos. os vermes. Em contraposição com os paquidermes. É o gigante e o germe originário. Vaso de carne podre. As coisas substanciais e as coisas ocas.Parnaso de Além-Túmulo As atrações e as grandes repulsões. E o desconhecido e o devassado. Os milhões de corpúsculos do ovário. Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. Em prodigiosas manifestações. Junto dois palacetes higiênicos.

Psíquicos. científicos.” Voz humana Uma voz. atrozes. Caminharás lutando além da cova. confusa. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. Gritos de feras em paroxismos. Uivando subjugadas e ferozes. Aquilo que está longe e o que está perto. Não saberás o cósmico segredo.Francisco Cândido Xavier . A que se acolhem míseros ateus. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. Outras vozes. É a voz humana em intérminas nevroses. Que inspiram pavor e inspiram medo. Buscando as perfeições do Amor em Deus.Parnaso de Além-Túmulo Os terrenos povoados e o deserto. Na solução de todos os contrastes. A funda simpatia e a antipatia. Milhões de vozes. Cosmopolitismos. Para a Vida que eterna se renova. O que não tem sinal e o que tem marca. Como as tuberculoses e a anasarca. Homem! por mais que a idéia tua gastes. Os fenômenos todos geológicos. 81 . Seja nas concepções dos ateísmos. As atrofias e a hipertrofia. Duas vozes. sociológicos.

titânicos. Nas defectividades da estesia. Nutrir-se de famélicos prazeres.Parnaso de Além-Túmulo É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. Enceguecido e louco então que eu era. Nos instintos soezes e tirânicos. seres inorgânicos. insaciada. que gargalhando em nossas dores.Francisco Cândido Xavier . Nos distúrbios sutis da hipocondria. Nas lágrimas. A dor. Que não via. Nos vastos campos da Psicologia. As luzes d'alma em trágicos segredos. 82 . Que eu às vezes na Terra empreendia. Somente achava corpos na existência. É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres. dos astros à monera. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. Buscava as almas. Alma Nos combates ciclópicos. nos risos e nos pânicos.

nervos. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. tegumentos.Parnaso de Além-Túmulo Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos. Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras. Multiplicando as lágrimas e os trismos. Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. 83 . Nos recantos dos mundos inferiores.Francisco Cândido Xavier . se apaga Ao furacão indômito das dores. estrambótica. Voracidade onde a alma se mergulha. fraquíssima. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. Em sexualidades e histerismos. materializados. hipertrófica. sem vigor. que. Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. Serpentes entre escrófulas e helmintos. Que. Que atrofiada. Na agregação da carne e dos humores. parece Cataclismo dos grandes cataclismos. E nisto achar fantásticos prazeres. apodrece. Tendo a alma – centelha. Atrocidade das atrocidades. Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores.

Francisco Cândido Xavier . Das origens às súbitas asceses. É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. Transformando-se em luz. No transcorrer das vidas sucessivas. Nos rochedos. Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. Que percorrem o espaço imensurável. Nas ferezas do instinto. Inferiores e rudimentares. A mesma luz dos corpos estelares! 84 . No assombroso prodígio das esteses. a onda sonora. atassalhados. A cadeia de impulsos e de instintos. nas plantas e nos vermes. Veríamos o evolver dos elementos. Mas a análise crua do que eu via. O anseio da vida. em sentimentos. Hedionda lição de anatomia. Rudimentos dos seres planetários. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável. No profundo silêncio dos inermes.Parnaso de Além-Túmulo Espíritos em ânsias retroativas.

Tudo é clarão da evolução do cosmos.Parnaso de Além-Túmulo É que. Larva repugnante e vermiforme. Buscando as perfeições absolutas. Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável. Ao monólito enorme das idades. Era um feixe de mônadas de vermes. O homem é fruto insólito da ânsia. Heterogeneidades da Substância. Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras. Argamassando um Todo miserável. Viemos do principio das moneras.Francisco Cândido Xavier . Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável. dos invisíveis microcosmos. Do intravascular princípio informe. Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância. Nos íntimos recôncavos da placenta. 85 . Dissolvidos na terra famulenta. Enjaulados no cárcere das lutas. A quietação dos túmulos inermes.

Ou venenada lâmina que o corte. Depois da estercorária microbiana. Não há luta mavórtica que o dome. universal. toda a bílis do iracundo. Volve o Espírito ao páramo celeste.Parnaso de Além-Túmulo 2 Após a introspecção do Além da Morte. Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. 86 . Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem. Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte. Onde a divina essência se reveste Da substância fluida.Francisco Cândido Xavier . Vendo a terra que os próprios ossos come. De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel.

O mesmo triste e estrábico produto. Sou eu. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho.. entro Em relação com o mundo onde concentro 87 . com intelecto de arbusto. À Terra volvo. E. Dentro da noite É noite. ígneo. sendo eu o Augusto. se mistificasse No anonimato. se não vos declarasse. com Laplace. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. Quer com Darwin. e por mais que o procurasse.. com Haeckel. Extremamente injusto Seria. Levantar-me do leito de Procusto. Se vos mentisse. Nas mais contrárias idiossincrasias. então. Sou eu que. Jamais cri.Parnaso de Além-Túmulo Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente. Inexprimível nas termologias.Francisco Cândido Xavier . Atramente a gemer a mágoa e o luto. lúcido. em brasa.

cruéis. – A misérrima e pobre Humanidade. apodrecidos. Mais o enigma do mundo se lhe aviva. É a ânsia afrodisíaca das bocas. São os ais dos leprosos desprezados.Parnaso de Além-Túmulo O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos. Verminados. As dores espasmódicas dos partos. tremendo.Francisco Cândido Xavier . Buscando ávida a luz. da perpétua grade. São uivos dos instintos jamais hartos. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor. que hórrida sinto. As dolorosas mágoas dos enfermos. Sentindo os próprios membros carcomidos. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios.. Que nas bestialidades se unem loucas.. 88 . Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios. Por mais que sonde. A desgraça dos úteros falidos. Sentindo-se em seus leitos como em ermos. Em diferenciação definitiva. D'alma quebrando o cárcere do instinto. Deplorando o destino miserando. Às bactérias mais vis ambas trocando.

Terra!. além das catacumbas. Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas. a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem. Desde o sol-posto. Essa angústia indomável. decomposto. Asco e dó.. Fétido. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. Sinto em minhalma o tóxico. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos.Francisco Cândido Xavier . envoltos na ânsia. E ainda transpondo o Azul sereno. atrocíssima. o anseio. Trazendo dentro d'alma. E com os meus pensamentos desconexos. e chegam-me fortes cheiros acres. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. Dos desejos que não se realizaram..Parnaso de Além-Túmulo É o grito. ao próximo sol-posto. coagulado. Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria. Vejo a guerra pestífera dos sexos.. Como o cheiro de sangue dos massacres. o veneno 89 . Fujo. Onde traguei meus grandes amargores.. Abominando as coisas deste mundo.

Até achar à perfeição profunda E indivisível. Objetivando a personalidade. Vem através do Todo de elementos. Na imensidade Alma humana. No transcendentalismo da Unidade. Sob transformações consecutivas. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. alma humana. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada Nos turbilhões das lutas cognitivas. tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada.Francisco Cândido Xavier . Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! 90 . Em sucessivos aperfeiçoamentos. pura.Parnaso de Além-Túmulo E a desdita dos seres sofredores. e se confunda. Vem dessa Origem indeterminada. essa voraz liberticida. Desse teu escafandro de albuminas.

Envergando os etéreos organismos. Deus e Pai. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos. Aqui não há vertigens de nevróticos. Submersão nas fluídicas belezas. Deixai meu ser esdrúxulo.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis. São vibrações das almas evolvidas E que. sem fim. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades. Do teu laboratório de arterites. Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas. Pensamentos radiosos como chamas. De gangliomas. Combinações no mundo das imagens. Ante a minhalma fulgem ideogramas. concretizadas e reunidas. execrável.. Formam luminosíssimas paisagens. nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades.. sem número. úlceras. Não podes perceber as ressonâncias. Sem aritmologias das distâncias. 91 . Sem limites. ó Artista Inimitável. Em pleno espaço – Imensidade de ânsias. Singrando a luz de céus incomparáveis. nas regiões imensuráveis.

Francisco Cândido Xavier . Mas contérmino à carne. Aos fracos da vontade Homem. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra. Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores. 92 . Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade. Eis-me longe dos rudes estertores. Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. Não sou o homúnculo da hominal espécie. Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. levanta o véu do teu futuro. E sou o espectro das anomalias.Parnaso de Além-Túmulo No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas. que me aterra. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias.

Com os tônicos sagrados da Virtude. nefasto. Com a espada resplendente da virtude. Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria. Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. Ouve-te sempre a ronda do mistério. sofre e chora. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude.Parnaso de Além-Túmulo Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. esplenda. Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama. eterno. Que o sol da tua mente. De arcangélicas flores de Harmonia. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares Vivam livres de todos os pesares. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida. sobretudo.Francisco Cândido Xavier . Fonte da força e altíssimo elemento. observa o pensamento. 93 . Mas. Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto.

Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: 94 . Nas células primevas da existência. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. és a cintila Do Céu. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência.Francisco Cândido Xavier . És mais. a alma da luz resplandecente. Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia. Movimentando células de argila. Apesar das verdades fisiológicas. Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica.Parnaso de Além-Túmulo Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. Reflexas das ações psicológicas. És um ser imortal e responsável. és muito mais. a energia Potencial que dá vida aos elementos.

Francisco Cândido Xavier . Livro onde o Criador Inimitável Grava. É do mundo o Od ignoto. Seus poemas de seres e universos. Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias. Mas um mundo de deuses decaídos. Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos. com o pensamento almo e insondável. Glorificando o instinto e a inteligência. o éter divino.Parnaso de Além-Túmulo Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos. Segregadas num mundo amargo e infame. Estirpe das escórias planetárias. Árvore genealógica de párias. Faz-se mister que o cárcere a conclame. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias. 95 . Fez da Terra o brilhante gral da Ciência.

luta e goza. De consumir as podridões de tudo. horrendo e rudo. a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre.Parnaso de Além-Túmulo A subconsciência Há. 96 . no estudo Do germe. Consciência de todas as consciências. sim. No labor anatômico. Que o neurônio oblitera por momentos. impassível. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas. Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências. Nos seus medonhos ágapes mortuários. Fora de toda a sensação nervosa. atro e mudo. Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame. No órgão morto.Francisco Cândido Xavier . em seus impulsos embrionários.

fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. Na ascendência de todos os destinos. A alma que é Vibração. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço.Francisco Cândido Xavier . Está nas luzes da sobrevivência. Vida e Essência. Como o bolor e o mofo sob as heras. Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular. No transcendentalismo das esferas. Fim das forças do plasma agonizante. Desorganização molecular.Parnaso de Além-Túmulo No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar... Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria. Do portentoso amor de Deus oriundos. 97 . Que manifesta o espírito nos mundos. Ou condição diversa da substância.

Feito à noite de enigma profundo!. Entre as sombras das míseras estradas. Homem da Terra! trágico segredo De miséria. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. de horror. 98 . Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. Deixando corpos pelos cemitérios. de ânsia e de medo. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas.Francisco Cândido Xavier . E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas. Pavorosos esgares de gemido. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas.Parnaso de Além-Túmulo Sob o acervo das células taradas. Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas.. imortal.. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. alta. Vive o homem da Terra adormecido. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria.

filosófico ou sem nome. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. de sede e fome.Francisco Cândido Xavier . Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal. amargo e morto. Muralhas. Enquanto a desventura chora inerme. lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. mísero e perverso. O homem. Trevas. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. Ossuários tremendos sob as flores. Nas vitórias fantásticas do verme. Desenhadas por corvos vagabundos. É o triunfo terrível do coveiro. Visões apocalípticas do mal. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas. E rasteja o dragão horrendo e informe. A civilização do desconforto. De mentira e veneno cerebrais. Quadros de sangue. Canhões. Morre de frio e fel.Parnaso de Além-Túmulo Anjo da Sombra. 99 . Nas sombras Bombardeios.

O homem sôfrego e bruto. Confissão Também eu. Homem-verme Desolação. No turbilhão das sombras negativas. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. 100 . Bem distante. Mas só a Fé. das causas positivas. Terror e morticínio. Não encontrei a luz das forças vivas. Para encontrar esse laboratório De beleza.Parnaso de Além-Túmulo Ai de vós nos abismos da aflição...Francisco Cândido Xavier . verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas. vencendo o abismo!. Foi preciso “morrer” no campo inglório. Apesar de ingentíssimos labores. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio. de ânsia em ânsia. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração. Tem a chave do Céu. na estrada eterna e justa.

E onde sorveste o cálice amargoso. Ao crepitar de rúbidos incêndios. onde foi sepultado o poeta. Por toda a parte. Em quase tudo. Augusto. Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão. Ídolo podre sobre o esterquilínio. este solo generoso. em sombra e vilipêndios. Volta. do pó que envolve as tumbas. escorre o sangue horrível. em Leopoldina. Nas maravilhas de seus resplendores. buscaste o campo de repouso. Exaltando a vaidade sem substância. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas.Parnaso de Além-Túmulo 101 É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância. . Proclama a vida além das catacumbas. Beija. Aqui. que detestavas. o pântano terrível. Augusto. Sobre a idéia cristã medrando em germe.Francisco Cândido Xavier . Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. De lodo e lama. 7 Poesia recebida em 18 de junho de 1940.

Saturada de treva. angústia e pena. Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! . sobre o Calvário áspero e bruto. Nos turbilhões fatídicos da guerra.. Porque na luz dos círculos da Terra. Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto. Sangrou Jesus em lágrimas divinas. de pranto e luto. 102 . A Lei Em reflexões misérrimas. Ainda é Caim que impera sobre o mundo. Em vão.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Ajoelha-te e lembra o último abrigo. Feito de sânie e de cadaverinas. Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. em ruínas. absorto. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo....

A molécula morta desafia. uma voz da luz dos grandes mundos..” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários. Se não tens coração que aceite a crença. amigo.. 103 . Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios.. Os impulsos dos sonhos embrionários.Francisco Cândido Xavier . Pára. Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta. Desde o instante infeliz de Adão e Eva. Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários.“ Mas. Em conceitos sublimes e profundos. Espera a mão da morte excelsa. Encontrarás teus gritos solitários. O mistério da célula primeva. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!. Cessa a miséria de teus raciocínios. Não insultes as leis universais. e pensa.Parnaso de Além-Túmulo Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento.. Enfrentando o pavor da mesma treva.

Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta. Correm de novo as lágrimas divinas.Francisco Cândido Xavier . A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. embora o Direito. que é sempre o tigre carniceiro. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. A Civilização regressa à taba. exangue e fria. o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta. Apaga-se o milênio. Enquanto grita a turba ignara e injusta. Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio. Depois de vinte séculos ingratos. o Livro e a Toga. Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. Pois. A construção dos séculos desaba. Entre prantos pungentes. Multiplicando Herodes e Pilatos. Trevas. Canhões.Parnaso de Além-Túmulo Que a carne volve ao pó. 104 .

através da tempestade. Mas. É Jesus que. 105 .Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio. Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue. Novo sol banha o pélago profundo.

em Macaíba.Parnaso de Além-Túmulo 106 17 Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. Via presas do pranto e da agonia. em Natal. Horto. portanto. cuja primeira edição. Espírito melancólico. Castriano. E confiada na crença que tivera. E eu. que era irmã dos grandes sofredores. feita em Paris. Almas feridas e dilaceradas. Sofria. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados. A segunda edição. prefaciada por Olavo Bilac. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos. em dores. sofredor. em 1910. em outubro de 1899. aos 24 anos. . Finalmente. desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. em 1936. apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. Rio Grande do Norte. Deixou um único livro. Almas dilaceradas Quando.Francisco Cândido Xavier . muito místico. teve uma terceira edição no Rio de Janeiro. na Terra inda. traz uma biografia da Autora por H.

Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida. Aureolada de luz confortadora. Tal desalento e tantas desventuras. que torna a alma florida. tanta dor em demasia. Onde há paz para os pobres desgraçados.Parnaso de Além-Túmulo Cheguei à luz da eterna primavera. Sobrepujando instantes de alegria. A alegria fulgente e estremecida. Há. Deve fugir das horas de repouso. Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura. porém. Que o coração dormente. E há também os reflexos da aurora De ventura.Francisco Cândido Xavier . Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. Somente a dor intérmina que mata 107 . Minorando as alheias amarguras. a pleno gozo. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata.

minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora. porém. a paz e a crença. nevoentos. sem flores. Senti. na própria Natureza.Parnaso de Além-Túmulo A alegria mais lúcida e mais pura. o amor. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo. a mágoa intensa Que rouba a luz. O veneno da acerba desventura Que fere em nós a aspiração mais grata. Então parti. porém. A mesma dor que eu tanto padecia. Sem as sombras da dor e da agonia. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! 108 . Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos. sem paz.. Se apenas vi. Que se extinguia em atros sofrimentos.Francisco Cândido Xavier .. serena e jubilosa. Do meu viver sem luz. É que a dor da minhalma em tudo eu via.

. Jesus. Por teu amor. meu Jesus.. Nessas paragens de deslumbramentos. Canto de luz dos páramos celestes. Elevando a Jesus meus pensamentos. Durante os meus amargos sofrimentos. eterna e derradeira!. ditosa agora. Sorvendo a luz no cálix da harmonia.Parnaso de Além-Túmulo Em paz Tanto roguei a paz consoladora. Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso.Francisco Cândido Xavier . Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais 109 . a vida inteira. Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais. Abrasada de amor eu viveria. Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. Em paz serena.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Depois da treva espessa da amargura:
Para exaltar as luzes que me deste
Na cariciosa e doce paz celeste,
Meu tesouro de fúlgida ventura;
Para contar tua bondade imensa
Aos meus irmãos, os homens pecadores,
Mergulhados na noite da descrença,
Nos abismos dos males e das dores;
Para falar a todas as criaturas,
Da tua alma esplendente de bondade,
Afastando as amargas desventuras
Do coração da pobre Humanidade!
Aos teus pés, meu Jesus, a vida inteira,
Abrasada de amor eu viveria,
Sorvendo a luz no cálix da harmonia,
Em paz serena, eterna e derradeira!...

Mãe
Ó minha santa mãe! era bem certo
Que entre as preces maternas estendias
As tuas mãos sobre os meus tristes dias,
Quando na Terra – que era o meu deserto.
Nos instantes de dor, bem que eu sentia
As tuas asas de Anjo da Ternura,
Pairando sobre a minha desventura
Feita de prantos e melancolia.

110

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Flor ressequida eu era, e tu o orvalho
Que me nutria, pobre e empalecida;
Era a tua alma a luz da minha vida,
Meu tesouro, meu dúlcido agasalho!...
Ai de mim sem a tua alma bondosa,
Que me dava a promessa da esperança,
Raio de luz, de amor e de bonança,
Na escuridão da vida dolorosa.
E que felicidade doce e pura,
A que senti após a treva e a morte,
Findo o terror da minha negra sorte,
Quando vi teu sorriso de ventura!
Então, senti que as Mães são mensageiras
De Maria, Mãe de anjos e de flores,
E Mãe das nossas Mães cheias de amores,
Nossas meigas e eternas companheiras!...

Prece
Estendei vossa mão bondosa e pura,
Mãe querida dos fracos pecadores,
Aos corações dos pobres sofredores
Mergulhados nos prantos da amargura.
Derramai vossa luz, toda esplendores,
Da imensidade, da radiosa altura,
Da região ditosa da ventura,
Sobre a sombra dos cárceres das dores!

111

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes,
Mais amor, desse amor que já nos destes,
Queremos nós em cada novo dia;
Vós que mudais em flores os espinhos,
Transformai toda a treva dos caminhos
Em clarões refulgentes de alegria.

Adeus
O sino plange em terna suavidade,
No ambiente balsâmico da igreja;
Entre as naves, no altar, em tudo adeja
O perfume dos goivos da saudade.
Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;
E a alma que regressou do exílio beija
A luz que resplandece, que viceja,
Na catedral azul da imensidade.
“Adeus, Terra das minhas desventuras...
Adeus, amados meus...” – diz nas alturas
A alma liberta, o azul do céu singrando...
– Adeus... – choram as rosas desfolhadas,
– Adeus... – clamam as vozes desoladas
De quem ficou no exílio soluçando...

Almas
Ó solitário das estradas,

112

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Desventurado pensador,
Há no caminho “almas penadas”
Que vão clamando desoladas
A dor e o pranto, o pranto e a dor!...
Vós, que o silêncio amais no mundo,
Em orações ao pé do altar,
Sob as arcadas silenciosas,
Almas feridas, desditosas,
Oram convosco a soluçar.
Ao descansardes, meditando,
À sombra de árvores em flor,
Sabei que às vezes sois seguidos
Pelas angústias dos gemidos,
De almas chagadas no amargor.
Clareie a luz do sol-nascente,
Negreje a treva na amplidão,
Gemem na Terra muitos seres
Pelos amargos padeceres
Depois da morte, na aflição.
Dai-lhes dos vossos pensamentos
Consolação que adoce a dor,
Dai um conforto à desventura,
A prece cheia de ternura,
Algo de afeto, algo de amor!...

Almas de virgens
Andam sombras errando abandonadas

113

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ao pé das lousas e das covas frias,
Almas de pobres freiras desamadas,
Perambulando pelas sacristias.
Almas das que não foram desposadas,
Como bandos de rolas erradias,
Angélicas visões de bem-amadas,
Mortas na aurora rútila dos dias...
Virgens mortas! Tristíssimas oblatas
De um sacrário de luz piedoso e santo,
Que sonhais entre os tálamos celestes,
Entoai nos céus as tristes serenatas
Com as vossas roxas túnicas de pranto,
Cantando à luz do amor que não tivestes!..

Carta íntima
Escuta, meu irmão! Pelo caminho
Da miséria terrestre, há muitas dores;
Muito fel, muita sombra, muito espinho,
Entre falsos prazeres tentadores.
Há feridas que sangram... Há pavores
De órfãos sem lar, sem pão e sem carinho:
Confortemos os pobres sofredores,
Almas saudosas do Celeste Ninho!
Jesus há de sorrir com o teu sorriso,
Quando faças no mundo o bem preciso,
Pelo que sofre em desesperação.

114

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todo o bem que plantares nessa vida,
Há de esperar tua alma redimida
Nos caminhos de luz e redenção!

Maria
Toda a expressão de ternura
Do mundo de provação,
Nos Céus ditosos procura
A sua excelsa afeição.
Consolo das mães piedosas,
Cheias de mágoa e de pranto,
Sobre quem atira as rosas
Do seu Amor sacrossanto.
Ninguém diz, ninguém traduz
Essa visão da Harmonia,
Visão de paz e de luz,
Paz dos Céus! Ave-Maria!

Mensagem fraterna
Meu irmão: Tuas preces mais singelas
São ouvidas no espaço ilimitado,
Mas sei que às vezes choras, consternado,
Ao silêncio da força que interpelas.
Volve ao teu templo interno abandonado,
- A mais alta de todas as capelas –

115

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E as respostas mais lúcidas e belas
Hão de trazer-te alegre e deslumbrado.
Ouve o teu coração em cada prece.
Deus responde em ti mesmo e te esclarece
Com a força eterna da consolação;
Compreenderás a dor que te domina,
Sob a linguagem pura e peregrina
Da voz de Deus, em luz de redenção.

