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MANDADO DE SEGURANÇA Nº 0003133-89.2016.8.19.0000 IMPETRANTE: ASSOCIAÇÃO DOS PROCURADORES DO MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO
MANDADO DE SEGURANÇA Nº 0003133-89.2016.8.19.0000 IMPETRANTE: ASSOCIAÇÃO DOS PROCURADORES DO MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO

MANDADO DE SEGURANÇA Nº 0003133-89.2016.8.19.0000 IMPETRANTE: ASSOCIAÇÃO DOS PROCURADORES DO MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO DE MERITI IMPETRADO: MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO DE MERITI AUTORIDADES APONTADAS COMO COATORAS: PREFEITO DO MUNICIÍPIO DE SÃO JOÃO DE MERITI E OUTROS RELATOR: DESEMBARGADOR ALEXANDRE FREITAS CÂMARA

Direito Administrativo. Decreto municipal nº 5.826/2016 que impõe aos servidores municipais a se submeterem ao controle de frequência por meio de ponto eletrônico. Associação dos Procuradores Municipais que se insurgem contra tal controle. Art. 62 da Lei Orgânica Municipal que atribui à lei complementar dispor sobre a organização e funcionamento da Procuradoria. Estatuto dos servidores públicos municipais que prevê a existência de servidores que não se submetem ao controle de ponto. Inexistência de lei complementar dispondo sobre a organização e funcionamento da Procuradoria Municipal. Impossibilidade de imposição aos procuradores municipais de submissão ao controle de frequência por meio de ponto eletrônico através de decreto. Violação ao princípio da legalidade. Controle de advogado público por meio de ponto eletrônico que é incompatível com a sua atividade laboral. Enunciado sumular nº 9 do Conselho Federal da OAB. Precedente do TRF da Terceira Região. Inexistência de violação ao princípio da igualdade. Não submeter os procuradores ao ponto eletrônico implica tratar os desiguais de forma desigual, na exata proporção de sua desigualdade. Características do ofício da advocacia, que não se coaduna com o controle de frequência por meio de ponto eletrônico. Segurança concedida.

Vistos, relatados e discutidos estes autos do Mandado de Segurança

0003133-89.2016.8.19.0000,

que

tem

como

impetrante

ASSOCIAÇÃO

DE

PROCURADORES

DO

MUNICÍPIO

DE

SÃO

JOÃO

DE

MERITI

e

impetrado

MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO DE MERITI.

SSEEGGUUNNDDAA CCÂÂMMAARRAA CCÍÍVVEELL

MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO DE MERITI. S S E E G G U U N N
A C O R D A M os Desembargadores que integram a Segunda Câmara Cível
A C O R D A M os Desembargadores que integram a Segunda Câmara Cível

A

C

O

R

D

A M os Desembargadores que integram a Segunda

Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por unanimidade de

votos, em CONCEDER A SEGURANÇA, nos termos do voto do Desembargador

Relator.

Des. ALEXANDRE FREITAS CÂMARA Relator

SSEEGGUUNNDDAA CCÂÂMMAARRAA CCÍÍVVEELL

Des. ALEXANDRE FREITAS CÂMARA Relator S S E E G G U U N N D
Trata-se de mandado de segurança coletivo impetrado pela Associação de Procuradores do Município de São
Trata-se de mandado de segurança coletivo impetrado pela Associação de Procuradores do Município de São

Trata-se de mandado de segurança coletivo impetrado pela Associação

de Procuradores do Município de São João de Meriti em face do Município de São

João de Meriti, em que aponta como autoridades coatoras o Prefeito do Município de

São João de Meriti, o Procurador Geral do Município e o Secretário de Administração.

A impetrante impugna o Decreto Municipal nº 5.826 de 8 de janeiro de 2016, que

submeteu os procuradores do município ao controle de ponto eletrônico.

Sustenta a

ilegalidade desta norma, tendo em vista que o art. 62 da Lei Orgânica do Município

determina que a regulamentação da organização e funcionamento da Procuradoria

Geral do Município somente poderá ser realizada por lei complementar. Requer a

concessão de liminar para reconhecer a ilegalidade do referido Decreto e determinar

que as autoridades coatoras se abstenham de realizar qualquer registro de faltas dos

procuradores

municipais

pela

não

utilização

do

sistema

de

controle

de

ponto

eletrônico.

As autoridades apontadas como coatoras se manifestaram, na forma do

art. 22, § 2º, da Lei nº 12.016/2009. Aduziram a legalidade do Decreto impugnado,

sustentando que o decreto apenas substitui a folha de ponto pelo ponto eletrônico.

Argumenta que todos os servidores foram submetidos ao ponto, sustentando que o

registro de frequência, mediante ponto, está disposto no Estatuto dos Servidores

Municipais, que é de 1982. Defende que o Decreto não inova no ordenamento

jurídico, tratando-se de mero regulamento. Por fim, alega não haver direito líquido e

certo no presente caso.

