Você está na página 1de 389

Francisco Cândido Xavier

Parnaso de
Além-Túmulo
Ditado por

Espíritos diversos

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

2

Índice
À guisa de prefácio .......................................................................... 4
Francisco Cândido Xavier ............................................................. 14
Palavras minhas ............................................................................. 15
De pé, os mortos!........................................................................... 21
1 Abel Gomes ............................................................................... 24
2 A. G............................................................................................ 25
3 Albérico Lobo............................................................................ 26
4 Alberto de Oliveira .................................................................... 27
5 Alfredo Nora.............................................................................. 30
6 Alphonsus de Guimarãens ......................................................... 32
7 Alma Eros.................................................................................. 35
8 Álvaro Teixeira de Macedo....................................................... 38
9 Amadeu (?) ................................................................................ 39
10 Amaral Ornellas ...................................................................... 40
11 Antero de Quental ................................................................... 43
12 Antônio Nobre ......................................................................... 56
13 Antônio Torres ........................................................................ 63
14 Artur Azevedo ......................................................................... 65
15 Augusto de Lima ..................................................................... 68
16 Augusto dos Anjos .................................................................. 74
17 Auta de Souza........................................................................ 106
18 B. Lopes ................................................................................. 118
19 Batista Cepelos...................................................................... 121
20 Belmiro Braga ....................................................................... 124
21 Bittencourt Sampaio .............................................................. 130
22 Cármen Cinira ....................................................................... 135
23 Casimiro Cunha ..................................................................... 147
24 Casimiro de Abreu ................................................................ 167
25 Castro Alves .......................................................................... 177
26 Cornélio Bastos ..................................................................... 185

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

27
28
29
30
31
32
33
34
35
36
37
38
39
40
41
42
43
44
45
46
47
48
49
50
51
52
53
54
55
56

3

Cruz e Souza .......................................................................... 186
Edmundo Xavier de Barros ................................................... 206
Emílio de Menezes ................................................................ 208
Fagundes Varela .................................................................... 210
Guerra Junqueiro ................................................................... 214
Gustavo Teixeira ................................................................... 239
Hermes Fontes....................................................................... 240
Ignácio José de Alvarenga Peixoto ....................................... 244
Jesus Gonçalves..................................................................... 246
João de Deus.......................................................................... 247
José do Patrocínio.................................................................. 304
José Duro ............................................................................... 305
José Silvério Horta ................................................................ 307
Júlio Diniz ............................................................................. 309
Juvenal Galeno ...................................................................... 314
Leôncio Correia ..................................................................... 323
Lucindo Filho ........................................................................ 324
Luiz Guimarães Júnior .......................................................... 326
Luiz Murat ............................................................................. 328
Luiz Pistarini ......................................................................... 329
Marta ...................................................................................... 330
Múcio Teixeira ...................................................................... 342
Olavo Bilac............................................................................ 343
Pedro de Alcântara ................................................................ 350
Raimundo Correia ................................................................. 357
Raul de Leoni ........................................................................ 359
Rodrigues de Abreu............................................................... 364
Souza Caldas ......................................................................... 369
Um Desconhecido ................................................................. 377
Valado Rosas......................................................................... 386

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

4

À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

5

revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias
e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto, nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria, senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

6

dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos
olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

7

O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções; ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.

O pensamento sonhando E o coração a cantar. Parnasianismo. é recitar Castro Alves e sentir Espumas Flutuantes.. mas objetivamente. Do verde do lindo mar! É Casimiro. aí se ostentam em louçanias de sons e de cores. Da luz do Criador nascemos.. Do verde da Natureza. como retinem cristalinas e contrastantes as mais variadas formas literárias. Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. etc. Simbolismo. como a facilitarem de conjunto a identificação de cada um. é declamar Junqueiro e lembrar a Morte de Dom João.Francisco Cândido Xavier . Aqui. Romantismo. para afirmar não mais subjetiva. É ler Casimiro e reviver Primaveras. Múltiplas vidas vivemos. são incontestavelmente belas no fundo e na forma. Condoreirismo. a sobrevivência dos seus intérpretes. vejamos: Oh! que clarão dentro d’alma. não só concorrem poetas brasileiros e portugueses. mas não características de tais entidades. é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu. Senão. Teresa de Jesus..Parnaso de Além-Túmulo 8 As de Napoleão 1º. . pelo contrário. Constantemente cismando.

recebe-a de jacto. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. Pairava na amplidão estranho resplendor. É Castro Alves. Descansa. agora vibrião das ruínas. E todos. de grande cultura e treino poético. e mais – quando de alguns autores não conhece uma estrofe! . sequer. No firmamento em luz. inconfundíveis na modulação de suas liras encantadas e decantadas. todos os mais. ardentes. portanto.Parnaso de Além-Túmulo 9 Para à mesma luz volver. nas preces da harmonia!. um quase adolescente.... sem lastro. cujo estilo não temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade personalíssima se impõe. feliz. o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar.Francisco Cândido Xavier . os estrumes. Duvidamos que o mais solerte plumitivo. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. esta produção. as carnes. Era o festim do amor. É Augusto dos Anjos. ainda que premeditadamente. E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando à luz das amplidões divinas.. E isto o dizemos porque o médium Xavier. aí estão vivos.. Esquece o verme. É Junqueiro..

. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família. em tese. *** Mas. para não pretender colimar renomes literários. na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. muito além das quatro operações e da leitura corrida. Filho de pais pobres. esta obra mediúnica. Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. ao demais. Órfão de mãe aos 5 anos. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. não pode ficar debaixo do alqueire. certo estamos. Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. ficará como baliza fulgurante.Francisco Cândido Xavier . um bacharel formado. o pai infenso a literatices e. um galopim eleitoral e não vai. qual a Luz. nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. que. pequeno rincão do Estado de Minas. em linguagem eloqüente. a Pátria e a Humanidade? Nada disso. nem um. é bem de ver-se que não teve. um acadêmico. será maravilhoso. e aos confrades. nascido ali assim em Pedro Leopoldo. também em tese. que não podia ter o estímulo ambiente. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. em particular. em geral. um quase adolescente. verdade que. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. de contrapeso. com borrifos de catecismo católico.Parnaso de Além-Túmulo 10 É extraordinário. que faz do mestre-escola. mas é a verdade nua e crua. pramido pelo ganha-pão. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto. nem uma problemática hereditariedade.

doutrinas. o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço. e não querendo. de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. porém. figuras de retórica. não há encadeamento de raciocínios. certa vez. Nós mesmo vimos. fixação de imagens. torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo.Francisco Cândido Xavier . como definir e transfixar a captação. por outro lado. nas quais estereotipa a sua figura moral. Não há ideação prévia. mas. explosivo. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. cujo flagrante não presenciamos – ele. a realização essencial do fenômeno? .Parnaso de Além-Túmulo 11 Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que. É um fato. o médium. teorias científicas. Há vocábulos de étimo que desconhece. que ignora. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários. endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. mas da ferramenta por eles utilizada. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. em São Paulo. também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever. É tudo inesperado. Agora. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. tanto quanto do seu manuseio. há fatos e recursos de hermenêutica. nada nos disse o médium. no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio.

em tudo. enfim. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. precipuamente. fica-lhes a liberdade de conjeturar. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. Tal como no-lo deram. faisqueiros de nugas e nicas. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. encarregado de apresentar esta obra.Francisco Cândido Xavier . por vindos de tão alto. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. não só por nos falecer autoridade e competência. para só . porque o fato aí está na plenitude de sua realidade. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica. que participa do meio físico contingente. que nada explicam. para melhor explicar. e isso ele o faz a seguir. antes complicam. na volúpia de escandir quand même. ocorrem na telepatia. em suma. aos cépticos. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis. diremos que. por mais insólito que seja. Trata-se. na radiofonia. e um fato. vale sempre por mil e uma teorias. que mal podemos imaginar e que. racional e logicamente devem existir.. amiúde. de maneira impressionante. ou taliscas. no entanto. mais sutis e delicados do que esses que. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina. Aos outros. ou a fatores outros.. Catões e Zoilos de compasso e metro. devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão.Parnaso de Além-Túmulo 12 Só o médium poderia fazê-lo. *** Como nota final aos argos da crítica. sem contudo negar. de um trabalho de identificação autoral.

Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. como jovem sem recursos financeiros. Em 1939. estão estampadas na edição de janeiro de 1955.Parnaso de Além-Túmulo 13 apreçarem a obra que ora lhes apresentamos. Como membro do Grupo Ismael. 1919 e 1929. invejável cultura humanística. muito apreciados. e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador. M. nascido em 28 de maio de 1874. para serem public adas após a sua desencarnação. como autodidata. Marquês de Valença. Ingressou na FEB em 1903. Chefe de família numerosíssima. depois de lutar com imensas dificuldades. nas posições mais modestas do comércio.) . RJ. na Estação de Quirino. (Nota do Editor. foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. Foi jornalista. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século. integrando-lhe o quadro social por 44 anos. conseguiu. este último editado pela FEB.Francisco Cândido Xavier . dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. Foi guarda-livros. no Rio de Janeiro. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios. estudioso incansável. 1918. inclusive a Presidência nos anos 1915. Quintão1 1 MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO.

. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus. em janeiro de 1959. em 2 de abril de 1910. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. Respeitado e estimado em todo o Brasil. Criatura simples. onde é popularíssimo. Inglês e Francês. Transferiu-se para Uberaba. em julho de 1932. Japonês.. MG. publicou. MG. diversos deles publicados em Esperanto. afável e operosa. goza ele ainda de sincera admiração em outros países.Francisco Cândido Xavier . primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. sempre no exercício do seu mediunato. onde residiu até dezembro de 1958. desencarnados em 1960 e 1915. Castelhano. respectivamente. o “Parnaso de Além-Túmulo”. Aposentou-se como funcionário público federal. Viajou para o exterior algumas vezes.Parnaso de Além-Túmulo 14 Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. “Há Dois Mil Anos. Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. .” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados.

estudar como? Matriculando-me. quando contava oito anos. E até aqui. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. como o são as lições das escolas primárias. em casa. mas meu pai . porém. órfão de mãe aos cinco anos. com um salário diminuto. E. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos. prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade. em 1910. num grupo escolar. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. quando então consegui um emprego no comércio. mas onde o trabalho é menos rude. Filho de um lar muito pobre. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. É verdade que. constantemente. onde o serviço dura das sete às vinte horas. essa situação modificou-se em 1923. Minas.Parnaso de Além-Túmulo 15 Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. sempre estudei o que pude. julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos.Francisco Cândido Xavier . história e vernáculo. se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro. quanto à sua formação. das quinze horas às duas da manhã. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso. Mas. que acima de tudo ama a verdade. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. pude chegar até ao fim do curso primário.

para nossa casa. Vários dias consecutivos foram. Prosseguindo nas minhas explicações. foi sempre alheio à literatura. até hoje. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus. por diferençar muito pouco essas questões. mas. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. ambiente de pobreza. pioras de amargos padecimentos morais. Fui pois criado com as teorias da igreja. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. num ambiente totalmente . sequer. bem distante da nossa. José Hermínio Perácio. desde os tempos de criança. Jamais tive autores prediletos. para mim. Até 1927. realizar as minhas esperanças. foi acometida de terrível obsessão. onde então. Os meus familiares não estimulavam. tanto à sua família. como verdadeiramente não podem. O meu ambiente. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra.Parnaso de Além-Túmulo 16 era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. ofereceu-nos até a sua residência.Francisco Cândido Xavier . em maio do ano referido. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. os meus desejos de estudar. freqüentando-a mesmo com amor. Foi quando decidimos solicitar o auxílio de um distinto amigo. o Sr. Verdadeiro discípulo do Evangelho. como eu. pois. sempre a braços. eis que uma das minhas irmãs. de penosos deveres. de desconforto. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. neste ponto. espírita convicto. sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros. onde se não pode pensar em letras.

de maneira clara e mais intensamente. em 1944. Resolvemos. Aí. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina. semimecânico. orientando-se quanto aos seus deveres. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. desenvolvendo. simultaneamente. médium dotada de raras faculdades. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos. que essa senhora desconhecia. por intermédio da esposa do nosso amigo. como o são os daqueles confrades a que me referi. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. a vidência. os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. quando na Terra. entrando em pormenores da nossa vida íntima. as suas faculdades mediúnicas. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. que se tornou inabalável. sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio.Francisco Cândido Xavier . com ingentes sacrifícios. (Nota do médium para a 4ª edição. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. então. com a graça de Deus.) . minha irmã hauria. que regressara ao Além em 1915. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. a audição e outras faculdades mediúnicas. desenvolveram-se em mim. 2 2 Só nos últimos dias de 1931.Parnaso de Além-Túmulo 17 modificado. para nosso benefício. para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam. que a minha mãe.

assinadas por nomes respeitáveis. a nossa alegria aumentava. a moral profunda que era ensinada.Parnaso de Além-Túmulo 18 Daí a pouco. Em agosto. em companhia de sua esposa. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. era a de que vigorosa mão impulsio- . ornada das mais superiores qualidades morais e que. apesar de muito a contragosto de minha parte. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar. é que. grande número de assistentes. entre as suas mediunidades. categoricamente. chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. porém. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. não posso dizer que são minhas. o que perdura até hoje. por conhecer as minhas imperfeições. nas reuniões. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio. e. parece que pesava muito. A sensação que sempre senti. porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. O que posso afirmar. Não desanimamos. psicografando-as. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas.Francisco Cândido Xavier . os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. contudo. prosseguindo em nossas reuniões. controladas pela sua senhora. assim. decorridos dois anos. do corrente ano. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. ao escrevê-las. alma nobilíssima. conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre. em consciência. Nossas reuniões contavam. porém. quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas.

o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. sem que se produzisse escrito algum. apesar de todo o meu bom desejo. pertencem igualmente à fenomenologia espírita. onde eu as lia e copiava. frisar aqui também. por momentos. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade . julgando minha obrigação. acontecendo o mesmo com o cérebro. mantidas desde os 5 anos de idade. que. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. jamais obtive outra coisa.Parnaso de Além-Túmulo 19 nava a minha. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. a não ser esses escritos. ao psicografá-las. que alguém mas ditava aos ouvidos. Passavam-se às vezes mais de dez dias. melhor o resultado obtido.3 3 Ao escrever estas palavras. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo. em particular. as menores impressões físicas. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. fisicamente. e. doutras. o nome de qualquer dos comunicantes. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. não sentindo.Francisco Cândido Xavier . é o que experimento. era necessário recorrermos a dicionários. Doutras vezes. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. experimentando sempre no braço. Muitas vezes. quanto menor o número de assistentes. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente. ao recebermos uma destas páginas. na fenomenologia espírita. porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância. Certas vezes. esse estado atingia o auge. parecia-me ter em frente um volume imaterial. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. em nossas preces.

dezembro de 1931. a quem me lê. Um desses que haja. Também isso são fenômenos espíritas. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. Pedro Leopoldo. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e. Cármen P. os meus saudares. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. noutros.Francisco Cândido Xavier . os seus salutares ensinamentos. todavia. por intermédio de instrumento tão mesquinho. Terei feito compreender.Parnaso de Além-Túmulo 20 Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. M. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. etc. a verdade como de fato ela é? Creio que não. que inspiraram esta obra. e dou-me por compensado do meu trabalho. desde a infância. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo. rizinhos ridiculizadores. Francisco Cândido Xavier nas sessões espíritas. Há de haver. Quintão. E aqui termino. A todos eles. transmitindo. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. Perácio. com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. (Nota da Editora) . ainda. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e. porém. entre mil dos primeiros.?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está. o carinhoso interesse do distinto confrade Sr.

Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. Decerto. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. 4 Refere-se à 2ª edição. (Nota da Editora.Parnaso de Além-Túmulo 21 De pé. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno. como se os nossos amargores. os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de Além-Túmulo”. (Nota da Editora) Alude às crônicas que ele. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. quando encarnado. Nas minhas atuais condições de vida. segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos. escrevera no Diário Carioca.) 5 . Individualmente. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias. no domínio do conhecimento e da sensação. publicada em 1935. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. em julho de 1932. o mundo constituiria um conjunto de aspectos inverossímeis e inesperados. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5 . Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado. que aparecerá brevemente em nova edição.Francisco Cândido Xavier . ao surgir a 1ª edição do Parnaso. os campos se apresentariam como desertos.4 A tarefa é difícil. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva.

Casimiro com a sua sensibilidade infantil. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência. Todos aí estão dentro das suas características. concitou-os a auxiliar as manobras militares. – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos.. – De pé. .Francisco Cândido Xavier . Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. Conta-se que na guerra russo-japonesa. os mortos!. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas.Parnaso de Além-Túmulo 22 Mas é razoável que apareçamos no mundo. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante. Junqueiro com a sua ironia. Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa. aguardando a sua palavra. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo. em nome da nacionalidade. dirigiu-se aos mortos em termos comovedores. a visitar os cruzadores de guerra. como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. Na atualidade. terminada a batalha de Tsushima. e na tristeza majestosa do ambiente. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. Antero com a sua rima austera e dolorosa. de mulher e de menina.. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama.

em 1934. Produção literária variada quão vultosa.Francisco Cândido Xavier . dois anos depois passou ele a valer-se. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”. zelosa de suas conquistas. Pátria do Evangelho”. das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. mas esses mantos estão rotos!. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo. Liberto dos liames da carne.. que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. visando à cristianização da Humanidade. sob a orientação do Anjo Ismael.. o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. editados pela FEB.Parnaso de Além-Túmulo 23 As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. A Ciência. páginas 60 a 64. acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado. com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. como a que se inseriu nesta página. Humberto de Campos6 (Espírito) 6 HUMBERTO DE CAMPOS Veras. escritor brasileiro. e desencarnado no Rio de Janeiro. temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. de Miguel Timponi. Vale destacar “Brasil. em 1886. ainda não ouviu a sua vibração misteriosa. 4ª ed. mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis. Foi jornalista e deputado federal. (Nota da Editora) . entre o assombro e a esperança. temos fome. sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X. já em 9ª edição. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). Ditou-nos 12 livros. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz. FEB). Coração do Mundo. e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. como Espírito. edições de 10 e 12 de julho de 1932. Temos frio. MA. membro da Academia Brasileira de Letras.

Ambições. Nas torturas de um novo cativeiro. poeta e professor. Espírito dinâmico. Tendes convosco o Excelso Companheiro. como lobo carniceiro. deixou alguns livros inéditos.Francisco Cândido Xavier . Eis que a Terra tem crimes e tiranos. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. desvarios. Na conquista de luz da Vida Eterna. Trabalhemos na dor ou na alegria. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934. Mas vós tendes Jesus em cada dia. posto que fisicamente inválido. no turbilhão da sombra imensa. Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro.Parnaso de Além-Túmulo 24 1 Abel Gomes ESCRITOR. . desenganos. Mas vós. Asperezas dos homens da caverna. Ameaça a verdade e humilha a crença. dos quais dois já editados pela Federação. além de copiosa obra esparsa.

Francisco Cândido Xavier . Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso. G. Morte Silenciosa madona da tristeza. À esperança de todos os meus dias! 25 . Que abriu meus olhos na imortalidade. Num dilúvio de lírios e de rosas. calmo e austero. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza.. Filhos da luz de uma outra Natureza. Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias. A morte abriu-me as catedrais radiosas.. Irmã da paz e da serenidade.Parnaso de Além-Túmulo 2 A.

Francisco Cândido Xavier .. Quintão Viajor vacilante e extenuado. Depois de atravessar a sombra imensa. colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. Funcionário público. Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! . Do meu porto Ao caro amigo M. Banhar o coração na luz da vida. Das angústias e sonhos do passado. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa.. Não conservo senão o Amor e a Crença. É doce descansar após a lida. Adeus mágoas da noite estranha e densa. Ante o novo caminho ilimitado.Parnaso de Além-Túmulo 26 3 Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942. em prosa e em verso. E dos quadros risonhos do meu porto. Rememorando as dores que passaram.

Parnaso de Além-Túmulo 27 4 Alberto de Oliveira FLUMINENSE.. Nessa grande amargura.Francisco Cândido Xavier . o peito exangue e aberto. O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração. Desespera. neste mundo. Como a luz imortal do amor que nunca morre. Do mundo é a escuridão. tudo é vão. Entre as vascas da morte. entre escombros. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia. parnasiano de escol. sobre a estrada sombria. a alma pobre. em 1937. soluça. dedicou-se principalmente ao Magistério. que sepulta a quimera.. em rumo escuro e incerto. No pavor de esperar a angústia que vem perto!. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto. em 1859.. E no escuro bulcão só Jesus persevera. e falecido em Niterói.. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Farmacêutico. nascido em Palmital de Saquarema. . Jesus Quanta vez.

Seu coração é um mar que se apruma e encapela. Esclarece a alegria e consola a desgraça. Tudo o que era vaidade. abatido em seu horto. Não troques mal por mal. mundo afora. Nas trevas do ladrão. que é náufrago sem porto. na dor da alma perjura. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino. agora é desconforto.Parnaso de Além-Túmulo Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana. Do último dia O homem. Não te aflija a miséria. No pungente estertor do peito quase morto. no último dia. Na eterna lei de amor que consagra a criatura. Planta a bênção da paz. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. Sente o extremo pavor que a morte lhe revela.Francisco Cândido Xavier . foge à sombra e à vingança. arrima-te à esperança. Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. Do pobre coração.. o ninho e a sepultura. Seja a bênção de amor a luz do teu destino. Irradia o perdão e atende. ajuda e passa.. hoje e amanhã. Agora. como raios de aurora. compreende. Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela. 28 .

Parnaso de Além-Túmulo Somente o que venceu nesse mundo mesquinho. 29 . Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais. Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo. homem vão? Cala em ti todo alarde.Francisco Cândido Xavier . Conservando Jesus por verdade e caminho.

breve. A Terra. guerra e cachaça. . Carta ligeira Meu Lasneau. É o coração que desata Meus pesares num lembrete. nem ata. colaborou em várias revistas e jornais. no município de Piraí. É feio talhão de roça. não é bilhete. Agora é que entendo isso.Francisco Cândido Xavier . tornou-se funcionário da Central do Brasil.. Cheia de lama e fumaça. Poeta e jornalista. Não é ofício. Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa. passa. Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. e desencarnou em 13 de novembro de 1948. 1 Lasneau amigo. esta choça.Parnaso de Além-Túmulo 30 5 Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. Onde a carne. Detendo por balda nossa Descrença. aposentando-se como Agente de 1ª classe. Estado do Rio. É minúscula palhoça.. ante o sol da Graça.

Desejo que a luta cesse. se eu pudesse Dizer tudo o que não disse. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto. face a face. Não me olvide em sua prece. 31 .. A vida real começa.Parnaso de Além-Túmulo Espere sem alvoroço. Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece. é clara a messe Da sementeira de asnice. Que a coisa melhore e. É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz..Francisco Cândido Xavier . passe. Além da prisão de osso. 2 Oh! meu caro.

Nas lutas de vossa esfera. qual se afirma em suas obras: Dona Mística. notabilizou-se principalmente pela tonalidade mística do seu astro. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura. Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!. natural de Ouro Preto.. Escada de Jacob.. poeta mineiro.Francisco Cândido Xavier .. Aos crentes Ó crentes de uma outra vida. Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921. Magistrado. Kiriale..Parnaso de Além-Túmulo 32 6 Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães.. . jornalista e poeta. Que andais no mundo exilados. etc. eterna e imensa. Ó crentes de uma outra vida! .. Septenário das Dores. Porque a Morte é a primavera Luminosa. Tangei harpas de esperança. Nos caminhos enevoados.

eu vos pertenço.Francisco Cândido Xavier .. De vos cantar. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores.. das Novenas. velhas cenas. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas. amortalhadas.Parnaso de Além-Túmulo Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que. Rezando as orações dos Septenários. E seguindo outros seres solitários. Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor. Dos Ofícios. Almas tristes de freiras e sórores. 33 . Vozes de sinos pelos santuários... dos Terços. O perfume das hóstias consagradas. Eu ressurjo nos místicos prazeres. Enchendo as grandes vastidões serenas. em volutas de flores e de incenso.. Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo. no Espaço luminoso e imenso.. Retomo velhos quadros. Achou.

em ondas luminosas. Chorar.Francisco Cândido Xavier . como inda faz a alma cativa! Ó sinos dolorosos e plangentes.. Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas.. Cantai. que vos vejo nos caminhos. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra. 34 . Em magnificência ampla e radiosa. Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios.. Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos. Senhora. o mundo inteiro vos festeja. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos. porém.. como cantáveis no passado. Um turbilhão de vozes e de lírios.Parnaso de Além-Túmulo A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado. Nos altares simbólicos da Igreja! Eis.

. até agora. Aqui.. Distribuindo os dons celestiais. Mas. guardas o vinagre dos desenganos. Seu coração freme de júbilo.. Na estrada longa do destino. Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos. o Amado espera. No entanto... Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas. choras e desesperas. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos. O Amado é incapaz de violentar a tua alma. É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho. Seu carinho aguarda a confiança espontânea. O Senhor passa todos os dias. Todavia. Acolá.Francisco Cândido Xavier .. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão. o envenenado licor dos caprichos. Assim também. E dia virá.Parnaso de Além-Túmulo 7 Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra. Em que estenderás ao seu amor infinito 35 . Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo O cálice do coração lavado e vazio. Buscou-o no fundo dos abismos. Depois. Por vezes. porém. Lutou. feriu-se em dolorosas experiências. O irmão Por que ajuízas com ironia. sofreu.. Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas. 36 . Em busca da criancinha abandonada.. Quando penetrou noutros círculos. O Amado. Concedeu-lhe oportunidades diferentes. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas. Fê-lo dormir no regaço. Como pai carinhoso. jamais o deserdou por isso. Deu-lhe novas forças. De tempos a tempos. Ao influxo do bendito esquecimento.

37 . Se já atingiste Algum topo de colina. faze-lhe o bem que possas. Ama-o. E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês.Parnaso de Além-Túmulo Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez.Francisco Cândido Xavier . Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente. Dando ao mundo o que possui de melhor. Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens.

A alma transpõe o túmulo chorando. . Ao turbilhão de cinza e esquecimento. Publicou. O gozo desfalece à própria gana. em breve.. Qual folha solta ao furacão violento. em livro. celeste. de alma consumida.Parnaso de Além-Túmulo 38 8 Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira. Que a Morte. Finda a festa de baldo riso infando. humilha e desengana A demência da carne que delira. soberana.. Desfaze a teia da filáucia humana.Francisco Cândido Xavier . Toda vaidade ao báratro se atira. E quem da luz não fez templo e guarida. na Bélgica. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade. Desce gemendo.

Onde vive e se expande o Espírito liberto. Também tive a minhalma outrora perturbada. 39 . Incitando vossa alma aos planos invisíveis. incerteza e angústias consumida. empobrecido e incerto. De dúvida. A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar. Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida. Que abandona a matéria exânime e cansada. Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada. Venho testemunhar a luz de onde regresso.Parnaso de Além-Túmulo 9 Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida.Francisco Cândido Xavier .

Talento brilhante.Francisco Cândido Xavier . Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923. Rosa mística da fé. Providência dos que choram Nas sombras da desventura. deixou dois volumes de Poesia. O Senhor sempre é convosco. além de copiosa literatura teatral e doutrinária. Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Bendita sois vós. Mensageira da ternura. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade. Rainha! Estrela da Humanidade. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós .Parnaso de Além-Túmulo 40 10 Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos. consagrados pela crítica coeva.

Nossa porta de esperança. Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – 41 . Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Às dores. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz.Parnaso de Além-Túmulo A Mãe das mães desvalidas. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória. Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia. espera e crê.. Desde a paz da Manjedoura.. Trabalha.. Oh! Divina Soberana.Francisco Cândido Xavier . Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana. além da Cruz.. cinza e areia. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama. Assim seja para sempre.

nos braços do Tempo..Francisco Cândido Xavier . Serve sem perguntar por “onde”.Parnaso de Além-Túmulo São portas aurorais para a Mansão Divina. ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz. no País das Estrelas! 42 .. Purifica-te e cresce. E. “como” e “quando”. amando por vencê-las.

Sob o alarme guerreiro.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 43 11 Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel. da Paz e do Direito. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas... Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era. soluçando. . e desencarnado por suicídio. Investigando a entranha da monera.. Como a Grande Mendiga do Universo!. sombrio e inverso. Longe da Luz. Fomentando o princípio desumano Da ambição onde a força prolifera. Eis que a Terra te acusa.. arma de efeito. Num caminho infeliz. Ciência de ostentação. em 1842. A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano. nos Açores. formidando. em 1891. caracterizando-se pelo seu espírito filosófico.

como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!. Visão de tristes faces cismadoras.Parnaso de Além-Túmulo Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora. eu te adorei. Esperança dos pobres desvalidos!. No labirinto amargo da existência. luta e chora. Nos crepes do Silêncio amortalhada. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas. Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora. É a luz dos tristes e dos desterrados. Que sois toda Bondade e Complacência. 44 . Amparai o que anseia.Francisco Cândido Xavier . Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras.. que enche os céus ilimitados.. Vosso amor... À morte Ó Morte. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos.

Francisco Cândido Xavier . Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. Por onde penetrei no Sofrimento. 2 Misantropo da ciência enganadora. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. eu que trazia a alma já morta.Parnaso de Além-Túmulo Busquei-te. 45 . O gozo era a mentira dum momento. ela somente. Ao meu olhar de triste e de descrente. Depois da morte 1 Apenas dor no mundo inteiro eu via. Escorraçada no padecimento. Batendo alucinado à tua porta. Olhar de pensador amargurado. E escancaraste a porta escura e fria. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. E tanto a vi. amarga e inconsolável. Os prazeres. Só existia a dor. Numa senda mais triste e mais sombria. Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível.

Recamada de dor profunda e intensa. então. 46 . De ver o Deus de Amor. 3 Depois de extravagâncias de teoria. Morri.Parnaso de Além-Túmulo Que era na dor. Sobre o problema trágico. de quem descria. gemendo.Francisco Cândido Xavier . visão consoladora. Nesse anelo cruciante e intraduzível. reconhecendo. Que a morte era um enigma solúvel. Nas vastidões da terra úmida e fria. Iluminando todas as alturas. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. no entanto. em toda hora. Pela voz da vaidade. Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. No seio dessa ciência tão volúvel. todavia. encontrar as luzes puras Da verdade brilhante. Não o via e. Ela era o laço eterno e indissolúvel. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada. Podia ver. insolúvel. Vim. Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava. que se eleva.