Vinde!
Todo anseio da crença acalma as dores,
Toda prece é uma luz para quem chora,
A oração é o caminho cor de aurora
Para o sonho dos pobres pecadores!...
Ó corações que a lágrima devora!
Vinde, através dos rudes amargores,
Cantar na luz dos grandes esplendores
Vossa iluminação de cada hora!...
Vinde rememorar no espaço infindo,
Neste Lar de Jesus, ditoso e lindo,
As desventuras para bendizê-las...
Feliz o coração sereno e forte,
Que triunfa da lágrima e da morte,
Palpitando na esfera das estrelas!...

116

. Veste o manto do amor e da verdade. E percorre o silêncio do caminho... E eis que Ele chega sempre de mansinho. Vem ao nosso amargoso torvelinho. Haja sol. Vem o Senhor que nunca chega tarde. Traz às sombras da vida a claridade.Parnaso de Além-Túmulo O Senhor vem.Francisco Cândido Xavier . Como o Sol que dá vida sem alarde. E protege a miséria mais sombria. Ele chega. E os próprios sofrimentos da impiedade São as bênçãos de luz do seu carinho. É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia. E o amor se perpetua.. 117 . faça frio ou tempestade.

Parnaso de Além-Túmulo 118 18 B. 2 Uma campina de flores . espaço em fora. Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. falecendo em 1916. Quais flores das primaveras. quando funcionário do Correio Geral. Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas. município de Rio Bonito. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança. no Rio de Janeiro. Como lírios cor da aurora. Modeladas pela dor. a 19 de janeiro de 1859. Notabilizou-se no gênero descritivo. Vão todas.Francisco Cândido Xavier . rarefeitas. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881). Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. Rosas de paz e de amor. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes. E as almas puras. eleitas. Luminosas. no Estado do Rio.

E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores. Minúscula. O ósculo de Jesus.Francisco Cândido Xavier . Sobre uma enxerga. Dos lábios de anjos formosos. Cromos 1 Na alcova desguarnecida. Nesse batismo de luz. a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida. Beija-lhe a filha inocente.Parnaso de Além-Túmulo Em pleno espaço infinito. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha 119 . embevecida. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. Recebendo entre outros gozos. Mirando-a enternecida.

Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado. Vêem-se raios formosos.Francisco Cândido Xavier . E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa. Do clarão da sua fé. E com esta minha promessa.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. ora.Parnaso de Além-Túmulo À santa lá do altar. Cheio de lágrimas. 120 . E pede. suplica. implora Perdão para o seu pecado. Dimanando luminosos. Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. Ao seu Jesus bem-amado. O Jesus que ele não vê.

Com ansiedade e temores dos galés. pávida de medo. Desalentado e triste. clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés.Parnaso de Além-Túmulo 121 19 Batista Cepelos POETA paulista. desencarnou no Rio de Janeiro. Corroído por chagas interiores. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. Que me desse um consolo a tantas dores. original e simples. Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores. atribuindo-se a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. Encaminhei-me à porta da Agonia.Francisco Cândido Xavier .. em 1915. Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza. soluço. ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes. na rua Pedro Américo.. exalta-lhe o estro espontâneo. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores. um dia. Olavo Bilac. 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento .

dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa. No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida. rude. em meio aos desenganos. incompreendida. Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento. Cheia de tempestade e sofrimento. Para beber no cálix da matéria 122 . Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. Tenebrosa. Agora. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora.. o brando afago Da Luz. que está na dor depuradora. Quando terei os bens. Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora. sim! depois de tantos anos De tormentos. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora.Parnaso de Além-Túmulo Da minha dor imensa. essa noite indefinida. a paz calma e serena. Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável.Francisco Cândido Xavier .. Onde o não-ser.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo As essências das dores renegadas! 123 .

Que escreve o poeta morto. 3 Quanta gente corre. pela singeleza e espontaneidade da sua musa. depois da morte. Ansiosa atrás do prazer. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. Estou mais moço e mais forte. 2 Com a ignorância proterva. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 124 20 Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. notário público. e aí desencarnou em 1937. Iniciou-se na vida comercial e foi. Que a morte é o fim. em Juiz de Fora. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. Eis as rimas de outro norte. Minas. luta e morre Sem jamais o conhecer. comediógrafo e jornalista nato. corre. Sonha e chora. o homem pensa. sobretudo. Poeta. Popularizou-se. depois. Encontrei paz e conforto Na vida. da qual foi um dos fundadores. . Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença.

Parnaso de Além-Túmulo Não há ninguém que se forre. da morte ao sorvedouro. Nas mágoas do mundo. Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. 8 A Terra. Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana. Não corras atrás da sorte. Sobre a Terra. Tem coragem. Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. meu irmão. Mas.Francisco Cândido Xavier . 7 Entre a fé e o fanatismo. ao padecer. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. para quem sente. Inda é torre de Babel. 4 Fecha a bolsa da ambição. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro. 125 . 6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição. guarda A fé do teu coração. Ninguém se acaba com a morte. O segundo é o dogmatismo.

Parnaso de Além-Túmulo Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. Que a mulher siga a Maria. Sem muita filosofia. Que o homem siga a Jesus. quem é nobre. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. 10 Na vida sempre supus. Vais procurar a ventura? 126 . A essa estrada voltará. Que. em prol do Reino da Luz. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença. Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa.Francisco Cândido Xavier . na Terra sombria. É uma ventura ser pobre. Recorda que o mundo vão É grande necessitado. Corações de lodo e fel. Com a bênção que Deus nos dá. Basta. Quem é rico. 9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má.

Quem sobe é suor e pranto. Muita fronte encanecida É fronte de criançola. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia. Toma posse de ti mesmo. Que símbolo sacrossanto!. Não prendas o coração Nos laços da fantasia.. Esquece as inquietações. Não te aflijas. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. 127 .. Não perguntes ao passado Pela sombra. pela dor. Modera-te na alegria.Francisco Cândido Xavier . Olha o monte luminoso. Eterna a fonte do amor. A bonança É flor de sabedoria. Atapetados de espinhos. Quem desce é riso enganoso. O caminho é ilimitado. Acalma-te na aflição. No curso de aquisições. Não vivas correndo a esmo.Parnaso de Além-Túmulo Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura.

Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários. Age sempre com bondade. Todo esforço com Jesus É vida na eternidade. Mentiras da vaidade. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória. Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa.Francisco Cândido Xavier . Alegre como ninguém. A mão terna do carinho 128 . 5 É ditosa no caminho. Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória. 3 Dinheiro do mundo vão.Parnaso de Além-Túmulo No impulso que te conduz. Não trazem ao coração A luz da felicidade. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários.

6 Angústias.Parnaso de Além-Túmulo Que vive espalhando o bem. Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo. derrotas.Francisco Cândido Xavier . danos. Tudo isso tenho visto. 129 .

Foi político ativo. E. é que Bittencourt Sampaio foi. À Virgem Vós sois no mundo a estrela da esperança. desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1895. como tal. Mas. Diretor da Biblioteca Nacional e jornalista de mérito. Consolação e paz dos desterrados Do venturoso aprisco das ovelhas De Jesus-Cristo. Virgem formosa e pura da bondade. no último quartel da vida terrena. verdadeiro poema em prosa. de 1937 (página 494).Parnaso de Além-Túmulo 130 21 Bittencourt Sampaio SERGIPANO. tais como estes. Reformador. em 19 de fevereiro de 1834. . deputado por sua província em duas legislaturas e Presidente do Espírito Santo. mas omite a maior das suas obras. por dar-nos obras como Jesus perante a Cristandade. aponta Poesias (1859) e Flores Silvestres (1860). nascido na cidade de Laranjeiras. o Filho muito amado! Fanal radioso aos pobres degredados.. publicou-lhe a biografia. Providência dos fracos pecadores. A fonte de onde respigamos estes dados. em magníficos versos brancos.. ainda hoje se manifesta. Anjo guiador dos homens desgarrados Do Evangelho de luz do Filho vosso. um dos mais brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita.Francisco Cândido Xavier . ou seja o Evangelho de João. A custódia das almas sofredoras. A salvação dos náufragos da vida. que é A Divina Epopéia.

eterno e puro! Dulcificai as mágoas que laceram 131 . Apiedai-vos dos frágeis caminhantes. Abençoai os mansos e os humildes Que acima de ouropéis enganadores Põem o amor de Jesus. Fugitivos da luz que os esclarece! Anjo da caridade e da virtude. Dai fortaleza àqueles que fraquejam.Parnaso de Além-Túmulo Astro de amor na noite dos abismos. Cegos desventurados.Francisco Cândido Xavier . Afastados do amor e da verdade. caminhando Em busca de outras noites mais escuras.. E corações farpeados de amarguras. Fortalecei a fé dos vacilantes. Iluminai os cérebros descrentes.. Enxugai-lhes as lágrimas penosas! Virgem imaculada de ternura.. Mergulhados nas tredas tempestades Do mal. Legião de penitentes voluntários. Existem almas míseras que choram Amarradas ao potro das torturas. que padece. que lhes ensombra a mente e a vista.. Clarão que sobre as trevas da cegueira Expulsa a escuridão das consciências! Virgem da piedade e da pureza. Estendei vossos braços tutelares À Humanidade inteira. No tenebroso báratro das dores. Espíritos na treva das angústias. Estendei vossas asas luminosas Sobre tanta miséria e tantos prantos. Clareai as sendas obscurecidas Dos que se vão nos pântanos dos vícios!.

anjo de amor.. o vosso manto Constelado de todas as virtudes. Afastando amarguras.... Clarão de sol nas trevas mais espessas. 132 . Estendei. O pão miraculoso.. Providência da pobre Humanidade!.. que os acalente e os conforte! Virgem. Vinde. Porto de segurança aos viajantes. Mãe de Jesus. Conforto às almas tristes deste mundo. doce e bondosa. concedendo Claridades a estradas pedregosas.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Pobres almas aflitas na voragem Das provações mais rudes e amargosas.. Farol brilhante iluminando os trilhos De todos os viajores que caminham Pela mão de Jesus. que ampara e que redime.. Ele será a luz resplandecente Sobre a miséria dos padecimentos. Ajudai-nos a fim de que a vençamos. Sobre a nudez de tantos sofrimentos Que despedaçam almas exiladas No orbe da expiação que regenera. Vinde a nós! nossas almas vos esperam. repartido Entre os esfomeados e os sedentos De paz.. Vinde a nós que na luta fraquejamos.. Atendei nossas súplicas. dai-nos mais força e mais coragem. Virgem pura. Senhora. Almas de filhos míseros que sofrem. piedosa Virgem de bondade. na vossa alma divina! Vinde! . Derramai sobre nós o eflúvio santo Do vosso amor. Cremos em vós...

Francisco Cândido Xavier . A Rainha dos Anjos. a pobre caravana Em fervorosas súplicas. De vossa caridade soberana. Neste banquete místico do amor. Inundando de amor e de ternura As feridas cruéis e dolorosas. Ela conhece as lágrimas penosas E recebe a oração da alma insegura. Às filhas da Terra Do Seu trono de luzes e de rosas. Ouvi dos Céus. ditosos e infinitos. Com o bálsamo da crença que promana Das luzes da bondade esclarecida. 133 .Parnaso de Além-Túmulo A Maria Eis-nos. Implorando a piedade. Providência de todos os aflitos. Estende os braços para a desventura. Fortalecei-nos a alma dolorida Na redenção da iniqüidade humana. Que campeia nas sendas espinhosas. meiga e pura. Nossas sinceras preces ao Senhor. Que a nossa caravana da Verdade Colabore no Bem da Humanidade. reunida. Senhora... a paz e a vida.

Francisco Cândido Xavier . em vossas próprias almas. as lágrimas da guerra E os quadros de amargor. A alegria do reino de Seu Filho! À Virgem Do teu trono de róseas alvoradas. que andam na Terra. mães. irmãs. No turbilhão dos homens e das coisas. Anjo consolador dos desterrados. Mitiga a dor das almas desditosas Entre as sombras de míseras estradas. Ao teu olhar. mãe bendita. Mãe de todas as mães infortunadas.. as mãos radiosas Sobre a angústia das sendas escabrosas Onde choram as mães atormentadas. E encontrareis. Imitai-a na dor do vosso trilho!. Não conserveis do mundo o brilho e as palmas.Parnaso de Além-Túmulo Filhas da Terra.. 134 . São caminhos de luz para o Infinito. Com tua alma de unos e de rosas. Estende. Conforta os corações encarcerados Nas algemas do mundo amargo e aflito. esposas.

em minha fantasia: Primeiramente.. da ilusão e da alegria. Como o simum que arrasta As cidades repletas de tesouros Confundindo-as no pó. Minha luz Eu era. Quando chegaste de mansinho. A um dos belos tesouros que eu possuía E mo roubaste para sempre. despreocupada.. e faleceu em 30 de agosto de 1933. Em fúria iconoclasta.. A pomba predileta Do prazer. a alma rubra e inquieta. alegre cotovia. Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava serem os seus versos de origem mediúnica. a Renúncia. Foste. Grinalda de Violetas.Parnaso de Além-Túmulo 135 22 Cármen Cinira NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu no Rio de Janeiro. Sensibilidade. em obras como: Crisálida. Saudava alvoroçado O segredo da noite e a luz clara do dia.Francisco Cândido Xavier .. E eu te enxerguei. Em meu engano. . Meu coração. em 1902. austera e inclemente. Pisando sutilmente o meu caminho. o Sacrifício e a Humildade.. Dor.. Glorificou o Amor.

. Meus cofres de alabastros. 136 . Meus mármores de Paros. Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. Prosseguiste.Francisco Cândido Xavier . ó Dor depuradora. Foste a sombra divina Que acompanhou meus passos ao sepulcro. Encheste a minha vida De um estupendo prazer. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios. Porque representaste em meu destino. Destruindo-os sem dó.. Na tua obra silente e solitária. Minhas estatuetas singulares. Que eu pusera nos astros Em meio às melodias estelares! Mas. E quebraste Minhas cítaras de ouro. por te querer. Minhas bonecas de biscuí. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo.Parnaso de Além-Túmulo Foste aos meus ídolos mais caros. desde que chegaste... Tudo sofri. Ó Dor. ó divina estatuária. E humilhaste Meus sonhos de mulher e de menina.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

De alma sofredora,
O fanal peregrino
Que me guiou constantemente
Através das estradas espinhosas
Para as manhãs radiosas
Da Luz Resplandecente...
Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa,
Pois da volúpia estranha dos teus braços,
Vim pelas mãos da morte complacente
Para a vida sublime dos Espaços!...

Aos Espíritos consoladores
Donde éreis vós, ó formas imprecisas
De arcanjos tutelares,
Cujas vozes suaves como brisas
Trouxeram-me nas dores,
No auge do meu sofrer, nos meus penares,
A irradiação de brando refrigério!...
Frontes aureoladas de esplendores,
Seres cheios de amor e de mistério,
Cujas mãos compassivas
Ungiram meu coração resignado
Com o bálsamo do olvido do passado,
E com os místicos olores
Das meigas sempre-vivas
Da fé mais luminosa e mais ardente...
Seríeis o fantasma imaginário
Da mórbida exaltação d'alma do crente?

137

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Não, porque sois os cireneus piedosos
Dos que vão em demanda do Calvário
Da Redenção, nos sofrimentos rudes;
Vindes das mais remotas altitudes
De sublimados mundos luminosos!...
Seres do Amor, jamais traduziria
O cântico de luz
Que trouxestes ao leito da agonia
Que eu transpus,
Cheia de desenganos e gemidos!...
Verto ainda os meus prantos comovidos
Lembrando-me do vosso Stradivárius,
Repetindo as cadências dos hinários
Dos orbes da Ventura e da Harmonia,
Onde habitais, glorificando o Amor
Que d'alma faz um ninho de alegria
E um foco de esplendor!
Em que sol deslumbrante, em qual esfera
Viveis a vossa eterna primavera?
Ó irmãos consoladores,
Que vindes confortar os pecadores
Penitentes da vida transitória,
Dai-me um pouco de luz da vossa glória,
Estendei-me uma única migalha
Da vossa paz, que nutre e que agasalha
Os corações iguais ao meu!...
Tenho sede do amor que enfeita o Céu!
Espíritos da luz radiosa e infinda,
Minhalma é fraca e pobre ainda;

138

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todavia, imortal,
Quero ter dessa luz resplandecente,
E quero embriagar-me inteiramente
Com os vinhos da alegria celestial.

Cigarra morta
Chamam-me agora aí
Cigarra morta,
E não podia haver melhor definição,
Porque caí estonteada à porta
Do castelo em ruínas,
Do desencanto e da desilusão!...
Minhas futilidades pequeninas...
Meus grandes desenganos...
Eu mesma inda não sei
Se é ventura morrer na flor dos anos...
Sei apenas que choro
O tempo que perdi,
Cantando em demasia a carne inutilmente;
E vivo aqui, somente,
De quanto idealizei
De belo, de perfeito, grande e santo,
Que inda hei de realizar
Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.
Dá-me força, Senhor,
Para concretizar meu anseio de amor:
Evita-me a saudade
Da minha improdutiva mocidade!

139

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Eu não quero sentir,
Como cigarra que era,
A falta das canículas doiradas
Sob a luz de ridente primavera.
Já que tombei cansada de cantar,
Calando amargamente,
Perdoa, Deus de Amor, o meu pecado:
Que eu olvide a cigarra do passado,
Para ser uma abelha previdente.

Era uma vez...
Era uma vez Cármen Cinira, Um coração
Cheio de sonho e flor, que mal se abrira
Nos jardins encantados da ilusão...
Estraçalhou-se para sempre
Na voragem
Das trevas, dos abrolhos!...
Era uma vez Cármen Cinira...
Uma suposta imagem
Da perene alegria,
Mas que trouxe em seus olhos,
Eternamente,
Essa amarga expressão de alma doente,
Cheia de pranto e de melancolia!...
Cármen Cinira! Cármen Cinira!
Que é da minha cigarra cantadeira?
Embalde te procuro.
Por que cantaste assim a vida inteira,
Cigarra distraída do futuro?

140

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Perturbada,
Aturdida,
Busco a mim mesma aqui nestoutra vida...
Onde estou, onde estou?
Minha vida terrena se acabou
E sinto outra existência revelada!
Não sei por que me sinto amargurada...
Sinto que a luz me guia
Para a paz, para um mundo de alegria.
Mas, ó imortalidade
Se na Terra eu te via
Como a aurora divina da verdade,
Não julguei que inda a morte me abriria
Esse cenário deslumbrante
De outros sóis e de outros seres,
E vejo agora
Que não amei bastante,
E não cumpri à risca os meus deveres!
A fagulha de crença
Que eu possuía,
Devia transformar numa fornalha imensa
De fé consoladora,
E incendiar-me para ser luzeiro.
Mas, ó Senhor da paz confortadora,
Eu vi chegar o dia derradeiro
Em minha dor, na máscara de festa,
E a morte me apanhou
Como se apanha uma ave na floresta.
Experimento a grande liberdade!
Todavia, Senhor, ampara-me e protege

141

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Minha triste humildade!
Eu te agradeço a paz que já me deste,
Mas eis que ainda te imploro comovida,
Porque me sinto em fraca segurança;
Deixa que eu guarde ainda nesta vida
Meu escrínio de estrelas da Esperança.

À Juventude
Juventude linda e ardente,
Mocidade querida que eu exorto,
Meu coração de carne, esse está morto,
Mas minha alma que é eterna está presente.
Zelai pelo plantio, ó juventude,
Das flores perfumadas da virtude,
Porque depois dos sonhos terminados
Em nossos ermos e últimos caminhos,
Ai! como nos ferem os espinhos
Das belas rosas rubras dos pecados!

O viajor e a Fé
– “Donde vens, viajor triste e cansado?”
– “Venho da terra estéril da ilusão.”
– “Que trazes?”
– “A miséria do pecado,
De alma ferida e morto o coração.
Ah! quem me dera a bênção da esperança,
Quem me dera consolo à desventura!”

142

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Mas a fé generosa, humilde e mansa,
Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura:
– “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos,
Que esclarece e conforta os sofredores!...
Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos,
Mas com Jesus um espinho tem mil flores!”

O sinal
Quando chegamos do País do Gozo,
Nossa alma sem repouso
Traz o sinal das trevas do pecado.
Nossa alegria é um riso envenenado.
A palavra disfarça o coração
E a nossa dor é desesperação.
Tudo é sombra. A verdade não tem voz.
Muita vez, tudo é queda dentro em nós.
Mas os que vêm do Mundo dos Deveres
Guardam a luz de místicos prazeres.
Não têm palmas da Terra impenitente...
Como tudo, porém, é diferente!...
Sua alegria é um fruto adocicado,
Sua palavra é um livro iluminado,
Sua dor alivia as outras dores.
Trazem o amor de todos os amores,
Revelando na vida transitória
O sinal do Calvário aberto em glória!

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Há quem chora sozinho. Mas. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! 144 . Ralado de tortura e sofrimento. O irmão abraça o irmão... cristalinos. A estrela de Belém volta.. De esperança e de mel. Sem a graça de um pão. Beija o filho a mãezinha idolatrada. em plena rua. Há quem clama piedade e passa ao vento.. Ao pé da multidão. lá fora. Em festiva oração. harmoniosos.. Cantando a excelsitude do Natal!. Em édenes fechados de carinho. há corações ao lume E há sempre um bolo.Parnaso de Além-Túmulo Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos. Dentro da noite. ante os júbilos do povo. Nascem canções e flores de mansinho. em vagas de perfume. Há quem contempla o céu maravilhoso. de novo.Francisco Cândido Xavier . Doces. Sob a crença imortal. A brilhar. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia. Sob claro dossel. a tristeza continua. Une-se o noivo à noiva bem-amada..

Para unir-nos no Amor. Para tornar à luz. Que não podem sorrir. Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz. de viagem.. aflita.. fraternalmente. Temperado de amor. que aceitaste a luz renovadora.Parnaso de Além-Túmulo Ah! como é triste a imensa caravana. Tu. Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós.Francisco Cândido Xavier . Que segue. Oferece à criança abandonada Um velho cobertor. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria. Prossegue o Mestre.. Vem amparar os filhos da amargura. Do Rei que se humilhou na manjedoura Para amar e servir. Natal!. 145 . Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus. Volve o olhar compassivo à senda escura. Vem medicar quem geme na calçada!. Há muita crença enferma.... quase morta. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. Que só pede um sorriso brando à porta.

. 146 .Parnaso de Além-Túmulo Em vão buscando um quarto de estalagem. Um ninho pobre.Francisco Cândido Xavier . E encontra sempre a cruz. Por não achar socorro. ao fim da estrada. em vão!. nem pousada Em nosso coração..

os desalentos. Lamentando os sofrimentos. mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. apenas freqüentou escolas primárias. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914.Francisco Cândido Xavier . Do azul imenso dos céus. Compreendi que os abrolhos . ao demais espírita confesso. para de todo cegar da outra aos 16. por acidente. Confiado no amor de Deus. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé. Se tivesse tido maior cultura. atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. Há. Nas radiantes alturas. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. Fugi do pesar profundo. A alma ansiosa da Verdade. Pobre. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade. Em célico resplendor. Mal. abrira os olhos Em meio de luzes puras. porém. na sua existência terrena. As mágoas. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo.Parnaso de Além-Túmulo 147 23 Casimiro Cunha POETA vassourense. Órfão de pai aos 7 anos. uma triste particularidade a assinalar.

