Você está na página 1de 12

TEORIAS

Contribuições
“Após o dilúvio incessante das horas, uma nova or-
dem emergiu, deixando atrás de si, nas sombras do

para o estudo
tempo, o mundo do Verbo. Neste novo começo, no
princípio estava a Imprensa, depois veio o Rádio... e

dos meios de
hoje o embaraço das possibilidades do futuro.”

comunicação EIS ALGUMAS FRASES que poderiam servir de


epígrafe para grande parte das atuais análi-
RESUMO ses relativas à comunicação de massa. Es-
Partindo da tentativa de situar os estudos dos meios de quecendo as condições de possibilidade
comunicação em relação às principais correntes teóricas da deste novo mundo emergente, a seu modo
comunicação de massa, o texto desenvolve um estudo da elas contribuem para cavar um abismo em
definição do conceito e dos planos de análise dos meios de relação ao passado, elevando as conquistas
comunicação. Na primeira parte é exposto um rápido pano- tecnológicas a uma estatura magnífica e ob-
rama dos estudos de comunicação, onde se constata a lacu- sedante. É curioso notar que esta ruptura
na dos estudos de meios. A segunda parte é constituída por com a análise histórica da organização soci-
uma proposta de conceituação e estudo dos meios. al é acompanhada de uma de antecipação
do futuro. Sintoma claro de um desejo de
ABSTRACT esquecer o presente demasiado difícil de
This text is a study both on the definition and on the levels compreender. Desembaraçados da história,
of analysis of the media of communication. It first shows as análises se voltam para a especulação
that there are very few references on the subject. After- das novas possibilidades, se apressando
wards, it proposes a conceptual model for the definition em nos garantir que estas tecnologias serão
and the study of those media. a realidade de amanhã. Esta dogmática
triunfante nos projeta na vertigem de uma
PALAVRAS-CHAVE (KEY WORDS) espiral de inumeráveis possibilidades de
- Teorias da comunicação (Communication theories) mediações técnicas: o videofone, o cyberse-
- Tecnologias (Technologies) xo, a Internet, a “Super-Internet”, a “mais-
- Meios (Media) que-super-Internet”... Mas o efeito mais cu-
rioso de uma tal “Gênese” do mundo na
Era da Pós-Modernidade é sem dúvida a
consolidação da especulação sobre as futu-
ras possibilidades das novas tecnologias
de comunicação, em detrimento do estudo
dos meios reais e efetivamente presentes
na vida social.
Penso que esta tendência das pesqui-
sas pode ser explicada, em parte, pelo es-
gotamento do paradigma empírico-behavi-
orista (ou positivista), sem que tenha havi-
do outros modelos de análise para o subs-
tituir. Na verdade, o paradigma expresso
pela célebre questão-programa formulada
por Lasswell – “quem diz o que, por qual ca-
nal, para quem e com qual efeito? ”1 – sempre
esteve sujeito a graves críticas, mas dois fa-
Luiz C. Martino tores foram decisivos para seu sucesso e
Professor da Universidade de Brasília (UnB) longevidade:

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral 103


1) a necessidade de fornecer um status memos como referência, entre outros traba-
científico à pesquisa em comunicação; lhos, aquele de Jensen e Rosengren, 2 para
2) a capacidade de organizar e dar quem as tradições de pesquisa sobre os
unidade aos diversos aspectos da questão. mass media poderiam ser esquematicamente
Precisemos que este paradigma de- classificadas em cinco grandes linhas de
senvolveu sobretudo pesquisas no pólo do pesquisa, como segue.
emissor (quem) e da mensagem (o que), pois 1) As pesquisas sobre os Efeitos (no
a adoção do modelo positivista de ciência sentido estrito): o que os meios de comunicação
se mostra bem aquém da tarefa do estudo fazem ao indivíduo?
dos meios de comunicação. Precisemos, 2) As pesquisas sobre os Usos e Grati-
também, que as críticas que lhe foram diri- ficações: o que o indivíduo faz dos meios de co-
gidas tiveram um curioso resultado, pois, municação?
sem poder superá-lo, elas não tiveram ou- 3) A Análise Literária: estudos que vi-
tra conseqüência salvo uma progressiva so- sam às estruturas das mensagens, quer di-
briedade no julgamento de seu alcance e, zer, que ficam ao nível das análises das
portanto, não puderam senão aperfeiçoar obras veiculadas.
este paradigma. Ainda que outros modelos 4) Os estudos sobre as Condições de
de ciência tenham sido adotados, eles não Recepção: centrados sobre a análise que o
teriam sabido evitar uma desintegração da público faz do conteúdo das mensagens.
temática dos mass media em inumeráveis 5) As abordagens Culturalistas: que se
problemáticas isoladas e dispersas em di- afastam do meio de comunicação para le-
versas disciplinas científicas. vantar “questões teóricas e políticas”.
Nesta breve intervenção nós nos con- Se examinarmos estas linhas de pes-
centramos na elucidação deste aspecto do quisa poderemos verificar, como afirma
problema, e em algumas indicações para o Elihu Katz, que elas são em realidade des-
estudo dos meios. dobramentos dos estudos dos efeitos. Tra-
Comecemos então por observar que a ta-se, como é sabido, do desenvolvimento
unidade proporcionada pelo esquema de do esquema de Lasswell (quem diz o que a
Lasswell repousa sobre a intencionalidade quem com quais efeitos), ou de um aperfei-
constitutiva do ato comunicativo. Quem diz çoamento da idéia central deste paradigma.
alguma coisa exprime uma motivação Com exceção da última, todas as outras tra-
qualquer, que em alguma medida está pre- dições de pesquisa se concentram em um
sente na Mensagem, a qual justifica a exis- dos termos representados pelo esquema
tência dos Canais, que enfim vai a submeter lasswelliano.
a outrem (para Quem), sempre com a inten-
ção de produzir um Efeito, sobre este. 1) A pesquisa sobre os efeitos (no sen-
É evidente que o paradigma positivis- tido estrito).
ta se funda sobre o modelo da intencionali- Logo de saída é preciso notar que as
dade natural (quer dizer, aquela situada no pesquisas sob esta rubrica privilegiam a
nível do ato comunicativo ou aquela que questão da influência dos meios de comu-
um agente pode compreender em relação à nicação no processo de formação da opi-
ação de um outro agente), e que seria pos- nião pública. E isto de uma maneira muito
sível demonstrar que a evolução das pes- particular, pois não se trata da formação no
quisas que adotaram este paradigma pode seu sentido mais amplo (educação infor-
ser representada pelo deslocamento do mal, gênese histórica, estrutura social...),
centro da intencionalidade através dos di- mas trata-se do poder dos meios de comu-
versos termos do esquema. nicação de influenciar as tomadas de posi-
Abordemos uma análise de conjunto ções do indivíduo (reforçando-as ou alte-
dos estudos da comunicação de massa. To- rando-as) quando de um problema bem

