Francisco Cândido Xavier

Parnaso de
Além-Túmulo
Ditado por

Espíritos diversos

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Índice
À guisa de prefácio .......................................................................... 4
Francisco Cândido Xavier ............................................................. 14
Palavras minhas ............................................................................. 15
De pé, os mortos!........................................................................... 21
1 Abel Gomes ............................................................................... 24
2 A. G............................................................................................ 25
3 Albérico Lobo............................................................................ 26
4 Alberto de Oliveira .................................................................... 27
5 Alfredo Nora.............................................................................. 30
6 Alphonsus de Guimarãens ......................................................... 32
7 Alma Eros.................................................................................. 35
8 Álvaro Teixeira de Macedo....................................................... 38
9 Amadeu (?) ................................................................................ 39
10 Amaral Ornellas ...................................................................... 40
11 Antero de Quental ................................................................... 43
12 Antônio Nobre ......................................................................... 56
13 Antônio Torres ........................................................................ 63
14 Artur Azevedo ......................................................................... 65
15 Augusto de Lima ..................................................................... 68
16 Augusto dos Anjos .................................................................. 74
17 Auta de Souza........................................................................ 106
18 B. Lopes ................................................................................. 118
19 Batista Cepelos...................................................................... 121
20 Belmiro Braga ....................................................................... 124
21 Bittencourt Sampaio .............................................................. 130
22 Cármen Cinira ....................................................................... 135
23 Casimiro Cunha ..................................................................... 147
24 Casimiro de Abreu ................................................................ 167
25 Castro Alves .......................................................................... 177
26 Cornélio Bastos ..................................................................... 185

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Cruz e Souza .......................................................................... 186
Edmundo Xavier de Barros ................................................... 206
Emílio de Menezes ................................................................ 208
Fagundes Varela .................................................................... 210
Guerra Junqueiro ................................................................... 214
Gustavo Teixeira ................................................................... 239
Hermes Fontes....................................................................... 240
Ignácio José de Alvarenga Peixoto ....................................... 244
Jesus Gonçalves..................................................................... 246
João de Deus.......................................................................... 247
José do Patrocínio.................................................................. 304
José Duro ............................................................................... 305
José Silvério Horta ................................................................ 307
Júlio Diniz ............................................................................. 309
Juvenal Galeno ...................................................................... 314
Leôncio Correia ..................................................................... 323
Lucindo Filho ........................................................................ 324
Luiz Guimarães Júnior .......................................................... 326
Luiz Murat ............................................................................. 328
Luiz Pistarini ......................................................................... 329
Marta ...................................................................................... 330
Múcio Teixeira ...................................................................... 342
Olavo Bilac............................................................................ 343
Pedro de Alcântara ................................................................ 350
Raimundo Correia ................................................................. 357
Raul de Leoni ........................................................................ 359
Rodrigues de Abreu............................................................... 364
Souza Caldas ......................................................................... 369
Um Desconhecido ................................................................. 377
Valado Rosas......................................................................... 386

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À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à

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revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias
e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto, nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria, senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo

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dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos
olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.

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O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções; ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.

pelo contrário. para afirmar não mais subjetiva. como retinem cristalinas e contrastantes as mais variadas formas literárias.Parnaso de Além-Túmulo 8 As de Napoleão 1º. Romantismo. como a facilitarem de conjunto a identificação de cada um. etc. são incontestavelmente belas no fundo e na forma. Teresa de Jesus.. Do verde do lindo mar! É Casimiro. mas objetivamente. Da luz do Criador nascemos. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu. Aqui. Condoreirismo. Múltiplas vidas vivemos. Do verde da Natureza. Simbolismo. é declamar Junqueiro e lembrar a Morte de Dom João. aí se ostentam em louçanias de sons e de cores. Senão. mas não características de tais entidades. . não só concorrem poetas brasileiros e portugueses. é recitar Castro Alves e sentir Espumas Flutuantes.. Parnasianismo. Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer. Constantemente cismando.. vejamos: Oh! que clarão dentro d’alma. a sobrevivência dos seus intérpretes.Francisco Cândido Xavier . É ler Casimiro e reviver Primaveras. O pensamento sonhando E o coração a cantar.

sem lastro.. Duvidamos que o mais solerte plumitivo.. de grande cultura e treino poético.. esta produção. É Castro Alves. E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda. No firmamento em luz.. feliz. e mais – quando de alguns autores não conhece uma estrofe! . os estrumes. E todos. E isto o dizemos porque o médium Xavier.. inconfundíveis na modulação de suas liras encantadas e decantadas. o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando à luz das amplidões divinas. Pairava na amplidão estranho resplendor. É Augusto dos Anjos. um quase adolescente. Descansa. aí estão vivos. cujo estilo não temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade personalíssima se impõe. as carnes.. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. É Junqueiro. Era o festim do amor. portanto. Esquece o verme. todos os mais. ardentes. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. recebe-a de jacto.Francisco Cândido Xavier . nas preces da harmonia!. agora vibrião das ruínas.Parnaso de Além-Túmulo 9 Para à mesma luz volver. ainda que premeditadamente. sequer.

o pai infenso a literatices e. em particular. um galopim eleitoral e não vai. um bacharel formado. Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. Órfão de mãe aos 5 anos. um quase adolescente.Francisco Cândido Xavier . em geral. qual a Luz. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. pequeno rincão do Estado de Minas. muito além das quatro operações e da leitura corrida. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. nem uma problemática hereditariedade. em tese. verdade que. pramido pelo ganha-pão. para não pretender colimar renomes literários. Filho de pais pobres. mas é a verdade nua e crua. com borrifos de catecismo católico. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família. certo estamos. Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. esta obra mediúnica. não pode ficar debaixo do alqueire. e aos confrades. será maravilhoso. em linguagem eloqüente. de contrapeso. um acadêmico. é bem de ver-se que não teve.Parnaso de Além-Túmulo 10 É extraordinário. ficará como baliza fulgurante. nascido ali assim em Pedro Leopoldo. também em tese. que faz do mestre-escola. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto. a Pátria e a Humanidade? Nada disso. . *** Mas. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. que não podia ter o estímulo ambiente. que. ao demais. nem um.

também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever. figuras de retórica.Francisco Cândido Xavier . porém. nas quais estereotipa a sua figura moral. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. tanto quanto do seu manuseio.Parnaso de Além-Túmulo 11 Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que. não há encadeamento de raciocínios. doutrinas. por outro lado. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. mas. o médium. a realização essencial do fenômeno? . que ignora. em São Paulo. É tudo inesperado. Agora. Há vocábulos de étimo que desconhece. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. nada nos disse o médium. como definir e transfixar a captação. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. fixação de imagens. explosivo. cujo flagrante não presenciamos – ele. e não querendo. mas da ferramenta por eles utilizada. Nós mesmo vimos. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. Não há ideação prévia. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo. no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio. certa vez. de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar. É um fato. endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários. teorias científicas. o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço. há fatos e recursos de hermenêutica.

devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão. Tal como no-lo deram. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. aos cépticos. que mal podemos imaginar e que. não só por nos falecer autoridade e competência. porque o fato aí está na plenitude de sua realidade. para só . por vindos de tão alto. ocorrem na telepatia. de um trabalho de identificação autoral. por mais insólito que seja. Catões e Zoilos de compasso e metro. que participa do meio físico contingente. *** Como nota final aos argos da crítica. faisqueiros de nugas e nicas. ou taliscas. fica-lhes a liberdade de conjeturar. no entanto. encarregado de apresentar esta obra.Francisco Cândido Xavier . vale sempre por mil e uma teorias. em suma.Parnaso de Além-Túmulo 12 Só o médium poderia fazê-lo. sem contudo negar. e um fato. precipuamente. Aos outros. enfim. ou a fatores outros. mais sutis e delicados do que esses que.. em tudo. antes complicam. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados. e isso ele o faz a seguir. de maneira impressionante. Trata-se. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis. que nada explicam. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina. para melhor explicar.. na volúpia de escandir quand même. na radiofonia. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. amiúde. racional e logicamente devem existir. diremos que. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica.

Médium curador e espírita militante durante mais de meio século. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. Chefe de família numerosíssima. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador.Francisco Cândido Xavier . 1918. Foi jornalista. dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. como autodidata. e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. para serem public adas após a sua desencarnação. Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria. integrando-lhe o quadro social por 44 anos.Parnaso de Além-Túmulo 13 apreçarem a obra que ora lhes apresentamos. 1919 e 1929. invejável cultura humanística. no Rio de Janeiro. inclusive a Presidência nos anos 1915. Quintão1 1 MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO. estudioso incansável. RJ. nascido em 28 de maio de 1874. muito apreciados. Ingressou na FEB em 1903. estão estampadas na edição de janeiro de 1955.) . M. depois de lutar com imensas dificuldades. como jovem sem recursos financeiros. conseguiu. nas posições mais modestas do comércio. Marquês de Valença. Foi guarda-livros. (Nota do Editor. foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. Como membro do Grupo Ismael. este último editado pela FEB. na Estação de Quirino. Em 1939.

Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. respectivamente. Inglês e Francês. desencarnados em 1960 e 1915. MG. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica. Japonês. em julho de 1932. MG. Criatura simples. Transferiu-se para Uberaba..” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados. onde residiu até dezembro de 1958. Castelhano. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. o “Parnaso de Além-Túmulo”. onde é popularíssimo. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. “Há Dois Mil Anos.Francisco Cândido Xavier . . Respeitado e estimado em todo o Brasil. Aposentou-se como funcionário público federal. Viajou para o exterior algumas vezes. diversos deles publicados em Esperanto. em 2 de abril de 1910. goza ele ainda de sincera admiração em outros países. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus.. sempre no exercício do seu mediunato. primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. em janeiro de 1959. publicou.Parnaso de Além-Túmulo 14 Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século. afável e operosa.

se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. mas onde o trabalho é menos rude. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso. num grupo escolar.Parnaso de Além-Túmulo 15 Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. essa situação modificou-se em 1923. estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos. quando contava oito anos. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. Mas. das quinze horas às duas da manhã. estudar como? Matriculando-me. sempre estudei o que pude. em 1910. que acima de tudo ama a verdade. E. mas meu pai . prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade.Francisco Cândido Xavier . Filho de um lar muito pobre. pude chegar até ao fim do curso primário. em casa. quanto à sua formação. órfão de mãe aos cinco anos. porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. onde o serviço dura das sete às vinte horas. quando então consegui um emprego no comércio. Minas. como o são as lições das escolas primárias. história e vernáculo. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos. constantemente. julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal. com um salário diminuto. E até aqui. porém. É verdade que.

O meu ambiente. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra. até hoje. para mim. sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. em maio do ano referido. Jamais tive autores prediletos. Verdadeiro discípulo do Evangelho. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros. realizar as minhas esperanças. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. neste ponto. Prosseguindo nas minhas explicações. sempre a braços. pioras de amargos padecimentos morais. para nossa casa. ambiente de pobreza. num ambiente totalmente . de desconforto. Os meus familiares não estimulavam. desde os tempos de criança. José Hermínio Perácio. Fui pois criado com as teorias da igreja. como verdadeiramente não podem. por diferençar muito pouco essas questões. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus. como eu. espírita convicto. Até 1927. foi sempre alheio à literatura. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. Vários dias consecutivos foram. a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. foi acometida de terrível obsessão. os meus desejos de estudar. todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. freqüentando-a mesmo com amor. mas. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. tanto à sua família. de penosos deveres.Francisco Cândido Xavier . ofereceu-nos até a sua residência.Parnaso de Além-Túmulo 16 era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. sequer. onde então. bem distante da nossa. pois. eis que uma das minhas irmãs. onde se não pode pensar em letras. Foi quando decidimos solicitar o auxílio de um distinto amigo. o Sr.

em 1944. os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. com a graça de Deus. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. (Nota do médium para a 4ª edição. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina. então.Francisco Cândido Xavier . minha irmã hauria. a vidência.) . semimecânico. que se tornou inabalável. desenvolvendo. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. Aí. como o são os daqueles confrades a que me referi. desenvolveram-se em mim. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. médium dotada de raras faculdades.Parnaso de Além-Túmulo 17 modificado. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. Resolvemos. para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida. que regressara ao Além em 1915. a audição e outras faculdades mediúnicas. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. orientando-se quanto aos seus deveres. as suas faculdades mediúnicas. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. que a minha mãe. entrando em pormenores da nossa vida íntima. simultaneamente. quando na Terra. de maneira clara e mais intensamente. 2 2 Só nos últimos dias de 1931. sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio. com ingentes sacrifícios. para nosso benefício. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. que essa senhora desconhecia. por intermédio da esposa do nosso amigo.

categoricamente. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. e. em consciência. Não desanimamos. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. Em agosto. decorridos dois anos. a nossa alegria aumentava. assim. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. entre as suas mediunidades. o que perdura até hoje. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. ornada das mais superiores qualidades morais e que. contudo. psicografando-as. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época. controladas pela sua senhora. não posso dizer que são minhas. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. do corrente ano. porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. assinadas por nomes respeitáveis. Nossas reuniões contavam. em companhia de sua esposa. O que posso afirmar. Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre. grande número de assistentes. era a de que vigorosa mão impulsio- . conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. ao escrevê-las. nas reuniões. por conhecer as minhas imperfeições. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas. A sensação que sempre senti. chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. é que. apesar de muito a contragosto de minha parte.Francisco Cândido Xavier . quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas. prosseguindo em nossas reuniões. a moral profunda que era ensinada. os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. alma nobilíssima.Parnaso de Além-Túmulo 18 Daí a pouco. parece que pesava muito. porém. baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. porém.

quanto menor o número de assistentes. ao psicografá-las. julgando minha obrigação. era necessário recorrermos a dicionários. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse. e. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade . pertencem igualmente à fenomenologia espírita. experimentando sempre no braço. que. em particular.3 3 Ao escrever estas palavras. que alguém mas ditava aos ouvidos. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente. fisicamente. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. em nossas preces. sem que se produzisse escrito algum. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. doutras. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. Muitas vezes. mantidas desde os 5 anos de idade. esse estado atingia o auge. parecia-me ter em frente um volume imaterial. acontecendo o mesmo com o cérebro.Francisco Cândido Xavier . é o que experimento. porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância. ao recebermos uma destas páginas. o nome de qualquer dos comunicantes.Parnaso de Além-Túmulo 19 nava a minha. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. as menores impressões físicas. na fenomenologia espírita. Certas vezes. por momentos. a não ser esses escritos. melhor o resultado obtido. Passavam-se às vezes mais de dez dias. apesar de todo o meu bom desejo. não sentindo. o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo. frisar aqui também. jamais obtive outra coisa. onde eu as lia e copiava. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. Doutras vezes.

que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. todavia. Há de haver. Terei feito compreender.Parnaso de Além-Túmulo 20 Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. os meus saudares. a quem me lê. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. Cármen P. a verdade como de fato ela é? Creio que não. (Nota da Editora) .?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está. A todos eles. Perácio. E aqui termino. M. ainda. Pedro Leopoldo. os seus salutares ensinamentos. Quintão. e dou-me por compensado do meu trabalho. desde a infância. transmitindo. Um desses que haja. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e. entre mil dos primeiros. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. etc. rizinhos ridiculizadores. que inspiraram esta obra. dezembro de 1931. porém. Francisco Cândido Xavier nas sessões espíritas.Francisco Cândido Xavier . por intermédio de instrumento tão mesquinho. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. o carinhoso interesse do distinto confrade Sr. que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo. noutros. com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. Também isso são fenômenos espíritas.

Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. (Nota da Editora) Alude às crônicas que ele. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5 . (Nota da Editora. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias.4 A tarefa é difícil. em julho de 1932. 4 Refere-se à 2ª edição. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. os campos se apresentariam como desertos. Decerto. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva.Parnaso de Além-Túmulo 21 De pé. no domínio do conhecimento e da sensação. tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade. quando encarnado. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado. ao surgir a 1ª edição do Parnaso. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno. como se os nossos amargores. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne.) 5 . escrevera no Diário Carioca. publicada em 1935.Francisco Cândido Xavier . os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de Além-Túmulo”. que aparecerá brevemente em nova edição. Nas minhas atuais condições de vida. o mundo constituiria um conjunto de aspectos inverossímeis e inesperados. Individualmente.

Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. Casimiro com a sua sensibilidade infantil. . a visitar os cruzadores de guerra. de mulher e de menina. em nome da nacionalidade. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante. Na atualidade. e na tristeza majestosa do ambiente... dirigiu-se aos mortos em termos comovedores. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. Conta-se que na guerra russo-japonesa. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo. o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama. como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. Todos aí estão dentro das suas características.Parnaso de Além-Túmulo 22 Mas é razoável que apareçamos no mundo. Antero com a sua rima austera e dolorosa. Junqueiro com a sua ironia. Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. os mortos!. concitou-os a auxiliar as manobras militares. – De pé. terminada a batalha de Tsushima. aguardando a sua palavra. – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência.Francisco Cândido Xavier .

Coração do Mundo. em 1934. de Miguel Timponi. Pátria do Evangelho”. com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. MA. Humberto de Campos6 (Espírito) 6 HUMBERTO DE CAMPOS Veras. editados pela FEB. mas esses mantos estão rotos!.Francisco Cândido Xavier . mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis.Parnaso de Além-Túmulo 23 As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. Produção literária variada quão vultosa. já em 9ª edição. ainda não ouviu a sua vibração misteriosa. entre o assombro e a esperança. como Espírito. como a que se inseriu nesta página. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz... (Nota da Editora) . sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X. Ditou-nos 12 livros. Foi jornalista e deputado federal. e desencarnado no Rio de Janeiro. temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. sob a orientação do Anjo Ismael. Vale destacar “Brasil. edições de 10 e 12 de julho de 1932. FEB). em 1886. A Ciência. 4ª ed. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. páginas 60 a 64. acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”. escritor brasileiro. Liberto dos liames da carne. dois anos depois passou ele a valer-se. visando à cristianização da Humanidade. temos fome. zelosa de suas conquistas. o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo. e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. membro da Academia Brasileira de Letras. Temos frio.

poeta e professor. posto que fisicamente inválido. Eis que a Terra tem crimes e tiranos. Trabalhemos na dor ou na alegria. desvarios. desenganos. Mas vós. Na conquista de luz da Vida Eterna. como lobo carniceiro. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. Ambições.Francisco Cândido Xavier . Nas torturas de um novo cativeiro. Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro. . deixou alguns livros inéditos. dos quais dois já editados pela Federação. Asperezas dos homens da caverna. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934.Parnaso de Além-Túmulo 24 1 Abel Gomes ESCRITOR. Mas vós tendes Jesus em cada dia. no turbilhão da sombra imensa. Espírito dinâmico. Ameaça a verdade e humilha a crença. além de copiosa obra esparsa. Tendes convosco o Excelso Companheiro.

Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias. Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso. À esperança de todos os meus dias! 25 . calmo e austero. Num dilúvio de lírios e de rosas. Irmã da paz e da serenidade. Que abriu meus olhos na imortalidade.Parnaso de Além-Túmulo 2 A.. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza. Morte Silenciosa madona da tristeza.Francisco Cândido Xavier . G. Filhos da luz de uma outra Natureza.. A morte abriu-me as catedrais radiosas.

Rememorando as dores que passaram. Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! . Funcionário público. Adeus mágoas da noite estranha e densa. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa. colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. E dos quadros risonhos do meu porto. Banhar o coração na luz da vida. Quintão Viajor vacilante e extenuado. É doce descansar após a lida. Do meu porto Ao caro amigo M. Não conservo senão o Amor e a Crença.Parnaso de Além-Túmulo 26 3 Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942. Das angústias e sonhos do passado.. Ante o novo caminho ilimitado.Francisco Cândido Xavier .. Depois de atravessar a sombra imensa. em prosa e em verso.

em 1937. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto. soluça. que sepulta a quimera. Jesus Quanta vez. No pavor de esperar a angústia que vem perto!.. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia.. Do mundo é a escuridão. a alma pobre. e falecido em Niterói. Farmacêutico.Francisco Cândido Xavier . O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno. nascido em Palmital de Saquarema. Como a luz imortal do amor que nunca morre. dedicou-se principalmente ao Magistério. em rumo escuro e incerto. Nessa grande amargura. o peito exangue e aberto. entre escombros.. Desespera. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração. . em 1859. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Entre as vascas da morte. sobre a estrada sombria. neste mundo. E no escuro bulcão só Jesus persevera. tudo é vão.Parnaso de Além-Túmulo 27 4 Alberto de Oliveira FLUMINENSE. parnasiano de escol.. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre.

compreende. ajuda e passa. que é náufrago sem porto.Parnaso de Além-Túmulo Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana. 28 . Esclarece a alegria e consola a desgraça. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino. Nas trevas do ladrão. Irradia o perdão e atende. Planta a bênção da paz. no último dia. hoje e amanhã.Francisco Cândido Xavier . Do último dia O homem. Seu coração é um mar que se apruma e encapela. como raios de aurora. foge à sombra e à vingança. o ninho e a sepultura. Não troques mal por mal.. Seja a bênção de amor a luz do teu destino. mundo afora. arrima-te à esperança. Tudo o que era vaidade. Agora. Na eterna lei de amor que consagra a criatura. Sente o extremo pavor que a morte lhe revela.. Não te aflija a miséria. No pungente estertor do peito quase morto. Do pobre coração. na dor da alma perjura. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. abatido em seu horto. Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela. agora é desconforto.

Francisco Cândido Xavier . 29 . Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo.Parnaso de Além-Túmulo Somente o que venceu nesse mundo mesquinho. Conservando Jesus por verdade e caminho. homem vão? Cala em ti todo alarde. Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais.

tornou-se funcionário da Central do Brasil. no município de Piraí. É minúscula palhoça. guerra e cachaça. e desencarnou em 13 de novembro de 1948. Carta ligeira Meu Lasneau. esta choça. 1 Lasneau amigo.Parnaso de Além-Túmulo 30 5 Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. Detendo por balda nossa Descrença. Estado do Rio. aposentando-se como Agente de 1ª classe. . colaborou em várias revistas e jornais. É feio talhão de roça. Cheia de lama e fumaça.. Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa. breve. É o coração que desata Meus pesares num lembrete. A Terra.Francisco Cândido Xavier . passa.. Onde a carne. Poeta e jornalista. Agora é que entendo isso. nem ata. Não é ofício. não é bilhete. ante o sol da Graça.

Não me olvide em sua prece. face a face. Além da prisão de osso.Francisco Cândido Xavier . É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz. Que a coisa melhore e.. passe.Parnaso de Além-Túmulo Espere sem alvoroço.. Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece. A vida real começa. 2 Oh! meu caro. 31 . se eu pudesse Dizer tudo o que não disse. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto. é clara a messe Da sementeira de asnice. Desejo que a luta cesse.

Nas lutas de vossa esfera. Tangei harpas de esperança.. Que andais no mundo exilados. Aos crentes Ó crentes de uma outra vida.Francisco Cândido Xavier . Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!. Escada de Jacob.. Septenário das Dores. natural de Ouro Preto. . notabilizou-se principalmente pela tonalidade mística do seu astro. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura. Kiriale. poeta mineiro. Ó crentes de uma outra vida! . qual se afirma em suas obras: Dona Mística... Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921. Magistrado.. eterna e imensa.. Nos caminhos enevoados. Porque a Morte é a primavera Luminosa. etc.Parnaso de Além-Túmulo 32 6 Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães. jornalista e poeta.

. E seguindo outros seres solitários. Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor. Enchendo as grandes vastidões serenas.. Rezando as orações dos Septenários. De vos cantar. das Novenas. velhas cenas. Achou. 33 . Retomo velhos quadros. amortalhadas. dos Terços.. Dos Ofícios.. eu vos pertenço.Parnaso de Além-Túmulo Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que. Almas tristes de freiras e sórores. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres. O perfume das hóstias consagradas. em volutas de flores e de incenso.Francisco Cândido Xavier . Vozes de sinos pelos santuários. Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo.. no Espaço luminoso e imenso.. Eu ressurjo nos místicos prazeres. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas.

Nos altares simbólicos da Igreja! Eis. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra... Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas.Francisco Cândido Xavier . o mundo inteiro vos festeja. Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios. que vos vejo nos caminhos. Senhora.. como cantáveis no passado. Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos. como inda faz a alma cativa! Ó sinos dolorosos e plangentes. Chorar. Um turbilhão de vozes e de lírios. Em magnificência ampla e radiosa. porém. Cantai. 34 ..Parnaso de Além-Túmulo A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado. em ondas luminosas. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos.

até agora. Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos. guardas o vinagre dos desenganos.Francisco Cândido Xavier . É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho. Seu carinho aguarda a confiança espontânea. O Amado é incapaz de violentar a tua alma.. o Amado espera.. Distribuindo os dons celestiais. E dia virá... Aqui. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão. o envenenado licor dos caprichos. Todavia. Seu coração freme de júbilo. Mas. Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas. Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás.Parnaso de Além-Túmulo 7 Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra. choras e desesperas. O Senhor passa todos os dias. No entanto.. Acolá. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos. Na estrada longa do destino. Assim também.. Em que estenderás ao seu amor infinito 35 .

feriu-se em dolorosas experiências. De tempos a tempos.. Deu-lhe novas forças. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas.Francisco Cândido Xavier . Depois. Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas.. Por vezes. Quando penetrou noutros círculos. sofreu. Concedeu-lhe oportunidades diferentes. Fê-lo dormir no regaço. Como pai carinhoso. O Amado. O irmão Por que ajuízas com ironia. porém. Buscou-o no fundo dos abismos. Lutou. Em busca da criancinha abandonada. 36 . jamais o deserdou por isso. Ao influxo do bendito esquecimento.Parnaso de Além-Túmulo O cálice do coração lavado e vazio.

Ama-o. Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens. Dando ao mundo o que possui de melhor. 37 . E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês. Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente.Parnaso de Além-Túmulo Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez. Se já atingiste Algum topo de colina.Francisco Cândido Xavier . faze-lhe o bem que possas.

Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira. Publicou. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil. soberana. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. em livro. . Ao turbilhão de cinza e esquecimento. celeste. de alma consumida. Desce gemendo. Desfaze a teia da filáucia humana. Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade. E quem da luz não fez templo e guarida. Toda vaidade ao báratro se atira. Que a Morte. em breve..Parnaso de Além-Túmulo 38 8 Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. na Bélgica. humilha e desengana A demência da carne que delira. Qual folha solta ao furacão violento. A alma transpõe o túmulo chorando. O gozo desfalece à própria gana.. Finda a festa de baldo riso infando.Francisco Cândido Xavier .

A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar. Venho testemunhar a luz de onde regresso. De dúvida. Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada. 39 . Que abandona a matéria exânime e cansada. empobrecido e incerto. Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida.Francisco Cândido Xavier . Onde vive e se expande o Espírito liberto.Parnaso de Além-Túmulo 9 Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida. Incitando vossa alma aos planos invisíveis. Também tive a minhalma outrora perturbada. incerteza e angústias consumida.

Bendita sois vós. Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime.Parnaso de Além-Túmulo 40 10 Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público. consagrados pela crítica coeva. além de copiosa literatura teatral e doutrinária. Rainha! Estrela da Humanidade. O Senhor sempre é convosco. Mensageira da ternura. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos. deixou dois volumes de Poesia. Talento brilhante.Francisco Cândido Xavier . Providência dos que choram Nas sombras da desventura. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade. Rosa mística da fé. Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós .

. Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – 41 . Desde a paz da Manjedoura. Nossa porta de esperança. espera e crê. além da Cruz.. cinza e areia. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia..Francisco Cândido Xavier . Trabalha. Às dores.Parnaso de Além-Túmulo A Mãe das mães desvalidas.. Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia. Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória. Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Assim seja para sempre. Oh! Divina Soberana.

. “como” e “quando”. amando por vencê-las.. no País das Estrelas! 42 . Serve sem perguntar por “onde”. nos braços do Tempo. ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz. Purifica-te e cresce.Parnaso de Além-Túmulo São portas aurorais para a Mansão Divina.Francisco Cândido Xavier . E.

sombrio e inverso. arma de efeito.. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas. Fomentando o princípio desumano Da ambição onde a força prolifera. nos Açores.Parnaso de Além-Túmulo 43 11 Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel. Num caminho infeliz. formidando. Ciência de ostentação. .. Sob o alarme guerreiro. em 1891. Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era. Eis que a Terra te acusa. soluçando..Francisco Cândido Xavier . e desencarnado por suicídio.. caracterizando-se pelo seu espírito filosófico. Como a Grande Mendiga do Universo!. Investigando a entranha da monera. Longe da Luz. da Paz e do Direito. A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano. em 1842.

Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras. Oh! Anjo Tutelar da Humanidade.. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos. Esperança dos pobres desvalidos!. como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada.. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas. Vosso amor. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!. que enche os céus ilimitados. Amparai o que anseia. eu te adorei. Visão de tristes faces cismadoras. luta e chora. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora. É a luz dos tristes e dos desterrados. 44 . Que sois toda Bondade e Complacência. À morte Ó Morte.. No labirinto amargo da existência..Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora. Nos crepes do Silêncio amortalhada.

Batendo alucinado à tua porta. Numa senda mais triste e mais sombria. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. 45 . amarga e inconsolável.Francisco Cândido Xavier . Só existia a dor. Olhar de pensador amargurado. Por onde penetrei no Sofrimento. Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. Os prazeres. Depois da morte 1 Apenas dor no mundo inteiro eu via. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. E escancaraste a porta escura e fria. E tanto a vi. eu que trazia a alma já morta. Ao meu olhar de triste e de descrente. Escorraçada no padecimento. O gozo era a mentira dum momento. Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível. ela somente. 2 Misantropo da ciência enganadora.Parnaso de Além-Túmulo Busquei-te.