Aqueles que já sofreram No dever nobilitante. Provocando maldições. Que mata toda a alegria.Francisco Cândido Xavier . Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia. O aroma da Caridade Perfumando os corações. Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza. A meiga flor da Bondade. 148 . Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor.Parnaso de Além-Túmulo Que a Terra me oferecera. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. resplendentes. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. Encontram nestas moradas Tão formosas.

Acordai. deificados. Os reflexos divinos Quais lírios iluminados. Penetrarão sua mente. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. Pois agora na ventura Fruireis consolações. belos. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura. Que aportais neste momento. Nesta esfera iluminada. Luminosas. ó vivente. Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. sempre lindas. 149 . Arauto do Onipotente. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora. O Senhor sempre clemente. Alvos.Francisco Cândido Xavier . Contemplai-vos nesta vida.Parnaso de Além-Túmulo Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas. Não vereis o sofrimento Retalhando os corações. pois.

Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei.Francisco Cândido Xavier . O Luzeiro da Bondade. a Jesus. Só aproveita das cruzes. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade. abençoei A dor que amaldiçoara. Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. flores brilhantes. Na tremenda tempestade Das dores e expiações. E feliz então busquei As bênçãos. A nossa alma que erra. Venturoso. O Mestre da Caridade. O grande Mestre do Amor!” Então. Tão longe das grandes luzes. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. pois. 150 . Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos.Parnaso de Além-Túmulo Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. Que renegar eu tentara Como os míseros ateus. Das amargas provações.

A alma tristonha e exul. O peito dilacerado. Os prantos. Visitam os vossos lares Como gênios protetores. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal. Em meio das luzes puras. Osculam-vos ternamente. O coração desolado. os amargores.Francisco Cândido Xavier . pois. As frias noites sem luz. Insuflando-vos coragem. ao verdes 151 . Alegrai-vos. Quais centelhas luminosas. De outras rútilas esferas. São mensageiros felizes Nas radiantes alturas.Parnaso de Além-Túmulo Deixando-vos sem conforto. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus. Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. E os vossos filhinhos ternos. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal.

Como sorrisos dos Céus. Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente. Se perguntásseis também. Como fúlgidos clarões. inocentes. Ascensão Perguntai à flor virente. Eles farão despertar As alvoradas formosas. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo.Francisco Cândido Xavier . De pétalas multicores. O que fazem cá no mundo. Ela vos retrucaria: 152 . De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. perfumadas. Venturosos. Tão viçosas.Parnaso de Além-Túmulo Quando partem sorridentes. Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza.

Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura. Caminhai sempre serenos. Entre as rosas da Ternura. Espargindo a caridade.Parnaso de Além-Túmulo . E no Bem conquistaremos A suprema perfeição. entre rosas. Para a Luz e para o Bem. Entre lírios.“Caminhamos na alegria. Consolando a desventura. A alvorada rutilante Da sublime perfeição. Chorar na escuridão Em dores mergulhado. 153 . irmãos terrenos. Segui pois.” Tudo pois. Só assim caminharemos Nessa eterna evolução. E ver depois a luz Da aurora de ventura. Marcha ao progresso incessante. Entre os lírios da Bondade. em ascensão. Nessas trilhas luminosas.Francisco Cândido Xavier .

Supremacia da Caridade A fé é a força potente Que desponta na alma crente.Francisco Cândido Xavier . É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo. Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora. buscar o amor Nas lúcidas alturas. A caridade é o amor. No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus. Que ilumina os corações. Que nos eleva até Deus.Parnaso de Além-Túmulo E após o sofrimento Ter gozo ilimitado. de vida e luz. Depois. Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões. Alva estrela resplendente. redentora. Reluzente. É possuir tesouros De paz. 154 . Sorver dentro da treva O fel das amarguras. A esperança é flor virente.

Versos Vivi na mansão das sombras. Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor. abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora. trazendo a luz. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente.Francisco Cândido Xavier . pois. peregrino.Parnaso de Além-Túmulo Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. Refulgente. 155 . A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora. Na noite das trevas densas. Desterrado. Seja. Nada empana o seu fulgor. Que irrompe. A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume. Sepultado.

Parnaso de Além-Túmulo Entrei no sepulcro escuro. Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. 156 . Alvo. E a vida da alma é a nossa Liberdade. Onde as luzes recebemos Da Verdade. Morrendo. E dele fugi feliz. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações. belo. delicado. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo. É que a vida material É a prisão.Francisco Cândido Xavier . Onde a alma é encarcerada Na aflição. Perfumando a luz do dia. Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. Pode existir a bondade Irradiando clarões. Nascendo.

Cheia de viço e frescor. É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato. Com mágoa e desolação.Parnaso de Além-Túmulo E o coração que cultiva A caridade e o amor.. 157 . É a flor cheia de aromas. Que vive com a caridade. Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados. Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor. A palavra que reténs É tua serva querida. Mas aquela que te foge É dona da tua vida. É realizada no mundo Da eterna felicidade. sem luz.Francisco Cândido Xavier . Porque não sabem que a morte É a nossa libertação.. Sem saber que o desespero É porta para outra dor. Toda a esperança da fé.

nasce a flor. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido. Assim. A alma encontra na Altura A luz. Vai a dor. Coração que andas ferido!. Cresce o broto. Após a morte descansa Quem luta. volta o dia.Parnaso de Além-Túmulo Quem sofre resignado. Volve ao Céu todo piedoso. O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores 158 . Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. depois da amargura Que a vida terrena traz. Medrando no coração. a ventura e a paz. Verá decerto a bonança. sem naufragar. surge a alegria Dourando a manhã do Amor. Sombra e luz Vem a noite.Francisco Cândido Xavier . Quem tem a flor da humildade.

O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo. É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. desabrochar. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade. Que na noite de amarguras As almas vem despertar. de verdade e luz: Sem paradoxo. linda.. da plenitude. O gozo é o próprio martírio. A morte é a deusa celeste Da vida. 159 . portanto. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus..Parnaso de Além-Túmulo E somente frias dores No mundo ingrato colheu.Francisco Cândido Xavier . A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor. noutro mundo. Que a alegria da Virtude Faz. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas. Esperando uma outra vida Noutros planos.

160 .Francisco Cândido Xavier . Venerandos. Continuando graciosas A tapetar as estradas. pois não é. dormiremos. seculares. Caem copas opulentas. Mas se não for. Ciência amiga. a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos. Se for sono. De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. filho. humilde: – “Mais tarde.Parnaso de Além-Túmulo E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas. Serás o sósia da Fé. Andarás ao lado meu.” Ao que ela replica. Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva. Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas.

Mas. Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade. 161 . São refletores Da bondade de Jesus.. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos. Flores silvestres!. Na selva da vida humana Caem grandes..Parnaso de Além-Túmulo Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor. Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor.. os humildes da Terra. Imagem Dos bons e dos pequeninos. Nos dias mais tormentosos. Não caem. filho. grite o mundo. Palmilha a estrada do amor. Dentro da fé que os conduz. Flores silvestres da vida.. E frontes ébrias de gozos. Sê. poderosos: Arcas repletas de ouro.Francisco Cândido Xavier . como esta flor: Chore o homem.

atento mesmo a sua banalidade. . Que tão distantes se vão. Vida de encantos divinos 8 Esta poesia singela e. depois de casada. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor. por acidente. A ermida branca e suave De ternos. eu sei da saudade Que te aperta o coração. Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século. Vassouras!. também cegada de uma vista. que o médium não podia conhecer.Francisco Cândido Xavier . Carlota é o nome da esposa do poeta cego. intimamente pessoal. Dos nossos dias passados. belas paisagens Cheias de vida e de cor. por assim dizer..Parnaso de Além-Túmulo 162 Ao meu caro Quintão 8 Quintão. doces carinhos. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos.. Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos.

no “O Pais”. Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus. A companheira querida. Se pelas luzes dos Céus. forte e feliz. A minha pobre Carlota. Unida. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor.Francisco Cândido Xavier . 163 . Teu coração generoso De amigo. hoje os meus olhos Embebedam-se de luz. A tua doce amizade A luz do Consolador. O raio de claridade Da noite da minha vida. O mestre da Velha Guarda.Parnaso de Além-Túmulo Que eu via com os olhos d'alma. irmão e mentor. Meus pobres versos – “Singelos”. Os artigos do Bezerra De outros tempos. Ah! Quintão. “Aves implumes” da dor. Se pelas sombras da Terra.

Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal. Se buscas o Espiritismo. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria. E o Mestre Amado é Jesus. Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola.Francisco Cândido Xavier . Que clareia toda a vida E ilumina além da morte. É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia. Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança. divina e forte. 164 . O chamamento sublime Da Vida Espiritual. É uma fonte generosa De compreensão compassiva.Parnaso de Além-Túmulo Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa.

Necessário é discernir A mistura. No Evangelho de Jesus. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão. No bem que é bem substância Da crença que diviniza. Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo. Escolhidos? muito poucos.Francisco Cândido Xavier . Há sempre muitos chamados. O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados. Muita vez a água do céu Torna-se em lama. a ganga. Que abrace a nossa Doutrina. Penetra numa oficina De esforço. A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo. Portanto. e ação. é nossa divisa Oração e Vigilância.Parnaso de Além-Túmulo Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. 165 . o véu. luta. Verdade é que o coração. ao cair.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo. 166 . – Eis meu desejo de irmão.

Figura literária das mais típicas do seu tempo. A infância. acometido de tuberculose pulmonar. um lago tranqüilo Onde começa a existência.Francisco Cândido Xavier . Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor. com 21 anos de idade. À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. hoje denominado Casimiro de Abreu. Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril.Parnaso de Além-Túmulo 167 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense. no então município de Barra de São João. na Fazenda de Indaiaçu. sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho. desencarnou aos 18 de outubro de 1860. Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. . No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. A mocidade era um hino De melodias suaves. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico.

As carícias. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos. manhã ridente. De ternura e de saudade. 168 . A noite toda estrelada Após o doce arrebol. Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos.Francisco Cândido Xavier . Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma. De tristeza e de prazer. Igual a um canto sublime. Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. Numa canção de alvorada. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. Na tarde e no amanhecer. E na paisagem querida. Do verde da Natureza.Parnaso de Além-Túmulo O dia. Constantemente cismando. O pensamento sonhando E o coração a cantar.

Se há tristezas. Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo. Onde rugem tempestades. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. Sem sombras de sofrimento. Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida. O manto de luz da aurora.Francisco Cândido Xavier . 169 . Descalço. Também há dias dourados De sol e de melodias. Quando eu cruzava as campinas. Recortada de palmeiras. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além. Amargura e dissabor. A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra. com o peito ao vento. se há saudades. As frondes cheias de amora.Parnaso de Além-Túmulo Da melodia das fontes.

Retumba pelas montanhas.Parnaso de Além-Túmulo Esperanças e alegrias. Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. namorados. Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor. Um paraíso de amores. A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores. Ecoa de Norte a Sul.Francisco Cândido Xavier . Onde há reis que são poetas. Gargantas de ouro a cantar. Os sonhos da mocidade. Heróis ternos. Perfumando as pradarias 170 . Jardim de risos e flores Rolando no céu azul. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa. Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor. E trovadores alados. Que se beijam luzidias. As galas da Natureza.

cheias de olor. É sempre risonho e forte.Parnaso de Além-Túmulo Com seu hálito de amor.. Abarrotada de dores. Sorrindo. risos e flores. Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças. Desabrochando às centenas. Na estrada onde o homem passa. Também há dias dourados De juventude e esplendores. De lágrimas e amargores.. 171 . O Sol o prado ridente. De áureos sonhos no porvir!. Os astros o Sol-nascente. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar. O dia todo é alvorada De doces encantamentos. O prado perfuma os céus!. Quem vive num éden desses. Se há noite escura na Terra. Oferecendo-lhe graça. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas. De triste e rude carpir.Francisco Cândido Xavier . deslumbramentos Da Lua. A noite. Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar... De aromas.

De negras e longas tranças. Moreninha.Parnaso de Além-Túmulo Lembranças No sacrário das lembranças. 172 . Os primorosos cabelos Enfeitados. trigueirinha. à tardinha. De miosótis singelos. Moreninha. Teus lindos pés descalçados. Moreninha. De olhar sedutor e insonte. Revejo-te. Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha. Moreninha. Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros. Moreninha. Lavando a roupa às braçadas. Rainha da Natureza. Moreninha.Francisco Cândido Xavier . Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados.

Os teus risos adorados. 173 . Quando te achavas sozinha. Enchendo a nave de odores. Moreninha. Desferidos à noitinha. Moreninha. A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha.Francisco Cândido Xavier . A tua oração ditosa. Fazendo-te mais bonita. Moreninha. Sob as mangueiras copadas. Moreninha. O nosso idílio encantado. O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. Fitando a luz do sol-posto.Parnaso de Além-Túmulo Nos fios d’água fresquinha. De rosas estampadinha. O vestidinho de chita. Moreninha. Moreninha. Tão faceira! tão formosa! Moreninha. Nos bandos de namorados. Sob o luar prateado. Nas missas da capelinha.

Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!. doce rainha.. Moreninha. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci. quem me dera Rever-te. Rainha da Primavera.. deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa. Ai! Ai! meu Deus. de paixão. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Recordando Meu Deus.Francisco Cândido Xavier . Ah! que eu possa hoje olvidar 174 .Parnaso de Além-Túmulo Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade. Moreninha. Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora. Daquela risonha aurora Do meu passado viver. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever.

que ventura! Viver. Mirar a luz das estrelas. Que das ruínas. De convites à oração. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores. E contemple as primaveras Da vida que já deixei. esferas. sofrer. Meus sonhos encantadores. Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis.Parnaso de Além-Túmulo Imensidades. dos escombros. Ouvir a voz da amplidão! Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar. Beijar as flores singelas. Que esperança. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores. o mar. e amar A campina. Minha terra. meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. 175 . Enchendo as longes devesas. o Sol. Na fresca sombra dos vales.Francisco Cândido Xavier . Sentar-me no prado agreste. Minhalma retire as heras.

Revendo essa claridade. E dos cimos desta vida.. Da existência transcorrida Guardada no coração. Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível. Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando. Oh! Natureza da Terra. Na excelsa Imortalidade. céus azuis Ser homem e ser criança.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Campos verdes. Que tesouros não exalas.. Da alvorada e do arrebol. Verto prantos de saudade A luz da recordação. 176 .

com 24 anos de idade. Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos. Sedentos de paz e amor. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América. Múltiplas vidas vivemos.Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. Oficina onde a alma presa Forja a luz. É a luta eterna e bendita. Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade. desencarnou a 6 de julho de 1871. Mocidade radiosa. Em que o Espírito se agita Na trama da evolução. Para à mesma luz volver. . o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções. E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor. forja a grandeza Da sublime perfeição.Francisco Cândido Xavier .

Em mensageiros de paz. O fragmento do estrume. esplendor. A enxada fazendo o pão. Tudo evolui. terna. A flor que. Dos algozes. A vida é luz. É a rija bigorna. tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. Cai ao solo fecundando O chão duro que produz.Francisco Cândido Xavier . o malho. Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. dos tiranos. Anjos puríssimos faz. Pelas fainas do trabalho. É a dor que através dos anos. Pleno de seiva e verdor.Parnaso de Além-Túmulo É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo. Nas madrugadas de luz. mais galgar. 178 . O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. Em Carraras de eleição. Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes. expirando.

Tirânico e lutador. Na Terra. O grande conquistador. É Sócrates e a cicuta. jamais visto. imagens. Portentoso. É a lição da humildade. às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais. O Universo é o seu altar. Oh! bendito quem ensina.Parnaso de Além-Túmulo Deus somente é o seu amor. 179 . De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis. É Anchieta dominando. Suas rútilas passagens Deixam fulgores. É o sofrimento do Cristo. A ensinar catequizando O selvagem infeliz. É Cellini com sua arte.Francisco Cândido Xavier . E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz. É César trazendo a luta. quem ilumina. No sacrifício da cruz. Sintetizando a piedade. Ou o sabre de Bonaparte. Em reflexos perenais. Quem luta.

No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes. “Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade. Sou balança do destino. Prêmio ou gládio vingador. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou. O fiel desconhecido. Sou morte – origem da vida.Francisco Cândido Xavier . Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! 180 . “Tende fé.Parnaso de Além-Túmulo Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia. Nas sendas do progredir. tende esperança. Uma excelsa voz ressoa. Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida.

sou compensação. E por trabalhar com Deus. Meu verbo é a lei da Justiça. O manto das trevas densas. Na absoluta eqüidade. ouve-me. Homem. Do porvir sou plenitude. E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou. se às vezes Simbolizo a guilhotina.Parnaso de Além-Túmulo Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. Sou águia libertadora Que abre. Sepultura do presente. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz. Meu braço – a revolução. Consolo e alívio aos precitos. sobre as descrenças. E sobre a crença o esplendor. Austerlitz e Waterloo. Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. Aos bons. Meu sonho é a evolução. Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. Que trazem os sofredores No jugo da escravidão.Francisco Cândido Xavier . 181 .

Flor – oferto-te perfume. Ateio fogo aos canhões. Mirabeau.. 182 .Parnaso de Além-Túmulo Sou prisão ou liberdade. Faço cair as nações Como fiz Roma cair.Francisco Cândido Xavier . Foi assim que fiz um dia. E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou. Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. Então. também se a tirania Arvora-se em lei na Terra. Busquei Danton. Oásis – dou-te o repouso. E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove. Estrela – estendo-te lume. Nova aurora ou nova cruz. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito. Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir. implacavelmente.. Arremesso a minha espada.

Nem passado nem porvir. Dos campos Saaras ardentes. Abrir-te-ei meus tesouros. Olha o Sol de fronte erguida. Apaguei a luz do amor. Morte. Que jamais teve presente.” Portanto. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor. Agora é reconstruir. se tens Por bússola o Bem na vida. homem.Francisco Cândido Xavier . E mostra biliões de mundos. Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta. Espera-me com fervor. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos. 183 . orgulhosa. Serei tua doce amante. fria. E mostra biliões de sóis. Das cidades fiz ossuários. Trucidei réus inocentes. Horrenda. Que espedaça os teus heróis.Parnaso de Além-Túmulo Diante de tanto horror.

Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos. 184 . Revivem na velha Europa. Nínive. À luz da realidade. Tudo em seu seio revive: Esparta. Remodela humanidades No progresso universal. Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas.Parnaso de Além-Túmulo Conduzo seres aos Céus.Francisco Cândido Xavier . Em queda descomunal. Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação. E como faz às cidades. Tebas.

A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia. cresce a treva entre os escombros. adiada e emurchecida. Vai com Jesus! não temas! crê somente! . Nascido na capital de São Paulo. O viajor errante encontra a estrada. A esperança. a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909. Que o reconduz à terra estremecida. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida.Francisco Cândido Xavier . Vence o deserto áspero e inclemente. Foi grande abolicionista e espírita militante.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada. poeta e jornalista. Refloresce ao clarão de outra alvorada. Sem Jesus.

Poeta de emotividade delicada. No turbilhão de todas as esferas!. no Estado de Minas. soube. dos risos.. estranha e louca. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras.Francisco Cândido Xavier . . Sobe da Terra pelo espaço eleito. Funcionário público. marcar sua individualidade literária. Sustentando o fulgor da luz da Vida. Estrangulando a voz exausta e rouca. das quimeras.. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. Formando a rede eterna e incompreendida. mercê de um simbolismo inconfundível. Sua vida foi toda dores. Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito. Numa imensa espiral. Das dores e da lágrima incontida.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE. Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. Das ilusões. encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898.

sozinhos. Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos. E além dos trilhos de ásperos espinhos. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos. Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia. sendo na Terra os esquecidos. Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados. Corações a sangrar. bruxuleante. Abandonados. Mundos de amor no claro azul distante. Nos desertos dos áridos caminhos. Prisioneiros da angústia e da quimera. um passo adiante. ermos de amores. 187 . Aluviões de peitos sofredores. São os heróis das lutas torturantes. Que são. Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida. Revestidos de acúleos acerados.Parnaso de Além-Túmulo Heróis Esses seres que passam pelas dores. No turbilhão dos grandes desgraçados.. As geenas do pranto acorrentados.Francisco Cândido Xavier .. trêmulos.

A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores. Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. Como se a neve alvíssima a orvalhasse. E como o lodo é o berço vil de flores. Do monturo pestífero emergindo. como a face Dum querubim angélico sorrindo. Assim também do túmulo asqueroso. Sobre a lama ascorosa refulgindo. Luz que sobre negrumes se avistasse.Francisco Cândido Xavier . Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso. A brancura das pétalas abrindo. Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias 188 .Parnaso de Além-Túmulo Chorai! que a imensidade inteira chora. As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce. aflita. sonhando. Qual essa flor fragrante.

Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. Com a alvorada da Paz. anseios e alegrias. Por supormos fato inédito. dominados De esperanças. e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. Desse mundo de sombra e de agonia. radiosas formas claras. De lindos firmamentos estrelados. Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras. Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume. A alma livre contempla o novo dia. Céus distantes que vemos.Francisco Cândido Xavier . que no-las remeteu. sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo. Anjos da Paz. . Longe das dores do passado incerto. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto. deixamo-lo aqui registrado. ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto.

“Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras Que caíram exânimes na estrada. Onde aportam ditosos. Numa visão mirífica. Vê a aurora depois da noite escura. Glória à pobre criatura desprezada. Entre canções de luz e liberdade. Glória aos milhões de todas as criaturas. Sem conhecer a luz de uma alvorada. que a luz acaricia! Alma liberta. Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida.Francisco Cândido Xavier .. Forçando as portas da Beleza Eterna. redimida e pura. Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos. aniquilados. Nos sofrimentos purificadores. superna. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras.Parnaso de Além-Túmulo Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. Sob a noite das grandes amarguras.. redimidos. Como heróis dos deveres e das dores! 190 . Penetra o mundo da imortalidade.

a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa. O escuro abismo. 191 . no horizonte claro. Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno. Como arautos de todas as virtudes.Francisco Cândido Xavier . Mas não te esqueças desse mundo avaro. Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. Sabei vencer entre as vicissitudes. Cheio das luzes do porvir eterno. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo. Nos exílios do pranto e da saudade. o tormentoso Averno. Segue cantando. Sobre as ressurreições da alma gloriosa. Guardai a voz da Terra Prometida.Parnaso de Além-Túmulo Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade. O teu destino esplendoroso e raro. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé.

compassivos. fitando a imensa altura. Na paz quase integral e absoluta. Céu Há um céu para o Espírito que luta No oceano dos prantos salvadores.Parnaso de Além-Túmulo Volve os teus olhos ternos. Considerai. Onde venceste a carne soluçando. Da alma livre das penas e das dores. Que coroa de luz a alma impoluta. Que na Terra viveis como estrangeiros. Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura 192 . Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade. Que faz da vida a rede de esplendores. A canção da vitória ali se escuta.Francisco Cândido Xavier . De alma ofegante e coração aflito: Considerai. ó pobres caminheiros. Céu repleto de vida e de fulgores. Mas lembra-te do orbe da impiedade.