104 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral


preciso. Por exemplo, a eleição de um pre- 3) A tradição da Análise Literária é
sidente ou a influência da propaganda so- sem dúvida a forma de abordagem mais
bre um exército inimigo. Pode-se apontar o antiga, visto que ela é uma extensão e uma
célebre trabalho de Lazarsfeld, Berelson e adaptação dos estudos literários para a
Gaudet, “The People Choice”, e os traba- análise da comunicação de massa.
lhos de Carl Hovland como os protótipos Como observam Jensen e Rosengren,
desse gênero. do mesmo modo que os estudos sobre os
Por mais que ampliemos o domínio Efeitos, “o sentido é considerado como
de sua aplicação, esta tradição de pesquisa imanente às estruturas do conteúdo”. Estas
se funda sobre a influência do conteúdo duas linhas de pesquisa tomam a Mensa-
das mensagens (informação) sobre os re- gem como a intenção do Emissor, a diferen-
ceptores e não sobre os meios de comuni- ça aparece na medida em que esta última
cação propriamente ditos. Seu centro de in- interpreta a noção de mensagem de uma
teresse é o estudo das reações do Receptor maneira mais ou menos restrita, seja como
em função da Mensagem veiculada pelos primado do código, seja como a intenção
meios de comunicação. Precisemos, ainda, política ou ideológica (onde sua aplicação
que a Mensagem aqui deve ser compreen- nas análises da propaganda). Fazendo abs-
dida como a intenção do Emissor, de modo tração dos meios de comunicação, e procu-
que a comunicação é assimilada a uma re- rando deduzir a reação dos Receptores a
lação de poder, onde o Emissor impõe sua partir da estrutura ou do conteúdo do tex-
vontade ao Receptor. Estes estudos se con- to, é sobre o segmento da Mensagem, no
centram sobre o sucesso desta empresa. seu sentido mais amplo, que recai então to-
das as atenções da tradição dos estudos li-
2) Já para a tradição de pesquisa sobre terários.
os Usos e Gratificações, o protótipo é certa-
mente o estudo de Herta Herzog sobre as 4) Os Estudos de Recepção, assim
ouvintes das novelas de rádio. como os Estudos dos Efeitos, retomam a
Novamente, nós estamos diante de relação Mensagem-Receptor desta vez para
uma orientação centrada sobre a Mensa- privilegiar este último termo.
gem e a reação do Receptor. Entretanto, Para esta linha de pesquisa as análises
desta vez a atenção se volta sobre o sentido se concentram sobre a atividade de inter-
efetivo que os usuários conferem aos con- pretação (decodificação) da mensagem.
teúdos da mensagem e por conseguinte as Trata-se então do estudo de uma atividade
gratificações que eles obtêm dessa forma do sujeito, entendido aqui como Receptor
de ocupação do tempo pessoal. Os termos de mensagens. Notemos, entretanto, que
“gratificação” e “uso” são tomados em um esta linha de pesquisa, não obstante a mai-
sentido solidário e reenviam à questão do or complexidade de sua elaboração teórica
reforçamento de uma prática a partir dos e as críticas que dirige à tradição do Estudo
usos efetivos que as pessoas fazem da re- dos Efeitos, pode ser considerada como um
cepção de certos conteúdos veiculados. Se caso particular desta última. Basta conside-
a motivação dos atores é levada em conta, rar o fato que a decodificação das mensa-
sua análise permanece restrita, entretanto, gens, por mais pessoais que possam ser,
ao domínio da relação entre o conteúdo da não deixa de ser uma reação à mensagem.
mensagem e a compreensão que os própri- Sua característica maior é a ênfase sobre a
os atores têm de sua prática. De onde a in- atividade do sujeito no processo de deco-
clinação psicológica deste tipo de aborda- dificação.
gem que se ocupa das motivações indivi-
duais subjacentes à recepção e que inves- 5) Enfim a abordagem Culturalista.
tem o sujeito como Receptor. Sem dúvida a mais difícil de sintetizar.