De amargoso penar que se me abrisse. cansado e moribundo: – 47 . porém. Sua voz cavernosa e soluçante!. Desvairado. E em vez de imperturbáveis quietitudes. Ao viver da minhalma sofredora. Dizendo-lhe. Era de ouvir-lhe o grito gemebundo. Divisei aos meus pés. na Terra.. A medonha figura de gigante Do Remorso. Da morte a Paz busquei. O Remorso Quando fugi da dor.Francisco Cândido Xavier . E nunca encontraria abismo horrendo. ao sepulcro fui descendo. Aproximei-me dele. Encontrei os Remorsos e o Tormento. Recrudescendo as minhas dores rudes. Andei cego. de olhar grave e profundo. como se fora Apossar-me do eterno esquecimento.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Quisera crer. de mim diante. Sem que a Paz almejada conseguisse. fugindo ao mundo. suplicante. que existisse Esta vida que agora estou vivendo.. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo.

Do espírito de amor ao mal imenso. Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono. É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura.. quando penso No mar humano. Se enlouqueci no meu degredo estranho. 48 . Nesse abismo de treva a bênção pura.Parnaso de Além-Túmulo “Que fazes ao meu lado. eu te acompanho. Onde se perde a luz em noite escura. corvo horrendo. Que se vive no abismo tenebroso. Acordando-me em lágrimas. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem. senão Deus.Francisco Cândido Xavier . criou obra tamanha. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada. Sente o assédio do mal. gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor. Sentindo o horror que nasce dessa vida. Mais se me aumenta a chaga dolorida.. encapelado e imenso.

No coração dos homens e das feras.. Suprema paz. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! 49 . os prantos.Parnaso de Além-Túmulo O espaço e o tempo. Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente. Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente. Poderia criar o imensurável E o Universo infinito criaria!. a mágoa mais pungente.. o Impenetrável. os gemidos. aquece e banha? Quem.Francisco Cândido Xavier . diria eternamente. Os soluços. E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse. Oh! se eu pudesse.. senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. Que a luz. A dor mais rude. as amplidões e as eras.. intérmina piedade. Aos flagelados e desiludidos. somente o Eterno. a excelsa luz. Onde se agitam turbilhões de esferas. No coração do mar e da montanha! Deus!.

Que as grandes luzes místicas revela. na Terra. Dentro da vida sem compreendê-la. ó vós que estais na Terra..Parnaso de Além-Túmulo Mas. dizei-lhes. Mas que chega no mundo muito tarde. De tão pequena dor fazendo alarde.Francisco Cândido Xavier . Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa. Quando entre conjeturas me perdi. Ah! Crer! bem que. Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza. 50 . Despedaçou-se à falta dessa crença. Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz.. Desvairado de angústia e de descrença. distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa. não possui.

Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem. angústias e cansaços. Mas. Que perfuma e crucia o vosso peito.Parnaso de Além-Túmulo O pranto é a flor de aromas da saudade. Misericordiosa e compassiva. Buscando a paz depois das grandes lutas.Francisco Cândido Xavier . Aguardai a abundância da outra messe De venturas. que é da alma rediviva. Confiando. Se o tormento da vida recrudesce. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições. na Crença e na Esperança. transformai-o em gozo alto e perfeito. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos 51 . Que está nas sendas lúcidas da Prece. Procura a luz sublime dos espaços. Mão divina A luz da mão divina sempre desce. diamantinos. esperai a Providência Com os sentimentos puros. Se a amargura das lágrimas se aviva. Sobre as dores da pobre alma cativa. Em santa e esperançosa claridade.

bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. Essas compactas legiões sombrias. Com que andei entre queixas dolorosas. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas. Ao palmilhar estradas escabrosas. Supremo engano Vê-se da Terra o Céu. em toda a vida. sob os arrancos. Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz. 52 . Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram. Miseráveis Espíritos que choram. Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles.Parnaso de Além-Túmulo A paz e as luzes que eu não alcancei. e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida. Turbas de almas escravas de agonias. Como um vergel azul de lírios brancos. Onde mora a ventura.Francisco Cândido Xavier .

de angústia e de tormenta. de cólera violenta.Francisco Cândido Xavier . Cheios de vida e de infinitos bens. Antegozei. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos.Parnaso de Além-Túmulo Sob os golpes da dor. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! 53 . Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra.. rijos e francos. A paz livre de trevas e pavores.. quanto o vão mortal inda se engana. Que entre anseios e angústias conheci! Mas. Cheia. em minhas dores. somente. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor. Pelos seres terrenos inventada. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. orbe da lágrima e do erro. Do imperturbável nada que não tens! Incognoscível Para o Infinito. Deus não representa A personalidade humanizada. às vezes. Com teus grandes olimpos majestosos.

Nunca. Fim de toda a amargura da descrença.. no mundo inteiro. brasonado cavaleiro. às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!.. enfim. 54 . Porque em tudo.Francisco Cândido Xavier . a crença se realiza. E no meio de todas as canseiras Cheguei.. no mundo.Parnaso de Além-Túmulo Fatalidade Crê-se na Morte o Nada. Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre. chora e pensa. e.. o homem divisa A figura das dúvidas que matam. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás. Coroado de folhas de loureiro. no mundo da Agonia. além. Nos labirintos da Filosofia... todavia.. na Terra. O meu erro. Quem vai de alma gemente e consumida. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere.. Onde a grande certeza principia.

sem detença e sem barulho. em voz soturna: – “Insensato! aonde vais.Parnaso de Além-Túmulo Mas a Verdade. sem Deus. sobre a humana furna. Gritou-lhe. sem norte?” E impeliu. vaidade e orgulho. 55 .Francisco Cândido Xavier . Aos tenebrosos pântanos da Morte. Cavaleiro e corcel. angustiada.

Quadras de um poeta morto Coração. ainda hoje. em 18 de março de 1900..Parnaso de Além-Túmulo 56 12 Antônio Nobre NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade. Nem a morte os vencerá. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam. . Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais.. As almas das raparigas Inda sonham nos choupais. Deixou um livro inconfundível e. que importa lá? Porque os amores fiéis..Francisco Cândido Xavier . edição de 1902. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro. Voltam sim. E por que não? Os corpos daí nos soltam. muito estimado – Só – e Despedidas.. Como às aves o alçapão. não vos canseis De bater.

Que choram nas horas mortas.Parnaso de Além-Túmulo Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados. Venturas da boa sorte. quem ri hoje. Porém. Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. Corações despedaçados. Um dia o riso lhe foge. Riquezas. De vossa alma abri as portas Para. Sem que o veja escapulir. Nem pó e nem solidão. Nem sempre poderá rir. os fantasmas da rua. Quem riu ontem.. não é assim. acima de tudo Devemos amar a Deus. Vós que amais a luz da Lua. Contudo. E há muitos cardos e tojos 57 .. Às vezes acham-se fojos Onde há música e festins. que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus.Francisco Cândido Xavier .. Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus..

A morte só pode ser A vida risonha e pura. Um anjo cheio de encanto Vive sempre com quem chora. 58 . Vossas dores amargosas: Achareis noutros caminhos As vossas mães extremosas. ó menina. No Universo há céus profundos. se vais caminhando Na ambição de ouro e glória...Francisco Cândido Xavier . Sobre os filhos da agonia Que andam no mundo a penar. Chorai! chorai orfãozinhos. estenderia Minhas capas de luar. No sepulcro não termina O novelário do amor. Deixa cantar. Guardando as gotas de pranto Numa urna cor da aurora.Parnaso de Além-Túmulo Entre as flores dos jardins. Teu coração sonhador. Mal vais. Se eu pudesse. Nesse mundo miserando Toda ventura é ilusória. Para quem a padecer Vive aí na sepultura.

Ah! que sinto aqui saudades Das noites de São João.Francisco Cândido Xavier . Na escuridão do infortúnio. Que os interesses resuma. estrelas. São senhores despojados Dos seus tesouros de reis. Há quem faça aí mil contas. Sem fazer conta nenhuma. fiandeiras. a alma inda espera O alguém que na Terra amou. Tecei sonhos. Oh! almas enamoradas. Vivei aí nas clareiras De luzes alcandoradas. Sonho. Aqui. 59 . Um céu é um ninho de mundos. O raio de primavera Que aí jamais encontrou. Cantigas do coração.Parnaso de Além-Túmulo Cheios de vida e esplendor. Luz que se estende à pobreza. claridades. Mas morrem cabeças tontas. A caridade é a beleza De um divino plenilúnio. Aos mendigos desprezados Não ridicularizeis. Um mundo é um ninho de amor.

. vagueando os ermos. Minha terra portuguesa! . porém.. na dor andamos Sem que a nossa miséria se desfaça No escabroso caminho onde marchamos. Pois que o ardente desejo de o sabermos É sempre o anelo falso da vaidade? Peregrinos da dor.Francisco Cândido Xavier . Preocupar-se aí.. 60 . Até que a dor unindo-se à desgraça Descerre os véus que encobrem outra vida. Meu querido Portugal! . Do Além Pudesse o nosso olhar. E da luz da Verdade não descrermos. por meu mal.. quem há de Com o problema de sermos ou não sermos. Naquelas toadas de outrora As moçoilas coimbrãs. Acompanha-me a tristeza Das saudades. Seguindo a alma nos sonhos iludida. Ver através da própria soledade A expressão luminosa da Verdade...Parnaso de Além-Túmulo Na minha vida de agora Não canto as festas louçãs.

.Parnaso de Além-Túmulo Soneto “Quando cobrir-se o chão de folhas mortas – Meu coração dizia em grave entono – Extinguindo-se a vida que comportas. para que exista A perfeição da luz deslumbradora. O vale de amarguras do Salmista. Lodoso chavascal onde se avista A podridão dos vermes que apavora. Ressurgi da tortura e da tristeza. E murmurava a alma – “Findo o Outono.” Escutava essas vozes comovido. Ou a dor amarga e rude em que te cortas. A Primavera vem por outras portas. Não existe no túmulo o abandono. Morto de angústia. Mas. Sob os ares sadios de outros mundos! Ao mundo A Terra é o vasto abismo onde a alma chora. morto de incerteza.. entristecido. para os grandes bens.Francisco Cândido Xavier . Precisamos da carne que aprimora Com o camartelo mágico do artista. E além da amarga vida de segundos. 61 . Dormirás no meu seio o último sono. Aguardando o sol-posto.

Marchai sorrindo. Triste mundo de chagas pustulentas! À Mocidade Cantai! cantai. ó mocidade! Moira Encantada que ri nos prados verdes. Teu rigor nos redime e nos eleva. do sol-nascente. Ébria de aroma e luz. Glorificai. Cantai o amor que é luz que se entesoira. Vibrai na luz da vida em que viverdes. Expandi-vos na primavera loira.. Alvorada em abril.Francisco Cândido Xavier . Mas és ainda o cárcere da treva. o sol que doira O riso que espalhais sem compreenderdes. Na exaltação do amor e da saúde. Porque da tua dor alcei meu vôo Para a mansão das luzes opulentas. ébria de sonho!.. 62 . Nos poemas de luar que conceberdes! Ide cantando. ditosa. tranqüilamente eu te abençôo.Parnaso de Além-Túmulo Terra... Clareando o porvir almo e risonho. mocidade ardente. doce juventude.

abandonando mais tarde a profissão eclesiástica. falecendo. na cidade de Hamburgo. Infeliz do meu ser irredimido. Tombei exausto. Poeta e escritor. . Do qual perdi a luminosa essência Na cristalização dos meus pesares. No silêncio das cinzas tumulares. Ordenou-se sacerdote.Parnaso de Além-Túmulo 63 13 Antônio Torres NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885. como cônsul adjunto do Brasil. no abismo indefinido. em 1934. Esquife do sonho Tive um sonho de amor e de inocência. E da morte. Pois triste e atordoado inda carrego O negro esquife do meu próprio sonho.Francisco Cândido Xavier . De minha quase inútil existência. Terminados os múltiplos azares. Tarde reconheci minha falência. amargurado e cego. Cheio de luz das coisas invulgares. – Abismo tenebroso que eu transponho.

Crença é o perfume d'alma que se enflora Com a luz divina. não fosse tão ousado. Na qual acreditei... Revendo os dias tristes do passado. Pois nem sempre a razão profunda e fria Alivia ou consola o coração. Filosofia rude e amara. Antes. Vi que troquei a Fé pela ironia.Parnaso de Além-Túmulo Nada. com pena embora De abandonar a crença que esposara. única Luz da única Aurora. Que as trevas mais compactas aclara. – A minha aspiração de cada hora. 64 .Francisco Cândido Xavier .. Nada! . resplendente e rara Da Fé. Nos desvios e excessos da razão.. porém.

Sobre o divã. comediógrafo. Uma carta de amante – era um segredo – Ia abri-la. Homem de cabedais e alma sem siso. jornalista e crítico. a 7 de julho de 1855 e falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908. Viu que a esposa beijava um seu amigo. no Maranhão.. dama de juízo. Penetrou no seu quarto com um sorriso Às dez horas da noite.. Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação. Miniaturas da sociedade elegante 1 Adriano Gonçalves de Macedo. Mas. Poeta. da sala de jantar. assim. 2 No belo palacete do Furtado.Parnaso de Além-Túmulo 65 14 Artur Azevedo NASCIDO em São Luis. era preciso Que a sua esposa. Membro e fundador da Academia Brasileira de Letras. Não na visse nem mesmo por brinquedo: Dona Corália Augusta Colavida Estaria nessa hora recolhida? Levantou a cortina. devagar. e.. que tragédia após esse perigo.Francisco Cândido Xavier . . muito a medo.. onde ocupou a cadeira de Martins Pena.

Recamado de quadros indecentes. De sobre a grande cômoda bonita. 66 . é meu breviário!” Diz inquieta. Toma o moço um livrinho encadernado. E ele.. Mas a jovem retoma-o. 3 Dom Castilho. Numa corrida louca. Bacharel delambido e enamorado. Antonico. poetas. assaz catita. Que primor de moral! e os companheiros Escritores. Era um compêndio de pornografia. E a esposa Ana Fulgência. Revirando-o nas mãos. Mais o olhava e mais se ria. interessado. Protegido dos membros da regência. Realizara alentada conferência.Francisco Cândido Xavier . Nele via uma grande alma de artista. notável latinista. conselheiros. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores.“Esse livro. muito aflita: . Foram levar-lhe um abraço camarada. Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. Sobre rígido assunto moralista.Parnaso de Além-Túmulo Palestrava a galante Mariquita Com um pelintra afetado. Foi um sucesso.. cínico e falsário. Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o.

Parnaso de Além-Túmulo No apartamento escuro da criada.Francisco Cândido Xavier . 67 ...

humilde e solitário. Naquele dia. espelho de bondade. Amarela de pó. E. . Tendo por companhia A cruz do Nazareno. Além se divisava a solidão da estrada.Francisco Cândido Xavier . Ali vivia Anchieta. Tudo era languidez. tendo ocupado a presidência dessa instituição. desânimo e torpor. onde o Sol feria os vegetais. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. O doce missionário Sertão hostil. Servo amado de Deus. Agreste serrania.. perdoando a maldade. elevando-se aos céus. esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas. o doce missionário. Abençoando o bem. Magistrado íntegro. Na clareira.. Viam-se florescer bromélias e boninas. Carinhoso pastor.Parnaso de Além-Túmulo 68 15 Augusto de Lima POETA mineiro. tristonha e desolada. Ninguém! Nem uma sombra se movia. Minas. nascido em Sabará. Que na humildade achara a vida mais feliz. imitador de Assis. Era intenso o calor. orador e publicista.

Parnaso de Além-Túmulo Eis que o irmão de Jesus. 69 . Pairam no ar excessos de calor. o humilde pegureiro Avista um mensageiro.Francisco Cândido Xavier . Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor. Que tem oferecido a Deus o seu amor. inflamando os horizontes. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos.. Que Jesus vos ampare. Em tão rudes e aspérrimos caminhos! .. Entretanto. Que calcina. Somente o Sol ferino e destruidor. o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário. ao termo da viagem. Há solidão na estrada. Convertido por vós à luz da vossa fé. Dirige-se-lhe a casa. ao longe.. Que penosa jornada. em aflição.” E isso dizendo.” . Abandonando o ninho agreste e solitário. o pastor não se deplora. Eis que a sede o devora. – “Meu protetor – diz ele –.. o bom pajé.“Oh! doce filho meu. Nem árvores umbrosas e nem fontes. que vindes de passagem. Para arrancar à dor o pobre penitente. Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa. Agoniza na taba.

em nossa própria cruz. Eterno Pai de amor. asas aconchegadas. No canto. No coração do bom. amparo e luz. 70 .Francisco Cândido Xavier . na irradiação da luz. Na vibração dos sons. Na estação outonal. de luz e caridade. Na dor. que te ama e te venera. Inspirada em tão santa devoção. Cobrindo o doce irmão Que ia ofertar amor. Luz e consolação. no cálice das rosas. na loura Primavera. Seja alegria ou dor.. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade.” Terminando a sorrir a espontânea oração. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio.. Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores. Na corola de luz de todas as florinhas.Parnaso de Além-Túmulo A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento. das meigas avezinhas. Eis que nos arredores Congregam-se apressadas Todas as avezinhas. no sofrimento. Senhor.. No azulíneo do céu. Numa ideal combinação Formam um pálio protetor. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas. por tudo o que nos dás. Ele ainda agradece: – “Sê bendito. Numa férvida prece. todo amor. Juntinhas. E.. tudo é ventura e paz.

Modesto.Parnaso de Além-Túmulo Em nome do Senhor. Foi-se aumentando O alado bando Dos bondosos e ternos passarinhos. Santa Maria dos Anjos inda existe. casto. Repartindo a Virtude. Em meiga mansuetude. feita de crença e amor: Era a bênção dos Céus. Lábios sorrindo. Pelos caminhos. O enviado do Bem e da Virtude Agradecia ao Céu. o coração em luz. humilde e isento de pecado. O santo de Assis No suave mistério dos espaços. 71 . Chegara ao seu destino.Francisco Cândido Xavier . Com a mesma luz divina dos seus traços. Ia caindo o dia No poente de paz e de harmonia.. Aureolando com amor o Discípulo Amado. a Graça e os Dons Que a palavra divina do Cordeiro Prometeu aos pacíficos e aos bons Do mundo inteiro. Glorificando as dores da alma triste. Brilhava nova luz. Evolando-se puro ao seio de Jesus. a bênção do Senhor. Que ia seguindo..

terna e tranqüila.. A Terra escura e triste se povoa De anjos de amor. Sob a paz de Jesus. Derramando no Além ignorado Os sonhos de Virtude e Perfeição. singela e boa.Parnaso de Além-Túmulo Uma nova Porciúncula. dourada Pelos astros de mística alvorada. que enxugam todo o pranto E que levam consigo Todo o consolo amigo Da Esperança no Céu. Daquela mesma Umbria do passado. “Irmão Sol. São Francisco de Assis abraça e beija 72 .. irmãos Anjos. Aí se rejubila. E à voz suave e dúlcida do Santo. Das paragens etéreas Da sua ideal igreja... Numa doce e ideal Eucaristia.. Sua sabedoria e seu amor. O Esposo da Pobreza No seu manto de amor e de alegria Inda abre os braços para os pecadores.. Cheia de encantamento e de oração.Francisco Cândido Xavier . A luz dos sóis da etérea Natureza. irmãs Flores. Procurando salvar Os nossos irmãos Homens mergulhados Entre as noites sombrias dos Pecados!. Não nos cansemos de glorificar A caridade imensa do Senhor.

Nas amarguras do meu pesadelo De vaidade do mundo.. Quero ainda abençoar-te a vida inteira. Santo de Assis. vi tua luz singela e casta Beijando as minhas lepras asquerosas. Santo de Assis..Parnaso de Além-Túmulo O homem que sofre todas as misérias.. divino “poverello”...Francisco Cândido Xavier .. irmão da Caridade. Amparando-lhe a alma combalida Nos desertos de lágrimas da Vida.. Uma chuva de lírios e de rosas Lavou-me o coração de pecador E guardei para sempre o teu amor. que devasta Todo o bem. Depois da morte. à luz da imensidade. Que me curaste as lepras e a cegueira. 73 .. E o conduz Ao regaço divino de Jesus!.

Era professor no Colégio Pedro 2º. Com o espírito absconso em paroxismos. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914. A essência onicriadora reformando.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 74 16 Augusto dos Anjos PARAIBANO. Perpetuando-se em continuidade. na cidade de Leopoldina. Eram partes do Todo nas Substâncias Desde o estado prodrômico do mundo. deixou um só livro – Eu – que foi. No rubro incêndio de batalha acesa. Via Deus adstrito à Natureza. O fenômeno apenas. porque o fundo Do númeno às eternas rutilâncias. Voz do Infinito 1 No excêntrico labor das minhas normas Na Terra. Minas. alias. suficiente para lhe dar personalidade original. inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de sua predileção. muita vez me consumia Perquirindo nas leis da Biologia As expressões orgânicas das formas. Deus era a lei de eternos transformismos. . englobando As substâncias todas na Unidade. Concepção panteística.

Parnaso de Além-Túmulo O corpo. porém. A sutilez do arminho que se veste. Loucura que igualava Messalina À pureza lirial da Mãe do Cristo.Francisco Cândido Xavier . E na individualidade indivisível 75 . desde o embrião inicial. Os princípios genéricos do ser. A luz dessa dourada ignorância. sofrendo. A alma era a molécula. Assim vivi na presunção que via. Irmanadas aos pútridos fedores De emanações pestíferas da peste! Extravagância e excesso jamais visto. De idéia que esteriliza e desensina. No pantanal da lama em que eu vivia. Dominava-me todo o medo horrível. A coroa aromática das flores. Dos cumes da Ciência e do saber. a matéria apodrecer. Notava as pestilências cadavéricas Iguais à carne Angélica da infância. numéricas. Vi. Era um mero atavismo revivendo. Afastada do Todo Universal. E com certezas lógicas. que eu via transtornado: Eu era um átomo individuado Em cerebralidade putrescível. Do meu viver.

Francisco Cândido Xavier . Entre as sombras das lágrimas terrenas. Em teus dias inúteis. Em meio de excrescências e misérias Que corrompeste a íntima saúde Da tua alma cegada de amargores. que emerges de apodrecimentos.. esquelético fantasma Que gastaste a energia do teu plasma Em combates estéreis.Parnaso de Além-Túmulo Ouvi a voz esplêndida e terrível Da luz. 76 . na luz etérica a dizer: 2 “Louco. Olhos cegos às chamas da bondade De Deus e à divina misericórdia. foste apenas Um corvo ou sanguessuga de defuntos. Vendo somente a cárie dos conjuntos. iguais aos odres Onde se guarda o fragmento imundo. danados. E os instintos hidrófobos. famulentos. De todo o esterco que apavora o mundo E os tóxicos letais dos corpos podres. Que espalha o bem e as auras da concórdia No coração de toda a Humanidade.. Vias os teus iguais. Que na Terra não viu os esplendores E as ignívomas luzes da virtude. Alma pobre. E tanto viste os corpos e as matérias No esterquilínio generalizados.

fundas e enormes. agora.Francisco Cândido Xavier . Venho da fonte eterna das origens. Venho dos invisíveis protozoários. Filhos do pranto que me espedaçava. Reconheci que a vida continuava Infinita. negro e horrível. em eternos infinitos! Vozes de uma sombra Donde venho? Das eras remotíssimas. Do silêncio da mônada invisível. A infinita desgraça de ser homem. No turbilhão de todas as vertigens. as carnes. os estrumes. Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. vibrião das ruínas.Parnaso de Além-Túmulo Descansa. desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. das bactérias. Sofri.” 3 Calou-se a voz. Das substâncias elementaríssimas. Das células primevas. Esquece o verme. Do tetro e fundo abismo. Da Terra no vultoso e imenso abdômen. Da confusão dos seres embrionários. E sufocando gritos. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando a luz das amplidões divinas. Emergindo das cósmicas matérias. Em mil transmutações. 77 . Vitalizando corpos multiformes.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Na Terra. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. Sombra egressa de lousa dura e fria. essa tirânica incendiária. apenas fui terrível presa. Como animálculo medonho. Depois. obscuro. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres. Inda que desintegres energias. A razão do completo e do incompleto. A dor. Durante penosíssimos minutos. Simbiose da dor e da tristeza. Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. E nem compreenderás como se opera 78 . A flor da laranjeira. a asa do inseto. não perceberás. Descortinando as luzes do futuro. analisando os fatos. Enigmas insolúveis e profundos. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias. voltei desse laboratório. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. Onde me revolvi como infusório. Um estafermo e um Tales de Mileto. Como existiram.

E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia. Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã. O laconismo e a prolixidade.Parnaso de Além-Túmulo A mutação do inverno em primavera. Produto da experiência de Hahnemann. A luz de Miguel Angelo nas artes. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas. A noite da ignorância e o sol da Ciência. As grandes atonias e as nevroses. Como vivem o novo e o obsoleto. O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. As epidermes e as aponevroses. E a transubstanciação da guerra em paz. Como vive o canário junto ao corvo. Mostrando as luzes da imortalidade. A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade. 79 . O céu iluminado. A atividade e a inatividade.Francisco Cândido Xavier .

Francisco Cândido Xavier . 80 . Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. E o desconhecido e o devassado. Os milhões de corpúsculos do ovário. os vermes. As coisas substanciais e as coisas ocas. Em contraposição com os paquidermes. Em prodigiosas manifestações. O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo. Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. o cemitério. Repleto de dejetos e de estrumes. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. Vaso de carne podre. É o gigante e o germe originário.Parnaso de Além-Túmulo As atrações e as grandes repulsões. Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. A teoria cristã e Augusto Comte. E o jardim rescendendo de perfumes. A alma pura do Cristo e a de Tibério. Onde há somente um óvulo fecundo. Os lombricóides mínimos. Junto dois palacetes higiênicos. As idéias conexas e as loucas. Assombrosas antíteses no mundo.

atrozes. Buscando as perfeições do Amor em Deus. Uivando subjugadas e ferozes.Francisco Cândido Xavier . Os fenômenos todos geológicos. Seja nas concepções dos ateísmos.” Voz humana Uma voz. Como as tuberculoses e a anasarca. Milhões de vozes. Outras vozes.Parnaso de Além-Túmulo Os terrenos povoados e o deserto. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. confusa. Cosmopolitismos. Duas vozes. As atrofias e a hipertrofia. Para a Vida que eterna se renova. Não saberás o cósmico segredo. A que se acolhem míseros ateus. A funda simpatia e a antipatia. Psíquicos. 81 . Homem! por mais que a idéia tua gastes. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. Na solução de todos os contrastes. científicos. Que inspiram pavor e inspiram medo. sociológicos. É a voz humana em intérminas nevroses. Caminharás lutando além da cova. Aquilo que está longe e o que está perto. O que não tem sinal e o que tem marca. Gritos de feras em paroxismos.

Francisco Cândido Xavier . A dor. titânicos. Nas defectividades da estesia. Nas lágrimas. Nos distúrbios sutis da hipocondria. Nutrir-se de famélicos prazeres. É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres. As luzes d'alma em trágicos segredos. Enceguecido e louco então que eu era. Que não via. Somente achava corpos na existência. Nos instintos soezes e tirânicos. seres inorgânicos.Parnaso de Além-Túmulo É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. dos astros à monera. nos risos e nos pânicos. Nos vastos campos da Psicologia. Buscava as almas. Que eu às vezes na Terra empreendia. que gargalhando em nossas dores. insaciada. 82 . Alma Nos combates ciclópicos.

Parnaso de Além-Túmulo Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos. E nisto achar fantásticos prazeres. sem vigor. parece Cataclismo dos grandes cataclismos. Tendo a alma – centelha. materializados. Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores. Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras. estrambótica. Que. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. Serpentes entre escrófulas e helmintos. Que atrofiada. Nos recantos dos mundos inferiores.Francisco Cândido Xavier . Voracidade onde a alma se mergulha. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. se apaga Ao furacão indômito das dores. Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. Multiplicando as lágrimas e os trismos. tegumentos. fraquíssima. hipertrófica. Atrocidade das atrocidades. Em sexualidades e histerismos. 83 . Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. Na agregação da carne e dos humores. que. apodrece. nervos.

No profundo silêncio dos inermes. atassalhados. Nos rochedos. O anseio da vida.Francisco Cândido Xavier . A mesma luz dos corpos estelares! 84 . Transformando-se em luz. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável. em sentimentos. Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. Que percorrem o espaço imensurável. Inferiores e rudimentares. É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. No assombroso prodígio das esteses. Hedionda lição de anatomia. a onda sonora. Nas ferezas do instinto. nas plantas e nos vermes. No transcorrer das vidas sucessivas. Mas a análise crua do que eu via. Das origens às súbitas asceses. Rudimentos dos seres planetários. A cadeia de impulsos e de instintos. Veríamos o evolver dos elementos.Parnaso de Além-Túmulo Espíritos em ânsias retroativas.

Ao monólito enorme das idades. Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância. Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável. Era um feixe de mônadas de vermes. dos invisíveis microcosmos. A quietação dos túmulos inermes. Enjaulados no cárcere das lutas. Buscando as perfeições absolutas. Argamassando um Todo miserável. O homem é fruto insólito da ânsia. Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável. Tudo é clarão da evolução do cosmos. Do intravascular princípio informe.Parnaso de Além-Túmulo É que. Heterogeneidades da Substância. 85 . Dissolvidos na terra famulenta. Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras. Nos íntimos recôncavos da placenta.Francisco Cândido Xavier . Larva repugnante e vermiforme. Viemos do principio das moneras.

Parnaso de Além-Túmulo 2 Após a introspecção do Além da Morte. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel. Depois da estercorária microbiana. toda a bílis do iracundo. Ou venenada lâmina que o corte. Vendo a terra que os próprios ossos come. Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem. Não há luta mavórtica que o dome. Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. Onde a divina essência se reveste Da substância fluida. universal. 86 . Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte. Volve o Espírito ao páramo celeste.Francisco Cândido Xavier .