Parnaso de Além-Túmulo Que era na dor. Sobre o problema trágico. Pela voz da vaidade. em toda hora. Vim. insolúvel. De ver o Deus de Amor. Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava.Francisco Cândido Xavier . Recamada de dor profunda e intensa. Não o via e. então. Nesse anelo cruciante e intraduzível. reconhecendo. todavia. no entanto. Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. 3 Depois de extravagâncias de teoria. que se eleva. Morri. Nas vastidões da terra úmida e fria. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. gemendo. visão consoladora. encontrar as luzes puras Da verdade brilhante. Iluminando todas as alturas. Que a morte era um enigma solúvel. No seio dessa ciência tão volúvel. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada. Podia ver. Ela era o laço eterno e indissolúvel. de quem descria. 46 .

Recrudescendo as minhas dores rudes. E nunca encontraria abismo horrendo.Francisco Cândido Xavier . que existisse Esta vida que agora estou vivendo. cansado e moribundo: – 47 . de olhar grave e profundo. O Remorso Quando fugi da dor. Era de ouvir-lhe o grito gemebundo. E em vez de imperturbáveis quietitudes.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Quisera crer. A medonha figura de gigante Do Remorso. De amargoso penar que se me abrisse.. fugindo ao mundo. Desvairado. Dizendo-lhe. na Terra. Da morte a Paz busquei. Sua voz cavernosa e soluçante!. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo. Aproximei-me dele. porém. Divisei aos meus pés.. como se fora Apossar-me do eterno esquecimento. suplicante. Encontrei os Remorsos e o Tormento. de mim diante. Sem que a Paz almejada conseguisse. Andei cego. Ao viver da minhalma sofredora. ao sepulcro fui descendo.

. 48 . gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor.Francisco Cândido Xavier . É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura. criou obra tamanha.. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem.Parnaso de Além-Túmulo “Que fazes ao meu lado. Do espírito de amor ao mal imenso. Sente o assédio do mal. corvo horrendo. quando penso No mar humano. Se enlouqueci no meu degredo estranho. Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono. senão Deus. Sentindo o horror que nasce dessa vida. Nesse abismo de treva a bênção pura. eu te acompanho. Onde se perde a luz em noite escura. Que se vive no abismo tenebroso. Mais se me aumenta a chaga dolorida. encapelado e imenso. Acordando-me em lágrimas.

.Parnaso de Além-Túmulo O espaço e o tempo. diria eternamente. senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. Onde se agitam turbilhões de esferas.Francisco Cândido Xavier . os prantos. Que a luz.. Os soluços. Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! 49 .. Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente. Oh! se eu pudesse. a excelsa luz. o Impenetrável.. No coração dos homens e das feras. somente o Eterno. aquece e banha? Quem. A dor mais rude. E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse. Poderia criar o imensurável E o Universo infinito criaria!. os gemidos. intérmina piedade. Suprema paz. a mágoa mais pungente. Aos flagelados e desiludidos. No coração do mar e da montanha! Deus!. as amplidões e as eras.

50 . distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade. Desvairado de angústia e de descrença... dizei-lhes. Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa. Ah! Crer! bem que. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa. De tão pequena dor fazendo alarde. Despedaçou-se à falta dessa crença. ó vós que estais na Terra. na Terra. Quando entre conjeturas me perdi. Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz. Dentro da vida sem compreendê-la. Que as grandes luzes místicas revela.Parnaso de Além-Túmulo Mas. Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza. Mas que chega no mundo muito tarde. não possui.Francisco Cândido Xavier .

angústias e cansaços. Buscando a paz depois das grandes lutas. Que perfuma e crucia o vosso peito. Mas. na Crença e na Esperança. Mão divina A luz da mão divina sempre desce.Francisco Cândido Xavier . que é da alma rediviva. Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem. Em santa e esperançosa claridade. Confiando. Se o tormento da vida recrudesce. Sobre as dores da pobre alma cativa. esperai a Providência Com os sentimentos puros. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições. Aguardai a abundância da outra messe De venturas. Se a amargura das lágrimas se aviva. Procura a luz sublime dos espaços. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos 51 .Parnaso de Além-Túmulo O pranto é a flor de aromas da saudade. diamantinos. Que está nas sendas lúcidas da Prece. transformai-o em gozo alto e perfeito. Misericordiosa e compassiva.

Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz. Com que andei entre queixas dolorosas.Francisco Cândido Xavier . Turbas de almas escravas de agonias.Parnaso de Além-Túmulo A paz e as luzes que eu não alcancei. 52 . Supremo engano Vê-se da Terra o Céu. sob os arrancos. Miseráveis Espíritos que choram. Onde mora a ventura. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas. Ao palmilhar estradas escabrosas. bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram. Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida. em toda a vida. Essas compactas legiões sombrias. Como um vergel azul de lírios brancos. Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles.

em minhas dores. Cheios de vida e de infinitos bens.. Deus não representa A personalidade humanizada. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos. Antegozei. A paz livre de trevas e pavores. Pelos seres terrenos inventada. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. de cólera violenta. de angústia e de tormenta. Que entre anseios e angústias conheci! Mas. orbe da lágrima e do erro. rijos e francos. Cheia. Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra.. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! 53 .Parnaso de Além-Túmulo Sob os golpes da dor. quanto o vão mortal inda se engana. somente.Francisco Cândido Xavier . Com teus grandes olimpos majestosos. às vezes. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor. Do imperturbável nada que não tens! Incognoscível Para o Infinito.

Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!.Francisco Cândido Xavier . Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre. brasonado cavaleiro.. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. a crença se realiza. Nos labirintos da Filosofia. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere. Coroado de folhas de loureiro. O meu erro. às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!. enfim. na Terra. Onde a grande certeza principia... E no meio de todas as canseiras Cheguei. todavia..Parnaso de Além-Túmulo Fatalidade Crê-se na Morte o Nada.. chora e pensa.. Nunca. Quem vai de alma gemente e consumida. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás. no mundo inteiro.. além.. Fim de toda a amargura da descrença. e. o homem divisa A figura das dúvidas que matam. Porque em tudo. no mundo da Agonia. no mundo. 54 .

Parnaso de Além-Túmulo Mas a Verdade. sem Deus. sem norte?” E impeliu. vaidade e orgulho. Aos tenebrosos pântanos da Morte. sobre a humana furna. Cavaleiro e corcel. angustiada.Francisco Cândido Xavier . em voz soturna: – “Insensato! aonde vais. 55 . sem detença e sem barulho. Gritou-lhe.

Nem a morte os vencerá.Francisco Cândido Xavier ... Deixou um livro inconfundível e. As almas das raparigas Inda sonham nos choupais. . que importa lá? Porque os amores fiéis. em 18 de março de 1900. edição de 1902. não vos canseis De bater.. Voltam sim. muito estimado – Só – e Despedidas. Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais.. Quadras de um poeta morto Coração. Como às aves o alçapão. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro.Parnaso de Além-Túmulo 56 12 Antônio Nobre NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam. E por que não? Os corpos daí nos soltam. ainda hoje.

Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. Porém. De vossa alma abri as portas Para.. os fantasmas da rua. Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus. Um dia o riso lhe foge. Contudo. Quem riu ontem.. quem ri hoje. Corações despedaçados.. Sem que o veja escapulir. Vós que amais a luz da Lua.Francisco Cândido Xavier . Que choram nas horas mortas. acima de tudo Devemos amar a Deus. Nem pó e nem solidão. Às vezes acham-se fojos Onde há música e festins.Parnaso de Além-Túmulo Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados. E há muitos cardos e tojos 57 . Riquezas. que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus. Venturas da boa sorte. não é assim. Nem sempre poderá rir..

Se eu pudesse. Para quem a padecer Vive aí na sepultura. Mal vais. Um anjo cheio de encanto Vive sempre com quem chora. No sepulcro não termina O novelário do amor. se vais caminhando Na ambição de ouro e glória.Francisco Cândido Xavier . No Universo há céus profundos. Nesse mundo miserando Toda ventura é ilusória. 58 . A morte só pode ser A vida risonha e pura.Parnaso de Além-Túmulo Entre as flores dos jardins. ó menina. Vossas dores amargosas: Achareis noutros caminhos As vossas mães extremosas. Deixa cantar. estenderia Minhas capas de luar.. Teu coração sonhador.. Chorai! chorai orfãozinhos. Guardando as gotas de pranto Numa urna cor da aurora. Sobre os filhos da agonia Que andam no mundo a penar.

Ah! que sinto aqui saudades Das noites de São João. claridades. Sem fazer conta nenhuma.Francisco Cândido Xavier . Mas morrem cabeças tontas. Oh! almas enamoradas. Tecei sonhos.Parnaso de Além-Túmulo Cheios de vida e esplendor. 59 . São senhores despojados Dos seus tesouros de reis. Aos mendigos desprezados Não ridicularizeis. Cantigas do coração. Um mundo é um ninho de amor. fiandeiras. Sonho. A caridade é a beleza De um divino plenilúnio. Um céu é um ninho de mundos. Que os interesses resuma. Luz que se estende à pobreza. Vivei aí nas clareiras De luzes alcandoradas. O raio de primavera Que aí jamais encontrou. Aqui. Na escuridão do infortúnio. Há quem faça aí mil contas. a alma inda espera O alguém que na Terra amou. estrelas.

vagueando os ermos. por meu mal. Acompanha-me a tristeza Das saudades. porém.. Do Além Pudesse o nosso olhar. Até que a dor unindo-se à desgraça Descerre os véus que encobrem outra vida. Ver através da própria soledade A expressão luminosa da Verdade. Naquelas toadas de outrora As moçoilas coimbrãs... Minha terra portuguesa! .Parnaso de Além-Túmulo Na minha vida de agora Não canto as festas louçãs. Pois que o ardente desejo de o sabermos É sempre o anelo falso da vaidade? Peregrinos da dor.Francisco Cândido Xavier . Seguindo a alma nos sonhos iludida.. E da luz da Verdade não descrermos. na dor andamos Sem que a nossa miséria se desfaça No escabroso caminho onde marchamos.. 60 .. Preocupar-se aí. quem há de Com o problema de sermos ou não sermos. Meu querido Portugal! .

A Primavera vem por outras portas. E além da amarga vida de segundos. entristecido.Parnaso de Além-Túmulo Soneto “Quando cobrir-se o chão de folhas mortas – Meu coração dizia em grave entono – Extinguindo-se a vida que comportas. Lodoso chavascal onde se avista A podridão dos vermes que apavora. Mas. Aguardando o sol-posto. 61 .” Escutava essas vozes comovido. Precisamos da carne que aprimora Com o camartelo mágico do artista. morto de incerteza.Francisco Cândido Xavier . Ou a dor amarga e rude em que te cortas. Dormirás no meu seio o último sono.. Morto de angústia. para os grandes bens. Não existe no túmulo o abandono. O vale de amarguras do Salmista. Ressurgi da tortura e da tristeza. Sob os ares sadios de outros mundos! Ao mundo A Terra é o vasto abismo onde a alma chora. para que exista A perfeição da luz deslumbradora. E murmurava a alma – “Findo o Outono..

Vibrai na luz da vida em que viverdes. Marchai sorrindo.. ditosa. Ébria de aroma e luz. Clareando o porvir almo e risonho. Mas és ainda o cárcere da treva. doce juventude. Alvorada em abril.Parnaso de Além-Túmulo Terra. mocidade ardente. Na exaltação do amor e da saúde. Nos poemas de luar que conceberdes! Ide cantando. ó mocidade! Moira Encantada que ri nos prados verdes.... Expandi-vos na primavera loira. Glorificai. Teu rigor nos redime e nos eleva. Triste mundo de chagas pustulentas! À Mocidade Cantai! cantai. ébria de sonho!. 62 . do sol-nascente. o sol que doira O riso que espalhais sem compreenderdes. Porque da tua dor alcei meu vôo Para a mansão das luzes opulentas. Cantai o amor que é luz que se entesoira.Francisco Cândido Xavier . tranqüilamente eu te abençôo.

Esquife do sonho Tive um sonho de amor e de inocência. Poeta e escritor. – Abismo tenebroso que eu transponho. Do qual perdi a luminosa essência Na cristalização dos meus pesares.Parnaso de Além-Túmulo 63 13 Antônio Torres NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885. falecendo. Terminados os múltiplos azares. amargurado e cego. como cônsul adjunto do Brasil. Infeliz do meu ser irredimido. Pois triste e atordoado inda carrego O negro esquife do meu próprio sonho. No silêncio das cinzas tumulares. Cheio de luz das coisas invulgares. Ordenou-se sacerdote. . na cidade de Hamburgo. no abismo indefinido. Tarde reconheci minha falência. abandonando mais tarde a profissão eclesiástica.Francisco Cândido Xavier . em 1934. Tombei exausto. E da morte. De minha quase inútil existência.

Antes. – A minha aspiração de cada hora. Vi que troquei a Fé pela ironia. com pena embora De abandonar a crença que esposara. única Luz da única Aurora.. Filosofia rude e amara. Pois nem sempre a razão profunda e fria Alivia ou consola o coração. não fosse tão ousado. Que as trevas mais compactas aclara. resplendente e rara Da Fé. Crença é o perfume d'alma que se enflora Com a luz divina.Francisco Cândido Xavier . porém... Nos desvios e excessos da razão. Na qual acreditei. Revendo os dias tristes do passado.Parnaso de Além-Túmulo Nada. Nada! . 64 ..

Não na visse nem mesmo por brinquedo: Dona Corália Augusta Colavida Estaria nessa hora recolhida? Levantou a cortina. Homem de cabedais e alma sem siso. 2 No belo palacete do Furtado. assim.. Miniaturas da sociedade elegante 1 Adriano Gonçalves de Macedo. ..Parnaso de Além-Túmulo 65 14 Artur Azevedo NASCIDO em São Luis. era preciso Que a sua esposa.. Sobre o divã. Membro e fundador da Academia Brasileira de Letras. que tragédia após esse perigo. Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação. da sala de jantar. onde ocupou a cadeira de Martins Pena. a 7 de julho de 1855 e falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908. dama de juízo. devagar. no Maranhão.. Viu que a esposa beijava um seu amigo. comediógrafo.Francisco Cândido Xavier . Penetrou no seu quarto com um sorriso Às dez horas da noite. jornalista e crítico. Poeta. Mas. muito a medo. Uma carta de amante – era um segredo – Ia abri-la. e.

Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o. E ele. Foram levar-lhe um abraço camarada. Protegido dos membros da regência.“Esse livro. conselheiros. 3 Dom Castilho. De sobre a grande cômoda bonita. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores. Nele via uma grande alma de artista. muito aflita: . interessado. Foi um sucesso. poetas. notável latinista. Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. assaz catita. E a esposa Ana Fulgência. Antonico. Era um compêndio de pornografia. Mais o olhava e mais se ria. Toma o moço um livrinho encadernado. Mas a jovem retoma-o.. Realizara alentada conferência. é meu breviário!” Diz inquieta. Bacharel delambido e enamorado. Numa corrida louca.Francisco Cândido Xavier . 66 . Sobre rígido assunto moralista. Recamado de quadros indecentes. cínico e falsário. Que primor de moral! e os companheiros Escritores.Parnaso de Além-Túmulo Palestrava a galante Mariquita Com um pelintra afetado. Revirando-o nas mãos..

Francisco Cândido Xavier ...Parnaso de Além-Túmulo No apartamento escuro da criada. 67 .

Na clareira.Parnaso de Além-Túmulo 68 15 Augusto de Lima POETA mineiro. perdoando a maldade. elevando-se aos céus. Ninguém! Nem uma sombra se movia. espelho de bondade. Abençoando o bem. onde o Sol feria os vegetais. Carinhoso pastor. Naquele dia. Minas.Francisco Cândido Xavier . Agreste serrania. tristonha e desolada. Ali vivia Anchieta. Viam-se florescer bromélias e boninas. imitador de Assis. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. Que na humildade achara a vida mais feliz.. Era intenso o calor. Amarela de pó. . Além se divisava a solidão da estrada. tendo ocupado a presidência dessa instituição. esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas. Magistrado íntegro. militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. desânimo e torpor. O doce missionário Sertão hostil. nascido em Sabará. Tendo por companhia A cruz do Nazareno. Tudo era languidez. E. o doce missionário. Servo amado de Deus. humilde e solitário.. orador e publicista.

Somente o Sol ferino e destruidor. em aflição. 69 . Pairam no ar excessos de calor. Em tão rudes e aspérrimos caminhos! . – “Meu protetor – diz ele –. Agoniza na taba... Que tem oferecido a Deus o seu amor. ao longe. Que Jesus vos ampare.. Para arrancar à dor o pobre penitente.“Oh! doce filho meu. o bom pajé.” . o humilde pegureiro Avista um mensageiro. ao termo da viagem.Francisco Cândido Xavier . Eis que a sede o devora. Abandonando o ninho agreste e solitário.. Nem árvores umbrosas e nem fontes. Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa. Dirige-se-lhe a casa. Que calcina.” E isso dizendo. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. Convertido por vós à luz da vossa fé. Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor. o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário.Parnaso de Além-Túmulo Eis que o irmão de Jesus. o pastor não se deplora. Que penosa jornada. que vindes de passagem. inflamando os horizontes. Há solidão na estrada. Entretanto.

Numa ideal combinação Formam um pálio protetor. por tudo o que nos dás. de luz e caridade.. em nossa própria cruz. Cobrindo o doce irmão Que ia ofertar amor. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade. E. tudo é ventura e paz. Luz e consolação. Ele ainda agradece: – “Sê bendito. Na vibração dos sons. das meigas avezinhas. asas aconchegadas.Francisco Cândido Xavier . No canto. Numa férvida prece.Parnaso de Além-Túmulo A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento. 70 . Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores. amparo e luz. Na corola de luz de todas as florinhas. Na estação outonal. na irradiação da luz. no sofrimento. todo amor. Senhor. Na dor. Eterno Pai de amor.. que te ama e te venera. No coração do bom.. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio. Eis que nos arredores Congregam-se apressadas Todas as avezinhas. no cálice das rosas. Juntinhas. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas. Seja alegria ou dor. No azulíneo do céu. na loura Primavera.” Terminando a sorrir a espontânea oração. Inspirada em tão santa devoção..

Que ia seguindo. O santo de Assis No suave mistério dos espaços.. Aureolando com amor o Discípulo Amado. O enviado do Bem e da Virtude Agradecia ao Céu.Francisco Cândido Xavier . Modesto. feita de crença e amor: Era a bênção dos Céus. Lábios sorrindo. 71 . Em meiga mansuetude.. Glorificando as dores da alma triste. Chegara ao seu destino. Pelos caminhos. Ia caindo o dia No poente de paz e de harmonia. humilde e isento de pecado. Foi-se aumentando O alado bando Dos bondosos e ternos passarinhos. o coração em luz. Evolando-se puro ao seio de Jesus. Brilhava nova luz. Santa Maria dos Anjos inda existe. casto. Com a mesma luz divina dos seus traços. Repartindo a Virtude.Parnaso de Além-Túmulo Em nome do Senhor. a bênção do Senhor. a Graça e os Dons Que a palavra divina do Cordeiro Prometeu aos pacíficos e aos bons Do mundo inteiro.

O Esposo da Pobreza No seu manto de amor e de alegria Inda abre os braços para os pecadores. “Irmão Sol. Sua sabedoria e seu amor. irmãos Anjos. irmãs Flores. singela e boa. E à voz suave e dúlcida do Santo. Procurando salvar Os nossos irmãos Homens mergulhados Entre as noites sombrias dos Pecados!.. Não nos cansemos de glorificar A caridade imensa do Senhor. dourada Pelos astros de mística alvorada... A Terra escura e triste se povoa De anjos de amor. Daquela mesma Umbria do passado. que enxugam todo o pranto E que levam consigo Todo o consolo amigo Da Esperança no Céu. Numa doce e ideal Eucaristia.Francisco Cândido Xavier . Aí se rejubila.Parnaso de Além-Túmulo Uma nova Porciúncula. A luz dos sóis da etérea Natureza.. Derramando no Além ignorado Os sonhos de Virtude e Perfeição. São Francisco de Assis abraça e beija 72 . Sob a paz de Jesus... Das paragens etéreas Da sua ideal igreja. terna e tranqüila. Cheia de encantamento e de oração.

E o conduz Ao regaço divino de Jesus!... divino “poverello”. à luz da imensidade. irmão da Caridade.Francisco Cândido Xavier ...Parnaso de Além-Túmulo O homem que sofre todas as misérias.. Santo de Assis... Depois da morte. Quero ainda abençoar-te a vida inteira. que devasta Todo o bem. Santo de Assis. Amparando-lhe a alma combalida Nos desertos de lágrimas da Vida. Nas amarguras do meu pesadelo De vaidade do mundo. vi tua luz singela e casta Beijando as minhas lepras asquerosas. Que me curaste as lepras e a cegueira. 73 .. Uma chuva de lírios e de rosas Lavou-me o coração de pecador E guardei para sempre o teu amor.

Parnaso de Além-Túmulo 74 16 Augusto dos Anjos PARAIBANO. Minas. suficiente para lhe dar personalidade original. inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de sua predileção. Perpetuando-se em continuidade. muita vez me consumia Perquirindo nas leis da Biologia As expressões orgânicas das formas. No rubro incêndio de batalha acesa. porque o fundo Do númeno às eternas rutilâncias. Deus era a lei de eternos transformismos. englobando As substâncias todas na Unidade.Francisco Cândido Xavier . na cidade de Leopoldina. Concepção panteística. Via Deus adstrito à Natureza. Era professor no Colégio Pedro 2º. deixou um só livro – Eu – que foi. Voz do Infinito 1 No excêntrico labor das minhas normas Na Terra. Com o espírito absconso em paroxismos. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914. A essência onicriadora reformando. . O fenômeno apenas. Eram partes do Todo nas Substâncias Desde o estado prodrômico do mundo. alias.

Dos cumes da Ciência e do saber. Os princípios genéricos do ser. a matéria apodrecer. numéricas. A luz dessa dourada ignorância. A sutilez do arminho que se veste. Do meu viver. A alma era a molécula. Notava as pestilências cadavéricas Iguais à carne Angélica da infância. E com certezas lógicas. desde o embrião inicial. Afastada do Todo Universal. que eu via transtornado: Eu era um átomo individuado Em cerebralidade putrescível. sofrendo. Loucura que igualava Messalina À pureza lirial da Mãe do Cristo. Vi. E na individualidade indivisível 75 . porém. De idéia que esteriliza e desensina.Parnaso de Além-Túmulo O corpo. Assim vivi na presunção que via. Era um mero atavismo revivendo. Irmanadas aos pútridos fedores De emanações pestíferas da peste! Extravagância e excesso jamais visto. Dominava-me todo o medo horrível.Francisco Cândido Xavier . No pantanal da lama em que eu vivia. A coroa aromática das flores.

76 . na luz etérica a dizer: 2 “Louco. Olhos cegos às chamas da bondade De Deus e à divina misericórdia.Francisco Cândido Xavier . De todo o esterco que apavora o mundo E os tóxicos letais dos corpos podres.Parnaso de Além-Túmulo Ouvi a voz esplêndida e terrível Da luz. Vendo somente a cárie dos conjuntos. que emerges de apodrecimentos. Vias os teus iguais.. danados. Alma pobre. iguais aos odres Onde se guarda o fragmento imundo. Em teus dias inúteis. Entre as sombras das lágrimas terrenas.. E os instintos hidrófobos. Que espalha o bem e as auras da concórdia No coração de toda a Humanidade. famulentos. Que na Terra não viu os esplendores E as ignívomas luzes da virtude. esquelético fantasma Que gastaste a energia do teu plasma Em combates estéreis. foste apenas Um corvo ou sanguessuga de defuntos. E tanto viste os corpos e as matérias No esterquilínio generalizados. Em meio de excrescências e misérias Que corrompeste a íntima saúde Da tua alma cegada de amargores.

77 . as carnes. fundas e enormes. No turbilhão de todas as vertigens. Da confusão dos seres embrionários. agora.Francisco Cândido Xavier . desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. vibrião das ruínas. E sufocando gritos. Das substâncias elementaríssimas. Venho dos invisíveis protozoários. Vitalizando corpos multiformes. negro e horrível. A infinita desgraça de ser homem. os estrumes. Do silêncio da mônada invisível. Sofri. Esquece o verme.Parnaso de Além-Túmulo Descansa. Emergindo das cósmicas matérias.” 3 Calou-se a voz. Filhos do pranto que me espedaçava. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando a luz das amplidões divinas. Do tetro e fundo abismo. em eternos infinitos! Vozes de uma sombra Donde venho? Das eras remotíssimas. Da Terra no vultoso e imenso abdômen. das bactérias. Reconheci que a vida continuava Infinita. Em mil transmutações. Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. Venho da fonte eterna das origens. Das células primevas.

Enigmas insolúveis e profundos. A dor. Como existiram. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. Como animálculo medonho. E nem compreenderás como se opera 78 . apenas fui terrível presa. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias. Durante penosíssimos minutos. A flor da laranjeira. Onde me revolvi como infusório. Simbiose da dor e da tristeza.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra.Francisco Cândido Xavier . Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. Inda que desintegres energias. analisando os fatos. a asa do inseto. Sombra egressa de lousa dura e fria. Um estafermo e um Tales de Mileto. Depois. Descortinando as luzes do futuro. A razão do completo e do incompleto. não perceberás. essa tirânica incendiária. obscuro. voltei desse laboratório. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres.

Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas. Como vivem o novo e o obsoleto. Como vive o canário junto ao corvo. E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo. A luz de Miguel Angelo nas artes. O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. 79 . O céu iluminado. Mostrando as luzes da imortalidade.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo A mutação do inverno em primavera. Produto da experiência de Hahnemann. A noite da ignorância e o sol da Ciência. A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade. E a transubstanciação da guerra em paz. As grandes atonias e as nevroses. o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. O laconismo e a prolixidade. As epidermes e as aponevroses. A atividade e a inatividade.

Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. As idéias conexas e as loucas.Francisco Cândido Xavier . Onde há somente um óvulo fecundo. É o gigante e o germe originário. o cemitério. 80 . Os milhões de corpúsculos do ovário. A alma pura do Cristo e a de Tibério. E o jardim rescendendo de perfumes. Em contraposição com os paquidermes. os vermes. Os lombricóides mínimos. Junto dois palacetes higiênicos.Parnaso de Além-Túmulo As atrações e as grandes repulsões. Assombrosas antíteses no mundo. E o desconhecido e o devassado. Repleto de dejetos e de estrumes. Vaso de carne podre. A teoria cristã e Augusto Comte. As coisas substanciais e as coisas ocas. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. Em prodigiosas manifestações. Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo.

Milhões de vozes. Uivando subjugadas e ferozes. Outras vozes. A que se acolhem míseros ateus. Aquilo que está longe e o que está perto. Homem! por mais que a idéia tua gastes. O que não tem sinal e o que tem marca. Gritos de feras em paroxismos. Seja nas concepções dos ateísmos. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. Duas vozes. Para a Vida que eterna se renova. Psíquicos. Caminharás lutando além da cova. confusa. científicos. Na solução de todos os contrastes.” Voz humana Uma voz.Parnaso de Além-Túmulo Os terrenos povoados e o deserto. Os fenômenos todos geológicos. A funda simpatia e a antipatia. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. Que inspiram pavor e inspiram medo. As atrofias e a hipertrofia. atrozes. sociológicos. Buscando as perfeições do Amor em Deus. Não saberás o cósmico segredo. É a voz humana em intérminas nevroses. 81 . Cosmopolitismos. Como as tuberculoses e a anasarca.Francisco Cândido Xavier .

É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres.Francisco Cândido Xavier . que gargalhando em nossas dores. insaciada. Enceguecido e louco então que eu era. A dor. Buscava as almas. Nas lágrimas. Nas defectividades da estesia. Alma Nos combates ciclópicos. seres inorgânicos. titânicos.Parnaso de Além-Túmulo É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. Que eu às vezes na Terra empreendia. Somente achava corpos na existência. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. Nutrir-se de famélicos prazeres. Que não via. Nos vastos campos da Psicologia. Nos distúrbios sutis da hipocondria. 82 . As luzes d'alma em trágicos segredos. dos astros à monera. nos risos e nos pânicos. Nos instintos soezes e tirânicos.

Voracidade onde a alma se mergulha. se apaga Ao furacão indômito das dores.Francisco Cândido Xavier . Tendo a alma – centelha. Em sexualidades e histerismos. Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. que. Multiplicando as lágrimas e os trismos. Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. sem vigor. Serpentes entre escrófulas e helmintos. hipertrófica. apodrece.Parnaso de Além-Túmulo Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos. Nos recantos dos mundos inferiores. tegumentos. Que atrofiada. Atrocidade das atrocidades. Na agregação da carne e dos humores. parece Cataclismo dos grandes cataclismos. E nisto achar fantásticos prazeres. materializados. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. estrambótica. Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. nervos. fraquíssima. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. 83 . Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras. Que.

Inferiores e rudimentares. atassalhados. Que percorrem o espaço imensurável. Transformando-se em luz. a onda sonora.Francisco Cândido Xavier . em sentimentos. Mas a análise crua do que eu via. No transcorrer das vidas sucessivas. Veríamos o evolver dos elementos. Hedionda lição de anatomia. No profundo silêncio dos inermes. Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. No assombroso prodígio das esteses.Parnaso de Além-Túmulo Espíritos em ânsias retroativas. A cadeia de impulsos e de instintos. Das origens às súbitas asceses. É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. O anseio da vida. nas plantas e nos vermes. Nos rochedos. Rudimentos dos seres planetários. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável. Nas ferezas do instinto. A mesma luz dos corpos estelares! 84 .

Argamassando um Todo miserável. Heterogeneidades da Substância. 85 . Tudo é clarão da evolução do cosmos. Ao monólito enorme das idades. Larva repugnante e vermiforme. Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável.Francisco Cândido Xavier . Viemos do principio das moneras. A quietação dos túmulos inermes. dos invisíveis microcosmos. Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância. Era um feixe de mônadas de vermes. Do intravascular princípio informe. O homem é fruto insólito da ânsia. Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras.Parnaso de Além-Túmulo É que. Nos íntimos recôncavos da placenta. Dissolvidos na terra famulenta. Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável. Enjaulados no cárcere das lutas. Buscando as perfeições absolutas.

Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte. universal. Não há luta mavórtica que o dome. Onde a divina essência se reveste Da substância fluida. Vendo a terra que os próprios ossos come. Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem. Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. 86 . Volve o Espírito ao páramo celeste.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 2 Após a introspecção do Além da Morte. toda a bílis do iracundo. Depois da estercorária microbiana. De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel. Ou venenada lâmina que o corte.