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral 105


Esta dificuldade é perfeitamente compre- objeto de nenhuma dessas linhas de pes-
ensível dado que neste tipo de abordagem quisa.
os meios de comunicação não podem ser Bem entendido, nós não colocamos
expressos pelo esquema de Lasswell. E isto aqui em jogo a exatidão dos conhecimentos
é bastante significativo. Trata-se da única gerados por essas tradições de pesquisa, e
perspectiva onde os meios de comunicação longe de nós termos a pretensão de negar
são considerados de forma a ultrapassarem em bloco conhecimentos dos quais nós
os quadros do paradigma empiricista. Inte- mesmos nos servimos.
grados à vida social, os meios de comuni- Chamamos simplesmente a atenção
cação não podem ser representados de sobre o fato que a pesquisa da comunica-
uma maneira simplificada. ção de massa se constituiu historicamente
A menos que se queira exprimir através sem privilegiar o estudo dos meios de co-
de paradoxos, como aquele de McLuhan se- municação. 3
gundo o qual “o meio é a mensagem”. O Com efeito, se a última das tradições
sucesso deste leitmotiv se deve em parte à aqui analisadas deixa entrever uma outra
sua novidade: trata-se de uma das primei- maneira de abordar a questão dos meios de
ras tentativas de fundar o estudo dos meios comunicação, é preciso entretanto admitir
de comunicação para além das divisões de que ela foi explorada no sentido de uma
um esquema analítico e de uma relação de pesquisa dos efeitos dos meios de comuni-
oposição entre sociedade e meios de comu- cação sobre a sociedade, sem todavia ter
nicação. uma reflexão sobre esta relação, salvo
Infelizmente, McLuhan mesmo inter- aquela de uma causalidade primária sus-
pretou a superação desta posição dualista tentada pelo determinismo tecnológico.
(meios de comunicação e sociedade) como Por outro lado, as quatro primeiras
a determinação de uma instância sobre a tradições se inscrevem diretamente no pa-
outra, fazendo assim apenas uma renova- radigma proposto por Lasswell, desmem-
ção da posição anterior sem verdadeira- brando o meio de comunicação em termos
mente realizar uma mudança mais profun- analíticos e em questões específicas. Elas
da. Desta maneira, o estudo dos meios de reduzem a problemática a apenas um de
comunicação torna-se um problema de seus aspectos para poder adaptá-la à abor-
equilíbrio delicado, sempre ameaçado pelo dagem analítica.
risco de submergir seu objeto na vida soci- De qualquer forma, nós podemos
al, fazendo-os desaparecer sob as determi- constatar, analisando o conjunto das tradi-
nações de outras atividades mais significa- ções de pesquisa que os meios de comuni-
tivas (economia, política, movimentos cul- cação permanecem deslocados e mesmo
turais, etc.); ou, ao contrário, de fazer da marginais neste movimento que vai do mi-
vida social uma determinação dos meios cro ao macrouniverso da pesquisa, da ana-
de comunicação (posição marcada por lítica detalhada ao buraco negro da síntese
McLuhan). absoluta.
Em suma, por mais incompleta ou po-
Eis aqui, a grosso modo, as principais lêmica que seja esta breve e certamente dis-
tradições de pesquisa nas quais se repar- cutível visão de conjunto das tradições de
tem os estudos sobre a comunicação de pesquisa em comunicação de massa, não se
massa e nos quais os estudos sobre os mei- colocara em questão, no entanto, o fato fun-
os de comunicação são normalmente sub- damental aqui para nós, que os estudos so-
sumidos. bre os meios de comunicação se não foram
Na realidade, e não obstante toda a sistematicamente negligenciados, ou prete-
simplificação do panorama descrito acima, ridos, foram certamente deixados à mar-
os meios de comunicação não constituem o gem das atenções dos pesquisadores.