Parnaso de Além-Túmulo No tormento que punge e dilacera. luminosa. esperança. Abandona a prisão. Um mistério divino há nesse instante. É o augusto momento em que a alma. No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! 193 . Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente. até partires Nas asas brancas da Felicidade. Sentindo a vida de outra natureza. trêmula e acesa. Da Luz branca da Paz. ignota. Sou teu irmão. Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura. dorida e ansiosa. Beleza sossegada e silenciosa. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura. presa Às cadeias da carne tenebrosa.Francisco Cândido Xavier . Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera.

Parnaso de Além-Túmulo No silêncio de cada moribundo. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores. Se queres Se queres a ventura doce. Dos Perfumes. Há a promessa de vida em outro mundo. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores Na vastidão serena dos Espaços. Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas. Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio. mais escassos. etérea. Na mais sagrada das hierarquias. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria. das Preces e das Cores. E os prazeres mais pobres.Francisco Cândido Xavier . 194 . indefinido. Epopéias de Sons e de Esplendores. De outro mundo de luz. E o mistério dos célicos abraços.

os míseros culpados. funérea. À dor Dor. fortes e sublimes. Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo.. Aferidora da Justiça Extrema. torturados. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto. do Pranto. Seres escarnecidos. Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. Encarcerado nas sinistras grades. dos pecados. que redimes Os grandes réus. Bendita a hora em que me pus à espera De ser.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Viverás na mansão triste. Do Soluço. Que surgem do pretérito de crimes.. Sob os teus pulsos. do Gemido. Outro Job pelas chagas da matéria. Ó portadora do tormento acerbo. és tu que resgatas. Os calcetas dos erros. em vez do réprobo que eu era. 195 . Dos prazeres mundanos esquecido. Sofri na Terra junto aos condenados. De benditas e eternas claridades.

Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. Sentindo as dores desse desamparo.Parnaso de Além-Túmulo O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. Serás pobre de luz se não sofreres. Tive um passado fúlgido de glórias. fatal e avaro.Francisco Cândido Xavier . das dores meritórias. Sofre Toda a dor que na vida padeceres. E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. sem luz e sem conforto. todo o pranto. Cheias de risos e de pedrarias. Todo o fel que tragares. É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres. De maravilhas de ouro e de alegrias. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias. Ser-te-ão como trevas. 196 . Sem reparar. entretanto. e. porém. noutras sombrias Sendas tristes.

no silêncio. Meus passados. recônditos pesares. Foge à revolta.Parnaso de Além-Túmulo Pois que a dor é a saúde dos prazeres. Doma o teu coração. Cantem no mundo todas as quimeras. no mundo que o mal encheu de cruzes. Exaltação Harmonias do Som. E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! 197 . O hino da luz. Desdobrai-vos luzeiros estelares. Do Bem encontrarás a eterna aurora.Francisco Cândido Xavier . nas atmosferas. vence-o... Chorando a mesma dor que o mundo chora. Aves e flores. Exaltai minhas dores de outras eras. Exaltai-vos na vida de minhalma. misterioso e santo. Nos horizontes. vibrai nos ares. Abre a tua consciência para as luzes E. humilha-o. Sobre o aroma das novas primaveras. dobra-o. multidões de seres. e. Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos. amplidões e mares! Vibrai comigo.

Desce dos Céus a voz amiga e mansa. A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. Remontando aos Espaços constelados.Parnaso de Além-Túmulo Vozes Há sobre os prantos. Como um coro dulcíssimo de hosanas. Outras vozes mais doces e mais puras. 198 . Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras. há sobre as humanas Vozes que se lamentam nas torturas. de bênçãos soberanas. Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados.Francisco Cândido Xavier . As segundas. Quanto mais sofre. Silenciosa. muda. Sobe da Terra a queixa soluçando. suplicando. Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. As primeiras são feitas de amarguras. tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade.

Parnaso de Além-Túmulo E ao fim de cada noite tormentosa. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras. humilde e boa. Canta e vibra num dia de bonança. Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. incertas. Luminosa e divina. infinita. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. Glória da Dor. Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas..Francisco Cândido Xavier . 199 . que é pão dos infelizes.. Nessa jornada eterna da Esperança. Que é a existência na prova dolorosa. Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas.

Ide e pregai. Presa de sonhos e estremecimentos De esperança. Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura. nas horas derradeiras!. abafando os meus soluços. Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia. Quanta vez.. estrelas.. O evangelho do amor e da esperança. Como folhas levadas pelos ventos. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos. Sobre a qual vossa vida já descansa. firmamentos. Ah! meus longínquos arrebatamentos.. Amarguras e dores e canseiras.Parnaso de Além-Túmulo Horizontes. Que vos fostes nas lágrimas ligeiras. Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura. na noite da amargura. torturados! 200 .Francisco Cândido Xavier ..

lúcida e piedosa. A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave. que traz a verde oliva Da paz. Em seu labor fecundo e peregrino.Parnaso de Além-Túmulo Conduzi a mensagem luminosa Da caridade.Francisco Cândido Xavier . Misericórdia. que acaricia e que abençoa. De bens paradisíacos se priva. Manifestando as glórias da Beleza!. Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte. Mão radiosa. 201 . Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia. É a vibração do espírito divino. a qual para ser boa. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa. promissora e ativa. Redentora de todos os pecados. Das consciências libertas da impureza.

como passas. Todo o sonho carnal vaga sem rumo. A vida se alimenta de outras vidas. Tudo no mundo passa. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias.Parnaso de Além-Túmulo Do homem. Com a bondade mais pródiga e mais pura. Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças 202 . esquece a lúrida maldade. E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. Ofertando-os ao mundo que te odeia. Num contínuo combate pavoroso.Francisco Cândido Xavier . Entre as aluviões de cinza e fumo. Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças. Nesse mundo de lutas fratricidas. É ter no Além castelos de ventura. Prosseguindo na estrada luzidia. de orgulhos e de raças. De que a morte voraz faz seu consumo.

sob as dores De misérias. Iguais às vossas.. Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento. sob as maiores Desventuras do mundo. Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores. de amor. almas sedentas De paz. míseras criaturas.Francisco Cândido Xavier . 203 ..Parnaso de Além-Túmulo Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando.. que uma vida eterna e grande. Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre. rudes e incruentas. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai. de alma pura. Também vivi as lágrimas obscuras. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!. Além da morte. varado de amargores. E sustentei.. de luz. Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento. batalhas e tormentas. Surdas batalhas.

ambição do mundo.Parnaso de Além-Túmulo Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura. Cheios de prantos e de cicatrizes. 204 . seres infelizes. Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. No bergantim sagrado da Esperança.. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores. Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena. Levantai vosso olhar sereno e forte. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!.. ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura. Pobres da Terra. Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura. Que Jesus vos prepara além da morte. Glória aos humildes Ai da.Francisco Cândido Xavier . Não maldigais a ulceração da algema. E esperai a vitória alta e suprema.

É a caravana de batalhadores Que. Guardai-lhe a sacrossanta claridade. os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros. 205 . sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade. Não vos importe o espinho ingrato e acerbo. sobre a Terra. Rompe algemas de trevas e granito. Na palavra e nos atos.Parnaso de Além-Túmulo Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores.Francisco Cândido Xavier . Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores. Espalhada nas sendas do Infinito. Vós que sois. no esforço do amor puro e bendito. Aliviando os seres sofredores.

. a vida eternamente.Francisco Cândido Xavier . em 17 de janeiro de 1905. A alegria que exalta e a dor que regenera. filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros. vibrando noutra esfera. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. Morte. Continuam. Esvaiu-se a vaidade!. fumo e cinza ao fundo da cratera. como capitão da arma de Cavalaria. Os júbilos e as penas. porém... Desencarnou no Distrito Federal.Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros EDMUNDO Xavier de Barros. nem o fim! A vida. Há vida. Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus. . Em cenário diverso aprimorando as cenas. a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro.. Vida Nem a paz. no Estado de Goiás.. Que além do gelo atroz que te reveste os muros. a fama. nos círculos escuros. nascido em 1861.. Foi poeta e desenhista notável.. sempre a vida. o prazer e as ilusões terrenas São lodo. desvenda à Terra os planos que descobres.

as lágrimas e os sonhos. 207 . esquivando-se à aurora. à luta que aprimora. Sem furtar-se. O homem é o semeador dos seus próprios destinos.. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo. Para ver a extensão da noite estranha e densa. Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos. Glorificando a luz onde a Verdade mora. estrelas cantam hinos.Parnaso de Além-Túmulo Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos.. Em derredor da Terra. porém.. Santificar a dor.Francisco Cândido Xavier .. sem Deus. Ave triste da noite. sobre a fronte do mundo!. Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam.

de outras vezes. Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis. era sobretudo ativamente humorística.. 1909.. Legou-nos Poemas da Morte. quanto pela opulência das rimas. e Poesias. distante da garrafa. sem deixar de ser profunda. . Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses. e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918. versos satíricos postumamente colecionados.. Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. Sou o Emilio. Distinguiu-se pela altaneza dos temas. Recitando epigramas descorteses. em 1866.Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes. Mas que não se entristece e nem se abafa..Francisco Cândido Xavier . Musa vivacíssima e fulgurante. 1901. nascido em Curitiba. Longe das anedotas indecentes. contudo. Procurando tomar o tempo vosso. Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível. além de Mortalhas.

Francisco Cândido Xavier . Pois na hora do “salva-se quem pode”. Que nutre um corpo empanturrado e feio.. O elo que nos unia. Espero-vos aqui com as minhas festas.Parnaso de Além-Túmulo Aos meus amigos da Terra Amigos. Nas quais. Nem há cheiro de carnes ou cebolas. Apesar do meu cérebro bestunto. Evitai as comidas indigestas.. que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio. Muita gente nem fica de ceroulas. o vinho não explode. Como a quase saudade do presunto. porém. tolerai o meu assunto. 209 . (Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai. conservei-o.

da perfeição. Hinos de amor.Francisco Cândido Xavier . Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens..Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas. as auroras. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. em 1875 – depois de uma existência tormentosa. que a verdade . Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor. Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade.. Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!. as noites. Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante. da liberdade. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável. desencarnou com 34 anos. que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. Fluminense. Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis.

Francisco Cândido Xavier . Que transmudas em rosas os espinhos. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas. distantes. confundidas Entre estrelas igníferas. Irmãos. Em lindos arquipélagos distantes. Habitei os palácios encantados. Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas. Empunhando o saltério da esperança. Vastros portentosos.. redivivo!. Descansei sobre as ilhas de repouso. radiosas. Pude transpor abismos de ouro e rosas. Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro. desferindo Harmonias de amor e claridades. Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível. 211 . Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas.... Visões de sóis eternos. Em retiros de amor calmo e sereno. E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso.Parnaso de Além-Túmulo Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível. Sendas de sonho e báratros escuros. E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência.

Parnaso de Além-Túmulo Onde o solo é formado de ouro e neve. Roubando-nos afetos e consolos. Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra. Ah! Morte!.Francisco Cândido Xavier . Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. somente o amor. Se o mundo abafa em nós toda a alegria. Somente o amor é a vibração de tudo! Vi céus por sobre céus inumeráveis. Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz. As nossas esperanças mais profundas. Um detalhe minúsculo. nutre e dá vida. A morte corrobora as nossas crenças. Mundos de dor e mundos de alegria. O amor. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. divinos. Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros. 212 . A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca. jubilosa. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor.. um fragmento Da Criação infinita e resplendente. Amando-se da vida os bens mais nobres. Lá.. Quando a esperamos tristes e abatidos. nesses orbes lúcidos.

Outras almas guiando em labirintos Para a luz. a imensidade. mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! 213 . Pelos beijos dos seres bem-amados. Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. Morte! que te abençoem sofredores. Onde as almas ditosas se engrandecem. Que te bendiga o espírito abatido.Parnaso de Além-Túmulo E aponta-nos o céu. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade. Como um canto sublime de esperança. Ansiando mais luz. para a vida e para o amor! Que representa a Terra. É apenas um degrau na imensidade. Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. Pela visão dos céus resplandecentes. dos escravos Das aflições. das dores.Francisco Cândido Xavier . Sobre a fronte de todos quantos sofrem. Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne. Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. Ela é somente o exílio temporário.

a terra. orando ao Deus de amor: Revia em pensamento .Francisco Cândido Xavier . O meigo padre João. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis. Padre João meditava. o mar. vemos. mas o fulgor das idéias. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal. pela sua veia combativa e satírica. poeta português. nascido em 1850 e desencarnado em 1923. A noite era de sonho e névoa luminosa. nas mesmas diretrizes.. por sua produção de agora.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro.. Notável. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras. Um puro coração. sobretudo.

215 . meditando.Francisco Cândido Xavier . O sacerdote. então. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. Oferecendo amor em flores de bondade. fugindo aos irmãos seus. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. Era o meigo Pastor irradiando a luz. extraordinária. a ermida solitária. Comparou. Por anos inclementes Em séculos sem fim.Parnaso de Além-Túmulo Uma luz singular nas dobras do passado. E viu da sua igreja o erro tão profundo. Da igreja de Jesus. Feita de amor e luz. imaculado. Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível. o imáculo Jesus. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. Inflamado de fé. De paz e de perdão. de pau. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. inerte e frio. O farol da verdade ao humano coração. Conhecendo no padre o gêmeo de Caim. Aos pecadores dando amigas esperanças. Afastado da luz. Era um vulto sublime. excelso. Era o Anjo do Bem. desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. Notando a diferença enorme. Daquela igreja fria. Iluminando o mundo. Que fazia descer o amor às multidões. Imóvel dominando o âmbito vazio. Iluminando a vida.

Penetrou soluçando a ermida então deserta. Torturas a verdade. E fitando. Despiu-se do negrume espesso da batina. a floresta.. o espírito gelado. E como se o animasse uma chama divina. Teve medo e receio.Francisco Cândido Xavier . E transformas o padre em trapo de miséria. E fugindo a correr da porta semi-aberta. à natureza em flor. As árvores. E no sonho da luz fulgente do passado. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava. A luz radiosa e bela. Sentiu seu coração em dores lacerado. Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. a flor. E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho.. matando a paz. Encaminhou-se ao campo. endeusas a matéria. Fitou extasiado a natureza em festa. de amor. a chorar. roubando a luz.Parnaso de Além-Túmulo Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. de eterna perfeição. Crestando a fé. a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus. os mares. túrbida e falaz. Com o coração sangrando em úlceras de dor. 216 . o céu estrelejado.

Prefiro a liberdade e a vida no futuro. Ruínas de maldade estúltica a cair. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. Caridade Caía a noite em paz. Guiando-me o farol da fúlgida Razão. no amor. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus.Parnaso de Além-Túmulo Num farrapo de sombra. Era o festim do amor. Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. nas preces da harmonia!. Horas de solidão.Francisco Cândido Xavier . E eu quero abandonar a noite da prisão. Eu vejo-o.. ó torreão de séculos trevosos.. exótica e execrável. Na piedade. Horas quedas. Pelas planícies ledas. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. 217 . Crepúsculo. No firmamento em luz. Submergido em pranto. desde a flor às luzes estelares. Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu. feliz. Desprezo-te. Pairava na amplidão estranho resplendor.

que nascem das choupanas. a imensidão do espaço. por entre os negros mantos De espessa escuridão. sangrentos nos trabalhos. Os poemas de luz. Pipilavam febris no beiral dos telhados. tremendo. De quem ama a existência plácida da aldeia. Elevavam-se ao céu silenciosas. de cândida frescura. cortando. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. de exaltações. em rimas soberanas. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua. Caía a noite em paz. Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. Reunidas no lar caridoso e terno. os colibris doirados. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando. o aroma dos trigais.. Como poça de sangue. imaculada e pura..Parnaso de Além-Túmulo A asa ruflando inquieta. Andorinhas gentis. Canções de oiro e de sol das almas virginais. mudas. de prantos!. Era bem a visão da mágoa e da invernia.Francisco Cândido Xavier . Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. Almas feitas de luar. a sorrir. 218 . os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa.. em flor. Como braços em cruz. horrendamente informe. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. relicários da essência Da verdade e do amor. Sinistramente. do amor e da inocência. Exalando. Sentinelas da dor nas regiões desnudas.. Que vibrasse. Almas puras. As árvores senhoris. tardígradas do inverno. despidas dos seus galhos. em busca dos seus ninhos! Repousavam. Vivendo a vida doce.

Que vão cedo ao trabalho. Filhos da obediência. Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão. que anda nas meretrizes. Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras. Suas faces e a fronte. Que levasse o amor onde faltasse o lar. Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo. anhos de mansuetudes.Francisco Cândido Xavier . Que palpita nos reis.. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar.. à lide que os consome. 219 . Onde sobrasse a angústia. A dor que dobra e vence as multidões ignaras. Em mim. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. alvas como alabastros. Era como a piedade iluminando o mundo. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. sentia a dor dos que não têm carinhos. O castelo real e a cabana do pobre. Que derruba os casais e come o pão das searas. que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz. Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria. esplêndido e profundo. Que se vão de longada ao longo dos caminhos.Parnaso de Além-Túmulo E eu pedia ao Criador da imensidade etérea. onde andasse o penar. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes.

a seita e as gentes. pão e luz. Desço das vastidões dentro das horas mudas. que. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. Atravesso o oceano e atravesso os países. Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. e com ansiedade levo-a A quem.Francisco Cândido Xavier .. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas. E quando a tarde chega.Parnaso de Além-Túmulo Pareciam do alvor das estrias dos astros. Levo sol. Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!.. Como pairo a sorrir por cima de um monturo. adornando as campinas. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras. Emitia esplendor sua túnica de arminhos. chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados. Amo o trabalhador. engendra a paz das searas. Sou o farol da legião dos pobres sofredores. nas aflições. balsamizando as dores. Para mim. Para levar a luz. Quem és tu? – murmurei. 220 .. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa. Abranjo em meu amor a alma dos continentes. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro. que ampara a dor e vela os sonhos darte. Ando por toda a terra. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem. em vez do sono à sesta. – “Meu nome é Caridade. Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes. As rosas festivais das frescas alamedas. não existe a classe..

e as aves da floresta. Sem toques de clarins e sem espalhafatos. Amo o goivo e o lilás. corro do brejo aos sóis. Visito os hospitais. nos montes. as mágoas e esperanças. Não me regem as leis que regem um país. creches e orfanatos. Que não te quer. comovida. Vou ao cárcere escuro. Vivo fora do plano imundo da matéria. nas ermidas.Francisco Cândido Xavier .” “Caridade! – tornei. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos. 221 . alma de fariseus. nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. Lodo fenomenal de descrença e malícia. Não conheço nações. Minha missão é amar. como amo o luto e a festa. Ao pé do altar da fé. E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. Amo o bem que alivia. É por isso. o mesmo charco imundo. Beijo um cadáver nu. entro nos palacetes. Guardo comigo a dor. no sopé dos patíbulos. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. Nunca a lisonja fiz. talvez. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço. nem recebo homenagens. Amo a fera bravia. Não conheço horizontes.Parnaso de Além-Túmulo Que abarrotam de olor as primaveras ledas. consolando a miséria. Jamais pude escolher entre Roma e Paris. Confortando o amargor. como osculo os heróis. Idolatro os senis. Amo o templo e amo a escola. amo o bem que consola. A Humanidade é a mesma. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes. Subo da Terra ao Céu. que. Oro em qualquer lugar. como idolatro as crianças.

Parnaso de Além-Túmulo Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. Onde puseste a luz. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. jogue-se-lhe a metralha. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. O homem pôs o missal. causa nojo a política. Ele fez podridões de imundos cemitérios. aromas os fedores. asfixie-se a infância. Para que se não veja a ruína e os cemitérios. Onde criaste o ideal e a inspiração divina. a forca e a guilhotina. Fez a bomba explosiva. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica. Ao raiar a manhã. onde fundaste a escola. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. E se a fome vier. honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. Celas que são prisões. Rindo na podridão. A sociedade vil é quase a mesma Impéria. espalhe-se ignorância. E se o povo chorar. 222 . há mosteiros na Espanha. que esta plebe é submissa. Propague-se impiedade. Onde existe o grilhão dentro de escuras celas.Francisco Cândido Xavier . Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. há canhões na Alemanha. morre o amor. flores sobre os lameiros. que reclamar. que se açoite esse povo! Alguém. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios. Morre o bem. pague um tributo novo. Que esta plebe é de cães. ponha-se a honra ao prego. transudando a miséria. E se alguém reclamar. cheias de sentinelas. Girândolas ao ar.. Se o canhão não chegar. as batinas e a estola. toque-se para a missa. Mate-se a mocidade. De nada serve o livro a um povo sempre cego.

Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade. Para fazer o bem. Não entende Voltaire. Somente lhe interessa a sorte das criaturas. nem sabe discernir Qual deles foi maior. Nunca soube notar. o Papa o oiro vil. Para o seu labutar. morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. o Papa a Rotschild! Que queres. não discuto. Raciocina.“Antes de tudo. amigo.Francisco Cândido Xavier . Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma. corre o fecho às janelas. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. se Goethe ou Shakespeare. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz. eu não sei. Almoça e ceia o luar. Se Calígula quis endeusar um cavalo. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo. Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . Caridade? o mundo é sempre assim. Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. toma vestes singelas. a esta nada escapa. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre 223 . entre más soberanas. Se viveram maus reis. Eu só quero saber onde há miséria e luto. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet. Sabe somente ver as dores infinitas. Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. Jesus amava o pobre. nem más literaturas.Parnaso de Além-Túmulo E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. Não reconhece a lei que emana dos monarcas.