O mesmo triste e estrábico produto. em brasa. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. Se vos mentisse.. Sou eu que. Inexprimível nas termologias. com Laplace. Nas mais contrárias idiossincrasias. Jamais cri. com Haeckel. e por mais que o procurasse. se não vos declarasse. E. À Terra volvo. Sou eu. com intelecto de arbusto. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho. lúcido. se mistificasse No anonimato.Francisco Cândido Xavier . Atramente a gemer a mágoa e o luto. ígneo. Dentro da noite É noite. então. Quer com Darwin. Extremamente injusto Seria. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou.Parnaso de Além-Túmulo Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente.. entro Em relação com o mundo onde concentro 87 . sendo eu o Augusto. Levantar-me do leito de Procusto.

Buscando ávida a luz. Sentindo os próprios membros carcomidos. cruéis. São uivos dos instintos jamais hartos.. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos. As dores espasmódicas dos partos. – A misérrima e pobre Humanidade. Às bactérias mais vis ambas trocando. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios.Parnaso de Além-Túmulo O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. As dolorosas mágoas dos enfermos. Mais o enigma do mundo se lhe aviva.. Deplorando o destino miserando. A desgraça dos úteros falidos. Que nas bestialidades se unem loucas. apodrecidos. Em diferenciação definitiva. É a ânsia afrodisíaca das bocas. 88 . D'alma quebrando o cárcere do instinto. Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor.Francisco Cândido Xavier . São os ais dos leprosos desprezados. Verminados. Sentindo-se em seus leitos como em ermos. Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. da perpétua grade. que hórrida sinto. Por mais que sonde. tremendo.

Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento. Onde traguei meus grandes amargores. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos. Asco e dó. o anseio. decomposto. Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria... além das catacumbas. Como o cheiro de sangue dos massacres. o veneno 89 . Vejo a guerra pestífera dos sexos. E ainda transpondo o Azul sereno. E com os meus pensamentos desconexos. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas. Essa angústia indomável. a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem. envoltos na ânsia. Fétido.Francisco Cândido Xavier . Abominando as coisas deste mundo.Parnaso de Além-Túmulo É o grito. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo. Desde o sol-posto. atrocíssima. e chegam-me fortes cheiros acres. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. Dos desejos que não se realizaram.. Terra!. Trazendo dentro d'alma. coagulado.. Sinto em minhalma o tóxico. Fujo. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. ao próximo sol-posto.

tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne. Sob transformações consecutivas. Vem dessa Origem indeterminada. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. Objetivando a personalidade. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada Nos turbilhões das lutas cognitivas. Na imensidade Alma humana. Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! 90 . Em sucessivos aperfeiçoamentos.Parnaso de Além-Túmulo E a desdita dos seres sofredores. pura.Francisco Cândido Xavier . e se confunda. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada. Desse teu escafandro de albuminas. Vem através do Todo de elementos. alma humana. Até achar à perfeição profunda E indivisível. essa voraz liberticida. No transcendentalismo da Unidade.

nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades. Formam luminosíssimas paisagens. execrável. Deixai meu ser esdrúxulo. Combinações no mundo das imagens.. Sem aritmologias das distâncias. concretizadas e reunidas. Não podes perceber as ressonâncias. 91 .Francisco Cândido Xavier . Sem limites. Ante a minhalma fulgem ideogramas. nas regiões imensuráveis. De gangliomas. Deus e Pai. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos. Envergando os etéreos organismos. sem fim.. Aqui não há vertigens de nevróticos. Pensamentos radiosos como chamas. ó Artista Inimitável. sem número. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades. Do teu laboratório de arterites. Submersão nas fluídicas belezas. Singrando a luz de céus incomparáveis. Em pleno espaço – Imensidade de ânsias. Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas. São vibrações das almas evolvidas E que. úlceras.Parnaso de Além-Túmulo Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis.

Mas contérmino à carne. Não sou o homúnculo da hominal espécie.Parnaso de Além-Túmulo No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas. Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade. E sou o espectro das anomalias. Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias. levanta o véu do teu futuro. Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. Eis-me longe dos rudes estertores. Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores. 92 . Aos fracos da vontade Homem. Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. que me aterra. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra.Francisco Cândido Xavier .

Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto. nefasto. Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria. Que o sol da tua mente.Francisco Cândido Xavier . esplenda. 93 . observa o pensamento. Com os tônicos sagrados da Virtude. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude. De arcangélicas flores de Harmonia. eterno. Fonte da força e altíssimo elemento. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama. Com a espada resplendente da virtude. Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. Mas. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares Vivam livres de todos os pesares. Ouve-te sempre a ronda do mistério. sofre e chora.Parnaso de Além-Túmulo Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero. sobretudo.

Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia. Reflexas das ações psicológicas. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica. és a cintila Do Céu.Francisco Cândido Xavier . Nas células primevas da existência.Parnaso de Além-Túmulo Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: 94 . a alma da luz resplandecente. és muito mais. És mais. És um ser imortal e responsável. a energia Potencial que dá vida aos elementos. Movimentando células de argila. Apesar das verdades fisiológicas.

Parnaso de Além-Túmulo Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos.Francisco Cândido Xavier . Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos. Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias. Mas um mundo de deuses decaídos. Seus poemas de seres e universos. É do mundo o Od ignoto. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias. Estirpe das escórias planetárias. Faz-se mister que o cárcere a conclame. Glorificando o instinto e a inteligência. o éter divino. com o pensamento almo e insondável. Livro onde o Criador Inimitável Grava. Árvore genealógica de párias. Segregadas num mundo amargo e infame. 95 . Fez da Terra o brilhante gral da Ciência.

Parnaso de Além-Túmulo A subconsciência Há. 96 . Fora de toda a sensação nervosa. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências. luta e goza. a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas. impassível. Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame. em seus impulsos embrionários. De consumir as podridões de tudo.Francisco Cândido Xavier . atro e mudo. no estudo Do germe. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. Consciência de todas as consciências. horrendo e rudo. sim. Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários. No órgão morto. No labor anatômico. Nos seus medonhos ágapes mortuários. Que o neurônio oblitera por momentos.

Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular. A alma que é Vibração. 97 . Fim das forças do plasma agonizante. Do portentoso amor de Deus oriundos. Na ascendência de todos os destinos. Vida e Essência. Está nas luzes da sobrevivência.Francisco Cândido Xavier . fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço. Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar.Parnaso de Além-Túmulo No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas. Ou condição diversa da substância.. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. Desorganização molecular. Como o bolor e o mofo sob as heras. Que manifesta o espírito nos mundos. No transcendentalismo das esferas..

Parnaso de Além-Túmulo Sob o acervo das células taradas.Francisco Cândido Xavier . Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas. Feito à noite de enigma profundo!. E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas. Vive o homem da Terra adormecido. Pavorosos esgares de gemido. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria. de horror.. Entre as sombras das míseras estradas. 98 . de ânsia e de medo. Deixando corpos pelos cemitérios. alta. Homem da Terra! trágico segredo De miséria.. imortal.

E rasteja o dragão horrendo e informe. Nas vitórias fantásticas do verme. Trevas. Visões apocalípticas do mal. Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. Enquanto a desventura chora inerme. mísero e perverso. É o triunfo terrível do coveiro. amargo e morto. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas. Ossuários tremendos sob as flores. lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. Desenhadas por corvos vagabundos. 99 . Morre de frio e fel. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. filosófico ou sem nome. Quadros de sangue.Parnaso de Além-Túmulo Anjo da Sombra. O homem. Muralhas. Nas sombras Bombardeios. De mentira e veneno cerebrais. Canhões. A civilização do desconforto.Francisco Cândido Xavier . de sede e fome.

Tem a chave do Céu. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Ai de vós nos abismos da aflição. Para encontrar esse laboratório De beleza. Foi preciso “morrer” no campo inglório. verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta. Não encontrei a luz das forças vivas. Bem distante. vencendo o abismo!. Apesar de ingentíssimos labores. Mas só a Fé. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. 100 . de ânsia em ânsia. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio.. das causas positivas. Terror e morticínio. No turbilhão das sombras negativas. na estrada eterna e justa. O homem sôfrego e bruto. Homem-verme Desolação. Confissão Também eu..

7 Poesia recebida em 18 de junho de 1940. Por toda a parte. E onde sorveste o cálice amargoso. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas. Em quase tudo. Exaltando a vaidade sem substância. Aqui. onde foi sepultado o poeta. este solo generoso. escorre o sangue horrível. Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão. Nas maravilhas de seus resplendores. em Leopoldina. De lodo e lama. em sombra e vilipêndios. Proclama a vida além das catacumbas. o pântano terrível. Volta. Beija. do pó que envolve as tumbas. Augusto. que detestavas. Ao crepitar de rúbidos incêndios. Augusto. Ídolo podre sobre o esterquilínio. buscaste o campo de repouso.Francisco Cândido Xavier . Sobre a idéia cristã medrando em germe. .Parnaso de Além-Túmulo 101 É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância.

A Lei Em reflexões misérrimas. absorto. Ainda é Caim que impera sobre o mundo. Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo. Nos turbilhões fatídicos da guerra.. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor. Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! .Parnaso de Além-Túmulo Ajoelha-te e lembra o último abrigo. sobre o Calvário áspero e bruto. Em vão. Porque na luz dos círculos da Terra. Saturada de treva.. Sangrou Jesus em lágrimas divinas. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo. Feito de sânie e de cadaverinas. angústia e pena.. Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto. em ruínas. de pranto e luto.. 102 .Francisco Cândido Xavier .

Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários..Francisco Cândido Xavier . Enfrentando o pavor da mesma treva. A molécula morta desafia. e pensa.. Encontrarás teus gritos solitários.“ Mas.. uma voz da luz dos grandes mundos. Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios. Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta.Parnaso de Além-Túmulo Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento. Pára. Espera a mão da morte excelsa. Não insultes as leis universais. Desde o instante infeliz de Adão e Eva. Em conceitos sublimes e profundos. Cessa a miséria de teus raciocínios. 103 . O mistério da célula primeva..” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!. Se não tens coração que aceite a crença. amigo. Os impulsos dos sonhos embrionários.

Enquanto grita a turba ignara e injusta. embora o Direito. Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. que é sempre o tigre carniceiro. Entre prantos pungentes. Canhões. A construção dos séculos desaba. Multiplicando Herodes e Pilatos. 104 .Francisco Cândido Xavier . o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta.Parnaso de Além-Túmulo Que a carne volve ao pó. Pois. exangue e fria. A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. Apaga-se o milênio. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. Depois de vinte séculos ingratos. Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio. Correm de novo as lágrimas divinas. Trevas. o Livro e a Toga. A Civilização regressa à taba. Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta.

Francisco Cândido Xavier . Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. através da tempestade. acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue. Mas.Parnaso de Além-Túmulo Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio. Novo sol banha o pélago profundo. 105 . É Jesus que.

na Terra inda. Sofria. Rio Grande do Norte. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados. Finalmente. em Macaíba. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas. .Francisco Cândido Xavier . prefaciada por Olavo Bilac. teve uma terceira edição no Rio de Janeiro.Parnaso de Além-Túmulo 106 17 Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. muito místico. Horto. em dores. A segunda edição. em outubro de 1899. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. cuja primeira edição. que era irmã dos grandes sofredores. traz uma biografia da Autora por H. Castriano. sofredor. aos 24 anos. Almas feridas e dilaceradas. Espírito melancólico. E confiada na crença que tivera. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. Deixou um único livro. E eu. desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. feita em Paris. em Natal. portanto. em 1910. Via presas do pranto e da agonia. Almas dilaceradas Quando. em 1936.

tanta dor em demasia. Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura. Que o coração dormente. A alegria fulgente e estremecida. Tal desalento e tantas desventuras. que torna a alma florida. Aureolada de luz confortadora. Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. Somente a dor intérmina que mata 107 . Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida. Deve fugir das horas de repouso.Parnaso de Além-Túmulo Cheguei à luz da eterna primavera. Onde há paz para os pobres desgraçados. Sobrepujando instantes de alegria. E há também os reflexos da aurora De ventura. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata. a pleno gozo. porém.Francisco Cândido Xavier . Minorando as alheias amarguras. Há.

na própria Natureza. Sem as sombras da dor e da agonia. nevoentos. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores. a paz e a crença. a mágoa intensa Que rouba a luz. porém. serena e jubilosa. o amor..Parnaso de Além-Túmulo A alegria mais lúcida e mais pura. Que se extinguia em atros sofrimentos. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! 108 . Senti. E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo. Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos.Francisco Cândido Xavier . Então parti. Do meu viver sem luz.. sem flores. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. O veneno da acerba desventura Que fere em nós a aspiração mais grata. sem paz. A mesma dor que eu tanto padecia. Se apenas vi. minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora. porém. É que a dor da minhalma em tudo eu via.

Abrasada de amor eu viveria. Por teu amor.Parnaso de Além-Túmulo Em paz Tanto roguei a paz consoladora. eterna e derradeira!. Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais 109 . meu Jesus.Francisco Cândido Xavier . Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. Elevando a Jesus meus pensamentos. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. Durante os meus amargos sofrimentos. Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. Canto de luz dos páramos celestes. Jesus. Nessas paragens de deslumbramentos. Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado.. a vida inteira. ditosa agora.. Em paz serena. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Depois da treva espessa da amargura:
Para exaltar as luzes que me deste
Na cariciosa e doce paz celeste,
Meu tesouro de fúlgida ventura;
Para contar tua bondade imensa
Aos meus irmãos, os homens pecadores,
Mergulhados na noite da descrença,
Nos abismos dos males e das dores;
Para falar a todas as criaturas,
Da tua alma esplendente de bondade,
Afastando as amargas desventuras
Do coração da pobre Humanidade!
Aos teus pés, meu Jesus, a vida inteira,
Abrasada de amor eu viveria,
Sorvendo a luz no cálix da harmonia,
Em paz serena, eterna e derradeira!...

Mãe
Ó minha santa mãe! era bem certo
Que entre as preces maternas estendias
As tuas mãos sobre os meus tristes dias,
Quando na Terra – que era o meu deserto.
Nos instantes de dor, bem que eu sentia
As tuas asas de Anjo da Ternura,
Pairando sobre a minha desventura
Feita de prantos e melancolia.

110

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Flor ressequida eu era, e tu o orvalho
Que me nutria, pobre e empalecida;
Era a tua alma a luz da minha vida,
Meu tesouro, meu dúlcido agasalho!...
Ai de mim sem a tua alma bondosa,
Que me dava a promessa da esperança,
Raio de luz, de amor e de bonança,
Na escuridão da vida dolorosa.
E que felicidade doce e pura,
A que senti após a treva e a morte,
Findo o terror da minha negra sorte,
Quando vi teu sorriso de ventura!
Então, senti que as Mães são mensageiras
De Maria, Mãe de anjos e de flores,
E Mãe das nossas Mães cheias de amores,
Nossas meigas e eternas companheiras!...

Prece
Estendei vossa mão bondosa e pura,
Mãe querida dos fracos pecadores,
Aos corações dos pobres sofredores
Mergulhados nos prantos da amargura.
Derramai vossa luz, toda esplendores,
Da imensidade, da radiosa altura,
Da região ditosa da ventura,
Sobre a sombra dos cárceres das dores!

111

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes,
Mais amor, desse amor que já nos destes,
Queremos nós em cada novo dia;
Vós que mudais em flores os espinhos,
Transformai toda a treva dos caminhos
Em clarões refulgentes de alegria.

Adeus
O sino plange em terna suavidade,
No ambiente balsâmico da igreja;
Entre as naves, no altar, em tudo adeja
O perfume dos goivos da saudade.
Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;
E a alma que regressou do exílio beija
A luz que resplandece, que viceja,
Na catedral azul da imensidade.
“Adeus, Terra das minhas desventuras...
Adeus, amados meus...” – diz nas alturas
A alma liberta, o azul do céu singrando...
– Adeus... – choram as rosas desfolhadas,
– Adeus... – clamam as vozes desoladas
De quem ficou no exílio soluçando...

Almas
Ó solitário das estradas,

112

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Desventurado pensador,
Há no caminho “almas penadas”
Que vão clamando desoladas
A dor e o pranto, o pranto e a dor!...
Vós, que o silêncio amais no mundo,
Em orações ao pé do altar,
Sob as arcadas silenciosas,
Almas feridas, desditosas,
Oram convosco a soluçar.
Ao descansardes, meditando,
À sombra de árvores em flor,
Sabei que às vezes sois seguidos
Pelas angústias dos gemidos,
De almas chagadas no amargor.
Clareie a luz do sol-nascente,
Negreje a treva na amplidão,
Gemem na Terra muitos seres
Pelos amargos padeceres
Depois da morte, na aflição.
Dai-lhes dos vossos pensamentos
Consolação que adoce a dor,
Dai um conforto à desventura,
A prece cheia de ternura,
Algo de afeto, algo de amor!...

Almas de virgens
Andam sombras errando abandonadas

113

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ao pé das lousas e das covas frias,
Almas de pobres freiras desamadas,
Perambulando pelas sacristias.
Almas das que não foram desposadas,
Como bandos de rolas erradias,
Angélicas visões de bem-amadas,
Mortas na aurora rútila dos dias...
Virgens mortas! Tristíssimas oblatas
De um sacrário de luz piedoso e santo,
Que sonhais entre os tálamos celestes,
Entoai nos céus as tristes serenatas
Com as vossas roxas túnicas de pranto,
Cantando à luz do amor que não tivestes!..

Carta íntima
Escuta, meu irmão! Pelo caminho
Da miséria terrestre, há muitas dores;
Muito fel, muita sombra, muito espinho,
Entre falsos prazeres tentadores.
Há feridas que sangram... Há pavores
De órfãos sem lar, sem pão e sem carinho:
Confortemos os pobres sofredores,
Almas saudosas do Celeste Ninho!
Jesus há de sorrir com o teu sorriso,
Quando faças no mundo o bem preciso,
Pelo que sofre em desesperação.

114

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todo o bem que plantares nessa vida,
Há de esperar tua alma redimida
Nos caminhos de luz e redenção!

Maria
Toda a expressão de ternura
Do mundo de provação,
Nos Céus ditosos procura
A sua excelsa afeição.
Consolo das mães piedosas,
Cheias de mágoa e de pranto,
Sobre quem atira as rosas
Do seu Amor sacrossanto.
Ninguém diz, ninguém traduz
Essa visão da Harmonia,
Visão de paz e de luz,
Paz dos Céus! Ave-Maria!

Mensagem fraterna
Meu irmão: Tuas preces mais singelas
São ouvidas no espaço ilimitado,
Mas sei que às vezes choras, consternado,
Ao silêncio da força que interpelas.
Volve ao teu templo interno abandonado,
- A mais alta de todas as capelas –

115

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E as respostas mais lúcidas e belas
Hão de trazer-te alegre e deslumbrado.
Ouve o teu coração em cada prece.
Deus responde em ti mesmo e te esclarece
Com a força eterna da consolação;
Compreenderás a dor que te domina,
Sob a linguagem pura e peregrina
Da voz de Deus, em luz de redenção.

Vinde!
Todo anseio da crença acalma as dores,
Toda prece é uma luz para quem chora,
A oração é o caminho cor de aurora
Para o sonho dos pobres pecadores!...
Ó corações que a lágrima devora!
Vinde, através dos rudes amargores,
Cantar na luz dos grandes esplendores
Vossa iluminação de cada hora!...
Vinde rememorar no espaço infindo,
Neste Lar de Jesus, ditoso e lindo,
As desventuras para bendizê-las...
Feliz o coração sereno e forte,
Que triunfa da lágrima e da morte,
Palpitando na esfera das estrelas!...

116

. Ele chega.. E os próprios sofrimentos da impiedade São as bênçãos de luz do seu carinho. Traz às sombras da vida a claridade.Francisco Cândido Xavier . E percorre o silêncio do caminho. Haja sol.Parnaso de Além-Túmulo O Senhor vem. Como o Sol que dá vida sem alarde. E o amor se perpetua.. E eis que Ele chega sempre de mansinho. 117 . É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia. E protege a miséria mais sombria. Vem o Senhor que nunca chega tarde. faça frio ou tempestade.. Vem ao nosso amargoso torvelinho. Veste o manto do amor e da verdade.

Luminosas.Francisco Cândido Xavier . Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. Modeladas pela dor. município de Rio Bonito. eleitas. Vão todas. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881). E as almas puras. no Estado do Rio. Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas. no Rio de Janeiro.Parnaso de Além-Túmulo 118 18 B. 2 Uma campina de flores . a 19 de janeiro de 1859. Rosas de paz e de amor. falecendo em 1916. espaço em fora. rarefeitas. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes. Quais flores das primaveras. Como lírios cor da aurora. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança. Notabilizou-se no gênero descritivo. quando funcionário do Correio Geral.

Beija-lhe a filha inocente. Dos lábios de anjos formosos. E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. Mirando-a enternecida. Minúscula. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha 119 . a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida.Parnaso de Além-Túmulo Em pleno espaço infinito. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores.Francisco Cândido Xavier . Recebendo entre outros gozos. Cromos 1 Na alcova desguarnecida. Nesse batismo de luz. Sobre uma enxerga. O ósculo de Jesus. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. embevecida.

Vêem-se raios formosos.Parnaso de Além-Túmulo À santa lá do altar. ora. Cheio de lágrimas. Do clarão da sua fé.Francisco Cândido Xavier . Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. Dimanando luminosos. E pede. Ao seu Jesus bem-amado. O Jesus que ele não vê. implora Perdão para o seu pecado.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. suplica. 120 . E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa. Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado. E com esta minha promessa.

Que me desse um consolo a tantas dores. atribuindo-se a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. Olavo Bilac. um dia. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza. na rua Pedro Américo.Parnaso de Além-Túmulo 121 19 Batista Cepelos POETA paulista. soluço. Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores. 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento . ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. Desalentado e triste. clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés. original e simples. exalta-lhe o estro espontâneo. Corroído por chagas interiores.Francisco Cândido Xavier .. Com ansiedade e temores dos galés. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro. Encaminhei-me à porta da Agonia. pávida de medo. em 1915.. Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. desencarnou no Rio de Janeiro.

Quando terei os bens.. dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa. Tenebrosa. incompreendida. Onde o não-ser.Parnaso de Além-Túmulo Da minha dor imensa. sim! depois de tantos anos De tormentos. a paz calma e serena.. o brando afago Da Luz. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora. em meio aos desenganos. Cheia de tempestade e sofrimento.Francisco Cândido Xavier . rude. que está na dor depuradora. Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. Para beber no cálix da matéria 122 . Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável. Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora. Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento. No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida. essa noite indefinida. Agora. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo As essências das dores renegadas! 123 .

Que escreve o poeta morto. da qual foi um dos fundadores. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. o homem pensa. Encontrei paz e conforto Na vida. corre.Francisco Cândido Xavier . sobretudo. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. luta e morre Sem jamais o conhecer. 2 Com a ignorância proterva. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. e aí desencarnou em 1937. pela singeleza e espontaneidade da sua musa.Parnaso de Além-Túmulo 124 20 Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. Ansiosa atrás do prazer. Estou mais moço e mais forte. Eis as rimas de outro norte. notário público. Minas. Sonha e chora. comediógrafo e jornalista nato. Popularizou-se. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. . em Juiz de Fora. Iniciou-se na vida comercial e foi. depois. Poeta. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. Que a morte é o fim. 3 Quanta gente corre. depois da morte.

Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. 125 . Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. guarda A fé do teu coração. meu irmão. ao padecer. para quem sente. Ninguém se acaba com a morte. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. Inda é torre de Babel.Francisco Cândido Xavier . 6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. Não corras atrás da sorte. Mas. O segundo é o dogmatismo.Parnaso de Além-Túmulo Não há ninguém que se forre. 8 A Terra. Nas mágoas do mundo. Sobre a Terra. Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana. da morte ao sorvedouro. 7 Entre a fé e o fanatismo. 4 Fecha a bolsa da ambição. Tem coragem. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição.

9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má.Parnaso de Além-Túmulo Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. Que. Recorda que o mundo vão É grande necessitado. Basta. Com a bênção que Deus nos dá. Que a mulher siga a Maria. Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa. Vais procurar a ventura? 126 . na Terra sombria.Francisco Cândido Xavier . Quem é rico. Que o homem siga a Jesus. Corações de lodo e fel. É uma ventura ser pobre. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença. A essa estrada voltará. quem é nobre. em prol do Reino da Luz. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. Sem muita filosofia. 10 Na vida sempre supus.

. Não vivas correndo a esmo. 127 . Que símbolo sacrossanto!. A bonança É flor de sabedoria. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia. Toma posse de ti mesmo. Não perguntes ao passado Pela sombra. No curso de aquisições.. Esquece as inquietações. Eterna a fonte do amor. Acalma-te na aflição. O caminho é ilimitado. pela dor. Não prendas o coração Nos laços da fantasia. Quem desce é riso enganoso. Modera-te na alegria. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. Não te aflijas. Olha o monte luminoso. Atapetados de espinhos.Parnaso de Além-Túmulo Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura. Quem sobe é suor e pranto.Francisco Cândido Xavier . Muita fronte encanecida É fronte de criançola.

Francisco Cândido Xavier . Alegre como ninguém. Todo esforço com Jesus É vida na eternidade. 5 É ditosa no caminho. Age sempre com bondade. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória. Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória. 3 Dinheiro do mundo vão. Mentiras da vaidade. A mão terna do carinho 128 . Não trazem ao coração A luz da felicidade.Parnaso de Além-Túmulo No impulso que te conduz. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários. Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários. Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa.

129 . derrotas.Parnaso de Além-Túmulo Que vive espalhando o bem. Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo.Francisco Cândido Xavier . 6 Angústias. Tudo isso tenho visto. danos.

Diretor da Biblioteca Nacional e jornalista de mérito.. À Virgem Vós sois no mundo a estrela da esperança. Consolação e paz dos desterrados Do venturoso aprisco das ovelhas De Jesus-Cristo. E. publicou-lhe a biografia.. ainda hoje se manifesta. de 1937 (página 494). Providência dos fracos pecadores. o Filho muito amado! Fanal radioso aos pobres degredados. . em 19 de fevereiro de 1834. verdadeiro poema em prosa.Francisco Cândido Xavier . desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1895. A custódia das almas sofredoras. Anjo guiador dos homens desgarrados Do Evangelho de luz do Filho vosso. Mas. é que Bittencourt Sampaio foi. deputado por sua província em duas legislaturas e Presidente do Espírito Santo. aponta Poesias (1859) e Flores Silvestres (1860). A fonte de onde respigamos estes dados. Virgem formosa e pura da bondade. que é A Divina Epopéia. em magníficos versos brancos. no último quartel da vida terrena. por dar-nos obras como Jesus perante a Cristandade. Foi político ativo. Reformador. A salvação dos náufragos da vida. como tal.Parnaso de Além-Túmulo 130 21 Bittencourt Sampaio SERGIPANO. um dos mais brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita. tais como estes. nascido na cidade de Laranjeiras. mas omite a maior das suas obras. ou seja o Evangelho de João.

. Clarão que sobre as trevas da cegueira Expulsa a escuridão das consciências! Virgem da piedade e da pureza. Cegos desventurados.. Espíritos na treva das angústias. eterno e puro! Dulcificai as mágoas que laceram 131 . Dai fortaleza àqueles que fraquejam. Mergulhados nas tredas tempestades Do mal. No tenebroso báratro das dores. Apiedai-vos dos frágeis caminhantes.Francisco Cândido Xavier . Clareai as sendas obscurecidas Dos que se vão nos pântanos dos vícios!. Existem almas míseras que choram Amarradas ao potro das torturas. Fugitivos da luz que os esclarece! Anjo da caridade e da virtude. que padece. caminhando Em busca de outras noites mais escuras. Enxugai-lhes as lágrimas penosas! Virgem imaculada de ternura..Parnaso de Além-Túmulo Astro de amor na noite dos abismos.. Abençoai os mansos e os humildes Que acima de ouropéis enganadores Põem o amor de Jesus. Fortalecei a fé dos vacilantes. Estendei vossos braços tutelares À Humanidade inteira. Legião de penitentes voluntários. E corações farpeados de amarguras. Estendei vossas asas luminosas Sobre tanta miséria e tantos prantos. que lhes ensombra a mente e a vista. Afastados do amor e da verdade. Iluminai os cérebros descrentes.

Virgem pura. Atendei nossas súplicas.. 132 .Parnaso de Além-Túmulo Pobres almas aflitas na voragem Das provações mais rudes e amargosas. repartido Entre os esfomeados e os sedentos De paz.. O pão miraculoso... Derramai sobre nós o eflúvio santo Do vosso amor. piedosa Virgem de bondade. Senhora. que os acalente e os conforte! Virgem.Francisco Cândido Xavier . o vosso manto Constelado de todas as virtudes.. Vinde a nós! nossas almas vos esperam.. doce e bondosa. na vossa alma divina! Vinde! . Conforto às almas tristes deste mundo. Almas de filhos míseros que sofrem. Porto de segurança aos viajantes. Clarão de sol nas trevas mais espessas. que ampara e que redime. concedendo Claridades a estradas pedregosas.. Ele será a luz resplandecente Sobre a miséria dos padecimentos. dai-nos mais força e mais coragem. Estendei.. Vinde.. Vinde a nós que na luta fraquejamos.. Cremos em vós. anjo de amor. Providência da pobre Humanidade!. Ajudai-nos a fim de que a vençamos.. Afastando amarguras. Farol brilhante iluminando os trilhos De todos os viajores que caminham Pela mão de Jesus. Sobre a nudez de tantos sofrimentos Que despedaçam almas exiladas No orbe da expiação que regenera.. Mãe de Jesus.