O mesmo triste e estrábico produto. com intelecto de arbusto.. e por mais que o procurasse.. Sou eu. Levantar-me do leito de Procusto. Sou eu que. Nas mais contrárias idiossincrasias. entro Em relação com o mundo onde concentro 87 .Parnaso de Além-Túmulo Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente. se mistificasse No anonimato. Quer com Darwin. ígneo. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. Dentro da noite É noite. Se vos mentisse. Jamais cri. À Terra volvo. em brasa.Francisco Cândido Xavier . Inexprimível nas termologias. com Haeckel. sendo eu o Augusto. E. Atramente a gemer a mágoa e o luto. com Laplace. então. lúcido. Extremamente injusto Seria. se não vos declarasse. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho.

Deplorando o destino miserando. A desgraça dos úteros falidos. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. São uivos dos instintos jamais hartos. D'alma quebrando o cárcere do instinto. Que nas bestialidades se unem loucas. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios.. – A misérrima e pobre Humanidade. Sentindo os próprios membros carcomidos. Buscando ávida a luz. Em diferenciação definitiva. Sentindo-se em seus leitos como em ermos.Parnaso de Além-Túmulo O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. As dolorosas mágoas dos enfermos. da perpétua grade. 88 . cruéis. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos. Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios. apodrecidos. São os ais dos leprosos desprezados. Por mais que sonde.Francisco Cândido Xavier . Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor. tremendo. Verminados. É a ânsia afrodisíaca das bocas.. Mais o enigma do mundo se lhe aviva. Às bactérias mais vis ambas trocando. que hórrida sinto. As dores espasmódicas dos partos.

. decomposto.Parnaso de Além-Túmulo É o grito. Onde traguei meus grandes amargores. Terra!. Como o cheiro de sangue dos massacres. Sinto em minhalma o tóxico. e chegam-me fortes cheiros acres. Dos desejos que não se realizaram. E ainda transpondo o Azul sereno. além das catacumbas. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. Abominando as coisas deste mundo. a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas. E com os meus pensamentos desconexos. Fétido. coagulado. Fujo. Vejo a guerra pestífera dos sexos. o anseio. atrocíssima.. ao próximo sol-posto.. Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos. Desde o sol-posto. Asco e dó. Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento. o veneno 89 . Trazendo dentro d'alma. envoltos na ânsia. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo. Essa angústia indomável..Francisco Cândido Xavier .

e se confunda. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada Nos turbilhões das lutas cognitivas. Na imensidade Alma humana. Até achar à perfeição profunda E indivisível. pura. alma humana.Parnaso de Além-Túmulo E a desdita dos seres sofredores. Vem através do Todo de elementos. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. essa voraz liberticida. No transcendentalismo da Unidade. Vem dessa Origem indeterminada. Desse teu escafandro de albuminas. Sob transformações consecutivas. tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada. Em sucessivos aperfeiçoamentos. Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! 90 .Francisco Cândido Xavier . Objetivando a personalidade.

Em pleno espaço – Imensidade de ânsias. execrável. nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades.Francisco Cândido Xavier . concretizadas e reunidas. Deus e Pai.. 91 . Sem limites. De gangliomas. Formam luminosíssimas paisagens. nas regiões imensuráveis.. úlceras. sem número. Deixai meu ser esdrúxulo. São vibrações das almas evolvidas E que. Ante a minhalma fulgem ideogramas. ó Artista Inimitável. Combinações no mundo das imagens. Singrando a luz de céus incomparáveis. Do teu laboratório de arterites. Pensamentos radiosos como chamas. Aqui não há vertigens de nevróticos.Parnaso de Além-Túmulo Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis. Envergando os etéreos organismos. Submersão nas fluídicas belezas. Não podes perceber as ressonâncias. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos. sem fim. Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas. Sem aritmologias das distâncias.

92 . Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade. que me aterra. Aos fracos da vontade Homem. levanta o véu do teu futuro.Francisco Cândido Xavier . Eis-me longe dos rudes estertores. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias. Não sou o homúnculo da hominal espécie. Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade.Parnaso de Além-Túmulo No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas. Mas contérmino à carne. Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores. Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. E sou o espectro das anomalias.

Mas. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares Vivam livres de todos os pesares. nefasto. sobretudo. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida. eterno. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. Com os tônicos sagrados da Virtude. Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria. esplenda. De arcangélicas flores de Harmonia.Parnaso de Além-Túmulo Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero. Ouve-te sempre a ronda do mistério. Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. Fonte da força e altíssimo elemento. Com a espada resplendente da virtude. 93 . observa o pensamento. sofre e chora. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude. Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama.Francisco Cândido Xavier . Que o sol da tua mente. Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto.

Nas células primevas da existência. Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia. Apesar das verdades fisiológicas.Francisco Cândido Xavier . Movimentando células de argila. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. És mais. és muito mais. a energia Potencial que dá vida aos elementos. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência.Parnaso de Além-Túmulo Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: 94 . Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. Reflexas das ações psicológicas. a alma da luz resplandecente. És um ser imortal e responsável. és a cintila Do Céu. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica.

Faz-se mister que o cárcere a conclame. É do mundo o Od ignoto. Mas um mundo de deuses decaídos.Parnaso de Além-Túmulo Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos. Árvore genealógica de párias. Segregadas num mundo amargo e infame. Livro onde o Criador Inimitável Grava. o éter divino. Fez da Terra o brilhante gral da Ciência. Glorificando o instinto e a inteligência. Seus poemas de seres e universos. Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias.Francisco Cândido Xavier . Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Estirpe das escórias planetárias. 95 . com o pensamento almo e insondável.

Nos seus medonhos ágapes mortuários. sim. De consumir as podridões de tudo. horrendo e rudo. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências.Parnaso de Além-Túmulo A subconsciência Há. Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame. no estudo Do germe. Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários. em seus impulsos embrionários. No órgão morto. impassível. No labor anatômico. Consciência de todas as consciências. Que o neurônio oblitera por momentos. atro e mudo. 96 . Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre. Fora de toda a sensação nervosa. luta e goza.Francisco Cândido Xavier .

A alma que é Vibração.. Desorganização molecular. No transcendentalismo das esferas.. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. Fim das forças do plasma agonizante. Vida e Essência. Do portentoso amor de Deus oriundos. fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar. Na ascendência de todos os destinos.Parnaso de Além-Túmulo No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas. 97 . E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço. Como o bolor e o mofo sob as heras.Francisco Cândido Xavier . Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular. Que manifesta o espírito nos mundos. Está nas luzes da sobrevivência. Ou condição diversa da substância. Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria.

imortal. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. Homem da Terra! trágico segredo De miséria. Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas..Parnaso de Além-Túmulo Sob o acervo das células taradas. Pavorosos esgares de gemido. Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. Feito à noite de enigma profundo!. alta.Francisco Cândido Xavier . Deixando corpos pelos cemitérios. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria. de ânsia e de medo. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas. Entre as sombras das míseras estradas. E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. Vive o homem da Terra adormecido. de horror.. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema. 98 .

E rasteja o dragão horrendo e informe. Enquanto a desventura chora inerme. O homem. Muralhas. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas. Trevas. Morre de frio e fel. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. Nas sombras Bombardeios. 99 . Desenhadas por corvos vagabundos. Ossuários tremendos sob as flores. Nas vitórias fantásticas do verme. filosófico ou sem nome. Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal. A civilização do desconforto. de sede e fome. Quadros de sangue.Parnaso de Além-Túmulo Anjo da Sombra. É o triunfo terrível do coveiro. amargo e morto. Canhões. mísero e perverso.Francisco Cândido Xavier . De mentira e veneno cerebrais. Visões apocalípticas do mal.

Foi preciso “morrer” no campo inglório. Confissão Também eu. verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas. Terror e morticínio. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração.Parnaso de Além-Túmulo Ai de vós nos abismos da aflição.. Apesar de ingentíssimos labores. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio. na estrada eterna e justa. Mas só a Fé. Para encontrar esse laboratório De beleza. vencendo o abismo!. Homem-verme Desolação. das causas positivas. Não encontrei a luz das forças vivas.. 100 . de ânsia em ânsia.Francisco Cândido Xavier . No turbilhão das sombras negativas. O homem sôfrego e bruto. Bem distante. Tem a chave do Céu.

Francisco Cândido Xavier . Em quase tudo. Augusto. este solo generoso. onde foi sepultado o poeta. De lodo e lama. Aqui. escorre o sangue horrível. Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão. Sobre a idéia cristã medrando em germe. Proclama a vida além das catacumbas. Nas maravilhas de seus resplendores. 7 Poesia recebida em 18 de junho de 1940. Augusto. Beija. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas. . do pó que envolve as tumbas. Exaltando a vaidade sem substância. em sombra e vilipêndios. buscaste o campo de repouso. Volta. em Leopoldina. E onde sorveste o cálice amargoso. Ao crepitar de rúbidos incêndios. Ídolo podre sobre o esterquilínio. que detestavas.Parnaso de Além-Túmulo 101 É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância. o pântano terrível. Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. Por toda a parte.

Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! . Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto. Saturada de treva. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor. Ainda é Caim que impera sobre o mundo. Nos turbilhões fatídicos da guerra. Sangrou Jesus em lágrimas divinas.Parnaso de Além-Túmulo Ajoelha-te e lembra o último abrigo. angústia e pena. Feito de sânie e de cadaverinas.. sobre o Calvário áspero e bruto. em ruínas. Porque na luz dos círculos da Terra. absorto. 102 .. de pranto e luto.. A Lei Em reflexões misérrimas. Em vão.. Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo.Francisco Cândido Xavier .

Os impulsos dos sonhos embrionários. Em conceitos sublimes e profundos. Se não tens coração que aceite a crença.. 103 . Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta..” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários..Francisco Cândido Xavier . Não insultes as leis universais. amigo.“ Mas.. Desde o instante infeliz de Adão e Eva. Cessa a miséria de teus raciocínios. uma voz da luz dos grandes mundos. e pensa.Parnaso de Além-Túmulo Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento. Espera a mão da morte excelsa. Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios. Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários. Encontrarás teus gritos solitários. Pára. O mistério da célula primeva. Enfrentando o pavor da mesma treva. A molécula morta desafia. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!.

Apaga-se o milênio. Depois de vinte séculos ingratos. Trevas. Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. exangue e fria. Correm de novo as lágrimas divinas. Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta. o Livro e a Toga. Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio. 104 . Enquanto grita a turba ignara e injusta. A Civilização regressa à taba. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. embora o Direito. A construção dos séculos desaba. Canhões. Multiplicando Herodes e Pilatos.Parnaso de Além-Túmulo Que a carne volve ao pó. o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta.Francisco Cândido Xavier . A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. Pois. Entre prantos pungentes. que é sempre o tigre carniceiro.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio. Mas. É Jesus que. Novo sol banha o pélago profundo. acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue. Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. através da tempestade. 105 .

Castriano. Almas dilaceradas Quando. sofredor. que era irmã dos grandes sofredores. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados. Deixou um único livro. Sofria. teve uma terceira edição no Rio de Janeiro. Horto. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. em Natal. em Macaíba. muito místico. aos 24 anos. prefaciada por Olavo Bilac.Francisco Cândido Xavier . traz uma biografia da Autora por H. Finalmente. em 1936. na Terra inda. Almas feridas e dilaceradas. E confiada na crença que tivera. em 1910. Via presas do pranto e da agonia. feita em Paris. portanto. desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. Rio Grande do Norte. . Espírito melancólico. cuja primeira edição.Parnaso de Além-Túmulo 106 17 Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. em dores. E eu. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. em outubro de 1899. A segunda edição. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas.

Há. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata. Sobrepujando instantes de alegria. Somente a dor intérmina que mata 107 . Tal desalento e tantas desventuras. a pleno gozo. Aureolada de luz confortadora.Francisco Cândido Xavier . Onde há paz para os pobres desgraçados. Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. E há também os reflexos da aurora De ventura. Minorando as alheias amarguras. tanta dor em demasia. que torna a alma florida. A alegria fulgente e estremecida. porém.Parnaso de Além-Túmulo Cheguei à luz da eterna primavera. Deve fugir das horas de repouso. Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida. Que o coração dormente. Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura.

minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora. sem flores. É que a dor da minhalma em tudo eu via. Do meu viver sem luz. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! 108 . o amor. Sem as sombras da dor e da agonia. porém. Então parti. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores.Parnaso de Além-Túmulo A alegria mais lúcida e mais pura. sem paz.. E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo. Senti. porém. na própria Natureza.Francisco Cândido Xavier . a paz e a crença. Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos.. Se apenas vi. O veneno da acerba desventura Que fere em nós a aspiração mais grata. Que se extinguia em atros sofrimentos. nevoentos. a mágoa intensa Que rouba a luz. A mesma dor que eu tanto padecia. serena e jubilosa.

Francisco Cândido Xavier . Jesus. Durante os meus amargos sofrimentos. Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. meu Jesus. Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso. Canto de luz dos páramos celestes. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais. ditosa agora. eterna e derradeira!.. Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. Nessas paragens de deslumbramentos. Abrasada de amor eu viveria. Elevando a Jesus meus pensamentos. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. Por teu amor.. Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais 109 .Parnaso de Além-Túmulo Em paz Tanto roguei a paz consoladora. a vida inteira. Em paz serena.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Depois da treva espessa da amargura:
Para exaltar as luzes que me deste
Na cariciosa e doce paz celeste,
Meu tesouro de fúlgida ventura;
Para contar tua bondade imensa
Aos meus irmãos, os homens pecadores,
Mergulhados na noite da descrença,
Nos abismos dos males e das dores;
Para falar a todas as criaturas,
Da tua alma esplendente de bondade,
Afastando as amargas desventuras
Do coração da pobre Humanidade!
Aos teus pés, meu Jesus, a vida inteira,
Abrasada de amor eu viveria,
Sorvendo a luz no cálix da harmonia,
Em paz serena, eterna e derradeira!...

Mãe
Ó minha santa mãe! era bem certo
Que entre as preces maternas estendias
As tuas mãos sobre os meus tristes dias,
Quando na Terra – que era o meu deserto.
Nos instantes de dor, bem que eu sentia
As tuas asas de Anjo da Ternura,
Pairando sobre a minha desventura
Feita de prantos e melancolia.

110

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Flor ressequida eu era, e tu o orvalho
Que me nutria, pobre e empalecida;
Era a tua alma a luz da minha vida,
Meu tesouro, meu dúlcido agasalho!...
Ai de mim sem a tua alma bondosa,
Que me dava a promessa da esperança,
Raio de luz, de amor e de bonança,
Na escuridão da vida dolorosa.
E que felicidade doce e pura,
A que senti após a treva e a morte,
Findo o terror da minha negra sorte,
Quando vi teu sorriso de ventura!
Então, senti que as Mães são mensageiras
De Maria, Mãe de anjos e de flores,
E Mãe das nossas Mães cheias de amores,
Nossas meigas e eternas companheiras!...

Prece
Estendei vossa mão bondosa e pura,
Mãe querida dos fracos pecadores,
Aos corações dos pobres sofredores
Mergulhados nos prantos da amargura.
Derramai vossa luz, toda esplendores,
Da imensidade, da radiosa altura,
Da região ditosa da ventura,
Sobre a sombra dos cárceres das dores!

111

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes,
Mais amor, desse amor que já nos destes,
Queremos nós em cada novo dia;
Vós que mudais em flores os espinhos,
Transformai toda a treva dos caminhos
Em clarões refulgentes de alegria.

Adeus
O sino plange em terna suavidade,
No ambiente balsâmico da igreja;
Entre as naves, no altar, em tudo adeja
O perfume dos goivos da saudade.
Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;
E a alma que regressou do exílio beija
A luz que resplandece, que viceja,
Na catedral azul da imensidade.
“Adeus, Terra das minhas desventuras...
Adeus, amados meus...” – diz nas alturas
A alma liberta, o azul do céu singrando...
– Adeus... – choram as rosas desfolhadas,
– Adeus... – clamam as vozes desoladas
De quem ficou no exílio soluçando...

Almas
Ó solitário das estradas,

112

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Desventurado pensador,
Há no caminho “almas penadas”
Que vão clamando desoladas
A dor e o pranto, o pranto e a dor!...
Vós, que o silêncio amais no mundo,
Em orações ao pé do altar,
Sob as arcadas silenciosas,
Almas feridas, desditosas,
Oram convosco a soluçar.
Ao descansardes, meditando,
À sombra de árvores em flor,
Sabei que às vezes sois seguidos
Pelas angústias dos gemidos,
De almas chagadas no amargor.
Clareie a luz do sol-nascente,
Negreje a treva na amplidão,
Gemem na Terra muitos seres
Pelos amargos padeceres
Depois da morte, na aflição.
Dai-lhes dos vossos pensamentos
Consolação que adoce a dor,
Dai um conforto à desventura,
A prece cheia de ternura,
Algo de afeto, algo de amor!...

Almas de virgens
Andam sombras errando abandonadas

113

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ao pé das lousas e das covas frias,
Almas de pobres freiras desamadas,
Perambulando pelas sacristias.
Almas das que não foram desposadas,
Como bandos de rolas erradias,
Angélicas visões de bem-amadas,
Mortas na aurora rútila dos dias...
Virgens mortas! Tristíssimas oblatas
De um sacrário de luz piedoso e santo,
Que sonhais entre os tálamos celestes,
Entoai nos céus as tristes serenatas
Com as vossas roxas túnicas de pranto,
Cantando à luz do amor que não tivestes!..

Carta íntima
Escuta, meu irmão! Pelo caminho
Da miséria terrestre, há muitas dores;
Muito fel, muita sombra, muito espinho,
Entre falsos prazeres tentadores.
Há feridas que sangram... Há pavores
De órfãos sem lar, sem pão e sem carinho:
Confortemos os pobres sofredores,
Almas saudosas do Celeste Ninho!
Jesus há de sorrir com o teu sorriso,
Quando faças no mundo o bem preciso,
Pelo que sofre em desesperação.

114

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todo o bem que plantares nessa vida,
Há de esperar tua alma redimida
Nos caminhos de luz e redenção!

Maria
Toda a expressão de ternura
Do mundo de provação,
Nos Céus ditosos procura
A sua excelsa afeição.
Consolo das mães piedosas,
Cheias de mágoa e de pranto,
Sobre quem atira as rosas
Do seu Amor sacrossanto.
Ninguém diz, ninguém traduz
Essa visão da Harmonia,
Visão de paz e de luz,
Paz dos Céus! Ave-Maria!

Mensagem fraterna
Meu irmão: Tuas preces mais singelas
São ouvidas no espaço ilimitado,
Mas sei que às vezes choras, consternado,
Ao silêncio da força que interpelas.
Volve ao teu templo interno abandonado,
- A mais alta de todas as capelas –

115

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E as respostas mais lúcidas e belas
Hão de trazer-te alegre e deslumbrado.
Ouve o teu coração em cada prece.
Deus responde em ti mesmo e te esclarece
Com a força eterna da consolação;
Compreenderás a dor que te domina,
Sob a linguagem pura e peregrina
Da voz de Deus, em luz de redenção.

Vinde!
Todo anseio da crença acalma as dores,
Toda prece é uma luz para quem chora,
A oração é o caminho cor de aurora
Para o sonho dos pobres pecadores!...
Ó corações que a lágrima devora!
Vinde, através dos rudes amargores,
Cantar na luz dos grandes esplendores
Vossa iluminação de cada hora!...
Vinde rememorar no espaço infindo,
Neste Lar de Jesus, ditoso e lindo,
As desventuras para bendizê-las...
Feliz o coração sereno e forte,
Que triunfa da lágrima e da morte,
Palpitando na esfera das estrelas!...

116

. Traz às sombras da vida a claridade. Vem o Senhor que nunca chega tarde. É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia. E percorre o silêncio do caminho.. Veste o manto do amor e da verdade. E o amor se perpetua. E os próprios sofrimentos da impiedade São as bênçãos de luz do seu carinho.Francisco Cândido Xavier . Ele chega. E eis que Ele chega sempre de mansinho. Haja sol. 117 .. E protege a miséria mais sombria. Como o Sol que dá vida sem alarde.. faça frio ou tempestade. Vem ao nosso amargoso torvelinho.Parnaso de Além-Túmulo O Senhor vem.

Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. Notabilizou-se no gênero descritivo. no Estado do Rio. falecendo em 1916. Modeladas pela dor. eleitas. Rosas de paz e de amor. Quais flores das primaveras. Luminosas. no Rio de Janeiro.Parnaso de Além-Túmulo 118 18 B. Como lírios cor da aurora. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança.Francisco Cândido Xavier . quando funcionário do Correio Geral. E as almas puras. a 19 de janeiro de 1859. município de Rio Bonito. rarefeitas. espaço em fora. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes. 2 Uma campina de flores . Vão todas. Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas. Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881).

Nesse batismo de luz. Dos lábios de anjos formosos.Francisco Cândido Xavier . Cromos 1 Na alcova desguarnecida. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. Recebendo entre outros gozos. a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha 119 . Minúscula. Beija-lhe a filha inocente. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores. E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. embevecida. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores. Mirando-a enternecida.Parnaso de Além-Túmulo Em pleno espaço infinito. O ósculo de Jesus. Sobre uma enxerga.

Vêem-se raios formosos. E com esta minha promessa.Francisco Cândido Xavier . Cheio de lágrimas. Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado. implora Perdão para o seu pecado. E pede.Parnaso de Além-Túmulo À santa lá do altar.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. O Jesus que ele não vê. E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa. Ao seu Jesus bem-amado. ora. 120 . Dimanando luminosos. Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. Do clarão da sua fé. suplica.

. original e simples. desencarnou no Rio de Janeiro.Francisco Cândido Xavier . Desalentado e triste. em 1915. Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. um dia. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes. soluço.Parnaso de Além-Túmulo 121 19 Batista Cepelos POETA paulista. pávida de medo. atribuindo-se a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores. exalta-lhe o estro espontâneo. Encaminhei-me à porta da Agonia. Que me desse um consolo a tantas dores. Corroído por chagas interiores.. Olavo Bilac. clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores. 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento . na rua Pedro Américo. Com ansiedade e temores dos galés. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro.

No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida. Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. sim! depois de tantos anos De tormentos. Para beber no cálix da matéria 122 . Agora. rude.. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora. Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável. Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora.. a paz calma e serena. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora.Parnaso de Além-Túmulo Da minha dor imensa. essa noite indefinida. o brando afago Da Luz. incompreendida. Tenebrosa. dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa. Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento. Quando terei os bens. Cheia de tempestade e sofrimento. que está na dor depuradora.Francisco Cândido Xavier . Onde o não-ser. em meio aos desenganos.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo As essências das dores renegadas! 123 .

sobretudo. depois da morte. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. luta e morre Sem jamais o conhecer. Estou mais moço e mais forte. corre. Ansiosa atrás do prazer. Encontrei paz e conforto Na vida. o homem pensa. da qual foi um dos fundadores.Parnaso de Além-Túmulo 124 20 Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. Que a morte é o fim. pela singeleza e espontaneidade da sua musa. em Juiz de Fora. Que escreve o poeta morto. Iniciou-se na vida comercial e foi.Francisco Cândido Xavier . . Sonha e chora. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. 2 Com a ignorância proterva. Minas. 3 Quanta gente corre. Eis as rimas de outro norte. Popularizou-se. comediógrafo e jornalista nato. depois. e aí desencarnou em 1937. notário público. Poeta.

Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição. 6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana. Nas mágoas do mundo. 4 Fecha a bolsa da ambição. Mas. Não corras atrás da sorte. guarda A fé do teu coração. Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro. O segundo é o dogmatismo. 8 A Terra. para quem sente. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. Sobre a Terra. da morte ao sorvedouro.Francisco Cândido Xavier . ao padecer.Parnaso de Além-Túmulo Não há ninguém que se forre. Ninguém se acaba com a morte. Inda é torre de Babel. meu irmão. Tem coragem. 7 Entre a fé e o fanatismo. 125 .

Basta. Que o homem siga a Jesus. Quem é rico. A essa estrada voltará. Com a bênção que Deus nos dá. Vais procurar a ventura? 126 .Francisco Cândido Xavier . na Terra sombria. Recorda que o mundo vão É grande necessitado. Que a mulher siga a Maria. Corações de lodo e fel. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença.Parnaso de Além-Túmulo Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. Sem muita filosofia. 9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. em prol do Reino da Luz. Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa. Que. quem é nobre. 10 Na vida sempre supus. É uma ventura ser pobre.

Parnaso de Além-Túmulo Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura. Modera-te na alegria. Toma posse de ti mesmo..Francisco Cândido Xavier . Não prendas o coração Nos laços da fantasia. Não perguntes ao passado Pela sombra. 127 . Quem desce é riso enganoso. Atapetados de espinhos. A bonança É flor de sabedoria. Olha o monte luminoso. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. No curso de aquisições. pela dor. Que símbolo sacrossanto!. Esquece as inquietações. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia. Não te aflijas. Eterna a fonte do amor. Muita fronte encanecida É fronte de criançola. Não vivas correndo a esmo. Acalma-te na aflição. Quem sobe é suor e pranto. O caminho é ilimitado..

Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa. A mão terna do carinho 128 . Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários. Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória. Não trazem ao coração A luz da felicidade. 3 Dinheiro do mundo vão. Age sempre com bondade. Alegre como ninguém. 5 É ditosa no caminho. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória. Todo esforço com Jesus É vida na eternidade.Parnaso de Além-Túmulo No impulso que te conduz. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários. Mentiras da vaidade.Francisco Cândido Xavier .

Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo.Francisco Cândido Xavier . derrotas. 6 Angústias. 129 . Tudo isso tenho visto. danos.Parnaso de Além-Túmulo Que vive espalhando o bem.

Consolação e paz dos desterrados Do venturoso aprisco das ovelhas De Jesus-Cristo. em magníficos versos brancos. A salvação dos náufragos da vida. A custódia das almas sofredoras. o Filho muito amado! Fanal radioso aos pobres degredados. Anjo guiador dos homens desgarrados Do Evangelho de luz do Filho vosso. Diretor da Biblioteca Nacional e jornalista de mérito. desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1895. verdadeiro poema em prosa. ainda hoje se manifesta.Francisco Cândido Xavier . ou seja o Evangelho de João. A fonte de onde respigamos estes dados. em 19 de fevereiro de 1834. é que Bittencourt Sampaio foi. Providência dos fracos pecadores. mas omite a maior das suas obras. que é A Divina Epopéia. deputado por sua província em duas legislaturas e Presidente do Espírito Santo. Virgem formosa e pura da bondade. um dos mais brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita. nascido na cidade de Laranjeiras. publicou-lhe a biografia. Mas. de 1937 (página 494). .. como tal.Parnaso de Além-Túmulo 130 21 Bittencourt Sampaio SERGIPANO. E. no último quartel da vida terrena. Foi político ativo. aponta Poesias (1859) e Flores Silvestres (1860). Reformador. por dar-nos obras como Jesus perante a Cristandade. À Virgem Vós sois no mundo a estrela da esperança. tais como estes..

eterno e puro! Dulcificai as mágoas que laceram 131 . Dai fortaleza àqueles que fraquejam. E corações farpeados de amarguras. No tenebroso báratro das dores. que padece... Mergulhados nas tredas tempestades Do mal. Estendei vossas asas luminosas Sobre tanta miséria e tantos prantos.Parnaso de Além-Túmulo Astro de amor na noite dos abismos.Francisco Cândido Xavier . Espíritos na treva das angústias.. Cegos desventurados. caminhando Em busca de outras noites mais escuras. Legião de penitentes voluntários. Fortalecei a fé dos vacilantes. Apiedai-vos dos frágeis caminhantes. que lhes ensombra a mente e a vista. Estendei vossos braços tutelares À Humanidade inteira. Existem almas míseras que choram Amarradas ao potro das torturas. Afastados do amor e da verdade.. Abençoai os mansos e os humildes Que acima de ouropéis enganadores Põem o amor de Jesus. Fugitivos da luz que os esclarece! Anjo da caridade e da virtude. Iluminai os cérebros descrentes. Enxugai-lhes as lágrimas penosas! Virgem imaculada de ternura. Clarão que sobre as trevas da cegueira Expulsa a escuridão das consciências! Virgem da piedade e da pureza. Clareai as sendas obscurecidas Dos que se vão nos pântanos dos vícios!.

Afastando amarguras.Parnaso de Além-Túmulo Pobres almas aflitas na voragem Das provações mais rudes e amargosas. Porto de segurança aos viajantes. Sobre a nudez de tantos sofrimentos Que despedaçam almas exiladas No orbe da expiação que regenera. o vosso manto Constelado de todas as virtudes. Farol brilhante iluminando os trilhos De todos os viajores que caminham Pela mão de Jesus... 132 . Virgem pura. dai-nos mais força e mais coragem. Senhora.. concedendo Claridades a estradas pedregosas. Cremos em vós... anjo de amor. Mãe de Jesus. que ampara e que redime.. Vinde a nós! nossas almas vos esperam. repartido Entre os esfomeados e os sedentos De paz. na vossa alma divina! Vinde! . Estendei. doce e bondosa. Almas de filhos míseros que sofrem.. Providência da pobre Humanidade!.Francisco Cândido Xavier . que os acalente e os conforte! Virgem. Vinde a nós que na luta fraquejamos.. O pão miraculoso. Clarão de sol nas trevas mais espessas. Conforto às almas tristes deste mundo. Vinde. Ajudai-nos a fim de que a vençamos. piedosa Virgem de bondade... Derramai sobre nós o eflúvio santo Do vosso amor.. Atendei nossas súplicas. Ele será a luz resplandecente Sobre a miséria dos padecimentos..

Francisco Cândido Xavier . Neste banquete místico do amor. Senhora. Fortalecei-nos a alma dolorida Na redenção da iniqüidade humana. Com o bálsamo da crença que promana Das luzes da bondade esclarecida. A Rainha dos Anjos. Providência de todos os aflitos. 133 . a pobre caravana Em fervorosas súplicas.Parnaso de Além-Túmulo A Maria Eis-nos. Inundando de amor e de ternura As feridas cruéis e dolorosas. meiga e pura. reunida. a paz e a vida. Ouvi dos Céus.. Que campeia nas sendas espinhosas. Que a nossa caravana da Verdade Colabore no Bem da Humanidade. De vossa caridade soberana. Ela conhece as lágrimas penosas E recebe a oração da alma insegura. Às filhas da Terra Do Seu trono de luzes e de rosas. ditosos e infinitos. Estende os braços para a desventura. Implorando a piedade. Nossas sinceras preces ao Senhor..