Que falta o amor e o pão. Olha sem se anojar. Luz para desfazer a baixeza de instintos. Sopa para matar a fome dos famintos. Para buscar a dor da orfandade que chora. Não lhe pode abalar a opinião da crítica. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos. Foge da discussão. onde escassa é a saúde. dor. Nunca reza em latim. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. Sabe somente que ama e também que perdoa. Nem problemas sociais. corre por toda a Europa. Sabe onde falta sol. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. Passa no mundo a pé. não está nas pelejas. sem se cansar. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. jamais amaldiçoa. não lhe estorva a política. desde o nascer da aurora. mágoas. Os mendigos e os reis.Francisco Cândido Xavier . Entra no lupanar. Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas.Parnaso de Além-Túmulo De fulgentes milhões para humilhar o pobre. Jamais focalizou questões eleitorais. os palácios e os ninhos! 224 . jamais anda de sege. Nunca viu povoléus. misérias. Não conhece opinião. Corre. nem divisa a ralé. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie. Não vai à Terra Santa em peregrinações. Jamais toma lugar para fazer sermões. E não vai desfolhar misérias nos jornais. nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. nunca fez procissões. Sabe amar e querer flores e passarinhos. Onde se mete a flor excelsa da virtude. água e calor nos ninhos.

melros e cotovias. Necessário é que eu siga em minhas romarias. Como do seu farnel. Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia.Francisco Cândido Xavier . tomo o arado e a charrua. noite de desventura! 225 . chama-me a orfandade. Sabe rasgar o peito. Vai a todo lugar. Amparar o chacal. Minha missão é amar os vermes e os países!. A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade. Sabe o bem. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor. Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda. recôndito e diverso. as aves e os reptis. Chama-me o sol redor.. Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados. Estou com o lavrador na tarefa das searas. donde foge a alegria. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda.. para guiar felizes. Vou subir a colinas e descer aos valados. Procuro a pomba e a fera. Para guiar os maus.Parnaso de Além-Túmulo Tem abnegação. Não existe num mundo. Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. É preciso que eu vá visitar os covis. Poeta amigo.” Muito tempo passara e a noite inda era escura. Noite de neve atroz. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. Desce ao antro sem paz. Existe no Universo. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade. Que ouvem as tentações do beiral das estradas.. Procurando os pardais..

não sabeis. Calcular a extensão de tantas amarguras. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro. árvores. Existências em flor. Almas na escuridão da noite sem aurora. parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas. Pobrezitos sem pão.. urnas de lama e pus. 226 . fustigadas de pranto. há aroma e luz na beira dos caminhos. Corpos de podridão. Lírios no lamaçal das grandes desventuras. O mundo famulento.. Cantos de rouxinóis. Como as aves gracis em vôos nos trigais. esquálidos e nus.. Repartindo o seu pão de carícias divinas. No entanto.) Não sabeis. dissipando as neblinas.Francisco Cândido Xavier . a Terra. O inverno e o pesar. Harmonias sutis.Parnaso de Além-Túmulo Foi-se a linda visão. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!. que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais. Anjos açucenais que a miséria devora. fruto e flor. filhas que adoro tanto.. e aos olhos da minhalma.

Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis. A lágrima da dor é estrela que transluz.Parnaso de Além-Túmulo A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins. Filhas que Deus me deu. Às regiões da glória intérmina da luz. Que sublime conduz aos planos celestiais. Que faz da Caridade a flama da Virtude. Fez também o soluço e a lágrima dorida. Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. edênico e sem par. Criou a dor clareando a escuridão da vida. misérrimas. Há risos e esplendor e há prantos.Francisco Cândido Xavier . mesquinhas. Vinde comigo ver a dor dos desgraçados 227 . das lepras mal cheirosas. Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças. Que irmana a fera e a rosa.. Que o grão de areia une ao roble secular. Paira o clarão do amor. filhas minhas. Que liga o verme ao mar. vinde alegres. Espargindo dos céus as glicínias formosas. O amor que fraterniza. que une a pomba às rosas. E se fez a bondade envolta de esperanças. comigo.. Sobre o escuro. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. o amor que dá saúde. porém. as aves e os chacais.

Cheios de sânie e pus. também. Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. Perpassam colibris. Conduzamos conosco a luz da Caridade. pois. Dando consolo à dor.Parnaso de Além-Túmulo Que chorando se vão. sem pátria e sem abrigo. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. com os corpos cancerados. E acharemos no fim da romaria imensa. Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas. Aproveitemos. 228 . esta hora calma e mansa. Espalhemos a Fé.Francisco Cândido Xavier . por este mundo afora. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos. chilreia a passarada. Nutrindo o coração na fonte da esperança. Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas. a Caridade e a Crença. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança. à treva a luz da aurora. Em que há músicas no ar e olores nas estradas. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos. O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário.

Açoitado. Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. silencioso. de pranto e de agonia. humilde e silencioso. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. valentes brasonados. Caravanas de reis nos tronos passageiros.Parnaso de Além-Túmulo Vinte séculos de dor. na cruz. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. Dois mil anos de dor. ensangüentado. Viram-no seminu. Artistas e histriões. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes. Cavalheiros gentis. partindo como tantos. Os lendários heróis no dorso dos corcéis. E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou. Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina. traído e calmo.Francisco Cândido Xavier . poetas e trovadores. Castelãs juvenis. turbas de gozadores 229 . Represam-se no olhar do Filho de Maria.

Hoje mais nada são que míseros mendigos.Parnaso de Além-Túmulo Inda vieram. O Mestre prosseguiu. Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição. nos grandes desgraçados. depois. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade.Francisco Cândido Xavier . chacais. o anjo da virtude. Multiplicando a guerra. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. as lutas e a chacina. o pranto. Desolação e horror. O sacrifício e a dor do eterno visionário. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Mas os soberbos reis e césares antigos. sublime e silencioso. Agora vêem. Os nobres doutro tempo. Contemplaram Jesus no cume da colina. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. tigres. no topo do Calvário. mataram-se os irmãos. E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. na capa dos cristãos. a guerra e a fome. 230 . sim. Estende o seu perdão cheio de mansuetude. Lobos. agora transformados Nos párias do amargor.

Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras. viceja. Contendo a aspiração indômita do povo. trazei Loiolas. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé. torcei as leis. É preciso instalar a Inquisição de novo. proclamai o dogma divino! Fazei bulas. Ensinai catecismo em todas as escolas. procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa. 231 . Proclamai. Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. Afogai na descrença a pobre Humanidade.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo E do cimo da cruz. esplêndida. operosa e triunfante. De saber a verdade acerca do Destino. Ponde sobre a esperança o inferno que flameja. Formai sob a batina as gerações vindoiras. Comei Jesus no pão refogado em falerno. Consola a multidão com o seu olhar piedoso. Cortai a asa de luz de toda liberdade. calmo e silencioso. A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador.

Com representações em todos os caminhos. Dentro das presunções da infalibilidade. absolvei magnatas. aplaudi as grandes simonias. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados. Lembrai a Inquisição e a história do papado. Fazei autos-de-fé.Francisco Cândido Xavier . Incensai Harpagões. Lede com desassombro o intrépido Barônio. E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu.Parnaso de Além-Túmulo Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente. Retende na memória os erros do passado. discursos. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. Aprovai. Só a Igreja possui a santa autoridade. sermonatas. Porque. Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. vendei o ensino e a prece. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. Transformai todo templo em balcão de bentinhos. Anatematizai todas as heresias. Entre encomendações. Interpretai Jesus no prisma do interesse. em verdade. Traficai com o altar. 232 . Esquecei sobre a lama os pobres indefesos. Ponde em cada recanto um novo Torquemada.

Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. Clareando o porvir ignoto dos destinos. ouvi minha voz impávida e serena!. A discórdia infundi! Nutri regionalismos. É feita nos clarões das grandes epopéias.. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas. irmão. Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos. A luta da verdade. Mas. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. a luta das idéias. tomando a vossa pena.. não alcança a virtude. arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus. Da mentira que. consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. 233 .Parnaso de Além-Túmulo Sobre o luxo gritai no púlpito florido. Que traz. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo. porém. e a bênção de Maria. A abençoar fuzis. metralhas.. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude. Fazendo-vos ouvir. enfim. Gritai que o mundo está perverso e corrompido. Se puderdes. carabinas.Francisco Cândido Xavier . Incentivai com ardor os rubros fanatismos..

Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus. congregações. Jamais enxovalheis o vosso ministério. Deixai a insensatez dos clérigos. Paródia de uma dor sublime e incomparável. Acostumai-vos.Francisco Cândido Xavier . da tiara. Que a Igreja representa. Nunca vos entregueis a tanto despautério.Parnaso de Além-Túmulo Criar uma ficção e excomungar de oitiva. pois. sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas. É o ator da paixão. Num cenário infantil. “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas. um pálido abantesma. 234 . É próprio das paixões e próprio da inventiva. Que a Verdade jamais se vende no mercado. a vítima e comparsa Do Papa. Imóvel.. anual. Filha da estupidez bisonha e condenável. em tinta espessa e forte. ao sol que tudo aclara. o explorador santíssimo da farsa. que se repete. arrecadando esmolas. feito de gesso e lacas. O pobre Senhor-Morto.. Olvidai convenções. Talhado de encomenda. Representa-se a peça antiga da quaresma. papado. Como as grandes funções do entrudo e do confete. Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco.

Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé. Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos.Francisco Cândido Xavier . seus embaixadores. desconforme. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno. Comte. criaturas inferiores Dirigem. Wesley. certamente. Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar.Parnaso de Além-Túmulo Com latim. bandeiras e sacolas. Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. o espírito moderno. A função quaresmal prossegue. A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. Sentinelas da fé. obeso. 235 . Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. Das chamas infernais. cantochãos. Fora das concepções altíssimas da Igreja. Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido. Precisais cultivar o nosso dogma eterno. Calvino. Coquelin tonsurado. De eterna submissão ao Papa que é infalível. sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme. porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores.

Obedecei à Igreja em sua Santidade. Sofismá-lo. Necessário se faz prender quem raciocine.. em santa penitência. caros irmãos. A Humanidade está sob o império do demo. a humilde singeleza. Resmungando um latim exótico e confuso. a toda a Humanidade. 236 . é cometer um crime. Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência. Amando a caridade. Reformistas quaisquer?. Vivei.Parnaso de Além-Túmulo Toda ordem de Roma é boa e indiscutível.. Satanás que os fulmine A falta de fervor tem feito heresiarcas. Tem até corrompido os padres e os monarcas. Terminou a oração. rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. o Senhor que ele esquece. Que é o traço de união do arcano da Trindade.Francisco Cândido Xavier . Sede firmes na fé. segundo o gesto em uso. Procurou lestamente o calmo presbitério. E abominando o Cristo. Sentimentos de fé e catolicidade. a Liberdade. E depois de exercer seu santo ministério. Com um aceno abençoou. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. É preciso antepor. contentes na virtude. enformá-lo. O dogma é uma lei benigna e sublime. a Luz. As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude.

Com o seu rubro sermão. Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo.. Sereno. ó meus irmãos do altar e da batina. 237 . Jesus apenas fora a máscara piedosa. Opíparo jantar regado a vinhos caros. a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência.Francisco Cândido Xavier . Dos atos a lição. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário. ambrosias. sem bispo e Vaticano. A Igreja que foi pura e que já foi divina. recheios. E após se abastecer pantagruelicamente. Não se lembrou que houvera o bom samaritano. Licores. o lídimo Evangelho.. Para tanta extorsão impune e criminosa. confeitos. cavando um negro abismo. Morre sem remissão de horrível carcinoma. moscatéis. Por isso. Propagando a cegueira. olvidou-lhe a doutrina. Da doutrina cristã. Nos pântanos letais e lúgubres de Roma.Parnaso de Além-Túmulo Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera. da caridade o templo. Terminada que foi a sacra pantomima. Porque a verdade pura. Sem artigos de fé. doces raros. Esquecido Jesus. inadequado e velho. Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário. Era um livro escurril. a guerra e o fanatismo. Em paz sacramental.

Parnaso de Além-Túmulo Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! 238 .Francisco Cândido Xavier .

nascido na cidade de São Pedro. A São Pedro de Piracicaba Último instante. Poemas Líricos. as mãos tranqüilas. Chorei de gratidão ao pressenti-las. Nos supremos e tristes estertores!. ansioso. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas. Ó terra de São Pedro. cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem.. Conduzindo-me à luz doutra paisagem.. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas..Francisco Cândido Xavier . Que a morte é vida para os nossos sonhos. em março de 1881. a crença era meu pajem E buscando-lhe. . Trabalha e espera sob os céus risonhos. falecendo em 1937.Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA. Era a morte. banhado em pranto. E paraíso para as nossas dores. que amo tanto. Graças a Deus. Escreveu Ementário. Com que angústias te vi..

Perdeu tudo no instante da colheita. rude e bisonho. Esperou confiante o sol da seara. Não reparou o labor triste e enfadonho. Soneto Sou. Lâmpada Velada e Fonte da Mata. E de alma ingênua e coração risonho. jubiloso. Quando aguardava a messe. Gênese.. deixou firmada sua personalidade literária. Passados os trabalhos e os tormentos. desgraçado e desditoso. . a terra que lavrara. Regou. seu último livro. A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho. em 1888. o lavrador que fez. chorando. Poeta de grande relevo emocional. Eis que aparecem os arrasamentos. Numa grande esperança insatisfeita. tendo publicado Apoteoses.Francisco Cândido Xavier . E o pobre. – Sonho lindo que a nada se compara.Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO.. nasceu na Vila de Boquim. e suicidou-se no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930.

incorpórea. Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos.. É perpetrar amargas redundâncias. Do que chamamos – a felicidade. Como fizera de minha arte um hino. 241 . Mas só colhi os frutos maus da Terra. Tudo outrora. E fui de vale em vale. As promessas pueris da falsa glória. Redizer minhas mágoas. Do sofrimento fiz o apostolado. minhas ânsias. Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado. Senhor. serra em serra.. Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia.Parnaso de Além-Túmulo Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado. E o triste engano da celebridade. Buscando a imagem fúlgida. Após a derrocada Das construções de um sonho superior.Francisco Cândido Xavier . Renovar minhas síncopes de dor.

E a carne subjugou-me inteiramente. Tudo sofri. no passado. Que torturou a minha vida inteira. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória Da crença e da bondade. Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira. E a desgraça suprema o amortalhou. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença. de fama e glória.. de dor e de miséria.. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado. Fez-me fraco e descrente.Parnaso de Além-Túmulo Na minha pobre vida abandonada. Tudo em volta de mim era a cegueira. Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza. que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! 242 .. Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições..Francisco Cândido Xavier . O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas.

243 .. o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!.Francisco Cândido Xavier . Que a confiança. Cheio de amaridúlcida ansiedade. meu Deus.. Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição. em Ti me anime. pois.. A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção.Parnaso de Além-Túmulo Relevaste..

Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia .. Volta. ainda. Celebra.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto. Redivivo Divina lira. A Pátria linda Que faz vibrar Todo o meu ser. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África.Francisco Cândido Xavier . A luz sem par.. Musa que inspira Meu coração A relembrar. A paz sublime. onde veio a falecer em 1793. de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. “minado pela nostalgia”. A vida plena. amena. Revela.

Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo. Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz. Lira divina. Chorando alhures. Ditosa e crente.Parnaso de Além-Túmulo De amor cristão. Não mais procures.. Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz. Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem. Enfraquecer-te Nas lutas mil. A nova era Do meu Brasil.Francisco Cândido Xavier . Sepulcro além.. O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção. Canta somente. 245 .

internou-se num hospital. na cidade de Borebi.Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902. o choro e as pragas. Nume solar pairando no monturo. Onde. e onde dirigia um Centro Espírita. Estado de São Paulo. enfim.. Doce e invisível no caminho escuro!.. Mas. Anjo da redenção! bendito sejas!. em 1930. da cruz de feridas que me deste. escondendo as flores com que afagas. Ouviste-me.. ó Dor piedosa e justa. de alma robusta: – Deus te abençoe. onde desencarnou. Terno.Francisco Cândido Xavier . Libertaste meu ser à Luz Celeste. sublime e fúlgido. Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen.. Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas E algemaste-me a lenho estranho e duro. em 16 de fevereiro de 1947. em silêncio. . dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui. flamejas! E agora brado.

Portugal.Francisco Cândido Xavier . então.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines. Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse. A procurar. Qual o tesouro O mais profundo. em 1830. e desencarnado em 1896. A perscrutar Qual a verdade. As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade. Nestas poesias palpita. E vi. de modo inconfundível. afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. No coração Da criatura. Só a ilusão Duma ventura. E vi senhores . É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. a suavidade e o ritmo da sua lira.

Ricos solares Dos protegidos. Heróis valentes Cá nesta vida. Depois. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo. Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos. Os potentados Com seus valores Bem se julgavam Onipotentes. Perante a mão Da fria dor. Sempre a abater Os desgraçados.. Busquei os lares.Francisco Cândido Xavier . E ainda aí Não pude achar 248 .Parnaso de Além-Túmulo Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder.. Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão. porém.

miseráveis Párias da vida.. Deixam o teto Do seu afeto Maior. Das diversões. Luz sem fulgores. Fanadas flores. belos.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo O que eu ali Fui procurar. Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados. supremo. Mágoa insanável. Insuperável. Jovens e belas. Somente encontram Dores que afrontam. Alvas estrelas De formosura.. Pobres donzelas. Eu vi mulheres Nos seus prazeres. Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. Onde se aninha E se amesquinha A multidão 249 . Que.

Belas outrora. Mas este riso. Aniquiladas. Só sentimentos Que trazem presas. Almas impuras. Julgando crer Que está a ver O paraíso. A maior dor. Só pensamentos Das impurezas. Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. Gozar.Parnaso de Além-Túmulo Que busca rir. Ao som da festa. A ver se esquece O que padece.Francisco Cândido Xavier . À meia luz. sorrir. No entanto agora Flores perdidas. Ensandecidas As criaturas Outrora puras. É o que produz Todo o amargor. E esmagadas. Desiludidas! 250 .

Eram sombrias. Eram trevosas. E tudo. Dissimulado. Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. A iniqüidade. Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores. enfim. Toda a maldade Da hipocrisia. então. A grosseria. Desconhecida Naquele meio. Pois só cobriam Míseros trapos. As pedrarias Tão luminosas. A traição.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Nesse recinto Eu vi. Notas atrozes. Pobres farrapos De almas perjuras 251 . Tristonho assim. De uma alegria Jamais sentida.

Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram.Francisco Cândido Xavier . Pronta e veloz. Dando-lhe a calma Que necessita. Fracas criaturas Baldas de amor. Me respondeu: “Filho bendito 252 . Desanimado. Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. condoído. Só contemplei O mal que vi. Só conheci E encontrei. Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita.Parnaso de Além-Túmulo Ao seu Criador. Desiludido. E.” Mas uma voz Do azul do Céu. gemem.

Está na luta. E no Infinito Tudo o que fiz. A Terra linda E então verás. Mais fino ouro Dos filhos meus. Em todos os seres.Parnaso de Além-Túmulo Do meu amor. Donde provém A grande paz. Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso. ainda. 253 . Nos prantos seus.Francisco Cândido Xavier . Contempla. Vi transformadas Todas as cenas. O grão tesouro. O sumo bem. Sou teu Senhor. Desenganadas Nas perdições. Nada se perde. Assim tornando O ser feliz. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas.

crianças. chorei. Jovens.Parnaso de Além-Túmulo Homens. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei. A amarga dor. Brotar a flux No coração De cada ser. Por entre a luz. Em profusão. Por entre flores. mulheres. Sorri. Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! 254 . Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris. Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. Gotas singelas.Francisco Cândido Xavier . Meigas. Lágrimas belas. Nas esperanças. Nas grandes penas. serenas.

Fui então vendo.Francisco Cândido Xavier . então.Parnaso de Além-Túmulo Depois. Jóias divinas Do escrínio santo. E vi. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo. Em profusão. Vale profundo De mágoa e dor. Reconhecendo Que aqui nos Céus. Que os coroavam Com gemas finas. Primor de encanto Do amor de Deus. Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus. Lágrimas lindas São transformadas. 255 . Quando voltavam Do seu exílio. Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra. Gemas brilhantes.

Com a lágrima bela.Parnaso de Além-Túmulo Alvinitentes. Sejam benditas. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda.Francisco Cândido Xavier . O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus. As pequenitas Gotas de pranto. Que entre os seres do Além é sempre igual. Ricas. Felicidade Ao peregrino. fulgentes E deslumbrantes. Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora. Tranqüilidade. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura. 256 . Que nem Ofir Pôde possuir. Bendito o Pai.

. aonde o pecador.Francisco Cândido Xavier . na Terra apetecida. Mansão de claridade e pulcritude 257 . Venturosa região do espaço Além. Para se achar o Amor. Doce Mansão de Paz. basta crer Na Paz do Céu. A morte é um sono doce. País dos Céus. imaterial. Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz. Onde há trégua à tristeza e ao padecer. Vai ali encontrar Consolação. que se antevê. Depois de bem sofrer aí a dor. Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!. Onde impera a bondade do Senhor! Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul.. na provação. Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer.Parnaso de Além-Túmulo No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor. a Luz e a Vida. Pelo poder da Fé.

O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor.Parnaso de Além-Túmulo Onde os bons.Francisco Cândido Xavier . Porém. que adoraram a Virtude. Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido. um dia. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! Dentro das lutas. Gozam do afeto extremo de Jesus. 258 . Estremecido. Nessas regiões Onde há mansões Purificadas. Imenso e lindo. Iluminadas Do Criador.

Sorrir. A grande luz 259 . E se aprenderes Saber viver. Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui.Parnaso de Além-Túmulo Tredas disputas Do Bem. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor.. do Mal. sofrer.. Conquistarás A grande paz. Já te mostrei A lei do amor. porém. Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres. Risos e flores.Francisco Cândido Xavier .. Luz do Senhor – O sumo bem. Tu lutarás. Por entre espinhos.. Mágoas e dores. Do sacrifício!. É que verei Se o que ensinei Ao teu valor.

Reservarei E hei de guardar Para a tua alma. Nessas moradas Iluminadas Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço. Pra conquistares A luz. Tranqüilamente. o amor Do teu Senhor.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Que eu. Ao regressar. A boa estrada E com carinho 260 . A dor. Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho. teu Jesus. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos. Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura.

Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem Os sofredores. Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se. E ora conduz Teus sentimentos.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. Caminha avante. Que cultivei Dentro em teu ser. Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros. 261 . À perfeição Do coração. Teus pensamentos. Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar. Sê sempre amigo Dos sofredores.

Régio. nasceu Num lar ditoso. Rútila e pura Aqui no Céu. Onde a alegria Reinava. Dos venturosos. e ria 262 . Sempre cumprindo Os teus deveres. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar.Francisco Cândido Xavier . Pecaminosos. Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz.Parnaso de Além-Túmulo Ambiciosos. austeros. faustoso. Se assim fizeres E procederes. A conquistar Maior ventura. Frios. Então. Em mensageiro Do Deus de amor.

Era adorado. Felicitado Nessa abastança. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária 263 . Naquele lar. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos. Por planetária. na existência. Ganhou saber Nobilitante. Mas irreais. Lindos. Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu.Francisco Cândido Xavier . formosos. Na mocidade. A luz brilhante Dessa ciência Que.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Rico alcaçar Dos abastados. Desses palácios Materiais. Belo esplendeu. Ainda criança.

Francisco Cândido Xavier . O infeliz ser Viveu dos lábios. Ele esplendeu No vão saber. Refugiou-se Na vã Ciência. Mas sem olor. Cheio de luz. Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. Na Academia Dos homens sábios. Fulgiu. Mas renegou 264 .Parnaso de Além-Túmulo A lei de Deus. Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade. Despreocupou-se Com a consciência. Tornou-se esquivo. Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor. brilhou. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus.

Assim. fulgir. Dele esperando Sua ventura. cumprir Sua missão. 265 . Nunca buscou. Nossa esperança Encantadora. A relegar. A imensa luz Espiritual. Os desprezou. Suaves brilhos Da nossa vida. Sempre espalhou. Só procurou Brilhar. Como um ateu.Francisco Cândido Xavier . Somente amando Sua ciência Enganadora. Filho do Mal. Os próprios filhos. E da existência Da própria alma Por fim descreu. Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura.Parnaso de Além-Túmulo A lei do amor.

viveu Só na Ciência. Nunca estancou Uma só lágrima. A morte amara.Parnaso de Além-Túmulo Em profusão. A Parca fria. Que brota n'alma Desiludida. feias. Suas idéias Tristonhas. Nunca pensou Uma ferida.Francisco Cândido Xavier . um dia. avara 266 . infeliz. Porém. Não consolou O que sofria. De quem fugia Sem compaixão! Enfim. Cruel. Jamais o quis. Nessa existência Que passa breve!. O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas. Do ateísmo Desventurado.

num grito. Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. E o conduziu Para o Infinito. Do seu amor. então. Amargurado Na aflição! Somente. assim.Parnaso de Além-Túmulo E dolorosa. Por onde sempre Se comprazera. Lembrou de Deus. Onde. Dentro da dor. Abandonado. Sentiu seus olhos Enevoados. Sentiu-se. 267 . Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo Em que vivera. O arrebatara Nessa escabrosa Escura via. Do sono amargo Em que viveu.Francisco Cândido Xavier . Ele acordou Do seu letargo.

Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer. Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. Por isso. Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. agora. Jamais soubeste Te conduzir. Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz. Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar 268 . E assim cumprir O teu dever.Parnaso de Além-Túmulo A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração. Pelo viver Que demandaste.Francisco Cândido Xavier .

A consciência! 269 . Que então devias.Parnaso de Além-Túmulo E assim curar A alheia dor. À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres. Foi convertida Em fero braço Esmagador. Entre alegrias. Oferecer À Humanidade. Foste inimigo. Que mais te amavam. O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho. Dos próprios seres Que te adoravam. Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação.Francisco Cândido Xavier . À perfeição. O grande amor – Fraternidade. E até negaste A existência Da própria alma. Em luz perdida.

Francisco Cândido Xavier .” Calou-se a voz. Do coração Do miserável. Padecimentos.. Por muitos anos. Frios horrores. então. Entre lamentos E dissabores. Envergonhado. Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever. Fatal.. Ele chorou E lamentou.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Espezinhado Na sua queda. Seus desenganos Na senda triste. Que assim trilhara Na perdição. amara. Correu sozinho 270 . Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato. E o pranto atroz Jorrou. Continuamente.

. Amargurado. Pedindo luz. Supliciado. Desanimado. muitas vezes. E. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão. A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo. Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou.Parnaso de Além-Túmulo O mundo inteiro. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho. O seu olhar. Perambulou Qual Aasvero. Sofreu. Assim lhe era Retribuído. O mesmo bem Que ele fizera. Só encontrava Consolação Nas lágrimas tristes 271 . Desamparado. clamou. E o pobre Espírito Desiludido..Francisco Cândido Xavier .

Formosos.. Até que um dia Em que sofria. santos. Fui a grilheta Da impiedade. Ó bom Jesus! E mesmo assim. Cruel e atroz.Parnaso de Além-Túmulo Que derramava Em profusão. 272 . A alma triste E solitária.. Eu me perdi Por meu querer. Pois não cumpri O meu dever!. Tendo comigo A tua luz. Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis. Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado. Mais padecia A dor feroz.Francisco Cândido Xavier . Experimentada. Cheia de unção Por entre prantos. Extenuada No atro sofrer.

No meu viver Sem luz.Francisco Cândido Xavier . E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!. Não quero ter 273 . sem flores. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei..Parnaso de Além-Túmulo Pobre calceta Da iniqüidade. Sempre viver Na singeleza. O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei. Dá-me o acúleo Da expiação.. Tão justo e santo. Sabes do pranto Das minhas dores. Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação. Para que seja Exterminado O meu orgulho. Mas tu que és bom. Quero sofrer Dura pobreza.

Francisco Cândido Xavier . Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. Nessa batalha Que empreenderei. Árido e seco Pelo vergel Enflorescido. Não quero ver O dealbar De uma esperança. Então serei Ramo perdido. jamais. Onde se encontra Maior ventura. Não quero ter. Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. Incompreendido Em minha dor. Nunca.Parnaso de Além-Túmulo Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação. Quero ganhar 274 . O próprio lar.

portanto. Cruéis e duras Das aflições. O puro amor. Só é formosa. Quando aliada Da caridade. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa. o pão.Parnaso de Além-Túmulo E conquistar A luz. Ó bom Jesus. Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes. Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras. O agasalho.Francisco Cândido Xavier . Claro e sublime Para o meu crime. Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei. 275 . Com meu trabalho.

Quero sofrer Com humildade.” E o Mestre Amado. Como a violeta Sob a folhagem. Viver somente Pela voxagem Das desventuras. E sempre ter Em mim bondade.. Feliz dulçor Da caridade!. Deu-lhe o perdão. Pelo infinito Desenrolar E perpassar 276 . Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado. Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão. Enfim.. A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena..Francisco Cândido Xavier . perdido. Seja bendito..Parnaso de Além-Túmulo Neste planeta.

Chamou o homem Jatancioso. Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas.Francisco Cândido Xavier . Escuta a prece De quem padece. queridas. De parceria Com o Orgulho.Parnaso de Além-Túmulo De toda a idade. O bom Jesus. Incomparável. Que. com sua luz E terno amor. Belas. Rude e cioso Do seu poder E vão saber. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável. Do Criador! Na estrada de Damasco Num certo dia A Ambição. E assim lhe disse: 277 .

Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos. É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos.Francisco Cândido Xavier . Ser imperfeito Se achasse embora. Glorificado De grão-senhor!” E o pecador. Faze-os vassalos No teu reinado. E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação. E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes. tu és Senhor potente. Grande e valente Aqui no mundo.Parnaso de Além-Túmulo “Homem. 278 .

Mestre da luz. Que tudo vê. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai. Bem satisfeito.Francisco Cândido Xavier . e o bom Deus Que está nos Céus. E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão 279 . E o bom Jesus. O Filho amado Que à Terra veio. A este mundo Ingrato e feio A redimir. Que então lhe diz: “Mas. O Criador. Nesta existência De provação. Que é a Consciência. O Deus de amor. Nosso Senhor.Parnaso de Além-Túmulo A seu agrado. Foi sem demora Então chamado Por um juiz De retidão.

Em seu amor. Do teu viver. Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. Assim. Nunca negar A tua mão. Em sua cruz!” Mas.Francisco Cândido Xavier . E espalhar Somente amor. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos. procura Melhor ventura Em só buscar.Parnaso de Além-Túmulo Tu deves dar. Lindos. A relegar Toda a maldade. o tal homem Tão orgulhoso. risonhos. Seguir Jesus Em sua dor. Acompanhar. Que já se achava Bem poderoso. Com alegria. Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. 280 .

Francisco Cândido Xavier . Assim. E o tal Jesus. então. Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão.Parnaso de Além-Túmulo Isso seria Obedecer E se humilhar. Desolações. Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário. Eles. buscou E perguntou Aos companheiros. Cruéis espinhos. Tristes agruras. E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido. Nós concedemos Ao teu valor 281 . Enquanto ele Só te oferece Amargas dores. Tendo o poder Pra dominar.

O louco amor Do teu Jesus. Vale o gozar Constantemente. Pois vindo a Parca Bem de repente.Francisco Cândido Xavier . Mais saberá O que é existir. Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir. Porque a morte Tão renegada. quando 282 . sofrer.Parnaso de Além-Túmulo De grão-senhor Sublimes flores. assim. A vida aqui Só é formosa Para quem goza. Ao caos medonho Do mais não-ser. Essa é apenas O frio nada. Exprime a dor E não a luz. Há de levar Esse teu sonho De amar.” E assim. Lindos brasões. E pois.

Na mansuetude. 283 . A eterna obreira. No cumprimento Dos seus deveres.Francisco Cândido Xavier . Na humildade. A lapidária. Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro.Parnaso de Além-Túmulo O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. A mensageira Da perfeição. Na caridade. Nessa oficina Grande e divina Da Criação. Chegou a Dor Humildemente. Onipotente. E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. Fê-lo abatido E desolado.

E que.Francisco Cândido Xavier . Reconheceu A nulidade. Só encontrou O juiz reto. Altivos filhos Da veleidade. Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores. De mui sofrer E padecer Na expiação.Parnaso de Além-Túmulo Na submissão Do coração Ao sofrimento. A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia. Depois. Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser. O Magistrado Incorrutível Da consciência. num brado 284 . então.

Para a alegria Fatal converge O seu viver. Contemplará 285 . Ermo de amor. A esquecer Tudo o que seja Espiritual. Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres.Parnaso de Além-Túmulo Indescritível. A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade. Em conseqüência. Efêmero gozo Do material. Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem.Francisco Cândido Xavier . Porque verá. Para o enganoso. Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto. Com a maioria Da Humanidade.

Na ascensão para o Belo e para o Amor.Parnaso de Além-Túmulo Todo o esplendor.A Mãe pedia. suave e triste. . Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz. Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia. de amor e luz. tornando-os mais unidos. Angústia materna “Ó Lua branca. Para o Bem exalçar. 286 . No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. fitando o céu – Dize-me. Lua. A eterna luz. Nessas mansões. pura e santa. se acaso viste Nos firmamentos o filho meu.Francisco Cândido Xavier . Que a Terra toda inunda de esplendor. que nos conduz À divina alegria. a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz. Do eterno amor Do bom Jesus. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens.

– “Então..” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto. martirizada. Sou eu no mar do éter infindo. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz. extasiada. Fitou a estrela que lhe sorriu.. ouviu: – “Ilha pacífica.Francisco Cândido Xavier . Se tu soubesses.. responde-me sem demora. fria e impiedosa. Cheio de vida. E dos seus cantos.” E a Mãe aflita. Dum filho amado que a gente tem. cheio de amor!. da esperança. Oh! se o conheço. .. Continuava. E das ausências conheço o pranto. Como era grácil. Sentiu-lhe os raios. conheço-o bem!. Deixou minhalma triste e chorosa. sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?. 287 . Lua serena.. Deixou vazio meu doce lar.Parnaso de Além-Túmulo A Morte ingrata. que encantador Meu anjo belo como a açucena.. Roubou-me o sonho – deu-me o penar.“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos.. feliz.

Senti a falta desta alvorada!. 288 . mãezinha amada. Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade.. Vida risonha. Do Senhor tenho doce trabalho.” – “Quase te odeio. luz de alvorada. banhada em pranto. Aqui terminam os dissabores. Num belo raio de luz. se me detestas. Em mim a noite não tem guarida. cheia de flores!..Francisco Cândido Xavier . sorrindo. Ó linda estrela que adorna o céu. Aqui em tudo floresce a vida. Todo vestido dum brilho santo.Parnaso de Além-Túmulo Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro. ditoso e lindo.. Gritou-lhe a pobre desconsolada. Porque tu guardas o filho meu. Flores que afastam as agonias.. Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também.” – “Se tu me odeias. Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho.” A mãe saudosa. Notou de logo seu filho lindo.. Senti a falta das primaveras..

carícia e amor! Ó mãe. menos saudosa. pôs-se a chorar. Faço-te um ninho ditoso e belo. Sóis rebrilhando nos horizontes. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus. tristonha e rude. triste sem mim. E não podias partir assim. também há fontes.. Lamentos do órfão Minha mãezinha. perdoa..Francisco Cândido Xavier . na estrela. A Terra amarga. E. estranhamente... alguém me disse.Parnaso de Além-Túmulo Não resisti. Jardins e luzes e fantasias. 289 . Sonhos. Tanta era a saudade! Voltei do exílio.. se mais não pude Ficar contigo na escuridão. Viu-se mais calma. Muito pertinho do amor de Deus!. Paz e ventura.. Daqui te vejo. Aqui é tudo felicidade. Envenenava meu coração. Já não me embala tua meiguice. castelos e melodias. fugi da dor.“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar. Aqui. Que tu te foste.

que possui a luz. Há quantos dias que te procuro. outro Jesus. beijo o meu pranto.Francisco Cândido Xavier . pergunto à ave. só noutra vida!. Sem esperanças de te encontrar.. mãe. Outros meninos alegres vejo.Parnaso de Além-Túmulo Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus. saudoso e triste.. te beijar. Somente a mágoa vem-me afagar. Só noutra vida. do teu querido. Quando regressas dos Céus supremos.” Pergunto à fonte. Mas tanto tempo faz que partiste.... Numa alegria terna e louçã. Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro. Que de mim faça. Que te procuro chamando em vão!. Que me fugiste sem me levar. De nos meus braços. E abraço o espaço. Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! . Tudo é saudade no coração. Tudo é silêncio tristonho e escuro. Que sofro e choro. E me respondem em voz suave: 290 . minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo.. Um dos seus anjos.

banhada em pranto. quando eu imploro.. Ó mãe querida. meu doce bem?” Ele responde.” Pergunto à flor que engalana a aurora. Sempre a meus olhos. mas. Quando é que voltas desse país. à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!. Multiplicando meus pobres ais.“ O mar e a noite me crucificam.. estás bonita 291 . Cheios de angústias. e. E ela retruca. grave. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você. E de mãos postas aos pés de Deus. que mágoas soltas Andam cortando meu coração. E me conforta. Ajoelhada. consoladora: “Depois da morte serás feliz. Vejo-te linda nos sonhos meus. Tanta saudade.” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela. ai! não voltas..” Sempre te espero. no entretanto. . Nem para dar-me consolação.Francisco Cândido Xavier . do céu.” Somente a nuvem. ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais. Diz-me que vens e diz que te vê.Parnaso de Além-Túmulo “Nós não sabemos! nós não sabemos!.

Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho. Quanta amargura. Se não voltares.. Junto da fonte que canta e ri.. Volta depressa! guardo-te flores..Francisco Cândido Xavier . Foge comigo para outra luz!. Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança 292 . O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida.. Para quem segue triste e sozinho.. como um jasmim! Porém conheço que estás aflita. Já não suporto tantos cansaços!.. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura. Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores. Com o pensamento junto de mim. sorrio. entrego-me ao meu desejo. Tremo de anseio. calo. Então.Parnaso de Além-Túmulo Qual uma rosa. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços... Sentindo o anélito do teu beijo.

a sua dor. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome. E passa o gozo. Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos. espera a ventura Com fé. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade.Parnaso de Além-Túmulo Responde-lhe com brandura: – Meu filho. 293 . E ela chora. à luz dessa manhã.Francisco Cândido Xavier . O seu destino. Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça. Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos. ao gosto amargo. E a fada. Abre-lhe a porta. com perseverança. Eis que a Fortuna se lhe esconde. Diz-lhe. muito ao largo. Chega-te a mim: sou tua irmã.

Senhor. Em Ti. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão. Pedir a quem. Pedindo o bem E a salvação. Meu coração Imerso em dor Aflito vem. portanto. O impenitente Na expiação.Francisco Cândido Xavier . somente. Pedindo a luz.Parnaso de Além-Túmulo Oração A Ti. Sou eu. Senão a Ti. Confio e espero. De Ti eu quero Me aproximar! 294 .

Buscar os Céus. O Amor é a lei. Rogando amor. Se me demoro No padecer. Cheio de unção. Elevo a prece Do coração. contente. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça. Bem sei. Se sofro e choro.Francisco Cândido Xavier . É porque andei Longe do Amor. Assim. Ditosamente. 295 . Senhor.Parnaso de Além-Túmulo Consolo santo. Senhor. No meu viver. Para o meu pranto Venho implorar. Que me ensinaste E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse. A Ti.

Escolhe sempre flores do vício. E mais adiante topa a Desgraça. Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos. No esquecimento do próprio ser. na existência. E vem a Vida por dar-lhe a Dor. e já sepultada.. cansada e já comovida. Quando só pede luz e amor. E entre as virtudes. da bonança. dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício. Como perdida.Parnaso de Além-Túmulo Fala à Ventura com riso irmão. E altiva e rude lhe esconde a mão. Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação 296 .Francisco Cândido Xavier . Sublime estrela que brilha No céu da paz. E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer.. Vaidosa e bela. Acorre à Morte por dar-lhe a Vida. Depois. Mãe piedosa!.

Protegei os pecadores No degredo. Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor. Livrai-nos do abismo tredo Dos males. Dai paz a toda discórdia. Deste mundo de tormentos. Dos corações desolados Na aflição.Francisco Cândido Xavier . Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos. Compadecei-vos. A vossa misericórdia. dos amargores. dos desgraçados. Senhora. Trégua à dor!. Estendei o vosso manto De bondade e de ternura. De tão grandes sofrimentos. Que apavora. Sobre tanta desventura. Que sois a terna clemência 297 .. dos oprimidos Deste vale de gemidos..Parnaso de Além-Túmulo Dos pobres.

O coração tocado de agonias.. Ó corações que a lágrima devora. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos. A luz do amor que vibra e revigora. a vida tumultua. Tende na vossa fé a bíblia santa. Que vos possam compreender.Parnaso de Além-Túmulo E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem. Prisioneiros da dor que fere e espanta. E vendo não querem ver. a nova aurora Luminosa e divina se levanta. Além da morte. Pois tendo ouvidos não ouvem. entre ovelhas desgarradas. O trabalho divino continua. Que a este mundo sucedem-se outros mundos.Francisco Cândido Xavier . 298 . Lá palpita a beleza onde a alma canta. E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora.. Além Além da sepultura. E em vossa luta o bem de cada hora.

água do amor. Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina.. em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade.. Vendo o mundo nas lutas condenadas. Preces infindas e desesperadas. Mas..Parnaso de Além-Túmulo O Mestre chora como Jeremias. Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas. Dois milênios contando o grande ensino Do Amor. Sobre as desolações do mundo velho. 299 . pura e divina. Que suaviza os rigores da existência. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além. A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece. Do caminho de lágrimas sombrias. Demorando as vitórias do Evangelho. pela oração profunda e imensa. Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência..Francisco Cândido Xavier .. Feliz o coração que espera e ora. o luminoso bem divino..

Parnaso de Além-Túmulo Enquanto o mundo anseia. É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca. irmãos! Desdobrai as vossas velas!.. Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto. Nunca olvideis a Excelsa Claridade. Que reside convosco em noite escura. Que habitaremos na Imortalidade.Francisco Cândido Xavier . Fraternidade Fraternidade é árvore bendita. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita. Vinde.. A prece alcança as bênçãos do Infinito. errante e aflita. A terra da união e do conforto. Nos caminhos translúcidos da Crença.. 300 . Vós que chorais ao coro das procelas. estranho e aflito.. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade. Rumo ao país ditoso da bonança. É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus. pura e infinita!.

Mas os túmulos falam pela estrada. Nos caminhos da lágrima e da dor.. Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade. O Evangelho. Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos.Francisco Cândido Xavier . É a escada de Jacob vencendo o abismo. Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz. Ó torturados corações humanos. Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós. Senda de paz e de felicidade.Parnaso de Além-Túmulo Somos todos a Grande Humanidade.. Na luz das luzes do Consolador. Ante os desfiladeiros da impiedade. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor. Em direção à Fonte Eterna e Pura. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. na luz do Espiritismo. 301 . Rogamos acendais a Luz da Vida. Tendes convosco a Chama Adormecida.

amor e graça. que tendes a fé que ama e consola. – “Deixai virem a mim os pequeninos!. enquanto a turba observa e passa. Cheio de amor e grandeza. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça. Pelos caminhos da imortalidade. Entre flores e alegrias. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos.Francisco Cândido Xavier . de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória. Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” 302 .Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça... por que Jesus. Vós. Na noite de Natal – “Minha mãe. Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? Por que não veio até nós.” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura. E exclama.

sem proteção. Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração.. de olhos fixos Na luz do céu que sorria. A luminosa humildade!.Francisco Cândido Xavier . Que o Mestre da Caridade Mostrou. Jesus ficou Nas palhas. meu filhinho.. Em terna melancolia: – “Por certo.Parnaso de Além-Túmulo – “Acredito. penso também Nos trabalhos deste mundo.” 303 . Às vezes. em tudo e por tudo. Concluiu com sentimento. Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe.

E desencarnou a 29 de janeiro de 1905. romancista. das graças do templo aos sarcasmos da rua. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua. poeta. Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal.. se engalana. A incompreensão do amor. Irmãos do meu Brasil. Não mais senzala hostil. no entanto. nem recua.. combatendo a descrença.. encantado e divino. Descortinando. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista.. e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. sublime. Farmacêutico. Na ansiedade e na dor. membro fundador da Academia Brasileira de Letras. escura e desumana. Mas a luz do Senhor não teme. A alvorada feliz de um mundo livre e novo. Estado do Rio de Janeiro. . jornalista. E. aos 9 de outubro de 1853. Erige a liberdade augusta e soberana. impetuoso político e grande orador.Francisco Cândido Xavier . continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. além da noite que se adensa.

Perambula na dor da tua noite aziaga.. infinda. Para depois ouvir a voz da sepultura. E o seu grande mistério existe em toda parte. o mais além da Terra. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia. Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda. Aos homens Volta ao pó dos mortais.. homem que vens. depressa. Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria.Francisco Cândido Xavier . Musa amargurada. A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte. deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899. A vida é vibração ilimitada. Onde o sonho termina e a vida recomeça.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 José Duro POETA português. . Volve ao sono cruel da tua carne obscura. coloca as mãos na tua própria chaga. Tomé.

Prisioneiro da mágoa. onde perece o amor. E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja. a triste senda escura.Francisco Cândido Xavier . E pude. Escravizado ao pranto. Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada. Algum tempo eu sofri. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena. ao pé do corpo imundo. agrilhoado ao mundo. então. 306 . voar para a mansão serena. Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera. Onde fulgura o sol do verdadeiro amor.

Senhor. no carinho Do pão espiritual. Evita-nos todo o mal. Dá-nos o pão no caminho. 307 . Feito na luz. Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus.Parnaso de Além-Túmulo 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. Seja o teu nome sublime. que estás nos Céus. como em toda a Terra De luta e de sofrimento. ternura e amor. meu Senhor. Que em todo o Universo exprime Concórdia. Nos Céus. De paz e de claridade Na estrada da redenção. Perdoa-nos. Na luz dos sóis infinitos. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade. Santificado. Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra.Francisco Cândido Xavier .

também. De passados escabrosos.. A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem. Livra a nossa alma do erro.. De iniqüidade e de dor. Sobre o mundo de desterro. Onde se faça a vontade Do vosso amor. Assim seja. Nos sentimentos cristãos. Distante da vossa luz.Parnaso de Além-Túmulo Os débitos tenebrosos. Auxilia-nos. Com a proteção de Jesus. Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade. 308 .Francisco Cândido Xavier .

A santa luz da harmonia. Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. Assim que deixara a orgia No castelo. Entregou-se à Natureza. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo. pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Francisco. ninguém . principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor. O Esposo da Pobreza Francisco de Assis.Francisco Cândido Xavier . um dia. Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. as suas qualidades primaciais de prosador. E nas horas de repouso. em 1871. di-lo um comentador. Abandonara a vaidade. A edição póstuma de Poesias exaltou. notabilizou-se mais como romancista. faze-te esposo Da pobreza desvalida. Buscando a paz da humildade. nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. Com este pseudônimo. ouve.

conforta os desgraçados.. Flagelados pela dor. Que é a grande felicidade De todos os corações. Nos celeiros da fartura.. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins. que não tecem. Saltando de galho em galho. Que não fiam. As aves que não trabalham E no entanto se agasalham. Sedentos e esfomeados. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria.Francisco Cândido Xavier . Esquece as imperfeições! . 310 . Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins. Vai. Quem alivia e consola. Buscando a graça do orvalho. E sobretudo. doce e pura.Parnaso de Além-Túmulo Vai aos Céus sem a bondade. A seiva misteriosa No seio dos vegetais. inda via. Bênção do Céu.