A Rainha dos Anjos. Implorando a piedade. Ouvi dos Céus. Que campeia nas sendas espinhosas.Parnaso de Além-Túmulo A Maria Eis-nos. reunida.. Senhora. Com o bálsamo da crença que promana Das luzes da bondade esclarecida. Estende os braços para a desventura.Francisco Cândido Xavier . Ela conhece as lágrimas penosas E recebe a oração da alma insegura. Fortalecei-nos a alma dolorida Na redenção da iniqüidade humana. Que a nossa caravana da Verdade Colabore no Bem da Humanidade. Providência de todos os aflitos. De vossa caridade soberana. a pobre caravana Em fervorosas súplicas. a paz e a vida. 133 . meiga e pura. Nossas sinceras preces ao Senhor. Inundando de amor e de ternura As feridas cruéis e dolorosas.. Neste banquete místico do amor. Às filhas da Terra Do Seu trono de luzes e de rosas. ditosos e infinitos.

mãe bendita. Mãe de todas as mães infortunadas. A alegria do reino de Seu Filho! À Virgem Do teu trono de róseas alvoradas. em vossas próprias almas. No turbilhão dos homens e das coisas.. Anjo consolador dos desterrados. as lágrimas da guerra E os quadros de amargor. mães. 134 . Ao teu olhar.. Não conserveis do mundo o brilho e as palmas.Francisco Cândido Xavier . irmãs. as mãos radiosas Sobre a angústia das sendas escabrosas Onde choram as mães atormentadas. E encontrareis. Estende. Conforta os corações encarcerados Nas algemas do mundo amargo e aflito.Parnaso de Além-Túmulo Filhas da Terra. São caminhos de luz para o Infinito. que andam na Terra. Imitai-a na dor do vosso trilho!. Com tua alma de unos e de rosas. Mitiga a dor das almas desditosas Entre as sombras de míseras estradas. esposas.

. Saudava alvoroçado O segredo da noite e a luz clara do dia. a alma rubra e inquieta. Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava serem os seus versos de origem mediúnica. Em fúria iconoclasta.. Em meu engano. A pomba predileta Do prazer. Minha luz Eu era.. em minha fantasia: Primeiramente. em 1902. Glorificou o Amor.Parnaso de Além-Túmulo 135 22 Cármen Cinira NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu no Rio de Janeiro. Foste. Grinalda de Violetas. o Sacrifício e a Humildade. da ilusão e da alegria. a Renúncia. alegre cotovia.. Sensibilidade. Quando chegaste de mansinho. Pisando sutilmente o meu caminho. A um dos belos tesouros que eu possuía E mo roubaste para sempre. e faleceu em 30 de agosto de 1933.. austera e inclemente. despreocupada. Dor.. em obras como: Crisálida. . Meu coração. E eu te enxerguei. Como o simum que arrasta As cidades repletas de tesouros Confundindo-as no pó.Francisco Cândido Xavier .

Na tua obra silente e solitária. Minhas bonecas de biscuí. Meus cofres de alabastros. por te querer.. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios.. 136 . Destruindo-os sem dó. Porque representaste em meu destino. E quebraste Minhas cítaras de ouro. Encheste a minha vida De um estupendo prazer.Parnaso de Além-Túmulo Foste aos meus ídolos mais caros.Francisco Cândido Xavier . Minhas estatuetas singulares. Tudo sofri. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo. ó divina estatuária.. Meus mármores de Paros. Foste a sombra divina Que acompanhou meus passos ao sepulcro. Prosseguiste.. Ó Dor. desde que chegaste. Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. E humilhaste Meus sonhos de mulher e de menina. Que eu pusera nos astros Em meio às melodias estelares! Mas. ó Dor depuradora.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

De alma sofredora,
O fanal peregrino
Que me guiou constantemente
Através das estradas espinhosas
Para as manhãs radiosas
Da Luz Resplandecente...
Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa,
Pois da volúpia estranha dos teus braços,
Vim pelas mãos da morte complacente
Para a vida sublime dos Espaços!...

Aos Espíritos consoladores
Donde éreis vós, ó formas imprecisas
De arcanjos tutelares,
Cujas vozes suaves como brisas
Trouxeram-me nas dores,
No auge do meu sofrer, nos meus penares,
A irradiação de brando refrigério!...
Frontes aureoladas de esplendores,
Seres cheios de amor e de mistério,
Cujas mãos compassivas
Ungiram meu coração resignado
Com o bálsamo do olvido do passado,
E com os místicos olores
Das meigas sempre-vivas
Da fé mais luminosa e mais ardente...
Seríeis o fantasma imaginário
Da mórbida exaltação d'alma do crente?

137

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Não, porque sois os cireneus piedosos
Dos que vão em demanda do Calvário
Da Redenção, nos sofrimentos rudes;
Vindes das mais remotas altitudes
De sublimados mundos luminosos!...
Seres do Amor, jamais traduziria
O cântico de luz
Que trouxestes ao leito da agonia
Que eu transpus,
Cheia de desenganos e gemidos!...
Verto ainda os meus prantos comovidos
Lembrando-me do vosso Stradivárius,
Repetindo as cadências dos hinários
Dos orbes da Ventura e da Harmonia,
Onde habitais, glorificando o Amor
Que d'alma faz um ninho de alegria
E um foco de esplendor!
Em que sol deslumbrante, em qual esfera
Viveis a vossa eterna primavera?
Ó irmãos consoladores,
Que vindes confortar os pecadores
Penitentes da vida transitória,
Dai-me um pouco de luz da vossa glória,
Estendei-me uma única migalha
Da vossa paz, que nutre e que agasalha
Os corações iguais ao meu!...
Tenho sede do amor que enfeita o Céu!
Espíritos da luz radiosa e infinda,
Minhalma é fraca e pobre ainda;

138

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todavia, imortal,
Quero ter dessa luz resplandecente,
E quero embriagar-me inteiramente
Com os vinhos da alegria celestial.

Cigarra morta
Chamam-me agora aí
Cigarra morta,
E não podia haver melhor definição,
Porque caí estonteada à porta
Do castelo em ruínas,
Do desencanto e da desilusão!...
Minhas futilidades pequeninas...
Meus grandes desenganos...
Eu mesma inda não sei
Se é ventura morrer na flor dos anos...
Sei apenas que choro
O tempo que perdi,
Cantando em demasia a carne inutilmente;
E vivo aqui, somente,
De quanto idealizei
De belo, de perfeito, grande e santo,
Que inda hei de realizar
Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.
Dá-me força, Senhor,
Para concretizar meu anseio de amor:
Evita-me a saudade
Da minha improdutiva mocidade!

139

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Eu não quero sentir,
Como cigarra que era,
A falta das canículas doiradas
Sob a luz de ridente primavera.
Já que tombei cansada de cantar,
Calando amargamente,
Perdoa, Deus de Amor, o meu pecado:
Que eu olvide a cigarra do passado,
Para ser uma abelha previdente.

Era uma vez...
Era uma vez Cármen Cinira, Um coração
Cheio de sonho e flor, que mal se abrira
Nos jardins encantados da ilusão...
Estraçalhou-se para sempre
Na voragem
Das trevas, dos abrolhos!...
Era uma vez Cármen Cinira...
Uma suposta imagem
Da perene alegria,
Mas que trouxe em seus olhos,
Eternamente,
Essa amarga expressão de alma doente,
Cheia de pranto e de melancolia!...
Cármen Cinira! Cármen Cinira!
Que é da minha cigarra cantadeira?
Embalde te procuro.
Por que cantaste assim a vida inteira,
Cigarra distraída do futuro?

140

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Perturbada,
Aturdida,
Busco a mim mesma aqui nestoutra vida...
Onde estou, onde estou?
Minha vida terrena se acabou
E sinto outra existência revelada!
Não sei por que me sinto amargurada...
Sinto que a luz me guia
Para a paz, para um mundo de alegria.
Mas, ó imortalidade
Se na Terra eu te via
Como a aurora divina da verdade,
Não julguei que inda a morte me abriria
Esse cenário deslumbrante
De outros sóis e de outros seres,
E vejo agora
Que não amei bastante,
E não cumpri à risca os meus deveres!
A fagulha de crença
Que eu possuía,
Devia transformar numa fornalha imensa
De fé consoladora,
E incendiar-me para ser luzeiro.
Mas, ó Senhor da paz confortadora,
Eu vi chegar o dia derradeiro
Em minha dor, na máscara de festa,
E a morte me apanhou
Como se apanha uma ave na floresta.
Experimento a grande liberdade!
Todavia, Senhor, ampara-me e protege

141

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Minha triste humildade!
Eu te agradeço a paz que já me deste,
Mas eis que ainda te imploro comovida,
Porque me sinto em fraca segurança;
Deixa que eu guarde ainda nesta vida
Meu escrínio de estrelas da Esperança.

À Juventude
Juventude linda e ardente,
Mocidade querida que eu exorto,
Meu coração de carne, esse está morto,
Mas minha alma que é eterna está presente.
Zelai pelo plantio, ó juventude,
Das flores perfumadas da virtude,
Porque depois dos sonhos terminados
Em nossos ermos e últimos caminhos,
Ai! como nos ferem os espinhos
Das belas rosas rubras dos pecados!

O viajor e a Fé
– “Donde vens, viajor triste e cansado?”
– “Venho da terra estéril da ilusão.”
– “Que trazes?”
– “A miséria do pecado,
De alma ferida e morto o coração.
Ah! quem me dera a bênção da esperança,
Quem me dera consolo à desventura!”

142

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Mas a fé generosa, humilde e mansa,
Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura:
– “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos,
Que esclarece e conforta os sofredores!...
Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos,
Mas com Jesus um espinho tem mil flores!”

O sinal
Quando chegamos do País do Gozo,
Nossa alma sem repouso
Traz o sinal das trevas do pecado.
Nossa alegria é um riso envenenado.
A palavra disfarça o coração
E a nossa dor é desesperação.
Tudo é sombra. A verdade não tem voz.
Muita vez, tudo é queda dentro em nós.
Mas os que vêm do Mundo dos Deveres
Guardam a luz de místicos prazeres.
Não têm palmas da Terra impenitente...
Como tudo, porém, é diferente!...
Sua alegria é um fruto adocicado,
Sua palavra é um livro iluminado,
Sua dor alivia as outras dores.
Trazem o amor de todos os amores,
Revelando na vida transitória
O sinal do Calvário aberto em glória!

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.. Une-se o noivo à noiva bem-amada. de novo. Sem a graça de um pão. Beija o filho a mãezinha idolatrada.. A estrela de Belém volta. em vagas de perfume. cristalinos. Sob claro dossel. lá fora. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! 144 . De esperança e de mel. Ralado de tortura e sofrimento. A brilhar. Ao pé da multidão. Em festiva oração.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos.. Cantando a excelsitude do Natal!. Doces. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia. O irmão abraça o irmão. Nascem canções e flores de mansinho. em plena rua. Dentro da noite. Em édenes fechados de carinho.. Há quem contempla o céu maravilhoso.. a tristeza continua. Sob a crença imortal. ante os júbilos do povo. Mas. Há quem clama piedade e passa ao vento. há corações ao lume E há sempre um bolo. harmoniosos. Há quem chora sozinho.

Tu. Que só pede um sorriso brando à porta. de viagem. Há muita crença enferma. Para tornar à luz. 145 . Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós. Que não podem sorrir. quase morta. Vem amparar os filhos da amargura. Que segue. Do Rei que se humilhou na manjedoura Para amar e servir. fraternalmente.Francisco Cândido Xavier ... Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus. que aceitaste a luz renovadora. Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. Volve o olhar compassivo à senda escura.. Temperado de amor.. Vem medicar quem geme na calçada!. Prossegue o Mestre. aflita..Parnaso de Além-Túmulo Ah! como é triste a imensa caravana. Para unir-nos no Amor.. Natal!. Oferece à criança abandonada Um velho cobertor. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria.

Por não achar socorro..Francisco Cândido Xavier .. em vão!. nem pousada Em nosso coração. E encontra sempre a cruz. ao fim da estrada. 146 .Parnaso de Além-Túmulo Em vão buscando um quarto de estalagem. Um ninho pobre.

Fugi do pesar profundo. Pobre. ao demais espírita confesso. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. Há. Mal. Nas radiantes alturas. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. na sua existência terrena. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. Compreendi que os abrolhos . Em célico resplendor. uma triste particularidade a assinalar. Lamentando os sofrimentos. Do azul imenso dos céus. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade. por acidente. apenas freqüentou escolas primárias. os desalentos.Francisco Cândido Xavier . Confiado no amor de Deus. porém. abrira os olhos Em meio de luzes puras. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo. para de todo cegar da outra aos 16. A alma ansiosa da Verdade. Se tivesse tido maior cultura. Órfão de pai aos 7 anos. mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários.Parnaso de Além-Túmulo 147 23 Casimiro Cunha POETA vassourense. As mágoas.

Encontram nestas moradas Tão formosas. O aroma da Caridade Perfumando os corações. Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. Provocando maldições. 148 . Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. Aqueles que já sofreram No dever nobilitante.Parnaso de Além-Túmulo Que a Terra me oferecera.Francisco Cândido Xavier . resplendentes. Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores. Que mata toda a alegria. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia. Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza. A meiga flor da Bondade.

Alvos.Francisco Cândido Xavier . ó vivente. Os reflexos divinos Quais lírios iluminados. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura. belos. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. Nesta esfera iluminada. Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. Luminosas. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora.Parnaso de Além-Túmulo Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas. pois. Que aportais neste momento. Pois agora na ventura Fruireis consolações. 149 . Contemplai-vos nesta vida. O Senhor sempre clemente. deificados. Penetrarão sua mente. Não vereis o sofrimento Retalhando os corações. Acordai. Arauto do Onipotente. sempre lindas.

Venturoso. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade. Que renegar eu tentara Como os míseros ateus. pois.Francisco Cândido Xavier . Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. E feliz então busquei As bênçãos. O grande Mestre do Amor!” Então. O Mestre da Caridade. abençoei A dor que amaldiçoara. a Jesus. 150 . Na tremenda tempestade Das dores e expiações. Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos. Tão longe das grandes luzes. flores brilhantes. Só aproveita das cruzes. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. A nossa alma que erra. Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei. O Luzeiro da Bondade.Parnaso de Além-Túmulo Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. Das amargas provações.

Alegrai-vos. Os prantos. E os vossos filhinhos ternos. Insuflando-vos coragem. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal.Parnaso de Além-Túmulo Deixando-vos sem conforto. Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. Osculam-vos ternamente. Quais centelhas luminosas. ao verdes 151 . os amargores. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal. Em meio das luzes puras. As frias noites sem luz. São mensageiros felizes Nas radiantes alturas. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus. O coração desolado.Francisco Cândido Xavier . O peito dilacerado. A alma tristonha e exul. Visitam os vossos lares Como gênios protetores. De outras rútilas esferas. pois.

Como sorrisos dos Céus. Ascensão Perguntai à flor virente. Eles farão despertar As alvoradas formosas. Venturosos. O que fazem cá no mundo. Como fúlgidos clarões. Tão viçosas. Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente.Parnaso de Além-Túmulo Quando partem sorridentes. perfumadas. De pétalas multicores. inocentes. De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. Ela vos retrucaria: 152 . Se perguntásseis também. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo.Francisco Cândido Xavier . Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza.

Entre lírios. Segui pois. E no Bem conquistaremos A suprema perfeição. A alvorada rutilante Da sublime perfeição. Consolando a desventura.“Caminhamos na alegria. Caminhai sempre serenos. em ascensão. Para a Luz e para o Bem. Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura. Só assim caminharemos Nessa eterna evolução. 153 . Nessas trilhas luminosas.” Tudo pois. Entre os lírios da Bondade. entre rosas.Parnaso de Além-Túmulo . irmãos terrenos.Francisco Cândido Xavier . Entre as rosas da Ternura. E ver depois a luz Da aurora de ventura. Marcha ao progresso incessante. Espargindo a caridade. Chorar na escuridão Em dores mergulhado.

154 .Parnaso de Além-Túmulo E após o sofrimento Ter gozo ilimitado.Francisco Cândido Xavier . Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões. A caridade é o amor. buscar o amor Nas lúcidas alturas. Alva estrela resplendente. de vida e luz. Reluzente. Que nos eleva até Deus. A esperança é flor virente. É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo. Sorver dentro da treva O fel das amarguras. Depois. Supremacia da Caridade A fé é a força potente Que desponta na alma crente. redentora. É possuir tesouros De paz. Que ilumina os corações. Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora. No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus.

peregrino. Refulgente. Sepultado. Nada empana o seu fulgor. Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor. Que irrompe. Desterrado. Seja.Francisco Cândido Xavier . abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora. pois. 155 . trazendo a luz. A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora.Parnaso de Além-Túmulo Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume. Versos Vivi na mansão das sombras. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. Na noite das trevas densas.

delicado. belo. 156 . Onde as luzes recebemos Da Verdade. É que a vida material É a prisão.Parnaso de Além-Túmulo Entrei no sepulcro escuro. Alvo. Morrendo. Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. E a vida da alma é a nossa Liberdade. Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. Onde a alma é encarcerada Na aflição. Nascendo.Francisco Cândido Xavier . E dele fugi feliz. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo. Perfumando a luz do dia. Pode existir a bondade Irradiando clarões. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações.

É realizada no mundo Da eterna felicidade. Mas aquela que te foge É dona da tua vida. 157 . A palavra que reténs É tua serva querida. Que vive com a caridade.. Cheia de viço e frescor..Francisco Cândido Xavier . Toda a esperança da fé. É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato. É a flor cheia de aromas. Sem saber que o desespero É porta para outra dor. Porque não sabem que a morte É a nossa libertação. Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados. Com mágoa e desolação. Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor.Parnaso de Além-Túmulo E o coração que cultiva A caridade e o amor. sem luz.

O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores 158 . Medrando no coração. sem naufragar. Quem tem a flor da humildade. depois da amargura Que a vida terrena traz. nasce a flor.Parnaso de Além-Túmulo Quem sofre resignado. Volve ao Céu todo piedoso. A alma encontra na Altura A luz. Verá decerto a bonança. surge a alegria Dourando a manhã do Amor. a ventura e a paz. Após a morte descansa Quem luta. Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. Vai a dor. volta o dia. Sombra e luz Vem a noite. Coração que andas ferido!. Cresce o broto. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido.Francisco Cândido Xavier . Assim.

da plenitude. 159 . A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor. O gozo é o próprio martírio. Esperando uma outra vida Noutros planos. noutro mundo. linda.Francisco Cândido Xavier . Que na noite de amarguras As almas vem despertar. Que a alegria da Virtude Faz.. portanto. É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade. A morte é a deusa celeste Da vida.Parnaso de Além-Túmulo E somente frias dores No mundo ingrato colheu. O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo. desabrochar. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus. de verdade e luz: Sem paradoxo..

Continuando graciosas A tapetar as estradas. De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. humilde: – “Mais tarde. Serás o sósia da Fé.Francisco Cândido Xavier . Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas. seculares.” Ao que ela replica. pois não é. Andarás ao lado meu. Ciência amiga. Mas se não for. a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos. Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva. dormiremos.Parnaso de Além-Túmulo E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas. Caem copas opulentas. Venerandos. 160 . filho. Se for sono.

Mas..Parnaso de Além-Túmulo Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor.Francisco Cândido Xavier . como esta flor: Chore o homem.. Não caem. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos. 161 . Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade. Palmilha a estrada do amor.. Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor.. poderosos: Arcas repletas de ouro. Sê. Flores silvestres!. filho. Imagem Dos bons e dos pequeninos. E frontes ébrias de gozos. grite o mundo. Na selva da vida humana Caem grandes. os humildes da Terra. Nos dias mais tormentosos. Dentro da fé que os conduz. Flores silvestres da vida. São refletores Da bondade de Jesus.

Parnaso de Além-Túmulo 162 Ao meu caro Quintão 8 Quintão. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor. Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos. Vida de encantos divinos 8 Esta poesia singela e. . Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século.. Vassouras!. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. Dos nossos dias passados. doces carinhos. que o médium não podia conhecer. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos. Que tão distantes se vão. por assim dizer. intimamente pessoal. Carlota é o nome da esposa do poeta cego. também cegada de uma vista.Francisco Cândido Xavier . belas paisagens Cheias de vida e de cor. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia. A ermida branca e suave De ternos. atento mesmo a sua banalidade. por acidente. depois de casada. eu sei da saudade Que te aperta o coração..

Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus.Francisco Cândido Xavier . no “O Pais”. Ah! Quintão. O raio de claridade Da noite da minha vida. A companheira querida.Parnaso de Além-Túmulo Que eu via com os olhos d'alma. A tua doce amizade A luz do Consolador. O mestre da Velha Guarda. 163 . A minha pobre Carlota. Teu coração generoso De amigo. irmão e mentor. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor. “Aves implumes” da dor. Se pelas luzes dos Céus. Meus pobres versos – “Singelos”. hoje os meus olhos Embebedam-se de luz. Se pelas sombras da Terra. Unida. forte e feliz. Os artigos do Bezerra De outros tempos.

Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola. E o Mestre Amado é Jesus. O chamamento sublime Da Vida Espiritual.Francisco Cândido Xavier . divina e forte. 164 .Parnaso de Além-Túmulo Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa. É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal. Que clareia toda a vida E ilumina além da morte. Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança. É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia. Se buscas o Espiritismo. É uma fonte generosa De compreensão compassiva. Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança.

O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados.Parnaso de Além-Túmulo Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. Verdade é que o coração. Há sempre muitos chamados. Portanto. é nossa divisa Oração e Vigilância. e ação. No Evangelho de Jesus.Francisco Cândido Xavier . Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo. Que abrace a nossa Doutrina. A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo. a ganga. ao cair. Escolhidos? muito poucos. 165 . No bem que é bem substância Da crença que diviniza. o véu. Muita vez a água do céu Torna-se em lama. Necessário é discernir A mistura. luta. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão. Penetra numa oficina De esforço.

– Eis meu desejo de irmão. 166 .Francisco Cândido Xavier . Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo.Parnaso de Além-Túmulo Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz.

.Francisco Cândido Xavier . A infância. No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. no então município de Barra de São João. um lago tranqüilo Onde começa a existência. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico. A mocidade era um hino De melodias suaves. À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. acometido de tuberculose pulmonar. com 21 anos de idade. Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor.Parnaso de Além-Túmulo 167 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. Figura literária das mais típicas do seu tempo. na Fazenda de Indaiaçu. sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho. hoje denominado Casimiro de Abreu. Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril. desencarnou aos 18 de outubro de 1860. Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor.

Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. Igual a um canto sublime. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos. E na paisagem querida. Na tarde e no amanhecer. De ternura e de saudade. De tristeza e de prazer. O pensamento sonhando E o coração a cantar. Do verde da Natureza. Numa canção de alvorada. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos. Na delicada harmonia Que nascia da beleza.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo O dia. A noite toda estrelada Após o doce arrebol. 168 . As carícias. Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma. Constantemente cismando. Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. manhã ridente.

Descalço. Onde rugem tempestades. Quando eu cruzava as campinas.Parnaso de Além-Túmulo Da melodia das fontes. Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida. Se há tristezas. Sem sombras de sofrimento. com o peito ao vento. Amargura e dissabor. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos. 169 . A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra. Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo. As frondes cheias de amora. Recortada de palmeiras. O manto de luz da aurora. As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além.Francisco Cândido Xavier . Também há dias dourados De sol e de melodias. se há saudades.

A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores. Perfumando as pradarias 170 . E trovadores alados. Retumba pelas montanhas. Os sonhos da mocidade. Ecoa de Norte a Sul. Um paraíso de amores. namorados. Heróis ternos. Gargantas de ouro a cantar. Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. Onde há reis que são poetas. Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. As galas da Natureza. Jardim de risos e flores Rolando no céu azul.Parnaso de Além-Túmulo Esperanças e alegrias. Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor.Francisco Cândido Xavier . Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. Que se beijam luzidias.

. 171 . Desabrochando às centenas.. Quem vive num éden desses.. Oferecendo-lhe graça. Os astros o Sol-nascente. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas. De aromas.Francisco Cândido Xavier . Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar. Na estrada onde o homem passa. O dia todo é alvorada De doces encantamentos. O prado perfuma os céus!. Se há noite escura na Terra.. Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças. De triste e rude carpir.Parnaso de Além-Túmulo Com seu hálito de amor. deslumbramentos Da Lua. O Sol o prado ridente. cheias de olor. É sempre risonho e forte. De lágrimas e amargores. Sorrindo. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar. risos e flores. De áureos sonhos no porvir!. Também há dias dourados De juventude e esplendores. A noite. Abarrotada de dores.

Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. Moreninha. Lavando a roupa às braçadas. Os primorosos cabelos Enfeitados. Revejo-te. Moreninha. Moreninha. 172 . Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha. Moreninha. Teus lindos pés descalçados. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros.Francisco Cândido Xavier . Moreninha. De miosótis singelos. De negras e longas tranças. trigueirinha. Moreninha. à tardinha. Rainha da Natureza.Parnaso de Além-Túmulo Lembranças No sacrário das lembranças. Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados. De olhar sedutor e insonte.

O nosso idílio encantado. Sob as mangueiras copadas. De rosas estampadinha. Sob o luar prateado. Nos bandos de namorados. Fitando a luz do sol-posto. Moreninha. O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. Fazendo-te mais bonita. A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha. Moreninha. A tua oração ditosa. 173 . Os teus risos adorados.Francisco Cândido Xavier . O vestidinho de chita. Nas missas da capelinha.Parnaso de Além-Túmulo Nos fios d’água fresquinha. Moreninha. Moreninha. Enchendo a nave de odores. Moreninha. Desferidos à noitinha. Quando te achavas sozinha. Tão faceira! tão formosa! Moreninha. Moreninha.

Moreninha. deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. doce rainha. Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!.. Recordando Meu Deus. quem me dera Rever-te.Francisco Cândido Xavier . de paixão.Parnaso de Além-Túmulo Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade. Rainha da Primavera. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Ah! que eu possa hoje olvidar 174 . Moreninha. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci. Daquela risonha aurora Do meu passado viver. Ai! Ai! meu Deus. Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa.. Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora.

o mar.Francisco Cândido Xavier . Ouvir a voz da amplidão! Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores. Minha terra. e amar A campina. Que esperança. E contemple as primaveras Da vida que já deixei. Sentar-me no prado agreste. Na fresca sombra dos vales. Que das ruínas. que ventura! Viver. dos escombros. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis. 175 . Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei. Beijar as flores singelas.Parnaso de Além-Túmulo Imensidades. meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. Meus sonhos encantadores. Enchendo as longes devesas. Minhalma retire as heras. o Sol. sofrer. De convites à oração. Mirar a luz das estrelas. esferas. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores.

Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível.Parnaso de Além-Túmulo Campos verdes. Oh! Natureza da Terra. Que tesouros não exalas.. Da existência transcorrida Guardada no coração. Verto prantos de saudade A luz da recordação.Francisco Cândido Xavier . Na excelsa Imortalidade. Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando. Da alvorada e do arrebol. 176 .. Revendo essa claridade. E dos cimos desta vida. céus azuis Ser homem e ser criança.

E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor. É a luta eterna e bendita. Oficina onde a alma presa Forja a luz. Múltiplas vidas vivemos. . com 24 anos de idade. Sedentos de paz e amor. Para à mesma luz volver. desencarnou a 6 de julho de 1871. Mocidade radiosa.Francisco Cândido Xavier . Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos. forja a grandeza Da sublime perfeição. o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções.Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. Em que o Espírito se agita Na trama da evolução. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América. Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade.

o malho. terna. 178 . Dos algozes. Pleno de seiva e verdor. Pelas fainas do trabalho. Cai ao solo fecundando O chão duro que produz. Anjos puríssimos faz. O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. Tudo evolui. A enxada fazendo o pão. dos tiranos.Parnaso de Além-Túmulo É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo.Francisco Cândido Xavier . Em Carraras de eleição. tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. esplendor. Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. Nas madrugadas de luz. Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes. A vida é luz. Em mensageiros de paz. mais galgar. É a dor que através dos anos. O fragmento do estrume. expirando. É a rija bigorna. A flor que.

Parnaso de Além-Túmulo Deus somente é o seu amor. É César trazendo a luta. O Universo é o seu altar. Oh! bendito quem ensina. Em reflexos perenais. Tirânico e lutador. A ensinar catequizando O selvagem infeliz. É o sofrimento do Cristo. O grande conquistador. É Cellini com sua arte. jamais visto. 179 . E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz. É Anchieta dominando. No sacrifício da cruz. Suas rútilas passagens Deixam fulgores. Sintetizando a piedade. É Sócrates e a cicuta. às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais.Francisco Cândido Xavier . Quem luta. quem ilumina. É a lição da humildade. De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis. Na Terra. imagens. Portentoso. Ou o sabre de Bonaparte.

Sou morte – origem da vida. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes. O fiel desconhecido. “Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade. No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou. “Tende fé.Parnaso de Além-Túmulo Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia. Uma excelsa voz ressoa.Francisco Cândido Xavier . Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida. Nas sendas do progredir. Sou balança do destino. Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! 180 . Prêmio ou gládio vingador. tende esperança.

O manto das trevas densas. Meu sonho é a evolução. Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. sobre as descrenças.Parnaso de Além-Túmulo Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. sou compensação. ouve-me. Sepultura do presente. Que trazem os sofredores No jugo da escravidão. E sobre a crença o esplendor. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz. Homem. Do porvir sou plenitude. Meu braço – a revolução. Meu verbo é a lei da Justiça. Sou águia libertadora Que abre. 181 . E por trabalhar com Deus. Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. se às vezes Simbolizo a guilhotina. Na absoluta eqüidade. Austerlitz e Waterloo. Aos bons. Consolo e alívio aos precitos.Francisco Cândido Xavier . E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou.

Estrela – estendo-te lume. E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito. Foi assim que fiz um dia. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir.. Nova aurora ou nova cruz.. Flor – oferto-te perfume. implacavelmente.Parnaso de Além-Túmulo Sou prisão ou liberdade. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. Ateio fogo aos canhões. Busquei Danton. também se a tirania Arvora-se em lei na Terra. Arremesso a minha espada. Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver. E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove. Então. Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada. 182 . Oásis – dou-te o repouso. Mirabeau. Faço cair as nações Como fiz Roma cair.Francisco Cândido Xavier .