106 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral


Conceito de meios de comunicação em uma verdadeira cadeia de produção en-
volvendo a divisão do trabalho. É o plano
De toda evidência, a atividade científica mais geral da gestão/elaboração da infor-
não pode se fundamentar sobre a polisse- mação, para o qual confluem a atividade
mia dos vocábulos ordinários e o primeiro dos jornalistas, o de diretores de produção,
passo para a construção de seu objeto pas- organizadores de programação, artistas...
sa necessariamente pela construção desse 3) Finalmente, o plano do eletrodo-
objeto, visto que ele não deve ser confundi- méstico, do aparelho, compreendendo por
do com a evidência empírica. esta expressão não o produto da cadeia téc-
Ora, a importância da definição do nica (o que significaria apenas a repetição
conceito advém justamente da necessidade do primeiro nível), mas justamente a inter-
de recortar e selecionar de uma certa reali- face entre um dispositivo técnico e o utili-
dade empírica os seus traços mais signifi- zador humano.
cativos (no sentido de Max Weber). É atra-
vés do conceito que nós limitamos e conse-
qüentemente definimos um objeto de estu- Plano tecnicista
do.
Mas se a necessidade das definições Não é difícil de perceber que as questões
conceituais está longe de ser questionada técnicas enquanto estritamente técnicas,
pela comunidade científica, é de se estra- quer dizer, na acepção restrita do engenhei-
nhar que os meios de comunicação, na in- ro, não possuem, para nós, senão um inte-
terface de tantas disciplinas das ciências resse marginal. Além do mais, um meio de
humanas e sociais, não tenham sido alvo comunicação, ao contrário do que se pode-
de uma discussão conceitual a altura da ria crer, não representa nenhuma forma téc-
importância que lhes é consensualmente nica específica. A escrita, por exemplo, de-
atribuída. signa a sinergia de uma pluralidade de téc-
Encurralados entre a tautologia de de- nicas: fabricação de um suporte (tabletes de
finições sumárias e a desconsideração ab- argila, papiros, papel...); invenção e estabe-
soluta, a verdade é que a grande maioria lecimento de um sistema de convenções
dos trabalhos sobre meios de comunicação (desenhos geométricos ou figurativos, ide-
discorre diretamente sobre a matéria sem ogramas, alfabeto silábico...); instituições
se ocupar em definir o que é uma TV, um de aprendizagem das regras de codificação
rádio ou os meios de comunicação em ge- da mensagem (procedimentos mnemotéc-
ral. Normalmente o sentido particular que nicos, rituais, templos, mosteiros, escola
cada trabalho imprime ao termo se explici- laica...). Esta observação é igualmente váli-
ta ao longo de sua exposição, sendo que da para o telégrafo (óptico, elétrico, “à ca-
três sentidos implícitos perfazem quase a dran”, sem fio...) ou para a fotografia (da-
totalidade das acepções em jogo. Elas colo- guerreótipo, calotipo, Polaroid, suporte nu-
cam três planos diferentes para a análise : mérico...), ou ainda para qualquer outro meio
1) O plano da acepção tecnicista, ou de comunicação: a televisão, como qualquer
técnica no sentido dos engenheiros. Os outro meio de comunicação, não trocou de
meios de comunicação aparecem como si- nome, e nem foi privada de sua identidade a
nônimo de suporte físico, o qual implica cada aperfeiçoamento tecnológico.
estudos que envolvem os conhecimentos A recusa de identificar os meios de co-
das ciências exatas ou naturais, tais como municação a dispositivos tecnológicos bem
os da mecânica ou da eletrônica. precisos permite de compreender que a téc-
2) O plano das instituições, que os nica não se reduz aos objetos materiais, mas
meios de comunicação mais complexos co- que se trata também de um processo infinito
locam em jogo na medida em que constitu- de criação e adaptação desses objetos.

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral 107


Assim, nós afastamos a possibilidade práticos, equivale a multiplicar o problema
de definir os meios de comunicação por afirmando que existem, por exemplo, tan-
um de seus componentes técnicos, já que o tos Rádios quanto as instituições emissoras.
progresso tecnológico nos oferece opções Ora, o estudo de uma emissora não é
que vêm sistematicamente transformar os o estudo de um meio de comunicação, bas-
quadros dos aparatos tecnológicos estabe- ta ver os trabalhos realizados seguindo esta
lecidos. orientação para se dar conta que estamos
Notemos também que não se trata de em presença de uma análise de métiers, de
objetos técnicos quaisquer, mas trata-se de administrações e administradores, de artis-
meios de comunicação. Por exemplo, a dife- tas e diretores, ou simplesmente de uma
rença entre uma conversação através de um análise institucional, com as idiossincrasias
víideofone, de uma teleconferência através próprias às instituições de circulação da co-
de uma rede informatizada e a prática de municação, claro, mas uma análise que se
um telespectador, é mais fácil de ser esta- quer uma narrativa da história de uma cer-
belecida levando-se em conta o tipo de co- ta instituição ou uma sociologia do traba-
municação (respectivamente: bipolar, mul- lho.
tipolar reversível e de difusão a partir de Aqui, os fatos diversos do cotidiano
um ponto) que se tomando a tecnologia en- institucional e os depoimentos pessoais
volvida. vêm se misturar com os problemas da es-
Enfim, pela própria natureza da ativi- tratificação social no interior da organiza-
dade que lhes compete, a definição de um ção, seu posicionamento político, seus en-
meio de comunicação reclama que nós o gajamentos em relação à sociedade, etc.
situemos em relação ao papel que ele de- Assim como o plano anterior, o plano
sempenha na organização social. Distin- institucional nos traz questões que, mesmo
guir-se-á, então, aqueles dispositivos que não sendo completamente deslocadas, nos
não passaram do estágio de experiência de afastam contudo das questões capitais que
laboratório, e cujo valor se exprime apenas nos levam à definição dos meios de comu-
por um valor histórico, ou de evolução es- nicação.
tritamente tecnológica, e não propriamente
por sua função social.
O exemplo mais notável deste último Plano do usuário
caso é certamente o da televisão, que para
além de sua dimensão técnica se tornou Talvez seja este o momento de lembrar que
um verdadeiro “espaço público” de fre- estes três planos não estão desconectados e
qüentação.4 Negar estes aspectos seria cer- que é mesmo possível estabelecer-se uma
tamente deixar escapar qualquer coisa de certa hierarquia entre eles à medida que a
essencial, o que justamente a abordagem complexidade aumenta.
tecnicista não pode oferecer, pois a defini- O plano tecnicista é a condição de
ção de um meio de comunicação ultrapassa possibilidade do plano institucional, que
o plano estritamente técnico. por sua vez é a condição de possibilidade
para o plano do usuário. Dito de outro
modo, os construtores de redes e de apare-
Plano institucional lhos receptores fazem seu trabalho em fun-
ção das emissões a serem transmitidas, do
Objeções similares podem ser feitas ao pla- mesmo modo que os responsáveis da in-
no de análise da gestão institucional. Neste dústria e do comércio de emissões fazem
plano a tendência é identificar o meio de seu trabalho em função de um público que
comunicação com a instituição que controla consumirá estas emissões e que se encontra
a estação transmissora. O que, em termos no fim de toda essa cadeia de produção.