Francisco de Assis. Que não tendo amor nem luz. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores. Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. das margaridas. 311 . Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus. Ornamentada de flores Que os meus encantos resume. Submerso o coração Em sublimes alegrias. então. Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza. Fragrâncias.. amenidade..Parnaso de Além-Túmulo A sacrossanta harmonia Do coração sofredor. Poema de singeleza Esplendente e delicada. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas.Francisco Cândido Xavier . Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza.

As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs.Francisco Cândido Xavier . Ó Terra. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia. alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando. Entretanto. As ovelhinhas balindo. imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria. Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura. Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. Nessa mesma primavera Dos rutilantes espaços. Tão cheia de desventura. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. 312 .Parnaso de Além-Túmulo Aromas. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus. Caridosa ventura No abril das almas irmãs.

... Crianças.. Sorrindo. Hino terno de esperanças Das aves e das crianças. Sorrindo.. Cantando. 313 .Francisco Cândido Xavier . Cantando... Vai-se com a luz misturando. Sorrindo. Açucenas perfumadas.. passarinhos. Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores.... Cantando.. Com as pétalas orvalhadas. anjos suaves... Lares de amor doce e brando. Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas....Parnaso de Além-Túmulo Aves e anjos Passarinhos. Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo. Aconchegados nos ninhos.

etc. A fome lhe bate à porta. com 95 anos de idade.Francisco Cândido Xavier . Já chega de repousar!” Busca. Luta e sua. Planta o milho. couves. É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo. Tudo ajeita. a labutar. Sem descanso. em 1931. não tem paz. Persegue-lhe a precisão. feijão. planta a cana. Ao acordar. Inda é espessa a escuridão. Batatas. Pobres Mal clareia o Sol a serra. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito. Rasga a terra. tudo faz. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come. corta os matos. Silvio Romero.Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade. Ao levantar-se da cama. José de Alencar. Machado de Assis. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro. Sua musa foi elogiada por Castilho. o seu trabalho. Três quartas partes de tudo . então. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”.

Espalha o pé nos gerais. Contudo. porém. Mas se quer repetições. resolve pedir 315 . se sofre dor. que o vê. Que cuide dos mandiocais. Ah! que a água já está pouca Nos rios. queima o Sol. Redobra o pobre os serviços. Então. nos seringais. Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. Não possui um só real Pra consultar um doutor. O estômago pede mais. O pobre nunca descrê. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor.Parnaso de Além-Túmulo Pertencem ao seu patrão. E sempre resignado. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. As plantas já se amarelam. ele espera sempre Do Deus que o ama. Quando a semente germina E os ramos querem crescer. Nada existe no paiol.Francisco Cândido Xavier . Não vem a chuva. Quando o pobre vai à mesa. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover. Arde a terra. Se geme.

Francisco Cândido Xavier . Mesmo assim. quanta tortura. As promessas aos seus santos. E põe em prática os meios: As beberagens. Regressa para o seu lar.” O pobre. os pais. Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho. o chá. Os vinhos de jatobá. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. Não lhes pode dar a missa. Trabalha para comer.Parnaso de Além-Túmulo Ao patrão que sempre o tem. Mas o patrão avarento Não adianta vintém. Arrasta-se e vai ao médico E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender. Que o padre cobra demais. humilde e paciente. Se tem pão não tem saúde. Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor. Dá-lhes porém seu tesouro. Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar. 316 . Que fulge no coração.

onde existem Justiça. Que o cura na enfermidade. nem ovil. ganha pau. Não tem casas de morada. Se bate à porta do rico. A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. Que o conforta na desgraça E ampara na provação. Que na treva lhe dá luz. Sextilhas Quando a morte chega em casa. A casa faz alarido. Após a morte. 317 . O carinho dessa mão. O braço amigo de alguém. Nem terrenos.Francisco Cândido Xavier . Os cães o tocam da porta. ventura.Parnaso de Além-Túmulo Se tem saúde. Mormente dum rico mau. Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. amor. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil. Mal do pobre se não fora. não tem Quem o ampare. quem o ajude. Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. E em vez de pão.

O povo está reunido Quando a morte chega em casa. Se pratica o mal ou o bem. Não quer saber se ele tem. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. Esteja distante ou perto. Pedro ou José É o seu nome de batismo. Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime. De quem precisa por certo. Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça. Não lhe pergunta qual é A sua religião. Se tem pratas no baú. Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus. 318 . A morte não quer saber Se é preto como urubu. Ela vem buscar alguém. Ela vem buscar alguém.Francisco Cândido Xavier . Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é. Se Sancho.Parnaso de Além-Túmulo Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. A morte não quer saber.

Nem procura examinar. Nem homem alegre ou triste.Francisco Cândido Xavier . para o rico Nunca tem contemplação. O que segue vai com unção. Saúde.. Nada disso a morte quer. 319 . Se esse alguém vai-se casar. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno. Para o pobre. Para a morte não existe Anéis de grau de doutor. Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador. para o rico. Para a morte não existe. Ela vem de supetão Para o pobre.Parnaso de Além-Túmulo Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. Não perde tempo em clamor. Em atenções e conversas. Nem mulher bonita ou feia.. Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre. beleza e dor. Se tem pai e se tem mãe. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído.

Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus. Tateando dificilmente No meio da escuridão. De cá Que amargo era o meu destino!. Há quem estime? Talvez. Galeno sem nó.. Sentir as disparidades 320 . Com receio de ir ao fundo. Mas para mim que só fui. Nem tão boa coisa é.. Viver na Terra e somente Remando contra a maré..Parnaso de Além-Túmulo O que segue vai com unção. Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês.. Nem tão boa coisa é. Na tempestade ou na paz.Francisco Cândido Xavier .. É ele mesmo quem faz. Entremeados de prantos.. Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus.. Tantas dores em conjunto. galé. Tristezas no coração..

O pranto ferve na Terra. Não é possível porque.. Ver uns rindo e outros chorando. Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim. do Canindé. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é.. Já não é próprio de mim.Parnaso de Além-Túmulo Das vidas cheias de dor. Da carne. O mal sufocando o mundo. Da treva. do desconforto. Salta aqui. da ingratidão... Nas guerras de toda parte. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé. Mas falar demais agora. Pobre filho da ralé. Nas secas do Ceará. Meus irmãos de Fortaleza. Tantas misérias sentir. salta acolá. 321 . Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão. Nem tão boa coisa é.Francisco Cândido Xavier . Nem tão boa coisa é. Do Crato.

Parnaso de Além-Túmulo Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé.Francisco Cândido Xavier . 322 . Jogar pérolas a tolos. Nem tão boa coisa é.

. Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha. Professor e poeta. e desencarnou no Rio de Janeiro. Choro de amor. Mundos celestes. ai! pobre de mim!. revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!. .Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865. no Estado do Paraná. Mas. reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço. esmagado de angústia e de carinho. deixou inúmeras obras.. Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E. densa e fria.... em junho de 1950. Ao compasso do Amor e da Harmonia. Surgem constelações do Novo Dia Muito longe da Terra descontente. jubilosamente..

em menina.Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. A alma vitoriosa entoa hosanas. e conquanto fosse intelectual de prol. Ébria de paz e de imortalidade.Francisco Cândido Xavier . Virgilianas. Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora. Sem as sombras das lutas desumanas. Flores Exóticas. vive em tudo. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século. em Vassouras. jornalista. conta em sua bibliografia Poemetos. fora dos meios culturais. compositor musicista e tradutor renomado. Médico. A beleza profunda e peregrina. 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas. etc. Latinista de prol. exceto uma senhora que. a seu tempo. oferecido pela população local. lhe assistira aos funerais. é hoje um nome esquecido. Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora. onde ele tem precioso jazigo. Não mais a noite. . agora.

325 .Parnaso de Além-Túmulo Não lamenteis quem parta ao fim do dia. Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade.Francisco Cândido Xavier .

volver ao lar primeiro. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. que ainda hoje se lê com encanto.. . vislumbrando a Imensidade.. Acharia nos céus maravilhosos. Ressurgido em perene mocidade. Da velhice nos dias mal vividos. Foi jornalista.Francisco Cândido Xavier . nascido no Rio de Janeiro. em 17 de fevereiro de 1845. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos. aos tempos bonançosos. Soneto Na escuridão dos anos procelosos. Entre suas obras. Lírica.Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro. Soluçando empolgado de ventura. etc. Pairar no Além!. e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade. Nas esteiras de prantos esquecidos. Foi membro da Academia Brasileira de Letras.. comediógrafo e diplomata. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. Noturnos. Carimbos. sobressai Sonetos e Rimas.

Nas carícias risonhas dos caminhos. Em revérberos lindos de alvorada.Francisco Cândido Xavier . 327 . Voltei. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada. Divinal era a luz que resplendia. Envoltos em ternuras e em carinhos. De volta. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos. Nova era a vida. nova a estrada Que minhalma extasiada percorria. e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos.Parnaso de Além-Túmulo Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia.

Sara (poema). Desolado viajor.. conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes). nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos.Francisco Cândido Xavier . Bacharel em Direito... Poeta de grande e viva inspiração. ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho.Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE. membro da Academia Brasileira de Letras. distante. em 1929.. Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores.. Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores. Aureolada de eternos resplendores... além ainda. Na alvorada perene da harmonia. Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto. Além ainda. e vasta colaboração na Imprensa.. .

inédito. deixando. . Um golpe. Um sonho. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. Aos clarões imortais do Novo Dia. Foi um atormentado pelas enfermidades. à rua dos Voluntários. Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo. Brilhando além da lápide sombria. A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida. Estado do Rio. e faleceu. a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira. naquela mesma cidade.Francisco Cândido Xavier . Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória. aos 41 anos de idade. no começo do ano de 1918.. onde colaborou em vários jornais. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida.... Residiu durante algum tempo na Capital Federal. e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada.Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. No estranho portal No último instante. Publicou dois livros. um terceiro: Agonias e Ressurreição.

Para que o multiplicássemos indefinidamente. Ter a bondade ingênua das crianças. Aqui o incluímos. Tudo o que nos rodeia. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor... dar carícias. porém. dar luzes. Ler a sua epopéia feita de astros. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu. É um deserto sem oásis. as alvoradas. a ave. de justiça. . Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz. que é Pai bondoso. os corações. Onde outras almas sentem fome e sede. Dar sorrisos. atenta a magnitude do seu estro. Atenuar a dor alheia. Ao sofrimento ou ao bem-estar. O firmamento. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida. Agradecer a Deus. A vida é o eterno bem que nos foi dado. o luar.Francisco Cândido Xavier . E a alma que se abandona. Sorrir aos infelizes.Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se.

.Parnaso de Além-Túmulo Dar tudo quanto temos. Infinitas e esplendorosas. Tudo isto é amar multiplicando a vida. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares. Porque os nossos espíritos São unos na essência.Francisco Cândido Xavier . Que se estende infinita no Infinito. Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter. Dar a lição de paciência se sofremos. Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador.. Unidade Todos nós somos irmãos. 331 . E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos.. Dar um pouco de gozo se gozamos.. Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares. Terras e almas.

Vivereis dentro de sagrados coletivismos. 332 . O qual. da Terra O caminho comum da vossa salvação. por uma disposição inexplicável. O mesmo sonho. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica.Francisco Cândido Xavier . Porquanto. Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei. Sem egoísmos. pois. Todos nós somos irmãos. Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus. A mesma dor na luta A prol da redenção. Encerra em si Todos os mundos. Espiritualmente. Somos filhos de um só Pai. Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito.Parnaso de Além-Túmulo As quais no divino equilíbrio do Amor Buscam a perfeição indefinida. mais além Das fronteiras planetárias.

. Para sanar tão estranhas feridas.. .. Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo. do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo. Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz.. Só há um recurso: Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas. 333 . Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra.. “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso. Pontificava o Anjo da Justiça.Francisco Cândido Xavier . Como incontáveis são as almas humanas. Lá dentro. Banha-te nas suas águas cristalinas. Pela porta escura do remorso. E infinitos seus estados de consciência. Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!.“ “Filha – respondeu compassivo –. Tão amargos pesares.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis.

A fonte que desaltera todos os sofredores. E ainda hoje.Parnaso de Além-Túmulo Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos. O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes. Apegai-vos a Ele. cheios de confiança! 334 . Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino... É para a Humanidade A promessa da Paz. Nos dias amargurados que transcorrem. Inçados de perigos E de dores amargas.. Conduzida pela Dor.. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção. Banhou-se na água lustral dos tormentos.” E a pobre regressou. Submergiu-se no regato encantado.Francisco Cândido Xavier . O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas. E nos seus braços magnânimos e compassivos. Reconheceu o luminoso Anjo da Dor. de cuja fonte límpida promana a Salvação. E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!...

És alma em ascensão para Deus... Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte. Longe das lágrimas Do orbe obscuro. A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes.. Dos prantos e das provações remissoras!. Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol. Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra.Parnaso de Além-Túmulo Ele é a misericórdia personificada. Ouvi a sua voz No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos.Francisco Cândido Xavier . O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual.. Acima de todas as coisas transitórias. A tua inteligência e o teu sentimento 335 .

Parnaso de Além-Túmulo São fulcros de luz imperecível. 336 . Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto. – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!. Na amargura e na dor. Que sonham e choram. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos.Francisco Cândido Xavier . E sentirás uma carícia branda.. Misteriosa. doce. Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor. Buscando Deus. suave.. Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza.

Parnaso de Além-Túmulo Ao pé do altar Eu vivia no Claustro. Se tens a Fé mais pura. Se ama a prece e a pureza.. A Esperança mais linda. Disse-me alguém: “Minha filha. Esmagá-las com o Bem. Não te esqueças que a Caridade. O anjo que nos abre as portas da Ventura. Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas. Destruí-las com Amor. Na sombra silenciosa dos mosteiros. Juraste fidelidade só a Deus. 337 .Francisco Cândido Xavier . do repouso.. Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo. Mas um dia. Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração. Está sempre em meio às tentações Para vencê-las. Não permanece No recanto das sombras. Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas.

Sê a mãe desvelada. a tua alma Amando o próximo. sem reserva. Desprezando o repouso e a soledade. Dos mais rudes pesares. Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus. Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas. A tua esperança em Deus Será dilatada.Francisco Cândido Xavier . Atraída pela Verdade. Será um hino constante subindo aos Céus.. Que contigo é seu filho dileto. A irmã consoladora. Sê a abnegação e a bondade serena. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas. do mundo. Não te retires.. E só a dor que nos crucia 338 . pois. Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o. A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. Darás a Deus.Parnaso de Além-Túmulo A solidão da cela é um crime. brandamente.

Estendendo os seus braços tutelares 339 .Parnaso de Além-Túmulo Ou a dor que consolamos. – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura. Espezinhadas pelo sofrimento. Amarguradas e infelizes. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos. Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria.Francisco Cândido Xavier . Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. Fustigadas pelo furacão da desgraça. Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. Vertidos na corola imensa das dores. atropeladas pelo mal. Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras. E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente. Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas.

Francisco Cândido Xavier . Veleje tranqüilamente. que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio. Lenindo os padeceres Das mães desoladas. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo. Buscando o porto esperado com ânsia. Levando-nos ao Céu. É. Para que o Brigue da Esperança.. sobretudo. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras. Maria é o anjo. Balsamizando os pesares. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade.Parnaso de Além-Túmulo Às mães carinhosas e desprotegidas. Ao seu olhar compassivo. E sendo o arrimo de todas as criaturas. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas. A Virgem da Pureza 340 . Com as suas velas alvas e pandas.. pois. Porque se apegaram A âncora da Fé. Como náufragos de uma tormenta gigantesca. Que nos ampara e guia em nossa cruz. E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo – Mãe das mães. 341 .

Da beleza do herói ao verme pequenino. Júbilo de ajudar. e desencarnou em 1926. por si. Tudo se agita e vibra.Francisco Cândido Xavier . Trabalha e serve sempre. Desde o fulcro solar ao fundo da caverna. brunindo a vida eterna!. é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito. Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa. luta e contentamento. . Desde a flor da montanha às trevas do granito.. alheio à recompensa. Tudo na imensidão é serviço opulento. Buscando a solução da dor e do destino. em cântico divino Do trabalho imortal. Autor de inúmeras obras literárias. no Estado do Rio Grande do Sul. Que o trabalho.. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna.Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858.

. Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema. A multidão inteira. E debaixo do apodo e ensangüentada a face. Jesus! Jesus!. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado. “Crucificai-o!” – exclama. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado.. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta. ao seu tempo. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema. ansiosa se congrega. que trêmula se entrega.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro.Francisco Cândido Xavier .. Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. Jesus!. Considerado. o Príncipe dos Poetas Brasileiros. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918... inquire o brado Da justiça sem Deus. Para a consumação dos festins do pecado... implacável e cega.. – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. Surda à lição do amor..

. No derradeiro sono. afastai-o!. em sombrios Pesadelos da carne palpitante. sonda e chora. instante a instante. de Paz e de Alegria. – “Se puderdes. Jesus fitando os céus. Espia. Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios. vacilante. duríssimo e refece. meu Pai. Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor.” – dizia. Morte. Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas. inquire. E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais. Mas eis que todo o Azul celígeno estremece. cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!. no teu portal a alma tateia. 344 . Impassível. em prece. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante. descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas.. No Horto Tristemente. Sobre o meu peito em febre.

Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição. E sublime na fé mais vivida. a multidão fremente.Francisco Cândido Xavier . da cruz. de dor e desventura. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte. murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!. Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve. Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos.. osculando-lhe a fronte.. E Jesus abençoando aquelas almas cegas. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. 345 .. Na doce mansidão dos seres pequeninos... – Raio de eterno sol na senda dos destinos. A crucificação Fita o Mestre.Parnaso de Além-Túmulo Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora. eu vos dou meus últimos ensinos.” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: . Mestre!” E toma-lhe das mãos.“Amados.. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura.

. Que entorpece. Alma doce e submissa. Sem a idéia falas do grande Nada. Soluça no silêncio. que seguis a turba desvairada. não sabem o que fazem!. envenena e mata aos poucos.“ Aos descrentes Vós. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. meu Pai. Sob os gládios da dor aspérrima. . Contempla a vastidão celeste que o reclama. derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente. sem cárcere mesquinho! 346 . Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. Da fé viva. E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes. Lança os marcos da luz na noite primitiva. amargamente. E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem. Sobre tudo se estende o raio dessa chama.Parnaso de Além-Túmulo A negra multidão de seres que ainda ama. Retrocedei dos vossos mundos ocos.Francisco Cândido Xavier . As hostes dos descrentes e dos loucos. Gritos e altercações! Jesus. Começai outra vida em nova estrada.

sofre e soluça.... adora. anela e sente. onde a esperança sem repouso Luta. Nas lágrimas de dor do peito aflito!. Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo.Francisco Cândido Xavier . ansioso. Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que. É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. brancos os cabelos. Aspirações do mundo miserando. e sonha presa. Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza.Parnaso de Além-Túmulo Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. com desvelos. Sente o beijo de glória do Infinito!. 347 . Rotas as carnes. quando.. Mas que o homem realiza apenas. Guardadas com ternura. Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Tombe no caos do nada, em túrgida surpresa,
O que o homem pensou num sonho de demente,
Os mistérios da fé, fulcro de luz potente,
O templo, o lar, a lei, os tronos e a realeza;
Estertore e soluce exausto e moribundo,
Debilmente pulsando, o coração do mundo,
Morto à mingua de luz, ambicionando a glória;
O Espírito imortal, depois das derrocadas,
Numa ressurreição de eternas alvoradas,
Subirá para Deus num canto de vitória.

O Livro
Ei-lo! Facho de amor que, redivivo, assoma
Desde a taba feroz em folhas de granito,
Da Índia misteriosa e dos louros do Egito
Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma!
Vaso revelador retendo o excelso aroma
Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito,
O Livro é o coração do tempo no Infinito,
Em que a idéia imortal se renova e retoma.
Companheiro fiel da virtude e da História,
Guia das gerações na vida transitória,
É o nume apostolar que governa o destino;
Com Hermes e Moisés, com Zoroastro e Buda,
Pensa, corrige, ensina, experimenta, estuda,

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E brilha com Jesus no Evangelho Divino.

Brasil
Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça,
Da virtude ateniense à grandeza espartana,
O anjo triste da paz chora e se desengana,
Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,
Tribos, tronos, nações... tudo se esfuma e passa.
Mas o torvo dragão da guerra soberana
Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana,
Disputando o poder e denegrindo a raça.
Eis, porém, que o Senhor, na América nascente,
Acende nova luz em novo continente
Para a restauração do homem exausto e velho.
E aparece o Brasil que, valoroso, avança,
Encerrando consigo, em láureas de esperança,
O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Pedro de Alcântara
O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos, que, bem o sabemos, há quem diga não serem da sua lavra. Ignoramos por que
Dom Pedro 2º, alma boníssima, vibrátil e espírito culto, não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos, a
ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta
aos 20 anos. De qualquer forma, entretanto, o que se não poderá
negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que, de Dom
Pedro, conhecemos.

Meu Brasil
Longe do meu Brasil, triste e saudoso,
Bastas vezes sentia, mal desperto,
Com o coração pulsando, estar já perto
Do pátrio lar risonho e bonançoso.
E deplorava o rumo escuro e incerto,
Do meu desterro amargo e desditoso,
Desalentado e fraco, sem repouso,
O coração em úlceras aberto.
Enviava, a chorar, na aura fagueira,
Minhas recordações em terna prece
Ao torrão que adorara a vida inteira;
Até que a acerba dor, enfim, pudesse
Arrebatar-me à vida verdadeira.
Onde a luz da verdade resplandece.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

No exílio
Pode o céu do desterro ser tão belo,
Quanto o céu do país em que nascemos;
Nada faz com que o nosso desprezemos,
Acalentando o sonho de revê-lo.
Todo o nosso ideal pomos no anelo
De regressar, e voando sobre extremos,
Com o pensamento ansioso percorremos
Nosso amado rincão, lindo ou singelo.
Jaz no desterro a plaga da amargura,
De acerba pena ao pobre penitente,
De amaro pranto da alma torturada;
A alegria no exílio é desventura,
É a saudade na ânsia mais pungente
De retornar à pátria idolatrada.

Rogativa
Magnânimo Senhor que os orbes cria,
Povoando o Universo ilimitado,
Que dá pão ao faminto e ao desgraçado,
E ao sofredor os raios da alegria,
Se, de novo, no mundo, desterrado,
Necessitar viver inda algum dia,
Que regresse ditoso ao solo amado
Da generosa pátria que eu queria;

351

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Se é mister retornar a um novo exílio,
Seja o Brasil, lá onde eu desejara
Ter vertido o meu pranto derradeiro...
Que, novamente viva sob o brilho,
Da mesma luz gloriosa que eu amara,
Na alcandorada terra do Cruzeiro.

Soneto
No exílio é que a alma vive da lembrança,
Numa doce saudade enternecida,
Tendo chorosa a vista que se cansa
De procurar a pátria estremecida;
Com dolorosas lágrimas avança,
Do sonho que teceu e amou na vida,
Para a morte, onde tem sua esperança,
Na celeste ventura prometida.
E Deus, que os orbes cria, generoso,
Na vastidão dos céus iluminados,
Concede a paz ao triste e ao desditoso
Na clara luz dos mundos elevados,
Onde, do amor, reserva o eterno gozo
Para as almas dos pobres desterrados.