E mostra biliões de mundos. Que espedaça os teus heróis.Parnaso de Além-Túmulo Diante de tanto horror. 183 . Morte. fria. se tens Por bússola o Bem na vida. Agora é reconstruir. E mostra biliões de sóis. Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa. Que jamais teve presente. Apaguei a luz do amor. homem. Espera-me com fervor. Olha o Sol de fronte erguida. Serei tua doce amante. orgulhosa. Dos campos Saaras ardentes. Horrenda. Trucidei réus inocentes.” Portanto. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. Nem passado nem porvir.Francisco Cândido Xavier . Abrir-te-ei meus tesouros. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor. Das cidades fiz ossuários. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos.

Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação. Nínive. E como faz às cidades. Remodela humanidades No progresso universal. Em queda descomunal.Parnaso de Além-Túmulo Conduzo seres aos Céus. Revivem na velha Europa. Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos.Francisco Cândido Xavier . Tudo em seu seio revive: Esparta. À luz da realidade. 184 . Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas. Tebas.

a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909. cresce a treva entre os escombros.Francisco Cândido Xavier . Vai com Jesus! não temas! crê somente! . A esperança. Vence o deserto áspero e inclemente. Sem Jesus. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida. Que o reconduz à terra estremecida. O viajor errante encontra a estrada. adiada e emurchecida. Nascido na capital de São Paulo. Refloresce ao clarão de outra alvorada. A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia. poeta e jornalista.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. Foi grande abolicionista e espírita militante.

Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito. das quimeras. No turbilhão de todas as esferas!. Estrangulando a voz exausta e rouca. mercê de um simbolismo inconfundível. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. . no Estado de Minas. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras. Sua vida foi toda dores. Sobe da Terra pelo espaço eleito. encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898. Das dores e da lágrima incontida.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE. Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. estranha e louca. marcar sua individualidade literária... Poeta de emotividade delicada. Sustentando o fulgor da luz da Vida. Formando a rede eterna e incompreendida. Funcionário público.Francisco Cândido Xavier . Das ilusões. soube. Numa imensa espiral. dos risos.

São os heróis das lutas torturantes. sendo na Terra os esquecidos. Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia. Nos desertos dos áridos caminhos. trêmulos. Prisioneiros da angústia e da quimera.Parnaso de Além-Túmulo Heróis Esses seres que passam pelas dores.Francisco Cândido Xavier . Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos. Que são. Abandonados. No turbilhão dos grandes desgraçados. bruxuleante. Revestidos de acúleos acerados. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos. Aluviões de peitos sofredores.. um passo adiante. sozinhos. ermos de amores. Corações a sangrar. Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida. Mundos de amor no claro azul distante. As geenas do pranto acorrentados. E além dos trilhos de ásperos espinhos.. 187 . Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados.

Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso. As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce. Luz que sobre negrumes se avistasse.Parnaso de Além-Túmulo Chorai! que a imensidade inteira chora.Francisco Cândido Xavier . sonhando. aflita. A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores. A brancura das pétalas abrindo. Do monturo pestífero emergindo. E como o lodo é o berço vil de flores. Assim também do túmulo asqueroso. Qual essa flor fragrante. Sobre a lama ascorosa refulgindo. como a face Dum querubim angélico sorrindo. Como se a neve alvíssima a orvalhasse. Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias 188 .

e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. radiosas formas claras. ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto. A alma livre contempla o novo dia. Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras. Céus distantes que vemos. que no-las remeteu. sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo. deixamo-lo aqui registrado. Com a alvorada da Paz. Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume. Anjos da Paz. Desse mundo de sombra e de agonia. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto. dominados De esperanças. Longe das dores do passado incerto.Francisco Cândido Xavier . De lindos firmamentos estrelados. .Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. anseios e alegrias. Por supormos fato inédito.

Entre canções de luz e liberdade. superna. Glória à pobre criatura desprezada.. Penetra o mundo da imortalidade. redimidos. Sem conhecer a luz de uma alvorada.. Como heróis dos deveres e das dores! 190 . Sob a noite das grandes amarguras. que a luz acaricia! Alma liberta. Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos. Vê a aurora depois da noite escura. aniquilados. “Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras Que caíram exânimes na estrada. redimida e pura.Parnaso de Além-Túmulo Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. Onde aportam ditosos. Nos sofrimentos purificadores. Numa visão mirífica.Francisco Cândido Xavier . Forçando as portas da Beleza Eterna. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras. Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida. Glória aos milhões de todas as criaturas.

Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo.Parnaso de Além-Túmulo Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade. Mas não te esqueças desse mundo avaro. Segue cantando. no horizonte claro. a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa.Francisco Cândido Xavier . 191 . Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno. Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. Sabei vencer entre as vicissitudes. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. Guardai a voz da Terra Prometida. Como arautos de todas as virtudes. o tormentoso Averno. Cheio das luzes do porvir eterno. Nos exílios do pranto e da saudade. Sobre as ressurreições da alma gloriosa. O escuro abismo. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé. O teu destino esplendoroso e raro.

Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura 192 . Céu repleto de vida e de fulgores. Que na Terra viveis como estrangeiros. ó pobres caminheiros. Da alma livre das penas e das dores.Francisco Cândido Xavier . Céu Há um céu para o Espírito que luta No oceano dos prantos salvadores. Que faz da vida a rede de esplendores. Mas lembra-te do orbe da impiedade. De alma ofegante e coração aflito: Considerai.Parnaso de Além-Túmulo Volve os teus olhos ternos. A canção da vitória ali se escuta. fitando a imensa altura. Considerai. Que coroa de luz a alma impoluta. Na paz quase integral e absoluta. Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade. compassivos. Onde venceste a carne soluçando.

luminosa. Sentindo a vida de outra natureza. Abandona a prisão. É o augusto momento em que a alma. Um mistério divino há nesse instante. Da Luz branca da Paz. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura. dorida e ansiosa. Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. Sou teu irmão. ignota. Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente. até partires Nas asas brancas da Felicidade. trêmula e acesa.Francisco Cândido Xavier . No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! 193 . esperança. Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura. Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera. presa Às cadeias da carne tenebrosa.Parnaso de Além-Túmulo No tormento que punge e dilacera. Beleza sossegada e silenciosa.

E o mistério dos célicos abraços. indefinido. Dos Perfumes. Na mais sagrada das hierarquias. 194 . Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio. Há a promessa de vida em outro mundo.Francisco Cândido Xavier . Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria. Epopéias de Sons e de Esplendores.Parnaso de Além-Túmulo No silêncio de cada moribundo. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores Na vastidão serena dos Espaços. De outro mundo de luz. etérea. das Preces e das Cores. Se queres Se queres a ventura doce. mais escassos. E os prazeres mais pobres.

Ó portadora do tormento acerbo. Encarcerado nas sinistras grades. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto.Francisco Cândido Xavier . Do Soluço. Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo. torturados. Os calcetas dos erros.. que redimes Os grandes réus. Que surgem do pretérito de crimes. Sob os teus pulsos. dos pecados. funérea. À dor Dor. do Pranto.Parnaso de Além-Túmulo Viverás na mansão triste. do Gemido. fortes e sublimes. em vez do réprobo que eu era. Aferidora da Justiça Extrema. os míseros culpados. Seres escarnecidos. és tu que resgatas. De benditas e eternas claridades. Bendita a hora em que me pus à espera De ser. Outro Job pelas chagas da matéria. Dos prazeres mundanos esquecido. Sofri na Terra junto aos condenados.. Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. 195 .

Tive um passado fúlgido de glórias. Sentindo as dores desse desamparo.Parnaso de Além-Túmulo O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. sem luz e sem conforto. Cheias de risos e de pedrarias. Serás pobre de luz se não sofreres. Sem reparar. Todo o fel que tragares. Sofre Toda a dor que na vida padeceres. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias. É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres. noutras sombrias Sendas tristes.Francisco Cândido Xavier . E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. De maravilhas de ouro e de alegrias. entretanto. Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. 196 . das dores meritórias. todo o pranto. Ser-te-ão como trevas. e. porém. fatal e avaro.

Desdobrai-vos luzeiros estelares. Doma o teu coração. Nos horizontes. O hino da luz. Abre a tua consciência para as luzes E. amplidões e mares! Vibrai comigo. Cantem no mundo todas as quimeras. e. multidões de seres. Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos. vibrai nos ares. humilha-o.Parnaso de Além-Túmulo Pois que a dor é a saúde dos prazeres. recônditos pesares. Exaltai-vos na vida de minhalma. Chorando a mesma dor que o mundo chora. vence-o. Exaltação Harmonias do Som. no mundo que o mal encheu de cruzes.Francisco Cândido Xavier . E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! 197 . no silêncio. nas atmosferas.. Exaltai minhas dores de outras eras. Foge à revolta. misterioso e santo. Meus passados. Aves e flores. Sobre o aroma das novas primaveras. dobra-o.. Do Bem encontrarás a eterna aurora.

muda. Quanto mais sofre.Francisco Cândido Xavier . Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras. As segundas. Remontando aos Espaços constelados. Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura. Como um coro dulcíssimo de hosanas. As primeiras são feitas de amarguras. Desce dos Céus a voz amiga e mansa. Outras vozes mais doces e mais puras. de bênçãos soberanas. Silenciosa. 198 . tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade. Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados. Sobe da Terra a queixa soluçando. há sobre as humanas Vozes que se lamentam nas torturas.Parnaso de Além-Túmulo Vozes Há sobre os prantos. suplicando.

Francisco Cândido Xavier . Nessa jornada eterna da Esperança. Luminosa e divina. Canta e vibra num dia de bonança. incertas. humilde e boa. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. infinita. Glória da Dor. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras... Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas. Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas.Parnaso de Além-Túmulo E ao fim de cada noite tormentosa. Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. 199 . Que é a existência na prova dolorosa. que é pão dos infelizes.

Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura.Francisco Cândido Xavier . Quanta vez. Presa de sonhos e estremecimentos De esperança.. nas horas derradeiras!. Amarguras e dores e canseiras.. Ide e pregai. O evangelho do amor e da esperança. abafando os meus soluços. Que vos fostes nas lágrimas ligeiras. Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura. Como folhas levadas pelos ventos. Ah! meus longínquos arrebatamentos.. estrelas. torturados! 200 . Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia. Sobre a qual vossa vida já descansa. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos.Parnaso de Além-Túmulo Horizontes. na noite da amargura. firmamentos..

Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte. 201 . Em seu labor fecundo e peregrino. que traz a verde oliva Da paz. Misericórdia. É a vibração do espírito divino.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Conduzi a mensagem luminosa Da caridade. Das consciências libertas da impureza. lúcida e piedosa. Redentora de todos os pecados. a qual para ser boa. que acaricia e que abençoa. Manifestando as glórias da Beleza!. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa. De bens paradisíacos se priva. promissora e ativa. Mão radiosa. Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia. A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave.

Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças 202 . como passas. Todo o sonho carnal vaga sem rumo. Prosseguindo na estrada luzidia. E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias. Com a bondade mais pródiga e mais pura. De que a morte voraz faz seu consumo.Francisco Cândido Xavier . Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. Tudo no mundo passa.Parnaso de Além-Túmulo Do homem. Nesse mundo de lutas fratricidas. esquece a lúrida maldade. Entre as aluviões de cinza e fumo. Ofertando-os ao mundo que te odeia. Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças. É ter no Além castelos de ventura. Num contínuo combate pavoroso. A vida se alimenta de outras vidas. de orgulhos e de raças.

rudes e incruentas. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai. sob as dores De misérias. 203 . E sustentei.. Além da morte. de luz. Surdas batalhas. batalhas e tormentas. de amor. míseras criaturas. Iguais às vossas. Também vivi as lágrimas obscuras. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!. que uma vida eterna e grande.. varado de amargores. almas sedentas De paz.Parnaso de Além-Túmulo Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando. Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores. Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento..Francisco Cândido Xavier . de alma pura. Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre. Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento.. sob as maiores Desventuras do mundo.

Glória aos humildes Ai da. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores.. ambição do mundo. Que Jesus vos prepara além da morte. Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. seres infelizes. Cheios de prantos e de cicatrizes. Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura. Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena.Francisco Cândido Xavier . E esperai a vitória alta e suprema. Pobres da Terra. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!. Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. 204 . No bergantim sagrado da Esperança. ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura.. Levantai vosso olhar sereno e forte.Parnaso de Além-Túmulo Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura. Não maldigais a ulceração da algema.

Guardai-lhe a sacrossanta claridade. É a caravana de batalhadores Que. Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores. Vós que sois. Rompe algemas de trevas e granito. Não vos importe o espinho ingrato e acerbo.Parnaso de Além-Túmulo Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores. no esforço do amor puro e bendito.Francisco Cândido Xavier . os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros. Espalhada nas sendas do Infinito. Aliviando os seres sofredores. sobre a Terra. sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade. Na palavra e nos atos. 205 .

.. Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus. a fama. Esvaiu-se a vaidade!. como capitão da arma de Cavalaria. sempre a vida.. . Os júbilos e as penas.Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros EDMUNDO Xavier de Barros. nascido em 1861.Francisco Cândido Xavier . filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros. Continuam. A alegria que exalta e a dor que regenera. Há vida. fumo e cinza ao fundo da cratera... Desencarnou no Distrito Federal. a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro. no Estado de Goiás. porém. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. Foi poeta e desenhista notável. Em cenário diverso aprimorando as cenas. nem o fim! A vida. o prazer e as ilusões terrenas São lodo. Vida Nem a paz. Morte. vibrando noutra esfera.. a vida eternamente. nos círculos escuros. em 17 de janeiro de 1905. desvenda à Terra os planos que descobres. Que além do gelo atroz que te reveste os muros..

sem Deus. porém. Glorificando a luz onde a Verdade mora.. as lágrimas e os sonhos.Francisco Cândido Xavier . estrelas cantam hinos.. à luta que aprimora. esquivando-se à aurora. 207 . Sem furtar-se. Ave triste da noite. Santificar a dor. Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam. Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo. Em derredor da Terra.Parnaso de Além-Túmulo Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos... Para ver a extensão da noite estranha e densa. O homem é o semeador dos seus próprios destinos. sobre a fronte do mundo!.

. contudo. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes.. Recitando epigramas descorteses. Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis.Francisco Cândido Xavier . Musa vivacíssima e fulgurante.. Sou o Emilio. Mas que não se entristece e nem se abafa.. Legou-nos Poemas da Morte. Procurando tomar o tempo vosso. quanto pela opulência das rimas. e Poesias. versos satíricos postumamente colecionados. distante da garrafa. de outras vezes. Longe das anedotas indecentes. Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível. 1909. 1901. além de Mortalhas.Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro. nascido em Curitiba. Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses. em 1866. sem deixar de ser profunda. . era sobretudo ativamente humorística. Distinguiu-se pela altaneza dos temas. e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918.

porém.Francisco Cândido Xavier . Nem há cheiro de carnes ou cebolas. Muita gente nem fica de ceroulas. o vinho não explode.Parnaso de Além-Túmulo Aos meus amigos da Terra Amigos.. conservei-o. Espero-vos aqui com as minhas festas. O elo que nos unia. tolerai o meu assunto. (Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai. Evitai as comidas indigestas. Como a quase saudade do presunto. Que nutre um corpo empanturrado e feio. Pois na hora do “salva-se quem pode”.. Nas quais. que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio. Apesar do meu cérebro bestunto. 209 .

que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. as auroras. Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens. Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!. que a verdade . Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor.. da perfeição. Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. em 1875 – depois de uma existência tormentosa. Fluminense. Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável. Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante. as noites.. da liberdade.Francisco Cândido Xavier . Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. Hinos de amor.Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas. desencarnou com 34 anos.

E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência. distantes. redivivo!. Irmãos.. Habitei os palácios encantados. Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível. Sendas de sonho e báratros escuros. Em retiros de amor calmo e sereno. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas. 211 . E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso. Que transmudas em rosas os espinhos.. Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas. Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas.Parnaso de Além-Túmulo Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível. confundidas Entre estrelas igníferas. Visões de sóis eternos.. Pude transpor abismos de ouro e rosas. Descansei sobre as ilhas de repouso.. Vastros portentosos. Em lindos arquipélagos distantes. radiosas. desferindo Harmonias de amor e claridades. Empunhando o saltério da esperança.Francisco Cândido Xavier . Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro.

Se o mundo abafa em nós toda a alegria. nesses orbes lúcidos. Um detalhe minúsculo. Roubando-nos afetos e consolos. Quando a esperamos tristes e abatidos. Mundos de dor e mundos de alegria.. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. O amor. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor. um fragmento Da Criação infinita e resplendente. 212 . Amando-se da vida os bens mais nobres. A morte corrobora as nossas crenças. A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca. jubilosa. somente o amor.Parnaso de Além-Túmulo Onde o solo é formado de ouro e neve.. Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra. Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. As nossas esperanças mais profundas. Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros.Francisco Cândido Xavier . Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz. nutre e dá vida. Somente o amor é a vibração de tudo! Vi céus por sobre céus inumeráveis. divinos. Ah! Morte!. Lá.

para a vida e para o amor! Que representa a Terra. Ela é somente o exílio temporário. Como um canto sublime de esperança. Ansiando mais luz. Morte! que te abençoem sofredores. das dores. Pelos beijos dos seres bem-amados. Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. dos escravos Das aflições. Que te bendiga o espírito abatido. mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! 213 .Francisco Cândido Xavier . Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda. Outras almas guiando em labirintos Para a luz. Sobre a fronte de todos quantos sofrem. Onde as almas ditosas se engrandecem. É apenas um degrau na imensidade. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade.Parnaso de Além-Túmulo E aponta-nos o céu. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne. Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. Pela visão dos céus resplandecentes. a imensidade.

Padre João meditava. a terra. vemos. sobretudo. nascido em 1850 e desencarnado em 1923. poeta português. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal. orando ao Deus de amor: Revia em pensamento .. é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral. O meigo padre João. por sua produção de agora. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel. mas o fulgor das idéias. pela sua veia combativa e satírica. A noite era de sonho e névoa luminosa. nas mesmas diretrizes. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. Notável.Francisco Cândido Xavier . o mar. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa. Um puro coração..

imaculado. fugindo aos irmãos seus. Oferecendo amor em flores de bondade. inerte e frio. Notando a diferença enorme. O sacerdote. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. a ermida solitária. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. Daquela igreja fria. De paz e de perdão. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. extraordinária. desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. Iluminando a vida. excelso. meditando. Afastado da luz. Iluminando o mundo. Era um vulto sublime.Parnaso de Além-Túmulo Uma luz singular nas dobras do passado. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. Era o meigo Pastor irradiando a luz.Francisco Cândido Xavier . Que fazia descer o amor às multidões. o imáculo Jesus. Feita de amor e luz. Por anos inclementes Em séculos sem fim. então. de pau. Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível. Aos pecadores dando amigas esperanças. Da igreja de Jesus. Era o Anjo do Bem. O farol da verdade ao humano coração. Imóvel dominando o âmbito vazio. Inflamado de fé. E viu da sua igreja o erro tão profundo. 215 . Comparou. Conhecendo no padre o gêmeo de Caim.

Francisco Cândido Xavier . Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. o espírito gelado. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado. à natureza em flor. 216 . a floresta. Sentiu seu coração em dores lacerado. A luz radiosa e bela. Crestando a fé. Com o coração sangrando em úlceras de dor. Fitou extasiado a natureza em festa.. As árvores. matando a paz. a flor. Despiu-se do negrume espesso da batina. endeusas a matéria. E no sonho da luz fulgente do passado.. E como se o animasse uma chama divina. o céu estrelejado. E fugindo a correr da porta semi-aberta. túrbida e falaz. Penetrou soluçando a ermida então deserta. Encaminhou-se ao campo. de amor.Parnaso de Além-Túmulo Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. E transformas o padre em trapo de miséria. a chorar. de eterna perfeição. Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. E fitando. Teve medo e receio. Torturas a verdade. roubando a luz. os mares. E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava. a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus.

Caridade Caía a noite em paz. Eu vejo-o. Prefiro a liberdade e a vida no futuro. Era o festim do amor. ó torreão de séculos trevosos. Na piedade..Parnaso de Além-Túmulo Num farrapo de sombra. Crepúsculo. nas preces da harmonia!. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. feliz. no amor. Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. E eu quero abandonar a noite da prisão. Guiando-me o farol da fúlgida Razão. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus.Francisco Cândido Xavier . Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. desde a flor às luzes estelares. No firmamento em luz. Horas de solidão. Pelas planícies ledas.. Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu. exótica e execrável. Horas quedas. Desprezo-te. 217 . Pairava na amplidão estranho resplendor. Ruínas de maldade estúltica a cair. Submergido em pranto.

Que vibrasse. Pipilavam febris no beiral dos telhados. em rimas soberanas. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando. Elevavam-se ao céu silenciosas.Francisco Cândido Xavier . que nascem das choupanas.Parnaso de Além-Túmulo A asa ruflando inquieta. Como braços em cruz. sangrentos nos trabalhos. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. Era bem a visão da mágoa e da invernia. Almas feitas de luar.. o aroma dos trigais. a sorrir.. os colibris doirados. tremendo. Caía a noite em paz. cortando. Vivendo a vida doce. 218 . As árvores senhoris. Andorinhas gentis. do amor e da inocência. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. mudas.. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua. os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa. relicários da essência Da verdade e do amor. horrendamente informe. Reunidas no lar caridoso e terno. por entre os negros mantos De espessa escuridão. em busca dos seus ninhos! Repousavam. De quem ama a existência plácida da aldeia. Sentinelas da dor nas regiões desnudas. Exalando. de prantos!. de exaltações. Como poça de sangue.. Sinistramente. imaculada e pura. despidas dos seus galhos. de cândida frescura. Canções de oiro e de sol das almas virginais. Almas puras. Os poemas de luz. tardígradas do inverno. a imensidão do espaço. em flor.

alvas como alabastros. 219 . Era como a piedade iluminando o mundo. Que se vão de longada ao longo dos caminhos. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes. Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria. Em mim. Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes. sentia a dor dos que não têm carinhos. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar. Que levasse o amor onde faltasse o lar. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. O castelo real e a cabana do pobre. onde andasse o penar.. Que palpita nos reis. Que vão cedo ao trabalho. à lide que os consome. anhos de mansuetudes. esplêndido e profundo. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz. que anda nas meretrizes. Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras..Francisco Cândido Xavier . Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo. Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão. Suas faces e a fronte. Filhos da obediência. Onde sobrasse a angústia.Parnaso de Além-Túmulo E eu pedia ao Criador da imensidade etérea. A dor que dobra e vence as multidões ignaras. Que derruba os casais e come o pão das searas.

Como pairo a sorrir por cima de um monturo. Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes.. que ampara a dor e vela os sonhos darte..Francisco Cândido Xavier . Amo o trabalhador. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. Para mim. pão e luz. Desço das vastidões dentro das horas mudas. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras. balsamizando as dores. – “Meu nome é Caridade. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem. não existe a classe.Parnaso de Além-Túmulo Pareciam do alvor das estrias dos astros. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas.. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!. que. As rosas festivais das frescas alamedas. chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados. Sou o farol da legião dos pobres sofredores. engendra a paz das searas. Ando por toda a terra. em vez do sono à sesta. Atravesso o oceano e atravesso os países. Emitia esplendor sua túnica de arminhos. Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa. e com ansiedade levo-a A quem. 220 .. a seita e as gentes. adornando as campinas. E quando a tarde chega. Abranjo em meu amor a alma dos continentes. Para levar a luz. Quem és tu? – murmurei. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro. Levo sol. nas aflições.

nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. como amo o luto e a festa. Amo o bem que alivia. E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. Minha missão é amar. Amo o goivo e o lilás. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. Que não te quer. Ao pé do altar da fé. Vivo fora do plano imundo da matéria. no sopé dos patíbulos. Não conheço nações. Visito os hospitais. Não conheço horizontes. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço.” “Caridade! – tornei. nos montes. A Humanidade é a mesma. Lodo fenomenal de descrença e malícia. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos. Confortando o amargor. que. como osculo os heróis. consolando a miséria.Francisco Cândido Xavier . o mesmo charco imundo. Amo a fera bravia. Nunca a lisonja fiz. 221 . Idolatro os senis. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes. Guardo comigo a dor. Subo da Terra ao Céu. as mágoas e esperanças. creches e orfanatos. Não me regem as leis que regem um país. É por isso. como idolatro as crianças. Amo o templo e amo a escola. comovida. nem recebo homenagens. Vou ao cárcere escuro. Beijo um cadáver nu. Jamais pude escolher entre Roma e Paris. amo o bem que consola. talvez. Oro em qualquer lugar. corro do brejo aos sóis. Sem toques de clarins e sem espalhafatos. entro nos palacetes. e as aves da floresta. alma de fariseus. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos.Parnaso de Além-Túmulo Que abarrotam de olor as primaveras ledas. nas ermidas.

Para que se não veja a ruína e os cemitérios. Propague-se impiedade.Francisco Cândido Xavier . cheias de sentinelas. Que esta plebe é de cães. De nada serve o livro a um povo sempre cego. jogue-se-lhe a metralha. transudando a miséria. Onde puseste a luz. Ele fez podridões de imundos cemitérios. Morre o bem. que se açoite esse povo! Alguém. asfixie-se a infância. há mosteiros na Espanha. Rindo na podridão. E se alguém reclamar. há canhões na Alemanha. causa nojo a política. 222 . toque-se para a missa. Mate-se a mocidade. E se o povo chorar. que esta plebe é submissa. aromas os fedores. Se o canhão não chegar.Parnaso de Além-Túmulo Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. Girândolas ao ar. Onde existe o grilhão dentro de escuras celas. Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. E se a fome vier. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica. morre o amor. pague um tributo novo. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios. as batinas e a estola. Celas que são prisões. A sociedade vil é quase a mesma Impéria. honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. Ao raiar a manhã. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. que reclamar. onde fundaste a escola. a forca e a guilhotina. ponha-se a honra ao prego. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. espalhe-se ignorância. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. flores sobre os lameiros. O homem pôs o missal.. Onde criaste o ideal e a inspiração divina. Fez a bomba explosiva.

a esta nada escapa. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma. Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre 223 . Se Calígula quis endeusar um cavalo. poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade. Caridade? o mundo é sempre assim. toma vestes singelas. nem sabe discernir Qual deles foi maior. Sabe somente ver as dores infinitas. se Goethe ou Shakespeare. Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. Jesus amava o pobre. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet. Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . entre más soberanas. Raciocina.Francisco Cândido Xavier . morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. Nunca soube notar. não discuto. Não entende Voltaire. corre o fecho às janelas. eu não sei. Não reconhece a lei que emana dos monarcas.Parnaso de Além-Túmulo E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. Se viveram maus reis. o Papa a Rotschild! Que queres. Eu só quero saber onde há miséria e luto. o Papa o oiro vil. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz. amigo. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo.“Antes de tudo. Para o seu labutar. nem más literaturas. Para fazer o bem. Almoça e ceia o luar. Somente lhe interessa a sorte das criaturas.

os palácios e os ninhos! 224 . não está nas pelejas. E não vai desfolhar misérias nos jornais. não lhe estorva a política. Sabe onde falta sol. Não vai à Terra Santa em peregrinações. Sabe somente que ama e também que perdoa. nunca fez procissões. corre por toda a Europa. jamais anda de sege. dor. Entra no lupanar. nem divisa a ralé. Não conhece opinião. nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. Que falta o amor e o pão. misérias. mágoas. água e calor nos ninhos. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie.Parnaso de Além-Túmulo De fulgentes milhões para humilhar o pobre. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. Os mendigos e os reis. Passa no mundo a pé. Onde se mete a flor excelsa da virtude. jamais amaldiçoa. Não lhe pode abalar a opinião da crítica. Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas. Nem problemas sociais. Nunca reza em latim. Corre. onde escassa é a saúde. Jamais toma lugar para fazer sermões. desde o nascer da aurora. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões.Francisco Cândido Xavier . Nunca viu povoléus. Luz para desfazer a baixeza de instintos. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos. Sopa para matar a fome dos famintos. Olha sem se anojar. Jamais focalizou questões eleitorais. Sabe amar e querer flores e passarinhos. sem se cansar. Para buscar a dor da orfandade que chora. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. Foge da discussão.

Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia.. Estou com o lavrador na tarefa das searas. Existe no Universo. para guiar felizes. donde foge a alegria..Francisco Cândido Xavier . Procurando os pardais. A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade. Poeta amigo. Amparar o chacal.” Muito tempo passara e a noite inda era escura. Minha missão é amar os vermes e os países!. Procuro a pomba e a fera. Para guiar os maus. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua. Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor. Como do seu farnel. É preciso que eu vá visitar os covis. Chama-me o sol redor. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor. as aves e os reptis. Que ouvem as tentações do beiral das estradas. Vai a todo lugar. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. tomo o arado e a charrua. Necessário é que eu siga em minhas romarias. Não existe num mundo. noite de desventura! 225 . Vou subir a colinas e descer aos valados. Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados. recôndito e diverso. Noite de neve atroz. Sabe o bem..Parnaso de Além-Túmulo Tem abnegação. Sabe rasgar o peito. melros e cotovias. Desce ao antro sem paz. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda. Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda.. chama-me a orfandade. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade.

Lírios no lamaçal das grandes desventuras. O inverno e o pesar. e aos olhos da minhalma. que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais. não sabeis. há aroma e luz na beira dos caminhos.. a Terra. Harmonias sutis. 226 . Almas na escuridão da noite sem aurora. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!. Anjos açucenais que a miséria devora. esquálidos e nus..Francisco Cândido Xavier . Corpos de podridão. Como as aves gracis em vôos nos trigais. árvores.. O mundo famulento. Repartindo o seu pão de carícias divinas. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro. fruto e flor.) Não sabeis.Parnaso de Além-Túmulo Foi-se a linda visão. fustigadas de pranto. Pobrezitos sem pão. No entanto.. Cantos de rouxinóis. filhas que adoro tanto. Existências em flor. Calcular a extensão de tantas amarguras. dissipando as neblinas. urnas de lama e pus. parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas.

Fez também o soluço e a lágrima dorida. edênico e sem par.Francisco Cândido Xavier . Sobre o escuro. Paira o clarão do amor. as aves e os chacais. Criou a dor clareando a escuridão da vida. Espargindo dos céus as glicínias formosas. Há risos e esplendor e há prantos. A lágrima da dor é estrela que transluz. O amor que fraterniza. Que liga o verme ao mar.. Às regiões da glória intérmina da luz. vinde alegres. Vinde comigo ver a dor dos desgraçados 227 . que une a pomba às rosas. Que irmana a fera e a rosa. Que faz da Caridade a flama da Virtude. Que sublime conduz aos planos celestiais. filhas minhas. Filhas que Deus me deu. Que o grão de areia une ao roble secular. das lepras mal cheirosas.Parnaso de Além-Túmulo A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins. E se fez a bondade envolta de esperanças. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. comigo. misérrimas. porém. mesquinhas. Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. o amor que dá saúde.. Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças. Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis.

E acharemos no fim da romaria imensa. Perpassam colibris. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos. O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança. Dando consolo à dor. a Caridade e a Crença. Conduzamos conosco a luz da Caridade. Espalhemos a Fé.Parnaso de Além-Túmulo Que chorando se vão. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. Em que há músicas no ar e olores nas estradas. Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. Cheios de sânie e pus.Francisco Cândido Xavier . também. 228 . pois. chilreia a passarada. Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas. Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos. à treva a luz da aurora. com os corpos cancerados. Nutrindo o coração na fonte da esperança. sem pátria e sem abrigo. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. Aproveitemos. por este mundo afora. esta hora calma e mansa.

Os lendários heróis no dorso dos corcéis. Açoitado. ensangüentado. e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. Artistas e histriões.Parnaso de Além-Túmulo Vinte séculos de dor. poetas e trovadores.Francisco Cândido Xavier . Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. de pranto e de agonia. Cavalheiros gentis. turbas de gozadores 229 . Castelãs juvenis. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou. Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina. valentes brasonados. traído e calmo. silencioso. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. partindo como tantos. Caravanas de reis nos tronos passageiros. Dois mil anos de dor. Represam-se no olhar do Filho de Maria. na cruz. Viram-no seminu. Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. humilde e silencioso.

Mas os soberbos reis e césares antigos. O sacrifício e a dor do eterno visionário. Os nobres doutro tempo. chacais. a guerra e a fome. O Mestre prosseguiu. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade. as lutas e a chacina. o anjo da virtude.Parnaso de Além-Túmulo Inda vieram. o pranto.Francisco Cândido Xavier . Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. na capa dos cristãos. Lobos. Hoje mais nada são que míseros mendigos. 230 . Multiplicando a guerra. tigres. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. agora transformados Nos párias do amargor. Agora vêem. Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição. nos grandes desgraçados. Estende o seu perdão cheio de mansuetude. sim. no topo do Calvário. sublime e silencioso. depois. Desolação e horror. Contemplaram Jesus no cume da colina. mataram-se os irmãos.

Contendo a aspiração indômita do povo. Proclamai. procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. Consola a multidão com o seu olhar piedoso. A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador. Ponde sobre a esperança o inferno que flameja. operosa e triunfante. esplêndida. Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras. Afogai na descrença a pobre Humanidade. trazei Loiolas. Ensinai catecismo em todas as escolas. É preciso instalar a Inquisição de novo. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa. Comei Jesus no pão refogado em falerno. torcei as leis. Formai sob a batina as gerações vindoiras. De saber a verdade acerca do Destino. viceja. Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé. Cortai a asa de luz de toda liberdade. calmo e silencioso.Parnaso de Além-Túmulo E do cimo da cruz. 231 .Francisco Cândido Xavier . proclamai o dogma divino! Fazei bulas.

absolvei magnatas. Incensai Harpagões. Lede com desassombro o intrépido Barônio.Parnaso de Além-Túmulo Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados. Traficai com o altar. Fazei autos-de-fé. E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu. Retende na memória os erros do passado. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. Entre encomendações. Só a Igreja possui a santa autoridade. aplaudi as grandes simonias. discursos. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente.Francisco Cândido Xavier . Porque. 232 . Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. Interpretai Jesus no prisma do interesse. vendei o ensino e a prece. Esquecei sobre a lama os pobres indefesos. Com representações em todos os caminhos. Aprovai. sermonatas. Anatematizai todas as heresias. Lembrai a Inquisição e a história do papado. em verdade. Ponde em cada recanto um novo Torquemada. Dentro das presunções da infalibilidade. Transformai todo templo em balcão de bentinhos.

Gritai que o mundo está perverso e corrompido. metralhas. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. ouvi minha voz impávida e serena!. É feita nos clarões das grandes epopéias.Parnaso de Além-Túmulo Sobre o luxo gritai no púlpito florido. Se puderdes. enfim. a luta das idéias. A luta da verdade. Clareando o porvir ignoto dos destinos.. irmão. Mas. A abençoar fuzis. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude. Incentivai com ardor os rubros fanatismos.. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas. consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. carabinas... e a bênção de Maria. Que traz.Francisco Cândido Xavier . Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos. Fazendo-vos ouvir. arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus. porém. Da mentira que. A discórdia infundi! Nutri regionalismos. Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. tomando a vossa pena. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo. não alcança a virtude. 233 .

Que a Igreja representa. Jamais enxovalheis o vosso ministério. Representa-se a peça antiga da quaresma. anual. “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas. É próprio das paixões e próprio da inventiva. congregações. Talhado de encomenda. da tiara. Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus. a vítima e comparsa Do Papa. Nunca vos entregueis a tanto despautério.Parnaso de Além-Túmulo Criar uma ficção e excomungar de oitiva. Num cenário infantil. Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco.. que se repete. ao sol que tudo aclara. Deixai a insensatez dos clérigos. feito de gesso e lacas. Olvidai convenções. arrecadando esmolas. o explorador santíssimo da farsa. Acostumai-vos. sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas. O pobre Senhor-Morto. Filha da estupidez bisonha e condenável..Francisco Cândido Xavier . Como as grandes funções do entrudo e do confete. É o ator da paixão. Imóvel. em tinta espessa e forte. Que a Verdade jamais se vende no mercado. um pálido abantesma. papado. 234 . pois. Paródia de uma dor sublime e incomparável.

Das chamas infernais. Coquelin tonsurado. Wesley. Fora das concepções altíssimas da Igreja.Francisco Cândido Xavier . sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme. Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos. desconforme. criaturas inferiores Dirigem. bandeiras e sacolas. Precisais cultivar o nosso dogma eterno. Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno. Comte. A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. seus embaixadores. certamente. Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé. o espírito moderno. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes. Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. obeso. Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido. Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar. A função quaresmal prossegue. Calvino.Parnaso de Além-Túmulo Com latim. De eterna submissão ao Papa que é infalível. 235 . cantochãos. Sentinelas da fé.

segundo o gesto em uso. Reformistas quaisquer?. Tem até corrompido os padres e os monarcas. Amando a caridade. Sede firmes na fé. Que é o traço de união do arcano da Trindade. As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude. É preciso antepor. em santa penitência. Obedecei à Igreja em sua Santidade.. E depois de exercer seu santo ministério. a Luz. Sofismá-lo. 236 . a Liberdade. E abominando o Cristo. O dogma é uma lei benigna e sublime. o Senhor que ele esquece. é cometer um crime. A Humanidade está sob o império do demo. rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. a humilde singeleza. caros irmãos. Satanás que os fulmine A falta de fervor tem feito heresiarcas. Necessário se faz prender quem raciocine. enformá-lo. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. Sentimentos de fé e catolicidade. Procurou lestamente o calmo presbitério..Parnaso de Além-Túmulo Toda ordem de Roma é boa e indiscutível. Resmungando um latim exótico e confuso. contentes na virtude. Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência.Francisco Cândido Xavier . a toda a Humanidade. Terminou a oração. Com um aceno abençoou. Vivei.

a guerra e o fanatismo. da caridade o templo. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário. Morre sem remissão de horrível carcinoma. Não se lembrou que houvera o bom samaritano. Porque a verdade pura. A Igreja que foi pura e que já foi divina. Opíparo jantar regado a vinhos caros. Para tanta extorsão impune e criminosa. ambrosias. recheios. Terminada que foi a sacra pantomima. Dos atos a lição. Propagando a cegueira. Licores. Da doutrina cristã. olvidou-lhe a doutrina. Em paz sacramental. Sereno. sem bispo e Vaticano. o lídimo Evangelho. moscatéis. doces raros. 237 . Nos pântanos letais e lúgubres de Roma. a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência. ó meus irmãos do altar e da batina. Era um livro escurril. Esquecido Jesus. E após se abastecer pantagruelicamente. Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo.Francisco Cândido Xavier . Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário. adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera. Jesus apenas fora a máscara piedosa. Com o seu rubro sermão.Parnaso de Além-Túmulo Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. Sem artigos de fé... cavando um negro abismo. confeitos. inadequado e velho. Por isso.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! 238 .

. Graças a Deus. Com que angústias te vi. em março de 1881. Conduzindo-me à luz doutra paisagem. que amo tanto. Era a morte. Escreveu Ementário.Francisco Cândido Xavier . . Trabalha e espera sob os céus risonhos.. Ó terra de São Pedro. a crença era meu pajem E buscando-lhe. cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem. Nos supremos e tristes estertores!. E paraíso para as nossas dores. ansioso. nascido na cidade de São Pedro.Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA. banhado em pranto.. A São Pedro de Piracicaba Último instante. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas. Que a morte é vida para os nossos sonhos.. Chorei de gratidão ao pressenti-las. as mãos tranqüilas. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas. Poemas Líricos. falecendo em 1937.

e suicidou-se no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930. E de alma ingênua e coração risonho.Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO. em 1888. Passados os trabalhos e os tormentos. A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho. Numa grande esperança insatisfeita. o lavrador que fez. Lâmpada Velada e Fonte da Mata. Soneto Sou. – Sonho lindo que a nada se compara. . Poeta de grande relevo emocional. desgraçado e desditoso. tendo publicado Apoteoses. E o pobre. Regou. a terra que lavrara. jubiloso. Esperou confiante o sol da seara.. Quando aguardava a messe. rude e bisonho.Francisco Cândido Xavier .. seu último livro. Não reparou o labor triste e enfadonho. chorando. deixou firmada sua personalidade literária. nasceu na Vila de Boquim. Perdeu tudo no instante da colheita. Gênese. Eis que aparecem os arrasamentos.

incorpórea. 241 . minhas ânsias. Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia. E fui de vale em vale. Como fizera de minha arte um hino. Mas só colhi os frutos maus da Terra. É perpetrar amargas redundâncias.Parnaso de Além-Túmulo Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado. Senhor. Após a derrocada Das construções de um sonho superior. Do que chamamos – a felicidade. Renovar minhas síncopes de dor. E o triste engano da celebridade. Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado. Buscando a imagem fúlgida. serra em serra. Tudo outrora. As promessas pueris da falsa glória. Do sofrimento fiz o apostolado...Francisco Cândido Xavier . Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino. Redizer minhas mágoas.

Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! 242 . de dor e de miséria. Tudo em volta de mim era a cegueira. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória Da crença e da bondade. E a desgraça suprema o amortalhou. no passado.. Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza. Que torturou a minha vida inteira.Parnaso de Além-Túmulo Na minha pobre vida abandonada. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado.. E a carne subjugou-me inteiramente.Francisco Cândido Xavier . Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira.. Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza.. O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas. Tudo sofri. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições. Fez-me fraco e descrente. de fama e glória.

.. o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!. pois. A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção.. 243 . meu Deus.Parnaso de Além-Túmulo Relevaste. Cheio de amaridúlcida ansiedade.Francisco Cândido Xavier . em Ti me anime. Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição.. Que a confiança.

A Pátria linda Que faz vibrar Todo o meu ser. de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer. “minado pela nostalgia”.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto. Musa que inspira Meu coração A relembrar. Celebra. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África.. ainda. onde veio a falecer em 1793.. Revela. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. amena. A paz sublime. Volta. A vida plena. Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia . A luz sem par.Francisco Cândido Xavier . Redivivo Divina lira.

O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção. Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem. Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz.Francisco Cândido Xavier .. 245 . Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo.Parnaso de Além-Túmulo De amor cristão. Canta somente. Ditosa e crente. Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz. Chorando alhures. Lira divina. Não mais procures. Enfraquecer-te Nas lutas mil. A nova era Do meu Brasil.. Sepulcro além.

Terno. Mas. sublime e fúlgido. e onde dirigia um Centro Espírita. escondendo as flores com que afagas. Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas E algemaste-me a lenho estranho e duro. onde desencarnou.Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902... flamejas! E agora brado. enfim. ó Dor piedosa e justa. Onde. Anjo da redenção! bendito sejas!.Francisco Cândido Xavier . na cidade de Borebi. dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui. Ouviste-me. internou-se num hospital. de alma robusta: – Deus te abençoe. Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen. em 1930. em 16 de fevereiro de 1947.. Doce e invisível no caminho escuro!.. Nume solar pairando no monturo. Estado de São Paulo. Libertaste meu ser à Luz Celeste. . da cruz de feridas que me deste. em silêncio. o choro e as pragas.

Qual o tesouro O mais profundo. e desencarnado em 1896. em 1830. então. A procurar. E vi. E vi senhores . de modo inconfundível. No coração Da criatura. afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. Portugal. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines. As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade. Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse.Francisco Cândido Xavier . a suavidade e o ritmo da sua lira. Nestas poesias palpita. A perscrutar Qual a verdade. Só a ilusão Duma ventura.

. E ainda aí Não pude achar 248 . porém. Os potentados Com seus valores Bem se julgavam Onipotentes. Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo. Busquei os lares.. Heróis valentes Cá nesta vida. Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão. Ricos solares Dos protegidos. Depois.Parnaso de Além-Túmulo Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder. Sempre a abater Os desgraçados. Perante a mão Da fria dor.Francisco Cândido Xavier .

Alvas estrelas De formosura. Jovens e belas.. Das diversões. Deixam o teto Do seu afeto Maior. Pobres donzelas. belos. miseráveis Párias da vida. Mágoa insanável..Parnaso de Além-Túmulo O que eu ali Fui procurar. Fanadas flores. Onde se aninha E se amesquinha A multidão 249 .Francisco Cândido Xavier . Que. Somente encontram Dores que afrontam. Insuperável. Luz sem fulgores. Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados. Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. supremo. Eu vi mulheres Nos seus prazeres.

É o que produz Todo o amargor.Francisco Cândido Xavier . Almas impuras. Gozar. Ao som da festa. No entanto agora Flores perdidas. Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. Aniquiladas. À meia luz. Só sentimentos Que trazem presas. E esmagadas. Mas este riso. sorrir. A ver se esquece O que padece. Só pensamentos Das impurezas. Desiludidas! 250 . Julgando crer Que está a ver O paraíso. Belas outrora.Parnaso de Além-Túmulo Que busca rir. Ensandecidas As criaturas Outrora puras. A maior dor.

A iniqüidade. Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores. Eram sombrias. De uma alegria Jamais sentida.Francisco Cândido Xavier . Eram trevosas. Desconhecida Naquele meio. Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. A grosseria.Parnaso de Além-Túmulo Nesse recinto Eu vi. A traição. enfim. As pedrarias Tão luminosas. então. Toda a maldade Da hipocrisia. Pois só cobriam Míseros trapos. Tristonho assim. Pobres farrapos De almas perjuras 251 . E tudo. Dissimulado. Notas atrozes.

Francisco Cândido Xavier . Desiludido. Fracas criaturas Baldas de amor. Pronta e veloz. Dando-lhe a calma Que necessita. Só conheci E encontrei.Parnaso de Além-Túmulo Ao seu Criador. Desanimado. Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram.” Mas uma voz Do azul do Céu. Só contemplei O mal que vi. Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita. Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. E. Me respondeu: “Filho bendito 252 . gemem. condoído.

O sumo bem.Francisco Cândido Xavier . O grão tesouro. Vi transformadas Todas as cenas. 253 . Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas. Mais fino ouro Dos filhos meus. Donde provém A grande paz. Em todos os seres.Parnaso de Além-Túmulo Do meu amor. Nos prantos seus. Nada se perde. Desenganadas Nas perdições. Assim tornando O ser feliz. Contempla. A Terra linda E então verás. E no Infinito Tudo o que fiz. ainda. Sou teu Senhor. Está na luta.

Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! 254 . serenas. Lágrimas belas. Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris. Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. A amarga dor. Por entre a luz. mulheres. Meigas. Jovens. Nas esperanças. Sorri. Por entre flores. Gotas singelas. Nas grandes penas. chorei.Parnaso de Além-Túmulo Homens. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei. Em profusão.Francisco Cândido Xavier . crianças. Brotar a flux No coração De cada ser.

Francisco Cândido Xavier . Fui então vendo. 255 . Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra. Lágrimas lindas São transformadas. E vi. Que os coroavam Com gemas finas. Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus. Jóias divinas Do escrínio santo. então. Primor de encanto Do amor de Deus. Quando voltavam Do seu exílio. Em profusão. Reconhecendo Que aqui nos Céus. Vale profundo De mágoa e dor. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo.Parnaso de Além-Túmulo Depois. Gemas brilhantes.

fulgentes E deslumbrantes. Tranqüilidade. Que entre os seres do Além é sempre igual. 256 . Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora. Que nem Ofir Pôde possuir. O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus. Ricas. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. As pequenitas Gotas de pranto. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda. Bendito o Pai.Francisco Cândido Xavier . Sejam benditas. Felicidade Ao peregrino. Com a lágrima bela.Parnaso de Além-Túmulo Alvinitentes.

Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!. Depois de bem sofrer aí a dor. que se antevê. Onde impera a bondade do Senhor! Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul. Onde há trégua à tristeza e ao padecer.Francisco Cândido Xavier . aonde o pecador. Venturosa região do espaço Além.. País dos Céus. basta crer Na Paz do Céu. A morte é um sono doce. imaterial.. Para se achar o Amor. Doce Mansão de Paz. a Luz e a Vida. Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz. Vai ali encontrar Consolação. Pelo poder da Fé. na Terra apetecida. Mansão de claridade e pulcritude 257 . na provação.Parnaso de Além-Túmulo No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor. Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer.

Porém. Imenso e lindo. Iluminadas Do Criador. O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor. Gozam do afeto extremo de Jesus. Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido. Nessas regiões Onde há mansões Purificadas.Parnaso de Além-Túmulo Onde os bons. que adoraram a Virtude. 258 .Francisco Cândido Xavier . Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. um dia. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! Dentro das lutas. Estremecido.

Conquistarás A grande paz. Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui.. Do sacrifício!. A grande luz 259 . porém.Francisco Cândido Xavier . Luz do Senhor – O sumo bem. Por entre espinhos.. sofrer.. Tu lutarás. Sorrir. Mágoas e dores. Já te mostrei A lei do amor. É que verei Se o que ensinei Ao teu valor. Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres.Parnaso de Além-Túmulo Tredas disputas Do Bem. do Mal.. E se aprenderes Saber viver. Risos e flores. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor.

Nessas moradas Iluminadas Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço.Parnaso de Além-Túmulo Que eu. Tranqüilamente. Ao regressar. Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho. Reservarei E hei de guardar Para a tua alma. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos. Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura. Pra conquistares A luz. A boa estrada E com carinho 260 . teu Jesus. o amor Do teu Senhor.Francisco Cândido Xavier . A dor.

Sê sempre amigo Dos sofredores.Francisco Cândido Xavier . E ora conduz Teus sentimentos. 261 . Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar. Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem Os sofredores. Teus pensamentos. Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros.Parnaso de Além-Túmulo Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. À perfeição Do coração. Caminha avante. Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se. Que cultivei Dentro em teu ser.

Rútila e pura Aqui no Céu. Onde a alegria Reinava. nasceu Num lar ditoso. Pecaminosos. Dos venturosos. Então. e ria 262 .Francisco Cândido Xavier . Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz. Em mensageiro Do Deus de amor. A conquistar Maior ventura. Se assim fizeres E procederes.Parnaso de Além-Túmulo Ambiciosos. Frios. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar. faustoso. austeros. Sempre cumprindo Os teus deveres. Régio.

Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária 263 . Era adorado. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos. Na mocidade.Francisco Cândido Xavier . A luz brilhante Dessa ciência Que. Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu. Rico alcaçar Dos abastados. Ganhou saber Nobilitante. Felicitado Nessa abastança. Ainda criança. Desses palácios Materiais. Belo esplendeu. formosos. Por planetária. na existência. Mas irreais. Lindos. Naquele lar.

Tornou-se esquivo. O infeliz ser Viveu dos lábios. Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor. Ele esplendeu No vão saber.Parnaso de Além-Túmulo A lei de Deus. Na Academia Dos homens sábios. Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade. brilhou. Fulgiu. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus. Mas renegou 264 . Mas sem olor.Francisco Cândido Xavier . Cheio de luz. Refugiou-se Na vã Ciência. Despreocupou-se Com a consciência.

E da existência Da própria alma Por fim descreu. Assim.Francisco Cândido Xavier . Os próprios filhos. Nossa esperança Encantadora. Suaves brilhos Da nossa vida. Filho do Mal. cumprir Sua missão. Nunca buscou. Os desprezou.Parnaso de Além-Túmulo A lei do amor. A imensa luz Espiritual. Dele esperando Sua ventura. Sempre espalhou. 265 . Só procurou Brilhar. Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura. fulgir. Como um ateu. A relegar. Somente amando Sua ciência Enganadora.

viveu Só na Ciência. um dia. Jamais o quis. Nunca estancou Uma só lágrima. avara 266 . Nessa existência Que passa breve!. Suas idéias Tristonhas. A morte amara. Porém.Francisco Cândido Xavier . Do ateísmo Desventurado. Nunca pensou Uma ferida. O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas. A Parca fria. infeliz. De quem fugia Sem compaixão! Enfim.Parnaso de Além-Túmulo Em profusão. Não consolou O que sofria. feias. Cruel. Que brota n'alma Desiludida.

assim. Lembrou de Deus. Por onde sempre Se comprazera. Ele acordou Do seu letargo. O arrebatara Nessa escabrosa Escura via.Francisco Cândido Xavier . Sentiu seus olhos Enevoados. Abandonado.Parnaso de Além-Túmulo E dolorosa. Dentro da dor. 267 . então. Do seu amor. Amargurado Na aflição! Somente. E o conduziu Para o Infinito. Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo Em que vivera. num grito. Do sono amargo Em que viveu. Sentiu-se. Onde.

Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar 268 . Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz. E assim cumprir O teu dever. Jamais soubeste Te conduzir. Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. Pelo viver Que demandaste.Parnaso de Além-Túmulo A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração. Por isso. Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer.Francisco Cândido Xavier . Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. agora.

O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho. Entre alegrias. Foi convertida Em fero braço Esmagador. Foste inimigo. Que mais te amavam. Oferecer À Humanidade. Em luz perdida.Francisco Cândido Xavier . À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres. À perfeição. E até negaste A existência Da própria alma. A consciência! 269 . O grande amor – Fraternidade. Dos próprios seres Que te adoravam.Parnaso de Além-Túmulo E assim curar A alheia dor. Que então devias. Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação.

Continuamente. Que assim trilhara Na perdição. Envergonhado. Padecimentos. Fatal. Correu sozinho 270 . Frios horrores. Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever. amara. Seus desenganos Na senda triste. E o pranto atroz Jorrou. Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Entre lamentos E dissabores.” Calou-se a voz.Francisco Cândido Xavier . então. Por muitos anos. Espezinhado Na sua queda.. Ele chorou E lamentou. Do coração Do miserável..

Assim lhe era Retribuído. O mesmo bem Que ele fizera. muitas vezes. E o pobre Espírito Desiludido. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho. O seu olhar. E. Desanimado.. Perambulou Qual Aasvero.Parnaso de Além-Túmulo O mundo inteiro. Desamparado. A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo. Supliciado. Sofreu. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão. Pedindo luz..Francisco Cândido Xavier . Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou. Só encontrava Consolação Nas lágrimas tristes 271 . Amargurado. clamou.

santos. Extenuada No atro sofrer... Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado. Cheia de unção Por entre prantos.Parnaso de Além-Túmulo Que derramava Em profusão. Pois não cumpri O meu dever!. Até que um dia Em que sofria. A alma triste E solitária. Formosos. Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis. Cruel e atroz. Mais padecia A dor feroz. Ó bom Jesus! E mesmo assim. Tendo comigo A tua luz. Fui a grilheta Da impiedade. 272 . Experimentada.Francisco Cândido Xavier . Eu me perdi Por meu querer.

Não quero ter 273 .Parnaso de Além-Túmulo Pobre calceta Da iniqüidade. sem flores. Tão justo e santo.Francisco Cândido Xavier . Mas tu que és bom. E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!. Sabes do pranto Das minhas dores. Dá-me o acúleo Da expiação. Quero sofrer Dura pobreza. Sempre viver Na singeleza. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei.. No meu viver Sem luz. Para que seja Exterminado O meu orgulho. O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei. Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação..

Não quero ter.Parnaso de Além-Túmulo Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. Onde se encontra Maior ventura. Quero ganhar 274 . Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação. Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. O próprio lar.Francisco Cândido Xavier . Árido e seco Pelo vergel Enflorescido. Nessa batalha Que empreenderei. Então serei Ramo perdido. Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. Nunca. jamais. Não quero ver O dealbar De uma esperança. Incompreendido Em minha dor.

Claro e sublime Para o meu crime. Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. Cruéis e duras Das aflições. Quando aliada Da caridade. o pão. Só é formosa. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa. Com meu trabalho.Francisco Cândido Xavier . Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras.Parnaso de Além-Túmulo E conquistar A luz. O agasalho. portanto. Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes. Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei. O puro amor. Ó bom Jesus. 275 .

Viver somente Pela voxagem Das desventuras. Deu-lhe o perdão. E sempre ter Em mim bondade. Pelo infinito Desenrolar E perpassar 276 ..Francisco Cândido Xavier . Enfim. Quero sofrer Com humildade. A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena.” E o Mestre Amado. Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado.. Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão.Parnaso de Além-Túmulo Neste planeta. Como a violeta Sob a folhagem. perdido.. Feliz dulçor Da caridade!.. Seja bendito.

O bom Jesus. Belas. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável. queridas. Rude e cioso Do seu poder E vão saber. Escuta a prece De quem padece. De parceria Com o Orgulho.Parnaso de Além-Túmulo De toda a idade. Do Criador! Na estrada de Damasco Num certo dia A Ambição. E assim lhe disse: 277 . Incomparável. com sua luz E terno amor. Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas.Francisco Cândido Xavier . Chamou o homem Jatancioso. Que.

Francisco Cândido Xavier . Ser imperfeito Se achasse embora.Parnaso de Além-Túmulo “Homem. E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes. 278 . E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação. É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos. Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver. tu és Senhor potente. Grande e valente Aqui no mundo. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos. Glorificado De grão-senhor!” E o pecador. Faze-os vassalos No teu reinado.

O Filho amado Que à Terra veio. Mestre da luz. e o bom Deus Que está nos Céus. E o bom Jesus. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai.Francisco Cândido Xavier . Foi sem demora Então chamado Por um juiz De retidão. Nesta existência De provação. Que é a Consciência. Bem satisfeito. Nosso Senhor.Parnaso de Além-Túmulo A seu agrado. Que tudo vê. A este mundo Ingrato e feio A redimir. O Criador. Que então lhe diz: “Mas. O Deus de amor. E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão 279 .

Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. risonhos. Que já se achava Bem poderoso. Do teu viver. 280 . Lindos. Com alegria. Assim. Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. Acompanhar. E espalhar Somente amor. Em seu amor. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos. A relegar Toda a maldade. procura Melhor ventura Em só buscar. Nunca negar A tua mão. o tal homem Tão orgulhoso.Parnaso de Além-Túmulo Tu deves dar. Em sua cruz!” Mas. Seguir Jesus Em sua dor.Francisco Cândido Xavier .

então. E o tal Jesus. buscou E perguntou Aos companheiros. Eles. Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão. E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido. Tendo o poder Pra dominar. Enquanto ele Só te oferece Amargas dores. Cruéis espinhos.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Isso seria Obedecer E se humilhar. Desolações. Nós concedemos Ao teu valor 281 . Assim. Tristes agruras. Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário.

A vida aqui Só é formosa Para quem goza.Francisco Cândido Xavier . E pois. O louco amor Do teu Jesus. Exprime a dor E não a luz.Parnaso de Além-Túmulo De grão-senhor Sublimes flores. Essa é apenas O frio nada. Ao caos medonho Do mais não-ser. Há de levar Esse teu sonho De amar. Pois vindo a Parca Bem de repente. Mais saberá O que é existir. Lindos brasões. quando 282 . Porque a morte Tão renegada. assim. Vale o gozar Constantemente.” E assim. sofrer. Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir.

Na mansuetude. A eterna obreira. Onipotente. A mensageira Da perfeição. Na humildade.Parnaso de Além-Túmulo O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. Nessa oficina Grande e divina Da Criação. A lapidária. Chegou a Dor Humildemente. 283 . Na caridade. No cumprimento Dos seus deveres. E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. Fê-lo abatido E desolado. Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro.Francisco Cândido Xavier .

De mui sofrer E padecer Na expiação. Altivos filhos Da veleidade. Só encontrou O juiz reto. Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Na submissão Do coração Ao sofrimento. Reconheceu A nulidade. E que. A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia. Depois. O Magistrado Incorrutível Da consciência. então. num brado 284 . Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser.

Em conseqüência.Parnaso de Além-Túmulo Indescritível. Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem. Contemplará 285 . A esquecer Tudo o que seja Espiritual. Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto. Para a alegria Fatal converge O seu viver. Ermo de amor.Francisco Cândido Xavier . A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade. Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres. Para o enganoso. Efêmero gozo Do material. Porque verá. Com a maioria Da Humanidade.