134 . mãe bendita. Mitiga a dor das almas desditosas Entre as sombras de míseras estradas. em vossas próprias almas. que andam na Terra. as mãos radiosas Sobre a angústia das sendas escabrosas Onde choram as mães atormentadas. mães. Não conserveis do mundo o brilho e as palmas. Ao teu olhar.. A alegria do reino de Seu Filho! À Virgem Do teu trono de róseas alvoradas.Parnaso de Além-Túmulo Filhas da Terra. Com tua alma de unos e de rosas. Estende. São caminhos de luz para o Infinito. as lágrimas da guerra E os quadros de amargor. irmãs. E encontrareis. No turbilhão dos homens e das coisas. Imitai-a na dor do vosso trilho!. Anjo consolador dos desterrados. Mãe de todas as mães infortunadas.Francisco Cândido Xavier . Conforta os corações encarcerados Nas algemas do mundo amargo e aflito. esposas..

e faleceu em 30 de agosto de 1933. Grinalda de Violetas.. E eu te enxerguei. despreocupada. o Sacrifício e a Humildade.. A um dos belos tesouros que eu possuía E mo roubaste para sempre. A pomba predileta Do prazer.. alegre cotovia. Em fúria iconoclasta. Meu coração. em obras como: Crisálida. a alma rubra e inquieta. da ilusão e da alegria. Foste. Como o simum que arrasta As cidades repletas de tesouros Confundindo-as no pó. a Renúncia. Quando chegaste de mansinho. austera e inclemente. Glorificou o Amor. em 1902. Pisando sutilmente o meu caminho. Minha luz Eu era. Dor. Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava serem os seus versos de origem mediúnica. Saudava alvoroçado O segredo da noite e a luz clara do dia....Parnaso de Além-Túmulo 135 22 Cármen Cinira NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu no Rio de Janeiro.Francisco Cândido Xavier . . em minha fantasia: Primeiramente. Em meu engano. Sensibilidade.

Meus mármores de Paros. Minhas estatuetas singulares. Ó Dor. ó divina estatuária. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios. ó Dor depuradora. Meus cofres de alabastros. Porque representaste em meu destino. desde que chegaste.. Encheste a minha vida De um estupendo prazer. 136 ..Francisco Cândido Xavier . Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. E quebraste Minhas cítaras de ouro.. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo.Parnaso de Além-Túmulo Foste aos meus ídolos mais caros. Na tua obra silente e solitária. por te querer. Que eu pusera nos astros Em meio às melodias estelares! Mas. Prosseguiste.. Destruindo-os sem dó. Foste a sombra divina Que acompanhou meus passos ao sepulcro. Minhas bonecas de biscuí. E humilhaste Meus sonhos de mulher e de menina. Tudo sofri.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

De alma sofredora,
O fanal peregrino
Que me guiou constantemente
Através das estradas espinhosas
Para as manhãs radiosas
Da Luz Resplandecente...
Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa,
Pois da volúpia estranha dos teus braços,
Vim pelas mãos da morte complacente
Para a vida sublime dos Espaços!...

Aos Espíritos consoladores
Donde éreis vós, ó formas imprecisas
De arcanjos tutelares,
Cujas vozes suaves como brisas
Trouxeram-me nas dores,
No auge do meu sofrer, nos meus penares,
A irradiação de brando refrigério!...
Frontes aureoladas de esplendores,
Seres cheios de amor e de mistério,
Cujas mãos compassivas
Ungiram meu coração resignado
Com o bálsamo do olvido do passado,
E com os místicos olores
Das meigas sempre-vivas
Da fé mais luminosa e mais ardente...
Seríeis o fantasma imaginário
Da mórbida exaltação d'alma do crente?

137

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Não, porque sois os cireneus piedosos
Dos que vão em demanda do Calvário
Da Redenção, nos sofrimentos rudes;
Vindes das mais remotas altitudes
De sublimados mundos luminosos!...
Seres do Amor, jamais traduziria
O cântico de luz
Que trouxestes ao leito da agonia
Que eu transpus,
Cheia de desenganos e gemidos!...
Verto ainda os meus prantos comovidos
Lembrando-me do vosso Stradivárius,
Repetindo as cadências dos hinários
Dos orbes da Ventura e da Harmonia,
Onde habitais, glorificando o Amor
Que d'alma faz um ninho de alegria
E um foco de esplendor!
Em que sol deslumbrante, em qual esfera
Viveis a vossa eterna primavera?
Ó irmãos consoladores,
Que vindes confortar os pecadores
Penitentes da vida transitória,
Dai-me um pouco de luz da vossa glória,
Estendei-me uma única migalha
Da vossa paz, que nutre e que agasalha
Os corações iguais ao meu!...
Tenho sede do amor que enfeita o Céu!
Espíritos da luz radiosa e infinda,
Minhalma é fraca e pobre ainda;

138

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todavia, imortal,
Quero ter dessa luz resplandecente,
E quero embriagar-me inteiramente
Com os vinhos da alegria celestial.

Cigarra morta
Chamam-me agora aí
Cigarra morta,
E não podia haver melhor definição,
Porque caí estonteada à porta
Do castelo em ruínas,
Do desencanto e da desilusão!...
Minhas futilidades pequeninas...
Meus grandes desenganos...
Eu mesma inda não sei
Se é ventura morrer na flor dos anos...
Sei apenas que choro
O tempo que perdi,
Cantando em demasia a carne inutilmente;
E vivo aqui, somente,
De quanto idealizei
De belo, de perfeito, grande e santo,
Que inda hei de realizar
Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.
Dá-me força, Senhor,
Para concretizar meu anseio de amor:
Evita-me a saudade
Da minha improdutiva mocidade!

139

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Eu não quero sentir,
Como cigarra que era,
A falta das canículas doiradas
Sob a luz de ridente primavera.
Já que tombei cansada de cantar,
Calando amargamente,
Perdoa, Deus de Amor, o meu pecado:
Que eu olvide a cigarra do passado,
Para ser uma abelha previdente.

Era uma vez...
Era uma vez Cármen Cinira, Um coração
Cheio de sonho e flor, que mal se abrira
Nos jardins encantados da ilusão...
Estraçalhou-se para sempre
Na voragem
Das trevas, dos abrolhos!...
Era uma vez Cármen Cinira...
Uma suposta imagem
Da perene alegria,
Mas que trouxe em seus olhos,
Eternamente,
Essa amarga expressão de alma doente,
Cheia de pranto e de melancolia!...
Cármen Cinira! Cármen Cinira!
Que é da minha cigarra cantadeira?
Embalde te procuro.
Por que cantaste assim a vida inteira,
Cigarra distraída do futuro?

140

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Perturbada,
Aturdida,
Busco a mim mesma aqui nestoutra vida...
Onde estou, onde estou?
Minha vida terrena se acabou
E sinto outra existência revelada!
Não sei por que me sinto amargurada...
Sinto que a luz me guia
Para a paz, para um mundo de alegria.
Mas, ó imortalidade
Se na Terra eu te via
Como a aurora divina da verdade,
Não julguei que inda a morte me abriria
Esse cenário deslumbrante
De outros sóis e de outros seres,
E vejo agora
Que não amei bastante,
E não cumpri à risca os meus deveres!
A fagulha de crença
Que eu possuía,
Devia transformar numa fornalha imensa
De fé consoladora,
E incendiar-me para ser luzeiro.
Mas, ó Senhor da paz confortadora,
Eu vi chegar o dia derradeiro
Em minha dor, na máscara de festa,
E a morte me apanhou
Como se apanha uma ave na floresta.
Experimento a grande liberdade!
Todavia, Senhor, ampara-me e protege

141

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Minha triste humildade!
Eu te agradeço a paz que já me deste,
Mas eis que ainda te imploro comovida,
Porque me sinto em fraca segurança;
Deixa que eu guarde ainda nesta vida
Meu escrínio de estrelas da Esperança.

À Juventude
Juventude linda e ardente,
Mocidade querida que eu exorto,
Meu coração de carne, esse está morto,
Mas minha alma que é eterna está presente.
Zelai pelo plantio, ó juventude,
Das flores perfumadas da virtude,
Porque depois dos sonhos terminados
Em nossos ermos e últimos caminhos,
Ai! como nos ferem os espinhos
Das belas rosas rubras dos pecados!

O viajor e a Fé
– “Donde vens, viajor triste e cansado?”
– “Venho da terra estéril da ilusão.”
– “Que trazes?”
– “A miséria do pecado,
De alma ferida e morto o coração.
Ah! quem me dera a bênção da esperança,
Quem me dera consolo à desventura!”

142

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Mas a fé generosa, humilde e mansa,
Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura:
– “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos,
Que esclarece e conforta os sofredores!...
Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos,
Mas com Jesus um espinho tem mil flores!”

O sinal
Quando chegamos do País do Gozo,
Nossa alma sem repouso
Traz o sinal das trevas do pecado.
Nossa alegria é um riso envenenado.
A palavra disfarça o coração
E a nossa dor é desesperação.
Tudo é sombra. A verdade não tem voz.
Muita vez, tudo é queda dentro em nós.
Mas os que vêm do Mundo dos Deveres
Guardam a luz de místicos prazeres.
Não têm palmas da Terra impenitente...
Como tudo, porém, é diferente!...
Sua alegria é um fruto adocicado,
Sua palavra é um livro iluminado,
Sua dor alivia as outras dores.
Trazem o amor de todos os amores,
Revelando na vida transitória
O sinal do Calvário aberto em glória!

143

em plena rua. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia. O irmão abraça o irmão. a tristeza continua. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! 144 . em vagas de perfume.. De esperança e de mel. cristalinos... Há quem contempla o céu maravilhoso. Há quem clama piedade e passa ao vento. há corações ao lume E há sempre um bolo. Ao pé da multidão.. Beija o filho a mãezinha idolatrada..Francisco Cândido Xavier . Doces. Em festiva oração. Em édenes fechados de carinho. A brilhar. lá fora. harmoniosos. Mas. de novo. Sob a crença imortal. Há quem chora sozinho.Parnaso de Além-Túmulo Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos. Sob claro dossel. ante os júbilos do povo.. Une-se o noivo à noiva bem-amada. Ralado de tortura e sofrimento. A estrela de Belém volta. Dentro da noite. Sem a graça de um pão. Nascem canções e flores de mansinho. Cantando a excelsitude do Natal!.

de viagem. Que não podem sorrir. Volve o olhar compassivo à senda escura. Vem amparar os filhos da amargura.. quase morta. Vem medicar quem geme na calçada!. Tu. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós.. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria. Há muita crença enferma. Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus. Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz. Oferece à criança abandonada Um velho cobertor. Natal!.. Temperado de amor.Parnaso de Além-Túmulo Ah! como é triste a imensa caravana.. Que só pede um sorriso brando à porta. Para tornar à luz.. 145 . Para unir-nos no Amor.Francisco Cândido Xavier . Do Rei que se humilhou na manjedoura Para amar e servir. aflita.. Que segue. fraternalmente. Prossegue o Mestre. que aceitaste a luz renovadora.

em vão!. Por não achar socorro. E encontra sempre a cruz.Parnaso de Além-Túmulo Em vão buscando um quarto de estalagem.Francisco Cândido Xavier . 146 . Um ninho pobre. ao fim da estrada. nem pousada Em nosso coração...

abrira os olhos Em meio de luzes puras. porém. Em célico resplendor. na sua existência terrena. Compreendi que os abrolhos . As mágoas.Parnaso de Além-Túmulo 147 23 Casimiro Cunha POETA vassourense. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. ao demais espírita confesso. Se tivesse tido maior cultura. Lamentando os sofrimentos. apenas freqüentou escolas primárias. Há. Fugi do pesar profundo. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. A alma ansiosa da Verdade. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade. Confiado no amor de Deus. para de todo cegar da outra aos 16. os desalentos. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé. Pobre. Do azul imenso dos céus. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo. uma triste particularidade a assinalar. Mal.Francisco Cândido Xavier . atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. Nas radiantes alturas. mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. por acidente. Órfão de pai aos 7 anos.

Provocando maldições.Francisco Cândido Xavier . 148 . O aroma da Caridade Perfumando os corações. Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia. Aqueles que já sofreram No dever nobilitante. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. resplendentes. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor. Encontram nestas moradas Tão formosas.Parnaso de Além-Túmulo Que a Terra me oferecera. A meiga flor da Bondade. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. Que mata toda a alegria. Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores.

Não vereis o sofrimento Retalhando os corações. sempre lindas. Luminosas. Penetrarão sua mente. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. Contemplai-vos nesta vida. Acordai. Arauto do Onipotente.Francisco Cândido Xavier . Nesta esfera iluminada. pois. ó vivente. Pois agora na ventura Fruireis consolações. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura.Parnaso de Além-Túmulo Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. belos. Alvos. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora. Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. 149 . Os reflexos divinos Quais lírios iluminados. Que aportais neste momento. O Senhor sempre clemente. deificados.

O Luzeiro da Bondade. A nossa alma que erra. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade. Só aproveita das cruzes.Parnaso de Além-Túmulo Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei. Que renegar eu tentara Como os míseros ateus. flores brilhantes. Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos. O Mestre da Caridade. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. Das amargas provações. Venturoso.Francisco Cândido Xavier . pois. Tão longe das grandes luzes. abençoei A dor que amaldiçoara. O grande Mestre do Amor!” Então. Na tremenda tempestade Das dores e expiações. a Jesus. 150 . Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. E feliz então busquei As bênçãos.

O coração desolado. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal. Alegrai-vos. Quais centelhas luminosas. De outras rútilas esferas. Visitam os vossos lares Como gênios protetores. Osculam-vos ternamente. Os prantos. O peito dilacerado. pois. A alma tristonha e exul.Parnaso de Além-Túmulo Deixando-vos sem conforto. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal. os amargores. Insuflando-vos coragem. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. Em meio das luzes puras. ao verdes 151 . Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus. Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. As frias noites sem luz. E os vossos filhinhos ternos. São mensageiros felizes Nas radiantes alturas.Francisco Cândido Xavier .

Francisco Cândido Xavier . Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente. Venturosos. De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. Ascensão Perguntai à flor virente. O que fazem cá no mundo.Parnaso de Além-Túmulo Quando partem sorridentes. Eles farão despertar As alvoradas formosas. Ela vos retrucaria: 152 . inocentes. Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza. Se perguntásseis também. De pétalas multicores. Como sorrisos dos Céus. Tão viçosas. Como fúlgidos clarões. perfumadas. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo.

Parnaso de Além-Túmulo . Para a Luz e para o Bem. Marcha ao progresso incessante. Caminhai sempre serenos. irmãos terrenos. Entre as rosas da Ternura.“Caminhamos na alegria.” Tudo pois. Chorar na escuridão Em dores mergulhado. E ver depois a luz Da aurora de ventura. E no Bem conquistaremos A suprema perfeição. A alvorada rutilante Da sublime perfeição. entre rosas. Espargindo a caridade. em ascensão. Consolando a desventura. Entre lírios. Entre os lírios da Bondade. Segui pois. Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura. Só assim caminharemos Nessa eterna evolução. 153 .Francisco Cândido Xavier . Nessas trilhas luminosas.

Alva estrela resplendente. redentora. É possuir tesouros De paz. buscar o amor Nas lúcidas alturas. Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora. Depois. No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus. Supremacia da Caridade A fé é a força potente Que desponta na alma crente.Francisco Cândido Xavier . Que nos eleva até Deus. Reluzente. 154 . A caridade é o amor. de vida e luz. Que ilumina os corações. Sorver dentro da treva O fel das amarguras. Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões.Parnaso de Além-Túmulo E após o sofrimento Ter gozo ilimitado. É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo. A esperança é flor virente.

Que irrompe.Francisco Cândido Xavier . Desterrado. Na noite das trevas densas. trazendo a luz. Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor.Parnaso de Além-Túmulo Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora. pois. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. Refulgente. peregrino. 155 . Versos Vivi na mansão das sombras. abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora. Nada empana o seu fulgor. Seja. Sepultado. A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume.

Perfumando a luz do dia. belo. E a vida da alma é a nossa Liberdade. 156 . delicado.Francisco Cândido Xavier . E dele fugi feliz.Parnaso de Além-Túmulo Entrei no sepulcro escuro. Alvo. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo. Onde as luzes recebemos Da Verdade. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações. É que a vida material É a prisão. Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. Onde a alma é encarcerada Na aflição. Pode existir a bondade Irradiando clarões. Morrendo. Nascendo.

Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados.. Toda a esperança da fé. Com mágoa e desolação.. Que vive com a caridade. É a flor cheia de aromas. É realizada no mundo Da eterna felicidade. Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato. sem luz. Sem saber que o desespero É porta para outra dor.Parnaso de Além-Túmulo E o coração que cultiva A caridade e o amor. 157 . A palavra que reténs É tua serva querida.Francisco Cândido Xavier . Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor. Cheia de viço e frescor. Porque não sabem que a morte É a nossa libertação. É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. Mas aquela que te foge É dona da tua vida.

Assim. Quem tem a flor da humildade. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido. Volve ao Céu todo piedoso. Sombra e luz Vem a noite. Verá decerto a bonança. depois da amargura Que a vida terrena traz.Parnaso de Além-Túmulo Quem sofre resignado. O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores 158 . Coração que andas ferido!. Após a morte descansa Quem luta. Vai a dor.Francisco Cândido Xavier . Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. Medrando no coração. volta o dia. surge a alegria Dourando a manhã do Amor. A alma encontra na Altura A luz. nasce a flor. Cresce o broto. a ventura e a paz. sem naufragar.

O gozo é o próprio martírio. noutro mundo. Que a alegria da Virtude Faz. Esperando uma outra vida Noutros planos.. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade. da plenitude. É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. A morte é a deusa celeste Da vida. desabrochar.Parnaso de Além-Túmulo E somente frias dores No mundo ingrato colheu. 159 .. de verdade e luz: Sem paradoxo. portanto. linda.Francisco Cândido Xavier . Que na noite de amarguras As almas vem despertar. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus. O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo. A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas.

160 . a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos. Caem copas opulentas. humilde: – “Mais tarde.” Ao que ela replica. Mas se não for.Parnaso de Além-Túmulo E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas. Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva. Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas. filho. Serás o sósia da Fé.Francisco Cândido Xavier . De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. Venerandos. dormiremos. seculares. Se for sono. Andarás ao lado meu. pois não é. Continuando graciosas A tapetar as estradas. Ciência amiga.

São refletores Da bondade de Jesus. filho. grite o mundo.. Dentro da fé que os conduz. Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor. poderosos: Arcas repletas de ouro. Sê. Flores silvestres da vida.. Imagem Dos bons e dos pequeninos. E frontes ébrias de gozos. Flores silvestres!. Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade. 161 . Nos dias mais tormentosos.. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos. como esta flor: Chore o homem. Palmilha a estrada do amor.Parnaso de Além-Túmulo Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor.Francisco Cândido Xavier .. Não caem. Na selva da vida humana Caem grandes. Mas. os humildes da Terra.

atento mesmo a sua banalidade. Vida de encantos divinos 8 Esta poesia singela e. depois de casada.Francisco Cândido Xavier . belas paisagens Cheias de vida e de cor. Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos. também cegada de uma vista. Que tão distantes se vão. por acidente. A ermida branca e suave De ternos. Dos nossos dias passados. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos. .. por assim dizer. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. intimamente pessoal. que o médium não podia conhecer. Carlota é o nome da esposa do poeta cego. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor. Vassouras!. eu sei da saudade Que te aperta o coração.Parnaso de Além-Túmulo 162 Ao meu caro Quintão 8 Quintão. doces carinhos.. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia. Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século.

O mestre da Velha Guarda. Se pelas luzes dos Céus. hoje os meus olhos Embebedam-se de luz. 163 . Ah! Quintão. Meus pobres versos – “Singelos”. Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor. Unida. Teu coração generoso De amigo. O raio de claridade Da noite da minha vida. Os artigos do Bezerra De outros tempos. no “O Pais”. “Aves implumes” da dor. A minha pobre Carlota.Parnaso de Além-Túmulo Que eu via com os olhos d'alma. A companheira querida. forte e feliz. A tua doce amizade A luz do Consolador. Se pelas sombras da Terra.Francisco Cândido Xavier . irmão e mentor.

Francisco Cândido Xavier . Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança. Se buscas o Espiritismo. Que clareia toda a vida E ilumina além da morte.Parnaso de Além-Túmulo Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa. 164 . Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola. O chamamento sublime Da Vida Espiritual. Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. E o Mestre Amado é Jesus. É uma fonte generosa De compreensão compassiva. É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria. divina e forte. É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia.

No bem que é bem substância Da crença que diviniza. o véu. Há sempre muitos chamados. 165 .Parnaso de Além-Túmulo Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. Muita vez a água do céu Torna-se em lama. O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados. é nossa divisa Oração e Vigilância. Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo. Que abrace a nossa Doutrina. e ação. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão. ao cair. Necessário é discernir A mistura. A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo. Escolhidos? muito poucos. Portanto. Penetra numa oficina De esforço. No Evangelho de Jesus. luta. a ganga. Verdade é que o coração.Francisco Cândido Xavier .

166 . Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. – Eis meu desejo de irmão.

sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho. Figura literária das mais típicas do seu tempo. com 21 anos de idade. hoje denominado Casimiro de Abreu. No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. A infância. no então município de Barra de São João. na Fazenda de Indaiaçu. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico.Francisco Cândido Xavier . . Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor. acometido de tuberculose pulmonar. um lago tranqüilo Onde começa a existência.Parnaso de Além-Túmulo 167 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense. A mocidade era um hino De melodias suaves. desencarnou aos 18 de outubro de 1860.

Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. Do verde da Natureza.Parnaso de Além-Túmulo O dia. De ternura e de saudade. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos. Numa canção de alvorada. 168 . Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma. E na paisagem querida. Igual a um canto sublime.Francisco Cândido Xavier . manhã ridente. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos. Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. O pensamento sonhando E o coração a cantar. Na tarde e no amanhecer. As carícias. De tristeza e de prazer. Constantemente cismando. A noite toda estrelada Após o doce arrebol.

Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida.Parnaso de Além-Túmulo Da melodia das fontes. Amargura e dissabor. As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além. As frondes cheias de amora. Se há tristezas. Quando eu cruzava as campinas. O manto de luz da aurora. se há saudades. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. Sem sombras de sofrimento. Também há dias dourados De sol e de melodias. Onde rugem tempestades. Descalço. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos.Francisco Cândido Xavier . com o peito ao vento. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra. Recortada de palmeiras. Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo. 169 .

Gargantas de ouro a cantar. Retumba pelas montanhas. Os sonhos da mocidade. A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores.Francisco Cândido Xavier . Um paraíso de amores. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. Que se beijam luzidias. Heróis ternos. namorados. Jardim de risos e flores Rolando no céu azul. Perfumando as pradarias 170 . Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. Onde há reis que são poetas. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. Ecoa de Norte a Sul. Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor. As galas da Natureza.Parnaso de Além-Túmulo Esperanças e alegrias. E trovadores alados. Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor. Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa.

risos e flores.. Desabrochando às centenas.Francisco Cândido Xavier .. A noite. Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar. 171 . O dia todo é alvorada De doces encantamentos. Quem vive num éden desses. De lágrimas e amargores. Sorrindo. O prado perfuma os céus!. Se há noite escura na Terra. Oferecendo-lhe graça. Também há dias dourados De juventude e esplendores. deslumbramentos Da Lua. Abarrotada de dores. O Sol o prado ridente. De áureos sonhos no porvir!. É sempre risonho e forte. De aromas. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas. Na estrada onde o homem passa. De triste e rude carpir. Os astros o Sol-nascente..Parnaso de Além-Túmulo Com seu hálito de amor.. cheias de olor. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar. Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças.

172 . Teus lindos pés descalçados. Os primorosos cabelos Enfeitados. Moreninha. Rainha da Natureza. Moreninha. Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. De miosótis singelos. Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha. trigueirinha. Moreninha. Revejo-te.Parnaso de Além-Túmulo Lembranças No sacrário das lembranças. à tardinha. Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros. Lavando a roupa às braçadas. Moreninha.Francisco Cândido Xavier . Moreninha. Moreninha. De olhar sedutor e insonte. De negras e longas tranças.

Sob o luar prateado.Parnaso de Além-Túmulo Nos fios d’água fresquinha. O vestidinho de chita. Moreninha. O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. Moreninha. Moreninha. A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha. Quando te achavas sozinha. Desferidos à noitinha. 173 . Enchendo a nave de odores. Moreninha. Tão faceira! tão formosa! Moreninha. Nos bandos de namorados.Francisco Cândido Xavier . Moreninha. Fitando a luz do sol-posto. A tua oração ditosa. Os teus risos adorados. Fazendo-te mais bonita. O nosso idílio encantado. Moreninha. Sob as mangueiras copadas. Nas missas da capelinha. De rosas estampadinha.

quem me dera Rever-te. Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa. de paixão. Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci. doce rainha. Moreninha. Recordando Meu Deus. Ah! que eu possa hoje olvidar 174 .. Rainha da Primavera.Francisco Cândido Xavier . deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. Daquela risonha aurora Do meu passado viver.Parnaso de Além-Túmulo Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade. Ai! Ai! meu Deus. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Moreninha.. Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever.

De convites à oração. Ouvir a voz da amplidão! Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar. Minha terra. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis. Que das ruínas. sofrer. Sentar-me no prado agreste. esferas. e amar A campina. Minhalma retire as heras.Parnaso de Além-Túmulo Imensidades. Na fresca sombra dos vales. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores. Enchendo as longes devesas. E contemple as primaveras Da vida que já deixei. 175 . meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. que ventura! Viver. Meus sonhos encantadores. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores. o Sol. Beijar as flores singelas.Francisco Cândido Xavier . dos escombros. Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei. Que esperança. o mar. Mirar a luz das estrelas.

Da alvorada e do arrebol. Da existência transcorrida Guardada no coração. Oh! Natureza da Terra.. Na excelsa Imortalidade. Revendo essa claridade. E dos cimos desta vida.Francisco Cândido Xavier . Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível. Que tesouros não exalas. céus azuis Ser homem e ser criança..Parnaso de Além-Túmulo Campos verdes. Verto prantos de saudade A luz da recordação. 176 . Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando.

o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções.Francisco Cândido Xavier . Múltiplas vidas vivemos. Para à mesma luz volver. . Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade.Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. Oficina onde a alma presa Forja a luz. com 24 anos de idade. E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor. desencarnou a 6 de julho de 1871. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América. Em que o Espírito se agita Na trama da evolução. É a luta eterna e bendita. Sedentos de paz e amor. forja a grandeza Da sublime perfeição. Mocidade radiosa. Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos.

Cai ao solo fecundando O chão duro que produz. A flor que. É a rija bigorna. Pelas fainas do trabalho. A enxada fazendo o pão. A vida é luz. É a dor que através dos anos. Tudo evolui. O fragmento do estrume. Em mensageiros de paz.Francisco Cândido Xavier . Dos algozes.Parnaso de Além-Túmulo É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo. 178 . terna. Em Carraras de eleição. mais galgar. Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes. Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. expirando. Anjos puríssimos faz. Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. esplendor. Nas madrugadas de luz. dos tiranos. tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. Pleno de seiva e verdor. o malho.

O grande conquistador. É Anchieta dominando. Quem luta. Em reflexos perenais.Parnaso de Além-Túmulo Deus somente é o seu amor. 179 . Oh! bendito quem ensina. É Sócrates e a cicuta. Suas rútilas passagens Deixam fulgores. A ensinar catequizando O selvagem infeliz. Ou o sabre de Bonaparte. É o sofrimento do Cristo. quem ilumina. Sintetizando a piedade. É César trazendo a luta. De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis. Portentoso. No sacrifício da cruz. Na Terra. às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais. É a lição da humildade.Francisco Cândido Xavier . imagens. Tirânico e lutador. É Cellini com sua arte. jamais visto. E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz. O Universo é o seu altar.

Nas sendas do progredir. Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes. Sou balança do destino. “Tende fé. Prêmio ou gládio vingador.Parnaso de Além-Túmulo Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou. Sou morte – origem da vida. Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! 180 . No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança.Francisco Cândido Xavier . tende esperança. Uma excelsa voz ressoa. O fiel desconhecido. “Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade.

sobre as descrenças. Meu verbo é a lei da Justiça. Sepultura do presente. Meu braço – a revolução. O manto das trevas densas. E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou. Que trazem os sofredores No jugo da escravidão. Na absoluta eqüidade. Consolo e alívio aos precitos. Austerlitz e Waterloo. 181 . Do porvir sou plenitude. sou compensação. Homem. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz.Francisco Cândido Xavier . Meu sonho é a evolução. Aos bons.Parnaso de Além-Túmulo Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. E por trabalhar com Deus. ouve-me. Sou águia libertadora Que abre. Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. E sobre a crença o esplendor. Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. se às vezes Simbolizo a guilhotina.

Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada. Mirabeau. também se a tirania Arvora-se em lei na Terra. implacavelmente.Parnaso de Além-Túmulo Sou prisão ou liberdade.. Estrela – estendo-te lume. Foi assim que fiz um dia. Faço cair as nações Como fiz Roma cair. Oásis – dou-te o repouso. E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou.Francisco Cândido Xavier . Ateio fogo aos canhões. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito. Busquei Danton. Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver. Arremesso a minha espada. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir. Então. E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove. Flor – oferto-te perfume. 182 . Nova aurora ou nova cruz..

Que jamais teve presente. Apaguei a luz do amor.Parnaso de Além-Túmulo Diante de tanto horror. fria. Horrenda. homem. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos. Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta. orgulhosa. Olha o Sol de fronte erguida. Dos campos Saaras ardentes. Serei tua doce amante. Das cidades fiz ossuários. Espera-me com fervor. Trucidei réus inocentes. E mostra biliões de sóis. Morte. se tens Por bússola o Bem na vida.Francisco Cândido Xavier . Nem passado nem porvir.” Portanto. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor. Abrir-te-ei meus tesouros. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. Que espedaça os teus heróis. Agora é reconstruir. 183 . E mostra biliões de mundos. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa.