Página de gratidão
Tangendo as cordas da harpa da saudade,

352

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Venho ao Brasil buscar a essência pura
Do amor da pátria minha, da doçura
Da flor cheia do aroma da amizade.
Prende-me o coração a suavidade
Desse arroubo de afeto e de ternura
D'alma do povo meu, que de ventura
E de alegria o espírito me invade.
Do misterioso aquém da morte, eu vejo,
Sentindo, essa onda intensa e luminosa
Da afeição, que idealiza o meu desejo:
E tendo a gratidão por companheira,
Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa,
Amando mais a Terra Brasileira.

Oração ao Cruzeiro
(No cinqüentenário da Abolição)
Luminosas estrelas do Cruzeiro,
Iluminai a terra da Esperança,
Na doce proteção de um povo inteiro
Onde a mão de Jesus desce e descansa.
Símbolo sacrossanto de aliança
De paz e amor do Eterno Pegureiro,
Guardai as claridades da Bonança
Na vastidão do solo brasileiro.
Constelação da Cruz, cheia de graças,

353

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Transfundi numa só todas as raças,
No país da esperança e da bondade.
Que o Brasil, sob a luz da tua glória,
Possa escrever, no mundo, a grande história
Das epopéias da Fraternidade.

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil, símbolo da bonança,
Enquanto a guerra estruje indômita e sombria,
Sê nos planos de luta o sinal de harmonia,
Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança.
Assinalas, na Terra, o país da Alegria,
Onde toda a existência é um hino de abastança,
Guardas contigo a luz da bem-aventurança,
És o florão da paz, marcando um novo dia.
Nasceste sob a luz de um bem, alto e fecundo,
Nunca te conspurcaste aos embates do mundo,
Buscando iluminar as lutas, ao vivê-las...
É por isso que Deus, que te ampara e equilibra,
Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra,
E um coração azul, esmaltado de estrelas.

Brasil do Bem
Eis que o campo de sombra se esfacela
No doloroso e amargo cativeiro

354

heróica e bela. Como a doce promessa nos caminhos!. Deus te guarde os tesouros da esperança. Aniquilando a Paz do mundo inteiro. guarda a luz dessa vitória. Meu Brasil.. 355 . Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança. Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro. Grande Brasil do Bem e da Abastança. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa. Qual furacão no auge da procela. Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante.Francisco Cândido Xavier . Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro.. Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança.Parnaso de Além-Túmulo Da guerra que ameaça o mundo inteiro. Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade. Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança.

Parnaso de Além-Túmulo Ama a Deus. Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho. 356 . Faze o bem.Francisco Cândido Xavier . do Amor e da Verdade.

litoral do Maranhão. chora e sorri. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração. Magistrado.. O homem passa Atrás dos anos sem compreendê-los. Longe.. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911. Chora.Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859. Sob o infortúnio. sob os atropelos Da dor que lhe envenena o sonho e a graça. qual se encontrasse A luz primeira dos primeiros dias.. além de justo e bom. se cada . À frouxa luz de uma ventura escassa. na baía de Mangunça. E como o anjinho débil que renasce. E vê morrer seus ideais mais belos!.Francisco Cândido Xavier .. 2 Ah!. O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos. porém... Depois do pesadelo das mãos frias. Rasga-se a fantasia que o enlaça. membro da Academia Brasileira de Letras. a bordo do vapor São Luiz. Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas. das ilusões desfeitas. Sonetos 1 Tudo passa no mundo. se a Terra tivesse o amor.

se cada seio De mãe nutrisse os órfãos.Parnaso de Além-Túmulo Homem pensasse no tormento alheio... Que jamais viu um raio de alvorada Dentro da noite eterna que lhe veio Do sofrimento que ninguém conhece.. Ah! se os homens se amassem nessa estância A dor então desapareceria.. Se tudo fosse amor. A existência seria a ardente prece Erguida a Deus do seio da abundância.Francisco Cândido Xavier . Se na estrada Do contraste e da dor houvesse o anseio Do bem.. que ampara a vida torturada.. 358 . Entre os hinos da paz e da alegria.

O Espírito a si mesmo reconhece. Entre os talentos da chamada nova geração. deixou Luz Mediterrânea. nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado em Itaipava. Que nos traz o desânimo. Além te espera indômita batalha. Bacharel em Direito. quando pensas que descansas. Luta Aí na Terra. Onde o suposto gozo se estraçalha Sob o guante acerado das provanças. foi deputado estadual e posteriormente Secretário de Legação. a fadiga. as bem-aventuranças São o sonho que o Espírito agasalha.Francisco Cândido Xavier . Mas a luta infinita continua. a sua afirmativa nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais fulgurantes. considerada como seu livro de ouro. Muita vez. A febre das paixões desaparece. dedicada a Olavo Bilac. Para cá do sepulcro a dor antiga. Sob a luz da verdade se atenua. Além de Ode a um Poeta Morto. com apenas 31 anos de idade.Parnaso de Além-Túmulo 359 52 Raul de Leoni FLUMINENSE. . de quem foi amigo dileto. Mas. mesmo após a morte. a alma trabalha Buscando o céu das suas esperanças.

Mas o tempo na sua mansuetude. Se vivemos no mal.Francisco Cândido Xavier . No pensamento nobre persevera De servir. nada há que vença A alma boa. trabalha e espera. 360 . O desejo do Bem dilata a esfera Das luzes sacratíssimas da Crença. venturosos!. Dentro da expiação estranha e rude. Soneto Não te entregues na Terra à indiferença. a alma pura.. a alma sincera. Pelas sendas da vida nos espera. Junto à dor que esclarece e regenera.. Nos domínios do mal. Ao colhermos a flor da juventude. É quando o nosso Espírito se ilude. luminosos!. Julgando-se na eterna primavera. E ao tombarmos no ocaso da existência. Cheio de amor e fé. Como somos felizes. sempre alheio à recompensa. Nós revemos do livro da consciência Os caracteres grandes.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra Renascendo no mundo da Quimera. quanta agonia! Mas se o bem praticamos todo o dia.

Deus.. Nós. então. “Post mortem” Depois da morte.. Cada instante de dor nos aprimora. para a tua alma.. a vida calma.. o Insondado. Jamais medonha e trágica surpresa.. Aspirando os olores da Pureza!. O Sonho imanta as nossas almas. Heróis de novas lendas carlovíngias. cinge-as. tudo aqui subsiste. Nós todos vamos pela vida em fora Deixando no caminho os mesmos traços. 361 .. rompendo os laços Dessa animalidade atrasadora.. E a morte não será.. Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo. Buscando o Indefinível.Francisco Cândido Xavier . Desatando os grilhões. Em Deus buscando a Perfeição que mora No cume inatingível dos Espaços!. Terás na Terra.Parnaso de Além-Túmulo Vive nas rutilantes almenaras Dos castelos do Amor de essências raras. que é o Amor eterno e ilimitado E a gloriosa síntese de tudo. Que procura tolher os nossos passos.

Do conforto celeste os bens supremos Ao coração desalentado e triste. Para que brilhe a Perfeição da Vida. que entrevemos. E a Morte continua eliminando A influência do mal. De desgraças e de erros se engalana Numa incerteza amarga. Vamos passando assim a vida inteira... existe Aos amargosos prantos que vertemos. Sem esposar a crença imorredoura. Mas na Terra a nossa alma empobrecida. 362 . porém. Soneto Se todos nós soubéssemos na vida A Verdade grandiosa e soberana. Doce consolação.Parnaso de Além-Túmulo Neste Além que sonhamos. Também existe aqui a austera pena A consciência infeliz que se condena. Por qualquer erro ou falta cometida.Francisco Cândido Xavier . A fé demolidora de montanhas. Não faltaria o gozo que promana Dos sentimentos da missão cumprida. Quando a nossa alma chora nos extremos Dessa dor que no mundo nos assiste. irreprimida. torvo e nefando. Presa dessa vaidade toda humana.

. Sem vislumbrar a luz orientadora. 363 .Parnaso de Além-Túmulo Quase imersos na treva da cegueira. Nessa noite de dúvidas estranhas!.Francisco Cândido Xavier ..

Onde busquem Teus carinhos As almas sofredoras.. . Estás na direção dos homens. Vi-te. aos 24 de novembro de 1927. Publicou Casa Destelhada. Nos bem-aventurados do mundo. em Campos do Jordão. tuberculoso. Noturnos e Sala dos Passos Perdidos. e desencarnado. meu Senhor. como ainda Te encontras. Senhor. Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi. Nunca pude enxergar As Tuas mãos suaves e misericordiosas. É que Te achavas.. Onde gemiam as dores e as misérias da Terra. Nos caminhos mais rudes e espinhosos. Estás no templo de todas as religiões. Em todos os caminhos de suas atividades terrestres. Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome. Consolando os aflitos e os desesperados. São Paulo.Parnaso de Além-Túmulo 364 53 Rodrigues de Abreu POETA nascido em Capivari. a 17 de setembro de 1899.Francisco Cândido Xavier . Trazendo a visão doce do Céu Para o olhar angustioso de todas as esperanças. E a verdade. Senhor! Eu não pude ver-Te. Foi cognominado – “o poeta triste das rimas róseas”. além de inúmeros trabalhos esparsos na imprensa do seu Estado.

Não disseste o meu nome para não me ofender. Chamaste-me. Senhor.. Vi que chegavas devagarinho.. Entretanto. sonho e amor. Curando-me com a Dor. Multiplicaste o pão das minhas alegrias E abriste-me o Céu. .. porém. De Tua assistência invisível e poderosa. Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os homens. E entendi-Te.. Com o verbo silencioso do Teu amor. E minha vida rolava no declive de todas as ânsias. E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo. Quando Te vi na paz da Natureza.. alegria. que a Terra fechara dentro de minhalma.. Nas Tuas maravilhas de beleza.Francisco Cândido Xavier . E não Te encontrava pelos caminhos ásperos. Cheia de piedade para com as suas fraquezas. Chamaste-me sem exclamações lamentosas. Inquietação ambiciosa de vencer. Mocidade. Iluminando o santuário do meu pensamento Com a Tua luz de todos os séculos! Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha.Parnaso de Além-Túmulo 365 Sem que eles se apercebam De Tua palavra silenciosa e renovadora. Com a mansidão de Tua misericórdia infinita.

Na inquietação da carne e do desejo. Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus.. do coração. Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes.. palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu. Divisando os países da beleza. E quando quebrava os últimos altares. Tudo sonhei contemplando o horizonte!.Francisco Cândido Xavier . Na embriaguez da ansiedade e do desejo.. por infelicidade. Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos.. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: 366 . E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas. cheia de graças. Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão..Parnaso de Além-Túmulo No Castelo encantado Eu ainda não era um homem. Quando subi aos elevados promontórios da esperança. Gotas de mel.. O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória.. Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma.. Tudo esqueci.” “Ave Maria.” Gotas do mel de amor. onde quase todos os frutos apodrecem.

Deixou-me só na lôbrega jornada. “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados. Na minha estrada de alegria. Trago-te o pão dos grandes amargores. “Sou a Dor. de tal maneira. “Eu corrijo as paisagens interiores. Deu-me as sombras dos Campos do Jordão... afoitamente. Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento.. Que a senti junto a mim. “Irás comigo a mundos ignorados.. Afastou-me a alegria da saúde. Casou-se comigo a Dor.” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia. a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra. ficarei sempre contigo. “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira. meu amigo. “Guarda as minhas verdades. 367 .. Apodreceu meu coração em sua mão.Francisco Cândido Xavier . E. Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia... desde esse momento.Parnaso de Além-Túmulo “A sombra da ilusão envenena-te a vida. Fez fugir-se-me a noiva idolatrada. Fez de meu sonho a casa destelhada.

Francisco Cândido Xavier ... A cuja sombra o espírito descansa. Enxergando na tamareira da esperança.. doce e balsâmica da crença. meu Senhor.. Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença. meu Senhor. Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!. Pela sua porta estreita. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo. Cala-se o meu verso humilde. Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz. bom e fecundo. Nas grandezas de Tua claridade... Tudo levou-me a dor incontentada.. E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente. O único fruto eterno. Sustentando a infeliz Humanidade. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! 368 .. Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade.Parnaso de Além-Túmulo Crestou-me a flor ditosa da alegria. Pelos desertos áridos do mundo. ó Senhor de Bondade. Mas oh! suave milagre de ventura.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

369

54
Souza Caldas
NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro, em 1762, e aí desencarnado em 1814. Formado em Direito pela Universidade de
Coimbra, abraçou mais tarde a carreira eclesiástica, ordenando-se
em Roma. Dizem que as suas melhores composições, as que o
levaram a ser preso pelo Santo Ofício, perderam-se. Acreditamos
que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos
Salmos de David, justamente, de suas obras poéticas, a mais
apreciada.

Ato de contrição
A vós
Senhor,
Meu Deus
De Amor,
Minhalma
Implora
A salvação!
Meu Pai,
Bem sei
Que mal
Andei,
Buscando
O erro
E a imperfeição;
Assim

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Pequei,
Na treva
Errei,
E jus
Eu fiz
A expiação.
Vós sois,
Porém,
Farol
Do Bem!
Ouvi
Dos Céus
Minha oração.
Sois vós
A luz,
E junto
A cruz
Do meu
Sofrer,
Quero o perdão;
Perdão
Que traz
Sossego
E paz
Ao meu
Viver
Na provação.
Suplico-o
A vós,

370

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Na dor
Atroz,
Amara
E rude
Da contrição!
Dai ao
Meu ser,
Aflito
Ao ver
O seu
Pecado,
A redenção;
E hei de
Poder
Feliz
Vencer
Do mal
Cruel
O atroz dragão!

Versão do Salmo 12
Senhor dos Mundos, na Terra inteira,
Os maus somente é que dominam,
Rudes tiranos e os impiedosos
De coração.
Ganham favores, buscam louvores,
Espezinhando seus semelhantes,
Tripudiando nas vossas leis,

371

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ímpios que são.
Causam a ruína da vossa casa,
Lançam injúrias ao vosso nome,
Adoradores da iniqüidade,
Da imperfeição.
Vossas ovelhas são confundidas,
E sufocadas pelo amargor,
Fracas e pobres andam saudosas,
Do vosso amor.
São elas todas, pobres e humildes,
Glorificai-as, meu Criador!
Alevantai-as do abismo escuro
Com a vossa luz!
Vossa bondade, imensa e eterna,
É a esperança dos pecadores;
Pai amoroso, salvai os homens,
Confio em vós!

Versão do Salmo 18
Por toda a parte
Veja a criatura,
Na noite escura
Da sua dor,
A eterna força
De um Deus clemente,
Onipotente,
Cheio de amor.

372

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Astros e mundos
No céu girando,
Aves cantando,
O mar e a flor,
Todos os seres
Hinos entoem,
Cantos ressoem
Ao Criador!
Eterno Artífice
Que os sóis modela,
Lustres da auréola
Da Criação,
Sois a bondade
A mais perfeita,
A Luz Eleita,
A salvação.
Doce refúgio
Dos desgraçados,
Aos meus pecados,
Muitos que são,
Imploro e clamo,
Com o meu espírito
Turbado e aflito,
Vosso perdão.
Que desprezei
O ouro brilhante,
Lindo e faiscante,
Bem sei, Senhor!
Como fugi
Da hora fugace
Que me afastasse
Do vosso amor!
Mas bem sabeis

373

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que a carne impura
Leva a criatura
A mais pecar;
Fazendo assim
Pra meu tormento,
Meu pensamento
Prevaricar.
Porém, o vosso
Amor profundo
Redime o mundo
Do padecer;
Dando-lhe o tempo
E áspera lida
Para na vida
Tudo vencer.
Vós que acendestes
Faróis brilhantes,
Sóis rutilantes
Dalmo esplendor,
Cantando a vida,
A onipotência
E a pura essência
Do vosso amor!
Que sois o sol
Dos universos,
Mundos dispersos
Na imensidão.
Além da força
Vós sois, também,
O sumo bem
E a perfeição
Que vence o mal,
O orgulho e a dor,

374

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que o pecador
No coração
Guarda com zelo,
Cruéis inimigos,
Que são amigos
Da perdição.
Misericórdia,
Assim espero,
Almejo e quero
Para que eu
E os meus irmãos
O mal deixemos
E abandonemos
Buscando o Céu.
Por vossa causa
O maior gozo,
Esplendoroso,
Desprezarei,
Para que eu viva
Na luz fulgente,
Eternamente,
Da vossa lei.
Assim, Senhor,
Minhalma aguarda
A luz que tarda
Ao mundo vão,
Que há de esplender
Nos homens todos,
Limpando os lodos
Da imperfeição.
Dominareis
Toda a impiedade
Pela verdade

375

servo. Amparo e luz! 376 .Francisco Cândido Xavier . aguardo Do vosso amor Consolo à dor.Parnaso de Além-Túmulo Que em vós transluz! E.

E através dos meus dias. Pois fui também humano entre os humanos. Não que eu fosse infeliz e desditoso. O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas. 377 . Coração enganado. E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram. Pois no mundo pequeno da minhalma. teria o gozo. desditosas. Sob o peso da própria iniqüidade.Parnaso de Além-Túmulo 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida. na aspereza dos caminhos. Se eu quisesse gozar. alma iludida. Viu as almas tremerem. Ao trilhar os carreiros dos tormentos. dos meus anos.Francisco Cândido Xavier . Afastado do Puro e do Perfeito. Encontrei o prazer pelos espinhos.

Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis. Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz.Francisco Cândido Xavier . O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar.Parnaso de Além-Túmulo Quando em dor me envolvia a desventura. O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia. E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. Agonizava o senhor Dos domínios extensos. Em torno dirigia Um último olhar. entre cansaços. Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista. destruidoras. Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas. bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor. 378 . E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso.

E em atitude austera. Imerso em turvação. às vezes.. Das terrenas. Somente. Mergulhado no pranto mais profundo. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores. Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores. Bem após o transcurso de alguns anos De triste letargia. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho 379 . Estranhou revoltado. A exclamar. Reclamou os seus servos com calor E.Francisco Cândido Xavier . De cólera severa Já que ele era o senhor. Contemplou seus tesouros passageiros.. Expirou para o mundo O nobre castelão. Que ninguém acudisse ao seu chamado. entretanto. Opresso o coração. A sua alma despida das grandezas. nenhum lhe obedecia.Parnaso de Além-Túmulo Martirizando as almas sofredoras. Tomado de energia. derradeiros. efêmeras realezas. E em espasmos convulsos.

E cheio de fervor. Penetrada de doce claridade. Que hoje te envolvem os lúridos momentos 380 . constantemente.Parnaso de Além-Túmulo Em ser incompreendido. Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações.. Durante o transcorrer de muitos dias. No auge do amargor. amigo. O pobre sofredor. Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena.Francisco Cândido Xavier . da Luz do Bem: – “O que sofres. Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena.. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade E lhe dizia Da beleza do Amor. De luz confortadora. Humilde penitente. De contínuos pesares e agonias. Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim. Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz. é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. Todavia. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente.

a flor-tesouro.Francisco Cândido Xavier . O sentimento-luz. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor. Porém. Jamais vestiste os nus. Conhecerás As dores e amarguras. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade. já não terás Efêmeras venturas.Parnaso de Além-Túmulo Em rudes sofrimentos E estranhas maldições. a todo o instante.. As mágoas escabrosas. Para que se dissipem teus enganos No amargor. nem consolaste Aquele que sofria. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém. Pelas estradas rudes e espinhosas! 381 . Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. E permite que voltes aos humanos. Voltarás. Serás agora escravo e não senhor. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo..

fulguram sóis.Parnaso de Além-Túmulo Abençoa o Senhor Que te concede a dor..Francisco Cândido Xavier . Como se fora feita De luar... Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm.” Nesga de Céu A alma extasiada Sobe. Transformados em notas musicais. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais.. Além. 382 . A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia. De alegria perfeita. sobe.. De alegria.... A ventura. o fulgor. Não residem no Mal e sim no Bem. Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida.

De pureza. Ao longe. de beleza. Nos espaços sem termos. De perfeição e de felicidade! 383 . A Via-Láctea transluz. Sorridentes. Aos clarões dessa aurora. imagens de esplendor. Como um éden de luz E de amor. flutuantes. muito ao longe. querida.Francisco Cândido Xavier . Cenários majestosos. Ainda além. Que amou. que padeceu... radiantes. E lembra-se que sofreu. Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos.Parnaso de Além-Túmulo Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis. onde a vida É a imortalidade Anelada. O mundo É um ponto negro que gira. mais além. Nesgas do céu. A alma chora Em êxtase profundo.

Como um país de doce primavera. Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado. Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas. aroma!. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera.. Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. Recamado de flores perfumosas. Com os pensamentos puros e radiosos. Feito de éter. Da mais pura alegria.Parnaso de Além-Túmulo Em baixo as vastidões. luz. de sonho. Melodia. Em cima... Um futuro esplendente Pintalgado de rosas.. as emoções Do ilimitado. A alma se extasia Na luz do Eterno Dia. Mas cada gota amarga dos seus prantos 384 . E.. O caminho é risonho. Vidas de estranha dor.Francisco Cândido Xavier . em frente.. Intérmina de gozos!.

Em suavíssima unção. A pobre alma orando.Francisco Cândido Xavier . Chorando.Parnaso de Além-Túmulo Agora É um raio de aurora. Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos. Que a engrinalda de luz. Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! 385 .

que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. cheio de escolhos. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio. Portugal. Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte. Esclarecia meu coração. na cidade de Caratinga.Francisco Cândido Xavier . Quando escutamos as vozes claras . foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso. Quando no mundo de exílio e sombra. Na luta intensa que encheu meus dias. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. – O mensageiro da Perfeição. Modesto quão talentoso. É que o Evangelho do Cristo amado. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val. Nas horas tristes e amarguradas.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu. no entanto. poetou e desencarnou. aos 19 de janeiro de 1930. em 1871. Não sou.

Parnaso de Além-Túmulo Da consciência. Aos companheiros de luta e crença. De quem me lembro na luz do Além. E a paz na morte tereis também. doce e cristã.. Vós. Com fé sincera. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma. Deixo a minhalma falar aqui. na luz da prece. Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor. 387 . então. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão.Francisco Cândido Xavier . que ficastes no mundo ingrato. De ser vencido no mundo vão. Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã. no Pai de Amor. Graça divina de haver sofrido.. Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. Dor de quem sofre sonhando e espera. Lede o roteiro dos Evangelhos. Da graça imensa que recebi. eu pude adormecer Na paz serena. Subi o Gólgota dos meus pesares. E.

Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor. Sonhos diletos de sofredor.Francisco Cândido Xavier . Perdi na Terra doces afetos. o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz. E a Morte trouxe-me a liberdade.Fim --- 388 . A piedade.Parnaso de Além-Túmulo Nas desventuras da provação. --.

estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos.Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a). Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. escolas para crianças e jovens carentes. Se você leu e gostou desta obra. 3. os seus escritores. colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social. em busca constante da paz no Reino de Deus. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. (1ª Epístola aos Coríntios.) . etc. financeiramente.” Paulo. O livro espírita. Irmão W.Francisco Cândido Xavier . “Porque nós somos cooperadores de Deus. versículo 9. As obras espíritas nunca sustentam.