O Município impetrado não se manifestou.

SSEEGGUUNNDDAA CCÂÂMMAARRAA CCÍÍVVEELL

O Município impetrado não se manifestou. S S E E G G U U N N
Foi deferida a tutela antecipada para suspender os efeitos do Decreto nº 5.826/2016 apenas em
Foi deferida a tutela antecipada para suspender os efeitos do Decreto nº 5.826/2016 apenas em

Foi deferida a tutela antecipada para suspender os efeitos do Decreto nº

5.826/2016 apenas em relação aos procuradores do Município e determinar que as

autoridades coatoras se abstenham de realizar qualquer registro de faltas destes

servidores pela não utilização do sistema de controle de ponto eletrônico.

O Ministério Público se manifestou pela denegação da segurança.

É o relatório. Passa-se ao voto.

De início, convém ressaltar que a Lei Orgânica do Município de São

João de Meriti, no Capítulo III, Seção VI, trata da Procuradoria Geral do Município,

dispondo em seu art. 62 o seguinte:

Art. 62 - A Procuradoria Geral do Município, com estrutura Orgânica de Secretaria Municipal, é a instituição que representa, como advocacia geral, o Município, judicial e extrajudicialmente, cabendo-lhe, nos termos de Lei Complementar que dispuser sobre sua organização e funcionamento, as atividades de consultoria e assessoramento jurídico do Poder Executivo.

Constata-se, assim, que lei complementar irá dispor sobre a organização

e

funcionamento

da

PGM,

bem

como

sobre

as

atividades

de

assessoramento jurídico do Poder Executivo.

consultoria

e

Registre-se, ainda, que o Estatuto dos Servidores do Município de São

João de Meriti trata do registro de frequência nos seguintes termos:

SSEEGGUUNNDDAA CCÂÂMMAARRAA CCÍÍVVEELL

de frequência nos seguintes termos: S S E E G G U U N N D
Artigo 181 – Ponto é o registro que assinala o comparecimento do funcionário ao serviço
Artigo 181 – Ponto é o registro que assinala o comparecimento do funcionário ao serviço

Artigo 181 Ponto é o registro que assinala o comparecimento do funcionário ao serviço e pelo qual se verifica, diariamente a sua entrada e saída.

§ 1º - Para efeito de pagamento, apurar-se-á a frequência do seguinte modo:

a) pelo ponto;

b) pela forma determinada em regulamento, quanto ao funcionário não sujeito ao ponto.

Observe-se que há previsão do controle de frequência por meio de

ponto, mas a alínea b, do § 1º do art. 181, do Estatuto dispõe sobre os servidores

públicos que não se sujeitam ao ponto, cuja frequência deverá ser regulamentada.

5.826/2016

Ante

tal

previsão

regulamentando

a

normativa

foi

implementação

editado

o

do

ponto

indiscriminada a todos os servidores públicos.

Decreto

Municipal

eletrônico

de

forma

Contudo, conforme prevê o referido Estatuto, há servidores que não se

submetem ao controle por meio de ponto. Ademais, convém destacar a inexistência

de lei complementar dispondo sobre a organização e funcionamento da PGM,

conforme exige a Lei Orgânica do Município (LOM).

Dessa forma, configurado o direito líquido e certo, eis que não se pode

exigir a frequência por ponto eletrônico dos procuradores do Município, tendo em vista

a exigência do art. 62 da LOM de a organização e funcionamento da procuradoria

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e funcionamento da procuradoria S S E E G G U U N N D D
municipal ser regulada por meio de lei complementar. Em outras palavras, é ilegal a exigência
municipal ser regulada por meio de lei complementar. Em outras palavras, é ilegal a exigência

municipal ser regulada por meio de lei complementar. Em outras palavras, é ilegal a

exigência de submeter os procuradores municipais ao controle de frequência por meio

de ponto eletrônico, ante a ausência de lei complementar neste sentido.

Ademais, convém destacar que dentre estes servidores que não estão

obrigados a registrarem a frequência por meio de ponto estão os procuradores

municipais, que são advogados públicos. Tal entendimento decorre da própria

atividade profissional exercida pelos advogados públicos.

Nesse sentido foi editado o enunciado sumular nº 9 do Conselho Federal

foi editado o enunciado sumular nº 9 do Conselho Federal da OAB, verbis: “[ o] controle

da OAB, verbis: “[o] controle de ponto é incompatível com as atividades do Advogado Público,

cuja atividade intelectual exige flexibilidade de horário.

”.

Confira-se também:

PROC. : 2000.03.99.065341-7 AMS 208655 ORIG. : 9800170030 9 Vr SAO PAULO/SP Relator Juiz Federal convocado Paulo Sarno / Segunda Turma / TRF 3ª Região Julgado em 08 de maio de 2007 Ementa ADMINISTRATIVO. SERVIDOR. PROCURADOR AUTÁRQUICO. CONTROLE ELETRÔNICO DE PONTO. DECRETOS 1.590/95 E

1867/86.