Francisco Cândido Xavier . Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos.Parnaso de Além-Túmulo Conduzo seres aos Céus. Nínive. 184 . Tebas. Revivem na velha Europa. Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação. E como faz às cidades. Em queda descomunal. À luz da realidade. Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas. Tudo em seu seio revive: Esparta. Remodela humanidades No progresso universal.

poeta e jornalista. Sem Jesus.Francisco Cândido Xavier . Que o reconduz à terra estremecida.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. Refloresce ao clarão de outra alvorada. Foi grande abolicionista e espírita militante. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros. A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia. adiada e emurchecida. a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909. A esperança. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada. Vai com Jesus! não temas! crê somente! . Nascido na capital de São Paulo. Vence o deserto áspero e inclemente. O viajor errante encontra a estrada. cresce a treva entre os escombros.

Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito. estranha e louca. Das dores e da lágrima incontida. . Sua vida foi toda dores. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. Estrangulando a voz exausta e rouca.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE. No turbilhão de todas as esferas!. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras. Numa imensa espiral.. encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898. Funcionário público. mercê de um simbolismo inconfundível.. Das ilusões. marcar sua individualidade literária. Poeta de emotividade delicada.Francisco Cândido Xavier . Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. no Estado de Minas. Formando a rede eterna e incompreendida. soube. Sustentando o fulgor da luz da Vida. Sobe da Terra pelo espaço eleito. dos risos. das quimeras.

sozinhos. Que são. 187 . Nos desertos dos áridos caminhos. um passo adiante.. bruxuleante. trêmulos. Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia. E além dos trilhos de ásperos espinhos. Prisioneiros da angústia e da quimera. ermos de amores. Abandonados. As geenas do pranto acorrentados. sendo na Terra os esquecidos. Aluviões de peitos sofredores.Francisco Cândido Xavier . Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados. Mundos de amor no claro azul distante. Corações a sangrar. No turbilhão dos grandes desgraçados.Parnaso de Além-Túmulo Heróis Esses seres que passam pelas dores. Revestidos de acúleos acerados. Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos.. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos. Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida. São os heróis das lutas torturantes.

aflita. como a face Dum querubim angélico sorrindo. A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores. Luz que sobre negrumes se avistasse.Francisco Cândido Xavier . Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias 188 . As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce. Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. A brancura das pétalas abrindo. Sobre a lama ascorosa refulgindo. E como o lodo é o berço vil de flores. sonhando. Assim também do túmulo asqueroso. Do monturo pestífero emergindo. Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso. Como se a neve alvíssima a orvalhasse. Qual essa flor fragrante.Parnaso de Além-Túmulo Chorai! que a imensidade inteira chora.

anseios e alegrias. De lindos firmamentos estrelados. Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras. Céus distantes que vemos. Com a alvorada da Paz. que no-las remeteu. sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo.Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto. deixamo-lo aqui registrado. Longe das dores do passado incerto. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto. e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. Por supormos fato inédito. Desse mundo de sombra e de agonia. Anjos da Paz.Francisco Cândido Xavier . A alma livre contempla o novo dia. Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume. radiosas formas claras. . dominados De esperanças.

Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida. Penetra o mundo da imortalidade.. Nos sofrimentos purificadores.Francisco Cândido Xavier . Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos. Numa visão mirífica. Glória aos milhões de todas as criaturas. Glória à pobre criatura desprezada. Vê a aurora depois da noite escura.Parnaso de Além-Túmulo Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. que a luz acaricia! Alma liberta. Onde aportam ditosos.. Como heróis dos deveres e das dores! 190 . aniquilados. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras. Entre canções de luz e liberdade. Sob a noite das grandes amarguras. superna. redimidos. Sem conhecer a luz de uma alvorada. “Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras Que caíram exânimes na estrada. redimida e pura. Forçando as portas da Beleza Eterna.

a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa. Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno. Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé. Sobre as ressurreições da alma gloriosa. Cheio das luzes do porvir eterno. O teu destino esplendoroso e raro. o tormentoso Averno. Sabei vencer entre as vicissitudes.Francisco Cândido Xavier . Guardai a voz da Terra Prometida. no horizonte claro. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. Como arautos de todas as virtudes. Segue cantando. Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. Nos exílios do pranto e da saudade.Parnaso de Além-Túmulo Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade. O escuro abismo. Mas não te esqueças desse mundo avaro. 191 .

Onde venceste a carne soluçando. Que coroa de luz a alma impoluta. Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura 192 . ó pobres caminheiros. A canção da vitória ali se escuta. compassivos. fitando a imensa altura. Na paz quase integral e absoluta. Mas lembra-te do orbe da impiedade. Que na Terra viveis como estrangeiros. Da alma livre das penas e das dores. De alma ofegante e coração aflito: Considerai. Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade. Céu Há um céu para o Espírito que luta No oceano dos prantos salvadores.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Volve os teus olhos ternos. Que faz da vida a rede de esplendores. Considerai. Céu repleto de vida e de fulgores.

Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera. Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura. Um mistério divino há nesse instante. Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente. luminosa.Parnaso de Além-Túmulo No tormento que punge e dilacera. Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. esperança. ignota.Francisco Cândido Xavier . É o augusto momento em que a alma. presa Às cadeias da carne tenebrosa. Sentindo a vida de outra natureza. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura. No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! 193 . Beleza sossegada e silenciosa. trêmula e acesa. Da Luz branca da Paz. Sou teu irmão. até partires Nas asas brancas da Felicidade. dorida e ansiosa. Abandona a prisão.

Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio. mais escassos. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores. E o mistério dos célicos abraços. De outro mundo de luz. Epopéias de Sons e de Esplendores. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores Na vastidão serena dos Espaços.Parnaso de Além-Túmulo No silêncio de cada moribundo. etérea. Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas.Francisco Cândido Xavier . Dos Perfumes. Se queres Se queres a ventura doce. indefinido. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria. Há a promessa de vida em outro mundo. das Preces e das Cores. E os prazeres mais pobres. Na mais sagrada das hierarquias. 194 .

dos pecados. Outro Job pelas chagas da matéria. Ó portadora do tormento acerbo. torturados. Sofri na Terra junto aos condenados. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto.. Encarcerado nas sinistras grades. Bendita a hora em que me pus à espera De ser. os míseros culpados. em vez do réprobo que eu era. Que surgem do pretérito de crimes. funérea. do Gemido.Parnaso de Além-Túmulo Viverás na mansão triste. que redimes Os grandes réus. do Pranto. Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo. fortes e sublimes. és tu que resgatas.Francisco Cândido Xavier . Seres escarnecidos. Dos prazeres mundanos esquecido. À dor Dor. Do Soluço. 195 . Aferidora da Justiça Extrema. Os calcetas dos erros. Sob os teus pulsos. De benditas e eternas claridades..

E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. Cheias de risos e de pedrarias. 196 .Francisco Cândido Xavier . sem luz e sem conforto. e. fatal e avaro. Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. Sentindo as dores desse desamparo. todo o pranto. Todo o fel que tragares. das dores meritórias. De maravilhas de ouro e de alegrias. Serás pobre de luz se não sofreres. É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres. Tive um passado fúlgido de glórias. entretanto. Ser-te-ão como trevas. Sofre Toda a dor que na vida padeceres. Sem reparar. porém. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias.Parnaso de Além-Túmulo O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. noutras sombrias Sendas tristes.

Francisco Cândido Xavier . Abre a tua consciência para as luzes E. O hino da luz. misterioso e santo. Chorando a mesma dor que o mundo chora. vibrai nos ares. Exaltai minhas dores de outras eras. Nos horizontes. nas atmosferas. Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos.Parnaso de Além-Túmulo Pois que a dor é a saúde dos prazeres. no mundo que o mal encheu de cruzes. amplidões e mares! Vibrai comigo. E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! 197 . Cantem no mundo todas as quimeras. vence-o. Sobre o aroma das novas primaveras. Meus passados. e. humilha-o. Aves e flores. Desdobrai-vos luzeiros estelares. multidões de seres. recônditos pesares. Foge à revolta... Doma o teu coração. Exaltai-vos na vida de minhalma. Do Bem encontrarás a eterna aurora. Exaltação Harmonias do Som. no silêncio. dobra-o.

Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados. Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura. A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. Outras vozes mais doces e mais puras. Desce dos Céus a voz amiga e mansa.Francisco Cândido Xavier . Quanto mais sofre. suplicando. As primeiras são feitas de amarguras. 198 . há sobre as humanas Vozes que se lamentam nas torturas. Silenciosa. muda. Como um coro dulcíssimo de hosanas. Remontando aos Espaços constelados. As segundas. Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade.Parnaso de Além-Túmulo Vozes Há sobre os prantos. de bênçãos soberanas. Sobe da Terra a queixa soluçando.

Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas. Canta e vibra num dia de bonança. Nessa jornada eterna da Esperança. que é pão dos infelizes. incertas. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras. infinita.. Luminosa e divina. humilde e boa.. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa. Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. Que é a existência na prova dolorosa. Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas.Parnaso de Além-Túmulo E ao fim de cada noite tormentosa. Glória da Dor.Francisco Cândido Xavier . 199 .

. Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura. Amarguras e dores e canseiras. Quanta vez. nas horas derradeiras!.. na noite da amargura. abafando os meus soluços. torturados! 200 . Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura. Como folhas levadas pelos ventos.Parnaso de Além-Túmulo Horizontes. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos. estrelas.Francisco Cândido Xavier . Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia. Ah! meus longínquos arrebatamentos. Presa de sonhos e estremecimentos De esperança. Sobre a qual vossa vida já descansa. O evangelho do amor e da esperança. Ide e pregai. firmamentos... Que vos fostes nas lágrimas ligeiras.

Parnaso de Além-Túmulo Conduzi a mensagem luminosa Da caridade. Misericórdia. Redentora de todos os pecados. Mão radiosa. É a vibração do espírito divino. Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia. que acaricia e que abençoa. De bens paradisíacos se priva. que traz a verde oliva Da paz. Das consciências libertas da impureza. promissora e ativa. lúcida e piedosa. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa. Manifestando as glórias da Beleza!. Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte. 201 . A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave.Francisco Cândido Xavier . Em seu labor fecundo e peregrino. a qual para ser boa.

Num contínuo combate pavoroso. Nesse mundo de lutas fratricidas. Prosseguindo na estrada luzidia. esquece a lúrida maldade. De que a morte voraz faz seu consumo. Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. Entre as aluviões de cinza e fumo. A vida se alimenta de outras vidas. Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças 202 . E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. como passas. Com a bondade mais pródiga e mais pura. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias.Parnaso de Além-Túmulo Do homem. Todo o sonho carnal vaga sem rumo. Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças.Francisco Cândido Xavier . de orgulhos e de raças. Tudo no mundo passa. Ofertando-os ao mundo que te odeia. É ter no Além castelos de ventura.

sob as dores De misérias. sob as maiores Desventuras do mundo. Iguais às vossas. E sustentei. Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento. batalhas e tormentas. 203 . rudes e incruentas. de alma pura. de amor. Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre.Francisco Cândido Xavier . que uma vida eterna e grande. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai.. varado de amargores.Parnaso de Além-Túmulo Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando.. míseras criaturas.. almas sedentas De paz. Também vivi as lágrimas obscuras. de luz. Surdas batalhas. Além da morte. Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento. Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores..

204 . ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores.. Que Jesus vos prepara além da morte. Não maldigais a ulceração da algema. Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. Pobres da Terra.. Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena.Parnaso de Além-Túmulo Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura. Glória aos humildes Ai da. Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. Cheios de prantos e de cicatrizes. ambição do mundo. Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura.Francisco Cândido Xavier . No bergantim sagrado da Esperança. E esperai a vitória alta e suprema. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!. Levantai vosso olhar sereno e forte. seres infelizes.

É a caravana de batalhadores Que. Rompe algemas de trevas e granito. Aliviando os seres sofredores. 205 . os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros. sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade. Espalhada nas sendas do Infinito. Não vos importe o espinho ingrato e acerbo. Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores.Parnaso de Além-Túmulo Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores. Guardai-lhe a sacrossanta claridade.Francisco Cândido Xavier . Na palavra e nos atos. Vós que sois. no esforço do amor puro e bendito. sobre a Terra.

Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros EDMUNDO Xavier de Barros.. nem o fim! A vida. como capitão da arma de Cavalaria. no Estado de Goiás. porém. desvenda à Terra os planos que descobres.. Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus. Há vida. Desencarnou no Distrito Federal.. . a fama. vibrando noutra esfera. a vida eternamente. fumo e cinza ao fundo da cratera. nascido em 1861. o prazer e as ilusões terrenas São lodo. Esvaiu-se a vaidade!. em 17 de janeiro de 1905. Os júbilos e as penas. a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro. Que além do gelo atroz que te reveste os muros. Em cenário diverso aprimorando as cenas. Continuam... Foi poeta e desenhista notável. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. sempre a vida. Vida Nem a paz. A alegria que exalta e a dor que regenera. filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros.. Morte..Francisco Cândido Xavier . nos círculos escuros.

estrelas cantam hinos. sobre a fronte do mundo!. à luta que aprimora.Francisco Cândido Xavier .. Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam. esquivando-se à aurora. O homem é o semeador dos seus próprios destinos. sem Deus. Para ver a extensão da noite estranha e densa. Em derredor da Terra. Glorificando a luz onde a Verdade mora. porém.. 207 .Parnaso de Além-Túmulo Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos. Ave triste da noite. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo.. Sem furtar-se. Santificar a dor. as lágrimas e os sonhos.. Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos.

. sem deixar de ser profunda. versos satíricos postumamente colecionados. Longe das anedotas indecentes. em 1866. Legou-nos Poemas da Morte. além de Mortalhas. Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível. Sou o Emilio. Musa vivacíssima e fulgurante. distante da garrafa. e Poesias. .Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro. Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis. contudo. de outras vezes. era sobretudo ativamente humorística.. Mas que não se entristece e nem se abafa.. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes. e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918. 1909.Francisco Cândido Xavier . Distinguiu-se pela altaneza dos temas. 1901.. Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. Recitando epigramas descorteses. nascido em Curitiba. Procurando tomar o tempo vosso. quanto pela opulência das rimas. Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses.

O elo que nos unia. tolerai o meu assunto. (Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai. Muita gente nem fica de ceroulas. Evitai as comidas indigestas.. Como a quase saudade do presunto. o vinho não explode. conservei-o. 209 . Pois na hora do “salva-se quem pode”. Espero-vos aqui com as minhas festas.Francisco Cândido Xavier . Apesar do meu cérebro bestunto. Nas quais. que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio. Que nutre um corpo empanturrado e feio.Parnaso de Além-Túmulo Aos meus amigos da Terra Amigos. Nem há cheiro de carnes ou cebolas.. porém.

. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável.Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas. que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade.. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. Fluminense. que a verdade . Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens. as noites. da liberdade. desencarnou com 34 anos. da perfeição. Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante. as auroras. Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor. Hinos de amor. Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis. em 1875 – depois de uma existência tormentosa. Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!.Francisco Cândido Xavier .

Irmãos. Visões de sóis eternos. Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro. Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas.. Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível. distantes. confundidas Entre estrelas igníferas. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas.. Sendas de sonho e báratros escuros. redivivo!. desferindo Harmonias de amor e claridades. Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas. Que transmudas em rosas os espinhos. Pude transpor abismos de ouro e rosas. 211 . radiosas. Em lindos arquipélagos distantes. E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso.Francisco Cândido Xavier .. E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência.. Habitei os palácios encantados. Vastros portentosos. Empunhando o saltério da esperança.Parnaso de Além-Túmulo Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível. Em retiros de amor calmo e sereno. Descansei sobre as ilhas de repouso.

. Somente o amor é a vibração de tudo! Vi céus por sobre céus inumeráveis. Ah! Morte!. Um detalhe minúsculo. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. nesses orbes lúcidos. O amor. Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros. Amando-se da vida os bens mais nobres. divinos. Roubando-nos afetos e consolos.. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor. A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca. Quando a esperamos tristes e abatidos. As nossas esperanças mais profundas. somente o amor. Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. A morte corrobora as nossas crenças.Francisco Cândido Xavier . Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra. um fragmento Da Criação infinita e resplendente. Mundos de dor e mundos de alegria. Se o mundo abafa em nós toda a alegria.Parnaso de Além-Túmulo Onde o solo é formado de ouro e neve. Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz. jubilosa. 212 . Lá. nutre e dá vida.

Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. Onde as almas ditosas se engrandecem. a imensidade. É apenas um degrau na imensidade. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. Outras almas guiando em labirintos Para a luz. Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda. Ela é somente o exílio temporário. Morte! que te abençoem sofredores. Pelos beijos dos seres bem-amados.Parnaso de Além-Túmulo E aponta-nos o céu. das dores. para a vida e para o amor! Que representa a Terra. Que te bendiga o espírito abatido. Sobre a fronte de todos quantos sofrem. Pela visão dos céus resplandecentes. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade. Como um canto sublime de esperança.Francisco Cândido Xavier . Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne. dos escravos Das aflições. mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! 213 . Ansiando mais luz.

o mar. Padre João meditava. é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras.. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel. Um puro coração. A noite era de sonho e névoa luminosa. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. nascido em 1850 e desencarnado em 1923. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa. sobretudo. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis. poeta português. vemos. Notável. orando ao Deus de amor: Revia em pensamento . O meigo padre João.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro. pela sua veia combativa e satírica. por sua produção de agora. mas o fulgor das idéias. a terra. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral.Francisco Cândido Xavier . nas mesmas diretrizes..

Daquela igreja fria. Inflamado de fé. Era o meigo Pastor irradiando a luz. extraordinária. Era o Anjo do Bem. Oferecendo amor em flores de bondade. Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível. Era um vulto sublime. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. meditando. Aos pecadores dando amigas esperanças. O farol da verdade ao humano coração. de pau.Parnaso de Além-Túmulo Uma luz singular nas dobras do passado. a ermida solitária. Imóvel dominando o âmbito vazio. excelso. então. O sacerdote. 215 . Conhecendo no padre o gêmeo de Caim. o imáculo Jesus. Afastado da luz. imaculado.Francisco Cândido Xavier . Iluminando a vida. Notando a diferença enorme. E viu da sua igreja o erro tão profundo. De paz e de perdão. fugindo aos irmãos seus. Iluminando o mundo. Da igreja de Jesus. Comparou. desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. Que fazia descer o amor às multidões. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. Por anos inclementes Em séculos sem fim. Feita de amor e luz. inerte e frio.

Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. As árvores. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava. E transformas o padre em trapo de miséria. Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. o céu estrelejado. o espírito gelado. à natureza em flor. 216 . a floresta. Crestando a fé. a flor. Teve medo e receio. E fugindo a correr da porta semi-aberta. a chorar.. Encaminhou-se ao campo. roubando a luz. de eterna perfeição. Penetrou soluçando a ermida então deserta. Com o coração sangrando em úlceras de dor. Fitou extasiado a natureza em festa. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado.. E fitando.Parnaso de Além-Túmulo Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. endeusas a matéria.Francisco Cândido Xavier . E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho. matando a paz. túrbida e falaz. Sentiu seu coração em dores lacerado. E no sonho da luz fulgente do passado. de amor. Despiu-se do negrume espesso da batina. Torturas a verdade. os mares. a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus. E como se o animasse uma chama divina. A luz radiosa e bela.

no amor. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. Na piedade.. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus. E eu quero abandonar a noite da prisão.. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. Horas de solidão. Pelas planícies ledas. Horas quedas. Crepúsculo. Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu. Submergido em pranto. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. Prefiro a liberdade e a vida no futuro.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Num farrapo de sombra. Desprezo-te. desde a flor às luzes estelares. Eu vejo-o. No firmamento em luz. Era o festim do amor. feliz. Ruínas de maldade estúltica a cair. nas preces da harmonia!. Guiando-me o farol da fúlgida Razão. Pairava na amplidão estranho resplendor. exótica e execrável. Caridade Caía a noite em paz. 217 . Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. ó torreão de séculos trevosos.

a sorrir. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua. de exaltações. Reunidas no lar caridoso e terno. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando.. As árvores senhoris. Como braços em cruz. Almas puras. o aroma dos trigais. Caía a noite em paz. tardígradas do inverno. Almas feitas de luar.. Como poça de sangue.Francisco Cândido Xavier . os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa. Os poemas de luz. horrendamente informe. Canções de oiro e de sol das almas virginais. Sentinelas da dor nas regiões desnudas. do amor e da inocência. Exalando. em flor. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. Pipilavam febris no beiral dos telhados. Andorinhas gentis. mudas. de cândida frescura. em rimas soberanas. Elevavam-se ao céu silenciosas. Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. De quem ama a existência plácida da aldeia. sangrentos nos trabalhos. Vivendo a vida doce. cortando. em busca dos seus ninhos! Repousavam.. tremendo. por entre os negros mantos De espessa escuridão. imaculada e pura. despidas dos seus galhos.. que nascem das choupanas. de prantos!. Que vibrasse.Parnaso de Além-Túmulo A asa ruflando inquieta. 218 . a imensidão do espaço. relicários da essência Da verdade e do amor. Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. os colibris doirados. Era bem a visão da mágoa e da invernia. Sinistramente.

que anda nas meretrizes. Em mim. Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras. Que levasse o amor onde faltasse o lar. Que derruba os casais e come o pão das searas. Que palpita nos reis. Onde sobrasse a angústia. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes. 219 . que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz. Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. esplêndido e profundo. anhos de mansuetudes. Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo. Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. sentia a dor dos que não têm carinhos. à lide que os consome.Francisco Cândido Xavier . A dor que dobra e vence as multidões ignaras.. Filhos da obediência.. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. Que vão cedo ao trabalho. O castelo real e a cabana do pobre. Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão. Que se vão de longada ao longo dos caminhos. alvas como alabastros. onde andasse o penar. Era como a piedade iluminando o mundo. Suas faces e a fronte.Parnaso de Além-Túmulo E eu pedia ao Criador da imensidade etérea.

e com ansiedade levo-a A quem. Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!.. a seita e as gentes. – “Meu nome é Caridade. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. Abranjo em meu amor a alma dos continentes.Francisco Cândido Xavier . Levo sol. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro... Emitia esplendor sua túnica de arminhos. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas. Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. pão e luz. Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. Sou o farol da legião dos pobres sofredores. E quando a tarde chega. Amo o trabalhador. Como pairo a sorrir por cima de um monturo. Atravesso o oceano e atravesso os países. em vez do sono à sesta. que. 220 . que ampara a dor e vela os sonhos darte. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras. engendra a paz das searas. Para mim. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa.Parnaso de Além-Túmulo Pareciam do alvor das estrias dos astros. chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados.. Quem és tu? – murmurei. não existe a classe. Ando por toda a terra. Desço das vastidões dentro das horas mudas. Para levar a luz. balsamizando as dores. As rosas festivais das frescas alamedas. adornando as campinas. nas aflições. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem.

nas ermidas. Não conheço nações. que. corro do brejo aos sóis. como osculo os heróis. e as aves da floresta. É por isso. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos. nem recebo homenagens. Confortando o amargor. nos montes. Visito os hospitais. Sem toques de clarins e sem espalhafatos. comovida. talvez. Amo o goivo e o lilás. Vou ao cárcere escuro. consolando a miséria. o mesmo charco imundo. no sopé dos patíbulos. Lodo fenomenal de descrença e malícia. Ao pé do altar da fé. Minha missão é amar. como amo o luto e a festa. A Humanidade é a mesma. como idolatro as crianças. 221 . Jamais pude escolher entre Roma e Paris. Amo o bem que alivia. Oro em qualquer lugar. Não conheço horizontes. entro nos palacetes. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço. Subo da Terra ao Céu. Beijo um cadáver nu. as mágoas e esperanças. Nunca a lisonja fiz.” “Caridade! – tornei. creches e orfanatos.Parnaso de Além-Túmulo Que abarrotam de olor as primaveras ledas.Francisco Cândido Xavier . E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes. Amo a fera bravia. amo o bem que consola. alma de fariseus. nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. Amo o templo e amo a escola. Guardo comigo a dor. Que não te quer. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos. Idolatro os senis. Vivo fora do plano imundo da matéria. Não me regem as leis que regem um país.

Se o canhão não chegar.Francisco Cândido Xavier . a forca e a guilhotina. E se o povo chorar. O homem pôs o missal.Parnaso de Além-Túmulo Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. Propague-se impiedade. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica. Mate-se a mocidade. 222 . cheias de sentinelas. causa nojo a política. Rindo na podridão. pague um tributo novo. Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. que reclamar. onde fundaste a escola. Que esta plebe é de cães. transudando a miséria. toque-se para a missa. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios. Girândolas ao ar. que esta plebe é submissa. De nada serve o livro a um povo sempre cego. aromas os fedores. honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. asfixie-se a infância. as batinas e a estola. que se açoite esse povo! Alguém. Fez a bomba explosiva. Morre o bem. morre o amor. ponha-se a honra ao prego. E se alguém reclamar. Onde existe o grilhão dentro de escuras celas. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. Ao raiar a manhã. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. há canhões na Alemanha. jogue-se-lhe a metralha. flores sobre os lameiros.. espalhe-se ignorância. Onde puseste a luz. Ele fez podridões de imundos cemitérios. A sociedade vil é quase a mesma Impéria. Para que se não veja a ruína e os cemitérios. Celas que são prisões. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. Onde criaste o ideal e a inspiração divina. há mosteiros na Espanha. E se a fome vier.

Para fazer o bem. Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. Jesus amava o pobre. não discuto. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo. nem sabe discernir Qual deles foi maior.“Antes de tudo. Sabe somente ver as dores infinitas. nem más literaturas. Se viveram maus reis. o Papa o oiro vil. Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. Nunca soube notar. Se Calígula quis endeusar um cavalo. Não reconhece a lei que emana dos monarcas. Eu só quero saber onde há miséria e luto. Para o seu labutar. amigo. morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet. poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade. entre más soberanas. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz.Francisco Cândido Xavier . corre o fecho às janelas. Raciocina. o Papa a Rotschild! Que queres. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre 223 . a esta nada escapa. Almoça e ceia o luar. Somente lhe interessa a sorte das criaturas. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. se Goethe ou Shakespeare.Parnaso de Além-Túmulo E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. Caridade? o mundo é sempre assim. Não entende Voltaire. toma vestes singelas. eu não sei. Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma.

Sabe onde falta sol. Olha sem se anojar.Parnaso de Além-Túmulo De fulgentes milhões para humilhar o pobre. Nunca viu povoléus. Foge da discussão. Sabe somente que ama e também que perdoa. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. jamais amaldiçoa. nem divisa a ralé. nunca fez procissões. Sopa para matar a fome dos famintos. mágoas. jamais anda de sege. Que falta o amor e o pão. misérias. Jamais toma lugar para fazer sermões. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. Luz para desfazer a baixeza de instintos. onde escassa é a saúde. Não lhe pode abalar a opinião da crítica. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. sem se cansar. água e calor nos ninhos. Onde se mete a flor excelsa da virtude. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie. Os mendigos e os reis. desde o nascer da aurora. Para buscar a dor da orfandade que chora. dor. não está nas pelejas. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões. Não conhece opinião. Sabe amar e querer flores e passarinhos.Francisco Cândido Xavier . nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. Corre. Jamais focalizou questões eleitorais. Passa no mundo a pé. os palácios e os ninhos! 224 . Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas. Não vai à Terra Santa em peregrinações. Nem problemas sociais. Nunca reza em latim. não lhe estorva a política. Entra no lupanar. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos. E não vai desfolhar misérias nos jornais. corre por toda a Europa.

Que ouvem as tentações do beiral das estradas. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. as aves e os reptis. Noite de neve atroz.” Muito tempo passara e a noite inda era escura. Como do seu farnel.Parnaso de Além-Túmulo Tem abnegação. É preciso que eu vá visitar os covis. Não existe num mundo. Estou com o lavrador na tarefa das searas. Necessário é que eu siga em minhas romarias. Poeta amigo.Francisco Cândido Xavier . donde foge a alegria. melros e cotovias. Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda. Chama-me o sol redor. recôndito e diverso. Sabe o bem. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor.. Vai a todo lugar.. Existe no Universo. A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade. Amparar o chacal. noite de desventura! 225 . Procurando os pardais. Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados. para guiar felizes.. Vou subir a colinas e descer aos valados. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade. Sabe rasgar o peito. Minha missão é amar os vermes e os países!. Procuro a pomba e a fera. Desce ao antro sem paz. Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia. chama-me a orfandade. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda. Para guiar os maus. tomo o arado e a charrua. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor.. Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua.

Almas na escuridão da noite sem aurora. Pobrezitos sem pão. não sabeis. que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais. fustigadas de pranto. Corpos de podridão. Como as aves gracis em vôos nos trigais.Parnaso de Além-Túmulo Foi-se a linda visão. Existências em flor. fruto e flor. filhas que adoro tanto. Lírios no lamaçal das grandes desventuras. dissipando as neblinas. 226 . Calcular a extensão de tantas amarguras. esquálidos e nus. parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas. a Terra. há aroma e luz na beira dos caminhos. e aos olhos da minhalma. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro.Francisco Cândido Xavier . Harmonias sutis. Anjos açucenais que a miséria devora. urnas de lama e pus..) Não sabeis.. Repartindo o seu pão de carícias divinas. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!. árvores... O mundo famulento. O inverno e o pesar. Cantos de rouxinóis. No entanto.