Que a Terra toda inunda de esplendor. que nos conduz À divina alegria. pura e santa. . Lua. tornando-os mais unidos. Nessas mansões. No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens. 286 . se acaso viste Nos firmamentos o filho meu. Angústia materna “Ó Lua branca. Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia.Parnaso de Além-Túmulo Todo o esplendor. Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz. Do eterno amor Do bom Jesus. fitando o céu – Dize-me. Para o Bem exalçar. A eterna luz.A Mãe pedia. suave e triste. a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz.Francisco Cândido Xavier . de amor e luz. Na ascensão para o Belo e para o Amor.

fria e impiedosa.. Deixou vazio meu doce lar.. conheço-o bem!.Parnaso de Além-Túmulo A Morte ingrata. responde-me sem demora. – “Então. extasiada. Oh! se o conheço.Francisco Cândido Xavier . Fitou a estrela que lhe sorriu. Roubou-me o sonho – deu-me o penar.“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos. Lua serena. Dum filho amado que a gente tem. feliz. que encantador Meu anjo belo como a açucena. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz. da esperança.” E a Mãe aflita.. Continuava. martirizada. Deixou minhalma triste e chorosa. sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?.. E dos seus cantos.. Sou eu no mar do éter infindo. . Cheio de vida.” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto. Sentiu-lhe os raios... E das ausências conheço o pranto. cheio de amor!. Como era grácil. Se tu soubesses. ouviu: – “Ilha pacífica. 287 .

Aqui terminam os dissabores. banhada em pranto. Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho.” A mãe saudosa.. Porque tu guardas o filho meu.” – “Quase te odeio. Aqui em tudo floresce a vida.. mãezinha amada.. 288 .” – “Se tu me odeias. se me detestas.. Em mim a noite não tem guarida. Do Senhor tenho doce trabalho. Ó linda estrela que adorna o céu. Senti a falta desta alvorada!.Parnaso de Além-Túmulo Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro.Francisco Cândido Xavier . Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade. Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também. sorrindo. luz de alvorada. Notou de logo seu filho lindo. Senti a falta das primaveras. ditoso e lindo. Num belo raio de luz.. Todo vestido dum brilho santo. Vida risonha. Flores que afastam as agonias. cheia de flores!.. Gritou-lhe a pobre desconsolada.

Sonhos..“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar. Paz e ventura. também há fontes. carícia e amor! Ó mãe.. Já não me embala tua meiguice. Lamentos do órfão Minha mãezinha. perdoa. se mais não pude Ficar contigo na escuridão. na estrela. triste sem mim.. Aqui é tudo felicidade. menos saudosa. Faço-te um ninho ditoso e belo.. Que tu te foste. Jardins e luzes e fantasias. 289 . Viu-se mais calma.Francisco Cândido Xavier . Muito pertinho do amor de Deus!. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus. E não podias partir assim. Sóis rebrilhando nos horizontes. castelos e melodias.Parnaso de Além-Túmulo Não resisti. Aqui. estranhamente. E. alguém me disse. pôs-se a chorar. fugi da dor. Daqui te vejo.. tristonha e rude. Envenenava meu coração. Tanta era a saudade! Voltei do exílio. A Terra amarga..

Que de mim faça.” Pergunto à fonte. Somente a mágoa vem-me afagar. beijo o meu pranto. do teu querido. pergunto à ave. Há quantos dias que te procuro.. outro Jesus... Tudo é saudade no coração.Parnaso de Além-Túmulo Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus. De nos meus braços. Só noutra vida..Francisco Cândido Xavier . Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro. Um dos seus anjos. Mas tanto tempo faz que partiste. Outros meninos alegres vejo. mãe. te beijar. Quando regressas dos Céus supremos. Que te procuro chamando em vão!. que possui a luz.. Que sofro e choro. Tudo é silêncio tristonho e escuro. Que me fugiste sem me levar. Sem esperanças de te encontrar.. minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo. saudoso e triste. E me respondem em voz suave: 290 . Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! . Numa alegria terna e louçã. só noutra vida!. E abraço o espaço.

que mágoas soltas Andam cortando meu coração. E ela retruca. banhada em pranto. Quando é que voltas desse país. Ajoelhada. à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!. Vejo-te linda nos sonhos meus. consoladora: “Depois da morte serás feliz. no entretanto. Nem para dar-me consolação. e. do céu..” Pergunto à flor que engalana a aurora. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você. grave. . meu doce bem?” Ele responde. estás bonita 291 . ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais. E de mãos postas aos pés de Deus. Diz-me que vens e diz que te vê. mas. Tanta saudade. E me conforta.“ O mar e a noite me crucificam. Cheios de angústias..” Somente a nuvem.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo “Nós não sabemos! nós não sabemos!.. Ó mãe querida. Multiplicando meus pobres ais. Sempre a meus olhos.” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela. quando eu imploro. ai! não voltas.” Sempre te espero.

. Tremo de anseio. como um jasmim! Porém conheço que estás aflita. O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida. Para quem segue triste e sozinho. Já não suporto tantos cansaços!. entrego-me ao meu desejo.. Quanta amargura... Então. Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança 292 .. Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços.Parnaso de Além-Túmulo Qual uma rosa... Sentindo o anélito do teu beijo.. Volta depressa! guardo-te flores. Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho. Com o pensamento junto de mim. Foge comigo para outra luz!. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura. Junto da fonte que canta e ri.Francisco Cândido Xavier . calo. Se não voltares. sorrio.

com perseverança. ao gosto amargo. E ela chora. Chega-te a mim: sou tua irmã. a sua dor. 293 . Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Responde-lhe com brandura: – Meu filho. Eis que a Fortuna se lhe esconde. E passa o gozo. O seu destino. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. à luz dessa manhã. muito ao largo. Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador. Diz-lhe. E a fada. Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome. espera a ventura Com fé. Abre-lhe a porta.

Senhor.Parnaso de Além-Túmulo Oração A Ti. Confio e espero. Pedindo a luz. Pedindo o bem E a salvação. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão. De Ti eu quero Me aproximar! 294 . Meu coração Imerso em dor Aflito vem. somente. Sou eu. Pedir a quem.Francisco Cândido Xavier . Senão a Ti. O impenitente Na expiação. portanto. Em Ti.

Que me ensinaste E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse. A Ti. O Amor é a lei. No meu viver. 295 .Francisco Cândido Xavier . É porque andei Longe do Amor.Parnaso de Além-Túmulo Consolo santo. Se sofro e choro. Rogando amor. Para o meu pranto Venho implorar. Se me demoro No padecer. Senhor. Assim. Buscar os Céus. Senhor. Bem sei. Elevo a prece Do coração. Ditosamente. contente. Cheio de unção. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça.

Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação 296 . dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício. Acorre à Morte por dar-lhe a Vida. da bonança. Vaidosa e bela. E mais adiante topa a Desgraça. E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer... Mãe piedosa!. Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos.Parnaso de Além-Túmulo Fala à Ventura com riso irmão. E vem a Vida por dar-lhe a Dor. na existência. No esquecimento do próprio ser. Sublime estrela que brilha No céu da paz. Quando só pede luz e amor. Como perdida.Francisco Cândido Xavier . cansada e já comovida. Escolhe sempre flores do vício. e já sepultada. Depois. E entre as virtudes. E altiva e rude lhe esconde a mão.

Senhora. Dai paz a toda discórdia.Francisco Cândido Xavier . Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor. dos amargores. Sobre tanta desventura. Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade. dos desgraçados. Dos corações desolados Na aflição. Que sois a terna clemência 297 . dos oprimidos Deste vale de gemidos. Livrai-nos do abismo tredo Dos males. A vossa misericórdia. Protegei os pecadores No degredo. Que apavora. De tão grandes sofrimentos. Trégua à dor!. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos...Parnaso de Além-Túmulo Dos pobres. Estendei o vosso manto De bondade e de ternura. Deste mundo de tormentos. Compadecei-vos.

entre ovelhas desgarradas. Pois tendo ouvidos não ouvem. a nova aurora Luminosa e divina se levanta. Além da morte. Além Além da sepultura.. E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora..Francisco Cândido Xavier . O trabalho divino continua. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos.Parnaso de Além-Túmulo E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem. O coração tocado de agonias. E vendo não querem ver. Ó corações que a lágrima devora. E em vossa luta o bem de cada hora. Lá palpita a beleza onde a alma canta. Tende na vossa fé a bíblia santa. A luz do amor que vibra e revigora. a vida tumultua. Que a este mundo sucedem-se outros mundos. Que vos possam compreender. Prisioneiros da dor que fere e espanta. 298 .

. Do caminho de lágrimas sombrias. água do amor. Feliz o coração que espera e ora. em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade. Preces infindas e desesperadas. pura e divina. Demorando as vitórias do Evangelho.. Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas. 299 . Sobre as desolações do mundo velho. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além.. Dois milênios contando o grande ensino Do Amor. A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece.. o luminoso bem divino.Francisco Cândido Xavier .. Mas. Que suaviza os rigores da existência. Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência.Parnaso de Além-Túmulo O Mestre chora como Jeremias. pela oração profunda e imensa. Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina.. Vendo o mundo nas lutas condenadas.

Francisco Cândido Xavier . É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca. Que reside convosco em noite escura. estranho e aflito. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade. 300 . A prece alcança as bênçãos do Infinito. Vós que chorais ao coro das procelas. Nos caminhos translúcidos da Crença. Nunca olvideis a Excelsa Claridade.. Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto. Fraternidade Fraternidade é árvore bendita.Parnaso de Além-Túmulo Enquanto o mundo anseia. errante e aflita. Que habitaremos na Imortalidade. Rumo ao país ditoso da bonança. pura e infinita!. É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus.. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita.. A terra da união e do conforto. Vinde. irmãos! Desdobrai as vossas velas!..

Ó torturados corações humanos. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor. Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade. Nos caminhos da lágrima e da dor. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. Senda de paz e de felicidade. Tendes convosco a Chama Adormecida. Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos. É a escada de Jacob vencendo o abismo. Na luz das luzes do Consolador. Ante os desfiladeiros da impiedade.. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós.Francisco Cândido Xavier . Rogamos acendais a Luz da Vida. Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade. 301 ..Parnaso de Além-Túmulo Somos todos a Grande Humanidade. O Evangelho. Em direção à Fonte Eterna e Pura. Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz. Mas os túmulos falam pela estrada. na luz do Espiritismo.

amor e graça.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça. Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” 302 . Vós. Cheio de amor e grandeza. – “Deixai virem a mim os pequeninos!...Francisco Cândido Xavier . E exclama. Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? Por que não veio até nós. de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória. Pelos caminhos da imortalidade. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça.” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura. enquanto a turba observa e passa. que tendes a fé que ama e consola. Entre flores e alegrias. por que Jesus. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos. Na noite de Natal – “Minha mãe.

Que o Mestre da Caridade Mostrou.” 303 . sem proteção. Em terna melancolia: – “Por certo.. em tudo e por tudo. A luminosa humildade!. Jesus ficou Nas palhas. penso também Nos trabalhos deste mundo. meu filhinho.Parnaso de Além-Túmulo – “Acredito. Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração. Às vezes.. Concluiu com sentimento. de olhos fixos Na luz do céu que sorria.Francisco Cândido Xavier . Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe.

impetuoso político e grande orador.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. Não mais senzala hostil. escura e desumana. Na ansiedade e na dor. poeta. Mas a luz do Senhor não teme. e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade. A incompreensão do amor. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista.. combatendo a descrença. no entanto. . Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal. Erige a liberdade augusta e soberana. jornalista.. A alvorada feliz de um mundo livre e novo. encantado e divino. sublime. das graças do templo aos sarcasmos da rua. se engalana. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua..Francisco Cândido Xavier . membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Estado do Rio de Janeiro. Farmacêutico.. Irmãos do meu Brasil. aos 9 de outubro de 1853. além da noite que se adensa. nem recua. Descortinando. continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. E desencarnou a 29 de janeiro de 1905. E. romancista.

Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda. Volve ao sono cruel da tua carne obscura. E o seu grande mistério existe em toda parte.Francisco Cândido Xavier .. Aos homens Volta ao pó dos mortais. A vida é vibração ilimitada. Para depois ouvir a voz da sepultura. A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia. Tomé. o mais além da Terra. Perambula na dor da tua noite aziaga. depressa. . Musa amargurada.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 José Duro POETA português. Onde o sonho termina e a vida recomeça. deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”.. homem que vens. Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899. coloca as mãos na tua própria chaga. infinda.

onde perece o amor. então. voar para a mansão serena. Prisioneiro da mágoa. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena. Algum tempo eu sofri.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera.Francisco Cândido Xavier . agrilhoado ao mundo. E pude. 306 . E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja. a triste senda escura. Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte. Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada. Escravizado ao pranto. ao pé do corpo imundo. Onde fulgura o sol do verdadeiro amor.

Na luz dos sóis infinitos. no carinho Do pão espiritual. Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus. Seja o teu nome sublime. Evita-nos todo o mal. Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra. Que em todo o Universo exprime Concórdia. De paz e de claridade Na estrada da redenção. Perdoa-nos. Nos Céus. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade. meu Senhor. 307 . como em toda a Terra De luta e de sofrimento. Senhor. Dá-nos o pão no caminho. ternura e amor. que estás nos Céus.Francisco Cândido Xavier . Feito na luz.Parnaso de Além-Túmulo 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. Santificado.

308 ..Francisco Cândido Xavier . Auxilia-nos. Com a proteção de Jesus. Distante da vossa luz. Sobre o mundo de desterro. Onde se faça a vontade Do vosso amor.Parnaso de Além-Túmulo Os débitos tenebrosos. Nos sentimentos cristãos. também.. Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade. Assim seja. De passados escabrosos. De iniqüidade e de dor. A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem. Livra a nossa alma do erro.

ninguém .Francisco Cândido Xavier . O Esposo da Pobreza Francisco de Assis. pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho. E nas horas de repouso. sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo. faze-te esposo Da pobreza desvalida. Com este pseudônimo. ouve. Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. um dia. em 1871. nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. Buscando a paz da humildade. di-lo um comentador. principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor. Assim que deixara a orgia No castelo. A edição póstuma de Poesias exaltou. A santa luz da harmonia. notabilizou-se mais como romancista.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. Abandonara a vaidade. Entregou-se à Natureza. as suas qualidades primaciais de prosador. Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu. Francisco.

doce e pura. Bênção do Céu. E sobretudo. que não tecem. Que não fiam. Nos celeiros da fartura. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. Sedentos e esfomeados. 310 . Esquece as imperfeições! . A seiva misteriosa No seio dos vegetais. Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins..Francisco Cândido Xavier . Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. Vai. Quem alivia e consola. Que é a grande felicidade De todos os corações. Saltando de galho em galho.. Flagelados pela dor. As aves que não trabalham E no entanto se agasalham. conforta os desgraçados. inda via. Buscando a graça do orvalho.Parnaso de Além-Túmulo Vai aos Céus sem a bondade. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria.

então. Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza. Poema de singeleza Esplendente e delicada.Parnaso de Além-Túmulo A sacrossanta harmonia Do coração sofredor.. Fragrâncias. 311 . Submerso o coração Em sublimes alegrias. Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores. Que não tendo amor nem luz. Francisco de Assis. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas. Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. das margaridas.Francisco Cândido Xavier . Ornamentada de flores Que os meus encantos resume.. Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus. amenidade.

Parnaso de Além-Túmulo Aromas. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura. Tão cheia de desventura. As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia. 312 . alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando. As ovelhinhas balindo. Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura. Caridosa ventura No abril das almas irmãs. Ó Terra. Entretanto. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus. Nessa mesma primavera Dos rutilantes espaços. imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria.Francisco Cândido Xavier .

. Cantando.. Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas..Parnaso de Além-Túmulo Aves e anjos Passarinhos..Francisco Cândido Xavier .. anjos suaves. 313 . Vai-se com a luz misturando. Cantando.. Sorrindo.. Sorrindo.... Sorrindo. Açucenas perfumadas. Aconchegados nos ninhos. Com as pétalas orvalhadas. Crianças.. Lares de amor doce e brando. Cantando.. Hino terno de esperanças Das aves e das crianças.. Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo.. passarinhos.. Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores...

em 1931. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come. etc. Batatas. então. planta a cana. não tem paz. Silvio Romero. Luta e sua.Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade. o seu trabalho. Três quartas partes de tudo . É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo. feijão. Inda é espessa a escuridão. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro. couves. Pobres Mal clareia o Sol a serra. tudo faz. Planta o milho. Já chega de repousar!” Busca. corta os matos. Persegue-lhe a precisão. Machado de Assis. com 95 anos de idade. Sem descanso. Ao acordar. a labutar. Sua musa foi elogiada por Castilho. José de Alencar. A fome lhe bate à porta.Francisco Cândido Xavier . Ao levantar-se da cama. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito. Rasga a terra. Tudo ajeita.

Mas se quer repetições. Contudo. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. Quando a semente germina E os ramos querem crescer.Parnaso de Além-Túmulo Pertencem ao seu patrão. Redobra o pobre os serviços. Ah! que a água já está pouca Nos rios. resolve pedir 315 . O pobre nunca descrê. E sempre resignado. se sofre dor. As plantas já se amarelam. Que cuide dos mandiocais.Francisco Cândido Xavier . ele espera sempre Do Deus que o ama. Nada existe no paiol. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor. Não possui um só real Pra consultar um doutor. Espalha o pé nos gerais. Se geme. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover. O estômago pede mais. Arde a terra. queima o Sol. Quando o pobre vai à mesa. que o vê. Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. nos seringais. Então. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. Não vem a chuva. porém.

Francisco Cândido Xavier . Trabalha para comer. Dá-lhes porém seu tesouro. Não lhes pode dar a missa. 316 .Parnaso de Além-Túmulo Ao patrão que sempre o tem. Arrasta-se e vai ao médico E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender. Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor. Mesmo assim.” O pobre. Que o padre cobra demais. os pais. As promessas aos seus santos. Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar. Os vinhos de jatobá. Regressa para o seu lar. o chá. Que fulge no coração. quanta tortura. Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho. humilde e paciente. Mas o patrão avarento Não adianta vintém. E põe em prática os meios: As beberagens. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. Se tem pão não tem saúde.

Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. não tem Quem o ampare. A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. A casa faz alarido. Após a morte. 317 . ganha pau. Não tem casas de morada. Mormente dum rico mau. Que na treva lhe dá luz. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil. O braço amigo de alguém. Os cães o tocam da porta. ventura. Que o cura na enfermidade. Que o conforta na desgraça E ampara na provação.Francisco Cândido Xavier . Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. Mal do pobre se não fora. E em vez de pão. onde existem Justiça. Sextilhas Quando a morte chega em casa. Se bate à porta do rico. Nem terrenos. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. nem ovil. amor.Parnaso de Além-Túmulo Se tem saúde. O carinho dessa mão. quem o ajude.

Ela vem buscar alguém. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. Esteja distante ou perto.Francisco Cândido Xavier . De quem precisa por certo. Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime. Se pratica o mal ou o bem. Se tem pratas no baú. Não quer saber se ele tem. Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus. A morte não quer saber Se é preto como urubu. Não lhe pergunta qual é A sua religião. Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça. Ela vem buscar alguém. O povo está reunido Quando a morte chega em casa.Parnaso de Além-Túmulo Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é. A morte não quer saber. Pedro ou José É o seu nome de batismo. Se Sancho. 318 .

. O que segue vai com unção.Francisco Cândido Xavier . Nada disso a morte quer. Em atenções e conversas. Nem mulher bonita ou feia. Para a morte não existe Anéis de grau de doutor. Nem procura examinar. Nem homem alegre ou triste. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno. Para a morte não existe. para o rico Nunca tem contemplação. beleza e dor.Parnaso de Além-Túmulo Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre.. Não perde tempo em clamor. Saúde. Se esse alguém vai-se casar. Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído. Se tem pai e se tem mãe. Para o pobre. Ela vem de supetão Para o pobre. para o rico. 319 .

Nem tão boa coisa é. Com receio de ir ao fundo.Francisco Cândido Xavier . É ele mesmo quem faz.. Tateando dificilmente No meio da escuridão. Há quem estime? Talvez.Parnaso de Além-Túmulo O que segue vai com unção. Galeno sem nó. Mas para mim que só fui. Tantas dores em conjunto. Na tempestade ou na paz. De cá Que amargo era o meu destino!... galé. Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus. Sentir as disparidades 320 ... Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês. Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus... Viver na Terra e somente Remando contra a maré. Entremeados de prantos. Nem tão boa coisa é. Tristezas no coração..

Tantas misérias sentir. Já não é próprio de mim. Do Crato. Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão. Nem tão boa coisa é.Parnaso de Além-Túmulo Das vidas cheias de dor. Mas falar demais agora. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é. Nem tão boa coisa é. da ingratidão. Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim.. O mal sufocando o mundo. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé. Da treva.. Não é possível porque. Meus irmãos de Fortaleza.Francisco Cândido Xavier . do Canindé. Salta aqui. Nas guerras de toda parte. O pranto ferve na Terra.. Nas secas do Ceará. salta acolá. do desconforto. 321 . Pobre filho da ralé.. Da carne. Ver uns rindo e outros chorando.

Parnaso de Além-Túmulo Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé. 322 . Nem tão boa coisa é.Francisco Cândido Xavier . Jogar pérolas a tolos.

e desencarnou no Rio de Janeiro. deixou inúmeras obras. Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha.Francisco Cândido Xavier .. Professor e poeta. jubilosamente. densa e fria.Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865. .. Mas. Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E. em junho de 1950... revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!. ai! pobre de mim!.. Mundos celestes. Ao compasso do Amor e da Harmonia. reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço. Choro de amor. Surgem constelações do Novo Dia Muito longe da Terra descontente. esmagado de angústia e de carinho.. no Estado do Paraná.

Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora.Francisco Cândido Xavier . Latinista de prol. Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. Médico. agora. a seu tempo. em menina. A beleza profunda e peregrina. conta em sua bibliografia Poemetos. fora dos meios culturais. . jornalista. etc. 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas. vive em tudo. exceto uma senhora que. Flores Exóticas. e conquanto fosse intelectual de prol.Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. Sem as sombras das lutas desumanas. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século. é hoje um nome esquecido. Virgilianas. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. lhe assistira aos funerais. em Vassouras. Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora. Não mais a noite. onde ele tem precioso jazigo. oferecido pela população local. compositor musicista e tradutor renomado. Ébria de paz e de imortalidade. A alma vitoriosa entoa hosanas.

Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Não lamenteis quem parta ao fim do dia. 325 .

em 17 de fevereiro de 1845. vislumbrando a Imensidade. Noturnos. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. Da velhice nos dias mal vividos. Lírica. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Pairar no Além!.. e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade. Entre suas obras. Soluçando empolgado de ventura. que ainda hoje se lê com encanto. Foi jornalista. aos tempos bonançosos. volver ao lar primeiro. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos. Carimbos. nascido no Rio de Janeiro..Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro.. Soneto Na escuridão dos anos procelosos. etc. sobressai Sonetos e Rimas. Nas esteiras de prantos esquecidos. . Acharia nos céus maravilhosos. comediógrafo e diplomata. Ressurgido em perene mocidade.

Voltei. Nas carícias risonhas dos caminhos. e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos.Parnaso de Além-Túmulo Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia. Nova era a vida. Envoltos em ternuras e em carinhos.Francisco Cândido Xavier . 327 . Em revérberos lindos de alvorada. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada. Divinal era a luz que resplendia. De volta. nova a estrada Que minhalma extasiada percorria.

. além ainda... e vasta colaboração na Imprensa. Além ainda. Sara (poema). Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto. Bacharel em Direito. Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores. Aureolada de eternos resplendores. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos. conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes). . Na alvorada perene da harmonia. nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro.. ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho. membro da Academia Brasileira de Letras. Poeta de grande e viva inspiração. Desolado viajor. Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores.Francisco Cândido Xavier . em 1929.Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE. distante.....

naquela mesma cidade. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida. Foi um atormentado pelas enfermidades.. um terceiro: Agonias e Ressurreição. e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada. .Francisco Cândido Xavier . No estranho portal No último instante. Aos clarões imortais do Novo Dia. Estado do Rio. à rua dos Voluntários. aos 41 anos de idade. deixando..Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. Brilhando além da lápide sombria. Um golpe.. no começo do ano de 1918. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo. inédito. Publicou dois livros. onde colaborou em vários jornais. Residiu durante algum tempo na Capital Federal. e faleceu. Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória. Um sonho.. A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida. a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira.

É um deserto sem oásis. que é Pai bondoso. dar luzes. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu.. a ave. porém. Aqui o incluímos. O firmamento. os corações. Onde outras almas sentem fome e sede. Atenuar a dor alheia. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor. as alvoradas. Ler a sua epopéia feita de astros. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida. Ter a bondade ingênua das crianças. . Tudo o que nos rodeia. Dar sorrisos. Para que o multiplicássemos indefinidamente. Agradecer a Deus. de justiça.Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se. atenta a magnitude do seu estro. A vida é o eterno bem que nos foi dado.. Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz.Francisco Cândido Xavier . o luar. E a alma que se abandona. Sorrir aos infelizes. dar carícias. Ao sofrimento ou ao bem-estar.

Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter. Terras e almas..Parnaso de Além-Túmulo Dar tudo quanto temos.. Dar a lição de paciência se sofremos. Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador.Francisco Cândido Xavier . Infinitas e esplendorosas. Porque os nossos espíritos São unos na essência. Dar um pouco de gozo se gozamos. Unidade Todos nós somos irmãos. Tudo isto é amar multiplicando a vida. 331 .. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes.. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares. Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares. Que se estende infinita no Infinito. E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos.

pois. A mesma dor na luta A prol da redenção. 332 . Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. Sem egoísmos. por uma disposição inexplicável. Vivereis dentro de sagrados coletivismos. da Terra O caminho comum da vossa salvação. O qual. Espiritualmente. Todos nós somos irmãos. Somos filhos de um só Pai. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica. Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus. mais além Das fronteiras planetárias.Parnaso de Além-Túmulo As quais no divino equilíbrio do Amor Buscam a perfeição indefinida.Francisco Cândido Xavier . Encerra em si Todos os mundos. O mesmo sonho. Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei. Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito. Porquanto.

Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira. Como incontáveis são as almas humanas. do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo. E infinitos seus estados de consciência. Banha-te nas suas águas cristalinas. .“ “Filha – respondeu compassivo –.. Pela porta escura do remorso. Lá dentro. “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso.. 333 .Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis. Só há um recurso: Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas.Francisco Cândido Xavier . Tão amargos pesares.. Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo. Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. Pontificava o Anjo da Justiça.. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!.. Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz. Para sanar tão estranhas feridas.

de cuja fonte límpida promana a Salvação. E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. Banhou-se na água lustral dos tormentos. Conduzida pela Dor..Francisco Cândido Xavier . E nos seus braços magnânimos e compassivos. E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!. Apegai-vos a Ele. cheios de confiança! 334 . Submergiu-se no regato encantado. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção...” E a pobre regressou. Reconheceu o luminoso Anjo da Dor. A fonte que desaltera todos os sofredores. O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas. E ainda hoje.Parnaso de Além-Túmulo Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos. O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes. Inçados de perigos E de dores amargas. Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino. É para a Humanidade A promessa da Paz. Nos dias amargurados que transcorrem....

. Acima de todas as coisas transitórias. Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte. Dos prantos e das provações remissoras!. Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra. És alma em ascensão para Deus. Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol.. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual... Ouvi a sua voz No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos. A tua inteligência e o teu sentimento 335 .Parnaso de Além-Túmulo Ele é a misericórdia personificada. O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem. Longe das lágrimas Do orbe obscuro. A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes.Francisco Cândido Xavier .

Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram. – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza.Parnaso de Além-Túmulo São fulcros de luz imperecível. E sentirás uma carícia branda. suave.. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. Buscando Deus. Que sonham e choram. 336 . No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!.Francisco Cândido Xavier . Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor. Misteriosa.. Na amargura e na dor. Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos. doce.

Se tens a Fé mais pura. Mas um dia. Na sombra silenciosa dos mosteiros. Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas. Juraste fidelidade só a Deus.. Disse-me alguém: “Minha filha. Destruí-las com Amor. Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração. Esmagá-las com o Bem. Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas. Não te esqueças que a Caridade. Está sempre em meio às tentações Para vencê-las. Se ama a prece e a pureza. do repouso. Não permanece No recanto das sombras.Parnaso de Além-Túmulo Ao pé do altar Eu vivia no Claustro. A Esperança mais linda. 337 . O anjo que nos abre as portas da Ventura.Francisco Cândido Xavier . Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo..

Desprezando o repouso e a soledade. E só a dor que nos crucia 338 . Sê a mãe desvelada. Que contigo é seu filho dileto. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas. a tua alma Amando o próximo. Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o. Não te retires. Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria.Francisco Cândido Xavier . A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. brandamente.. Será um hino constante subindo aos Céus. A irmã consoladora. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus. pois. Atraída pela Verdade. Dos mais rudes pesares. A tua esperança em Deus Será dilatada. sem reserva. Sê a abnegação e a bondade serena. do mundo. Darás a Deus.. Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas.Parnaso de Além-Túmulo A solidão da cela é um crime.

E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente. Vertidos na corola imensa das dores. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas. Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras. Espezinhadas pelo sofrimento. Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria. Amarguradas e infelizes. Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos. – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura. Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado.Parnaso de Além-Túmulo Ou a dor que consolamos. Estendendo os seus braços tutelares 339 .Francisco Cândido Xavier . Fustigadas pelo furacão da desgraça. atropeladas pelo mal. Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições.

que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio.. Balsamizando os pesares. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo.Francisco Cândido Xavier . Ao seu olhar compassivo. sobretudo. Veleje tranqüilamente. Com as suas velas alvas e pandas. Levando-nos ao Céu.. A Virgem da Pureza 340 . E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade. pois. Porque se apegaram A âncora da Fé. É. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas. Maria é o anjo. Que nos ampara e guia em nossa cruz.Parnaso de Além-Túmulo Às mães carinhosas e desprotegidas. E sendo o arrimo de todas as criaturas. Para que o Brigue da Esperança. Como náufragos de uma tormenta gigantesca. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras. Buscando o porto esperado com ânsia. Lenindo os padeceres Das mães desoladas.

Parnaso de Além-Túmulo – Mãe das mães.Francisco Cândido Xavier . 341 .

Da beleza do herói ao verme pequenino. brunindo a vida eterna!.. Júbilo de ajudar. e desencarnou em 1926. Tudo se agita e vibra. Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa.Francisco Cândido Xavier . por si. Trabalha e serve sempre. no Estado do Rio Grande do Sul. em cântico divino Do trabalho imortal.Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858. Que o trabalho. Tudo na imensidão é serviço opulento. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna. . é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito. alheio à recompensa.. Buscando a solução da dor e do destino. Desde o fulcro solar ao fundo da caverna. Autor de inúmeras obras literárias. luta e contentamento. Desde a flor da montanha às trevas do granito.

E debaixo do apodo e ensangüentada a face. Jesus! Jesus!.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta. A multidão inteira. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema.... Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras.. que trêmula se entrega. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918.. ao seu tempo.Francisco Cândido Xavier .. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado.. Para a consumação dos festins do pecado. implacável e cega. – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. “Crucificai-o!” – exclama. Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema. inquire o brado Da justiça sem Deus. Considerado. . Surda à lição do amor. ansiosa se congrega. Jesus!. o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado..

No derradeiro sono. de Paz e de Alegria. Impassível.” – dizia. duríssimo e refece. Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia. em prece. cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!. inquire. Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios.. 344 . E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais. no teu portal a alma tateia. em sombrios Pesadelos da carne palpitante. Morte.. Espia. Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas. meu Pai. afastai-o!. sonda e chora.Francisco Cândido Xavier . vacilante. Mas eis que todo o Azul celígeno estremece. Jesus fitando os céus. descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante. No Horto Tristemente. instante a instante. – “Se puderdes. Sobre o meu peito em febre.

” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: . murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!. Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos.. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte. eu vos dou meus últimos ensinos.“Amados. osculando-lhe a fronte. a multidão fremente. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura. – Raio de eterno sol na senda dos destinos. Na doce mansidão dos seres pequeninos.. E Jesus abençoando aquelas almas cegas.. Mestre!” E toma-lhe das mãos.. da cruz.. E sublime na fé mais vivida.Parnaso de Além-Túmulo Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora. 345 .. de dor e desventura. A crucificação Fita o Mestre.Francisco Cândido Xavier . Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição.

Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. Sem a idéia falas do grande Nada. Alma doce e submissa. Gritos e altercações! Jesus. As hostes dos descrentes e dos loucos. E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes. sem cárcere mesquinho! 346 . E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem. Contempla a vastidão celeste que o reclama. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença. derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente.. Começai outra vida em nova estrada. amargamente. envenena e mata aos poucos. não sabem o que fazem!. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. Sobre tudo se estende o raio dessa chama. Sob os gládios da dor aspérrima. Soluça no silêncio. que seguis a turba desvairada. Que entorpece. meu Pai. .Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo A negra multidão de seres que ainda ama.“ Aos descrentes Vós. Retrocedei dos vossos mundos ocos. Lança os marcos da luz na noite primitiva. Da fé viva.

adora.. 347 .. Mas que o homem realiza apenas.Parnaso de Além-Túmulo Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. Sente o beijo de glória do Infinito!. brancos os cabelos.Francisco Cândido Xavier . Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que. Guardadas com ternura. anela e sente. onde a esperança sem repouso Luta. Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza.. Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza. Aspirações do mundo miserando. ansioso. com desvelos. Nas lágrimas de dor do peito aflito!. quando. Rotas as carnes. Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo.. É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. e sonha presa. sofre e soluça.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Tombe no caos do nada, em túrgida surpresa,
O que o homem pensou num sonho de demente,
Os mistérios da fé, fulcro de luz potente,
O templo, o lar, a lei, os tronos e a realeza;
Estertore e soluce exausto e moribundo,
Debilmente pulsando, o coração do mundo,
Morto à mingua de luz, ambicionando a glória;
O Espírito imortal, depois das derrocadas,
Numa ressurreição de eternas alvoradas,
Subirá para Deus num canto de vitória.

O Livro
Ei-lo! Facho de amor que, redivivo, assoma
Desde a taba feroz em folhas de granito,
Da Índia misteriosa e dos louros do Egito
Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma!
Vaso revelador retendo o excelso aroma
Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito,
O Livro é o coração do tempo no Infinito,
Em que a idéia imortal se renova e retoma.
Companheiro fiel da virtude e da História,
Guia das gerações na vida transitória,
É o nume apostolar que governa o destino;
Com Hermes e Moisés, com Zoroastro e Buda,
Pensa, corrige, ensina, experimenta, estuda,

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E brilha com Jesus no Evangelho Divino.

Brasil
Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça,
Da virtude ateniense à grandeza espartana,
O anjo triste da paz chora e se desengana,
Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,
Tribos, tronos, nações... tudo se esfuma e passa.
Mas o torvo dragão da guerra soberana
Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana,
Disputando o poder e denegrindo a raça.
Eis, porém, que o Senhor, na América nascente,
Acende nova luz em novo continente
Para a restauração do homem exausto e velho.
E aparece o Brasil que, valoroso, avança,
Encerrando consigo, em láureas de esperança,
O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Pedro de Alcântara
O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos, que, bem o sabemos, há quem diga não serem da sua lavra. Ignoramos por que
Dom Pedro 2º, alma boníssima, vibrátil e espírito culto, não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos, a
ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta
aos 20 anos. De qualquer forma, entretanto, o que se não poderá
negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que, de Dom
Pedro, conhecemos.

Meu Brasil
Longe do meu Brasil, triste e saudoso,
Bastas vezes sentia, mal desperto,
Com o coração pulsando, estar já perto
Do pátrio lar risonho e bonançoso.
E deplorava o rumo escuro e incerto,
Do meu desterro amargo e desditoso,
Desalentado e fraco, sem repouso,
O coração em úlceras aberto.
Enviava, a chorar, na aura fagueira,
Minhas recordações em terna prece
Ao torrão que adorara a vida inteira;
Até que a acerba dor, enfim, pudesse
Arrebatar-me à vida verdadeira.
Onde a luz da verdade resplandece.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

No exílio
Pode o céu do desterro ser tão belo,
Quanto o céu do país em que nascemos;
Nada faz com que o nosso desprezemos,
Acalentando o sonho de revê-lo.
Todo o nosso ideal pomos no anelo
De regressar, e voando sobre extremos,
Com o pensamento ansioso percorremos
Nosso amado rincão, lindo ou singelo.
Jaz no desterro a plaga da amargura,
De acerba pena ao pobre penitente,
De amaro pranto da alma torturada;
A alegria no exílio é desventura,
É a saudade na ânsia mais pungente
De retornar à pátria idolatrada.

Rogativa
Magnânimo Senhor que os orbes cria,
Povoando o Universo ilimitado,
Que dá pão ao faminto e ao desgraçado,
E ao sofredor os raios da alegria,
Se, de novo, no mundo, desterrado,
Necessitar viver inda algum dia,
Que regresse ditoso ao solo amado
Da generosa pátria que eu queria;

351

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Se é mister retornar a um novo exílio,
Seja o Brasil, lá onde eu desejara
Ter vertido o meu pranto derradeiro...
Que, novamente viva sob o brilho,
Da mesma luz gloriosa que eu amara,
Na alcandorada terra do Cruzeiro.

Soneto
No exílio é que a alma vive da lembrança,
Numa doce saudade enternecida,
Tendo chorosa a vista que se cansa
De procurar a pátria estremecida;
Com dolorosas lágrimas avança,
Do sonho que teceu e amou na vida,
Para a morte, onde tem sua esperança,
Na celeste ventura prometida.
E Deus, que os orbes cria, generoso,
Na vastidão dos céus iluminados,
Concede a paz ao triste e ao desditoso
Na clara luz dos mundos elevados,
Onde, do amor, reserva o eterno gozo
Para as almas dos pobres desterrados.

Página de gratidão
Tangendo as cordas da harpa da saudade,

352

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Venho ao Brasil buscar a essência pura
Do amor da pátria minha, da doçura
Da flor cheia do aroma da amizade.
Prende-me o coração a suavidade
Desse arroubo de afeto e de ternura
D'alma do povo meu, que de ventura
E de alegria o espírito me invade.
Do misterioso aquém da morte, eu vejo,
Sentindo, essa onda intensa e luminosa
Da afeição, que idealiza o meu desejo:
E tendo a gratidão por companheira,
Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa,
Amando mais a Terra Brasileira.

Oração ao Cruzeiro
(No cinqüentenário da Abolição)
Luminosas estrelas do Cruzeiro,
Iluminai a terra da Esperança,
Na doce proteção de um povo inteiro
Onde a mão de Jesus desce e descansa.
Símbolo sacrossanto de aliança
De paz e amor do Eterno Pegureiro,
Guardai as claridades da Bonança
Na vastidão do solo brasileiro.
Constelação da Cruz, cheia de graças,

353

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Transfundi numa só todas as raças,
No país da esperança e da bondade.
Que o Brasil, sob a luz da tua glória,
Possa escrever, no mundo, a grande história
Das epopéias da Fraternidade.

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil, símbolo da bonança,
Enquanto a guerra estruje indômita e sombria,
Sê nos planos de luta o sinal de harmonia,
Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança.
Assinalas, na Terra, o país da Alegria,
Onde toda a existência é um hino de abastança,
Guardas contigo a luz da bem-aventurança,
És o florão da paz, marcando um novo dia.
Nasceste sob a luz de um bem, alto e fecundo,
Nunca te conspurcaste aos embates do mundo,
Buscando iluminar as lutas, ao vivê-las...
É por isso que Deus, que te ampara e equilibra,
Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra,
E um coração azul, esmaltado de estrelas.

Brasil do Bem
Eis que o campo de sombra se esfacela
No doloroso e amargo cativeiro

354

.Parnaso de Além-Túmulo Da guerra que ameaça o mundo inteiro. Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança. Meu Brasil. Deus te guarde os tesouros da esperança. Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade. Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante.. Aniquilando a Paz do mundo inteiro. Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança. Qual furacão no auge da procela. Como a doce promessa nos caminhos!. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa.Francisco Cândido Xavier . Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança. 355 . Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro. Grande Brasil do Bem e da Abastança. guarda a luz dessa vitória. Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro. heróica e bela.

Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho.Francisco Cândido Xavier . 356 . Faze o bem. do Amor e da Verdade.Parnaso de Além-Túmulo Ama a Deus.

..Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859. qual se encontrasse A luz primeira dos primeiros dias. Magistrado.. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911. se a Terra tivesse o amor. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração. Sonetos 1 Tudo passa no mundo.. litoral do Maranhão. À frouxa luz de uma ventura escassa... Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas. sob os atropelos Da dor que lhe envenena o sonho e a graça. E vê morrer seus ideais mais belos!. membro da Academia Brasileira de Letras. 2 Ah!. se cada . das ilusões desfeitas. porém. Rasga-se a fantasia que o enlaça. Depois do pesadelo das mãos frias. além de justo e bom. O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos. chora e sorri.Francisco Cândido Xavier . Chora. Longe. E como o anjinho débil que renasce. na baía de Mangunça. O homem passa Atrás dos anos sem compreendê-los. Sob o infortúnio. a bordo do vapor São Luiz.

. 358 .Francisco Cândido Xavier . Se na estrada Do contraste e da dor houvesse o anseio Do bem. Que jamais viu um raio de alvorada Dentro da noite eterna que lhe veio Do sofrimento que ninguém conhece. Entre os hinos da paz e da alegria.. se cada seio De mãe nutrisse os órfãos.Parnaso de Além-Túmulo Homem pensasse no tormento alheio... que ampara a vida torturada. Ah! se os homens se amassem nessa estância A dor então desapareceria.. Se tudo fosse amor.. A existência seria a ardente prece Erguida a Deus do seio da abundância.

Luta Aí na Terra. Para cá do sepulcro a dor antiga. dedicada a Olavo Bilac. A febre das paixões desaparece. Além de Ode a um Poeta Morto. Bacharel em Direito. a sua afirmativa nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais fulgurantes. deixou Luz Mediterrânea. nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado em Itaipava. a fadiga. Onde o suposto gozo se estraçalha Sob o guante acerado das provanças. Entre os talentos da chamada nova geração. mesmo após a morte. Mas a luta infinita continua. de quem foi amigo dileto. Mas. com apenas 31 anos de idade. Que nos traz o desânimo. . Além te espera indômita batalha. quando pensas que descansas.Parnaso de Além-Túmulo 359 52 Raul de Leoni FLUMINENSE. O Espírito a si mesmo reconhece. considerada como seu livro de ouro. Sob a luz da verdade se atenua.Francisco Cândido Xavier . as bem-aventuranças São o sonho que o Espírito agasalha. foi deputado estadual e posteriormente Secretário de Legação. Muita vez. a alma trabalha Buscando o céu das suas esperanças.

a alma pura. trabalha e espera. Julgando-se na eterna primavera. É quando o nosso Espírito se ilude. 360 . Soneto Não te entregues na Terra à indiferença. E ao tombarmos no ocaso da existência. Mas o tempo na sua mansuetude. a alma sincera. Ao colhermos a flor da juventude. Como somos felizes.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra Renascendo no mundo da Quimera.. O desejo do Bem dilata a esfera Das luzes sacratíssimas da Crença. No pensamento nobre persevera De servir. Dentro da expiação estranha e rude. Cheio de amor e fé. quanta agonia! Mas se o bem praticamos todo o dia. Se vivemos no mal. nada há que vença A alma boa. Nós revemos do livro da consciência Os caracteres grandes. luminosos!. venturosos!. Pelas sendas da vida nos espera.Francisco Cândido Xavier .. Nos domínios do mal. Junto à dor que esclarece e regenera. sempre alheio à recompensa.

Buscando o Indefinível. 361 . Deus. Em Deus buscando a Perfeição que mora No cume inatingível dos Espaços!.. Nós todos vamos pela vida em fora Deixando no caminho os mesmos traços. Cada instante de dor nos aprimora. a vida calma. Que procura tolher os nossos passos. Aspirando os olores da Pureza!. O Sonho imanta as nossas almas. que é o Amor eterno e ilimitado E a gloriosa síntese de tudo. Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo. o Insondado. Jamais medonha e trágica surpresa.. Nós.Parnaso de Além-Túmulo Vive nas rutilantes almenaras Dos castelos do Amor de essências raras.. “Post mortem” Depois da morte. Terás na Terra. E a morte não será. então.. Heróis de novas lendas carlovíngias.. para a tua alma. Desatando os grilhões. rompendo os laços Dessa animalidade atrasadora... tudo aqui subsiste. cinge-as..Francisco Cândido Xavier .

Do conforto celeste os bens supremos Ao coração desalentado e triste. torvo e nefando. Para que brilhe a Perfeição da Vida.. Vamos passando assim a vida inteira. Não faltaria o gozo que promana Dos sentimentos da missão cumprida. Presa dessa vaidade toda humana.Francisco Cândido Xavier . E a Morte continua eliminando A influência do mal. irreprimida. Também existe aqui a austera pena A consciência infeliz que se condena. A fé demolidora de montanhas.. Por qualquer erro ou falta cometida. Soneto Se todos nós soubéssemos na vida A Verdade grandiosa e soberana. Doce consolação. Sem esposar a crença imorredoura. 362 . que entrevemos. De desgraças e de erros se engalana Numa incerteza amarga. Quando a nossa alma chora nos extremos Dessa dor que no mundo nos assiste. existe Aos amargosos prantos que vertemos. porém.Parnaso de Além-Túmulo Neste Além que sonhamos. Mas na Terra a nossa alma empobrecida.

Francisco Cândido Xavier . Sem vislumbrar a luz orientadora...Parnaso de Além-Túmulo Quase imersos na treva da cegueira. Nessa noite de dúvidas estranhas!. 363 .

Estás no templo de todas as religiões. Nunca pude enxergar As Tuas mãos suaves e misericordiosas.Francisco Cândido Xavier .. Publicou Casa Destelhada. tuberculoso. Onde busquem Teus carinhos As almas sofredoras. . Estás na direção dos homens. Senhor! Eu não pude ver-Te. Onde gemiam as dores e as misérias da Terra. Nos bem-aventurados do mundo. Senhor. Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome. em Campos do Jordão. É que Te achavas. Em todos os caminhos de suas atividades terrestres. e desencarnado. Vi-te. Noturnos e Sala dos Passos Perdidos. além de inúmeros trabalhos esparsos na imprensa do seu Estado. aos 24 de novembro de 1927. Foi cognominado – “o poeta triste das rimas róseas”. Consolando os aflitos e os desesperados. Trazendo a visão doce do Céu Para o olhar angustioso de todas as esperanças. Nos caminhos mais rudes e espinhosos. como ainda Te encontras. Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi. meu Senhor.. São Paulo. a 17 de setembro de 1899.Parnaso de Além-Túmulo 364 53 Rodrigues de Abreu POETA nascido em Capivari. E a verdade.

Multiplicaste o pão das minhas alegrias E abriste-me o Céu. Mocidade. Com o verbo silencioso do Teu amor. Iluminando o santuário do meu pensamento Com a Tua luz de todos os séculos! Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha. Quando Te vi na paz da Natureza. Entretanto. Curando-me com a Dor. .. Inquietação ambiciosa de vencer..... Com a mansidão de Tua misericórdia infinita. Nas Tuas maravilhas de beleza. Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os homens. sonho e amor. Chamaste-me sem exclamações lamentosas. que a Terra fechara dentro de minhalma. E entendi-Te. Vi que chegavas devagarinho. porém. Senhor.Francisco Cândido Xavier . De Tua assistência invisível e poderosa. Cheia de piedade para com as suas fraquezas. Não disseste o meu nome para não me ofender.Parnaso de Além-Túmulo 365 Sem que eles se apercebam De Tua palavra silenciosa e renovadora. alegria. E minha vida rolava no declive de todas as ânsias. E não Te encontrava pelos caminhos ásperos. Chamaste-me.. E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo.

Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes..Parnaso de Além-Túmulo No Castelo encantado Eu ainda não era um homem. Tudo esqueci. E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas. Tudo sonhei contemplando o horizonte!.” “Ave Maria.Francisco Cândido Xavier . onde quase todos os frutos apodrecem.. Quando subi aos elevados promontórios da esperança. Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão. Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos.. cheia de graças. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: 366 . O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória.. por infelicidade. Na embriaguez da ansiedade e do desejo. Na inquietação da carne e do desejo. Gotas de mel.” Gotas do mel de amor... Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma. Divisando os países da beleza. do coração.. E quando quebrava os últimos altares.. Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus. palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu.

..Parnaso de Além-Túmulo “A sombra da ilusão envenena-te a vida. de tal maneira. 367 . Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento. Deu-me as sombras dos Campos do Jordão. Fez fugir-se-me a noiva idolatrada. Afastou-me a alegria da saúde. a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra. “Guarda as minhas verdades. “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados. “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira.. Trago-te o pão dos grandes amargores. afoitamente.. “Sou a Dor. desde esse momento.Francisco Cândido Xavier . meu amigo. Fez de meu sonho a casa destelhada. ficarei sempre contigo. E. Deixou-me só na lôbrega jornada. “Irás comigo a mundos ignorados. Que a senti junto a mim. Casou-se comigo a Dor. Apodreceu meu coração em sua mão. Na minha estrada de alegria....” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia. Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia. “Eu corrijo as paisagens interiores.

. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! 368 .. Cala-se o meu verso humilde. Nas grandezas de Tua claridade. meu Senhor. Sustentando a infeliz Humanidade. A cuja sombra o espírito descansa..Francisco Cândido Xavier .. meu Senhor. Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!. Pela sua porta estreita.Parnaso de Além-Túmulo Crestou-me a flor ditosa da alegria.. bom e fecundo.. Mas oh! suave milagre de ventura. Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo... E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente. O único fruto eterno. Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença. Tudo levou-me a dor incontentada. Enxergando na tamareira da esperança. ó Senhor de Bondade. Pelos desertos áridos do mundo. doce e balsâmica da crença. Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

369

54
Souza Caldas
NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro, em 1762, e aí desencarnado em 1814. Formado em Direito pela Universidade de
Coimbra, abraçou mais tarde a carreira eclesiástica, ordenando-se
em Roma. Dizem que as suas melhores composições, as que o
levaram a ser preso pelo Santo Ofício, perderam-se. Acreditamos
que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos
Salmos de David, justamente, de suas obras poéticas, a mais
apreciada.

Ato de contrição
A vós
Senhor,
Meu Deus
De Amor,
Minhalma
Implora
A salvação!
Meu Pai,
Bem sei
Que mal
Andei,
Buscando
O erro
E a imperfeição;
Assim

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Pequei,
Na treva
Errei,
E jus
Eu fiz
A expiação.
Vós sois,
Porém,
Farol
Do Bem!
Ouvi
Dos Céus
Minha oração.
Sois vós
A luz,
E junto
A cruz
Do meu
Sofrer,
Quero o perdão;
Perdão
Que traz
Sossego
E paz
Ao meu
Viver
Na provação.
Suplico-o
A vós,

370

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Na dor
Atroz,
Amara
E rude
Da contrição!
Dai ao
Meu ser,
Aflito
Ao ver
O seu
Pecado,
A redenção;
E hei de
Poder
Feliz
Vencer
Do mal
Cruel
O atroz dragão!

Versão do Salmo 12
Senhor dos Mundos, na Terra inteira,
Os maus somente é que dominam,
Rudes tiranos e os impiedosos
De coração.
Ganham favores, buscam louvores,
Espezinhando seus semelhantes,
Tripudiando nas vossas leis,

371

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ímpios que são.
Causam a ruína da vossa casa,
Lançam injúrias ao vosso nome,
Adoradores da iniqüidade,
Da imperfeição.
Vossas ovelhas são confundidas,
E sufocadas pelo amargor,
Fracas e pobres andam saudosas,
Do vosso amor.
São elas todas, pobres e humildes,
Glorificai-as, meu Criador!
Alevantai-as do abismo escuro
Com a vossa luz!
Vossa bondade, imensa e eterna,
É a esperança dos pecadores;
Pai amoroso, salvai os homens,
Confio em vós!

Versão do Salmo 18
Por toda a parte
Veja a criatura,
Na noite escura
Da sua dor,
A eterna força
De um Deus clemente,
Onipotente,
Cheio de amor.

372

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Astros e mundos
No céu girando,
Aves cantando,
O mar e a flor,
Todos os seres
Hinos entoem,
Cantos ressoem
Ao Criador!
Eterno Artífice
Que os sóis modela,
Lustres da auréola
Da Criação,
Sois a bondade
A mais perfeita,
A Luz Eleita,
A salvação.
Doce refúgio
Dos desgraçados,
Aos meus pecados,
Muitos que são,
Imploro e clamo,
Com o meu espírito
Turbado e aflito,
Vosso perdão.
Que desprezei
O ouro brilhante,
Lindo e faiscante,
Bem sei, Senhor!
Como fugi
Da hora fugace
Que me afastasse
Do vosso amor!
Mas bem sabeis

373

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que a carne impura
Leva a criatura
A mais pecar;
Fazendo assim
Pra meu tormento,
Meu pensamento
Prevaricar.
Porém, o vosso
Amor profundo
Redime o mundo
Do padecer;
Dando-lhe o tempo
E áspera lida
Para na vida
Tudo vencer.
Vós que acendestes
Faróis brilhantes,
Sóis rutilantes
Dalmo esplendor,
Cantando a vida,
A onipotência
E a pura essência
Do vosso amor!
Que sois o sol
Dos universos,
Mundos dispersos
Na imensidão.
Além da força
Vós sois, também,
O sumo bem
E a perfeição
Que vence o mal,
O orgulho e a dor,

374

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que o pecador
No coração
Guarda com zelo,
Cruéis inimigos,
Que são amigos
Da perdição.
Misericórdia,
Assim espero,
Almejo e quero
Para que eu
E os meus irmãos
O mal deixemos
E abandonemos
Buscando o Céu.
Por vossa causa
O maior gozo,
Esplendoroso,
Desprezarei,
Para que eu viva
Na luz fulgente,
Eternamente,
Da vossa lei.
Assim, Senhor,
Minhalma aguarda
A luz que tarda
Ao mundo vão,
Que há de esplender
Nos homens todos,
Limpando os lodos
Da imperfeição.
Dominareis
Toda a impiedade
Pela verdade

375

Amparo e luz! 376 . servo.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Que em vós transluz! E. aguardo Do vosso amor Consolo à dor.

dos meus anos.Parnaso de Além-Túmulo 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos. Pois no mundo pequeno da minhalma. Viu as almas tremerem.Francisco Cândido Xavier . Não que eu fosse infeliz e desditoso. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida. 377 . Afastado do Puro e do Perfeito. Encontrei o prazer pelos espinhos. Sob o peso da própria iniqüidade. Ao trilhar os carreiros dos tormentos. E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. Coração enganado. alma iludida. Se eu quisesse gozar. teria o gozo. O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas. Pois fui também humano entre os humanos. desditosas. E através dos meus dias. na aspereza dos caminhos. Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram.

Em torno dirigia Um último olhar. destruidoras. entre cansaços.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Quando em dor me envolvia a desventura. Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso. Agonizava o senhor Dos domínios extensos. Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista. Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas. E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar. Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz. 378 . Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis. O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia. bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor.

Que ninguém acudisse ao seu chamado. A exclamar. E em espasmos convulsos. A sua alma despida das grandezas. Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores. Tomado de energia. entretanto. Reclamou os seus servos com calor E. Somente. Mergulhado no pranto mais profundo. E em atitude austera. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores. Expirou para o mundo O nobre castelão. às vezes... Estranhou revoltado. Imerso em turvação. efêmeras realezas. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho 379 .Francisco Cândido Xavier . De cólera severa Já que ele era o senhor. Opresso o coração. Bem após o transcurso de alguns anos De triste letargia.Parnaso de Além-Túmulo Martirizando as almas sofredoras. Das terrenas. derradeiros. Contemplou seus tesouros passageiros. nenhum lhe obedecia.

Parnaso de Além-Túmulo Em ser incompreendido.. Todavia. Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações. Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim. De contínuos pesares e agonias. constantemente. Que hoje te envolvem os lúridos momentos 380 . Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena.. E cheio de fervor. De luz confortadora. Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade E lhe dizia Da beleza do Amor. No auge do amargor.Francisco Cândido Xavier . da Luz do Bem: – “O que sofres. Durante o transcorrer de muitos dias. é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. Humilde penitente. Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz. O pobre sofredor. amigo. Penetrada de doce claridade.

Pelas estradas rudes e espinhosas! 381 .. Jamais vestiste os nus. E permite que voltes aos humanos. Voltarás. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém. a todo o instante. O sentimento-luz.Parnaso de Além-Túmulo Em rudes sofrimentos E estranhas maldições. Conhecerás As dores e amarguras. já não terás Efêmeras venturas. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor. Porém. nem consolaste Aquele que sofria. Serás agora escravo e não senhor.. a flor-tesouro.Francisco Cândido Xavier . Para que se dissipem teus enganos No amargor. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo. Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. As mágoas escabrosas.

Parnaso de Além-Túmulo Abençoa o Senhor Que te concede a dor. sobe. A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia. De alegria perfeita. Transformados em notas musicais. fulguram sóis..... A ventura. Além. 382 .” Nesga de Céu A alma extasiada Sobe..Francisco Cândido Xavier ... o fulgor.. Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais. De alegria. Não residem no Mal e sim no Bem. Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm. Como se fora feita De luar.

Nesgas do céu. De pureza. A Via-Láctea transluz. onde a vida É a imortalidade Anelada. Que amou. De perfeição e de felicidade! 383 .Francisco Cândido Xavier . de beleza. radiantes. Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos.. Nos espaços sem termos. que padeceu. O mundo É um ponto negro que gira. Ao longe.. Sorridentes. imagens de esplendor. Aos clarões dessa aurora. querida. Cenários majestosos. E lembra-se que sofreu. muito ao longe. flutuantes. mais além. Ainda além. A alma chora Em êxtase profundo.Parnaso de Além-Túmulo Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis. Como um éden de luz E de amor.

Com os pensamentos puros e radiosos. Em cima..Francisco Cândido Xavier . Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado.. aroma!.Parnaso de Além-Túmulo Em baixo as vastidões. Intérmina de gozos!. Da mais pura alegria. Mas cada gota amarga dos seus prantos 384 . de sonho. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera. Feito de éter.. Melodia.. Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. as emoções Do ilimitado. Recamado de flores perfumosas. em frente. Como um país de doce primavera. A alma se extasia Na luz do Eterno Dia. Vidas de estranha dor. Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas.. Um futuro esplendente Pintalgado de rosas. luz.. E. O caminho é risonho.

Chorando. Em suavíssima unção. A pobre alma orando. Que a engrinalda de luz. Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos. Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! 385 .Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Agora É um raio de aurora.

na cidade de Caratinga. Na luta intensa que encheu meus dias. Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte. Quando escutamos as vozes claras . aos 19 de janeiro de 1930.Francisco Cândido Xavier . Não sou. Esclarecia meu coração. Modesto quão talentoso.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo. que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria. em 1871. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val. no entanto. foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso. É que o Evangelho do Cristo amado. – O mensageiro da Perfeição. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio. Portugal. Quando no mundo de exílio e sombra. poetou e desencarnou. cheio de escolhos. Nas horas tristes e amarguradas.

Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. E a paz na morte tereis também. 387 . Com fé sincera. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma. eu pude adormecer Na paz serena. Lede o roteiro dos Evangelhos. Graça divina de haver sofrido. E. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão. Da graça imensa que recebi. que ficastes no mundo ingrato.Parnaso de Além-Túmulo Da consciência. Aos companheiros de luta e crença. De ser vencido no mundo vão. então. De quem me lembro na luz do Além.Francisco Cândido Xavier . no Pai de Amor.. Subi o Gólgota dos meus pesares. na luz da prece. doce e cristã. Dor de quem sofre sonhando e espera. Vós. Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor. Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã.. Deixo a minhalma falar aqui.

--. Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor. E a Morte trouxe-me a liberdade. Perdi na Terra doces afetos. o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz. Sonhos diletos de sofredor. A piedade.Francisco Cândido Xavier .Fim --- 388 .Parnaso de Além-Túmulo Nas desventuras da provação.

em busca constante da paz no Reino de Deus. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos.” Paulo. (1ª Epístola aos Coríntios. Se você leu e gostou desta obra. escolas para crianças e jovens carentes. colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus.) . os seus escritores.Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a). financeiramente. versículo 9. Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. “Porque nós somos cooperadores de Deus.Francisco Cândido Xavier . também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social. O livro espírita. Irmão W. As obras espíritas nunca sustentam. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. 3. etc.

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