108 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral


Assim, um meio de comunicação É somente nesta convergência entre a
complexo comporta dispositivos técnicos dimensão virtual, uma técnica e a expres-
diversos que não têm sentido neles mes- são social da experiência que nós podemos
mos, mas sim em função de um objetivo situar o problema dos meios de comunica-
único que os reúne, conferindo assim um ção, já que eles não podem ser reduzidos a
sentido a suas atividades isoladas e a suas nenhum de seus componentes técnicos, ou
finalidades parciais. a nenhum de seus métiers, ou ainda à singu-
Este objetivo único, para um meio laridade da experiência dos indivíduos iso-
como a televisão, por exemplo, não é outra lados. Enfim, um meio de comunicação é a
coisa senão a geração do som e da imagem, expressão social da experiência através da
ou mais precisamente do estímulo televisi- dimensão virtual aberta por um certo grau
vo em torno do qual se reúne uma coletivi- de simulação técnica da experiência.
dade. Não se confundirá, então, – nem co- Naturalmente esta demarcação do
locando-os sob um mesmo plano, nem de- problema, ainda que seja um avanço em re-
signando-os por um mesmo nome – os lação à definição instrumental (um meio de
meios que são colocados em jogo para a comunicação é instrumento que serve para
realização da televisão (meios técnicos e a comunicação), não pode ter valor de defi-
institucionais) com a televisão propriamen- nição. A nosso ver, uma definição conceitu-
te dita, pois esta aqui é simultaneamente o al dos meios de comunicação deve ser bus-
resultado da cooperação destes meios (si- cada através do aprofundamento e da sín-
nergia do objeto técnico) e a finalidade que tese das duas dimensões implicadas por
organiza o processo no seu todo, visíveis estes instrumentos, ou seja, o aspecto técni-
somente ao nível do usuário. co e o aspecto comunicacional.
Dito de outra forma, a significação de Antes de mais nada, um meio de co-
um meio de comunicação como a televisão municação é uma manifestação técnica e
não pode ser estabelecida ao nível de ne- como tal ele se dá como uma extensão do
nhum dos setores implicados na sua pro- homem. O que significa dizer que os meios
dução, pois é somente ao nível de maior de comunicação reproduzem parcialmente
complexidade – aquele da telespectação, alguma característica ou faculdade huma-
compreendendo por este termo a interface na. Mas, admitindo-se juntamente com vá-
entre o dispositivo técnico e o usuário, as- rios pensadores da técnica5 que todo artifí-
sim como a prática social de ver televisão – cio é uma extensão de um órgão, de uma
que se pode encontrar a significação deste função ou ainda de uma faculdade do cor-
meio, ou simplesmente a televisão, na me- po humano, se todo objeto técnico deve ne-
dida que este termo comporta um fenôme- cessariamente guardar uma relação com o
no social. homem, nós podemos colocar a seguinte
Ao nível do usuário (telespectador) questão: qual seria a propriedade ou fun-
nós não encontramos mais a diversidade ção do corpo humano que corresponderia
de segmentos que estão implicados nas aos meios de comunicação em geral? Qual
condições de possibilidade da televisão propriedade do corpo humano é estendida
(plano tecnicista e plano institucional). Nós por um meio de comunicação?
nos encontramos em um nível sintético, A resposta é bastante simples, trata-se
que supõe os anteriores e que se exprime naturalmente da faculdade de comunica-
como uma dimensão virtual na qual mer- ção, como sugere a função e o nome mes-
gulha a consciência individual: o telespec- mo que portam estes objetos técnicos. Sim,
tador não tem conta do funcionamento dos mas a que corresponde a comunicação em
transistores, mas ele se vê “religado” a relação ao corpo humano? A resposta mais
uma outra realidade gerada por um dispo- uma vez não admite nenhum equívoco,
sitivo tecnológico. quer dizer, trata-se da consciência já que a

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral 109


comunicação é uma relação de consciências. 6 histórico, necessariamente coletivo e inti-
Os meios de comunicação são, então, mamente ligado à faculdade de simboliza-
objetos técnicos que guardam uma relação ção. A interpretação gourhaniana da técnica
bastante especial com a consciência na me- vai bastante longe, pois ela indica a exterio-
dida em que se manifestam como uma ex- rização como o princípio da evolução da
tensão da consciência ou, como nós preferi- técnica, e precisa a faculdade de simboliza-
mos dizer, como simulação da consciência. ção como a condição desta capacidade de
Dessa forma nós chegamos a uma de- exteriorização. Ela também aponta o ciclo
finição conceitual – os meios de comunica- operatório como o modo através do qual
ção são simulações da consciência – bastan- esta atividade se dá, precisando assim os
te simples, mas que pode abrir algumas termos de sua composição.
novas perspectivas no estudo dos meios de Alguns dos pontos mais interessantes
comunicação. da abordagem gourhaniana é considerar a
técnica (humana) como o produto de uma
atividade simbólica (la parole) e a relação
Técnica entre homem e objeto técnico como um cir-
cuito funcional (cycle opératoire).
Há algum tempo venho desenvolvendo a A atividade técnica repousa sobre
hipótese de trabalho segundo a qual os uma forma de raciocínio (ou racionalidade)
meios de comunicação são simulações da que consiste na distinção, no isolamento e
consciência. A idéia é simples, e nasce de na substituição de um elemento de um
uma longa tradição dos estudos sobre a dado circuito funcional (situação proble-
técnica, onde os objetos técnicos são consi- ma) por um elemento de outro circuito fun-
derados como extensões do corpo humano cional (situação de apoio). Trata-se de iden-
(exteriorizações, próteses, órgãos funcio- tificar uma função, de isolar as partes materi-
nais externos... são termos igualmente utili- ais através das quais ela se exprime, e final-
zados e de minha parte eu acrescento o ter- mente de substituí-la por um outro elemento
mo simulação). Trata-se de considerar efeti- que possa desenvolver uma operação similar
vamente os meios de comunicação como a aquela que deve ser substituída.
objetos técnicos, tirando todas as conseqü- A comparação se funda então sobre
ências das relações entre o corpo humano e uma equivalência funcional, que não tem
o objeto técnico. De onde o nome de abor- sentido senão em termos simbólicos, já que
dagem organicista, ou abordagem antropo- em termos absolutos não há nada de simi-
lógica, dado a tal perspectiva sobre a técni- lar entre a mão e um martelo (um instru-
ca. mento que estende uma função da mão).
Pode-se dizer que sob vários aspectos Pode-se dizer que a racionalidade téc-
nossa abordagem da técnica é uma adapta- nica é um equacionamento simbólico, um
ção, ao caso particular dos meios de comu- modo de perceber o « mundo », que permi-
nicação, das teses elaboradas pelo eminen- te substituições funcionais. Graças à repre-
te pensador francês André Leroi-Gourhan. sentação simbólica de seu meio ambiente, e
Pai da etnologia francesa, este autor mar- também de seu corpo, o homem torna-se
cou profundamente os estudos sobre a téc- capaz de substituir e de exteriorizar todos
nica e suas teses podem ser acessadas com os fatores do ciclo operatório técnico (estru-
certa facilidade (nós nos baseamos sobretu- tura física ou instrumento, força motriz,
do no tomo II de O Gesto e a Palavra ). programa de gestos, programação). Com
Segundo este autor, a técnica não resi- efeito, o martelo substitui a mão enquanto
de no “objeto”, nem é o produto direto do estrutura de percussão (exteriorização do
corpo ou do indivíduo. Ela é uma ativida- instrumento); a força animal e o moinho
de que se insere num processo evolutivo e substituem os músculos humanos (exterio-

110 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral


rização da força motriz); a relojoaria e os meios de comunicação, a analogia entre a
autômatos mecânicos substituem a seqüên- informação virtual contida num suporte
cia de gestos técnicos (exteriorização de um material e o ato de sua decodificação se
programa contendo vários gestos)... funda sobre uma continuidade ontológica, na
A despeito do crescente grau de com- medida em que o interpretante, assim
plexidade, a lógica é sempre a mesma, tra- como a “coisa” interpretada (signo) são
ta-se de equacionar a realidade de modo a atos de consciência. E não poderia ser de
permitir um jogo de substituições, tão sim- outra maneira, dado que a relação de co-
bólicas quanto reais, a fim de obter certos municação não poderia escapar ao domínio
efeitos. da consciência: os meios de comunicação
Dito de outro modo, a faculdade es- não poderiam reproduzir tecnicamente
pecificamente humana de confrontar situa- uma função da consciência sem estarem
ções é empregada pela racionalidade técni- visceralmente ligados a ela.
ca na busca de similaridades entre elemen- Por conseguinte, o sistema funcional
tos de sistemas físicos distintos. Se a sinta- que religa o meio de comunicação ao utili-
xe da racionalidade técnica se exprime atra- zador não se exprime como uma simples
vés dos sintagmas de uma lógica simbóli- extensão da consciência, pois, ao invés de
ca, sua semântica, entretanto, é de ordem uma analogia mais ou menos arbitrária en-
da matéria. De onde o valor simultanea- tre os termos confrontados, trata-se de uma
mente simbólico e prático que ela assume. simulação da consciência. Os meios de comu-
No tocante ao domínio dos meios téc- nicação não reproduzem uma função qual-
nicos de comunicação, esta relação orgâni- quer, uma função que nós distinguimos
ca entre o objeto técnico e o corpo se dá de das coisas a golpes de abstração, eles simu-
uma maneira bastante especial. Isto porque lam a própria faculdade que nós temos de
a atividade de comunicação estabelece representar o mundo. De onde sua particu-
uma relação de identidade entre o órgão laridade dentro do universo dos objetos
do corpo e aquilo que é efetivamente esten- técnicos.
dido. Ou seja, todos os fatores do circuito Neste sentido, os meios de comunica-
funcional, então o órgão do corpo, o efeito ção são dispositivos técnicos que simulam
que é almejado (reações afetivas), a função a consciência no duplo sentido em que o
que é recortada da realidade (o referente produto de sua atividade é uma reprodu-
enquanto símbolo) e aquela que é estendi- ção virtual de certos estados afetivos da
da (a linguagem), enfim todos os fatores da consciência do emissor e no sentido que es-
equação simbólica que exprimem o proble- tados afetivos são simulados no traço mate-
ma dos meios de comunicação reenviam à rial que carrega a mensagem e reproduzi-
atividade da consciência. Codificar e deco- dos “pela”, “na” e como consciência do re-
dificar uma mensagem são atos de consciên- ceptor.
cia assim como a mensagem estocada sobre
um suporte:7 o processo, o resultado e os ele-
mentos em jogo (signos) no circuito funcional Sociedade
dos meios de comunicação são invariavel-
mente manifestações da consciência. Com o estudo das relações entre meios de
Entre a mão e o martelo não há senão comunicação e sociedade nós atingimos o
uma relação de analogia simbólica, relati- nível de maior complexidade de nosso es-
vamente arbitrária, pois é uma relação de tudo. Passagem incontornável para a com-
causalidade física que proporciona sua preensão do funcionamento e da razão de
equivalência (massa + movimento = impac- ser dos meios de comunicação. É também a
to, e por outro lado, mão = estrutura de forma de problematização mais facilmente
impacto = massa metálica). No caso dos encontrada na bibliografia consagrada aos

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral 111


meios de comunicação e, portanto, muito ra- pensée grecque); ou no Egito, onde a escrita
ramente calcada em uma teoria especializa- veio regular a divisão de terras após as bai-
da. xas do Nilo (James Février, Histoire de
Dizia-se, na antigüidade grega, que as l’écriture). Para além de toda controvérsia,
dimensões de uma cidade deveriam ser os trabalhos citados corroboram a afirma-
proporcionais ao alcance da voz de um ora- ção de que a organização do Estado não
dor frente ao seu público. Mas, ao invés de poderia ser viabilizada sem a assistência
aumentar o tamanho da cidade, os possan- de possantes dispositivos de comunicação.
tes meios de comunicação de hoje em dia Se a relação entre escrita e Estado pa-
virtualizaram o espaço social. O problema rece consolidada, entretanto devemos pre-
da antigüidade residia na maneira de tor- cisá-la. De uma parte, é preciso dizer que a
nar acessível o debate no interior da comu- noção de império designa um conjunto de
nidade. Agora, a questão que é colocada territórios governados por uma autoridade
aos nossos meios de difusão é aquela de única e não uma unidade cultural. De outra
selecionar o que deverá se tornar comum a parte, é preciso ter em conta que os meios
várias comunidades, quer dizer, selecionar de comunicação não desempenhavam se-
o que deverá se tornar propriamente social. não um papel restrito: burocracia, contabi-
A complexidade das ligações individuais; lidade do palácio, administração do impé-
a alta densidade demográfica; a unificação rio através de despachos concernentes aos
da economia mundial, cada vez mais se negócios estatais enviados a centros afasta-
consolidando como um sistema que ultra- dos, informações e instruções militares.
passa as lógicas nacionais; o processo de Eis aqui a dimensão da ação dos mei-
homogeneização global da cultura (forma- os de comunicação, à qual se pode acres-
ção de uma cultura de base); o desenvolvi- centar os textos sagrados de certas religiões
mento dos meios de comunicação e de que se serviam da escrita como de um sa-
transporte; o turismo; os fluxos migratóri- ber religioso. Todos estes elementos vêm
os; a mestiçagem étnica... tudo isso torna testemunhar que na antigüidade os meios
muito difícil a delimitação do conceito de de comunicação se inscrevem no uso das
sociedade em um espaço preciso, a uma classes dirigentes, reforçando a idéia que
população específica, a um conjunto parti- eles tinham um alcance funcional reduzido.
cular de costumes. O que o termo socieda- Estas observações nos mostram que
de designa é mais uma zona de influência os meios de comunicação não atuavam di-
político-cultural que a delimitação espacial retamente na dinâmica da coletividade,
das cidades ou das nações. eles não estavam presentes no cotidiano da
A rigor, é a idéia mesma de sociedade vida dos indivíduos: não se colocava a
que nasce com um novo sentido dos meios questão de se servir deles para difundir
de comunicação. Há muito tempo que as uma “informação” (a mensagem sagrada
pesquisas em comunicação e em sociologia ou militar é da ordem do confidencial),
convergem em direção a uma correlação nem para fazer conhecer suas idéias ou
forte entre Estado e meios de comunicação seus sentimentos a seus semelhantes: os
(H. A. Innis, Empire and Comunication, P.U. meios de comunicação não participavam
de Toronto, 1952). das relações interpessoais. De fato, a vida
As primeiras escrituras que nós co- em comunidade dispensa o uso de meios
nhecemos concernem à contabilidade, que de comunicação, já que por definição a
teriam viabilizado o primeiro grande impé- idéia de comunidade implica justamente a
rio, aquele da Mesopotâmia (Jack Goody, companhia efetiva dos outros membros:
La Logique de l’Écriture: aux origines des socié- por que se servir de um telefone, de uma
tés humaines). E assim também para o palá- carta, de um rádio... para se dirigir a aque-
cio de Creta (J. P. Vernant, L’Origine de la les que estão perto, aqueles que compar-

112 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral


tem o cotidiano conosco? lhidas de sua freqüentação dos meios que
O contraste com nossas sociedades atu- o indivíduo toma conhecimento das ativi-
ais é flagrante. Ainda mais se levarmos em dades da vida coletiva ao nível social; é a
conta que, ao contrário da vida nas comuni- partir dessas informações que ele elabora
dades primitivas, o indivíduo moderno uma representação de fatos e acontecimen-
não tem sua pertença ao grupo garantida tos que não estão diretamente ao seu alcan-
pelos vínculos de sangue ou pela tradição. ce, mas aos quais, de uma forma ou de ou-
Agora, é a vontade dos participantes tra, ele se sente ligado ✎
de fazer parte da comunidade e de partici-
par das responsabilidade que é o fator
constitutivo das novas sociedades. A velha Notas
sociedade, fundada sobre a responsabilida-
de coletiva, é substituída por um novo 1 LASSWELL, D. H. “A Estrutura e a Função da Comuni-
princípio de sociedade, um princípio racio- cação na Sociedade”, in COHN, Gabriel, Comunicação e In-
nal porque reflete a vontade do indivíduo dústria Cultural. E. Nacional/Edusp. S. Paulo, 1971, pp.
que consente em engajar determinados 105-117.
meios em vista de um fim preciso (F. Jo-
nas, citando Histoire de la Sociologie, de M. 2 Em realidade, para as finalidades da presente exposição,
Weber, in Larousse, 1991, p. 357). pouca diferença faz se utilizarmos os trabalhos de Jensen
Dessa forma, os meios de comunica- e Rosengrend, de Mauro Wolf ou de Elihu Katz.
ção aparecem sob dois ângulos diferentes.
Primeiro ao nível do fundamento de nossa 3 Em uma interessante palestra no XXIII Congresso da
organização social, como um dos vetores INTERCOM, Sociedade Brasileira de Estudos Interdis-
que viabilizam a vida para além do espaço ciplinares da Comunicação, realizado em Manaus, em
comunitário. Note-se, a propósito, que a setembro de 2000, Elihu Katz mostrava-se relutante em
comunidade não deixa de existir na moder- classificar os estudos culturais como uma tradição de
nidade, mas que ganha um novo sentido na pesquisa em comunicação. Não exatamente porque fal-
medida em que o indivíduo moderno cons- tam publicações ou estudos nesta área, mas porque não
trói sua identidade a partir do pertenci- se pode discernir uma unidade nestes estudos de forma a
mento a várias comunidades.8 Os meios de estruturar uma corrente de pesquisa. Os estudos de mei-
comunicação aparecem então como uma os, além de terem um volume muito menor de publica-
dimensão virtual, um espaço público, ções específicas, também apresentam um problema se-
transcomunitário, que permite a geração de melhante. Os poucos estudos normalmente classificados
valores e representações comuns a todas as nesta rubrica (Innis, McLuhan, Goody, E. Eisenstein,
comunidades. Esta dimensão virtual aberta Deutch, etc.) não têm uma perspectiva comum, nem tra-
na vida das comunidades permite não so- balham o meio de forma central. Eles são adaptações de
mente a geração de uma cultura para todos outros problemas, normalmente vindos de outra área
(cultura de massa), mas também a geração (história, sociologia, antropologia...). Razão pela qual es-
de um tempo de atualidade, que se mani- tes estudos são muito raramente classificados dessa for-
festa como um cotidiano compartilhado ma pelos teóricos quando de um panorama das tradições
pelo conjunto das comunidades. de pesquisa.
De outro lado, ao nível dos agentes
sociais, os meios de comunicação também 4 Esta distinção é bastante importante, e nem por isso é
podem ser compreendidos como os instru- levada em conta nas análises de meios. Não é raro en-
mentos dos quais os indivíduos lançam contrarmos um nivelamento entre meios de diferentes ex-
mão para ter uma representação e para son- pressões sociais, tais como a televisão e a Internet. En-
dar o espaço social, exercendo assim sua quanto a primeira se encontra em praticamente todos os
vontade e suas estratégias racionais de in- lares da sociedade brasileira, apenas 3% da população
tegração. É a partir das informações reco- mundial utilizam a Internet.

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral 113


5 Entre outros, Lewis Mumford, André Leroi-Gourhan, Loyola. São Paulo.
Ives Goffy, Henri Bergson, Paul Virilio, M. McLuhan...
Para uma crítica aprofundada da analogia com o corpo WOLF, Mauro, Teorias da Comunicação. Presença. Lisboa, 1995.
humano implícita na noção de extensão e para uma
análise da variedade de conceitos (prótese,
exteriorização, sistema funcional, simulação), ver
MARTINO, Luiz C., “Télévision et Conscience”, Tese de
Doutorado em sociologia, Sorbonne Paris V, 1997.

6 Sobre a comunicação como relação de consciências ver


Eliane AMADO LEVY-VALENSI, La Communication. PUF,
1967 e Jacques DURAND, Les Formes de la Communication.
Dunod/Bordas. Paris, 1981.

7 Cf. RUYER, Raymond, La Cybernétique et l’Origine de


l’Information. Flammarion, 1968.

8 Cf. Stuart HALL, Identidades culturais na pós-modernidade.


DP&A Editora, Rio de Janeiro, 1997.

Referências

AMADO LEVY-VALENSI, Eliane, La Communication. PUF,


1967.

DURAND, Jacques, Les Formes de la Communication. Dunod/


Bordas. Paris, 1981.

JENSEN, Klaus, BRUHN et ROSENGREN, Karl Erik, ”Cinq


traditions à la Recherche du Public”, Revue Hermès, n° 11-
12, numéro spécial. CNRS Editions. Paris, 1993 (Version
originelle: European Journal of Communications, SAGE,
London, Vol. 5, 1990).

KATZ, E. “A propos des médias et de leurs effets”, in SFEZ,


L. (org.) Technologies et Symboliques de la Communication.
Colloque de Ceresy 1988 Press Universitaire de Grenoble,
1990, pp. 275-282 (Tradução para o português de L.C.
Martino, mecanografado, Brasília, 1999).

LEROI-GOURHAN, André, Le Geste et la Parole : la mémoire et les


rythmes. Albin Michel. Paris, 1991.

MARTINO, Luiz C., “Télévision et Conscience”. Tese de


Doutorado. UFR de Sciences Sociales, Université Réné
Descartes, Sorbonne Paris-V. Paris, junho de 1997.

MATTELART, Armand, História das Teorias da Comunicação.

114 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 13 • dezembro 2000 • semestral