Fez também o soluço e a lágrima dorida. Espargindo dos céus as glicínias formosas. Criou a dor clareando a escuridão da vida. Que o grão de areia une ao roble secular. o amor que dá saúde. edênico e sem par. Que liga o verme ao mar. Às regiões da glória intérmina da luz. Vinde comigo ver a dor dos desgraçados 227 .Francisco Cândido Xavier . Paira o clarão do amor.Parnaso de Além-Túmulo A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins. vinde alegres. O amor que fraterniza. Há risos e esplendor e há prantos. Que faz da Caridade a flama da Virtude. E se fez a bondade envolta de esperanças. Que sublime conduz aos planos celestiais. filhas minhas. comigo. Que irmana a fera e a rosa. Filhas que Deus me deu. Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis. Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças.. porém. as aves e os chacais. A lágrima da dor é estrela que transluz. mesquinhas.. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. das lepras mal cheirosas. que une a pomba às rosas. Sobre o escuro. misérrimas.

a Caridade e a Crença. Espalhemos a Fé. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. com os corpos cancerados. chilreia a passarada. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. E acharemos no fim da romaria imensa. Conduzamos conosco a luz da Caridade. por este mundo afora. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos. Aproveitemos. também. 228 . O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário.Parnaso de Além-Túmulo Que chorando se vão. Nutrindo o coração na fonte da esperança. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos. Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. pois. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas. esta hora calma e mansa. Perpassam colibris. Cheios de sânie e pus. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança. à treva a luz da aurora.Francisco Cândido Xavier . Em que há músicas no ar e olores nas estradas. Dando consolo à dor. sem pátria e sem abrigo. Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós. Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas.

humilde e silencioso. traído e calmo. Castelãs juvenis. poetas e trovadores. partindo como tantos. ensangüentado. e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes. Represam-se no olhar do Filho de Maria. Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. turbas de gozadores 229 . silencioso. Viram-no seminu. na cruz. valentes brasonados.Francisco Cândido Xavier . E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou. Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. Dois mil anos de dor. Caravanas de reis nos tronos passageiros. de pranto e de agonia. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. Açoitado. Cavalheiros gentis. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. Os lendários heróis no dorso dos corcéis. Artistas e histriões.Parnaso de Além-Túmulo Vinte séculos de dor. Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina.

depois. agora transformados Nos párias do amargor. Mas os soberbos reis e césares antigos. o anjo da virtude. Contemplaram Jesus no cume da colina. O sacrifício e a dor do eterno visionário. Hoje mais nada são que míseros mendigos.Francisco Cândido Xavier . as lutas e a chacina. Desolação e horror. o pranto. Agora vêem. O Mestre prosseguiu. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. Multiplicando a guerra. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso.Parnaso de Além-Túmulo Inda vieram. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade. chacais. Lobos. sublime e silencioso. sim. nos grandes desgraçados. na capa dos cristãos. a guerra e a fome. no topo do Calvário. Os nobres doutro tempo. mataram-se os irmãos. tigres. E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. 230 . Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição. Estende o seu perdão cheio de mansuetude.

Ponde sobre a esperança o inferno que flameja.Francisco Cândido Xavier . É preciso instalar a Inquisição de novo. Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador. De saber a verdade acerca do Destino. esplêndida. Cortai a asa de luz de toda liberdade. procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. Comei Jesus no pão refogado em falerno. viceja. calmo e silencioso. Consola a multidão com o seu olhar piedoso.Parnaso de Além-Túmulo E do cimo da cruz. Proclamai. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa. operosa e triunfante. Ensinai catecismo em todas as escolas. Contendo a aspiração indômita do povo. trazei Loiolas. 231 . Formai sob a batina as gerações vindoiras. torcei as leis. Afogai na descrença a pobre Humanidade. Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé. proclamai o dogma divino! Fazei bulas.

Ponde em cada recanto um novo Torquemada. vendei o ensino e a prece. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados. Aprovai. Transformai todo templo em balcão de bentinhos. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente. discursos. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. Só a Igreja possui a santa autoridade. absolvei magnatas.Parnaso de Além-Túmulo Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. Entre encomendações. Incensai Harpagões. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. Interpretai Jesus no prisma do interesse. Anatematizai todas as heresias. em verdade. Dentro das presunções da infalibilidade. Lembrai a Inquisição e a história do papado. Retende na memória os erros do passado. sermonatas. aplaudi as grandes simonias. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. Esquecei sobre a lama os pobres indefesos. Com representações em todos os caminhos. Traficai com o altar. 232 . E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu. Lede com desassombro o intrépido Barônio. Fazei autos-de-fé.Francisco Cândido Xavier . Porque.

arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus. Fazendo-vos ouvir. Que traz. A abençoar fuzis. Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos.. Se puderdes. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas. Clareando o porvir ignoto dos destinos. a luta das idéias. ouvi minha voz impávida e serena!.Parnaso de Além-Túmulo Sobre o luxo gritai no púlpito florido.. A discórdia infundi! Nutri regionalismos. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. carabinas. enfim.. porém. Gritai que o mundo está perverso e corrompido. Da mentira que. consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo. 233 . A luta da verdade. irmão. Incentivai com ardor os rubros fanatismos.Francisco Cândido Xavier . Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. metralhas. tomando a vossa pena. não alcança a virtude. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude. É feita nos clarões das grandes epopéias. e a bênção de Maria.. Mas.

um pálido abantesma. feito de gesso e lacas. congregações. Que a Verdade jamais se vende no mercado. Imóvel. Talhado de encomenda. Representa-se a peça antiga da quaresma.. da tiara. a vítima e comparsa Do Papa. Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus. Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco. É próprio das paixões e próprio da inventiva. Filha da estupidez bisonha e condenável. sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas. Nunca vos entregueis a tanto despautério. É o ator da paixão. que se repete. Paródia de uma dor sublime e incomparável.. Olvidai convenções. Deixai a insensatez dos clérigos. em tinta espessa e forte.Francisco Cândido Xavier . “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas. ao sol que tudo aclara. papado. Num cenário infantil. O pobre Senhor-Morto. arrecadando esmolas. Jamais enxovalheis o vosso ministério. Que a Igreja representa. o explorador santíssimo da farsa. 234 . pois. anual. Como as grandes funções do entrudo e do confete. Acostumai-vos.Parnaso de Além-Túmulo Criar uma ficção e excomungar de oitiva.

Fora das concepções altíssimas da Igreja. Precisais cultivar o nosso dogma eterno. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno. o espírito moderno. A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. desconforme. Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar. bandeiras e sacolas. certamente. Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos. 235 . Das chamas infernais. De eterna submissão ao Papa que é infalível. Sentinelas da fé. seus embaixadores. A função quaresmal prossegue. Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido. sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme.Parnaso de Além-Túmulo Com latim. criaturas inferiores Dirigem. cantochãos.Francisco Cândido Xavier . Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé. Coquelin tonsurado. Comte. Wesley. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes. obeso. Calvino. porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores.

é cometer um crime. Necessário se faz prender quem raciocine. Sofismá-lo. Obedecei à Igreja em sua Santidade.Francisco Cândido Xavier .. Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência. Com um aceno abençoou. Vivei. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. E abominando o Cristo. Satanás que os fulmine A falta de fervor tem feito heresiarcas. É preciso antepor. A Humanidade está sob o império do demo. Tem até corrompido os padres e os monarcas. Reformistas quaisquer?. Procurou lestamente o calmo presbitério. caros irmãos. segundo o gesto em uso. 236 . Sede firmes na fé. contentes na virtude. a humilde singeleza. Terminou a oração. a Luz. a Liberdade. enformá-lo.. rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. Amando a caridade.Parnaso de Além-Túmulo Toda ordem de Roma é boa e indiscutível. Que é o traço de união do arcano da Trindade. As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude. O dogma é uma lei benigna e sublime. Resmungando um latim exótico e confuso. E depois de exercer seu santo ministério. o Senhor que ele esquece. Sentimentos de fé e catolicidade. a toda a Humanidade. em santa penitência.

Era um livro escurril. A Igreja que foi pura e que já foi divina. recheios. o lídimo Evangelho. Porque a verdade pura. ó meus irmãos do altar e da batina. sem bispo e Vaticano. a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência. Morre sem remissão de horrível carcinoma. Esquecido Jesus. Da doutrina cristã. Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário.. Por isso. confeitos. cavando um negro abismo. a guerra e o fanatismo. Licores. Dos atos a lição. moscatéis. Jesus apenas fora a máscara piedosa. Para tanta extorsão impune e criminosa. Não se lembrou que houvera o bom samaritano.. Sereno. 237 . adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera. Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo. ambrosias. Nos pântanos letais e lúgubres de Roma. inadequado e velho. Com o seu rubro sermão. olvidou-lhe a doutrina. Opíparo jantar regado a vinhos caros. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário. E após se abastecer pantagruelicamente. da caridade o templo. doces raros. Sem artigos de fé. Propagando a cegueira.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. Em paz sacramental. Terminada que foi a sacra pantomima.

Parnaso de Além-Túmulo Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! 238 .Francisco Cândido Xavier .

Graças a Deus.. Poemas Líricos. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas. Escreveu Ementário. as mãos tranqüilas. a crença era meu pajem E buscando-lhe. Com que angústias te vi. cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem.Francisco Cândido Xavier . . em março de 1881. falecendo em 1937. Ó terra de São Pedro. Chorei de gratidão ao pressenti-las. nascido na cidade de São Pedro. Conduzindo-me à luz doutra paisagem. ansioso.. Nos supremos e tristes estertores!. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas. Que a morte é vida para os nossos sonhos. Era a morte. que amo tanto.Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA. Trabalha e espera sob os céus risonhos. A São Pedro de Piracicaba Último instante. banhado em pranto... E paraíso para as nossas dores.

Regou.Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO. Esperou confiante o sol da seara. seu último livro. jubiloso. chorando. E o pobre. deixou firmada sua personalidade literária. Quando aguardava a messe. Perdeu tudo no instante da colheita. a terra que lavrara. e suicidou-se no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930.. Soneto Sou.. nasceu na Vila de Boquim. Numa grande esperança insatisfeita. Eis que aparecem os arrasamentos. – Sonho lindo que a nada se compara. desgraçado e desditoso. em 1888. rude e bisonho. Passados os trabalhos e os tormentos. Lâmpada Velada e Fonte da Mata. o lavrador que fez. Gênese. tendo publicado Apoteoses. A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho. Não reparou o labor triste e enfadonho. Poeta de grande relevo emocional.Francisco Cândido Xavier . E de alma ingênua e coração risonho. .

serra em serra.Parnaso de Além-Túmulo Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado. Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino. Redizer minhas mágoas. Mas só colhi os frutos maus da Terra. E o triste engano da celebridade. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia. Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado. Do que chamamos – a felicidade. Do sofrimento fiz o apostolado.Francisco Cândido Xavier . Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos. Tudo outrora. É perpetrar amargas redundâncias. Senhor. minhas ânsias. 241 . E fui de vale em vale. incorpórea... Após a derrocada Das construções de um sonho superior. Renovar minhas síncopes de dor. Como fizera de minha arte um hino. Buscando a imagem fúlgida. As promessas pueris da falsa glória.

Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado.. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória Da crença e da bondade. Fez-me fraco e descrente... no passado. que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! 242 . Tudo sofri. Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições. Tudo em volta de mim era a cegueira.. E a desgraça suprema o amortalhou. de dor e de miséria. E a carne subjugou-me inteiramente.Parnaso de Além-Túmulo Na minha pobre vida abandonada. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença. Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza.Francisco Cândido Xavier . Que torturou a minha vida inteira. Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza. de fama e glória. O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas.

243 . meu Deus.. em Ti me anime.. A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção. o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!.Parnaso de Além-Túmulo Relevaste. pois...Francisco Cândido Xavier . Que a confiança. Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição. Cheio de amaridúlcida ansiedade.

A vida plena. Musa que inspira Meu coração A relembrar. Volta. ainda. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. onde veio a falecer em 1793.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto. amena. de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer..Francisco Cândido Xavier . Revela. A luz sem par. Redivivo Divina lira. “minado pela nostalgia”. A paz sublime.. Celebra. A Pátria linda Que faz vibrar Todo o meu ser. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África. Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia .

Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz. Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem. Canta somente. Chorando alhures. A nova era Do meu Brasil. Não mais procures.Parnaso de Além-Túmulo De amor cristão. Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo.. Lira divina. Ditosa e crente. Enfraquecer-te Nas lutas mil. O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção. Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz. 245 .Francisco Cândido Xavier . Sepulcro além..

Estado de São Paulo. o choro e as pragas. Doce e invisível no caminho escuro!.. Libertaste meu ser à Luz Celeste. em 16 de fevereiro de 1947.. enfim. Nume solar pairando no monturo.Francisco Cândido Xavier . Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen. flamejas! E agora brado. na cidade de Borebi. Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas E algemaste-me a lenho estranho e duro. e onde dirigia um Centro Espírita. . Onde. sublime e fúlgido. de alma robusta: – Deus te abençoe. da cruz de feridas que me deste. onde desencarnou. escondendo as flores com que afagas. em silêncio. Ouviste-me. Terno.Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902. Anjo da redenção! bendito sejas!.. internou-se num hospital. em 1930. dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui. ó Dor piedosa e justa. Mas..

Qual o tesouro O mais profundo. A procurar. em 1830. A perscrutar Qual a verdade. Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse.Francisco Cândido Xavier . de modo inconfundível.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines. então. E vi. E vi senhores . As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade. a suavidade e o ritmo da sua lira. Portugal. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. No coração Da criatura. Só a ilusão Duma ventura. Nestas poesias palpita. afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. e desencarnado em 1896.

Depois.. Heróis valentes Cá nesta vida. porém. Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos. E ainda aí Não pude achar 248 .Parnaso de Além-Túmulo Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder. Sempre a abater Os desgraçados. Busquei os lares.. Ricos solares Dos protegidos.Francisco Cândido Xavier . Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo. Perante a mão Da fria dor. Os potentados Com seus valores Bem se julgavam Onipotentes.

Das diversões. Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. Mágoa insanável. Deixam o teto Do seu afeto Maior. Pobres donzelas. Fanadas flores.. belos. miseráveis Párias da vida. supremo. Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados. Onde se aninha E se amesquinha A multidão 249 .Francisco Cândido Xavier . Alvas estrelas De formosura. Somente encontram Dores que afrontam..Parnaso de Além-Túmulo O que eu ali Fui procurar. Jovens e belas. Luz sem fulgores. Que. Eu vi mulheres Nos seus prazeres. Insuperável.

Desiludidas! 250 . Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. A maior dor. Aniquiladas. Ao som da festa. A ver se esquece O que padece. Belas outrora. Almas impuras.Francisco Cândido Xavier . Mas este riso. Gozar. Ensandecidas As criaturas Outrora puras. sorrir. À meia luz. E esmagadas. Julgando crer Que está a ver O paraíso.Parnaso de Além-Túmulo Que busca rir. É o que produz Todo o amargor. Só sentimentos Que trazem presas. No entanto agora Flores perdidas. Só pensamentos Das impurezas.

Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores.Francisco Cândido Xavier . Dissimulado. enfim. Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. Notas atrozes. De uma alegria Jamais sentida. Eram sombrias. Pobres farrapos De almas perjuras 251 . A traição. E tudo. As pedrarias Tão luminosas.Parnaso de Além-Túmulo Nesse recinto Eu vi. Pois só cobriam Míseros trapos. Toda a maldade Da hipocrisia. A iniqüidade. Desconhecida Naquele meio. A grosseria. então. Tristonho assim. Eram trevosas.

Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. Fracas criaturas Baldas de amor. Só conheci E encontrei. condoído. E. Desanimado.Francisco Cândido Xavier .” Mas uma voz Do azul do Céu. Pronta e veloz. Dando-lhe a calma Que necessita.Parnaso de Além-Túmulo Ao seu Criador. Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram. Me respondeu: “Filho bendito 252 . gemem. Desiludido. Só contemplei O mal que vi. Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita.

Desenganadas Nas perdições. Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso. Em todos os seres. Vi transformadas Todas as cenas. ainda. Sou teu Senhor. Donde provém A grande paz. Está na luta. A Terra linda E então verás. Mais fino ouro Dos filhos meus. Contempla.Parnaso de Além-Túmulo Do meu amor. E no Infinito Tudo o que fiz. Assim tornando O ser feliz. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas.Francisco Cândido Xavier . Nada se perde. O grão tesouro. Nos prantos seus. O sumo bem. 253 .

Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. Lágrimas belas. Nas esperanças. serenas. Por entre flores.Francisco Cândido Xavier . Brotar a flux No coração De cada ser. crianças. A amarga dor. Jovens. chorei. Gotas singelas. Sorri. Em profusão. mulheres. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei. Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! 254 . Nas grandes penas. Meigas. Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris. Por entre a luz.Parnaso de Além-Túmulo Homens.

Jóias divinas Do escrínio santo. Reconhecendo Que aqui nos Céus. 255 . Vale profundo De mágoa e dor. Quando voltavam Do seu exílio. Lágrimas lindas São transformadas. Gemas brilhantes. Fui então vendo. Primor de encanto Do amor de Deus.Francisco Cândido Xavier . Em profusão. E vi.Parnaso de Além-Túmulo Depois. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo. Que os coroavam Com gemas finas. Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra. Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus. então.

Que entre os seres do Além é sempre igual. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. Que nem Ofir Pôde possuir. Sejam benditas. Bendito o Pai. Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora. Ricas. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura. Felicidade Ao peregrino. O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus.Francisco Cândido Xavier . Tranqüilidade.Parnaso de Além-Túmulo Alvinitentes. 256 . fulgentes E deslumbrantes. Com a lágrima bela. As pequenitas Gotas de pranto.

Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!. imaterial.Francisco Cândido Xavier . na Terra apetecida. Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer.. Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz.Parnaso de Além-Túmulo No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor. País dos Céus. Venturosa região do espaço Além. Onde há trégua à tristeza e ao padecer.. basta crer Na Paz do Céu. Mansão de claridade e pulcritude 257 . Pelo poder da Fé. Vai ali encontrar Consolação. Depois de bem sofrer aí a dor. Para se achar o Amor. Doce Mansão de Paz. na provação. A morte é um sono doce. que se antevê. Onde impera a bondade do Senhor! Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul. a Luz e a Vida. aonde o pecador.

Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. Iluminadas Do Criador. Nessas regiões Onde há mansões Purificadas. Estremecido. que adoraram a Virtude. um dia. 258 . Imenso e lindo.Parnaso de Além-Túmulo Onde os bons. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! Dentro das lutas. Gozam do afeto extremo de Jesus. Porém.Francisco Cândido Xavier . Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido. O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor.

Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui. E se aprenderes Saber viver.Francisco Cândido Xavier . Mágoas e dores. É que verei Se o que ensinei Ao teu valor.. Já te mostrei A lei do amor. Luz do Senhor – O sumo bem.Parnaso de Além-Túmulo Tredas disputas Do Bem. Do sacrifício!. do Mal. porém. Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres. Conquistarás A grande paz.. Tu lutarás. Por entre espinhos. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor.. A grande luz 259 . sofrer. Risos e flores.. Sorrir.

Tranqüilamente. Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura. A boa estrada E com carinho 260 . A dor. o amor Do teu Senhor. Ao regressar. Nessas moradas Iluminadas Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço.Parnaso de Além-Túmulo Que eu. Reservarei E hei de guardar Para a tua alma. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos. Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho. Pra conquistares A luz. teu Jesus.Francisco Cândido Xavier .

Sê sempre amigo Dos sofredores. Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros. E ora conduz Teus sentimentos. 261 . Que cultivei Dentro em teu ser.Francisco Cândido Xavier . Caminha avante. À perfeição Do coração. Teus pensamentos.Parnaso de Além-Túmulo Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se. Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar. Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem Os sofredores.

Rútila e pura Aqui no Céu. Onde a alegria Reinava. Em mensageiro Do Deus de amor. austeros. Régio. Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz. Se assim fizeres E procederes. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar. e ria 262 .Parnaso de Além-Túmulo Ambiciosos. nasceu Num lar ditoso. Frios.Francisco Cândido Xavier . Então. Dos venturosos. Pecaminosos. faustoso. A conquistar Maior ventura. Sempre cumprindo Os teus deveres.

na existência. formosos. Felicitado Nessa abastança. Belo esplendeu.Francisco Cândido Xavier . A luz brilhante Dessa ciência Que. Na mocidade. Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu. Rico alcaçar Dos abastados. Ainda criança. Ganhou saber Nobilitante. Mas irreais. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária 263 .Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos. Desses palácios Materiais. Era adorado. Naquele lar. Lindos. Por planetária.

Ele esplendeu No vão saber. Fulgiu. brilhou. Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor. Na Academia Dos homens sábios. Mas sem olor. O infeliz ser Viveu dos lábios. Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. Refugiou-se Na vã Ciência.Parnaso de Além-Túmulo A lei de Deus.Francisco Cândido Xavier . Mas renegou 264 . Tornou-se esquivo. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus. Cheio de luz. Despreocupou-se Com a consciência. Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade.

Parnaso de Além-Túmulo A lei do amor. A relegar. Somente amando Sua ciência Enganadora. 265 . fulgir. Dele esperando Sua ventura.Francisco Cândido Xavier . Só procurou Brilhar. Nossa esperança Encantadora. E da existência Da própria alma Por fim descreu. Os desprezou. cumprir Sua missão. Como um ateu. Nunca buscou. Suaves brilhos Da nossa vida. A imensa luz Espiritual. Sempre espalhou. Filho do Mal. Os próprios filhos. Assim. Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura.

Suas idéias Tristonhas. Cruel. Que brota n'alma Desiludida. um dia. Nunca pensou Uma ferida. Nessa existência Que passa breve!. A Parca fria. Jamais o quis. feias. A morte amara.Parnaso de Além-Túmulo Em profusão. viveu Só na Ciência.Francisco Cândido Xavier . Do ateísmo Desventurado. infeliz. Não consolou O que sofria. De quem fugia Sem compaixão! Enfim. Nunca estancou Uma só lágrima. avara 266 . O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas. Porém.

Lembrou de Deus. Do sono amargo Em que viveu. Do seu amor. Amargurado Na aflição! Somente. Sentiu-se. Ele acordou Do seu letargo. 267 . Sentiu seus olhos Enevoados. Abandonado. Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. então. O arrebatara Nessa escabrosa Escura via. Dentro da dor.Parnaso de Além-Túmulo E dolorosa. Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo Em que vivera. num grito. Por onde sempre Se comprazera.Francisco Cândido Xavier . assim. E o conduziu Para o Infinito. Onde.

Francisco Cândido Xavier . Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer. Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. agora. Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz. Jamais soubeste Te conduzir. Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar 268 . Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. Por isso. Pelo viver Que demandaste. E assim cumprir O teu dever.Parnaso de Além-Túmulo A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração.

O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho.Parnaso de Além-Túmulo E assim curar A alheia dor. À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres. Entre alegrias. Foste inimigo. O grande amor – Fraternidade. A consciência! 269 . Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação. Foi convertida Em fero braço Esmagador. À perfeição. Dos próprios seres Que te adoravam. Em luz perdida. Oferecer À Humanidade. Que mais te amavam. Que então devias. E até negaste A existência Da própria alma.Francisco Cândido Xavier .

amara. Frios horrores.. Espezinhado Na sua queda.” Calou-se a voz. Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato. então. Que assim trilhara Na perdição. Continuamente. Por muitos anos.. Padecimentos. Do coração Do miserável. Fatal. E o pranto atroz Jorrou. Ele chorou E lamentou.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Envergonhado.Francisco Cândido Xavier . Entre lamentos E dissabores. Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever. Seus desenganos Na senda triste. Correu sozinho 270 .

Amargurado. Assim lhe era Retribuído. Desamparado. E o pobre Espírito Desiludido. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão. muitas vezes.. Só encontrava Consolação Nas lágrimas tristes 271 . Desanimado. A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo.Francisco Cândido Xavier . Perambulou Qual Aasvero. clamou. O mesmo bem Que ele fizera. O seu olhar. Supliciado.. Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho. E.Parnaso de Além-Túmulo O mundo inteiro. Pedindo luz. Sofreu.

.Parnaso de Além-Túmulo Que derramava Em profusão. Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado. 272 . Extenuada No atro sofrer. Fui a grilheta Da impiedade. Experimentada. Formosos.Francisco Cândido Xavier . Tendo comigo A tua luz. Cheia de unção Por entre prantos. Ó bom Jesus! E mesmo assim. A alma triste E solitária. Eu me perdi Por meu querer. Até que um dia Em que sofria. Mais padecia A dor feroz.. Cruel e atroz. Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis. santos. Pois não cumpri O meu dever!.

Sempre viver Na singeleza. Dá-me o acúleo Da expiação. Não quero ter 273 . Quero sofrer Dura pobreza. O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei. No meu viver Sem luz. E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!.. Tão justo e santo. Sabes do pranto Das minhas dores. Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação.Francisco Cândido Xavier .. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei.Parnaso de Além-Túmulo Pobre calceta Da iniqüidade. Mas tu que és bom. sem flores. Para que seja Exterminado O meu orgulho.

Então serei Ramo perdido. Não quero ter. Onde se encontra Maior ventura. Não quero ver O dealbar De uma esperança.Parnaso de Além-Túmulo Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. Quero ganhar 274 . Nunca. Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação.Francisco Cândido Xavier . Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. Árido e seco Pelo vergel Enflorescido. O próprio lar. Incompreendido Em minha dor. Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. jamais. Nessa batalha Que empreenderei.

Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei. Com meu trabalho.Parnaso de Além-Túmulo E conquistar A luz. Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes. Só é formosa. O agasalho. Cruéis e duras Das aflições. Claro e sublime Para o meu crime. Quando aliada Da caridade. portanto. Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras. o pão. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa. Ó bom Jesus. O puro amor. Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. 275 .Francisco Cândido Xavier .

A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena.. Seja bendito.” E o Mestre Amado. Deu-lhe o perdão. Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão. perdido. Viver somente Pela voxagem Das desventuras. Pelo infinito Desenrolar E perpassar 276 ..Parnaso de Além-Túmulo Neste planeta. Como a violeta Sob a folhagem. Feliz dulçor Da caridade!. Enfim.. Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado. E sempre ter Em mim bondade. Quero sofrer Com humildade.Francisco Cândido Xavier ..

De parceria Com o Orgulho. Rude e cioso Do seu poder E vão saber.Parnaso de Além-Túmulo De toda a idade. Chamou o homem Jatancioso. Belas. Escuta a prece De quem padece. Incomparável. Que. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável. O bom Jesus. com sua luz E terno amor. queridas. E assim lhe disse: 277 .Francisco Cândido Xavier . Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas. Do Criador! Na estrada de Damasco Num certo dia A Ambição.

Ser imperfeito Se achasse embora.Parnaso de Além-Túmulo “Homem. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos. Grande e valente Aqui no mundo. 278 . E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes. Glorificado De grão-senhor!” E o pecador. Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver. E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação. tu és Senhor potente. É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos.Francisco Cândido Xavier . Faze-os vassalos No teu reinado.

e o bom Deus Que está nos Céus. Bem satisfeito. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai. Mestre da luz. Nesta existência De provação. E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão 279 . A este mundo Ingrato e feio A redimir. O Filho amado Que à Terra veio. Que é a Consciência. E o bom Jesus. Foi sem demora Então chamado Por um juiz De retidão. O Deus de amor.Francisco Cândido Xavier . O Criador. Nosso Senhor. Que tudo vê.Parnaso de Além-Túmulo A seu agrado. Que então lhe diz: “Mas.

Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. Do teu viver. Seguir Jesus Em sua dor. Que já se achava Bem poderoso. Lindos. E espalhar Somente amor. 280 . Em seu amor. Nunca negar A tua mão. o tal homem Tão orgulhoso. Com alegria. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos. procura Melhor ventura Em só buscar. Em sua cruz!” Mas. Assim. Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. A relegar Toda a maldade. Acompanhar.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Tu deves dar. risonhos.

Enquanto ele Só te oferece Amargas dores. Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário. E o tal Jesus. Desolações. Eles. buscou E perguntou Aos companheiros.Francisco Cândido Xavier . Tendo o poder Pra dominar.Parnaso de Além-Túmulo Isso seria Obedecer E se humilhar. Tristes agruras. então. Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão. E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido. Assim. Nós concedemos Ao teu valor 281 . Cruéis espinhos.

A vida aqui Só é formosa Para quem goza. Vale o gozar Constantemente. E pois. Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir. Porque a morte Tão renegada. Essa é apenas O frio nada. sofrer. quando 282 .Parnaso de Além-Túmulo De grão-senhor Sublimes flores. Exprime a dor E não a luz. Há de levar Esse teu sonho De amar.” E assim. Ao caos medonho Do mais não-ser.Francisco Cândido Xavier . O louco amor Do teu Jesus. Pois vindo a Parca Bem de repente. assim. Mais saberá O que é existir. Lindos brasões.

Na caridade.Parnaso de Além-Túmulo O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. A lapidária.Francisco Cândido Xavier . No cumprimento Dos seus deveres. Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro. Nessa oficina Grande e divina Da Criação. Na mansuetude. Onipotente. A mensageira Da perfeição. 283 . E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. Fê-lo abatido E desolado. A eterna obreira. Chegou a Dor Humildemente. Na humildade.

E que. num brado 284 .Parnaso de Além-Túmulo Na submissão Do coração Ao sofrimento. A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia. Só encontrou O juiz reto.Francisco Cândido Xavier . De mui sofrer E padecer Na expiação. O Magistrado Incorrutível Da consciência. Altivos filhos Da veleidade. Depois. então. Reconheceu A nulidade. Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser. Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores.

Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem. Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto. Contemplará 285 . Porque verá. A esquecer Tudo o que seja Espiritual. A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade.Parnaso de Além-Túmulo Indescritível. Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres. Ermo de amor. Para a alegria Fatal converge O seu viver.Francisco Cândido Xavier . Em conseqüência. Para o enganoso. Com a maioria Da Humanidade. Efêmero gozo Do material.

se acaso viste Nos firmamentos o filho meu. tornando-os mais unidos. Nessas mansões. No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. Na ascensão para o Belo e para o Amor. Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens. de amor e luz. Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz. Que a Terra toda inunda de esplendor. a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz. fitando o céu – Dize-me. suave e triste. Angústia materna “Ó Lua branca. 286 .A Mãe pedia.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Todo o esplendor. que nos conduz À divina alegria. Lua. Para o Bem exalçar. Do eterno amor Do bom Jesus. . A eterna luz. pura e santa.