1. A instituição de controle eletrônico de ponto para procuradores, por

óbvio, não se compatibiliza com o exercício da atividade voltado para a

advocacia.

2. O exercício da advocacia tem como pressuposto a maleabilidade.

Neste contexto, a submissão dos procuradores a ponto eletrônico de

a submissão dos procuradores a ponto eletrônico de S S E E G G U U

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freqüência desnatura a singularidade do ofício e promove restrição indevida da atuação do profissional. 3.
freqüência desnatura a singularidade do ofício e promove restrição indevida da atuação do profissional. 3.

freqüência desnatura a singularidade do ofício e promove restrição indevida da atuação do profissional.

3. Os Decretos 1.590/95 e 1867/86 bem dispõem sobre diversa forma de

controle de freqüência para os servidores que exercem suas atividades em ambiente externo.

4. Apelação e remessa oficial improvidas

No voto do relator se lê o seguinte:

“A sentença de primeiro grau deve ser mantida. A instituição de controle eletrônico de ponto para procuradores, por óbvio, não se compatibiliza com o exercício da atividade voltado para a advocacia. Com efeito, o desempenho do labor pelos procuradores autárquicos não está adstrito ao recinto da repartição. É consabido que o Procurador Federal desloca-se durante o horário de expediente para realizar audiências ou representar a administração além das fronteiras do espaço físico que ocupa na seção de trabalho. O exercício da advocacia tem como pressuposto a maleabilidade. Neste contexto, a submissão dos procuradores a ponto eletrônico de freqüência desnatura a singularidade do ofício e promove restrição indevida da atuação do profissional. Como bem salientado pelo ilustre Procurador Regional da República que oficia neste feito, o controle eletrônico de freqüência ganha “em tecnologia, mas perde em pertinência.” Com olhar para outro vértice, lembro que os recorridos não se insurgem, neste writ, contra o controle de freqüência, visto que postulam tão- somente seja afastado o insólito mecanismo eletrônico imposto pela autoridade impetrada.”

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imposto pela autoridade impetrada.” S S E E G G U U N N D D
No referido precedente ficou consignado que o labor desempenhado pelos procuradores não se restringe ao
No referido precedente ficou consignado que o labor desempenhado pelos procuradores não se restringe ao

No referido precedente ficou consignado que o labor desempenhado

pelos procuradores não se restringe ao recinto da repartição, tendo que exercer sua

atividade

profissional em

audiências ou representar a Administração além das

fronteiras

do

espaço físico

da

sede do órgão.

Dessa forma,

concluiu-se

pela

incompatibilidade do ponto eletrônico com o exercício da advocacia.

Estes fundamentos se aplicam com precisão ao caso em exame,

porquanto se trata de procuradores municipais impugnando o controle por meio de

ponto eletrônico, ante as peculiaridades de suas atividades profissionais.

Note-se, ainda, que, diversamente do que alegaram as autoridades

apontadas

como

coatoras,

isso

não

fere

a

igualdade

de

tratamento

entre

os

procuradores municipais e os demais servidores municipais que estão sujeitos ao

ponto eletrônico. Isso porque, além do próprio estatuto prever a existência de

servidores que não se submetem ao ponto, o princípio da igualdade consiste em tratar

igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata proporção de suas

desigualdades. É de se frisar que o caso observa tal princípio, pois exatamente pelas

características da profissão de procurador, ou seja, a desigualdade do ofício exercido

pelos procuradores em relação aos demais servidores municipais, é que aqueles não

devem se submeter ao controle de ponto eletrônico.

Esclarece-se, ainda, que a questão em tela versa apenas sobre o

controle de frequência pelo ponto eletrônico, não sendo o ponto manual objeto do

presente processo de mandado segurança.

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do presente processo de mandado segurança. S S E E G G U U N N
Pelo exposto, vota-se por conceder a segurança para excluir a obrigatoriedade dos procuradores municipais de
Pelo exposto, vota-se por conceder a segurança para excluir a obrigatoriedade dos procuradores municipais de

Pelo

exposto,

vota-se

por

conceder

a

segurança

para

excluir

a

obrigatoriedade dos procuradores municipais de se submeterem ao controle de ponto

eletrônico disposto no Decreto nº 5.826/2016. Por fim, condena-se o Município a

ressarcir à impetrante o valor antecipado a título de despesas processuais, deixando-

se de condená-lo ao pagamento de honorários de sucumbência com base no art. 25

da Lei nº 12.016/09.

Rio de Janeiro, 08 de junho de 2016.

Des. ALEXANDRE FREITAS CÂMARA Relator

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2016. Des. ALEXANDRE FREITAS CÂMARA Relator S S E E G G U U N N