Sou eu no mar do éter infindo. E dos seus cantos. sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?. Oh! se o conheço. conheço-o bem!. que encantador Meu anjo belo como a açucena. . responde-me sem demora. Fitou a estrela que lhe sorriu.Francisco Cândido Xavier . da esperança. Lua serena.. martirizada. Como era grácil. E das ausências conheço o pranto. fria e impiedosa. – “Então.Parnaso de Além-Túmulo A Morte ingrata. Cheio de vida. ouviu: – “Ilha pacífica. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz..“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos. Deixou vazio meu doce lar. extasiada. Sentiu-lhe os raios. Se tu soubesses.. feliz.. Deixou minhalma triste e chorosa.. Roubou-me o sonho – deu-me o penar.. 287 . Continuava. cheio de amor!. Dum filho amado que a gente tem.” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto..” E a Mãe aflita.

Aqui em tudo floresce a vida.” A mãe saudosa. mãezinha amada... Em mim a noite não tem guarida. banhada em pranto.. Vida risonha. sorrindo.Francisco Cândido Xavier . Porque tu guardas o filho meu. se me detestas. Ó linda estrela que adorna o céu. Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade.. Notou de logo seu filho lindo. luz de alvorada. cheia de flores!. Do Senhor tenho doce trabalho.Parnaso de Além-Túmulo Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro. Senti a falta das primaveras. ditoso e lindo. Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho. Aqui terminam os dissabores.. 288 . Flores que afastam as agonias. Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também. Gritou-lhe a pobre desconsolada..” – “Se tu me odeias. Senti a falta desta alvorada!.” – “Quase te odeio. Num belo raio de luz. Todo vestido dum brilho santo.

Paz e ventura. Aqui. perdoa. Que tu te foste. carícia e amor! Ó mãe..Parnaso de Além-Túmulo Não resisti. E não podias partir assim. Tanta era a saudade! Voltei do exílio. Daqui te vejo. fugi da dor.“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar. na estrela.. Jardins e luzes e fantasias. A Terra amarga. menos saudosa. E.. Sonhos.Francisco Cândido Xavier . Sóis rebrilhando nos horizontes.. estranhamente. alguém me disse. tristonha e rude. castelos e melodias. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus. Muito pertinho do amor de Deus!. também há fontes. triste sem mim. 289 . se mais não pude Ficar contigo na escuridão. Aqui é tudo felicidade. pôs-se a chorar. Viu-se mais calma. Faço-te um ninho ditoso e belo. Lamentos do órfão Minha mãezinha.. Envenenava meu coração.. Já não me embala tua meiguice.

do teu querido. Que me fugiste sem me levar. Somente a mágoa vem-me afagar. Só noutra vida. pergunto à ave. De nos meus braços. Tudo é saudade no coração. só noutra vida!.. Mas tanto tempo faz que partiste. Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro.. saudoso e triste..” Pergunto à fonte. Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! . te beijar. Que de mim faça. outro Jesus.Francisco Cândido Xavier . E abraço o espaço.. minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo. Que sofro e choro. Que te procuro chamando em vão!. Um dos seus anjos..Parnaso de Além-Túmulo Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus. Há quantos dias que te procuro. mãe. Outros meninos alegres vejo. Numa alegria terna e louçã. Sem esperanças de te encontrar. que possui a luz. beijo o meu pranto. Tudo é silêncio tristonho e escuro. Quando regressas dos Céus supremos. E me respondem em voz suave: 290 ..

E ela retruca. Quando é que voltas desse país. estás bonita 291 . ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais. Tanta saudade..Francisco Cândido Xavier .” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela. Sempre a meus olhos. quando eu imploro.” Pergunto à flor que engalana a aurora. Diz-me que vens e diz que te vê. Cheios de angústias. Nem para dar-me consolação. E de mãos postas aos pés de Deus.” Sempre te espero. à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!.. Ajoelhada.” Somente a nuvem. Multiplicando meus pobres ais.. e. .“ O mar e a noite me crucificam. E me conforta. que mágoas soltas Andam cortando meu coração. mas. grave. ai! não voltas. do céu. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você. Ó mãe querida.Parnaso de Além-Túmulo “Nós não sabemos! nós não sabemos!. Vejo-te linda nos sonhos meus. no entretanto. consoladora: “Depois da morte serás feliz. meu doce bem?” Ele responde. banhada em pranto.

. como um jasmim! Porém conheço que estás aflita. Foge comigo para outra luz!. Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho. Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança 292 . entrego-me ao meu desejo. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços. calo. Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores. Com o pensamento junto de mim. Já não suporto tantos cansaços!. sorrio.. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura....Parnaso de Além-Túmulo Qual uma rosa. Para quem segue triste e sozinho. O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida.. Tremo de anseio. Sentindo o anélito do teu beijo.. Quanta amargura..Francisco Cândido Xavier . Volta depressa! guardo-te flores. Se não voltares. Junto da fonte que canta e ri. Então.

Eis que a Fortuna se lhe esconde. ao gosto amargo. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome.Parnaso de Além-Túmulo Responde-lhe com brandura: – Meu filho. à luz dessa manhã. com perseverança. Diz-lhe. muito ao largo. Chega-te a mim: sou tua irmã. a sua dor. E a fada. E ela chora. espera a ventura Com fé. E passa o gozo. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. O seu destino. Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça. Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos. Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador. Abre-lhe a porta.Francisco Cândido Xavier . 293 .

Francisco Cândido Xavier . portanto. Pedindo a luz. Confio e espero. somente. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão. Em Ti. Meu coração Imerso em dor Aflito vem. Sou eu. Pedindo o bem E a salvação. Senhor. Senão a Ti. Pedir a quem.Parnaso de Além-Túmulo Oração A Ti. O impenitente Na expiação. De Ti eu quero Me aproximar! 294 .

Rogando amor. Se sofro e choro. É porque andei Longe do Amor. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça. O Amor é a lei. Se me demoro No padecer. Bem sei. Buscar os Céus. No meu viver.Parnaso de Além-Túmulo Consolo santo. 295 . Ditosamente. Senhor. Senhor. Elevo a prece Do coração. Para o meu pranto Venho implorar. Cheio de unção. contente. Assim. A Ti. Que me ensinaste E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse.Francisco Cândido Xavier .

da bonança. Vaidosa e bela. Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos.Francisco Cândido Xavier . Quando só pede luz e amor. Escolhe sempre flores do vício. Depois. E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer. Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação 296 . Acorre à Morte por dar-lhe a Vida.. cansada e já comovida. E mais adiante topa a Desgraça. e já sepultada. E vem a Vida por dar-lhe a Dor. Sublime estrela que brilha No céu da paz. Mãe piedosa!. dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício. na existência..Parnaso de Além-Túmulo Fala à Ventura com riso irmão. Como perdida. E entre as virtudes. No esquecimento do próprio ser. E altiva e rude lhe esconde a mão.

Parnaso de Além-Túmulo Dos pobres. A vossa misericórdia. De tão grandes sofrimentos.. Sobre tanta desventura. Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade. Estendei o vosso manto De bondade e de ternura. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos.Francisco Cândido Xavier .. Trégua à dor!. Protegei os pecadores No degredo. dos desgraçados. Livrai-nos do abismo tredo Dos males. dos amargores. Compadecei-vos. Que apavora. Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor. Dai paz a toda discórdia. Senhora. dos oprimidos Deste vale de gemidos. Deste mundo de tormentos. Que sois a terna clemência 297 . Dos corações desolados Na aflição.

a vida tumultua. Além Além da sepultura. Que vos possam compreender. Prisioneiros da dor que fere e espanta. E vendo não querem ver. Além da morte. E em vossa luta o bem de cada hora. O trabalho divino continua. Que a este mundo sucedem-se outros mundos.Parnaso de Além-Túmulo E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem. O coração tocado de agonias. Pois tendo ouvidos não ouvem. Lá palpita a beleza onde a alma canta. A luz do amor que vibra e revigora.. entre ovelhas desgarradas. Ó corações que a lágrima devora. a nova aurora Luminosa e divina se levanta. Tende na vossa fé a bíblia santa.Francisco Cândido Xavier .. 298 . E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos.

em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade. Demorando as vitórias do Evangelho. pela oração profunda e imensa. Mas. Vendo o mundo nas lutas condenadas.Francisco Cândido Xavier . Dois milênios contando o grande ensino Do Amor. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além.. Sobre as desolações do mundo velho.... A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece.. Preces infindas e desesperadas. Do caminho de lágrimas sombrias. Feliz o coração que espera e ora. pura e divina.. Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas. água do amor. Que suaviza os rigores da existência. Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência. 299 . Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina.Parnaso de Além-Túmulo O Mestre chora como Jeremias. o luminoso bem divino.

Vinde. Nunca olvideis a Excelsa Claridade. Nos caminhos translúcidos da Crença. irmãos! Desdobrai as vossas velas!.. É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca. É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus. Que reside convosco em noite escura. A prece alcança as bênçãos do Infinito.. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita. Rumo ao país ditoso da bonança. A terra da união e do conforto. pura e infinita!. Que habitaremos na Imortalidade. errante e aflita. Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto. Vós que chorais ao coro das procelas.. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade. estranho e aflito.Parnaso de Além-Túmulo Enquanto o mundo anseia. Fraternidade Fraternidade é árvore bendita. 300 ..Francisco Cândido Xavier .

Tendes convosco a Chama Adormecida. 301 .. Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz.Parnaso de Além-Túmulo Somos todos a Grande Humanidade. Senda de paz e de felicidade. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós.Francisco Cândido Xavier . É a escada de Jacob vencendo o abismo. Rogamos acendais a Luz da Vida. Nos caminhos da lágrima e da dor. Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade.. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor. Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade. na luz do Espiritismo. Mas os túmulos falam pela estrada. Ó torturados corações humanos. O Evangelho. Na luz das luzes do Consolador. Ante os desfiladeiros da impiedade. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos. Em direção à Fonte Eterna e Pura.

Francisco Cândido Xavier . de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória. Cheio de amor e grandeza. Vós. amor e graça. Pelos caminhos da imortalidade.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça. Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” 302 . Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? Por que não veio até nós. Na noite de Natal – “Minha mãe. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos. Entre flores e alegrias. por que Jesus. enquanto a turba observa e passa. – “Deixai virem a mim os pequeninos!. que tendes a fé que ama e consola...” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura. E exclama. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça.

” 303 .Francisco Cândido Xavier . Em terna melancolia: – “Por certo. Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração.. penso também Nos trabalhos deste mundo. Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe. Jesus ficou Nas palhas. Concluiu com sentimento.. A luminosa humildade!. em tudo e por tudo. sem proteção. Que o Mestre da Caridade Mostrou.Parnaso de Além-Túmulo – “Acredito. Às vezes. meu filhinho. de olhos fixos Na luz do céu que sorria.

aos 9 de outubro de 1853.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. A alvorada feliz de um mundo livre e novo. A incompreensão do amor. Erige a liberdade augusta e soberana. combatendo a descrença. das graças do templo aos sarcasmos da rua. Não mais senzala hostil. E. E desencarnou a 29 de janeiro de 1905. Mas a luz do Senhor não teme. Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal. jornalista. Descortinando. no entanto. continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. poeta.Francisco Cândido Xavier .. escura e desumana... além da noite que se adensa. Na ansiedade e na dor. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista. Irmãos do meu Brasil. romancista. membro fundador da Academia Brasileira de Letras. impetuoso político e grande orador. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua. e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade.. encantado e divino. Farmacêutico. Estado do Rio de Janeiro. se engalana. nem recua. sublime. .

A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 José Duro POETA português. Para depois ouvir a voz da sepultura. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899. Tomé. Musa amargurada. Onde o sonho termina e a vida recomeça. depressa. Aos homens Volta ao pó dos mortais. homem que vens... coloca as mãos na tua própria chaga. . Perambula na dor da tua noite aziaga. A vida é vibração ilimitada. o mais além da Terra. E o seu grande mistério existe em toda parte. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”. deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda. infinda. Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria.Francisco Cândido Xavier . Volve ao sono cruel da tua carne obscura.

Algum tempo eu sofri. agrilhoado ao mundo. então.Francisco Cândido Xavier . Onde fulgura o sol do verdadeiro amor. 306 . voar para a mansão serena. Prisioneiro da mágoa. Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera. E pude. E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja. Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte. Escravizado ao pranto. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena. ao pé do corpo imundo. a triste senda escura. onde perece o amor.

Evita-nos todo o mal. que estás nos Céus. no carinho Do pão espiritual. Senhor. Feito na luz. Perdoa-nos. como em toda a Terra De luta e de sofrimento. meu Senhor. Que em todo o Universo exprime Concórdia. Dá-nos o pão no caminho. ternura e amor. Na luz dos sóis infinitos. De paz e de claridade Na estrada da redenção. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade. Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra.Parnaso de Além-Túmulo 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. Seja o teu nome sublime. Santificado. 307 . Nos Céus.Francisco Cândido Xavier . Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus.

A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem. Distante da vossa luz. De passados escabrosos. Sobre o mundo de desterro. também.. Livra a nossa alma do erro. De iniqüidade e de dor.Francisco Cândido Xavier .. Onde se faça a vontade Do vosso amor. Com a proteção de Jesus. Auxilia-nos.Parnaso de Além-Túmulo Os débitos tenebrosos. Nos sentimentos cristãos. 308 . Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade. Assim seja.

O Esposo da Pobreza Francisco de Assis. Entregou-se à Natureza. Abandonara a vaidade. notabilizou-se mais como romancista. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo. em 1871.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho. ninguém . nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. ouve. principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor. Assim que deixara a orgia No castelo. di-lo um comentador. um dia. faze-te esposo Da pobreza desvalida. sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico.Francisco Cândido Xavier . Buscando a paz da humildade. Francisco. E nas horas de repouso. as suas qualidades primaciais de prosador. A santa luz da harmonia. Com este pseudônimo. A edição póstuma de Poesias exaltou. Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu.

Vai. Sedentos e esfomeados. Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins. Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. doce e pura.. Quem alivia e consola. A seiva misteriosa No seio dos vegetais. E sobretudo. Que não fiam. 310 . Nos celeiros da fartura.Francisco Cândido Xavier . conforta os desgraçados. Bênção do Céu. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. que não tecem.Parnaso de Além-Túmulo Vai aos Céus sem a bondade. Buscando a graça do orvalho. inda via. As aves que não trabalham E no entanto se agasalham.. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins. Esquece as imperfeições! . Saltando de galho em galho. Que é a grande felicidade De todos os corações. Flagelados pela dor.

Francisco Cândido Xavier . Fragrâncias. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores..Parnaso de Além-Túmulo A sacrossanta harmonia Do coração sofredor. Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza. Francisco de Assis. Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus. Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza. Submerso o coração Em sublimes alegrias. amenidade. então. das margaridas. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas.. Poema de singeleza Esplendente e delicada. Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. 311 . Ornamentada de flores Que os meus encantos resume. Que não tendo amor nem luz.

Tão cheia de desventura. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs. Entretanto. Nessa mesma primavera Dos rutilantes espaços. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia. Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura. 312 .Parnaso de Além-Túmulo Aromas. As ovelhinhas balindo. alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando. Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria. Caridosa ventura No abril das almas irmãs. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura.Francisco Cândido Xavier . Ó Terra. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus.

.. Açucenas perfumadas. Sorrindo. Sorrindo. Hino terno de esperanças Das aves e das crianças.. Aconchegados nos ninhos. passarinhos.. Sorrindo. Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo. Vai-se com a luz misturando. anjos suaves. Lares de amor doce e brando. Cantando.Parnaso de Além-Túmulo Aves e anjos Passarinhos.... Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores...Francisco Cândido Xavier .. Cantando... Cantando... 313 ... Com as pétalas orvalhadas. Crianças. Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas..

Silvio Romero. José de Alencar. Rasga a terra. Ao levantar-se da cama. Persegue-lhe a precisão. Planta o milho. feijão. Batatas. não tem paz. o seu trabalho. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come. corta os matos. Luta e sua. couves. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito. Inda é espessa a escuridão. Pobres Mal clareia o Sol a serra. Machado de Assis. A fome lhe bate à porta. a labutar. Sua musa foi elogiada por Castilho. Três quartas partes de tudo . com 95 anos de idade. em 1931. etc. Ao acordar. Sem descanso. planta a cana.Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade.Francisco Cândido Xavier . Já chega de repousar!” Busca. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro. Tudo ajeita. tudo faz. então. É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo.

resolve pedir 315 . Nada existe no paiol.Parnaso de Além-Túmulo Pertencem ao seu patrão. porém. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover.Francisco Cândido Xavier . Quando a semente germina E os ramos querem crescer. Espalha o pé nos gerais. Então. Não vem a chuva. O pobre nunca descrê. As plantas já se amarelam. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. se sofre dor. Ah! que a água já está pouca Nos rios. Se geme. queima o Sol. nos seringais. Arde a terra. Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. E sempre resignado. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor. Mas se quer repetições. Quando o pobre vai à mesa. O estômago pede mais. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. Contudo. ele espera sempre Do Deus que o ama. Que cuide dos mandiocais. Redobra o pobre os serviços. Não possui um só real Pra consultar um doutor. que o vê.

Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma.Francisco Cândido Xavier . Mesmo assim. quanta tortura.” O pobre. os pais. Trabalha para comer. o chá. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor. Que fulge no coração. Dá-lhes porém seu tesouro. 316 . Que o padre cobra demais. Regressa para o seu lar. Se tem pão não tem saúde. humilde e paciente. Arrasta-se e vai ao médico E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender. Não lhes pode dar a missa. Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho.Parnaso de Além-Túmulo Ao patrão que sempre o tem. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar. E põe em prática os meios: As beberagens. Os vinhos de jatobá. As promessas aos seus santos. Mas o patrão avarento Não adianta vintém.

A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. ganha pau. O carinho dessa mão. Mal do pobre se não fora. Sextilhas Quando a morte chega em casa.Francisco Cândido Xavier . O braço amigo de alguém. A casa faz alarido. Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. Os cães o tocam da porta. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil. não tem Quem o ampare. E em vez de pão. onde existem Justiça. Que o cura na enfermidade. Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. Não tem casas de morada.Parnaso de Além-Túmulo Se tem saúde. Que na treva lhe dá luz. quem o ajude. Que o conforta na desgraça E ampara na provação. Após a morte. nem ovil. ventura. amor. Se bate à porta do rico. Mormente dum rico mau. Nem terrenos. 317 .

Se pratica o mal ou o bem. A morte não quer saber Se é preto como urubu. 318 . A morte não quer saber. Pedro ou José É o seu nome de batismo. Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime. O povo está reunido Quando a morte chega em casa. Se Sancho. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça. Se tem pratas no baú. Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é.Francisco Cândido Xavier . Ela vem buscar alguém. Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus. De quem precisa por certo. Ela vem buscar alguém. Esteja distante ou perto.Parnaso de Além-Túmulo Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. Não quer saber se ele tem. Não lhe pergunta qual é A sua religião.

Saúde.. Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre. Ela vem de supetão Para o pobre. beleza e dor. Nem mulher bonita ou feia. Não perde tempo em clamor. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno. para o rico.Francisco Cândido Xavier . Se tem pai e se tem mãe. O que segue vai com unção.. Para a morte não existe. 319 . Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador. Nem procura examinar. para o rico Nunca tem contemplação.Parnaso de Além-Túmulo Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. Para o pobre. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído. Em atenções e conversas. Nada disso a morte quer. Se esse alguém vai-se casar. Para a morte não existe Anéis de grau de doutor. Nem homem alegre ou triste.

Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus. Há quem estime? Talvez. Nem tão boa coisa é. Viver na Terra e somente Remando contra a maré... Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus. Sentir as disparidades 320 . Na tempestade ou na paz. Nem tão boa coisa é. De cá Que amargo era o meu destino!.. É ele mesmo quem faz...Parnaso de Além-Túmulo O que segue vai com unção.. Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês. Tristezas no coração.. Mas para mim que só fui. Entremeados de prantos. Com receio de ir ao fundo.. Tateando dificilmente No meio da escuridão. Galeno sem nó. galé. Tantas dores em conjunto.Francisco Cândido Xavier .

. Salta aqui.Francisco Cândido Xavier . 321 . Nem tão boa coisa é. Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim. do desconforto. Ver uns rindo e outros chorando.Parnaso de Além-Túmulo Das vidas cheias de dor. Tantas misérias sentir. Já não é próprio de mim. Pobre filho da ralé. O mal sufocando o mundo. do Canindé. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé. Nem tão boa coisa é. Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão. Nas guerras de toda parte. Não é possível porque. Meus irmãos de Fortaleza. da ingratidão.. Do Crato. Mas falar demais agora. Nas secas do Ceará. Da carne. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é.. O pranto ferve na Terra. salta acolá.. Da treva.

322 . Jogar pérolas a tolos.Francisco Cândido Xavier . Nem tão boa coisa é.Parnaso de Além-Túmulo Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé.

. Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E. em junho de 1950.. Ao compasso do Amor e da Harmonia. no Estado do Paraná. Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha... reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço. Surgem constelações do Novo Dia Muito longe da Terra descontente. Mas. Mundos celestes. Professor e poeta. densa e fria.Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865.. Choro de amor. deixou inúmeras obras. e desencarnou no Rio de Janeiro. revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!.Francisco Cândido Xavier ... esmagado de angústia e de carinho. jubilosamente. ai! pobre de mim!.

Ébria de paz e de imortalidade. e conquanto fosse intelectual de prol. Sem as sombras das lutas desumanas. Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século. Não mais a noite. Flores Exóticas. jornalista. Virgilianas. 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas. A beleza profunda e peregrina. Latinista de prol. agora. Médico. Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora. exceto uma senhora que. vive em tudo. compositor musicista e tradutor renomado. conta em sua bibliografia Poemetos. lhe assistira aos funerais. fora dos meios culturais. . oferecido pela população local.Francisco Cândido Xavier . A alma vitoriosa entoa hosanas. é hoje um nome esquecido. etc. onde ele tem precioso jazigo.Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. a seu tempo. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. em menina. em Vassouras. Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora.

Parnaso de Além-Túmulo Não lamenteis quem parta ao fim do dia. 325 . Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade.Francisco Cândido Xavier .

Acharia nos céus maravilhosos. nascido no Rio de Janeiro. sobressai Sonetos e Rimas. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos.. Nas esteiras de prantos esquecidos.Francisco Cândido Xavier . Lírica. volver ao lar primeiro. Noturnos. Foi jornalista. Foi membro da Academia Brasileira de Letras.Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro.. etc. vislumbrando a Imensidade. e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade. Soneto Na escuridão dos anos procelosos.. Carimbos. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. Pairar no Além!. que ainda hoje se lê com encanto. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. em 17 de fevereiro de 1845. aos tempos bonançosos. Da velhice nos dias mal vividos. . comediógrafo e diplomata. Soluçando empolgado de ventura. Ressurgido em perene mocidade. Entre suas obras.

De volta. Envoltos em ternuras e em carinhos.Parnaso de Além-Túmulo Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos. e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos.Francisco Cândido Xavier . Nas carícias risonhas dos caminhos. Em revérberos lindos de alvorada. Voltei. nova a estrada Que minhalma extasiada percorria. Divinal era a luz que resplendia. Nova era a vida. 327 .

Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto.Francisco Cândido Xavier .. Aureolada de eternos resplendores. e vasta colaboração na Imprensa.. Além ainda. ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho. membro da Academia Brasileira de Letras.. Bacharel em Direito.. Sara (poema). Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores..Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE.. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos. . além ainda. nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro. distante. Na alvorada perene da harmonia. conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes). Poeta de grande e viva inspiração.. em 1929. Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores.. Desolado viajor.

um terceiro: Agonias e Ressurreição.. Publicou dois livros. e faleceu. Um golpe. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. Foi um atormentado pelas enfermidades. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida. Residiu durante algum tempo na Capital Federal. naquela mesma cidade. à rua dos Voluntários. . Um sonho. onde colaborou em vários jornais.. Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo. No estranho portal No último instante... a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira. deixando. e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada. Estado do Rio. Aos clarões imortais do Novo Dia. Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória. inédito. aos 41 anos de idade.Francisco Cândido Xavier . A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida. no começo do ano de 1918.Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. Brilhando além da lápide sombria.

. Dar sorrisos. Tudo o que nos rodeia. as alvoradas. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor. os corações. Onde outras almas sentem fome e sede. dar carícias. É um deserto sem oásis. que é Pai bondoso. Aqui o incluímos. o luar. Para que o multiplicássemos indefinidamente. E a alma que se abandona. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu. Ler a sua epopéia feita de astros..Francisco Cândido Xavier . Ter a bondade ingênua das crianças. Sorrir aos infelizes. Atenuar a dor alheia. Agradecer a Deus. O firmamento. .Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se. atenta a magnitude do seu estro. porém. de justiça. a ave. Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz. dar luzes. A vida é o eterno bem que nos foi dado. Ao sofrimento ou ao bem-estar. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida.

Dar um pouco de gozo se gozamos.Francisco Cândido Xavier . 331 . Terras e almas. Dar a lição de paciência se sofremos. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes. Infinitas e esplendorosas. Unidade Todos nós somos irmãos. Porque os nossos espíritos São unos na essência. Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares..Parnaso de Além-Túmulo Dar tudo quanto temos. Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter. E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos. Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador. Tudo isto é amar multiplicando a vida... Que se estende infinita no Infinito.. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares.

pois. Espiritualmente. Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei. O qual. Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito. Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus. Sem egoísmos.Francisco Cândido Xavier . mais além Das fronteiras planetárias. Encerra em si Todos os mundos. O mesmo sonho. A mesma dor na luta A prol da redenção. Porquanto. por uma disposição inexplicável. Vivereis dentro de sagrados coletivismos. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica. Todos nós somos irmãos. Somos filhos de um só Pai.Parnaso de Além-Túmulo As quais no divino equilíbrio do Amor Buscam a perfeição indefinida. 332 . da Terra O caminho comum da vossa salvação.

Só há um recurso: Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis. Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz. Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira. “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso. E infinitos seus estados de consciência... Tão amargos pesares. . Banha-te nas suas águas cristalinas. Como incontáveis são as almas humanas. Para sanar tão estranhas feridas. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!.Francisco Cândido Xavier . Pontificava o Anjo da Justiça. Pela porta escura do remorso. Lá dentro... Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo.“ “Filha – respondeu compassivo –.. 333 . Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo.

Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino.. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção.. Banhou-se na água lustral dos tormentos.. cheios de confiança! 334 . É para a Humanidade A promessa da Paz..” E a pobre regressou. A fonte que desaltera todos os sofredores.Parnaso de Além-Túmulo Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos.. E nos seus braços magnânimos e compassivos. E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas. Apegai-vos a Ele.. Nos dias amargurados que transcorrem. Reconheceu o luminoso Anjo da Dor. Submergiu-se no regato encantado. O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes.Francisco Cândido Xavier . E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!. Inçados de perigos E de dores amargas. Conduzida pela Dor. de cuja fonte límpida promana a Salvação. E ainda hoje.

Francisco Cândido Xavier . Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra. És alma em ascensão para Deus. A tua inteligência e o teu sentimento 335 . Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol.. Longe das lágrimas Do orbe obscuro. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual. Ouvi a sua voz No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos. O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem. Dos prantos e das provações remissoras!.. Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte.Parnaso de Além-Túmulo Ele é a misericórdia personificada.. A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes.. Acima de todas as coisas transitórias.

Na amargura e na dor. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade.Parnaso de Além-Túmulo São fulcros de luz imperecível. Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram. Misteriosa. No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!. Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor. E sentirás uma carícia branda.. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza.Francisco Cândido Xavier . Buscando Deus. – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres. doce. Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto. 336 .. Que sonham e choram. suave.

Parnaso de Além-Túmulo Ao pé do altar Eu vivia no Claustro. Na sombra silenciosa dos mosteiros. Disse-me alguém: “Minha filha. A Esperança mais linda.Francisco Cândido Xavier . Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração. Está sempre em meio às tentações Para vencê-las. O anjo que nos abre as portas da Ventura. Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo. Mas um dia. Não permanece No recanto das sombras. Juraste fidelidade só a Deus. Destruí-las com Amor. 337 . Se ama a prece e a pureza... Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas. Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas. Se tens a Fé mais pura. Não te esqueças que a Caridade. Esmagá-las com o Bem. do repouso.

Francisco Cândido Xavier . Sê a abnegação e a bondade serena. Sê a mãe desvelada. do mundo. Não te retires. sem reserva. Darás a Deus. Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas. A irmã consoladora. Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria. brandamente.Parnaso de Além-Túmulo A solidão da cela é um crime. Atraída pela Verdade.. Dos mais rudes pesares. Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas. Desprezando o repouso e a soledade. pois. Será um hino constante subindo aos Céus. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus. a tua alma Amando o próximo. Que contigo é seu filho dileto.. E só a dor que nos crucia 338 . A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. A tua esperança em Deus Será dilatada.

Espezinhadas pelo sofrimento. Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras. Vertidos na corola imensa das dores. atropeladas pelo mal. Fustigadas pelo furacão da desgraça. Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. Amarguradas e infelizes.Francisco Cândido Xavier . Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos.Parnaso de Além-Túmulo Ou a dor que consolamos. E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente. Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura. Estendendo os seus braços tutelares 339 . Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado.

Maria é o anjo. Para que o Brigue da Esperança. Porque se apegaram A âncora da Fé. A Virgem da Pureza 340 . Que nos ampara e guia em nossa cruz. É. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo. E sendo o arrimo de todas as criaturas. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade. Como náufragos de uma tormenta gigantesca. pois. que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!. Ao seu olhar compassivo. Com as suas velas alvas e pandas. Levando-nos ao Céu. sobretudo. Buscando o porto esperado com ânsia. E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas. Lenindo os padeceres Das mães desoladas.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Às mães carinhosas e desprotegidas. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio.. Veleje tranqüilamente. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras. Balsamizando os pesares.. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas.

Francisco Cândido Xavier . 341 .Parnaso de Além-Túmulo – Mãe das mães.

Que o trabalho. Desde a flor da montanha às trevas do granito. no Estado do Rio Grande do Sul.. Júbilo de ajudar. .Francisco Cândido Xavier . é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito. Tudo se agita e vibra. Da beleza do herói ao verme pequenino. Desde o fulcro solar ao fundo da caverna. alheio à recompensa.Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858. Autor de inúmeras obras literárias. e desencarnou em 1926. Trabalha e serve sempre.. brunindo a vida eterna!. em cântico divino Do trabalho imortal. Buscando a solução da dor e do destino. Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa. luta e contentamento. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna. por si. Tudo na imensidão é serviço opulento.

ao seu tempo. E debaixo do apodo e ensangüentada a face. – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta. Para a consumação dos festins do pecado.. Jesus!. Considerado.. Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras.. “Crucificai-o!” – exclama. que trêmula se entrega. implacável e cega. inquire o brado Da justiça sem Deus.. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918. A multidão inteira.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro. Jesus! Jesus!. o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado.. ansiosa se congrega. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema. Surda à lição do amor.. .Francisco Cândido Xavier . Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema...

Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor.. cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!. Morte. instante a instante. Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas. Impassível.. duríssimo e refece. em prece. de Paz e de Alegria. No derradeiro sono. meu Pai.” – dizia. em sombrios Pesadelos da carne palpitante. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia. – “Se puderdes. no teu portal a alma tateia. No Horto Tristemente. 344 . descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas. inquire. Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios. Espia. vacilante.Francisco Cândido Xavier . Sobre o meu peito em febre. Jesus fitando os céus. sonda e chora. afastai-o!. E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante. Mas eis que todo o Azul celígeno estremece.

E Jesus abençoando aquelas almas cegas. Na doce mansidão dos seres pequeninos. osculando-lhe a fronte.. murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!.” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: . de dor e desventura. da cruz. 345 . Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos. Mestre!” E toma-lhe das mãos. E sublime na fé mais vivida. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura.Parnaso de Além-Túmulo Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora.. – Raio de eterno sol na senda dos destinos. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte.. a multidão fremente.Francisco Cândido Xavier . eu vos dou meus últimos ensinos. Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição.... A crucificação Fita o Mestre. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve.“Amados.

Que entorpece. Lança os marcos da luz na noite primitiva. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. Sob os gládios da dor aspérrima.. envenena e mata aos poucos. E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem.“ Aos descrentes Vós. Começai outra vida em nova estrada. As hostes dos descrentes e dos loucos. Alma doce e submissa.Parnaso de Além-Túmulo A negra multidão de seres que ainda ama. sem cárcere mesquinho! 346 . não sabem o que fazem!. Sobre tudo se estende o raio dessa chama. Retrocedei dos vossos mundos ocos. amargamente. Gritos e altercações! Jesus. Da fé viva. . que seguis a turba desvairada.Francisco Cândido Xavier . derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente. Contempla a vastidão celeste que o reclama. Sem a idéia falas do grande Nada. Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. meu Pai. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença. Soluça no silêncio. E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes.

Mas que o homem realiza apenas. 347 ..Francisco Cândido Xavier . brancos os cabelos. Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza.. anela e sente. Guardadas com ternura. quando. Aspirações do mundo miserando. Sente o beijo de glória do Infinito!. com desvelos. É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo. sofre e soluça. Nas lágrimas de dor do peito aflito!. Rotas as carnes. onde a esperança sem repouso Luta. Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que.. Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza. ansioso..Parnaso de Além-Túmulo Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. e sonha presa. adora.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Tombe no caos do nada, em túrgida surpresa,
O que o homem pensou num sonho de demente,
Os mistérios da fé, fulcro de luz potente,
O templo, o lar, a lei, os tronos e a realeza;
Estertore e soluce exausto e moribundo,
Debilmente pulsando, o coração do mundo,
Morto à mingua de luz, ambicionando a glória;
O Espírito imortal, depois das derrocadas,
Numa ressurreição de eternas alvoradas,
Subirá para Deus num canto de vitória.

O Livro
Ei-lo! Facho de amor que, redivivo, assoma
Desde a taba feroz em folhas de granito,
Da Índia misteriosa e dos louros do Egito
Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma!
Vaso revelador retendo o excelso aroma
Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito,
O Livro é o coração do tempo no Infinito,
Em que a idéia imortal se renova e retoma.
Companheiro fiel da virtude e da História,
Guia das gerações na vida transitória,
É o nume apostolar que governa o destino;
Com Hermes e Moisés, com Zoroastro e Buda,
Pensa, corrige, ensina, experimenta, estuda,

348

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E brilha com Jesus no Evangelho Divino.

Brasil
Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça,
Da virtude ateniense à grandeza espartana,
O anjo triste da paz chora e se desengana,
Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,
Tribos, tronos, nações... tudo se esfuma e passa.
Mas o torvo dragão da guerra soberana
Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana,
Disputando o poder e denegrindo a raça.
Eis, porém, que o Senhor, na América nascente,
Acende nova luz em novo continente
Para a restauração do homem exausto e velho.
E aparece o Brasil que, valoroso, avança,
Encerrando consigo, em láureas de esperança,
O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

349

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

350

50
Pedro de Alcântara
O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos, que, bem o sabemos, há quem diga não serem da sua lavra. Ignoramos por que
Dom Pedro 2º, alma boníssima, vibrátil e espírito culto, não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos, a
ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta
aos 20 anos. De qualquer forma, entretanto, o que se não poderá
negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que, de Dom
Pedro, conhecemos.

Meu Brasil
Longe do meu Brasil, triste e saudoso,
Bastas vezes sentia, mal desperto,
Com o coração pulsando, estar já perto
Do pátrio lar risonho e bonançoso.
E deplorava o rumo escuro e incerto,
Do meu desterro amargo e desditoso,
Desalentado e fraco, sem repouso,
O coração em úlceras aberto.
Enviava, a chorar, na aura fagueira,
Minhas recordações em terna prece
Ao torrão que adorara a vida inteira;
Até que a acerba dor, enfim, pudesse
Arrebatar-me à vida verdadeira.
Onde a luz da verdade resplandece.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

No exílio
Pode o céu do desterro ser tão belo,
Quanto o céu do país em que nascemos;
Nada faz com que o nosso desprezemos,
Acalentando o sonho de revê-lo.
Todo o nosso ideal pomos no anelo
De regressar, e voando sobre extremos,
Com o pensamento ansioso percorremos
Nosso amado rincão, lindo ou singelo.
Jaz no desterro a plaga da amargura,
De acerba pena ao pobre penitente,
De amaro pranto da alma torturada;
A alegria no exílio é desventura,
É a saudade na ânsia mais pungente
De retornar à pátria idolatrada.

Rogativa
Magnânimo Senhor que os orbes cria,
Povoando o Universo ilimitado,
Que dá pão ao faminto e ao desgraçado,
E ao sofredor os raios da alegria,
Se, de novo, no mundo, desterrado,
Necessitar viver inda algum dia,
Que regresse ditoso ao solo amado
Da generosa pátria que eu queria;

351

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Se é mister retornar a um novo exílio,
Seja o Brasil, lá onde eu desejara
Ter vertido o meu pranto derradeiro...
Que, novamente viva sob o brilho,
Da mesma luz gloriosa que eu amara,
Na alcandorada terra do Cruzeiro.

Soneto
No exílio é que a alma vive da lembrança,
Numa doce saudade enternecida,
Tendo chorosa a vista que se cansa
De procurar a pátria estremecida;
Com dolorosas lágrimas avança,
Do sonho que teceu e amou na vida,
Para a morte, onde tem sua esperança,
Na celeste ventura prometida.
E Deus, que os orbes cria, generoso,
Na vastidão dos céus iluminados,
Concede a paz ao triste e ao desditoso
Na clara luz dos mundos elevados,
Onde, do amor, reserva o eterno gozo
Para as almas dos pobres desterrados.

Página de gratidão
Tangendo as cordas da harpa da saudade,

352

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Venho ao Brasil buscar a essência pura
Do amor da pátria minha, da doçura
Da flor cheia do aroma da amizade.
Prende-me o coração a suavidade
Desse arroubo de afeto e de ternura
D'alma do povo meu, que de ventura
E de alegria o espírito me invade.
Do misterioso aquém da morte, eu vejo,
Sentindo, essa onda intensa e luminosa
Da afeição, que idealiza o meu desejo:
E tendo a gratidão por companheira,
Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa,
Amando mais a Terra Brasileira.

Oração ao Cruzeiro
(No cinqüentenário da Abolição)
Luminosas estrelas do Cruzeiro,
Iluminai a terra da Esperança,
Na doce proteção de um povo inteiro
Onde a mão de Jesus desce e descansa.
Símbolo sacrossanto de aliança
De paz e amor do Eterno Pegureiro,
Guardai as claridades da Bonança
Na vastidão do solo brasileiro.
Constelação da Cruz, cheia de graças,

353

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Transfundi numa só todas as raças,
No país da esperança e da bondade.
Que o Brasil, sob a luz da tua glória,
Possa escrever, no mundo, a grande história
Das epopéias da Fraternidade.

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil, símbolo da bonança,
Enquanto a guerra estruje indômita e sombria,
Sê nos planos de luta o sinal de harmonia,
Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança.
Assinalas, na Terra, o país da Alegria,
Onde toda a existência é um hino de abastança,
Guardas contigo a luz da bem-aventurança,
És o florão da paz, marcando um novo dia.
Nasceste sob a luz de um bem, alto e fecundo,
Nunca te conspurcaste aos embates do mundo,
Buscando iluminar as lutas, ao vivê-las...
É por isso que Deus, que te ampara e equilibra,
Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra,
E um coração azul, esmaltado de estrelas.

Brasil do Bem
Eis que o campo de sombra se esfacela
No doloroso e amargo cativeiro

354

Qual furacão no auge da procela. Deus te guarde os tesouros da esperança. Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança.Francisco Cândido Xavier . Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança. Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante. Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade. Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro..Parnaso de Além-Túmulo Da guerra que ameaça o mundo inteiro. Aniquilando a Paz do mundo inteiro. 355 . heróica e bela. Grande Brasil do Bem e da Abastança. Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro. Meu Brasil. guarda a luz dessa vitória. Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança.. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa. Como a doce promessa nos caminhos!.

356 . Faze o bem.Parnaso de Além-Túmulo Ama a Deus. Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho.Francisco Cândido Xavier . do Amor e da Verdade.

O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos. Sob o infortúnio.Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859. qual se encontrasse A luz primeira dos primeiros dias.. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911. O homem passa Atrás dos anos sem compreendê-los.. a bordo do vapor São Luiz. das ilusões desfeitas. chora e sorri. litoral do Maranhão. Rasga-se a fantasia que o enlaça. além de justo e bom. E como o anjinho débil que renasce. Chora... sob os atropelos Da dor que lhe envenena o sonho e a graça.Francisco Cândido Xavier . Magistrado. 2 Ah!. na baía de Mangunça.. se cada . À frouxa luz de uma ventura escassa. membro da Academia Brasileira de Letras. Sonetos 1 Tudo passa no mundo. Depois do pesadelo das mãos frias. E vê morrer seus ideais mais belos!. porém. Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas.. Longe. se a Terra tivesse o amor.

. A existência seria a ardente prece Erguida a Deus do seio da abundância.Francisco Cândido Xavier . 358 . Entre os hinos da paz e da alegria. Ah! se os homens se amassem nessa estância A dor então desapareceria.....Parnaso de Além-Túmulo Homem pensasse no tormento alheio. Se tudo fosse amor. Se na estrada Do contraste e da dor houvesse o anseio Do bem.. que ampara a vida torturada. se cada seio De mãe nutrisse os órfãos. Que jamais viu um raio de alvorada Dentro da noite eterna que lhe veio Do sofrimento que ninguém conhece.

a sua afirmativa nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais fulgurantes.Francisco Cândido Xavier . mesmo após a morte. quando pensas que descansas. considerada como seu livro de ouro. de quem foi amigo dileto. Mas. a alma trabalha Buscando o céu das suas esperanças. com apenas 31 anos de idade. Bacharel em Direito. dedicada a Olavo Bilac. a fadiga. Muita vez. as bem-aventuranças São o sonho que o Espírito agasalha. Para cá do sepulcro a dor antiga. Mas a luta infinita continua. Além te espera indômita batalha. Entre os talentos da chamada nova geração. Além de Ode a um Poeta Morto. O Espírito a si mesmo reconhece. nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado em Itaipava. deixou Luz Mediterrânea. Luta Aí na Terra. A febre das paixões desaparece. foi deputado estadual e posteriormente Secretário de Legação.Parnaso de Além-Túmulo 359 52 Raul de Leoni FLUMINENSE. Onde o suposto gozo se estraçalha Sob o guante acerado das provanças. Sob a luz da verdade se atenua. Que nos traz o desânimo. .

É quando o nosso Espírito se ilude. Soneto Não te entregues na Terra à indiferença. nada há que vença A alma boa. Ao colhermos a flor da juventude. Como somos felizes. O desejo do Bem dilata a esfera Das luzes sacratíssimas da Crença. a alma sincera. E ao tombarmos no ocaso da existência. Pelas sendas da vida nos espera. No pensamento nobre persevera De servir. Nos domínios do mal. a alma pura. Se vivemos no mal. Mas o tempo na sua mansuetude. luminosos!.Francisco Cândido Xavier . sempre alheio à recompensa. Cheio de amor e fé.. 360 . venturosos!. Nós revemos do livro da consciência Os caracteres grandes. Julgando-se na eterna primavera. Dentro da expiação estranha e rude.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra Renascendo no mundo da Quimera. quanta agonia! Mas se o bem praticamos todo o dia. Junto à dor que esclarece e regenera.. trabalha e espera.

. cinge-as.Parnaso de Além-Túmulo Vive nas rutilantes almenaras Dos castelos do Amor de essências raras. Aspirando os olores da Pureza!. tudo aqui subsiste. a vida calma. Desatando os grilhões.. rompendo os laços Dessa animalidade atrasadora. para a tua alma.. Heróis de novas lendas carlovíngias. Jamais medonha e trágica surpresa. Que procura tolher os nossos passos. Nós todos vamos pela vida em fora Deixando no caminho os mesmos traços.. 361 ... que é o Amor eterno e ilimitado E a gloriosa síntese de tudo. O Sonho imanta as nossas almas. Cada instante de dor nos aprimora.. o Insondado. Em Deus buscando a Perfeição que mora No cume inatingível dos Espaços!. Buscando o Indefinível. Deus. Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo.. E a morte não será. Nós. então.Francisco Cândido Xavier . Terás na Terra. “Post mortem” Depois da morte.

A fé demolidora de montanhas.. irreprimida. Mas na Terra a nossa alma empobrecida. Presa dessa vaidade toda humana.. De desgraças e de erros se engalana Numa incerteza amarga. Também existe aqui a austera pena A consciência infeliz que se condena.Parnaso de Além-Túmulo Neste Além que sonhamos. Quando a nossa alma chora nos extremos Dessa dor que no mundo nos assiste. Vamos passando assim a vida inteira. Para que brilhe a Perfeição da Vida. Soneto Se todos nós soubéssemos na vida A Verdade grandiosa e soberana. Por qualquer erro ou falta cometida. porém. Não faltaria o gozo que promana Dos sentimentos da missão cumprida. Doce consolação. existe Aos amargosos prantos que vertemos. torvo e nefando. E a Morte continua eliminando A influência do mal. Sem esposar a crença imorredoura. Do conforto celeste os bens supremos Ao coração desalentado e triste.Francisco Cândido Xavier . que entrevemos. 362 .

Nessa noite de dúvidas estranhas!.Francisco Cândido Xavier . 363 ...Parnaso de Além-Túmulo Quase imersos na treva da cegueira. Sem vislumbrar a luz orientadora.

Nos caminhos mais rudes e espinhosos. Em todos os caminhos de suas atividades terrestres. E a verdade. Nos bem-aventurados do mundo.. . e desencarnado. São Paulo. meu Senhor. Onde busquem Teus carinhos As almas sofredoras.Francisco Cândido Xavier . Estás no templo de todas as religiões. Trazendo a visão doce do Céu Para o olhar angustioso de todas as esperanças. Senhor! Eu não pude ver-Te. Publicou Casa Destelhada. aos 24 de novembro de 1927. Estás na direção dos homens. como ainda Te encontras. Vi-te. em Campos do Jordão.Parnaso de Além-Túmulo 364 53 Rodrigues de Abreu POETA nascido em Capivari. a 17 de setembro de 1899. Senhor. Consolando os aflitos e os desesperados.. Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi. Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome. É que Te achavas. além de inúmeros trabalhos esparsos na imprensa do seu Estado. Foi cognominado – “o poeta triste das rimas róseas”. tuberculoso. Onde gemiam as dores e as misérias da Terra. Noturnos e Sala dos Passos Perdidos. Nunca pude enxergar As Tuas mãos suaves e misericordiosas.

porém. Com o verbo silencioso do Teu amor.Parnaso de Além-Túmulo 365 Sem que eles se apercebam De Tua palavra silenciosa e renovadora. Não disseste o meu nome para não me ofender. alegria. sonho e amor. Senhor.. De Tua assistência invisível e poderosa. Nas Tuas maravilhas de beleza.Francisco Cândido Xavier .. E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo. Vi que chegavas devagarinho.. Entretanto. . E minha vida rolava no declive de todas as ânsias. Curando-me com a Dor. Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os homens. E não Te encontrava pelos caminhos ásperos. Chamaste-me sem exclamações lamentosas. E entendi-Te. Iluminando o santuário do meu pensamento Com a Tua luz de todos os séculos! Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha.. Com a mansidão de Tua misericórdia infinita. Chamaste-me.. Mocidade.. Cheia de piedade para com as suas fraquezas. que a Terra fechara dentro de minhalma. Quando Te vi na paz da Natureza. Multiplicaste o pão das minhas alegrias E abriste-me o Céu. Inquietação ambiciosa de vencer.

Tudo esqueci. Divisando os países da beleza. por infelicidade.” Gotas do mel de amor. Quando subi aos elevados promontórios da esperança..Parnaso de Além-Túmulo No Castelo encantado Eu ainda não era um homem. do coração. Na embriaguez da ansiedade e do desejo... E quando quebrava os últimos altares... Gotas de mel. Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: 366 . Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos.” “Ave Maria. E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas. Tudo sonhei contemplando o horizonte!. cheia de graças.Francisco Cândido Xavier .. Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão. O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória. Na inquietação da carne e do desejo.. palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu.. Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma. onde quase todos os frutos apodrecem. Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus.

.. desde esse momento. afoitamente. “Guarda as minhas verdades.Francisco Cândido Xavier . ficarei sempre contigo. de tal maneira.Parnaso de Além-Túmulo “A sombra da ilusão envenena-te a vida.. Apodreceu meu coração em sua mão.. Que a senti junto a mim. Na minha estrada de alegria. Fez de meu sonho a casa destelhada. E. Afastou-me a alegria da saúde. Fez fugir-se-me a noiva idolatrada. “Sou a Dor. Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento.. Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia.. Deixou-me só na lôbrega jornada.” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia. 367 . “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira. meu amigo. Deu-me as sombras dos Campos do Jordão.. “Eu corrijo as paisagens interiores. Trago-te o pão dos grandes amargores. “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados. a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra. “Irás comigo a mundos ignorados. Casou-se comigo a Dor.

Pela sua porta estreita. bom e fecundo. Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo. meu Senhor. Sustentando a infeliz Humanidade.Parnaso de Além-Túmulo Crestou-me a flor ditosa da alegria.. Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença. doce e balsâmica da crença.. O único fruto eterno.. Tudo levou-me a dor incontentada. Enxergando na tamareira da esperança. meu Senhor. A cuja sombra o espírito descansa. Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz. ó Senhor de Bondade. Cala-se o meu verso humilde.Francisco Cândido Xavier ... Pelos desertos áridos do mundo. E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente. Nas grandezas de Tua claridade. Mas oh! suave milagre de ventura.. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! 368 ... Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

369

54
Souza Caldas
NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro, em 1762, e aí desencarnado em 1814. Formado em Direito pela Universidade de
Coimbra, abraçou mais tarde a carreira eclesiástica, ordenando-se
em Roma. Dizem que as suas melhores composições, as que o
levaram a ser preso pelo Santo Ofício, perderam-se. Acreditamos
que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos
Salmos de David, justamente, de suas obras poéticas, a mais
apreciada.

Ato de contrição
A vós
Senhor,
Meu Deus
De Amor,
Minhalma
Implora
A salvação!
Meu Pai,
Bem sei
Que mal
Andei,
Buscando
O erro
E a imperfeição;
Assim

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Pequei,
Na treva
Errei,
E jus
Eu fiz
A expiação.
Vós sois,
Porém,
Farol
Do Bem!
Ouvi
Dos Céus
Minha oração.
Sois vós
A luz,
E junto
A cruz
Do meu
Sofrer,
Quero o perdão;
Perdão
Que traz
Sossego
E paz
Ao meu
Viver
Na provação.
Suplico-o
A vós,

370

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Na dor
Atroz,
Amara
E rude
Da contrição!
Dai ao
Meu ser,
Aflito
Ao ver
O seu
Pecado,
A redenção;
E hei de
Poder
Feliz
Vencer
Do mal
Cruel
O atroz dragão!

Versão do Salmo 12
Senhor dos Mundos, na Terra inteira,
Os maus somente é que dominam,
Rudes tiranos e os impiedosos
De coração.
Ganham favores, buscam louvores,
Espezinhando seus semelhantes,
Tripudiando nas vossas leis,

371

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ímpios que são.
Causam a ruína da vossa casa,
Lançam injúrias ao vosso nome,
Adoradores da iniqüidade,
Da imperfeição.
Vossas ovelhas são confundidas,
E sufocadas pelo amargor,
Fracas e pobres andam saudosas,
Do vosso amor.
São elas todas, pobres e humildes,
Glorificai-as, meu Criador!
Alevantai-as do abismo escuro
Com a vossa luz!
Vossa bondade, imensa e eterna,
É a esperança dos pecadores;
Pai amoroso, salvai os homens,
Confio em vós!

Versão do Salmo 18
Por toda a parte
Veja a criatura,
Na noite escura
Da sua dor,
A eterna força
De um Deus clemente,
Onipotente,
Cheio de amor.

372

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Astros e mundos
No céu girando,
Aves cantando,
O mar e a flor,
Todos os seres
Hinos entoem,
Cantos ressoem
Ao Criador!
Eterno Artífice
Que os sóis modela,
Lustres da auréola
Da Criação,
Sois a bondade
A mais perfeita,
A Luz Eleita,
A salvação.
Doce refúgio
Dos desgraçados,
Aos meus pecados,
Muitos que são,
Imploro e clamo,
Com o meu espírito
Turbado e aflito,
Vosso perdão.
Que desprezei
O ouro brilhante,
Lindo e faiscante,
Bem sei, Senhor!
Como fugi
Da hora fugace
Que me afastasse
Do vosso amor!
Mas bem sabeis

373

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que a carne impura
Leva a criatura
A mais pecar;
Fazendo assim
Pra meu tormento,
Meu pensamento
Prevaricar.
Porém, o vosso
Amor profundo
Redime o mundo
Do padecer;
Dando-lhe o tempo
E áspera lida
Para na vida
Tudo vencer.
Vós que acendestes
Faróis brilhantes,
Sóis rutilantes
Dalmo esplendor,
Cantando a vida,
A onipotência
E a pura essência
Do vosso amor!
Que sois o sol
Dos universos,
Mundos dispersos
Na imensidão.
Além da força
Vós sois, também,
O sumo bem
E a perfeição
Que vence o mal,
O orgulho e a dor,

374

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que o pecador
No coração
Guarda com zelo,
Cruéis inimigos,
Que são amigos
Da perdição.
Misericórdia,
Assim espero,
Almejo e quero
Para que eu
E os meus irmãos
O mal deixemos
E abandonemos
Buscando o Céu.
Por vossa causa
O maior gozo,
Esplendoroso,
Desprezarei,
Para que eu viva
Na luz fulgente,
Eternamente,
Da vossa lei.
Assim, Senhor,
Minhalma aguarda
A luz que tarda
Ao mundo vão,
Que há de esplender
Nos homens todos,
Limpando os lodos
Da imperfeição.
Dominareis
Toda a impiedade
Pela verdade

375

aguardo Do vosso amor Consolo à dor. Amparo e luz! 376 . servo.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Que em vós transluz! E.

377 . na aspereza dos caminhos. Afastado do Puro e do Perfeito. O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas. Coração enganado. Viu as almas tremerem. Encontrei o prazer pelos espinhos. Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram.Francisco Cândido Xavier . Sob o peso da própria iniqüidade. E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. Se eu quisesse gozar. teria o gozo. dos meus anos. E através dos meus dias. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida.Parnaso de Além-Túmulo 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos. Ao trilhar os carreiros dos tormentos. Pois no mundo pequeno da minhalma. desditosas. Não que eu fosse infeliz e desditoso. alma iludida. Pois fui também humano entre os humanos.

Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis. entre cansaços.Parnaso de Além-Túmulo Quando em dor me envolvia a desventura. Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista. Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas. Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso. destruidoras. O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia. Agonizava o senhor Dos domínios extensos.Francisco Cândido Xavier . E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar. 378 . bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor. Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz. Em torno dirigia Um último olhar.

Que ninguém acudisse ao seu chamado. De cólera severa Já que ele era o senhor.Parnaso de Além-Túmulo Martirizando as almas sofredoras.Francisco Cândido Xavier . A sua alma despida das grandezas. Somente. Tomado de energia. A exclamar. Contemplou seus tesouros passageiros. Bem após o transcurso de alguns anos De triste letargia. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho 379 . Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores. às vezes. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores. derradeiros. Opresso o coração.. entretanto. Reclamou os seus servos com calor E. Imerso em turvação. Das terrenas. Mergulhado no pranto mais profundo. E em atitude austera. E em espasmos convulsos. Estranhou revoltado. nenhum lhe obedecia. efêmeras realezas. Expirou para o mundo O nobre castelão..

. constantemente. é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena.Parnaso de Além-Túmulo Em ser incompreendido. De luz confortadora. Durante o transcorrer de muitos dias.Francisco Cândido Xavier . Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim. Penetrada de doce claridade. Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena. Todavia. amigo. O pobre sofredor. No auge do amargor. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade E lhe dizia Da beleza do Amor. Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz.. E cheio de fervor. Que hoje te envolvem os lúridos momentos 380 . Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações. De contínuos pesares e agonias. da Luz do Bem: – “O que sofres. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente. Humilde penitente.

Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. a todo o instante. Porém.. nem consolaste Aquele que sofria. já não terás Efêmeras venturas. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém. O sentimento-luz. a flor-tesouro. Voltarás.. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo. Para que se dissipem teus enganos No amargor. Jamais vestiste os nus. Serás agora escravo e não senhor. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor. As mágoas escabrosas. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade. Pelas estradas rudes e espinhosas! 381 .Francisco Cândido Xavier . Conhecerás As dores e amarguras.Parnaso de Além-Túmulo Em rudes sofrimentos E estranhas maldições. E permite que voltes aos humanos.

. De alegria perfeita. Além. A ventura. Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais. Transformados em notas musicais. Não residem no Mal e sim no Bem.. Como se fora feita De luar.. A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia...Parnaso de Além-Túmulo Abençoa o Senhor Que te concede a dor.Francisco Cândido Xavier .. 382 . o fulgor. Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm..” Nesga de Céu A alma extasiada Sobe. fulguram sóis. sobe.. De alegria.

A Via-Láctea transluz. O mundo É um ponto negro que gira. Ainda além. De pureza. Nesgas do céu. De perfeição e de felicidade! 383 . A alma chora Em êxtase profundo. onde a vida É a imortalidade Anelada. Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos. Sorridentes. Aos clarões dessa aurora.. flutuantes. de beleza.Francisco Cândido Xavier . Ao longe. querida. mais além. Nos espaços sem termos.Parnaso de Além-Túmulo Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis. Cenários majestosos. muito ao longe. Que amou. imagens de esplendor. Como um éden de luz E de amor. que padeceu. radiantes.. E lembra-se que sofreu.

de sonho.Parnaso de Além-Túmulo Em baixo as vastidões. em frente. Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado. E. as emoções Do ilimitado. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera. Melodia.Francisco Cândido Xavier . aroma!. A alma se extasia Na luz do Eterno Dia.. Com os pensamentos puros e radiosos. Da mais pura alegria. Vidas de estranha dor.. Como um país de doce primavera.. Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. Mas cada gota amarga dos seus prantos 384 . luz.. Feito de éter. O caminho é risonho. Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas. Um futuro esplendente Pintalgado de rosas. Intérmina de gozos!. Recamado de flores perfumosas. Em cima...

Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos.Parnaso de Além-Túmulo Agora É um raio de aurora. Chorando. Em suavíssima unção. Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! 385 .Francisco Cândido Xavier . A pobre alma orando. Que a engrinalda de luz.

poetou e desencarnou. Nas horas tristes e amarguradas. cheio de escolhos. que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria. Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte. em 1871. Não sou. aos 19 de janeiro de 1930. foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso. – O mensageiro da Perfeição. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio.Francisco Cândido Xavier . Portugal. É que o Evangelho do Cristo amado. na cidade de Caratinga. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. no entanto. Esclarecia meu coração. Na luta intensa que encheu meus dias. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo. Quando escutamos as vozes claras . Quando no mundo de exílio e sombra. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. Modesto quão talentoso. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val.

que ficastes no mundo ingrato. Lede o roteiro dos Evangelhos. doce e cristã. no Pai de Amor. Dor de quem sofre sonhando e espera.. Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor.Francisco Cândido Xavier . Subi o Gólgota dos meus pesares. De ser vencido no mundo vão. Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã. 387 . Graça divina de haver sofrido. Aos companheiros de luta e crença.Parnaso de Além-Túmulo Da consciência. Deixo a minhalma falar aqui. E. Com fé sincera. Da graça imensa que recebi. E a paz na morte tereis também. eu pude adormecer Na paz serena. na luz da prece.. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão. Vós. De quem me lembro na luz do Além. então. Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma.

Parnaso de Além-Túmulo Nas desventuras da provação. Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor. --. E a Morte trouxe-me a liberdade. Sonhos diletos de sofredor.Francisco Cândido Xavier . A piedade.Fim --- 388 . Perdi na Terra doces afetos. o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz.

” Paulo. Irmão W. os seus escritores. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos.Francisco Cândido Xavier . financeiramente. 3.) . versículo 9. “Porque nós somos cooperadores de Deus. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social.Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a). Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. Se você leu e gostou desta obra. escolas para crianças e jovens carentes. As obras espíritas nunca sustentam. (1ª Epístola aos Coríntios. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. em busca constante da paz no Reino de Deus. O livro espírita. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. etc. colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual.