A. B. Yehoshua
 
 
Shiva
 
 
 
 
Companhia das Letras (São Paulo, 2001)
 
Gênero: Romance israelence
 
Título original: Shivah me Hodu
 
Tradução: George  Schlesinger
 
Digitalização: Thiago Cerejeira
 
Revisão: Edith Suli
 
Outubro de 2015
 
 
 
 

Contracapa
 
Ele bem que tentou resistir. Parecia saber que aquela viagem à índia  transformaria sua vida  para sempre, Apenas não sabia como realmente aconteceria essa transformação.
Um mês depois, dilacerado entre um amor impossível e a competição  profissional,Benjy Rubín,  um médico jovem e brilhante, está mergulhado em interrogações sobre o  nascimento, o amor, a morte,  a ressurreição. Vê-se obrigado a questionar o poder de diagnosticar e prever, rendendo-se  à fatalidade  que parece tomar conta dos  rumos de sua existência.
Numa associação feliz entre o deus indiano da destruição e reconstrução, Shíva, e o fato de que  em hebraico essa mesma palavra  significa"retorno" A. B. Yehoshua —um dos grandes talentos da  literatura israelense contemporânea—brinca com o imprevisível. Seu romance traz a cada capítulo uma surpresa, fazendo com que todos  nós nos tornemos companheiros de Benjy e aceitemos o  domínio do imponderável.
 
 
 

Orelhas
 
O jovem médico Benjamim Rubin é convidado a acompanhar Lazar,  o diretor do hospital onde trabalha.  numa viagem à índia; o objetivo é trazer de volta a filha do diretor, Einat,  que adoeceu gravemente. Nesse momento, ele toma consciência de dois  fatos: primeiro, fora preterido como  médico assistente no departamento cirúrgico e sua carreira se tornou imprevisível; segundo, de algum modo a  viagem lhe reserva surpresas que transformarão por inteiro a sua existência.
É o que acontece, de fato. Mergulhando nos mistérios da índia, Benjy  é confrontado com questões essenciais para a humanidade: o nascimento, o amor, a morte, a ressurreição.
Impressionado com as cerimônias de  cremação dos mortos—e sobretudo  das viúvas—,pondera sobre a inevitabilidade dos desígnios universais, mas  sem abandonar a esperança ocidental  de poder explicá-los, de ter domínio  sobre eles. É nessa aparente contradição que ainda procura manter o controle de sua vida.
No entanto, sua metamorfose se  dá em outro plano: o das emoções.  Ele se apaixona por uma mulher muito mais velha —Dori, mulher de  Lazar, e essa paixão verdadeiramente obsessiva passa a orientar seu comportamento cotidiano. Sua vida toma  os rumos absolutamente inesperados:  ele se casa com Micaela, amiga da filha de Lazar, e tem uma filha que recebe o nome de Shiva. No nome da  menina está uma síntese possível do  romance: o choque entre os conceitos  de destruição e reconstrução do misticismo indiano e o conceito de retorno e renovação da filosofia judaica.
Yehoshua comentou numa entrevista: "Desde Julien Sorel e  Gema  Bovary,  não é a morte o destino dos  personagens de romance? Não consegui matar Benjy, pois, para mim,  o renascimento espiritual, as proezas  sempre renovadas da vida continuam  mais fortes do que o fascínio mórbido pelo nada". O autor permite que  a vida de Benjy adquira um significado antes inimaginável, e é esta surpresa que aguarda o leitor nas  páginas  finais.
 
A. B. Yehoshua, escritor consagrado  internacionalmente, nasceu em Jerusalém, em 1936.  É professor de literatura na Universidade de Naifa.

A Guideon, que retornou da Índia
 

O  direito que é devido é o de cumprir a missão e não o de reclamar  o resultado da ação. Não considere a si mesmo o objetivo dos seus atos nem se prenda à inação.
 
Bhagavad Gita, capítulo 2, versículo 47
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

PRIMEIRA PARTE
  
  
  
 
Paixão
 

1.
   
 
Agora o corte estava pronto para a sutura. O anestesista, tomado de impaciência, afastou a máscara do rosto e, como se o grande respirador, piscando  com seus números em constante mudança, não lhe bastasse mais, levantou-se  do lugar, segurou com delicadeza a mão inerte para sentir o pulso vivo, sorriu  afetuosamente para a mulher nua que dormia anestesiada, e piscou para mim.  Mas não prestei atenção a sua piscadela, pois não conseguia tirar os olhos do  professor Hishin, tentando saber se ele mesmo terminaria a sutura ou se encarregaria um de nós dois. Senti um tremor no coração, supondo que mais uma  vez eu seria passado para trás e que dariam a meu rival, o segundo residente, a  incumbência de concluir a tarefa. Acompanhei ansioso os movimentos da mão  da enfermeira instrumentista, que acabara de voltar e limpava as últimas gotas  de sangue do corte longo e reto na barriga da mulher. Aqui é muito fácil fazer  um bom trabalho—pensei com amargura—e encerrar a operação com uma  sutura elegante. Mas Hishin não parecia inclinado a transferir essa tarefa para  ninguém. Embora não tivesse saído do lugar durante três horas seguidas, meticulosamente, com a mesma concentração suprema que mostrara no início da  cirurgia, procurava no meio do monte de agulhas aquela que mais lhe agradasse.
Enfim encontrou a agulha adequada e devolveu-a com nervosismo à enfermeira,  para que a esterilizasse de novo. Será que ele tinha algum outro compromisso com aquela mulher, que o obrigava a suturar o corte com as próprias  mãos? Ou será que houvera algum pagamento por baixo do pano? Afastei-me  um pouco da mesa de operação, devagar, consolando-me com o fato de que,  dessa vez, pelo menos eu fora poupado da humilhação, se bem que o segundo  residente, que pelo visto também percebera a intenção do professor de fazer a  sutura pessoalmente, mantivesse uma postura firme e atenta ao lado da barriga  aberta.
Nesse momento houve um alvoroço do outro lado da grande porta, e surgiram numa das claraboias uma cabeleira grisalha cacheada e uma mão acenando. O anestesista reconheceu a pessoa e apressou-se em abrir a porta. Mas  o homem que invadira a ala cirúrgica sem avental e sem máscara agora hesitava em entrar na sala de operações; apenas gritou com voz forte e determinada:  "Você ainda não terminou?". O cirurgião desviou o olhar por um instante, fez  um gesto amistoso e disse: "Já estou indo". Voltou a concentrar-se no trabalho,  mas minutos depois o interrompeu, começou a procurar algo em torno, seus  olhos encontraram os meus, parecendo querer dizer-me alguma coisa; mas a  enfermeira instrumentista, que sabia ler muito bem a mente do chefe, sentiu a  sua hesitação e disse de modo delicado, porém firme: "Não há problema, professor Hishin, o doutor Vardi pode terminar a tarefa". O cirurgião assentiu com  a cabeça, passou a agulha para o residente em pé ao seu lado, deu as últimas instruções às enfermeiras, tirou a máscara com um gesto vigoroso, estendeu as  mãos para a enfermeira jovem, que removeu as suas luvas, e antes de deixar a  sala disse: "Se houver problemas, estarei na administração com o Lazar".
Virei-me para a mesa de cirurgia, engolindo a raiva e a inveja para que não  se revelassem em nenhum gesto ou olhar. "É isso", refleti desanimado; "se até  as mulheres estão do lado dele, não há mais dúvida sobre qual de nós dois será  o escolhido para ficar no departamento daqui a um mês, quando terminar o  período de experiência, e quem terá de vagar pelos outros hospitais à procura  de emprego." Era um claro sinal do meu fim no departamento cirúrgico. Mas  assumi calmamente a posição ao lado do meu colega, que já havia trocado a  agulha que Hishin lhe dera por outra; eu estava pronto a partilhar com ele a responsabilidade pela etapa final da operação, observando o corte fechar-se pela  ação de seus dedos fortes e ágeis. Se a incisão estivesse por minha conta, teria procurado suturar com mais capricho, para não alterar em um milímetro  sequer o contorno original da barriga daquela mulher muito pálida, que de  repente despertou em mim profunda compaixão. E o anestesista, o dr. Nakash,  já se preparava para a "aterrissagem", quer dizer, para remover os tubos do respirador e retirar a agulha de infusão da veia, cantarolando baixinho, alegre, e  voltando constantemente o olhar para as mãos do cirurgião, à espera de consentimento para devolver à paciente sua respiração natural. Ainda absorto no  insulto, senti o toque de uma mão delicada. Uma jovem enfermeira, que havia  entrado em silêncio na sala, disse-me num sussurro que o chefe do departamento estava à minha espera no escritório do diretor administrativo, o sr. Lazar.  "Agora?", hesitei. E o segundo residente, que ouvira o sussurro, me apressou:  "Vai, vai, tudo bem, eu posso terminar sozinho".
Sem tirar a máscara, saio correndo da reluzente escuridão da sala de cirurgia, passo pelas risadas dos médicos e enfermeiras na sala de chá, solto o trinco  de segurança da grande porta que isola a área, acabo irrompendo na sala de  espera banhada pela luz da tarde, e só então paro para tirar a máscara. Um  senhor jovem e uma senhora mais idosa logo me reconhecem e me abordam:  "Como ela está? Como ela está?".
"Tudo em ordem", sorrio, "a operação acabou, daqui a pouco vão trazê-la."  "Mas como ela está? Como ela está?", insistem.  "Ela está bem", digo, "não se preocupem, ela nasceu de novo", e eu próprio me admiro com o tom da frase, já que não havia risco nenhum na cirurgia.  Afasto-me deles, continuando meu caminho, ainda com o avental verde-claro  manchado de sangue, a máscara pendurada no pescoço, gorro na cabeça, arrastando ruidosamente as galochas plásticas esterilizadas, percebo os olhares que  me seguem aqui e ali, subo de elevador até o grande saguão e dirijo-me para a  ala administrativa, entro numa das salas para as quais nunca fora convidado, e  por fim digo meu nome a uma das secretárias que se levantara para me atender.  Ela já me pergunta amigavelmente como prefiro o café e me acompanha ao  longo de uma suntuosa sala de reuniões vazia, até uma sala ampla, cercada de  cortinas e mobiliada com sobriedade—um sofá e poltronas, plantas bem cuidadas em grandes vasos.
O chefe do departamento, professor Hishin, examinava alguma coisa, esparramado à vontade numa das poltronas,  como se suas roupas cirúrgicas não existissem. Quando entrei, sorriu afável, virando-se para o diretor administrativo, que estava a seu lado: "Aí está, esse é o homem ideal para  você".
O sr. Lazar apertou-me a mão com firmeza e calor, apresentando-se,  enquanto Hishin me apoiava com o olhar, ignorando a mágoa que me causara  havia pouco e sinalizando discretamente que eu tirasse o gorro e as galochas  plásticas. "A cirurgia acabou", disse ele com seu leve sotaque húngaro, e os  olhos piscaram com a sua incansável ironia, "e até mesmo você já pode descansar." Enquanto eu tirava as galochas e enfiava o gorro no bolso, aproveitando  para pegar um café, Hishin começou a contar para Lazar a história da minha  vida, que, não sei como, ele conhecia com precisão de detalhes. O sr. Lazar continuou de pé a minha frente, examinando-me com olhos ansiosos, como se seu  destino dependesse de mim. Hishin concluiu dizendo: "Mesmo que você o  esteja vendo com roupas de cirurgião, não se engane: antes de tudo, ele é excelente em medicina interna, é esse o seu forte, e ele insiste em permanecer no  nosso departamento apenas porque acredita—e nisso está decididamente errado—que o auge da medicina é a faca do açougueiro". Ao dizer isso, brandiu no  ar uma faca imaginária, num gesto de cortar a própria cabeça, imitando o instrumento que manejava com raro  virtuosismo. A seguir riu amigavelmente,  como se quisesse suavizar o golpe final sobre meu futuro no departamento,  estendeu a mão, apoiou-a no meu joelho e perguntou com delicadeza e inusitada intimidade: "Você já esteve na Índia?".
"Na índia?", perguntei atônito. "Índia? Por que justo na índia?" Hishin deu  risada, desfrutando sua pequena surpresa.
"Sim, justamente na Índia, porque o Lazar está procurando um médico  que o acompanhe numa curta viagem à índia."
"Para a Índia?", exclamei de novo, ainda com dificuldade para entender.  "Sim, para a Índia, é isso. Por que você está tão assustado? É na Índia que  está uma jovem enferma que precisa ser acompanhada de volta para cá."
"Doente de quê?", perguntei.  "Nada terrível", tranquilizou Hishin, "mas mesmo assim é preciso um  pouco de cuidado. Hepatite aguda, pelo jeito B, que fugiu um pouco ao controle e provocou complicações. Mesmo que a situação pareça estável, todos nós  aqui achamos que é melhor trazer a jovem de volta o mais depressa possível.
Sem querer ofender qualquer médico indiano, ainda é aqui que podemos dar o  melhor atendimento."
"Mas quem é ela? Quem é essa mulher?", voltei a perguntar, com uma  insistência que me surpreendeu.
"É a minha filha", o diretor administrativo enfim saiu do silêncio. "Há seis  meses ela partiu em viagem pelo Extremo Oriente, e um mês atrás pegou essa  hepatite.
Teve de ser hospitalizada numa cidade chamada Gaia, na Índia  Oriental,  entre Nova Delhi e Calcutá. No começo não quis nos preocupar e  procurou esconder a doença, mas uma amiga que estava com ela voltou há dois  dias e trouxe uma carta com alguns detalhes. Mesmo que o Hishin e outros  colegas assegurem que não há perigo algum, todos estão convencidos de que é  melhor trazê-la depressa para casa, antes que a situação piore. Achamos que  seria boa ideia levar um médico conosco, caso seja necessário. Pode até ser um  passeio bem agradável. A viagem toda, ida e volta, já verifiquei na minha agência, deve durar uns doze dias, no máximo duas semanas, e isso só porque ela está  em Gaia, um lugar meio isolado, a que é difícil chegar de trem ou avião. Para  falar a verdade, no começo tentei convencer seu mestre, que nunca esteve na  Índia e poderia descansar um pouco. Mas você o conhece tão bem quanto eu:  ele está sempre ocupado demais e, se tiver algum tempo livre, vai preferir ir para  a Europa, e não para a Ásia. Mas ele prometeu que encontraria o substituto  ideal."
"Ideal para quê?", perguntei a mim mesmo, deprimido. "Para acompanhar uma moça com hepatite nos trens indianos caindo aos pedaços?" Mas  fiquei quieto e virei a cabeça para a secretária que acabava de entrar referindo-se a alguém que já estava esperando havia um bom tempo para conversar com  o diretor. "Não saiam daí", ordenou Lazar, "vou despachá-lo num minuto", e  desapareceu, deixando-nos frente a frente. Eu sabia que Hishin já tinha notado  minha decepção e o ressentimento provocados por sua estranha proposta, porque de súbito se levantou, olhou-me de cima a baixo e disse todo gentil: "Escute,  percebi que você não está entusiasmado com a ideia de viajar para a Índia assim  de repente, mas no seu lugar eu aceitaria a oferta. Não só porque é um passeio  interessante, e de graça, para um lugar a que sabe-se lá quando você poderia ir  na vida; apesar de vocês, jovens, acreditarem que no final poderão chegar a  qualquer lugar do mundo, eu lhe digo com a experiência de um viajante vivido:  no final nós não chegamos, apenas voltamos aos mesmos lugares e nos agarramos a eles. Mas isso não importa, o que importa é ele, Akiva Lazar, com quem  você poderá estabelecer um vínculo forte durante a viagem, pois é um homem  que lhe será útil se você quiser continuar trabalhando aqui no hospital, na medicina interna, por exemplo, ou em outro departamento. É hora de você saber  que este hospital é dirigido desta sala. Quem tem as rédeas nas mãos não são os  médicos, são os administradores.
Além do mais, ele é uma ótima pessoa. Então  ouça o que eu digo, não recuse. Vale a pena você viajar. O que tem a perder? Na  pior das hipóteses, será uma boa aventura. E, de qualquer maneira, não há  muito a fazer com essa hepatite. Não creio que a jovem tenha causado algum  dano real ao fígado ou aos rins; e, mesmo que isso tenha acontecido, não é o fim  do mundo, no final a natureza cura a si mesma. Você apenas terá de cuidar para  que não ocorram hemorragias súbitas, que o nível de açúcar no sangue não caia  e, é claro, evitar que a febre suba. Vou separar para você alguns artigos sobre o  assunto, e amanhã vamos nos reunir com o professor Levin, da medicina interna; ele é louco por hepatite e sabe sobre isso até o que não se precisa saber.  Vamos também providenciar um pacote bonitinho de remédios e equipamento, de modo que você esteja preparado para qualquer eventualidade. E mais: se  você quiser, na volta poderá separar-se deles e tirar alguns dias de férias na  Europa. Não acreditei quando vi seu prontuário: neste ano inteiro que passou  conosco, você só tirou um dia de folga até agora?".
"Então é isso, ele não vê a hora de se livrar de mim", pensei atordoado.  "Não consegue esperar nem mais um mês, até acabar meu ano de experiência.  Não é possível!" Nisso voltou Lazar, um homem de altura mediana, gestos enérgicos e vigorosos. "E então?", perguntou com um largo sorriso de executivo.  "Estamos de acordo?" Hish in imediatamente o conteve. "Um momento,  Lazar, o que é isso? O homem tem o direito de pensar um pouco."
"É claro, é claro", Lazar respondeu e olhou para o relógio. "Mas até quando? São necessários muitos preparativos técnicos para essa viagem, e eu planejava partir depois de amanhã para pegar o voo de terça-feira em Roma."  Sentindo a ameaça de recusa no meu silêncio prolongado, ele parou de pressionar e sugeriu que eu fosse à noite até sua casa conversar sobre os detalhes e  decidir com calma. Não pude me opor a essa sugestão e também senti que os  dois cavalheiros assertivos não permitiriam que eu começasse a recusar naquele momento. Logo me deram uma folha de papel com seu endereço particular,  acompanhada de explicações sobre como chegar. Quando eu estava prestes a  deixar o recinto, Lazar me chamou: "Um momento, esqueci de perguntar: você  é casado?". Quando fiz que não com a cabeça, seu humor melhorou na hora, e  ele se virou para Hishin com as sobrancelhas erguidas: "Se é assim, o que há  para pensar?", e ambos caíram na gargalhada.
A tarde acabou ficando muito chuvosa, e na correria entre os leitos na unidade de terapia intensiva, enquanto eu lutava para estancar uma hemorragia na  jovem mulher que fora operada pela manhã, decidi recusar. Se era apenas por  causa de uma esquisita viagem para a Índia que eu me tornara ideal aos olhos  do chefe do departamento, por que abrir mão do último mês a que tinha direito? Todo dia eu aprendia coisas novas e fascinantes, e na sala de cirurgia cada  minuto me excitava, mesmo que estivesse apenas assistindo. O que tinha a me  oferecer e acrescentar uma súbita viagem à Índia em pleno inverno? Mas com  o cair da tarde, voltando molhado e cansado para meu apartamento, decidido  a telefonar para o sr. Lazar e comunicar-lhe minha recusa, cancelando a reunião combinada, pensei melhor: afinal, por que ofender daquela forma um  homem que talvez um dia fosse útil para mim? Pelo menos eu poderia ouvir  educadamente os detalhes, antes de tomar a decisão final. Apressei-me para  tomar um banho e trocar de roupa, e telefonei para meus pais em Jerusalém.  Sabia como era importante para eles qualquer passo em minha carreira, de  modo que tomei cuidado para não preocupá-los ainda e não dar nenhum indício de que meus dias no departamento cirúrgico estavam contados, e que em  breve eu teria de vagar de um hospital a outro à procura de trabalho. Às oito  horas, dirigi-me para a zona norte da cidade, rumo a um bloco de apartamentos localizado numa avenida larga e arborizada, com carvalhos balançando ruidosamente sob o vento e a chuva. Cobri a motocicleta com a capa de lona especial; quando percebi que a chuva apertava, mudei de ideia e resolvi estacionar  entre os pilares do prédio. Ali, no último andar, numa cobertura grande e agradável, esperava-me inquieto o sr. Lazar, vestindo uma larga camisa de flanela  vermelha, que o deixava mais velho e mais corpulento. "Como é que fui esquecer de lhe pedir para trazer o passaporte?", saudou-me ele, ansioso. "Ele está em  dia? Quando foi a última vez que você viajou para fora?" Dois anos antes, ao terminar os estudos de medicina, eu tinha feito um rápido passeio pela Europa; é óbvio que não lembrava se o passaporte estava na validade. Com um sorriso sem  graça, tentei conter seu entusiasmo e deixar claro que, apesar de ter comparecido ao encontro, ainda estava muito indeciso e viera apenas escutá-lo de novo  para pensar melhor. "O que há para pensar?", gritou Lazar, atônito e com uma  raiva infantil. "Mas, se você insiste, venha ver para onde eu quero levá-lo; e não  se assuste: mesmo que no mapa pareça o fim do mundo, é possível ir e voltar em  duas semanas, e até ver algumas coisas bonitas no caminho, pois eu também  não quero fazer da viagem uma longa via-crúcis." Puxou-me para uma sala de  visitas ampla e bonita. Um jovem de cerca de dezessete anos, vestindo uma  camisa azul de uniforme escolar, muito parecido com o pai, a não ser pelos  cabelos longos e lisos, imediatamente se levantou e saiu da sala. Sobre uma  mesinha de vidro estava aberto um grande atlas, com álbuns de fotografias e  guias de viagens espalhados em volta. Lazar desculpou-se:
"Não foi só você, nós  também fomos pegos de surpresa. Ontem, de repente, uma moça bateu à porta  trazendo a carta. Mas antes venha ver onde nós estamos. Aqui é Nova Delhi,  aqui Bombaim, aqui Calcutá—uma espécie de triângulo—e aqui, mais afastada, está Gaia. É uma cidade sagrada, cercada de templos. Amanhã vou a  Jerusalém encontrar uma pessoa que anos atrás passou alguns meses lá, e acho  que vou ter uma ideia melhor do lugar e do que nos aguarda. Mas espere um  pouco, antes quero que você conheça minha mulher".
Nesse instante a mulher dele entrou na sala, uma morena rechonchuda de  altura mediana, cerca de quarenta e cinco anos, cabelos presos num coque displicente no alto da cabeça, olhos vivos abertos num sorriso largo atrás dos óculos. Levantei-me, e o marido nos apresentou. Com um meneio amigável, ela  sentou-se diante de mim com um movimento majestoso, cruzando as longas  pernas, que não combinavam com os braços e os ombros gorduchos, e ficou  prestando atenção ao marido, que desenhava trajetos no mapa e fazia cálculos  de tempo. Enquanto eu tentava acompanhá-lo e compreender os planos da viagem, senti que os olhos dela me avaliavam; quando ergui o olhar para ela, seus  olhos se iluminaram outra vez naquele sorriso quente, vivido e generoso, e ela  fez um ligeiro movimento de aprovação com a cabeça. Como se sentisse a dúvida que me dominava, interrompeu o marido e dirigiu-se a mim em voz alta e clara: "Você acha mesmo que pode se ausentar do hospital e viajar mais de duas  semanas?". O marido, desconcertado com a pergunta, respondeu por mim,  nervosamente: "Em primeiro lugar, por que você está dizendo mais de duas  semanas? De onde tirou essa ideia? Será menos que isso. Afinal, eu também  preciso estar de volta no domingo, daqui a duas semanas. Em segundo lugar,  por que ele não poderia se ausentar? Ele pode se ausentar quanto quiser. Hishin  liberou-o totalmente, e ele pode fazer essa viagem por conta das férias, ou, se  quiser, como dias de trabalho comuns, e nós daremos um jeito de compensálo". Mas a mulher interrompeu-o em tom de protesto. "Por que por conta das  férias? Por que sacrificar as férias por nossa causa?" E mais uma vez olhou para  mim e disse em voz alta e clara, que não combinava com seu olhar suave: "Você  faça o favor de calcular qual deve ser a sua remuneração por uma viagem como  essa, e é evidente que pagaremos o que você pedir".
De repente me senti sufocado naquele grande e elegante apartamento. Os  dois adultos sentados à minha frente pareciam ter força e influência. "Não se  trata de uma questão de dinheiro", corei um pouco, "e também é verdade que  tenho direito a muitos dias de folga, mas se eu viajar agora, mesmo que seja só  por duas semanas, será como se já tivesse terminado meu ano de experiência no  departamento cirúrgico, e para mim cada dia é precioso."
"No departamento cirúrgico?", perguntou a mulher.  "Sim", respondi, "comecei na cirurgia e é lá que quero continuar."  "Na cirurgia?", disse a mulher, olhando surpresa para o marido. "Pensamos que você estivesse se transferindo para a medicina interna, ou para outro  departamento, poiso Hishin nos disse que você não iria continuar na cirurgia."  Senti um arrepio de profunda dor ao ouvir o veredito final pronunciado de  forma tão explícita por aquela estranha mulher, que falava do meu futuro com  tamanha naturalidade. E, percebi de imediato, não era questão de vaga ou  emprego, e sim um claro julgamento profissional desfavorável a mim. Foi como  se o vulto sombrio de Hishin tomasse forma atrás daquela mulher que não parava de me examinar com seus olhos sorridentes.
"Quem disse que eu quero medicina interna?", explodi num acesso de riso  amargo. "Mesmo que Hishin tenha suas restrições, não vou desistir da cirurgia.  Há outros hospitais, não só em Israel, mas também no exterior—na Inglaterra,  por exemplo—,e lá também se pode conseguir uma experiência excelente."
"Inglaterra?", repetiu a sra. Lazar, e o sorriso caloroso desapareceu.  "Sim, meus pais vieram da Inglaterra para Israel, e por isso tenho cidadania inglesa, o que me permite fazer residência lá sem qualquer problema."
O rosto do sr. Lazar, a quem a discussão entre mim e sua mulher não estava interessando, iluminou-se. "Então acertei, li no seu prontuário que seus pais  nasceram
na Inglaterra e disse a mim mesmo: 'Talvez ele também tenha cidadania britânica, e isso pode ajudá-lo na viagem à Índia'. Você com certeza fala  perfeitamente inglês."
"Perfeitamente? Eu não diria", respondi com frieza, de novo tentando  conter o entusiasmo do homem, voltado apenas para sua viagem. "Nasci e estudei em Israel, e meu inglês é como o de todo mundo, quer dizer, bastante fraco.  Em geral falo só hebraico com os meus pais; mas é claro que às vezes ouço suas  conversas em inglês, por isso tenho mais facilidade com a língua; não domino,  mas tenho facilidade", expliquei.
Para Lazar a facilidade parecia suficiente, e ele sorriu para mim com indisfarçável boa vontade; pelo jeito, nada mais poderia prejudicar minhas habilidades como candidato a sua viagem, então se virou para a mulher com determinação: "Um momento! O que é isso? Ofereça uma bebida ao convidado. De  tanto falar, acabamos nos esquecendo de nós mesmos!". Mas ela agora parecia  grudada no canto do sofá, e apenas sorriu para o marido: "É melhor você preparar um café turco bem forte, todos estamos exaustos".
Lazar ergueu-se num salto: "Você não tem nada contra café turco, não é?".  A mulher virou-se para mim, como para afirmar que, mesmo se eu tivesse algo  contra, ela não se levantaria dali. Acendeu um cigarro e, quando o marido desapareceu na cozinha, lançou com os olhos o mesmo sorriso perspicaz,  curvou-se um pouco na minha  direção e falou abertamente, com a voz macia e clara:  "Eu sinto que você ainda está hesitando. É natural. Porque, na verdade, a troco  do que alguém largaria tudo de repente para fazer uma viagem à Índia? E se  você sente que nós estamos querendo pressioná-lo, e está aborrecido com isso,  tem toda razão. Mas entenda que nós também estamos numa situação difícil,  temos de trazer a nossa filha depressa para casa; é uma doença—e você sabe  disso melhor do que eu—que deixa a pessoa muito fraca e débil. Segundo a  moça que trouxe a carta, a situação já era grave. Não só Hishin, mas também  outros médicos consultados aconselham que ela tenha acompanhamento de um médico qualificado. Antes de você entrar aqui, Hishin telefonou e recomendou que não o deixássemos fugir, pois para ele você é o candidato ideal".
"De novo ideal..."—eu a interrompi com uma risada nervosa que escapou  de forma estranha. "Hishin está exagerando. Ideal em que sentido? Por que  ideal? Talvez seja, como diz o seu marido, por causa do meu passaporte inglês."
Ela riu admirada. "O que é isso? É claro que um passaporte desses não vai  atrapalhar numa viagem à Índia, mas à intenção de Hishin não foi essa. Ele realmente gosta muito de você. Falou da sua calma, do seu jeito cordial, do seu olho  clínico apurado e, o principal, da sua profunda consideração pelos pacientes."  Suas palavras eram calorosas, envolventes, claras e eloquentes, mas também  um pouco enfeitadas, tendendo ao exagero. Não era possível saber se Hishin de  fato fizera todos aqueles elogios, ou se ela estava inventando virtudes para me  seduzir. Baixei os olhos, sem encontrar um meio de interrompê-la. No final,  cansado, soltei as mãos e perguntei:
"Afinal, quantos anos tem essa menina, a filha de vocês?"  "Menina?", a mãe riu. "Não é nenhuma menina. Tem vinte e cinco anos.  Chegou a estudar dois anos na universidade.
Veja, se você quer ter uma ideia,  olhe esta foto que ela mandou há dois meses, antes de ficar doente." Levantou  o atlas, afastou os guias de viagem e enfim encontrou um envelope de papel  verde e grosso de onde tirou duas fotografias de uma mulher jovem, de rosto  bonito e delicado. Numa das fotos, estava sozinha, e no fundo se via um grande  rio onde pessoas se banhavam nuas; na outra foto, estava na entrada de um edifício que parecia um templo indiano, abraçada por um rapaz e uma moça, um  de cada lado.
Quando cheguei em casa decidi, apesar de já ser tarde, telefonar para meus  pais e saber a opinião deles. Para minha surpresa, tanto minha mãe, que ainda  estava acordada, como meu pai, que acordou com o telefonema, acharam que  eu não deveria de forma alguma rejeitar uma proposta daquelas, feita pelo diretor do hospital.
"Ele é só o diretor administrativo", expliquei, mas o meu pai foi  categórico: "Especialmente por isso", e por causa do sono começou a falar em  inglês: "essas são as pessoas que detêm o verdadeiro poder, pois ocupam cargos  fixos, enquanto as outras ficam trocando de lugar à volta delas. Até o seu professor Hishin pode sumir algum dia por um motivo qualquer, e um bom apoio  do diretor administrativo não há de lhe fazer mal no futuro".
"Não é assim que as coisas funcionam, pai", reclamei desanimado, "simplesmente não é assim."
Porém meus pais estavam firmes em seu entusiasmo. "Não tenha tanta  pressa em recusar; o hospital não vai fugir, e você trabalhou tanto este ano que  merece umas férias."
"Na Índia?", ironizei. "Que tipo de férias posso ter na Índia?"  Então minha mãe começou a falar bem da Índia. Um tio dela havia servido na Índia entre as duas guerras mundiais e ficara apaixonado pelo país, não  parava de descrever seus encantos.
"Era uma Índia totalmente diferente", procurei conter seu ardor.  Mas minha mãe teimou: "Nada no mundo fica totalmente diferente, e se  a Índia um dia teve encanto e beleza, alguma coisa resta, e uma viagenzinha  curta com certeza bastará".
Fiquei surpreso com a reação de meus pais. Eu tinha presumido que seu  zelo constante os levaria a tentar demover-me da ideia, e eis que eles também  me pressionavam para ir. "Não vejo como posso ter férias numa viagem como  essa", resmunguei ao telefone, "e além disso não preciso de férias agora. O trabalho no departamento é tão envolvente, que cada dia pode fazer falta. Em todo  caso, ainda vou pensar esta noite. Prometi dar a resposta definitiva amanhã  cedo", eu disse, tentando encerrar a conversa.
Mas meus pais não cederam. "E mesmo que", argumentou meu pai, "digamos que a viagem à índia em si não o esteja atraindo agora, há pessoas pedindo  sua ajuda, e é uma oportunidade de fazer uma boa ação."
"Boa ação?", eu ri. "Não se trata de boa ação, pai, eles querem me pagar  um salário integral pela viagem. Que boa ação que nada—e, afinal, por que  justo eu? Eles têm o hospital inteiro à disposição, e será fácil encontrar outro  médico tão bom quanto eu que queira fazer a viagem."
Mas eu não tinha tanta certeza disso. Quando me despedira dos Lazar na  porta do apartamento, prometendo dar uma resposta definitiva na manhã  seguinte, eles insistiram em dizer que, se eu recusasse, já seria tarde demais para  encontrar e convencer outro médico; e levar alguém desconhecido não entrava em cogitação. Tomei o cuidado de não contar isso para meus pais, pois tivera a sensação de que estavam ressentidos com minha teimosia, quase zangados,  e não quis lhes dar mais motivos. Andavam preocupados com a minha devoção incansável ao trabalho no hospital, receando que eu ficasse totalmente escravizado a ele.
"Esta é uma oportunidade de você sair para um mundo diferente e descansar um pouco", minha mãe insistiu.
"Mundo diferente? Talvez", respondi pesadamente, pondo o telefone no  colo e desabando exausto na cama. "Mas será que vou conseguir descansar?"  Meus pais ficaram calados, como se eu enfim tivesse conseguido transportar  pela distância que nos separava todo o meu cansaço.
"Mas quando vai ser essa viagem?", perguntou minha mãe com delicadeza.  "Imediatamente", fechei os olhos debaixo do cobertor. "O sujeito quer  pegar o avião para Roma depois de amanhã."
"Depois de amanhã?", repetiu atônita minha mãe, que não tinha percebido a urgência da viagem.
"O que foi que vocês pensaram? É coisa séria. Ali está uma moça muito  doente. Quem sabe o que aconteceu com ela de verdade? Vou lhes explicar,  não é bem uma viagem de recreio."
Senti que pelo menos eles tinham diminuído um pouco a pressão. "Se é  assim, de fato é preciso pensar. Talvez você esteja certo. Vamos todos dormir  com isso na cabeça e amanhã voltamos a conversar."
Começava a lamentar ter-lhes telefonado: seu breve sono noturno seria  ainda mais curto por causa de sua interminável disposição de conversar sobre  mim e sobre meus planos. Não só porque eu era o querido filho único, mas também porque se preocupavam com a minúscula semente de solidão que se instalara na minha vida de solteiro, apesar de eu ter apenas vinte e nove anos. No  último ano eu notara, condoído, como tentaram disfarçadamente me atrair  para a vida fora das paredes do hospital, quem sabe um pouco por se sentirem  culpados de terem me forçado tanto a me dedicar aos estudos nos tempos de  colégio e universidade. Na manhã seguinte, não se contiveram e me telefonaram. Meu pai começou dizendo: "À noite ficamos pensando na sua viagem à  Índia, e talvez tenhamos mesmo nos precipitado. Vai ser uma viagem cansativa e totalmente dispensável". Para assombro deles, contei que meia hora antes  eu havia concordado em ir. Precisava que encontrassem o meu passaporte britânico e me preparassem uma boa mala de viagem.
Em vez de mostrar alegria e satisfação com minha decisão positiva, suas  vozes soavam tensas e preocupadas, como se na conversa da véspera não estivessem se referindo a uma viagem real, e sim a uma viagem emocional ou espiritual. Teriam sido eles os responsáveis por minha mudança de opinião?—minha mãe quis saber. Eu os tranquilizei: não, não tinham sido eles. Refletira  de novo sobre o assunto e, na verdade, por que não viajar? Então dei a informação desagradável: Hishin tinha preferido o segundo residente. Quem sabe as  mãos dele fossem mesmo melhores. Fez-se silêncio do outro lado da linha. "O  Hishin prefere o segundo residente a você?", murmurou incrédulo meu pai.  "Como é possível, Benjy?" Meu coração ficou apertado com a decepção que  lhe causei.
"Pois é, é possível sim, muito possível", respondi com naturalidade forçada. "Não faz mal, e talvez seja bom viajar agora para um lugar distante e lá poder  pensar que caminho seguir." De fato, eu estava com o espírito leve, como se algo  tivesse se libertado no meu interior. Desde o momento em que comunicara, às  seis e meia da manhã, conforme o combinado, minha disposição de viajar, parecia que a excitação da viagem à Índia tomara o lugar da inveja e da raiva dentro  de mim. A mulher de Lazar atendera o telefone, e na hora não reconheci sua  voz, que estava mais jovem e renovada do que na noite anterior; a resposta positiva não pareceu surpreendê-la, foi como se já na véspera ela soubesse que no  final eu concordaria. Mesmo assim, agradeceu-me diversas vezes e insistiu em  perguntar se eu tinha certeza da decisão. O marido perdeu a paciência e arrancou o telefone de sua mão, pondo-se a dar instruções com incrível eficácia. Ele  próprio iria ao Ministério do Exterior em Jerusalém encontrar-se com um especialista em Índia e pegar cartas de apresentação e recomendações, e sua mulher  me acompanharia nos preparativos necessários.
"E o hospital?", perguntei. "Apesar de tudo, estão me esperando na cirurgia, há operações programadas para hoje."
Lazar foi categórico. Não havia por que me preocupar com o hospital, ele  se encarregaria disso, e Hishin havia consentido explicitamente em abrir mão  do meu trabalho.
"Não", insistiu, para me tranquilizar, "de agora em diante,  por favor, pare de pensar no hospital e concentre-se única e exclusivamente na  viagem, o tempo é curto. À tarde daremos um jeito de nos reunir com os médicos e com o farmacêutico-chefe para tratar da parte médica da viagem. Tudo isso é fácil, o principal é (quase ia me esquecendo): seu passaporte israelense  está em dia?"
Meu passaporte estava vencido, eu verificara ainda na noite anterior. Por  isso fui de manhã ao centro da cidade entregá-lo à mulher de Lazar, que era  advogada, sócia de um grande escritório. Quase não a reconheci quando saiu  da sala vestida de preto, muito maquiada, graciosa nos saltos altos, com seu  inconfundível sorriso largo. Agradeceu-me mais uma vez, com uma cordialidade que pareceu artificial e exagerada. Entreguei-lhe o passaporte, e ela o passou  para uma das moças sentadas na movimentada secretaria. Então pegou o talão  de cheques e assinou alguns em branco; deu-os para a moça e me disse: "Esta é  a Hanna. Esta manhã ela estará à sua disposição, para deixá-lo pronto para a viagem". Na agência, num dia de inverno claro e límpido, cercado de cartazes de  lugares maravilhosos, começou a fervilhar em mim a excitação da viagem  repentina. Dois funcionários da agência mobilizaram-se para agilizar os preparativos. Antes de tudo nos informaram que, para obter o visto de entrada, quem  vai à Índia é obrigado a apresentar certificado de vacina contra cólera e malária, e recomendaram que não esquecêssemos de avisar Lazar e sua mulher. "A  mulher dele?", admirei-me. "Por que ela?" No registro da agência de viagens  constava com todas as letras que na tarde anterior a sra. Lazar havia pedido uma  passagem aberta. "Pelo jeito ela não tinha certeza de que eu iria aceitar", procurei esclarecer, "e por isso fez uma reserva."
"Pode ser", responderam polidamente, "mas em todo caso não se esqueçam de avisá-la das vacinas", advertiram os dois funcionários, como se dali em  diante eu também fosse responsável pela viagem. Então senti a primeira sombra turvar a felicidade da viagem, que já estava me deixando entusiasmado. Eu  imaginara uma viagem intensa, masculina, até mesmo com algumas aventuras  de dois homens sozinhos; apesar da diferença de vinte anos entre nós, podia nascer uma amizade sutil, como ocorre nas pequenas unidades de reservistas do  exército nos meses de serviço. "Mas como vai ser se a mulher dele for junto?",  refleti, preocupado. Será que não ia virar uma viagem pesada e cansativa, com  um casal de pais aflitos?
"Será que ainda é possível voltar atrás?", pensei comigo no final da manhã,  sentado diante do guichê de câmbio, no banco, esperando minha cota de dólares e meu passaporte, agora revalidado, das mãos magras e fortes de Hanna, que  a manhã inteira havia me acompanhado com eficiência de uma repartição a  outra, resolvendo os assuntos por mim como se eu sofresse de alguma deficiência mental. A troco do que a mulher dele ia junto? Seria mesmo por preocupação com a saúde da filha, ou estaria havendo na Índia também alguma fraqueza emocional, que até agora estavam me escondendo e que exigia um reforço  na comitiva? Eu ainda tinha esperança de que ela desistisse no último minuto.  Não me agradavam seu jeito macio de falar e seus sorrisos automáticos. Uma  mulher chata e mimada como ela só podia atrapalhar a rapidez e a agilidade da  viagem, pensei ao me despedir da funcionária; ela me devolveu o passaporte, e  eu recusei, já com certa irritação, sua proposta de continuar me acompanhando e ir comigo à Secretaria de Saúde para eu tomar as vacinas exigidas, talvez  pagando por elas.
Subi na moto e fui até a Secretaria de Saúde, porém encontrei a porta da  sala de vacinação fechada, porque as enfermeiras estavam em greve. Enquanto  circulava pelo corredor procurando uma solução, fui reconhecido por um  velho amigo dos tempos de faculdade que abandonara o curso no quarto ano  por causa de confusões com uma garota que acabou se tornando sua mulher.  Agora ele trabalhava lá como secretário  do médico responsável. Saudou-me  com alegria e ficou muito entusiasmado quando ouviu minha história da viagem para a Índia; quando contei que, além das despesas de viagem, ainda receberia um salário, não se conteve, bateu forte nas minhas costas com visível emoção e inveja: "Você é um filho-da-puta!", disse. "Um filho-da-puta esperto, que  sempre teve muita sorte; o que eu não daria para estar no seu lugar." Saiu correndo para pegar a chave, conduziu-me até a sala de vacinação, abriu o grande  armário de vidro, apontou para as fileiras de frascos de diversas cores e disse em  tom de brincadeira: "Aí está o nosso bar à sua disposição, aqui você pode se vacinar contra qualquer doença que queira, as doenças mais estranhas e fantásticas". Enquanto eu examinava os estranhos rótulos dos frascos, pegou uma seringa esterilizada e ofereceu-se para aplicar a vacina—afinal, eu era testemunha de que ele era dois terços médico. "Você não tem medo de mim?", exclamou  com incompreensível alegria, balançando a seringa na mão.
Recuei num repente, e a sala vazia me encheu de uma ansiedade igualmente incompreensível, como se eu sentisse falta da presença confortante da enfermeira grevista.
"Não", eu disse, "você vai me machucar à toa, me dê as seringas  que eu vou achar alguém para me aplicar as vacinas no hospital; basta você me  dar o certificado assinado." Ele cedeu sem muita disposição. Encontrou um certificado de vacinação amarelado, bateu o carimbo e puxou uma longa conversa,  tentando lembrar os nomes dos colegas de faculdade, recordando os tempos de  estudante desperdiçados. Convidou-me para tomar café, e ali, na pequena e cinzenta cafeteria, entre funcionários públicos preguiçosos, ao lado de uma grande  janela por onde se viam os primeiros pingos de chuva, sentei-me e fiquei pensando no dia cansativo que tinha pela frente e quando teria tempo de me despedir  dos meus pais em Jerusalém. Dispersivo,  com uma passividade que não era  minha, escutei-o justificar com desculpas esfarrapadas seus diversos fracassos  nos estudos, queixando-se das injustiças cometidas pelos professores. Finalmente me recompus, interrompi a conversa, levantei-me e disse: "Escute, eu  preciso sair correndo, vamos voltar um instante para o seu bar", e retornamos à  sala de vacinação. Abri sozinho a porta do armário, peguei alguns tipos de vacina, contra cólera, malária e também contra hepatite. Peguei ainda algumas  seringas seladas em invólucros esterilizados e pedi-lhe que carimbasse mais dois certificados, com os nomes em branco. Ele atendeu com generosidade e boa  vontade todos os meus pedidos. Apenas no final não resistiu e disse:
"Estou vendo que a febre da viagem já contaminou você."  De fato, a febre da viagem já tomara conta de mim, uma febre súbita, um  pouco irritante. Quando cheguei ao hospital montado na moto e ensopado de  chuva, senti uma ligeira estranheza em relação ao lugar em que servira com  tanto amor e dedicação ao longo do último ano. Apesar da greve das enfermeiras declarada pela manhã, o hospital parecia funcionar normalmente. Apresseime em chegar ao departamento, onde não encontrei médicos, apenas enfermeiras, que ficaram surpresas com minha presença. "Você?", exclamaram com  ironia. "Hishin anda contando que você já está cruzando os céus a caminho da  Índia" Meti-me no meu avental branco, que tinha o meu nome, "Benjamim  Rubin", bordado no bolso com linha vermelha, e fui procurar Hishin. Porém  ele fora chamado com urgência para sala de cirurgia. Houvera alguma complicação com a jovem senhora operada na véspera, e foi necessário levá-la de volta para a mesa de operações às pressas. Meu primeiro impulso foi ir correndo atrás dele para a cirurgia, mas eu sabia que o segundo interno, meu amigo rival, também estava lá, e mais uma vez antes de partir eu me arriscaria a ser  dolorosamente ignorado ou passado para trás. Por isso desisti da ideia e resolvi  fazer uma breve visita particular aos pacientes, dar uma passada pelos leitos, ler  os boletins médicos e ver quais eram as novidades. No entanto, a enfermeira  veterana do departamento, uma mulher generosa, com cerca de sessenta anos,  sentada no seu canto sem o uniforme, para prestar solidariedade à greve sem  fazer greve de fato, levantou-se e me deteve: "Por quê, doutor Rubin? Amanhã  estará partindo para uma longa e difícil viagem, é melhor ir cuidar dos seus preparativos; aqui estamos nós para nos preocuparmos em seu lugar". Suas palavras pareciam sinceras e faziam sentido, tanto que não insisti. Coloquei minha  mão sobre seu ombro num leve abraço e, sem dizer nada, tirei o avental de  médico. Peguei no bolso os dois frasquinhos de vacina e pedi-lhe que aplicasse.  Ela o fez com tanta delicadeza que nem senti a dor da picada. Não tornei a vestir o avental, joguei-o na cesta de roupa suja e me dirigi para a ala administrativa a fim de encontrar o sr. Lazar. Ali, na secretaria, as moças me reconheceram  mesmo sem o avental e me receberam de forma amigável e respeitosa: "Aí está  o doutor Rubin, o médico voluntário". E chamaram a secretária-chefe, a srta.  Kolby, que contou que Lazar telefonara algumas vezes de Jerusalém perguntando de mim. "Ele ainda está no Ministério do Exterior procurando especialistas em Índia?", indaguei, surpreso. Explicaram que ele estava no Tesouro, tratando de assuntos que não tinham nada a ver com a viagem à Índia, e sim com  a greve das enfermeiras. Contudo, ainda tivera tempo de enviar instruções ao  farmacêutico-chefe do hospital, para que preparasse o equipamento médico  apropriado, e também de lembrar a Hishin que deixasse para mim um guia com  os procedimentos médicos. Entrementes, chegara um recado da mulher dele  dizendo que minha passagem já estava pronta. Assim, não havia nada com que  me preocupar. "A mulher dele vai realmente viajar conosco?", perguntei à  secretária, irritado. Percebi que ela hesitou em responder, escondendo-se atrás  da ignorância, talvez com receio de despertar minha resistência. Passou pela  minha cabeça a hipótese de que, por causa da greve das enfermeiras, Lazar seria obrigado a ficar, e sua mulher estivesse se preparando para substituí-lo; aí, em  vez de fazer uma viagem tranquila com outro homem, eu me veria forçado a percorrer os complicados caminhos da Índia ajeitando-me com duas mulheres,  uma mais velha e outra muito doente. Será que se ocultava ali, sem que eu soubesse, alguma armadilha?—ocorreu-me de repente. Mandei que a secretária  fizesse uma ligação para minha mãe em Jerusalém, para avisá-la de que talvez  eu chegasse apenas no final da tarde. Minha mãe, que imaginava que eu já estivesse a caminho de Jerusalém, procurou me tranquilizar: "Tudo bem, Benjy;  você dorme aqui em casa esta noite, e nós o levamos amanhã ao aeroporto. Eu  já disse ao seu pai que tire um dia de folga para ficar com você".
Agora a impaciência tinha se apossado de  mim. Se eu concordara em viajar no dia seguinte para um mundo tão distante e estranho, por que ainda estava  zanzando de um lado para outro no hospital, que de súbito me pareceu melancólico e sufocante? Corri até a ala cirúrgica à procura de Hishin para pegar com  ele o artigo sobre hepatite, mas, por estar sem avental, fui barrado na entrada pelo  guarda. No banco ao lado da porta estavam outra vez os dois parentes da mulher  operada. Ambos me reconheceram, mas por algum motivo me evitaram, como  se estivesse claro para eles como era frágil a minha  posição e como fora falsa a  minha afirmação de que ela nascera de novo. Quis me aproximar e perguntar-lhes o que tinha acontecido, mas me contive. Num único dia eu me tornara  supérfluo. Resolvi não esperar e me dirigi ao escritório do farmacêutico-chefe, o  dr. Hessing, um judeu alemão velho e calvo, que largou o que estava fazendo e  me conduziu para um dos pequenos compartimentos no fundo do depósito farmacêutico, onde me apontou uma grande mochila. Abriu-a e me mostrou uma  imensa quantidade e variedade de equipamentos médicos, descrevendo o modo  prático e seguro como tinham sido embalados remédios, seringas e agulhas,  ampolas, termômetros e medidores de pressão, estetoscópios e tubos de ensaio, tesouras cirúrgicas, pequenos escalpelos e, é óbvio, sondas intravenosas—enfim, um hospital em miniatura fora ali acondicionado com eficiência e cuidado. Talvez porque a verba da farmácia, mais do que os outros departamentos do  hospital, dependesse da boa vontade do diretor administrativo. Vendo a gigantesca mochila, fiquei desanimado. "Por que tenho de arrastar tudo isso que você  meteu aí dentro?", protestei. "Não vou escalar o Himalaia, só trazer de volta para  casa uma moça com hepatite." Exigi que ele esvaziasse um pouco a mochila,  mas teimou em não tirar nada, com visível orgulho de sua obra. "Pegue", disse  ele afavelmente, "não seja tolo, quem sabe do que se vai precisar, afinal vocês estão indo para um dos lugares mais infectos do mundo, e o que sobrar poderá  ser dado de presente, que será muito bem recebido."
Com a mochila na mão, voltei ao departamento cirúrgico à procura de  Hishin, mas a operação não terminara. "Alguma coisa deu errado", pensei comigo, evitando os olhos dos parentes, que ainda estavam sentados no banco numa  penumbra cada vez maior, rijos de ansiedade. Dessa vez ninguém impediu  minha entrada, e com a mochila nas costas fiquei parado junto à grande porta da  sala de cirurgia, no mesmo lugar de onde o sr. Lazar acenara na véspera, e pela  claraboia vi a mesma equipe cirúrgica—só faltava eu. As costas do segundo residente estavam curvadas num arco duro e tenso, ao lado do professor Hishin, que,  segundo deduzi pelos seus movimentos, debatia-se com alguma coisa grave nas  entranhas da mulher, coberta com um lençol que revelava apenas as delicadas  plantas dos pés na extremidade da mesa. Ninguém me notou, a não ser o dr.  Nakash, que sussurrou algo a Hishin. Este voltou o olhar para mim, acenou e  alguns minutos depois saiu para falar comigo, bisturi na mão, avental coberto de  grandes manchas de sangue, ar cansado e preocupado. Antes que eu pudesse  abrir a boca, ele me silenciou com seu irônico sotaque húngaro: "Sim, sim, desculpe, eu sei que estou fazendo você esperar, mas, como vê, não estou participando de nenhuma orgia". Naquele instante entendi que durante a última hora ele  estivera lutando contra a própria morte, pois sempre que sentia a proximidade da  morte empregava termos sexuais como aquele. Senti um aperto no coração por  não estar participando, nem mesmo como observador, da batalha feroz que se travava naquela mesa de operações. "O que está acontecendo com ela?", perguntei em tom acusador. "Por que foi preciso operá-la de novo?" Hishin balançou a mão  ensanguentada perto do meu rosto, recusando-se a falar da cirurgia, e com incompreensível emoção me deu um abraço e disse: "Não importa, não se preocupe  com isso agora. É só uma mulher teimosa que fica tendo hemorragias em lugares  inesperados. Pare de se preocupar, você tem de estar com a cabeça tranquila para  a viagem. Não faz ideia de como Lazar me agradece por sua causa. Eles realmente se apaixonaram por você, ele e a mulher. E o que está lhe faltando agora? Ah, o  que fazemos com a nossa hepatite? Na realidade não fazemos nada. É isso  mesmo, desculpe, esqueci de trazer o artigo. Mas não tem importância. Vejo que  já lhe deram o equipamento e os remédios. E a verdade é que não há muito a fazer  nesses casos. Só acalmar a todos. Afinal, hoje em dia tudo é psicológico, é o que todo mundo diz. Daqui a pouco vamos poder abandonar até mesmo as operações.  Portanto não se preocupe, você não vai ter muito o que fazer. Eu já lhe disse, a  hepatite é uma doença que se cura sozinha".
Quando enfim deixei o hospital, já de capacete, olhei o céu para ver o que  me esperava e se seria arriscado demais ir de moto a Jerusalém. "Como é que eu  me metera numa viagem maluca como aquela?", pensava, desviando-me agilmente das grandes poças d'água e espremendo-me entre as filas de carros. E  agora, de onde recomeçar? De repente, queria chegar depressa à casa dos meus  pais, para que eles me acolhessem com seu calor e seus cuidados, e me ajudassem a preparar-me para a viagem, que se aproximava a galope. No meu pequeno apartamento alugado, lavei correndo a louça que ficara na pia, arrumei a  cama, joguei as roupas, cuecas e meias em duas grandes e velhas mochilas do  exército, desliguei a eletricidade, fechei o registro da água e telefonei à proprietária para informá-la da viagem. Amarrei as três mochilas na garupa e no bagageiro da moto e dirigi-me à casa de Lazar, para combinar o encontro no aeroporto, pegar a passagem e talvez também receber os meus dólares, que, apesar de  terem sido anotados no meu nome, foram levados, não sei por que, pela pequena funcionária da mulher. No grande apartamento deles, que reluzia agora sob  a luz avermelhada do anoitecer, eram evidentes os preparativos para a viagem  próxima: uma grande mala junto à porta e ao seu lado uma valise aberta. Na sala de visitas, ouviam-se vozes femininas. "Até que enfim você chegou", gritou  Lazar alegremente, "nós estávamos nos perguntando onde teria se escondido."
"Eu me escondi? Me escondi? Em que sentido?"  "Não importa, não importa", disse a mulher, caminhando na nossa direção, vestida com um agasalho doméstico. Percebi que ela estava disposta a ficar  presente o tempo todo, e mais uma vez me pareceu diferente, talvez um pouco  mais jovem, porém mais feia, baixa e atarracada, cabelos meio desalinhados,  rosto pálido, e o sorriso radiante dos olhos esmaecido pelas lentes dos óculos.  "Não dê importância", disse, "o Lazar está sempre preocupado, alimenta a  preocupação e não consegue viver sem ela, você vai ter de se acostumar; mas  venha, entre, como é que vamos chamá-lo... Doutor Rubin?"
"Não", apressei-me em responder, "apenas Benjamim, ou Benjy, que é  como meus pais me chamam."
"Benjy. Benjy é ótimo", ela adotou imediatamente o apelido. "Podemos  mesmo chamar você de Benjy? Então venha, entre e sente-se um pouco conosco, está aqui a Micaela, a amiga da Einat que nos trouxe a carta e a notícia,  venha ouvir você também o que ela tem para contar sobre Gaia e sobre o hospital da cidade."
Mas eu me recusei a entrar. "Sinto muito", disse, "já é tarde, e preciso chegar depressa a Jerusalém para fazer a mala e me despedir dos meus pais."
"Você vai dormir lá esta noite?", perguntou Lazar, desapontado. "Que  pena, pensamos em sugerir que dormisse aqui, para sairmos de manhã cedo  direto para o aeroporto."
"Não se preocupe", eu disse, "meus pais vão me levar no horário certo."  Mas Lazar não conseguiu se livrar da sua preocupação; saiu correndo atrás de  papel e lápis para anotar o endereço e o número do telefone em Jerusalém,  enquanto a mulher, que eu ainda me perguntava se viajaria conosco, mais uma  vez insistia que eu entrasse.
"Minha mãe também está aí, e ela queria muito conhecer você."  "Sua mãe?", perguntei confuso. "Tudo bem, só por um instante", e entrei  na sala de visitas, extasiado com a vista dos telhados de Tel Aviv espalhando-se  em todas as direções. Na véspera as cortinas estavam fechadas, e não pudera  observar a localização privilegiada do apartamento. No sofá estava sentada uma  delicada senhora de idade, vestindo um conjunto de lã escura, e ao seu lado um  rapaz num vestido de algodão branco.
Quando me aproximei, vi que na realidade o rapaz era uma mulher jovem e queimada de sol, cuja cabeça recém-raspada intensificava o brilho dos olhos grandes e claros.
"Mãe", disse a mulher de Lazar para a senhora idosa numa voz um pouco  mais forte, "este é o doutor Rubin, o médico que se ofereceu para nos acompanhar até a Índia, você queria conhecê-lo." A velha senhora estendeu a mão e fez  um meneio, e pelos seus olhos passou um leve sinal que lembrava o sorriso  radiante e automático da filha. A perspectiva de que a mulher viajaria conosco  voltou a me incomodar muito, e enquanto eu cumprimentava a jovem de cabeça raspada, que educadamente abriu espaço ao seu lado no sofá, virei-me para  a sra. Lazar com incontrolável irritação:
"Desculpe, não estou entendendo, a senhora vai viajar conosco?"
Lazar correu e se antecipou: "Ainda não é definitivo, vamos decidir esta  noite, mas por que você está perguntando?".
"Só por perguntar", gaguejei, olhando para a mulher dele, que agora não  sorria mais e tinha se virado para o marido com um movimento de cabeça quase  imperceptível, mas ameaçador. Então, contra minha vontade, sentei-me no  lugar que havia sido reservado para mim pela jovem de cabeça raspada, que me  fitava com olhar curioso, como se estivesse querendo me avaliar. Sentado nas  almofadas ainda quentes e perfumadas do sofá, estiquei o braço para pegar a xícara de chá que a vovó me oferecia.
Pela imensa janela vislumbrei o mar ao fundo  e percebi no horizonte a nuvem grande e escura de uma tempestade feroz que  se aproximava. "Mas o que está acontecendo comigo?", pensei com raiva.  "Preciso pegar a estrada, minha mãe e meu pai estão me esperando, a troco do  que me sentei aqui como se fosse da família, como se não me bastasse o que vou  ter de aguentar deles nas próximas semanas?" Levantei-me depressa sem tocar  no chá e sem dirigir a palavra à jovem, cuja indianidade explícita me deixava aflito, mas ao mesmo tempo despertava uma nova ansiedade em relação à viagem.
"Conseguiu tomar as duas vacinas para o visto de entrada na Índia?", lembrei-me de perguntar a Lazar a caminho da porta.
"Que vacinas?", perguntou atônito, certo de que tinha sob controle todos  os preparativos da viagem. Sua mulher esquecera de lhe dizer. "Mas como foi  que você esqueceu?",
gritou ele desesperado. "Onde é que vamos achar em  Roma alguém para nos vacinar?" Quando soube que eu me preocupara em trazer vacinas e seringas esterilizadas, mais os comprovantes de vacinação carimbados para ambos, e que tudo estava no meu bolso, acalmou-se. "Você é o  maior!" Não parava de me abraçar. "Você é o maior, agora eu entendo por que  Hishin fez questão que fosse você." Exigiu que eu o vacinasse ali mesmo.  Levou-me para o dormitório, também elegante e espaçoso, despiu a camisa  num gesto rápido, mostrando os braços peludos e as costas volumosas, fechou  os olhos e fez uma careta, antecipando a dor da picada. Pela ampla janela ao  lado da cama de casal, sobre a qual havia uma mala e roupas espalhadas, via-se  a linha da chuva seguir devagar para o leste sob a luz do sol poente. "Não faça essa cara", riu a mulher, trazendo algodão e álcool enquanto eu preparava as  seringas, "não é uma cirurgia." E ficou em pé ao meu lado, observando atentamente.
Quando terminei de vacinar o marido, ele vestiu a camisa e fez menção de me acompanhar até a porta. Ela ficou surpresa: "E eu?", perguntou em tom  magoado. "Nós não ficamos de decidir esta noite?", disse Lazar com delicadeza. "Para que se vacinar à toa?"
Ela enrubesceu, seu rosto ficou sombrio, e exigiu que eu também a vacinasse. Voltamos para o dormitório, e ela tentou primeiro erguer a manga, mas  o braço era muito gordo, e a manga não passava pelo cotovelo. Então foi até a  porta e encostou-a de leve, como se quisesse esconder-se do filho irrequieto, que  não parava de circular pelo apartamento. Despiu a parte de cima do agasalho e  ficou de sutiã, revelando os seios muito redondos e os largos ombros salpicados  de sardas, sorrindo envergonhada. Apliquei rapidamente as vacinas, ela agradeceu inclinando a cabeça e vestiu o agasalho. Então entendi que ela participaria  da viagem e senti um aperto no peito. Como me metera naquela confusão? Despedi-me dela e desci com Lazar, que decidira transferir a mochila de equipamento médico para o seu carro. A tempestade avançava sobre a cidade, e finas  gotas de chuva respingavam pelo ar. Lazar pegou a sacola da minha mão e examinou com curiosidade a grande motocicleta.
"Você quer mesmo viajar para Jerusalém com uma chuvas dessas?", perguntou com profunda e paternal preocupação, misturada com espanto.  Sentado na moto, com o pé no pedal para dar a partida, fui freado por alguma  coisa. Não podendo mais me conter, eu disse: "Desculpe, percebi que a sua  mulher vai viajar conosco". Lazar fez um gesto não muito claro com a cabeça.  "Mas por quê?", perguntei com um desespero mudo. "Na minha opinião, dois  acompanhantes já é exagero, mas três?" Lazar sorriu e permaneceu quieto. Mas  eu resolvi não desistir, talvez conseguisse no último momento convencê-lo a  abandonar a ideia de levar a mulher. "Há algum motivo especial que exija que  ela vá?... Algo que eu não saiba até agora?", continuei questionando.
"Não, nada", respondeu Lazar, "ela apenas resolveu ir junto."  "Mas por quê?", insisti, com uma amargura cuja origem nem eu mesmo  conseguia entender. Então ele me olhou como se prestasse atenção em mim  pela primeira vez, tentando avaliar se eu já merecia confiança. Estendeu as  mãos e sorriu embaraçado:
"Ela simplesmente não consegue separar-se de mim, não gosta de ficar  sozinha." Vendo que eu teimava em não compreender, tornou a sorrir com franca satisfação. "Sim, é uma mulher que não pode ficar sozinha."
 
 

2.
  
  
 
Será que já se pode trazer à tona a palavra "mistério"? Ou será cedo demais  até para se pensar nela? Pois dos nossos personagens, movendo-se do leste ou do  oeste, nas primeiras horas de uma manhã de inverno, rumo ao aeroporto, nenhum  sabe como nasce uma ideia de mistério, muito menos do que é feita e como flui.  Nem a grande Índia, que espera por eles, é capaz de estimular ideias de mistério,  pois ainda não tem, aos seus olhos, uma dimensão específica; é apenas um lugar  aonde se deseja chegar com rapidez e eficiência, para recolher uma moça doente  e trazê-la com cuidado de volta para casa. E será que esse tom amarelo doentio,  que turva o branco dos olhos dela em torno do círculo verde da íris—olhos cobertos por lençóis cinzentos no cubículo de um mosteiro nos arredores de Bodhgaia -  é capaz de detonar a distância uma faísca de mistério? Não, decididamente não.  Porque, na imaginação daqueles que agora arrastam as suas malas pelo saguão  de passageiros, o tom amarelo doentio ao qual se dirigem não tem nenhum sinal  de mistério, é apenas o sintoma de uma doença que tem nome, está descrita com  detalhes em livros e artigos e evolui, segundo as palavras do professor Hishin, no  sentido de eliminar a si própria, mesmo que na viagem de volta esteja à sua espera uma encruzilhada onde terá de se debater desesperadamente entre a vida e a  morte. Mas nem numa encruzilhada dessas há mistério, e por enquanto ela está no lugar e na hora que lhe foram reservados, entre móveis de vime pintados com  fortes tons de púrpura, à espera do momento exato, que sempre chega com simplicidade e naturalidade.
Ou seja, por enquanto, a sensação de mistério ainda está latente como a  ponta de um lápis pousada delicadamente sobre o papel em branco entre os personagens, passageiros e acompanhantes, imóveis, sonolentos e um pouco excitados no saguão de embarque, trocando entre si sorrisos cansados de mútua compreensão, sinalizando as respostas para as perguntas previsíveis da jovem agente  de segurança, que veste uma blusa impecável com um distintivo preso ao bolso por  um alfinete de gancho. Aluna de arte dramática no período noturno, ela interroga um a um, com voz seca e monótona, sobre o conteúdo da bagagem. Mas as respostas detalhadas não são suficientes para livrá-los de abrir, no final, as três  malas e exibir um ao outro os seus objetos de uso pessoal, e também permitir a  revista da grande mochila com equipamentos médicos, que espanta a todos pela  sua variedade, profusão de remédios e meticulosidade de aparelhos; até parece  que para a desgraça e para a doença não há outra saída a não ser combatê-las com  todas as forças. E a névoa matinal, que perseguiu o jovem doutor e seus pais na  vinda de Jerusalém, permeia o grande saguão, pairando sobre os teclados dos computadores que emitem os cartões de embarque; e os pais grisalhos agora delegam a  guarda de seu único filho, embora ele já tenha vinte e nove anos, a um outro casal  de pais, totalmente estranhos, mas dignos de confiança para tais responsabilidades, nas quais o fato de ser pai encerra um valor humano em si. Quem sabe exatamente aqui, nesse ato de transferência, defina-se o mistério? Porém, se é assim,  para onde ele nos conduz?
Não conduz a nada, pois essa é a sua essência. Não tem direção, pois a meta  desaparece uma vez esquecida a causa. E na rotação implacável do globo terrestre  surge de repente entre nós o mistério, antigo, como um parente esquecido numa instituição de doentes mentais, liberado para uma rápida folga apesar do seu louco  delírio de acreditar que o globo permanece parado no lugar, e cada hora se encerra em si própria, e nada no universo se perde jamais; e depois de vir nos visitar, e  ficar sentado longamente entre nós, magro e pálido, e nos fazer ver as suas fantásticas concepções, ele de súbito se levanta, toma cuidado para não derramara xícara de chá que colocamos à sua frente, e como sonâmbulo começa a vagar pelos  quartos, querendo encontrar pessoas e fatos que há muito tempo se acabaram.
Assim, mesmo que tenha caído aqui um gota de mistério, ainda não há quem  seja capaz de senti-lo. Com certeza não o pai do jovem médico, o sr. Rubin, judeu  inglês, alto, usando um velho chapéu de feltro comprado cinco anos antes numa  visita a Manchester, sua cidade natal, que há algum tempo escuta em profundo  e paciente silêncio as explicações vívidas do diretor do hospital, que agora, a bagagem deslizando sozinha sobre a esteira rolante, tem as mãos livres para desenhar  repetidamente no ar o mapa da índia, detalhando as diversas rotas alternativas  de viagem, enquanto sua esposa gorducha, vestida com uma larga túnica azul, os  olhos sorrindo indubitavelmente por trás dos grandes óculos escuros, escuta com  toda calma as palavras educadas da sra. Rubin, uma judia inglesa magra, que  passa à sua frente em direção ao guarda, que dentro de um instante irá separar  com um gesto os passageiros dos acompanhantes, mas que não poderá separar a  ideia comum, nova e agradável, que começou a tomar corpo, em segredo, sim, em  segredo e sem uma única palavra, entre as duas mulheres de meia-idade, cada  qual fantasiando uma história possível sobre o amor entre o filho médico, que  ainda vê a viagem como algo que lhe foi impingido, e a filha doente, que aguarda a milhares de quilômetros de distancia com as forças totalmente debilitadas.
Para minha grande alegria, meu lugar no avião não ficava perto do casal  Lazar; estávamos separados por algumas filas de assentos. "Se eles fizeram isso  de propósito", pensei, "é um sinal animador. Eles também estão apreensivos  com a intimidade excessiva, capaz de fazer que nos irritemos mutuamente já  nos primeiros dias." De fato, durante as três horas de voo, só os vi uma vez, quando fui ao banheiro. Estavam sentados na última fila, na área de fumantes. As  bandejas da refeição ainda não tinham sido recolhidas, mas a cortina da janela  estava fechada. A mulher cochilava, os óculos na mão fechada com firmeza, a  face mergulhada no peito do marido, que examinava alguns documentos. Os  meus pais, que eram apenas um pouco mais velhos que eles, jamais se permitiriam demonstrar tanta intimidade em público. Eu pretendia passar por eles  sem ser notado, porém Lazar tirou os óculos de leitura dourados e perguntou  com simpatia se eu conseguira dormir. "Nem tentei", respondi depressa, "resolvi acumular o cansaço para o voo longo desta noite para Nova Delhi." Percebi  que a minha resposta prática lhe agradou.
"Você também tem dificuldade de adormecer em viagem?", perguntou.  "Sim", eu disse.  "Então você é como eu", afirmou alegremente, como se tivesse encontrado um aliado.
"Eu nunca consegui dormir em avião, mas vamos ver o que vai  acontecer esta noite no voo para Nova Delhi." A mulher dele ergueu a cabeça;  sem os óculos, seus olhos, ainda vermelhos e inchados de sono, já estavam ligados no sorriso mecânico, de gratuita amabilidade.
"Os seus pais são muito simpáticos", disse ela, como se tivesse acabado de  vê-los em sonho.
"Sim", concordei com um meneio e acrescentei, sem saber por quê: "eles  não são do tipo histérico."
Ela compreendeu a minha intenção. "Certo", concordou, "a sua mãe me  contou que eles incentivaram você a viajar conosco."
"Sim, pelo jeito a Índia ainda mantém o encanto para todo inglês da velha  geração."
"Você não vai lamentar ter feito esta viagem conosco", disse ela procurando me acalmar, como se ainda achasse necessário superar os últimos vestígios  da minha resistência, "você vai ver."
Não respondi, apenas dei um leve sorriso. Ocorreu-me perguntar alguma  coisa sobre os dólares que a funcionária dela comprara em meu nome e que, por  algum motivo, levara consigo, mas me contive e segui meu caminho.
Chegamos a Roma às onze da manhã, e havia uma espera de mais ou  menos dez horas até a partida do voo noturno para Nova Delhi. Nesse ínterim  devíamos tirar nossos vistos de entrada na Índia. Lazar receava perder um  tempo precioso e quis nos obrigar a arrastar as malas conosco, para que não precisássemos voltar ao aeroporto caso a questão dos vistos se alongasse, forçandonos a permanecer mais um dia. Porém sua mulher sugeriu que deixássemos a  bagagem no aeroporto, para nos movermos com mais agilidade. Iniciaram no  ato uma discussão acalorada, e parecia que Lazar, com seu pessimismo prático,  iria convencê-la a desistir da ideia; mas, de repente, de forma totalmente imprevista, a opinião dela prevaleceu, e saímos os três procurando o balcão do guarda-volumes. Fomos e voltamos pelos corredores, perdidos, atrás de indicações  erradas, e o tempo todo Lazar reclamando com a mulher: "Está vendo a confusão que você provocou?". Mas ela, que no início se limitara a sorrir, afinal revidou:
"Pare de se lamentar, controle-se." E ele se calou.  Enfim chegamos ao guarda-volumes, que nos pareceu muito distante e  fora de mão. Quando comentamos o fato com o funcionário, ele ficou indignado e apontou para o elevador próximo, que desembocava no coração do aeroporto. Mais uma vez fomos obrigados a passar pela desagradável revista de bagagens, e pela segunda vez tive de apreciar os pertences íntimos do casal,  exagerados, na minha opinião, para uma viagem curta com um objetivo sério num país pobre. Lazar pegou os comprovantes, e saímos de lá leves para procurar um táxi na imensa praça.
A mulher parecia feliz e, sem qualquer tom de provocação, assegurou-nos  que tinha acertado na decisão: "Estão vendo? Assim é muito mais fácil". Lazar,  mesmo parecendo satisfeito, não quis dar o braço a torcer:
"Por causa disso perdemos a manhã toda", resmungou, "e quem foi que  disse que esses indianos voltam para o trabalho depois do almoço?"
Descobrimos que os indianos nem fecham para o almoço. Quando chegamos ao consulado, um prédio cercado de arbustos e árvores ornamentais, deparamos com uma enorme fila de indianos; sem perder tempo, tomamos lugar  nela. Mas Lazar logo levantou dúvidas sobre a fila em que estávamos e saiu pelo  prédio para se informar, voltando pouco depois, alegre, dizendo que estávamos  na fila errada, que aquela era só para indianos e que a nossa, a dos estrangeiros,  ficava do outro lado. Na parte de trás do edifício, numa espécie de pequeno  anexo, encontramos um escritório onde só alguns jovens europeus aguardavam. Lazar pegou os meus dois passaportes, avaliando se deveria apresentar aos  indianos o israelense ou o britânico, que pareceu lhe despertar enorme interesse, pois não parava de virar as páginas para ver como estava organizado. Por fim,  devolveu-me o britânico, alegando que não valia a pena apresentar um passaporte que talvez não pudéssemos explicar, caso contivesse alguma falha que  não tivéssemos notado. Estendeu os três passaportes israelenses ao silencioso  funcionário de tez escura, que se recusou a olhar para eles enquanto não exibíssemos também as passagens e os certificados de vacina. Lazar mostrou os outros  papéis, que estavam à mão, e sorriu com humildade. Sendo ele próprio um  burocrata, sabia muito bem o poder que tinha um simples funcionário, colocado numa posição-chave, para causar atrasos e prejuízos. Mas aquele funcionário não era nem um pouco hostil. Os vistos foram carimbados com rapidez, e  voltamos às ruas de Roma com oito horas totalmente livres pela frente.
Era uma da tarde, e a mulher declarou com um brilho nos olhos que, antes  de tudo, tínhamos de achar um bom restaurante. Apesar de também estar com  muita fome, decidi que, se eu não estabelecesse limites, a viagem começaria a  ser um fardo insuportável para mim. Então, disse-lhes que naquele momento  preferia abrir mão da refeição e pedia apenas que me deixassem passear sozinho, frisando de leve a palavra "sozinho". Eles ficaram surpresos.
"Você não está mesmo com fome?", perguntou Lazar com preocupação  paternal.
"Não é bem isso", respondi com franqueza, "é que não quero perder  tempo, não quero perder nenhum momento, eu nunca estive em Roma e quero  circular um pouco sozinho."
E mais uma vez enfatizei levemente a palavra  "sozinho".
O sorriso automático da mulher, a quem Lazar chamava pelo apelido de  Dori, sumiu na hora. Sua expressão ficou sombria, e ela tocou a manga do marido, como para adverti-lo. Mas Lazar não sentiu o toque na manga. "Um  momento, um momento", gritou assustado, "aonde você quer ir e onde vamos  nos encontrar?"
"Onde vamos nos encontrar?", pensei em voz alta. "No aeroporto, é claro.  Eu estou com a passagem, e se puderem me devolver, por favor, o passaporte e  os comprovantes da mala e da mochila, não haverá problemas. Chegarei na  hora para pegar o voo."
Lazar continuava preocupado com meu súbito programa independente.  "Um momento, um momento", exclamou, "onde no aeroporto? E por que no  aeroporto? Você viu como lá é complicado. Quem sabe talvez seja melhor marcarmos algum lugar aqui no centro, para não nos desencontrarmos bem na hora  do veio." A mulher, que captara minha clara intenção de traçar uma linha definida entre nós, apressou-se em tranquilizá-lo.
"Tudo bem, por que não? Vamos nos encontrar no embarque. Qual é o  problema?" Ele foi forçado a tirar do bolso o meu passaporte e os comprovantes  da mala e da mochila. E perguntou:
"Mas o que é que você quer ver em Roma? Em que direção você vai?"
"Não tenho direção. Ainda não sei", respondi, tomando o cuidado de não  definir um lugar, para que, apesar de tudo, não acabassem arrumando um jeito  de me encontrar. Percebi um lampejo de ofensa nos seus olhos. Mas ele se  dominou e apenas se mostrou preocupado em saber se eu tinha dinheiro suficiente. "Não, não tenho quase nada", respondi depressa e dirigi um olhar de  censura para a mulher. "A funcionária do escritório tirou ontem a minha cota  de dólares do banco, mas levou com ela." A Mulher enrubesceu. Lazar puxou  a carteira e buscou depressa o envelope com o dinheiro. Contou as notas, ponderou e me entregou a metade, duzentos dólares; depois mudou de ideia e  acrescentou mais cem, dizendo:
"Está vendo? Ainda bem que perguntei. Mas eu não entendo", reclamou  com a mulher, "por que ela não entregou o dinheiro a ele, e como é que você  não percebeu. Como é possível não olhar o que há dentro de um envelope que  lhe dão?" Antes que ela pudesse responder, ele cortou com impaciência. "Não  importa. Não importa." E virou-se para mim: "Chega de perder tempo. Mas  ainda bem que eu me preocupo um pouco, senão você estaria circulando por  aí sem dinheiro, e se você se perdesse iria complicar a nossa vida. Eu lhe peço  sinceramente: de agora em diante, deixe de ser tímido conosco, diga tudo o que  estiver lhe faltando ou incomodando, e assim não haverá mal-entendidos. Em  todo caso, aonde você está querendo ir?", tentou arrancar de mim. Respondi  sem pensar:
"Talvez eu faça uma visita rápida ao Vaticano, é uma boa oportunidade  para conhecê-lo."
Os dois, com evidente alívio, comentaram juntos:  "É uma ótima ideia."
E eu, agora preso à minha promessa, saí à procura do Vaticano, apesar de  saber que na Índia visitaria uma porção de lugares sagrados e que, afinal, a própria cidade de Gaia, destino da nossa viagem, estava repleta de templos antigos.  Mas pelo menos, refleti, eu teria alguma coisa na minha memória recente para  comparar, talvez até um assunto para conversar com eles. Ao descer do ônibus,  na praça São Pedro, logo vi uma barraquinha de pizzas. Comprei duas e comi  em pé, debaixo de um abrigo para me proteger dos pingos da chuva. Apesar da luz cinzenta, queria ser fotografado diante da famosa cúpula da catedral. Notei  por ali um grupo de turistas idosos que, cobertos por um conjunto de guarda chuvas, ouviam as explicações de uma guia turística muito bem agasalhada por  uma capa. Pela atitude imperturbável que exibiam em relação à chuva, e também pelo surrado chapéu de feltro de um deles, que lembrava o chapéu do meu  pai, concluí que eram ingleses e me aproximei. Aproveitei uma pausa na explicação da guia e pedi a uma das senhoras, cuja cabeça grisalha estava envolta  num grande cachecol de lã, que me fotografasse diante da cúpula em dois ângulos diferentes. Ao me devolver a máquina, ela puxou conversa. Conforme pude  deduzir, tratava-se de um grupo de aposentados ingleses em excursão pela  Europa, a maioria deles não tendo nunca antes saído da Inglaterra. Quando lhe  contei que naquela mesma noite eu estaria voando para a Índia, para uma remota e isolada cidade no Leste do país, com o objetivo de levar de volta a Israel uma  mulher jovem e doente, seus olhos se arregalaram de curiosidade, e ela não permitiu que eu fosse embora. No início pensei que era a iminente viagem à Índia  o motivo do fascínio, mas depois cheguei à conclusão de que ela estava comovida com o fato de um médico fazer uma viagem tão longa para cuidar de uma  enferma. Chamou as amigas aposentadas para contar sobre mim e a minha missão, e imediatamente apareceu um dos velhos, que havia servido na Índia, disposto a contar a sua história. A jovem guia italiana fez um meneio de simpatia  para mim e me convidou a participar do grupo até o fim da visita. Receei que a  minha adesão ao grupo idoso me fizesse desperdiçar algumas das minhas escassas horas livres até o voo, pois já havia notado a extrema lentidão do seu ritmo.  Mas, pensei comigo, não fazia mal, talvez aquilo me forçasse a aceitar a sugestão de Hishin de me separar dos Lazar por um ou dois dias na volta, para ver mais  algumas coisas em Roma. E ao Vaticano não precisaria voltar nunca mais. Foi  exatamente isso que senti ao me separar dos velhos ingleses na grande praça  vazia às cinco e meia da tarde, a noite já caindo e os pingos de chuva continuando, a cabeça cheia de explicações históricas sobre o Vaticano e descrições detalhadas dos seus tesouros. Primeiro pensei em voltar direto para o aeroporto e  matar a fome, presumindo que Lazar sem dúvida chegaria cedo e, ainda que  tivéssemos combinado nos encontrar entre sete e oito, logo começaria a se preocupar com a minha chegada. Porém ocorreu-me que, para o bem da nossa viagem conjunta, seria bom acostumá-lo a confiar no meu senso de responsabilidade e na minha noção de tempo; além disso, queria aproveitar uni pouco mais  as minhas horas livres longe do casal, com que certamente seria obrigado a partilhar uma proximidade cada vez maior. Assim, sentei-me num restaurante simples, na esquina de uma das ruas que saem do Vaticano, e fiz uma bela refeição.  Apesar disso, cheguei ao balcão da companhia aérea, com a mala e a mochila  de equipamento médico, dois minutos antes de terminar o prazo combinado  com o sr. Lazar.
De longe distingui sua cabeleira grisalha sobressaindo entre os saris de  cores vistosas. Exaustos e silenciosos, ele e a mulher estavam sentados lado a  lado junto às malas e a alguns pacotes novos, no meio de uma multidão de passageiros multicoloridos, diante do balcão do nosso voo, que ainda não fora aberto. Lazar ficou muito satisfeito por eu ter respeitado o prazo combinado, embora não tivesse motivo para se preocupar, pois acabavam de anunciar que haveria  um atraso de duas horas.
Ele abriu espaço para mim ao seu lado e pediu que eu  colocasse a mala e a mochila perto dos pacotes. "É bom ficarmos juntos  de  agora em diante", anunciou, caso eu estivesse considerando a possibilidade de  um novo passeio. A mulher mostrou interesse pela visita ao Vaticano. Eles não  tinham visto nada de especial, apenas passearam pelas belas ruas e compraram  alguns presentes obrigatórios.
"Mesmo numa viagem como esta vocês precisam levar presentes?", perguntei atônito.
"E por que não?", respondeu a mulher sorrindo e lançando um olhar crítico, pelo visto dirigido também ao marido. Lazar explicou que ela sofria da  antiga culpa israelense por deixar o país, culpa que precisava ser compensada  com presentes para os que tinham ficado.
"Culpa?", insisti. "Mesmo numa viagem como esta?"  "Em qualquer viagem", replicou a mulher, e disse para o marido: "De  qualquer maneira, talvez seja bom comprar algo para comer, sanduíches e salgados. Sabe-se lá que refeição vão servir nesse voo esquisito, se é que vão servir  alguma coisa."
Ele se levantou, e ela também se levantou e disse: "Vou com você".  "Essa mulher de fato não consegue ficar sozinha", pensei sorrindo, "mas  nem aqui?"
"Nós já passamos um pouco da idade para esses voos charter", desculpou-se Lazar, que parecia transtornado com a multidão de viajantes jovens com  mochilas nas costas que ia fechando o cerco à nossa volta. A mulher propôs que  trouxessem algo para mim da lanchonete, mas recusei educadamente.
"Já fiz uma refeição completa", contei, "e acho que vou estar satisfeito até  a Índia."
Sugeri que fossem até a cafeteria e comessem com calma; eu tomaria conta  de toda a bagagem. Já tinha percebido que eles viviam com medo de ficar com  fome, pois o tempo todo chupavam balas ou mascavam chicletes. Além disso,  em ambos era evidente o excesso de peso, embora a sra. Lazar fosse mais disciplinada em seus esforços para manter a aparência, conseguindo assim disfarçar  um pouco a circunferência da barriga. Logo desapareceram, e eu espalhei os  pacotes sobre os dois assentos vagos para guardar os lugares. Nesse meio tempo,  cresceu a agitação por causa do atraso do voo, apesar de um funcionário da companhia aérea ter vindo ao balcão conversar com os passageiros queixosos.
De repente, através da vitrine da simpática lojinha de sapatos à minha frente, distingui a silhueta dela. Sentada numa pequena poltrona, lá estava com uma  saia do tipo Bali e túnica azul, esticando as longas pernas na direção do elegante  senhor que apoiava seus pés para demonstrar as qualidades do fino  sapato a  Lazar.
Este examinou os pés da esposa meticulosamente, comparou  o sapato  com outro modelo que tinha entre as mãos. Uma luz esverdeada, que recordava vagamente a iluminação das nossas salas de cirurgia, irradiava da pequena  vitrine e emprestava uma atmosfera quase de segredo ao quadro da gordinha  esticando as pernas compridas para os dois homens. Os transeuntes paravam  para olhar. Aqueles dois eram realmente estranhos; faziam compras e aproveitavam até o último momento, indiferentes à difícil viagem que os aguardava até  os confins da Índia, e talvez também indiferentes a qualquer preocupação com  o estado da filha doente. Quando o alto-falante anunciou o início do embarque,  chegaram apressados, um tanto aflitos, carregando uma sacola com sanduíches  embrulhados e duas caixas de sapatos. Lazar foi o primeiro a justificar a compra  dos sapatos: "Os preços aqui são uma tentação, é difícil resistir", explicou-se, "e  os sapatos são muito bonitos também", continuou se desculpando, enquanto a  mulher, calada, parecendo constrangida pelas justificativas, abria as duas  malas, cujo conteúdo já estava ficando familiar, e arrumava os pacotes de compras romanas um ao lado do outro, tentando manter os sapatos dentro das caixas. Lazar protestou: "Essas estúpidas caixas vão arrebentar a Inala", advertiu.  Mas ela não desistiu. Com igual irritação, ele e eu observamos seus esforços  obstinados de espremer as caixas dentro das malas. Uma das caixas foi enfiada  nas profundezas das roupas e desapareceu como se nunca tivesse existido. Mas  a outra mala se rebelou: recusava-se a se deixar fechar. Parecia que, afinal, a  mulher seria obrigada a desistir e acomodar os sapatos fora da caixa, entre as roupas. Então, não sei por que, fui tomado por uma estranha compaixão pelo desapontamento infantil daquela mulher de meia-idade e ofereci a minha mala  como abrigo temporário para os seus sapatos. Lazar ainda se opôs e começou a  criticá-la pela teimosia. "Para que carregar essa maldita caixa ida e volta até a  Índia?" Ela nem sequer olhou para ele, apenas ergueu a cabeça, tirou dos olhos  os cabelos em desalinho e me fitou corada, sem exibir o conhecido sorriso:
"Você não se importa mesmo?"  No voo para Nova Delhi, que decolou às onze da noite, depois de ler algumas páginas do livro de Stephen Hawking Uma breve história do tempo, do Big  Bang até os buracos negros, que meu pai comprara para mim no aeroporto quando soubera que eu me esquecera de trazer um livro, caí num sono profundo.
O  sono que eu esperava desde a manhã, em busca do qual passara o dia inteiro  arranjando coisas para fazer e me cansar. O sono tomou conta de mim mais  cedo do que eu esperava, porém foi mais curto do que eu queria. Quando acordei, cerca de três horas depois, com o cinto de segurança ainda afivelado, de início não identifiquei o local e a hora; por um instante imaginei que estava num  plantão noturno no departamento cirúrgico. O avião estava às escuras, e os passageiros todos dormiam, espalhados nos assentos e também deitados nos corredores, como se tivessem sido assolados por uma súbita epidemia. Ao longe,  além da asa oscilante do avião, procurei divisar na escuridão do céu  os primeiros sinais da aurora, que, segundo os meus cálculos, deveriam ter aparecido  havia muito tempo, se o voo tivesse seguido uma rota lógica. Então percebi que  Lazar ou a mulher tinha me visitado durante o meu sono, pois um dos sanduíches comprados no aeroporto e uma grande barra de chocolate italiano estavam dentro da bolsa no assento à minha frente. Pelo visto notaram que eu havia  perdido o jantar, por ter adormecido rápida e profundamente, e  preocuparam-se em deixar algo para mim. Embrulhei-me no cobertor e devorei com avidez o sanduíche e o chocolate inteiro, muito feliz com a agradável demonstração  de zelo. Senti uma vontade súbita de vê-los, ou ao menos de saber onde estavam sentados, mas achei melhor esperar até o nascer do dia, que, eu tinha certeza, estava bem próximo.
De fato, a aurora não tardou, e com a luz dourada entrando no avião fui procurar o casal. Tive dificuldade para encontrá-los: no gigantesco aparelho haviam  surgido, durante a noite, pequenos embrulhos protegidos por cobertores pendurados. Ao longo dos corredores dormiam crianças indianas presas umas às outras,  como que solidárias com as crianças que dormiam nas ruas da Índia e não podiam  viajar de avião. Parecia que o número de passageiros era muito maior que o de  assentos. Mesmo assim, causava-me estranheza o fato de não conseguir encontrar  o casal Lazar, era como se algo no meu senso de realidade estivesse avariado por  causa do sono profundo.
O avião começou a sacudir, e comissários de bordo surgiram de todos os cantos, instruindo os passageiros a voltar para os seus lugares e  apertar o cinto. Assim, os corredores foram aos poucos se esvaziando, e a retirada  de alguns cobertores revelava os pequenos embrulhos ocultos. Voltei ao meu  assento, imaginando que talvez eles estivessem sentados separados por alguma  razão e que eu me enganava procurando-os juntos. Mas imediatamente tirei essa  ideia impossível da cabeça. Os meus pais, se não encontrassem dois lugares lado  a lado no ônibus ou em alguma sala de espera, não hesitariam em sentar-se separados, mas os dois que viajavam comigo não. Quando a turbulência se acalmou,  e os passageiros soltaram os cintos de segurança, divisei a cabeleira grisalha de  Lazar agitando-se na parte dianteira do avião. Então me lembrei de ter cruzado  com ele algumas vezes no ano anterior, sem saber quem era nem qual o seu cargo.  Ele avançou pelo corredor e, quando chegou junto a mim, curvou-se e disse em  leve tom de queixa: "Você dormiu, dormiu e dormiu", como se o meu sono tivesse prejudicado o sono do resto do mundo.
"E você?" (1) perguntei. Ele passou a mão nos cabelos revoltos, fechou suavemente os olhos em sinal de cansaço e respondeu com estranha auto comiseração:
"Eu? Mal consegui dormir dez minutos. Eu lhe disse, eu sou assim, caso  perdido, nunca consegui dormir num lugar onde eu não tenha o controle."
 
(1) A língua hebraica, assim como o inglês, permite o pronome "você" dirigido a pessoas hierarquicamente superiores. Optamos por esse tratamento porque, embora de início possa soar um pouco  estranho em português, é mais fiel à informalidade da sociedade israelense. (N. T.)
 
"E Dori?", perguntei, um pouco sem jeito pela distração de ter usado o apelido íntimo dela, mas achando estranho dizer "sua mulher" após vinte e quatro  horas de viagem juntos. Ele riu:
"Oh, ela só precisa de alguma coisa macia para apoiar a cabeça e de alguém  tomando conta, para dormir como uma criança." De repente, debruçou-se  todo por cima de mim, procurando espiar pela janela.
"Onde estamos agora?", perguntei.  "Melhor nem pensar", disse ele rindo, "com certeza sobrevoando algum  lugar maluco como o Irã, o Afeganistão, ou o Paquistão. É melhor nem pensar."  Fez-se silêncio. Depois, ele não se conteve e acrescentou: "Espero que você  tenha encontrado o sanduíche e o chocolate que lhe deixamos. Notamos que  você perdeu o jantar".
"Encontrei sim, estavam deliciosos. Procurei vocês para agradecer, mas  não consegui achá-los. Não sei o que aconteceu comigo, procurei no avião todo,  foi como se vocês tivessem sumido", eu disse rindo. Mas ele não achou graça.
"Escute", disse com expressão séria, "tudo bem que você se perca de nós  no avião, mas o que acontecerá se você se perder de nós na Índia? Precisamos  estabelecer algumas regras de contato seguras. Por enquanto, é bom que você  conheça o nosso assobio particular; ele tem funcionado direitinho desde a nossa  lua-de-mel." E assobiou algumas vezes seguidas para que eu aprendesse.
Aterrissamos na Índia numa tarde nublada e amena, e por um instante tive  a sensação de que não estávamos entrando numa realidade viva, e sim numa  gigantesca tela de cinema onde estivessem projetando um filme colorido sobre  a Índia. E logo me vi espremido no meio do casal, ao lado da enorme sacola de  equipamentos médicos e das três malas, que pareciam exageradas, quase supérfluas, no minúsculo espaço do velho táxi e em face da pobreza indiana que se  descortinava num turbilhão colorido junto às janelas. O rosto de Lazar estava  pressionado contra o meu ombro, muito amarrotado e exausto sob a barba por  fazer, ao passo que a face rechonchuda e bem dormida de sua mulher estava  maquiada, e perfumada, e radiante de excitação infantil. A cada instante ela  explodia em gritos de admiração, incentivando o marido e eu a observar os passantes indianos que julgava dignos de atenção especial. Porém Lazar recusava-se a erguer a cabeça. Caindo de cansaço, olhos fechados, resmungava: "Basta,  Dori, agora não, não tenho forças, ainda vamos enjoar de tanto ver indianos".  Em consideração a ele, eu me dispus a dar atenção aos gritos estridentes da  mulher e me virava para olhar na direção em que ela apontava, sempre repetindo como um autômato uma frase tola que não me saía da cabeça:
"Eu tenho a sensação de que isto não é real, é como se fosse um filme inglês  sobre a Índia e nós tivéssemos nos tornado personagens ingleses." E toda vez ela  me devolvia um sorriso educado, o tipo de sorriso que se dá a um menino que  está tentando ser original. Quando chegamos ao hotel que a agência de viagens  havia indicado, dentro das muralhas da cidade velha, sua animação de repente  desapareceu. Não fora à toa que eu me opusera à vinda dela. O hotel, em que  tínhamos dois quartos reservados, era bastante antigo, porém totalmente aceitável para mim e Lazar, até porque era para um único pernoite. Mas ainda na  recepção ela fechou a cara e cochichou para o marido que exigia ver os quartos  antes de apresentarmos os passaportes. Lazar resmungou, mas acabou cedendo, e eles subiram, deixando-me com as malas na recepção. Quando voltaram,  imaginei que a discussão entre os dois tinha se acirrado. O rosto dela estava vermelho e decidido, e ele parecia muito bravo e irritado.
"Eu não entendo", continuou resmungando, "simplesmente não entendo, estamos falando de uma única noite, no máximo duas; faz trinta horas que  eu não durmo, estou caindo em pé e só peço uma mísera cama. Só isso. Onde  vamos achar agora um hotel melhor?" Mas ela agarrou o braço dele com força,.  num gesto brusco e nervoso, como se quisesse obrigá-lo a calar-se, examinou o  meu olhar e me enviou depressa o seu sorriso automático, talvez para me fazer  calar também.
"Mesmo uma noite tem o seu valor na vida", disse, censurando o marido e  lançando um olhar de reprimenda também para mim, embora eu não tivesse  aberto a boca.
A única alternativa era sair dali, e mal pisamos na rua saltaram sobre nós  dois jovens indianos que se incumbiram de carregar a mochila e as três malas,  conduzindo-nos para ver outros hotéis. Como estávamos leves, livres das longas  horas de aperto no avião, num clima brando e agradável, caminhamos flutuando pelas ruas e entramos não em um, mas em cinco hotéis. Logo se confirmou  a advertência dada pelo agente de viagens em Tel Aviv de que chegaríamos à Índia no auge do período de peregrinação. Os hotéis que agradaram àquela  mulher não tinham vagas, e os que tinham não eram aprovados. Ela subia sozinha para "cheirar os quartos", como resumiu Lazar com um sorriso impotente,  no qual percebi, estupefato, também um toque de admiração. E assim circulamos pelas ruas da cidade velha na companhia dos dois jovens, entusiasmados  em nos levar de um lugar a outro, até que, depois de uma hora de busca, deparamos com um hotel "pelo menos viável" e descobrimos que o preço não era  mais alto que o dos hotéis rejeitados. Os nossos quartos eram vizinhos, minúsculos porém limpos, ou pelo menos coloridos. As janelas eram cobertas por cortinas esverdeadas de uma espécie de cetim, um tecido semelhante ao dos saris,  e em ambos os quartos havia uma grossa corrente de flores amarelas e murchas  pendurada sobre a cama. Depois de um dia e meio, finalmente eu estava só de  verdade, e a deliciosa solidão envolveu-me em sua doçura. Já eram quatro da  tarde e ponderei se o enorme cansaço me faria tomar um banho e ir para a cama,  ou se, mesmo cansado, devia sair antes que escurecesse e ver o mundo novo que havia do outro lado da porta. Enfim a fome venceu, e como, ao contrário do  habitual, Lazar e a mulher não se lembraram de combinar nenhum programa  de refeição conjunta, resolvi matar minha fome por conta própria. O nosso  acordo monetário final ainda não fora definido. Havia apenas a vaga e genérica  declaração de intenções que a mulher fizera na primeira noite, no seu apartamento. A discussão sobre a escolha do hotel, situado num bairro de aparência  bastante simples, ensinou-me que, apesar dos protestos indignados dela, não se  faz uma viagem sem fazer também as contas, ao menos do ponto de vista de  Lazar. E por que seria diferente?
Não havia restaurante no hotel, apenas um barzinho escuro, onde estavam  alguns hóspedes, com roupas europeias fora de moda e turbantes brancos na  cabeça, folheando jornais e conversando em inglês, como se fossem britânicos  esquecidos na Índia com a derrocada do império e transformados em velhos  indianos de pele escura com o correr dos anos. Na caixa do hotel troquei uma  nota de cem dólares por rúpias e saí para a rua estreita inundada pela luz do sol  seca e suave, recusando-me a despir a fina pele de identidade inglesa que, secreta e deliciosamente, tomara conta de mim desde que aterrissáramos na Índia.  Não quis passar por turista israelense assustado diante das bandejas cheias e  coloridas que repousavam sobre o bufê, para acabar pegando alguma coisa grudenta inidentificável. Assim, saí à procura do primeiro hotel, o recusado, onde  me lembrava de ter visto um grande restaurante. Consegui refazer nosso trajeto com surpreendente facilidade; entrei no restaurante, examinei o que havia  sobre as mesas e escolhi o prato que mais me agradou, carne assada dentro de  uma espécie de pão redondo, grosso e preto, servido sobre uma imensa folha  amarela. Depois de satisfeito, quis subir e espiar um dos quartos, para entender  o que havia levado a mulher de Lazar a rejeitá-lo. Um funcionário indiano  acompanhou-me até o segundo andar e me mostrou o único quarto vago que  restava no hotel, provavelmente o mesmo que haviam mostrado a ela. Era um  quarto espaçoso, e da janela se via ao longe a muralha avermelhada de uma  grande fortaleza. Concentrei-me nos detalhes, tentando captar com meus  olhos e minha compreensão o que a tinha repelido. A cama era grande, coberta com uma colcha cinzenta, limpa mas rasgada nas pontas. Numa das paredes,  viam-se manchas finas e compridas, provocadas por alguma bebida que fora atirada ali. Dei um pequeno passo para dentro do quarto para sentir o cheiro. O  indiano ao meu lado sorriu. Não consegui sentir senão um odor adocicado que  me pareceu de argila. O que a assustara, então?—ponderei, pensando naquela mulher mimada e sentindo uma raiva inédita, que não me era familiar.
Não voltei para  o nosso hotel, mesmo estando cansado e suado. Tomei a  direção da fortaleza que acabara de ver pela janela. Queria aproveitar cada  segundo daquele lugar fascinante. Já nos haviam informado, no aeroporto, que  teríamos de ir de Delhi para Gaia de trem ou de ônibus, pois em razão do grande movimento de passageiros naquela época do ano não havia esperança de  conseguir passagens de avião, e talvez nem mesmo lugar num vagão com ar condicionado. Assim, presumi que Lazar, que tinha pressa em voltar a Israel por  causa da sua importante reunião, não se prenderia a Nova Delhi e, apesar da  promessa de  "ver algumas coisas bonitas no caminho", insistiria em partir no  dia seguinte,  ou no máximo em dois dias, para chegarmos logo ao nosso destino. Eu tinha a sensação de que encontraríamos a paciente com hepatite num  estado clínico mais grave do que os pais imaginavam, e desde o instante da chegada eu teria de me dedicar inteiramente a ela, pois pessoas práticas como os  Lazar não carregam um médico até o fim do mundo a troco de nada. Portanto,  era melhor aproveitar tudo o que podia da magia daquele lugar, que estava  começando a me atrair.
Melhor ainda que eu estivesse sujo e suado da viagem, pois estaria mais  livre no meu primeiro contato com a realidade indiana, que me parecia fluir, e  jorrar, e inundar tudo ao meu redor, como uma lava multicolorida. Ao mesmo  tempo, minha identidade inglesa secreta me protegeria de confusões. Então,  depois de anotar o nome do hotel, concedi-me plena liberdade de passear pelas  ruas sujas e abarrotadas de gente, rumando de forma lenta e firme para a muralha de pedra avermelhada que se  revelara à minha frente pela janela do quarto  recusado. Pelas ruelas tortuosas, sem perguntar nada a ninguém, enfim cheguei a ela e percebi que a caminhada não fora em vão. A muralha, que se estendia ao longo de centenas de metros com a mesma cor avermelhada que me chamara a atenção, com a aproximação do crepúsculo, adquiria um encanto  especial. Procurei turistas ingleses para acompanhar, como em Roma, e me  sentir acolhido pelo som da língua dos meus pais. Porém junto ao portão havia  apenas alguns indianos indecisos, que os guardas se apressavam em fazer entrar,  porque era quase hora de fechar a fortaleza, denominada, com impressionante simplicidade, Fortaleza Vermelha. Embora fosse tarde demais para uma visita  completa, entrei, passei por uma rua de lojas finas de lembranças e antiguidades e por uma série de pequenos e sofisticados palacetes, em especial o chamado Arangh Mahaal; estavam todos praticamente desertos por causa do anoitecer, havia apenas uns poucos turistas. Eu ainda me esforçava para me sentir  como o herói de um filme com uma missão definida e princípios sólidos, pois  achava que apenas essa sensação poderia me engrandecer, dar um pouco de  sentido à viagem súbita que me fora imposta e compensar-me pela perda de  perspectiva no departamento cirúrgico de Hishin.
Quando saí pelos portões da fortaleza com os últimos turistas, a alma tocada pelo pouco que conseguira ver, uma suave penumbra já me cercava; o ar  estava impregnado de um ligeiro frio, acompanhado de leves gotas de chuva,  aparentemente vindo do largo rio que eu vira por uma das janelas da fortaleza.  Pensei que fosse o Ganges, até que me corrigiram e disseram que era o rio  Iamuna, que apenas mil quilômetros adiante se juntaria ao Ganges. E apesar do  cansaço, que pesava em mim como um órgão extra, eu disse a mim mesmo: "Se  cheguei até aqui e aproveitei tanto, vale a pena também dar uma olhada no rio,  pois, ainda que não seja o famoso Ganges, também deve ter um significado espiritual capaz de me ensinar algo novo. Amanhã à noite, quem sabe, este encanto de passeios solitários estará desfeito, estarei sentado espremido entre Lazar e  a mulher, num trem ou ônibus, e a ansiedade deles em relação à filha doente, eu bem sei, irá aumentando e tomando conta de tudo à medida que formos nos  aproximando do hospital". Portanto, apesar da chuva e da desolação dos indianos à minha volta, decidi não me satisfazer com a Fortaleza Vermelha e continuei indo para o leste em direção ao rio, protegido do frio pelo velho casaco,  grosso e forte, que meu pai me dera. Caminhei entre fileiras de choupanas,  cujos habitantes me pareceram amistosos, ou pelo menos não hostis, e ouvia de  vez em quando na escuridão uma frase em inglês, dita por um turista ou nativo,  que só contribuía para me estimular.
Apesar do frio e da chuva fina, subiam das águas do rio vozes animadas de  mulheres lavando-se e banhando-se, e de vez em quando a luz trêmula de uma  lâmpada revelava seus alegres movimentos. Fiquei ali parado um bom tempo  sob a chuva perfumada, até que ouvi um apito contínuo, e um trem muito longo  e iluminado pôs-se em movimento, partindo de uma estação próxima, e cruzou  o rio sobre uma ponte invisível, como se flutuasse entre o céu e a terra antes de  mergulhar no negro horizonte. Naquele instante tomei a decisão de me reconciliar com essa viagem forçada, de abandonar de vez a tentativa recorrente de  recusar-me a ceder à coerção de Hishin, e permiti que o meu profundo cansaço me conduzisse para a cama que me esperava, sobre a qual pendia uma corrente de flores amareladas e murchas.
Não podia adivinhar que, além das espessas trevas que tinham baixado  sobre o rio e suas redondezas, também setores inteiros da cidade velha estariam  imersos em neblina. Apesar da iluminação esparsa das ruas, ou justamente por  causa da luz mortiça, confundiam-se os pontos do caminho que eu havia  memorizado para voltar. Não me restava alternativa a não ser repetir o nome do  primeiro hotel, o recusado, às pessoas que passavam, em geral cheias de boa  vontade, porém atrapalhadas e confusas, muitas vezes dando indicações erradas. Para meu desespero, comecei a reconhecer barraquinhas e lojas pelas quais  passara havia pouco, e percebi que estava andando em círculos por ruas paralelas a uma grande praça que não levavam a lugar nenhum. Decidi verificar as  informações desde o começo, mesmo que precisasse de vez em quando acordar  alguém adormecido na calçada. Não sei como, cheguei ao primeiro hotel, o  recusado, que estava cheio de luzes, música e canções, por causa de um casamento.
 Acabei participando um pouco da festa, num estado de suave encantamento. Dali consegui encontrar sozinho o caminho de volta ao nosso hotel,  que me pareceu escuro e silencioso.
Subi correndo até o segundo andar, curioso para saber se os Lazar estariam  zangados pela minha prolongada ausência, ou se haviam se conformado com o  fato de não terem direito de me controlar além das minhas obrigações médicas  no devido momento. Porém, se recebesse uma reprimenda leve, eu baixaria a  cabeça e a aceitaria calado, decidi. Meu quarto não tinha luz elétrica, apenas  uma lamparina que fora trazida na minha ausência e estava pendurada na corrente de flores amareladas e murchas sobre a cama. Fui depressa bater delicadamente à porta vizinha, para informar o meu retorno e saber o que tinham  feito e visto na minha ausência. Lazar abriu a porta, tonto de sono, olhos vermelhos e semicerrados, descalço, baixinho e desajeitado dentro de um velho pijama de flanela. O quarto deles, que não era maior que o meu, estava atulhado de  roupas e pacotes; uma luz fraca e trêmula brilhava da lamparina escondida  debaixo da cama, que também não era maior que a minha e na qual se via uma  silhueta coberta, apenas as pequenas plantas dos pés deixadas de fora. "A capacidade que ela tem de dormir não fica devendo nada à capacidade de sorrir",  pensei, de novo com uma raiva esquisita. Soube que, desde que nos separáramos, os dois haviam caído num sono profundo e inapelável, desligados da  imensa cidade indiana, e por isso não tinham sequer notado a minha ausência.  Não resisti e ali mesmo, na soleira da porta, como um menino excitado, contei  sobre a Fortaleza Vermelha, sobre os palacetes e também sobre o rio. Ele me  escutou com a cabeça pendida, quase cochilando. O verdadeiro chefe de todo  o nosso grande hospital, segundo Hishin, estava agora diante de mim como um  homem frágil e confuso. Apesar disso, continuei narrando, percebendo que na  silhueta sobre a cama se abriam dois olhos sorridentes. "Estou vendo que você  se divertiu", murmurou Lazar no final, "ainda bem que não nos esperou. Não  seio que nos derrubou desse jeito", começou a se desculpar, "mas foi mais forte  que nós. Na verdade estamos arrastando não só o cansaço da viagem, mas também o de algumas noites em claro. Desde que aquela moça trouxe a carta, estamos um pouco desmontados, apesar de não parecer."
Ele só concordou em separar-se de mim depois de ir até o meu quarto e  pegar duas pílulas para dormir. Com o espírito prático e determinado que o caracterizava, decidira não deixar o sono escapar, para carregar ao máximo suas baterias para a continuação da viagem. Às dez da manhã, quando ele me  despertou com uma delicada batida na porta, percebi que a avassaladora exaustão  da véspera dera lugar à energia intensa de um homem desperto. Desculpou-se  por me acordar, mas "há questões administrativas urgentes". Às dez da noite,  tomaríamos o trem rumo a Varanassi. Uma viagem longa, de dezessete horas.  Tínhamos que liberar os quartos até o meio-dia e levar as coisas para baixo. "Já  esta noite?", perguntei decepcionado. Sabia, no entanto, que a ansiedade de  chegar logo à filha e trazê-la de volta para Israel seria mais forte do que todas as  promessas feitas na sala de visitas do seu apartamento de "vermos algumas coisas bonitas pelo caminho e não fazer da viagem uma via-crúcis". Lamentei, pois  tinha pensado em voltar ao rio para vê-lo à luz do dia e também visitar alguns  lugares que me pareceram encantadores quando passara por eles na escuridão  da noite anterior. Mas ficou claro que a única alternativa era partir naquela  noite: não havia passagens de avião para as duas semanas seguintes, e até o trem  expresso, no qual depositáramos as nossas esperanças antes de deixar  Israel,  estava lotado. Só com muita esperteza ele conseguira lugares no rápido noturno, confiável e satisfatório, um pouco menos ruim que os outros trens. De outra  forma, quem sabe, talvez tivéssemos que sacudir ém algum ônibus velho como  os dos filmes de aventuras. "Sim, o que fazer?", desculpou-se ele, mas no fundo  parecia contente consigo mesmo por sua capacidade de lidar com as dificuldades administrativas mesmo na Índia. "Chegamos no auge da estação de turismo  dos próprios indianos. E, afinal, não fomos nós que escolhemos a data da viagem, foi ela que nos escolheu. Ao menos há uma vantagem: o ar está agradável e não estão desabando tempestades terríveis sobre a nossa cabeça."
Então surgiu sua mulher atrás dos óculos escuros, pronta para a jornada.  Trocara a túnica azul por um xale indiano colorido, que arranjara tempo para  comprar de manhã e jogar sobre os ombros. Nos pés, sapatos adequados para caminhada, sem salto, que a deixavam mais baixa e rechonchuda. Quando me viu  pela fresta da porta do meu quarto, juntou maliciosamente as palmas das mãos  uma contra a outra e inclinou-se, como nos filmes, numa saudação indiana, e  disse numa admoestação maternal:
"Você dormiu e dormiu. Mas, apesar disso, aceite nossa gratidão pela  Fortaleza Vermelha. Graças ao seu relato noturno, corremos esta manhã para vê-la, e é mesmo linda. Agora vamos até um castelo maravilhoso que todos nos  aconselharam a ver. Será que ele quer ir conosco?", perguntou ao marido. Antes  que ele respondesse, ela voltou-se para mim com entusiasmo: "Quem sabe você  não vai mesmo conosco? Alugamos um riquixá de motocicleta que está esperando lá embaixo, e no hotel todo mundo diz que é proibido deixar Delhi sem  ver o castelo com a torre".
Nesse momento o marido agarrou a mão dela, e notei que a apertava de  leve, de forma quase imperceptível, procurando ocultar, talvez inconscientemente, o código íntimo da relação amorosa de ambos. "Deixe o rapaz acordar  sossegado", censurou carinhosamente, "você dormiu desde ontem sem parar,  mas ele ficou circulando até tarde, e esta noite uma dura viagem o espera; além  disso, não tenho certeza de que o tal castelo valha essa correria toda." Então ela  me pareceu mais frágil, rindo sem graça. Talvez lhe desse prazer saber que, no  fundo, o marido só ia ao castelo para lhe fazer companhia.
Lazar revolveu os bolsos, tirou a minha passagem de trem e disse: "Por  segurança, é melhor ficar com você". Tirou em seguida uma caneta, anotou no  verso da passagem o nome da estação ferroviária e determinou que às oito horas  nos encontraríamos no hotel para irmos juntos para lá.
"Às oito?", protestou a esposa desapontada. "Por que tão cedo? O trem só  sai às dez, e não vai dar tempo de voltarmos, esse horário é impossível, todo  mundo aconselha a ver o pôr-do-sol no castelo. Acho melhor nos encontrarmos  na estação; já temos certeza de que  ele não vai se perder."
Por um momento me ressenti da calma com que ela definia a programação, alisei a minha barba de dois dias e perguntei com um sorriso provocativo:
"Se mesmo assim nós nos perdermos, o que vamos fazer?"  "Ora, por que haveríamos de nos perder?", disse perplexa a mulher que  estava conosco porque não suportava ficar sozinha.
Lazar me deu razão: "Você está certo, tudo é possível, e se realmente você  se perder aqui, não temos nem mesmo a quem informar". Em seguida, apressou-se em anotar num outro pedaço de papel o endereço do hospital em Gaia.  "Fica a mais de dois mil quilômetros daqui", disse sorrindo, "mas ao menos é  um claro ponto de referência. Dinheiro eu já lhe dei. E já paguei o seu quarto  no hotel. À noite, de qualquer modo, vamos nos encontrar aqui—e, sim, senhora, às oito." Disse para a esposa em tom de censura: "Você sempre acha que se pode brincar com o tempo. Mas não aqui. Portanto, até às oito da noite todos  nós estaremos aqui de volta. Até lá você está livre, estou percebendo que gosta  de passear sozinho, só tome cuidado para não se atrapalhar como ontem. Não  vamos nos enervar mutuamente".
Não foram logo embora. Esperavam o rapaz de pele escura, muito educado, que a recepção enviara para descer as malas. Fechei a porta devagar, na presença deles, e apesar do cansaço não voltei para a cama, fui me barbear. Súbito  a palavra me voltou à cabeça: "enervar". Era a palavra certa. Aquele casal gorducho estava começando a me enervar, sem que eu soubesse direito como e por  quê. Talvez eu fosse sensível demais, mas alguma coisa naquele laço forte e profundo entre os dois, oscilando e deslizando com notável eficiência entre o espírito prático, preocupado e objetivo de Lazar e a simpatia calorosa e falsa de sua  mulher, com seus sorrisos repentinos e supérfluos, algo estava começando a me  incomodar. Apesar da sua atitude aberta, não estavam sendo sinceros comigo,  e eu não sabia o que se escondia na cabeça deles, que sem dúvida funcionava  como uma cabeça só, totalmente coordenada. Até uma coisa simples como  definir o meu pagamento na viagem ainda não tinha sido resolvida. Se era difícil  saber qual era a verdadeira relação deles com o dinheiro, como seriam os cálculos monetários entre os dois e entre eles e mim? E não era estranho carregarem  um médico junto? Afinal, bastaria mandar um representante que acompanhasse a tal filha de volta para casa. Aliás, parecia-me que tinham certo medo do encontro com a filha e estavam me levando como uma espécie de intermediário. Teria Lazar dito a verdade ao afirmar que a mulher não podia ficar sozinha?  Parecia muita loucura. Eu já estava conseguindo sentir a força daquela ligação  conjugal tão poderosa, num casal pouco mais novo que os meus pais. Mas como  eram diferentes dos meus pais! Meu pai jamais se permitiria agarrar e apertar a  mão da minha mãe daquela maneira tão íntima para fazê-la parar de falar. Meu  pai jamais admitiria um homem jovem e estranho viajando com eles. "Mas",  eu disse a mim mesmo, passando espuma no rosto pela terceira vez, como se  quisesse firmar o barbear para a viagem que começaria naquela noite, "talvez  eu seja mesmo sensível demais, e sem necessidade, talvez porque no íntimo  ainda esteja me ressentindo dessa viagem imposta por Hishin. Hishin, que  agora, nas primeiras horas do dia em Israel, sou capaz de ver entrando lépido e  espalhafatoso na sala de operações, onde já o aguardam as enfermeiras, o anestesista, o segundo residente, que certamente já colocou a máscara no rosto. E  Hishin faz gracejos, brinca com o doente deitado de olhos fechados na maca,  morrendo de medo sob o efeito dos anestésicos, pronto para a 'decolagem'.  Talvez Hishin até faça algum comentário irônico com a equipe à sua volta, referindo-se a mim, o primeiro residente, e à fantástica viagem que o seu espírito  magnânimo conseguira me proporcionar." No entanto, era muito claro para ele  e para toda a equipe que a minha grande aspiração era estar ao seu lado, quer  dizer, ao lado da mesa de operações, e participar cada vez mais, e me aprofundar mais e mais no âmago do corpo humano, na esperança de algum dia receber o bisturi na minha mão.

3.
    
 
Será que já é permitido trazer à tona a palavra "mistério"? Ou será possível,  até este momento, apenas pensar nela? Porque os  nossos três heróis (Três? Por  enquanto.) não pedem nenhum mistério; a relativa estabilidade de sua personalidade e a racionalidade satisfatória de seu pensamento dispuseram para eles  uma meta clara e um caminho preciso para lá chegarem. E se ao menos estivessem livres da tirania da imaginação, dos seus caprichos, chegariam com suas próprias forças ao âmago simples da questão e voltariam em paz para seus lares, após  se separarem uns dos outros sem mágoas de forma pacífica.
Mas o que têm eles a ganhar de um mistério que não conduz a nada? Pois,  afinal, essa é a sua essência. Não tem direção, pois a meta desaparece uma vez  esquecida a causa. E na rotação implacável do globo terrestre ele surge de repente entre nós como um triste parente internado numa antiga instituição de doentes  mentais, liberado para uma folga apesar de ainda não estar curado de sua loucura, acreditando que o globo permanece parado em seu lugar, e cada hora se encerra em si própria, e nada no universo se perde jamais; e assim fica longamente sentado diante de nós, pálido, os óculos de metal rachados, tortos diante dos olhos, e  uma pequena valise de couro surrada com suas preciosidades, e após terminar de  nos fazer ver suas concepções fantásticas, ele de súbito se levanta, toma cuidado para não derramar a xícara de chá que colocamos à sua frente, e como sonâmbulo começa a vagar pelos quartos, querendo encontrar pessoas e fatos que já se  foram deste mundo.
E por ser notória sua presença inconsciente, ele se transforma em mistério,  mas aí também o seu humor se perdeu, e uma seriedade terrível passou a corroer  sua vitalidade. Sem humor os seres humanos podem se encontrar, mas como se  separar um do outro sem humor? E esse jovem médico, personagem um tanto pensativo e propenso
à solidão, três dias atrás inesperadamente desligado do departamento cirúrgico do professor Hishin, departamento que ele muito amou e que  preencheu seu coração durante o último ano, e no qual depositava suas esperanças para o futuro—agora, por causa da viagem repentina à índia, não lhe resta  sequer outra esperança a que se apegar. Ele termina de fazer a barba, lava o rosto  e começa a empacotar seus pertences com silencioso ressentimento. Porém, antes  de se separar de vez do sombrio quarto cuja cortina de cetim colorida ainda oculta muito bem a janela, preparando-se para um dia intenso de passeios pela cidade, para não passar vergonha diante de seus possíveis amigos por ter estado em  Nova Delhi e não ter visto o que é obrigatório ver—verifica se a porta está trancada, tira a roupa toda e cai nu sobre a cama, e masturba-se pesadamente e sem  fantasias, de modo a ficar mais leve e livre para a longa viagem que tem pela frente, pois, pelo que sabe, a próxima cama a lhe ser fornecida pelos seus decididos  companheiros de viagem encontra-se muito distante.
Mas não existe aqui nenhum desejo oculto do jovem médico de imaginar  esta cama como uma cama misteriosa, se bem que, ao sair do hotel, ereto e ligeiramente tonto, dirigindo-se para o coração da luz avermelhada indiana, que flutua sobre a superfície das ruas malcheirosas de colorida e atordoante humanidade, penetre na sua alma um toque de ansiedade, já que ontem, nessas mesmas  ruas, apesar da escuridão da noite, sentia-se tranquilo. Pois o filme inglês, do qual  imaginava participar para proteger-se, desaparecera durante a noite, e agora ele  estava exposto, sem qualquer barreira, àquela estranha e poderosa realidade. E  essa aflição era tão nova e súbita para o médico, que ele parou o primeiro riquixá  que surgiu à sua frente e, embora fosse puxado por bicicleta, e não motocicleta,  acomodou-se no assento macio, e disse: "Leve-me primeiro para a tumba de  Humayiun". E o ciclista condutor, um indiano sério de cerca de cinquenta anos,  de óculos escuros, falando inglês melhor que o seu passageiro, revelou-se um excelente guia de turismo e durante o dia inteiro conduziu com inteligência e habilidade seu jovem turista, que assim teve tempo de ver não só o que os guias turísticos consideravam obrigatório, mas também os pontos opcionais. Assim, após visitarem a tumba de Humayiun, Kutab Minar e até mesmo o Museu Nacional, e ao  notar que o seu passageiro não era preguiçoso, tinha olhar rápido e andar ágil, o  ciclista guia sugeriu-lhe visitar, talvez na condição de médico, um local único e  especial: um hospital para pássaros, não distante da Fortaleza Vermelha. Ali, no  segundo andar, numa sala sombria, diante de gaiolas malcheirosas onde se  encontravam pássaros doentes e feridos, com talas nas pernas, algumas aves de  caça, depenadas e dilaceradas, soltando terríveis gritos repentinos, naquele lugar  a aflição do médico se tornou mais profunda, até que sua alma tremeu e ele pediu  para encerrar a visita. "Que ideia maluca!", argumentou já do lado de fora; mas,  constrangido com a decepção do seu guia, corrigiu-se e disse: "Pode ser uma ideia  original, mas será que o sofrimento humano aqui não deve ter prioridade?".
Então o guia tirou seus óculos de sol, revelando olhos um pouco inchados, e  falou sobre a transmigração das almas, e o médico disfarçadamente cerrou os  punhos, baixou a cabeça e escutou em silêncio; e quando a explicação terminou,  pagou-lhe a quantia combinada e dispensou-o sem qualquer gorjeta. Em vez de  ir de novo até o rio para vê-lo à luz do dia, como era sua intenção; voltou devagar,  um pouco deprimido, para as proximidades do hotel. Eram cinco da tarde, e a  suavidade da luz que enfraquecia misturava-se com o perfume de fragrâncias desconhecidas. Agora já tinha em mãos um mapa de Delhi e conseguiu encontrar  seu caminho sem precisar perguntar a ninguém. Sentou-se em um dos restaurantes e observou a multidão à sua frente, e entre os inúmeros turistas descobriu para  seu espanto também Lazar e a esposa, ainda embrulhada no xale indiano que vestia de manhã, passando diante de seus olhos a poucos passos de distância com a  maior naturalidade e simplicidade, e desaparecendo dentro de uma loja próxima  que vendia tecidos e tapetes. "Que estranho deparar justo com eles numa cidade  de milhões de pessoas, numa pracinha sem nada de especial. Muito esquisito",  pensou de novo, engolindo rapidamente o chá, esperando o momento em que sairiam da loja para dirigir-se a eles e poder aliviar um pouco sua depressão com o  sorriso dela, comparar os locais que tinham conseguido visitar. Talvez houvesse  ainda algum ponto turístico obrigatório a ser visto para preencher as últimas  horas em Delhi. Mas eles não saíam da loja. A xícara permaneceu vazia à sua frente, já havia pago ao garçom, e intimamente sorriu mais uma vez pelo apetite  insaciável daquele rechonchudo casal de meia-idade. No final, não se conteve e foi procurá-los dentro da loja. Não estavam lá, e a loja não era grande, e não parecia haver outra saída. Eis algo prodigioso: eles aparecem e desaparecem de repente.
"Isso está começando a ficar misterioso", disse baixinho, ainda sem ousar pronunciara palavra, mas apenas o adjetivo correspondente a ela.
Quando chegou ao hotel, às sete horas, uma hora inteira adiantado, voltou  a si. Onde estava o mistério? Aparentemente tinham saído da loja e desaparecido  de vista nos exatos instantes em que ele pagara ao garçom e conferira o troco.  Recostou-se num sofá de couro macio num canto não muito distante da recepção,  com a mala e a mochila prontas ao seu lado. Agora podia examinar cuidadosamente os hóspedes que entravam e saíam, com olhar especial para as mulheres  indianas, sem se importar com a idade, para descobrir o ponto de ligação com  uma sexualidade ocidental, ainda que um pouco tímida, como a dele. E então  pensou nos seus pais, e desejou lhes dar um prazer e telefonar, não porque estivessem preocupados, "pois afinal não se preocupam comigo", pensou, "eles confiam  totalmente na sagacidade de Lazar" – o seu acanhado pai sempre nutrira grande admiração por administradores do tipo dele; telefonaria só para  tranquilizar-se com o som das suas vozes, pois afinal eles também eram um pouco responsáveis  por essa viagem. O recepcionista não podia fazer a ligação internacional do telefone do hotel e sugeriu-lhe que fosse até a agência do correio, que ficava a certa  distância. Mas o jovem médico não queria abandonar o seu sofá de couro macio  e decidiu adiar a ligação. Já eram oito horas, a noite estava escura, e os Lazar  ainda não tinham aparecido. Não ficou preocupado nem irado, apenas se admirou um pouco. A rua que se avistava pela porta do hotel não havia mergulhado,  como na véspera, em escuridão e silêncio: parecia festiva; lamparinas novas e em  grande quantidade haviam sido trazidas para o saguão do hotel, e pessoas em trajes de festa passavam ao seu lado. Com estranha satisfação disse a si mesmo "esses  dois são loucos; a filha doente a dois mil quilômetros daqui, precisando deles, e  eles passeando e se divertindo como dois provincianos, procurando bagatelas  entre panos indianos". Mas às nove horas percebeu que alguma coisa séria devia  estar ocorrendo. "Não vamos nos enervar mutuamente", recordou-se do lema de  Lazar, mas ainda não sentia amargura nem raiva, apenas uma profunda surpresa. A passagem de volta para Israel estava na sua carteira, todos os documentos estavam com ele. Se de fato tivessem sumido, seria outra vez dono de si mesmo e  teria o direito inclusive de voltar para casa.
Às nove e cinco pegou seus pacotes, deixou um recado no hotel e dirigiu-se  para a estação ferroviária. Talvez conseguissem, de qualquer maneira, chegar lá  no último momento, mesmo sem as malas. Mas no instante em que penetrou no  coração do ciclone dentro da velha estação, onde a própria essência da febre de  viagem se revelava
na sua forma mais pura, imersa numa mortiça luz amarelada,  inundada de fumaça e odores, agitando-se e gemendo nos vagões lotados de gente,  nos quais trouxas e colchões pendiam por todo lado e ocupavam toda abertura disponível, o jovem médico sentiu fenecer o resto da esperança de encontrar o casal  desaparecido. Apesar disso, abriu caminho entre a multidão resolutamente, indo  de plataforma em plataforma até chegar ao trem correto, à cabine exata, que se  revelou agradável e moderna, com um ar condicionado que lembrava o friozinho  europeu. Os quatro assentos pareciam confortáveis, prontos para serem convertidos em estreitas camas para o sono noturno. As vidraças escuras e opacas transformavam a febre de viagem da estação numa tela de televisão. Será que no final  viajaria sozinho e contra a sua vontade até as profundezas da Índia para encontrar uma moça doente e desconhecida, com um objetivo médico indefinido?—perguntou a si mesmo com a leve ironia herdada de seus pais ingleses. E a admiração e a solidão que sentira durante todo o dia cresceram dentro dele com intensidade renovada, varrendo de uma vez por todas o que restava de raiva e desapontamento. Agora sua alma estava preenchida com uma onda doce de mistério.
Não se trata ainda do mistério em si, apenas da sua doçura, que agora nasce  não da realidade externa que se revela do outro lado da grossa vidraça, mas das  profundezas do interior desse jovem médico, que o professor Hishin apresentou  aos seus amigos como sendo ideal para essa viagem. Pois apenas o olhar de um  turista poderia buscar mistério, por exemplo, num trem indiano que subitamente  começa a bufar e a mover-se devagar para a frente e para trás, apenas para receber vagões adicionais, aos quais se dirigem apressadamente altos monges tibetanos em trajes alaranjados, afastando de forma educada, porém decidida, pedintes inoportunos, entre os quais alguns aleijados de verdade, com membros  amputados, arrastando-se pela plataforma entre as pernas dos carregadores ocultos sob imensas pilhas de colchões enrolados pertencentes a um grupo de peregrinos que passam alegres pela plataforma. Entre eles, saltitando como mariposas, algumas mulheres delicadas, com um terceiro olho inteligente no meio da testa  servindo de advertência e protegendo-as de serem atropeladas pelos sikhs com  suas barbas negras e adagas, que são obrigados, eles também, a contornar com  impaciência a vaca branca solitária que entrou inocentemente na estação e agora  pasta o ralo capim que cresce junto à plataforma, indiferente aos olhares ferozes  dos indianos magros e seminus que se penduram nas laterais dos vagões e discutem com os funcionários da companhia, que procuram forçá-los a descer do teto  de um dos trens mais antigos, onde penduraram a si mesmos e a suas trouxas para  passara noite.
Não, em tudo isso que está fervendo agora na velha estação ferroviária de  Delhi não há nada de mistério aos olhos do jovem médico, nem sequer uma pálida sombra da sua doçura. Apenas ele, sentado calmo e sereno, cinco minutos  antes da partida do trem, na cabine certa e no assento certo (tinha conferido repetidas vezes), a mala e a mochila médica na prateleira sobre a sua cabeça. Nessa  quietude quase feliz, submetendo-se à tarefa que uma mão invisível lhe havia  indicado, eis que surge nele um sinal claro e genuíno, e ele não consegue resistir e  sussurra para si mesmo, no exato momento em que o trem começa a se mover:  "Não é possível, aqueles dois realmente sumiram, e isso é realmente um mistério".  Um velho indiano de rosto magro faz uma ligeira saudação com a cabeça ao  entrar na cabine; veste um terno europeu de cor clara cheio de manchas e carrega  uma velha mala estropiada, curva-se um pouco, toma cuidado com a xícara de  chá que o cabineiro colocara na bandeja à sua frente alguns minutos antes. O  velho se senta timidamente, tira do bolso um par de óculos de metal baratos com  uma lente rachada e abre um jornal em hindi. E quem ouvir agora a palavra inevitável, proferida com naturalidade e espontaneidade, enfim terá o direito de  colocá-la com cuidado no papel à sua frente.
Dois ou três minutos depois que o trem deixou o inferno amarelado da estação e, como se estivesse suspenso no ar, começou a cruzar o rio negro como  piche, a porta da cabine tremeu com uma violenta batida, que assustou tanto o  passageiro indiano, que fez cair o jornal de sua mão. Pela janelinha da porta distingui a cabeleira cinzenta de Lazar e apressei-me em abrir. Encontrei os dois  espremidos no corredor com as duas malas. O rosto de Lazar estava lívido do esforço, e seus olhos cheios de culpa fugiam dos meus. Antes de erguer as malas  para colocá-las na prateleira, resolveu desculpar-se pela absurda falha. Primeiro abraçou meus ombros, depois segurou a minha cabeça com as duas mãos e  começou a sacudi-la. "Não entendo o que aconteceu conosco", disse aflito,  "não entendo como pudemos nos perder desse jeito." Sua mulher caiu numa  gargalhada solta, aliviada, espantando o velho indiano, que dobrara o jornal e  enfiara os óculos rachados no bolso de modo a ficar livre para apreciar aquela  risonha mulher. Seu coque estava desmanchado, e os cabelos caíam sobre a  face gorda e corada, cuja maquiagem desaparecera por completo. Deviam ter  passado uma hora de grande ansiedade, e agora estavam contentes por terem  me encontrado. Lazar continuava se justificando; com a prática de alguém que  sabia jogar a culpa nos outros, parecia ávido por assumir a culpa, mas também  por me explicar como haviam se confundido e onde tinham errado, e novamente pedir desculpas pela preocupação que me causaram. É que eles também tentaram telefonar para Israel, só que ninguém os avisara quanto tempo levaria para conseguirem a ligação.
"Já basta, o que importa?", interrompeu ela, irritada com as repetidas desculpas do marido. "Você não lhe causou preocupação alguma, ele teria chegado lá sozinho, e nós chegaríamos um dia depois; eu já lhe disse que ele não é do  tipo que se perde." Falou isso com uma ironia delicada e sutil, penteando-se  diante de um pequeno espelho pendurado no canto da cabine e sorrindo para  Lazar como se ele fosse um menininho. No final lançou um sorriso também  para o velho indiano, que não tirava os olhos dela, pegou o copo de chá que estava sobre a sua bandeja e começou a sorver com os olhos fechados. Só então  Lazar também sossegou, pondo-se outra vez a arrumar as malas sobre as prateleiras, empurrando e ajeitando. Depois de uma hora, quando nos trouxeram as  refeições prontas, incluídas no preço da passagem, finalmente tirou a capa, sentou-se e comeu com apetite.
Nesse ínterim sua mulher pesquisara com cuidado e polidez o motivo da  viagem do indiano, que se dispôs a responder num inglês razoável e chegou a  lhe oferecer o seu cartão de visitas. Contou que era funcionário num departamento governamental em Nova Delhi, aposentado havia pouco, e estava viajando pela primeira vez de Delhi para Varanassi, para banhar-se no Ganges  antes de morrer e para participar da cerimônia de cremação do corpo de seu  irmão mais velho, que seria levado para lá, vindo do sul, pela sua cunhada e os  sobrinhos. Toda vez que ele repetia a expressão "antes de eu morrer", os olhos  da sra. Lazar perdiam o sorriso, e o rosto ficava sombrio, como se ela se  recusasse a experimentar, mesmo que só escutando, a ideia da morte. Mas ela se enganava, ao velho passageiro ideias de morte só davam prazer. Uma vez que nada  se perde neste universo, banhar-se no rio sagrado apenas lhe asseguraria as  melhores condições de renascimento.
"Incrível, esse indiano de fato está convencido de que alguém vai fazê-lo  nascer de novo", exclamou Lazar em hebraico, satisfeito e dando um sorriso  bem-humorado. Ainda mostrava uma expressão de cansaço, exausto do esforço  e da tensão. A respiração parecia ofegante; por um momento temi que algo no  seu coração estivesse falhando. O passageiro indiano calou-se, como se tivesse  percebido que caçoavam dele. Lá fora, escuridão total; não se via uma única luz  que sinalizasse sequer uma realidade fugaz, o trem parecia estar rodando sem  sair do lugar. Logo o indiano ouvia atento a história da mulher de Lazar, explicando o objetivo da viagem. Não parecia surpreso com o fato de três pessoas  virem de Israel especialmente para levar de volta a filha doente. "Talvez ela esteja mergulhada no nirvana", disse com absoluta seriedade, "e haja necessidade  de muitas forças para tirá-la de lá." Por volta da meia-noite um jovem veio recolher os pratos sujos, servir chá, distribuir cobertores e ajudar-nos a converter os  assentos em camas.  Eu e a mulher subimos para os leitos superiores, o indiano  e Lazar deitaram-se nos inferiores. Apagamos a luz, cobrimo-nos com os cobertores, mas eu receava não conseguir adormecer, pois me sentia acuado pela intimidade deles. Estranho, era a existência do velho indiano deitado abaixo de mim que me acalmava. Meu rosto se encostou na vidraça escura, forcei os olhos  até distinguir os contornos da realidade externa: casas miseráveis de camponeses e estradas de terra desoladas. Aqui e ali, parecia-me divisar um homem  lavrando o campo, e não era possível saber se um novo dia estava nascendo ou  se o anterior ainda não terminara. Vez ou outra o trem diminuía muito a velocidade, nas estações das pequenas aldeias, passando suavemente pelas sombras  embrulhadas em cobertores deitadas junto aos trilhos, observando o trem com  profunda curiosidade. A mulher de Lazar adormecera imediatamente e começara a roncar, mas ele ainda rolava na cama estreita. De vez em quando se levantava, encostava a mão na mulher para fazê-la parar de roncar, mas o resultado  durava pouco, pois o ronco breve recomeçava e ia se avolumando, delicado mas  potente. Por fim ele não se conteve e a acordou. "Dori", sussurrou com firmeza, "Dori, você está incomodando a todos." Ela despertou, ergueu-se um  pouco, confusa, olhou para mim e sorriu o seu sorriso automático, fez um sinal  com a cabeça para o marido, como se estivesse concordando com algo, e caiu  de novo no sono, arrastando-me junto.
Entretanto seu sono não contagiou o marido, que se revelou insone também na viagem de trem. Quando acordei, ao nascer do dia, assustado com o ranger das rodas que meu sono profundo conseguira abafar, logo o vi sentado pesadamente na sua cama baixa, sozinho e triste sem a sorridente esposa ao seu lado.  Quando percebeu que eu tinha aberto os olhos, procurou contato comigo.  Embora pudesse ter continuado a cochilar na minha cama, estreita e aquecida,  senti a sua aflição e desci para conversar. Contou que ficara a maior parte da  noite sentado desperto ou circulando pelo trem. Tinha até se lavado e barbeado. Estava muito tenso para conseguir dormir nessa viagem, e ler tampouco era  fácil. A expectativa do encontro com a filha doente o atormentava, e também o  preocupavam assuntos do hospital. Então, pela primeira vez, eu quis falar sobre  o hospital, e ele acedeu de boa vontade, mas sugeriu que continuássemos a conversa no corredor. "Não há motivo para incomodar quem consegue dormir em  qualquer circunstância", disse sorrindo, e não sei se se referia apenas à mulher,  ou também ao velho indiano, que havia se encolhido e transformado numa  pequena bola branca que ocupava apenas a metade da cama, como se estivesse  ensaiando a posição fetal para o renascimento. No corredor do trem, que agora  corria entre colinas avermelhadas, comecei a fazer-lhe perguntas acerca do  hospital, e descobri, graças ao seu ponto de vista administrativo, coisas novas e  surpreendentes inclusive sobre o departamento cirúrgico, que eu julgava  conhecer muito bem. Embora não tivesse familiaridade com os aspectos médicos profissionais, captava de forma admirável como se organizava o trabalho no  departamento e tinha um conhecimento espantoso sobre detalhes pessoais e  íntimos dos médicos e das enfermeiras. Sobre qualquer pessoa que eu mencionava, médico ou enfermeira, ele mostrava saber alguma coisa e acrescentava  um comentário ou avaliação. Às vezes adicionava alguma história sobre disputas de poder e o resultante sucesso ou fracasso. Também a meu respeito, pensei,  e le devia ter um conhecimento detalhado, talvez até uma opinião sobre as  minhas capacidades, formada a partir de pessoas que eu não imaginava que se  dessem ao trabalho de pensar sobre mim, mas ele tomou o cuidado de não dar  nenhuma pista. Perguntei-lhe sobre os planos para o futuro, na esperança de  mudar o rumo da conversa, mas ele suspirou e começou a despejar números  sobre cortes no orçamento, que atingiriam os planos de expansão que havia preparado, como, por exemplo, prédios com duas salas cirúrgicas e laboratórios  modernos, cuja localização desenhou no ar com gestos largos.
Por entre a neblina, começava a brilhar a primeira luz da manhã, e um sol  grande e redondo surgiu de uma direção inesperada. Assim teve início o longo  dia de viagem de trem para Varanassi, em meio à claridade das estradas de terra,  choupanas e vilarejos que deslizavam lentamente diante das vidraças escuras,  intercalada pela penumbra poderosa e aromática de grandes estações ferroviárias, nas quais parávamos subitamente entre trens de diversos tipos e cores, que  trocavam centenas de passageiros entre si. Nos minutos contados de parada, às  vezes Lazar corria para a plataforma atulhada de gente para nos trazer balas e  doces ou o típico pão indiano, ou ainda garrafas de alguma bebida gasosa desconhecida. A mulher, quando não o acompanhava, ficava em pé junto à janela, para não perdê-lo de vista. Em Roma eu já havia notado que os dois eram loucos por doces, e mesmo na Índia não hesitavam em chupar ou mascar todas as  espécies de guloseimas que o nosso companheiro de viagem indiano lhes sugeria e cujo nome os ensinava a pronunciar. Ele trocara seu velho terno manchado por uma longa túnica branca, despertando uma sensação de agradável proximidade; em pouco tempo estava imerso numa longa conversa com a mulher  de Lazar, que parecia interessada nas suas concepções sobre a vida e o mundo,  interrogando-o com o maior cuidado, educação e delicadeza. Essa atitude permitiu que ele se aproximasse a tal ponto, que acabou tirando de sua pequena  valise um baralho de cartas velhas, com fantásticas imagens coloridas de deuses e semideuses, e tentou nos ensinar uma espécie de pôquer indiano, cujas  regras estranhas provocaram na mulher um tamanho acesso de riso, que ela  pareceu ter esquecido completamente o motivo real da viagem.
No começo da tarde, o Ganges revelou-se em toda a sua grandeza, calmo,  não longe da estrada de ferro, e o rosto escuro do indiano iluminou-se com a  exuberante luz dourada. Já possuído pela reverência à santidade que corria ao  seu lado, interrompeu o jogo de cartas e a conversa com a mulher, levantou-se  cheio de força e vitalidade e saiu para o corredor, para recolher-se em meditação diante do rio. Mas enquanto o indiano visivelmente se fortalecia, antecipando os efeitos do banho sagrado que o esperava, o insone sr. Lazar ficava mais  fraco, os olhos se fechavam de vez em quando, a cabeça pendia para o lado, tombava e voltava a se levantar.
"Tente deitar-se um pouco, não seja teimoso", insistia a mulher, mas ele não conseguia libertar-se da tensão.
"É tarde para dormir, daqui a pouco estaremos chegando." Por fim, ela o  convenceu a tirar os sapatos e esticar-se no assento, e até mesmo a superar a vergonha pela minha presença e deixar que ela segurasse com força sua cabeça,  apoiada na sua barriga redonda, como se quisesse absorver parte da sua tensão.  E funcionou, pois após alguns minutos de hesitação e resmungos Lazar caiu  num sono profundo, com a respiração solta, como se tivesse adormecido nas  mãos de um anestesista experiente. A mulher lançou-me um sorriso de satisfação e tentou iniciar uma conversa, que eu interrompi.
"Não acho bom incomodá-lo", sussurrei, "agora que ele finalmente conseguiu adormecer." A minha reação deixou-a surpresa, e pela primeira vez  notei que ficara ofendida: suas bochechas, que apesar de encobertas pela sombra da tarde reluziam ao sol, coraram de leve. Ela me obedeceu, tirou os óculos e fechou os olhos. Uma hora depois, quando o trem começou a diminuir a  velocidade para a festiva entrada na estação enfumaçada, destino da viagem, e  Lazar despertou das profundezas do seu sono, descobriu na cabine silenciosa  que a mulher também tinha adormecido, e apenas o meu sorriso vigilante se  descortinava à sua frente.
O velho passageiro indiano, tão amigável e conversador durante as longas  horas de viagem, tornara-se fechado e distante com a aproximação do fim,  como se temesse que nos agarrássemos a ele, seguindo-o nos deveres místicos  que o aguardavam no rio sagrado. Na movimentada plataforma seus familiares  já o esperavam, vestidos de branco como ele, e imediatamente o envolveram  sem deixar vestígio. Nós três ficamos olhando, quietos e embasbacados. A multidão que víramos nas ruas de Nova Delhi parecia pequena e silenciosa comparada com a de agora. Fomos forçados a nos colar um ao outro e agarrar com força  as malas, que pareciam ter criado vida com o movimento da multidão frenética ao longo da plataforma. Quando Lazar decidiu parar em Varanassi, não imaginava a quantidade de estrangeiros e peregrinos que nessa época visitam a cidade, um dos pontos altos do turismo local. Será que não tinha sido avisado pelos  agentes de viagem em Tel Aviv? Ingenuamente havia comprado um guia e olhado no Mapa, procurando um lugar concreto no caminho de Nova Delhi para  Gaia; marcara no mapa a cidade de Varanassi, às margens do Ganges, como um  dos pontos turísticos que havia me prometido. Partira do princípio de que seria  melhor fazer uma escala na viagem de ida, ainda que nos custasse um dia de  atraso, porque, a partir do momento em que nos encontrássemos com a filha  doente, estaríamos preocupados apenas em voltar logo para casa. E Varanassi,  onde decidira parar por vinte e quatro horas, revelou-se sagrada demais para  nós. Enquanto Lazar regateava com um carregador baixinho e esperto que  havia se grudado a nós, uma das duas malas dos Lazar foi carregada pela multidão e desapareceu. Primeiro Lazar ficou desesperado, quase às lágrimas. Mas  recompôs-se e mergulhou na multidão, empurrando e fazendo alvoroço em  busca do ladrão, pois não conseguia conformar-se com a perda, embora a  mulher já começasse a acalmá-lo. No final, deixaram-me num canto, tomando  conta do carrinho com o resto da bagagem e todos os pacotes, e os dois saíram  na companhia do carregador baixinho para procurar a mala roubada. Outra vez  me pareceu ridículo que ambos precisassem fazer tudo juntos, ou então que, de  fato, a mulher fosse incapaz de ficar sozinha, mesmo que numa situação como  aquela, por exemplo, permanecesse ao lado de um homem como eu.
Mas talvez exatamente graças a isso conseguiram o impossível: no meio do  turbulento mar de gente encontraram a mala, que na verdade não fora roubada, apenas arrastada e colocada por engano num outro carrinho. Agora lá estava ela, nas costas do pequeno carregador, danificada e cheia de poeira, como se  durante o breve período de desaparecimento tivesse viajado pelo continente  inteiro. A mesma coisa parecia ter acontecido conosco. Nova Delhi nos dera a  ilusão errada de que compreendíamos as regras indianas; por isso em Varanassi  fomos tomados de aflição, e Lazar, a quem o sono profundo no colo da mulher  devolvera a agilidade e o vigor, exigiu em tom firme que eu permanecesse ao  seu lado e não começasse a sonhar; de fato, com a sua espantosa percepção administrativa, ele havia captado a minha vontade de sonhar, uma vontade que  às vezes tomava conta de mim no hospital ao amanhecer, após uma noite de  plantão, quando cruzava a linha divisória de um novo dia de trabalho.
"Mas por que você acha que ele está querendo sonhar agora?", perguntou  a esposa admirada. "O sonho é o que está acontecendo agora em torno de nós."
Lazar não respondeu, pois pareceu-lhe que uma das malas estava prestes a  cair do carrinho que o carregador puxava à nossa frente e saiu correndo para arrumá-la, apenas para tropeçar e cair na plataforma; levantou-se depressa, com uma  expressão confusa de orgulho ferido e também ofendido com a gargalhada da  mulher. A expressão se manteve mesmo quando ela lhe perguntou se havia se  machucado, ajudando-o a limpar as roupas. "Não é sonho, é loucura", disse sorrindo para si mesmo, "isto é uma verdadeira loucura. Vamos pelo menos dar o  fora desta estação."
Mas a loucura também nos esperava nas ruas da cidade, que fervilhava de  gente—cidade úmida e empoeirada, cheia de odores adocicados de ervas coloridas desconhecidas. O carregador não esperou instruções; seguiu apressado,  logo acompanhado por um grupo de crianças pequenas descalças, que esticavam as mãozinhas sujas para sentir o couro macio das malas. "Mas para onde  ele vai com essa pressa toda, esse anão maluco?", perguntou Lazar, espantado.
"Para o hotel", respondeu a esposa.  "Hotel?", perguntou Lazar atônito. "Que hotel?"  "Ele disse que há um hotel simpático na cidade velha, com vista para o rio e para os locais dos banhos, aqueles que o funcionário que viajou conosco mencionou, com degraus que entram no rio."
"Mas que hotel, Dori?", repetiu Lazar, assustado, sem acreditar que ela  tivesse tido tempo de combinar algo com o pequeno carregador.
"Um hotel na cidade velha", respondeu ela, "junto ao rio."  "Você enlouqueceu: ir atrás de um carregador como esse e se meter num  hotel na cidade velha no meio de toda a sujeira? O que foi que aconteceu com  você? Não entendo!"
A mulher manteve-se imperturbável, parecendo muito segura de si: "O  que é que pode acontecer de ruim? Vamos experimentar, temos tempo de  sobra. O indiano do trem disse que só vale a pena pegar hotel na cidade velha, pois é a parte mais importante, e nós ficaremos aqui apenas um dia. Pelo menos  vamos poder assistir aos rituais pela janela."
"Que janela?", berrou Lazar. "Não, Dori, não e não! Não vamos começar  de novo uma peregrinação pelos hotéis para cheirar os quartos. Não", prosseguiu com firmeza, "de jeito nenhum, Dori! Não vamos começar com a história de cidade velha; até mesmo aqui, na cidade nova, mal dá para aguentar.  Vamos achar um hotel de gente, estamos exaustos, não importa o preço", e saiu  correndo para deter o carregador que se distanciava.
O pequeno carregador tentou em vão discutir. Virou-se suplicante para a  mulher, como se entre os dois houvesse uma promessa definida, mas Lazar  impediu a conversa com um gesto rápido, e o carregador, obviamente desapontado por perder a comissão que receberia do hotel e magoado pela promessa quebrada, deu meia-volta e nos conduziu pelas ruas até um hotel muito simpático, que agradou a todos mas tinha só um quarto livre. Como Lazar não  queria que nos separássemos justamente naquela cidade, dirigimo-nos a  outros hotéis, todos lotados. Até que chegamos a um hotel novo, chamado  Ganga Mata, que tinha quartos livres, mas pelo jeito muito caros, pois vi que  Lazar, embora decidido a nos acomodar sem fazer contas, vacilou um pouco  diante da expressão calma e serena da mulher, antes de enfim dizer: "Não  importa, é só uma noite". Fez um sinal ao carregador para que entregasse as  malas aos porteiros do hotel, magnificamente fardados, prontos para o serviço.  Então vi a mulher estender o braço para impedir o carregador e puxar com  força o braço do marido.
"Você é mesmo teimoso. Se viemos para ficar só uma noite, por que dormir num hotel comum como este, que existe em qualquer lugar do mundo? O  carregador falou sobre um hotel especial, com vista para o rio. Por que não  experimentar?", disse ela com extrema delicadeza. Lazar, hesitante, ergueu o  braço, como para interromper a ação dos porteiros, que já tinham descarregado duas malas, e coçou a cabeça de modo peculiar, como para simbolizar a dor  de seus pensamentos. "Resolva você", acrescentou ela, "não por causa do  dinheiro, mas por causa da vista." E de repente, sem qualquer sinal prévio,  Lazar acedeu ao desejo dela, apressando-se em advertir:
"É sua responsabilidade, Dori; se aquele hotel não lhe agradar, não se atreva a pedir para voltarmos para cá." Ela não prometeu nada, apenas seus olhos  sorriram.
"Confie na minha intuição", disse, "este carregador sabe aonde está nos  levando. Além disso, o que lhe importa andar um pouco por aí? Você não está  carregando nada, e ainda falta muito para anoitecer, temos tempo. E você já  não está mais tão cansado. Afinal, dormiu profundamente no trem."
O carregador baixinho, que havia acompanhado a conversa, adivinhou  para que lado pendia a balança; antes que lhe fosse dada qualquer instrução,  encheu-se de felicidade e energia e puxou as malas dos porteiros fardados, para  em seguida erguê-las e colocá-las de volta no carrinho. "E eu", pensei, "eu aqui  também sou uma mala, ou o filho pequeno do casal; eles não se preocupam em  perguntar a minha opinião. Talvez eu já esteja muito cansado e prefira ficar  neste hotel." E, de propósito, retribuí com um olhar soturno o sorriso que também fora dirigido a mim, colocando lentamente a mochila médica nas costas,  como se dissesse: "O que posso fazer? Aqui eu sou empregado, não tenho o direito nem de abrir a boca, mas o meu salário ainda não foi combinado". Percebi  que meu olhar a deixara aborrecida, pois, enquanto saíamos, perguntou-me em  tom casual: "Você preferia ficar aqui?".
"O que importa o que eu preferia?", respondi com um sorriso amargo. "Eu  não mando nada."
Então vi que aquela mulher dominadora tinha ficado sentida, como eu  pretendia. A face ficou corada, e ela falou, ofendida: "Mas, e então? Todo  mundo diz que vale a pena ficar perto do rio, que é onde acontecem os rituais.  Se vamos ficar aqui nesta cidade por tão pouco tempo, vale a pena ficar perto  do que é importante, ou pelo menos assistir do alto".
Até que efetivamente tivéssemos o rio Ganges aos nossos pés, com a vista  das pesadas e cinzentas câmaras rituais beijando suas águas, ainda precisamos  abrir caminho por vielas tortuosas tão estreitas e cheias de gente que o ágil carregador foi obrigado a deixar o carrinho numa das pequenas lojas e, para ajudá-lo a carregar as malas, contratar o serviço de dois dos garotos descalços que  tinham se juntado a ele ainda na estação. Eram cerca de quatro da tarde, e uma brisa fria e rosada soprava no ar, Havia uma enxurrada sem fim de peregrinos,  movendo-se diante do rio, cantando e tocando instrumentos; espalhados no  meio deles, jovens mochileiros, cercando-nos por todos os lados, alguns sorrindo para mim com ar amigável e convidativo, como se eu fosse um deles, sem  saber que a mochila nas minhas costas era diferente, que eu não era livre como  eles, estava preso a duas pessoas de meia-idade, muito pesadas, com roupas cinzentas e amassadas da viagem. Lazar parecia tenso e preocupado, empurrando  e sendo empurrado enquanto caminhava depressa alguns passos à nossa frente  para não perder de vista o grupo de crianças lideradas pelo carregador, que às  vezes, por causa da sua pouca altura, sumia completamente no meio da multidão. O rio parecia próximo, pois a terra da ruela tornara-se lamacenta, e estávamos cada vez mais espremidos. De tempos em tempos uma mão escura e delicada tocava nossos ombros, pedindo que abríssemos caminho para um corpo envolto numa mortalha branca ou amarela, que passava rápido ao nosso lado,  carregada por mãos firmes, até parecer que deslizava sozinha sobre o mar de  cabeças em volta. Lancei um olhar na direção da mulher de Lazar, que caminhava atrás de nós, lenta porém leve nos seus sapatos de salto baixo, equilibrando-se entre canaletas de esgoto e excrementos de vaca escorregadios, com um  olhar sem sorriso para os corpos que flutuavam pela viela a caminho da cremação no rio. Com certeza ela já estava lamentando sua própria teimosia, pensei;  talvez por ter notado o meu sorriso de ironia, ela parou um momento, fez um  esforço, abriu seu sorriso para todo mundo e chamou o marido para que diminuísse o ritmo da caminhada. Porém Lazar estava absorto em não perder de  vista os carregadores, que agora passavam entre pequenos becos cheios de casas,  cubículos que escondiam estranhas estátuas pintadas e monges barbudos, conduzindo-nos enfim para outra ruela onde se localizava uma velha casa rústica,  de aparência agradável, cercada de árvores empoeiradas em meio a pequenas  hortas. Na entrada da casa, decorada com estatuetas escuras que nada mais eram do que variações de órgãos sexuais masculinos pintadas de preto e vermelho, que foram observadas por Lazar com assustado prazer, juntara-se um  pequeno grupo de indianos, aparentemente à espera do carregador e dos hóspedes que traria da estação. Sem pedir permissão, mandaram as crianças pegarem nossas malas, e com agilidade pegaram também a minha mochila, fazendo-nos subir as escadas com carpetes velhos e puídos até o terceiro andar, passando ao lado de quartos cheios de gente. No final, fizeram-nos entrar na  penumbra de um quarto amplo, forrado com esteiras de palha coloridas, com  duas enormes camas, um armário, cadeiras de palha, e no mesmo movimento,  sem perder um minuto, puxaram uma cortina e nos conduziram para um  pequeno terraço, cheio de vasos de flores, que, aos olhos dos nossos anfitriões,  justificava a nossa vinda e cumpria a promessa feita pelo carregador na plataforma da estação. Era impossível imaginar que, saindo do labirinto de pátios e vielas tortuosas que acabáramos de percorrer, ficaríamos diante de uma paisagem  tão vasta e rica, aberta de um horizonte a outro, com o grande rio Ganges correndo no seu coração, brilhando na luz avermelhada do entardecer.
A mulher de Lazar soltou um grito de admiração e virou-se para os indianos com entusiásticas palavras de elogio. Lazar permaneceu silencioso, encostado na balaustrada, suspirou e deu um leve sorriso para si mesmo. De repente  compreendi o poder oculto de sua mulher e por que se dispusera a renunciar  com tamanha facilidade ao hotel moderno. Ele tinha profunda confiança na  intuição dela em relação às pessoas, e já que ela acreditara no pequeno carregador e na sua promessa de nos levar a um local elevado com vista para o rio, ele  se rendeu. Talvez também tivesse lhe passado pela cabeça a economia de  dinheiro, que certamente não fora pouca; apesar da situação de urgência que  motivara a viagem, eu havia percebido que, para Lazar, não existe viagem sem  fazer contas. Grandes somas já tinham sido desembolsadas, e quem sabe quanto iria ser gasto na volta, quando a enferma estaria conosco. E seria impossível  carregá-la por vielas estreitas para um hotel modesto, por mais que oferecesse a  vantagem de um terraço com vista privilegiada, de onde a mulher não conseguia arredar pé, para felicidade dos proprietários do hotel.
Só então lhes ocorreu que precisávamos de dois quartos. O carregador julgara que fôssemos uma só família, talvez vendo em mim o filho que leva os pais  para viajar. Mesmo agora, ao serem informados de que eu era apenas um médico que os acompanhava a caminho de Gaia, não entendiam a necessidade de  mais um quarto. Trariam uma outra cama e a separariam com um pequeno  biombo. Lazar olhou para mim. Eu bem que podia me opor, mas queria que  fosse ele a exigir outro quarto. A ideia de passar uma noite inteira no mesmo  quarto que eles era demais para mim. Eles também estavam pouco à vontade.  "Não", Lazar rejeitou a sugestão, "vamos pegar um outro quarto pequeno para ele." Todos os quartos da pousada estavam ocupados, e a única solução seria me  hospedar numa espécie de anexo da casa, utilizado como dormitório para  mochileiros e peregrinos solitários. Na hora me veio um sentimento amargo  pela mulher que havia nos arrastado até ali, mas não disse nada e peguei a  mochila, pois preferia dormir lá embaixo sem me intrometer na intimidade dos  dois. Sentindo-se culpada e sem graça, ela se opôs terminantemente. A possibilidade de eles ficarem diante da maravilhosa vista do rio sagrado enquanto eu  me enfiava lá embaixo num dormitório coletivo pareceu-lhe tão injusta que  procurou me convencer a ficar.
"Qual é o problema? O quarto é grande, podemos nos apertar um pouco,  eles vão trazer um biombo; por que descer e perder toda essa vista do rio e o resto  da paisagem?
Afinal, foi só por causa disso que tivemos todo o trabalho de vir até  aqui. É pena você ficar lá sozinho."
"Eu não me importo de ficar sozinho", respondi com um leve sorriso de desdém. Ela não entendeu o significado do sorriso e continuou, com entusiasmo.
"Quantas vezes na vida se chega a um lugar especial e maravilhoso como  este?", disse. "E não é o quarto que importa, mas o que se avista, a paisagem  magnífica, o rio, as câmaras rituais, os peregrinos, o anoitecer. Por que dormir  num cômodo apertado e desconfortável? Você merece coisa melhor", acrescentou. "O que lhe importa? Na noite passada já nos apertamos os três com o  indiano naquela cabine minúscula e não aconteceu nada conosco, então o que  é que pode acontecer aqui?"
Lazar continuava calado, sério, também aborrecido com a complicação  que a mulher estava causando. Mas ela, com ar impotente, pediu ao marido que  ele me convencesse, tocando suavemente na sua mão para reforçar o pedido.  Lazar respondeu em voz baixa:
"Ele vai decidir sozinho onde deseja dormir. O que mais você quer?"  E ela disse:  "Não é justo ele dormir lá embaixo no meio daqueles andarilhos."  De repente, porque não havia dúvida de que estava com dor na consciência, declarou que, se fosse assim, teríamos que procurar outro hotel. Lazar  olhou para mim desesperado:
"Realmente, por que você não dorme aqui? Da  nossa parte não há problema, se você não se importar... De qualquer maneira,  pela manhã vamos seguir caminho, e aqui o ar é mais gostoso, e a vista é especial".
Suas olheiras estavam profundas, e a pele tão acinzentada que mais uma  vez me preocupei com a sua saúde. Entretanto, os indianos haviam decidido  por nós, e dois rapazes, com um sorriso fixo no rosto, trouxeram uma cama  dobrável e um biombo vermelho com desenhos de cobras coloridas. Sem mais  perguntas, a mulher apressou-se em mostrar-lhes um lugar junto à janela, onde  abriram a cama e colocaram o biombo. Só então ela tornou a dirigir-se a mim,  dizendo:
"Faça como se você estivesse sozinho; traga a sua mala, e você nem vai perceber que estamos aqui."
Desisti de discutir. A vista do pequeno terraço cheio de vasos, com o rio e  toda a sua santidade, era tão majestosa e deslumbrante após o longo dia de viagem na cabine apertada do trem, que seria difícil recusar-me a ficar com eles no  quarto; além disso, eu sabia que ela não sossegaria enquanto não percorresse os  hotéis próximos para encontrar um quarto decente para mim, e tive pena do  exausto Lazar. Mas, embora tivesse que dormir com eles à noite, eu não era obrigado a permanecer com eles agora, espremido atrás do biombo na minha cama  de campanha até que os dois gorduchos tivessem tomado banho e trocado de  roupa, tomando o cuidado de não se despirem na minha frente. Embora as  minhas roupas também estivessem sujas e pegajosas da viagem e da caminhada e eu também estivesse ansioso por tomar um banho e trocá-las, anunciei que  sairia para passear um pouco e tentar ver os peregrinos banhando-se no rio,  quem sabe algum ritual de cremação de mortos, pois estávamos no lugar dedicado a essas cerimônias, segundo o guia. Lazar, que havia tirado os sapatos e a  camisa, segurando a imensa barriga, respondeu com um sorriso cansado:
"Está  provado que quem se perde não é você, e sim nós; mesmo assim, peço que preste atenção aonde está indo, pois aqui nem existem ruas, tudo é uma área grande e confusa, e perder-se pode muito bem significar renascer em outra pessoa".  Os três caímos na gargalhada, num clima de reconciliação, e perdoamos também a teimosia da mulher, que causara toda a confusão com a história do quarto comum. Combinamos um horário para eu voltar, como costumava fazer  com os meus pais, e desci para o pequeno pátio da pousada. Observando a confusão de becos e vielas que me cercavam, por um momento tive medo de não  conseguir voltar. Decidi procurar alguém, uma criança ou um jovem, que  pudesse me acompanhar. Junto a uma das árvores distingui o pequeno carregador,  jantando sentado com os amigos. Apesar do seu inglês praticamente nulo,  para mim seria conveniente que ele me acompanhasse até o rio, pois me  impressionara não só pela iniciativa, capaz de convencer a mulher de Lazar,  mas também pela delicadeza e o bom senso. Eu sabia que ele me traria de volta  em segurança para a pousada, e por um momento isso me comoveu de uma  forma que não consegui explicar a mim mesmo.
O pequeno carregador conduziu-me com agilidade às margens do rio e a uma câmara ritual que ele chamou de Lalita, aonde descemos por numerosos  degraus quebrados, abrindo caminho entre cores e odores fortes que exalavam  os peregrinos, brâmanes e mendigos. Ali, sem me pedir permissão, ele empurrou-me delicadamente para uma das barcaças, em que já estavam dois jovens  mochileiros escandinavos, e rumamos para o coração do rio, para assistir aos  rituais de dentro das águas sagradas. Mulheres de saris desciam os degraus de  modo lento e gracioso, prendendo os cabelos com as mãos e mergulhando-os  na água; os homens, quase nus, mergulhavam fundo, desaparecendo por um  bom tempo até emergirem purificados. A distância, pontuando a extensa margem, viam-se também as câmaras apinhadas de peregrinos que executavam em  profunda reverência seus deveres rituais. Então, na penumbra da noite que  caía, começaram a soar dos alto-falantes longos chamados de oração. Muitos  fiéis saíram da água e postaram-se na margem do rio ou nos degraus, orando e  praticando complicados exercícios de ioga. Também o nosso barqueiro abandonou o posto, ajoelhou-se e rezou longamente, enquanto o barco seguia livre  para uma câmara próxima, na qual espirais de fumaça branca se erguiam de  uma grande pira vermelha onde estavam sendo cremados os mortos. O par de  mochileiros e eu ficamos hipnotizados com a imagem do barqueiro ajoelhado,  absorto na sua oração e tranquilo, seguro de que o barco mudaria de rumo, dirigindo-se para o meio do rio. E agora se podia perceber que, enquanto uma margem fervilhava de gente e atividade, totalmente ocupada por santuários e câmaras rituais, a margem oposta estava vazia e abandonada, sem construções e  deserta, diluindo-se no vazio do céu, como se a densa santidade se dissolvesse  no meio do rio, transformando-se em nada. Quando cessaram os cânticos e as  orações, o barqueiro ergueu-se e reassumiu seu posto, fitando-nos com um olhar sonhador. Eu lhe disse amigavelmente "Shiva", pois havia lido no guia de  Lazar que Varanassi é a cidade de Shiva, o deus da destruição. Seu rosto escuro encheu-se de interesse, ele fez um meneio, porém me corrigiu: "Vishvanat"; e, largando os remos, abriu os braços simbolizando todo o universo. "Vishvanat",  repetiu, como se quisesse afirmar que se tratava de um nome maior e mais  importante que Shiva. Não desisti: delicadamente coloquei um dedo entre os  olhos indicando o lugar do terceiro olho e repeti em voz baixa: "Shiva, Shiva?".  Os dois jovens escandinavos me olharam curiosos. Mas o barqueiro, apesar de  parecer satisfeito com o meu conhecimento, outra vez me corrigiu, dizendo  "Triambaka, Triambaka" e repetindo "Vishvanat, Vishvanat". Vendo-me frustrado com aqueles nomes, acabou concordando e disse com um sorriso ingênuo: "Também Shiva, também Shiva".
Quando a noite caiu, o pequeno carregador me levou a uma câmara onde  os mortos eram cremados. Vi como os fiéis primeiro jogam flores e doces dentro de um poço; a uma certa distância, pois o carregador recomendara que não  me aproximasse, observei por longo tempo um corpo arder sobre um altar de  compridas tábuas transversais, enquanto os familiares sentados em volta conversavam ruidosamente. Esperei até o fogo se apagar. Na escuridão, à luz de  uma tocha, os membros da família se levantaram e rodearam as cinzas devagar;  em seguida quebraram a caveira, para libertar a alma e permitir que entrasse no  rio; finalmente recolheram as cinzas e espalharam sobre as águas. Só então voltei à pousada, que já estava imersa em trevas e silêncio. Dei ao carregador algumas rúpias, e ele gesticulou agradecendo, mas não se afastou, pois receava que  eu entrasse no quarto errado e continuou me acompanhando pelas escadas, no  escuro, até o nosso quarto. Bati de leve para anunciar que tinha voltado, e como  não obtive resposta abri a porta delicadamente. O quarto estava às escuras, e as  grandes camas, vazias. Pareceu-me que tinham aproximado um pouco uma da  outra na minha ausência. No terraço, distingui as duas silhuetas gorduchas.  Quando me aproximei, vi que estavam ambos de roupão, os cabelos ainda molhados do banho. Da paisagem grandiosa que se descortinava durante a  tarde, restava apenas uma escuridão profunda e vazia, os santuários e câmaras  rituais pareciam nunca ter existido, apenas nas margens do Ganges ainda se  viam algumas chamas solitárias, com as figuras tremulantes dos fiéis movendo-se à sua volta. Ao lado dos Lazar havia um banquinho coberto com um pano bordado e pratos com os restos do jantar. Não perceberam a minha entrada, pois conversavam com profunda afeição e intimidade. Bati de leve à porta do terraço e os dois se viraram para mim, sorriram felizes com o meu retorno, como pais  à espera do filho. Não tinham deixado o quarto, permanecendo sentados no  pequeno terraço, sozinhos, satisfeitos com a amplidão da paisagem. "Vocês ficaram aí sentados o tempo todo?", perguntei admirado.
"Já estamos meio velhos", respondeu Lazar, sorrindo com profunda satisfação, "e um terraço desses é uma experiência em si." Ele estava de ótimo  humor e parecia também satisfeito porque mais uma vez eu não me perdera. A  mulher me convidou para sentar ao seu lado e contar a minha experiência no  rio, mas Lazar levantou-se e perguntou se eu tinha comido. No momento não  consegui me lembrar, pois não sentia fome; quando respondi que não, fez a  mulher levantar-se do lugar e limpar os restos da refeição. "Pensamos em deixar  alguma coisa para você", desculpou-se, "mas sabemos que prefere comer sozinho."
A mulher disse: "Não faz mal, vamos descer e trazer alguma coisa. O que  você quer comer? O que você gosta de comer?".
"O que eu gosto?", eu disse sorrindo. "O que há para comer aqui?" Quando  começaram a explicar, eu os interrompi: "Não importa, só algo leve, o que  vocês puderem trazer. Eu não estou mesmo com fome, não sei por quê".
"Talvez a alma de um faquir indiano que se satisfaz com jejum tenha encarnado em você", disse Lazar rindo, ainda inconformado com a ideia da reencarnação. Uma ideia que agora, diante da escuridão absoluta e da suave agitação  indiana que se erguia do pátio, parecia-me correta, ainda que impossível.
E os dois disseram: "Vá tomar um banho, nós vamos descer e lhe trazer  comida. Talvez você tenha esquecido, mas hoje é noite de Shabat". Saíram  ambos, dando-me privacidade para me despir, banhar-me e arrumar-me sossegado. Por alguma estranha razão, não me sentia sujo e pegajoso, apesar de as calças terem se molhado no rio e de haver excrementos de vaca grudados nos meus  sapatos; era como se o passeio de barco também tivesse me mergulhado no rio,  e a longa meditação durante a cremação do corpo, seguida da quebra da caveira, tivesse me purificado por um profundo mistério, que fizera desaparecer a  fome e me reconciliara com a sujeira. Em todo caso, não queria constranger os  Lazar. Lavei-me rapidamente na água fria antes que voltassem, e ainda esperei um bocado, até que retornaram com uma cesta de frutas e doces, alguns cheirosos pães indianos e uma grande travessa de arroz fumegante misturado com  pedaços de carneiro cozido. Estranhamente, não era ela, e sim Lazar quem me  incentivava a comer, numa ligeira e absurda atitude paternal, procurando despertar em mim a fome desaparecida, insistindo em colocar mais e mais no  prato, como se o enorme hospital que administrava tivesse encolhido e se reduzido a uma única pessoa específica, sobre a qual podia agora concentrar todo o  seu controle e preocupação. A mulher estava sentada à minha frente, barriga  proeminente, as longas pernas cruzadas, fumando um cigarro fino e me observando. Quando descrevi a quebra da caveira para libertar a alma, seu rosto se  contorceu de aflição. "Isso é terrível, por que você teve que olhar?" Lazar me  compreendeu:
"Sim, isso é mesmo impressionante, pena que nós não possamos ir ver." E  informou que no dia seguinte, pela manhã, seguiríamos de trem para Gaia.
"Amanhã?", perguntei surpreso, pois afinal, conforme a promessa, conforme o telegrama que tinha enviado de Roma para o hospital em Gaia, deveríamos chegar lá apenas no domingo.
"Sim", respondeu a mulher, "decidimos antecipar a viagem. Como você  está vendo, a ansiedade já está começando a nos corroer. Nós erramos", prosseguiu, dando uma longa tragada, "não devíamos ter desistido, e sim ficado em  Nova Delhi para tentar conseguir lugar num voo direto. Seria mais correto.  Mesmo que Lazar tenha lhe prometido ver alguma coisa interessante no caminho." Prometido a mim? Quis explodir, mas limitei-me a baixar a cabeça e silenciar, pensando com pesar nos belos templos e santuários ao longo do rio, que  deixara para visitar no dia seguinte. "Então, o que você acha?", perguntou ela,  como se de repente alguma coisa também dependesse de mim, e jogou a ponta  do cigarro pela balaustrada. Lazar correu censurá-la:
"Dori, ficou maluca? Há pessoas lá embaixo, você pode queimar alguém."  "As pessoas não se queimam com tanta facilidade", disse ela rindo; mas ao  ver a minha expressão séria disse gentilmente: "Vejo que você está decepcionado". Seus óculos brilhavam no escuro.
"Um pouco", respondi, "mas não importa, eu entendo. Mesmo assim,"  gaguejei, "parece-me que até para vocês seria bom ficar na cidade mais um dia,  pois é impossível sentir aqui do terraço o que se sente lá no rio, no meio de tudo."
"Mas o que é esse tudo?", retrucou com estranha irritação. "Cadáveres queimando?"
"Não", respondi, "aqui há algo muito forte, muito antigo. É difícil explicar.  Não é como as nossas ruínas históricas; não é histórico, é real. Se vocês descerem até o rio vão sentir que o que acontece lá, os rituais e a cremação, existe há  milhares de anos, como se sempre tivesse sido assim... "
Agora um sorriso diferente passou pela sua face. Não o sorriso automático,  mas um sorriso de reflexão, como se ela estivesse pensando não nas minhas  palavras, e sim a meu respeito. Senti que fora um erro revelar-lhes os meus sentimentos, pois me arriscava a dar a ambos, sobretudo a ela, o direito de invadir  minha privacidade, agora que já tinham me obrigado a dormir no mesmo quarto, coisa que meus pais nunca fizeram. E para refreá-la decidi não lhe dar outra  oportunidade de me interrogar, perguntando-lhe sobre a filha doente, pois  parecia haver um acordo tácito de não se falar sobre ela, e no dia seguinte eu  teria de examiná-la. Ela tivera alguma doença séria no passado? Já estivera hospitalizada por algum motivo?
Quando chegou a hora de dormir, colocamos o biombo entre nós, e eu me  deitei de pijama na cama dobrável, muito estreita, sob medida para um indiano  magro disposto a mortificar-se durante o sono. Eles fizeram um pouco de barulho, com certeza juntando as suas camas, e enfim apagaram a luz do pequeno  candelabro; ela disse "Boa noite!" em voz alta, e o marido a silenciou: "Ele já  está dormindo". Mas eu respondi baixo: "Boa noite para vocês", tomado de um  súbito receio de que eles pudessem fazer amor no meio da noite. No terraço me  pareceram bastante próximos, amorosos e atraídos um pelo outro. E apesar de  ter dito a mim mesmo "eles não vão fazer isso comigo", fiquei agitado, comecei  a tossir  e a me virar ruidosamente no escuro, na minha cama estreita, até chegar aos meus ouvidos um leve som ritmado que eu sabia serem os roncos dela,  os mesmos que eu ouvira no trem. Eu esperava que Lazar a fizesse parar, mas  ele se levantou, foi beber água e saiu para o terraço. Antes que voltasse, adormeci, mas apenas por algumas horas, pois muito antes do amanhecer um grupo de  músicos passou bem perto da pousada, tocando seus tambores e címbalos; um  deles começou a cantar, e quando a música acabou percebi que os Lazar também haviam acordado, ao ouvi-la cochichar para o marido com uma surpreendente vozinha infantil, de que não a julgava capaz:
"Você me ama?"  Lazar respondeu com uma estranha determinação:  "Não."  Ela não pareceu aborrecida e, com a mesma voz macia e segura, prosseguiu:
"Pois deveria."  "Por quê?"—ele perguntou, fingindo espanto.  "Porque sim."  "Mas por quê?" "Porque eu sou um amor."  "Mas você é uma desgraça de teimosa", disse ele com firmeza.  "Desgraça nada", respondeu ela num tom melodioso e moleque, mas ele  insistiu:
"Sim, senhora, uma desgraça de teimosa. Você fez a maior confusão e nos  meteu neste quarto, e o coitado precisa dormir aqui ao nosso lado como um  cachorro."
"Por que cachorro?", perguntou surpresa, mas sem perder a tranquilidade.  "Isso é jeito de falar dele? Você não percebe que ele está feliz e satisfeito conosco, apesar de ser um sujeito frio, que não mostra seus sentimentos?"
"Shh... Shhh..". Lazar parecia nervoso. "Ele pode ouvir."  "Que nada!", disse ela. "Do jeito que esses jovens dormem, nada é capaz  de acordá-los. Venha. Me abrace. Vamos dormir. Tenho medo do que nos espera amanhã."
Eles devem ter começado a se beijar, ou assim imaginei, e imediatamente  comecei a me virar na cama, para impedi-los de ir adiante. Pelo jeito me escutaram, pois o ruído cessou de imediato, e breve os roncos dela recomeçaram,  aos poucos. De repente pararam, mas não consegui mais adormecer. Depois de  um longo tempo eu me levantei e caminhei, descalço, com cuidado para não  tropeçar, passei ao lado das duas camas, que de fato estavam mais juntas, iluminadas pela lua gigantesca que se levantava lentamente na margem oposta, desolada e um pouco assustadora, do Ganges.
De manhã me acordaram rudemente, apressando-me para tomar o café,  que estava servido no terraço. Já tinham feito as malas e, ao amanhecer, também tinham conseguido ir até o rio assistir aos primeiros banhos. Logo chegaram dois indianos adultos para descer as malas. Lá embaixo as acomodaram  numa carroça de mão e nos acompanharam até a estação ferroviária, no contra fluxo de uma nova leva de peregrinos que haviam chegado no trem noturno e  agora se dirigiam ao rio. Outra vez tive a sensação de estar num lugar muito antigo, como se exatamente ali, no lamacento emaranhado humano, entre as grandes vacas encalhadas no meio dos pátios, teimando em não sair do lugar, o  mundo fora criado, ou no mínimo começara a fervilhar. Quando entramos na  turbulenta estação, distingui ao longe, como por mágica, o pequeno carregador da véspera, mala às costas, acompanhando duas turistas idosas com largos  chapéus de palha, certamente para o quarto que deixáramos havia pouco. Não  pude resistir ao impulso de ir lhe dar adeus. Para minha surpresa, a mulher de  Lazar fez o mesmo. O homenzinho ficou tão comovido com a nossa atitude,  que baixou a mala das costas e quase se ajoelhou no meio dos excrementos de  vaca e da lama, juntou as palmas das mãos na saudação indiana e nos disse com  o pouco inglês que sabia: "Voltem a Varanassi. Vocês não viram nada".
No trem que ia para o leste, dessa vez dividiríamos a pequena cabine com  dois irmãos de terno branco que voltavam para casa, em Calcutá, depois de cremar o corpo do pai. Às dez da manhã, quando o trem deixou a estação, ofereceram a Lazar e a mim, como era costume, seus cartões de visita. Quando vimos  que um dos dois era médico, Lazar contou o objetivo da nossa viagem e perguntou se sabiam alguma coisa do hospital em Gaia. Mostrando interesse e curiosidade, começaram a nos dar conselhos e sugestões. Não conheciam o hospital  em Gaia, mas tinham ouvido falar que era pequeno, com equipamento médico escasso e antiquado, que vez ou outra enviava portadores levando exames a  um laboratório particular no qual o médico de Calcutá tinha contato com um  consultor e um colega. Assim, recomendaram que levássemos Einat o mais depressa possível para o grande hospital de Calcutá, onde tudo seria mais confiável. Nessa altura da conversa, Lazar informou-lhes que eu também era médico, que tínhamos conosco o equipamento necessário e que não pretendíamos  passear de um hospital indiano a outro, e sim levar a moça para Israel o mais  rápido possível. A ideia lhes pareceu em princípio correta. Desejaram-nos boa sorte e pediram para dar uma olhada no equipamento que havíamos trazido.  Agora que nos aproximávamos da doente, Lazar também estava curioso para  saber o que carregávamos para resgatar sua filha. Abri a mochila e exibi todo o  conteúdo, dando explicações detalhadas sobre os remédios e os aparelhos. Os  indianos ouviram atentamente, com grande interesse, dispostos a aprender  comigo, e Lazar pegou os aparelhos um a um, examinou, perguntou-me como  funcionavam, como se acreditasse que, dominando os pequenos detalhes,  poderia conhecer mais profundamente o hospital e fortalecer seu controle  sobre ele. A mulher permanecia sentada, absorta em seu silêncio, com a jovialidade e a vivacidade habituais apagadas, como se o encontro próximo com a  filha a aterrorizasse. Tomei a pressão de Lazar, a pedido dele, e verifiquei que  estava muito alta, 17 por 11, mas não quis assustá-lo antes do encontro com a filha  e lhe disse números mais baixos. O médico indiano pediu o aparelho emprestado e mediu demoradamente sua própria pressão e a do irmão, mas, como não  perguntei os resultados, ele não viu motivos para dizer.
Quando descemos na estação de Gaia, à tarde, e nos despedimos dos dois  indianos—que outra vez nos deram seus cartões de visita e nos lembraram de  que estariam à nossa disposição em Calcutá se precisássemos—,sentimos que  o último trecho do percurso fora bem confortável e que enfim chegáramos com  facilidade ao ponto que, no mapa sobre a mesa da sala de visitas dos Lazar, parecia o fim do mundo. "Então, esta é Gaia. Que buraco... Um buraco mesmo:,  murmurou Lazar para nós dois enquanto, em pé ao lado das malas no pátio  externo da estação, contemplávamos o estranho vazio, absolutamente não  indiano, à nossa volta. As redondezas mostravam baixas colinas amareladas, a  terra era seca e muito dura, não lavrada. Um carregador indolente  aproximou-se de nós devagar, mas quando ouviu para onde queríamos ir recuou um pouco  e fez sinal para um colega mais forte vir substituí-lo; e este, mais rápido e ágil,  conduziu-nos até o hospital, um edifício não muito grande, de três andares,  revestido por uma espécie de argila amarela. Eu disse aos Lazar:
"Entrem vocês, eu espero aqui fora com as malas. E não contem que trouxeram um médico, para não deixar a equipe nervosa."
Lazar me lançou um olhar de esperteza e disse:  "Você tem razão. Tem toda razão. Bem pensado."
Quando vi o rosto de sua mulher ligeiramente pálido, cansado e feio, sem  maquiagem, os óculos escuros escondendo os olhos que não sorriam, acrescentei:
"E não se assustem se ela estiver muito amarela, até meio esverdeada; é da  hepatite, e o perigo não está na cor."
Eles agradeceram com um movimento de cabeça e entraram, envelhecidos e frágeis. Sentei-me no chão ao lado de uma fonte destruída, encostado  numa das malas, preparando-me para uma longa espera. "Bem", pensei, "agora  finalmente começa o meu trabalho; se eu tivesse aqui um cartão, seria a hora de  bater o ponto." Mas uns quinze minutos depois os dois saíram completamente  transtornados. Foram informados de que a filha não estava mais lá, uma semana atrás fora transferida para Bodhgaia, a quinze quilômetros de distância, pois  não viam mais razão para mantê-la no hospital; se a transferência se devera a  uma melhora ou ao contrário, isso nenhum dos dois conseguira entender.
Em pânico, fizeram sinal para um moto riquixá que passava e seguimos  para Bodhgaia por uma estrada de terra sinuosa que cortava campos suaves. Um  vento doce acariciava nosso rosto, e ao fundo, no fim da planície, postado no  horizonte, delicado e imóvel, um grande sol indiano amarelo recusava-se a baixar. Meia hora depois estávamos em Bodhgaia, que se revelou um agradável  retiro sagrado, cheio de árvores frondosas, com uma larga estrada de terra levando de um mosteiro budista a outro. Não se viam turistas nem mochileiros.  Parecia que éramos os únicos ocidentais por ali, mas foi fácil encontrar o mosteiro certo, com uma entrada majestosa onde verdes gramados cercavam uma  porta imensa. Fomos recebidos por vários monges tailandeses, que sabiam da  nossa vinda e estavam à nossa espera, pois o telegrama enviado de Israel ao hospital estava atado à doente como uma espécie de garantia de que ela não era  anônima e não traria intermináveis complicações para o mosteiro. Também lá  sugeri esperar no pátio com a bagagem, aconselhando os pais a irem na frente.  Mas a mulher de Lazar insistiu que eu os acompanhasse, como se não tivesse  coragem de encontrar-se com a filha doente sem um médico por perto para  acalmá-la. Então entramos, com todas as malas, pois Lazar não queria  separar-se delas nem dentro de um mosteiro budista. Fomos conduzidos por corredores decorados com tapetes coloridos e estatuetas de deuses, até chegarmos a um  quarto semi escuro onde se viam espalhadas grandes mochilas e sacos de dormir enrolados. Duas viajantes japonesas que tomavam chá sentadas junto a um fogareiro a gás levantaram-se quando entramos e postaram-se num canto, curvando a cabeça de forma educada e respeitosa. A enferma, uma loira de cabelos presos, enfraquecida, estava deitada em posição fetal, sobre um saco de dormir coberto com um lençol cinzento, tendo ao lado um mosquiteiro dobrado.  A pele estava seca e esverdeada como uma casca de árvore, e na perna direita  havia uma bandagem em frangalhos. Os pais se aproximaram e se ajoelharam,  falando em voz baixa, acariciando seu rosto e suas mãos, procurando fazer  graça, mas tomando o cuidado de não beijá-la. A mulher de Lazar tentou acionar o seu sorriso automático para animar a filha, mas devido às circunstâncias o  sorriso simpático ganhou a forma de um esgar. A moça continuava quieta e distante, e por um momento pareceu zangada com os pais, fosse por terem demorado a vir, fosse por terem vindo. E então vi Lazar e a mulher, sem uma palavra,  com olhares aflitos, convidarem a mim, o médico, para me aproximar. Fui até ela, andando com todo o cuidado, e também me ajoelhei ao seu lado. O pai me  apresentou dando meu nome completo, e a moça virou para mim seu rosto  esverdeado, cujos traços, logo percebi, eram belos e delicados. Mesmo eu  sendo um estranho, ela conseguiu me dar o sorriso que negara aos pais. E seus  olhos verdes, mergulhados nas escleras de um tom amarelo-escuro, quase alaranjado, pareciam-se muito não com os da mãe ou do pai, mas com os olhos claros da avó que estava sentada na sala, ansiosa por me conhecer, segundo a  mulher de Lazar.

4.
   
 
Seria hora de falar em paixão? Pois na verdade o apaixonado ainda não está  ciente da sua paixão, embora nas trevas da noite ela se insinue e abrace o seu coração, e ele desperte agitado, como se essa paixão fosse apenas uma nova forma de  domínio, e não uma servidão capaz de arrastar para o seu destino qualquer um  que nela persista. Sim, ele já não consegue continuar dormindo e, feliz, é obrigado a sair da cama, ainda sem acreditar que isso esteja lhe acontecendo; e, feito um  sonâmbulo, empurra pesadamente o seu ser agitado pelos cômodos escuros da  casa, tentando compreender o que lhe tirou o sono. Então, na cozinha, junto à  mesa de refeições, descobre a própria paixão: uma menina estranha, que um dos  vizinhos, ou talvez a empregada, introduziu na casa sem que ele soubesse e esqueceu ali. Ainda vestindo uniforme escolar, com um distintivo simples e infantil  preso ao peito por um alfinete de gancho, e sob as luzes tênues da lua e de uma  lâmpada de rua, que se misturam e se infiltram juntas pelas frestas da janela, ela  se debruça sobre seus livros e cadernos e faz o dever de casa. E ele sussurra a si  mesmo com leve ironia: "Não pode ser que isso tenha me acontecido, que eu tenha  simplesmente me apaixonado, não sei quase nada sobre ela". Mas ele continua a  se aproximar silenciosamente, por trás, daquela que estivera esperando em seu  coração e que agora o ignora e continua examinando, com um lápis mordido entre os dentes, um velho atlas manchado de tinta. Contendo a respiração, ele  observa seu pescoço branco e fino, mas também fértil em prazer adulto à medida  que se alonga para dentro da blusa de escola, ainda fresca e doce após um longo  dia de aula. E só quando ele cerra os punhos, tendo o cuidado de não tocá-la, ela  lhe dirige o olhar e, com um gesto rápido e simples, arruma os cachos dos cabelos.  E seu rosto lindo e sério não mostra surpresa com a proximidade do intruso sorrateiro, apaixonado, com a faca revolvendo o coração.
Apesar da dor que o atormenta, ele ainda tenta se tranquilizar. "Não é nada  sério, é uma loucura noturna, vai passar, já passou, é uma paixão estranha,  absurda, supérflua, quase criminosa, e também improvável, daqui a pouco virão  tirá-la daqui". Mas a garota lhe dá um sorriso franco, aberto, que não condiz com  sua pouca idade, como se, nos poucos segundos que ele passara atrás dela deliciando-se com seu pescoço, ela tivesse amadurecido e também compreendido -  compreendido tão bem, que ele se assusta e tenta encobrira sua súbita paixão. Ele  se debruça friamente sobre o atlas aberto, folheia um pouco o fino caderno, e pergunta, fingindo-se zangado: "Você ainda não terminou? Algum problema? Já é  tarde. Por que você não desiste?". A expressão pura do rosto dela fica ainda mais  pura, e a menina encosta sem cerimônia a palma de sua mãozinha na manga do  pijama que ele veste e diz: "Shh...Shh... Ele está aqui". E no longo corredor, entre  os escuros quartos da casa, brilham os ridículos óculos no nariz do mistério, esse  doente mental magro, sem humor, que ainda busca teimosamente pessoas e fatos  que se foram há muito.
Ainda sem tocá-la, apenas pelo modo como ela estava deitada, frágil e  enrolada sobre o lençol cinzento no canto do dormitório, pude calcular que o  seu estado clínico ao era bom e que provavelmente "tinha conseguido causar  a si mesma", na linguagem de Hishin, um dano real  ao fígado. Já notara como  ela abraçava a si própria com os dois braços e, com movimentos leves porém  incessantes, ficava se coçando e se esfregando, sintoma clássico de que os sais  de sua bile não estavam sendo absorvidos, acumulando-se na pele. Mas sorri,  procurando não dar aos pais, ambos em pé ao meu lado, nenhum sinal de susto  ou preocupação. Também sabia que não havia sentido em despi-la agora aos  olhos deles e das duas mochileiras, nem tentar auscultar o coração e os pulmões.
Não havia dúvida quanto à necessidade de fazer depressa um exame de  sangue, com contagem de glóbulos e índice de sedimentação,  ter uma ideia  exata sobre os níveis de bilirrubina, glicose e funções hepáticas e observar a cor  da urina. "Este é o exame mais urgente", pensei, "e todo o resto das medidas e  procedimentos clínicos será determinado pelos resultados." Curvei-me sobre  ela, ainda de joelhos, e toquei sua testa de leve com a palma da mão, para sentir a temperatura, que me pareceu muito alta, alarmante. Coloquei a outra mão  sob sua cabeleira, perguntando-me de quem teria herdado a lourice, pois tanto  Lazar como a esposa tinham cabelos escuros. Deslizei a mão um pouco pela sua  nuca e pelo pescoço, para sentir se havia alguma saliência nele ou na glândula  tireóide, enquanto lhe fazia algumas perguntas bobas e desnecessárias, que costumo fazer aos doentes para ganhar sua confiança e encorajá-los a revelar,  mesmo inconscientemente, dados adicionais importantes.
Fiquei contente ao notar que, apesar da fraqueza, ela estava disposta a colaborar comigo; pois o que eu mais temia, no início da viagem, era encontrá-la  prostrada a um grau de total apatia, que tornaria mais difícil chegar a um diagnóstico preciso da sua condição para decidir sobre a forma mais correta de levá-la depressa para casa. Em contraste com a aparente resistência que demonstrara em relação aos pais, respondeu de boa vontade às minhas perguntas, mesmo  com a língua enrolada. Recordou como tudo começara, qual fora a sensação e  o que a incomodara mais; conseguiu até descrever a mudança na cor de sua  urina desde então e, é claro, o que a perturbava agora, especialmente a coceira,  que a estava deixando louca. Na verdade, eu estava preparado para essa coceira, porque, depois que Hishin esquecera de me trazer os artigos prometidos,  ainda tivera tempo de consultar uma velha enciclopédia médica britânica que  encontrei na casa dos meus pais na véspera da partida, e justamente a coceira lá  estava descrita em detalhes. "Além da coceira, o que mais está incomodando  você agora?", insisti, estimulando-a a continuar abrindo seu coração, e ela continuou. Percebi que ela confundia sintomas associados à doença com sensações  independentes dela, como dores nas pernas e peso nas costas. Não disse nada, limitei-me a balançara cabeça concordando com tudo, enquanto continuava a  palpar sua nuca e seu pescoço. Identifiquei uma leve saliência na traqueia.  "Talvez seja uma saliência natural no corpo dela", pensei e retirei a mão para  não enveredar por especulações desnecessárias antes do exame principal, o mais importante, aquele que precisava ser feito de imediato e levado rapidamente para Gaia. Porém não conseguia esquecer o comentário do médico  indiano que conhecêramos no trem acerca da pouca confiabilidade do laboratório do hospital de Gaia. "Que pena tê-lo conhecido", refleti com amargura,  pois se nos puséssemos a verificar a confiabilidade dos laboratórios na Índia,  aonde iríamos parar? Voltei depressa a mim e eliminei esse pensamento ocioso,  inútil para alguém que havia uma semana esperava o médico ideal. E mesmo  que Hishin tivesse exagerado minhas qualidades, sobretudo para se livrar da  pressão de seus amigos, conhecia muito bem a minha meticulosidade e confiara nela para me guiar nessa viagem indiana sem cometer erros que pudessem  ser depois descobertos no hospital em Tel Aviv, onde professores maldosos e  médicos bajuladores tratariam da moça. Eu estava habituado ao fato de que em  medicina todo mundo sempre quer ter a última palavra: o que deveria ter sido  feito, o que não se deveria fazer, e o que prejudicou em vez de ajudar.
Mas eu sabia que ali a responsabilidade era só minha, e tinha que tomar  uma decisão imediata. Naquele momento me pareceu estranho que o diretor  de um grande e moderno hospital, com os cérebros mais competentes à sua disposição, estivesse com sua mulher, aflito e preocupado, num quartinho escuro  de um mosteiro budista no fim do mundo, dependendo exclusivamente do julgamento profissional de um jovem residente com pouca experiência, que até  agora não examinara de fato a paciente, apenas lhe tocara a testa de leve para  sentir a temperatura e lhe palpara um pouco o pescoço. O jovem médico recolheu a mão, determinado a anunciar a sua decisão.
"É preciso fazer imediatamente exames básicos, para sabermos onde estamos pisando e que rumo tomar.  Embora não esteja bem, ela pode ser removida. Mas antes precisamos saber  algumas coisas, como o nível de glicose, por exemplo, e o teor de bilirrubina,  para determinarmos o dano causado ao fígado. Não há necessidade de hospitalizá-la novamente, podemos colher as amostras aqui mesmo e levá-las para o  laboratório do hospital. Enquanto isso, é bom tentarmos encontrar um quarto  com mais privacidade e transportá-la para lá. Não convém deixá-la neste lugar  sujo, mesmo que as duas japonesas pareçam muito simpáticas."
No rosto da mulher de Lazar surgiu um sorriso—não aquele conhecido,  que ainda me confundia com o seu automatismo, e sim um sorriso que vinha  de dentro, mais pessoal, como se ela estivesse admirada com o estilo determinado que eu adotara, na verdade inspirado em Hishin, que sempre falava no plural majestático quando deparava com um enfermo, ou parente de enfermo,  pelo qual sentisse afeto especial. Nesse  ínterim, as duas japonesas, que pareceram ter percebido meu elogio, saíram do seu canto, ajoelharam-se diante do  fogareiro aceso e nos ofereceram um pouco do chá cor de laranja que haviam  preparado. A mulher de Lazar hesitou um momento, porém ele recusou, pois  estava ansioso e com pressa de cumprir as instruções que eu lhe dera, ou seja,  encontrar um lugar privativo para todos nós. "Vocês todos podem me esperar  aqui", anunciou, mas sua mulher pareceu aborrecida com a urgência, empertigou-se e disse:
"Um momento, Lazar."  E Lazar perguntou:  "Qual é o problema?"  E a mulher respondeu:  "Talvez eu deva ir com você."  "Mas por quê?", argumentou Lazar. "Não há necessidade. Espere aqui."  Mas ela insistiu:  "Não, é melhor eu ir junto para ajudá-lo."  Já estava se curvando sobre a filha para beijá-la, prometendo:  "Voltamos logo."  Virou-se para mim e disse:  "Você fica aqui com ela, e se puder comece a colher amostras para os seus exames. Nós voltamos logo."  E foi saindo com o marido, evidentemente incapaz de ficar sozinha não só comigo como também com a filha.
Einat continuava deitada, encolhida, abraçando-se com os dois braços,  esfregando-se e coçando-se, enviando para mim um olhar calmo, com seus  olhos amarelos como os de um tigre ou uma hiena. Mas, apesar do seu estado  físico obviamente péssimo, eu não sentia pessimismo, pois sabia já ter conquistado sua confiança pelo modo como lhe tocara a testa e palpara a nuca e o pescoço. Desde o instante em que Hishin me falara sobre ela, crescera em mim a  suspeita de estar sendo enviado a uma doente apática, que perdera a vontade de  se recuperar e talvez resistisse aos meus esforços para ajudá-la no caminho de  volta. Mas a jovem paciente ali deitada não parecia disposta a reunir forças para resistir; estava absorta demais na coceira irritante e também ansiosa pelo toque  de outras mãos que a ajudassem a se coçar. Eu não queria trabalhar com pressa e, na escuridão que começava a tomar conta do quarto, primeiro tomei o copo  de chá escaldante e amargo que as japonesas tinham oferecido e pedi que falassem sobre si. Contaram que tinham chegado a Bodhgaia dois dias antes, direto  do Japão, para uma prática de meditação avançada num mosteiro japonês vizinho e, como acabaram as vagas, haviam sido transferidas para este mosteiro,  onde poderiam dormir com a condição de cuidar um pouco da enferma.  Realmente tentaram cuidar, evitando o contágio da doença, usando máscaras  de pano ao tocá-la. Na véspera a levaram ao jardim interno do mosteiro e a alimentaram com o mingau de arroz que tinham reparado.
Mas a coceira era  intensa, e os unguentos que os monges lhe deram não adiantavam. Será que eu  tinha trazido bons remédios?—perguntaram, como se eu tivesse vindo de  Israel só por causa da coceira. "Talvez, vamos ver", respondi, abrindo a mochila e despejando o seu conteúdo sobre um cobertor que estenderam para mim,  zangado com a mulher de Lazar por não ter ficado para ajudar a despir a filha.  Mas as japonesas eram solidárias: trouxeram uma lanterna grande, pois a luz da  lâmpada era muito fraca, depois ajudaram a moça a sentar-se e tirar a túnica  branca muito manchada; apoiaram por um bom tempo seu dorso branco e  enfraquecido, enquanto eu, ajoelhado, auscultava meticulosamente com o  estetoscópio as costas e o peito, para ouvir os pulmões, se estavam limpos, sem  líquidos acumulados, e obviamente os batimentos cardíacos, que me pareceram em perfeita ordem. As duas japonesas acompanharam todo o exame e estavam felizes por finalmente ter chegado alguém para tirar dos seus ombros a responsabilidade pela doente, que lhes fora imposta pelos monges talvez como  uma espécie de prova religiosa. Fiz um meneio de satisfação e, antes de mais  nada, disse à minha paciente, empregando o tratamento carinhoso dos pais:  "Parece que está tudo em ordem, Einati". Depois, deitei-a de costas devagar, para palpar demoradamente sua barriga, que estava endurecida e cheia de feridas causadas pela incessante coceira. Para minha surpresa, o fígado não estava  aumentado por causa da inflamação; ao contrário, parecia ter encolhido, e foi  muito difícil localizá-lo no meio do abdome duro e inchado, como se já tivesse  começado a degenerar. No início fiquei assustado, mas depois refleti: "Não é  possível, é um absurdo. A doença apareceu faz apenas dois meses, e já se instalou um processo de degeneração?". A vesícula biliar, sim, pareceu-me dilatada e inflamada também, pois bastou uma leve pressão dos meus dedos para arrancar da paciente um grito de dor tão forte, que fez as duas japonesas se virarem  para o outro lado. Logo se ouviram passos no corredor: um monge careca, vestindo uma túnica da cor do sol poente, viera saber a razão do grito, que ecoara  Forte por todo o silencioso mosteiro. Ele não falava inglês, então pedi às japonesas que lhe explicassem que eu era um médico de Israel, que viera com os pais  para levar a jovem de volta para casa.
O monge permaneceu parado junto à porta, como se ainda não entendesse a relação entre o retorno para casa e o grito de dor da jovem semi nua deitada no chão. De repente fiquei preocupado, receando que, por causa da dor,  perdessem a confiança em mim; e no meu íntimo cresceu a  raiva pela mulher  por ter nos abandonado à própria sorte. Decidi interromper o exame clínico e  palpar mais tarde o baço e os rins. "Ainda haverá tempo para isso", pensei,  enquanto trocava a bandagem da ferida na perna, que me pareceu na verdade  suja, e não infeccionada. Vesti-a sozinho com a túnica branca manchada, procurando acalmá-la: "Tudo bem, é apenas uma vesícula inflamada, perfeitamente natural na hepatite". Entre os medicamentos, encontrei um tubo de  pomada à base de cortisona, que aliviaria um pouco a coceira, e deixei que ela  a passasse nos braços e na barriga, advertindo-a, porém, que não esperasse mais  do que um alívio local e temporário, pois os sais da bile não absorvidos pelos  rins acumulam-se sob a pele, e o arrefecimento real da coceira precisaria vir de  dentro, e não de fora. Mas ela ficou contente e me agradeceu pela pomada, e  percebi que era meio tímida, sem qualquer sinal do irritante sorriso da mãe, às  vezes tão inadequado. Enquanto ela passava a pomada, preparei, com a ajuda  das japonesas, o material necessário para a coleta de sangue. Pedi que aproximassem a lanterna e tive prazer em ver como todos, inclusive o monge budista, ficaram estáticos em seus lugares, observando-me amarrar com força um  tubo de borracha no seu braço magro, procurar uma veia e extrair lenta e delicadamente uma seringa cheia de sangue. Não satisfeito, peguei uma segunda  seringa e enchi também. "Já que ela está calma e o sangue está fluindo, é  melhor aproveitar"—pensei comigo. "Tenho que correr para o hospital, e um  recipiente pode quebrar, ou o conteúdo ficar adulterado—quem sabe o que  será amanhã?"
Agora esperávamos os Lazar voltarem. O monge desapareceu, e uma das  japonesas levou Einat ao banheiro com dois frascos limpos e esterilizados para  a coleta de urina e, se possível, também de fezes. Fiquei com a outra japonesa  e não fiz cerimônia para lhe pedir outra xícara de chá, que ela ficou contente  em servir junto com um biscoito seco. Como parecia uma moça inteligente,  perguntei-lhe o que buscava em Bodhgaia. Ela me falou de um curso local  sobre certo tipo de meditação chamada Vipassana, cuja característica principal  era o silêncio completo durante duas semanas. "E para isso é necessário fazer  uma viagem tão longa?", perguntei sorrindo. "Não é possível ficar calada duas  semanas no Japão?" Ela esclareceu que fazer silêncio junto à árvore de Buda era  diferente de ficar calado em outro lugar. Então lhe pedi que me falasse um  pouco sobre Buda e o sentido que seus ensinamentos teriam para um homem  racional e leigo como eu, sem nenhuma inclinação para mistérios místicos ou  reencarnação. Ela tentou me explicar que não há nada de misterioso nem místico no budismo, que é apenas uma tentativa de interromper o sofrimento que  vem com o nascimento, a doença, a velhice e a morte; ou então o sofrimento  espiritual causado pela presença de alguém que se odeia ou pela ausência de  alguém que se ama. E que o meio de interromper esse sofrimento é desligar-se  e libertar-se, para atingir o nirvana, que é o fim do processo de reencarnações. "É realmente possível interromper o processo de reencarnações?", perguntei  sorrindo por dentro, com ironia hindu. Enquanto eu perguntava, Einat voltou  do banheiro apoiada na outra japonesa, que segurava cuidadosamente os dois  frascos de material, um dos quais continha um líquido que me pareceu um  pouco avermelhado, da cor do chá que eu tomara. Por um momento meu coração ficou apertado com a evidente aparência patológica da urina, que sugeria a  presença de sangue; entretanto, não disse nada e não dei qualquer sinal de preocupação. Ao contrário, manifestei contentamento com o sucesso dos seus esforços, peguei os dois recipientes e os coloquei junto com as duas amostras de sangue numa bolsinha de couro que podia ser atada ao cinto para ser transportada  com segurança. "Parabéns ao nosso farmacêutico-chefe", pensei admirado.  "Quando voltar, não posso esquecer de cumprimentá-lo pela sua brilhante previsão." E continuei a conversa com a jovem japonesa sobre Buda e seus seguidores, tomando a terceira xícara de chá, enquanto Einat cochilava à nossa frente em posição fetal, como se o grito estridente que dera a tivesse deixado mais tranquila. Estava perplexo com a demora dos pais, pensando com rancor especial na mulher de Lazar; com certeza ela estaria insistindo, mesmo num  momento difícil como aquele, em achar uma pousada original.
Finalmente chegaram, agitados mas também orgulhosos com a sua conquista. De repente o quarto se encheu de um grupo de jovens indianos seminus,  que estenderam à nossa frente duas compridas macas de bambu com palha,  como aquelas utilizadas  no transporte dos corpos no rio. Com rapidez colocaram as malas e mochilas sobre uma das macas, e sobre a outra ergueram cuidadosamente a enferma coberta com um tecido florido. E, com um belo pôr do sol, a nossa pequena procissão deixou o mosteiro tailandês com duas macas  conduzidas na altura dos ombros, passando pelas ruas arborizadas de Bodhgaia,  por cabanas de madeira e tendas de pano, sob os olhares solidários dos habitantes locais e peregrinos. Dirigimo-nos para a pousada, não distante do rio, cercada de gramados e canteiros de flores, onde os Lazar tinham encontrado um  chalé com três quartos separados, interligados por um corredor, ou melhor,  uma espécie de pequena cozinha um tanto suja, com uma pia e um fogão num canto e uma mesa no meio, já repleta de verduras e frutas, queijos e pães indianos, que alguém tivera tempo de trazer antes da nossa chegada. Fiquei estarrecido: o simples "quarto mais privativo" que eu solicitara havia se transformado  numa verdadeira residência. Antes de me indagar acerca dos resultados dos exames feitos na sua ausência, o casal desandou a arrumar a casa freneticamente.  Einat foi acomodada num quarto só seu, numa cama coberta de lençóis brancos e limpos, e a mãe não parava de mimá-la e confortá-la. Chegou a ir procurar o dono do hotel para trazer um vaso de belas flores, enquanto Lazar brigava  ferozmente com a desordem à sua volta, abrindo as malas e apressando-se em  guardar as roupas nos armários. Parecia ter esquecido tudo sobre o seu hospital  e a promessa de completar a viagem em dez ou doze dias; era como se o seu  maior desejo fosse estabelecer-se no pequeno chalé com cozinha na simpática  aldeia budista, que, em comparação com a realidade indiana que tínhamos  visto, parecia um verdadeiro paraíso.
Eu não cheguei a abrir minha mala; deitei-me na cama no quarto reservado para mim, pois me sentia inquieto, não tanto por causa da cor da urina colhida e do sangue, que à primeira vista me pareceu anormal e com alto teor de bilirrubina, nem por causa da vesícula biliar dilatada, que um ligeiro toque descuidado fizera doer a ponto de provocar um grito lancinante, mas principalmente por não ter conseguido palpar o fígado, como se ele houvesse encolhido ou  degenerado num rápido e assustador processo de destruição celular. Nesse  caso, pensei, não faltava muito para ocorrer uma hemorragia interna, que seria  o mais preocupante. Pois se isso acontecesse ali, naquela aldeia remota, só nos  restaria orar pela benevolência de Buda. Quando vi Lazar parado junto à porta  com um estranho avental amarrado na cintura, convidando-me para ir até a  cozinha, eu me recompus e decidi voltar imediatamente a Caia para entregar  as amostras de exame no laboratório do hospital e aproveitar a ocasião para averiguar a qualidade do equipamento, de modo que pudesse saber dos recursos  disponíveis para uma emergência. Se os resultados fossem ruins, conforme eu  temia, não seria adequado ela ficar mais tempo naquele chalezinho esquisito,  com uma cozinha apertada e uma mesa de refeições enorme; o certo seria transportá-la para o hospital em Calcutá, sobre o qual tinham falado o médico e o  irmão, nossos companheiros de viagem no trem, para que eu não tivesse de  enfrentar sozinho uma possível complicação. Mas, estranhamente, os Lazar  não estavam tão preocupados como eu; talvez tivessem imaginado uma situação mais grave, ou quem sabe ainda estivessem confiando nas palavras de  Hishin de que se tratava de uma doença que no final se cura sozinha, e assim,  após recolhera filha e colocá-la num quarto decente, tudo que desejavam era um  bom descanso. Parecia também que o santo vilarejo tivera um efeito apaziguador  sobre eles, e estavam felizes por terem achado uma cozinha para se ocuparem,  com pratos, garfos, facas e uma panela no fogo.
Resolvi semear um pouco de preocupação no espírito doméstico recém instalado. Não me sentei à mesa; fiquei em pé diante deles e, sem esperar muito,  informei que sentia a obrigação de ir depressa, ainda naquela tarde, para o laboratório em Gaia com as amostras colhidas. Coloquei sobre a mesa, entre as frutas e os pães indianos, a pomada que aliviava um pouco a incessante coceira de  Einat, e também alguns comprimidos de Valium, e paracetamol para baixar a  febre, não sem adverti-los de que uma dose exagerada poderia deixá-la tonta ou  sonolenta demais, mascarando os verdadeiros sintomas. Ainda não tinha certeza de que devia transmitir a eles a minha preocupação, pois Lazar estava admirado: "Você tem certeza de que é preciso viajar agora às pressas até o hospital?".
"Não há dúvida", respondi sem hesitar, e os avisei de que talvez ficasse por  lá e voltasse apenas pela manhã, pois se descobrisse que o laboratório não trabalhava à noite—algo impossível num hospital sério—ou se não conseguisse  resultados confiáveis, conforme nos prevenira o médico no trem, eu procuraria  um laboratório melhor.
"Mas onde você vai achar aqui outro laboratório?", perguntou Lazar sorrindo, surpreso com a nova seriedade que eu ia revelando.
"Não sei, vou perguntar. Se pudesse, iria até Calcutá, ao laboratório particular daquele médico; ele me pareceu de confiança e temos o endereço no cartão de visitas que nos deixou."
"Até Calcutá? Você ficou louco?" Lazar pulou da cadeira como se tivesse  levado uma mordida. "Como vai conseguir chegar lá? Afinal, aquilo é um inferno, e além disso é longe demais."
"Sim, é longe", eu disse, "mas talvez haja algum voo de Gaia."  "voo?", repetiu Lazar aturdido. "Você quer ir de avião até lá só por causa  desses exames?"
"Não, claro que não", gaguejei.  Mas Lazar não sossegou: "Não entendo direito o que você está querendo.  O que se passa exatamente na sua cabeça?".
"Nada", respondi, "eu só quero resultados seguros e confiáveis."  "Confiáveis", suspirou, "logo aqui?" E ao notar que eu me calara, acrescentou: "Quem sabe em alguns dias Einat melhore um pouco, então levantaremos  acampamento e iremos para casa, e lá faremos todos os exames necessários".
Precisei contestar com certa veemência, tendo o cuidado de não preocupá-los demais. "Esses exames são importantíssimos", insisti, "mas se vocês disserem que não, é não; só que aí vão ter que me explicar por que me trouxeram  com vocês."
A mulher, sentada à minha frente com a expressão sombria e os cabelos  ligeiramente desalinhados, vestindo uma leve blusa branca que revelava novas  e pequenas sardas no seu pescoço, fumando seu fino cigarro em silêncio e me  observando o tempo todo, mas sem o seu estranho sorriso, agora irradiando confiança—sim, foi isso que senti, uma simpatia renovada em relação a mim—,explodiu de repente e disse ao marido com delicadeza, mas em tom firme: "Ele está certo. É isso mesmo. Tenha confiança nele. E se para obter resultados confiáveis ele precisar ir de avião até Calcutá, por que não? Nós podemos esperar; por isso escolhemos um local confortável. Faça o que você julgar necessário",  disse virando-se para mim, "e nós vamos esperá-lo aqui pacientemente. Mas  coma alguma coisa antes de partir".
Sentei-me à mesa enorme e comi apressado. Levantei-me e me aprontei  para sair, pois, apesar de tudo, tinha a esperança de voltar ainda naquela mesma  noite. Tirei da mochila a maioria dos aparelhos médicos, deixando apenas  alguns medicamentos e bandagens. No espaço vazio coloquei uma camisa, um  pulôver, roupa de baixo e produtos de higiene, pendurei a câmera fotográfica  no ombro, e assim me vi transformado num mochileiro andarilho. Prendi ao  cinto a bolsinha de couro com os tubos e frascos de material colhido, e Lazar  me deu mais trezentos dólares para as despesas. Sua mulher preparou sanduíches de pão indiano e colocou algumas frutas desconhecidas num saquinho  marrom. Antes de partir decidi dar mais uma olhada na minha paciente e fui ao  seu quarto. Ela dormia; seu lindo rosto estava tranquilo; apenas as mãos, unidas, ainda faziam ligeiros movimentos de coçar. Hesitei em despertá-la, agora  que estava sossegada numa cama confortável, mas não quis ir embora sem aproveitar a oportunidade de palpar direito os seus órgãos internos. A mulher de  Lazar ajudou-me a acordá-la e, a meu pedido, ergueu a blusa de flanela leve do  pijama que trouxera para ela de Israel. O peito amarelado, os seios pequenos, a  barriga com marcas  de coceira ficaram novamente expostos aos meus dedos,  cuja técnica exímia e especial de palpar despertara certa vez a admiração do  próprio Hishin, que passara a se referir a mim como "o especialista em medicina interna". Senti agora com clareza o fígado diminuído, em comparação com  a vesícula e o baço dilatados. Tive o maior cuidado para não provocar mais dor,  pois queria recuperar sua confiança em mim. Terminei o exame clínico e imediatamente cobri o corpo debilitado. Faltava conseguir uma amostra de fezes.  Não era essencial, expliquei aos pais, mas se fosse possível ajudaria muito.  Quando eu estava prestes a vestir meu agasalho verde-oliva, a mulher de Lazar  me entregou, com um sorriso, o material pedido, embrulhado num jornal escrito em hindi. Desembrulhei o frasco para verificar a cor das fezes, que me pareceram muito escuras e suspeitas, como se contivessem sangue; mas não disse nada, apenas voltei a embrulhar bem o frasco, colocando-o dentro de um  recipiente  maior. Lazar e a mulher me acompanharam até o lado de fora, onde me aguardava um moto riquixá de cores berrantes que ele, exercendo sua capacidade organizacional com os recursos da realidade indiana, tinha alugado para mim. O motorista vai ficar à sua disposição o tempo todo, paguei ida e volta, não se preocupe", disse secamente, como se estivesse zangado com o fato de eu, em vez de tranquilizá-los, causava-lhes preocupações adicionais. Apoiados um ao outro, abraçados sem se abraçar, ficaram ali os dois, observando como eu me montava no riquixá aberto, atrás do motociclista velho e sério, com um turbante  branco enrolado na cabeça, que me conduziu noite adentro, como se decolássemos rumo a um negro vazio.
Ele me levou a Gaia por estranhos atalhos, estradas de terra sinuosas entre  campos e pomares; e se havia casas ou choupanas em meio à vasta planície, não  consegui saber, pois suas luzes estavam enterradas na escuridão. O céu estava  coberto por um nevoeiro denso e cinzento, não se via a lua e nem sequer uma  estrela; o turbante branco diante dos meus olhos era o único sinal de vida.  Apesar disso, sentia-me tranquilo e seguro, segurando firmemente as bordas do  assento que sacudia, com a mochila aos meus pés, sem me importar mais em  decifrar a realidade indiana. Ocupara o seu lugar uma realidade médica prática, em cujo centro estava a necessidade de obter informações corretas sobre o  estado da enferma com hepatite que eu deixara para trás e ainda via, na minha  imaginação, deitada no seu quartinho com os pais—que agora, na escuridão  da noite, eu sabia terem medo dela—circulando ao seu redor. Quando o riquixá começou a diminuir a velocidade, coloquei a mochila nas costas, verifiquei  se a bolsinha estava bem presa ao cinto e, no instante em que ele parou diante  do hospital, que identifiquei mesmo na escuridão, saltei e disse ao dono do turbante: "Não saia daqui". Subi correndo os degraus e passei por uma espécie de  saguão interno. Fazia mais de uma semana que não entrava num hospital, sentia falta até do cheiro.
Só que fui recebido por um cheiro totalmente diferente: não o odor de lisol  e fezes, tampouco de medicamentos e éter, às vezes misturado com cheiro de  verduras cozidas. Nem era o cheiro dos mortos, que eu também conhecia. Era  um cheiro de podridão, que me atingiu violentamente. Parei na porta, tirei da  mochila um grande pedaço de gaze, pinguei nele algumas gotas de iodo e o amarrei no rosto, como uma máscara cirúrgica. Só assim consegui percorrer os  corredores e procurar o laboratório. Talvez mais por causa da bandagem no  rosto, levemente alaranjada, do que pelo fato de eu ter me apresentado em todo  lugar como médico, deram-me atenção e me acompanharam até o laboratório,  situado no pavilhão de trás, numa cabana de madeira grande e antiga, repleta  de doentes silenciosos, principalmente mulheres ajoelhadas no chão cercadas  de crianças irrequietas. Ali já não se impressionaram com a minha máscara alaranjada, e fui obrigado a abrir caminho por entre as pessoas para conseguir chegar à entrada da cabana, onde estava postada uma senhora de meia-idade de  pele muito escura e aparência nobre, alta como uma longa peça de mármore  negro, vestindo um sari fino e colorido, com o sinal do terceiro olho na testa,  grande e vermelho. Era a encarregada do laboratório, com formação técnica ou  burocrática, não sei, lerda e aparentemente muito desorganizada, pois sobre a  sua mesa estavam amontoadas dezenas de cartões e resultados de exames das  mais variadas cores, que ela revirava à procura do número correspondente aos resultados para entregá-los às pessoas em redor. No início tentou me ignorar,  apesar de eu ter tirado a bandagem e me apresentado como médico; enfim,  virou-se para mim para escutar a minha solicitação, e quando acrescentei que  estava disposto a pagar o dobro para que os exames fossem feitos imediatamente, encarou-me de cima a baixo com desprezo e declarou que num hospital pertencente a Buda, que também é o senhor dos mendigos, nada se cobrava, mas  que, se eu quisesse fazer uma doação, havia uma grande urna especial para isso  na entrada principal. "É claro, vou dar logo a minha contribuição", afirmei e  me apressei em tirar da bolsa as amostras de material. No primeiro momento  ela disse: "Aqui não, aqui não, há um guichê especial para isso, fique na fila",  mas depois desistiu de me impedir e me orientou a anotar os exames que eu queria no papel timbrado do hospital. Escrevi tudo e acrescentei também um pedido de exame das funções hepáticas; assinei e anotei o número do meu registro  de médico israelense; tive o cuidado de não dar nenhum indício de que a minha  paciente estivera internada alguns dias antes naquele mesmo hospital, para não  gerar uma inesperada questão burocrática. Ela deu uma olhada na minha  requisição, rabiscou com caneta vermelha grandes pontos de interrogação ao  lado do exame de funções hepáticas, disse não ter certeza de que eles poderiam  ser feitos ali e displicentemente embrulhou as amostras de urina e sangue no papel da requisição, sem colar nem sequer prender com um elástico; colocou-as dentro de uma grande caixa de papelão cheia de tubos e frascos, alguns vazios  e outros com líquidos de cores estranhas. Agradeci, mas voltei e pedi que os exames fossem feitos com urgência, se possível; se fosse necessário, acrescentei, eu  estaria disposto a entrar pessoalmente no laboratório para ajudar. "A minha  paciente", eu disse, "está ardendo de febre em Bodhgaia, e sabendo os resultados podemos começar o tratamento." Então, inesperadamente, a nobre indiana perdeu a compostura.
"Todos aqui querem saber o resultado, todos aqui estão esperando, todos aqui  estão doentes, todos aqui foram mandados por algum médico; ninguém vem  aqui fazer exame de sangue para se divertir", censurou-me, irritada, como se eu  fosse criança. A troco do que eu achava que tinha direito a uma resposta sem fila?  Só porque as pessoas que estavam na fila tinham pele mais escura que a minha?  E com um gesto largo e elegante fez um sinal para que eu me afastasse.
Sem compreender por que me sentira tão profundamente insultado com  o sermão daquela mulher de meia-idade, tive um ímpeto de pedir-lhe que me  devolvesse as amostras para que eu fosse a outro lugar, mais confiável. Mas  fiquei quieto, pois não sabia aonde ir. Frustrado, sem saber quando voltar para  pegar os exames, fui embora. Ainda fiquei um bom tempo andando para cá e  para lá entre os indianos que aguardavam do lado de fora; vez ou outra espiava  pela janela .de uma sala onde laboratoristas exaustas se espremiam sob uma luz  fraca e, diante de velhos e grandes microscópios, consultando tabelas de contagem,ao lado de enormes garrafas de soro, examinavam as amostras de sangue e urina que lhes eram trazidas em pequenos recipientes de vidro  azul. No final; percebi que não fazia sentido e desisti de ficar rondando a janela; voltei para o lugar onde havia deixado meu riquixá, que agora, por estar cercado de outros semelhantes, não pude reconhecer. Tive de ir de um em um,  olhando os motoristas que cochilavam encolhidos no banco do passageiro, até  encontrar o meu, que, por sorte, conservara seu majestoso turbante branco enquanto dormia. "Leve-me até o rio", eu disse, despertando-o, pois desde o dia  da minha chegada à Índia sentira atração por rios. Porém o meu motorista,  sonolento, sorrindo com a boca torta, enrugada e sem dentes, procurou me  explicar que agora não havia rio em Gaia. "Agora não há?", perguntei admirado. "Mas no mapa aparece um rio." Havia um rio, mas não havia água, ele tentava explicar, ajudando-me a subir para o assento ainda quente. Cobriu-me  com um cobertor rasgado e conduziu o riquixá, sem fazer barulho, para longe  do amontoado de outros que o cercavam. Em seguida ligou o motor e me levou  até, as margens do rio, que existia, mas estava quase seco, porque era inverno.  No leito seco, via-se uma fogueira, que pela aparência concluí ser onde se queimavam os mortos, e as figuras ajoelhadas em volta, com suprema serenidade,  eram os membros da família contribuindo para a libertação da alma.
Desci do riquixá, abri a mochila, tirei o pulôver para me proteger do frio e  caminhei com cuidado para o leito largo do rio, atraído por alguma coisa cuja  natureza não estava clara, com a reprimenda da altiva funcionária ainda fervilhando dentro de mim. Por que me sentira tão ofendido? Tentei examinar a  mim mesmo. O que estava acontecendo? Tudo porque ela fizera pouco da  minha preocupação? Também Lazar e a mulher não pareciam preocupados,  não pareciam ter consciência de que a paciente confiada aos meus cuidados  estava muito doente, correndo perigo de verdade, e não se tratava de uma doença que se cura sozinha. Uma onda de aflição pela enferma e pelo seu médico  ergueu-se dentro de mim, e enquanto eu andava pelo leito do rio em direção à  fogueira pequenas lágrimas inundaram meus olhos. Que diabo era aquilo? Por  que eu estava tão bravo e magoado? Ele tinha o direito de não me escolher para  ficar no departamento, mas que direito tinha—um médico que eu sempre  admirara—de dizer displicentemente que era uma doença que se cura sozinha? O que é que ele sabia, aquele Hishin? Tremi como se ele estivesse na  minha frente. Mas não parei de andar, continuei abrindo caminho entre os  arbustos e grandes pedras no leito seco do rio, entre flores silvestres sem cor na  escuridão, dando passos cuidadosos entre os corpos de peregrinos e mendigos  que dormiam cobertos com caixas de papelão, enxugando minhas estranhíssimas lágrimas, espantado por ter me transformado num menininho frágil, justamente no lugar em que nós, ocidentais mimados, deveríamos ficar tranquilos e  humildes diante do verdadeiro sofrimento.
Os indianos sentados junto à fogueira, com certeza imaginando que eu me  dirigia a eles, começaram a se levantar para me receber, mas também para  impedir que eu me aproximasse do fogo e quebrasse a santidade do ritual com minha presença. A julgar pelas vestes, eram gente da cidade, de classes mais  abastadas, e relacionaram-se comigo com firmeza e elegância. Cercaram-me,  colocando a mão sobre o coração na saudação tradicional, ao mesmo tempo  barrando meu caminho. Juntei as mãos numa saudação semelhante, manifestando a minha solidariedade e boa vontade, e então senti alguém me tocar de  leve. Era o meu motociclista do riquixá, que correra atrás de mim disfarçadamente, preocupado em evitar que eu me metesse em confusão. Falou a meu  respeito de forma positiva aos ouvidos dos outros homens, mas também cuidou  para que eu não me aproximasse da fogueira, cujo fogo parecia límpido e feliz,  como se não houvesse nada em cima dele. Tirei a mochila das costas e sentei-me numa rocha enorme e escura. Os restos do rio ainda corriam nas proximidades, e a noite estava muito fria e nublada. Quando os indianos viram que eu  desistira de chegar perto do fogo e me sentara ao lado, acalmaram-se, e um deles  me ofereceu um copo de chá quente, talvez para retribuir a minha compreensão. Peguei o chá, agradecido, e antes de levá-lo aos lábios notei, com surpresa, que o corpo pousado junto à fogueira, esperando ser cremado, não estava  morto, e sim mortalmente doente, talvez agonizante, e fora trazido para falecer  no lugar certo. De vez em quando alguém se curvava para examiná-lo, afagá-lo,  cochichar algo, encorajá-lo e dar-lhe esperanças, junto ao fogo que o aguardava. Então entendi por que insistiram em impedir a minha aproximação, mas  não pude tomar o chá que me deram. Após um tempo breve, quando se ouviu  o som de um avião no céu e todas as cabeças se voltaram para cima, derramei  no chão o líquido amarelado. No meio do nevoeiro, viam-se agora fortes luzes  vermelhas, e um avião grande e velho, cujas hélices emitiam um som agradável, passou voando baixo, literalmente por cima de nós, e seguiu ao longo do  leito do rio até aterrissar. Os indianos comentaram sobre esse voo noturno, que  vinha de Nova Delhi e seguia para Patna e Calcutá. "Para Calcutá?" Fui tomado por uma súbita excitação. Todos ali conheciam o velho avião noturno e pareciam sentir certo afeto pelo voo que partiria em uma ou duas horas para Patna,  chegando a Calcutá ao amanhecer. Sem perder um segundo, levantei-me, devolvi o copo vazio e disse ao meu condutor, que estava ali sentado com seu  imenso turbante, satisfeito consigo próprio e com a noite, tomando o segundo  copo de chá: "Venha, leve-me depressa ao aeroporto, quero ir a Calcutá".
"Impossível", disse sem se mover, "você não vai achar lugar, esse avião está  sempre lotado."
Mas eu não desisti. A possibilidade de saber não só o teor de bilirrubina,  mas também quanto haviam sido afetadas as funções hepáticas, o nível de glicose e as substâncias coagulantes—uma deficiência poderia provocar na  paciente uma hemorragia interna—,era de tamanha importância para mim,  que justificava uma tentativa de chegar a Calcutá, que Lazar, mesmo sem  jamais ter visitado, chamava de "inferno". Ainda bem que eu tinha extraído de  Einat uma dose dupla de cada amostra: agora não precisava retornar à indiana  altiva do laboratório.
O voo de fato estava lotado, como o motorista avisara. Insisti em explicar  aos funcionários do aeroporto, exibindo os frascos de sangue e urina, que eu era  um médico inglês que precisava chegar urgentemente a um laboratório em  Calcutá para pedir exames de emergência. Deram um jeito, então, de me arranjar um pequeno assento dobrável no fundo do avião, em geral reservado aos  comissários de bordo, aos quais também paguei a passagem, que me pareceu  extremamente barata. Ao condutor do riquixá dei algumas rúpias e uma carta  breve para entregar a Lazar em Bodhgaia. Na carta detalhei a minha intenção  de levar os exames para Calcutá e voltar no dia seguinte, de avião ou de trem,  com resultados confiáveis. "Não se preocupem", concluí ironicamente, "voltarei até mesmo do 'inferno', afinal vocês já perceberam que eu não me perco."  Coloquei aspas na palavra "inferno" para mostrar que estava citando Lazar e  também para diminuir a sua preocupação, e assinei afetuosamente "Do seu  Benjamim". Estava pronto para tomar o velho avião e ocupar o assento dobrável reservado para mim. Era quase meia-noite. Tirei da mochila um dos três  grandes sanduíches que a mulher tinha preparado e comi com apetite, pensando nos dois, em como combinavam tão bem. A forma de se relacionarem com  a filha era estranha: uma compaixão esquisita, alienada, como se tivessem  medo dela. Será que a mulher de Lazar também teria se referido a Calcutá  como um "inferno"? Mas o que sabia ele sobre o inferno? Talvez conhecesse no  seu hospital lugares sinistros, como a câmara frigorífica para guardar os mortos.  Digamos que fosse mesmo um inferno, mas o médico indiano e seu irmão, que  conhecemos no trem, pareciam bastante felizes e moravam lá. E se a miséria e  o sofrimento fossem maiores do que tínhamos visto até agora, melhor ainda – na volta para Bodhgaia, eu teria uma certa vantagem sobre os dois, pois isso fundamentaria a minha autoridade como médico, se chegasse a hora difícil que eu  receava. Eles estavam seguros demais por causa do laço profundo que os unia.  Após a meia-noite, quando o avião ligou seus motores e levantou voo com facilidade e leveza surpreendentes para sua idade, encarei esse fato como um sinal  de que a minha decisão tinha sido acertada e adormeci imediatamente.
Sonhei que tinha voltado para o chalé deles, que não ficava mais em  Bodhgaia, e sim em outra cidade ainda mais a leste, mas não na Índia. A cozinha também tinha crescido e alargado muito, e no lugar da grande mesa de  madeira estavam a mesa de vidro da sala de visitas deles em Tel Aviv com outros  móveis do mesmo apartamento e do apartamento dos meus pais. Até mesmo a  minha motocicleta, que eu deixara no pátio da casa dos meus pais em  Jerusalém, ali estava coberta ao lado da pia. Só a moça doente  faltava. Os dois  estavam sentados tristemente junto à mesa, esperando que eu voltasse de  Calcutá com os resultados, e só então percebi que tinha demorado demais para  voltar, e que voltara não um dia depois, como prometera na carta, mas após  algumas semanas, talvez meses. Mas eles esperaram, fiéis à promessa feita aos  meus pais de que cuidariam de mim. "Onde está a minha paciente?", perguntei com infinita aflição. Eles trocaram olhares, e Lazar não se levantou, apenas a esposa veio e me conduziu para o canto onde estava deitada uma menina  estranha, envolta num lençol cinzento. "Ele chegou", sussurrou a mãe.
Com os primeiros sinais de luz, o avião começou a descida sobre Calcutá,  coberta de neblina, com algumas luzes esparsas brilhando. Parecia uma imensa fábrica antiga onde a atividade cessara, restando entretanto a sua nuvem de  fumaça. Apesar de ser ainda muito cedo, uma multidão já circulava sem destino. As pessoas pareciam flutuar, como se a lei da gravidade tivesse sido abolida.  Ocorreu-me que, se eu quisesse obter um sinal de que efetivamente descera ao  degrau mais baixo do sofrimento humano, tal sinal estaria ali. Em Nova Delhi  ou Varanassi, havia algum rumo até mesmo para os mendigos e aleijados,  porém aqui todo rumo se perdera, e os seres humanos vagavam ao léu num turbilhão pelo qual eu já fora sugado, e não conseguia encontrar a saída. Mendigos  nus me agarravam, leprosos e aleijados, e era impossível desvencilhar-me deles.  Estava sedento e cansado da viagem, mas vacilei entre beber ali, no coração do  tumulto, ao lado de pessoas mutiladas e moribundas estiradas junto aos muros, e esperar até chegar à cidade propriamente dita. Mas a sede era forte. Num dos  balcões pedi chá com leite, à inglesa, como a minha mãe fazia. Escolhi dois cartões-postais com a tarifa de postagem estampada, tirei da mochila outro sanduíche daqueles preparados pela mulher de Lazar e comi em pé mesmo, enquanto escrevia num dos cartões, com a minha letra pequena e legível, algumas  palavras afetuosas para os meus pais, contando também os motivos da minha  vinda até Calcutá. O balconista me indicou onde havia uma caixa de correio,  grande, vermelha e muito britânica, inspirando-me a confiança de que o postal  chegaria ao destino. Meti o outro postal no bolso e, mais disposto, consegui  achar a saída daquele aglomerado humano. Sem hesitar, peguei não um riquixá, mas um táxi de verdade, que me levou direto ao laboratório cujo endereço  constava no cartão de visitas.
O sonho que eu tivera no avião me preocupava e, ao mesmo tempo, era um  alerta: o importante era não me perder. Meu objetivo era saber como estavam  as funções hepáticas, as duas transaminases, a situação dos fatores de coagulação e os níveis de glicose. Eu tinha plena confiança naquele médico e no seu  irmão. Eram ligados à Universidade de Calcutá. Mas quando o táxi chegou a  um prédio de apartamentos comum, numa rua estreita, sem placa ou qualquer  outro sinal de que ali fosse um laboratório clínico, fiquei desanimado, e só dispensei o motorista depois que ele me acompanhou até a porta do apartamento.  Para minha surpresa, o pequeno e desleixado edifício, apesar dos poucos andares, tinha um elevador, mas era impossível saber se estava funcionando, pois no  seu interior dormiam algumas pessoas, espremidas e amontoadas como cobras  escuras num ninho. Na verdade, chegáramos cedo demais, e as escadas também estavam cheias de pessoas adormecidas, cada uma com o corpo ajeitado  num  degrau. O motorista tirou as sandálias e passou sobre elas descalço; também tirei os sapatos e tentei deslizar entre elas de meias. Assim chegamos ao  apartamento do médico, a cuja porta estava preso um cartão de visitas igual ao  que nos dera. O motorista não se contentou em encontrar o apartamento:  entrou para tirar o médico da cama e colocá-lo em pé diante de mim. Ele vestia  apenas uma bata estreita, e seu corpo pequeno e magro parecia o de um menino. Não ficou surpreso de me ver, sapatos na mão, e com alegria genuína gritou: "O tempo todo eu dizia ao meu irmão que o doutor Benjamim teria de chegar até nós, se quisesse saber a verdade, mas quem iria acreditar que viria tão cedo?". Convidou-me, rindo, a entrar num quarto grande e escuro, cheio de  tapetes e objetos de decoração. Tirou do sofá duas meninas que dormiam e  colocou-as no quarto ao lado, voltando pouco depois vestido num terno claro  de estilo europeu. Tomou das minhas mãos as amostras que eu trouxera, escutando com muito interesse o meu relato sobre o estado da paciente e outras notícias. Numa caligrafia clara e limpa, anotou os detalhes dos exames que eu pedia  e, conforme pude observar, parecia familiarizado com tudo, pois nenhum  exame lhe pareceu impossível ou supérfluo. No final, levantou-se e disse:  "Pronto, precisamos de meio dia, meu irmão e eu, para lhe dar todas as respostas. Se não der tempo de pegar o avião do meio-dia, poderá viajar no trem das  cinco e chegará a Gaia ao amanhecer". Sobre o sofá onde tinham estado as duas  meninas, estendeu um pano fino e colorido, bateu levemente as almofadas e  virou-as para sacudir delas o sono das filhas, espalhou alguns bastões de incenso e acendeu-os para afastar os odores da noite. Finalmente disse: "Aqui poderá  descansar e dormir, para voltar tranquilamente esta noite para a sua paciente.  Afinal, foi por causa dela que veio até Calcutá".
Encontrei-me num quarto bastante agradável, com correntes de flores e  estatuetas de divindades com cabeça de elefante ou macaco. O sutil perfume  do incenso invadia os meus sentidos. Não havia nada que me fizesse recordar o  inferno. Sentei-me no sofá, sem sapatos, e pensei: "Que viagem estranha essa  que fiz até aqui. Será que foi só por causa da moça doente? Ou será que quero  provar a Hishin que sou um médico dedicado e obstinado, que não abre mão de  nenhum exame interno?". Tirei do bolso o segundo cartão-postal e escrevi  numa linguagem bem-humorada: "Caro professor Hishin, lembranças de  Calcutá, o degrau mais baixo do mundo no que se refere a miséria e sofrimento humano. Cheguei aqui sozinho, com o propósito de  conseguir uma visão  detalhada e precisa sobre a nossa paciente, cujo estado é  mais preocupante
do  que se imaginava. Os Lazar são simpáticos; e a Índia, interessante. Do seu  homem 'ideal' ". Pensei em acrescentar "que você engabelou", mas me contive. O que ele iria entender? Até a palavra "ideal", que eu colocara entre aspas,  pareceu-me dispensável. Será que ele se lembrava disso? Enfiei o postal no  bolso. De qualquer maneira, chegaria depois de mim, e para que bancar o engraçadinho? Tirei o pulôver. Do outro lado da porta, ouviram-se passos delicados. Será que a mulher do médico sabia quem eu era e por que estava lá? O  sofá era macio, e afundei nele com extremo cansaço, pensando: "Afinal, isto é  um pequeno paraíso no meio do inferno, que até agora ainda não senti direito  e talvez nem chegue a sentir, nem tenho a intenção de me vangloriar por ter  visitado".
Apesar de todo o meu cansaço, não consegui relaxar e adormecer, apenas  cochilar levemente, pois as pessoas que dormiam nas escadas começaram a  acordar, os habitantes da casa tentavam expulsá-las, e o elevador, aparentemente livre dos peregrinos noturnos, começou a subir e descer. As duas filhas do  médico abriam e fechavam a porta para me espiar, procurando despertar-me,  até que resolvi convidá-las a entrar. Hesitaram mas acabaram entrando timidamente, num uniforme escolar composto de um sari rosa esvoaçante, fita azul  prendendo os cabelos e pasta escolar às costas. Tentei puxar conversa e entretê-las fazendo caretas, em que não acharam graça; talvez pensassem que aquelas  caretas fossem naturais num rosto ocidental. Enfim a mãe entrou, querendo  levá-las para a escola mas hesitando em me deixar sozinho no apartamento.  "Neste caso, talvez eu também saia para dar uma volta pela cidade. Há algum  rio por aqui?", perguntei. Certamente havia um rio, chamado Hugli, com suas  próprias câmaras mortuárias, e também havia uma fortaleza, chamada Forte  William, situada na bela Maidan de Calcutá. Realmente seria pena não ver  aqueles locais, então me despedi da minha anfitriã. Ao descer, contei os degraus  e anotei o número, para saber como voltar ao apartamento. Saí e identifiquei  também a rua por alguns sinais especiais, indo e voltando algumas vezes, para  fixar o lugar exato do prédio. Quando entrei na rua principal, imediatamente  me vi cercado pela multidão agitada e tomei consciência de que era o único  estrangeiro na região. Fui atacado por um ligeiro temor e me lembrei do sonho.  "É preciso ter cuidado, não me afastar, prestar muita atenção, pois tenho de voltar, até a mulher de Lazar confiou em mim." Não era mais turista, era um médico em serviço e devia retornar ainda aquela noite para a minha paciente, cujo  rosto delicado e amarelo surgia de vez em quando na minha mente, acompanhado do sorriso sem sentido que brilhava nos olhos da mulher de Lazar.  Resolvi desistir do rio e das câmaras, da importante fortaleza e da bela Maidan  e me movimentar apenas num círculo estreito e seguro, para não perder contato com a rua. A cada meia hora eu retornava e me postava diante do prédio, às  vezes subia até o apartamento e batia à porta—talvez os resultados já tivessem chegado. Numa das ruas próximas, chamou a minha atenção um edifício junto  ao qual se comprimia uma pequena multidão. No começo pensei "mais um  templo", mas ao me aproximar descobri que nada mais era do que um cinema,  grande e velho, coberto de cartazes coloridos. Estendida na calçada, uma  mulher de meia-idade parecia agonizante, e ao seu lado um grupo de mendigos  acompanhava com o olhar as pessoas que entravam no cinema. "Talvez seja  melhor ver a Índia em filme", pensei. Comprei um ingresso e entrei num salão  enorme e escuro, cheio de colunas com entalhes esculpidos.  Descortinaram-se aos meus olhos fileiras e fileiras de cabeças, grande parte delas cobertas por  turbantes; outras eram calvas ou raspadas, ou tinham cabeleiras lisas, despenteadas ou crespas. Quando entrei, quase todos se voltaram para mim, como se  houvesse algo estranho no meu cheiro ou nos meus passos. Escolhi um lugar  numa das fileiras centrais, e todos se levantaram com prazer de seus assentos  para me dar passagem, sorrindo com grande simpatia. Mas logo apareceu um  fiscal, com um distintivo preso ao bolso da camisa, tentando me convencer a mudar de lugar, aparentemente para um assento de honra. Eu quis recusar, mas  ele apontou em torno e disse: "Gente ruim, gente ruim". E todos sorriram para  nós. Recusei novamente, mas ele teimou, entrou na fileira de assentos e agarrou meu braço com força, apontando para as pessoas à minha volta, que não  paravam de sorrir. Finalmente me conduziu para uma poltrona forrada de veludo vermelho, deteriorado com o passar dos anos e transformado num tecido ralo  e rosado, como a pele de um animal velho. E naquele assento, que talvez já  tivesse conhecido espectadores mais nobres do que eu, esperei o início do filme  sem legendas, em que um jovem e esbelto herói indiano era atormentado pelas  aflições não da fome, mas do amor.
Quando voltei ao apartamento, ao meio-dia, encontrei a mãe com as  filhas, o médico e seu irmão exibindo as folhas com os resultados. As minhas  suspeitas eram justificadas. O fígado fora seriamente atingido. A cadeia de enzimas do sistema de coagulação estava comprometida. O teor de bilirrubina estava muito elevado, quase trinta. O ALT saltara de quarenta para cento e oitenta, e o AST não ficara atrás. Ocorrera uma queda no nível de glicose, e a hipoglicemia era responsável pela extrema fadiga. Era urgente uma aplicação de glicose  e talvez algo que estabilizasse os fatores de coagulação—o mais simples seria  uma transfusão de sangue. Mostraram-me também resultados de exames que  eu não pedira. Não havia dúvida de que tinham feito um trabalho de primeira,  correndo a manhã toda de um laboratório a outro e extraindo o máximo de  informação das amostras que eu trouxera. Eu precisava voltar à minha jovem  paciente o mais depressa possível, não havia tempo a perder. Qualquer segundo era importante. Puxei a carteira e dei-lhes cem dólares, uma quantia régia  tanto aos seus olhos como aos meus, mas impus uma condição: que não me deixassem sozinho, que me embarcassem no trem certo para Gaia, pois o voo já  estava perdido. Ficaram felizes e agradecidos com a quantia que eu lhes dera,  garantiram que reservariam uma parte substancial para caridade e obviamente prometeram me levar até o trem para Gaia. Também quiseram saber se eu tinha  visto alguma coisa de Calcutá. "Vi muito pouco", respondi, "é um lugar difícil, mas não é o inferno." Ambos caíram na gargalhada, depois insistiram que, apesar de tudo, havia ali locais infernais, como se o inferno fosse parte das atrações turísticas da cidade, sendo proibido ignorá-lo. No caminho para a estação ferroviária me mostrariam regiões realmente deprimentes, com a condição de que  eu primeiro me sentasse para comer. Embora não tivesse fome e a preocupação  com a minha jovem paciente começasse a me dominar, era difícil recusar algo  aos meus dois simpáticos anfitriões. Foram servidos belos pratos coloridos,  cheios de pequenas porções de comida de todas as variedades, das mais diversas  formas e cores. O médico e seu irmão sentaram-se ao meu lado com as duas  menininhas nos braços, e todos ficaram me olhando para que eu não deixasse  de provar de nenhum dos pratos. Logo me satisfiz e senti um leve enjoo. O olhar  sério das meninas aumentou a minha indisposição. Levantei-me e declarei: "Os  resultados dos exames acabaram com o resto de tranquilidade que eu tinha.  Amigos, por favor, pelo amor de Deus, vamos embora, e se quiserem me mostrar alguma coisa no caminho, levem-me até o rio que passa por Calcutá, pois eu não sei o que está acontecendo comigo, mas desde que cheguei à Índia sinto-me atraído pelos rios como se estivesse apaixonado por eles". Apesar de lamentarem a refeição interrompida, apressaram-se em atender ao meu pedido e me  levaram a Maidan, uma área aberta com vista para o rio em cuja extremidade norte há um obelisco; lá me deixei fotografar com a minha câmera e tirei algumas fotos. Não contente com a visão do rio, quis descer até as margens, e satisfizeram o meu desejo. Quando me viram debruçar-me e mergulhar os dedos na  água fria, baixaram a cabeça de contentamento. Essa imersão particular e  espontânea fortaleceu a sua opinião de que eu devia ver o inferno por dentro,  não só numa viagem rápida de carro: devagar, num riquixá conduzido por mãos  humanas, percorrendo as terríveis vielas com montanhas gigantescas de lixo  fedorento, remexidas por seres humanos deprimentes e miseráveis, que já nasciam praticamente mortos—uma humanidade deteriorada e desprezada  como insetos pisados por um pé gigantesco. Durante uma hora inteira, conduziram-me por ruas que um dia deviam ter sido humanas e agradáveis, com belas casas, e agora pareciam contaminadas por uma terrível praga, sendo a dor ainda  mais aguda porque os vestígios da beleza ainda eram evidentes. E assim avançamos sob o sol claro do inverno, eu sentado no vagaroso riquixá e os dois acompanhantes barbados, vestidos de branco, caminhando ao meu lado, ocasionalmente tirando uma moeda do bolso e colocando-a na mão de um moribundo  ou de uma criança, parecendo satisfeitos com o meu interesse. "Será que o  inferno é pior do que isto?", perguntaram-me com uma curiosa expressão de  triunfo ao entrarmos na estação.
Apesar de a viagem ter durado nove horas, não consegui pregar o olho. As  visões de Calcutá misturavam-se à preocupação crescente com a minha enferma, formando uma entidade única que pesava no meu coração. Finalmente,  quando o sono quase tomava conta de mim, fiquei de pé no corredor, temendo  que Gaia passasse enquanto eu dormia. Após a meia-noite fui despejado na plataforma, que parecia o último lugar sobre a face da Terra; circulei atentamente  entre os muitos riquixás na esperança de encontrar o dono do turbante branco,  em vão. Outro motorista, mais jovem, conduziu-me até Bodhgaia pelo caminho  rural que serpenteava entre colinas delineadas por uma lua crescente. O hotel  junto ao rio estava escuro e fechado, e por um instante esqueci onde ficava a  entrada independente do nosso chalé. Cansado, exausto, caminhei em volta do  prédio, e pela primeira vez na viagem perdi a tranquilidade. Uma angústia desconhecida e dolorosa tomou conta de mim. Teria eu de ficar até o amanhecer  do lado de fora, no frio que vinha das margens, só porque quisera ser ideal para  os Lazar e para mim mesmo? Sentei-me sob uma das árvores grandes para me recobrar do cansaço. Lembrei-me que restava um sanduíche na mochila e devorei-o para combater o sono. Então me levantei, como se reanimado por um bom  copo de vinho, e contornei de novo o prédio, até que distingui a entrada correta  e bati à porta delicadamente. Ela se abriu de imediato. Era a mulher, sem óculos, cabelos despenteados, com uma camisola fina que ressaltava as gorduras do  seu corpo e os seios fartos e redondos. Os chinelos eram de salto alto. Estava pronta a me oferecer apenas o sorriso automático de seus olhos, porém os sentimentos foram mais fortes, ela estendeu os braços e me enlaçou com um calor proibido. Por um instante ficamos sós na sombria cozinha, com as panelas sujas na pia,  mas logo surgiu Lazar e agarrou a minha cabeça num forte abraço de raiva e afeição ao mesmo tempo. "O que há com você? Onde se meteu? Mais um pouco e  partiríamos sem você. Não me diga que foi com os exames até Calcutá."
"Sim, fui até Calcutá", repliquei com estranho orgulho.  "E foi necessário ir até lá?", perguntou Lazar, incrédulo.  "Sim, foi necessário", respondi com firmeza. "Consegui todos os resultados possíveis e de forma totalmente confiável, agora sei onde estamos pisando."
"Onde?", perguntou Lazar, que pareceu ofendido com o meu tom firme.  "Já, já", respondi. "Já vou contar tudo. Deixem-me primeiro ver a nossa  doente." E entrei do jeito que estava, sem lavar as mãos, no quarto onde uma luz  amarela iluminava a moça deitada, que ainda se coçava em seu sono irrequieto  e não tinha consciência da perigosa conspiração que se desenhava dentro de seu  corpo. Ajoelhei-me ao lado da cama e coloquei a mão na sua testa. A febre estava igual. Lazar e a mulher me observavam impacientes. O estado dela nas últimas vinte e quatro horas não linha se alterado, e agora eu vinha de longe com  resultados importantes e me ajoelhava ao seu lado com tamanha preocupação.  "Tenho de deixá-los preocupados", refleti, "pois de outro jeito não vou ter a colaboração deles; e se não colaborarem, a minha competência profissional estará  comprometida." Segurei sua mão frágil para tomar o pulso. Seus olhos verdes  abriram-se no rosto lindo e cansado, mas não sorriram como os da mãe.
"E então?", disse Lazar, já nervoso com os procedimentos médicos.  "Já, já. Deixem-me apenas lavar as mãos", e saí para a cozinha.  A mulher de Lazar me estendeu uma toalha e sabão, eu sorri e disse a  Lazar: "Aliás, com relação a Calcutá, você estava certo. Mas ali há gente boa e,  vocês não vão acreditar, até assisti a um filme".

5.
 
Porém, mesmo supondo que seja realmente paixão, o que se pode fazer?—ele diz a si mesmo comum sorriso sombrio, acariciando com os olhos as costas elásticas da menina debruçada sobre o atlas mastigando o lápis. Afinal não é possível, ele procura se tranquilizar, que ela não pertença a alguém, alguém que venha  buscá-la daqui. Mas a ideia de que a menina fora abandonada em sua casa continua a agitá-lo, e com um prazer novo e agradável que ainda, segundo crê, está  sob controle, ele encosta a mão no ombro macio, para encorajá-la. Ele se curva  sobre o mapa aberto à sua frente com seus tons azuis, verdes e amarelos, lê docemente os nomes assinalados das cidades e dos países, e diz a ela num leve tom de  censura: "Mas o que ainda há para procurar aqui, se é este o lugar?". Pousa o dedo  sobre a mancha esverdeada entrecortada pelas linhas azuis dos rios e declara com  firmeza: "Aí está, essa é a resposta certa, chega de estudar. Já é tarde". E enquanto uma pequena faca revira o seu coração, ele fecha o atlas e o caderno, abre o alfinete de gancho e retira do bolso da blusa o distintivo da escola, sentindo na ponta  dos dedos o contorno do seio infantil, e já não consegue se controlar, e pergunta a  si mesmo o que ela estaria sentindo, e o que ela é capaz de compreender, e se seria  possível beijá-la um pouco sem correr perigo.
Ele toma coragem e encosta seus lábios tranquilos na testa dela. Escuta no  silêncio da noite o som ruidoso da geladeira solitária, e segue beijando seus olhos, lambe a ponta do lóbulo da orelha e diz para si mesmo: "Só até aqui, não mais,  senão é perdição". Mas a menina não sente a perdição, fecha os olhos de cansaço e abre a boca num pequeno bocejo, até que ele não consegue mais se conter,  enfia a língua ardente na boca rosada, sorvendo o resto das balas chupadas  durante o dia. Mas não é possível que isso seja amor, insiste em explicar a si  mesmo, é apenas uma paixão momentânea e passageira. Será que ela entende?  E sua mão a apalpa entre as pernas, desliza sobre sua maciez virginal, e ao sentir sua leveza infantil ele a ergue de uma só vez em direção ao teto, para que ela  desfrute um pouco o prazer de flutuar após um dia tão longo de estudo. E ele crê  que justamente por fazê-la flutuar dessa forma, ação que mobiliza todas as suas  forças, estará provando a pureza de suas intenções.
Mas, para desgosto de seu coração, ele percebe que também essa paixão leve  e flutuante desperta o desejo, pois por que outro motivo, em vez de explodir num  riso solto e infantil, ela cerra os olhos e um ligeiro tremor de prazer domina sua  boca, e ela fica mais pesada em seus braços, e ela se curva e enlaça seu pescoço, e  beija-o com fervor cobrindo seus olhos com os cachos dos cabelos? Será, surpreende-se ele, que uma menina tão pequena tem desejo? E com todo cuidado ele a coloca sobre a grande mesa da cozinha, e pela sua cabeça passa um novo pensamento. Talvez ela esteja doente, condenada a morrer, e essa seja a última alegria que  se possa dar a ela. Como roubar-lhe essa alegria? Ele recua um pouco, descalça  os tênis e as meias brancas que ela está usando, que nas profundezas desta maravilhosa noite, após um longo dia de estudos, ainda conservam um inexplicável  frescor. E sem fôlego ele se curva, e segura nas palmas das mãos os dois pés gorduchos para aquecê-los com suaves beijos, ainda que não precisem ser aquecidos,  pois o desejo ardente já os deixou quentes demais. E mesmo que ela ainda não  esteja morrendo, ele continua refletindo dolorosamente, talvez seja uma órfã prestes a ser exilada para longe daqui, e esteja procurando o local do exílio no atlas  manchado em suas mãos. E assim ele despe com mãos cuidadosas a blusa celeste, notando as pequenas pintas salpicando seus ombros junto às alças da sua  camiseta branca de criança, a única peça que ainda a cobre. E ele diz a si mesmo:  "Quem poderá me culpar agora se eu simplesmente a lavar com água e sabão  antes de ela ir dormir?". Mas o delicado botão do umbigo, que se abre à sua frente como um terceiro olho fechado, deixa-o completamente confuso, e ele olha em  volta num desesperado pedido de ajuda.
Virá ajuda do frágil e sério mistério, que finalmente emerge do seu esconderijo, atrás da velha, barulhenta e solitária geladeira, ajeitando no caminho os  seus baratos óculos de metal, uma das lentes rachada na vertical, para melhor  enxergar com seu olhar melancólico, sem humor, a pequena paixão, despida e  estendida sobre a mesa, e ela—agora o apaixonado compreende em seu desespero—aparentemente é sua pequena filha devassa, que o espera ao final de um dia  de estudos junto ao portão da instituição para doentes mentais, para o caso de ele  ser liberado, e assim ela poderá segui-lo em suas súbitas visitas sujeitas a uma  única loucura: que o globo terrestre ainda está parado no lugar, e cada hora se  encerra em si mesma, e jamais nada se perde.
Depois de lavar bem as mãos, apliquei na minha doente adormecida 10 cc de glicose, pois se houvesse mesmo uma lesão no fígado, nem as funções  absolutamente normais das células beta do pâncreas conseguiriam produzir glicose suficiente para compensar a deficiência no sangue. De fato, a mudança foi  rápida, quase dramática, e em pouquíssimo tempo pôde-se perceber uma  melhora significativa no estado de espírito de Einat. Mais animada, levantou-se  da cama e, amarela e frágil, juntou-se a nós sentando-se à mesa da cozinha, onde  Lazar e a mulher haviam preparado um surpreendente e régio jantar. De início  quis ser franco e manifestar a minha preocupação com os resultados que trouxera de Calcutá, especialmente no que se referia à queda nos fatores de coagulação, capaz de provocar uma súbita hemorragia interna. Porém o olhar de Einat,  suave e cheio de assombro, como se apenas agora se apercebesse da realidade da  minha presença ao lado dos pais, impediu-me de contar tudo. E, mais ainda, presumi que, apesar da experiência de Lazar em seu rico hospital, ele não tinha  capacidade de entender as sutilezas dos processos orgânicos, sobretudo daqueles relacionados com o funcionamento da cadeia de enzimas responsáveis pelos  fatores de coagulação, que são um tanto obscuros também para nós, médicos.  Portanto, naquele momento guardei a minha preocupação para mim e apesar  do meu enorme cansaço tentei provar alguma coisa do prato repleto que fora servido. Os olhos da mulher não paravam de irradiar o seu sorriso para mim, como  se quisessem me mostrar que, além de estar muito feliz por eu ter voltado são e  salvo, ela percebia, e até aprovava, um significado a mais na viagem a Calcutá – que ainda nem eu mesmo era capaz de entender. Lazar apressou-se em declarar  que também ele não tinha descansado nesse meio tempo e já tinha um esboço  quase definitivo do plano de retorno ao lar: dali a mais um dia, voar para  Varanassi e, após uma espera no aeroporto, outro voo para Nova Delhi, na esperança de pegar na quinta-feira o avião direto para Roma, e de lá fazer uma viagem rápida para Israel no voo da El-Al na véspera do Shabat. Pronto, os dois  tinham conseguido definir tudo isso na agência de viagens que haviam descoberto em Gaia e que, afortunadamente, possuía um aparelho de fax.
"Você viajou com ele para Gaia?", perguntei à mulher, recusando-me a  acreditar que a sua incapacidade de ficar sozinha mais uma vez .a fizera abandonar a filha doente.
"Só por duas ou três horas", respondeu depressa, corando ligeiramente de  vergonha, como se tivesse captado nas minhas palavras uma censura subjacente. "E deixamos com Einat uma governanta indiana simpática que encontramos no hotel."
"Estou exausto", informei apertando os olhos, que ardiam, e comecei a  levantar-me do lugar para tomar o rumo da cama, quando desabei sobre a grande mesa. Ambos se assustaram com a intensidade do cansaço que tomara conta  de mim e correram para me apoiar ao longo do caminho. Pelo visto também me  ajudaram a tirar a roupa e os sapatos, pois quando despertei, umas doze horas  depois—vestindo meu pijama, sob um cobertor branco e uma luz avermelhada e espalhada à minha volta como frutos de romã, sinalizando com sua doçura a última hora da tarde—,não me lembrava de ter executado sozinho qualquer dessas ações.
Lembrava-me, sim, de uma risada longa e forte da mulher, fosse pela  minha queda súbita nos braços deles, ou por eu ter resistido a que me tirassem  a roupa. Agora reinava o silêncio na penumbra do pequeno chalé. O casal Lazar  estava ausente; a filha enferma, e talvez também o médico adormecido, haviam  sido deixados aos cuidados de uma delicada moça indiana, que trajava um sari  azulado. Ao ver que eu me levantava da cama, ficou de pé em sinal de respeito  e juntou as mãos na tradicional saudação. Num inglês razoável, contou-me que  Lazar e a mulher tinham viajado a Gaia para tratar das passagens aéreas. De  certa forma, senti-me insultado; não lhes passava pela cabeça consultar o médico que tinham trazido de tão longe, como se uma única injeção de glicose solucionasse todos os problemas. Corri para me vestir e  me barbear antes de    examinar a minha paciente, cuja prostração evidenciava, a um simples olhar, que seu estado tinha piorado. Aproximei-me acompanhado da jovem indiana, que não  sabia que eu era médico, julgando-me membro da família. O efeito da glicose  havia desaparecido completamente, como se a injeção jamais tivesse sido aplicada.
A febre tinha subido, e a pele estava ainda mais amarela. Porém o mais preocupante era a minha impressão de que não houvera eliminação significativa de urina nos últimos dias. Perguntei sobre suas sensações físicas, enquanto  trocava a bandagem da ferida na perna, e as respostas foram vagas; a hepatite já  durava um mês, e os limites entre saúde e doença estavam obscurecidos.  Ajudei-a a despir a blusa, e pedi-lhe que se deitasse de costas para que eu pudesse palpar seu fígado encolhido e os rins, que estavam um pouco dilatados. A  moça indiana observava com curiosidade, enquanto eu tomava o cuidado de  não encostar nos seios nus, que, em comparação com seu corpo debilitado,  ainda estavam bastante redondos. Já ouvira médicos jovens se queixando de  estimulação sexual em situações de manipulação íntima de mulheres doentes,  e ainda que eu pessoalmente não partilhasse essas queixas, sabia que elas podem  conter um fundo de verdade; mas ali, em Bodgaia, naquele quarto simples e  fresco, a presença forte da atraente moça indiana em pé atrás de mim se misturava com a sensação agradável nas minhas mãos, que palpavam a barriga nua de Einat, até despertar em mim uma leve excitação. Pensei que deveria lembrar-me de me masturbar à noite na cama, antes de começar no dia seguinte a rápida viagem de retorno. Ainda julgava essa viagem precipitada, até perigosa; com  o grave quadro sanguíneo que eu trouxera do laboratório de Calcutá, o correto  seria manter a nossa paciente na cama por alguns dias para termos certeza de  não haver recaída e de estarmos no caminho da recuperação.
"Seus pais estão com pressa de voltar para casa", eu lhe disse enquanto aplicava uma nova dose de glicose, mas me contive para não emitira minha opinião  sobre o retorno.
"Sim", respondeu ela debilmente, como se também receasse partir,  "papai precisa estar de volta ao trabalho no domingo."
"Mas por quê?", questionei. Ela não sabia, ou não quis dar uma resposta  clara, como se não desejasse trair os pais. Decidi desistir de satisfazer a minha  curiosidade e sugeri que ela saísse comigo para um pequeno passeio. "Sei que você se sente fraca", eu disse, "mas se os seus pais insistirem em partir amanhã,  é bom você dar o seu primeiro passo para casa ainda esta tarde, com calma, ao ar livre." Exibiu um sorriso tímido—não o sorriso mecânico, seguro de si e  enganador de sua mãe; um sorriso hesitante, um pouco angustiado, pronto para  se dissolver por causa da sua agonia interior. Não mostrou entusiasmo no início,  mas depois concordou e se levantou. Não sabia se devia trocar a longa túnica  indiana branca que vestia como camisola. Finalmente resolveu não tirar a túnica, apenas vestiu uma surrada jaqueta jeans, que ressaltava o amarelo dos seus  olhos. Pendurei a máquina fotográfica no ombro e pedi à jovem indiana que nos  acompanhasse para garantir a nossa volta caso nos perdêssemos, apesar de não  recear que isso acontecesse num lugar tão calmo e tranquilo, que, apesar de sua  simplicidade, eu ainda insistia em imaginar como um pequeno paraíso, talvez  por causa do sol constante, imenso porém suave e morno, repousando imóvel  no horizonte.
Na luz amarela desse sol, fotografei primeiro as duas moças ao lado do  pequeno portão dourado, preso por tiras de pano coloridas ao muro de pedra  que cercava o fícus sagrado de Buda. Depois pedi que a jovem indiana fotografasse Einat e eu no mesmo lugar. Quando pedi que Einat fotografasse a indiana  junto comigo ao lado da lagoa de flores de lótus, notei que a câmera tremia em  suas mãos e imediatamente desisti; pedi a um peregrino de olhos amendoados  que passava o favor de fotografar nós três. "É assim que deve ser o paraíso"—o  mesmo pensamento insistia em voltar enquanto eu apoiava levemente o braço  da minha enferma, que o passeio deixara tonta, após tantos dias de prostração  na cama.
"Perceba como tudo aqui transpira espiritualidade", procurei encorajá-la,  apontando para os pequenos jardins floridos em torno do grande mosteiro central em nosso caminho. "Assim deve ser o paraíso, cheio de espiritualidade, pois  ele é destinado à alma, e não ao corpo." Mais uma vez tirei a câmera do estojo  e a dei a transeuntes pedindo-lhes que nos fotografassem caminhando pela  estrada que ligava os diversos mosteiros budistas, cada um pertencente a um  povo diferente. "Depois da minha morte talvez a minha alma dê uma espiada  no álbum de fotografias e lembre para onde voar", eu disse em inglês para a  moça indiana; meu senso de humor não despertou nela um mínimo sorriso; ao  contrário, curvando a cabeça, confirmou que um jovem como eu deveria realmente começar a pensar na morte com seriedade. "É uma pena que os seus pais  insistam em partir amanhã", repeti para Einat, que não disse nada. "E se o seu  pai está com tanta pressa", acrescentei delicadamente, "que vá sozinho, e nós  esperaremos mais alguns dias até você se sentir melhor." Ela permaneceu calada, um silêncio estranho. "Talvez a ideia de os pais se separarem um do outro  até mesmo por alguns poucos dias lhe pareça impossível", pensei, "ou quem  sabe a tontura a tenha deixado mais apática." Mas precisamente por querer continuar interrogando-a sobre os hábitos dos pais, evitei pressioná-la por uma resposta imediata, sobretudo porque ao longe, no fim do largo caminho, já se podia  distinguir as figuras redondas de Lazar e sua mulher seguindo uma trilha de luz  rosada que vinha do rio e abrindo caminho agilmente no meio de um grande  grupo de jovens mochileiros que  acabara de chegar a Gaia. Aparentemente  tinham sido informados no hotel de que saíramos para passear e corriam ao  nosso encontro. "De repente estou começando a gostar da índia",  acrescentei  alegremente em inglês para a jovem indiana, sentindo que o termo "gostar" era  provisório, servindo até que eu achasse algo melhor para descrever a estranha  sensação de liberdade que ia tomando conta de mim. Aí notei um início de sangramento, um filete de sangue espesso que saía das narinas de Einat e que ela  própria ainda não tinha percebido. Corri para abraçá-la, ergui-a um pouco para  fazê-la sentar-se sobre a cerca de pedra, com a cabeça inclinada para trás e  apoiada sobre os meus joelhos, usando meu lenço para enxugar o sangue que corria—um sinal pequeno, mas claro, de que a minha intuição médica estava  correta. Afinal, pensei, era realmente cedo demais para voltar para casa.
Porém era tarde demais para mudar qualquer coisa. Lazar e a mulher trouxeram de Gaia as nossas passagens aéreas para a manhã seguinte. Ao ver o lenço  sujo de sangue, ele exibiu um ar de desagrado. "Como é que vocês saem para  passear assim de repente?"
"Se vocês querem começar a viagem de volta amanhã", retruquei num  tom que continha queixa e censura, "ela precisa se acostumar um pouco com o  ar livre." Apenas a mulher percebeu minha reclamação. O marido, olhando a  filha, que começara a erguer a cabeça, ficava ainda mais convencido de que  seria melhor voltarmos antes que surgissem problemas maiores.
"Nada de grave", disse, como se fosse ele o especialista, "é só um pouco de  sangue do nariz, e já parou. Vamos voltar para o chalé, temos que comer e fazer  as malas."
Tirei a câmera do estojo e fotografei os três, algumas vezes. Depois chamei  a moça indiana para juntar-se a nós e tirei fotos dos quatro juntos; então pedi a  Lazar que nos fotografasse, mas ainda não fiquei satisfeito. Peguei novamente a  máquina, posicionei Lazar e a mulher diante do sol e fotografei os dois. "Vamos  acabar logo com o filme", eu disse, "a luz é agradável e o lugar é lindo, e amanhã estaremos em estradas horríveis." Lazar parecia fatigado para continuar  tomando parte na minha sessão de fotografias, mas sua mulher participou com  prazer. Era óbvio que adorava deixar-se fotografar. Alguma coisa encantadora  se revelou naquela mulher de meia-idade—na forma como ficava ereta, cruzando ligeiramente as longas pernas, tentando encolher a barriga saliente, e por  fim lançando um olhar para a câmera e um sorriso depois do outro, antes  mesmo que o botão fosse apertado. E pela primeira vez na viagem imposta pelo  professor Hishin senti um leve aperto no coração. "Vim de tão longe para ver  tão pouco. Será que algum dia poderei voltar para cá?"
Mesmo supondo que o sangramento repentino no nariz estivesse relacionado com a fraqueza geral de Einat, e talvez também com a sua menstruação,  que havia chegado—como às vezes acontece, embora com garotas mais  jovens—,não pude evitar o pensamento insistente de que talvez ela tivesse  uma pequena perda de sangue, antiga ou recente, que se recusava a estancar  por causa dos efeitos do vírus da hepatite sobre os fatores de coagulação no fígado. Assim, não despreguei os olhos de Einat, que agora se recostava na jovem  indiana. A mulher de Lazar também a apoiava, e as três foram caminhando  devagar atrás de Lazar, que correu de volta ao hotel. Quem poderia saber que  outras surpresas Einat estaria me preparando na viagem de volta?—refleti, adotando o estilo cínico de Hishin, que às vezes falava de seus pacientes como se  fossem astutos adversários cuja única intenção era fazê-lo fracassar. Enquanto  trocava rapidamente o filme da máquina, insistindo em bater mais uma foto dos  quatro diante da porta do hotel—que agora estava imerso numa estranha luz  vermelho amarelada, como uma gigantesca mancha remanescente da luta do  sol recusando-se a desaparecer no horizonte—,aproveitei para perguntar casualmente a Lazar, e sem explicar por que, o seu tipo de sangue e o da mulher.  Eu havia adivinhado: só ela poderia ser doadora no caso de uma transfusão.
À noite fiquei andando inquieto pelo quarto. A decisão de partir pela  manhã continuava me perturbando. Seria apenas o fato de me sentir ofendido  por não terem perguntado a minha opinião, ou também me incomodava a ideia  de voltar para casa sem emprego? Apesar de estar havia uma semana, dia e noite,  grudado no próprio diretor do hospital a seu serviço, eu ainda não tinha nada  de concreto, e em breve, ao chegar, teria de procurar, sem grandes esperanças,  uma colocação no departamento cirúrgico de outro hospital. Ao perceber que  não conseguiria mais dormir, decidi fazer as malas. Acendi uma luz fraca e  comecei a recolocar na mochila o equipamento médico, examinando meticulosamente cada detalhe. Descobri então medicamentos, soros e aparelhos aos  quais não dera atenção antes. Sim, o genial farmacêutico tinha pensado em  tudo. E seu pensamento que beirava a fantasia, mas também era preciso e econômico, brilhava agora ao meu lado no silêncio da noite. Eu demonstraria meu  reconhecimento quando voltasse, prometi a mim mesmo enquanto arrumava  tudo dentro da mochila com cuidado, deixando sinais para me lembrar onde  havia guardado cada coisa. Finalmente, apesar de já surgirem as primeiras manchas rosadas entre as palmeiras e coqueiros, resolvi tentar dormir por algumas  horas antes da viagem, e de dentro de um pequeno frasco caseiro com umas  poucas palavras escritas à mão com a caligrafia do farmacêutico—"Pílulas de  Dormir Eficazes"—tirei um comprimido azul, agradável ao tato, e engoli.
Por causa disso Lazar precisou me sacudir várias vezes até conseguir me  acordar do sono eficaz que caíra sobre mim; e a mulher dele, em pé, limpando  a cozinha com determinação, como se em vez da cozinha de um chalé alugado fosse a da casa de amigos, lançou-me um sorriso onde estava contido também o espanto pelo meu profundo sono. "Não consegui dormir a noite toda",  expliquei abrindo os braços para me desculpar; mas Lazar não queria desculpas, queria rápida organização. Três malas estavam prontas, atulhadas. As duas  velhas e uma nova, em cujo interior estavam espremidos o saco de dormir, a  mochila e o restante dos pertences de Einat. Ela estava sentada numa cadeira  do lado de fora, muito pálida, com um vestido florido simples que haviam lhe trazido de Israel e um chapéu típico israelense, de pano vermelho; uma turista  melancólica e pensativa, levando consigo como recordação deste tempestuoso  subcontinente colorido apenas o vírus da hepatite B, que ainda haveria de  acompanhá-la em Israel durante longas semanas, sem contar que a sua viagem  independente de mochila nas costas terminara em fracasso exigindo um resgate urgente de papai e mamãe. Sem me aproximar da paciente para um último  exame antes da partida, fui depressa me vestir e comer os sanduíches preparados pela mãe dela, que, por um momento, pareceu também hesitar quanto à  conveniência de partirmos tão precipitadamente. Entrementes chegou o  motorista do riquixá dono do turbante branco, e quando me viu não se conteve: veio correndo apertar com entusiasmo a minha mão, acrescentando uma  leve reverência para indicar sua satisfação por eu ter voltado são e salvo de  Calcutá. Dessa vez trouxera um riquixá maior, capaz de acomodar nós todos e  nossa bagagem, e conduziu-nos com presteza ao pequeno e sujo aeroporto de  Gaia, do qual a luz do dia suprimira todo o mistério.
O voo para Varanassi não foi demorado, nem a grande altitude; apesar  disso, novamente um filete de sangue escorreu do nariz da enferma. Fiquei  entretido na janela, olhando sonolento, com um misto de depressão e admiração, a luminosidade prateada que parecia emanar do avião e que deslizava à  nossa frente sobre campos e estradas, desaparecendo nas florestas e canais e  lagoas, até ressurgir num lugar inesperado em raios fugidios. A mulher de Lazar  estava sentada duas fileiras à minha frente junto à janela, e durante o voo notei  que o coque de seus cabelos se desmanchava. De repente Lazar se levantou  com uma pequena toalha suja de sangue na mão. Levantei depressa. Ele me viu  e fez um sinal para que eu me sentasse de novo. Não obedeci e fui até  eles. A  cabeça de Einat repousava no colo da mãe. "Já estancou", informou Lazar,  como se quisesse me afastar, mas a mulher dele não parecia certa disso. O seu  sorriso automático tinha desaparecido.
"O que é isto?", perguntou com real preocupação.  "Aparentemente é uma fraqueza típica da hepatite", respondi sem pensar,  "e talvez também consequência da mudança de pressão atmosférica. Vamos  trocar um pouco de lugar", ordenei a Lazar e sentei-me ao lado da mulher,  olhando nos olhos de Einat, que ergueu a cabeça na minha direção, parecendo  um pouco pálida e, mais que isso, infeliz. Apesar do desconforto causado a Lazar, insisti em ficar sentado junto das duas mulheres até a aterrissagem, que,  vista pela janela, foi de uma beleza espetacular e surpreendente. O avião voou em círculo sobre ambas as margens do Ganges, a oriental deserta e a ocidental  povoada; então sobrevoou lentamente templo após templo, santuário após santuário, balançando no ar sobre as pequenas figuras negras, como se também  desejasse banhar-se na santidade do rio dourado. Puxei conversa com Einat,  para combater a sua melancolia. "Já estivera alguma vez em Varanassi?" Ela fez  que não com a cabeça. "Que pena", eu disse, "se seu pai não estivesse com tanta  pressa, poderíamos passar mais um dia aqui. O pouco que vimos só me deixou  com vontade de ver mais", e sorri para ela com o sorriso automático da mãe, que  não parava de me observar com profunda preocupação.
Era uma preocupação semelhante àquela que surgia na sala de operação  quando percebíamos que o ar de ironia nos olhos do professor Hishin havia desaparecido. Tínhamos obrigação de parar; a responsabilidade era minha. Comecei a ficar angustiado com esse novo pensamento, sentado com as quatro malas  e a mochila num canto imundo do aeroporto de Varanassi, cercado de crianças  indianas que vinham espiar a mim e a minha paciente, recostada em meu corpo  com os olhos fechados, no fim de suas forças, incapaz de olhar até mesmo para  a grande cesta, a alguns passos de distância, da qual sobressaía a cabeça alerta de  uma imensa cobra. Tínhamos pela frente três horas até o voo para Nova Delhi,  e apesar de Lazar e  a mulher terem trazido sanduíches e garrafas de bebida de  Bodhgaia, também ali não abriram mão do hábito de circular pelas lojas e trazer  algum doce de aparência limpa ou um copo de chá quente. Segurei a mão da  minha paciente para tomar o pulso. Estava acelerado, cem por minuto—e  então, num desespero absurdo de médico desacreditado, rezei, dentro do meu  coração, para que ela sangrasse de novo pelo nariz, pois só assim teria autoridade para impedir essa perigosa viagem, que Lazar e a mulher conduziam com  febril dedicação. "Você está com náuseas?", perguntei. Ela pensou um pouco e  fez que sim com a cabeça. "Então venha, bote para fora o que está deixando você  enjoada." Ajudei-a a ficar de pé e levei-a até um dos cantos do aeroporto, segurei seus ombros e apertei um pouco a sua barriga. Não foi um vômito abundante,  porém tinha nítidos sinais de sangue. Qualquer que fosse a origem do sangramento, não restava dúvida de que o dano causado aos fatores de coagulação no  fígado só o estavam piorando. Ajudei-a a sentar-se novamente e pedi-lhe que se deitasse, ocupando também o meu lugar; depois retornei ao canto onde estava  o vômito para cuidar que ninguém pisasse nele até a volta dos pais, que constataram os sinais com os próprios olhos; aí pude enfrentá-los com calma e determinação: "Sinto muito, mas é impossível seguir no voo para Nova Delhi. Ela precisa de uma transfusão de sangue imediata. Com essa pressa de voltar para casa,  vocês a estão pondo em risco desnecessário".
Lazar ficou estupefato. O que aquilo queria dizer? Eu não cedi: num tom  firme e tranquilo, que costumava impressionar doentes e familiares, mantive a  minha opinião de que era proibido seguir viagem, que deveríamos procurar um  hotel decente—talvez o Hotel Ganges, onde quase tínhamos nos hospedado  na visita anterior—,e ali, com calma e condições adequadas, eu faria uma  transfusão, que exige vinte e quatro horas de repouso absoluto para ter o efeito  apropriado. "Evidentemente", acrescentei, "existe a opção de interná-la num  hospital local. Mas, por causa das seringas e agulhas infectadas e provisões de  sangue contaminado, seria loucura hospitalizá-la nesta 'Cidade Gloriosa', com  suas reencarnações e piras crematórias."
Lazar ainda tentou se opor. "Vamos pelo menos até Nova Delhi", implorou do fundo de sua alma, "são só duas horas de viagem. Ali paramos. Não sabemos quando haverá outro voo, e viajar de trem um dia inteiro outra vez será mais  perigoso do que adiar um pouco a transfusão."
"Errado", repliquei calmamente, "é mais perigoso adiar a transfusão."  Lancei um olhar para a mulher de Lazar. Quando vi que ficou calada, com dificuldade de tomar o meu partido, ergui os braços num gesto dramático de capitulação, como se tivesse uma pistola apontada para mim, e, dentro de um estreito círculo formado por indianos que foram se agrupando para assistir ao  pequeno drama que se desenrolava, irrompi numa explosão de lamento e dor  que surpreendeu a mim mesmo pela sua intensidade. "Certo, a filha é sua, mas,  por favor, me expliquem só uma coisa: por que me arrastaram até aqui junto  com vocês?"
Talvez essas tenham sido as palavras que convenceram a mulher, que passou a me apoiar com evidente determinação, até que Lazar aceitou a ideia e pôs-se a coordenar com sua habitual eficiência o adiamento da viagem, a procurar  carregadores e escolher uma pousada adequada. Então Einat desmaiou e caiu  no chão, e pela primeira vez fiquei realmente preocupado que ela pudesse escapar de nossas mãos. Os transeuntes ajudaram a levantá-la; a prática dos indianos em carregar doentes e moribundos revelou-se proveitosa para nós, pois rapidamente improvisaram uma maca com um cobertor e dois pedaços de bambu,  e com grande estardalhaço fomos conduzidos para fora do aeroporto. Um  micro ônibus precário nos recolheu, e com uma velocidade não indiana percorreu os vinte quilômetros entre o aeroporto e a cidade que apenas alguns dias  antes eu imaginara como o lugar primordial de cujo barro o mundo fora criado.  Novamente passamos ao lado da enorme estação ferroviária, em meio à multidão interminável de almas que buscavam o rio para se purificar. Logo chegamos ao Hotel Ganges, e embora Einat já tivesse se recuperado do desmaio, os  funcionários aparentemente quiseram  nos isolar dos outros hóspedes: em vez de nos conduzir ao hotel, levaram-nos a um pequeno anexo nos fundos, uma  espécie de albergue para peregrinos. Lá fomos instalados em dois quartos simples porém muito limpos, com móveis de vime laqueados de púrpura. Após  lavar as mãos e o rosto, e para maior segurança colocar uma pequena máscara  cirúrgica, abri depressa minha mochila de equipamento médico para pegar  todo o material necessário para uma transfusão. Decidi realizá-la como operação de emergência, conforme determina o manual de primeiros socorros do  ambulatório que me servia de orientação nos plantões noturnos durante os  estudos, ou seja, numa transfusão direta, onde se controla a quantidade apenas  por intuição. Pedi a Lazar que aproximasse uma cama da outra, e deitei as duas  mulheres lado a lado; Lazar me ajudou a descalçá-las e desafivelar os cintos.  Medi a pressão sanguínea de ambas, cujo valor se mostrou similar e adequado,  em torno de 13 por 8, e disse à mulher de Lazar, que me observava com certa ironia: "Será que você pode tirar os óculos?". Ela pareceu surpresa.
"Por quê?"  "Por nada", respondi constrangido, "só pensei que talvez você se sentisse  mais à vontade sem eles." Mas não insisti. Identifiquei com facilidade a veia para a infusão de Einat perto do seu fino pulso e prendi o pequeno aparelho ao  seu braço. Quando a agulha penetrou, ela soltou um grito agudo de dor; afaguei  sua cabeça e pedi desculpas, apesar de saber que a dor era inevitável por causa  da magreza do braço e da irritação da pele. Passei o tubo por cima da lâmpada  de cabeceira que se encontrava entre as duas camas e procurei a veia da mãe,  escondida pela gordura do braço. Amarrei um tubo de borracha na parte superior do braço e, como não senti qualquer manifestação de medo por parte dela,  foi fácil enfiar a agulha na veia com rapidez e sem provocar dor. Quando o sangue lentamente começou a fluir e concentrei-me no relógio para marcar o  tempo, ela sorriu para mim e pôs-se a fazer brincadeiras. Pedi a Lazar—que  zanzava à minha volta não como diretor responsável por um hospital onde dia  e noite se realizavam complicadas operações, e sim como marido e pai apavorado—que erguesse um pouco a mulher e apoiasse suas costas no travesseiro,  para o sangue fluir sem empecilhos entre o braço dela e o da filha, conforme o  princípio de equilíbrio dos fluidos. Os cabelos da mãe se soltaram e cobriram-lhe um pouco o rosto, e mesmo assim ela irradiava um sorriso ingênuo e infantil, que lhe formava uma simpática covinha no queixo. Ela procurou encorajar  a filha, que se mantinha de olhos fechados e com expressão de dor, como se o  fluxo de sangue entrando no seu organismo a estivesse machucando. Fez-se um  longo silêncio. Lazar ainda acompanhava as minhas ações com um misto de  preocupação e desconfiança. De repente perguntou num sussurro se eu estava  atento ao volume do fluxo. Respondi que sim. Sabia que tudo que eu fazia ali  estava sendo anotado nos mínimos detalhes na sua mente perspicaz, e que ao  voltarmos para Israel ele se preocuparia em verificar com Hishin e "seus" outros  professores se de fato havia necessidade de uma transfusão tão urgente, obrigando-o a desistir da viagem. Mas eu estava calmo e seguro de mim, pronto não só  a explicar a qualquer professor a urgência da transfusão, mas também a exigir  respeito especial pela avaliação médica e os procedimentos de emergência.  Eles haviam procurado o homem ideal para essa viagem, e agora um surto de  euforia tomava conta de mim: tinham encontrado!
Após uma dose, segundo minha estimativa, de 450 ml de sangue de um  braço ao outro, soltei o tubo que estava preso à veia da mãe, desinfetei o local da  picada com álcool e dobrei delicadamente o seu braço. Ela sorriu outra vez o  seu sorriso simpático. Se Lazar não se precipitasse para dobrar o tubo, nenhuma gota de sangue teria sido desperdiçada. Mas ele não teve o menor cuidado,  e um pouco do sangue da mulher respingou nas minhas roupas. "Não faz mal",  eu disse, e desliguei o tubo do local da infusão no pulso da minha paciente, que  já se acalmara e mergulhara num cochilo que eu gostaria que se transformasse  num sono de verdade. Tirei um saco de infusão de Hartman e o pendurei num  prego na parede, prendendo-o ao dispositivo de infusão que até agora bebera o sangue com sofreguidão e eficiência. Só então fui à janela e, antes de fechar as  cortinas para escurecer um pouco o quarto, sorvi em toda a sua plenitude o meu momento de ouro. "Consegui", pensei. "E agora todos nós precisamos de descanso", disse aos dois, "principalmente você, Doris' E me senti corando, pois  era a primeira vez desde o início da viagem que eu me dirigia a ela pelo apelido  carinhoso dado pelo marido. Ambos sorriram para mim afetuosamente, e Lazar  abraçou meus ombros num gesto de reconciliação.
"Você também precisa descansar", disse ele. Mas eu estava desperto e  cheio de energia, como se eu é que tivesse recebido uma transfusão. Guardei o  equipamento na mochila e levei-a para o outro quarto. Como sabia que aqueles dois estavam sempre famintos, ofereci-me para tomar conta da nossa doente até que eles voltassem do almoço. Depois, se tudo estivesse em ordem, eu  também desceria para comer e passear um pouco em algum museu nas proximidades.
No meu íntimo eu sabia que não iria procurar nenhum museu, e sim novamente o rio Ganges, as destroçadas escadas de pedra que desciam até ele, os  gigantescos e escuros santuários cheios de mistério, que na visita anterior eu não  tivera tempo de conhecer. Após o almoço tardio que comi sozinho no restaurante do hotel, estimulado pelos claros sinais de melhora de Einat—que,  depois de absorver todo o conteúdo do saco de infusão, chegou a provar a refeição que os pais lhe tinham trazido—,permiti-me sair em direção ao rio antes  do escurecer. Uma chuva fina e morna cortava o ar, e a cidade irradiava mau  cheiro. "Quem imaginaria que eu voltaria para cá", pensei. Mais uma vez escolhi um caminho entre as ruelas estreitas, em meio à multidão interminável e  incansável, até chegar à margem do rio, que, apesar da chuva, estava repleto de  pessoas purificando-se nos banhos. Aluguei um barco só para mim e pedi ao barqueiro que me levasse dessa vez na direção das câmaras do lado sul, para contemplar os grandes templos de dentro do rio. As nuvens de garoa avançavam  acima de nós, e o barco deslizava tranquilamente na água. Apesar disso, não  consegui mergulhar no mistério. Ainda estava sob o efeito das últimas horas. A  discussão com Lazar no aeroporto, o súbito desmaio e especialmente a transfusão de sangue bem-sucedida, realizada com extrema elegância. O sorriso irradiado pelos olhos da mulher enquanto eu tirava seu sangue enchia meus pensamentos de prazer. Parecia que eu tinha conseguido impressioná-los e que, ao voltarmos para Israel, Lazar poderia, segundo as insinuações de Hishin, cuidar  para que eu continuasse trabalhando no hospital. Entretanto eu não estava pensando em Lazar, pensava na mulher dele, incapaz de ficar sozinha. "Afinal de  contas, foi bom ela ter vindo", pensei com satisfação; onde eu encontraria no  meio daquela infinita multidão um doador adequado? E quem teria me ajudado a convencer Lazar a interromper a viagem?
Enquanto lanchas iluminadas passavam ao nosso lado e nosso barquinho  balançava nas suas ondas, pensei com afeto também na minha paciente. Que  triste terminar daquele jeito uma viagem que talvez pretendesse ser mais do que  um passeio, talvez um tipo de revolta ou fuga. E ao me trazerem na viagem  Lazar e a mulher não teriam a intenção oculta de pôr a filha em contato com  um médico jovem, o homem ideal? Ela era apenas quatro anos mais nova do  que eu, mas parecia um pouco sem rumo na vida; que outro motivo teria tido  para não terminar sequer o curso universitário? O barqueiro me chamou para  olhar as câmaras pelas quais estávamos passando. Com sensibilidade, percebera que pensamentos estranhos me preocupavam. Sorri agradecido e voltei os  olhos para os escuros templos de pedra. "Vishnavat", eu disse baixinho, pronunciando dessa vez o nome correto, Vishnavat. O rosto do barqueiro se iluminou  e ele juntou as mãos na altura do coração num gesto de agradecimento. Mas o encanto parecia ter se diluído, e no final do passeio pelos santuários, ao voltarmos para a margem, não me demorei mais, corri de volta para o hotel. Porém  no caminho não me contive e parei numa cabine telefônica, ao lado da qual se  espremiam alguns mochileiros. Para minha surpresa, consegui rapidamente a  ligação para meus pais, que ficaram felizes por acordar ouvindo a minha voz.  "Já estamos no caminho da volta", contei, "e tudo está indo bem." Narrei resumidamente os acontecimentos do último dia.
Chegando à porta do quarto, no hotel, ouvi vozes altas, e ao entrar encontrei os pais sentados nas poltronas de vime laqueadas discutindo com a minha  doente, que estava na cama, deitada, muito amarela, coçando-se com força,  totalmente desperta. O sorriso da mulher acendeu-se para mim como se houvesse uma ligação automática. Também os outros dois se alegraram com a  minha chegada. Lazar estava de bom humor, pois tinha conseguido, a duras  penas, reservar lugares para nós quatro no voo para Nova Delhi na noite seguinte. Ainda tinha esperança de trocar as passagens do voo Nova Delhi—Roma, que perderíamos por causa da parada em Varanassi, para outro voo um dia  depois, de modo que chegássemos a tempo de pegar o avião da El-AI na sexta à  tarde. E fiquei sabendo o motivo da sua pressa: fora programada uma reunião  com uma delegação de importantes benfeitores que chegariam a Israel e que,  com enorme esforço, Lazar convencera a dedicarem a manhã de domingo para  visitar nosso hospital. "Você pediu vinte e quatro horas para a recuperação, e  agora tem quase trinta horas até o avião partir", disse ele em tom agressivo, como  se a minha insistência fosse por mim, e não por sua filha. Mas eu sorri tranquilo. Seu rosto estava cinzento, os olhos saltados; se tivesse com ele tanta intimidade quanto Hishin, eu o faria internar-se alguns dias no departamento clínico  para exames gerais. A mulher, pelo visto, estava acostumada com o tom cinzento do seu rosto, e os numerosos médicos que passavam o tempo todo à sua frente não pensavam nele como um possível paciente, apenas como administrador.  Ainda era cedo, e não quis me separar deles; não sabia se tinham a intenção de  transferir a doente para o quarto que me fora reservado, ou se Lazar viria dormir  no outro quarto essa noite. No fim, ele trouxe uma cama do meu quarto para  perto das duas outras camas. "O que foi que você pensou?", refleti com um sorriso interior. "Que a mulher ficaria uma noite inteira sozinha?"
Em Nova Delhi, aonde chegamos às oito da noite no dia seguinte, uma  amarga decepção aguardava Lazar. No voo de quinta-feira cedo para Roma restava apenas um lugar vago. E viajar para outra cidade da Europa significava perder as passagens, que tinham custado muito caro. "Por que você não pega o  lugar vago e viaja sozinho?", perguntei ao desesperado diretor. "Nós três podemos ir para Roma na sexta-feira e dar um jeito de voltar de lá para Israel no  domingo ou na segunda."
Ele olhou para mim, sem reação; seus olhos procuraram os olhos da  mulher, que agora se mexiam inquietos de preocupação diante do marido, o  sorriso fixo tendo desaparecido de vez. "Impossível", declarou finalmente, trocando olhares com a mulher, que me observava tensa, pronta a rejeitar qualquer outra sugestão. Assim, não restou alternativa a não ser retornar a Nova  Delhi, que, depois de Varanassi, Calcutá e Gaia, parecia uma cidade humana  e civilizada. Com uma naturalidade que não lhes era peculiar, pediram ao motorista do riquixá que nos conduzisse a um hotel grande e moderno, cujos  quartos espaçosos davam a impressão de ser muito caros. Mais uma vez os três  se apertaram num quarto, e eu fui enviado um andar acima, para um quarto não  muito grande, porém bastante confortável e jeitoso. E de repente, pela primeira vez nessa viagem, tive um leve sentimento de culpa em relação a eles, uma  culpa não muito clara, como às vezes sinto quando me parece que meus pais  estão sofrendo por minha causa. Por isso desci e bati à porta do seu quarto.  Apesar da hora avançada e da desarrumação, eles me receberam e me convidaram a entrar, como se eu fosse membro da família; escutaram surpresos a minha  sugestão de tomar conta sozinho da nossa doente, dando-lhes a oportunidade  de aproveitar a nossa parada forçada em Nova Delhi para fazer uma excursão a  Agra, que fica a duzentos quilômetros, e ver o Taj Mahal. "Como vocês vão  explicar aos seus amigos que estiveram na Índia e não foram visitar o Taj  Mahal?", perguntei sorrindo antes de sugerir que levassem a minha máquina  fotográfica.
"E como você vai explicar?", perguntou rindo a mulher, sem qualquer  traço de hostilidade contra mim.
"Ainda sou jovem", respondi sem rodeios, "ainda vou voltar aqui."  Para minha surpresa, aceitaram a sugestão como se realmente tivessem  direito a uma compensação da minha parte. Na manhã seguinte, saíram bem  cedo em um ônibus de turismo para  visitar o mausoléu que o imperador Shah  Jahan mandara construir em memória de sua mulher, enquanto eu fiquei  entrando e saindo do quarto de Einat, sentado na poltrona ou deitado na cama  dos pais, tentando ler, sem entender, Uma breve história do tempo. A transfusão  de sangue revelou-se providencial: os sangramentos repentinos cessaram.  Apesar disso, Einat ainda tinha febre e estava exausta por causa da coceira ininterrupta provocada pelos sais da bile acumulados. Fazia algumas semanas que  ela não conseguia dormir de verdade, apenas cochilava. Entre um e outro cochilo seu, aproveitei para trocar a bandagem de sua ferida na perna, que me  pareceu melhor. E ela deu respostas curtas porém reveladoras para as perguntas que lhe fiz, no início sobre generalidades relacionadas à viagem à Índia,  depois sobre a internação no hospital de Gaia. Então, talvez motivado pela  monotonia das longas horas de espera, perguntei sobre assuntos não relacionados com a doença—primeiro sobre seus companheiros de viagem, especialmente sua amiga de cabeça raspada, Micaela, de grandes olhos claros, que levara a notícia da doença para os pais; depois sobre ela mesma, os estudos interrompidos na universidade de Jerusalém; aí, como se eu fosse candidato a médico da  família, comecei a fazer breves perguntas sobre a família, sobre o irmão mais  novo e a simpática vovó, acrescentando questões sobre os pais, dos quais obviamente não se sentia muito próxima, sobre a veracidade da estranha informação,  dada pelo pai, de que a mãe era incapaz de ficar sozinha.
Só no início da noite surgiram Lazar e a mulher, cheios de experiências do  dia. Ele foi logo devolvendo a câmera, agradecendo-me pela ideia de fazer a  excursão. Além de guloseimas e artigos de seda que haviam comprado para si,  trouxeram-me um presente, um Taj Mahal em miniatura, feito de mármore  rosa. A mulher descreveu as paisagens com entusiasmo. Lazar parecia relaxado,  impressionado com os vários indianos estranhos que tinha encontrado no caminho, como se apenas agora começasse a admirar a verdadeira natureza deles.  Seu rosto ganhara nova cor, não apresentava mais o tom cinzento doentio. Iam  pedir um grande jantar no quarto, para todos nós, mas uma inquietação súbita  me fez sair para um passeio de despedida da Índia. Mais uma vez, como dez dias  atrás, circulei pelas ruas escuras de Nova Delhi, agora num bairro mais rico,  movendo-me com facilidade e misturando-me à multidão, que no escuro parecia feita de corpos etéreos. E então tive uma sensação muito profunda de que,  apesar do argumento que dera para a mulher de Lazar, eu jamais retornaria para  a Índia; jamais, até o dia da minha morte, teria o privilégio de ver o maravilhoso Taj Mahal que os dois tinham visto, e essa certeza estranha começou a me  oprimir com imensa tristeza. Pela primeira vez na viagem, parei numa loja para  comprar alguma lembrança penumbra sob o farfalhar de tecidos floridos e comprei dois cortes coloridos que me pareceram apropriados para colchas de cama. Pensei nas duas camas de meus pais, muito separadas uma da outra. Concordariam eles em introduzir no seu dormitório algo estranho e extravagante?  Queria prosseguir e comprar mais alguma coisa, pois tudo era realmente muito  barato, mas de repente me cansei de ficar vagando sozinho e retornei ao hotel  para conversar com Lazar ou a mulher, quem sabe ouvir dela palavras de agradecimento pelo belo dia que eu lhes proporcionara. Quando cheguei, o quarto  deles estava em silêncio, pareceu-me que tinham ido dormir mais cedo; não se  via rastro de luz sob a porta. Não me restou outra coisa além de subir ao meu quarto. Como na última noite em Bodgaia, fiquei horas rolando na cama, procurando o sono que costuma tomar conta de mim num piscar de olhos.
Chegamos a Roma no meio da tarde e, obviamente, perdemos o avião da  El-Al que nos levaria a Israel antes da chegada do Shabat. Teríamos que esperar  até domingo. Porém Lazar ainda tinha esperança de chegar a tempo para a reunião marcada para a manhã de domingo. Mal tínhamos nos acomodado num  hotel grande e antigo na Via Peroni, ele saiu—para profundo aborrecimento  da mulher, como pude sentir—à procura de um voo barato que o levasse para  Israel no Shabat. Ao voltar para o hotel à noite, após um passeio pelo Coliseu e  pelo Fórum Romano, encontrei os dois no saguão, e a expressão da mulher revelava uma tristeza inédita. Fiquei sabendo que ele, apesar da idade, conseguira  lugar num voo barato de estudantes, que partia de Roma ao meio-dia com escala em Atenas, chegando a Tel Aviv tarde  da noite. Feliz com sua proeza, tentara em vão incluir a mulher, que via nessa viagem um simples capricho do marido, cuja mentalidade de administrador impedia de aceitar que alguém pudesse  desempenhar sua função com êxito e eficiência. No início da tarde, despedimo-nos. Ele parecia tenso, um pouco sarcástico com a mulher, que, para minha  absoluta surpresa, parecia mesmo triste, como se não fosse uma separação de  vinte e quatro horas, e sim um adeus definitivo. Ignorando a minha proximidade, abraçou-a repetidas vezes com força, com beijos sucessivos, sorrindo, como  se no fundo estivesse gostando da ansiedade que brotava de uma fonte profunda, oculta e incontrolável dentro dela. Virou-se para mim e, como se eu fizesse  parte da família, disse: "Tome conta dela até amanhã". Percebi que justamente essas palavras ingênuas, ditas em leve tom de brincadeira, aumentaram a  raiva e a tensão da mulher, que se desvencilhou dos seus braços, empurrando-o um pouco, e disse: "Vá embora, vá logo, e cuide-se no caminho, e telefone  assim que chegar em casa".
Tive vontade de tentar acalmar a preocupação infantil daquela mulher  adulta, poucos anos mais nova do que minha mãe e ligada de forma estranha ao  marido, que também parecia ter dificuldade em separar-se dela. Mas logo que  ele desapareceu, antes que eu conseguisse pensar numa frase adequada, seus  olhos brilharam com o sorriso peculiar, como se o orgulho não lhe permitisse  demonstrar infelicidade na minha presença. Perguntou-me se eu tinha algum  programa e, como hesitei em responder, pediu-me que fosse gentil e ficasse um tempinho com Einat enquanto ela ia ao cabeleireiro, pois na segunda-feira precisaria ir direto para o escritório. Fiquei atônito. Em Nova Delhi eu já tinha bancado a babá um dia inteiro, e agora ela queria me prender outra vez no hotel,  como se eu fosse mesmo seu empregado. Sobre o salário ao qual eu tinha direito por essa viagem, não se falara uma única palavra. A sua certeza de voltar ao  trabalho na segunda-feira fez retornar a imagem da mulher decidida, trajando  um vestido preto curto e calçando sapatos de salto alto, que havia me recebido  com arrogância em seu escritório de advocacia. Na segunda-feira, quem tomaria conta de Einat, que precisava fazer exames adicionais? Estariam pensando  em me transformar em médico da família e enfermeiro? Entre um pensamento e outro, percebi que o meu silêncio havia passado por consentimento: ela se  virou e sumiu no final da rua, como se conhecesse o lugar muito bem. Retornei  de má vontade para o meu quarto e levei comigo Uma breve história do tempo,  pois não estava seguro de ainda ter perguntas para Einat. Bati levemente à porta  do seu quarto, mas não houve resposta; bati outra vez, chamei seu nome, mas do  lado de dentro o silêncio era total, e pela primeira vez desde que a tinha encontrado senti verdadeiro pânico. Desci correndo até a recepção, apresentei-me,  expliquei a minha relação com a família Lazar e pedi que abrissem a porta para  mim. Quiseram recusar, mas não desisti, e aos poucos, após mostrar meu registro de médico, consegui sensibilizar os italianos com a minha preocupação.  Encontraram uma cópia da chave, mas, ao subirmos, percebemos que a original estava emperrada do lado de dentro, impedindo que a porta se abrisse.  Batemos novamente, dessa vez com força, e não houve resposta. O que poderia  ter acontecido? Procurei me acalmar, pois os sinais mais recentes, posteriores à  transfusão de sangue, não eram desanimadores, e eu já pensara em ministrar a  Einat um comprimido diurético inteiro, à tarde, para acelerar suas funções  renais, pois ainda estava preocupado com a pouca urina eliminada. Os italianos, que já tinham incorporado o meu pânico, conversaram excitadamente  entre si e encontraram a solução. Convocaram um jovem ajudante de cozinha,  com aparência de norte-africano, que entrou rápido no quarto vizinho e, com  suprema agilidade, passou de uma janela para outra. Quando abriu para nós a  porta trancada, encontramos Einat dormindo profundamente; após muitas e  muitas noites em claro, conseguira enfim mergulhar num sono repousante.
"Tudo bem, tudo bem", tranquilizei os italianos, que haviam previsto um  drama maior e não queriam ir embora. Sentei-me ao lado da enferma, que reencontrara seu sono; até mesmo suas mãos, que durante todos aqueles dias não  tinham parado de coçar, agora repousavam com absoluta tranquilidade sobre  a cama. Acendi uma pequena lâmpada e comecei a ler o livro de Hawking—segundo a contracapa, comprado por milhões de leitores que, como eu, queriam desvendar os segredos do universo, apenas para descobrir que os segredos  são efetivamente difíceis, complexos e, sobretudo, sujeitos a controvérsias.  Continuei a ler, pulando páginas e me concentrando nos trechos mais compreensíveis; a todo instante pensava no "tempinho" da mulher de Lazar, que  não estava sendo absolutamente curto, prolongando-se mais e mais e mais, com  uma desconsideração absurda, entrando pelo escurecer precoce do inverno  europeu. Ainda que a minha presença fosse desnecessária naquele momento,  não me afastei do quarto, pois queria ver como ela se desculparia. Quando ela  entrou—com um belo penteado, maquiada, as mãos cheias de pacotes de presentes, sapatos altos, ruborizada por causa do atraso—,percebi que não estava  com raiva dela; uma sensação de felicidade, estranha, assustadora, inundou-me  como se eu estivesse apaixonado.
Meu rosto ficou vermelho e ajeitei-me na poltrona. Nem com a imaginação mais fértil ela poderia adivinhar. Só se desculpou e se desculpou. Não pensava que eu ficaria o tempo todo com a enferma, que despertou com a chegada  da mãe, assumindo outra vez a expressão sofredora e voltando a coçar-se intensamente. Quando comentei o seu sono profundo, a mãe manifestou preocupação e sugeriu que eu a examinasse de novo. Utilizei o meu estetoscópio e o  medidor de pressão, palpei sua barriga, tentando sentir em especial o fígado  reduzido. Não notei nenhuma piora; os rins ainda pareciam um pouco dilatados, mas decidi não recorrer a nenhum medicamento adicional. Fui embora  depois de garantir que voltaria para jantar com elas no quarto. Lá fora chovia, e  as vitrines das lojas europeias, que haviam substituído os templos indianos, brilhavam com luzes coloridas. Caminhei molhado ao longo das calçadas, espantado pelo sentimento novo e repentino por uma mulher mais velha e impossível.
"Isso é pura idiotice", censurei a mim mesmo com um sorriso, porém não  consegui me distanciar muito e logo voltei para o hotel, subi para o meu quarto, tomei um banho, vesti a camisa que lavara em Bodgaia e me juntei às duas mulheres para um delicioso jantar italiano. Apesar da minha excitação, procurei brincar com Einat, a cujo rosto o belo sono devolvera uma cor fresca e rosada. A mãe não parou de rir a noite toda, e quando Lazar telefonou informando  que chegara em casa, ela se mostrou amorosa e delicada, sem raiva.  Interessou-se em saber como fora a viagem e garantiu que conosco estava tudo bem.  Conversaram bastante tempo, como se não fossem se reencontrar em menos de  vinte e quatro horas. Prestei atenção nas pernas dela, que durante a maior parte  da viagem estavam cobertas por calças compridas. As pernas eram jovens e bem  torneadas, mas a barriga proeminente e os braços gorduchos estragavam sua  aparência. Apesar disso, senti-me excitado e devo ter ficado na companhia delas  mais tempo do que esperavam.
No meio da noite acordei. Num misto óbvio de dor e felicidade, perguntava a mim mesmo o que estava se passando comigo, o que me perturbava, como  aquilo era possível. Abri o guarda-roupas, fiquei na frente do espelho e no escuro distingui o contorno da minha imagem refletida. "Dori", sussurrei de repente o seu nome, Dori, como se, ao sussurrá-lo, eu a estivesse expulsando de mim  e tomando secretamente posse dela. "É muito esquisito, é loucura", pensei sorrindo. O aquecimento do quarto estava muito forte e, apesar do teto alto, me  sufocava. Vesti-me e desci até o saguão—se o bar do hotel estivesse aberto, eu  poderia tomar um copo de leite. Mas eram duas da madrugada, e o hotel estava em silêncio. Até o funcionário da recepção, talvez o mesmo que me ajudara  à tarde a entrar no quarto delas, dormia numa cama montada atrás do balcão.  Circulei um pouco pelo grande refeitório imerso na escuridão, já arrumado  para o café da manhã, e antes de voltar ao quarto empurrei com cuidado a porta  da cozinha, como costumava fazer nos meus plantões noturnos no hospital; talvez ali encontrasse algo. A grande cozinha não estava às escuras. Ao fundo enormes panelas de cobre refletiam uma luz alaranjada, e ouvia-se um riso abafado.  "Há com quem conversar", disse a mim mesmo e avancei por entre as mesas  arrumadas e pias reluzentes. Sentados a uma grande mesa de refeições, três  homens conversavam numa língua estranha, não em italiano, tomando sopa  em potes de barro decorados com flores vermelhas. Eram trabalhadores estrangeiros, talvez refugiados. Um deles se levantou e, com expressão amigável, perguntou em italiano o que eu desejava. "Leite", respondi em inglês e apertei a  barriga com uma das mãos, mostrando a súbita dor da paixão que estava me assolando, enquanto com a outra peguei um copo imaginário e bebi seu conteúdo. Ele entendeu. Na sua língua, explicou aos convidados o que eu queria e  foi até a geladeira pegar um copo de leite para mim. E então vi que ao lado da  enorme geladeira, cujo motor rugia como um pequeno avião, estava sentada  uma menina com ar abandonado, assistindo à televisão num pequeno aparelho. Ao seu lado, um homem magro, de óculos, com aparência muito doentia,  folheava um caderno escolar.

SEGUNDA PARTE
  
  
  
 
Casamento

1.
 
Lazar conseguira obter uma autorização, talvez alegando motivos médicos, para nos receber na ala reservada aos passageiros após o controle de passaportes. Antes que sua esposa e sua filha o notassem, eu o vi, de pé, com seus  ombros largos, vestindo uma capa de chuva molhada, ao lado da policial parada junto à cerca metálica, examinando ansiosa e meticulosamente as pessoas  que passavam à sua frente, como se de fato temesse que, sem ele, não conseguiríamos voltar para casa. Ao seu lado, distraído, com os longos cabelos molhados,  o jovem filho, muito parecido com o pai. A mãe correu para dar um abraço forte  e  amoroso no rapaz, como se fosse ele o doente em perigo por quem fizéramos  a viagem. Mas Lazar não permitiu que se perdesse tempo com beijos e abraços.  Estendeu ao filho um grande guarda-chuva preto e mandou que acompanhasse com cuidado a irmã, envolta numa capa de chuva, direto para o carro,  enquanto ele próprio se apressava em pegar um carrinho vazio para transportar  as malas. "Vocês vão ver a tempestade que os espera lá fora e terão saudades da  índia", disse a nós dois em tom de advertência.
"Você precisava mesmo voltar correndo?", perguntou a mulher com uma  expressão que ainda trazia vestígios da raiva por ele tê-la deixado sozinha durante vinte e quatro horas.
"Não só precisava, como fui obrigado", respondeu com um sorriso triunfal; e ao ver meu olhar de curiosidade, tranquilizou-me  alegremente: "Não se  preocupe, os seus pais também estão esperando lá fora".
"Meus pais?", perguntei admirado. "Para quê?"  Lazar ficou confuso. "Para quê? Sei lá! Estão porque estão, para você não  ter que ir sozinho para casa debaixo dessa chuva. Minha secretária lhes telefonou de manhã e eles prometeram que viriam buscá-lo e levá-lo para Jerusalém."  Mas eu não queria viajar para Jerusalém, apesar de a minha moto estar lá.  Queria ficar em Tel Aviv e estar no departamento cirúrgico ao amanhecer.  Lazar cumprira sua palavra: a viagem tinha durado apenas duas semanas, e ali,  ao lado da esteira de bagagem rodando vazia, o tempo da nossa ausência se reduziu às suas reais proporções. Mesmo assim, eu temia que mudanças significativas tivessem ocorrido na minha ausência, e não exatamente em meu favor.
"Você teve tempo de contar a Hishin como foi a viagem?", perguntei,  Ansioso por saber se o professor fora informado da transfusão de sangue que eu  realizara em Varanassi.
"Não", respondeu Lazar, com o braço sobre o ombro da esposa, como se  ainda precisasse agradá-la."Hishin não está em Tel Aviv, foi alguns dias atrás  para Paris. Por isso não quis viajar conosco e escondeu a verdadeira razão. Não  faz mal, nós nos arranjamos muito bem sem ele." Sorriu para nós dois com ar  de cumplicidade, como se a responsabilidade médica tivesse sido igualmente  dividida entre nós três. Parecia feliz. A reunião com o grupo de benfeitores fora  ótima. Percebi que sob a capa de chuva vestia um terno elegante e uma bela gravata. A mulher começou a acariciá-lo, as queixas da véspera aos poucos foram  sendo esquecidas e perdoadas. Olhei para ela e senti-me corar. Um sorriso brilhou nos seus olhos. Parecia cansada, porém feliz em voltar para casa. Será que  eu tinha realmente me apaixonado um pouco por ela ou tudo não passava de  um estranho delírio?
Não pude continuar ponderando sobre mais nada, pois as malas começaram a chegar, ensopadas da chuva torrencial que batia com força no telhado do  saguão de passageiros. A hora da despedida se aproximava. A minha mala, separada das deles no bagageiro do avião, chegou primeiro, e Lazar não viu motivo  para eu ficar esperando. "Você ainda precisa ir para Jerusalém, então vá", ordenou com firmeza. Enquanto eu me perguntava como me despediria deles, lembrou-se de algo e agarrou a minha mala: "Espere aí, vamos livrá-lo daquela estúpida caixa de sapatos que fizemos você carregar".
Para minha surpresa, Dori tentou impedi-lo: "Não precisa, não agora, não  vá complicar as coisas, os pais dele estão esperando. Ele vai voltar em breve".  Mas Lazar não via razão para eu arrastar uma caixa de sapatos da mulher para  Jerusalém, ida e volta.
"Não é complicação nenhuma, não leva mais que meio minuto", disse, já  me ajudando a soltar as tiras e abrir a mala. E não esperou sequer a minha iniciativa: como um experiente cirurgião, enfiou delicadamente as mãos no meu  monte de roupas e pacotes e tirou depressa a pequena caixa de papelão que eu  tivera o cuidado de não abrir durante a viagem. Disse: "Pronto, sem complicação", e deu um sorriso de despedida.
"Então, vemo-nos amanhã no hospital", eu disse, na tentativa de manter  um fio de ligação entre nós.
"No hospital?" Lazar pareceu momentaneamente surpreso, como se não  tivéssemos um local de trabalho comum, mas lembrou-se logo. "É claro."
"Então não vou vê-lo mais?", perguntou a mulher, observando-me com  surpresa mas sem tristeza. Mechas dos seus longos cabelos haviam caído no  rosto e no pescoço, a maquiagem desaparecera durante a viagem, e a luz branca do néon revelava mais uma vez as suas rugas. Ela não sabia como se despedir de mim, e uma doce onda de dor brotou nas minhas entranhas.
"As fotografias", gaguejei envergonhado, e meu rosto foi ficando quente  como se estivesse queimando, "as fotos de vocês ainda estão na minha máquina; quando estiverem prontas vou levá-las."
Lazar e a mulher alegraram-se ao lembrar-se das fotos. "Certo, nossas fotos!"  "Sim", prometi, "vou levá-las para vocês, pois também quero e preciso  saber como vai a nossa paciente."
Talvez por causa da promessa de nos revermos, despedimo-nos com facilidade, como costumávamos nos despedir ocasionalmente na Índia, sem toques,  apertos de mão ou ligeiros abraços. Eu ainda me recusava a me perguntar se ela  teria sido tocada por alguma faísca daquela absurda paixão noturna, que certamente evaporara logo após a alfândega, ao sairmos para a tempestuosa noite de  chuva e nevoeiro. As pessoas que aguardavam haviam se comprimido sob uma  única marquise, numa massa compacta que ainda conseguia manter o típico entusiasmo israelense, capaz de ver em cada compatriota de volta à terra um  cidadão confuso, carente de uma mão amiga que o receba e conduza. Era como  se sentiam os meus pais, que esperaram longamente em dois pontos de desembarque distintos para não me perderem na saída. Minha mãe me reconheceu  antes, e tivemos pouco trabalho para encontrar o meu pai, que estava sob a  chuva torrencial, com o guarda-chuva aberto, após ceder, com o cavalheirismo  que lhe era natural, o seu lugar debaixo da marquise a duas senhoras de meia-idade, desesperadas e impotentes diante da tempestade. "Você está com boa  aparência", disse minha mãe enquanto seguíamos meu pai no escuro até o estacionamento, procurando me cobrir com seu pequeno guarda-chuva sem me  molhar com as hastes dele. "Emagreceu um pouco, mas parece satisfeito. Pelo  jeito a nossa Índia não o decepcionou." Minha mãe sempre tinha medo de que  eu sofresse decepções espirituais, por causa do vazio interior que ameaça as pessoas mais jovens. Como havia me incentivado a empreender a viagem à Índia,  sentindo-se no direito de considerá-la "nossa" por causa das lembranças do meu  tio, estava ansiosa para saber como eu voltaria de lá. E apesar de eu ainda não  ter conseguido dizer nada significativo, alegrava-se em detectar com seus olhos  espertos, brilhantes sob o grosso capuz de lã que envolvia sua cabeça, que eu  voltara satisfeito. Não fosse a chuva, que nos obrigava a pisar com especial atenção entre as poças d'água, talvez também tivesse conseguido perceber alguma  coisa do meu sentimento novo e misterioso e a dor da despedida que me perturbava.
Minha mãe achava melhor que eu guiasse o carro até Jerusalém, por causa  da tempestade que piorava, porém meu pai recusou. "Tudo bem", ele a tranquilizou, "o caminho é fácil e conhecido." E, sem alternativa, concordou que  eu sentasse ao seu lado para evitar possíveis erros na direção. Tirou o casaco,  limpou os óculos e, como de hábito, esquentou o motor além do necessário. Até  então não havia me dirigido a palavra. Só depois de nos conduzir com cuidado  e tranquilidade para fora do estacionamento, penetrando no coração da tempestade e tomando a direção da rodovia para Jerusalém, finalmente virou-se  para mim e olhou-me com afeto. Disse: "Então foi um sucesso".
"Sucesso?", estranhei. "Em que sentido?"  "No sentido de que você precisava se afirmar", respondeu meu pai com sua  calma peculiar. "A secretária de Lazar contou que você executou um procedimento médico acertado, que resolveu a situação." Voltei-me para minha mãe,  sentada no assento traseiro. Ela não parecia satisfeita pelo fato de meu pai ter  revelado cedo demais o que a secretária lhe contara de manhã. Fiquei confuso,  mas tomado de felicidade. Será que Lazar já havia conversado com um dos professores sobre os exames em Calcutá e sobre a transfusão de sangue em  Varanassi, e dessa forma as notícias tinham chegado à sua secretaria administrativa? Ou teria contado algo à secretária, e ela, com boa intenção mas realmente sem entender, havia me elogiado aos meus pais quando lhes telefonara para  informar a nossa chegada? "Hei de esclarecer tudo amanhã", pensei. Meu pai,  ansioso para saber toda a sequência nos mínimos detalhes, pressionava-me para  descrever a parte médica da viagem, tanto do ponto de vista prático quanto dos  fundamentos teóricos. E escutou com toda a atenção. Ele tinha a virtude de  aprender com qualquer pessoa, e era, portanto, capaz de ficar em silêncio e  ouvir realmente. Agora—sentado ereto ao volante, com o banco um pouco  recuado, observando com a máxima atenção, como um juiz objetivo, os esforços que o carro, os limpadores do para-brisas, os faróis, o freio e a própria estrada juntavam aos dele na luta contra a violenta tempestade que ameaçava nos jogar para fora da estrada—,desejava saber da minha própria boca toda a história da salvação que eu trouxera aos Lazar. Ele tinha medo de que a modéstia que  me atribuía, a qual considerava uma péssima herança de si mesmo, me levasse  a diminuir a importância do meu feito. Ainda não se conformara com o fato de  que o segundo residente ganhara o posto tão almejado. Minha mãe também  ouviu a história em silêncio. De vez em quando fazia uma pergunta curta, captando também a minha falta de entusiasmo com Einat, por quem chegara a  nutrir esperanças secretas. Na verdade, procurava escutar a história interna,  que eu tentava disfarçar enquanto narrava. No final, fez um comentário gratuito: "Você diz o tempo todo a mulher de Lazar, a mulher de Lazar, mas qual é o  nome dela?".
"O nome dela é Dorit, mas o marido a chama de Dori", respondi, e uma  dor adocicada me cutucou.
"E você, como é que você a chama?", insistiu minha mãe.  "Eu?", perguntei, estranhando um pouco a insistência e prestando atenção à estrada. "No final também a chamei de Dori."
"E que tipo de mulher é ela?", minha mãe não desistiu.
"Uma mulher mimada", respondi depressa. "No começo nos arranjou  alguns problemas na escolha de hotéis"—fechei os olhos, exausto, enxergando à minha frente a mulher rechonchuda caminhando pelas ruelas de  Varanassi com seu andar lento, afetado, pisando na lama cuidadosamente, com  suas pernas longas, sorrindo distraída para os indianos à sua volta. E a onda de  calor de repente me envolveu e quase me sufocou.
Naquele instante percebi que precisaria tomar cuidado ao conversar com  minha mãe, pois às vezes ela consegue penetrar na minha alma com impressionante precisão. Eu corria o risco de que ela captasse algo do estranho sentimento que trouxera comigo da viagem; seria natural que tal sentimento lhe causasse desagrado, talvez até desgosto, e despertasse nela o desejo de tomar alguma  atitude para combater essa paixão ridícula e desnecessária. Se é que se podia  empregar essa palavra para classificar os meus sentimentos em relação àquela  mulher, sentimentos que incluíam também um forte desejo, do qual eu estava  tomando consciência naquele exato momento, viajando de volta do aeroporto  para Jerusalém, sentado dentro de um carro aquecido ao lado de meu pai. Olhei  a estrada que serpenteava entre as montanhas, em grande parte já livres da  chuva e do nevoeiro, onde caíam apenas flocos de neve esparsos. "Que pena",  disse a mim mesmo, "que mamãe tenha que se martirizar, mesmo por um instante, por causa de um sentimento absurdo e totalmente sem perspectivas pela  sua própria natureza." Melhor não estender o relato sobre a viagem à Índia, para  não mencionar sem querer algum detalhe que pudesse nos causar embaraço.  Assim, sugeri ao meu pai, que ficara um pouco aborrecido, substituí-lo na direção, pois a viagem de volta poderia transformar-se numa aventura perigosa, por  causa da neve: começara a cair leve e devagar alguns quilômetros após Shaar Hagai, mas tornou-se pesada nos arredores da cidade. Durante dois dias fiquei  preso em Jerusalém, pois os meus pais, que em geral confiavam em mim, rogaram que eu não voltasse a Tel Aviv de motocicleta pelas estradas cobertas de  neve. Já que um cansaço intenso havia me dominado, fruto dos sentimentos  inesperados da viagem à Índia, concordei em me instalar outra vez no meu  quarto da infância e me render ao antigo conforto, que nada tinha a ver com  comida ou bebida—afinal minha mãe nunca foi uma cozinheira  exemplar.  Tinha a ver, sim, com a silenciosa presença de um espírito britânico no apartamento, que despertava em mim a sensação de estar participando, até mesmo na hora de me deitar para dormir, de um velho filme familiar em preto-e-branco,  com valores estáveis, agradáveis e a garantia de um final feliz tradicional.  Enfurnado em casa, cercado por um cobertor de neve, procurei esfriar, e talvez  até matar a minha paixão pela mulher risonha e rechonchuda, tentando ao pensar nela, para que ali, no quarto seguro da minha infância e adolescência, ela mergulhasse nas profundezas do esquecimento, arrastada pelo peso da sua idade.
Mas aquela mulher mais velha e risonha recusou-se a afundar. Em vez  disso, misturou-se aos móveis e cortinas tão familiares do meu quarto, que eu  conhecia desde os dois anos, quando meus pais se mudaram de Tel Aviv para  Jerusalém por causa do emprego público do meu pai. Então escapei para o  sono, cauteloso, para não deixar marcas da minha excitação no lençol imaculado providenciado pela minha mãe, que se espantou, como meu pai, com a  sonolência que tomara conta de mim. Pois ambos estavam acostumados a me  ver como o estudante debruçado sobre os livros até tarde, diligente e madrugador, e nos últimos tempos também como médico capaz de aguentar vinte e quatro horas seguidas de plantão sem dormir. "Você nos faz lembrara época do seu  treinamento intensivo no exército", comentou minha mãe com ligeira preocupação, quando entrei na nossa cozinha velha e impecável ao cair da noite,  depois de dormir a tarde inteira, com o coração cheio de saudade das cores vívidas dos templos indianos.
"É a sonolência provocada pela neve", explicou meu pai, em inglês, e  levantou-se para deixar livre o meu antigo lugar à mesa, do qual havia se apossado quando eu me mudara para Tel Aviv. "Venha, venha, sente-se no seu  lugar", insistiu quando tentei recusar, enquanto observava minha mãe preparando o tradicional chá com leite; ela serviu-me  o chá acompanhado de uma  fatia de bolo, e eu, sem perder tempo, lambuzei  o bolo com geleia para encobrir sua secura, a secura que desde a infância me deixava meio deprimido.
"Enquanto você dormia seu pai foi até a cidade e mandou revelar as fotos  que você tirou na Índia", disse a minha mãe e me entregou, um pouco constrangida, dois envelopes coloridos cheios de fotografias.
"As minhas fotografias?", virei-me para o meu pai quase gritando, recusando-me a acreditar que aquele homem silencioso e altivo tivesse entrado sorrateiramente no meu quarto e surrupiado os dois filmes deixados junto à minha  cama. Claro que a iniciativa fora da minha mãe, que entrara para verificar se o  quarto estava aquecido o bastante, vira os dois rolos pretos de filme e mandara  meu pai revelá-los no centro da cidade. A única explicação foi que queria saber  mais sobre a viagem à Índia, depois que eu tinha me calado e caído no longo  sono da tarde. "Ela está percebendo que algo aconteceu", pensei, baixando a  cabeça e evitando seu olhar, "mas até mesmo a sua perspicácia natural não  ousará imaginar o que de fato ocorreu." "Você não está curioso para saber como  saíram as suas fotos?", perguntou surpresa ao ver-me ainda segurando com força  os dois envelopes.
"Nem todas as fotos são minhas", expliquei depressa, "há também fotos dos  Lazar, pois emprestei a minha máquina quando fizeram uma excursão ao Taj  Mahal."  Meus pais estranharam que os Lazar tivessem feito uma excursão sem  mim, deixando-me sozinho junto ao leito da filha doente, e mais ainda quando  contei que a sugestão de fazerem a excursão ao Taj Mahal fora minha; criticaram os Lazar por a terem aceitado, apesar de ficarem orgulhosos da generosidade que eu demonstrara.
"Bem, venha explicar o que você conseguiu ver", disse a minha mãe, esticando agilmente a mão para pegar os envelopes.
"É claro que sim", respondi, "mas achei que você já tivesse dado uma olhada." Fiquei um pouco apreensivo com a possibilidade de deparar com a figura  dela, ali, na melancólica cozinha dos meus pais. Levantei-me depressa do  lugar, coloquei o copo de chá e o prato sobre a pia, e fui novamente ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes; quando voltei, a cozinha estava iluminada, e a  mesa, coberta de fotos coloridas que brilhavam com a luz vermelho alaranjada  da Índia. De longe já pude distinguir a figura dela, que por milagre conseguira  aparecer em mais fotografias do que eu imaginava, e não só nas que Lazar havia  tirado no Taj Mahal. Seriam a sua tranquilidade natural e o sorriso automático  responsáveis por ela parecer, apesar da respeitável gordura, tão natural e fotogênica em cada foto, ainda que cercada de indianos vestidos com andrajos ou sentada na penumbra num frágil banquinho, ao lado do mosteiro tailandês em  Bodhgaia? Meu pai passava foto após foto diante dos olhos pedindo explicações detalhadas, mas minha mãe permaneceu em silêncio, e seu rosto tinha uma  tonalidade nova.
"Ela adora ser fotografada", comentou finalmente, e a sua voz continha  uma espécie de queixa.
"Quem?", perguntei ingenuamente.  "A mulher de Lazar, ou... Como é que você a chama?", prosseguiu minha  mãe, ainda de cabeça baixa, como se receasse olhar nos meus olhos.
"Este é Lazar, o marido dela, a quem emprestei a câmera", justifiquei num  tom abafado, no meio da onda de sensações que voltara a tomar conta de mim  ao ver a mulher presente em cada retângulo de figuras coloridas espalhadas  sobre a mesa da nossa triste cozinha.
À noite a nevasca ficou mais forte, mas não desisti da ideia de visitar Eyal,  um amigo de infância que estudou medicina comigo e que, naquela noite, estava de plantão no Hospital Hadassa, onde fazia residência em pediatria, após ter  sido recusado no departamento cirúrgico. Ficamos sentados numa salinha  com paredes cobertas de desenhos infantis, isolada no meio do tumulto de pais  aflitos e crianças doentes correndo pelo salão. Tomamos um chá morno em  canecas plásticas com o emblema do hospital e, como de costume, inicialmente comparamos as condições nos diferentes hospitais. Ele já soubera pela minha  mãe sobre a minha viagem à Índia; ao ver o seu olhar amigo fixo em mim com  avidez, tive vontade de começar pelo principal. Pensei que ele, que vivia há  alguns anos com a mãe viúva, poderia me entender. Mas me contive. "Temos  tempo, ainda não é hora." E comecei contando sobre a parte médica da viagem.  Ele ficou muito impressionado com o voo noturno para Calcutá, com as amostras de sangue e urina, mas pareceu cético em relação à transfusão de sangue  que eu fizera em Varanassi. "Espero que no meio daquela pressa você não tenha  infectado a mãe com o vírus da filha", disse sorrindo.
"Que bobagem", respondi, "como é que poderia infectá-la? Tive o cuidado de deitar a mãe um pouco acima."
"Não faz muita diferença", declarou com seu ar entendido, "mas não  adianta ficar se preocupando agora, já aconteceu, o importante é que você não  perca contato com esse Lazar. E não aceite pagamento pela viagem, assim ele  fica em dívida com você e talvez influencie o seu querido Hishin para lhe dar  mais um ano de residência no seu departamento." Enquanto Eyal me dava conselhos práticos, vieram da sala de emergência chamá-lo para examinar um  rapaz muito jovem que tentara se suicidar. Era tarde, mas fiquei ali para ver  como lidavam com a situação. Era um garoto de mais ou menos treze anos, bastante alto para a idade, que se debatia com violência entre as mãos dos enfermeiros e enfermeiras que apertavam brutalmente a sua barriga. Eu estava em  trajes civis, o que os levou a pensar que eu fosse algum irmão ou parente e a procurar diversas vezes afastar-me com agressividade da pequena sala de atendimento. Finalmente decidi ir embora, apesar da minha curiosidade. Eyal, que  achara que eu lhe faria companhia durante a noite de plantão, sugeriu que eu  adiasse a volta a Tel Aviv e fosse no dia seguinte almoçar na sua casa. Hesitei. O  episódio na sala de emergência do Hospital Hadassa me dera saudade do meu  hospital. Eyal, do outro lado da cortina que nos separava, insistiu, enquanto  segurava com firmeza o  braço do rapaz, que já começava a vomitar as pílulas  para dormir pelo grosso tubo inserido no seu estômago. "Olhe, você precisa  almoçar comigo, eu tenho uma história incrível para lhe contar."
"Que história?", perguntei desconfiado, evitando prometer qualquer coisa  que não pudesse cumprir.
"Você não vai acreditar, mas eu estou prestes a me casar", anunciou em voz  alta e sem qualquer ponta de vergonha diante da plateia ansiosa e assustada da  sala de emergência.
O caminho que vai de EM Kerem para a cidade estava totalmente limpo.  As coroas de neve sobre os ramos das árvores e sobre as rochas na beira da estrada davam à noite um encanto inusitado, e eu me entusiasmei com a ideia de  que no dia seguinte, na hora do almoço, em troca da história do casamento, talvez criasse coragem para contar a Eyal a minha surpreendente paixão. Por que  não? Além de Eyal, quem poderia me entender? Minha mãe me esperava acordada, sentada no escuro da sala de estar com seu velho roupão de lã. "É por  causa da neve, só por causa da neve", justificou-se. Imediatamente se levantou  e foi preparar um chá para nós.
"Tomei chá com Eyal no hospital", informei e rumei para o meu quarto,  recusando-me a enfrentar um arriscado interrogatório noturno. Enquanto ela  se recolhia frustrada para o seu quarto, vi pela porta entreaberta as camas dos  meus pais, formando um L que acompanhava as duas janelas iluminadas pela luz da lua. "Mãe, você não vai acreditar", deixei escapar num sussurro, "Eyal vai  se casar."
"Por que não haveria de acreditar?", gritou. "Chegou a hora. E também  para os amigos dele." Meu pai cobriu a cabeça com o cobertor e resmungou:
"Você está abrindo uma frente de batalha no meio da noite."  Minha mãe já tinha se acalmado; apenas por curiosidade, perguntou algo  sobre a noiva escolhida.
"Ainda não consegui saber", respondi, "mas amanhã vou almoçar com ele  e talvez até venha a conhecê-la."
"Então amanhã você ainda fica por aqui", disse a minha mãe em tom de  satisfação. Afinal, mesmo sem me casar, ainda passaria mais um dia com eles.
Quando ambos éramos estudantes na faculdade de medicina, eu comia  com frequência na casa de Eyal, pois preferíamos estudar lá—uma residência  mais ampla e silenciosa. Sua mãe tinha medo de ficar sozinha à noite e me seduzia com refeições deliciosas para que estudássemos sempre em sua casa. Era  uma mulher triste, que conservava sinais da sua antiga beleza e adorava conversar comigo em inglês, na esperança de conseguir trabalho na Secretaria de  Turismo. De vez em quando recebia visitas de senhores mais velhos, mas recusava qualquer novo envolvimento. Agora os dois olhavam educadamente as  fotos que eu trouxera da Índia. "Moça bonita, mas muito neurótica", definiu  Eyal ao ver a foto de Einat, "duvido que valha a pena investir nela." Depois se  divertiu com o rosto largo de Lazar: "Vê-se claramente", declarou, "que é um  homem forte, mas afável e humano".
"A mulher dele também é muito simpática", eu disse de repente e senti o  meu rosto ficar vermelho.
Eyal pegou uma das fotos. "Sim, é muito risonha", concordou, "percebe-se logo que está feliz consigo mesma." Essas palavras perspicazes encheram o  meu coração de tanto prazer e gratidão que desejei falar mais alguma coisa a respeito dela. Mas a triste mãe dele, que tinha emagrecido bastante nos últimos  tempos, não queria nos deixar a sós.
"Você está contente como casamento de Eyal?", perguntei-lhe com cautela.  "Ela está feliz", respondeu Eyal em seu lugar.  A mãe ficou calada e depois perguntou quando queríamos comer. Eyal  pediu que esperássemos pela namorada, que chegaria a qualquer momento.
Mas sua mãe não estava disposta a esperar que a comida esfriasse. Num  tom amargo, que eu desconhecia, exigiu que começássemos a refeição imediatamente. Quando nos sentamos frente a frente à mesa, arrumada com capricho, e ela desapareceu na cozinha, baixei os olhos e disse com um sorriso  melancólico: "Você de repente vai se casar, e eu, eu não sei o que está acontecendo comigo, fui me apaixonar por uma mulher casada".
"Uma mulher casada?"—seus olhos se inundaram com um sorriso franco, demonstrando que a minha confissão não o surpreendera.
"Sim, uma mulher casada", balancei a cabeça com tristeza.  "Não me diga que você está se referindo à mulher do diretor", disse Eyal,  encarando-me com dó.
"A mulher de Lazar?", eu ri, atônito. "Que ideia!" E emendei, sem vacilar:  "Você realmente consegue me imaginar apaixonado por uma mulher vinte  anos mais velha?".
Eyal não pareceu convencido pela minha reação indignada.  Deu de ombros displicentemente e continuou sorrindo.
"Falei por falar, não importa, simplesmente vi que você não se cansou de  fotografá-la, e além disso ela parece mesmo simpática. Mas não importa. Se não  é por ela, então por quem é que você está apaixonado? E o mais importante:  com quem ela é casada?"
A essa altura sua mãe tinha voltado e colocado à nossa frente, com o maior  cuidado, as duas travessas de sopa, sentando-se ao nosso lado com as duas mãos  muito brancas e ágeis sobre a toalha.
"Você não vai comer conosco?", perguntei afavelmente.  "Não", respondeu vacilante, "não estou com fome", e sua face, que estava  virada para o filho, enrubesceu. Eyal esticou o braço, colocou a mão no ombro  dela e disse carinhosamente:
"Isso mesmo, mamãe, você precisa se cuidar um pouco mais."  Quase no final da refeição, chegou a futura noiva, uma moça esperta e afetuosa, de aparência simples e jovial. Hadas sacudiu os flocos de neve do cabelo  com um movimento gracioso, e a mãe de Eyal recolheu-se em sua depressão,  deixando-nos sozinhos. Decidi poupar-me de fornecer mais detalhes a Eyal,  mas ele voltou a perguntar sobre a minha paixão pela "mulher casada", que aparentemente atiçara a sua imaginação. Enquanto isso, essa mesma paixão surpreendente continuava a jorrar incontrolável para dentro de mim, como se viesse de uma fonte externa, como a infusão de uma mistura exuberante e indefinida penetrando insidiosamente nas profundezas.do organismo, modificando a  sua essência. Hadas, que mostrava simpatia por mim, conhecia vários detalhes  relacionados a minha viagem à Índia. Fiquei sabendo que a garota de cabeça  raspada, Micaela, que trouxera a notícia da hepatite e que eu confundira com  um rapaz, era do kibutz Ein Zohar, o mesmo de Hadas. "O mundo é mesmo  pequeno", eu disse, levantando-me desnorteado pela surpresa dessa novidade.  Considerei se devia entrar no quarto da mãe para me despedir e agradecer o  almoço ou deixá-la descansar.
"Pequeno e próximo", concordou Eyal levantando-se também, talvez alegrando-se com a minha possível partida. "E então, Benjy, não diga que Ein  Zohar é longe demais para você ir ao nosso casamento."
"Vocês já marcaram a data?"  "Claro que sim", responderam os dois e me deram a data exata. Insistiram  que eu a anotasse na minha agenda e que nenhum plantão do mundo impedisse a minha ida. Eyal insistiu também que eu me despedisse de sua mãe—ela  gostava tanto de mim, por que não lhe fazer um pequeno agrado? Entrei no grande quarto escuro onde costumávamos brincar na infância, e lá estava ela,  deitada, muito pesada e pálida, coberta apenas por um lençol que permitia  constatar o quanto engordara no último ano.
"O Benjy quer se despedir de você", sussurrou Eyal, despertando-a delicadamente. Ela abriu os olhos enormes.
"Sim, eu queria me despedir", falei, "e também agradecer o almoço, que  estava delicioso como sempre."
Ela não sorriu, apenas balançou a cabeça e disse: "Mande lembranças para  sua mãe e seu pai, e não se esqueça de vir para o casamento de Eyal. É importante que você venha, não só por ele, mas também por mim".
"Virei sim, prometo", eu disse, e para reforçar a promessa coloquei as duas  mãos unidas diante do coração, numa saudação indiana.
Realmente eu tinha a séria intenção de ir ao casamento, não só porque  Eyal era meu melhor amigo desde os tempos de escola, e a sua Hadas parecia  simpática e certamente positiva para ele, mas também porque Micaela, a moça  com jeito de rapaz, talvez estivesse lá, e quem sabe eu poderia estabelecer por  meio dela contato indireto com Einat e, consequentemente, com seus pais. Isso se o contato direto com Lazar no hospital se perdesse nos próximos dias, e outros  contatos que eu tinha preparado acabassem não dando certo. Pois mesmo  agora, enquanto caminhava pela rua em Jerusalém contemplando maravilhado os grandes montes de neve empilhados junto à calçada, não conseguia me  livrar da doce sensação de desejo. Nem de uma leve inveja do casamento próximo de Eyal, associada à ideia de que talvez, por causa da minha paixão maluca, da qual eu só me livraria com o correr do tempo e com muita dificuldade,  eu tivesse que adiar uma relação genuína capaz de me conduzir ao casamento.  Apesar disso tudo, não desisti da vontade de mergulhar no abismo desse novo  sentimento. Quando entrei na casa de meus pais, que me esperavam com a  habitual ansiedade, informei-lhes que o clima tinha melhorado muito, as estradas estavam limpas da neve, e portanto não havia razão para eu não retornar a  Tel Aviv. Senti que, apesar de tristes com a minha partida, sabiam muito bem  que eu precisava voltar ao hospital para lutar pela continuidade da minha residência no departamento cirúrgico. Meu pai começou a falar no assunto com uma agressividade que não lhe era característica.
"Por que o professor Hishin pode decidir sozinho quem continua no departamento e quem não continua?", reclamou. "Afinal, nessas coisas sempre há  motivos desconhecidos, e talvez—preste atenção, ouça bem antes de pular  com uma resposta pronta—,talvez exatamente pelo fato de você lhe ser tão fiel,  ele esteja tentando afastá-lo. Por que não deixam outras pessoas do departamento participarem da decisão? Não são apenas mãos ágeis que contam, mas também lealdade e dedicação, como você deu ao hospital no último ano, e talvez  alguém se lembre de que você mal tirou um dia de folga." Foi difícil ouvi-lo falar  assim, talvez porque no fundo eu concordasse com ele.
"Mas, pai", tentei acalmá-lo, "você fala como se fosse o único hospital do  mundo. É possível achar vaga em outro hospital de Tel Aviv."
"Não do nível do seu", declarou. E tinha razão.  "Então talvez eu volte para Jerusalém", ocorreu-me a ideia.  "Para Jerusalém?", disse meu pai com desgosto. "Você pensa em voltar a  Jerusalém e talvez morar aqui em casa? Desse jeito, você não vai se casar  nunca."
Caí numa gargalhada estranha. Jamais na vida eu teria imaginado que  também o méu pai se preocupasse por eu ainda estar solteiro. Minha mãe rompeu seu silêncio soturno:
"Pare de atrasá-lo", disse, repreendendo meu pai, "está escurecendo  depressa. É melhor ele partir ainda com a luz do dia."
Meu pai agarrou meus ombros com força. "Escute, Benjy, lute pelo seu  lugar, agora você tem aliados influentes no hospital, Lazar e a mulher."
"O que a mulher dele tem a ver com isso?", perguntei com pretenso espanto. "Qual é a relação dela com o hospital?"
"Ela tem relação com Lazar", insistiu meu pai, "e ele talvez possa providenciar uma nova função para você, se Hishin mantiver a decisão de ficar com  o outro residente. Ele viu que você é um bom médico, e sem você eles ainda  estariam encalhados na Índia com uma moça agonizante."
"Bobagem", retruquei, "você está exagerando. Fiz uma simples transfusão  de sangue."
"Eu não me meto nas coisas que não entendo", disse o meu pai, "mas ouça  bem: eles já lhe fizeram algum pagamento?"
"Ainda não", procurei justificar, "não houve tempo. Nós nos separamos no  aeroporto."
"Não importa, não importa que não paguem", explicou o meu pai: "basta  manterem contato com você e ajudá-lo a permanecer nesse hospital; assim  você poderá ficar em Tel Aviv, que é uma cidade onde há vida", e lançou-me  um sorriso maravilhoso e cansado, iluminado pelo azul de seus olhos, procurando suavizar seu discurso, pois sabia que no fundo tudo se originava no seu  sonho de voltar do seu exílio em Jerusalém, quando se aposentasse, e morar  perto de mim em Tel Aviv.
Minha mãe voltou a erguer os olhos para o céu, como se quisesse impedir  com o olhar que as nuvens o cobrissem novamente. "Se você resolveu ir embora hoje, então pegue a estrada de uma vez", aconselhou com o seu bom senso  costumeiro. Fui até o meu quarto e vi que as minhas mochilas estavam prontas,  atulhadas de roupas lavadas e passadas, e dentro de uma delas se via também  uma lata dos biscoitos escoceses secos que a minha mãe julgava que ainda me davam prazer como nos tempos de criança, mas de que há muito eu deixara de  gostar. Da viagem à Índia eu não trouxera nada para mim, a não ser aquela paixão maldita que continuava a me atormentar até mesmo ali, na penumbra do  meu quarto de infância. Vesti meu casaco de couro, botei o capacete preto e o  afivelei, apesar de minha mãe não gostar que eu o usasse dentro de casa, enfiei  as mãos nas velhas luvas de couro e fui cuidar da moto, que pegou logo na primeira tentativa, soltando uma baforada de fumaça azulada, já pronta para a viagem, como se a minha ausência prolongada, o frio e a neve não tivessem feito a  menor diferença para o motor, que com seu bloco limpo, claro e brilhante parecia conservar o funcionamento certo para cada situação. Prendi as mochilas no  assento traseiro e as cobri com uma lona. Meu pai ficou em pé ao meu lado,  com sua camisa de flanela leve, admirando a motocicleta, como sempre.  Minha mãe ficou atrás dele, tremendo sob o xale. "Ligue quando chegar", disse  antes de eu baixar o visor transparente sobre os olhos e acelerar a máquina, e  entrou, enquanto meu pai não perdia nenhum detalhe das minhas manobras  de saída, que me conduziram lentamente ao longo da calçada no sentido oposto à mão única do tráfego da rua para cortar caminho e pegar logo a avenida principal.
"Preciso dirigir com cuidado", disse a mim mesmo na primeira curva da  descida de Jerusalém, quando a moto deslizou na sua primeira derrapada séria  numa camada de gelo invisível sobre a estrada. Imediatamente desacelerei a  máquina potente e ágil, reduzindo para a segunda marcha, e guiei-a com seu  ruído forte e abafado, devagar, pelo meio da estrada, obrigando os carros que  vinham atrás a reduzirem a velocidade. Embora já se julgassem seguros na  estrada livre da neve e tivessem a coragem de ficar buzinando às minhas costas,  eu não tinha a intenção de aumentar a velocidade. Cheguei a erguer o visor do  capacete para ter uma visão melhor da estrada negra e escorregadia. E então,  nessa viagem demorada, percebi a luz cor de cobre de Jerusalém, que a neve  branca inundava de nobres tons púrpura. No início pensei que a luz estivesse  sendo irradiada pelas pedras da beira da estrada cobertas de neve. Mas quando  levantei os olhos e vi que, no horizonte, as brancas colinas estavam repletas da  mesma luz estranha, compreendi que a neve penetrara na própria alma da cidade e não se contentava com a mudança passageira do clima. Tomado de ansiedade, reduzi ainda mais a velocidade, como se a força dessa nova luz roubasse de mim o controle sobre a viagem. Na pista ao lado, motoristas passavam me  espiando sem entender, irritados até, como se o medo que eu demonstrava  guiando devagar fosse não só incoerente com o meu pesado capacete negro,  mas também injustificado, de um ponto de vista objetivo. Também nas três pistas largas da majestosa subida do monte Castel, totalmente coberto pela neve,  não acelerei muito, usando no máximo a terceira marcha, embora a moto fosse  capaz de enfrentar o aclive em quinta numa única acelerada. Aquela luz estranha tingia a conhecida cor de cobre de Jerusalém com uma tonalidade triste e  tão misteriosa, ocupando tanto a minha atenção, que  eu não queria acelerar  correndo o risco de perdê-la logo após o cume, quando um jorro abundante de  luz clara e alegre inundaria o horizonte aberto a oeste.
Mas o horizonte da planície, que surge como uma promessa festiva no  cume do Castel, para em seguida desaparecer devagar no declive acentuado  que separa as novas casas de pedra castanha de Abu Gosh das fontes de Ein  Hemed, estava agora tingido não só pelo grande e sério sol da tarde, mas também por manchas azuis dos carros de polícia que cercavam uma vistosa motocicleta espatifada na pista, com um enorme capacete branco ao lado da roda.  Os motoristas diminuíam a velocidade e viravam o rosto, procurando saber,  pela posição exata do capacete, o que restava da vida do infeliz motociclista,  que já fora transportado de ambulância rumo à impressionante luz de Jerusalém. Agora os automóveis atrás de mim e ao meu lado aceitavam que eu diminuísse ainda mais o meu ritmo de viagem na perigosa descida de muitas pistas. Mantive-me em terceira, descendo para o pequeno vale de Abu Gosh, pensando não no motociclista, que com certeza ficara inconsciente, pelo que deduzi  do capacete largado na estrada, e sim em mim mesmo, se eu estivesse no lugar  dele. Será que a mulher de Lazar, que eu hesitava em chamar intimamente de  Dori, ainda se lembraria de mim e do meu nome dali a um ano ou dois, quando a viagem à Índia já estivesse esquecida?
"Mas seria possível esquecer uma viagem dessas?", refleti, enquanto a  moto devorava com avidez a subida curta e reta, que separava os pomares de  galhos azulados das romãs de Abu Gosh das casas brancas de um povoado árabe  cujo nome nunca consegui saber, e que além disso tinha a aparência de um  assentamento judeu onde por engano fora colocado o minarete de uma mesquita. Afinal a Índia não era a Europa nem a América, ambas enterradas em aeroportos semelhantes, com avenidas iluminadas por igrejas e lojas de departamentos. Será que a dourada Varanassi, com a adocicada fumaça dos seus mortos, ou os templos de Bodhgaia, com suas estatuetas de bichos e pássaros, poderiam ser esquecidos com tanta facilidade? E aquela mulher, cujo apelido  carinhoso dado pelo marido eu procurava sussurrar entre os lábios contra o  vento, estaria condenada a recordar eternamente aquela viagem à Índia,  mesmo depois de velha, num leito de asilo? Pena que suas memórias, que de  agora em diante se tornariam absolutas, não incluíssem a mesma paixão estranha, a paixão que sentira o jovem médico acompanhante, a paixão que tinha  conferido um valor de feminilidade inesperada a uma mulher que se aproximava dos cinquenta e cuja sexualidade talvez estivesse minguando. "Estranho", pensei com meus botões, na velocidade natural que eu começava a desenvolver nas agradáveis curvas do caminho de Sha'ar Hagai, quando precisei novamente baixar o visor plástico por causa do vento perfumado dos pinheiros.  Estranho que eu ainda não soubesse a sua data de nascimento exata, apesar de  seu passaporte ter ficado aberto mais de uma vez diante dos meus olhos.
Assim, cheio de suaves pensamentos de amor, apesar do rugido feroz e  incansável da moto, saí de Sha'ar Hagai em quinta na direção do vale de Aialon,  cruzando com facilidade a última linha de divisa de Jerusalém. A minha visita  à cidade me proporcionou repouso, mas também uma preguiça desnecessária.  Eu mal começava a desfrutar a visão dos pomares e dos vastos campos, e da grande represa construída recentemente, e meus olhos captaram no longínquo  horizonte da planície, verde como a tela de um computador antigo, o primeiro  relâmpago silencioso, avisando que a grande nuvem que vinha na minha direção, como um alegre dirigível lançado pelo brilho róseo do sol poente, já se preparava para explodir, numa explosão não de fogo, mas de água. "Preciso me  apressar", disse a mim mesmo, e aumentei a velocidade para mais de cem quilômetros por hora. Percebi tardiamente um carro de polícia estacionado do  outro lado da pista, controlando a minha velocidade com o radar; não demorou para acenderem os faróis e as luzes azuis da sirene, e o carro começou a se  mover. Isso me forçou, mesmo antes de o policial decidir sua estratégia, a saltar  de uma só vez para cento e sessenta por hora e tirar da sua cabeça qualquer gota  de esperança de me alcançar. Numa velocidade feroz, estranha à minha mentalidade e aos meus valores, devorei em poucos minutos os vinte quilômetros que separam o mosteiro trapista da bifurcação que leva ao aeroporto, pela qual  deixei a estrada principal, que já me bastara por aquela tarde. Durante a viagem sensata e moderada, passei ao lado do aeroporto, cujo saguão de passageiros despertou uma imensa saudade dentro de mim; e por atalhos e estradas secundárias entrei no coração de Tel Aviv, que me pareceu, apesar da chuva insistente e  gelada, cheia de uma promessa nova e secreta.
Sem muitas delongas, ainda com as mochilas jogadas no meio do quarto  como animais selvagens e molhados, telefonei para a casa de Lazar. Não só  tinha o direito, mas também a obrigação de saber detalhes sobre a minha  paciente, que, para minha surpresa, foi quem atendeu o telefone e pareceu-me  ainda mais perdida e confusa na sua casa do que na Índia. Mas, talvez graças à  confiança que eu despertara nela desde o nosso primeiro encontro, com o auxílio dos meus dedos cuidadosos quando ela estava deitada sobre o saco de dormir no templo de Bodhgaia, logo se recompôs, saiu da letargia e deu-me alguns  detalhes acerca do seu estado físico, pelo menos como os entendia. O diretor  do departamento de medicina interna do hospital, o professor Levin, tinha ido  visitá-la na véspera pela manhã e queria hospitalizá-la imediatamente. Porém  seus pais decidiram esperar pelo amigo Hishin, que voltara de Paris naquela  manhã e fora direto do aeroporto examiná-la, recomendando que ficasse em  casa, mesmo que a febre voltasse a subir. A febre tinha subido de novo?—refleti, desapontado, pois eu havia presumido que a transfusão também eliminaria a infecção no fígado, causa aparente da disfunção contínua do sistema imunológico. "Vocês contaram a Hishin o que aconteceu na Índia?", perguntei.
"Claro que sim", ela respondeu devagar, "meu pai e minha mãe contaram  tudo."
"E o que foi que ele disse?", perguntei ligeiramente ansioso.  Ela pensou por um momento e respondeu:  "Ele disse que o importante é que tudo tenha corrido em paz." "O que correu em paz?", insisti ofendido. Mas Einat não soube explicar as  palavras do professor Hishin. Com o coração pesado, apertando o telefone com  força, ousei pedir para falar um instante com a mãe, mas os pais não estavam em  casa. A mulher de Lazar fora trabalhar, depois da visita de Hishin, e Lazar tinha  saído para arranjar algumas coisas pouco antes de eu ligar. "E você está sozinha em  casa?", perguntei num tom que surpreendeu a mim mesmo pela raiva contida.
"Sim", respondeu, provavelmente também surpresa com a minha raiva  inexplicável. Quando percebeu que eu caíra num silêncio estranho, perguntou  se eu queria que o pai me telefonasse de volta.
"Não, não é importante", respondi depressa, "vou vê-lo de qualquer jeito  amanhã no hospital", e desliguei. Desabotoei e tirei o meu casaco de couro e  liguei para o hospital, para o departamento, para ver se conseguia falar com  Hishin e ouvir dele mesmo a sua opinião sobre a transfusão feita na Índia.  Soube que Hishin, que chegara há pouco, tinha ido até o departamento de  medicina interna reunir-se com Levin. "Para quê?", perguntei preocupado.  Mas a enfermeira não soube responder.
"Por que você voltou tão depressa?", perguntou meu amigo/rival, o segundo residente, que se apressou em pegar o telefone da mão da enfermeira. "Todos  nós pensamos que você ia aproveitar a viagem para passear um pouco sozinho."  Falou comigo com toda a simpatia. Teria sabido por Hishin alguma coisa sobre  a transfusão de sangue que eu realizara em Varanassi? Pediu que eu contasse as  minhas impressões da Índia, mas naquele momento não tive paciência para  conversar sobre a viagem; apenas perguntei sobre as novidades do nosso departamento nas duas semanas em que eu estivera ausente, pedi informações sobre  cada paciente, mencionando seus nomes, de que me lembrava bem, e interessando-me pelos resultados das operações das quais eu tinha participado.  Surpreso com as minhas perguntas detalhadas, ele procurou dar as respostas  mais completas possíveis. De repente me lembrei da mulher deitada sobre a  mesa de operações quando Lazar viera chamar Hishin para ir ao seu escritório.
"E ela? Como está ela?", perguntei com uma emoção incompreensível.  "Afinal, você mesmo a costurou."
Ele respondeu um pouco constrangido:  "Ela faleceu de hemorragia interna, um ou dois dias depois que você viajou."  "Hemorragia interna?", repeti, tomado de uma súbita tristeza pela jovem  mulher, como pelo marido e pela mãe, que esperavam junto à entrada do pavilhão cirúrgico. "Uma hemorragia interna, sem mais nem menos?", prossegui  levemente irado. "Eu me recordo de cada momento dessa operação, não esqueci nada, na Índia volta e meia pensava nela, foi uma operação simples, sem qualquer complicação."
"Sim", respondeu com voz grave, depois de me escutar pacientemente,  "esse foi o erro de todos nós: achamos que era uma operação simples, mas não  era simples coisa nenhuma. O sangramento jorrou e infectou tudo, e Hishin até  agora não descobriu a causa."
“E o que deu a autópsia?", exigi uma explicação.  "Nada claro, um completo mistério."  "Mistério?", balbuciei com desdém e desespero, como se ele fosse pessoalmente responsável por essa morte. "Como mistério? Para dizer que é um mistério não é necessário ser médico."

2.
 
Terá chegado a hora de considerar casamento? Se assim for, caberá a quem  impuser o casamento como ideal superior deste capítulo começar a remover a  casca grossa e cinzenta, a solidão de ser solteiro, que envolve a personalidade do  nosso herói, que a esta hora de uma madrugada de inverno faz manobras sem o  menor cuidado ou responsabilidade sobre o assento de sua motocicleta em meio  ao fluxo de trânsito de Tel Aviv,  e vez ou outra também lança um olhar rápido para  o perfil de uma mulher sentada ao volante de seu carro fumando um cigarro, não  mais por causa da vontade habitual de desfrutar o prazer de ver um rosto agradável, e sim por causa da nova esperança de encontrar o rosto conhecido. Mas como efetivar um casamento, ainda que às vezes seja algo fácil e compreensível, que flui num movimento natural, quando existe o risco de se tornar  algo difícil, exigente e recalcitrante, que pode ser considerado na mesma medida  um fato não natural e até mesmo absurdo, como duas aves imensas conduzidas  em corrente pelas mãos do homem míope e irritadiço que vimos como mistério na  primeira parte? Eis que ele se transforma em casamento nesta segunda parte, mas  sem perder a sua velha e peculiar essência de mistério, até um tanto engraçada, e  tampouco o seu desagradável hábito de fazer breves e inesperadas visitas noturnas, disfarçado de antigo membro da família que pode surgir sem qualquer aviso de dentro do armário do dormitório, arrastando atrás de si duas aves de rapina,  que parecem caminhar dóceis e domadas pela sua mão, mas que a um olhar mais  meticuloso revelarão terem sido elas que o acorrentaram para não se separarem.
"Quem sabe você não queira soltar a corrente e deixá-las voar livremente?",  sugerimos com amistosa compaixão. "Soltar?", ele responde surpreso, decepcionado, até mesmo ligeiramente irritado, e aperta a corrente com mais força na  mão. "Como é possível? E além disso as aves são casadas." "Casadas?" Não conseguimos nos conter e caímos numa gargalhada brusca e feliz no silêncio da noite,  curvando-nos um pouco para observar o estranho casal parado à nossa frente com  feliz indiferença, encostando as caudas sem se incomodar. "Em que sentido?",  insistimos, dando risada. Mas é tarde demais, já não podemos obter resposta para  a pergunta que o nosso riso tornou supérflua, pois o par se ergue com ar sério, deixando uma pena dourada, e num passo silencioso e torto segue o seu caminho,  arrastando atrás de si o mistério do casamento, seu profundo sentido, seu vínculo  angustiante, sua tola fidelidade, suas realizações e suas frustrações. Eis que agora  ele passa à nossa frente, com ar sério e olhos tristes, curvado sob o peso da responsabilidade nem sempre compreensível, nem sempre justificada, e a corrente que  envolve a sua mão balança e ressoa como um pequeno sino.
Quando cheguei ao departamento, Hishin já estava circulando entre os  leitos. No início, pareceu-me que estava querendo me evitar e sumiu dentro do  seu escritório; depois mudou de ideia: saiu, aproximou-se de mim pelas costas  e me deu um caloroso abraço. "Fiquei sabendo de tudo", disse num longo sussurro, "foi um sucesso enorme, estou orgulhoso pela minha escolha. Também  fui ver Einati; examinei-a muito bem e estou totalmente com você. Não só pelo  diagnóstico, mas também pela transfusão de sangue que realizou no meio da  viagem. Eu disse aos Lazar, foi uma ideia brilhante de um médico que tem uma  sensibilidade mais profunda do que o mais preciso dos bisturis. E se há alguma  opinião um pouco diferente, como a do meu prezado colega Levin, que considera a transfusão uma bobagem desnecessária, não dê atenção a ele, é um  homem esquisito e orgulhoso que acha que inventou a hepatite. Não se aborreça com o que ele lhe disser—já pediu para conversar com você. Escute com atenção o que ele tem a dizer, faça que sim com a cabeça, educadamente, mas saiba que eu apoio a sua ideia, principalmente do ponto de vista psicológico, e  eu já disse isto muitas vezes a todos vocês: a psicologia é tão importante quanto o bisturi na mão"—brandiu alegremente no ar o seu bisturi imaginário. Mas  eu não queria que ele me falasse outra vez sobre a sua fé na psicologia, que, na  boca de um cirurgião-chefe como ele, pode até ser perigosa. Senti necessidade  de esclarecer sem demora se, por trás do seu linguajar eloquente, ele realmente apoiava a minha decisão de fazer a transfusão, a qual, com uma estranha saudade, eu recordava pensando no tubo de borracha fino e transparente, com o  sangue fluindo entre as duas camas perto dos móveis de vime laqueados do  quarto de hotel em Varanassi, de cuja janela se avistava, mas sem se ouvir, a multidão arrastando-se para o Ganges:
"Mas qual é a objeção do professor Levin?", perguntei a Hishin com ansiedade. Antes que ele tivesse tempo de responder, joguei-lhe com raiva e rapidez  os números dos exames, que eu sabia de cor. As duas transaminases que saltaram de quarenta a cento e oitenta e quase cento e cinquenta e oito; trinta de  bilirrubina; e a suspeita de lesão no  sistema coagulatório. "Onde está o meu  erro?", exigi uma resposta, ofendido.
Mas Hishin já tinha começado a sacudir as mãos, impaciente: "Por favor,  por favor, meu amigo, não tente me convencer, já estou convencido, sou seu  maior admirador". Piscou para mim e para as enfermeiras ao nosso lado e juntou as mãos sobre o peito num gesto indiano, uma novidade que me deixou atônito pela ousadia. "Por favor, não comece agora a jogar esses números, pois eu  nunca entendi direito o que eles nos dizem sobre o estado do fígado. Para isso  temos o professor Levin, é ele que entende de fígado; eu, tudo que faço é cortar." Caiu na gargalhada e me abraçou de novo. "Não, doutor Rubin, não desperdice a sua energia, pois eu realmente o admiro, senão não o teria mandado  para a Índia, e estou contente em saber que outras pessoas passaram a compartilhar a minha opinião."
Entendi de quem ele estava falando, e a sensação de felicidade foi tão forte  e repentina, que o sangue tomou conta do meu rosto. Baixei os olhos e me calei.  Mas agora Hishin decidira falar, e com a rapidez com que costumava executar  o primeiro corte, preciso e elegante, pegou-me pelo ombro, dispensou as enfermeiras e levou-me até o seu escritório; fechou a porta, fez-me sentar e disse: "O  que você pensa? Que eu não sei o que o está preocupando o tempo todo? Mas o que fazer se há apenas uma vaga de residente no departamento e é necessário  escolher, escolher entre vocês dois? E é uma escolha muito difícil, pois ambos  têm muitas qualidades e poucos defeitos. Até Lazar e a mulher já se interessaram em saber se você continuaria a residência entre nós".
"Lazar e a mulher? Por que a mulher?", murmurei. A ideia de que ela também se interessara pelo meu futuro no hospital provocou-me uma intensa inquietação. "Por que foi preciso contar alguma coisa a meu respeito?", reclamei.
"Mas eles perguntaram sobre você", justificou-se Hishin, "os dois queriam  saber qual era a sua chance no nosso departamento, e percebi que lhes doeu  saber que eu não o tinha escolhido, então eu disse a Lazar: 'Você ousa se queixar? É você quem determina as vagas; crie uma vaga nova e eu dou mais um ano  a ele, embora’—e ergueu um dedo admoestador—"'não seja exatamente o  lugar natural dele. Vai ser um médico excelente, mas o seu talento verdadeiro  está na alma, não nas mãos. Não é que as suas mãos não sejam boas; é que ele  gosta de penar demais antes de abrir ou costurar, e enquanto isso o tempo passa,  e o tempo numa operação não só é muito caro como também muito perigoso.  Então por que a insistência em brincar com a faca quando em outros lugares há  necessidade da sensibilidade dele, da profunda compreensão, de ideias brilhantes?'. Por isso nós dois decidimos falar sobre você com Levin, pois no departamento dele surgiu lugar para um médico substituto por meio ano. Agarre a  oportunidade por enquanto, fique por ali e aprenda mais alguma coisa. E você  sempre poderá, se realmente isso for importante, achar alguém que o leve de  volta para a sala de cirurgia. Mas, pelo amor de Deus, antes de tudo resolva com  Levin o assunto da transfusão de  sangue que você fez na Índia, o que devia e o  que não devia ser feito, para que ele não se aborreça de graça, porque a saúde  dele não é lá essas coisas."
Assim foi selado o último esclarecimento sobre a minha posição no departamento cirúrgico. Faltavam apenas duas semanas para o final do meu ano de  experiência, e procurei tirar o máximo delas, não perder uma única operação.  Às vezes ficava no hospital à noite, após o horário, só por causa da possibilidade  de surgir uma cirurgia de emergência da qual pudesse participar, pois sentia que  seria muito difícil a despedida forçada da oportunidade de olhar diretamente as  entranhas do corpo humano. Agora que eu estava prestes a ir embora, todos se  mostravam generosos. De vez em quando me permitiam arrematar sozinho uma pequena sutura, e até mesmo fazer as primeiras incisões. E eu fazia tudo  muito bem-feito—era o que eu sentia. Médicos veteranos no departamento,  que sabiam que eu sairia em breve, aprovavam com a cabeça, e Hishin também  dizia: "Muito bem, uma sutura magnífica, que pena que você não vai ficar  conosco", e piscava para mim. Mas conversa de verdade já não havia entre nós.  Uma vez, quando estávamos esperando na sala cirúrgica os resultados dos exames do paciente, pediu-me que lhe contasse sobre a Índia. Respondi com deliberada secura e displicência, e ele disse realmente ofendido para as enfermeiras que preparavam os instrumentos: "O que vocês me dizem do doutor Rubin?  Nós o enviamos até a Índia e ele guarda toda a aventura para si. Se ao menos nos  mostrasse algumas fotos! Os Lazar estiveram ontem na minha casa e se queixaram de que você ainda está com todas as fotos deles".
De fato, eu ainda estava com todas as fotos, inclusive as particulares, de  Lazar com a mulher. Estavam espalhadas na mesinha ao lado da minha cama,  e frequentemente eu olhava os dois, observando-os juntos em diferentes ângulos diante do monumento amoroso, o Taj Mahal, que agora eu lamentava ter  deixado de visitar por excesso de generosidade. Examinava sempre de novo o  rosto, o corpo e a postura daquela mulher, que conseguia manter em cada foto  o mesmo sorriso espontâneo e que no meu íntimo eu insistia em chamar de  minha amada. Sabia que, se enviasse as fotos aos Lazar, corria o risco de afastar-me definitivamente deles, quando na verdade não conseguia me decidir sobre  a melhor forma de retomar contato com ele para, por seu intermédio, chegar a  ela. A possibilidade de tirar cópias para mim, em segredo, de fotos que a mostravam sozinha parecia-me imoral, apesar de eu imaginar que no final não conseguiria resistir à tentação, no mínimo em relação a uma fotografia em que ela  estava extremamente atraente sob a luz indiana alaranjada. Perguntei-me o que  estariam pensando do nosso acordo financeiro. Será que eu receberia no fim  algum pagamento especial? No início do mês recebera meu salário integral do  hospital e vira que no comprovante não haviam assinalado férias ou licença.  Como se a viagem à Índia tivesse acontecido só na imaginação. Teria o departamento financeiro recebido instruções secretas do diretor administrativo para  ignorar a minha ausência, ou nem sequer tinham sido informados de que eu faltara? Por enquanto não tinha ido perguntar a Lazar para não ter que recordá-lo  da remuneração que a esposa me prometera na conversa pelo telefone na véspera da viagem. A mochila com o equipamento médico também estava ainda  na minha casa, e por alguns dias me perguntei o que fazer com ela. Tive a ideia  de me apossar da mochila como forma de compensação pelo meu aborrecimento, mas tive medo de que o farmacêutico-chefe, o dr. Hessing, que a tinha  arrumado com capricho e amor, ainda esperasse que ela fosse devolvida.  Resolvi entregá-la pessoalmente a ele, que, para meu espanto, mostrou-se decepcionado por eu ter achado certo arrastar a mochila de volta da Índia, em vez  de doá-la, como ele sugerira. "Até o último momento", expliquei, "estávamos  numa situação de emergência, não sabia se ainda precisaria dela ou não; e quando já estávamos no aeroporto não fazia sentido abandoná-la no meio da ala de  desembarque."
"Eu simplesmente teria escrito na mochila Israel e o nome do nosso hospital", disse o farmacêutico, lamentando, "e deixado com um dos guardas."  Sem muita disposição, esvaziou a mochila, jogou fora todos os remédios e bandagens, sem sequer olhar para eles, e colocou os instrumentos numa velha caixa  de papelão. Eu ainda quis elogiar o modo criativo e meticuloso como a mochila fora arrumada e contar-lhe sobre a minha transfusão de sangue, mas ele já  estava sacudindo a cabeça para mim com certa irritação, como se eu tivesse  estragado a sua boa intenção de praticar, por meio da nossa viagem, um ato  humanitário pessoal em benefício dos verdadeiros sofredores.
Decidi entregar as fotos a Lazar e, por força da educação decente que recebi na casa de meus pais, desisti no último momento de tirar cópias para mim de  qualquer foto em que ela aparecia sozinha; contentei-me com as fotos da família, que eu tinha tirado a uma distância maior, em Bodhgaia. Se eu queria me  libertar do pensamento que me escravizava àquela mulher, ponderei, melhor  agora do que mais tarde; e uma fotografia nítida e bem tirada, como aquela que  a mostrava sorrindo, aliás um sorriso delicado, com o Taj Mahal flutuando milagrosamente atrás de sua cabeça, irradiando uma luz rosada, só serviria para adiar  a libertação almejada. Pois apesar de já terem se passado três semanas desde a  última vez que a vira, o tempo todo ocorriam fatos que complicavam os meus  sentimentos por ela. Como, por exemplo, o comentário casual de Hishin de que  não só Lazar se interessara pelo meu futuro no departamento, mas também a  mulher; ou a minha suspeita súbita e tola, porém insistente, de que também Hishin estava apaixonado por ela em segredo, como eu. Num dos meus últimos dias de trabalho no departamento cirúrgico, na hora do almoço, fui até a ala  administrativa para entregar as fotos a Lazar e aproveitar a oportunidade para  lhe perguntar como estava a "minha" paciente e mandar lembranças a sua  mulher. Mas a secretária, que me reconheceu na hora, lembrou-se do meu  nome e me recebeu calorosamente, lamentou informar-me que Lazar tinha  ido almoçar. Um espírito intempestivo tomou conta de mim, tanto que, vestido como estava, ainda de avental branco, voltei-me depressa para alcançá-lo ou,  mais exatamente, segui-lo.
Eu tinha certeza de que na hora do almoço ele iria buscar aquela que eu  insistia em chamar no meu íntimo de minha amada. "Ele se preocupa em não  deixá-la sozinha", pensei com uma ansiedade na qual havia também uma faísca de desejo; e essa mistura apressou os meus passos e aguçou os meus sentidos,  de modo que logo pude identificar ao longe, em meio ao movimento de pessoas  no estacionamento do hospital, a cabeça mais alta com a cabeleira grisalha  encaracolada. Enquanto caminhava, fui tirando o avental, que acabei enrolando e jogando na caixa preta sobre o bagageiro da moto. Coloquei o capacete e,  mesmo sem o meu casaco militar, apesar do extremo frio, não desisti da ideia e  liguei a moto. Eu sabia a marca do seu carro, pois tínhamos conversado um  pouco sobre ele durante a longa viagem de trem de Nova Delhi para Varanassi,  então pude reconhecê-lo e segui-lo quando saiu da sua vaga reservada no estacionamento. Os filmes já tinham me mostrado a agilidade de uma moto ao perseguir um automóvel, mas eu não imaginava a vantagem inquestionável do  motociclista, que, oculto pelo visor do capacete, podia aproximar-se do perseguido a uma distância quase íntima. Era uma hora da tarde, e Lazar conduzia  o carro com segurança e certa agilidade em meio ao tráfego, dirigindo-o rápido  rumo ao centro da cidade, para a rua onde ficava o escritório da mulher. Não  achou lugar para estacionar e teve que parar o carro sobre a calçada;  desculpou-se com o dono de uma das lojas e ficou esperando no carro. Finalmente ela desceu, após alguns minutos que pareceram uma eternidade também para mim,  que, sentado na moto a uma pequena distância, tomava a chuva fina que enchia  o ar. E quando a vi correndo sobre seus saltos—decididamente uma mulher  madura, com uma saia talvez curta demais para quem está perto dos cinquenta, envolta na túnica de veludo azul que levara na viagem à índia, mas usara  pouco, a face redonda e risonha, carregando debaixo do braço gorducho algumas pastas do escritório, insistindo em abrir um guarda-chuva para proteger-se  na pequena distância entre a porta do edifício e o carro—,percebi que não  havia nenhum engano, quer dizer, não era delírio nem ilusão, era paixão de verdade, uma paixão errada, sem razão de ser, mas que já possuía uma sólida base  de dor.
Eu podia encerrar agora a perseguição, descer da moto e me abrigar na  entrada de um dos prédios, esperando a chuva passar, e depois voltar ao hospital; ou, ao contrário, ir na direção deles para um encontro acidental, entregar  com toda naturalidade o envelope com as fotografias, dizer algumas palavras  que contivessem uma promessa para o futuro e ir embora. Em vez disso, permaneci sentado na moto com a minha jaqueta leve, escondido pelo capacete, esperando que partissem, para poder continuar a segui-los—dessa vez a uma distância maior, pois receava o seu hábito de olhar pelo espelho do passageiro e a  sua curiosidade natural. Segui atrás deles e, quando pararam junto a uma confeitaria, vi-a entrar e sair carregando uma caixa retangular branca com uma fita  azul, que me lembrou a caixa de sapatos que eu me oferecera para enfiar na  minha mala no aeroporto de Roma. De lá, após o que pareceu uma rápida discussão, seguiram para uma quitanda, de onde saiu um jovem árabe que colocou alguns sacos de frutas e verduras dentro do carro. Eles ainda estavam cultivando as suas barrigas redondas, pensei com ironia. E, apesar de já estar  ensopado de chuva, não deixei que se afastassem, pois queria ver com meus próprios olhos como chegariam em casa na avenida Hen, ajudariam um ao outro  a carregar os sacos e os pacotes, antes de desaparecerem atrás da grande porta  de vidro. Ela não ficaria sozinha durante o seu horário de almoço, pensei com  grande alívio.
Não entreguei as fotos no mesmo dia, ainda que Lazar tivesse voltado ao  escritório às quatro da tarde. Tampouco no dia seguinte as levei para ele, mas  segui o novamente para ver se também dessa vez ele se preocupava em não deixar a mulher sozinha em casa no horário de almoço. Era um dia de chuva forte,  ela trocara a saia curta e os saltos altos por calças justas e botas de borracha, vestindo uma capa preta que mudava sua silhueta. "E então, aonde é que isso vai  dar?", disse a mim mesmo desanimado, ao voltar todo molhado ao hospital depois que eles sumiram na entrada de seu edifício. Era meu último dia de trabalho no departamento cirúrgico, e ainda não havia nada definido com o professor Levin, que estava ausente havia duas semanas por causa de uma doença  misteriosa; eu me senti, talvez pela primeira vez na vida, solto no ar, sem patrão  e sem estrutura. E assim resolvi que à tarde, quando Lazar voltasse, eu entraria  no seu escritório para entregar as fotos. Faria uma ou duas perguntas relativas  aos direitos de um médico substituto temporário. Só que dessa vez, apesar da  cordialidade da secretária, a srta. Kolby, foi difícil achar, na sua agenda lotada  de reuniões, uma hora livre durante a tarde. Só ao cair da noite, após o jantar ter,  sido servido, enquanto circulava entre os leitos para a minha ronda de despedida—sem contar a ninguém que era minha última visita, pois não queria que  se sentissem abandonados ou traídos na longa e difícil noite que os aguardava—,a secretária telefonou para o departamento à minha procura, informando que Lazar tinha encerrado seus compromissos e teria todo o prazer  em me receber.
Lá estava eu de novo, na sala grande e bem decorada que, àquela hora da  noite, com os enormes vasos de plantas nos cantos e as cortinas floridas, parecia  muito diferente de todos os outros consultórios do hospital. Dava a impressão  de ser uma espécie de recanto doméstico acolhedor, protegido de doenças, odores, remédios e equipamentos clínicos, longe também das pastas e formulários  médicos; não se tinha a sensação de que era o centro administrativo do hospital, e sim um refúgio onde se esconder dele. Lazar estava sentado à sua mesa  enorme, com a cabeça cacheada, que me servia como eficaz sinalizador de  caminhos entre as cabeças da multidão na Índia, recostada no espaldar alto da  sua suntuosa cadeira, enquanto conversava animadamente com a sua dedicada  secretária, a srta. Kolby, que tinha mais ou menos trinta e cinco anos. "Você!",  exclamou num alegre tom de censura. "Finalmente! Onde é que você se  meteu?"
"Onde eu me meti?", respondi com um sorriso admirado, pois durante as  últimas três semanas me parecia que ele e a mulher estavam comigo dia e noite.  "Como 'onde me meti'? Estou aqui o tempo todo, no hospital."
"Que você está aqui eu sei", respondeu com alegria sincera, "mas você  sumiu da nossa vista. Dori já estava achando que talvez estivesse ofendido com alguma coisa, pois desde que nos separamos no aeroporto não deu nenhum  sinal de vida."
"Mas eu telefonei uma noite", justifiquei-me, cheio de alegria com a nova  prova do interesse dela. "Einat não contou? Ela disse que Hishin e o professor  Levin já a tinham examinado, e concluí que não tinha mais com que me preocupar."
"Você tem sempre com que se preocupar", exclamou Lazar com jovialidade, "mas não estou me referindo a Einati, apesar de ela ainda não estar totalmente curada; e Levin, que queria interná-la no seu departamento e realizar  exames complementares, está ele próprio doente. Não, estou querendo dizer  que você tem que se preocupar consigo mesmo, pois temos alguns assuntos a  resolver entre nós."
"Assuntos?", repeti ingenuamente.  Ele cruzou as mãos sobre a mesa e me olhou.  "O salário a que você tem direito pela viagem que fez conosco."  "Não há necessidade de salário nenhum", retruquei sem vacilar e baixei os  olhos para que ele não percebesse qualquer hesitação. Ele insistiu.
"Nada de salário, nada de pagamento", eu disse, mantendo-me firme na  posição, vasculhando os olhos penetrantes e vivazes da secretária, que ainda  estava ao nosso lado. "O pagamento foi a viagem em si." Senti um aperto no  coração, não só por causa do pagamento que eu acabara de recusar definitivamente, mas também por causa da viagem, curta e apressada demais. "Eu vim  só para trazer isto", acrescentei em voz fraca e lhe estendi o envelope.
"Ah, as nossas fotografias!", lembrou-se contente, arrancando o envelope  das minhas mãos; pegou as fotos, olhou-as rapidamente, sorriu e passou-as à  secretária, que as pegou com respeito e as examinou com calma e interesse.
"Dori sempre sai ótima nas fotografias", ela disse num tom íntimo e familiar.
"Sim", concordou Lazar com um leve suspiro, "é porque ela tem tranquilidade interior. Não é como eu. Isso sempre torna as linhas mais claras e definidas", e fez um meneio para mim, como se estivesse se desculpando por elogiar  a mulher na frente de estranhos. "Mas quanto eu lhe devo pelas fotos?" -  puxou a carteira.
"Não deve nada, é bobagem", respondi dando de ombros.
"Bobagem por quê?", protestou com firmeza. "Não é possível que você  abra mão de tudo. Diga-me quanto custaram as fotos, senão pode levá-las de  volta." Pegou uma nota de cinquenta e a colocou sobre a mesa.
Meu coração doeu por me separar das fotografias. Recusei o pagamento  firmemente, explicando que meus pais é que tinham mandado revelar os dois  filmes, "na realidade é um presente deles para vocês dois".
Isso o fez desistir da ideia de pagar. "Presente dos seus pais?", repetiu como  se quisesse confirmar. "Então não se esqueça de mandar nossos agradecimentos." Apressou-se em recolocar a nota na carteira e virou-se para a secretária:  "Ela vai ficar muito feliz, adora fotografias, e talvez fique alguma recordação  dessa viagem; acredite, já esquecemos praticamente tudo". Olhou o relógio e  disse: "Mas ela já devia ter chegado". Percebendo que eu me dirigia lentamente para a porta, talvez intuindo também o meu turbilhão interno, levantou-se  para me impedir. "Espere um pouco e dê um alô para ela. Ela perguntou de  você."
Olhei o relógio, eram sete e quinze. A minha última hora de trabalho no  departamento cirúrgico já tinha se encerrado.
"Eu não sei", hesitei, "ainda tenho que voltar ao departamento."  "Ao departamento?", espantou-se Lazar, "mas hoje é o seu último dia."  "Até isso você sabe?", exclamei realmente admirado.  "Até detalhes menores e menos importantes", respondeu Lazar suspirando e fechou os olhos com um cansaço prazeroso. "É para isso que estou aqui. Também sei, por exemplo, que o professor Levin talvez empregue você como  substituto até junho."
"Julho", corrigi timidamente.  "Não, só até junho", afirmou com determinação. "O cargo só está vago até  junho. Mas não importa, junho, julho, quando chegar a hora, resolveremos o  que fazer. Por enquanto vamos esperar que ele se restabeleça, pois insiste num  pequeno esclarecimento com você."
"Esclarecimento?", perguntei em voz baixa.  "Algo sem importância", desconversou Lazar, "Hishin não lhe contou? A  transfusão de sangue que você fez em Einat. Ele não gostou muito."
"Sim, já fiquei sabendo, mas não entendo do que foi que ele não gostou."
"Também não entendo a reclamação dele. Nem Hishin. Então converse  você mesmo com ele e explique exatamente quais foram as suas intenções. Ele  é um homem correto, mas impaciente."
"Qual é a doença dele?", perguntei.  "Alguma coisa qualquer", respondeu Lazar sorrindo para si mesmo.  "Mas o quê, exatamente?", insisti, curiosíssimo para descobrir o segredo da  doença do meu futuro chefe.
Lazar trocou olhares com a secretária, que parecia conhecer o segredo da  enfermidade de Levin, mas advertiu-o com os olhos para que não o revelasse.
"Não importa, não importa." Fez um gesto com a mão procurando me  calar, e subitamente moveu a cabeça devagar, concentrando a atenção em outra  coisa. "Escutem, Dori chegou, já estou ouvindo os passos dela." Nem eu nem a  secretária, que virara um pouco a cabeça para escutar melhor, conseguimos  ouvir passo algum. Ao contrário, o silêncio parecia ainda mais profundo em  todas as salas. No entanto Lazar insistia em escutar os passos ao longe—por força  do intenso amor entre ambos, que confundira e excitara o meu interesse durante a nossa viagem. De fato, o ruído dos passos ficou mais forte, passos leves porém  confiantes, e uma felicidade me invadiu quando descobri que eu também me  recordava deles e era capaz de identificá-los. Vacilaram um pouco junto à porta  da sala ao lado, depois voltaram a se firmar à porta da sala do marido. Ela abriu a  porta com delicadeza mas sem hesitação, sorrindo seu sorriso caloroso. Entrou  arrastando um pouco a perna esquerda, com um jeito mimado, e ficou visivelmente surpresa de me encontrar. Porém deu um abraço e um beijo afetuoso na  secretária antes de se voltar para mim e perguntar educadamente, mas com um  leve tom de queixa, usando a mesma fórmula que o marido:
"Como está você? Onde foi que você se meteu?"  "Onde foi que você se meteu?", interrompeu Lazar, zangado. "Por que  demorou tanto? Você disse que chegaria às seis e já são sete e vinte."
"Não é tragédia nenhuma", sua face rechonchuda se encheu de sorrisos,  "não diga que você não teve o que fazer aqui nesse meio tempo."
"Não é essa a questão", reclamou ele, que obviamente tinha gostado da resposta dela. Levantou-se e começou a juntar suas coisas. "Amanhã tenho um dia  de louco.
Mas venha ver que belo presente nos trouxeram", e exibiu as fotografias.
Ela agarrou o envelope com um gritinho infantil, tirou a capa dos ombros,  ainda sem olhar direto para mim.
"E nós, que já estávamos pensando que tínhamos queimado o filme por  engano", disse com entusiasmo. Abriu o guarda-chuva para secar no canto da  sala, sentou-se calmamente na poltrona entre os dois grandes vasos, tirou os  óculos para ver melhor fotografia após fotografia, aceitando com prazer a caneca de chá oferecida pela secretária. Lazar tentou impedi-la, alegando que  tinham que ir logo para casa, mas ela protestou: "Calma, me deixe relaxar um  pouco, estou morta de frio". A secretária, que parecia feliz em servi-la, perguntou se eu também queria um chá; apesar de ter ficado em pé, hesitante, preparado para sair, pronto para cortar contato rapidamente e talvez querendo isso,  não consegui recusar. E senti de chofre todo o poder hipnótico do mistério que  me prendia àquela mulher gorducha e mais velha, desajeitada nas suas roupas  de inverno, face sardenta e corada, os cabelos mais uma vez se soltando do  coque, as pernas  cruzadas ainda mais longas dentro das botas pretas de borracha, observando com evidente prazer e com ligeiras explosões de riso as fotos  dela  e do marido em plena viagem que, segundo ele, estava quase esquecida.
A eficiente secretária, que, a julgar pelos dedos nus e pelo tempo disponível, com certeza era solteira, trouxe uma bandeja com três canecas de chá e  umas fatias de bolo com creme que haviam sobrado de alguma comemoração  particular na ala administrativa. A mulher de Lazar agradeceu no seu estilo  entusiástico e exagerado: "Você salvou a minha vida, estou totalmente seca  por dentro, passei a tarde toda com a minha mãe arranjando um lar de idosos  para ela."
"A sua mãe está indo para um lar de idosos?", perguntou a secretária,  espantada. "Mas por quê? Encontrei com ela há um mês, num café, e me pareceu ótima."
"Sim", alegrou-se Dori, como se fosse a responsável direta pela ótima aparência da mãe, "ela está muito bem, consegue se ajeitar sozinha. Mas, quando  estávamos na Índia, informaram que surgiu uma vaga num lar onde ela se inscrevera muitos anos atrás. Tínhamos até esquecido, porque parece que ninguém morre nesse asilo. Apesar de ser independente e poder continuar vivendo sozinha no seu apartamento, ela tem medo de perder a vaga. O que se pode  fazer? Precisamos respeitar a vontade dela."
Então se voltou para mim e, como se estivesse surpresa com a minha presença silenciosa, ali em pé com a caneca  vazia entre os dedos, lançou-me um sorriso acompanhado de um leve rubor. No  tom quase íntimo que havia se criado entre nós três nos últimos dias da viagem,  repetiu a pergunta que eu ainda não tinha respondido: "E como está você?".  Quando viu que eu titubeava em busca de uma resposta, como se tivesse dificuldade em entender o que ela queria dizer, acrescentou cordialmente: "Você  já se recuperou da nossa viagem?". Apesar de ficar satisfeito com a palavra  'nossa', não consegui achar uma resposta simpática, apenas gaguejei sem jeito:
"Em que sentido?"  "Em que sentido?", repetiu as minhas palavras, estarrecida com a dificuldade da minha resposta. "Sei lá eu. No fim da viagem você parecia um pouco triste e deprimido."
"Deprimido?", sussurrei, completamente surpreso, um pouco magoado  pelo fato de minha secreta paixão não irradiar calor e sim depressão, mas ainda  assim contente por ela se preocupar com o meu estado de espírito. "Triste?",  sorri para ela com leve ironia. "Por que triste?"
Ela continuou insistindo, espantada com a minha negativa, e seus olhos  procuraram o marido como se pedissem confirmação para os seus sentimentos.  Mas ele já estava impaciente com todo o bate-papo e, após arrumar todas as pastas e papéis, fechou irritado a sua maleta, levantou-se e apagou a lâmpada sobre  a mesa, olhando com nítida hostilidade para a calma da mulher, que continuava comendo bolo.  "Pensamos que você estivesse triste por ter perdido o lugar no departamento  de Hishin."
Lazar, que tinha vestido um casaco de chuva do tipo militar e colocado um  engraçado chapéu de pele na cabeça, meteu-se na conversa e declarou com firmeza: "Não se preocupe, encontramos um cargo para ele, mesmo que temporário, no departamento de Levin".  "Na medicina interna?", entusiasmou-se ela, e virou-se para mim: "Então você está satisfeito?"
"Sim", respondeu Lazar em meu lugar, "por que não haveria de estar?  Afinal, você própria ouviu o que Hishin diz o tempo todo, que ele é um excelente clínico, e lá também poderá progredir." Vendo que a mulher continuava a sorver lentamente a caneca de chá, completou sem paciência: "Vamos logo,  Dori, você já bebeu bastante. Temos que voltar para casa".
Ela ainda tomou devagar as últimas gotas de chá, como se quisesse afirmar  a todos nós a sua independência e o fato de que, quando não estava sozinha,  conseguia estar feliz consigo própria e controlar muito bem o mundo em volta.  Finalmente, levantou-se com calma, colocou com certa displicência a longa  capa preta sobre os ombros, tirou do bolso um lenço azul e uma folha de papel  que deu à secretária, que parecia indecisa entre a lealdade natural a Lazar e a  admiração pela mulher dele. Dori sorriu amigável para ela e perguntou: "Posso  deixar com você este formulário médico para entregar ao professor Levin? É  preciso preenchê-lo para o asilo da minha mãe. Eu telefono para ele à noite  explicando".
"Isso vai ter que esperar", intrometeu-se novamente Lazar, parecendo  ocultar certa satisfação maliciosa. "Levin não tem vindo aqui. Está doente."
"Levin está doente outra vez?", exclamou a mulher. Pelo tom da sua voz,  deduzi que ela sabia o segredo da doença. "Então o que vamos fazer? Temos que  devolver este formulário no máximo depois de amanhã."
"Não será nenhuma tragédia", disse Lazar com firmeza, "se a sua mãe for  uma vez na vida a um médico do serviço de saúde pública. Ela contribui, pode  ir de graça e nunca aproveita."
"Que história é essa de saúde pública? De jeito nenhum", a mulher afastou a hipótese com irritação, dirigindo-se para a secretária em busca de ajuda.  "Como é que ela pode ir de repente sozinha para o serviço público? Quem é  que ela vai procurar? Faz muitos anos que ela não tem contato com nenhum  médico lá."
Lazar parecia cansado demais do pesado dia de trabalho para lidar com  problemas desse tipo. Fechou o guarda-chuva da mulher, juntou as canecas de  chá vazias e colocou-as sobre a bandeja, aproveitando para enfiar depressa na  boca o bolo que ela deixara no prato e atravessou rápido a porta da sala, onde eu  esperava pela oportunidade de me despedir deles. "Quem sabe se não há no  departamento de medicina interna algum médico que possa fazer isso no lugar  de Levin?", sugeriu ela à secretária, com grande cautela.
"Não posso pedir isso a ninguém", censurou Lazar, "não é o meu hospital  particular, e os médicos também não estão aí para me servir. Levin é um amigo pessoal e realmente cuida dela por amizade. O mundo não vai acabar", disse  virando-se outra vez para a esposa, ainda irritado, "se a sua mãe for uma vez se  consultar no serviço público. Ela não vai morrer por causa disso", e apagou a  luz da sala, com as duas mulheres ainda lá dentro. Eu, já na sala iluminada das  secretárias, distingui a sua sombra volumosa na parede, espremida entre as sombras enormes das plantas, e mais uma vez meu coração ficou apertado com a  falta de perspectiva, hesitando, adiando mais uma vez o momento certo de me  separar deles sem que fosse uma despedida definitiva. Estavam agora passando  pelas saletas das secretárias, todas iluminadas, caminhando entre os computadores e máquinas de escrever cobertos com capas cinzentas. Esperei educadamente que passassem na minha frente e senti o conhecido perfume agridoce  que ela havia comprado no aeroporto ao chegarmos a Nova Delhi, pedindo a  opinião de Lazar e a minha. Ela estava agora escutando uma história longa,  complicada e pessoal da secretária, que Lazar parecia já saber desde as primeiras horas da manhã. Continuei seguindo atrás deles—um médico jovem, cuja  posição no hospital havia decaído nos últimos tempos, mas que por causa de  uma viagem para a Índia era ainda considerado amigo distante da família,  porém não aos olhos da dedicada secretária de Lazar, a quem não tinha ocorrido, por exemplo, recomendar a mim e não ao professor Levin, poupando a simpática avó do desconforto de ir no dia seguinte, dia de chuva forte, ao serviço de  saúde pública, esperar horas na fila, para obter um certificado de um médico  burocrata não qualificado. Quando já estávamos prestes a nos despedir no corredor, meu coração de súbito se iluminou com a ideia de lhes sugerir que eu  mesmo desse o certificado médico, tentando assim amarrar um fio mais forte,  apesar de saber que nenhum fio seria forte o bastante para me ligar àquela  mulher impossível.
Antes de me despedir deles no corredor principal já pouco iluminado,  parei e, com palavras simples, ofereci-me para ajudar no preenchimento do formulário exigido com urgência pelo lar de idosos. Os olhos dela brilharam, mas  permaneceu calada, esperando a reação de Lazar; ele pareceu ter medo de ficar  me devendo mais um favor, depois segurou meus ombros e disse: "É sério? A  ideia é excelente. E você vai ter tempo amanhã". Mas logo acrescentou uma condição à ideia excelente: que dessa vez eu aceitasse um pagamento efetivo  pelo meu serviço, não como o da viagem à Índia, que no final ganharam de presente. A mulher ficou muito surpresa.
"Como é que foi isso? Não pagamos nada, no final?" E virou-se para o marido indignada.
"Ele se recusa a receber", justificou-se Lazar, irritado. "Vamos lá, diga a ela  você mesmo."
"Isso não está certo", continuou ela, prestes a ter um ataque de raiva, de que  eu bem sabia que era capaz; "não está certo, Lazar", repetiu, "não é possível que seja tudo por conta das férias dele."
"Não foi por conta das férias", respondeu Lazar muito constrangido, "os  dias ainda estão anotados como se ele tivesse trabalhado no hospital o tempo  todo. Por enquanto. Até resolvermos o que fazer."
"Mas isso é impossível!", censurou ela. "E também é ilegal!"  Divertindo-me com a turbulenta conversa, sob a luz amarelada do corredor, tornei a liberdade de me inclinar na direção dela, olhando fixamente através de seus óculos seus olhos calorosos, cercados de pequenas rugas por causa  do constante riso automático. "Senhora promotora", disse num tom novo,  humorístico e íntimo, que deve tê-los surpreendido, "o que há de ilegal aqui? A  amizade? Veja", agarrei a mão fina da secretária, que parecia muito contente  com o meu humor, "ela pode testemunhar, diante de qualquer comissão de  inquérito, que eu não só não obtive nenhum privilégio do diretor ou da sua  esposa, como, ao contrário, nem sequer renovaram a minha vaga no departamento cirúrgico e mal conseguiram me arranjar uma vaga de substituto, provisório, no departamento de medicina interna. Por favor, não sejam mesquinhos  por causa de detalhes", censurei o casal Lazar. Tirei do bolso do avental um  bloco de receituário e escrevi o meu número de telefone, que eles podiam ter  perdido ou jogado fora. Anotei o endereço e o telefone da avó, e combinamos  que na manhã seguinte, bem cedo, eu iria visitá-la.
"Vou dar um jeito de estar lá com você", prometeu a mulher de Lazar.  "Seria bastante desejável", respondi depressa. Mais uma vez me agradeceram calorosamente, de braços dados junto à porta giratória principal do hospital. E saíram juntos, embrulhados como um par de ursinhos desajeitados, para  a praça iluminada e inundada pela tempestade.
"Eis que inesperadamente um novo fio se ata", pensei com satisfação, para  fortalecer o fio indiano enfraquecido que estava prestes a se romper. Pois agora  que o bisturi fora tirado da minha mão e eu me transformara em clínico contra  a minha vontade, poderia me tornar uma espécie de médico da família, tratando dores de garganta, pressão alta ou baixa, acessos de febre ou dores de barriga  misteriosas, e até dar palpites sobre excesso de peso, para assim satisfazer um  pouco, pelo menos em fantasia, a febre dessa estranha paixão, até que ela sumisse sozinha—e disso eu não tinha certeza: depois que a ursinha desajeitada desapareceu da minha vista, agarrando seu guarda-chuva e procurando acompanhar  o marido que corria para o carro, eu sentia novamente a estranha ansiedade. E  se, no final das contas, tudo não passasse de um simples desejo sexual? De fato,  o desejo existia, mas não era simples e direto, pois nos meus devaneios eu não  tinha vontade de tirar sua roupa; e nem havia necessidade, uma vez que por um  bom tempo eu já tivera uma sensação de intimidade com o seu corpo, vaga mas  bastante satisfatória, despertada não só pela proximidade obrigatória na viagem, mas ainda antes, no grande dormitório de seu apartamento, quando insistira que eu também lhe aplicasse as duas vacinas que eu trouxera da Secretaria  de Saúde; para expor o braço fora obrigada a baixara blusa preta e ficara sorrindo timidamente, usando apenas o sutiã, em que, como pude ver de relance,  espremiam-se dois seios grandes porém firmes, com várias pintas de tamanho  maior do que a média. E eram essas pintas escuras, mais do que os próprios seios,  que eu costumava trazer à memória ao ser acometido pelo desejo de mergulhar  no seu interior.
Voltei ao departamento cirúrgico, para dar um adeus final e definitivo a  quem quer que ali estivesse por acaso, juntar meus poucos pertences e jogar o  avental no cesto de roupa suja, ainda que tivesse o meu nome bordado com  linha vermelha. E me pus a pensar de novo sobre o que fazer com a minha atração por aquela mulher, que ia se tornando cada vez mais forte e começava a me  tornar ridículo aos meus próprios olhos. Será que eu queria mesmo conquistá-la na minha fantasia, ou esperava dela apenas a inspiração que me guiasse para  identificar corretamente a mulher jovem pela qual deveria me apaixonar e pela  qual meus pais ansiavam? Talvez pretendesse apenas certa proximidade, que  me desse uma ideia mais exata da jovem que um dia ela fora; desenhar seguindo as grandes pintas espalhadas pelos seus braços e ombros, como indicadores de caminho, a forma precisa do seu corpo, que um dia fora melhor e mais  jovem, conduzido por longas pernas em seu jeito afetado de caminhar. Então  eu teria um quadro mais acurado do verdadeiro tipo de mulher a que eu queria  unir minha vida. Meus pais estavam convencidos de que a dedicação ao trabalho de medicina e a lealdade aos enfermos consumiam a minha energia erótica.  Mas não era bem assim. Porque depois de um dia inteiro de cansativo plantão no  hospital, ao voltar para casa exausto, ainda conseguia ejacular abundantemente durante o banho quente que costumava tomar semi adormecido. Não era  energia erótica o que me faltava, era a capacidade de reconhecer as imagens  potenciais para a minha paixão. Pois quando me encontrava por acaso com antigas namoradas, com as quais tivera algum relacionamento agradável e descompromissado e que nesse ínterim tinham se casado ou mudado para outro lugar —e eu descobria que desde o nosso último encontro elas tinham ficado não só mais bonitas, como também mais inteligentes e maduras—,a consciência da  minha incapacidade era especialmente dolorosa: eu sabia que ela se devia não  a arrogância ou esterilidade afetiva, mas a uma espécie de preguiça, não física  mas espiritual, cuja raiz parecia encontrar-se na minha crescente habilidade de  me satisfazer sozinho e, mais ainda, de gostar disso. De repente deparo com  uma mulher que é o contrário de mim: a sua incapacidade de ficar sozinha em  casa, sem o marido, não só era ridícula e irritante, mas também violentamente  estimulante para os sentidos.
Na manhã seguinte acordei com o nascer do dia, apesar de estar livre de  obrigações. Não me lembrava de ter tamanha folga desde o final do colégio.  Não só estava liberado de ir ao meu local de trabalho, como na verdade nem  sequer tinha um local de trabalho, pelo menos até o professor Levin se recuperar e esclarecermos a questão do meu procedimento médico. Assim, impus a  mim mesmo um repouso forçado, resolvi não me barbear nem tirar o pijama;  fiquei na cama esperando que ela telefonasse. A princípio não me importei que  o telefonema demorasse, pois isso prolongaria o prazer da espera e também porque voltei a mergulhar na leitura de Uma breve história do tempo; apesar de tê-la abandonado nos últimos dias da viagem à Índia, cujo ambiente não era nem  um pouco propício para livros científicos desse tipo, decidi que deveria enfrentar outra vez alguns capítulos que me pareciam indecifráveis. Afinal, tratava-se  de um livro para o grande público, pelo menos era o que constava na contracapa; e mesmo que a medicina fosse apenas um dos ramos das ciências naturais,  não era possível que um aluno do curso científico com segundo grau completo  pelo Colégio da Universidade Hebraica não conseguisse compreender os mistérios do Big Bang e os buracos negros do universo em expansão. Meti-me  debaixo dos cobertores em liberdade cósmica, que a chuva torrencial que  banhava o mundo tornava ainda mais prazerosa, e quase não percebi que o telefonema demorava mais e mais. Só perto das três da tarde me pareceu que ela  desistira de mim e que o fio ao qual eu me prendera como a uma tênue possibilidade arrebentara antes mesmo que eu pudesse puxá-lo. Ainda assim insisti em  não sair do apartamento, nem para comprar leite e queijo fresco, nem para descer ao andar térreo para pagar à dona do imóvel a taxa de limpeza das escadas  que eu lhe devia. Apenas aumentei a regulagem do aquecimento no quarto e  tirei a blusa do pijama. Encurtei ao máximo a conversa telefônica com os meus pais e me segurei para não telefonar a um amigo chamado Amnon, que estava  envolvido com sua tese de doutorado no departamento de física na Universidade de Tel Aviv, para esclarecer com ele alguns tópicos obscuros do livro  de Hawking, que, apesar do seu estilo fácil e do leve toque de humor inglês, utiliza conceitos da física extremamente complicados sem esclarecê-los de antemão. Com o entardecer comecei a ter várias ideias próprias e bonitas acerca do  destino do universo, cujo futuro—encolher de volta até se tornar uma partícula de raio zero e densidade infinita, como extremo oposto ao Big Bang—ocupava à mente de Hawking, apesar de ele não conseguir elaborar uma teoria clara  e convincente sobre o assunto. O telefone se recusava a tocar, mas evitei telefonar a ela e me desvalorizar diante deles como se eu precisasse daquela consulta mais do que eles precisavam de mim. Liguei o aquecedor de água no banheiro, mas ainda hesitei em entrar no chuveiro, com medo de que o telefone  tocasse e eu não ouvisse. Ao ver que o dia chegava ao fim e já era quase noite,  desisti até do barbear diário. Fora um dia de descanso corporal completo e de  óbvio prazer espiritual; agora, ao sentar-me para comer o jantar que tinha preparado, senti que conseguira superar, tanto do ponto de vista lógico quanto  emocional, a questão dos buracos negros de Hawking, cuja face precocemente  envelhecida na contracapa do livro inspirava a crença na capacidade de compreensão de qualquer ser humano inteligente. Só quando anoiteceu, após o noticiário das nove na televisão, e a tristeza já envolvia a minha alma, decidi  ligar diretamente para a avó e me apresentar.
Ela não só me reconheceu de imediato, como revelou que, da mesma  forma que eu, passara o dia sentada, vestida e pronta no seu apartamento, esperando o meu telefonema, pois a mulher de Lazar tinha entendido que eu anotara o endereço e o telefone da mãe para entrar em contato e combinar com ela  própria a hora da consulta conveniente para todos nós. Embora elas tivessem se  falado durante o dia, a mulher de Lazar não a deixara me ligar, presumindo que  eu era uma pessoa inteiramente confiável e que, se não telefonasse, era sinal de  que não tinha conseguido tempo livre. "Sinto muito, sinto muito", repeti várias  vezes ao telefone para a velha senhora, que rejeitou com firmeza qualquer  manifestação de culpa da minha parte, aborrecendo-se apenas com o erro da  filha. "O principal é: quando podemos nos encontrar?", interrompi com entusiasmo as desculpas da velhinha, como se estivéssemos falando de um encontro romântico e não de uma consulta médica.
"Quando você quiser", gargalhou ela, "não tenho nenhum outro compromisso amoroso."
"Amanhã de manhã?", sugeri.  "Sim, amanhã de manhã está ótimo", concordou, "e também amanhã à  tarde, a qualquer hora que seja conveniente para você, até mesmo hoje à noite,  se quiser."
"Hoje à noite?", admirei-me. "Mas já é tarde."  "Não, não é", respondeu a velhinha. "Veja, o noticiário só acabou agora, e  a programação ainda vai longe."
Hesitei por um instante, depois concordei.  "Só preciso de um tempinho para me organizar", pedi. "Agora são vinte  para as dez, posso chegar aí às dez e meia."
"Você vai me encontrar mesmo se chegar mais tarde", tranquilizou-me  com seu fino humor, "e nesse meio tempo vou telefonar para Dorit, talvez ela  também queira vir."
"Sim, é bom que ela também esteja", eu disse com fineza e entrei correndo no chuveiro.
Apesar da pressa, só consegui chegar ao apartamento da avó depois das dez  e meia, pois não contava que, durante o dia que desfrutara na cama lendo sobre o universo em expansão, algumas das ruas centrais de Tel Aviv tinham se transformado em verdadeiros lagos; eu não tinha a menor vontade de enfiar a moto  naquelas águas barrentas, nem de molhar o estojo de instrumentos médicos que  meus pais me deram de presente por ocasião da minha formatura. Assim, acorrentei a moto ao poste junto ao ponto de táxi e peguei um que me levou até a  rua Grizim, uma das ruas estreitas ao norte da cidade que, apesar da proximidade com as ruas movimentadas, ainda são sossegadas e têm casas muito bonitas  e confortáveis. A mulher de Lazar ainda não havia chegado. "Ela virá", assegurou a avó, uma verdadeira anciã, mas de corpo esbelto, ao contrário da filha.  Vestia um elegante conjunto de lã cinza e calçava chinelos quentes. O apartamento, muito bem aquecido, estava arrumado com capricho, apesar da mobília antiga. Sobre a mesinha central aguardavam, talvez desde as primeiras horas  do dia, canecas de chá vazias e bandejas de doces e nozes.
"Não vamos esperá-la", determinei. Pedi o questionário médico do asilo,  repleto de perguntas e exigências. Sentei-me à mesa e comecei a interrogá-la  sobre si mesma e sobre as doenças que tivera na infância, para preencher os primeiros dados, que eram mais triviais. Alegrava-me a ideia do exame físico que  ia fazer. Não só porque a anciã me parecia realmente saudável, como afirmara  a secretária de Lazar no dia anterior, e agradável ao tato, mas também porque  examinando seu corpo eu poderia adquirir um conhecimento um pouco mais  íntimo daquele outro corpo, que nascera deste há menos de cinquenta anos.  Receei que Dori, que chegaria a qualquer momento, me demovesse da intenção de realizar um exame apurado, pois talvez achasse que o questionário do  asilo não passava de mera formalidade, partindo da premissa absurda de que,  numa idade avançada, as informações sobre a saúde no passado não tinham  valor nenhum para o futuro. Tirei apressadamente do estojo o medidor de pressão, e antes mesmo que atasse a almofada em torno do seu braço frágil, a avó me  informou, ou melhor, apenas se lembrou de que às vezes tinha sérias crises de  pressão alta, que chegava a mais de vinte, na máxima, e onze na mínima. "Já  veremos." Medi a sua pressão diversas vezes seguidas. A pressão  se alterava a  cada medição, e a média estava um pouco alta. "Você está excitada agora?", perguntei delicadamente. Ela corou, refletiu e respondeu: "Talvez". E na sua face  surgiu um sorriso que possuía algo vago daquele outro sorriso, o automático.  Pedi-lhe que me mostrasse os comprimidos que o professor Levin lhe dera, que ela tinha medo de tomar regularmente porque a deixavam sonolenta e deprimida. De fato, um deles era um poderoso sedativo, utilizado no setor de emergências.
"Talvez eu possa trocar este remédio por algo mais adequado", prometi,  "mas por enquanto você tem que tomar este aqui regularmente. Meio comprimido ou uni quarto é suficiente. O importante é a regularidade." Fui até a cozinha e peguei uma faca grande, para mostrar-lhe como cortar o comprimido em  quatro. Quando eu voltava para a sala, a porta de entrada se abriu, e a mulher  de Lazar entrou embrulhada na sua capa, cabelos molhados da chuva ou do  banho, com o agasalho preto de malha que vestia quando eu fora à casa deles  pela segunda vez. Calçava tênis brancos grosseiros. Estava pálida e sem maquiagem. Quando viu a faca na minha mão, ergueu o dedo para mim e disse num  tom sério e jocoso ao mesmo tempo:
"Espero que você não esteja prestes a operar a minha mãe. Não quero  outro mal-entendido entre nós."
Fiquei lá até perto da meia-noite. Conversamos sobre dores, doenças e  hábitos alimentares. Examinei o seu armário de remédios e sugeri algumas  modificações, anotando-as no receituário que meus pais haviam mandado  imprimir, com o endereço deles em Jerusalém abaixo do meu nome. Depois  pedi que despisse a sua blusa branca de seda, para que eu pudesse auscultar com  o estetoscópio o coração e os pulmões. Dori parecia satisfeita; ajudou-me a tirar  as almofadas espalhadas sobre o sofá e a deitar a mãe confortavelmente para o  exame dos órgãos internos pelo toque abdominal, que fiz questão de realizar.  Sua pele, muito enrugada, tinha perfume de sabonete, e o corpo, numa olhada  superficial, era mais parecido com o de Einat do que com oda mulher de Lazar.  A distribuição de suas pintas era totalmente diferente. Dori, ao meu lado, observava com um sorriso as minhas mãos palpando a barriga da mãe. Estaria ela se  lembrando, como eu, do quarto escuro no mosteiro tailandês em Bodhgaia? Quis perguntar, mas me contive. Encerrado o exame, sentei-me para preencher com toda a responsabilidade os diversos itens do questionário. De modo  geral, o estado de saúde da anciã era bom, mas parecia que o professor Levin a  mantinha num tratamento rígido demais, mais apropriado para casos hospitalares do que para pacientes comuns, que precisavam levar uma vida normal. Ela  sofria ocasionalmente de prisão de ventre. Sugeri-lhe formas de cuidar disso por si mesma e reduzi a dose da medicação. O longo dia de repouso me dera uma  lucidez excepcional e eloquência. Quando era quase meia-noite e o exame terminou, concordei em tomar uma caneca de chá com as duas, para não parecer  que tinha pressa, apesar de Lazar já ter telefonado duas vezes. Será que ele também não conseguia ficar sozinho?
A noite que me esperava lá fora não era a mesma que me tinha trazido. A  claridade nova que irradiava do céu repleto de estrelas fazia brilhar as gotas que  escorriam, uma a uma, no para-brisa. Dori me levou de carro até o poste onde  eu acorrentara a motocicleta, procurando com ligeira ironia o lago de água barrenta onde eu evitara entrar, que nesse ínterim desaparecera nos bueiros da rua.  "Para que você precisa de uma moto?" A pergunta, por algum motivo, pareceu-me pessoal demais, e senti que não poderia dar uma resposta satisfatória.  Manifestei minha admiração pela sua mãe e perguntei o que pretendia fazer  com o apartamento, se tinha intenção de vender.
"Não", respondeu a mulher de Lazar, que guiava devagar, sem se importar com os outros carros, "no começo vamos apenas alugar, para sempre deixar  uma alternativa caso a experiência no lar de idosos não dê certo."
"Já encontraram algum inquilino?", perguntei baixinho.  "Não", respondeu sacudindo o cansaço da sua bela cabeça, "até o momento nem chegamos a pensar nisso."
"Eu pergunto", continuei, sem deixá-la ir embora, "porque estou interessado em alugar um apartamento como esse."
Ela me lançou um olhar rápido que continha, digamos, uma leve suspeita acerca das minhas intenções.
"Quanto você paga atualmente de aluguel?", interessou-se em saber.  Eu disse.  "Não está caro, de jeito nenhum", afirmou. E tinha razão: o aluguel que  eu pagava era barato. Fixou o olhar em mim. Notei um pouquinho de gordura  tomando forma sob o queixo. "Vamos pedir mais pelo apartamento da minha  mãe", advertiu.
"Não faz mal", respondi tranquilamente, com os olhos fixos na estrada,  como se o motorista fosse eu. "Não só porque vai ser um prazer ter você como  locadora, mas também, quem sabe, talvez eu me case em breve e haja alguém  para me ajudar a fazer frente a um aluguel mais alto."
Então vi, pela primeira vez, desaparecer completamente o sorriso de seus  olhos arregalados, e seu rosto corou um pouco sob a luz dos faróis. "Você vai se  casar?", perguntou baixinho, como se o casamento fosse inconcebível no meu  caso.
"Não exatamente, pelo menos por enquanto", respondi com um sorriso  misterioso, cheio de amor e afeto por ela. "Quer dizer, por enquanto não tenho  nem mesmo alguém em vista, mas sinto que ela está predestinada, mesmo que  nem saiba ainda que eu existo. O poder da minha vontade acabará atraindo-a  para mim."

3.
   
 
Porém, apesar de tudo, como se concretiza o casamento? Por que haveriam  de querer duas criaturas distintas atar-se uma à outra por uma corrente, ainda que  extremamente fina e delicada? Seria o mistério—que assedia na calada da noite  uma aluna apaixonada, de uniforme azul-claro com o distintivo bordado sobre o  coração, debruçada sobre livros e cadernos junto à mesa da cozinha até encontrar  uma cama vazia—o que turva o discernimento de ambas e ata uma à outra, de  modo a se tornar servo delas, escravo espontâneo que busca assumir responsabilidade por algo que talvez seja maior que suas forças?
Pois ei-las descendo o rio com grande serenidade, a corrente oculta, atando-as sob a superfície da água, sendo coberta lentamente pela ferrugem, como uma  película. E também quando sobem para a verde margem e começam a capturar,  compenetradas, sementes e bichos invisíveis—ainda agora seu passo livre e natural dissimula a distância fixa entre ambas, mantida rigidamente por aquele que  tirou seus óculos de metal rachados e sentou-se com os olhos cerrados sobre um  pequeno monte de feno ao lado do rio, exibindo seu peito nu ao sol morno e primaveril.
Saberão elas também bater asas? E quem cuidará para que também nas  alturas não consigam se separar? O casal aproxima-se de nós; uma criatura séria estica em nossa direção um pescoço longo, preto e reluzente; e um olhar de um  único olho, que jamais saberemos se é masculino ou feminino, nos dilacera. E  antes que nos seja dada a resposta que esperamos, um bico grande e forte como  uma espada crava-se no peito frágil do mistério exposto ao sol morno e primaveril, e quatro asas grandes e cinzentas abrem-se em toda a sua extensão, e num  bater rápido e cadenciado alçam voo para as alturas, rasgando em pedaços o que  quer que as tenha atado aqui.
"Então consegui", disse a mim mesmo pilotando de volta para casa, cortando a noite límpida com o rugido da moto contaminada pela minha excitação; "consegui jogar mais um fio para essa mulher", e se o laço realmente se  fechasse, tão cedo não se desfaria. Se eu fosse inquilino do apartamento, a ligação entre nós não dependeria apenas de assuntos médicos ocasionais, nem de  encontros casuais no hospital, tampouco dependeria da vontade ou da presença de Lazar; seria uma ligação baseada num claro contrato legal, que provavelmente ela própria redigiria e que conteria não apenas pagamentos, promissórias e depósitos, mas também tópicos como correspondência regular, taxas  municipais, aquecedor elétrico quebrado, vazamentos, talvez reclamações de  vizinhos, caso algum dia eu resolvesse dar uma festa animada para meus amigos. Em suma, uma ligação nova e independente, que alteraria as lembranças  da viagem à Índia e seus desdobramentos cada vez mais frágeis. Por uma ligação dessas valia a pena pagar um aluguel mais alto, tirando o rendimento complementar de plantões noturnos em ambulatórios, como nos tempos de estudante. Afinal, a partir de agora eu teria mais tempo, pois o entusiasmo e a  dedicação que me ligavam a Hishin e ao seu departamento não se repetiriam  no setor de medicina interna, se é que o professor Levin concordaria em me  receber depois de se recuperar de sua misteriosa doença.
Mas concordaria ela em me alugar o apartamento depois do que eu disse?  Se estivesse pensando na frase agora, com certeza estaria confusa, e eu duvidava  que ela corresse a contar o fato a Lazar, que provavelmente a esperava acordado  em sua cama. Era difícil imaginar que, depois de lhe explicar por que se atrasara para voltar, descrever o meticuloso exame médico que eu fizera em sua mãe  e acrescentar com um sorriso misterioso "Escute, já temos até um inquilino para o apartamento da mamãe e não vamos precisar botar anúncio nem correr atrás  de ninguém", ela ainda estaria disposta a repetir palavra por palavra o que eu lhe  dissera antes de nos despedirmos. Mesmo não havendo nenhum segredo entre  ela e ele, nem sequer em relação a assuntos obscuros e ambíguos como aquele  sobre o qual eu lhe falara há pouco, era inconcebível que Lazar, amando-a tanto,  ficasse deitado, enrolado como um imenso feto debaixo do cobertor, e simplesmente olhasse com seus olhos sonolentos o corpo dela nu, branco e volumoso,  cujos contornos belos e maduros já estavam um pouco deformados, como as promessas de uma escultura que ainda precisaria ser burilada. Não, ele se levantaria um pouco, desarrumando ainda mais a roupa de cama, como eu o vira fazer  na primeira noite em Nova Delhi quando espiei para dentro do quarto deles, e  exclamaria admirado: "É mesmo? Ele gostou do apartamento? Tanto assim?  Quer alugar mesmo? Eu acho que isso não passa de uma tentativa de continuar  mantendo contato comigo, pelo mesmo motivo por que ele se ofereceu para examinar sua mãe. Ele acha que eu posso influenciar Hishin a mudar de opinião. Tem a impressão de que eu sou o todo-poderoso do hospital; mal sabe ele que,  mesmo se eu pudesse fazer alguma coisa, jamais misturaria assuntos profissionais e pessoais, exatamente para manter o meu poder sobre questões mais importantes". Ela soltaria os cabelos tirando os grampos, colocaria os óculos sobre a  mesinha de cabeceira, enfiaria a cabeça pela camisola estampada de flores amarelas, se sentaria para passar creme nas pernas compridas e nuas, friccionando  levemente os pés descalços. E no seu íntimo rejeitaria a interpretação do marido, sentindo que era ela que eu tinha em mente, apenas ela; e em meio ao assombro que a inundava talvez se formasse também uma pequena onda de compaixão por mim, como se agora fosse capaz de entender que algo havia confundido  a minha razão durante a viagem à índia. E assim optaria por calar-se e não contar ao marido nada do que fora dito entre nós. Deixaria que ele continuasse deitado sob as cobertas até seus olhos cansados se transformarem em duas pequenas fagulhas; aguçaria os ouvidos para escutar Einat, que, ainda arrastando os  restos da sua hepatite, tinha acordado e entrado na cozinha. E então deslizaria  para o lado do marido, cutucando-o de leve e dizendo: "Espere, espere um  pouco, não durma já, me abrace um pouquinho, me aqueça". E apoiaria seus  pequeninos pés gelados na barriga quente dele.
Mas eu estava satisfeito comigo e com o primeiro sinal claro que conseguira passar para aquela mulher sobre os sentimentos que me preenchiam. E apesar de saber que tudo aquilo era um absurdo impossível e que, mesmo se houvesse alguma possibilidade, não levaria a nada, eu me recusava a esmagar a  paixão com as minhas próprias mãos; queria que aquela mulher, que surgira  após longos anos de desolação emocional, de ausência de paixão, esmagasse ela  própria, se possível conscientemente, a minha paixão com tanta eficiência  quanto apagava seus longos cigarros, os quais Lazar encarava com animosidade, às vezes com irritação. Disse a mim mesmo que precisava insistir e alugar o  apartamento de qualquer jeito. E uma vez que, após o meu dia de profundo descanso, não conseguia dormir, e olhando pela janela concluí que a chuva não  voltaria, não pude me conter: vesti o casaco de couro, botei o capacete e subi na  moto, que me conduziu vagarosamente até a rua e o prédio do apartamento onde eu já me via morando. Na escuridão, examinei as características do bairro, se havia lojas, se era fácil achar algum abrigo para moto entre as colunas do  prédio. Tudo que vi me agradou, inclusive a distância não muito grande do  apartamento até o mar, que percorri em alguns minutos; desci na moto até a  praia e fiquei um bom tempo diante das ondas que se quebravam com entusiasmo, ainda fiéis à tempestade, que tinha desaparecido.
A partir daí tiveram início dias de incerteza. No departamento de pessoal  do hospital, eu estava registrado como funcionário em férias; mas na verdade  estava esperando que o professor Levin se recuperasse de uma doença cuja  natureza de repente se tornara suspeita. A secretária do departamento e as  enfermeiras respondiam ao telefone com evasivas. Resolvi ir ao hospital e almoçar no refeitório dos funcionários, na esperança de cruzar com alguém da equipe de medicina interna que me desse informações mais claras. Pensei primeiro  em ir até o departamento cirúrgico e retirar das prateleiras de roupa lavada o  avental com o meu nome bordado, antes que ele sumisse, como costumava  acontecer com os pertences pessoais naquele hospital. Mas desisti, porque não  queria deparar com Hishin ou com qualquer outro médico, pois certamente me faria perguntas acerca de um futuro ainda pouco claro sobre o qual, portanto, eu não tinha condições de dar qualquer resposta que impusesse algum respeito aos seus olhos. Por isso, entrei no refeitório sem o avental, vestindo meu  casaco de couro preto, com o capacete na mão. Imediatamente distingui Hishin e os médicos e enfermeiras do departamento, sentados, já tendo terminado a refeição, fumando e discutindo com gestos largos. Dei um jeito para que  não me vissem e levei a bandeja para o canto oposto, onde procurei algum rosto  conhecido de médico ou enfermeira do departamento do professor Levin. Mas  lá não havia nenhum médico internista conhecido. Encontrei lugar numa  mesa pequena, onde ainda estavam os restos da refeição do ocupante anterior,  e pela primeira vez senti uma ligeira náusea devida ao cheiro hospitalar da  comida à minha frente. O refeitório, que eu sempre tinha considerado um refúgio agradável, parecia-me agora, após os recentes dias de tranquilidade que desfrutara no meu apartamento, feio e barulhento. Deixei a maior parte da comida no prato, saboreei devagar apenas o pudim cor-de-rosa, que eu adorava. De  repente senti uma mão no meu ombro, e antes mesmo de virar a cabeça adivinhei, pelo toque, que era o próprio Hishin. Lá estava ele à minha frente, com a  equipe inteira, inclusive o velho anestesista, o dr. Nakash, todos com as roupas  verdes da sala de operação. Pareciam satisfeitos, dando a impressão de que acabavam de concluir com êxito uma cirurgia complicada. "O que é que há com  você? Está nos boicotando?", perguntou Hishin em voz baixa, curvando-se e  fixando em mim seus olhos cheios de simpatia e solidariedade. Antes que eu respondesse, acrescentou com genuína tristeza: "Não é justo que você fique zangado com o resto do pessoal por minha causa. Eles não têm culpa". Então compreendi que fora um erro afastar-me deles e sentar-me sozinho.
"E você tem culpa?", decidi adotar um tom surpreso de mágoa e indignação. "Você está totalmente enganado. Não tenho nenhuma queixa. Veja, a tal  viagem à Índia, que você me pressionou a fazer quando eu hesitava em aceitar,  afinal foi maravilhosa. E também tenho certeza de que a medicina interna vai  ser melhor para mim. Por que haveria de ficar zangado sabendo que você quer  o melhor para mim?", acrescentei, retribuindo o seu olhar. Minhas palavras o  deixaram confuso: apesar do tom grave e sincero do meu discurso,  ele estava  certo de que havia ali uma ironia oculta que era incapaz de captar. Seu olhar  vagou em torno, procurando ler nas expressões da equipe o verdadeiro sentido  do que eu dissera, mas todos ficaram quietos, constrangidos com ele. E aí relaxou, querendo se convencer de que eu falara seriamente; pousou de novo a mão  leve no meu ombro, fez um meneio e se foi, levando todos atrás de si, exceto o  anestesista, Nakash, que queria conversar comigo. Ele tinha cerca de sessenta e cinco anos, era magro, com ossos largos, e seus cabelos brancos contornando  a careca contrastavam simpaticamente com o tom escuro da pele do rosto. Na  Índia eu vira muitos homens que me fizeram recordá-lo e despertaram-me uma  simpatia por ele mesmo a distância. Hishin o respeitava e preferia trabalhar com  ele, embora não pertencesse aos quadros mais tradicionais do hospital. "Nakash  nem sempre entende o que se passa na operação", costumava comentar por trás  dele, "mas está sempre alerta, mesmo em cirurgias que duram dez horas. E isso  é o que importa. Pois o enfermo se entrega não às mãos do cirurgião, e sim às  mãos do anestesista."
Nakash me perguntou quando eu começaria a trabalhar no departamento de medicina interna. Contei que estava esperando a recuperação do professor Levin. "Ele ainda não saiu de lá?", perguntou Nakash surpreso.
"De onde?", perguntei. E Nakash me revelou com naturalidade o segredo  que até agora todos tinham conseguido esconder de mim.
"Fazem uma limpeza na cabeça dele", disse com seu jeito simples e direto, "e ele sai novinho em folha, até ter outra depressão, e aí se interna outra vez.  O que é que ele pode fazer? Os pacientes o deixam deprimido, e ele não pode  cortá-los com uma faca como Hishin." Depois perguntou se eu estaria interessado em trabalhar num hospital privado como seu assistente nas operações para  as quais era chamado. Nos últimos tempos haviam aumentado as exigências de  assistente junto ao anestesista. A remuneração seria apenas por horas de trabalho, sem adicionais ou horas extras, mas o pagamento por hora era alto, bem  definido e livre de impostos.
"Mas eu não tenho treinamento como anestesista", argumentei.  Segundo ele, os fundamentos da anestesia não eram coisa do outro  mundo, o lado técnico era simples e fácil de aprender; o mais importante era  não abandonar o paciente, concentrar-se também na sua alma e não só na sua  respiração. Enquanto o cirurgião e sua equipe se concentram, durante a operação, apenas numa pequena parte do enfermo, o anestesista é o único que pensa  nele como um ser inteiro, e não como um conjunto de partes. O anestesista é o  verdadeiro médico internista, por mais que o cirurgião remexa as entranhas  mais profundas do paciente. "E você", disse Nakash encerrando sua pequena  palestra, que me surpreendeu pela clareza e a eloquência exibidas, "quer se  dedicar à medicina interna."
"Quero? Não exatamente", eu disse com um sorriso amargo, "mas não  tenho alternativa."
"Pensei que você estava sendo sincero quando disse há pouco que Hishin  tinha acertado na sua decisão. Acredite, Benjy, já deparei com muitos cirurgiões na minha vida. Ninguém os conhece como eu. E eu lhe digo: vi um pouco  do seu trabalho, e isso não é para você. O seu bisturi hesita, porque você pensa  demais. Não porque não tem prática, mas porque é responsável demais. E não  se pode ser responsável demais em cirurgia, porque assim a operação não progride e não se faz nada. É preciso correr riscos; para cortar um homem e ainda  lhe dizer que é bom para a saúde, é preciso ter um pouco de charlatão e um  pouco de jogador. Veja Hishin, por exemplo—que aliás também faz operações  particulares de vez em quando, e você poderá ficar novamente ao lado dele na  sala de cirurgia, se de fato tiver tanta saudade." A oferta era tão tentadora que  nem pedi tempo para pensar, aceitei na hora. Nakash não ficou surpreso. "Eu  sabia que a sugestão ia lhe agradar, e de qualquer jeito você precisa esperar que  o professor Levin ache um tempo para se sentar com você, examiná-lo sob todos  os aspectos e discutir (já ouvi a história) a transfusão de sangue que você fez na  Índia. Ele é um médico sério, mas difícil de lidar; está sempre tentando deprimir a equipe do seu departamento e, quando não consegue, ele próprio entra  em depressão. Portanto não tenha pressa em cair nas mãos dele." Anotei o  número do seu telefone particular, e ele anotou o meu.
"É um número provisório", adverti, "pois em breve vou me mudar para  outro apartamento."
Na mesma noite informei à dona do imóvel, conforme estabelecido no  contrato, que pretendia me mudar no fim do mês. Ela lamentou profundamente. Considerava-me um bom inquilino, e o fato de eu trabalhar como médico  num hospital parecia dar-lhe segurança, embora jamais me tivesse incomodado com problemas pessoais, apenas com perguntas genéricas sobre medicina.  "Posso saber o motivo?"—ela não se conteve e perguntou.
"Estou precisando de uma mudança", respondi com uma sinceridade da  qual me arrependi ao perceber uma leve sombra de dor na expressão com que  reagiu.
"Mas que mudança?", insistiu, com uma raiva incompreensível.
"Mudança", retruquei, repetindo a palavra que talvez tivesse escolhido  mal, mas de que não podia mais fugir, "mudança, simplesmente." Baixei a cabeça e saí depressa, sem acrescentar nada. À noite contei aos meus pais por telefone a proposta de Nakash e não consegui deixar de revelar a minha intenção de  alugar o apartamento da sogra de Lazar. Ficaram muito preocupados. A ideia  de transformar os Lazar em meus senhorios pareceu-lhes péssima.
"Por que você vai se meter a inquilino de Lazar e complicar as suas relações com ele, depois de ter conquistado a sua confiança na viagem?", perguntou a minha mãe, irada.
"Também serei confiável como inquilino", argumentei, "e, em segundo  lugar, não serei exatamente inquilino dele, e sim da sua mulher."
"Pior ainda", explodiu a minha mãe, agora enfurecida, procurando de  toda maneira me convencer a abandonar a ideia. "Se você quebrar alguma  coisa, ou se exigir dinheiro para consertos, ela vai se queixar de você, e isso certamente vai selar também a sua sorte no hospital. E além disso", acrescentou  com um veneno inesperado, "apesar de ser tão risonha, ela decididamente me  parece uma mulher determinada; é proibido misturar negócios com amizade."
Meu pai também não deixou passar. "Não entendo", começou com sua  voz calma, que encerrava sinais de emoção, "você ainda está esperando um  pagamento pelo que fez por eles na Índia?"
"O quê? De onde você tirou isso?"—foi a minha vez de ficar zangado.  "Vou pagar por esse apartamento um aluguel maior do que estou pagando  agora."
"Vai pagar ainda mais?", questionou meu pai, atônito. "Quanto?"  Quando contei que o valor ainda não estava combinado, as críticas  aumentaram. Então gritei com força: "Por favor, senhoras e senhores, por favor,  meu pai e minha mãe. Já tenho vinte e nove anos. Façam o favor de acreditar  que eu também sei um pouco o que é bom e o que não é bom para mim". Essas  palavras conseguiram fazer que se calassem. Eu não tinha sido justo com eles;  sabia que sempre confiavam em mim, e a sua raiva naquele momento provinha  apenas do fato de eu deixá-los confusos, o que não era meu hábito, ocultando-lhes a verdadeira  razão que me motivava. Fiquei com pena deles. Não sabia  como acalmá-los sem mentir ainda mais. "Estou necessitando um pouco de  mudança", afirmei num tom suave; "por acaso vi o apartamento e gostei. É perto do mar, a rua é boa e tranquila. Vou tomar cuidado para não me complicar com Lazar ou com a mulher. Vocês sabem muito bem que não costumo  arranjar confusão com as pessoas." Eles escutaram com atenção, esforçando-se  para aceitar a minha incompreensível decisão apenas por força do amor e respeito que me devotavam.
"É muito positivo que você esteja querendo mudança", disse finalmente a  minha mãe, "pois está precisando mesmo. Apenas tenha cuidado para que não  seja uma mudança grande demais."
Ao fim de uma semana sem qualquer sinal da mulher de Lazar, pensei com  preocupação se não tinha me precipitado ao anunciar a mudança. Teria ela me  esquecido? Ou, ao contrário, resolvera ter mais cautela comigo? Eu sabia que a  avó já se mudara para o lar de idosos. Eu próprio tinha lhe telefonado para perguntar se a nova dosagem de remédios estava dando certo. Ficou muito comovida com meu telefonema e se alegrou em poder conversar comigo. A sua prisão de ventre crônica tinha melhorado, talvez não só por causa da nova  dosagem, mas também graças à serenidade adquirida no novo lar. Falou do asilo  com admiração, convidou-me para visitá-la e, quem sabe, fazer reservas para  meus pais. "Você já sabe", perguntei, "que vou alugar o seu apartamento?" Ela  não sabia, a filha não havia contado nada. "Se é assim", pensei, "foi bom ter falado com a avó, porque agora vou ter um sinal claro em alguma direção. E se ela  mudou de ideia, ou achou outro inquilino, eu lhe dou de coração o direito de  esmagar a minha paixão." Nesse ínterim, a proprietária do meu apartamento  tinha encontrado um novo casal de moradores para o meu lugar e deixava que entrassem no começo da noite, sem a minha autorização, para tirar algumas  medidas. Uma vez interceptou-me nas escadas e exigiu com frieza que eu antecipasse a data de entrega do imóvel.
A situação era embaraçosa. E se eu fosse jogado na rua em virtude de uma  paixão abstrata e bizarra, que não tinha qualquer sentido ou propósito? Procurei  na lista telefônica o número do escritório dela para perguntar qual era a minha  situação e o que devia esperar. A secretária transferiu a ligação para ela sem perguntar quem estava falando. Ela tirou o telefone do gancho e o segurou enquanto mantinha uma conversa animada com alguém que de repente despertou em mim um leve ciúme. Sua voz estava alta e entusiasmada, cheia de segurança e  confiança. Quando me identifiquei, senti a sua incerteza. "Se é assim", pensei,  "ela já captou uma ou duas centelhas." "Veja só: outro mal-entendido entre  nós", comecei a conversa em tom de brincadeira, "e por causa disso vou ficar a  semana que vem no meio da rua com todas as minhas coisas." Senti que ela  ficou aliviada: agora não precisava mais hesitar entre deixar-me ou não usar o  apartamento como meio de conquistá-la. Descrevi a situação em que estava  metido, e isso a forçou não só a me aceitar como inquilino, mas também a se  desculpar por não ter me ligado antes.
"O apartamento ainda não está pronto para ser alugado. Ficaram muitas  coisas com que ainda não decidimos o que fazer".
"Não faz mal", eu a tranquilizei, "vocês podem deixar as coisas, não tenho  necessidade de muito espaço." Combinamos nos encontrar no apartamento  terça-feira à tarde, quando o seu escritório estaria fechado, para ver o que era  preciso tirar e o que poderia permanecer, e também para acertar as outras condições. Ao colocar o telefone no gancho, perguntei-me se ela levaria Lazar ou  iria sozinha.
Ela me esperava sozinha no apartamento. E pensei, com enorme estupefação, se por minha causa ela tinha conseguido superar o medo de estar só.  Ainda não sabia que sua incapacidade de ficar só relacionava-se apenas ao lugar  onde estava sua cama, e a nenhum outro. Do lado de fora da porta, ouvi uma  leve música clássica misturada ao som agradável da água correndo de uma torneira aberta. Bati à porta duas vezes, duas batidas leves e iguais, pois não queria  tumultuar o ambiente Com o ruído desagradável da campainha, de que me lembrava da outra vez que estivera ali. Ela abriu a porta sóbria e séria, nos seus saltos altos; um cinto vermelho enorme projetava um reflexo brilhante sobre ela.  As mãos estavam cobertas de sabão. "Você atrapalhou minha vida", queixou-se  com a face levemente corada. "Agora tenho que ajeitar aqui um monte de coisas, para deixar o apartamento em ordem para você." Seu tom direto e agressivo me assustou, eu não estava preparado para tanto. Até seus olhos, que não  tinham sorrido, pareceram-me duros atrás dos óculos.
"Mas o que é que há para ajeitar?", comecei gaguejando como um bobo,  tentando me defender e também desconsiderar a sua queixa, enquanto entrava  timidamente no apartamento. Logo percebi mudanças, apesar das poucas horas que passara examinando a avó. O apartamento ainda parecia limpo e  arrumado, mas não tinha mais o brilho e o ambiente acolhedor daquela noite,  removidos talvez junto com as toalhas bordadas de cima das mesinhas ao lado  do sofá e os vasos de cristal e de prata de trás do vidro das cristaleiras de madeira escura, ou talvez junto com os grandes retratos de família que cobriam as  paredes. A cortina estava aberta, e pela janela se viam apenas os telhados das  casas, entre os quais não se vislumbrava sequer uma pequena nesga de mar. A  proximidade da praia, que tanto havia me alegrado naquela noite, não dava o  menor sinal de existência na vista que se descortinava. Apesar disso o apartamento continuou me agradando após o rápido olhar à minha volta, pois percebi, pela claridade interior, como os raios do sol se filtravam em grãos dourados  que o adocicavam. Sobre o mármore branco da cozinha, viam-se objetos finos  de vidro enfileirados, cobertos com uma coroa de espuma de sabão. A possibilidade de que ela os estivesse lavando para mim, e não para guardá-los, tocou as  profundezas do meu coração. Por um momento, fez-se um silêncio constrangedor. Meus olhos tomaram cuidado para não se fixar demais nas suas longas  pernas, cobertas por meias de seda cor de mel. Ela ainda me parecia nervosa,  talvez um tanto humilhada por ter sido forçada a lavar louça.
"Pensávamos que tínhamos arrumado tudo", disse, "mas ainda sobrou  muita coisa."
"Quanto tempo a sua mãe morou neste apartamento?", perguntei com um  interesse amigável.
"Não muito tempo. Sete anos. Desde que meu pai faleceu. Mas ela adorava este apartamento. E cuidava muito bem dele. Que pena, ela podia ficar aqui  mais alguns anos. Ainda não me acostumei com o fato de ela não estar mais  morando aqui. Foi por isso que não tive pressa em entrar em contato com você.  Tinha esperança de que ela se arrependesse e voltasse. E de repente você me  obriga a lhe dar o apartamento agora." A surpreendente notícia de que, no  fundo, ela havia cedido à minha exigência despertou em mim uma onda de prazer tão forte e inesperada que me obrigou a baixar a cabeça e fechar os olhos.  Ela interpretou minha atitude como mostra de que eu ficara ofendido e se  apressou em vestir os olhos com seu sorriso automático.
"Se a sua mãe se arrepender e resolver voltar, desocuparei o apartamento,  imediatamente", eu disse em tom galante, numa tentativa de me tornar um  inquilino desejável. Mas ela fez que não com a cabeça.
"Não é preciso. Não se preocupe. Por enquanto ela está feliz ali."  Não pude me conter: "Eu sei, ela me disse". E contei a conversa telefônica que eu tivera com a mãe por minha iniciativa. Ela escutou meu relato. Um  sorriso agradável se desenhou nos seus lábios, mas seus olhos mantinham um  olhar fixo, duro e cheio de suspeita, como se quisessem medir com exatidão o  grau de perigo contido na minha determinação de invadir sua vida.
Nesse meio tempo o apartamento foi escurecendo, os grãos de ouro perderam o brilho, transformando-se em formas enigmáticas inscritas num fundo  escuro e amarelado. Ela sentou-se ao meu lado no sofá e cruzou as pernas. A  gordurinha sob o seu queixo ficou mais evidente. De uma pasta de cartolina  amarfanhada, onde havia contas de telefone, gás e eletricidade, tirou uma folha  de papel com algumas palavras anotadas e disse, desanimada: "Temos que fazer  um inventário deste apartamento para o nosso contrato, e não sei por onde  começar. Nunca alugamos um apartamento para estranhos. Há gente que  anota tudo, inclusive armários embutidos, pias, mas você não pretende tirar  móveis daqui e vendê-los, certo? Nem desmontar o lavatório ou a pia, certo?".  Ela falava sem humor, com desanimo, e eu concordava seriamente com movimentos de cabeça. Estava hipnotizado pela rapidez com que a sala escurecia.  "Então vamos anotar apenas as coisas realmente importantes", sugeriu, "o tapete e as louças mais valiosas, e um ou dois quadros. E vamos anotar os números  do relógio de eletricidade, e pedir a relação detalhada das ligações telefônicas,  assim estaremos mais ou menos cobertos. Com relação às roupas e pertences  de mamãe que vão ficar aqui—você tem certeza de que não se incomoda? Pelo  menos venha ver se o lugar que liberamos é suficiente para você." Levantou-se  do sofá e, para minha surpresa, não acendeu nenhuma luz no apartamento, que  ficava mais escuro a cada momento, não só porque a luz do dia lá fora estava  enfraquecendo, mas também porque a penumbra tomava conta do interior.  Entre a cozinha e o banheiro, do lugar onde ficavam as vassouras e utensílios de  limpeza, jorrava o tempo todo uma penumbra nova, produzida ali dentro, que  se espalhava para dentro dos dois quartos. Ao segui-la até o dormitório da avó,  percebi que os objetos de vidro, cujas coroas de espuma tinham se desmanchado,  irradiavam sobre o mármore um brilho avermelhado: a janela sobre a pia  ficava exatamente na direção do sol poente, talvez por intenção precisa do  arquiteto, desejoso de agradar uma vez ao dia à dona-de-casa ocupada em lavar  os pratos. Eu quis chamar a sua atenção para essa minha pequena e original descoberta, mas ela já estava ao lado da cama de casal da avó, coberta por uma colcha vermelha e almofadas estufadas com estampas floridas. Escancarou as portas dos dois armários vazios, para me mostrar o espaço que estava à minha  disposição. Depois, com ar resignado, mostrou-me também os dois armários  cheios. Num deles havia conjuntos cinza pendurados, todos parecidos; no  outro, como num sonho conhecido, vi-me diante de dezenas de caixas brancas  de sapato, que certamente continham pertences variados.
"Aquele espaço basta", sussurrei por trás das suas costas largas, para acalmá-la um pouco.
"Não se preocupe, vamos acabar esvaziando tudo. Mas dê-nos um tempo  para respirar", disse com voz rouca, lançando de novo seu olhar hostil de suspeita, que não me intimidava—ao contrário, despertava o meu desejo a ponto  de meu membro começar a endurecer. Se eu conseguisse agora prender sua  atenção com alguma lembrança comum da nossa viagem à Índia, pensei  depressa, poderia aliviar um pouco a atmosfera pesada. Mas meu desejo me deixou paralisado. Só então compreendi que a penumbra que ela insistia em manter no apartamento a deixava mais bonita. Eu não via mais as gorduras no pescoço, nem as rugas em torno dos olhos; até sua barriguinha tinha sumido,  restando apenas o contorno de uma mulher rechonchuda e madura. "Quem  sabe se ela não quer me seduzir?", perguntei a mim mesmo ao vê-la voltar para  a sala, onde uma luminosidade nova e súbita, proveniente dos raios que atravessavam uma delicada nuvem, procurava combater a escuridão. "Agora temos de  conversar sobre o valor do aluguel", suspirou; largou-se pesadamente no sofá,  esticando uma longa perna sobre a outra, enquanto o combate feroz entre a luz  e as trevas desenhava sobre ambas finos arabescos coloridos. Então, pensei preocupado, de toda aquela paixão maluca só ia restar um aluguel caro e injusto,  determinado por uma proprietária inexperiente. "Quanto você pensou em  pagar?", perguntou de surpresa.
"Eu?", dei risada. "Nem pensei em quanto ia pagar. Mas não se preocupe,  você me avisou que o aluguel seria mais alto do que o que estou pagando agora."
"Sim", sorriu para si mesma, satisfeita. "Já avisei você. Mas esqueci quanto você paga."
Eu disse quanto pagava de aluguel. Ela se lembrou e ficou um pouco desapontada; mergulhou em reflexões, o rosto desaparecendo aos poucos na nova escuridão que vinha do dormitório da avó e se espalhava, engolfando a penumbra da sala. "Se aumentarmos só dez por cento esse valor, você acha justo?", perguntou com sua voz clara, sempre cheia de determinação natural. "Eu ainda  me sinto culpada por você e Lazar terem combinado que você não receberia  nada pela viagem à índia."
"Mas eu recebi sim", retruquei com amargura, mas sentindo-me também  alegre, pois temia um aluguel muito mais alto. "A viagem em si e conhecer  vocês. E este apartamento também é resultado da viagem, e com um aluguel  muito razoável. E até mesmo uma proprietária maravilhosa como você", acrescentei num sussurro. Ela não respondeu; recolheu-se para a proteção das trevas  que fazia tanta questão de manter à nossa volta, talvez para um momento embaraçoso como aquele. Eu também não sabia o que fazer a não ser deixar que o momento penetrasse na alma dela como uma espécie de aviso meu, semelhante ao aviso que ela me dera ao calcular o aluguel, que no final ficara só dez por  cento mais caro. Não ousei acrescentar mais nada para deixar claros os meus  sentimentos; sabia apenas que, no silêncio que agora reinava na sala, dissolvia-se aos poucos, e pela primeira vez, a tensão resultante da nossa diferença de  idade; e o fato de ela ser sete anos mais nova que a minha mãe e dez anos mais  nova que meu pai, tendo uma filha apenas quatro anos mais nova que eu—esse  fato parecia perder toda a força.
Esse também poderia ser o significado de Uma breve história do tempo,  refleti quando ela finalmente se levantou e foi acender a luz da cozinha, para a  sala não ficar iluminada demais. Sem olhar para mim, sem sorrir, informou que  iria preparar no escritório, no dia seguinte e ou depois, um contrato-padrão de  aluguel. Anotou o número da minha carteira de identidade na sua caderneta e  pediu que meus pais fossem os fiadores. Combinamos que eu telefonaria para  definir a data da assinatura do contrato e do recebimento da chave. E nesse ínterim, prometeu, sua empregada viria arrumar o apartamento para a minha entrada. "Por acaso você sabe onde fica o registro geral da água do apartamento?",  perguntei já na porta, sentindo um leve tremor de ansiedade por deixá-la ali sozinha. Ela tentou se lembrar, foi procurar debaixo da pia, depois no banheiro, mas não achou o registro, que, como em todos os apartamentos antigos,  encontrava-se em algum lugar inusitado.
"Vou perguntar a minha mãe, talvez ela saiba; senão, Lazar certamente vai  achar", e seus olhos brilharam com o sorriso automático. Assim nos separamos,  sem que eu conseguisse amarrar mais um fio, exceto a palavra "maravilhosa"  que ali permaneceu com ela; e eu teria unicamente a força dessa palavra para  segurar a mulher até o nosso próximo encontro. Eu já sabia com clareza, preparando-me no meu íntimo enquanto a moto percorria devagar a ruidosa noite  hibernal de Tel Aviv, que no próximo encontro eu seria obrigado a revelar meus  sentimentos, a minha paixão, verdadeira e impossível. Mas sabia que deveria  revelar só depois de assinar o contrato, pois de outra maneira corria o risco de  ficar também sem onde morar. Portanto, ainda que a minha senhoria continuasse me pressionando para deixar o antigo apartamento, não tive pressa em  telefonar à minha amada. "Desta vez não vou facilitar as coisas", decidi. "E se  ela quiser anular tudo que está começando entre nós, pode fazê-lo com a maior  facilidade. Basta pedir à secretária que me convoque para ir até o escritório na  sua ausência, assinar o contrato e pegar a chave. Se ela não quiser nenhum contato direto comigo, e se enxerga a minha paixão como algo ridículo e dispensável, basta me afastar, ou enviar Lazar como intermediário, sob o pretexto de que  apenas ele pode me mostrar onde fica o registro geral de água do apartamento."
Alguns dias depois recebi um telefonema dela. Com cordialidade renovada, livre da hostilidade com que me recebera no último encontro, perguntou-me como eu estava, como desfrutava as minhas férias forçadas, pois sabia pelo  marido que o professor Levin ainda não tinha se recuperado da depressão. "Se  soubéssemos", ouvi uma risada alegre ao telefone, "que você teria que ficar chupando o dedo esse tempo todo, teríamos deixado que ficasse passeando na Índia.  Afinal, por nossa causa, você nem visitou o Taj Mahal."
"Pois é", respondi animado, feliz porque enfim voltava a ser mencionada  a viagem à Índia, que parecia ter desaparecido das nossas relações, transformando-se numa recordação comum. "Por causa da eficiência do seu marido, essa  viagem foi rápida como um sonho. E é pena, porque sei que jamais vou voltar  para lá."
"Não diga isso", retrucou, "como você pode saber? Você ainda é tão  jovem."
Não respondi. Não era hora de entrar numa conversa sobre a minha juventude, pois eu acreditava que a questão da diferença de idade tinha se dissolvido  sozinha por força do silêncio que tomara conta da escuridão da sala, depois que  eu jogara aos seus pés, de forma educada porém clara, a palavra "maravilhosa".  Eu sentia que essa palavra ainda continuava exercendo poder sobre ela, pois  perguntou, num tom de voz que encerrava uma ansiedade desconhecida, se eu  tinha pressa em ocupar o apartamento ou se poderia esperar até a próxima terça-feira, quando os escritórios de advocacia estão fechados, porque queria assinar  o contrato no próprio apartamento, não só para me mostrar onde ficava o registro que me interessava, mas também para explicar como funcionavam o fogão  e o forno de micro-ondas, e para examinarmos juntos a lista dos objetos que a  mãe tinha preparado nesse meio tempo; então poderíamos assinar o contrato  como seres civilizados. Pois ninguém sabia melhor do que ela que os negócios  entre amigos são exatamente os que geram interpretações errôneas.
"A sua mãe também vai estar lá no apartamento?", perguntei com um leve  temor no coração.
"Se você quiser que ela também esteja, para lhe explicar melhor como os  aparelhos funcionam, posso dar um jeito de levá-la comigo", respondeu com  naturalidade e frieza.
"Não, não", apressei-me em afastar a ideia, receando como soaria minha  voz, "para que carregá-la até lá? Também não será muito agradável para ela ver  o apartamento todo revirado."
Embora a sugestão de assinar o contrato no próprio apartamento viesse  dela, eu tinha certeza de que nada aconteceria entre nós. Era uma mulher  madura e prática, objeto do amor e da admiração do marido, e aparentemente  também de outros homens. Mesmo que lhe desse prazer pensar que atraía um  homem mais jovem, não lhe passava pela cabeça confundir essa atração com  paixão de verdade, pois quem já se satisfez com a mesa farta do amor esquece a  ávida fome da paixão. Tampouco havia dúvida de que, apesar dos sorrisos encorajadores que ela dava para sua imagem refletida no espelho, tinha plena consciência das gorduras em volta da cintura, da barriga redonda e bem tratada,  impossível de esconder. E não escapavam de seus olhos as profundas dobras no  pescoço, e a pele flácida que se revelava no seu rosto quando a maquiagem se  desmanchava. Apesar de ainda ter alguma satisfação com suas pernas longas e  elegantes, não seria capaz de entender por que um homem jovem e bem-apessoado como eu, em plena flor da idade, haveria de se apaixonar por ela. Como  poderia imaginar que era exatamente sua fraqueza oculta, revelada ingenuamente pelo marido, que despertava em mim interesse e desejo? Eu precisava  me preparar para o encontro, que de repente me pareceu armado pelo destino.  Vesti a camisa xadrez que usara no dia da transfusão de sangue em Varanassi;  apesar de ser uma camisa simples e de estar desbotada por muitas lavagens, eu  esperava que trouxesse, ainda que apenas ao seu subconsciente, a lembrança  daquela hora misteriosa, em que controlara o fluxo de sangue entre as duas mulheres. Talvez essa, dentre todas as nossas lembranças comuns, conquistasse para mim um pouco do seu afeto, depois de eu terminar a minha confissão,  que só poderia ser, como direi, tola e humilhante.
No entanto eu estava decidido a me livrar daquele fardo; só esperava que,  como da outra vez, o apartamento ficasse imerso na penumbra dourada da luz  crepuscular, capaz de suavizar com a melancolia natural do fim do dia tudo  aquilo que é ridículo e grotesco do ponto de vista humano.  Mas no começo da  tarde o céu escureceu e uma chuva forte banhou a cidade. A luz do crepúsculo seria contemplada apenas pelos passageiros que voavam sobre as nuvens  rumo ao ocidente, e eu teria que gaguejar as minhas palavras sob a luz plena de  uma lâmpada. Mesmo assim não mudei de ideia; porém, ao bater à porta, rezei  para que Lazar também estivesse ali para protegê-la, e talvez também para me  proteger da minha esperada humilhação. Atrás da porta só havia o silêncio. Ela  ainda não tinha chegado, com medo de ficar sozinha. Após alguns minutos,  ouviram-se passos nas escadas. Será que eu também já estava começando a  identificar os passos dela ao longe, como seu marido? Era mesmo ela, atrasada; sozinha, mas segura de si e da sua capacidade de lidar comigo. Seu rosto estava  coberto por uma maquiagem pesada. As roupas não eram nem um pouco  atraentes; ao contrário, faziam que parecesse mais baixa e desajeitada. Calçava  galochas pretas de cano alto e vestia o mesmo agasalho de veludo preto cujas  mangas não conseguira erguer quando eu lhe aplicara as vacinas. Estava ágil e compenetrada, nem um pouco hostil como da vez anterior. "Que bom que  você chegou cedo", sorriu abrindo a porta de entrada. Percebi que não estava  mais aflita com a minha pressa: parecia satisfeita com o inquilino calmo e cordato que havia se apresentado a ela.
"Lazar não vem?", perguntei.  "Não, está muito ocupado hoje", respondeu afastando uma mala vazia que  atravancava o corredor que conduzia ao quarto. "Mas ele esteve aqui ontem e  insistiu que nós esvaziássemos outro armário para você ter mais conforto. Venha  ver quanta coisa fizemos por você." Abriu a porta do armário para mostrar que  Lazar conseguira, com extrema habilidade, fazer desaparecerem todas as caixas brancas de sapatos. Mas não deixaram que eu tocasse nos conjuntos cinzentos da sogra, guardados no outro armário.
"Vocês não precisavam ter feito tanto esforço", eu disse em tom cordial, "o  espaço é mais que suficiente."
"Agora é suficiente", determinou com firmeza a mulher de Lazar. "Mas  sabe lá você o que será no futuro?"—acendeu o sorriso no olhar, pensando talvez no casamento que eu mencionara. Levou-me até a cozinha para mostrar  alguns aparelhos elétricos antigos, tirados das profundezas dos armários e dispostos sobre a bancada de mármore, cobertos por capas coloridas e alegres.  Quando tentou me explicar como funcionavam, de acordo com as anotações  que a avó tinha deixado, percebi que se atrapalhava. Quando começou a apertar os botões, a sua falta de prática de mulher mimada tocou meu coração, e procurei impedir que continuasse, colocando a minha mão sobre a sua mãozinha  pequena e cheia de sardas.
"Tudo bem", tranquilizei-a, "eu me arranjo sozinho. E se houver problemas posso telefonar direto para a sua mãe e esclarecer eu mesmo." Fomos para  a sala, examinar juntos a lista detalhada que a avó insistira em fazer à mão, com  letra grande mas difícil de decifrar, e verificar se as palavras relacionadas tinham  efetivamente um correspondente físico real. Depois, li em voz baixa o contrato  de aluguel, repleto de advertências e ameaças ao locatário. "Talvez", procurei  me acalmar, "seja o contrato-padrão utilizado pelo escritório." Tudo estava  pronto, faltariam só as assinaturas de meus pais na cláusula de fiança, as quais  ela concordou em esperar uma semana. Assinei as duas vias do contrato e, atendendo ao seu pedido, preenchi uma dúzia de cheques pré-datados para os doze meses seguintes, para não precisarmos ficar nos incomodando mutuamente  com encontros adicionais para pagamento. Ela guardou os cheques na bolsa  sem verificar, tirou duas chaves do apartamento e colocou-as sobre a mesa.  Agora estava relaxada e em paz consigo mesma. Pegou um cigarro fino, lançou  um olhar gentil na minha direção e perguntou:
"Esquecemos alguma coisa ou terminamos?"  Para mim não poderia haver palavras mais precisas e adequadas para introduzir a minha confissão de amor, que eu estivera remoendo por alguns dias.  Sem hesitar ou gaguejar, apenas baixando ligeiramente a cabeça para não  enfrentar os seus olhos, comecei a falar, confiante e seguro, com aquela mulher  pouco mais nova que a minha mãe. "Eu sei que o que vou dizer agora vai parecer absurdo para você, porque também é estranho e absurdo para mim, mas  mesmo assim é verdade. E se você já percebeu, é melhor que saiba o que é realmente, e me diga o que fazer. Porque desde que voltamos da Índia, eu fico  dando voltas em torno de você, tentando amarrá-la a mim por meio de fios finos  e delicados, que arrebentam o tempo todo. E mesmo que não faça nada para  me estimular, você também não recusa os fios que consigo atar para prendê-la,  como por exemplo este apartamento, que na realidade aluguei sem motivo  algum, só para ter mais um fio me atando a você, para não perdê-la de vez." Não  ergui a cabeça para olhar para ela, pois temia que um leve sorriso nos seus olhos  quebrasse a fluência do meu discurso, cujo tom me parecia correto, masculino  mas comovente. "Pois eu lhe digo, não sei o que me aconteceu", prossegui de  cabeça baixa, "na última noite no hotel em Roma, depois que Lazar viajou,  meu coração se derreteu por você, contra qualquer lógica, uma surpresa total,  porque eu nunca me apaixonei por uma mulher mais velha. Sim, você está  ouvindo direito. Eu sinto paixão por você. E antes que você proteste contra essa  palavra, saiba que eu também não a aceito, e fico o tempo todo tentando tirá-la  da minha cabeça, mas mesmo que eu consiga tirar a palavra, a paixão não vai  desaparecer, e ela ocupa meus pensamentos o dia inteiro. Eu me pergunto se  devo lutar contra ela para apagá-la e anulá-la de vez. Quer dizer, será que é uma  paixão inaceitável, como a de um homem adulto por uma menina pequena?"  De repente me calei, não pude continuar falando, pela excitação de ter conseguido me desvencilhar do peso que vinha carregando no coração por muitos dias; também não pude mais ficar de cabeça baixa com os olhos fixos no tapete, cujas bordas notei que estavam um pouco rasgadas—talvez fosse preciso  anotar isso no contrato; aos poucos fui fixando um olhar cheio de angústia  naquela mulher, que havia se encolhido no canto do sofá como uma bola macia  de veludo preto, o sorriso automático tendo desaparecido completamente de  seus olhos, e que, num gesto que eu não conhecia nela, pressionava o punho  fechado contra a boca. Nesse gesto não havia espanto nem sarcasmo, apenas  uma profunda atenção, que me incentivou a prosseguir. "Eu me pergunto se  você e Lazar pretendiam que eu os acompanhasse na viagem à Índia como  médico, ou se no íntimo tinham a expectativa de que eu me apaixonasse pela  sua Einati, como às vezes acontece em filmes ingleses cheios de boas intenções.  Só que a realidade é um filme diferente, inacreditável, e em vez de me apaixonar pela jovem doente que vocês me deram, apaixonei-me pela mãe dela; não  que eu estivesse procurando uma mãe adicional—a que eu tenho é ótima, perfeita e suficiente. Portanto, Dori, por favor, não tente me explicar a minha psicologia ferrada. Talvez ela seja ferrada, mas não aqui. Aqui existe uma coisa  completamente diferente, que eu chamo, me perdoe, de mistério. Sim, mistério, uma palavra à qual sempre me opus e à qual agora me encontro aprisionado.  E veja só, o meu coração sabia o que ia me acontecer, porque no instante  em que ouvi que você também viajaria conosco, eu me senti tão oprimido que  pensei em desistir da viagem. Muitas e muitas vezes perguntei a Lazar por que  você insistia em vir junto e que necessidade havia na sua viagem. No fim ele me  revelou a sua estranha fraqueza: que você (é assim que ele define você) é uma  mulher que não consegue ficar sozinha. Alguma coisa deve amedrontá-la terrivelmente a ponto de não poder ficar sozinha. E esse pequeno segredo, que além  de tudo é rid fado e sem sentido, despertou em mim compaixão por você, compaixão que agora se transformou num desejo intenso e profundo."
Talvez fosse o momento de me levantar e ir embora, deixando-a em bom  estado de espírito, com amizade, saudando-a com as duas mãos diante do rosto.  Afinal eu não esperava nada dela, exceto o contrato assinado e as chaves na  minha mão. No apartamento onde estávamos, eu era o dono da casa e ela a convidada, e não se pode ir embora e abandonar um convidado à sua própria sorte.  Fiquei petrificado no lugar, escutando a chuva batendo nas telhas lá fora, e o  forte vento tentando inutilmente assustar a chuva. Ela permanecia calada.  Estava atordoada, ou tinha se preparado para uma confissão dessas? Talvez estivesse surpresa mesmo tendo se preparado. Pois continuava encolhida no canto  do sofá, o punho ainda apertado contra a boca como se quisesse defendê-la de  uma desgraça imediata e inexorável. Sua face rechonchuda fervia de tensão,  mas atrás das lentes dos óculos seus olhos irradiavam serenidade, senão profunda satisfação. Enfim um sorriso radiante rompeu as barreiras da sua resistência;  ela afastou o punho da boca, fez um aceno delicado, como se usa com um aluno  bonzinho ou com um bichinho de estimação, e sussurrou: "Venha cá". Levantei-me e cheguei aflito ao canto do sofá. Não esperei para saber o que ela queria, pois sabia o que eu queria. Curvei-me na direção dela, agarrei-a pelos  ombros e puxei-a para mim. Apesar de ser a mulher mais pesada que abracei na  vida, levantei-a com facilidade. E disse a mim mesmo "só não vacile mais". Sem  pedir permissão, no mesmo movimento com que a ergui para mim, comecei a  passar os meus lábios na sua testa, nas bochechas, nos lábios, e a afagar seu pescoço macio e gordinho. Ela respirava mais intensamente, debatendo-se, tentando me afastar, querendo dizer alguma coisa. Eu não a deixei falar: encostei  à força minha boca na sua, aspirando o cheiro suave do cigarro que fumara há  pouco, e dei-lhe um beijo longo e caloroso, ávido, até sentir sua mão puxando os meus cabelos. "Isso não está certo", murmurou, procurando me afastar delicadamente, "isso está errado, é uma bobagem." Tudo que fiz foi abraçá-la ainda  mais forte, pois sabia que, se o contato corporal fosse rompido, o encanto se quebraria. Até o momento nada havia acontecido, e eu devia ousar tocar o corpo  dela, colher dele algumas recordações para os dias calmos e monótonos que  estavam por vir. Devia agarrar seus seios, sabia que eram maiores e mais pesados do que todos os outros que eu tocara até então. Com desesperada e infantil  teimosia, tentei levantar a blusa preta do seu agasalho de veludo, excitado com  a ideia de um novo encontro, mais profundo dessa vez, com o mapa de pintas  espalhadas pelos seus ombros e braços. Minha mão, por impulso próprio, já  tinha ido adiante, buscando o primeiro contato com a barriga, sua deliciosa e  gorducha barriga, que muitas e muitas vezes eu a vira procurando esconder.  Quando a toquei, fui inundado por unta sensação aguda de prazer e satisfação.  Entre os meus dedos senti a radiação de uma almofada de calor natural, que  durante muitos anos procurei para encostar minha testa ou minhas bochechas  e derreter o bloco de gelo que se acumula dentro de mim.
Como sinal de gratidão, decidi facilitar as coisas para que ela se entregasse  a mim. Apesar de ter sido ela quem me chamara para si, como cavalheiro de verdade, cabia-me conceder-lhe a vantagem decisiva da amada sobre o amante.  Soltei-a e, num movimento rápido como um raio, tirei os meus sapatos e as  meias, para ficar mais baixo; despi depressa minhas roupas, todas elas, e, indiferente ao frio, antes que ela tivesse tempo de protestar, fiquei em pé à sua frente,  nu como nasci, como um homem prestes a entrar num rio amado. Queria que  ela me visse como eu era, que percebesse que eu não tinha vergonha dela, para  que decidisse se o meu amor e meu desejo a mereciam. Embora ela estivesse  atônita com a visão do corpo jovem e desconhecido de um homem estranho se  oferecendo, vi que não tinha desaparecido o sorriso de seus olhos, seus olhos  que lentamente amoleciam, revelando o desejo que começava a dominá-la.  Mas ela depressa ergueu a mão num gesto áspero e nervoso, indicando-me que  parasse. "Aqui não, aqui não!", disse enfaticamente, dirigindo-se devagar para o  quarto da mãe. Ali afastou distraída o meu capacete preto, que eu esquecera  sobre a cama quando verificáramos juntos os armários. E aí, imersa em reflexões, voltou-se e olhou para o apaixonado teimoso que caminhava nu atrás dela.  Temerosa de que eu tentasse tirar suas roupas, novamente ergueu a mão num  gesto que ainda continha um pouco de raiva. "Não, não precisa, você não."  Sentou-se na cama e, com lentidão e dificuldade, descalçou suas galochas de  cano alto, que não conseguiram protegê-la do meu desejo tempestuoso.  Hesitante, sem jeito, desabotoou alguns botões ocultos  do seu inconfundível  agasalho, enfiou a cabeça pela abertura estreita, saindo do outro lado corada,  descabelada e cheia de profunda vergonha, como se a minha súbita nudez não  lhe deixasse opção. Mas numa espécie de estranha obediência de boa esposa e  dona de casa, tirou o sutiã e a calcinha e deitou-se na cama, apoiando a cabeça  no travesseiro ainda coberto com a fronha florida da avó. Agora estava deitada à  minha frente como as mulheres nuas gordas recostadas ao lado de cestas de frutas nas reproduções escuras dos livros de arte. Ao contrário delas, porém, não  lançou para mim um olhar indiferente ou submisso, mas perturbado, raivoso.  Como se eu fosse um animal novo e inexperiente, ergueu novamente a mão  para me advertir: "Ouça bem, sem mordidas e sem arranhões". Fiz que sim com a cabeça, cheio de amor; ajoelhei-me ao lado da cama e, para começar, beijei  seu pé pequeno e gordinho, onde descobri uma pinta parecida com a que tinha  no rosto. Percebi que esses beijos preliminares lhe agradaram demais, mas, por  causa da minha extrema excitação, eu corria o risco de gozar sem fazer gozar;  então me contive e levantei-me para tirar os seus óculos num gesto ágil. Deitei-me sobre ela com cuidado, sentindo de repente um frio em cada membro que  tocava, com exceção da barriga gorducha e bem tratada, que continuava irradiando seu fluxo de calor, como se tivesse uma fonte calorífica exclusiva. E voltei a beijá-la na boca, e nos grandes seios, e deitei a minha testa, o meu rosto na  curva da sua barriga. Eu ainda não imaginava por que ela se entregara a mim  com tanta facilidade, mas de repente me pareceu que estava perdendo a  paciência com os meus jogos de amor. Uma mão firme agarrou o meu membro, conduzindo-o a um local não menos fervente.
Era a quarta mulher com quem eu ia para a cama, mas foi a primeira que  conseguiu me dar a sensação especial de estar conduzindo um grande e silencioso veleiro para dentro de um ancoradouro estreito de águas profundas. Ao  contrário das outras, não me assustou com súbitos gritos e profundos gemidos:  nenhum som saiu da sua boca durante toda a relação; até mesmo a sua respiração se manteve tranquila e silenciosa, como se a surpresa com sua aquiescência bloqueasse qualquer vontade de atingir um prazer mais intenso. E revelou-me que era a primeira vez na vida que traía o seu Lazar. Viu-se obrigada a me  contar isso logo que se libertou dos meus braços e se levantou para vestir-se  apressadamente. Eu acreditei, e junto com o orgulho que preencheu meu coração senti também tristeza pelo que tinha lhe acontecido. Para provar que ela  sempre poderia confiar em mim, não fui procurar as minhas roupas, espalhadas no tapete da sala; continuei nu, sentado na cama numa posição oriental.
"Você é como aquele piloto alemão maluco, que roubou um aviãozinho leve,  penetrou em território russo enganando todos os radares e aterrissou na praça  Vermelha, em Moscou", disse com um sorriso de leve ressentimento, arrumando os cabelos despenteados para prendê-los de novo num coque. "Não entendo como conseguiu penetrar no território íntimo de uma vida conjugal estabelecida." "Será que ela quer realmente uma resposta?", pensei enquanto enfiava  a cabeça entre os ombros e permanecia quieto, pois receava emitir qualquer  palavra que pudesse ser interpretada como agressão dissimulada à vida conjugal dela com Lazar, cuja beleza eu observara na intimidade durante a nossa viagem e cujo segredo eu quisera desvendar tocando o seu corpo. Suas pernas longas e elegantes calçaram as botas de chuva, e quando de súbito o telefone tocou,  disse em tom casual, sem um pingo de ansiedade: "Com certeza é Lazar".  Correu para atender no outro quarto, mas não fechou a porta atrás de si. Simplesmente falou em voz baixa. Eu não tinha a menor vontade de escutar a conversa, insistia em permanecer no canto da cama sozinho e nu, como um  homem santo recostado contra a parede de um templo. Fiquei observando a  penumbra que se espalhava pelo dormitório da avó, que a essa hora talvez estivesse tomando a sua xícara de chá no lar de idosos, sem imaginar o que acabara de acontecer na sua cama. Ela voltou com passos rápidos, já de casaco e  maquiada. "Não era Lazar", disse com ar muito sério, "era uma amiga da minha  mãe. Você tem que estar preparado para receber telefonemas como este e dar o  número de telefone do asilo. Afinal, você já sabe de tudo."
"O que vai ser de nós?", pergunto ansioso, sentindo repentinamente não  existir aqui uma corrente dourada e pesada, apenas um fio tênue, pronto a se  romper a qualquer momento.
"Nada, não vai haver nada entre nós", responde ela, séria. "Esqueça isso.  Foi circunstancial. Você sabe muito bem que é loucura para mim. Isso não tem  futuro. Você pode se permitir, pois ainda é livre—mas eu não. Você é solteiro,  e um solteiro é muito mais perigoso que qualquer homem casado."
Fico calado, pois sinto que tudo que ela diz não tem força nenhuma; se fui  eu que comecei, só eu posso terminar. Mas meu coração se parte de dor por ela,  e não me contenho, estendo a mão; ela hesita por um momento, pensando que  meu desejo novamente tomou conta de mim, depois cede e pega minha mão.  "Você está surpresa com a minha paixão?", pergunto. Ela reflete um instante, e  sua cabeça se inclina um pouco num movimento charmoso.
"Sim, é esquisita e dispensável. Mesmo que às vezes aconteça com pessoas  à minha volta. Mas você é mesmo muito jovem, para que precisa de uma  mulher como eu? Diga: você não está com frio?"
"Um pouco, mas não quero vestir a roupa e perder o cheiro do corpo que  estava comigo."
Ela enrubesce, mas o sorriso não abandona seus olhos. Aproxima-se de  mim e num movimento suave beija meus olhos e acaricia meus cabelos. "Se o telefone tocar agora, você não é obrigado a atender. Mas se atender e for Lazar,  diga que saí faz tempo, e tenha cuidado de não me denunciar, pois aí será ruim para todos nós."
Quando ela se foi, imediatamente comecei a sentir saudades, e sem vontade nenhuma me levantei da cama vazia. Na penumbra do apartamento fui  procurar as minhas roupas, que tinham ficado jogadas sobre o tapete. Descobri,  para minha alegria, entre os telhados e as antenas horríveis, uma estreita faixa  azulada de mar, que eu já tinha desistido de avistar dali. O perfume ainda permanecia nas minhas mãos, e a  cada instante eu as aproximava do rosto para  cheirá-las. O telefone tocou, e eu sabia que era Lazar procurando a esposa.  Disse a mim mesmo: "O que é que há? Você está com medo de quê?". Levantei  o telefone e a voz me soou próxima e concreta, como se estivesse do outro lado  da parede. "Ela já foi", apressei-me em dizer, mesmo antes de ouvir a pergunta.
"Então vocês acabaram de fazer tudo que precisava ser feito?", perguntou.  "Parece que sim", hesitei, não querendo que pensasse que dali em diante  poderiam me esquecer.
"E o registro geral de água que você estava procurando? Ela conseguiu lhe  mostrar? Ou acabou esquecendo?"
"No fim ela acabou esquecendo", respondi com um leve suspiro, achando  graça junto com ele da distração da mulher. Ele me explicou onde o registro  ficava, escondido num lugar pouco provável. De súbito fui tomado de ansiedade. Com a mão que estava livre, a que não segurava o aparelho, comecei a me  vestir depressa, como se ele pudesse ver a minha nudez através do telefone. Do  outro lado da parede, no apartamento vizinho, ouvi nítido barulho de passos, e  um tremor passou pelo meu corpo, como se o seu espírito estivesse me assombrando e espiando de perto, enquanto a voz distraía a minha atenção. Fui tomado de medo e pesar pelo que tinha feito a ele, e quis desligar logo o telefone. Mas  Lazar estava amigável, e pela sua sensibilidade humana natural percebeu o  meu constrangimento recente e quis me acalmar.
"Diga a verdade", ousou perguntar, "você está zangado comigo?"  "Zangado?", a palavra escapou da minha boca. "Por que haveria de estar?"  "Sei lá. Talvez você pense que eu podia convencer Hishin a mantê-lo no  departamento cirúrgico. Mas, acredite, estou proibido de me meter nesses  assuntos, não tenho poder nenhum, acredite, nenhum."
"Eu sei, tem razão", respondi depressa para tranquilizá-lo, "e jamais fiquei  zangado com você, ao contrário."
Mas Lazar não sossegou. "Além disso, amanhã você vai se reunir com o  professor Levin, e talvez ele concorde em lhe dar a vaga temporária na medicina interna."
"Amanhã vou me reunir com Levin?", perguntei atônito. "Ele já se restabeleceu?"
Agora foi Lazar quem ficou admirado. "Como assim? Dori não lhe contou? Eu pedi a ela que lhe comunicasse que você tem uma hora com ele amanhã de manhã. Isso ela também esqueceu? O que é que está acontecendo com  ela hoje?"

4.
    
 
E após terem destroçado e pulverizado tudo que os unia, os componentes do  casal apressam-se em separar-se um do outro, e no movimento selvagem de uma  seta disparada por um poderoso arco cada um deles é arremessado nas profundezas do vazio resplandecente, para recuperar de uma vez a liberdade pessoal que  lhe foi roubada e provar que sempre foi digno dela. E jamais essa liberdade foi tão  preciosa como agora, envolta em lufadas de ar fresco que afagam as plumas de  suas asas e os conduzem delicadamente para o lugar onde cada um almeja ficar  sozinho consigo próprio, e para tanto está preparado a correr perigo e abandonar  a atávica trajetória, definida pelas chamas de dinossauros voadores, e desistir da  segurança e do calor dos bandos migratórios cruzando os oceanos segundo códigos antigos e confirmados, e permitir que os ventos aleatórios o carreguem a um  lugar onde jamais seria encontrado pelo outro de quem conseguira finalmente se  separar.
Sim, de tempo em tempo ele precisa recuperar forças junto a um rio ou  campo amarelado, mergulhar o bico em águas frescas, e com pequenos passos percorre um círculo imaginário em torno do parceiro que existia e não existe mais,  desfrutando a sua absoluta ausência. Porém ainda o seu olho esverdeado, que não  se pode saber se é de macho ou de fêmea, examina as redondezas próximas e calmas, verificando se não há ali alguém que queira lhe causar surpresa. Mas não  há surpresa, somente um camponês caminhando pesadamente entre os sulcos do  arado, carregando nas costas um longo cano de irrigação, e uma menina com uniforme escolar, carregando nas costas uma grande mochila colegial, voltando para  casa por uma trilha de terra. E mesmo que uma pequena cobra tente surpreendê-lo no capim rasteiro, será rapidamente devorada pelo bico ágil, desaparecendo  como se nunca houvesse existido.
E assim ele continua vagando, pousando vez ou outra no telhado de uma  casa ou no alto de um poste de luz, enfiando a cabeça num perfumado torrão para  fisgar uma minhoca vermelha ou um trêmulo inseto, mas seus olhos estão o tempo  inteiro atentos à sua volta, para ver se alguém, que já foi parte de sua alma, está  batendo as asas na linha do horizonte. Porque ainda não crê que a solidão lhe  tenha sido realmente devolvida e que a sua liberdade morta tenha ressuscitado. E  portanto, com o cair do dia, a despeito do peso que sente nas asas, ele é forçado a  subir novamente ao céu no intuito de encontrar um vento leste que o carregue para  o deserto, pois só ali, acredita, será possível encontrar um verdadeiro refúgio.  Percorre a linha do crepúsculo a baixa altura, deslizando suavemente no vazio  pálido que aos poucos vai se manchando de vermelho com o cair do sol. Com a  força da vontade, a mesma que usou para romper o mistério que o unia a seu par,  ele prossegue voando longas horas na absoluta escuridão, onde se sente ocasionalmente o bafo quente de um predador. Até que no meio da noite, exausto pela distância e satisfeito de si, ele se permite enfim pousar em meio à folhagem de uma  árvore ou arbusto no coração da planície, para submergir de forma total e apaixonada na liberdade que lhe foi plenamente devolvida. Mas de imediato entende  também que o faiscar que o recebe na folhagem não é um vaga-lume nem o brilho  de um caco de vidro quebrado—é o olho arregalado de seu par, que tentou também fugir o dia inteiro, com o mistério ao seu encalço.
Mesmo depois de terminada a conversa com Lazar, e recolocado o fone no  gancho, não consegui me livrar do susto. Sentia ter penetrado não apenas na  intimidade da mulher, mas também na do próprio marido, o senhor enérgico  que eu sabia estar profundamente ligado a ela. E também fui tomado pela certeza de que aquilo que acabara de acontecer entre nós, ainda que ela se esforçasse por considerar um episódio isolado sem qualquer possibilidade de continuação, não me libertaria dela como ocorre num encontro casual; ao contrário, tornaria ainda mais profunda a minha atração. Minhas pernas já me puxavam, semi vestido, de volta ao quarto de dormir, para me atirar avidamente na  cama dos amantes, que naquele momento se transformava na minha própria  cama , e imaginar de novo meu rosto mergulhado no poderoso calor da barriga  branca e firme da mulher que eu não conseguia esquecer. Puxei sobre a cabeça a colcha rosada que a avó deixara para mim, e na escuridão absoluta pensei  com pesar que o meu casamento, tão esperado pelos meus pais e também por  mim, ficava cada vez mais distante. Quando despertei, algumas horas depois, e  me lembrei do que havia conquistado, meu coração inundou-se de felicidade.  Meti no bolso os dois pares de chaves do apartamento e saí, pois não conseguia  conter dentro de mim aquela sensação de maravilha e queria compartilhá-la com a realidade externa, que se transformara numa noite vazia e molhada. Subi  na moto, circulei um pouco pelas ruas vizinhas, depois tomei o rumo do meu  apartamento antigo para passar o resto da noite. Foi bom ter voltado, porque na  manhã seguinte, logo cedo, telefonaram do departamento de medicina interna convocando-me com urgência para uma reunião com o professor Levin.  Teriam Lazar e Hishin, devido ao sentimento de culpa, pressionado Levin para  se apressar em marcar a reunião? Ou quem sabe a transfusão de sangue que eu  fizera continuava a incomodá-lo e agora, recuperado, ele queria apresentar-me  pessoalmente suas objeções? Pedi que a reunião fosse marcada em torno do  meio-dia, com a intenção de passar algum tempo na biblioteca do hospital e ler  com cuidado todo o material sobre hepatite arquivado no computador. Também procurei o artigo do próprio Levin, cuja leitura me fora recomendada antes  da viagem à Índia e que Hishin esquecera de me trazer; porém, esse material  não se encontrava na biblioteca, talvez Hishin ainda não o tivesse devolvido.  Apesar de tudo que li naquela manhã, eu não tinha a mínima ideia da direção de onde viria o ataque de Levin. Escrevi numa folha, com letra clara, os valores  exatos dos resultados dos exames de sangue feitos no laboratório de Calcutá;  apesar do tempo decorrido, eu ainda me recordava dos valores com exatidão.  Se quisesse, poderia agravar um pouco mais os resultados para justificar-me  ainda melhor, mas essa atitude era tão estranha ao meu modo de ser que afastei  a ideia no instante em que surgiu. Por volta do meio-dia, equipado com conhecimentos frescos, entrei na sala de Levin, que parecia menor e mais sombria que  a de Hishin, talvez porque estivesse cheia de livros e papéis espalhados.  Surpreendeu-me o ar amigável com que me recebeu, apressando-se em trancar  a porta à chave para que não fôssemos incomodados. Empurrou sua cadeira  para a frente da escrivaninha, aproximando-se de onde eu estava sentado, como  se não pretendesse apenas conversar comigo, e sim realizar um exame interno  com as próprias mãos.
"Eu entendo, doutor Rubin", começou falando em tom calmo e muito  vagaroso, tanto que ponderei se ainda estaria sob o efeito de medicamentos psiquiátricos, talvez anafranil, ou se esse era seu jeito normal de falar, "que temos  uma paciente em comum."
"Paciente em comum?", repeti estarrecido, até que de repente me lembrei. "É claro, a avó."
"A avó?", foi a sua vez de ficar confuso.  "Desculpe", corei intensamente, "pelo jeito estou falando como a senhora Lazar; é que ontem mesmo assinamos o contrato de aluguel do apartamento  da mãe dela", e dei uma risada rápida, sem graça, aparentemente desnecessária aos olhos dele, pois não riu comigo. Aliás, nem sorriu; ao contrário, observou-me com mais curiosidade e preocupação, como se eu o tivesse surpreendido com algum lado prático e sagaz da minha personalidade para o qual ele não  estava preparado.
"Em todo caso", prosseguiu, "esta manhã conversei com ela a seu respeito, e parece que de forma geral ela está satisfeita com o seu serviço, mas ficou  um pouco inquieta com a alteração da dosagem dos remédios que eu prescrevi, por isso pediu o meu consentimento. Mesmo sem ter entendido direito o que  você quis modificar, tranquilizei-a dizendo: 'Se a nova dosagem prescrita pelo  doutor Rubin der certo, todos ficaremos contentes. E se não fizer diferença, não  vai ser o fim do mundo—principalmente porque ele não tem intenção de fazer  nenhuma transfusão de sangue repentina, não é preciso ficar com medo. Todos  aqui dizem que ele é um médico perspicaz e sensível, e inclusive vou ter um  encontro com ele hoje para ver se ele pode entrar no meu departamento'." Um  sorriso desenhou-se no seu rosto sofrido, tornando sua expressão um pouco  mais leve. Assenti sorrindo também, ignorando a insinuação sarcástica sobre a  transfusão de sangue, uma vez que estava ansioso por explicar logo qual havia sido a minha intenção com as mudanças feitas na dosagem dos medicamentos  da avó. Mas percebi que ele não estava interessado em escutar as minhas opiniões sobre os remédios, e sim desejoso de entrar direto no assunto que me trouxera, ou seja, examinar a minha candidatura ao posto temporário no seu departamento. Antes de tudo, para minha surpresa, perguntou sobre meu período de  estudos médicos em Jerusalém, em especial sobre o primeiro ano preparatório;  chegou a anotar numa folha de papel alguns detalhes dos cursos que eu frequentara nas matérias mais genéricas, como ciências naturais, química e física.  Depois pediu esclarecimentos sobre detalhes pequenos e precisos da minha experiência como médico no exército. E finalmente me interrogou sobre a experiência adquirida no último ano como residente no hospital, seja na sala de operações, seja no departamento cirúrgico como um todo. E insistiu em saber  como eu explicava a opção de Hishin pelo segundo interno, e não por mim.  Consegui responder a todas as suas perguntas não só com exatidão, mas de  forma aberta e honesta. Apenas tomei cuidado, driblando algumas tentativas suas de fazer-me escorregar, para não falar mal de Hishin, pois sabia que eram  amigos, apesar da competição entre ambos. Fiquei feliz em constatar que ele  parecia satisfeito por eu não acusar ninguém. Omiti a proposta de trabalho na  clínica privada feita pelo dr. Nakash, porque não queria despertar nele o receio  de que pudesse haver algo para distrair a minha atenção. Quando suas perguntas chegaram ao fim, ele cruzou as mãos sobre o peito e mergulhou num silêncio longo e profundo. Por um momento ergueu para mim os grandes olhos  azuis, querendo dizer algo, mas desistiu e baixou a cabeça, pressionando fortemente a testa com os dedos, como se ainda estivesse se debatendo com alguma  coisa. Percebi que hesitava, e quem sabe até estivesse constrangido, em abordar  o assunto da transfusão de sangue,  talvez porque não quisesse estragar para si  mesmo a impressão positiva a meu respeito; e sobretudo porque eu viera recomendado pelo diretor administrativo, que fechava os olhos para as licenças por  motivos psiquiátricos de que ele necessitava de vez em quando. E aí fui tomado  de uma compaixão não muito clara por aquele homem angustiado e infeliz, da  mesma idade de Hishin mas muito mais envelhecido e acabado. Tive vontade  de facilitar as coisas e permitir-lhe tirar o peso do coração; mesmo que tentasse  me atacar, me daria a oportunidade de defender e justificar o meu procedimento, o qual, após as consultas que fizera na biblioteca pela manhã, parecia-me agora absolutamente genial pela sua simplicidade. Quando ele estava prestes a  se levantar e se despedir, tomei a iniciativa, falando em tom gentil, muito seguro de mim.
"Contaram-me, professor Levin, que existe uma crítica da sua parte à  transfusão que fiz na filha de Lazar durante a viagem à Índia; eu gostaria muito,  se o senhor estiver disposto e tiver um pouco mais de tempo, de lhe dar uma  explicação sobre o que fiz." Eu captara exatamente o que ainda o estava incomodando. Primeiro ele corou, depois se recompôs, ergueu a cabeça, descruzou  os braços, seus olhos se acenderam de perplexidade pela minha iniciativa e  coragem, e ele começou a falar com entusiasmo renovado.
"Para dizer a verdade, doutor Rubin, pensei em ficar quieto e não mencionar o fato, mas já que você quer conversar sobre o assunto, estou mesmo curioso para saber como poderá justificar aquela infeliz transfusão, que não só era  totalmente dispensável, mas também irresponsável, perigosa."
Eu não esperava um ataque tão rápido e contundente, mas resolvi manter  a cabeça fria e respondi com calma:
"Mas por que não fazer a transfusão? Havia perigo real de uma hemorragia interna. Em menos de vinte e quatro horas ela teve três sangramentos fortes  pelo nariz. Os resultados dos exames das funções hepáticas também não eram  nada animadores. Mas um momento, desculpe, alguém chegou a lhe mostrar  os dados numéricos?"
"Pasme, doutor Rubin, nesse caso os dados numéricos não são importantes", retrucou, num tom quase ameaçador, "mas é claro que estou a par, ai estão  eles." Com um gesto rápido, tirou do bolso da camisa um pedaço de papel  dobrado e abriu-o na minha frente. Meu coração bateu forte ao ver o papel indiano cinzento, com o timbre estampado, que eu trouxera de Calcutá e não  sabia como tinha sumido. Então ficou claro que Lazar ou a mulher fizera-o chegar às mãos dos eminentes doutores, com o objetivo de verificar, nas minhas  costas, se o meu pânico em Varanassi era justificável.
"Por que os dados não são importantes?" Eu perdera a tranquilidade, sentindo que o ataque poderia ser desfechado de uma direção inesperada. "Afinal,  são valores elevados, indicadores de lesão no fígado, as transaminases subiram  para mais de cento e oitenta e cento e cinquenta e oito, e é claro que os fatores  de coagulação também foram atingidos por esse quadro. Isso sem falar na bilirrubina, que chegou a trinta. Então por que não dar à pobre moça um pequeno  reforço de plasma saudável e seguro, de uma pessoa próxima, como a mãe dela,  para enfrentar a hemorragia iminente? O fato é que, depois da transfusão, os  sangramentos cessaram."
"Eles cessaram sozinhos, não por sua causa", argumentou o professor  Levin acaloradamente. "Os fatores coagulantes, que você julgou estar fornecendo a ela por meio da transfusão, são cadeias de enzimas, não células, e se  comportam de forma totalmente diversa numa transfusão. Elas são absorvidas  e desaparecem sem qualquer resultado efetivo se não forem diluídas num soro  especial para garantir que sua estrutura não se desmanche. Mas isso, meu caro  amigo, nem mesmo os seus excelentes professores em Jerusalém poderiam ter  lhe ensinado, portanto você não podia saber. Não estou culpando você, e sim  Hishin, que já confessou ter esquecido de lhe dar o meu material antes da viagem, um material que preparei especialmente para você, pois esperava uma  complicação dessas com hemorragias. Mas você, doutor Rubin, eu culpo por  ter colocado a mãe em risco com tanta facilidade, pois poderia tê-la contaminado com o vírus da filha. Quando elas me contaram inocentemente como você interrompeu a viagem de volta para Nova Delhi para fazer uma transfusão  lá na cidade dos mortos cujo nome eu nem me lembro, tomei cuidado para não  dizer uma única palavra que pudesse despertar o mesmo medo que tomou  conta de mim ao ouvir a trapalhada que você fez. Por milagre não aconteceu  nada. Às vezes Deus protege o homem de seu médico. Mas mesmo assim me  perguntei: 'Será que esse jovem é simplesmente um idiota que não aprendeu o  bê-á-bá das transfusões, ou será que tem intenções ocultas além da minha compreensão?'. Então, quando me pediram para verificar se poderia recebê-lo para  o cargo temporário que vagou no meu departamento, no início pensei: 'Não,  por favor, qualquer um menos esse médico, não quero nem ouvir o nome dele'.  Mas Lazar, e também a secretária dele, e até mesmo o seu Hishin, começaram  a me pressionar; e outras pessoas, pessoas objetivas, me contaram que você é  consciencioso, confiável e modesto. Então lhe informo que agora também estou bem impressionado com você—de modo que lhe digo, doutor Rubin, se  quiser se juntar ao nosso departamento, mesmo que temporariamente, faça o  favor de ficar a semana que vem inteira sentado na biblioteca, recordando algumas leis elementares da física, como a lei do equilíbrio dos fluidos nos vasos, e passe novamente os olhos num livro de biologia que trate do movimento dos  vírus e como se multiplicam no sangue, principalmente os vírus B e C, pois são  interessantes em si. Depois me procure, digamos, daqui a uma ou duas semanas (não há pressa), e conversaremos sobre tudo isso, para que você entenda de  uma vez por todas a catástrofe que poderia ter provocado para a nossa amiga simpática, saudável e querida de todos nós, só por causa do seu espetáculo teatral."
Agora eu estava realmente perplexo. Lembrei-me que Eyal tivera uma reação espontânea semelhante, quando eu lhe contara em Jerusalém a história da  transfusão. E não havia por que suspeitar que Eyal estivesse propenso a inventar defeitos com o objetivo de me derrubar. Então, qual era a verdade? Eu tinha  mesmo errado? Fiquei arrepiado de pensar que ela—sim, ela—pudesse acreditar que eu havia feito algo terrível e perder a confiança em mim como médico. Mas sabia também que de forma nenhuma deveria discutir com aquele  homem psicologicamente perturbado. O melhor seria comportar-me no estilo  "anglo-saxão", como meu pai orgulhosamente definia, e evitar qualquer confronto desnecessário, nem sobre a expressão ofensiva "o seu espetáculo teatral".  Levantei-me, a face ardendo, humilhado até o fundo da alma, e me despedi sem  dizer quase nada, tampouco fiz qualquer promessa. Dirigi-me por engano para  o departamento de medicina interna, passando pelos quartos dos doentes, a  maioria de meia-idade ou mais velhos. Senti uma lágrima súbita nos olhos.  Pensei: "Não é possível, isso não está certo, são temores imaginários; mas jamais vou conseguir convencê-lo do absurdo das suas alegações, porque ele só quer  me deixar deprimido, conforme o doutor Nakash me avisou, sim, Nakash o  conhece bem". E de repente tive vontade de ver o dr. Nakash, para que ele me  desse, do seu jeito simples e direto, um apoio neste mundo, porque sentia que  agora sim fora banido para sempre daquele hospital, que dois meses atrás eu  tinha certeza de que se tornaria meu lugar definitivo. Procurei Nakash na ala de  recuperação, mas ali me informaram que ele estava numa cirurgia. Não desisti: entrei sorrateiramente na ala cirúrgica. E através da janela de vidro na porta  vi a turma do departamento cirúrgico, circulando com seus aventais verdes e,  Nakash, muito magro e escuro, vestindo um jaleco curto, sentado ereto como  um faquir indiano, quase encostando a cabeça na cabeça do paciente. Logo me  reconheceu e acenou indicando com um gesto amigável que o esperasse. Em  poucos minutos saiu para me encontrar. Contei-lhe sobre a reunião com Levin, incluindo a observação degradante acerca do "meu espetáculo teatral". Ele não  se surpreendeu, apenas sorriu e praguejou baixinho. "Eu lhe disse. Ele é um  homem difícil que procura meios de deixar você deprimido sem lhe dar nada  em troca. Esqueça-o. Você não precisa dele. Amanhã à noite temos uma grande operação na clínica particular, e no fim do mês mais duas cirurgias longas e  sérias. Também o recomendei a outros anestesistas. Não se preocupe, Benjy,  você não vai morrer de fome. Pode se especializar em anestesia e não vai se arrepender, pois, se no fim acabar voltando para a cirurgia, terá uma grande vantagem sobre os seus anestesistas. Poderá exigir deles muito mais."
Retornou à sala de operações, sentando-se à cabeceira do paciente.  Apressei-me em sair do hospital, que, pela primeira vez desde que eu fora aceito, pareceu-me insuportável. Acima de tudo, não desejava tropeçar em algum  dos meus conhecidos da equipe médica, para não ter de me justificar. Quem  poderia sinceramente imaginar, dois meses atrás, quando me encontrava na  sala da administração entre os dois senhores  fortes e influentes, que me viam  como "o homem ideal", convencendo-me a viajar para a Índia, que as coisas  correriam dessa maneira e que agora não havia nesse hospital um único lugar  para mim, nem mesmo temporário? De todas as esperanças que eu alimentara  no último ano, restava somente uma paixão esquisita, impossível, que agora  também me magoaria; se tivesse permanecido na fantasia, como até ontem, talvez ainda fosse possível expulsá-la e livrar-me dela aos poucos, mas agora que  meu corpo tinha milagrosamente tocado o dela, eu assumira um compromisso  não só com minha alma, mas também com meu corpo inundado de prazer:  deveria insistir e provar a mim mesmo que não era um episódio casual e passageiro, como ela afirmara com absoluta segurança enquanto vestia rapidamente as suas roupas. Se eu tinha começado, só eu tinha o poder de terminar. "E,  afinal, eu não quero terminar, não quero terminar."
Foi isso que disse a mim mesmo ao sair para o grande pátio de estacionamento, cercado pela luz forte e doce daquele dia de inverno. Fui até a moto,  que nos últimos tempos estacionava entre os carros dos diretores, na ala coberta reservada para eles, não só para protegê-la da chuva como também para controlar de perto o carro de Lazar, ver se por acaso ela não tinha esquecido algum pacote. Dei a partida e saí depressa da área do hospital, mas enquanto esperava  abrir o primeiro farol fechado, não me contive e virei para trás, para ver o prédio amarelado soltando espirais de fumaça pelas duas imensas chaminés; e subitamente me pareceu que não era eu que estava deixando o hospital, o hospital é  que estava se afastando de mim como um gigantesco navio, zarpando com seus  médicos e doentes rumo a novas aventuras e tempestades, das quais eu era  indigno de participar. O professor Levin tinha razão, havia captado algo, o distúrbio mental aguçava os sentidos. Certo, eu tinha feito sim um pouco de teatro lá em Varanassi. Sempre existe algo de teatral na relação de um médico com  seu paciente, pois somente por meio de um jogo delicado é possível superar o  constrangimento natural devido à presença de um completo estranho que se  despe à nossa frente para  que examinemos a sua boca, palpemos sua barriga,  auscultemos seu coração e toquemos seus órgãos sexuais. Porém no hotel em  Varanassi, ao lado das poltronas de vime laqueadas de vermelho, o que houvera não fora só teatro, mas também o início de uma paixão, da qual precisava agora cuidar que não se esvanecesse, que não fosse um mero episódio.
Tinha de me apressar e mudar os meus pertences para o apartamento  novo. Porque, quando cheguei em casa, encontrei a porta aberta e malas estranhas no corredor, e a proprietária correu atrás de mim para me avisar que os  novos inquilinos já estavam entrando no apartamento, não tinham outro lugar  para ficar e não podiam esperar mais; afinal, eu prometera antecipar a minha  saída, e se o meu apartamento novo já estava em ordem, por que continuava  adiando? Eu não queria mais adiar a mudança, mas também não queria empacotar as minhas coisas, que se revelaram mais numerosas do  que eu tinha previsto,  na presença de um casal de jovenzinhos recém-saídos do exército, serenos e apaixonados, que começaram a circular em torno de mim e ocupar cada  vão ou espaço vazio em cada prateleira que eu desocupava. Obviamente era  inviável transportar as coisas na moto, por isso telefonei correndo para Amnon,  um amigo de infância de Jerusalém que estava mergulhado na sua tese de doutorado em física e astronomia na Universidade de Tel Aviv e sustentava-se trabalhando como guarda-noturno numa grande fábrica de conservas ao sul da cidade. Durante a noite tinha à sua disposição uma velha caminhonete, que pedi  emprestada para fazer a mudança para o apartamento novo, onde já havia deitado, mas ainda não havia dormido. Tive de esperar até tarde da noite, até começar o seu turno, e nesse ínterim o jovem casal começou a me expulsar do velho  apartamento, com delicadeza mas visível determinação. Combinamos que eu  liberaria um quarto para que eles colocassem as coisas enquanto eu não esvaziasse o resto da casa. Limitaram-se ao único quarto livre, resmungando baixinho enquanto arruinavam seus pertences no armário, chegando a pendurar  alguns quadros. Com o correr da noite, porém, vendo que eu ainda estava por  lá, ficaram mais impacientes: puseram-se a circular por todo o apartamento,  entraram na cozinha para preparar o jantar, e a moça resolveu entrar no banheiro para tomar banho. Formavam um casal simbiótico, ficavam em constante  contato. Mesmo enquanto a moça se banhava, o rapaz entrou repetidas vezes  para dar ou pegar alguma coisa. Finalmente Amnon telefonou informando que  chegaria em meia hora. Levei para baixo primeiro as malas, cobertores e almofadas; o jovem casal logo se ofereceu para me ajudar a descer as caixas de papelão com os livros e os utensílios de cozinha. Enquanto eu estava sentado na  porta cercado de pacotes, esperando a caminhonete de Amnon, continuaram  me perseguindo e trazendo para baixo toda espécie de objetos sujos e esquecidos que eu havia deixado para trás. Realmente era muito desagradável despedir-me daquele jeito apressado do meu primeiro apartamento em Tel Aviv, do qual  eu gostava, em que tinha encontrado silêncio e solidão que me davam prazer;  e que também preservava a lembrança das minhas primeiras sensações no hospital, da época em que eu reproduzia a mesa de operações na mesa da cozinha  e praticava com faca, garfo e linhas de costura, imitando os movimentos calmos  e rápidos de Hishin.
Amnon demorou muito a chegar, e me encontrou sentado envolto num  cobertor e cercado pelos meus pertences como um refugiado banido. Não pude  ficar zangado com ele, sabendo que abandonara o serviço de guarda especialmente por mim. Com rapidez colocamos toda a bagagem na caminhonete; eu  montei na  moto e segui na sua frente para indicar o caminho. Descarregamos  as caixas e pacotes no pátio do apartamento novo, e Amnon foi logo embora.  "Você ainda tem que me explicar qual é o problema de Hawking com os primeiros três segundos do Big Bang", eu lhe disse antes de nos despedirmos. Sabia que  ele gostava que eu lhe fizesse perguntas de física ou astrofísica, assim tinha a  oportunidade de se estender numa longa palestra enquanto eu ficava sentado à  sua frente como um ávido discípulo diante do mestre. Ele estava encalhado no trabalho de doutorado há alguns anos, apesar de se dedicar com todo afinco, e  os bons amigos já tinham medo de lhe perguntar a respeito disso, pois receavam  que o tom da pergunta traísse alguma nota de incredulidade.
"Quando quiser. Você sabe muito bem como eu gosto quando larga um  pouco as suas bruxarias de curandeiro e se interessa um pouco por ciência de  verdade", respondeu entusiasmado, pronto a anotar o meu novo número de  telefone. Mas o número fugiu da minha cabeça, e prometi que ligaria ainda  aquela noite ao seu local de trabalho para lhe dar. No apartamento novo,  porém, o telefone estava mudo. Fiquei aflito com a ideia de que meus pais deveriam estar me procurando, sem imaginar onde eu tinha me metido. Nas últimas semanas eu detectara uma preocupação nova na voz de ambos, então por  que gerar mais ansiedade desnecessária? E como o telefone se quebrara assim  de repente? Afinal, ninguém havia encostado nele desde a véspera. Dori podia  ter cometido algum engano ao solicitar a leitura do marcador de chamadas,  fazendo pensarem que pedia o desligamento da linha. Era tarde, e o apartamento estava assustadoramente atulhado com os meus pertences. Notei que, na verdade, era menor do que o outro, e o armário repleto de conjuntos cinza da avó  de repente me irritou. O que mais me aborreceu foi não poder cumprir a promessa de ligar para Amnon, amigo querido, para combinar quando discutiríamos a questão do universo de Hawking; ele com certeza ficaria esperando o  meu telefonema na sua fria cabine de guarda, pensando que mais uma vez eu  estava fugindo do encontro, depois de tirar proveito da sua ajuda com o transporte. Larguei o monte de caixas e pacotes no apartamento e desci à procura de  um telefone público para marcar o encontro e também para avisá-lo de que  dessa vez eu não ficaria sentado quieto, só escutando, como um aluno atento às  suas complexas explicações. Não, eu também queria expor a minha teoria.  Agora mesmo, no meio da noite, não deixaria de mencionar seus pontos fundamentais, para que ele refletisse e preparasse sua resposta. Inclusive a questão  relativa aos três segundos iniciais do Big Bang, que intriga Hawking e outros, e  onde, segundo admite o próprio Hawking com simpatia, a própria teoria tropeça, uma vez que não consegue explicar satisfatoriamente como o cosmo, comprimido numa partícula de densidade infinita e raio zero, começou a se expandir com tal velocidade. Para esse enigma eu tinha uma teoria simples, pelo  menos digna de ser considerada. A física é impotente em relação a esses três segundos porque, simplesmente, eles estão fora da física: são o ponto de transição do espírito para a matéria. Antes de ele torcer o nariz e sorrir com condescendência, avisei que tinha também uma bela demonstração, uma demonstração no sentido inverso. Quer dizer, como poderia a matéria se contrair de volta  à partícula única da qual nasceu? O espírito seria capaz de fazê-lo, e não por  meio de feitiçaria, mas por um processo lento e gradual. Que na verdade já  havia começado. O avião, por exemplo, comprime a matéria, anula a distância,  e o que é o avião senão um pedacinho de matéria em que foi investida uma  quantidade enorme de espírito, isto é, de leis e de pensamento? Com seu raciocínio rápido e objetivo, Amnon imediatamente captou o rumo do meu raciocínio e ameaçou dar início a uma longa e demorada discussão que entraria noite  adentro, ocupando as suas horas de guarda vazias e monótonas. Então lhe contei que estava falando de um telefone público, que o de casa estava quebrado;  prometi que continuaríamos a discussão no encontro que teríamos em breve e  pedi que informasse o defeito à companhia telefônica. Dei-lhe o número do meu telefone, que por segurança eu havia anotado e grudado na carteira de  identidade. Depois, apesar do adiantado da hora, liguei também para os meus  pais, achando que poderiam estar preocupados com o meu paradeiro; o que  consegui foi acordá-los à toa de um sono profundo e tranquilo: à tarde, quando  haviam tentado fazer contato comigo no apartamento novo, uma gravação lhes  informara que o telefone estava temporariamente desligado.
"Essa é a minha nova senhoria!", eu disse, num misto de riso e raiva. "Em  vez de pedir a leitura do marcador de chamadas, fez alguma trapalhada, e eles  acabaram desligando o telefone. Que ótimo! Agora o que é que eu faço?"
Minha mãe me acalmou; tinha uma confiança inexplicável no funcionamento dos órgãos públicos, talvez porque meu pai trabalhasse num deles.  "Pode deixar, seu telefone vai ser ligado amanhã logo cedo, e nós não vamos precisar dele antes disso porque estamos indo para Tel Aviv assinar o termo de fiança e ajudá-lo a arrumar o apartamento." Senti-me pouco à vontade por eles visitarem já no dia seguinte o apartamento novo, que ainda recendia aos meus  prazeres amorosos. Eu também tinha certeza de que o apartamento não iria  agradar a minha mãe, que manifestara seu descontentamento desde o primeiro instante, e talvez não quisesse dar o braço a torcer reconhecendo o que ele  tinha de bom e bonito. Mesmo se controlando e não dizendo uma única palavra contra, não seria capaz de resistir e me questionaria acerca do verdadeiro  motivo dessa súbita mudança.
"Não, não venham amanhã", tentei demovê-los, "não há urgência em assinar a fiança. Dei muitos cheques pré-datados. Não venham, porque amanhã  não vou ter tempo de estar com vocês direito. E à noite vou participar de uma  cirurgia particular como assistente do doutor Nakash, preciso chegar cedo à sala  cirúrgica para dar uma olhada no equipamento de anestesia e começar a me  familiarizar com ele. Não, não venham amanhã. Deem um tempo para mim.  Por que vocês precisam entrar bem no meio da bagunça? Me deem tempo para  arrumar um pouco as coisas antes de vocês virem fazer críticas. Talvez eu vá na  sexta-feira para Jerusalém passar o Shabat com vocês, e posso levar o termo de  fiança para assinarem aí mesmo. Me deem um pouco de tempo", conclui suplicante. Fez-se um silêncio do outro lado da linha. Sem dúvida tinham ficado  desapontados, sobretudo meu pai, por terem de desistir da visita a Tel Aviv,  seguramente já planejada em detalhes. Mas minha promessa de visitá-los em  Jerusalém no fim de semana serviu de consolo, equilibrando a balança. Eles  cederam.
"Quer dizer que amanhã você está de novo numa operação", disse o meu  pai, reanimado. "Está vendo? Nada está perdido. Já estão querendo você de  novo na sala de cirurgia."
"É uma cirurgia só para o cirurgião, pai. Para mim, não passa de anestesia",  eu disse angustiado, olhando para a mulher jovem vestida num casaco de inverno, parada a alguns passos na rua vazia, brincando com uma ficha telefônica  entre os dedos à espera de que terminasse a conversa. "Não é o que eu realmente quero fazer. Não quero só ficar anestesiando. Mas basta, uma pessoa está querendo telefonar, vocês esqueceram que eu estou na rua. Vamos desligar."
Não lhes contei nada sobre a conversa com o professor Levin para não  aborrecê-los ainda mais. Aos poucos teria que acostumá-los à ideia de que eu  estava fora do hospital. Voltei depressa ao apartamento e, como não me sentia  cansado, apesar de ter tido um dia complicado e confuso, ataquei a pilha de coisas que trouxera e comecei a arrumá-las em seus novos lugares. Descobri que,  além do guarda-roupas da avó, que eu tinha permitido que por enquanto deixassem como estava, eles se esqueceram de esvaziar também as duas mesinhas de cabeceira, onde havia basicamente objetos pessoais, velhas cartas e álbuns  de fotos. Não sabia se tinha o direito de esvaziá-las sozinho, porém me incomodava a ideia de ter dos dois lados da minha cama, noite após noite espreitando  o meu sono, arquivos de cartas, fotos e objetos de uma família estranha. Resolvi  enfiar tudo nas caixas de sapatos vazias que ficaram no terraço e coloquei-as no  armário, no meio dos conjuntos cinzentos da avó. Por um momento, tive vontade de manter ao meu lado um álbum de fotografias, o único que me permiti  folhear um pouco: lá descobri algumas fotos antigas dela, de anos longínquos,  jovem soldada, estudante de direito, com Lazar e sem ele, carregando bebês nos  braços, sempre sorrindo, mais esbelta e atraente—uma mulher mais jovem, da  minha idade. Mas afastei de mim também esse álbum, colocando-o junto com  as outras coisas. Senti estranheza e hostilidade em relação àquelas fotos. Eu não  podia estabelecer contato com o passado dela, nada ali me pertencia, e eu também de nada precisava para alimentar a minha imaginação e o meu amor. Eu  a desejava como a tinha conhecido agora, gorducha, mais velha, madura,  mimada porém segura de si. Até tarde da noite limpei o apartamento e fiz arrumações. Pendurei os quadros que tinha trazido nos pregos que já havia nas paredes, para não perturbar o silêncio noturno com batidas de martelo. Finalmente tomei um banho e troquei a roupa de cama, colocando um lençol limpo e cheiroso, um daqueles que aparentemente haviam sido deixados para uso do inquilino; e com o telefone desligado assegurando que eu não seria incomodado,  afundei na cama nova caindo num sono profundo e ininterrupto, que me proporcionou uma clareza de espírito especial na hora da longa operação no hospital particular na praia de Herzlyiah, que teve início ao cair da noite seguinte  e se estendeu quase até o raiar do dia.
Foi uma cirurgia cerebral, complicada e perigosa, realizada por um cirurgião de cerca de trinta e cinco anos, um professor americano convidado, assistido por um renomado cirurgião israelense aposentado do nosso hospital, que  costumava trabalhar com o dr. Nakash e parecia ter especial confiança nele em  operações que exigiam anestesia tão complexa. No entanto, pela primeira vez  vi Nakash perder um pouco da sua segurança e tranquilidade. Estava vermelho  e agitado. Depois de me apresentar ao cirurgião convidado como seu assistente pessoal, passou a se dirigir também a mim em inglês, pedindo que eu lhe respondesse da mesma maneira, para que nos encaixássemos na atmosfera idiomática adequada ao local, que, desde a minha chegada, impressionou-me com seu  ar acolhedor e agradável. As salas cirúrgicas que eu conhecia eram sempre frias,  sem janelas, isoladas do mundo, localizadas no coração do hospital como a casa  de máquinas de um submarino secreto; aquela, ao contrário, estava pintada  com cores quentes e possuía, por trás das agradáveis cortinas, janelas pelas quais  se podia avistar uma paisagem quase bucólica, com pessoas passeando calmamente ao longo de uma trilha beirando o mar. Os equipamentos médicos eram  mais novos que os do hospital, menores, leves e fáceis de manipular. E no meio  de tudo isso, o grande crânio raspado de um senhor corpulento e simpático, de  uns cinquenta e cinco anos. Desde os tempos das minhas aulas de anatomia eu  não via um crânio humano, preso entre fórceps, ser aberto lentamente, camada após camada, serrado pelas mãos de um artista, até se expor o cérebro branco, pulsando com seus minúsculos vasos sanguíneos, cujo equilíbrio delicado  entre quietude e vitalidade Nakash controlava por meio de uma moderna e fantástica máquina anestésica, cheia de pequenos indicadores numéricos cujos  valores não paravam de se alterar. E assim começou a longa noite, em que  aprendi, ao lado de Nakash, como ficar concentrado durante horas seguidas  num só ponto, de modo a acompanhar meticulosamente o movimento do respirador, em especial os dados oscilantes da concentração de oxigênio no sangue, o nível de dióxido de carbono eliminado, o volume de ar bombeado nos  pulmões e, obviamente, também o batimento cardíaco, a pressão sanguínea de  modo geral, a pressão venosa, a hidratação do corpo—fatores que, em conjunto, constituem o drama da anestesia, que, em particular numa cirurgia no cérebro, precisa ser exata e controlada com serenidade, pois o mínimo movimento  ou tosse do paciente traz o risco de pequenas partes do cérebro exposto serem  expelidas.
"Se você sentir que está ficando entediado", cochichou-me Nakash no  meio da noite no seu hebraico com forte acento iraquiano, o rosto escuro iluminado pela determinação, "pense em si mesmo como se fosse o piloto da alma,  obrigado a se assegurar que ela deslize sem dor para o vazio do sono, flutuando  sem turbulências, sem quedas e sem choques. Mas cuide também para que ela  não voe alto demais e escorregue para o outro mundo." No nosso hospital eu já  o ouvira definir assim o seu trabalho, mas agora, no meio da noite, um pouco zonzo após as longas horas de observação concentrada unicamente nos irrequietos indicadores numéricos da máquina anestésica, sem o crânio ou o cérebro diante dos meus olhos, podendo enxergá-los apenas na tela cinzenta do  monitor de vídeo suspenso à minha frente—senti quão verdadeiras eram as  suas palavras. Transformei-me de médico em piloto ou navegador, cercado de  enfermeiras que, naquele hospital privado, pareciam aeromoças bem treinadas, entrando de vez em quando para extrair um pouco de sangue a fim de determinar o índice de potássio e sódio, ou para  adicionar aos sacos de infusão suspensos junto à mesa coquetéis de pentotal ou morfina, com doses adicionais  especificadas por Nakash para assegurar a tranquilidade do seu "voo por instrumentos". E então, pela primeira vez, aquela posição passiva, monótona e frustrante, com longas horas de atenção junto a aparelhos inanimados, pareceu-me  ter um significado espiritual, poiso pensamento e a preocupação não se dirigiam  para o corpo, para a matéria, para o tumor esverdeado que os dois cirurgiões ao  nosso lado lutavam para extrair das profundezas do cérebro—dirigiam-se para  o espírito, para a alma, que subitamente senti estar de fato nas minhas mãos, no  seu silêncio e, quem sabe, talvez também em seus sonhos.
Quando a operação terminou, vimos que a manhã se insinuava pelas dobras  das cortinas. Os dois cirurgiões e as enfermeiras deixaram o local, e o paciente foi  transportado para a sala de recuperação. Nakash sentou-se um pouco, depois foi  se ocupar do nosso pagamento, deixando-me cuidar da "aterrissagem", ou seja,  observar quando surgiriam os primeiros sinais de respiração autônoma no respirador, indicando que o paciente começava a recuperar a função respiratória  natural. Sem perceber ainda o tamanho do meu cansaço, abri as cortinas, e meu  olhar vagou entre o respirador e a manhã que coloria o mar com um leve tom  pastel. Minhas mãos estavam limpas, sem sangue, sem odor de medicamentos,  sem o calor das profundezas do corpo humano que eu estava acostumado a notar  nos dedos após as operações, ainda que desempenhando um papel muito pequeno. E mesmo sem nem ter visto com os meus próprios olhos o tumor extirpado e  enviado rapidamente para biópsia, senti uma grande satisfação espiritual, como  se realmente tivesse participado do combate. Aproximei-me do paciente e ergui  suas pálpebras, como vira Nakash fazer com as pessoas anestesiadas por ele, mas  sem saber muito bem o que verificar nas pupilas. Uma nova enfermeira, muito  bonita, que não estivera lá durante a noite, entrou devagarinho na sala, sentou-se ao meu lado e disse: "O doutor Nakash me enviou para substituí-lo, para que  você possa ir assinar o recibo do pagamento". Eu não queria abandonar o paciente, queria ver como a encarnação da alma tocava o solo firme do corpo. Também  a referência da enfermeira ao pagamento me pareceu inadequada. Mas eu era  novato e por isso achei melhor não fugir aos procedimentos habituais. Fui até a  secretaria: onde me esperava um cheque de oitocentos shekels, anexado a um  comprovante elegantemente impresso no qual estavam discriminados os detalhes do pagamento e as várias deduções. Nakash examinou o meu comprovante  e perguntou se estava tudo em ordem. Então me mandou para casa: "Pode deixar que eu mesmo 'aterrisso' o nosso paciente", disse sorrindo. Fui até o vestiário  e, apesar de não ter me sujado na operação, não pude deixar de entrar na magnífica sala de banho e tomar uma ducha prolongada. Depois me vesti, coloquei o  capacete debaixo do braço e preparei-me para ir embora. Mas não resisti a voltar  à sala de recuperação, para ver se o paciente havia aterrissado totalmente. A aterrissagem já findara. O paciente estava sozinho. Nakash tinha desaparecido. E a  bela enfermeira também não estava na sala. A máquina anestésica fora encostada num canto. A alma retornara ao corpo. O paciente respirava com suas próprias  forças.
Cheguei com facilidade ao meu apartamento, deixando atrás de mim filas  desesperadas de automóveis lutando para entrar em Tel Aviv. O pagamento estava no meu bolso, cerca de um quarto do meu salário no hospital. Aí pensei nela.  Eu devia esperar até ter nas mãos o termo de fiança assinado pelos meus pais, ou  fazer contato sem um pretexto concreto? Pelas escadas desciam crianças em uniforme escolar. Os olhares dos vizinhos me examinaram com desconfiança ao me  verem parado com a jaqueta de couro preta e o capacete na cabeça abrindo a  porta do apartamento. Mas ninguém ousou me dirigir a palavra. Preparei um  lauto café da manhã, depois baixei as venezianas e me preparei para um sono  doce, com a garantia de estar livre de qualquer incômodo, até mesmo de um telefonema casual. Porém no meio do meu sono profundo a linha telefônica ganhou  vida, e à Uma da tarde o telefone tocou agressivamente. Era minha mãe, que  ficou contente em constatar que a sua previsão sobre o meu telefone havia se  concretizado e perguntou a que horas eu tinha intenção de chegar no dia seguinte. "Cedo", respondi depressa, pois precisava compensá-los por ter estragado seus  planos de visita a Tel Aviv. Na sexta-feira, cheguei a Jerusalém antes de meu pai voltar do trabalho. Contei à minha mãe sobre a dura conversa com o professor  Levin e o meu desligamento definitivo do hospital. No começo ela ouviu em  silêncio. Sempre que eu me envolvia numa situação de confronto, ela cuidava  para não tomar o meu partido e jogar a culpa nos outros; mesmo que ficasse claro  que os outros eram culpados e tinham agido de forma injusta, primeiro examinava o que em mim e no meu modo de ser podia tê-los induzido ao erro.  Também dessa vez tentou repetidas vezes interrogar-me com cautela: será que a  transfusão era mesmo imprescindível? E qual fora o meu sentimento enquanto  eu realizava a transfusão? Tive pena dela. Ela tateava no escuro, procurando  alguma coisa que não podia imaginar ser real e concreta. Temendo que descobrisse algo, tratei de aumentar a escuridão à sua volta. Enfim meu pai chegou.  Não quis magoá-lo de imediato com o episódio da minha saída do hospital, mas  minha mãe se apressou em contar. Ficou um pouco pálido, depois se refez e  escutou com visível prazer, um prazer que não condizia com ele, as observações  cruas do dr. Nakash sobre a enfermidade mental de Levin. O fato de Hishin não  ter levantado nenhuma objeção médica contra a transfusão também lhe parecia  uma confirmação ampla para as minhas ações, e ele estava plenamente satisfeito. Pareceu muito impressionado com a minha descrição do hospital privado em  Herzlyiah e perplexo com a elevada quantia que eu recebera por uma única  noite de trabalho. "Quem lida com a alma é mais caro e importante do que quem  lida com o corpo", eu disse sorrindo, "pois toda a responsabilidade legal  acaba  recaindo sobre o anestesista. Se acontecer alguma coisa com o paciente, quem  irão culpar senão ele? Quem terá forças para abrir novamente a barriga ou o cérebro e pesquisar lá para verificar o que foi cortado certo e o que não?" Minha mãe  permaneceu em profundo silêncio, lançando-me olhares perscrutadores. Senti  que ela não estava contente comigo, mas eu sabia que ela era incapaz de identificar o motivo de sua insatisfação.
Quando terminamos, meu pai e eu, de conversar sobre salários de médicos e possíveis complicações durante cirurgias, minha mãe me entregou um  envelope branco com meu nome; o envelope continha o convite de casamento de Eyal, que aconteceria dali a três semanas no kibutz E in Zohar, situado na Aravá. (1) Meus pais receberam um convite separado, em seu nome, e o próprio Eyal lhes telefonou insistindo que fossem. A mãe dele também insistiu no convite, e até mesmo Hadas pegou o telefone e acrescentou algumas palavras de  estímulo. Parecia importante para eles que meus pais, que haviam conhecido  Eyal ainda na infância, fossem ao casamento. "Vocês não pretendem viajar até  a Aravá, não é?", perguntei surpreso. Não só eles tinham prometido a Eyal que  iriam ao casamento, como não pretendiam viajar com o grupo organizado que  sairia de Jerusalém: iriam com seu próprio carro, pois após a cerimônia tinham  intenção de seguir até o mar Morto, para desfrutar alguns dias num dos hotéis  de tratamentos medicinais. A frustração pelo cancelamento da visita a Tel Aviv  parecia ter despertado neles uma intensa fome de viajar—costumavam consultar-me acerca de seus planos, e dessa vez tinham resolvido tudo sozinhos, até  fizeram as reservas no hotel. "O que vocês vão fazer num casamento de jovens  num kibutz?", perguntei com um leve sorriso.
  
(1) Aravá é a região sudeste de Israel, um planalto entre o deserto do Neguev e a Arábia Saudita.  (N. T.)
   
"Para que viajar até lá? E ainda  mais no seu carro velho." Minha mãe manteve-se firme nos seus planos. Eyal  pedira que comparecessem ao casamento, e eles não iriam decepcioná-lo. Era  viva a lembrança dele zanzando pela nossa casa, e em certos dias, sobretudo  depois do suicídio do pai de Eyal, viam-no quase como um segundo filho. Além  disso, esperavam divertir-se no casamento, na viagem pelo deserto, no kibutz.  Eu poderia me juntar a eles em Jerusalém; se quisesse, iriam me buscar em Tel  Aviv. De lá sairíamos juntos para a Aravá, e depois do casamento iríamos os três  para o hotel às margens do mar Morto, já tinham até reservado um quarto para  mim, ao lado deles—e, realmente, por que eu não podia tirar alguns dias de  férias? Mas eu não queria encontrar os meus velhos amigos com os meus pais  pendurados em mim, e também recusei a sugestão de me hospedar com eles no  hotel uma noite que fosse. Procurei demovê-los da ideia e declarei que também  teriam de ir por conta própria para a Aravá, pois a minha intenção era ir de moto  para ter a liberdade de voltar a Tel Aviv quando bem quisesse, sem depender de  ninguém.
"Mas você não está mais preso ao hospital", observou minha mãe, magoada com a minha recusa de me juntar a eles em suas férias.
"Estou preso a outras coisas", retruquei sem entrar em detalhes.  Ficaram muito desapontados com a minha reação negativa, especialmente minha mãe, que tinha medo de viajar sozinha pelas planícies desérticas com  o seu carro velho e também temia que meu pai se perdesse no caminho, pois ele costumava se atrapalhar na leitura dos mapas rodoviários e era orgulhoso  demais para parar e pedir orientação às pessoas. Quando percebi que eram inúteis todos os meus esforços para dissuadi-los de cumprir a promessa feita a Eyal,  meu coração amoleceu um pouco e lhes assegurei que marcaríamos um  encontro na saída de Beersheva, e de lá eu seguiria na frente deles para garantir o caminho correto; à noite também os acompanharia ao hotel. Aí minha mãe  sossegou, e passamos um Shabat agradável. Fiquei em casa a maior parte do  tempo, para alegria deles. Voltei a descrever, agora em detalhes, a complicada  cirurgia da qual havia participado e contei os meus novos sentimentos como  anestesista. Lembrei-me também da Índia; fui mais generoso nos meus relatos  sobre a aventura em Calcutá e as câmaras mortuárias em Varanassi, e quase não  mencionei o casal Lazar. Também não abri a boca sobre o termo de fiança; só  um pouco antes de ir embora, no sábado à tarde, enquanto minha mãe tirava um rápido cochilo, pedi a meu pai que o assinasse; a assinatura da minha mãe  acrescentei rapidamente eu mesmo.
Agora, com a posse do documento assinado, um novo fio tênue fora lançado de longe em direção a ela, e sua ponta estava na minha mão. Mas era absurdo, refleti angustiado, que mesmo após a minha ousada confissão, depois de ter  conseguido convencê-la a deitar-se comigo, eu ainda me sentisse no ponto de  partida, frágil e impotente, precisando de um supérfluo papel assinado como  garantia de encontro. Eu sabia que se telefonasse para ela lhe daria a oportunidade de me evitar, ainda que não estivesse segura de ser esse o seu desejo. Se era  verdade que aquela fora a primeira vez que traíra o marido, a quem estava fortemente ligada—isso eu sabia, e como sabia!—,sem dúvida estaria cheia de  remorso e arrependimento, mesmo que tivesse se apaixonado um pouquinho  por mim, ou mesmo que lhe restasse um mínimo de saudade daquilo que tinha  havido entre nós. Portanto, eu não devia em hipótese alguma dar a ela forças  para romper o nosso vínculo sem mais um encontro. Eu imaginava provocar esse encontro de forma simples, entrando de repente, seguro de mim, no seu  escritório, como um cliente antigo, do tipo que não precisa marcar hora e que  é sempre recebido e atendido, ainda que brevemente, uma vez que todos lhe  reconhecem o direito de ficar preocupado e querer se aconselhar. Apesar de suspeitar que num primeiro momento ela se assustaria em me ver, tinha certeza de  que em poucos segundos entenderia que, surpreendendo-a assim, pretendia  apenas que continuasse confiando em mim, como quando eu despira todas as  minhas roupas e ficara nu na sua frente, à sua disposição, para fazer comigo o  que bem quisesse. Se preferia encontrá-la em seu território, onde estava protegida de qualquer gesto ou palavra inadequada que eu deixasse escapar, era não  só para aplacar o seu receio de ser assediada, mas também para lhe dar uma  prova de que minhas intenções não eram meramente sexuais, eram mais profundas, como se o termo de garantia que eu levava incluísse a idoneidade do  locatário. Talvez por causa do significado que eu atribuía à minha entrada súbita no seu escritório, demorei para concretizá-la, sobretudo porque agora tinha  tempo de sobra para me preparar, rondar pelas ruelas próximas e, escondido na  entrada de algum edifício, ver Lazar trazê-la ou buscá-la, ou ela própria manobrar o carro para estacionar num local proibido—e demorei mais ainda, hesitando em me meter entre um cliente e outro, considerando a possibilidade de  enviar o documento e desistir do fio doce e tênue. Até que um dia ela apareceu  pela primeira vez num sonho que tive no meio do dia (agora que era dono do  meu tempo, habituara-me a tirar longas sonecas à tarde). No sonho ela estava  conversando, com seu jeito agradável e amistoso, com Hishin, que parecia fazer  alguma brincadeira deitado num dos leitos do departamento. Por algum motivo, esse sonho simples me perturbou de tal maneira, que no mesmo dia, no final  da tarde, comprei um lenço de seda colorido, de estilo indiano, que achei num  pequeno bazar da rua Basel, e finalmente entrei no seu escritório de advocacia.  Pedi à secretária morena, que se recordava de mim daquela manhã em que fizéramos os preparativos para a viagem à Índia e dessa vez me recebeu com simpatia, que me anunciasse o mais breve possível, logo que ela estivesse livre. Ela  estava desocupada, então entrei e fechei a porta atrás de mim. Sentei-me na  cadeira à sua frente sem esperar permissão, entreguei-lhe com os olhos baixos o  documento de fiança assinado pelos meus pais e disse: "Ai está o documento  que você pediu".
Seus olhos se iluminaram com o simpático sorriso habitual, e ela parecia  tranquila, como se já esperasse a minha entrada triunfal. Não pude saber se sua  calma resultava da certeza de que aquilo que houvera entre nós fora um episódio circunstancial e passageiro, estando agora tudo sob controle, ou se, ao contrário, ela se acalmara ao perceber que eu não levara suas palavras a sério e estava trazendo o ridículo documento porque não queria me desligar dela. Pegou a  folha de papel e a dobrou, como se fosse rasgá-la, mas vacilou, como se a advogada dentro dela tivesse feito alguma advertência sobre prevenir-se contra situações litigiosas no futuro. Por fim, voltou atrás e picou o papel em pedacinhos,  jogando-os no cesto de lixo, e disse: "Não é preciso, confio em você". Encarou-me com seus olhos sorridentes e prosseguiu com segurança: "E como está você?  Já se restabeleceu?". Percebi que ela enrubesceu, talvez temerosa do que eu  pudesse responder. Assim, mudei um pouco a resposta verdadeira e disse ingenuamente:
"Do quê?"  E ela: "Você sabe muito bem. Daquilo que é absolutamente impossível e que não vai continuar".
Fiquei calado, pois temi que a ligeira excitação que me dominara turvasse  a minha lucidez na conversa. Olhei para ela. Vestia um conjunto cinza do tipo  daqueles que haviam sido deixados no armário do meu dormitório. O coque no  cabelo, que sem dúvida estivera bem firme algumas horas antes, começava a se  soltar, e alguns fios de cabelo pendiam-lhe sobre o pescoço. A tonalidade dos  seus cabelos estava mais escura do que eu me lembrava de ter visto uma semana atrás; teriam sido tingidos de novo, ou a luz da sala estaria me iludindo? A  maquiagem também estava um pouco desfeita pelas seguidas horas de trabalho, revelando as simpáticas sardas nas suas bochechas. Os seios pareciam  menores, bem delineados por baixo da blusa branca. E do outro lado da mesa  se via o contorno da barriguinha mimada. "Ela com certeza não é bonita", pensei, e uma vaga lembrança do sonho passou pela minha cabeça. "Mas tem um  calor, e uma vivacidade, e uma objetividade que me fazem muita falta agora, e  se ela insistir em não continuar, tem todo o direito, já que eu ainda não consegui convencê-la de que só aquele que começa é que pode terminar." Então,  num silêncio sombrio, tirei do bolso do casaco a echarpe embrulhada em papel  de presente, colocando-a sobre a mesa à sua frente; e sussurrei—um sussurro quase inaudível:  "Isso é para você. Vi numa loja. Talvez porque me faça recordar os lenços da Índia. Sei lá."
Ela ficou atônita e inquieta, como se toda a minha declaração de amor, e  o fato de ter ficado nu diante dela, não a tivessem convencido tanto quanto  aquele pequeno lenço de seda. Fechou os olhos com força, depois colocou o  punho diante da boca, como se buscasse entender o que fizera comigo e consigo mesma. Em seguida tirou o papel colorido e abriu a echarpe sem dizer nada.  Finalmente sorriu e falou:
"Diga, Benjy, o que você está querendo realmente? Afinal, daqui a pouco vou  fazer cinquenta anos. Não entendo. O que foi que mexeu com você lá na Índia,  confundiu os seus sentimentos? O que foi que aconteceu? Certo, eu também errei.  De repente foi bom saber que consigo atrair um homem jovem como você. Mas é  só. O que vai sair disso? É totalmente impossível. E você sabe muito bem."
"Sim, eu sei", admiti sobriamente e prossegui com terrível insistência,  "mas eu peço: só mais uma vez."
"Não", respondeu decidida, sem pensar, "não vale a pena. Mesmo que  também tenha sido muito doce para mim. Que diferença faz? O que vamos  ganhar com uma outra vez?
Você só vai ficar ainda mais magoado. E voltará  para me atormentar. Sim, porque você é totalmente livre, não tem compromisso com ninguém. Você me ludibriou quando pediu para alugar o apartamento  da minha mãe, acreditei que queria mesmo se casar."
"Mas eu quero mesmo", respondi sem pestanejar.  A secretária bateu à porta e não esperou: entrou dizendo o nome do cliente que havia chegado.
"Já, já", respondeu Dori, levantando-se do lugar e dirigindo-se para a porta  sobre seus saltos altos. Uma onda quente de amor me invadiu ao vê-la em pé ao  meu lado. Ela quis me dizer algo, talvez para me consolar, porém o cliente, um  senhor de certa idade com roupas elegantes, extremamente agitado, não esperou, abriu a porta sozinho e ficou parado na entrada. Ela sorriu para mim o seu  sorriso automático e apresentou-me ao cliente, como se quisesse diluir qualquer possível suspeita. "Este é o doutor Rubin, é como um médico da família.  Por favor, entre e sente-se." O cliente fez um meneio distraído na minha direção e sentou-se. Ela me acompanhou até o corredor e disse: "Pelo que sei, o  encontro com o professor Levin não deu em nada".
"É isso mesmo", respondi, tremendo de emoção, "ele é um sujeito esquisito, não consigo entendê-lo. Ele alega que eu poderia ter contaminado você com o vírus da hepatite de  Einat quando fiz a transfusão em Varanassi." Ela deu  uma risada de surpresa; será que não sabia mesmo da estranha acusação de  Levin?
"Talvez você tenha mesmo me contaminado", disse com um leve sorriso.  Entrou de volta na sala, e pela porta entreaberta pude vê-la dobrar o lenço e  guardá-lo numa das gavetas.
Às sete da noite recebi um telefonema do dr. Nakash perguntando se eu  estava disposto a ir depressa para o hospital em Herzlyiah. Em uma hora teria  início uma operação que fora programada a princípio sem um segundo anestesista, para reduzir as despesas do paciente, mas na véspera Nakash pegara um  forte resfriado, e pela manhã sua febre tinha subido; apesar de ter feito um tratamento agressivo, ainda receava espalhar micróbios pela sala de cirurgia.  Então queria que eu "pilotasse" sozinho, enquanto ele obviamente ficaria por  perto, para me orientar e supervisionar. "Você não acha que é cedo demais para  me deixar sozinho?", perguntei com extrema excitação.
"Não", respondeu Nakash com firmeza, "você vai fazer tudo certo. Não foi  por acaso que o escolhi. Eu o tenho observado na sala de operações durante  todo o último ano, e vi que você capta os processos internos. Você tem uma  compreensão correta do que é a anestesia. E também não foi de graça que  Hishin o elogiou na nossa frente daquela vez no refeitório. Aliás, se você está  com saudade dele, poderá vê-lo logo mais, pois é ele quem opera esta noite. Mas  pelo amor de Deus, Benjy, monte depressa no seu cavalo e voe para cá."
O meu ânimo, que estava derrubado depois da conversa com Dori, levantou-se no ato. Subi na moto e, com a determinação de uma equipe de salvamento, comecei a "costurar"
ousadamente no meio do tráfego pesado de veículos  saindo de Tel Aviv no início da noite. Apesar disso, só consegui chegar na sala  de cirurgia depois que a primeira injeção pré anestésica fora ministrada sob  orientação de Nakash, que, para proteger o ambiente contra seus micróbios,  havia preparado uma estranha máscara que lhe envolvia toda a cabeça, deixando apenas dois buracos para os olhos negros e estreitos. A paciente era uma  mulher com cerca de cinquenta anos, gorducha e de olhos azuis, cuja compleição me fez recordar a mulher a quem algumas horas antes eu havia reafirmado  o meu amor. Tratava-se de uma operação abdominal—correção de uma hérnia de hiato e vagotomia—,o tipo de operação em que Hishin era mestre, apesar do mistério da morte da jovem paciente operada na véspera da viagem à  Índia. Coloquei a máscara e, com auxílio das enfermeiras, comecei a preparar  a paciente para a cirurgia. E já que Nakash observava a certa distância de nós,  entabulei uma animada conversa com a paciente, perguntando-lhe sobre seus  sentimentos e sensações, seu marido e filhos, enquanto expunha seu peito para  auscultar mais uma vez o coração e os pulmões, como modo de evitar alguma  surpresa desagradável. Do corredor se ouviu a risada forte de Hishin, e Nakash  fez um sinal para que eu me apressasse. Apliquei uma primeira dose de dormi com, sorri para ela e coloquei-lhe a máscara no rosto, conectando-a aos diversos dispositivos  da máquina anestésica. Senti seu corpo amolecer nas minhas  mãos. Apliquei uma primeira dose de pentotal para relaxar os músculos e introduzi a agulha da infusão para que ela começasse a receber biatril, o anestésico  propriamente dito, para eliminar a dor. Ela perdeu a consciência, e senti que a  alma pedia para ser liberada e decolar; com as duas mãos segurei o cilindro azul  e ministrei uma primeira dose de oxigênio, para acalmá-la; em seguida, abri à  força a boca travada e inseri a pequena lingueta de ferro do laringoscópio, para  evitar que a boca se fechasse; e sob o estreito feixe de luz que saía do corpo do  aparelho, consegui ver com exatidão a passagem rosada junto às cordas vocais,  através da qual inseri lentamente o tubo respiratório até os pulmões. Liguei o  respirador. A enfermeira expôs a barriga branca e redonda, limpou-a com álcool  e, seguindo uma anotação prévia, marcou a linha de incisão para o bisturi dos cirurgiões. Nakash, em pé atrás da porta com o rosto coberto, parecendo uma  múmia branca com olhos flamejantes, fez um sinal de vitória com os dedos e  pediu-me que saísse do seu campo de visão, para ele também poder acompanhar de longe os indicadores que começaram a se acender no aparelho que controlava o corpo abandonado pela sua alma.
Hishin estava demorando a entrar, como um maestro à espera de que a  orquestra afinasse os instrumentos. Mas quando entrou a enfermeira com as  chapas de raios X e colocou-as como partituras diante da tela iluminada, senti a  sua presença próxima e tremi de excitação, pois sabia que Nakash tinha ocultado dele a minha participação na cirurgia. Ele entrou  devagar, imponente, sorrindo, satisfeito consigo mesmo, murmurando uma canção. A cor violeta da  máscara e do avental, que naquele hospital substituía o verde padronizado,  dava-lhe um ar leve e feliz, como se estivesse fantasiado de outra pessoa. Parou, lançou um olhar surpreso e divertido para o mascarado Nakash imóvel no  canto, e então seus olhos se encontraram com os meus, que não se desviaram  dos indicadores do aparelho, pois eu me considerava o verdadeiro responsável  pelo seu funcionamento. "Que surpresa agradável!", exclamou. "O meu amigo  doutor Rubin abandonou o bisturi mas não abandonou a sala de operações.  Muito bem! É uma direção positiva. Quando você nos deixou pensei em aconselhá-lo a especializar-se em anestesia, mas tive medo que pensasse que queria  me opor às suas grandes ambições. Mas aí está, o doutor Nakash conseguiu convencê-lo. Parabéns, Nakash, você encontrou o assistente ideal."

5.
    
 
E assim, finalmente, encontra repouso também o olho sagaz, duro e verde,  impossível saber se é de macho ou de fêmea, e aos poucos amolece, até se fechar  totalmente, dissolvendo sua angústia no sono. E apesar da tristeza do fracasso,  pois outra vez sua liberdade lhe escapou, desaparecendo como se jamais tivesse  existido—a carícia de uma pena alheia, porém familiar, traz na escuridão o conforto do hábito. E quando surgem delicados dardos de luz por entre os grãos amarelados e endurecidos, e matizes de violeta tingem com suavidade as bordas do  céu, já se encontram os dois juntos, emaranhados nos ramos de um arbusto seco  e sólido, esperando o sol transformar o firmamento em um azul brilhante. E até o  coração da Arava suas asas os trouxeram, no sentido de aprender que nenhum dos  dois pode ficar sozinho.
Mas, pelo fato de terem rompido a corrente de casamento que os prendia um  ao outro, de agora em diante condenaram a si próprios a buscar seu alimento em  solo árido, e a beber água amarga e salgada no lago da morte. E perplexos com o  destino de sua união renovada, não escaparão de rodear em profunda reverência  os restos sangrentos do mistério, que jamais os abandonou e que os perseguiu para  uni-los novamente. Agora os restos aí estão, espalhados entre as pedras, desgraçados despojos dignos de compaixão, fragmentados e exaustos mas ainda pulsando, como se desejassem voar de novo ou mudar de forma. Um braço ferido se transforma em asa negra; uma perda perdida, em cauda de penas; óculos rachados, em  bico afilado; até que o fogo do meio-dia solde uma parte à outra e seja possível  pressentir uma figura alada desconhecida, que se consolida num corvo negro e  sombrio que bate as asas e ergue-se da terra seca.
O casamento de Eyal, que se aproximava, despertou em mim uma mescla  de excitação e leve angústia, como se algo significativo estivesse prestes a acontecer. O próprio Eyal se encarregava de manter aceso o interesse no seu casamento, fazendo constantes consultas sobre como aumentar o número de convidados. Tinha medo de que a grande distância do kibutz na Aravá os desanimasse  de comparecer e que a festa fosse um fracasso. Decidiu então convidar a maior  quantidade possível de pessoas, e me telefonava o tempo todo para que eu o ajudasse a lembrar os nomes e endereços de antigos amigos de colégio. Não confiando sequer na sua longa lista de convidados, telefonava-lhes para certificar-se de que não haveria deserções de última hora. Talvez tenha sido a conhecida  preocupação de Eyal, que desde a perda do pai passara a ter medo de ser abandonado e rejeitado, a responsável por despertar em mim excitação e expectativa. Contagiados por esses sentimentos, meus pais escolheram para o jovem  casal um presente bonito e caro em nome de todos nós; e mais: minha mãe comprou um vestido novo e meu pai levou o carro ao mecânico para uma revisão  geral. Assim, o velho automóvel e a viagem estavam agora no centro de nossas  preocupações. Para poupar um pouco meu pai do longo dia de jornada e evitar  complicações desnecessárias no encontro em Beersheva, eles chegaram de  manhã cedo a Tel Aviv. Depois de visitarem a velha tia no asilo, almoçamos juntos num pequeno restaurante ao lado da minha casa, e levei-os para descansar  um pouco no apartamento. Para minha surpresa, minha mãe gostou dele e,  apesar das numerosas desvantagens, julgou que era menos impessoal e mais  acolhedor do que o antigo. "Você realmente cometeu um erro", disse ela no seu  tom professoral, "mas um erro na direção certa." Arrumei para eles a minha  cama, a cama da avó, com fronhas e lençóis limpos e, mesmo o dia estando agradável, coloquei no quarto um pequeno aquecedor elétrico. Insisti para que tirassem as roupas e vestissem pijamas, que se deitassem e dormissem de verdade, de modo a se revigorarem para a grande aventura. Acharam engraçada a insistência, que não era típica de mim, mas concordaram. Minha mãe não aguentou e saiu do quarto quinze minutos depois; meu pai caiu num sono prolongado e profundo, que começou a preocupar-nos. Minha mãe mostrou-se meio  ansiosa, procurando convencer-me a ir de carro com os dois. Quando vi meu  pai sair do quarto tonto e bocejante, mais cansado do que ao entrar, tive pena  dos dois e concluí que seria melhor desistir de viajar sozinho, na motocicleta, e  revezar-me com ele na direção. Mas a maior preocupação era com a curta viagem noturna que fariam após o casamento pelo caminho desolado que ia da  Aravá até o hotel às margens do mar Morto, passando por Sodoma. Desistir da  moto me obrigaria a pernoitar com eles; de manhã teria de voltar de ônibus para  o norte, perdendo a minha liberdade por muitas horas. Eu não estava disposto  a isso. Sobretudo porque prometera a Amnon—que pretendia ir ao casamento no transporte especial, saindo de Jerusalém, junto com seus pais, que também haviam sido convidados—que lhe daria uma carona na garupa da moto  direto para Tel Aviv. No caminho poderíamos enfim realizar a nossa "reunião  astrofísica", combinada há tempo.
A cerimônia estava marcada para as sete e meia, mas Eyal nos fez jurar que  chegaríamos ao local ainda à luz do dia, para apreciar o lento e maravilhoso crepúsculo da região. "Não percam o pôr-do-sol no deserto", avisou-nos repetidas  vezes. Mas não foi só por causa do pôr-do-sol que a nossa carrocinha saiu às três  da tarde: foi principalmente para tornar um pouco mais suave e humana a jornada de duzentos e cinquenta quilômetros que tínhamos pela frente. Em geral  meu pai era bom motorista, mas ultimamente andava se perdendo, enquanto  dirigia, em devaneios que, não fosse a constante vigilância da minha mãe, já  teriam provocado uma desgraça. E havia o problema da orientação. O caminho  para o local do casamento era simples e direto, mas eu sabia que às vezes eram  exatamente as estradas principais, com o fluxo de tráfego correndo sozinho, que  confundiam o meu pai. Ele guiava ansioso, com medo de perder a saída correta, até não conseguir se controlar mais: de repente, num trevo qualquer, resolvia que já era hora de fazer a conversão e tomava um novo rumo sem pensar.  Dessa vez combinamos que ele não entraria em nenhum trevo sem que eu lhe  desse antes um sinal. E assim começamos devagar a viagem em comboio, eu na  frente, como um batedor de visitantes ilustres num país estrangeiro, abrindo caminho pelo labirinto de ruas de Tel Aviv, escoltando-os com precisão para a  rodovia. Permiti-me então abrir uma distância um pouco maior e até mesmo  perdê-los de vista por instantes, para depois voltar e conduzi-los pelo tráfego  intenso até o trevo onde tomamos o rumo sul. Agora as planícies em volta  ardiam com intensidade sob a luz quente que penetrava no meu capacete. Pois  embora ainda estivéssemos oficialmente no inverno, e os jovens meteorologistas, que nos últimos meses de neve haviam se transformado em astros populares na mídia, ainda insistissem em prever frentes frias com chuvas e tempestades, o calor da primavera já confortava os campos devastados pelas inundações,  os gramados destruídos pelo gelo, as árvores acossadas pelos fortes ventos; e até  mesmo a grande e larga estrada asfaltada parecia exalar um delicioso perfume.  Não consegui resistir: parei a moto no acostamento e, qual um zeloso guarda  rodoviário, fiz sinal aos meus pais para que também parassem; aconselhei-os a  abrir as janelas e respirar o ar puro.
Eu ainda carregava certa raiva e ressentimento por causa da frustrante conversa no escritório dela. Recusava-me a desistir, mas a segurança e determinação na sua tentativa de me afastar me impressionaram. Certo, de início eu não  tinha esperado nada. Depois do inesperado prazer que ela tivera com a minha  ardente confissão, porém, percebi que não me tornara de uma hora para outra  um lunático sonhador. Eu continuava sendo como sempre fui, um homem  equilibrado e realista, almejando aquilo que estava nos limites do possível. De  fato, a realidade provara que até mesmo uma mulher madura e distante como  ela podia ver em mim um homem viável, ainda que não soubesse como e por  quê—fosse por um lampejo de encanto pela minha juventude, fosse por algumas virtudes minhas, reveladas a ela sob a luz da Índia. Mesmo assim, ela me  dizia que bastava, afastando-me com firmeza, pois tinha medo, justificado, de  que eu fosse arrastado pelo meu desejo, cujo imenso poder ela tinha provado.  Talvez fosse mesmo necessário ponderar se existe alguma intenção positiva no  risonho comentário acerca do perigo que um solteiro representa para uma relação como essa. E justo agora, num estado de violenta paixão, eu precisava deixar de ser aquele solteiro teimoso, pois era o único modo de protegê-la de mim,  como eu estava protegido dela. "Talvez eu deva de fato me casar, tenha de me  casar"—essa frase começou a soar dentro de mim, a rodopiar na minha frente  sobre o negro asfalto, despertando o fluxo de sangue que me levou a acelerar, até que notei que o carro dos meus pais havia desaparecido atrás de mim. Se eles  apenas desconfiassem daquele meu novo pensamento, certamente se encheriam de alegria, mesmo que conhecessem o verdadeiro motivo. Pois eu sabia  que eles tinham se proposto fazer essa prolongada e cansativa viagem para um  distante matrimônio, com um presente caro no banco de trás, não só para  expressar seu afeto por Eyal e sua alegria pelo casamento, como também para  deixar claro para o seu filho único, que os escoltava de capacete e casaco de  couro, o que era importante de verdade para eles, o que era o mais importante,  acima de tudo, e como a solidão dele começava a assustá-los. "Se é assim, talvez seja mesmo necessário eu me casar", disse a mim mesmo em voz alta, desviando para uma estrada secundária de terra e subindo com a moto numa pequena colina, que me proporcionou uma visão ampla da rodovia, que se  estendia ao norte e ao sul, e também das comunidades agrícolas que envolviam com um agradável cinturão rural os bairros de Kiryat Gat—quadrados verdes  de cultivo de alfafa, campos de terra vermelha arados há pouco; até mesmo as  horrorosas fileiras de protetores plásticos brilhavam à ardente luz do sol, parecendo peças de aquecimento de um gigantesco forno. O trânsito na estrada  fluía calmamente, e algum tempo se passou até que distingui à minha frente a  expressão tranquila da minha mãe, que pusera um lenço na cabeça para proteger os cabelos do vento que entrava pela janela aberta. No banco traseiro estava sentado um jovem a quem haviam dado carona, Meu pai, que adorava saber  as opiniões dos caronistas a respeito do mundo, não tinha dado ouvidos a  minha advertência para que não ficasse parando no caminho para não retardar  a marcha da nossa pequena caravana. "Eles estão desfrutando a viagem", pensei comigo. Deixei-os passar e adiantar-se um pouco antes de ligar a moto e  seguir atrás, cuidando para que meu pai não tomasse de repente a direção de  Ashquelon.
No posto de gasolina na saída de Beersheva, concordamos todos que até ali  a viagem fora extremamente fácil e agradável, e sem dúvida conseguiríamos  cumprir o horário que tínhamos programado. Talvez até chegássemos mais  cedo. Mas depois que passamos a serra de Yeruham, coberta por uma exuberante relva verde graças às abundantes chuvas de um inverno generoso, e começamos a nos aprofundar no deserto propriamente dito, o céu se cobriu de nuvens,  e a luz quente e avermelhada que até agora tinha nos banhado e proporcionado uma deliciosa sensação de prazer, de repente tornou-se turva e amarelada.  "Estranho que chova exatamente aqui", refleti. De fato, as nuvens acima de nós  só tiveram força para deixar caírem algumas gotas grandes e frias. Porém junto  com elas um vento leste começou a soprar com ferocidade, a ponto de ameaçar  o equilíbrio da moto. Reduzi a velocidade, e a distância entre mim e meus pais  diminuiu. Dali por diante continuei a escoltá-los e também fui protegido por  eles; quando a ventania piorou, passei a viajar atrás do carro, que formava uma  barreira contra os golpes de vento repentinos que me açoitavam com violência.  O tempo todo minha mãe virava a cabeça para trás, preocupada com a minha  luta contra o vento e controlando meu pai para não me perder de vista. Vez ou  outra não se continha e erguia a mão num aceno estranho, misto de saudação  e encorajamento. Eu não tinha dúvida de que, no fundo, ela estava muito zangada com a minha excêntrica teimosia de chegar a um casamento distante em  cima de uma moto, mas estava certo também de que ela conteria sua ansiedade e não faria nenhuma crítica ou censura, agora que o fato estava consumado  e não havia retorno. E eu lhe agradecia esse compreensivo autocontrole retribuindo amigavelmente o seu aceno, continuando a combater o vento feroz.  Naquele ritmo, com certeza chegaríamos ao casamento apenas ao pôr-do-sol;  mas ao descermos devagar e com cautela os trezentos metros entre o planalto e  o trevo da Aravá, senti o vento enfraquecer. Após uma chuva rápida e morna que  nos banhou por alguns minutos na entrada da Aravá, o céu nublado e horrível  abriu-se rapidamente, e jorrou uma luz pura e desconhecida, rosa-violeta,  como em resposta ao grandioso crepúsculo que se anunciava ao longe, nos confins do mar Mediterrâneo. Meus pais sugeriram um breve descanso a quem estivera envolvido na batalha contra o vento durante a última hora, mas eu estava  ansioso por seguir viagem e devorar os cinquenta quilômetros que restavam. No  meu íntimo acreditava que o esforço de cumprir a promessa feita a Eyal de que  chegaríamos ao casamento antes do pôr-do-sol me daria alguma recompensa  secreta. Eyal esperava-nos com toda a sua ansiedade no portão do kibutz, como  se dali pudesse sugar de longe os convidados que na última hora desistissem de  vir por causa da distância. Quando reconheceu a nossa pequena e peculiar caravana aproximando-se do portão, seu rosto iluminou-se; quando chegamos, pôs-se a me abraçar e beijar com entusiasmo. Entretanto a sua expressão não era a  de um noivo feliz. Estava pálido e tenso, olheiras escuras circundavam seus olhos. "Venham cumprimentar a minha mãe", disse, "ela está à espera de  vocês"—e sentou-se na garupa da moto para nos conduzir a um pequeno  penhasco oculto atrás das casas. Ali se estendia um grande gramado em torno  de uma piscina cujas águas calmas à luz do anoitecer refletiam com elegância  e perfeição a sombra do imponente desfiladeiro que se erguia sobre elas. Mesas  brancas, redondas e pequenas, estavam espalhadas pelo gramado como gigantescos cogumelos, mas por enquanto havia poucas pessoas sentadas, observando pensativamente o jovem músico de cabelos longos sentado no trampolim  com o violão sobre os joelhos. Quando ele dedilhava o instrumento, quem sabe  apenas afinando as cordas, sem qualquer amplificador ou alto-falante, as delicadas notas impregnavam todo o lugar com uma atmosfera de boa vontade.  Talvez tenha sido essa atmosfera que me levou a finalmente decidir, antes de  partir, à noite, que era hora de me casar.
Vestida de branco, como se fosse ela a noiva, a mãe de Eyal estava sentada  sozinha e isolada no centro do gramado, com um copo de suco amarelo à sua  frente. Desde a última vez que eu a vira, parecia ter engordado ainda mais, apesar da dieta rígida que o filho lhe impusera; era como se não fosse a comida, e  sim a angústia por causa da partida próxima dele a responsável pelo seu aumento de peso. Eu me recordava ainda da sua beleza, capaz de despertar a minha  admiração quando era garoto, e sua face branca e pesada, coberta de maquiagem, aos meus olhos ainda guardava o antigo brilho. Os meus pais, que durante muitos anos não a tinham visto, de início tiveram dificuldade de reconhecê-la; quando ela se levantou para abraçá-los e beijá-los calorosamente, ficaram  impressionados e assustados com a sua aparência. Nesse ínterim surgiu Hadas,  vestida com simplicidade, serena e cheia de alegria, e apresentou-nos aos seus  pais, membros do kibutz, ainda com roupas de trabalho, fazendo eles próprios  os últimos preparativos para a cerimônia. "Eyal está o tempo todo preocupado  que as pessoas não venham", disse Hadas rindo um riso solto, "mas elas virão, e  algumas delas não vão surpreender só a ele, mas também a você", e desapareceu. Uma mulher jovem, com grandes olhos claros e cabelos encaracolados,  aproximou-se de nós e perguntou se queríamos beber alguma coisa. Meus pais  não recusaram a xícara de chá da tarde, que modestamente pediram com leite, enquanto eu, examinando o rosto da jovem e tentando me lembrar de onde a  conhecia, pedi um copo de vinho. Minha mãe aplaudiu o meu pedido:
"Ótima ideia!", disse. "Nós vamos acompanhá-lo e tomar vinho depois do chá."
"Não sei o que está acontecendo comigo", eu disse à mãe de Eyal sem conseguir desviar os olhos da jovem que se dirigia ao bar para pegar as bebidas, "mas  de repente estou emocionado por Eyal."
"Que logo seja a sua vez, Benjy", disse ela sorrindo amorosa, "você não vai  escapar."
"Não, ele não vai escapar", garantiu meu pai, falando por mim e apontando dois enormes pássaros que cruzavam a linha irregular e avermelhada do  penhasco, que ficara mais clara e nítida com o cair da tarde. Dirigiu-se à jovem  perguntando: "É possível que sejam aves de rapina?". Mas até a jovem colocar  na nossa frente as xícaras e o copo de vinho e erguer os olhos para o céu, as aves  tinham sumido numa das numerosas reentrâncias, cujo negro vazio a luz do  crepúsculo delineava com precisão. Então, num lampejo, identifiquei a moça:
"Você não é a Micaela?", perguntei surpreso.  Ela fez que sim. "Achei que você não conseguiria me reconhecer."  "Essa é a moça", apresentei-a alegremente aos meus pais, "que estava com  Einat em Bodhgaia e trouxe a notícia da doença para Lazar e a mulher dele."
Meus pais fizeram um ligeiro meneio de reconhecimento, e Micaela sorriu para eles; como se quisesse confirmar as minhas palavras, juntou as palmas  das mãos magras uma contra a outra, aproximou-as da face e fez um gesto tão  perfeito e gracioso que uma dor suave arranhou meu coração. A visão da grande sala do apartamento de Lazar e da mulher reanimou-se dentro de mim, trazendo um colorido turbilhão de imagens da Índia, sobressaindo dentre elas o  sorriso quente e vivaz da mulher amada.
"Quanto tempo você ficou no Oriente?", perguntou meu pai.  "Oito meses", respondeu Micaela.  "Tanto tempo assim?", admirou-se minha mãe.  "Isso não é nada", desdenhou Micaela, "se o meu dinheiro não tivesse acabado, teria ficado mais. Até agora ainda tenho saudade de lá."
"Mas o que é que há lá no Oriente que atrai tanto os jovens?", espantou-se  meu pai.
Ela o observou, ponderando a resposta.
"Cada pessoa é atraída por algo diferente. Eu fui atraída pela sensação de tempo, que lá é diferente. Quase me tornei budista." Disse isso com seriedade,  num tom que impunha respeito. Ficamos calados os três. Então ela fixou em  mim seus olhos grandes e claros, como se a sua saudade explícita se identificasse com a minha saudade oculta, e acrescentou num leve tom de crítica: "Todos  nós realmente ficamos admirados que você tenha voltado tão depressa".
"Todos nós?", surpreendi-me com o súbito uso do plural. "Todos nós quem?"  "Todos, ninguém em especial", retraiu-se, "outros amigos que são loucos  pelo Oriente como eu e que ficaram sabendo da sua história."
"Minha história?", corei de ansiedade. "Que história? Não entendo."  Ela parecia hesitar em responder, sorrindo de leve para si mesma e juntando o seu olhar ao olhar dos meus pais, virando-se para observar os dois ônibus  que haviam chegado pelo desfiladeiro e despejavam de uma só vez os numerosos convidados que Eyal temia que não viessem ao casamento.
De longe alguém gritou a Micaela que fosse ajudar a receber as visitas. Ela  se desculpou fazendo novamente a sua perfeita e graciosa saudação indiana e  desapareceu no meio dos convidados que se espalhavam aos poucos pelo gramado, trazendo do norte os primeiros sinais de escuridão. Depois fiquei sabendo  que ela também estava ligada ao kibutz, sem ser membro efetivo. Embora seus  pais tivessem partido de lá quando ela ainda estava na escola primária, Micaela  retornara algumas vezes para fazer trabalhos sazonais remunerados, ou como  atendente no refeitório, ou auxiliar de cozinha em casamentos e outras ocasiões  festivas. Ainda perturbado e impressionado com suas palavras, acompanhei seus  movimentos, porém colegas esquecidos da época do colégio e da faculdade de  medicina me abordaram e exigiram a minha atenção; meus olhos depararam até  mesmo com dois renomados professores do Hospital Hadassa, que Eyal conseguira convencer a vir ao casamento e agora cercava de cuidados, procurando  compensá-los pela longa viagem. Eyal parecia mais relaxado, e o sorriso esperto  tinha voltado aos seus olhos. Concordara em realizar o seu casamento no kibutz  não só por economia de despesas, mas também por causa dos seus planos—irrealistas, na minha opinião—de um dia abandonar o hospital e mudar-se para a Arava, tornar-se um médico mais "significativo" e desfrutar a paz e a tranquilidade do lugar. Ao menos no casamento reinava uma paz profunda e singular.
Meus pais, que sorviam agora com prazer o vinho que Micaela lhes trouxera,  faziam questão de reconhecer o fato e demonstrar seu apreço. Não havia música estridente, apenas o toque suave e agradável do violonista, cuja figura já se  transformara numa sombra sobre a prancha. Tampouco havia crianças barulhentas e mimadas correndo de um lado para outro feito diabinhos, como costuma acontecer nos casamentos. A mãe de Eyal já não tinha família, e os parentes  do pai haviam cortado contato após o seu suicídio, portanto a maioria dos convidados eram membros do kibutz ou simples amigos, jovens, a maioria solteiros.  Os jovens médicos do Hadassa mantinham a compostura sob o olhar atento de  seus professores. O único adolescente que viera de Jerusalém estava sentado  quieto entre o pai e a mãe. Tinha treze anos e era o irmão deficiente mental de  Amnon, cujos pais, assim como os meus, haviam sido convidados, pois Eyal também frequentara sua casa após a morte do pai e não era homem de esquecer  quem lhe fizera algum bem no passado. Meus pais e os de Amnon pareciam mais  do que satisfeitos por terem sido convidados para aquela cerimônia no deserto e  muito felizes por terem se encontrado. Depois de terem falado um pouco de si  mesmos, revivendo lembranças, na sua visão paternal, de esquecidas travessuras dos alunos da nossa classe, meu pai tentou descobrir em que pé estava o trabalho  de doutorado de Amnon; para meu espanto, vi minha mãe, que sempre tomava  cuidado para não tocar meu pai em público, rapidamente apertar a coxa dele  com força, pois com sua aguçada intuição já percebera que o doutorado do meu  amigo Amnon estava mais empacado do que ele e os pais revelavam, como se  algo do espírito deficiente do jovem irmão estivesse penetrando no irmão adulto, que sempre fora hábil e talentoso.
Meu pai, entendendo o sinal, interrompeu suas perguntas e sorriu amavelmente para Micaela, que se aproximava com uma grande bandeja oferecendo-nos tortas quentes e muito cheirosas. Parece que era costume no kibutz servir a  refeição principal antes da cerimônia, para que os convidados famintos não  ficassem impacientes com o ritual em si; esse ritual ali era levado muito a sério,  oficiado em estilo original por um rabino e uma rabina reformistas, vindos especialmente do moshav (1) Yahel, que ficava mais ao sul. Eu estava ansioso por continuar a conversa com Micaela, levá-la a um canto afastado para descobrir exatamente qual a "minha história" que tinha insinuado. A intensa saudade que ela  confessara sentir da Índia, com a disposição de voltar para lá a qualquer momento, também aguçou a minha vontade de aprofundar contato com aquela  memória viva e, dessa forma, refrescar as minhas lembranças, que nos últimos  meses vinham se diluindo cada vez mais. Assim, mesmo sem terminar de comer  minha torta—aliás, extremamente saborosa—,levantei-me e toquei o ombro  de Micaela antes que ela fosse absorvida pelo grupo de jovens locais, amigos de  Hadas, que haviam acabado de chegar ao gramado banhados e arrumados após  o dia de trabalho. "Desculpe, Micaela", chamei-a deliberadamente pelo nome,  "será que podemos conversar um pouco em algum momento, esta noite?" Ela  corou, como se o meu ligeiro toque no seu ombro contivesse uma intimidade  que eu desconhecia.
 
(1) Moshav é uma forma de assentamento agrícola semelhante ao kibutz. A diferença fundamental é que admite propriedades privadas de seus membros, ao passo que o kibutz, ao menos do  ponto de vista conceitual, é absolutamente coletivo. (N. T.)
   
 "Conversar? Por que não?", respondeu.  "Mas quando?", pressionei. "Quando você estará livre para conversar?"  Ela me olhou com seus olhos enormes. "Já estou livre", respondeu séria,  sem sorrir, "só me espere devolver a bandeja."
Foi colocar a bandeja de volta no bufê. A facilidade e a prontidão de sua  resposta despertou em mim, ali cercado pelos convidados de Eyal, meus amigos de infância esquecidos, uma ideia que, num primeiro momento, pareceu-me surpreendente e inquietante, mas também me atraiu e excitou. Na verdade, por que não ela? Se eu estava de fato precisando me casar para parecer  menos ameaçador para a mulher por quem me apaixonara, talvez uma moça  "budista", delicada e fluida como ela, capaz de vagar livremente e cheia de saudades de um lugar para outro, fosse ideal para mim.
Ela tirou o aventalzinho e o pendurou com naturalidade numa cadeira,  dizendo com um sorriso simpático: "Estou à sua disposição".
"Então vamos para um lugar mais tranquilo", sugeri, tentando insinuar  que gostaria de ter uma conversa especial. Ela não se surpreendeu com a sugestão, embora a pracinha gramada onde nos encontrávamos estivesse bastante  sossegada, com as pessoas conversando em voz baixa, indo vez ou outra até o  bufê servir-se de mais fatias da perfumada e deliciosa torta. Inicialmente ela me  levou, como conhecedora do lugar, na direção das casas do kibutz; de repente  parou e, como se tivesse tido uma ideia melhor, retornou pelo mesmo caminho, passou de novo pelo pequeno desfiladeiro e, sem me perguntar nada, dirigiu-se  para o lado escuro do penhasco, por um caminho montanhoso visível entre as  rochas calcárias, amareladas sob a luz das lâmpadas distantes.
"Venha", disse em tom de cumplicidade, "se você não se  importa de escalar um pouco, podemos nos sentar tranquilamente lá em cima e ver o que acontece; assim, saberemos quando a cerimônia vai começar para descermos de volta  a tempo." Não me parecia bonita, porém muito simpática e agradável. Seu corpo  magro era esguio e comprido demais para o meu gosto; as feições do rosto miúdo,  pequenas demais para conter seus enormes olhos, que agora, sob a luz do luar,  brilhavam como duas lâmpadas azuis. Subi atrás dela em silêncio, surpreso com  o fato de ela ter decidido me fazer percorrer a longa trilha rochosa e sinuosa, que  parecia nos atrair para o alto em meio à paisagem desértica, onde vez ou outra se  ouvia o bater das asas de algum pássaro assustado deixando o ninho.
"Os budistas podem se casar?", escapou de mim a estúpida pergunta,  acompanhada de um riso sem graça.
"Podem fazer tudo", respondeu depressa, sem demonstrar qualquer surpresa pela pergunta. "O budismo não é mais uma religião autoritária buscando  formas de assustar as pessoas para que tenham medo dela; é um caminho para  tornar mais fácil suportar o nosso inevitável sofrimento." Falou com seriedade,  e a expressão "inevitável sofrimento", proferida em tom sincero e convincente,  despertou em mim uma onda de  afeto por ela. "Pena que você não pôde ficar  pelo menos mais alguns dias nos mosteiros de Bodhgaia", prosseguiu, "lá você  teria compreendido sozinho o que eu jamais conseguiria lhe explicar." Mais  uma vez percebi na sua voz uma crítica por não ter aproveitado melhor a minha  inesperada missão na Índia.
"Mas como eu poderia ter ficado?", procurei me justificar, como se fosse  mesmo culpado. "O senhor Lazar estava com muita pressa de voltar, e eu não  podia deixar Einat sozinha nem um minuto, o estado dela era realmente grave."
"Sim, o estado era grave", concordou com delicadeza, "e se não fosse você  ela também não teria voltado de lá." A trilha fez uma curva, e de repente parecíamos ambos suspensos sobre o retângulo azulado e reluzente da piscina cercada de convidados que jantavam. Foi uma visão adorável, pois estávamos ao  mesmo tempo perto da pracinha do casamento e ocultos, absortos em nós mesmos e concentrados na "minha história"; ou melhor, na história de Einat, a qual não tive que fazer o menor esforço para tirar de Micaela, pois jorrou dela com  a mesma facilidade e objetividade com que falava sobre todas as outras coisas,  dando-me prazer e calma após longos meses de tensão interna.
Ela conhecera Einat e outros dois israelenses na rua em Calcutá; Einat,  ainda no início da viagem, estava impressionada com o que via. Micaela, por sua  vez, era veterana, experiente em Índia, após longas viagens pela Índia Central e  três meses intensos em Calcutá. Ali se juntara a médicos voluntários franceses e  suíços, que ofereciam aos habitantes atendimento gratuito em ambulatórios  improvisados nas calçadas. Ela auxiliava esses auto denominados "médicos das  calçadas" em troca de duas refeições diárias e de local para pernoitar. Conhecera  Einat na calçada, quando ela viera pedir um curativo para um ferimento na  perna. Micaela sentira imediatamente que Einat queria apegar-se a ela, pois  estava muito assustada com a realidade de Calcutá, talvez mesmo arrependida  de ter ido à Índia. Mas Micaela também percebera que era o pavor típico daqueles que sentem que, por causa da pobreza e da feiúra, existe também uma força  espiritual capaz de dominá-los, especialmente aqueles cujo senso de identidade  esteja um pouco fragilizado, que se sintam incapazes de atingir seus objetivos,  ansiosos por fugir de qualquer lugar que seja. E, de fato, Einat convencera seus  dois amigos a fugir de Calcutá e subir até o vizinho Nepal, para mergulharem na  gloriosa paisagem natural das montanhas do Himalaia. Depois de duas semanas,  para surpresa de Micaela, Einat estava de volta a Calcutá, sozinha, e a procurara na calçada onde costumava ficar. E assim tinha começado a ligação entre  ambas, muito forte no início, depois gradualmente mais fraca. Einat trabalhara  junto com Micaela no serviço de atendimento dos "médicos das calçadas", mas  logo desistira e juntara-se aos jovens que viajavam para um curso de meditação  Vipassana em Bodhgaia, e não por causa do curso em si, mas porque era uma  pessoa do tipo que prefere fugir a procurar.
"E você?", perguntei a Micaela.  "Eu?" Ela refletiu um pouco,  procurando dar uma resposta sincera.  "Parece-me que eu sou exatamente do tipo que prefere procurar em vez de  fugir, mas talvez esteja enganada."
Então distingui meus pais. Estavam de pé, conversando com os professores  vindos de Jerusalém, vez ou outra olhando em volta, como para descobrir onde  eu tinha me metido. Amnon, não longe deles, gesticulando animadamente, conversava com duas colegas do ginásio, enquanto seu irmão mais novo, deitado na grama, tentava desmontar uma duchinha de jardim. Era impossível localizar Eyal e Hadas no meio dos convidados; com certeza estavam se preparando  para a cerimônia. A mãe de Eyal permanecia no lugar onde a tínhamos encontrado ao chegar, imóvel, congelada como uma estátua branca, o prato de comida intocado à sua frente. De vez em quando seu olhar vagava em direção à pequena fenda no penhasco onde estávamos sentados, como se tivesse visto alguma  coisa. Naquele momento, de um dos cantos do gramado, ergueu-se uma canção  suave, de uma delicadeza que não me era familiar: vinha de um pequeno grupo  de homens e mulheres do kibutz com partituras nas mãos.
"Olhe, está começando", disse Micaela, "você já quer descer?"  "Não, por quê?", recusei. "Se você não se importa, acho que vai ser mais  gostoso assistir ao casamento aqui de cima; além disso estou ansioso para saber  o resto da história, principalmente a parte onde eu entro. Veja, você disse há  pouco que Einat foge, mas foge exatamente de quê?"
"De quê?", Micaela espantou-se com a pergunta. "Em primeiro lugar, dos  pais dela, e talvez também de outras coisas."
"Dos pais dela?", ironizei, cheio de curiosidade e profunda excitação, pois talvez enfim ouvisse algo que não sabia sobre Lazar e a mulher. "Em que sentido?"
"Em que sentido você deve saber muito bem", retrucou depressa; "você  não esteve ao lado deles durante duas semanas?"
"Certo, estive mais ou menos ao lado deles", respondi com calma e frieza  de espírito, decidido a forçá-la a atacá-los para que eu pudesse defender a  ambos, minha amada e também seu marido, "mas eles me pareceram pessoas  simpáticas, unidos demais, de forma um pouco exagerada, às vezes até patética, porque, por exemplo, a mulher quase não consegue ficar sozinha consigo  própria, sem o marido, mesmo por pouco tempo. Mas é só isso."
"Talvez seja só isso para você", respondeu Micaela com uma espécie de raiva  contida, não muito compreensível, "mas pelo jeito é muito mais para alguém que  vive com eles, como Einat. Essa ligação maluca do casal deixa-a totalmente sufocada. Às vezes me parece que, se não tivessem levado você para a Índia, não teriam  conseguido tirá-la dali. Ela teria morrido nas mãos deles na volta."
"Morrido nas mãos deles?", repeti as palavras estarrecido, pois senti que  Micaela tinha uma profunda objeção, não muito clara, a Lazar e a mulher.  "Você está exagerando. E, além disso, não pense que é tão fácil morrer."
A canção lá embaixo começou a ficar mais forte e também mais elaborada; as frases musicais simples e agradáveis, ainda que pouco familiares, tornaram-se mais complexas
e ricas. Dois casais vestidos de azul-claro dirigiram-se ao  centro do gramado, carregando a hupah.(2) Inseriram os quatro mastros em buracos feitos com antecedência na grama e desenrolaram o pano colorido e ricamente bordado, grande e largo, sob o qual às vezes se casavam no kibutz vários  casais de uma só vez. Estendida a hupah, o pequeno coro se aproximou, como  se tivesse a intenção de incentivar, com a força do cântico otimista, o jovem  casal que embarcava numa jornada corajosa e ousada. Então surgiu o casal  reformista, um rabino e uma rabina, vindos um de cada lado, envoltos no talit —o xale de orações; fizeram uma ligeira reverência, um pouquinho irônica,  um para o outro, e também se colocaram sob a hupah. Uma menina muito   bonita, filha do kibutz, subiu no trampolim da piscina, caminhou até a ponta e com um gesto majestoso convidou Eyal e fiadas a se aproximarem para se casar.
   
(2) Hupah: dossel; cobertura, geralmente feita com um belo pano bordado—às vezes, porém,  constituída pelo próprio talit (xale de orações)—,sob a qual se realizam as cerimônias de casamento judaicas. (N. T.)
   
"Receio que vai ser meio ridículo", disse para Micaela, perguntando a  mim mesmo se a mãe de Eyal realmente estava prestando atenção no filho.
"Por quê?", protestou ela. "Eu conheço o ritual, é sempre muito bonito e  autêntico. Se eu me casar algum dia, quero que seja desse jeito"—seu rosto  enrubesceu, como se ela estivesse assustada com as palavras que tinham escapado de sua boca. Foi justamente aquele rubor súbito e delicado, irradiando da face  que cercava aqueles olhos espertos e em absoluta desarmonia com o tom lógico  e mesmo seco das suas palavras até então, que tocou a raiz do meu coração. Não  consegui me controlar e ousei estender a mão para roçar os seus cachos.
"Quando a vi na casa dos Lazar, logo depois que voltou da Índia, você estava com a cabeça raspada, e cheguei a confundi-la com um garoto. Como é que  os seus cabelos cresceram tão depressa?" Percebi que  ela não tentou afastar a cabeça da minha mão; ao contrário, pareceu trazê-la ao meu encontro para deixar mais clara a intenção daquela mão encostada.
"Sei lá", deu de ombros e riu, "meus cabelos crescem, parece que não  sabem fazer outra coisa. Mas vamos descer e ver como estão conduzindo Eyal."  Agora, de fato, ele estava sendo conduzido, vestido de branco, pelas mãos de  seus dois padrinhos, que o seguravam com força. Um era o pai de Hadas, e o  outro, para minha surpresa, o seu professor, diretor do departamento de pediatria do Hadassa, que Eyal havia escolhido para substituir o pai que se suicidara.  "Que brilhante e perspicaz da parte de Eyall", pensei com meus botões depois  que os três desapareceram debaixo da hupah. Foi um jeito de despertar uma responsabilidade emocional, que poderia ajudá-lo no dia em que decidissem sobre  a sua permanência no hospital. Do outro lado, vinha Fiadas, conduzida pela  mãe e por uma mulher desconhecida, deslizando, não porque estivesse suspensa no ar, mas porque vestia um legítimo vestido branco de noiva, que chegava  até os pés. A mãe de Eyal não tivera força ou vontade de conduzir a noiva do  filho até a hupah; permanecia sentada no lugar, quieta, pensativa, ensimesmada, desviando ocasionalmente os olhos na nossa direção, como se nos visse. De  repente todas as luzes foram apagadas, e alguém pediu  que os convidados se  levantassem. Dois intensos feixes de luz brilharam sobre a hupah, iluminando as ricas formas e cores do tecido bordado. A água na piscina, que não se via na  escuridão, começou a reluzir. Fez-se um silêncio profundo, a ponto de se poder ouvir o bater das asas de aves noturnas que sobrevoavam o desfiladeiro sobre  nossas cabeças.
"Agora não vamos conseguir ver mais nada daqui", sussurrou Micaela,  inclinando o corpo na tentativa de enxergar alguma coisa da cerimônia iniciada sob a hupah reluzente, estendida sob os nossos pés. Pelo decote de sua blusa  branca vi seus seios pequenos e firmes projetando-se, soltos e livres, do corpo  fino e esguio. Pensei nos meus pais ali em pé junto com os demais convidados,  apreciando a cerimônia mas talvez também se perguntando quando chegaria  a vez deles de me acompanhar para o ritual: Naquele momento desejei satisfazer o seu desejo e ser absorvido, também eu, como meu amigo Eyal, sob uma  hupah reluzente, ficar diante de uma mulher jovem e escutar algo acerca do  casamento, algo como o que estava sendo dito ali, na escuridão da noite, por um casal de sacerdotes jovens invisíveis, estimulando e apoiando os cônjuges com  palavras calorosas.
"Na realidade é mais gostoso assistir ao casamento aqui do alto", cochichei  a Micaela, que tentara captar alguma coisa do que se passava sob a hupah e voltara a sentar-se, abraçando os joelhos.
"Queria agora ver os dois bem de perto", disse, sem sinal de aborrecimento, apenas constatando com uma espécie de aceitação, aparentemente consequência do seu "budismo" e também de uma postura básica de serenidade lúcida, que—senti de repente—seria capaz não só de acomodar o estranho amor  que me aprisionara, mas talvez até de aplacar a sua dor.
"Sinto muito ter feito você ficar aqui", desculpei-me com os modos ingleses que aprendera em casa, usados sempre  que alguém impunha sua vontade  sobre o outro, "mas até agora não chegamos ao final da história que você prometeu contar. Quer dizer, o que foi que Einat contou a meu respeito, se é que contou alguma coisa?" Um leve sorriso tomou conta dos lábios de Micaela—muito  diferente daquele que havia tocado o meu íntimo: um sorriso absolutamente  não automático, nem injustificado; ao contrário, muito cético, mas de boa índole. E enquanto a cerimônia de casamento, que se desenrolava na piscina aos nossos pés, chegava ao fim, ela me contou que Einat não tinha a mínima ideia de  que seus pais pretendiam buscá-la na Índia. Alguém que chegara de Bodhgaia a  Calcutá contara a Micaela sobre uma garota israelense muito doente de hepatite no mosteiro tailandês. Pela descrição, Micaela reconhecera Einat e, achando  que talvez ela tivesse contraído a doença de um dos enfermos tratados na época  em que atenderam juntas, sentira-se moralmente responsável e viajara para  Bodhgaia para cuidar dela. Quando a vira estendida naquele quartinho, amarela e prostrada, coçando-se e sofrendo, concluíra que era necessário avisar aos  pais, para que viessem ou mandassem alguém para tirá-la dali. No começo Einat se recusara até a dar o endereço dos pais, como se estivesse interessada em mergulhar fundo na sua doença e desfrutar dela, talvez porque estivesse segura de  poder recuperar-se sozinha pelas próprias forças. Mas Micaela receava que, se a  deixasse ali sozinha, ela poderia piorar, pois ainda em Calcutá notara na amiga  o desejo oculto de brincar com a morte. Em vista disso, contrariando sua crença  de que todo homem é responsável pelo seu destino, decidira antecipar a sua despedida da Índia e insistira que Einat pelo menos escrevesse uma carta para os pais. Assim que chegara a Israel, correra para a casa de Einat em Tel Aviv, para  avisar os Lazar sobre o estado da filha. Quando, duas semanas depois, Einat vira os pais entrando apavorados no quartinho, não ficara apenas surpresa por ter feito  que percorressem um caminho tão longo e cansativo: ficara desesperada, pois não tinha dúvida de que não seriam capazes de permanecer calmamente ao seu  lado, cuidando dela até melhorar; que insistiriam em levá-la imediatamente de  volta, carregando-a com o resto de suas forças. Mas quando vira entrar atrás deles  um médico jovem e desconhecido, que, em vez de fazer perguntas irritantes,  ajoelhara-se em silêncio ao seu lado e a examinara inteira, meticulosamente,  lentamente, tinha ficado mais animada, sentindo que poderia entregar-se com  segurança às mãos dele.
"Sim, podia mesmo se entregar com segurança", deixei escapar a frase, que  podia ser interpretada como arrogância pela minha interlocutora, mas foi dita  numa explosão emocional genuína, provocada pela lembrança do saco de dormir jogado num canto do mosteiro e das duas japonesas desorientadas, agachadas junto ao seu pequeno fogareiro a gás. "Ela por acaso também lhe contou  sobre a transfusão de sangue que fiz em Varanassi?", apressei-me em perguntar  a Micaela com profunda ansiedade, pois a sua narrativa começava a me atrair,  como se, por meio da sua história, eu pudesse dissipar o espesso nevoeiro que  envolvia não só as minhas ações, mas também a minha própria imagem naquela viagem à Índia.
"É claro, ela contou tudo", disse Micaela, "e eu não sei se é verdade ou se  é só fantasia, mas até agora ela alega que você salvou sua vida."
Fiquei muito comovido. Quis permanecer em silêncio, permitindo que  essas maravilhosas palavras se assentassem na minha alma machucada. Mas  não pude me conter e, num sussurro perguntei: "E você? O que lhe parece?  Verdade ou fantasia?".
Ela não se admirou com a estranha pergunta. Um leve sorriso passou pelo  seu rosto, que não era bonito, mas cujos olhos grandes e brilhantes continham  a essência de algo mais forte do que beleza. "Acho que você salvou a vida dela",  respondeu com simplicidade, sem hesitar, generosamente, e aí não consegui  mais me controlar e me debrucei sobre ela, muito emocionado; segurei-a com  as mãos às quais Einat sentira poder se entregar com segurança e abracei-a calorosamente, tomando cuidado para não dizer nenhuma palavra de amor, para não estragar o amor verdadeiro que levava no meu coração por aquela mulher,  Só me permiti dizer com absoluta sinceridade:
"Eu gosto muito de você. Gosto muito, muito, de você." Afaguei seus cachos com as duas mãos e com cuidado encostei meus lábios nos seus olhos. Num  movimento cuja naturalidade indicava longa experiência, ela deslizou seus  lábios para os meus, arrancando de mim um beijo de verdade, prolongado,  enquanto lá embaixo os cânticos iam sumindo, as luzes se reacendiam iluminando o gramado, e gritos desejando felicidades saudavam o casal, estragando  um pouco, com a sua simplicidade, o caráter solene da cerimônia recém-terminada.
Agora tínhamos que nos apressar e descer. Mas o beijo parecia ter grudado  um ao outro, pois, mal tínhamos começado a trilha de volta pelo lado escuro do  penhasco, Micaela parou e me convidou para entrar numa espécie de pequena  gruta ou esconderijo. E sob o amargo odor de ervas do solo desértico e seco, não  tive de me esforçar muito para tirar sua blusa branca e expor ao luar frio seus  seios, que me levaram a encostar minha cabeça entre eles, para sentir sua confortante maciez e talvez também para aspirar o que nela restava da forte indianidade. Mas logo percebi que a sua rica experiência com homens e a honestidade da sua forma direta de pensar não me permitiriam contentar-me em ficar  com a cara enfiada entre dois seios gelados: um par de pernas magras e um tanto  duras já se enrolava com força em torno do meu corpo, puxando-me para o chão  seco, exigindo que eu desse o que se espera de um homem que coloca o rosto  entre os seios de uma mulher. Assim, começamos a nos dar prazer, sem paixões  tórridas, mas também sem sofrimento ou embaraço; sem palavras de amor que  pertenciam a outra pessoa, mas com delicadeza e generosidade, o que permitiu  a ambos não só o prazer mas também o rápido gozo conjunto e, é claro, totalmente silencioso, pois afinal ela também sabia que meus pais, além de muitos  amigos dela e meus, encontravam-se a poucos passos de nós.
"Você acredita em reencarnação?", sussurrei quando ela terminou de vestir suas roupas e tirar dos cabelos cacheados os grãos secos de areia, virando-se  no escuro para tomar a trilha e me devolver aos meus pais. Parou surpresa, como  eu queria que ficasse.
"Reencarnação? Reencarnação de almas?", repetiu cravando em mim os grandes olhos, que traziam agora um novo sinal de crítica. "Acho que não é adequado justo você falar nesse assunto."
"Por que não é adequado para mim?", perguntei curioso.  "Porque achei que um médico já devia saber."  "Saber o quê?", perguntei confuso.  "Saber que não existe alma", retorquiu.  "Não existe alma?", perguntei achando graça, mas também um pouco  assustado com a veemência de suas palavras.
"É óbvio", disse com um toque novo de impaciência na voz, "a alma nada  mais é do que a criação imaginária de pessoas que não conseguem suportar a  ideia de que não trazem dentro de si algo fixo, imutável, que precisa ser o tempo  todo cuidado e agradado."
Havia algo delicioso e cativante no tom zangado de suas palavras, por isso  continuei a provocá-la enquanto descíamos depressa pela trilha.
"Então, o que é que encarna se não é alma? Ou será que não existe nada  que passa de uma pessoa a outra?"
Ela silenciou por um instante, examinando-me para ver se estava brincando ou perguntando a sério. Explicou que aquilo que encarna ou recomeça é apenas um conjunto de tendências e aptidões que passam por transformações infinitas; afinal os seres humanos não são fixos, são apenas uma cadeia de eventos  que se repetem, pois a energia que utilizamos, a energia necessária a qualquer  atividade material ou espiritual, não é consumida, é liberada no final dessas  ações, para ser reutilizada. E assim eventos ou ações que ocorreram no passado  ocorrem outra vez numa nova roupagem. Algo inédito na sua personalidade,  simpático mas também um pouco sectário, revelou-se enquanto ela discorria  sobre suas concepções, com gestos firmes e decididos. Entusiasmou-se tanto  com as próprias palavras, que não percebeu que tínhamos chegado à área iluminada, e os convidados em volta, segurando canecas de café cheiroso, observavam  a nossa entrada, talvez cônscios de que durante a cerimônia estávamos em outro  lugar, um lugar mais íntimo. Sem dizer nada, numa espécie de acordo, separamo-nos, e cada um seguiu seu caminho, misturando-se com os amigos. De um  canto surgiu Eyal, na sua roupa branca de noivo; abracei-o e beijei-o emocionado. "Mas onde você se meteu?", perguntou, um pouco magoado.
"Micaela me levou até lá em cima no penhasco e assistimos ao casamento  do alto", contei. O sorriso esperto voltou a brilhar nos seus olhos, como se tivesse entendido tudo que se passara acima da sua cabeça durante a cerimônia.
"Então no final ela acabou realmente agarrando você."  "Me agarrando?", repeti confuso.  Eyal persistiu. "Uma semana atrás ela quis saber de Hadas se você vinha ao  casamento, e só quando garantimos que sim, decidiu vir também."
Fiquei atônito e quis tirar dele mais detalhes, porém os meus pais tinham me  visto e vinham depressa na minha direção, com medo de que eu sumisse de novo.
"Onde você esteve?", perguntou meu pai, com as maçãs do rosto coradas  pelo vinho. Contei-lhes que assistira ao casamento do alto do penhasco com  Micaela. Minha mãe ficou calada, olhos fixos em mim. "Será que ela consegue", pensei, "descobrir pela minha cara o que acabou de acontecer lá em  cima?"
"Foi uma bela cerimônia", eu disse; "tive medo que pudesse ser ridícula, e  no final foi até comovente." Ambos confirmaram minhas impressões. Estavam  muito contentes por terem descido até o coração do deserto. Agora teriam assunto para conversar durante anos. Mas já queriam seguir caminho. Eram apenas  nove horas, porém a viagem até o mar Morto poderia demorar mais de hora e  meia, e meus pais estavam acostumados a ir para a cama às dez. Fui chamar  Amnon, que viria conosco. Foi meio difícil afastá-lo das conversas emotivas com  os antigos colegas, mas afinal cedeu. Começamos a nos despedir de todos, e eu  obviamente procurei por Micaela. Por um momento me pareceu que ela havia  desaparecido; logo a vi sentada sozinha a uma mesa, jantando avidamente.
Deveria insistir em lhe dizer antes de me despedir, pensei enquanto a  observava tomando vinho num copo grande, que não valia a pena desistir da  alma com tanta facilidade, ou que deixássemos aquela discussão acalorada para  nosso próximo encontro, pois eu tinha certeza de que haveria um próximo  encontro. Aquela moça tinha algumas características que me agradavam  muito. Não só a liberalidade e liberdade que ela demonstrava, mas também a  sua auto suficiência e a forma como se contivera, apesar da expectativa pela  minha chegada, esperando que eu me levantasse e a procurasse. "Gosto mesmo dela", pensei, "até do jeito como ela come sozinha, morrendo de fome. Pode ser um par perfeito para mim, justamente porque não quero, e não posso, me apaixonar por ela, pois afinal o coração ainda arde na paixão por aquela que transformei na minha senhoria. Assim, para que discutir agora sobre a alma e convencê-la de que existe, uma vez que exatamente a sua visão de mundo é que lhe  dá liberdade, e é disso que preciso agora, um casamento com liberdade, para  eliminar a preocupação daquela que tem medo do meu desejo?" Fui me despedir de Micaela. Ela não pareceu constrangida; ao contrário, olhou direto para  mim. "Com certeza você também está com fome", disse ela sorrindo e apontando para o prato servido à sua frente.
"Sim, estou com fome, mas os meus pais já estão querendo ir embora."  Não consegui me conter e acrescentei: "Mas quanto à alma ainda vamos ter  outra conversa, porque agora estou do outro lado da mesa de operações. Não  mais cirurgião: anestesista. E é difícil trabalhar com anestesia sem acreditar que  é possível encarnar e desencarnar a alma".
"Você virou anestesista de uma hora para outra?", perguntou em tom  calmo de surpresa e tomou um longo gole de vinho, procurando captar o sentido da minha mudança profissional, pois afinal a medicina não lhe era totalmente estranha após três meses de trabalho ao lado de médicos nas calçadas de  Calcutá.
"Sim", respondi, mais uma vez acrescentei uma frase que imaginei lhe  agradaria escutar: "Faço dormir aqueles que na verdade nunca estiveram despertos". Ela captou a mensagem, deu um sorriso breve, um pouco amargo, que  eu ainda não conhecia, totalmente diverso daquele sorriso generoso que conquistara o meu coração. Trocamos telefones e combinamos nos comunicar em  Tel Aviv no fim de semana seguinte. Enquanto me despedia, vi minha mãe  parada por perto observando-nos.
Antes de pegarmos a estrada, ofereci-me para dar uma volta de moto com  o irmão deficiente de Amnon, que olhava para a motocicleta com imensa admiração. Coloquei o capacete na sua cabeça e, com extremo cuidado, levei-o para  um passeio vagaroso entre as casas do kibutz. Ele ficou com medo mas muito  excitado, abraçando-me com força por trás. Meus pais me agradeceram calorosamente. Quando deixamos a área habitada e iluminada do kibutz, rumo à  estrada da Aravá, percebemos a intensidade do brilho da lua, que se erguera há pouco do lado do Jordão, e a generosidade com que iluminava a estrada, possibilitando-nos desenvolver uma velocidade razoável. Eu havia dito a Amnon  que assumisse a direção do carro dos meus pais, pois confiava nele não só como  exímio motorista, mas também como a pessoa que mais conhecia o caminho e  era capaz de nos conduzir a todos com segurança. Chegamos ao trevo da Aravá  em trinta minutos e cerca de vinte minutos depois passamos pelas brancas fábricas de potássio de Sodoma. Só então reduzimos um pouco a velocidade, na  estradinha sinuosa junto à margem do mar Morto, para apreciar os magníficos  contornos das montanhas de Edom sob um luar celestial e principalmente para  não perder a entrada do hotel dos meus pais, que era novo, fora aberto há pouco  e ficava relativamente distante dos hotéis mais antigos. Às dez e quinze Amnon  conseguiu enxergar uma pequena placa que nos levou a uma estrada de terra,  e encontramos o hotel mergulhado em trevas. Meus pais tinham se preocupado em avisar à administração que chegariam tarde; portanto, o funcionário da  recepção não ficou surpreso com a chegada, só um tanto admirado com o  acompanhante de capacete negro que carregava as malas. "Talvez possamos  conseguir um quarto para você e para Amnon, para passarem aqui a noite",  sugeriu minha mãe. Amnon gostou da sugestão. Estava exausto, após um dia  cansativo e uma noite de guarda, e também lhe agradava a ideia de passar uma  noite inteira fofocando comigo sobre o casamento. Mas eu recusei. Estava  ansioso por voltar ao meu apartamento, ficar sozinho e botar em ordem as  minhas novas ideias. O encontro sexual inesperado também me deixara mais  animado. "Não se preocupem", disse aos meus pais, "a noite está limpa, e a  moto está completamente em ordem. E um toma conta do outro", acrescentei  no final, repetindo a frase que costumava dizer ao meu pai sempre que saía à  noite para a farra com um amigo. Tomamos café preto no saguão do hotel, e  numa das máquinas automáticas comprei um pequeno tablete de chocolate  para matar a fome que começava a me perturbar. Tirei da caixa preta da moto  um capacete de reserva para Amnon, e pegamos a estrada. Nesse ínterim, como  por milagre, a lua havia seguido para oeste e desaparecera do céu da Aravá, que  se enchera de estrelas. O caminho beirando o mar Morto, que conduzia ao  entroncamento de Jericó, estava vazio como uma estrada particular, e seguimos  por ele no meio da pista, sobre a linha divisória branca. Pela força com que  Amnon agarrava a minha cintura, percebi que estava assustado com a velocidade que eu desenvolvia, mas lentamente relaxou e permitiu-se erguer a cabeça  para apreciar o caminho. Em pouco tempo, descortinou-se à nossa esquerda a  fortaleza
de Massada, que na quietude da noite parecia uma antiga torre de controle de aeroporto surgida das profundezas do mar. Alguns minutos depois divisamos as luzes da cerca de Ein Guedi e as casas da escola rural sobre o vale de  Arugot. Engatamos numa subida íngreme para o alto dos penhascos, e foi preciso controlar a moto para não capotar, devido ao meu entusiasmo com a visão  da planície e do lago abaixo de nós. E então iniciamos a descida rumo ao lago,  passando depressa ao lado de Mitzpeh Shalem e entrando numa estrada reta,  onde a motocicleta pôde chegar facilmente a cento e quarenta quilômetros por  hora. Nem notamos a entrada das fontes de em Fashcha. Se não fosse a curva  que a estrada faz para o leste após as grutas de Kumran, possivelmente também  teríamos passado ao lado delas sem notar a sua existência. Apenas a silhueta  grande e lúgubre do velho hotel abandonado de Kalyia, impondo-se sobre a  margem, avisou-nos que estávamos prestes a deixar o lugar mais baixo do  mundo. E já podíamos ver as placas verdes do trevo de Alamog indicando a direção oeste, rumo à suave subida que nos conduziria à cidade da nossa infância  comum, Jerusalém.
"Mas quando, Benjy, vamos ter tempo de conversar sobre a sua teoria astrofísica?", gritou Amnon aflito no meu ouvido. Ele estava percebendo que, na  velocidade em que íamos, em pouco tempo chegaria ao ponto final da viagem,  diante da sua casa em Tel Aviv, sem ter oportunidade de me demover das  minhas ridículas asneiras referentes à Breve história do tempo.
"Você tem razão", gritei de volta. "Pensei em sentar em algum café no centro de Jerusalém, mas talvez seja tarde para entrar na cidade, Jerusalém não é Tel  Aviv. Então vamos dar uma parada daqui a pouco, e quem sabe o céu límpido  me ajude a lhe explicar as minhas ideias." Depois de Mitzpeh Yericho, num  lugar chamado Mishor Adumim, saí da rodovia principal e peguei uma pequena estrada de terra que nos levou até um misto de árvore e arbusto no alto de uma  pequena colina sobre a qual o céu se estendia como uma brilhante hupah, infinita e, ao mesmo tempo, íntima, pois até mesmo as torres distantes de Jerusalém  estavam junto conosco debaixo dela. Tirei o capacete, preparando-me para  explicar ao meu amigo no silêncio da noite a nova teoria que se formara no meu  cérebro nas últimas semanas. Antes fui obrigado a adverti-lo de que não me interrompesse, mesmo que ouvisse coisas esquisitas—ideias novas sempre parecem ridículas no começo. Ele fez um muxoxo e sentou-se no chão à minha frente. Por algum motivo, não tirou o capacete, e parecia um distraído ser extraterreno  recém-chegado de uma estrela. Entre os galhos das árvores ao seu lado, ouviu-se  um ruído de pássaros, cuja paz aparentemente perturbamos.
"O próprio Hawking admite", comecei, "que ele tem dois problemas não  resolvidos: o do início e o do fim, que obviamente não são independentes um  do outro. O primeiro problema, relacionado com a estranha teoria da expansão  de Guth, fornece um índice peculiar de expansão da matéria durante os segundos iniciais após o Big Bang. O segundo problema é o que acontecerá com o  universo no final. Hawking aponta três alternativas: a primeira, que ele próprio  considera pouco plausível, é que é a expansão das galáxias continue ocorrendo  no mesmo ritmo, o que é extremamente duvidoso, pois a força da gravidade—que fiquei admirado em saber que é a mais fraca de todas as forças da natureza,  mas acaba sendo forte porque não há força de resistência—tenderá sempre a  aumentar num universo em expansão, até que finalmente as forças da gravidade e da expansão se equilibrem, brecando a expansão. Também a teoria contrária—de que o universo irá se contrair, pois a massa gravitacional será maior do  que a força de expansão e aos poucos conduzirá o universo de volta à condição  inicial do Big Bang- não é muito plausível, porque as descontinuidades no  processo farão que seja interrompido. A alternativa mais plausível é que a força  da gravidade e a força de expansão se equilibrem mutuamente, interrompendo a expansão. Mesmo assim, resta a pergunta: qual é a simetria entre o início dramático, estarrecedor e incompreensível do Big Bang, (que, a partir de um ponto  de volume zero e de densidade infinita, gerou todo esse universo imenso) e o  que haverá de restar no fim (uma espécie de universo estático e imóvel, onde  reinará equilíbrio pleno e absoluto entre a gravidade e a expansão)? Qual a relação entre o começo e o fim? Essa é a pergunta que eu me faço. Você está me  acompanhando?" Ele fez que sim com a cabeça, hesitante, como se quisesse  me corrigir, mas se conteve. "Não faz sentido um começo que não tenha qualquer semelhança ou ligação com o fim. Pois isso significaria que houve um  começo para o tempo e que houve alguma intenção nesse começo, e vão acabar dizendo até que Deus existe, algo que Hawking nega veementemente. No  entanto, no último capítulo somos obrigados a considerar que, da mesma forma que o universo teve início com uma grande explosão, no final chegará a uma  contração e um colapso absoluto, e então haverá conexão entre o começo e o  fim, que virá a ser um novo começo, pois esse é o único ciclo concebível." Uma  expressão de preocupação e suspeita tomou conta do semblante de Amnon, a  expressão de alguém sentindo que o amigo está dizendo coisas absurdas, infantis. Continuei falando depressa, de modo que ele não pudesse me interromper  antes que eu chegasse ao ponto principal. "Em resumo, o que eu quero é que  você pense nisso. Pode ser que eu não entenda muita coisa sobre esse assunto,  ou seja, talvez a contração do universo não ocorra segundo as leis físicas da gravidade e da expansão (pois segundo Hawking e outros existe um problema em  relação a isso), e sim segundo o espírito humano. Porque o espírito não é uma  coisa estranha ao universo: até a minúscula partícula primordial, que não tinha  volume e possuía densidade infinita, da qual eclodiu a grande explosão—vocês  próprios dizem que nela estavam contidas não só todas as possibilidades materiais que vemos hoje diante de nós, mas também todas as leis da física, da química e da biologia; em suma, tudo; quer dizer, inclusive nós como criaturas biológicas, e obviamente também os nossos pensamentos, e os nossos sentimentos; isto é, todo o espírito humano estava contido dentro daquele pontinho inicial,  e aí residia a sua especificidade. E em vista disso nós somos parte integrante  dela. Portanto, esse espírito é que será responsável por fazer o universo se contrair até o ponto inicial, que era, afinal de contas, o quê? Se o próprio Hawking  afirma que era como uma partícula de volume zero e densidade infinita—o  que é isso? Matéria? Não, apenas espírito, quer dizer, aquilo que eu chamo de  espírito."
"Eu não compreendo. O que é exatamente isso que você chama de espírito?", gaguejou Amnon.
"Você sabe muito bem; não comece agora a me pegar pela palavra", respondi com profunda irritação. "Espírito. Pensamento. O que nós estamos  fazendo agora. O que você faz no seu laboratório, o que você faz na sua mesa de  trabalho. A busca da lei, a busca do princípio que está por trás de tudo. Veja, essa  motocicleta é feita de matéria, mas também tem espírito, capaz de tirar todo  esse ferro do lugar e transportá-lo com rapidez pela estrada, contrariando as leis  da inércia, e levar-nos de um lugar a outro, contrariando as leis da distância. Do  mesmo jeito, muitas e muitas outras coisas. Até a força nuclear, capaz de explodir um objeto e transformá-lo em nada, em pura energia. E algum dia será descoberta a força capaz de explodir uma estrela, ou de movê-la, ou ainda de destruir uma galáxia inteira. E também de reduzir o tamanho do homem, modificar suas proporções e torná-lo menor, mais compacto, mais estável, e quem sabe  eliminar algumas de suas partes, colocar no lugar do coração um minúsculo  transistor que se encarregará de controlar o fluxo sanguíneo, que, aliás, talvez  também possa ser abandonado no futuro, restando apenas o cérebro, e também  encolhê-lo e transformá-lo numa espécie de placa de computador contendo  todas as funções, e depois abrir mão também da individualidade, pois não há  necessidade de tantos seres humanos diferentes; bastará apenas o princípio da  essência humana, a união dos pensamentos de todos num único recipiente; e  assim, lentamente, a matéria irá se contrair até se transformar em espírito, quer  dizer, transformar o universo inteiro no mesmo ponto do qual tudo começou,  quando a densidade era infinita e a curva espaço-tempo era infinita, pois essa  não é uma condição da matéria, e sim do espírito. Não lhe parece simples?" Ele  havia tirado o capacete e passava as mãos pelos cabelos. Parecia haver perdido  a conexão com as minhas palavras, que lhe soavam literárias e supérfluas.
"Talvez seja interessante. Talvez seja até possível", disse com delicadeza,  mas sem entusiasmo real, pois eu o decepcionara com opiniões que, a seu ver,  nem eram dignas de discussão. "Mas acredite, Benjy, isso não é relevante para  nada daquilo que Hawking e outros afirmam. O que você está dizendo é misticismo, e o fato de você ser um bom médico não muda nada. Ainda antes de  conhecer você eu já dizia que é preciso excluir a medicina das ciências naturais." Todo o meu entusiasmo pelas minhas ideias singulares e pela possibilidade  de uma discussão construtiva desapareceu de vez.
"Pode ser", respondi em voz baixa. E após uma pausa acrescentei: "Não  importa. Não importa". Outra pausa. "Foi uma cerimônia gostosa", eu disse por  fim. "Em geral, detesto casamentos, mas desta vez foi muito tranquilo e agradável. Palavra, Amnon, que eu seria capaz de me casar lá." De repente tive vontade  de lhe confessar, permitir-lhe partilhar de algo da minha vida, para compensar  a decepção que lhe causara com a minha teoria infantil. "E talvez realmente",  prossegui, "eu me case logo. Você está ouvindo, Amnon? É sério. Estou avisando: pode ser mesmo que eu me case muito breve e você tenha que descer de  novo para a Aravá por minha causa." Ele ficou sentado no chão, exausto, cabeça baixa, sem olhar para mim e também sem prestar muita atenção ao que eu  dizia, incrédulo—pois não era possível imaginar com quem eu me casaria -,  olhos cravados num grande corvo negro, que surgira de súbito no meio da ramagem, pousando num galho com um movimento amplo, observando-nos intensamente com seus olhos negros, até que ficou impossível saber se tinha medo  de nós ou se, ao contrário, estava prestes a nos atacar.

TERCEIRA PARTE
  
  
  
 
Morte
 
 

1.
 
Mas o meu casamento não se realizou na Aravá, e sim num pequeno salão  de festas no coração do velho triângulo central de Jerusalém. Apesar da agradável lembrança do casamento no kibutz, meus pais não viram razão plausível  para arrastar seus convidados, entre os quais parentes vindos especialmente da  Inglaterra, para a distante Aravá. Quanto aos pais de Micaela, eram separados e  haviam deixado o kibutz muitos anos atrás, não mantendo com seu antigo lar a  mesma ligação, que Micaela conservava.
Além disso, como estava fora de suas  possibilidades contribuir para as despesas, deram aos meus pais total direito de  escolher o local da cerimônia. De forma geral demonstravam certa indiferença pelo casamento da filha: apesar de Micaela não ser tão jovem como eu pensara—era até alguns meses mais velha do que eu—,não pareciam se incomodar com o fato de ainda ser solteira. Talvez porque achassem que uma moça tão  independente não precisava de um homem para tomar conta dela, ou porque acreditassem que, quando ela decidisse se casar, não teria dificuldade em  encontrar um pretendente. Quando fui apresentado—a cada um separadamente—como o futuro genro, decepcionou-me constatar que aceitaram a  minha existência como algo absolutamente natural; nem se impressionaram  com o fato de que o homem à sua frente era um médico formado com um futuro garantido. Era como se a Micaela deles pudesse escolher quem bem quisesse e ordenar: "Seja meu marido!". Ainda que entre nós tivesse acontecido o  oposto, pois a sugestão do casamento viera de mim, e ela não recusara. Talvez  por causa de sua premissa indiana de que não éramos duas almas ligadas por um  laço eterno, mas dois rios que corriam, cada um seguro da profundidade e independência de sua própria corrente, portanto não era preciso temer que as águas  se misturassem um pouco.
Assim Micaela explicava o fato de ter aceito a ideia de casar-se comigo  quando eu ainda nem estava pensando nisso. Dois dias após o casamento de  Eyal e Hadas eu já entrara em contato com ela—sem imaginar que os resultados seriam tão rápidos. Talvez justamente por eu não estar apaixonado e sentir  por ela apenas um grande afeto e profunda estima, as coisas transcorreram de  tal maneira que no meio do verão, uns três meses depois do casamento de Eyal,  também eu estava sob a hupah. Era uma noite abafada, e Eyal, Hadas e Amnon  me observavam e, perplexos, talvez achando muita graça, acompanhavam o  jovem rabino ultra ortodoxo enviado pelo rabinato local para consagrar o nosso  matrimônio, fazendo-o com especial meticulosidade e cuidado, como se estivesse tomado por alguma dúvida indefinida sobre a qualidade do casal à sua  frente. Afinal, ele não podia saber que Micaela estava no terceiro mês de gravidez; eu mesmo só fiquei sabendo no dia seguinte, quando ela me contou que  carregava no ventre o nosso fruto comum, perguntando-me com simplicidade  o que eu preferia—manter o filho ou abortá-lo? Como eu achava que estava  começando a conhecê-la nos meses anteriores ao casamento, fiquei surpreso  por não ter me contado, ainda que me apresentasse um motivo lógico e moral.  Micaela queria que a decisão de nos casarmos fosse tomada em absoluta liberdade, desprovida de qualquer consideração que não estivesse ligada estritamente ao nosso relacionamento.
"E se eu não tivesse pressa, ou até mesmo se não  quisesse me casar?", indaguei à mulher que acabara de desposar. "O que você  teria feito?" Ela refletiu um pouco e respondeu com franqueza:
"Acho que teria tido essa nossa criança sozinha, pois ela não tem culpa de  eu não ter lhe avisado lá no alto do penhasco."
Segundo seus cálculos, insistia, engravidara lá—tinha certeza, fora no  nosso primeiro encontro na Aravá—,como se fosse importante ter gerado uma  vida no lugar onde nascera e pelo qual nutria amor e saudade. Seria apenas vontade de ver um desejo concretizado? Parecia-me que não, pois, quando nos deitamos juntos três dias depois que voltamos do casamento de Eyal, não tive vergonha de me certificar que ela estivesse se cuidando e eu próprio tomei minhas  precauções. Ainda que Micaela me parecesse a moça ideal para me casar—já  que de um lado proporcionaria proteção para a minha paixão impossível, e de  outro me daria liberdade para satisfazer o meu desejo—,sem dúvida eu não  tinha intenção de forçá-la a casar-se comigo por meio de uma gravidez inesperada, recurso que nos dias de hoje não funciona para controlar as mulheres e  muito menos os homens. Mas quando ela me contou, no dia seguinte ao casamento, o segredo que carregava e explicou as razões de tê-lo ocultado, confirmou-se que eu tinha feito a escolha certa. Mesmo assim fiquei com um pouco  de raiva dela, por ter colocado em risco nosso fruto, e a si própria, quando montara pela primeira vez na garupa de uma moto. Micaela se revelara uma mulher  sem medos aparentes, e se tivesse algum medo oculto, era cedo demais para descobri-lo. Na primeira noite de Shabat, quando fui buscá-la no apartamento alugado ao sul de Tel Aviv, que dividia com duas outras pessoas, percebi, pelo jeito  como afivelou o capacete, a sua alegria de andar na minha moto. Ela ficou uma  graça debaixo do pesado capacete, que ressaltava a luminosidade dos seus olhos  enormes. Não me agarrou por trás; cruzou os braços sobre o peito e comentou  como eu dirigia devagar. No meu apartamento, não se apressou em tirar o capacete: ficou um longo tempo admirando-se no espelho, apreciando a sua nova  aparência, até que eu mesmo o tirei dela. O fato de termos tido uma relação  sexual plena na Aravá liberou-me da necessidade de calcular cada movimento  ou cada contato físico entre nós. Entretanto, ainda não tínhamos experiência  suficiente para interpretar direito a linguagem corporal um do outro. Assim,  enquanto eu tentava tirar o capacete da sua cabeça, ela enganou-se pensando  que eu queria sexo; abraçou minha cabeça com firmeza, fechou os olhos, acariciou-me e me beijou, agarrando-me sem parar até quase perder o equilíbrio,  e tive de erguê-la nos meus braços e levá-la para a cama, que, por algum motivo, eu ainda chamava no meu íntimo de "a cama da vovó", apesar de haver no  apartamento outras coisas que pertenciam a ela.
Para mim foi uma relação menos gostosa do que a primeira, embora mais  longa; chegou a me dar uma ligeira vertigem, talvez porque estivesse menos  excitado do que três dias atrás. Também a luz forte, que permaneceu acesa no  quarto, salientou demais a magreza dos membros nus que se moviam incansavelmente debaixo de mim, em contraste com a branca, macia e bem tratada  abundância da mulher madura que se deitara, não muito tempo antes, na  mesma cama. No final Micaela também emitiu dois breves gritinhos, que lembravam um pássaro sufocado e me deixaram incomodado, pensando que a  tivesse machucado, e, como médico, não gosto de machucar ninguém. Apesar da ligeira decepção, minha opinião sobre ela não mudou. Depois que nos vestimos, tomamos café e comemos um bolo que comprei especialmente para ela,  e mais uma vez adorei observar seus olhos enormes, que, do meio do seu azul  intenso, irradiavam fé e confiança nos seres humanos, contanto que não fingissem ser o que não são. Ela me perguntou sobre o meu trabalho no hospital e a  nova função de anestesista nas operações particulares em Herzlyia. Quis saber  se eu era capaz de identificar com precisão doenças raras e estranhas, com as  quais tinha deparado durante os três meses de trabalho junto aos médicos das  calçadas em Calcutá. Ela tinha um jeito original de descrever doenças e doentes; com seu estilo vívido, juntava descrições de sintomas físicos com penetrantes observações psíquicas, de tal maneira que os habitantes enfermos das ruas  de Calcutá pareciam ganhar vida e ocupar a minha sala com sua presença.  Como médico, foi para mim um prazer descobrir que ela não tinha medo de  doenças, e apreciei ainda mais o seu valor. "Que pena você não ter  estudado  medicina", eu disse, e ela concordou. Sim, às vezes tinha vontade de ser médica, mas como estudar  medicina se nem completara o curso secundário?
A informação de que abandonara os estudos na décima série, sem fazer as  provas de encerramento, preocupou-me um pouco, principalmente porque eu  sabia que a minha mãe logo descobriria e ficaria decepcionada, e talvez também o meu pai. Eu tinha a intenção de convidar Micaela para um passeio em  Jerusalém na semana seguinte e apresentá-la aos meus pais. Tomei cuidado  para não demonstrar o mínimo sinal de desapontamento nem fazer qualquer  comentário inconveniente sobre o fato de ela trabalhar como garçonete num  café no centro da cidade. Desde que voltara da Índia tinha dificuldade de encontrar seu lugar no mundo, talvez por causa da saudade e talvez também  porque a despedida da Índia fora forçada.
"Forçada?", indaguei com curiosidade. "Mas você não voltou só porque  queria informar aos pais de Einat que ela estava doente?"
"Não foi só por causa disso", contou honestamente. Gastara até a última  rúpia e não tivera coragem de se meter em alguma coisa que estivesse abaixo da  sua dignidade.
"O que, por exemplo?", perguntei meio ansioso. Ela se referia a pedir  esmolas, apenas pedir esmolas. Atividade que era compatível com a filosofia  que estivera namorando todo o tempo. Sorri aliviado, embora tivesse certeza de  que possuía experiência de vida comum com homens, pela facilidade com que  me tocara na primeira vez, e também pela naturalidade com que se levantou da  mesa, recolheu a louça suja e começou a lavá-la. Não procurei impedi-la; "ao  contrário", pensei, "é bom que ela já se sinta a dona da casa, apesar de ainda não  conhecer bem o meu apartamento novo". Ficou admirada que um homem  jovem como eu alugasse um apartamento tão sombrio e respeitável, com um  armário embutido ainda cheio de roupas de uma velha.
"Pelo menos fizeram algum desconto no aluguel?", perguntou parada ao  lado da pia. Sua voz mais uma vez traiu sua incompreensível hostilidade em  relação aos Lazar.
"Talvez", respondi e mencionei o aluguel que a minha amada havia fixado. Micaela achou o valor muito alto, não viu nele nenhuma consideração  especial pelo homem que os servira com tanta fidelidade. "Mas daqui é possível ver um pouco do mar", eu disse em favor do apartamento. Também descrevi o feixe de luz avermelhada do crepúsculo penetrando pela janela e caindo  sobre a pia. "Você sempre vai gostar de lavar louça aqui", eu disse sorrindo.
"Você acha que virei aqui especialmente para lavar a sua louça?", retrucou  com  ironia.
"Não especialmente", respondi com calma. "Eu quis dizer quando você  estiver aqui", e encostei os lábios no seu pescoço. Seus grandes olhos reluziram  e se fecharam por alguns momentos, enquanto ela procurava colocar a caneca  cheia de espuma sobre o tampo de mármore branco. Envolveu de novo a minha  cabeça com os braços, acariciando-me com a boca, e pela intensidade com que  afagou meus cabelos compreendi que queria voltar para a cama e esperava que eu correspondesse às suas expectativas. Esforcei-me ao máximo, mas recusei-me a ir para o quarto e tirar a roupa; propositalmente, insisti em fazer sexo de  forma mais improvisada, na cozinha mesmo, que se revelou de bom tamanho  para acomodar nossa relação amorosa, ainda que ficássemos batendo nos objetos à nossa volta e que a caneca cheia de espuma tenha caído dentro da pia, partindo-se em pedaços. Eu não consegui gozar, mas fiquei feliz por Micaela ter  gozado de novo, dessa vez sem gritos, só com um profundo suspiro. "Você me  ama?", ousei perguntar, quando seus olhos se acenderam como duas lâmpadas  azuis.
Ela pensou um pouco. "Exatamente da mesma maneira que você me  ama", respondeu sem sorrir, séria. E essa foi a política que adotou daí em diante—medir e avaliar seus sentimentos em comparação com os meus, isto é, com  o que eu declarava serem os meus sentimentos, pois desde o início tive o cuidado de não lhe revelar o segredo da minha profunda paixão pela mulher de  Lazar, com medo de que até aos olhos de uma moça livre e liberada como ela  tal paixão parecesse doentia ou antiquada.
Depois da meia-noite, apesar de uma inesperada chuva primaveril, colocou outra vez o grande capacete na cabeça e montou toda alegre na moto para  voltar ao seu apartamento. Ela podia dormir na minha casa, mas não se convidou, porque não trouxera pijama nem escova de dentes; eu também não queria que a nossa primeira noite juntos, que com certeza permaneceria na nossa  memória, fosse perturbada por pequenos desconfortos desse tipo. Assim, apesar  do meu sincero desejo de acelerar a nossa aproximação, preferi, depois de duas  relações sexuais seguidas, dormir sozinho na grande cama e botar as minhas  ideias em ordem. Ao voltar juntei os cacos da caneca espalhados na pia e os  guardei num saquinho plástico, não porque pensasse em colá-los, mas apenas  por julgar que aquela caneca fazia parte de um contexto, e eu não podia jogá-la  no lixo sem a autorização da dona da casa. No dia seguinte tornei a procurar  Micaela. Mesmo sabendo que no Shabat ela trabalhava o dia inteiro na cafeteria e não poderia encontrar-se comigo, eu queria combinar outras coisas para a  próxima semana e, principalmente, confirmar que viajaríamos juntos para  Jerusalém. Por causa da nossa conversa sobre a forte saudade que ela ainda sentia da Índia e que não se cansava de mencionar, eu tinha um pouco de medo  que sua vida cinzenta em Tel Aviv a estimulasse a fazer uma viagem súbita ao Extremo Oriente. Cabia a mim, se não quisesse perdê-la, cuidar para que o contato fosse mantido. Porém, nesse meio tempo eu acrescentara ao trabalho na  clínica particular em Herzlyia alguns plantões noturnos semanais num ambulatório ao sul da cidade, de modo que as possibilidades de encontro se tornaram  mais reduzidas. Convenci-a a vir à noite, após o trabalho, até o ambulatório,  para me fazer companhia, inclusive nas visitas às casas dos pacientes, o que  muito lhe agradava, por trazer recordações do tempo em que ficava com os  médicos nas calçadas de Calcutá. No início, a sua presença confundia os doentes e seus familiares—entrava atrás de mim uma jovem alienígena de capacete na mão e olhos enormes irradiando sinais de um mundo maravilhoso. Como  eu a apresentava como enfermeira, e às vezes ela de fato me ajudava nos exames  e nos cuidados médicos, logo se acostumavam. Também ela, para minha alegria, começou a se acostumar comigo. "Será que você gosta de mim?", eu perguntava para testá-la.
"Exatamente da mesma maneira que você gosta de mim", respondia com  expressão enigmática e um sorriso quase imperceptível. Entretanto parou de se  queixar de saudades da Índia, como se fossem um pouco mitigadas pela minha  presença, a presença do médico dentro de mim. Eu não tinha dúvida de que  esse meu lado a atraía, e talvez também fosse essa a razão por que tentara encontrar-se comigo no casamento de Eyal e Hadas. Ela me lembrava meu pai pela  forma como manifestava curiosidade e perguntava sobre doenças e sintomas,  às vezes até mesmo na garupa da moto, procurando entender a fronteira vaga e  tênue entre saúde e doença. Como no caso do meu pai, tratava-se de pura curiosidade intelectual, e não do desejo de identificar sensações corporais específicas nem tirar conclusões sobre seu próprio corpo, que, aliás, parecia bastante  saudável, conservando o bronzeado indiano que me chamara a atenção no  nosso primeiro encontro na sala de visitas dos Lazar, quando a confundira com  um rapazinho. Essa ligeira semelhança espiritual entre Micaela e meu pai  ganhou intensidade quando ambos descobriram uma linguagem comum, na  primeira visita que ela fez aos meus pais, dez dias depois do casamento de Eyal  e Hadas, do qual todos ainda nos recordávamos como um evento em que reinara uma atmosfera espiritual cuja natureza não conseguíamos compreender.
Essa visita foi importante para mim, porque queria sentir a reação de meus  pais a Micaela antes de tomar a decisão que selaria o meu destino. Se eles soubessem da gravidez, sem dúvida teríamos ido para Jerusalém de ônibus, evitando viajar de moto. Sexta-feira é o dia mais lotado de operações no hospital em  Herzlyia, pois os cirurgiões dos grandes hospitais deixam seus pacientes do serviço público aos cuidados da família nesse dia e dedicam-se a cirurgias privadas,  que às vezes se estendem até depois do início do Shabat. Foi o que aconteceu  naquela sexta-feira: das ondas do mar visíveis pela janela restavam apenas algumas faixas de espuma agitando-se na escuridão, enquanto eu ainda examinava  as pupilas do último paciente, envolvendo-o em lençóis aquecidos para devolver-lhe um pouco do calor perdido na operação. Apesar da hora, eu não quis  desistir da visita a Jerusalém; avisei meus pais que chegaríamos tarde demais  para a ceia de Shabat. Mas eles resolveram nos esperar, confiando que não nos  atrasaríamos tanto, e estavam certos: Micaela revelou-se muito rápida para se  arrumar, e fiz a moto correr bastante na viagem, tanto por causa da hora como  porque sabia que Micaela gostava de velocidade e esperava que eu a contentasse. Às oito da noite, quando começamos a subida de Shaar Hagai, a estrada de  repente se abriu diante de nós, totalmente vazia. A lua cheia, nascendo entre as  colinas, orientava nosso caminho, lançando seus raios entre os pinheiros e  ciprestes que, na intensa noite de primavera, exalavam um perfume que nos  acompanhou até a casa de meus pais. Meu pai, ansioso pela nossa chegada, escutara o ruído da motocicleta entrando na rua e saíra para nos receber na  escada. Percebi que ficou admirado, ou melhor, perplexo com os olhos gigantescos e impressionantes de Micaela. Eu sabia que também a cor azul, como a  dos olhos dele, despertaria sua confiança. E, de fato, imediatamente ele começou a cobri-la de atenções, pegou o capacete de suas mãos, ajudou-a a livrar-se  do casaco pesado que vestia e deu início, aquele homem sempre quieto, a uma  animada conversa. Minha mãe foi mais cautelosa; basicamente procurou examinar a minha expressão para saber o que eu esperava dela nessa visita imposta  por mim.
À noite, no meu velho quarto, Micaela insistiu em fazer sexo comigo. Isso  me pareceu dispensável, perigoso até, já que minha mãe tinha sono leve, em  especial depois da ceia, e com certeza se assustara com Micaela, que não se  esforçara nem um pouco para ocultar ou dissimular sua complicada situação dos últimos anos no que se referia a estudos ou profissão. Aparentemente, a  única coisa significativa que fizera tinha sido o trabalho de auxiliar dos médicos nas calçadas de Calcutá. E não relutou em revelar aos meus pais que não  havia concluído o curso secundário, sem demonstrar qualquer intenção ou  esperança de concluí-lo num futuro próximo. E embora ela irradiasse, do seu  jeito peculiar, independência e segurança, sem que isso diminuísse sua delicadeza e educação, eu sabia que minha mãe sairia da conversa preocupada e,  depois que meu pai adormecesse, continuaria zanzando inquieta entre o quarto e o corredor. Portanto não era adequado Micaela insistir em sexo justamente agora; no dia seguinte poderíamos ter sexo à vontade no meu apartamento,  sem sermos incomodados. "É o vinho que o seu pai me serviu que está fazendo efeito", justificou-se, beijando e acariciando a minha barriga. Eu me mantive firme na recusa. "Por quê?", admirou-se. "Posso me segurar para não gritar", garantiu. Não confiei na promessa: ultimamente, ela vinha exagerando  nos seus gritos e gemidos; eu já estava acostumado, mas não queria assustar a  minha mãe sequer com um eco deles, por mínimo que fosse. Com o desejo  insatisfeito, Mica ela ficou se virando na minha estreita cama de infância  depois que adormeci. Assim, na manhã seguinte, ela ainda estava em profundo sono quando me sentei à mesa para o café da manhã com meus pais, que  esperavam saber quais eram as minhas intenções, se eu realmente os levara em  consideração. Mas o que eu tinha a dizer? Podia mencionar alguma coisa sobre  o verdadeiro desejo que sentia pela mulher de Lazar, que continuava perturbando minha paz mesmo ali, na Jerusalém fria e primaveril, com o perfume  que exalavam as rosas de seus jardins? Podia contar a eles que o casamento que  eu programava ansiosamente, com seriedade cada vez maior, na verdade era  um meio de atingir a mulher impossível, que ainda ocupava os meus pensamentos mas se defendia de mim?
Antes que tivessem a oportunidade de me interrogar, pedi que me dissessem a sua impressão. Como eu imaginara, o meu pai, que se apressou em responder primeiro, absolutamente não via aspectos negativos em Micaela, apenas virtudes. "Ela é boa gente. É ótima. Vai ajudá-lo muito", afirmou com uma  segurança que não costumava ter em assuntos como esse, "e não parece mimada, apesar da sua delicadeza", acrescentou ruborizado. Minha mãe me surpreendeu, também falando dela com espírito positivo.  "Certo. Talvez pelo fato de estar procurando alguma coisa que ainda não está  muito clara para ela, ainda não tem o seu lugar no mundo e realmente é meio  atrapalhada nos seus caminhos. Mas estou segura de que, na hora em que tiver  um bebê, ela vai encontrar o seu lugar e será uma ótima mãe." Estranhei que  minha mãe tivesse tocado tão depressa num assunto que ainda estava totalmente fora do horizonte dos meus pensamentos, apesar de já ser algo concreto  naquele Shabat, na medida em que um feto de duas semanas pode ser concreto no útero de uma mulher adormecida na cama onde muitos anos da minha  vida haviam se passado. Três meses depois, após o nosso casamento—quando  contei aos meus pais sobre a gravidez e recordei à minha mãe as palavras que  dissera, manifestando meu espanto pela sua intuição oculta—,ela fez pouco  do meu espanto: "Nada de intuição oculta", disse, "não intuí nada daquela  vez". Senti na sua voz uma ligeira irritação; mesmo que ela talvez tentasse compreender, e até mesmo valorizar, os motivos de Micaela para esconder de mim  a gravidez, não conseguia evitar a sensação de que havíamos tomado uma atitude irresponsável em relação ao bebê. "Não são só vocês e os seus sentimentos  que existem no mundo. O bebê também é gente." Era estranho que se referisse  ao pequeno feto de três meses do mesmo jeito que Micaela, isto é, como um ser  completo e acabado. No fundo, a minha mãe tinha razão. Micaela de fato havia  colocado em risco a vida do feto nas suas viagens na garupa da minha moto, que,  com o incentivo dela, transformavam-se em corridas desenfreadas. Se ela tivesse me revelado a gravidez logo que a descobrira, um mês e meio depois que nos  conhecemos, eu a teria impedido de viajar na minha garupa, talvez até tivesse  pensado em trocar a moto por um carro, o que fiz depois.
Porém, até nos separarmos da querida moto, aproveitamos muito as nossas  loucas corridas, sobretudo a partir do momento em que insinuei a minha intenção de propor casamento em breve. Foi quando voltamos da segunda visita a  Jerusalém, de manhã cedo no Shabat, no meio do caminho, numa lanchonete  na estrada ao lado do aeroporto onde costumávamos parar. Ela estava sentada  diante do grande espelho que ficava atrás do balcão, cabeça enfiada no capacete negro, que ressaltava o brilho dos seus olhos e aumentava artificialmente o  seu rosto—também na opinião dela, pequeno e fino demais para dois olhos tão  grandes. Não se surpreendeu com a minha proposta; talvez tivesse sentido que causara boa impressão aos meus pais, apesar do colegial incompleto, da profissão indefinida e das insistentes saudades do Extremo Oriente. No entanto, a  intuição lhe dizia que eu procurava um relacionamento conjugal por alguma  razão que nada tinha a ver com a sua pessoa e que provavelmente não estava  muito clara nem para mim. Porém o novo ar de mistério e a estranheza, emanando de alguém racional como eu, apenas me tornavam mais atraente e excitante aos seus olhos. Beijei-a na testa, sentindo o duro capacete entre as minhas  mãos, e quis acrescentar "Eu te amo", mas não consegui; disse algo mais genérico, como "Existe amor entre nós". Era uma formulação mais exata e apropriada, pois o amor, apesar da outra mulher—a impossível—,estava colocado na  mesa entre nós como uma refeição rica e suculenta que Micaela também tinha  direito de provar. Ela escutou atentamente, pensou um pouco e disse:
"Se você está mesmo com tanta pressa de se casar, eu não tenho nada contra, na verdade gosto de estar com você. Só não entendo essa pressa toda. Será  que de repente você não aguenta mais ficar consigo mesmo? Se nós nos casarmos, vai ser em condições que não me impeçam de viajar mais uma vez para a  Índia, uma viagem não muito longa mas também não curta demais. É claro que  vai ser melhor se você vier junto, já que sentiu só um gostinho superficial, aliás  restrito a aspectos práticos. Mas se não puder vir junto, prometa que não vai me  impedir de viajar sozinha e que, se por acaso nós já tivermos um filho, você  tomará conta dele, ou pedirá aos seus pais—se vocês não puderem, vou ter que  carregá-lo comigo para a índia." Sem saber por que, fui tomado de uma sensação de felicidade tão intensa, que não consegui me conter, trouxe o seu rosto  para perto de mim, delicadamente soltei o capacete e, entre os seus lábios e dentro da sua boca, injetei um beijo prolongado, diante das poucas pessoas sentadas à mesa numa hora sabática tão precoce; e elas observaram o nosso beijo com  simpatia, como que aliviadas pelo fato de finalmente o capacete ter sido removido da cabeça daquela jovem mulher.
Em seguida Micaela acrescentou mais uma condição às anteriores: que a  nossa cerimônia de casamento fosse modesta e discreta, apenas com a presença de nossos familiares. E justamente essa condição simples e natural, que aceitei por princípio, gerou problemas e divergências. Quando a informei aos meus  pais, ficaram de mau humor e mergulharam num silêncio sombrio. Após alguns dias ambos começaram, cada um à sua maneira, a protestar contra a restrição imposta por Micaela. Como pais de filho único, sentiam-se não apenas  no direito, mas também no dever de celebrar uma cerimônia convidando todos  os amigos e conhecidos, para retribuir todas as festividades para as quais haviam  sido convidados. Mais do que isso, além da obrigação, tinham vontade de aproveitar meu casamento para pressionar seus parentes a virem da Inglaterra,  depois de tanto tempo que não nos visitavam em Israel. Não pude deixar de  reconhecer a justificativa moral de desejarem celebrar o casamento em grande  estilo, e pedi a Micaela que desistisse da última condição; mas de repente a sua  personalidade, que até então parecia afável e cordata, com sua serenidade  indiana, revelou um traço inesperado. Uma teimosia rígida, quase violenta. Ela  se recusava a voltar atrás. Cerimônias em salões de festas a revoltavam, e deixava de comparecer ao casamento dos seus melhores amigos quando eram realizados em locais desse tipo. Tampouco tinha prazer em participar das cerimônias mais agradáveis e espiritualizadas em Ein Zohar por causa do excesso de  convidados; só se dispusera a ir ao casamento de Eyal e Hadas porque queria me  conhecer, depois que ouvira de Einat a história da viagem à Índia. Ao perceber  que não conseguiria demovê-la, tentei convencer meus pais a se contentarem  com uma festa com bastante gente da família, talvez na casa de um dos nossos  parentes mais abastados nas cercanias de Tel Aviv. Eles ficaram muito ofendidos com a sugestão e não mostraram disposição de desistir. Comecei a atuar  como intermediário entre eles e Micaela. Às vezes, antes do meu plantão noturno, ia comer alguma coisa no café onde ela trabalhava como garçonete, só para  procurar convencê-la a mudar de ideia. Então meus pais me pediram permissão para tentar persuadi-la eles próprios e foram a Tel Aviv especialmente para  encontrar-se e conversar com ela sem a minha presença. Mas Micaela se manteve firme, como se todas as dúvidas que tinha em relação ao casamento se concentrassem na questão de haver muitos convidados ou apenas os parentes. E  acabou acontecendo que num determinado momento da conversa ela se dirigiu aos meus pais de forma rude e grosseira, e aí desmoronou e caiu num pranto amargo. Eles se assustaram e desistiram. Sua infelicidade me partiu o coração. Afinal não tinham o hábito de ostentar, eram de natureza modesta; se  faziam questão de uma cerimônia grandiosa, era porque sentiam obrigação de  retribuir aos parentes da Inglaterra os numerosos convites para comemorações  familiares que haviam recebido. Apesar de saberem que grande parte dos familiares certamente não viria, queriam mostrar-lhes que, em Israel, não os haviam  esquecido e ao mesmo tempo informá-los de que a misteriosa vida de solteiro do seu único filho estava chegando ao fim. Mas o súbito pranto de Micaela também tocou meu coração, pois ela não era do tipo emotivo: se havia caído no  choro diante dos meus pais, significava que outras razões a perturbavam. Talvez  estivesse incomodada com o casamento conturbado em que de repente se via  metida e no qual sentia, no fundo do coração, haver intenções estranhas e ocultas que não conseguia identificar. Certo, com a força da sua liberdade interior  e da sua visão de mundo fatalista, ainda tinha certeza de poder fazer frente a  mim. O mistério que cercava o meu comportamento aumentava a sua atração  por mim, mas também a deixava confusa. Comprei e comecei a ler um livro em  hebraico sobre religiões e filosofia indianas, na esperança de assim chegar mais  perto de suas ideias e dar-lhe uma compensação pela falta de amor.
Nesse ínterim, apesar de tudo, ela ficou sensibilizada pelas súplicas de  meus pais. Dois dias depois telefonou para eles por iniciativa própria e lhes disse  que concordava em ampliar até certo ponto a gama de convidados para o casamento—que seria daí por diante definido como "o casamento médio" capaz  de satisfazer a todos—,mas com a condição de aprovar pessoalmente o salão de  festas. Como este teria de ser mediano, não havia muita escolha; dentre as alternativas não muito animadoras, Micaela, que estava mais alheia a cada dia, decidiu-se por um salão não muito grande em um dos hotéis antigos de Jerusalém,  no famoso triângulo de ruas no centro da cidade. A entrada do hotel era horrorosa, embora o salão em si fosse agradável e bem cuidado, destacando-se principalmente por uma profusão de belas plantas; além disso, os donos se gabavam  da excelente comida que serviam. Dada a aprovação da noiva, voltamos de  moto para Tel Aviv e no caminho paramos na nossa simpática lanchonete ao  lado do aeroporto. Dessa vez Micaela estava tensa, um pouco triste; tirou sozinha o capacete e não ficou observando o seu reflexo no espelho enorme. Eu não  sabia que dois dias antes ela recebera o resultado positivo do exame do seu "atraso"; percebi a sua nova tensão não só pela aparência triste do hotel escolhido, mas também por sua decisão de esconder a gravidez de mim, para que não nos  atrapalhasse se resolvêssemos desistir do casamento na última hora. Pois talvez  fosse isso que esperasse no seu inconsciente, que me esforcei por compreender com interesse e preocupação, sentindo que mantinha com ele um diálogo à  parte, totalmente silencioso.
Enfim imprimimos os convites, um lado em hebraico e o outro em inglês.  Meus pais se apressaram em enviar os dos parentes da Inglaterra, para dar-lhes  tempo de preparar-se para a viagem. E então debruçamo-nos sobre a lista de  convidados. Meus pais elaboraram a lista com cuidado, para não quebrar a promessa feita a Micaela de realizar apenas um "casamento médio". E notei que  minha mãe sentia um misto de apreensão e pena em relação a Micaela, depois  da sua violenta explosão que se dissolvera em pranto. O problema, obviamente, era quem não convidar e quem convidar supondo que não viesse. Com essa  finalidade meu pai preparou três grandes listas dos possíveis convidados.  Primeiro pediu que eu lhe fornecesse os nomes das minhas pessoas "obrigatórias". Anotei obviamente os nomes de Eyal e Hadas, a mãe de Eyal, Amnon sem  os pais, e mais dois bons amigos da época do exército, e mais dois dos tempos da  faculdade de medicina. Acrescentei à lista o dr. Nakash e sua mulher, que  jamais tinha visto; hesitei um instante em incluir Hishin e acabei deixando-o  de fora, e acrescentei com segurança Lazar e a mulher, e naturalmente também  Einat, graças a cuja doença eu conhecera Micaela. Minha mãe sorriu com  amargura: "É estranho que nós não possamos convidar bons vizinhos, com  quem convivemos há tantos anos, enquanto dois completos estranhos como  Lazar e a mulher sejam nossos convidados".
"Seus convidados, não", reagi depressa agressivamente, "serão convidados  meus. E por que não? Tenho certo interesse em convidá-los. Mas não se preocupem, duvido que venham."
"Você vai ver, eles virão", disse minha mãe, confundindo meu pai, que  queria colocá-los na lista dos que não viriam. No fundo eu sabia que a minha  mãe tinha razão. A mulher de Lazar não perderia a oportunidade de me ver  casando, porque talvez estivesse começando a sentir saudade, e além disso sabia  que eu estaria me casando também por causa dela.
"E se não sabe", refleti, "preciso esclarecer. Então tenho que encontrar um  jeito de lhe entregar pessoalmente o convite." Certamente já tinha sido informada do casamento por Einat, com quem Micaela insistia em continuar mantendo laços de amizade, chegando a convidá-la numa sexta-feira à noite para vir  ao meu apartamento, para uma festa de despedida de solteira. Fiquei um pouco  ansioso com a sua vinda, pois não a vira mais desde o nosso  retorno da Índia.  "Bem, pelo menos você não teve dificuldade de encontrar o apartamento",  disse-lhe ainda na porta, abraçando-a levemente. Ela sorriu sem jeito e sua face  corou. Será que eu tivera para ela algum outro significado durante a nossa viagem conjunta? Estava um pouco mais gorda, os sinais da hepatite tinham desaparecido, e junto com eles se apagara o sutil bronzeado do sol indiano, que  Micaela ainda conservava. Einat tinha agora uma aparência saudável e muito  bonita. Vestia uma calça comprida preta de boca larga e uma blusa  de seda  branca com um coletinho vermelho ricamente bordado. Nas orelhas,  brincos  de pingente verdes, como os seus olhos. Mostrava-se intimidada e ao mesmo  tempo meio excitada por estar naquele apartamento tão conhecido, agora em  poder de mãos estranhas. Quando era estudante secundária, contou, amiúde  vinha direto da escola para a casa da avó, para almoçar e fazer seus deveres, e às  vezes passava também a noite, dormindo no sofá da sala de estar. "Era confortável dormir a noite inteira num sofá tão estreito?", perguntei.
"Mas quem disse que é estreito?", admirou-se Einat. "Ele pode facilmente  virar uma cama larga".
O fato de que o velho e modesto sofá pudesse se transformar numa cama  larga tinha até então passado totalmente despercebido para mim; não fosse por  Einat, é possível que um bom tempo ainda se passasse antes que me desse conta  disso. Apesar dos protestos de Micaela, desloquei as poltronas e a mesinha de  centro, e Einat me mostrou onde ficava a alavanca para baixar com facilidade  o encosto e transformar o sofá numa cama confortável, onde ainda estava guardado um velho lençol com dois grandes panos coloridos, que eram as duas partes, muito bem dobradas, de um leve pijama de verão da menina Einat. "Está  vendo? Que bom que você veio", eu disse a Einat calorosamente, "você achou  um pijama e nós descobrimos mais uma cama. Quando a sua mãe me passou o  apartamento, esqueceu-se de me contar as maravilhas do sofá."
"A minha mãe", Einat não conseguiu conter seu tom perturbado e hostil,  "mal sabe o que há no armário do seu próprio quarto."
Pego de surpresa, senti-me corar e perder o fôlego, como se a simples menção do quarto de dormir da minha mulher amada bastasse para trazer a lembrança fugaz, porém muito vívida, do seu corpo branco e pesado, e dos seus  pezinhos mimados, diante dos quais desejei ajoelhar-me no dormitório ao lado,  onde Micaela deixara a luz acesa depois de trazer um saquinho plástico para o  esquecido pijama de Einat, ali sozinha em pé, sorrindo, sem imaginar o que  acontecia dentro de mim.
Entrementes outros convidados bateram à porta, e foi preciso voltar  depressa o sofá para a posição original. Chegaram dois amigos "indianos" de  Micaela e Einat, um dos quais eu me lembrava de ter visto na fotografia que  Lazar me mostrara quando eu fora a primeira vez à sua casa—abraçado com  Einat e com outra moça na entrada de um templo. Ambos tinham voltado há  pouco da Índia, tendo ficado lá mais de um ano, e Micaela os recebeu emocionada, querendo saber detalhes sobre novos lugares que ainda não conhecia e  principalmente ter notícias de conhecidos, israelenses e outros, que circulavam  ou ainda circulam por lá. De repente o imenso subcontinente se transformou  num local quase íntimo. Como se fosse um grande kibutz cheio de recantos particulares e pessoas amigas, a ponto de me fazer sentir que a minha rápida viagem, que às vezes ainda se revolvia nos meus pensamentos, não tinha ocorrido  em solo concreto, parecendo mais uma espécie de devaneio longínquo. Fiquei  sentado quieto, apenas escutando, e só uma vez ou outra procurei fazer alguma  pergunta breve. Achei estranho que também Einat estivesse participando animada da conversa sobre a Índia, recordando lugares e pessoas como se também  fosse uma grande heroína, e não uma pobre enferma que mamãe e papai foram  resgatar e trazer de volta. Não conseguia desgrudar os olhos dela. Era simpática, mas não havia nada em seus gestos ou maneiras que lembrasse os gestos e  maneiras pelos quais me apaixonara. Sua fisionomia era diferente, algo parecida com a do pai, porém mais delicada e de cor bem mais clara. O fígado estaria  intacto após aquela história toda? Congratulei-me intimamente lembrando-me muito bem dos valores das transaminases. Eu tinha algumas perguntas  médicas na ponta da língua, porém me contive, pois não queria mostrar minha  imagem de médico numa noite alegre como aquela. Nesse ínterim um dos amigos "indianos" de Micaela percebeu o meu silêncio prolongado e propôs mudarem de assunto. "Mas a culpa é dele", zombou Micaela receando perder um  tema tão querido como a Índia, "ele poderia ter ficado lá um pouco mais, e não  voltar pendurado nos pais de Einat como um menino bonzinho. Não vai fazer  mal nenhum ele escutar um pouco as nossas histórias; quem sabe acabe ficando com vontade de viajar de novo comigo para lá." Nesse momento a campainha tocou, e Amnon, que havia encontrado alguém para substituí-lo durante  algumas horas na guarda noturna, entrou com uma garrafa de vinho tinto, e  atrás dele chegaram mais dois casais que vieram rejubilar-se conosco pelo tão  esperado casamento. Atrás dos casais, algumas pessoas desconhecidas, penetras  que tinham ouvido falar na festa, e o apartamento acabou ficando apertado,  "como a estação ferroviária de Calcutá", eu disse sorrindo para os amigos "indianos". A essa altura ninguém mais me ouvia, pois começaram a formar-se grupos menores, e parte dos presentes foi para o meu quarto, espalhando-se na  grande cama da vovó. Einat também foi para o quarto, tirou os sapatos e o belo  colete, deitando-se no meio dos outros. Aproximei-me e sentei-me ao seu lado;  conseguimos conversar baixinho no meio de toda a algazarra, tendo ela perguntado inicialmente sobre a avó, e ambos nos divertimos imaginando como ela  reagiria ao que estava acontecendo agora no seu apartamento; depois perguntei sobre os seus pais, e ela acrescentou, como por acaso, detalhes novos sobre  sua mãe. Eu ainda não tinha perdido a curiosidade médica: indaguei sobre seu  estado de saúde atual e, delicadamente, pedi-lhe que recordasse, apesar do  longo tempo decorrido, tudo que sentira desde que nos encontráramos pela primeira vez, no quartinho do mosteiro em Bodhgaia. No começo suas respostas  foram hesitantes, mas lentamente começaram a fluir com grande abundância  e precisão. Sua face brilhava, ganhando beleza na meia-luz do quarto. Ela também considerava a transfusão de sangue no albergue um ponto de virada na sua  doença. A mãe concordava com ela, e até mesmo o pai tinha parado ultimamente de questioná-la, embora guardasse certa irritação por causa da minha  histeria no aeroporto para obrigá-lo a pernoitar em Varanassi.
"Histeria?", perguntei surpreso ao ouvir a palavra sair com naturalidade da  sua boca. "Que absurdo! Por acaso dei a impressão de estar histérico?"
"Sim", respondeu Einat com cuidado. E ao ver a minha expressão ofendida acrescentou, medindo as palavras: "Você estava um pouco histérico. Mas talvez fosse justificado. Porque quando o meu pai tem um plano na cabeça, é difícil demovê-lo. E foi necessário você ficar histérico para impedir a viagem a  Nova Delhi". Continuei estarrecido, pois pela primeira vez na vida ouvia  alguém me chamar de "histérico". Sempre fui conhecido como rapaz ponderado, tanto que algumas das minhas namoradas me consideravam fleumático.  Teriam se revelado em mim sinais de histeria no aeroporto de Varanassi? Realmente, isso havia ocorrido. Podiam ser sintomas precoces de uma paixão súbita, que viria a explodir quatro noites depois no hotel em Roma, uma paixão que  eu não tinha comentado até então com ninguém no mundo, apesar de querer  revelá-la a alguém e até relatar o segredo do meu encontro amoroso com aquela mulher pesada que algumas semanas atrás estava estendida sobre a mesma  colcha da enorme cama onde agora se espalhavam diversas pessoas risonhas  que ignoravam os fatos, conversando baixinho entre si e exalando um leve cheiro de suor, enquanto olhavam com afeição para mim e para Einat. Ela estava  sentada em posição oriental, pequena e recolhida em si mesma, fixando intensamente seus olhos em mim e agarrando com os dedos nervosos as pontas da  colcha, como se quisesse me dizer alguma coisa, e de fato disse no final: "Sabe,  estou muito contente com o casamento de vocês, sinto até que tenho alguma  responsabilidade nisso".
"É claro", concordei dando risada, "você é totalmente responsável. Você  foi a nossa casamenteira secreta." Pensei um pouco e acrescentei: "E os seus pais  também".
"Meus pais?", assustou-se. "Como?"  "Talvez tenham me contaminado com o vírus da relação deles; têm uma  ligação muito especial."
Ela riu—um riso desagradável, um riso maldoso. Tive medo de que ela  contasse ao pai que eu chamara o amor dele de vírus. Era preciso tomar mais  cuidado com as palavras que escapavam da minha boca.
"Eles sabem que eu vou me casar?" Ela deu de ombros. Algumas semanas  antes saíra da casa dos pais para morar num quarto alugado. "Tenho que convidá-los", eu disse.
"A troco de quê?", perguntou com tristeza.  "Porque eles merecem", repliquei secamente. Seu semblante se turvou,  como se eu tivesse tirado dela a pouca alegria que conseguira lhe dar.
Eu ainda não sabia se a minha decisão de entregar pessoalmente o convite a Dori provinha do desejo de que ela e o marido comparecessem mesmo ao  casamento, ou se era apenas vontade de rever o seu rosto e lhe dizer: "Está  vendo? Sou um homem sério que cumpre suas promessas, e estou prestes a desposar uma mulher para proteger você de uma paixão doida e impossível, que  ocupa o meu pensamento o tempo todo, e também para que você me deixe  encontrá-la de vez em quando e descansar a minha cabeça na sua barriga  macia". Mas não queria ir ao seu escritório de surpresa e ficar espremido como  um pobre pedinte entre um cliente e outro. Assim, telefonei para ela e pedi um  encontro. Senti alguma hesitação na sua voz, mas também alegria e emoção.  Com certeza ela sabia do meu casamento, e talvez tivesse captado seu significado sem que eu precisasse explicar-me. Mas, quando propus um encontro no  apartamento,  respondeu muito assustada: "Não, não, ali não!". Combinamos  que eu iria ao escritório no final do expediente, quando as secretárias já teriam  ido embora e as salas de alguns dos colegas estariam vazias. Ela não estava sozinha; discutia com um casal jovem um assunto criminal qualquer. Sentado próximo à porta entreaberta, eu escutava sua voz clara e límpida explicando  pacientemente a questão. Um espírito ganhou vida dentro de mim, a doce dor  do meu desejo começou a tensionar suavemente os meus músculos. Dessa vez,  apesar da minha vontade, evitei surpreendê-la com um presente, para não  assustá-la de novo. Quando os clientes saíram e vi que ela não os acompanhara,  permanecendo sentada e silenciosa na sala, levantei-me, bati delicadamente à  porta e, sem esperar resposta, entrei, de cabeça meio baixa, para que ela não percebesse o forte rubor no meu rosto.
Será que ela também tinha corado? Difícil saber, pois encontrei-a ocupada retocando a maquiagem às pressas. Devia estar embaraçada, mas não a ponto  que atrapalhasse o seu famoso sorriso, tão caro para mim. O longo tempo decorrido desde o nosso último encontro naquela sala não tornou a situação mais  fácil—ao contrário. Mas ela era tantos anos mais velha do que eu, que mesmo  se quisesse eu não conseguiria liberá-la da obrigação de salvar a nós dois do  constrangimento e conduzir-nos a uma conversa efetiva, não apenas a um  amontoado de palavras vazias. Ela fez menção de se levantar para me receber,  mas desistiu e continuou sentada, talvez para esconder o conjunto elegante que  eu quis acreditar que havia vestido para mim, ou pelo menos para o nosso encontro. Sem mais esperar, entreguei-lhe o convite, que ela pegou com uma  espécie de exclamação, que pareceria exagerada, até falsa, se eu não soubesse  que era autêntica. Portanto, ela esperava que o meu casamento a livrasse de  mim. Aproximou o convite dos olhos e leu devagar primeiro o texto em hebraico, depois o texto em inglês. Meus olhos a acompanhavam atentos. Pareceu-me  que havia tingido os cabelos há pouco, pois o tom estava bem avermelhado.  Duas pequenas espinhas marcavam o seu pescoço, cujas dobras pareciam ter  ficado mais profundas desde que eu o beijara, e seu rosto estava ligeiramente  inchado, talvez como reação a hormônios que estivesse tomando. Mais uma  vez se confirmou aquilo que eu sabia: não era uma mulher bonita, e apesar disso  me fazia tremer de desejo. Ela não soltava o convite, virava-o nas mãos, de um  lado para outro. Perguntou onde ficava o hotel em Jerusalém e, depois que descrevi o local, perguntou por que não tínhamos escolhido um lugar mais agradável, fora do centro. Contei-lhe as objeções de Micaela a um casamento grandioso e acrescentei que, nos salões fora do centro, não tinha sentido fazer uma  comemoração média. Satisfeita com a explicação, sorriu e perguntou: "É um  convite de verdade ou só uma obrigação diplomática?".
"Totalmente de verdade!", respondi.  "Se é assim", disse ela, "daremos um jeito de ir. Por que não? Estou realmente feliz por você, e também por Micaela. Embora ela tenha ido algumas  vezes lá em casa, ainda me parece um pouco misteriosa, talvez por causa daqueles olhos esquisitos. Mas Einat sempre fala bem dela. Realmente, Micaela  merece um noivo como você, afinal foi graças a ela que conseguimos salvar  Einat a tempo."
"E graças a ela também conheci você", acrescentei depressa.  Ela sorriu com visível prazer e, com um gesto de afetuosa amizade, estendeu sua mão gorducha e sardenta para mim. Inclinei-me e beijei seus dedos.  Ela não tentou tirar a mão, apenas riu e disse baixinho: "Cuidado, Lazar já está  chegando para me pegar". O simples roçar dos lábios em seus dedos despertou  em mim uma excitação tão forte que precisei pressionar os joelhos um contra o  outro para ocultar o movimento silencioso da ereção, que possivelmente resultava também do pensamento prazeroso de que ela não confiava na sua própria  força de vontade e por isso tomara a precaução de combinar com Lazar que a  apanhasse no escritório.
"Segundo o nosso contrato", eu disse sorrindo, "tenho que pedir-lhe permissão para introduzir um novo morador no apartamento."
"É mesmo?", disse ela rindo surpreendida, como se não fosse responsável  pela redação do contrato. "Você precisa pedir permissão? Então a permissão  está concedida." Ficou séria de repente. "Mas, quando vocês tiverem um bebê,  vamos ter que ouvir a opinião da minha mãe." Por um momento tive a impressão de que esperava que eu perguntasse pelo estado de saúde da sua mãe, para  que pudesse falar bem dela. Mas eu não queria dizer nada vazio ou supérfluo —sabia que Lazar estava chegando e precisava aproveitar o tempo para lhe  dizer pelo menos uma palavra concreta sobre a dor da minha incessante paixão,  pois naquela época ainda não sabia que o futuro bebê ao qual da se referia já  era uma realidade.
Levantei-me de uma só vez, aproximei-me dela e num tom súplice e impotente sussurrei: "Mas e você?". Ela inclinou-se para trás na sua poltrona preta de  executiva e me lançou um olhar que continha um pânico novo, desconhecido  para mim. Antes que ela respondesse, acrescentei encabulado: "Pois apesar de  tudo isso", apontei o convite aberto sobre a mesa, "não paro de pensar em você o  tempo todo." O pânico desapareceu de seus olhos, e eles voltaram a sorrir.
"Não faz mal", disse tentando me tranquilizar, "eu também penso em  você. Não faz mal. Pensar não mata ninguém."
"Tem certeza?", perguntei confuso, cheio de alegria, ávido por beijá-la. Mas  ela estendeu o braço e empurrou meus ombros com força para me impedir.
"Você contou a alguém a meu respeito?", perguntou preocupada.  "Não, não contei a ninguém", respondi.  "Então não conte, eu lhe peço, se você quer que continuemos a nos encontrar."
"Mas por que eu haveria de contar?", eu disse indignado. "Para quem?"  O braço que me empurrava cedeu, e pude aproximar meu rosto do dela,  sentir seu perfume e beijá-lo rapidamente, e tudo isso já foi muito mais do que  eu esperava daquele encontro, mesmo acontecendo sob seus protestos.  Levantou-se bruscamente nos seus saltos altos e empurrou-me com um movimento firme, mas o sorriso vitorioso não desapareceu dos seus olhos. "Você quer  mesmo esperar o Lazar?", perguntou num tom em que vi certa malícia. "Ele  está querendo ver você."
"Ele sabe que eu estou aqui?", perguntei perplexo.  "Claro que sim", respondeu com naturalidade. Eu me sentia agitado e  feliz demais para encontrar-me com ele naquele momento. Preferi me despedir depressa e sair para a rua, onde já começava a escurecer.
Então parei. Apesar de tudo, quis me certificar de que ele viria, de que não  esquecera que era proibido deixá-la sozinha num lugar deserto como aquele,  que a escuridão primaveril absorvia rapidamente. Escondi-me atrás do tronco  de uma velha árvore de Tel Aviv, coberta de uma florada branca, até avistar seu  carro, que reconheci de longe pelas lanternas, entrando devagar na rua estreita  em busca de uma vaga para estacionar. Por fim desistiu, parou com dificuldade  sobre a calçada e, ao contrário do que costumava acontecer, não abriu a porta  imediatamente. Demorou alguns segundos para  sair, movimentando-se com  uma lentidão que não combinava com ele. De repente, tomado de terrível  curiosidade, perguntei a mim mesmo: "O que será que ele quer de mim?".  Num piscar de olhos, o medo de encontrá-lo desapareceu, como se a existência  recente de Micaela ao meu lado me desse uma nova força e posição diante dele,  e corri para alcançá-lo, ponderando que se tivesse outro convite de casamento  no bolso, não hesitaria em lhe entregar.

2.
    
 
Será chegado o momento de começar a pensar na morte? Então será preciso  buscar uma porta secreta pela qual ela possa ser introduzida dissimuladamente  numa alma, de modo que esta se acostume à sua presença silenciosa, como uma  pequena estatueta trazida para dentro de casa, seja como presente ingênuo, seja  como aquisição malfeita, que, por falta de equilíbrio estético, é colocada num  local íntimo, digamos, na mesinha de cabeceira junto à cama sobre uma toalhinha rendada, para valorizada, e tudo isso sem se pressupor que aquilo que aparenta ser a própria ingenuidade inanimada pode, uma noite qualquer, ganhar  vida, chutar a toalhinha rendada e, com um movimento ágil e silencioso, estrangulara alma cândida e perplexa.
De outra forma, como a morte seria possível na presença de um conselho de  médicos que, a despeito de suas divergências, estão determinados a combatê-la e,  com auxílio dos aparelhos mais sofisticados e dos mais eficientes medicamentos,  defender o bem-estar do corpo, que insiste não só em continuar existindo, mas também em apreciar sua própria existência? Portanto, será preciso encontrar o mesmo  parente esquecido, internado numa antiga casa de saúde mental, a figura magra  e misteriosa vestida de preto, com seus óculos de arame, para que ele concorde em  sentar-se à nossa frente, desfrutar finalmente a xícara de chá que lhe estava reservada e há muito tempo esfriou, e começar a discorrer para nós, num discurso organizado, sobre suas fantásticas concepções acerca do globo terrestre que permanece estático em seu lugar e onde cada hora é a última e suficiente em si mesma.  Assim poderá sossegar um pouco o nosso terror diante da morte embrulhado no  bolso interno de seu casaco na forma de uma estatueta de bronze esverdeada.
Mas no último momento, apesar de me encontrar a poucos passos de distância, desisti de abordá-lo, temendo que sentisse em mim o rastro do perfume  da mulher; eu também sabia que ele me pediria para acompanhá-lo, para não  deixá-la sozinha lá dentro, e não desejava confundi-la com uma nova aparição,  agora ao lado dele. Se ele tinha alguma coisa para me dizer, certamente encontraria ocasião no meu casamento, a que agora eu tinha certeza de que ambos  viriam, e essa vinda tão esperada encheu meu coração de alegria. Contudo,  pela primeira vez senti certo ciúme dele, quando, de volta ao meu esconderijo  atrás da antiga árvore de Tel Aviv, acompanhei com o olhar os movimentos dos  dois abrindo as portas do carro e entrando, sem parar de conversar um só instante, naquela ligação profunda e maravilhosa que até pessoas absolutamente  estranhas eram capazes de perceber. Como minha mãe, por exemplo, que se  admirou com esse vínculo logo que, graças à incansável eficiência de Lazar,  eles apareceram entre os primeiros convidados, ficando juntos, lado a lado, um  pouco constrangidos no salão de festas do velho hotel em Jerusalém, decorado com flores frescas que Micaela insistira em colher nas árvores, espalhando-as  para disfarçar um pouco o leve odor de umidade. Vieram sem Einat, que chegou depois sozinha trazendo um presente pessoal num lindo pacote. No dia  seguinte, quando o abrimos junto com todos os outros e descobrimos que era  uma pequena estatueta de barro estendendo numerosos braços para todos os  lados, Micaela ficou muito emocionada, soltou um leve grito e cobriu o rosto  com as mãos. Quando o descobriu, vi que as bochechas ardiam e os olhos estavam molhados. Contou-me que um monge em Calcutá tinha vendido a ambas  estatuetas idênticas, que lhes causaram profunda admiração. Einat sabia que a  de Micaela se perdera no caminho de volta para Israel e resolveu dar-lhe de presente a sua própria. Por outro lado, o presente dos pais de Einat—uma colcha  para cama turquesa, que fez meu coração bater mais rápido—absolutamente não agradou a Micaela. Como a colcha viera acompanhada de um cartão permitindo a troca, Micaela a trocou por uma grande almofada, e eu não me opus  porque não queria lhe dar nenhum motivo de suspeita.
Aliás, Micaela viu-se inclinada a trocar a maioria dos presentes que ganhamos, como se assim pudesse atenuar a impressão do casamento, que a incomodou durante um bom tempo, porque o número de convidados acabou sendo  grande, talvez justamente por causa dos sinceros esforços de meus pais para  organizar "um casamento médio num salão médio". Muitos dos convidados  que meu pai assinalara em sua lista na categoria daqueles "que seriam convidados mas não viriam", vieram sim; entre eles, para nossa grande surpresa, não  poucos parentes da Inglaterra, que viram no meu casamento um excelente pretexto para visitar Israel. A irmã de minha mãe e a irmã de meu pai obviamente  foram convidadas a hospedar-se na nossa casa, com seus respectivos maridos, e  meus pais lhes cederam o seu próprio quarto e também o meu. Portanto eu e  Micaela fomos impedidos de usar o local para nos prepararmos. Para não  chegarmos suados e desarrumados diretamente de Tel Aviv para a cerimônia, Eyal —que se considerava, aliás com toda justiça, o catalisador desse casamento—propôs que nos instalássemos antes e depois da cerimônia na casa de sua mãe, que muito se alegrou em nos receber, cuidando de nós com especial carinho.  Após um farto e delicioso almoço, ordenou que descansássemos no quarto de  Eyal, e ali me recusei terminantemente a fazer sexo com Micaela; eu já tinha  percebido que seu desejo se intensificava ao extremo em lugares estranhos. Eu  não queria de modo algum, nem com um mínimo de ruído, constranger a mãe  de Eyal, que em vez de descansar no seu quarto estava quebrando a cabeça para  tornar mais festivo o vestido branco simples que Micaela trouxera. Finalmente  conseguiu convencer Micaela a prender nele dois broches de prata, pesados e  antigos, tirados das profundezas da sua caixa de joias, que, junto com algumas  flores artificiais costuradas, tornaram o vestido senão mais festivo, pelo menos  mais original. Apesar do seu dedicado entusiasmo para aprimorar o vestido da  noiva, chegando a passá-lo duas vezes a ferro, secretamente ela planejava não  comparecer ao casamento. Quando os pais de Micaela vieram nos buscar, conforme o combinado, para nos levar ao salão de cabeleireiro, e de lá para o salão  de festas, a mãe de Eyal impediu-me de ir, alegando que não era costume o casal  chegar junto à cerimônia; sugeriu que eu ficasse com ela e fosse depois, com Eyal e Hadas. Ela tinha razão; além disso, eu receava ficar contaminado pela  possível tensão entre os pais divorciados de Micaela, pois ouvira histórias incríveis sobre as brigas dos dois. Fiquei à espera de Eyal, e nesse meio tempo sua  mãe e eu tomamos um chá de ervas amargas, que reluzia à luz avermelhada do  verão de Jerusalém, a doce luz das longas férias de verão. Ela ainda estava envolta no seu fino penhoar, despenteada e sem maquiagem. Quando não me contive mais e lhe perguntei delicadamente quando pretendia se vestir, percebeu  que o seu segredo fora descoberto e exibiu uma estranha expressão de tristeza e  súplica. "Dispense-me de ir ao seu casamento, Benjy. Já faz alguns dias que não  me sinto bem e tenho medo de ficar com falta de ar. Conheço esse salão, e ele  tem muitas escadas. Dispense-me, Benjy, e não fique aborrecido. Você  sabe  muito bem o quanto eu gosto de você." Gaguejei que para meus pais seria uma  decepção, mas ela discordou. "Eles não vão sentir a minha falta. E se sentirem",  e aí sorriu para si mesma com ar esperto, "diga-lhes que na qualidade de médico você me liberou. É tão maravilhoso que você e Eyal já sejam médicos de verdade. Eu lembro, como se fosse ontem, de vocês meninos, tão pequenos e  doces, brincando que eram médicos e fazendo da casa um hospital; eu e às  vezes também o coitado do pai de Eyal nos oferecíamos para fazer o papel de  doentes, e vocês nos obrigavam a deitar e fechar os olhos para que nos examinassem e nos tratassem com remédios e bandagens." Ela riu de felicidade, e  uma onda de calor tomou conta de mim com a lembrança tênue porém genuína dos dois pirralhos debruçando-se sobre aquela mulher enorme e bela, espalhando talco sobre seus pés e envolvendo-os em bandagens. A lembrança estava tão profundamente dentro de mim, que precisei fechar os olhos para trazê-la  à tona. Olhei em silêncio para aquela mulher pesada, que puxava as bordas do  penhoar de forma quase mecânica. Ela interpretou o meu silêncio como  aquiescência, inclinou a cabeça para escutar alguma coisa e comentou, contente: "Eles estão chegando!". Dirigindo-se para abrir a porta, disse: "A sua  Micaela é uma moça muito independente. Você realmente a ama?".
"Acho que sim", respondi sorrindo, surpreso com a pergunta.  "Então ame, Benjy, e não pense muito." E abriu a porta antes que Eyal  tivesse tempo de colocar a chave na fechadura. Ele e Hadas estavam com roupas de festa, os cabelos ainda molhados do banho. Depois de me abraçarem  calorosamente e me examinarem de cima a baixo, insistiram que eu pusesse uma gravata, ao menos em honra aos meus convidados da Inglaterra. Primeiro  recusei, mas acabei concordando, e fomos os quatro até o quarto da mãe de Eyal  escolher uma gravata entre as que haviam pertencido ao pai dele.
Apesar do salão superlotado, reinou um espírito bom durante o casamento. Os pratos servidos foram de boa qualidade, se bem que eu não provei nada.  Durante um bom tempo após o matrimônio meus pais ainda comentavam  orgulhosos os elogios que receberam dos convidados. Os parentes de Micaela,  em pequeno número, eram agradáveis e educados e entrosaram-se bem com os  muitos convidados da nossa família. Nossos parentes britânicos revelaram-se  não só polidos mas também alegres e bem-humorados, e seu sotaque escocês  adicionou um toque de diversão à sua presença entre nós. O  dr. Nakash, que  chegou cedo com sua esposa—também ela muito magra e de tez escura,  embora menos feia que  o marido—,esmerou-se em suas maneiras orientais e,  com seu inglês fluente, rapidamente estabeleceu relações com meus parentes de fora, apressando-se em apresentar Lazar e a mulher aos novos conhecidos.  Ainda que a vinda dos Lazar tivesse me proporcionado grande alegria, achei  melhor desligar-me deles até depois da cerimônia em si, que demorou a começar por causa do atraso de Micaela. No incessante movimento de pessoas querendo me cumprimentar, de repente me vi diante deles. Desde que me deitara  com a mulher de Lazar, ainda não estivera frente a frente com ele, e apesar da  proteção dos amigos e familiares ao meu redor, tremi violentamente quando ele  envolveu meu pescoço num forte abraço. Nossa viagem à Índia e em especial a  noite que passamos juntos na cabine do trem para Varanassi aos seus olhos  implicavam certa intimidade, permitindo abraços sem aviso prévio. "Obrigado  por terem vindo, obrigado", gaguejei de cabeça baixa, pois não ousaria olhar  para aquela mulher, cujo sorriso automático nos olhos lhe permitia superar  qualquer vergonha ou constrangimento. Lazar me entregou o presente e, sem  revelar o conteúdo, informou-me, com seu jeito direto, que era possível trocá-lo. Enquanto eu agradecia e tentava adivinhar o que havia no grande pacote, aproximou-se correndo de mim a irmã da minha mãe, vinda de Glasgow, que  se encarregara de guardar os presentes. Para escapar da vergonha que estava sentindo, apresentei-a ao casal Lazar. Ela, que se interessava por cada mínimo detalhe da minha vida, não só reconheceu quem estava à sua frente, como  apressou-se em dizer:
"Oh, todos nós queremos conhecê-los, afinal este casamento se deve um  pouco a vocês, não é?"
"A nós?", admirou-se Lazar, curvando a cabeça para captar melhor o sentido oculto por trás do acento inglês-escocês da minha tia.
Ela não se atrapalhou, deu-me um abraço amoroso e prosseguiu: "Afinal  ele conheceu Micaela na casa de vocês, não é? E isso acabou servindo de compensação para o cargo que ele perdeu por causa da viagem à Índia".
Totalmente desconcertado, tentei depressa corrigi-la, porém Lazar segurou minha mão para me conter. Curvou-se mais uma vez em direção à minha  tia tagarela e pediu que repetisse o que dissera. Percebi que as palavras dela o  tinham atingido e me deixavam numa situação desconfortável. "Ele ainda não  perdeu o cargo", disse com seu inglês simples e com o sorriso seguro de um diretor, cujo verdadeiro poder consiste em saber coisas que os outros não sabem,  nem sua própria mulher, que lhe dirigiu um olhar preocupado.
"O que significa isso?", perguntei em inglês, para não ofender minha tia  falando em hebraico, que ela não entendia.
"Primeiro case-se", continuou Lazar em inglês, apontando para o rabino  jovem e muito sério que acabara de entrar, "depois você vai ganhar outro presente." E virou-se para minha tia, que o observava com reverência: "Não se preocupe, nós cuidamos dele".
Apesar da chegada do rabino, a cerimônia ainda tardou um pouco: faltava  Micaela, cujos pais conseguiram se perder pelas ruas de Jerusalém. Mas valeu  a pena esperá-la, pois o tratamento recebido no cabeleireiro tivera um efeito  espantoso. Seu rosto parecia maior,  emoldurado pelos cabelos mais escuros e  cheios de cachos novos, e assim seus olhos enormes assumiam a proporção correta. Achei que ela realmente ficara mais bonita. Seus poucos parentes e amigos, espalhados entre os convidados da minha família, correram para abraçá-la  e beijá-la. Mas não houve muito tempo para cumprimentos, poiso jovem e sério  rabino já esperava sob a hupah montada pelos garçons do hotel. Na minha opinião, e na opinião de meu pai, ele oficiou a cerimônia de forma muito rígida e  prolongada, sem levar em conta o espírito da audiência em volta. E obrigou  Micaela, a moça de mentalidade independente, a dar sete voltas em torno de mim. A sua prédica acerca do significado e da importância do casamento foi  extremamente prolixa, cheia de citações de sábios da Cabala dos quais ninguém tinha ouvido falar. E o pior de tudo: não teve o menor senso de humor,  não contou nenhuma das anedotas tradicionais que outros rabinos costumam  incluir em casamentos—foi uma pena, porque afinal havia vários convidados  da Inglaterra, onde o humor é parte da cultura. Em certo momento, pareceu-me que ele se referia ao nosso casamento como algo perigoso, do qual tinha  obrigação de nos prevenir. Mas acontece que exatamente esse rabino radical de  Jerusalém, que irritou muita gente com seu estilo seco e pedante, agradou a  Micaela. E tampouco a cerimônia foi longa demais para o gosto dela, e o fato  de ser obrigada a dar sete voltas ao meu redor não lhe provocou nenhum sentimento de humilhação, apenas a excitou pela excentricidade. Desde que voltara da Índia era ávida por rituais, e como, segundo dizia, já passara da fase infantil de contestação insistente e superficial contra qualquer obrigação religiosa,  real ou imaginária, teve prazer em relacionar o mistério que encontrou no nosso ritual com todos os outros rituais com que tinha deparado nas ruas da  Índia. Porém não incluiu a gravidez no mistério do nosso casamento, mencionando-a de forma lógica e racional. Vinte e quatro horas após a cerimônia revelou-me que estava grávida. Estávamos nos banhando semi nus ao crepúsculo  nas águas pesadas do mar Morto, hospedados no mesmo hotel moderno em que  meus pais haviam ficado depois do casamento de Eyal. O hotel lhes agradara  tanto que resolveram nos dar de presente de casamento também a hospedagem  para "alguns dias de lua de mel". Micaela assumiu a culpa pela falta de cuidado na relação que tivéramos no deserto; assim, insistiu em dizer que, se eu  achasse o bebê repentino e prematuro demais para nós, ela o abortaria sem o  menor problema. Não atribuía qualquer significado à vida naquele estágio. Já  fizera dois abortos e, como eu podia ver muito bem, não haviam provocado  dano algum à sua saúde. "Mas podiam muito bem ter provocado sim", sussurrou o médico dentro de mim, superando a perplexidade do marido recém-casado cuja cabeça girava mais depressa à medida que diminuía sua liberdade, e  tudo por causa de uma paixão impossível. Não sei como nem por que Micaela  averiguara o sexo do feto. Mas acho que por ter se referido a "ela", e não a um  feto anônimo, meu coração imediatamente se opôs ao aborto. Também estava  claro para mim que Micaela agira comigo de forma absolutamente moral, apesar da confusão que criara. Voltou a manifestar sua intenção de fazer mais uma  viagem à Índia, e não havia dúvida de que "a neném" a forçaria a adiá-la, ou no mínimo iria atrapalhá-la. Nesse caso, um aborto às escondidas teria sido mais  seguro seis semanas antes, quando soubera da gravidez, e certamente mais adequado aos seus planos. Mas como não queria ser desonesta comigo, já que o  bebê também era meu, não interrompeu a gravidez; e também não me contou  nada, para que a decisão de nos casarmos fosse tomada com absoluta liberdade.
Tudo isso se descortinava agora à minha frente com imensa clareza, uma  clareza intensificada pela quietude do anoitecer avermelhado que se estendia  sobre as margens do lago em pleno deserto, onde na época de verão tórrido poucos visitantes circulavam. Fiquei excitado com a novidade, mas também um  pouco triste. O segredo da gravidez me parecia mais moral do que o segredo da  minha paixão impossível; e as possibilidades de concretizá-la tornavam-se  ainda mais fracas diante da realidade do bebê. Eu precisava fazer um gesto em  homenagem "à neném", então me inclinei para dar um beijo na barriga ainda  reta e dura de Micaela. Lambi um pouco seu umbigo e, certificando-me de que  ninguém nos olhava, ergui a parte inferior do biquíni e explorei com a língua o  lugar por onde o bebê sairia. A pele de Micaela estava tão salgada por causa da  água do mar Morto que queimou a minha língua; e eu também não queria despertar nela um desejo que nos deixaria inquietos antes do jantar. Simplesmente  disse rindo: "E então? Vamos ter que chamá-la de Ayelet porque a fizemos no  casamento de Eyal". Mas Micaela já tinha outro nome na cabeça, um nome mais profundo e atraente, com um  significado especial para ela: Shiva. Shiva,  escrito em hebraico, pode ser lido Shivá, que significa "retorno". Um nome  relacionado com quem havia nos reunido tanto no sentido prático como num  sentido mais profundo, Einat; pois Micaela não conseguia esquecer a estatueta que ela nos dera de presente, chegando a trazê-la consigo para o hotel às margens do mar Morto como meio de fortalecer a lua de mel.
Einat, em pé com ar triste e dispersivo ao lado de seus pais, com o presente na mão. Eu só a vira depois da cerimônia, quando, abrindo caminho por entre  as inúmeras pessoas que vinham me cumprimentar, tentara me reaproximar  dos Lazar, mais precisamente do sr. Lazar, para ouvir o que tinha a me dizer.
Dori já estava cercada por vários amigos de meus pais, todos de prato cheio na mão. Ela ainda não tinha comido nada, estava só observando com seus olhos  risonhos, fumando seu fino cigarro, apesar das pessoas que se espremiam à sua  volta. Abracei Einat calorosamente, e ela me retribuiu com um abraço hesitante e delicado, já perguntando por Micaela. Queria dar-lhe o presente pessoalmente, declarando que era "um presente para Micaela e não para você".
"Tudo bem, tudo bem", eu disse erguendo as mãos como se me rendesse,  "mas por que você não come alguma coisa?"—acrescentei num tom educado  de anfitrião. "Você quer que eu mesmo lhe traga algo?"
Einat recusou, constrangida. "O que é que há? Você já cuidou bastante de  mim. Pode deixar que eu mesma me sirvo. A comida está com uma cara muito boa."
De fato, todo mundo elogiou a comida, tanto durante a festa quanto  depois, quando se faziam comentários. Lazar não parava de ir até o bufê, de  cabeça baixa, concentrado, para repetir o prato de rosbife, que pareceu lhe agradar especialmente. Enquanto isso Nakash e a esposa, magros e famintos, não  saíam de perto da comida para não perder nenhuma das iguarias que não paravam de chegar da cozinha. Até mesmo o meu tímido pai, apesar de todos os  familiares e conhecidos que o assediavam, encontrava pretextos para voltar ao  bufê e cumprimentar o maitre pela excelente comida, aproveitando para experimentar as novidades. Quase no fim da festa, quando o salão começou a se  esvaziar, Micaela, que até então não havia provado nada, também sucumbiu a  um acesso de fome. Estava sentada num canto, conversando com os pais e seus  novos companheiros, e havia mandado seu irmão mais novo encher o prato  com o que havia restado sobre o bufê. Minha mãe abstivera-se de comer, para  ficar totalmente livre e disponível para os seus numerosos e queridos convidados. Assim, não pegou sequer um prato pequeno. Mas a minha tia jovem e fiel,  de Glasgow, não se esqueceu de cuidar da irmã mais velha: de vez em quando,  aproximava-se dela com um garfo e uma pequena porção de "algo maravilhoso", e insistia em dar-lhe a comida na boca. Minha mãe relutava envergonhada, mas acabava abrindo a boca como uma criança obediente, engolindo tudo  que lhe era oferecido, para fazer coro aos elogios gerais. Aparentemente, só  Dori e eu não comemos nada. Dori talvez quisesse comer, porém julgava-se  orgulhosa demais para se apertar no meio das pessoas; quando Lazar finalmente teve pena dela e, numa das suas idas ao bufê, voltou com um prato a mais, ela já estava tão nervosa que, ao levar o garfo à boca, deixou-o cair. Ela ficou ali, sorrindo com o prato servido na mão, esperando que alguém lhe trouxesse outro garfo, até que veio um garçom e, presumindo que ela acabara de comer, delicadamente recolheu o prato. Eu nem cheguei perto da comida, tampouco aproveitei os garçons que passavam ao meu lado servindo canapés em enormes bandejas; com absoluta indiferença, e até um  pouco de náusea, observava meus  parentes e amigos deleitando-se com a boa comida. Eu sentia grande felicidade, uma onda após outra—a felicidade de meus pais e sua imensa excitação  com os parentes queridos, vindos especialmente da Inglaterra; e a alegria  com os  bons amigos ao meu redor sob a hupah; e Micaela que estava tão  linda; e obviamente a presença emocionante da mulher amada em segredo,  olhando-me de longe com seus olhos risonhos, as pernas longas e retas; e  além de tudo isso a surpreendente proposta de Lazar, que de repente me deu  esperanças de voltar a trabalhar no hospital entrando por uma porta dos fundos, pela Inglaterra.
Essa porta estava relacionada com um acordo firmado entre o nosso hospital e um hospital londrino, o Saint Bernardin, cujo diretor médico e administrativo, um não-judeu idoso chamado sir Geoffrey, visitara Israel alguns anos  atrás e desde então era ardoroso admirador do país. Ele doara ao nosso hospital  equipamento médico e produtos químicos de primeira qualidade, além de  livros especializados para a biblioteca. Para fortalecer o vínculo, propusera a  Lazar que se realizasse um intercâmbio profissional entre os dois hospitais. Há  pouco viera da Inglaterra, para o departamento de medicina interna do professor Levin, um médico excelente, que se adaptara muito bem ao trabalho. O dr.  Samuel, do mesmo departamento, já estava preparado para viajar com a família para Londres, para ocupar o lugar do médico inglês. Porém, no último  momento, surgira um empecilho, pois, apesar de suas garantias, sir Geoffrey  não conseguira obter para ele uma licença de trabalho legal que lhe permitisse receber salário integral. Aborrecido e envergonhado, estava prestes a desfazer o  intercâmbio e chamar de volta o médico que enviara, pois obviamente não se  poderia trabalhar de graça. E eis que a afiada memória de Lazar se lembrou do  meu passaporte britânico, que passeara pelas suas mãos no consulado indiano  em Roma. Imediatamente dissera a si mesmo: "Mais uma vez o doutor Rubin  é o nosso candidato ideal; um presente caído do céu, a oportunidade de trabalhar e se aperfeiçoar num hospital talvez um pouco antigo mas decididamente  bem conceituado, sob a supervisão especial de um diretor administrativo que  será como um pai para ele". E embora não fosse um período longo, dez meses  ao todo, poderia ser computado como estágio de aperfeiçoamento patrocinado  pelo hospital israelense, ou seja, seria como se eu tivesse retornado ao hospital,  ainda que por uma porta dos fundos, misteriosa, porém efetiva do ponto de vista  burocrático. E quem sabe, sem promessas—já que o próprio Deus tinha cuidado ao prometer alguma coisa aqui nesta terra—seria possível encontrar no  retorno da Inglaterra um lugar também aqui, em um dos departamentos.
"Em qual?", perguntei entusiasmado, perdendo momentaneamente o  senso de proporção.
"Como em qual?", replicou Lazar com um sorriso simpático e condescendente, meneando a cabeça para o meu pai e minha mãe, que tinham se aproximado de nós vindos de lados diferentes, como se pressentissem que algo muito  importante estava sendo dito a mim. "É cedo para saber. Vamos ver mais adiante. Quando soubermos quem vai ficar e quem vai embora." E então voltou-se  amavelmente para os meus pais para lhes contar a proposta que acabara de me  fazer. A minha tia mais jovem e curiosa de Glasgow, que tinha visto meus pais  escutando atentamente, aproximou-se para participar da conversa, que passou  a ser em inglês. Ela quis saber o nome do hospital e onde ficava, mas, como  morava na Escócia, não conseguiu identificar o bairro; outros parentes, mais  familiarizados com Londres, foram chamados  a ajudar. Aproximou-se de nós  um parente que eu não conhecia, um homem alto e muito magro, vestido de  preto, com pequenos óculos de metal cujas grossas lentes conferiam ao seu  rosto pálido e comprido uma expressão estranha; apesar de não ter relação  nenhuma com o mundo da medicina, soube dar tantos detalhes sobre aquele  hospital, localizado na região nordeste de Londres, que me perguntei se ele não  teria ficado hospitalizado ali por um bom tempo. Ficou claro que o termo "um  pouco antigo" empregado por Lazar para descrever a instituição era um indicador da típica ignorância israelense; tratava-se na verdade de um hospital secular, realmente histórico, fundado nas profundezas da Idade Média, no início do  século Algumas de suas alas situavam-se em construções antiquíssimas, ao  lado de outras que haviam sido reformadas. Minhas duas tias entusiasmaram-se com a novidade, que parecia uma sobremesa saborosa para o delicioso casamento.
 Ambas tinham certeza, e com razão, de que a minha estada com Micaela na Inglaterra logo atrairia os meus pais para uma visita, e a ideia de mais  um encontro com eles aliviava a tristeza da despedida próxima. Dori, que não  estava muito longe de nós, mexendo a cabeça o tempo todo para prestar atenção a alguém que lhe explicava alguma coisa, acompanhava com seus olhos  risonhos o grupinho que se formara em volta de mim e de Lazar; e ficou visivelmente ruborizada, o que não era do seu feitio, quando minha mãe acercou-se  dela para agradecer-lhe também, por alguma razão, pela feliz e generosa ideia  do marido.
Mas seria realmente apenas uma ideia feliz de Lazar, disposto a livrar seu  colega inglês da situação constrangedora, e, na mesma oportunidade, dar-me  um prêmio de consolação e uma pequena esperança? Ou seria na verdade uma  ideia dela, desejosa de me afastar de qualquer maneira, assustada por constatar  que eu atendera rapidamente a sua exigência implícita de me tornar um amante casado e portanto mais plausível? Ou talvez, apesar de tudo, ela não tivesse  nada a ver com isso: podia ser que a evidência da minha paixão teimosa e impossível tivesse sido captada sutilmente por Lazar, que tentava inconscientemente afastar sua esposa da minha súbita paixão. Todos esses pensamentos se agitavam em mim enquanto eu me despedia dos últimos convidados. Não podia  compartilhá-los com ninguém, muito menos com Micaela, que soube da proposta de Lazar só depois do casamento, tarde da noite na casa da mãe de Eyal.  Lamentamos não termos nos lembrado de trazer algumas das delícias que  haviam sido servidas na festa para compensá-la do que perdera; e também para  matar minha fome, que agora se manifestava com intensidade. A própria dona  da casa, que já havia se deitado, ofereceu-se para preparar uma refeição leve e  rápida, composta de ovo e salada, para aplacar tanto a minha fome quanto os  meus múltiplos pedidos de desculpas. Só então contei que Lazar me propusera sair em um mês para um ano de aperfeiçoamento num hospital em Londres.  A mãe de Eyal ficou feliz com a ideia, e Micaela deu a impressão de que a proposta acendera um verdadeiro fogo de entusiasmo, reavivando de imediato seu  ânimo exausto. Não só pela perspectiva de deixar Israel, mas também pelos  laços entre a Inglaterra e a Índia. Quando fomos para a cama no quarto de infância de Eyal, que ainda continha alguns de seus brinquedos, Micaela foi tomada  de intenso desejo, como se a estranheza da casa que nos esperava em Londres estivesse conectada com a estranheza do quarto de Eyal, duplicando sua excitação. Eu não quis me opor a esse desejo duplo, especialmente na nossa noite  de núpcias; entretanto, por recear que os ruídos do nosso gozo envergonhassem  o mãe de Eyal, que por algum motivo ainda vagava pela casa, fiquei com os  lábios grudados nos de Micaela, enfiei minha língua na sua boca, para evitar ou  pelo menos abafar seus possíveis gritos e gemidos durante a relação.
Porém na noite seguinte, no hotel à beira do mar Morto, de estranha sedução, decidi resistir ao desejo insaciável de Micaela. Não queria sujeitar o nosso  pequeno feto inglês a mais uma intempérie, após todas as que sofrera na garupa  da moto e em vista das que sofreria depois na viagem à Inglaterra. Na verdade  ambos já pensávamos no bebê como uma criança absolutamente inglesa, com  o direito à cidadania inglesa devido ao meu passaporte fortalecido pelo seu nascimento em Londres. Micaela não parava de falar na viagem. Nos últimos  meses, andara levemente deprimida por estar perdendo sua liberdade. No  começo, era por causa do retorno prematuro da Índia, que ainda não deixara de  atormentá-la; depois, por causa do casamento apressado, agora acrescido de um  bebê, que, mesmo sendo bom e doce, colocaria uma coleira no pescoço dela.  Assim, não era milagre que a viagem à Inglaterra lhe  parecesse uma pequena  porta de fuga—quem sabe—para aquelas paragens maravilhosas e radiantes cuja magia eu mal conseguia imaginar, pois passara por elas como um raio distante. Eu, mais do que entusiasmado, estava confuso com a súbita proposta de  Lazar. Primeiro porque implicava uma separação da mulher que não me abandonava os pensamentos. Embora eu soubesse o quanto era exígua a esperança  que podia alimentar em relação a ela, sabia também que sempre seria possível  subir na moto nas horas certas e em poucos minutos postar-me escondido na calçada ou na entrada de um dos edifícios vizinhos à sua casa, ou ao escritório, para  vê-la saindo ou entrando, sorridente e feliz consigo mesma, com seu andar leve  e firme, exceto pelo jeito displicente de arrastar um pouco o pé esquerdo. E eu  ainda não desfrutara o suficiente do apartamento da vovó, que continha a lembrança do meu delicioso prazer do primeiro dia de aluguel, que agora eu hesitava entre continuar pagando e desistir. Micaela, que antipatizara com o apartamento desde o primeiro instante, sugeriu a rescisão do contrato para que  pudéssemos partir para nossa viagem à Inglaterra tranquilos. Dispunha-se a  empacotar os pertences em caixotes e guardá-los por uma quantia não muito alta num armazém ao lado do porto, junto ao local de trabalho de seu padrasto. "Que  fiquem lá até voltarmos", disse, e com um sorriso malicioso acrescentou, "se voltarmos." Tal empreitada era fácil para ela, pois todos os seus pertences cabiam  numa caixa não muito grande. Mas eu me recusei a guardar num armazém suspeito junto ao mar todas as roupas, móveis, objetos e livros que juntara ao longo  da vida e também não podia simplesmente largá-los na casa de meus pais.  Tampouco queria abrir mão do contato com a proprietária, pois afinal alugara o  apartamento por causa dela. Por isso, sugeri ao meu amigo Amnon que viesse  morar no apartamento e cuidasse das nossas coisas até voltarmos, contribuindo  com alguma quantia para o elevado valor do aluguel. Para minha surpresa, ele  concordou, embora o ponto fosse mais distante do seu local de trabalho e com  menos opções de estacionamento para o carro. Desde que eu começara a namorar Micaela, minha relação com Amnon tornara-se mais profunda, pois ela era  mais paciente com ele do que eu e, quando eu saía no final da tarde para assumir meu posto junto ao equipamento anestésico do dr. Nakash, costumava convidá-lo para jantar antes da sua guarda noturna. Seu trabalho de doutoramento  continuava parado, e havia momentos em que eu me culpava muito, como se  toda a confusão de relações entre espírito e matéria que lhe apresentara no alto  do caminho entre Jericó e Jerusalém tivesse, apesar de tudo, penetrado no seu  cérebro e atrapalhado o andamento da tese, a despeito do ceticismo e do sarcasmo que ele havia manifestado naquela noite. É possível que as minhas opiniões "filosóficas" estivessem ligadas na sua mente com a intenção de me casar, que eu  também mencionara. E quando, algum tempo depois, ele soube que se tratava  de Micaela—uma moça que muito lhe agradara, tanto que desconfiei que estivesse apaixonado por ela sem admitir sequer para si mesmo, pois sua fidelidade  a mim era absoluta—,as minhas divagações teóricas juntaram-se ao erotismo  dela. Assim, começou a aparecer na nossa casa cada vez com mais frequência,  para conversar comigo e principalmente com Micaela sobre a forma como a  matéria pode se transformar em espírito. Eu estava cansado dele, porém Micaela  tinha paciência de ouvi-lo e aumentar ainda mais sua confusão mental, pois a  minha teoria, desorganizada e primitiva, emaranhava-se totalmente com os conceitos misteriosos que ela trouxera da Índia. Eu já evitava discutir com ela, porém  Amnon, na sua característica situação de ócio e instabilidade, estava pronto e  preparado para entrar em qualquer discussão. Assim, concordou em instalar-se no apartamento durante o nosso ano de ausência em troca de uma pequena contribuição para o aluguel, além de dispor-se a cuidar dos nossos pertences, inclusive das velhas roupas da vovó, até voltarmos.
Eu tinha certeza de que voltaríamos, no final do contrato proposto por Lazar.  Se não voltasse, estaria arriscado a perder a secreta porta dos fundos por onde  fora readmitido no hospital, conforme a metáfora burocrática, porém precisa,  do nosso diretor administrativo, que prometeu visitar-nos na Inglaterra no ano  seguinte. "Será ótimo", respondi com alegria sincera, "teremos prazer em receber você, ou vocês, se Dori vier junto."
"É claro que irá", informou Lazar. "Se ela fez questão de ir para a Índia, você  acha que deixaria de ir à Inglaterra? Você já presenciou como é difícil para ela ficar  sozinha." Eu tinha mesmo presenciado, e a ideia de que talvez nos encontrássemos na Inglaterra deu-me finalmente segurança para concordar com a viagem,  bem como desistir do meu gratificante trabalho como anestesista assistente. E  para crédito do dr. Nakash, devo dizer que ele me estimulou a ir.
"Procure continuar se aprimorando também em anestesia, além do trabalho em medicina interna", aconselhou, "as coisas estão ligadas. Embora seja  um hospital muito antigo, e os equipamentos certamente já estejam obsoletos,  sempre será possível conhecer alguém que lhe ensine alguma coisa nova."
Meus pais ficaram felizes com nossa viagem à Inglaterra, apesar de significar que ficaríamos um tempo separados. Quando  lhes contei, na ausência de  Micaela, da criança que nasceria em seis meses, procurando convencê-los,  com bastante dificuldade, de que eu próprio não sabia nada da gravidez antes  do casamento, porque Micaela preferira que a decisão de me casar fosse totalmente isenta disso, baseada exclusivamente no relacionamento com ela, ficaram estupefatos. Parecia que só agora estavam captando não só os aspectos  morais e auto suficientes  da personalidade de Micaela, como também a sua  essência selvagem. Mas a felicidade com o breve nascimento de um neto deixou-os orgulhosos. Imediatamente decidiram adiar a visita que nos fariam: em  vez de viajar no outono, dali a três meses, como haviam planejado antes, chegariam no meio do inverno, para o nascimento do bebê, prolongando sua permanência. A ideia de que o neto nasceria na terra natal deles pareceu-lhes engraçada, mas também excitante. "Será como um retorno nosso para a  Inglaterra", disse meu pai e enrubesceu, sem graça porém contente com o estranho pensamento que lhe ocorrera.
"Exatamente", disse eu rindo, "um retorno. Shivá. Ou Shiva, que é o nome  escolhido por Micaela para nossa filha. Mas não por causa de vocês, e sim por  causa do som indiano da palavra."
Micaela, voltando exausta e corada de um longo passeio que dera pelas  ruas de Jerusalém para deixar-me sozinho com meus pais, entrou e ficou nos  encarando com um olhar profundo e triunfal. Ao vê-la entrar, meu pai foi correndo abraçá-la e beijá-la, pois sentiu o vínculo entre eles tornar-se mais forte e  profundo, pois sua carne e seu sangue já estavam dentro dela. Minha mãe também se aproximou para abraçá-la, embora eu soubesse que intimamente estava aborrecida por Micaela não ter me contado nada. A rapidez com que eu me  transformava de solteiro em pai de família também lhe pareceu exagerada, talvez acima das minhas forças. Apesar de tudo, a novidade encheu-a de satisfação.  Contei a Micaela que já confidenciara aos meus pais o estranho nome que lhe  ocorrera. Ela se ofendeu com o que eu disse e protestou: "O nome não tem nada  de estranho. Vai ser o nome da criança e pronto. E mais adiante vamos decidir  o jeito certo de escrever". E explicou aos meus pais o significado mitológico do  deus Shiva, o deus da destruição, o complemento de Brama, o deus da criação,  e de Vishnu, o deus da preservação.
Meus pais sorriram. "Não briguem agora, é bobagem. Ainda há tempo  para resolver. Vocês ainda vão trocar o nome umas mil vezes".
Mas eu já pressentia que aquele seria de fato o nome da minha filha. Só  precisava insistir com Micaela para que a grafia fosse a mais hebraica possível,  e não como a do nome do deus indiano. Lembrava-me de ter mencionado o  nome ao barqueiro indiano descalço que me conduzira entre as câmaras mortuárias de Varanassi. Por enquanto era preciso esconder de Lazar o esperado  nascimento na Inglaterra, para que não deixasse de se empenhar e solicitar ao  seu colega em Londres que encontrasse um trabalho de meio período também  para Micaela, não por receio de que ficasse entediada, já que ela descobria interesses em qualquer lugar, mas para reforçar o meu salário, que, afinal, era bastante reduzido, pois fora calculado com base no ordenado em shekels que eu  receberia no hospital se lá tivesse permanecido.
Contudo era tarde demais para mudar de ideia, até mesmo para reclamar. E nem havia necessidade. Éramos ambos jovens e não precisávamos de muita  coisa. Meus pais, após consultas telefônicas aos parentes na Inglaterra, resolveram recorrer à sua poupança e nos munir de algum dinheiro vivo até eu receber  o meu primeiro salário. Com o dinheiro da venda da motocicleta compramos  as passagens aéreas e boas roupas de inverno. O restante colocamos na minha  conta bancária para cobrir os cheques pré-datados que eu dera por conta do aluguel, caso Amnon falhasse nos pagamentos. Micaela estava radiante no avião.  Deixar Israel levantara o seu ânimo, ainda que estivéssemos voando para o Ocidente e não para o Oriente; ela acreditava que, do ponto de vista psíquico e espiritual, a Índia estava mais próxima da Inglaterra do que de Israel. Eu, ao contrario; estava sentado ao seu lado mergulhado em desânimo, nervoso e angustiado  com o futuro. Desde que me apaixonara misteriosamente, querendo convencer a mim mesmo de que era uma paixão impossível, a minha vida tomara  rumos sinuosos, devido aos sinais contraditórios que eu captava da mulher  amada. Agora eu era arrastado para longe dela e, além da promessa de Lazar de  que talvez fizessem uma breve visita à Inglaterra, não tinha mais nada a que me  apegar. E pensar que tudo aquilo tinha sido por causa dela! O casamento apressado, o aluguel do apartamento, até mesmo a constante dependência em relação a Lazar e seus planos. Refleti outra vez sobre todas as pessoas que giravam à  minha volta, sobretudo os meus pais, que ignoravam a razão profunda que me  movia. Teria sido mais honesto confessar-lhes de vez, para aplacar a minha  consciência. Olhei para Micaela, cujos olhos grandes e claros refletiam o azul  do céu e os raios que brilhavam acima das nuvens. Se eu pudesse lhe contar de  repente a paixão que sentia pela esposa de Lazar, o que ela diria? Será que o espírito magnânimo, incapaz de odiar, dos hinduístas ou budistas poderia mitigar a  dor daquela paixão e absorvê-la no fluxo comum do nosso casamento?
Pois era assim que Micaela definia o casamento: "um fluxo comum", nada  mais. E no contexto de uma definição tão tolerante, até mesmo uma confissão  súbita tinha o direito de fluir junto, como um tronco desenraizado arrastado  pela correnteza. Todavia decidi me calar por enquanto. Na verdade, eu também não tinha realmente o que confessar, pois desde o casamento, durante o  mês agitado e tempestuoso que tínhamos passado, não tivera o mínimo contato com Dori, exceto uma única conversa telefônica, em que sugeri Amnon como nosso sublocatário para que o apartamento com os nossos pertences ficasse bem guardado até a nossa volta da Inglaterra. Eu não dissera absolutamente  nada sobre o tão esperado nascimento, não só porque receava que a notícia despertasse nela dúvidas a respeito da continuidade do contrato, que fora assinado  levando em consideração um inquilino solteiro e não uma família inteira, mas  também porque não queria chamar sua atenção para as minhas relações sexuais  com Micaela, como se nosso casamento fosse estritamente formal, para não lhe  dar pretexto para romper o contato comigo. Embora eu pudesse ouvir pelo telefone pessoas entrando de vez em quando para perguntar ou dizer alguma coisa,  ela foi amigável e paciente comigo, sua voz doce e alegre me deixou tão excitado que ao colocar o fone de volta no gancho senti no meu pênis gotas de umidade, como se ele estivesse lacrimejando. Também ela, como outros amigos de  meus pais, recordou a festa de casamento mencionando o prazer que todos sentiram, talvez por causa da especial alegria e animação dos parentes vindos da  Escócia. Até mesmo a rígida ortodoxia do jovem rabino, na opinião dela, não  fora exagerada nem irritante. "É bom às vezes relacionar-se seriamente com o  mundo", disse, e sua gargalhada inundou o aparelho. Depois me cumprimentou por ter aceito a proposta do marido e admitiu à meia voz que na verdade a  ideia também fora um pouco sua. Sua mente jurídica se lembrara do meu passaporte inglês quando Lazar lhe contara a confusão com o hospital londrino.
"Será que você não quis simplesmente se livrar de mim?", perguntei receoso, mas sem um mínimo de raiva.
Ela riu novamente. "Pode ser. Mas será que isso é possível? Estou vendo que  você está colocando seu amigo no apartamento para se garantir quando voltar."
De fato, a ideia da volta a Israel dominou a minha mente desde as nossas primeiras horas em Londres, logo depois que o azul do céu nos foi roubado ao aterrissarmos e desembarcarmos num dia cinzento e horroroso. O fato de saber que  dali em diante teria que permanecer mais próximo de Micaela por causa do  ambiente desconhecido me atormentava. O próprio sir Geoffrey veio nos receber no aeroporto. Era um homem ruivo bastante idoso que se mantivera ardoroso e teimoso admirador de Israel a despeito da sua política. No início foi difícil  entender o que dizia, pois engolia as palavras, além de pronunciá-las com ligeira ironia, tornando difícil saber suas verdadeiras intenções. Era admirável que  Lazar, com seu inglês primitivo, tivesse conseguido estabelecer uma relação tão amigável com ele. Apesar de atuar como diretor administrativo do hospital, não  parecia ter nas mãos a mesma autoridade absoluta que Lazar. Aparentemente  seu estilo de administrar era mais tímido e hesitante. Por exemplo, ao chegarmos não conseguiu sequer achar um servente que nos ajudasse a carregar as malas, e  arrastou uma delas com as próprias mãos até o quarto de hóspedes, anexo a uma  das alas do hospital, onde nos alojamos na primeira semana, até encontrarmos  um apartamento. Por um momento, quando vimos num dos cantos do corredor  o posto das enfermeiras, ao lado de um antigo respirador, pareceu que sir Geoffrey queria nos internar; mas ao entrarmos no quarto pudemos esquecer que estávamos num hospital. Era um quarto enorme, quase régio, mobiliado com  móveis pesados, nos quais se reconheciam genuínas antiguidades. A cama ficava sobre um pedestal mais alto, e acima dela havia um dossel de tecido esverdeado que conferia ao sono conforto e segurança. Em tempos antigos, era o quarto  reservado a nobres e aristocratas que vinham se tratar no hospital, porém nos últimos anos vinha sendo utilizado por hóspedes, convidados da administração, especialmente os que vinham por períodos curtos, para dirigir cursos de aprimoramento ou supervisionar tratamentos complicados.
Uma enfermeira idosa e de pele escura que nos vira chegando entrou para  nos oferecer uma xícara de chá. Todos aceitamos com prazer, especialmente  porque sir Geoffrey ainda precisava preencher nos formulários que trouxera  alguns detalhes administrativos que o preocupavam. Examinou cuidadosamente o meu passaporte britânico, depois tentou extrair da nossa certidão de  casamento, que trouxéramos de Israel traduzida para o inglês, reconhecida e  carimbada em cartório, algumas informações que permitissem estabelecer o  estado civil de Micaela para que ela obtivesse plena cidadania britânica, ou pelo  menos o direito de residir e trabalhar legalmente na Inglaterra sem ser perturbada. Ela estava totalmente tranquila. Tirou os sapatos e se estendeu sobre um  dos pequenos sofás que havia no quarto, observando sir Geoffrey com grande  simpatia, estampada nos seus olhos maravilhosos e radiantes; ele não podia imaginar que aquele quarto frio, sombrio e estranho já despertava grande excitação naquela jovem mulher que, dali a pouco, depois que ele se despedisse e fosse  embora, iria me obrigar, mesmo cansado e um pouco deprimido, a lhe proporcionar prazer. Nesse ínterim foi trazido o chá e, em homenagem à Inglaterra,  decidi tomá-lo como costumavam tomar meus pais, com leite. Depois que sir Geoffrey terminou de preencher e dobrar os formulários, fechando sua caneta tinteiro, perguntei-lhe sobre os departamentos do hospital, especialmente o  cirúrgico. Contei-lhe a minha experiência como cirurgião, e ultimamente também como anestesista, e perguntei com hesitação se haveria a possibilidade de  participar ocasionalmente da equipe cirúrgica. "Sim", respondeu ele, lembrando-se de que Lazar lhe telefonara dois dias antes comentando a verdadeira inclinação profissional do jovem médico israelense e também perguntando se seria  possível conseguir um trabalho temporário de meio período para Micaela. Sir  Geoffrey não perdeu tempo e se prontificou imediatamente a atender à solicitação de seu amigo. No entanto, por mais que o diretor do departamento de  medicina interna estivesse disposto a abrir mão do médico enviado de Israel, o  diretor do departamento cirúrgico não conseguiu encontrar vaga para mais um  médico; todavia, no departamento de emergência e pronto-socorro do hospital  aceitariam ajuda de bom grado, e também ali eram realizadas operações urgentes, que às vezes não eram menos complicadas que as do departamento cirúrgico. Assim, se esse fosse realmente o meu verdadeiro desejo, não me restava alternativa a não ser me juntar a essa equipe e atuar como cirurgião ou como  anestesista, como eu preferisse.
"Então finalmente ele vai estar um pouquinho feliz", disse Micaela em  inglês, num tom calmo que continha uma leve censura, explicando como era  grande o meu desejo de ocupar um lugar ao lado da mesa de operações. O  inglês que falava era bastante simples, mas para minha surpresa não tinha o  menor sotaque israelense; falava com uma pronúncia autêntica e correta, que  certamente tinha apreendido na Índia. Sir Geoffrey a escutou com visível simpatia, encantado com seus olhos enormes e brilhantes, que conferiam um ar  festivo aos contornos sombrios da iluminação do grande quarto. Eu ainda refletia atônito sobre a conversa telefônica de Lazar antecipando a nossa vinda. Seria  mais uma manifestação do seu bom e paternal coração, ou haveria ali mais uma  vez a mão oculta da mulher amada, procurando me seduzir com o trabalho  cirúrgico na Inglaterra para prolongar minha estada no hospital, ou pelo menos  afastar de mim a ideia de um retorno antecipado? De fato, talvez eu ainda não  estivesse feliz, como queria Micaela, mas sem dúvida estava satisfeito e esperançoso. O pensamento de que em breve teria autorização de manusear de novo o bisturi e, num ambiente de tranquilidade e boas maneiras britânicas, cortar a carne viva sem estar submetido ao olhar inquisitivo e sarcástico de Hishin, ou  tio olhar invejoso e malévolo do meu colega/rival, excitou-me tanto que não tive tempo de impedir Micaela de concordar, sem qualquer hesitação, com a proposta de trabalho sugerida por sir Geoffrey: encarregada de limpeza da pequena capela anexa ao hospital, que ficava sob sua responsabilidade administrativa. A ideia de Micaela fazer trabalho físico durante a gravidez, e ainda na capela  de um hospital onde eu trabalhava como médico, deu-me uma sensação desagradável, porém fiquei calado para não questionar diante de sir Geoffrey sua  independência. Enfim, depois de um bom tempo, ele resolveu se despedir,  muito satisfeito consigo mesmo por já ter conseguido, na primeira hora, atender às necessidades dos israelenses a quem tanto prezava.
Então comecei a desfazer a mala onde havíamos separado todo o necessário para o período de transição, até que encontrássemos um apartamento adequado. Micaela tirou da sua pequena mochila a estatueta indiana que Einat lhe  dera e colocou-a numa prateleirinha sobre a cama, reverenciando-a com a saudação tradicional. Depois sugeriu que nos deitássemos na enorme cama para  descansar um pouco antes de continuar a arrumação. Eu não me sentia cansado e não desejava que as roupas continuassem se amarrotando dentro da mala.  Ela despiu o suéter, tirou os sapatos e as meias, abriu os botões de suas calças  jeans para liberar a barriga, que, segundo ela, já começara a crescer. Em seguida, jogou-se na cama, à espera de que eu terminasse de arrumar as roupas e os  objetos dentro dos espaçosos armários e me juntasse a ela. Suas pálpebras começaram a se fechar, e eu sabia que ela estava recompondo suas energias com a excitação irradiada por aquele quarto grande e estranho. Mas eu não sentia, no  momento, excitação suficiente para retribuir a dela. Estava cansado da viagem  e entusiasmado com a nova possibilidade de trabalhar com cirurgia. "Agora não  estou em condições, Micaela", declarei ao vê-la estender os braços para mim  com os olhos semicerrados. Ela não desistiu. Como não tinha a menor vergonha, levantou-se e despiu-se toda, ficando completamente nua. Tremendo de  frio, deitou-se sobre a colcha, que, para o meu gosto, não estava limpa o bastante, e disse:
"Então venha ao menos me aquecer. Para isso você está em condições?"
Apesar de não ter a mínima vontade de aquecê-la, também não queria  magoá-la, ainda mais sabendo como era importante para ela fazer sexo em lugares novos para espantar a ansiedade de domesticar a estranheza. Mas quando  fui verificar se a porta estava fechada, percebi que não havia chave nem fechadura, apenas uma frágil corrente que permitia entreabrir a porta e espiar, talvez  para impedir os doentes, ou a equipe médica, de trancar-se no quarto por motivos injustificados. "Talvez seja melhor desistir da ideia por enquanto", supliquei, pois temia não só uma visita inesperada como também seus gritos e gemidos, que poderiam assustar os enfermos que circulavam pelos corredores, cujas  condições acústicas não me despertavam confiança. No entanto Micaela não  desistiu. Seu desejo já se manifestava com toda a intensidade.
"Não seja medroso", disse puxando-me para ela, agarrando com suas mãos  fortes a minha cabeça para colocá-la inicialmente entre seus seios, depois sobre  a barriga e finalmente entre suas pernas, para que eu lhe proporcionasse com a  boca o que meu membro flácido não conseguia. Então ouvimos uma leve batida à porta, e pela estreita fresta surgiu por um segundo a face corada de sir  Geoffrey, que se esquecera de nos dar a lista de apartamentos vagos nas redondezas providenciada para nós por sua secretária. Ele teve vergonha até mesmo  de se desculpar e passou a lista por baixo da porta. Mais tarde, quando nos  encontramos no refeitório para o jantar, mostrou-se ainda mais afetivo e amigável, como se a rápida vazão dos nossos desejos, que se descortinara como um relâmpago ante seus olhos, tivesse apenas confirmado sua opinião sobre os enérgicos e dinâmicos israelenses.
De fato, ambos demos mostras de muita energia e dinamismo nos estágios  iniciais de nossa adaptação, o que nos proporcionou bem mais do que o esperado, talvez também porque a minha pronúncia correta do inglês, que tratei de  aperfeiçoar desde a minha chegada recordando o modo de falar do meu pai,  despertasse a confiança dos proprietários de imóveis e vendedores de carros.  Assim consegui encontrar, já dois dias depois da chegada, um apartamento  aprazível e bastante barato a pequena distância do hospital. Tinha apenas dois  quartos, grandes o suficiente para nossos hóspedes eventuais ficarem bem alojados, desde que não permanecessem muito tempo. Também o carrinho usado  que compramos parecia confiável e estava funcionando direito. Ainda que, oficialmente, eu não estivesse numa posição hierárquica que me desse direito a uma vaga no estacionamento do hospital, Micaela, tendo estabelecido uma  comunicação direta e particular com sir Geoffrey—um tanto irônica, mas  calorosa—,conseguiu autorização para estacionar o carro no pátio dos fundos  da capela. Dessa forma, ficamos livres da preocupação com lugar para estacionar, principalmente à noite, porque a região era super populosa. Micaela era  quem mais utilizava o veículo, e seu conhecimento das ruas londrinas ia ficando mais exato dia após dia. Entretanto, à medida que a gravidez avançava, eu  não via com bons olhos a crescente proximidade entre sua barriga e o volante,  e frequentemente a advertia não só para prender o cinto de segurança, que às  vezes ela esquecia, mas também para dirigir devagar, o que era praticamente  impossível para ela. Mas não me restava alternativa a não ser respeitar sua independência e confiar na sua sensibilidade, mesmo quando começou a circular  por áreas mais apinhadas de gente, habitantes vindos do Extremo Oriente,  como meio de renovar o contato com seus queridos indianos. Confiava que a  sua gravidez crescente e já visível a protegeria de ser abordada de forma desagradável. Eu sabia que lhe restavam apenas quatro meses de liberdade até o nascimento da criança. E percebia também que estava sendo totalmente sugado  pelo trabalho no hospital, que despertava em mim não só entusiasmo mas também ansiedade.
Para validar e valorizar o seu acordo de intercâmbio com o sr. Lazar, sir  Geoffrey apresentou-me a todos os profissionais do atendimento de emergência como cirurgião e anestesista experiente. A minha prática como médico do  exército também me dava uma confiabilidade especial aos seus olhos. Depois  de uma semana apenas, antes que eu tivesse tempo de aprender direito os  nomes e a disposição dos equipamentos médicos na pequena sala de cirurgia  anexa ao posto de emergência, e muitos antes de começar a me familiarizar  com o conteúdo dos armários de medicamentos, fui chamado no meio da noite  para participar da operação de urgência de uma garota de pele escura, com  cerca de dez anos, gravemente ferida na barriga num acidente rodoviário. Mal  a cirurgia começara, o médico responsável foi convocado para cuidar de outro  ferido no mesmo acidente, que sofrera um ataque cardíaco; com absoluta confiança, e sem perguntar muita coisa, passou generosamente para mim o bisturi, convidando-me a prosseguir a operação, no decorrer da qual se revelou  necessária a remoção do baço atingido. Assim, vi-me de repente sozinho diante do corpo de uma menina ferida e queimada, de pernas e braços longos que  fora anestesiada com uma dose forte demais, parecendo-me naquele momento que seu pulso fraquejava. A enfermeira que me assistia era jovem, aparentemente sem experiência, mas quem cuidava da anestesia era uma médica idosa  de cabelos brancos, cuja postura me inspirava confiança. No começo imaginei  que não havia luz suficiente na sala, pois não conseguia enxergar no interior do  abdome aberto tudo que desejava ver. Era possível que a pele escura da criança  estivesse confundindo meus olhos. Mas depois de tentar, sem êxito, aumentar a  luz sobre a mesa de operações, a enfermeira sugeriu que eu prendesse à testa uma  pequena lanterna, semelhante àquelas que mineiros usam nos filmes ao descerem às profundezas da terra. Fazendo isso, senti-me explorando as profundezas  daquele corpo, o primeiro da minha vida sob minha total responsabilidade.
Imediatamente descobri que a hemorragia interna não cessara, havia  outros vasos sanguíneos rompidos que necessitavam ser reconstituídos.  Solicitei mais uma porção cli sangue e realizei a transfusão enquanto continuava a operar com extremo vagar, aguardando a volta do médico responsável para  devolver o bisturi às suas mãos. Mas ele não voltou, e não me restou saída a não  ser concluir a operação sozinho, admitindo no meu íntimo que talvez o professor Hishin e o dr. Nakash estivessem corretos ao afirmar que eu pensava demais  na hora de operar e portanto não servia para ser cirurgião. Entretanto, ali, numa  sala cirúrgica inglesa, acreditava que a minha lentidão seria recebida com naturalidade e tolerância. Embora o pulso tivesse voltado ao normal, a respiração  estivesse totalmente regular, e o corpo magro e escuro relaxado na medida  certa, eu estava tomado de uma terrível ansiedade de que ocorresse algo desconhecido para mim durante a operação e que a menina morresse nas minhas  mãos, desgraçando não só a mim, mas também a Lazar e a mulher, que me  haviam enviado para lá. Por isso prossegui com ainda mais vagar, inspecionando repetidamente cada incisão feita, e num determinado momento cheguei a  insistir para falar com o técnico de raios X para que tirasse radiografias adicionais da coluna vertebral. Era bem depois da meia-noite; a velha anestesista de  cabelos brancos deixara de controlar seus aparelhos e mantinha os olhos fixos  em mim, esforçando-se para compreender a lentidão dos meus procedimentos.  Talvez apenas as suas boas maneiras a impedissem de fazer qualquer observação, apesar de ter todo o direito de comentar. A jovem enfermeira, por sua vez, não escondia sua irritação e manuseava os instrumentos ruidosa e grosseiramente  no compartimento de esterilização, resmungando sem parar. Mas não a  levei em consideração. Terminei de suturar o abdome com pontos pequenos e  precisos, de modo a evitar futuras cicatrizes, e finalmente, ao cabo de cinco  I toras, dei sinal à anestesista para que trouxesse a menina de volta. Não permiti  que a tirassem da sala até me certificar de que as palavras que ela murmurava  com seu sotaque esquisito faziam sentido. E assim pude ter certeza de que não  tinha havido nenhuma lesão cerebral durante a operação que estivera sob a  minha responsabilidade do começo ao fim. Sem tirar o avental, todo manchado de sangue, acompanhei a maca  conduzida vagarosamente para a sala de  emergências, totalmente silenciosa numa hora tão tardia—até os pacientes  que não haviam sido enviados a outras alas já tinham acabado de receber atendimento e jaziam adormecidos. Procurei o médico responsável para informá-lo, mas ele há muito se recolhera em seu quartinho, sem mesmo interessar-se  em saber como terminara a cirurgia deixada nas minhas mãos, tamanha era sua confiança no jovem médico recém-chegado. Apenas na sala de espera me  aguardava um grupo de familiares, negros altos e de pernas e braços longos, que  me receberam com respeito e gratidão, como se eu fosse o médico responsável.  Do ponto de vista deles, a minha demora fora um sinal de esperança.
Adaptei-me depressa ao trabalho no hospital. Percebi que era grande a probabilidade de ocorrerem cirurgias noturnas na sala de emergências, realizadas  de forma independente. Preferia, portanto, trabalhar à noite, apresentando-me  como voluntário nos plantões, o que foi recebido com simpatia pelos médicos  locais, que se revelaram, de forma geral, menos ambiciosos que seus colegas  israelenses. Dessa forma, descobri-me boa parte do tempo na pequena sala  cirúrgica anexa à sala de emergências, às vezes como cirurgião, às vezes como  anestesista, assumindo a responsabilidade por operações nada simples. Como,  por exemplo, uma cirurgia de apendicite, para a qual se poderia procurar um  especialista do departamento cirúrgico; mas o jovem inglês de roupas elegantes, contorcendo-se de dor, partiu tanto meu coração, que decidi operá-lo eu  mesmo, do meu jeito todo especial, ou seja, vagarosamente. A anestesista de  cabelos brancos, que às vezes dava plantão comigo, aprendera a respeitar o meu  ritmo, e em vez da enfermeira loira impaciente e mal-humorada escolhi outra,  uma escocesa calma e obediente. Ao final de cada noite, ao ver que não havia mais nada de interessante a fazer, voltava para casa a pé pela deserta rua londrina e acordava Micaela para relatar minhas aventuras. Ela despertava imediatamente e me ouvia de boa vontade, não só porque sempre se interessara por  assuntos médicos, mas também porque estava feliz em me ver cheio de energia.  Sua barriga redonda sobressaía como uma pequena colina rosada sob o cobertor, e às vezes, concentrado na minha narrativa, eu tinha a impressão de perceber um ligeiro movimento, prova de que o bebê também estava escutando. O  desejo sexual de Micaela diminuiu muito nos últimos meses de gravidez, não  só porque a estranheza do pequeno apartamento se dissipara, mas também por  causa da ideia estranha, ouvida de um viajante que voltara da Índia, de que relações sexuais podiam gerar no feto desejos frustrados. Não quis entrar em discussões teológicas com Micaela acerca do significado da vida e da consciência nos  fetos, ainda mais porque eu não estava especialmente interessado em ter sexo  com ela. Todavia, a memória do amor que eu conhecera naquela outra barriga,  grande, redonda, não menos atraente, no início da primavera, no apartamento da vovó prestes a ficar vazio, despertava no meu coração saudades tão doces e  intensas, que eu não conseguia conter as lágrimas; então baixava a cabeça para  evitar que Micaela visse meus olhos molhados.
Mas Micaela não tinha a menor disposição de notar lágrimas inesperadas  inundando meus olhos. Estava felicíssima com nossa estada na Inglaterra, desfrutando a sua grande liberdade de passear sozinha, encontrar pessoas ligadas à  Índia e planejar uma nova viagem para lá. Quando me metia na cama após me  lavar cuidadosamente num demorado banho de banheira, limpando as manchas de sangue e pus da minha alma, eu a encontrava mergulhada no sono, preparando-se para o seu servicinho matinal, sua única obrigação: varrer e esfregar  o chão da pequena capela, arrumar os bancos para a oração dos fiéis ou dos turistas e curiosos. Estava satisfeita com esse simples trabalho braçal, que lhe propiciava um salário nada desprezível, relativamente; eu até desconfiava de que era  acrescido de um pequeno subsídio complementar assumido por sir Geoffrey,  com o objetivo de reforçar o meu baixo salário. Ela também trazia da capela  tocos de velas que ocasionalmente acendia para nos proporcionar um clima festivo. Às vezes, quando eu voltava do banho, na luz cinzenta da madrugada, notava que ela tinha colocado, antes de adormecer novamente, metade ou um terço  de vela acesa do meu lado da cama, para acalmar minha solidão até que eu pegasse no sono. Realmente a luz trêmula apaziguava aos poucos o meu espírito  agitado e me fazia dormir; ou pelo menos mostrava quando eram cinco da manhã,  hora de telefonar aos meus pais antes que saíssem para trabalhar, ainda com os  descontos da tarifa noturna. Nos primeiros tempos telefonava com frequência,  preocupado com Amnon, que ocupara o meu apartamento, para saber se ele  pagara o aluguel no prazo. As duas horas de diferença de fuso horário entre  Londres e Jerusalém sempre me possibilitavam encontrar meus pais acordados  e bem-dispostos, prontos a dar informações sobre si mesmos e sobre o que se passava em Israel; mas estavam principalmente ávidos por saber o que acontecia  comigo, como estava Micaela, como transcorria a gravidez e se por acaso não  havia sinais de nascimento precoce, porque estavam se preparando para vir. A  data da viagem estava marcada, e as passagens já estavam pagas. Micaela encarregara-se de procurar para eles um quarto perto do nosso apartamento. E embora meus pais tivessem o cuidado de não se demorar demais nas conversas telefônicas que corriam por minha conta, não conseguiam deixar de pedir mais e mais  detalhes sobre os quartos disponíveis para aluguel na região, para decidir o que  lhes convinha. Pareciam entusiasmados não só por causa do esperado nascimento da neta e do encontro conosco, mas também pela permanência prolongada  que planejavam, pois desde que tinham partido para Israel, muitos anos antes, haviam feito apenas visitas rápidas. Agora viriam morar na Inglaterra durante  meses inteiros, como se estivessem voltando para a terra natal.

3.
    
 
Algumas vezes, acumula-se sobre a estatueta uma poeira insistente e determinada, até turvar a cor original. E se não vier alguém de tempos em tempos tirar  o pó com um pano delicado, descerá do teto sobre ela uma aranha de longas patas  e tecerá com grande paciência em torno da estatueta uma imensa e elaborada  teia, uma rede de fios transparentes porém firmes, como uma vestimenta delicada—até que um raio de sol, acompanhado de uma leve brisa que penetra pela  janela aberta, transforme a estatueta esquecida numa menininha gorducha e  empoeirada, com seu vestido brilhante revoando sutilmente à sua volta, pronta a  dançar com quem quer que a convide.
Mas quem haverá de convidá-la? Quem poderá esquecer que morte é morte,  ainda que disfarçada de outra coisa?
A criança nasceu numa noite muito fria de inverno, no nosso pequeno  apartamento, a algumas centenas de metros do hospital. Até agora não entendo como Micaela conseguiu me convencer—e, principalmente, convencer  meus pais—a concordar com isso. Mas será que realmente concordamos? Ou  apenas aceitamos a sua determinada decisão de dar à luz em casa, com o auxílio de uma parteira? Na verdade, o que podíamos fazer? Afinal não era possível  obrigá-la a ir para o hospital. "Sinto muito", anunciou a nós três com um sorriso tolerante, ao constatar o nosso estarrecimento, "mas não foram vocês, e sim  eu que carreguei a neném todo o tempo dentro de mim; então acho que tenho  direito de escolher o lugar para trazê-la ao mundo." E com essas palavras encerrou a discussão. Apesar disso, parece-me que não insistimos o suficiente para  fazê-la mudar de opinião, como se aceitássemos o fato de ela ter suas próprias  maluquices, com as quais era preciso conviver em troca dos seus numerosos  aspectos positivos, que em Londres se mostraram de forma bastante clara e concreta. Pois afinal encontrara um excelente quarto para os meus pais, a um preço  bastante razoável, com entrada privativa e uma pequena cozinha particular, a  poucas quadras do nosso apartamento—um quarto que pertencia a uma casa  com um jardinzinho simpático, cujos donos passavam longas férias na Itália. E  não só isso: organizou uma calorosa recepção quando meus pais chegaram.  Mesmo no meio do nono mês, insistiu em ir comigo ao aeroporto para recebê-los e dali levá-los ao nosso apartamento, onde lhes preparou uma rica refeição,  com diversas espécies de queijos e frios, pois havia percebido que meu pai era  louco por eles. Para minha mãe, que come com moderação, fez uma surpresa,  preparando framboesas com creme, que descobrira ser um prato favorito de sua  infância, por um comentário casual da minha tia de Glasgow. No quarto alugado para eles, Micaela tivera a preocupação de prover roupas de cama imaculadas, sem esquecer de providenciar para minha mãe, cuja cama, nesse quarto,  ficava grudada à do meu pai, um travesseiro adicional, como ela estava acostumada em Jerusalém. Além de tudo isso, pedira emprestadas a uma nova amiga,  Stephanie, duas bolsas térmicas, para o caso de o aquecimento central inglês  não ser suficiente para eles, especialmente porque junto com sua chegada, no  início de janeiro, descera sobre a Inglaterra um frio intenso.
A tal Stephanie, uma mulher madura vinda da África do Sul, que Micaela  conhecera no coro do bairro, estabelecendo com ela uma forte amizade, tornou-se a fonte de algumas de suas novas ideias, entre as quais a de dar à luz em  casa com auxílio de uma parteira. Isso parecia estar na moda entre as mulheres  jovens dos bairros no norte de Londres, que não só confiavam na sua saúde exuberante, como também buscavam um sentido no retorno aos costumes simples  das velhas gerações. E ficou claro que o parto em casa tinha seu lado prático: segundo uma jurisprudência polêmica baseada em precedentes, como costuma funcionar o sistema jurídico inglês, as parturientes jovens tinham direito de  recorrer à previdência para as despesas de maternidade e parto, que dessa forma  corriam por conta do Estado. Se fosse esse o único critério para a decisão de  Micaela, eu teria lutado contra ela com todas as forças, apesar do meu baixo  salário. Mas sabia que ela estava em busca de uma experiência básica, essencial;  e se metade das mulheres do mundo ainda davam à luz em casa sem fazer disso  um drama, não havia motivo para preocupações especiais. Sua gravidez havia  sido absolutamente normal, e ela sempre fora forte e saudável. Participou também de um curso sobre parto sem dor e sabia o que a esperava; e, em caso de  emergência, o hospital ficava praticamente ao lado de casa. Afinal, eu mesmo  "era ou não era médico?", como costumava dizer Micaela em tom de brincadeira; ela não conseguia entender como justo na casa de um médico, sobretudo de um médico jovem, era possível ter tantos medos e fantasias que jamais  ocorreriam a uma pessoa comum. Embora nos últimos meses, na pequena sala  cirúrgica do atendimento de emergências, eu tivesse adquirido uma experiência noturna extremamente séria em penetrar nas diferentes partes do corpo  humano, no parto não se falava em penetração, e sim, ao contrário, em saída—saída para a luz, para o mundo, da figura resultante do amor, que eu já tinha me  conformado em chamar de Shiva, desde que em hebraico o nome fosse escrito  como se escreve Shivá—retorno. Essa fora a minha pequena condição para  concordar com o parto em casa, e Micaela tivera de aceitá-la, embora protestando. "Você realmente está enganado, Benjy", disse ela, "fique sabendo que  Shiva, na forma original, é muito mais elegante. E não esqueça que a forma original tem letras da palavra 'shivayon', que quer dizer igualdade, equidade; e até  mesmo, se fizer questão, tem relação com algo religioso, como a frase Shivíti  Elohim lenegdí—coloquei Deus à minha frente."
"Mas você está se referindo a um deus totalmente diferente", respondi  depressa.
"Por que diferente?", disse admirada. "Deus é sempre o mesmo, Benjy. Por  que você não consegue entender? Não importa; por enquanto, seja como você  quiser. Quando aprender a ler e a escrever, ela mesma decidirá como prefere  escrever seu nome. De qualquer maneira, em inglês é tudo igual, as letras são  as mesmas, isso é o que importa." Encerrou-se assim a pequena negociação entre nós. E depois ouvi mais uma vez sua contundente declaração de recusa a  voltar para Israel após o término do intercâmbio.
Também os meus pais, já no caminho do aeroporto para casa, escutaram  a mesma recusa e a comentaram, porém não era essa a sua preocupação naquele momento, e sim o plano de Micaela de dar à luz em casa. Primeiro tentaram  pressioná-la sutilmente para mudar de ideia, como haviam feito com sucesso na  questão do tamanho da festa de casamento; só que dessa vez não permaneci  neutro, sentindo obrigação de apoiar Micaela e acalmar meus pais. Afinal,  minha autoridade e confiança como médico também tinham que ser consideradas. Por sorte recebemos um telefonema de parentes—da sobrinha do meu  pai e seu marido pálido, míope e de aparência um tanto misteriosa—convidando meus pais para jantar e ir ao teatro. Dessa forma, desviariam uni pouco sua  atenção das preocupações com o parto doméstico, sobre o qual decidi informá-los só depois de terminado. Não seria fácil, pois moravam perto de nós e, apesar  de evitarem incomodar-nos, mantinham contato conosco várias vezes ao dia. E  mais ainda por causa do atraso de alguns dias em relação à data esperada.  Quando Micaela telefonou para o hospital às seis da tarde, informando-me que a bolsa havia se rompido, pedi-lhe que não deixasse transparecer nada para os  meus pais e corri para casa. Stephanie, que adorava participar de partos domésticos, chegara antes de mim; fora ela quem dera a Micaela a segurança de que  tudo correria bem. Micaela já estava deitada, pálida e sorridente, sobre o meu  colchão (nossa cama de casal era formada por duas camas unidas). O colchão  dela fora colocado no quarto ao lado, junto ao aquecimento central, pois estava ensopado de água da bolsa rompida; perguntei-me se aquela água teria  algum cheiro. Como Micaela ainda não tivera a primeira contração, aproveitei  o tempo e fui preparar sanduíches e café para Stephanie e para mim; proibi  Micaela de comer para não vomitar depois. Embora ela tivesse assegurado que  a parteira traria "tudo que fosse necessário", eu me preparara para o parto: comprara na farmácia líquido desinfetante, material para estancar sangramentos e  três ampolas de pitocina para acelerar as contrações; porém as injeções de marcaína para relaxar a região pélvica não podiam de forma alguma ser obtidas na  farmácia, de modo que, com um pequeno peso na consciência, peguei-as  "emprestadas" disfarçadamente do armário de medicamentos da sala de parto  do hospital, na esperança de não precisar fazer uso delas. Eu tinha um pressentimento de que deveria estar preparado para uma eventualidade, de que algo  poderia sair errado; não hesitei e, sem perguntar a ninguém, preparei na minha  maleta médica alguns instrumentos simples, como fórceps, bisturis, tesouras  longas e curvas e fio de sutura; logo que cheguei em casa, mergulhei tudo numa  pia com água fervente para esterilização. Era estranho que eu estivesse ali sentado na cozinha, cheio de pressentimentos e preocupações, olhando para a  água borbulhante, sabendo que a poucas dezenas de metros havia à minha disposição salas cirúrgicas bem equipadas, às quais eu tinha livre acesso. Se eu realmente amasse Micaela, teria cedido com tanta facilidade?
A parteira demorava a chegar, apesar de ter avisado já há algum tempo que  estava a caminho. Micaela não mostrava sinais de ansiedade desnecessária, pois  havia se preparado muito bem para essa hora, e tinha certeza absoluta de que  tudo correria tranquilamente. Stephanie e eu acompanhamos o momento em  que ela reagiu à primeira contração com os exercícios de respiração especiais  que aprendera, sem emitir qualquer som. Nesse meio tempo meus pais telefonaram, e pelo tom da minha resposta perceberam que algo se passava. Fiz prometerem que não viriam até serem chamados. No entanto, não conseguiram  conter-se no lugar, especialmente por estarem sozinhos; depois de meia hora os  vi pela janela, apesar do frio intenso, andando para cima e para baixo na nossa  rua, como se assim pudessem estar mais perto do acontecimento. Vestiam pesados casacos e de vez em quando olhavam para cima, na direção das nossas janelas iluminadas. Depois desapareceram, e fiquei sabendo que entraram num  pub nas proximidades; de lá, telefonaram-me avisando que estavam por perto e  que, se eu precisasse, poderia chamá-los imediatamente. A parteira ainda não  tinha chegado, possivelmente presa num congestionamento de trânsito de final  da tarde, e eu comecei a me render à preocupação, pois não sabia exatamente  o que fazer, do ponto de vista médico, se ela não chegasse até a noite; nesse caso,  talvez fosse melhor obrigar Micaela a ir para o hospital. A frequência das contrações já aumentara bastante, mas ainda não havia sinais de dilatação. Micaela  estava sossegada e não soltou um único gemido; era estranho para mim que ela,  que se permitia gritos e gemidos selvagens durante o sexo, mantivesse o controle diante de dores tão fortes, cuja intensidade se revelava na palidez do seu rosto  e nos olhos fechados por longo tempo. Tive raiva de mim mesmo por ter cedido na questão da parteira. Mas antes de tomar qualquer medida mais drástica, como ir até o hospital e buscar alguém qualificado para ajudar, resolvi chamar  meus pais, para deixar Micaela sob a responsabilidade de alguém mais confiável que Stephanie, que apesar de tudo mantinha a calma, e também para poder  contar com o apoio deles e eventualmente com algum conselho prático de  minha mãe, que, afinal, também tinha dado à luz, mesmo que uma única vez  e quase trinta anos atrás.
Desci depressa até o pub para chamá-los. Tive dificuldade em localizá-los  no meio daquele aperto, pois não estavam sentados num canto, como eu esperava, mas de pé junto ao balcão, como fregueses antigos e habituais, bebendo  cerveja e conversando animadamente com um grupo de ingleses à sua volta. A  conversa era tão agradável e estavam se divertindo tanto que, quando me viram  aproximar-me agitado, meu pai presumiu que o parto já terminara e que eu  viera dar-lhes a boa notícia. Apressou-se em apresentar-me aos seus novos colegas, que inclinaram a cabeça com simpatia; percebi assim que eu era um dos  temas da conversa. Quando os três saímos do pub, meu pai se queixou mais uma  vez, como vinha fazendo desde sua chegada a Londres, do meu inglês sofrível  e dos erros que eu insistia em cometer; e novamente sugeriu que falássemos  inglês entre nós para que eu melhorasse. Minha mãe, sentindo a minha profunda ansiedade, interrompeu-o com uma frase seca: "Agora não. Primeiro vamos esperar o nascimento de Shiva". Havia algo de agradável e reconfortante no  jeito como ela pronunciou pela primeira vez o nome da neném que ainda não  nascera e que, aparentemente, não tinha pressa em nascer, a julgar pela falta de  dilatação de Micaela. Meu pai, é óbvio, não entrou no quarto, postando-se polidamente junto à porta. Minha mãe sentou-se ao lado da cama numa conversa  animada com Micaela e Stephanie, que também começavam a ficar muito  preocupadas com o atraso da parteira. Três horas se passaram desde que fora  chamada, e nada de ela aparecer! E pensar que ambas confiavam nela, não só  do ponto de vista médico, como também espiritual.
Então compreendi que caberia a mim o parto da minha filha, e a situação  para a qual eu fora manipulado era sem dúvida absolutamente descabida, considerando-se que o hospital ficava a poucos passos da nossa casa. Micaela percebeu minha raiva e sorriu timidamente, como se desculpando. Na sua face  pálida haviam surgido manchas negras sob a cavidade dos olhos, e eu sabia que  ela estava sofrendo dores terríveis, mas evitando queixar-se, especialmente depois de manifestar tanto entusiasmo pelo curso de parto sem dor, que ela  insistira em fazer sob orientação de uma parteira que não chegava e em cuja  casa ninguém sabia informar onde estaria. Transportei para o dormitório todos  os instrumentos e remédios que havia preparado, coloquei duas almofadas sob  as pernas de Micaela, para erguê-las, e sem hesitar apliquei-lhe uma injeção de  pitocina para acelerar as contrações. Jamais tivera antes a ocasião de aplicar  uma injeção dessas em qualquer mulher, mas como tinha lido bastante sobre o  assunto e decorado os procedimentos, não vacilei, também porque se tratava de  uma solução fraca de uma substância que identifiquei como semelhante àquela usada para reanimar os músculos após as cirurgias. Minha mãe observou com  profundo respeito como apliquei a injeção e, confiante na minha mão leve e  hábil, inclinou um pouco a cabeça afetuosamente. Mesmo tendo se oposto  com todas as forças ao parto doméstico, revelou uma maravilhosa capacidade de mostrar otimismo na hora da necessidade, deixando de lado velhas diferenças. Para distrair Micaela até a contração seguinte, procurou recordar pequenos  detalhes do meu nascimento, aos quais Micaela prestou pouca atenção, pois  agora, por efeito da injeção, as contrações passaram a vir com mais frequência,  mas ainda sem qualquer sinal de dilatação. O bebê, cuja cabeça eu conseguira  palpar para me certificar de que sairia primeiro, ainda estava muito alto e distante, parecendo recusar-se a chegar mais perto da abertura, que permanecia  totalmente fechada. Eu não quis ainda aplicar a injeção de marcaína, receoso  de que provocasse um relaxamento que adiasse ainda mais o parto. Percebi que  a minha crescente preocupação era exagerada, afinal qualquer motorista de  ambulância já fez na vida um ou dois partos improvisados, sem considerar isso  uma façanha. Além do mais, Micaela suportava as dores com admirável estoicismo. Ainda não pedira que eu aplicasse a injeção para aliviá-las e fez tudo que  recomendei sem reclamar, como se estivesse disposta a se pressionar até as  entranhas e rasgar-se em pedaços, contanto que eu não a levasse do nosso quarto para o hospital.
Entre seis e sete da manhã, enfim chegou a hora do parto em si, após mais  uma injeção e um corte de aproximadamente quatro centímetros na vagina,  feito às duas da madrugada: o canal começou a se abrir e dar passagem lentamente, mas de forma segura, como uma grande rosa vermelha e perfumada. E  quando, na morna intimidade do nosso quarto—que, a pedido de Micaela,  encontrava-se à meia-luz—,surgiu, junto com os primeiros sinais da cinzenta  aurora londrina, a cabeça coberta de cabelos desgrenhados do nosso bebê,  comecei a entender, e até mesmo a justificar, a teimosia de Micaela em esperar  o parto na nossa casa. Um parto fácil e tranquilo. A criança, talvez por identificação com Micaela, que durante toda a noite se controlou para não soltar um  único gemido de dor, chorou apenas um pouco, um choro leve, que cessou logo  que cortei o cordão umbilical e o entreguei à minha mãe. Ela envolveu a menina numa grande toalha, as mãos realmente tremendo de forte emoção. Eu não  imaginava que aquela mulher racional e pouco   emotiva fosse  capaz de demonstrar sentimentos tão intensos. Mais tarde, ao recordarmos esses momentos,  ficou claro que a emoção da minha mãe, que a fizera tremer tanto que quase deixara cair o bebê, não se devia apenas ao nascimento em si, tampouco à cabeça cabeluda, quase diabólica, da criança, mas também a uma longínqua mas  intensa memória de solidão, a solidão que sentira na hora do meu nascimento,  que na época ela não sabia que seria seu primeiro e último parto. Eu estava  comovido com a cabeleira negra que tinha emergido do ventre rubro, justamente porque era o oposto do corte rente e juvenil de Micaela; ainda me lembrava que a tomara por um rapaz no nosso primeiro encontro na sala de visitas  dos Lazar. Era como se, por algum processo misterioso, uma pequena quantidade dos cabelos longos e abundantes da mulher amada e impossível tivessem  brotado na cabeça da minha criança, que agora repousava escura e brilhante  sobre o meu travesseiro, enquanto eu esperava a  saída da placenta para poder  costurar com calma, com o fio que me lembrara de trazer do hospital, o corte  vermelho na vagina. Digo "com calma" porque até mesmo Micaela, radiante de felicidade, conseguiu perceber o significado da provação que eu passara ao  longo dessa noite—ser o médico no nascimento da minha  própria filha. Ela  não imaginava que em breve eu exigiria uma compensação efetiva pela competência cirúrgica de manusear com minhas próprias mãos seu ventre, seu sangue e sua placenta. Quando Stephanie, que durante a noite se encantara com  o meu desempenho, finalmente convidou meu pai a entrar e conhecer a neta,  não fiquei para ver a reação do bom homem, que passara todo o tempo sentado no quarto ao lado, desperto e em silêncio. Fui para a banheira, procurando purificar-me daquilo que sentia ter maculado o meu pouco amor por Micaela.
Tão profunda e intensa era a fadiga que se abatera sobre os quatro lados da  minha personalidade mobilizados durante aquela noite—médico, marido, pai  e filho—,que acabei cochilando dentro da água quente e perfumada do banho.  Nem notei que enfim a parteira viera, uma senhora alta de pele escura, provavelmente de origem oriental, com cabelos brancos e expressão altiva. Seu misterioso desaparecimento tinha um motivo bastante prosaico: no início da noite,  logo que recebera o chamado, saíra para nossa casa, mas fora atropelada por um  carro, ferindo-se gravemente no calcanhar, o que a obrigara não só a preencher  um longo boletim de ocorrência, como também  a permanecer algumas horas  no pronto-socorro. E como nós não constávamos na lista telefônica, não pudera entrar em contato conosco. No entanto, sua consciência não lhe permitira  voltar do hospital direto para casa e, assim mesmo como estava—mancando  numa muleta e torturada de dor—,viera, acompanhada de sua jovem filha,  honrar o compromisso e ver se ainda era necessária. Embora a criança já tivesse nascido, Micaela e Stephanie se alegraram com sua vinda e convidaram-na a sentar-se na poltrona do quarto—primeiro para relatar o parto com todos os  detalhes, e como as "respirações corretas" aprendidas no curso haviam ajudado a superar as dores; depois, para pedir que ela examinasse bem o bebê e desse  a sua opinião. Despertaram a criança e colocaram-na despida no colo da parteira, que a examinou de todos os lados, untando-a com um óleo especial que trouxera; aí Stephanie a depositou novamente na minha cama, ao lado de Micaela.  A criança ainda não tinha berço. Micaela comprara numa loja especializada  todos os utensílios necessários, mas os deixara lá para não despertar a inveja de  forças malignas e misteriosas antes do nascimento.
"Não acredito", disse meu pai a Micaela com genuíno espanto. "Você,  uma moça racional e liberada, acredita em forças malignas e misteriosas?"
"É claro que não acredito em forças misteriosas", retrucou Micaela em  tom jocoso, "mas o que posso fazer se elas acreditam em mim?"
Stephanie e Micaela elogiaram-me muito perante a parteira. Ela examinou a vagina e também elogiou minha costura, mas não ocultou seu desapontamento com as injeções. Qual era a minha pressa?, ela quis saber. Afinal a natureza tem o seu próprio ritmo. Se eu não tivesse apressado tanto o parto da minha mulher, talvez ela própria tivesse chegado a tempo de realizá-lo. Impossível  saber se estava lamentando ter perdido seu pagamento, ou o simples prazer profissional, ou ambas as coisas.
Tudo isso não importava mais. O rosto do meu pai estava contraído de cansaço, e minha mãe pediu que eu chamasse um táxi para eles, pois não queria me  Incomodar. Insisti em levá-los para casa eu mesmo, e fui buscar o carro no estacionamento dos fundos da capela, procurando fixar na memória detalhes da  paisagem da nublada rua londrina, que lembrava um velho filme inglês. Queria  guardar aquele momento para contar a Shiva, quando ela crescesse, fatos da  manhã em que nascera. Quando chegamos à simpática casa dos meus pais, cercada pelo pequeno jardim, ocorreu a minha mãe, que estava totalmente desperta, a ideia de voltar e ficar com Micaela, deixando-me tirar algumas boas horas  de sono na sua cama, ao lado do meu pai. Não sei se estava preocupada com o  meu semblante sombrio ou se já sentia saudade da criança recém-nascida, da  qual acabara de se separar. Mas recusei. Eu poderia perfeitamente ter um bom  sono restaurador no quarto deles, envolvido na quietude daquela casa burguesa, mas não sabia como Micaela receberia meu sumiço de casa poucas horas  após o nascimento, de modo que me despedi dos meus pais. Abraçaram-me e  beijaram-me com força. Sabia que estavam muito felizes, e o nevoeiro cerrado  que nos envolvia, trazendo-lhes recordações da infância, reforçava ainda mais  sua felicidade. Estavam orgulhosos de mim por ter conseguido fazer sozinho o  parto que tanto temiam. Eu também estava satisfeito comigo mesmo, e no  caminho de volta para casa, conduzindo o carro lenta e cuidadosamente entre  as caminhonetes dos leiteiros, ponderei se deveria incluir no relatório mensal  das minhas atividades no hospital, que enviava para a secretária de Lazar, que  eu realizara um parto sozinho na minha própria casa; afinal, eu comunicara  apenas um mês atrás que um nascimento estava prestes a ocorrer. Tal fato poderia ser interpretado como uma intimidade excessiva com Micaela. Talvez  devesse me contentar em comunicar o nascimento de Shiva, para que ela, a  mulher distante e impossível, soubesse que estava aberto o caminho para restabelecer a ligação doce e secreta entre nós, agora que estava duplamente protegida de mim.
Quando cheguei em casa pensei que fizera mal em não aceitar a sugestão  da minha mãe de dormir um pouco no quarto deles para recuperar as forças.  Micaela e Stephanie ainda estavam imersas numa animada conversa com a parteira, que, apesar das dores no calcanhar, permanecia sentada, com sua  filha,  no nosso quarto, tomando a segunda ou terceira xícara de chá. Nas suas mãos  se encontrava não a nossa filha, mas a estatueta indiana, estendendo seus numerosos braços em todas as direções; agora não se falava sobre partos e bebês, e sim  sobre questões da vida em si, seu propósito e seu significado. Também fui convidado a dar a minha opinião. Stephanie serviu-me chá com leite, e eu descalcei os sapatos e me joguei sobre a cama, espremido entre cinco mulheres, levando em conta também a neném, que não parava de piscar. Realmente, não era à  toa que Stephanie e Micaela reverenciavam aquela parteira, uma mulher original, com uma linguagem eloquente e ideias inusitadas e pitorescas. Na profissional prática e competente, residia uma crença arraigada na transmigração das  almas e na reencarnação, não só após a morte, e sim em meio ao fluxo e ao turbilhão da vida. A sua concepção de alma, no entanto, era de algo mais leve e  delicado do que na noção convencional: excluía as partes pesadas, como as  memórias e informações, deixando apenas as emoções e aspirações que lhe permitem mover-se com facilidade, transmigrando deliberadamente de um lugar  a outro e de uma pessoa a outra. Por exemplo, quando ela machucara seu calcanhar no início da noite e fora levada ao hospital, compreendera que não chegaria a tempo na nossa casa, e sua alma transmigrara para os presentes naquele  quarto, especialmente  para mim. Eu não tinha a sensação, perguntou, de que  nessa noite fizera com absoluta facilidade e segurança coisas que nunca havia  feito antes?
"Sim, realmente, eu tive essa sensação", declarei honestamente. "Mas se  a sua alma entrou em mim", indaguei com um sorriso exausto, "onde é que estava a minha alma? Pois não é possível que houvesse duas almas dentro de mim."
"Estava obviamente dentro de mim", respondeu a parteira com simplicidade e desembaraço ao meu desafio, "tomei conta dela até que você terminasse o parto e me evolvesse a minha alma."
"E como lhe pareceu a minha alma?", continuei, provocativo.  "Para dizer a verdade, uma alma meio infantil", respondeu, corando como  se tivesse revelado um segredo desagradável.
"Uma alma infantil?", eu disse rindo admirado, mas também um pouco  ofendido, pois não esperava essa resposta. "Infantil em que sentido?"
"Nas paixões estranhas dela", respondeu.  "Paixões?", gritei estarrecido. "Mas por quem?"  "Por mim, por exemplo", replicou com intensidade, lançando-me um  olhar sério, até que sua filha, que o tempo todo estivera observando a mãe com  absoluta veneração, caiu numa sonora gargalhada, que tomou conta também  de Micaela e Stephanie, e finalmente da própria parteira. Ela levantou-se então  e alisou os cabelos da criança, depois pousou a mão sobre o meu ombro para me  acalmar.
Depois que as três mulheres foram embora, e Micaela passou com a  neném para o outro quarto, para que eu pudesse dormir um pouco em paz—pois ela ainda não conseguia adormecer por causa da excitação—,subitamente senti, com a mente turvada pelo cansaço, que talvez eu fosse mesmo capaz  de me apaixonar por aquela parteira altiva de cabelos brancos, da mesma forma  que me apaixonara por Dori, que logo apareceu num sonho confuso; quando  acordei, e me percebi tão longe dela, pai de uma pequena família na cinzenta  Londres, quis chorar de saudades. Eram três da tarde, caía uma chuva fina, e do  quarto ao lado vinha a voz excitada da minha mãe conversando com Micaela,  que ainda não pregara o olho mas mantinha um estado de espírito animado, talvez também porque nesse ínterim haviam chegado da loja o berço, a banheirinha e o carrinho do bebê. A criança já possuía o seu lugar no mundo, e se porventura ainda estivessem faltando pequenas coisas, meu pai já saíra pelas ruas  de Londres para trazê-las. Assim sendo, no mesmo dia, às seis da tarde, pude sair  como de costume, com o coração tranquilo e sem preocupações desnecessárias, para dar o meu plantão no hospital, com a segurança de que a neném não  só se encontrava nas mãos confiáveis de Micaela e dos meus pais, como também de que a vida em casa estava voltando ao normal. Fiquei aliviado por conseguir devolver os instrumentos e remédios aos seus respectivos lugares sem  ninguém notar. Mas lamentei não poder contar o nascimento ao pessoal da  equipe médica, por recear que nossa atitude fosse interpretada como falta de  confiança no hospital. Portanto, não pude também me vangloriar do meu  sucesso como parteiro, com medo que considerassem irresponsabilidade.  Silenciei. E já que, por causa do frio intenso lá fora, quase nenhum doente chegara ao pronto-socorro, pude recapitular no meu íntimo, muitas e muitas vezes,  as lembranças do nascimento e saborear a satisfação do parto que eu realizara  com competência na intimidade do nosso quarto. Depois da meia-noite, terminado o meu turno, voltei para casa e encontrei Micaela sentada amamentando  o bebê. Meus pais tinham ido embora um pouco antes, aparentemente porque  tinham dificuldade para se desligar da doçura irradiada pela criança, e talvez  também porque estivessem com medo de deixar Micaela sozinha. Desde antes  do parto, cerca de trinta horas atrás, era a primeira vez que ficávamos sós. "Você  vai desabar se não dormir um pouco", eu disse.
"Não se preocupe, está tudo bem", respondeu sorrindo afetuosa. Não  havia dúvida de que o nascimento fortalecera a nossa afeição mútua. Micaela  ficara muito impressionada com a minha habilidade médica, e eu guardava  profundo respeito pela dignidade com que ela suportara a dor. Não sei se chegou a suspeitar de que eu não lhe dera nenhum sedativo ou analgésico não só  para assegurar sua plena lucidez e cooperação, mas também como uma dissimulada vingança por ter me obrigado a assumir o lugar da parteira. Na verdade,  eu tinha a estranha sensação de que a nossa crescente estima mútua em nada  contribuiria para melhorar o amor que supostamente deveria nos unir.  Sensação reforçada naquela tardia hora da noite pela indiferença com que  observei seus seios alongados, que não me despertaram nenhum desejo, nem  mesmo de aproximar meus lábios de um dos bicos para sentir o que a minha  filha sentia naquele momento.
Na semana seguinte Micaela recuperou tranquilamente as horas de sono  perdidas, aprontando-se com eficiência para retomar sua vida normal, especialmente as andanças por Londres. Meu pai e minha mãe ficaram à disposição  como babás, mas ela não queria depender demais da sua ajuda, tanto porque  queria que aproveitassem suas férias, que terminariam em uma ou duas semanas, como porque precisava começar a se ajeitar sem a presença deles. Ela pendurou na barriga, que já voltara ao normal, uma espécie de mochila especial  onde carregava Shiva, que ali sentia calor e segurança como um pequeno canguru na bolsa da mãe. Dessa forma, uma semana depois de dar à luz, Micaela  pôde voltar ao trabalho de faxineira na capela, com a neném na cintura, e também continuar visitando antigos conhecidos de suas viagens pela Índia que encontrara na zona leste de Londres. A autoconfiança natural de Micaela transmitia-se para a menina, que foi se tornando espiritualmente semelhante à mãe: não só suportava em silêncio toda espécie de percalços durante os passeios,  como às vezes parecia estar gostando. Ainda era cedo para determinar com  quem ela se parecia fisicamente, a despeito das insinuações de meus pais. Não  era parecida comigo, tampouco herdara os olhos espantosos de Micaela. Uma tarde em que fiquei sozinho com ela, algo no formato um pouco achatado de  sua cabeça e nos seus olhos estreitos me fez lembrar a figura simpática, pálida e  levemente misteriosa do nosso parente inglês não judeu, marido da sobrinha de  meu pai, que demonstrava por ele e pela minha mãe um afeto todo especial. Ele  e a mulher acharam apropriado, por exemplo, convidar numa tarde de domingo nossos familiares ingleses para uma pequena festa em homenagem ao bebê;  uma das presentes foi a irmã de minha mãe, a tia dinâmica de Glasgow, que tentou persuadir meus pais, numa conversa franca e direta, a passarem uma semana como seus convidados na Escócia, antes de voltarem para Israel.. Apesar do  grande amor que sentia pela sua irmã mais jovem, minha mãe hesitou, tanto  pela dificuldade de se separar da netinha, como porque queria proporcionar a  Micaela a maior quantidade possível de horas livres sem carregar a neném em  suas aventuras londrinas. Entrementes descobrimos que, junto ao departamento de pediatria do hospital, havia uma pequena creche, semi oficial, para os filhos dos membros da equipe médica. A creche não era destinada a crianças da  idade de Shiva, porém Micaela conseguiu convencera enfermeira responsável  a aceitar nossa menina de vez em quando por um período parcial. E assim meus  pais puderam aceitar com a consciência tranquila o convite caloroso da minha  tia e completar sua visita perfeita à Inglaterra com um retorno aos cenários da  infância escocesa da minha mãe.
Incentivei-os a viajar, não só para a satisfação deles e da minha tia, mas também porque soubera por intermédio de sir Geoffrey que Lazar e a mulher chegariam a Londres nos próximos dias, e eu não queria expor aos olhos prescrutadores de minha mãe a excitação febril que já tomava conta de mim em virtude  dessa visita. Embora sir Geoffrey não soubesse da vinda de Dori, referindo-se  apenas a Lazar, eu sabia que aquela mulher, incapaz de ficar sozinha enquanto o marido fazia uma viagem rápida para a Índia, não conseguiria suportar a solidão também durante a viagem dele à Inglaterra. Cheguei a me iludir pensando que fora por causa de sua vinda iminente que ela evitara se manifestar  sobre o nascimento de Shiva, que eu mencionara no relatório mensal enviado  à secretária de Lazar. Procurei me informar com sir Geoffrey sobre o programa  da visita e descobri que era cheio de compromissos, pois Lazar tencionava fundar em Londres uma sociedade de amigos do nosso hospital. Ofereci-me, portanto, como acompanhante adicional, pelo menos para cuidar que sua esposa,  caso viesse, não ficasse entediada. "Ela não parece uma mulher capaz de se  entediar", disse rindo sir Geoffrey, lembrando-se da visita que ela fizera dois  anos antes, grudada no marido, sorridente e satisfeita de si mesma. Era notório  que sir Geoffrey gostava dela, e precisei mesmo brigar um pouco para que me  permitisse buscá-los no aeroporto em seu lugar. Isso obrigou Micaela a perder  sua sessão de ioga no Centro Comunitário de South Kensington para ficar em  casa com a criança, que aliás estava meio resfriada. Ela não se opôs, mas questionou um pouco o verdadeiro motivo por trás da minha insistência em ficar à  disposição dos Lazar e também pôs em dúvida que o nosso carrinho Morris  aguentaria "aqueles dois gorduchos" e suas bagagens. Eu me acostumara ao  fato de que a hostilidade de Einat aos pais fora transmitida para Micaela, talvez  na época em que haviam estado juntas em Calcutá; assim, nem pensei em responder. Meu pensamento vagou para o instante da surpresa, quando ela e Lazar  me veriam esperando junto ao portão de desembarque, embora estivessem bastante acostumados a me ver em aeroportos.
Com sua suprema agudez, Lazar me descobriu antes que eu os localizasse e veio abraçar-me com força. A fisionomia da esposa também não se intimidou em absoluto com esse encontro tão repentino; ao contrário, irradiava intensamente o seu brilho interior e, com uma naturalidade que me deixou atônito,  estendeu os braços para me abraçar e beijou-me nas duas bochechas. Embora  sabendo que não passava de um simples beijo amigo, fruto da excitação da viagem e da chegada, e certamente muito parecido com o que sir Geoffrey receberia se estivesse no meu lugar, não pude controlar o violento tremor que  tomou conta de mim, como se esse beijo simples e risonho, dado com tamanha  naturalidade pela mulher amada, na presença de seu marido, encorajasse meu  coração a ter esperança de algo real e concreto dessa visita, que se iniciava sob  a luz morna de uma cordial manhã londrina. Foram provavelmente esses pensamentos novos girando na minha cabeça, e não o fato de ela estar sentada à  minha esquerda com suas longas pernas procurando ajeitar-se no minúsculo  espaço do meu carrinho, que me fizeram confundir-me no caminho do aeroporto para o hotel, perdendo-me de forma desagradável. Lazar, exausto e aflito  como sempre, não perdoou o erro. "Em Nova Delhi você sabia se orientar  melhor", comentou com um ligeiro sarcasmo, espremido no banco de trás,  tenso e agitado, junto a uma das malas que não coubera no porta-malas, observando as desconhecidas ruas de Londres e acreditando que seria capaz de se  localizar melhor do que eu, caso estivesse ao volante. Diante do hotel, ao retirar a outra mala, reconheci que era a mesma que arrastáramos pela Índia; com uma sensação misteriosa e inexplicável de felicidade, abaixei-me para alisar o  couro ligeiramente gasto, que parecia ainda coberto pela poeira vermelho amarelada das estradas de terra próximas aos templos de Bodhgaia. Lazar quis abrir  a mala no saguão do hotel e tirar de dentro o presente que haviam trazido para  o bebê, porém Dori o impediu com um gesto brusco.
"Depois; temos bastante tempo. Vamos dar o presente para o bebê  mesmo", e pela primeira vez me perguntou o nome da criança. Ao ouvir o  nome escolhido por Micaela, pareceu tomada de excitação e entusiasmo, talvez por ter captado imediatamente a profunda relação com a Índia, na qual se  sentia incluída. Quis contar-lhes a minha restrição a dar à minha filha justamente o nome do deus desejoso de destruir o próprio universo e a minha vontade de manter em hebraico a grafia, de modo que fizesse referência apenas a  "retorno". Só que seria muito difícil explicar em poucas palavras àquelas duas  pessoas exaustas da viagem a qual retorno eu me referia.
Ao voltar para casa não encontrei Micaela. Apesar de a neném estar resfriada, resolvera levá-la junto. Fiquei aborrecido por ela não ter dado atenção à  minha advertência médica; quase interpretei sua saída como uma pequena  represália ao meu excesso de disponibilidade para Lazar e a mulher, totalmente exagerado na sua opinião. De fato, apesar da competência que eu exibira no  parto, Micaela recusava-se a estender ao bebê as minhas recomendações médicas. "Para ela você vai ser apenas pai, e não médico", avisava-me com o tom  autoritário que às vezes era capaz de empregar. Realmente, era importante para  Micaela não me conceder nenhuma vantagem nas atribuições referentes aos  cuidados com a criança, e em princípio estava certa. Mesmo assim, eu receava que as andanças pelo ar frio provocassem alguma infecção que nos obrigasse a  permanecer em casa exatamente nesses dias em que eu desejava estar livre ao  máximo para tentar me aproximar daquela mulher. No instante em que a vira  novamente, compreendera que estava proibido—sim, proibido—de desistir  dela. E tampouco queria desistir, nem em pensamento, pois isso significaria  atingir uma artéria vital que me alimentava naquele momento e me dava forças para lidar com Micaela e com o bebê, e até mesmo com meus pais, que ultimamente tinham se tornado moles e sentimentais, levando em conta cada  palavra que eu dizia. Afinal, eu não precisava de muita coisa para sustentar essa  paixão que me assolava dia e noite; bastava-me desfrutar ocasionalmente o brilho do seu sorriso para tomar coragem de entrar outra vez no seu escritório e  fazer uma confissão franca e ansiosa que lhe despertasse não só surpresa e aflição, mas também, e sobretudo, admiração por si mesma, por sua capacidade de  gerar tamanha confusão na cabeça de um homem jovem como eu, pronto a  despertar nela um desejo diferente daquele despertado pelo fiel marido que a  cobria incessantemente de beijos e carícias.
Mas quando Micaela voltou com a criança, que estava saudável e corada  pelo passeio ao ar de inverno, sem nenhum sinal do resfriado, não pude deixar  de me admirar com a intuição materna, que captara com exatidão e segurança  o caráter superficial do resfriado, cuja gravidade eu exagerara. E mais uma vez  reconheci como a minha mãe estava certa quando, na primeira visita de  Micaela à nossa casa, previra que, quando ela tivesse um filho, deixaria de procurar a si mesma para encontrar seu lugar no mundo, e nem mesmo a falta de  um diploma de colégio a atrapalharia. Naquele momento senti tanto prazer em  observá-la, trocando a fralda e começando a amamentar o bebê com seus movimentos eficientes, que insinuei a ela o meu desejo de um sexo rápido no curto  tempo que ainda me restava antes do plantão no hospital; dessa forma daria  vazão também ao desejo despertado em mim por aquela mulher recém-chegada. Por educação, teríamos que convidar o casal para um chá na nossa casa, para  que conhecessem o bebê e dessem o presente que tinham trazido; eu aproveitaria a ocasião para me manifestar acerca dos planos para meu retorno ao hospital, de modo a garantir que a porta via Inglaterra de fato estaria aberta. Porém  Micaela hesitou. Sua amiga parteira aconselhara a não manter relações sexuais  completas até três meses após o nascimento, para que todos os cortes cicatrizassem e as eventuais consequências do choque se diluíssem. Embora houvesse  certa lógica nisso, até mesmo do ponto de vista médico, a tensão acumulada em  mim naquela noite levou-me a encurtar as horas de sono após o plantão e voltar ao hospital já ao meio-dia. Deixei Shiva no pequeno berçário para os filhos  do pessoal da equipe e fiquei vagando ao acaso perto da sala de sir Geoffrey, na  esperança de deparar com o casal vindo de Israel. E não me enganei. De longe  distingui seus passos firmes, exatamente como o marido distinguia, e em poucos instantes surgiram os olhos sorridentes e ansiosos, pois ela entendera que eu  estava circulando pelo corredor perto da sala de Geoffrey apenas para encontrá-la de novo. Se eu não tivesse a brilhante ideia de convidá-la para conhecer  o bebê, é provável que ela teria sido arrastada, na sua cômoda passividade, para  a reunião do marido com sir Geoffrey, cujo objetivo, segundo Lazar me contara na véspera, era conseguir para o hospital de Tel Aviv, por um preço irrisório,  equipamentos de diálise e anestesia usados, mas em bom estado, dos excedentes do hospital inglês. Percebi que a sugestão de conhecer o bebê a deixou entusiasmada; Lazar, que queria examinar melhor o equipamento existente, a fim  de assegurar-se de que as boas intenções de Sir Geoffrey não acabariam gerando complicações, também gostou da ideia e a incentivou a ir. "Mas por que não,  Dori? Vá ver um pouquinho o bebê dele. Se Benjy tiver algum tempo livre, talvez possa levá-la à catedral de São Paulo, que você queria ver ainda hoje; estou  com medo que aqui leve muito tempo, e depois ainda virá o sujeito que está  organizando o evento para a Sociedade dos Amigos."
"E quando é que você vai ver o bebê?", gritou irritada, como se fosse uma  obrigação ou um prazer dispensável. Mas eu, excitado com a oportunidade de  ficar sozinho com ela, oportunidade que surgira de forma tão simples, apressei-me em afirmar que haveria outras ocasiões para Lazar ver a criança.
"Você ainda vai ter diversas oportunidades de vê-la", assegurei calorosamente a Lazar, que não mostrou o menor entusiasmo. Combinamos que em  duas horas eu traria Dori de volta ao escritório de sir Geoffrey. Dessa maneira,  por uma conjunção inesperada de circunstâncias, ela de repente estava sob a  minha guarda, ainda que apenas por duas horas, num local que não conhecia,  envolta na sua túnica azul de veludo que me recordava a viagem à Índia e que  parecia pertencer à categoria de roupas adequadas para qualquer ocasião. Com  as batidas firmes e seguras de seus saltos, pôs-se a caminhar ao meu lado—aquela mulher de meia-idade, madura e gorducha, que talvez já tivesse partido deste  mundo quando eu chegasse à sua idade atual. Essa ideia nova fez fluir dentro  de mim, ao mesmo tempo, tristeza e um leve prazer. Em tom amigável, mas  com cuidadoso distanciamento, como se jamais tivéssemos nos deitado juntos  e nus, perguntei como estava a vovó no lar de idosos, pois tinha certeza de que  ela se alegraria em falar da mãe, inclusive porque sabia tratar-se de um assunto  íntimo e comum a nós dois. Quando a convidei a entrar em silêncio na creche,  obtendo autorização da governanta para permanecer alguns instantes no berçário, não me contentei em indicar o berço de Shiva: despertei-a de seu sono e  a coloquei nos braços de Dori, de modo que esta pudesse segurar e abraçar algo  da minha carne e do meu sangue.
Ela abraçou a criança com muito calor, com gritinhos de excitação e prazer, que devem ter soado falsos e exagerados aos ouvidos da governanta ao  nosso lado; mas eu sabia que eram legítimos. Dori achou o cabelo abundante  de Shiva, que logo piscou para a visitante, muito divertido e engraçado; a  neném enfiou sua cabecinha no meio dos seios de Dori, recusando-se a tirá-la.  Logo foi preciso devolvê-la delicadamente ao berço. Fiquei tão comovido com  seu entusiasmo, que não me contive e, enquanto a acompanhava por uma  porta lateral, passando pelo serviço de emergência, contei-lhe em detalhes o  total sucesso do parto no nosso apartamento. O sorriso automático de seus  olhos mostrava agora uma curiosidade imensa. Ela adorou a minha história. E  pareceu tão absorta que sugeri, em vez de pegarmos o carro e irmos para a catedral de São Paulo, conforme eu propusera antes, correndo o risco de nos atrasarmos para o encontro com Lazar, que aproveitássemos o calor dos raros raios de sol para passear pelas ruas vizinhas ao hospital e conhecer a região, talvez  até ir um pouco mais longe para uma área mais agradável, onde ficava o quarto alugado pelos meus pais. Subitamente tive vontade de saber a opinião  daquela mulher estabanada—que na Índia nos arrastara de um hotel a outro  para no fim encontrar o albergue de acordo com suas expectativas—sobre o  belo quarto que Micaela havia achado para meus pais, que talvez pudesse lhe  agradar para umas férias mais longas em Londres. E já que ambas as chaves, a  do portão de entrada e do próprio quarto, estavam no meu chaveiro desde que  me despedira deles na estação ferroviária dias antes, pudemos entrar sem qualquer problema.
Era uma casa isolada, pequena e bem cuidada, ao lado de um pequeno jardim de rosas, onde ficava o portão de uma entrada independente, especial para  o quarto alugado por meus pais. Havia pequenos sinos pendurados no portão  para que os donos da casa tivessem algum controle sobre a entrada e saída dos  inquilinos. Mas no momento eram supérfluos, pois os donos da casa estavam  na Itália. Depois que os sininhos pararam de tocar, abri para da a porta do quarto, que estava totalmente às escuras, e convidei-a a entrar. Embora as janelas  estivessem fechadas há dias e protegidas por cortinas, o quarto conservava um  odor agradável, mistura da cera entranhada nas tábuas do chão e da presença  dos meus pais; afinal, várias das suas conhecidas peças de roupa ainda estavam  penduradas no armário. Talvez por causa dessa presença, e apesar da sua curiosidade, Dori inicialmente hesitou em entrar naquele quarto grande e bonito;  porém, quando insisti em lhe mostrar o quarto e provar como o aluguel era  razoável em relação a sua qualidade, concordou em entrar atrás de mim,  mesmo na pequena cozinha anexa, e até no banheiro, que minha mãe havia  deixado, eu tinha certeza, limpo e arrumado. O quarto estava frio, embora houvesse um aquecedor que funcionava ao ser acionado por meio de moedas; eu  quis ligá-lo e também puxar as cortinas para que ela desfrutasse a vista do simpático jardinzinho ao lado da janela, mas impediu-me com um leve gesto, sentando-se numa das poltronas na total escuridão, exatamente como no apartamento da vovó, e jogando as pernas para a frente. Súbito fui tomado por um  forte desejo, acompanhado de grande preocupação: eu ainda não tinha uma  linha definida para prosseguir, pois mais de um ano se passara desde aquela vez.  Deveria começar de novo com uma declaração de amor? Ofereci-lhe uma xícara de chá, pois sabia que meus pais guardavam ali apenas chá, e não café. Com  um sorriso maravilhoso, estranhou minha singular oferta, que aceitou, talvez porque também soubesse que assim teríamos tempo de examinar não só os nossos próprios sentimentos,  mas também o quarto de meus pais. Quando voltei,  depois de ligar a chaleira elétrica e colocar dois saquinhos de chá nas xícaras,  encontrei-a de pé, inquieta, como se só agora compreendesse como era esquisito, até doentio, tomar chá no pouco tempo que nos restava até voltarmos ao  hospital, num quarto fechado e escuro alugado pelos meus pais. Ela manifestou o desejo, que me pareceu um pouco ansioso e infantil, de visitar outros quartos da casa, os quartos dos proprietários. Olhei o relógio: dispúnhamos de trinta ou quarenta minutos antes de precisarmos ir ao encontro de Lazar, que nos  esperava no hospital, para que não lhe causássemos qualquer preocupação que  levantasse suspeitas. "Será que ela não entende", pensei, "que jamais teremos  no mundo um lugar melhor do que esse para nos entregarmos ao prazer em  absoluto segredo e anonimato? Ou será que as duas camas de meus pais, colocadas lado a lado, a estão incomodando?" Comecei a sentir o desejo se revolvendo no meio da barriga, mas fui atrás dela pelo estreito e longo corredor que  conduzia a um quarto de hóspedes surpreendentemente grande, com toda a  mobília—poltronas, sofás e cômodas—coberta por lençóis brancos, como às  vezes se vê em velhos filmes criminais. Tentei acender a luz e descobri que a eletricidade naquela parte da casa estava desligada; achei que isso a desencorajaria de continuar, mas a sua curiosidade não conhecia limites. Com uma espécie de sorriso, sem pedir permissão do representante dos sub locatários da casa,  foi adiante e abriu uma porta de madeira que dava para um pequeno estúdio  muito acolhedor, revestido de madeira avermelhada. O estúdio se abria para  outro corredor que levava a um quarto que, surpreendentemente, não estava às  escuras, já que uma de suas cortinas estava aberta, fazendo a parca luz do dia  parecer forte e exuberante, em comparação com as trevas gerais reinantes na  casa. Era um quarto de dormir grande e bonito, cujo estilo claro e moderno contrastava com os outros cômodos. Logo percebi que ele agradava àquela mulher  madura, que o examinou com olhar de proprietária curiosa, até não mais se  controlar e tirar de cima da cama o lençol branco, revelando um colcha colorida em diversas tonalidades de verde.
É verdade, teria sido mais decente e adequado matar o desejo no quarto  alugado pelos meus pais, e não desrespeitar a intimidade dos desconhecidos  proprietários em férias na Itália, que não tinham a mínima ideia da minha existência. Mas tive medo de que, se voltássemos ao quarto de meus pais, ela se arrependesse, e até eu conseguir convencê-la novamente o tempo teria se esgotado.  Assim, também deixei de lado a confissão do meu amor e das minhas saudades,  aproximei-me dela em resoluto silêncio, envolvi-a nos meus braços, beijei-a e  senti novamente o peso do seu corpo. Mais uma vez impediu que eu tirasse dela  uma única peça de roupa, como se fazê-lo fosse uma agressão a sua liberdade e independência; como da primeira vez, esperou que eu me despisse até ficar  totalmente nu naquele quarto gelado, para então concordar em tirar suas roupas e se estender sobre a colcha florida, que pelo jeito ela considerava não só  mais bonita do que o lençol branco, mas também mais limpa. Esperou pacientemente e de olhos fechados que eu acabasse de cobrir com meus beijos ardentes e apaixonados sua barriga doce e gorducha, que havia crescido ainda mais  desde a última vez, como se abrigasse segredos pessoais numa gravidez vagarosa e interminável. Mas quando quis encostar minha boca nos seus lábios inferiores, ela me impediu, puxando levemente os meus cabelos; forçou-me a parar  e deitar-me realmente com ela. Agarrou meu pênis com força, procurando  introduzi-lo dentro dela com uma irritação não muito clara, talvez porque já  estivesse coberto por uma fina camada de umidade. Úmida também estava a  minha face, pela qual subitamente rolaram lágrimas abundantes que, vindas  das profundezas do meu desejo, ao mesmo tempo atrapalhavam a realização  desse desejo, numa confusão de dor e piedade por tão estranho amor, que não  conseguia sequer avaliar o custo de um casamento e de um bebê, confusão em  que por sua causa eu me metera. Em um ou dois segundos perdi a concentração e tomei consciência de que não seria capaz de satisfazer a mulher amada,  apenas de permitir-lhe fechar os olhos e de ver sua excitação aos poucos enfraquecer, fenecer e morrer como uma onda de espuma que volta para o mar. Só  pude permanecer deitado num abraço longo, apertado e silencioso, até senti-la  agitada olhando o relógio e perceber sua surpresa ao deparar com meu rosto  molhado de lágrimas. "Mas o que está acontecendo? Não fique triste, não é  nada tão terrível." Seus olhos acenderam o sorriso. "Tudo bem, foi gostoso. Não  seja infantil, afinal é impossível fazer tudo aqui." E com uma rapidez que não  lhe era habitual, vestiu-se, observando um pouco preocupada como eu, lentamente, sem forças, juntava minhas roupas e me vestia naquele quarto estranho  e gelado, que em poucos minutos deixamos para trás. E deixamos também a  casa, que, no final das contas, tinha lhe agradado muito—se lhes restasse  algum tempo, iria mostrá-la a Lazar como alternativa para férias em Londres.  Voltou tagarelando alegremente, acelerando os passos, como se o que ocorrera  entre nós lhe desse esperança de livrar-se de mim, ou pelo menos de manter-me  mais distante. No entanto, quando entramos no setor administrativo do hospital, percebi que sua estranha alegria se transformou em ligeira tensão. Ela preferiu  me largar no final do corredor e prosseguir sozinha até o escritório de sir  Geoffrey, que de longe parecia estar com as luzes apagadas, como se dentro não houvesse ninguém.
Não querendo deixá-la sozinha, acompanhei-a com o olhar. Ela parou  diante da porta trancada. Também não havia ninguém na sala ao lado, onde  ficava a secretária. Do fundo do corredor pude sentir sua enorme apreensão,  não só porque não gostava de ficar só, mas também porque não parecia habituada a esperar pelo marido. Sentou-se no banco de espera diante do escritório,  depois se levantou e ficou andando de um lado para outro, até percebera minha  presença no fundo do corredor. "Você tem certeza de que é aqui mesmo?", gritou nervosa, como se eu pudesse enganá-la. Quando confirmei, ela disse com  certa amargura uma frase surpreendente, que me tranquilizou e renovou  minhas esperanças: "Nós nos apressamos à toa". Mesmo assim, não quis que eu  o procurasse para ela, preferindo que eu fosse embora. Passei no berçário para  ver se Micaela levara a neném, e ela ainda estava lá. Disseram que desde que eu  a colocara de volta no berço, duas horas atrás, ficara inquieta e chorando quase  o tempo todo. A governanta aconselhou que eu a levasse para casa sem esperar  por Micaela. Coloquei-a no carrinho, mas em vez de sair imediatamente, e apesar de não gostar de ficar circulando com o bebê pelo hospital, voltei ao escritório de sir Geoffrey para ver se Lazar viera pegar a esposa. Do final do corredor vi que ela continuava sentada no banco esperando, ereta, pernas cruzadas,  fumando. Meu coração derreteu-se de amor e preocupação. Aproximei-me e  perguntei:
"O que está acontecendo? Onde está Lazar?"  Ela deu de ombros com um sorriso melancólico que eu não conhecia,  como se suspeitasse de que algo havia acontecido.
Eu disse: "Não é possível, ele deve estar na área do hospital. Venha, vou  deixar a criança um minuto com você e vou procurá-lo".
Ela apagou o cigarro e concordou alegremente, feliz com a oportunidade  de praticar um pouco o papel de avó. Dirigi-me à ala cirúrgica, sabendo que os  equipamentos de anestesia e diálise que sir Geoffrey havia recomendado a  Lazar se encontravam ali. Mas descobri que meia hora antes ambos tinham ido  para a sala de emergências.
"Por quê?", indaguei surpreso. Fui informado de  que tinham levado Lazar para fazer algum exame. Corri ofegante para a sala de emergências, assustando com a minha passagem os gelados ingleses, que até o momento certamente haviam me tomado por um deles. Na sala de emergências,  que me era tão familiar, logo  divisei a cabeleira branca de Lazar, deitado  num dos leitos, sem paletó e sem sapatos, mangas arregaçadas, inclinando a  cabeça e sorrindo—um sorriso de desculpas, como costumam dar os enfermos (que se sentem culpados pelas suas doenças—para o diretor do departamento,  o dr. Arnold, um médico calmo, comum, que explicava algo sobre as tiras do  eletrocardiograma para sir Geoffrey.
"Onde está Dori?", perguntou em hebraico ao me ver.  "Está esperando no lugar que vocês combinaram", respondi."Você quer  que eu vá correndo chamá-la?"
"Não é preciso. Ela vai se assustar à toa. Daqui a pouco vou estar liberado",  respondeu e acrescentou sorrindo: "Imagine que estavam querendo me internar aqui!".
Fui informado de que ao examinar o aparelho de diálise que sir Geoffrey  oferecera, Lazar também decidira ver como funcionavam os aparelhos eletrônicos naquele setor, como os equipamentos para medir pressão sanguínea, o  eletrocardiógrafo e outros. Por mera curiosidade, ele se deitara e pedira para ser  examinado. E dois gráficos do eletrocardiograma revelaram então uma alteração significativa no batimento cardíaco; o técnico, assustado, fora chamar o responsável, um jovem cardiologista, que verificou os resultados e quis internar  Lazar imediatamente. Porém Lazar e sir Geoffrey suspeitaram de que talvez  algo não estivesse funcionando direito no equipamento, já que estava há algum  tempo fora de uso. Fizeram então um novo exame em outro aparelho, e os  resultados foram melhores, embora não totalmente dentro dos padrões normais. Pediu-se então a opinião de outro cardiologista, que examinou Lazar com  o estetoscópio, sugerindo que talvez fosse apenas consequência da excitação e  do esforço concentrado da viagem. Era um médico de origem paquistanesa—os médicos ingleses são mais cuidadosos ao misturar corpo e alma. A essa altura sir Geoffrey, cansado de palpites e discussões, levara Lazar até a sala de emergências, pois confiava na calma e na segurança do dr. Arnold, que também o  examinou minuciosamente. Acabou concluindo que tinha havido um erro e  que os resultados do eletrocardiograma eram quase normais. A pressão sanguínea estava um pouco elevada para os parâmetros aceitos pelas normas inglesas, que são diferentes das nossas. Assim, prescreveu meia cápsula de dez miligramas para baixar a pressão nos  próximos dias, acrescentando alguns comprimidos para a fase seguinte, além de aconselhá-lo a continuar o tratamento ao voltar para Israel. O dr. Arnold veio conversar comigo para explicar os resultados,  por saber que eu poderia traduzir para o hebraico as explicações; e também porque me considerava uma espécie de responsável pela visita de Lazar, pois era  por iniciativa dele que eu estava ali.
"Não senti nada. Não senti nada e não sinto nada", repetia Lazar, desculpando-se com a mulher pelo pequeno incidente. Virou-se então para observar  a criança, procurando ser agradável. Ela, como eu havia imaginado, tinha sido  tirada do carrinho e estava confortavelmente deitada nos braços daquela  mulher; desejei me ajoelhar diante dela e pedir perdão pelo meu fracasso. Lazar  realmente parecia bem, saudável. E apesar de eu também ser capaz de acrescentar alguma opinião e dissecar a situação do ponto de vista médico, baseado  no pouco que ouvira da análise de resultados do eletro feita pelo dr. Arnold,  resolvi não aumentar a confusão, deixando os exames nas mãos de sir Geoffrey.  Eu sabia que mais tarde iria encontrá-los outra vez, na pequena recepção organizada pelo hospital em honra a Lazar, com o objetivo de arregimentar simpatizantes judeus e não-judeus para o hospital em Israel. De fato, à noite, de terno  preto e gravata vermelha, banhado e penteado, Lazar parecia em excelente  estado de saúde. Discorreu com segurança acerca dos problemas do nosso hospital em Tel Aviv, com forte sotaque israelense e um inglês primário porém muito eficaz, que me fez lembrar mais uma vez nossa viagem à índia. E  Micaela, ao meu lado, escutava-o com um sorriso jocoso, enquanto disfarçadamente amamentava Shiva, pois não tínhamos conseguido uma babá.

4.
   
 
A visita de meus pais a Glasgow, tão ansiada pela minha tia, foi um pouco  prejudicada pela forte gripe que minha mãe certamente pegara do bebê.  Quando meu pai me contou, lembrei-me de que o estreptococo dos bebês pode  provocar perigosos abcessos na garganta de adultos. Fiquei com raiva de mim  mesmo por não ter avisado à minha mãe que tomasse cuidado para não se aproximar demais da criança, que naquela época mostrava os primeiros sintomas do  resfriado. Embora minha tia tivesse cuidado da irmã com absoluta dedicação,  e ambas tivessem tido a oportunidade de rever os recantos de infância, apenas  o meu pai pôde desfrutar o passeio ao norte da Escócia e à ilha de Skye, viajando com meu tio e meu primo, que também era médico porém solteiro. Excursionaram pelas encantadoras e selvagens paisagens escocesas que meu pai,  como londrino, conhecia pouco. Em virtude da gripe da minha mãe, precisaram estender sua estada em Glasgow por três dias. Quando a vi na estação, abatida, e escutei sua tosse seca, pensei que, apesar da relativa liberdade que ela e  meu pai proporcionavam a Micaela ajudando a cuidar do bebê, seria aconselhável agilizar sua volta a Israel, pois a umidade do ar londrino não ajudaria em  nada. Levei-os da estação para o quarto alugado, mas não fiquei com eles, pois  ao carregar a mala para dentro fui tomado por uma saudade tão intensa do que lá se passara uma semana atrás, que não consegui me controlar: enquanto eles  penduravam suas roupas, esgueirei-me para a parte principal da casa, seguindo  a rota que ela traçara com segurança à minha frente, conduzindo-nos diretamente para o grande dormitório, que ainda continuava exposto à deliciosa claridade do mesmo feixe de luz amarelada entrando pelo canto da janela onde a  cortina estava aberta. Assustei-me ao encontrar uma grande e bonita mala de  couro sobre a cama enorme, cobrindo o local onde ocorrera o meu fracasso, que  agora, pensando bem, parecia-me não apenas humano, e portanto absolutamente perdoável, mas até charmoso em sua delicadeza, a ponto de me despertar uma estranha vontade de fracassar outra vez. Voltei depressa para os meus  pais, que não ficaram nada contentes com a minha exploração autônoma da  intimidade dos donos da casa desconhecidos, que,  pelo que tinham ouvido  falar, estavam prestes a retornar. "Eles já voltaram!"—quase soltei num grito  estranho, mas me contive. "Mas o que é que você está procurando aqui?", perguntou a minha mãe muito incomodada. "Estou vendo que você andou por  aqui também na nossa ausência." Com seu olho perspicaz ela descobrira a  minha visita pelas duas xícaras de chá que eu preparara para mim e para Dori,  que no final não foram tomadas. Desde a infância eu desistira de tentar mentir  para minha mãe, tanto porque ela possuía meios eficazes e pacientes de descobrir a verdade, como também porque fui educado com a noção de que o castigo para a mentira é sempre maior do que o castigo para a verdade. Agora, apesar de não estar sujeito a nenhum castigo, comecei a contar em sequência os  fatos da visita dos Lazar. Descrevi o pequeno susto médico de Lazar e também  relatei a noite da Sociedade dos Amigos do hospital, que transcorrera bem, malgrado seu inglês primário. No final, além de uma linda manta para Shiva, eu  ganhara dele a promessa de tentar conseguir para mim alguma coisa não muito  comum, um emprego fixo de meio período como anestesista.
"Anestesista?", perguntou meu pai ligeiramente frustrado. "Só anestesista?"  "Sim", retruquei, "só anestesista."  "E por que apenas meio período?", continuou meu pai, que após minha  viagem à Índia desenvolvera uma atitude de cobrança em relação a Lazar.
"Porque por enquanto não há mais do que meio período", repliquei sorrindo, "no ano que vem o doutor Nakash deve se aposentar, mas não sou eu quem  vai aproveitar a vaga dele."
"O doutor Nakash já vai se aposentar?", admiraram-se meus pais, recordando-se muito bem dele da festa de casamento. Eu também ficara surpreso  quando soubera da sua aposentadoria. O tom escuro de sua pele e o ar jovem de  seu rosto iludiam-nos quanto à sua verdadeira idade.
"De qualquer maneira, por que você teve que trazer Lazar e a esposa para  o nosso quarto?", insistiu minha mãe no assunto anterior de nossa conversa.
"Não foram os dois, só a esposa dele. É simples: Lazar precisou verificar  alguns equipamentos médicos que sir Geoffrey sugeriu para o nosso hospital, e  nesse meio tempo, para a esposa não se entediar, levei-a para conhecer a neném  no berçário, depois o hospital e as redondezas, e achei que valia a pena ela admirar o excelente quarto que Micaela achou para vocês. Talvez algum dia eles  também resolvam alugá-lo para uma temporada mais longa."
A explicação foi perda de tempo. Meus pais tinham conhecimento de que  no verão a casa passaria a locatários novos, que obviamente ocupariam todos os  quartos.
"Bom, então dei uma informação errada", eu disse, vestindo a malha de lã  verde que meu pai comprara para mim, sozinho pela primeira vez na vida,  como lembrança da sua visita à ilha de Skye. Minha mãe calou-se. Apesar de  minha explicação sobre a visita da esposa de Lazar não convencê-la, o que poderia ela imaginar? Sua experiência de vida não era muito rica e, principalmente,  não tinha malícia suficiente para que adivinhasse a impossível verdade.  Portanto desistiu. Ficou ali sentada, triste e confusa, tossindo de vez em quando. Sua tosse não me agradava, mas, já que nunca havia ousado auscultar seu  coração e seus pulmões com o estetoscópio, só me restava esperar que os xaropes receitados pelo meu primo médico fizessem efeito.
Mas não fizeram, e na última semana de sua permanência em Londres ela  teve o cuidado de não pegar a neném nos braços, o que fez com profundo pesar,  já que a criança a tinha cativado não só por ser sua neta. Micaela, cônscia da tristeza da minha mãe, procurou minimizar seus temores. "Pegue-a no colo", disse  procurando persuadi-la, "não se preocupe, você não vai conseguir passar nada  para ela. Ela é forte como um touro." Apesar da tentação de pegar o "touro" querido no colo, minha mãe absteve-se de chegar perto dela, contentando-se em  vê-la de vez em quando nos braços do meu pai, que fitava a criança com uma  divertida expressão de seriedade. Todos nós estávamos lamentando pela minha mãe, cuja maravilhosa viagem à Inglaterra estava prestes a terminar. Como  compensação, alguns dias antes da partida, Micaela insistiu em convidar meus  pais para uma noite indiana. Stephanie ofereceu-se como babá e eu fui solicitado a tirar um dia inteiro de folga, pois o nosso evento teria início ao anoitecer,  com uma régia ceia num excelente restaurante indiano, nada barato por sinal.  Em seguida fomos aconselhados a assistir à apresentação de grupos itinerantes  de músicos, cantores, dançarinos, contadores de histórias e acrobatas, reunidos  por toda a Índia e trazidos para a Europa pelo Cirque du Soleil de Paris, que  tomara para si a missão de apoiar a ameaçada arte do Terceiro Mundo, partindo  do pressuposto de que se trata de uma forma importante de expressão, digna de  ser conservada. Essa era também a opinião de Micaela, que se excitou muito  com nosso programa, não só pela expectativa do enorme prazer que a esperava,  mas sobretudo pela curiosidade de ver como nós três reagiríamos à noitada de  modo geral. Uma vez que se auto intitulava, desde o dia em que a conhecera,  missionária da Índia no mudo "não indiano", sentia-se responsável pela escolha do programa, aliás extremamente caro, pois o preço das entradas correspondia ao de um espetáculo beneficente. Mas do ponto de vista monetário não se  podia reclamar nada de Micaela, pois a noite correu toda "por sua conta", quer  dizer, por conta do auxílio-maternidade, concedido pelo Ministério da Saúde, tão surpreendente quanto generoso, o que levava a crer que de fato havia uma  política britânica bem definida em relação a partos domésticos.
Acabei aderindo ao espírito de generosidade, convidando a todos para  alguns aperitivos, antes do jantar, "por conta" do pagamento da parteira que eu  havia economizado. No jantar pedi uma garrafa de vinho seco para acompanhar os pratos, e fiz muito bem: chegamos ao espetáculo num leve estado de  embriaguez, que nos possibilitou captar e apreciar com mais profundidade  aspectos que, à primeira vista e apesar de toda boa vontade para não magoar  Micaela, pareceram-nos totalmente primitivos. Por exemplo, tomemos a abertura: um faquir semi nu, com uma cabeleira negra e brilhante que chegava  quase até o tórax, surgia do meio dos assentos da plateia e caminhava lentamente, com ar sério e meditativo, pelo enorme armazém no porto velho de Londres,  reformado de propósito para o espetáculo; em seguida subia para o palco gigantesco e vazio, que começava a ser iluminado por uma luz matinal de tonalidades indianas, das quais eu me lembrava bem. Então ele abriu uma pequena torneira de água e, em profundo silêncio, passou um longo tempo lavando as  mãos, os pés e o rosto. Quando começava a praticar exercícios de ioga saudando o sol imaginário, entraram um após o outro pequenos grupos musicais, cada  qual com seus próprios trajes e cores, carregando instrumentos musicais folclóricos e originais. Os grupos eram compostos de adultos e crianças das mais  diversas idades. No programa que tínhamos nas mãos, essas crianças eram chamadas de "alunos"; apesar de algumas serem dançarinas e instrumentistas visivelmente talentosas, durante todo o espetáculo ficaram ansiosamente atentas  aos sinais de comando, sutis porém definidos, dados pelos artistas adultos.  Embora cada conjunto tivesse o seu tempo de apresentação predeterminado—além de permanecerem separados, cada um numa região distinta do gigantesco palco, numa disposição que deveria reproduzir o mapa da Índia—,no decorrer da noite mantinham contato e diálogos especiais. Por exemplo, quando os cantores de determinado grupo mergulhavam num longo cântico, sem aviso  prévio uma criança saía do grupo de acrobatas e saltava para o meio do palco,  dando cambalhotas e piruetas com grande habilidade, por dois ou três minutos, até ficar estática numa contorção que parecia irradiar inúmeros braços,  como a estatueta ao lado da cama de Micaela, ou semelhante a um animal primitivo que não existe mais; então desfazia a contorção e voltava silenciosamente ao seu lugar. Ou então, no meio de uma dança de três meninas pequenas,  levantava-se o velho mágico das alturas de seu assento no fundo do palco, lançava sobre o bailado uma nova magia e voltava a sentar-se no lugar. Era evidente a interferência de uma mão ocidental na encenação do espetáculo, na tentativa de criar uma tensão de significado entre os elementos primitivos, cuja  particularidade não se prestava facilmente a uma apresentação coletiva.
De fato, o primitivismo dos grupos revelava-se tanto nos movimentos simples dos dançarinos como nos instrumentos musicais, compostos, por exemplo,  de duas simples tábuas de madeira batidas uma contra a outra com impressionante rapidez; ou de correntes de sininhos atadas em volta dos tornozelos,  tocando em harmonia com os movimentos dos pés; ou um grande recipiente  de barro quebrado do qual se podia extrair, com sopros, um barulho contínuo  semelhante ao de uma tempestade. Foi exatamente esse aspecto primitivo que  despertou em Micaela um turbilhão de emoções. Ela esperava um espetáculo  mais estilizado, adaptado e elaborado para "as limitações" da mentalidade ocidental; e eis que, na cinzenta Londres, ela encontrava, de forma súbita e inesperada, conjuntos absolutamente autênticos, cujas características lhe recordavam muito bem as ruelas sombrias de Calcutá ou o enorme pavilhão da estação  ferroviária de Bombaim. Suas bochechas ardiam, e nos seus olhos enormes brilhavam lágrimas, como se tivesse reconhecido algo íntimo e precioso, que um  dia estivera profundamente ligado a ela e se perdera, e ela não acreditava mais  ser possível reencontrar, embora no fundo do coração ainda não tivesse desistido. Notei que, devido à emoção intensa, diversas vezes ela perdia a concentração, seu olhar vagava entre o palco e nós, sentados ao seu lado, querendo verificar pela nossa reação se em nosso interior também despertava para a vida o  espírito certo. Tive a impressão de que passamos no teste—não só eu, que senti  as danças e músicas indianas como que reproduzindo o processo lento e despercebido de me apaixonar, pelo qual eu passara no inverno anterior, mas até meu  pai—cuja paciência minha mãe e eu julgávamos incapaz de suportar uma  apresentação sem uma sequência clara e definida—ficou sensibilizado e emocionado, talvez pelo diálogo silencioso, mas claro e comovente, entre "alunos"  e "mestres". Sua emoção manifestou-se a partir dos primeiros exercícios acrobáticos de uma volumosa camponesa indiana que saltava com extrema agilidade, tendo seus saltos imitados por uma menina pequena e um rapaz capazes de  realizar as acrobacias mais espantosas e assustadoras; e seguiu até o final, quando uma mulher alta e muito bonita, envolta num reluzente traje típico, contou com crescente veemência uma história longa e emocionante que, segundo o folheto explicativo que recebemos, tratava das lutas entre os deuses.  Quando o espetáculo acabou, e a diretora francesa convidou as crianças da plateia a se juntarem aos artistas que dançavam e cantavam, o palco se encheu  subitamente de crianças inglesas, loiras e coradas, que com impressionante  habilidade começaram a imitar os gestos indianos, até parecer que as almas  haviam transmigrado para o salão e tomado conta do público, que se levantou e começou a participar.
E no meio do público também o meu pai, sempre tímido, batia palmas  com incrível entusiasmo, tocando levemente o ombro de Micaela, cujos olhos  vertiam lágrimas abundantes de felicidade e de triunfo por ter conseguido abrir  corações rígidos, como o meu e o dos meus pais, para a experiência indiana.  Afinal, ela ainda tinha em mente voltar para a Índia por algum tempo. Acima de tudo ela receava que eu, por achar que já tinha estado lá, e também por achar  que tinha captado o espírito indiano, não teria motivo nenhum para voltar. Ela repetia constantemente o termo "achar" com absoluta seriedade, como se eu  não tivesse viajado para a Índia, como se eu não tivesse uma vez descido o rio  Ganges num barco para observar a incineração dos mortos nas câmaras mortuárias de Varanassi, como se eu não tivesse entrado num mosteiro em Bodhgaia e  assistido a um filme num cinema lotado em Calcutá. Não, nada disso tinha  valor aos olhos de Micaela, pois tudo estava direcionado para um único objetivo: cuidar da saúde de Einat e causar boa impressão aos Lazar. Enquanto eu não  fosse à Índia  por mim mesmo, quer dizer, para tentar "purificar" um pouco a  minha alma tão necessitada de purificação, como toda e qualquer alma, seria  como se eu não tivesse estado lá. Embora houvesse um compromisso da minha  parte, assumido quando a pedira em casamento na frente do grande espelho na  lanchonete do entroncamento perto do aeroporto, o compromisso de não  impedi-la se algum dia quisesse "dar mais um passeio" na Índia, ela agora temia  a oposição dos meus pais, justamente porque havia se afeiçoado muito a eles  depois de tê-los conhecido melhor. Não queria que ficassem indignados com  ela por causa da nova viagem, com ou sem o bebê, portanto era importante que  eu a acompanhasse, pelo menos por algum tempo, talvez até mesmo na qualidade de "médico das calçadas" ou "médico dos esquecidos", como são chamados pelos franceses, dessa forma assumindo responsabilidade pela viagem  perante meus pais. Não deixava de ser estranho que uma mulher livre e independente como Micaela, cuja ligação com os próprios pais há muito quase  desaparecera, cuidasse de poupar meus pais de preocupação e aborrecimento;  mas eu já sentia a ligação especial que se estabelecera entre os três, em especial  entre ela e minha mãe, que decidira acolhê-la calorosamente como nora, acima  de tudo por sentir a frieza da minha relação com ela, ainda que eu sempre procurasse estar sorridente e atento e cumprir todas as minhas obrigações, reais ou  imaginárias, com Micaela.
No mesmo dia do meu fracasso sexual sobre a colcha florida à luz de um  tênue raio de sol entrando pela fresta de uma cortina entreaberta, ao voltar para  casa com Shiva no colo—atormentado e taciturno por causa do fracasso e preocupado com o pequeno incidente com o coração de Lazar—,senti uma obrigação, exclusiva da minha cabeça, de compensar Micaela pela traição. Depois  de lhe relatar os fatos do meu dia, enquanto estava sentada na poltrona amamentando prazerosamente a criança, que voltara a se acalmar, ajoelhei-me de  repente e coloquei a cabeça no meio das suas pernas firmes e macias para  encher de beijos calorosos a parte interna de suas coxas e os lábios grossos e delicados, ligeiramente entreabertos, da sua vagina, a qual eu não tocara desde que  tinha costurado o corte do parto, havia mais de seis semanas. Meus lábios e  minha língua sentiam agora os pontos da costura. Micaela ficou tão surpresa  com a dupla investida sobre seus órgãos íntimos, minha e da criança mamando, que não conseguiu se conter e começou a gemer profundamente, para em  seguida soltar fortes gritos de prazer que, se minha mãe ouvisse, certamente  tranquilizariam sua preocupação com a fragilidade do meu amor pela minha  mulher.
Na comovente despedida de meus pais—em total desacordo com o espírito britânico e obviamente inadequada para um aeroporto londrino—minha  mãe, apesar de ainda não estar curada da gripe, concordou em beijar o bebê,  que decidíramos trazer conosco para proporcionar a eles os últimos momentos  de alegria na Inglaterra. Além disso, achou tempo para me levar até um canto e  tecer elogios à sua querida nora, advertindo-me para que não a deixasse circular demais sozinha, pois poderia acostumar-se a um tipo de liberdade que seria  difícil manter em Israel ao final do meu período de aperfeiçoamento. "Não  tenho nada contra vocês darem outro passeio pela Índia, especialmente agora,  depois que Micaela nos fez valorizar mais aquele grande país", acrescentou na  sua forma clara e direta, "mas viajar agora seria uma irresponsabilidade e um  perigo para a criança, que inclusive é pequena demais para tomar vacinas contra aquelas doenças terríveis, que aliás você constatou por si mesmo. Esperem alguns anos, até que Shivi cresça um pouco. Quando você tiver um cargo fixo  no hospital, poderá tirar tranquilamente férias não remuneradas e viajar para a  Índia não só como turista, mas como médico, e fazer algo de bom. Quem sabe  seu pai e eu então viajemos de novo, para visitar vocês lá."
Com essa promessa surpreendente, meus pais se foram. Na volta do aeroporto, enquanto Micaela guiava e eu segurava a menina no colo, sentimos uma  inesperada tristeza pela partida deles, como se agora fosse difícil ficar sem a sua  presença. Mas enquanto eu estava certo de que nos encontraríamos novamente dali a três ou quatro meses em Israel, Micaela alimentava intimamente a  esperança de prolongar nossa permanência na Inglaterra pelo menos mais um  ano. Não só por causa da forte presença indiana, que descobrira em alguns bairros de Londres e que suavizava um pouco a sua saudade, mas também porque  a falta de um diploma não se fazia sentir em Londres, inversamente ao que  acontecia em Israel. Em Londres ninguém lhe exigia nada. Ao contrário, sua  posição era cada vez mais forte. Amigos de juventude de Israel, viajando para  passar uma semana em Londres, telefonavam-lhe diretamente do aeroporto e  pediam instruções para encontrar em Londres coisas que os turistas comuns  sonham em procurar. Às vezes, conhecidos sem recursos pediam para  passar uma ou duas noites em nossa casa até encontrarem uma pousada que lhes  servisse. E como eu trabalhava à noite no hospital e voltava antes do amanhecer, não me incomodava descobrir um vulto encolhido dormindo no quarto de  hóspedes, pois quando eu acordava no meio do dia ele já desaparecera. Uma das  vezes Micaela me contou, para meu espanto, que um dos vultos adormecidos  nos quais eu tropeçara de madrugada, era ninguém menos do que Einat Lazar,  passando uma noite em Londres a caminho dos Estados Unidos. "Mas por que  você não me acordou antes de ela ir embora, para eu pelo menos dar um alô?",  gritei magoado e irado.
Micaela ficou surpresa. "Sinto muito", desculpou-se, "nunca imaginei que  Einat significasse alguma coisa para você, nem que vocês tenham tido algum  contato de verdade na Índia. Eu também tinha certeza de que o tratamento que  você deu aos pais dela foi mais do que suficiente para os seus interesses no hospital." Naturalmente protestei contra sua atitude e seu comentário desagradável,  mas ao mesmo tempo me acalmei por saber que Micaela não tinha a menor suspeita dos meus sentimentos pela mulher de Lazar, embora participasse de grupos que se permitiam "paixões que abrangem a todos" e que poderiam ensinar-lhe algo sobre a paixão impossível que ocupava a alma de seu marido. Mas não,  Micaela se afastava dos Lazar como andava se  afastando de tudo que estivesse  relacionado com a possibilidade de voltar para Israel. "Qual é a nossa pressa de voltar?", perguntava repetidamente. Afinal, Israel não iria fugir, e se voltássemos um ano depois eu poderia adquirir uma rica experiência como cirurgião, que, se  não fosse suficiente para convencer Hishin, talvez convencesse o diretor do  departamento cirúrgico de outro hospital qualquer. "Está muito bom para nós  aqui em Londres", repetia, com os olhos grandes, brilhando como dois faróis  azuis, fitando-me suplicantes, "ninguém está nos esperando em Israel, a não ser  seus pais e um pouco os meus, e podemos ir visitá-los no próximo Natal." Mas eu  sabia que havia mais alguém e que meu fracasso exigia uma compensação.
Insisti que voltássemos na data determinada, ou seja, no início do outono,  apesar da argumentação correta de Micaela, apoiada por sir Geoffrey, que se  tornara grande amigo seu e tentava convencer-me a mudar de opinião e ficar  mais um ano. Era bonita a amizade que se estabelecera entre ele e Micaela,  cujos olhos ainda despertavam seu entusiasmo. Ele sempre arranjava tempo  para visitá-la durante o trabalho na pequena capela do hospital. Sentava-se  junto ao altar, onde Micaela deixava nossa filhinha, e ficavam conversando,  quer sobre Israel, quer sobre a Índia, quer sobre o mundo de forma geral.  Embora o inglês de Micaela carecesse das mais elementares regras de gramática, ela revelava talento especial para captar expressões idiomáticas, que inseria  com naturalidade na conversa e lhe valiam elogios gerais pela riqueza do seu  vocabulário. Às vezes eu me perguntava se as relações espirituais entre ela e sir  Geoffrey não buscavam também manifestar-se de outra forma—porém essa  ideia breve e estranha emergia aparentemente da minha vontade de pagar pela  traição que eu cometera e por outras que ainda viria a cometer. Quando voltava do hospital antes do amanhecer, de vez em quando imaginava sentir o cheiro de sir Geoffrey na casa: Não sabia qual era exatamente esse cheiro, identificava só um cheiro forte de hospital, que eu mesmo trazia no corpo e na alma.  Quando sir Geoffrey falhou em me convencer a ficar mais um ano, escreveu a  Lazar pedindo que mandasse outro médico em meu lugar. A resposta de Lazar  custou a vir, e sir Geoffrey resolveu lhe telefonar. Foi difícil encontrá-lo no escritório. Finalmente Lazar respondeu o telefonema, concordou com a solicitação  e comentou casualmente que estava prestes a sofrer uma cateterização. Não  contou isso para se queixar nem para despertar compaixão, coisas que não combinavam com sua personalidade; pretendia apenas informar que o erro no  exame casual a que se submetera no eletrocardiógrafo não fora erro. Na verdade, Lazar queria esclarecer que os velhos aparelhos do hospital londrino ainda  funcionavam bem.
Sir Geoffrey não se alegrou em saber que o eletrocardiógrafo do equipamento de diálise do hospital estava certo. Contou-me do problema de Lazar com  expressão grave, que despertou em mim uma nova ansiedade. Embora todos  soubéssemos que cateterizações e mesmo pontes de safena realizadas com o  peito aberto tinham se tornado corriqueiras, e até Hishin, sem ser cirurgião cardíaco, falasse delas com certo desdém, o fato era que, no período de uma hora,  três aparelhos haviam mostrado resultados diferentes, e talvez os três estivessem  corretos, considerando-se que o problema de Lazar podia ser uma arritmia cardíaca. A pergunta era se essa arritmia tinha origem supraventricular, e nesse caso  seria um problema simples, ou se a origem era ventricular, e nesse caso poderia  ser bastante perigosa. "É muito estranho", disse a mim mesmo em tom de censura, "que eu, a milhares de quilômetros de distância, fique tentando estabelecer um diagnóstico para o coração do diretor administrativo do hospital, que está  cercado pelos maiores especialistas e certamente não precisa da opinião adicional de um principiante cuja experiência em cardiologia é praticamente nula." A  ideia de que os três exames tinham sido  realizados exatamente na mesma hora  em que, a um ou dois quilômetros, eu o traía sobre uma magnífica colcha florida talvez fosse a responsável pela minha ansiedade entremeada de culpa, como  se por um caminho misterioso a minha ação tivesse influência no seu ritmo cardíaco, que por sua vez teria sido a causa do meu fracasso. Todos esses pensamentos poderiam ser considerados legítimos para um jovem que começava a experimentar as aventuras narradas nos romances, mas não me restringi a pensamentos:  criei coragem e liguei de um telefone público para o escritório de Lazar, para  saber como estava passando e como tinha sido a cateterização. A sua fiel e eficiente secretária, muito emocionada com o meu interesse, tentou responder de  forma breve e resumida para que o custo da ligação não ficasse alto demais para  mim. Informou-me que a cateterização fora cancelada, e os médicos estavam  considerando a possibilidade de colocar uma ou duas pontes de safena, em duas  ou três semanas. O problema, lamentou-se a secretária, era que havia médicos  demais, amigos e colegas, dando palpites; portanto, seria ótimo que o professor  Hishin ficasse realmente encarregado. "Mas como?", protestei. "Ele não é cirurgião cardíaco!"
"E daí?", respondeu ela. "Ele não vai operar, mas decidirá quem vai, e  obviamente supervisionará a operação."
O relatório de Tel Aviv, em vez de me acalmar, aumentou a minha inquietação. Digo "inquietação" e não "angústia" porque o que havia para me angustiar? Uma ponte, duas, até mesmo três ou mais—a decisão final só poderia ser  tomada após abrir o peito e examinar o próprio coração; o meu diagnóstico particular com referência à arritmia podia ser absolutamente desconsiderado, talvez tudo não passasse de um problema comum de constrição arterial. Portanto, a minha agitação não provinha de considerações médicas, e sim morais.  E já que faltava agora apenas um mês para voltarmos a Israel, e sir Geoffrey insistia que eu tirasse as férias a que tinha direito nas duas últimas semanas, resolvi,  com extremo cuidado, sondar Micaela sobre a possibilidade de anteciparmos a  nossa volta, de modo que eu estivesse presente à cirurgia de Lazar. Não acreditando nos seus ouvidos, ela exigiu que eu repetisse inúmeras vezes as justificativas para a minha proposta. Depois de me pressionar tanto para que prolongássemos nossa permanência na Inglaterra pelo menos por um mês, sentia-se agora  coagida diante da sugestão de antecipar o retorno. Pela primeira vez desde o  nosso casamento em Jerusalém, no verão do ano anterior, surgia entre nós uma  discórdia que quase se transformou num rompimento efetivo. Pois embora o  tom da discussão se mantivesse frio e irônico, foi na verdade feroz, senão cruel.  Justamente pelo fato de nossas relações amorosas já terem esfriado havia um bom tempo, não procurávamos, como teria feito um casal mais apaixonado,  vingar-nos na cama e estragar nosso contato sexual, o pouco que nos restava.  Decididamente não. Livres de argumentos e agressões de ordem sexual, conduzimos uma conversa que a um observador externo pareceria calma e civilizada,  ainda que muito penetrante. Não tentei mentir a Micaela e apresentar algum  outro motivo para a nossa volta; mencionei sinceramente a minha preocupação com Lazar e a minha necessidade de dar apoio a ele e à mulher na hora da  operação. Eu ainda não conseguia admitir, nem mesmo para mim, a causa profunda e real da minha angústia e aflição. Assim, para persuadir Micaela, eu precisava transferir parte da minha paixão impossível para o próprio Lazar, como  se ele tivesse se tornado, já nos tempos da viagem à Índia, uma espécie de amigo  querido, ou um segundo pai, a quem eu precisava dar apoio. "Você realmente  acha que lá vai faltar gente que lhe dê apoio? Precisa sair correndo da Inglaterra para ir abanar o rabinho?", disse Micaela com amargura, estreitando os enormes olhos, como se estivesse vendo ao longe um pobre cachorrinho entrando  no hospital, abanando o rabo.
"Você tem razão", admiti com franqueza, "não vai faltar gente. Mas como  posso explicar para você? Não vou por ele, vou por mim."
No final, cansou-se de lutar contra desejos turvos e argumentos obscuros  e pôs fim à discussão com uma proposta surpreendente. Se eu fazia tanta questão de estar presente à cirurgia de Lazar, que eu viajasse sozinho; ela iria depois,  na data combinada. Ou quem sabe, e por que não?—subitamente um sorriso  malicioso, pouco familiar, iluminou seu rosto, enquanto seus olhos voltavam a  se arregalar de prazer—,talvez até voltasse mais tarde; pois da mesma forma  que eu me permitia antecipar a volta em duas semanas, ela podia, seguindo a  mesma lógica e de acordo com os critérios de justiça e equidade, permitir-se  atrasar duas semanas.
"E a criança?", perguntei. "O que acontecerá com Shivi?"  "A criança?", repetiu pensativamente, ainda com o sorriso malicioso  estampado na face. "Talvez seja ela quem volte na data original que combinamos. Vamos dividir Shiva entre nós, de modo que realmente seja um critério  justo. Eu dou um jeito de encontrar alguém que a leve de volta para Israel, e  você terá tempo suficiente para organizar-se e ir pegá-la; ou então deixe-a um  pouco na casa da sua mãe; mas também me dê um pouco o prazer de ficar totalmente sozinha."
E assim foi. Adiantei a minha volta em duas semanas, e a agente de viagens  me advertiu que eu não poderia voltar atrás, pois todos os voos do começo de  setembro estavam lotados. Só então parei e perguntei a mim mesmo por que eu  estava fazendo aquilo. Como se só então tivesse descoberto como Londres era  agradável e calorosa, cheia de turistas simpáticos. E também tomei consciência de que, devido à minha avidez de aproveitar ao máximo todas as oportunidades de operar ingleses bêbados com seus órgãos destroçados em acidentes de  trânsito, ou asiáticos subitamente enfermos no meio da noite, eu me abstivera  de desfrutar as regalias da grande cidade e a profusão cultural que ela oferece a  seus habitantes e visitantes. Embora os ingressos para teatro geralmente fossem  caros, além das nossas possibilidades, não faltavam outros eventos interessantes, como palestras de gente famosa, entre as quais, para minha enorme surpresa, Stephen Hawking em pessoa. Ele deveria apresentar-se no Barbican, dois dias antes da minha partida, em um evento público de perguntas e respostas  sobre a sua teoria cosmológica. Apesar de saber que o salão estaria repleto, resolvi tentar entrar em busca de uma auto compensação pela volta antecipada que  eu  me impusera por algum impulso incontrolável, como se algo importante  estivesse para acontecer durante a operação de Lazar, ou como se com um simples olhar para o seu corpo eu pudesse descobrir alguma coisa mais a meu próprio respeito. Propus a Micaela que me acompanhasse à palestra, levando a  criança, embora ela tivesse passado a última semana muito inquieta e agitada,  como se a nova tensão entre mim e sua mãe influenciasse o seu estado de espírito. Porém Micaela não se interessava absolutamente pelo universo do ponto  de vista científico, apenas do ponto de vista emocional. Como na mesma noite  estava marcado um ensaio do coral em que ela cantava, sugeriu-me que levasse a neném para a palestra, na suposição de que os educados ingleses respeitariam uma pessoa, especialmente um homem, com uma criança no colo,  cedendo-lhe um lugar para sentar. De fato, a pequena Shivi, presa à minha barriga, deu-me a possibilidade de conseguir um assento no salão, que, embora  cheio, não estava tão lotado quanto imaginei.
Shivi ficou totalmente sossegada durante a noite. É possível que, como  estivesse muito acostumada a ficar com Micaela, que a carregava para todo  lugar, ela a visse como parte de si mesma, ao passo que eu era uma criatura separada, capaz de despertar seu interesse, e em cujos braços também podia encontrar sossego. Assim, não foi por causa dela que me senti desapontado naquela  noite de perguntas e respostas. Certo que havia no auditório astrofísicos de verdade, mas havia também leitores interessados em Uma breve história do tempo,  pois afinal era esse o tema daquela apresentação pública. A voz oca e desconectada do professor Hawking, sentado na sua cadeira de rodas ativando o sintetizados vocal, não era tão compreensível para mim como para os ingleses nativos  que se encontravam no salão. A minha facilidade de entender a língua, que  aumentara muito no último ano, para minha grande frustração não me serviu  de nada. Mas talvez não tivessem sido apenas as dificuldades de absorção auditiva que me impediram de aproveitar a palestra, e sim o fato de que as perguntas e respostas em geral foram conduzidas com espírito leviano e ligeiro senso  de humor repleto de duplos sentidos, trocadilhos e significados ocultos, como se todo o universo, com seus buracos negros, e o Big Bang de onde tudo veio, e  a  contração máxima que talvez levasse tudo a implodir no final, inclusive a aflitiva questão de saber se Deus tivera outra alternativa que não criar este universo e, portanto, se Ele existia ou não—todas as teorias nas quais eu mergulhara,  de pijama no meu antigo apartamento em Tel Aviv num gelado dia de inverno,  enquanto esperava o telefonema da vovó, transformavam-se em Londres,  naquela clara noite de verão, em matéria-prima de diversão e brincadeiras para  os rígidos ingleses sentados ao meu lado, lançando olhares complacentes para o bebê no meu colo. É possível também que o meu estado de ânimo estivesse  sério e atormentado devido à iminente cirurgia do coração de Lazar e à nova  hostilidade de Micaela contra mim, e que essas fossem efetivamente as causas  que me impediram de ficar sentado sossegado no meu lugar tentando vestir  também um sorriso bem-humorado. Assim, quando Shivi, após um longo  período deitada quieta no meu colo, irrompeu subitamente num choro colossal—que por alguma razão despertou grande animação no público, levando o  próprio Hawking a fazer alguma observação espirituosa—,levantei-me e saí  depressa, sem ter ousado formular minha tímida pergunta sobre a contração do  universo e sem procurar compreender diversas coisas básicas que permaneciam  obscuras.
Assim, apesar da rica experiência cirúrgica adquirida no hospital Saint  Bernadin, despedi-me de Londres com certo desânimo, acrescido de uma inesperada dor de separar-me da criança. Embora já estivesse combinado que em  duas semanas eu estaria no aeroporto de Lod, com meus pais, para buscar Shivi  das mãos de duas amigas inglesas de Micaela que haviam concordado alegremente em trazê-la ao virem para Israel, e que dentro de mais um mês voltaria  ao aeroporto para receber Micaela, como viera receber-me o meu amigo  Amnon, que residira todo o tempo no nosso apartamento, desfrutando dele  com imenso prazer. Ao saber que eu antecipara a minha volta para Israel, ele  insistira em pedir emprestada a caminhonete da fábrica onde trabalhava à noite  como guarda, para ajudar-me a transportar as malas e o restante da bagagem, como, por exemplo, o berço, que eu resolvera trazer comigo. Nosso encontro  foi extremamente caloroso, embora eu tivesse percebido de imediato que no último ano ele tinha engordado e deixado o cabelo crescer e que suas roupas  estavam totalmente desleixadas.  Ficou espantado de me ver de paletó e gravata, como se eu tivesse esquecido o calor do final de verão em Israel. Enquanto  carregávamos a velha caminhonete com meus pacotes, notei que ele assumira  um macio diferente de falar, mais cínico, quase niilista—justo ele, que, entre  todos os meus amigos, sempre se destacara por uma alma pura e ingênua. Não  consegui me conter: logo que deixamos o aeroporto e pegamos lentamente a  pista da rodovia de Ayalon, que me trouxe saudades da motocicleta que não me  pertencia mais, perguntei-lhe, sem qualquer compaixão, sobre a situação do  seu doutorado. Descobri que durante minha ausência ele modificara um  pouco o tema, ou melhor, na verdade o ampliara, adotando uma abordagem  mais filosófica; em vista disso, fora-lhe atribuído mais um orientador, que lecionava no Instituto de Filosofia da Ciência. Então, as ideias confusas que eu havia  lhe apresentado numa noite nebulosa, quando voltávamos do casamento de  Eyal, ainda se revolviam na sua cabeça sem descanso. "Você não vai acreditar, até hoje ainda penso nas bobagens que você disse e tento tirar delas alguma  coisa concreta", disse sorrindo, com um leve tom de ressentimento. Obviamente ele pensava nas "bobagens" não como humanista, e sim como cientista,  tentando extrair delas um conteúdo mais científico e coerente. Contei-lhe  acerca da noite com Hawking, e ele escutou avidamente cada detalhe, caindo  numa retumbante gargalhada quando ousei repetir uma ou duas brincadeiras  que tinha conseguido captar. Perguntou-me mais uma vez por que eu antecipara o meu retorno. Devido ao grande carinho que nutria por Micaela, não  entendeu como eu pudera deixá-la sozinha. "Será que vocês brigaram?", indagou num tom que mesclava preocupação e esperança. Ao ouvir a minha explicação, não se surpreendeu, compreendendo a minha volta antecipada como eu desejava que todo mundo compreendesse, ou seja, de um ponto de vista humanitário. "É bonito da sua parte preocupar-se com o diretor do seu hospital", disse  num misto de seriedade e cinismo; "se continuar assim, algum dia você será o  diretor."
O apartamento não estava tão descuidado como eu receava. No entanto,  depois que Amnon se permitira a liberdade de mudar os móveis de um quarto  para outro, sua natureza interna se transformara. A cama grande da vovó, em  que eu me deitara com Dori, estava agora no centro do quarto de hóspedes, coberta pela mesma colcha marrom. Amnon descobriu que, deitado no quarto  de hóspedes, com algum esforço conseguia enxergar ao longe, além dos telhados emaranhados de Tel Aviv, a magnífica faixa de mar que embalava deliciosamente o seu sono. Fui obrigado a morar com ele durante uma semana, até  arranjar um novo lugar. Como ele trabalhava à noite, quase não nos vimos, pois  eu, desde que cheguei e após uma breve visita aos meus pais, que me deram de  presente o velho carro do meu pai, mergulhei completamente no hospital para  adquirir o direito de assistir, como participante ou observador, a cirurgia cardíaca de Lazar. Essa era a minha intenção secreta, e com esse objetivo procurei inicialmente o dr. Nakash para obter os primeiros detalhes, antes de ir ver Hishin  ou o próprio Lazar. Acontece que Nakash ainda não sabia se seria ele o anestesista-chefe da operação, pois era Hishin que estava definindo a equipe. Havia  no hospital um departamento de cirurgia do coração sob a chefia do dr. Granot,  um médico de cerca de quarenta anos considerado hábil e competente, tendo  retornado havia pouco de um longo período de aprimoramento nos Estados  Unidos; porém Hishin, e ao que parecia também Levin, não o consideravam o  homem ideal para a operação de Lazar. Talvez receassem que, se ele fosse nomeado responsável pelas pontes no coração do diretor, adquiriria o privilégio de uma intimidade especial com ele, dessa forma ameaçando a profunda e  antiga amizade que os ligava. Em vista disso, resolveram convidar um amigo  próximo que trabalhava num dos grandes hospitais de Jerusalém, um homem  da idade deles e colega dos tempos de universidade—o professor Adler, especialista em pontes cardíacas—,para encarregar-se da cirurgia sob a supervisão  deles. De início Lazar se opôs à proposta de trazer para si um cirurgião de outro  hospital, pois tal atitude poderia sugerir falta de confiança no cirurgião-chefe  do estabelecimento que administrava. Mas Hishin e Levin, que secreta e sutilmente juntaram suas forças, conseguiram manipular tanto as coisas, que a operação foi adiada até a partida do dr. Granot para um congresso na Europa; então,  com absoluta tranquilidade, chamaram o seu bom e velho amigo de Jerusalém.
Uma vez que a operação fora "roubada" do departamento de cirurgia do  coração e transferida para o departamento cirúrgico de Hishin, era necessário  também montar uma outra equipe cirúrgica. Hishin e Levin, apesar de sua  posição de veteranos, concordaram em auxiliar o colega de Jerusalém e preencher as funções de médicos assistentes ou até mesmo médicos de apoio.
Obviamente Hishin escolhera Nakash como anestesista; no entanto, como  Lazar fazia questão de não constranger o anestesista permanente do departamento de cirurgia do coração, o dr. Yarden, este foi convidado a ocupar um  posto complementar junto a Nakash, porém sem se determinar quem estaria  no comando. Assim mesmo, deram a Nakash o direito de escolher um assistente. Era o que eu esperava. Isso ocorrera na sexta feita em que eu voltara. Até o  momento tinha conseguido evitar Hishin e não me encontrara com Lazar, que  aliás não estava no escritório, pois recebera ordem, reforçada pela postura decidida de seus dois amigos, de permanecer em repouso na sua casa dois ou três  dias antes da operação. Desde a minha volta eu circulava apenas em torno do  dr. Nakash, na qualidade de futuro colega do departamento de anestesia, principalmente para convencê-lo a me escolher como assistente na operação.  Porém Nakash, que conhecia muito bem e valorizava o meu profissionalismo, surpreendentemente recusou. "Por que você?", perguntou com seu jeito calmo  e direto. "Já seremos dois anestesistas, e não vai sobrar muita coisa para você  fazer. Além disso, Lazar é meio amigo seu. Por que você haveria de ficar ao meu  lado quando abrirmos o seu peito?" Mas eu insisti. "Veja, Hishin e Levin também são amigos de verdade e, mesmo assim, não só ninguém os impedirá de  estar junto a Lazar na hora da operação, como também desempenharão um  papel significativo no trabalho de incisão e sutura. E afinal devemos confiar em  nós mesmos, manter o sangue-frio em qualquer situação e com qualquer pessoa operada." O dr. Nakash ouviu com atenção, os dois pequenos olhos brilhando na sua cabeça morena e quase totalmente calva, a língua rosada lambendo  ligeiramente os lábios, como era seu hábito quando hesitava em tomar uma  decisão. Ele vacilava exatamente porque gostava muito de mim, ainda que da  sua forma tímida e reservada. Por um lado, não queria me sobrecarregar com a  operação de uma pessoa próxima. Por outro, vendo que eu teimava e me mantinha firme, queria atender aos meus desejos. Decidiu aconselhar-se com  Hishin, que imediatamente respondeu:
"Por que não? Em que o Benjy pode nos atrapalhar? Além do mais, estaremos todos em volta, amigos antigos e amigos recentes, e tudo vai ficar um pouco  mais alegre."
Pode ser que eu estivesse projetando nos outros a minha excitação febril,  mas com a aproximação da data da cirurgia, marcada para dez dias depois da minha volta da Inglaterra, senti que todo o hospital se agitava numa nova tensão. E talvez fosse apenas o fato de eu ainda não ter me acostumado ao ritmo e  à tensão israelenses, após um ano inteiro de tranquilidade britânica e noites  numa sala de emergências num antigo hospital londrino. Afinal, cirurgias  como a de Lazar haviam se tornado corriqueiras em hospitais nos últimos anos;  toda semana, pelo menos uma dezena de pacientes eram submetidos a operações de pontes de safena e substituição de válvulas, e até mesmo crianças e  bebês sofriam cirurgias corretivas de problemas cardíacos congênitos. Mesmo  assim, eu sentia a tensão no ar. Parecia que os funcionários burocráticos de  todos os níveis e escalões, muito mais ligados ao diretor administrativo no seu  trabalho cotidiano do que a equipe médica, sendo os verdadeiros responsáveis  pelo "espírito" do hospital, eram responsáveis também, de forma bastante  peculiar, por difundir boatos e espalhar tensão. O fato de a operação ter sido  "roubada" do departamento de cirurgia cardíaca para o de cirurgia geral gerou  um drama paralelo; assim como o fato de o professor Hishin ter marcado a cirurgia para o período da tarde, geralmente mais calmo, para avançar até o início da  noite, se necessário, de modo que ele e Levin estivessem livres nas longas horas  de permanência do amigo no pós-operatório. Na véspera da cirurgia decidi dar  uma passada na ala administrativa e cumprimentar a simpática secretária de  Lazar, que eu ainda não havia encontrado desde que voltara. A ala estava deserta e quase totalmente às escuras. Apenas ela permanecia sozinha trabalhando  na sala ao lado da de Lazar. Quando parei junto à porta, ela me viu e soltou um  ligeiro grito de alegria. Imediatamente levantou-se e estendeu a face, já um  pouco enrugada, para receber de mim um beijo. Sem hesitar, abracei-a e beijei-a calorosamente, sentando-me em seguida para conversarmos um pouco.  Exigiu ver uma foto do bebê e saber detalhes da Inglaterra, porém eu  dirigi o  tema da conversa para Lazar, que, para minha surpresa, estava na sala ao lado  com dois auxiliares escolhidos para ajudá-lo a pôr ordem na mesa antes da internação, que teria início naquela mesma noite. Ela estava tão contagiada quanto  eu pela febre de ansiedade e excitamento por causa da operação do chefe, e isso  me agradou, pois senti não estar sozinho com os meus sentimentos. De súbito  ela disse: "Venha ao menos cumprimentá-lo".
Senti-me tremer e disse: "Por que incomodar agora?".
Ela insistiu, bateu levemente à porta, abriu-a e disse: "O doutor Rubin voltou da Inglaterra e quer lhe dar um alô antes da operação".
Lazar estava lá, sentado com dois auxiliares diante da sua mesa enorme.  Não conseguira emagrecer durante os dias de repouso, conforme lhe haviam  imposto seus dois amigos médicos. Mas parecia pálido. Imediatamente fez um  sinal com a mão, um gesto rápido e entusiasmado, para que eu me aproximasse. Disse espantado:
"Você não deveria voltar só no dia quinze? Por que voltou antes?"  Fiquei tão estarrecido de ver que no seu cérebro administrativo havia lugar  também para a data de retorno da Inglaterra de um médico cuja posição no hospital era apenas temporária, que não pude inventar uma mentira de última  hora; gaguejei, ruborizado e diante de todos, a verdade que explodiu de dentro  de mim de forma incontrolável:
"Eu queria estar aqui para a sua operação. E amanhã vou ajudar o doutor  Nakash na anestesia."
Assim consegui surpreender o homem que não se surpreendia com nada.  "Você veio especialmente para a minha operação?" Virou-se perplexo para  seus auxiliares, que também se espantaram com a generosa consideração que  revelei. Recobrando-se, disse: "Estou vendo que  todos os médicos do hospital  resolveram fazer a festa com o meu corpo. Pena  que a operação não possa ser  feita no palco do auditório principal". E caiu na gargalhada. Também eu e os  dois auxiliares aderimos àquele riso contagiante. Apenas a secretária permaneceu em silêncio com seu habitual sorriso calmo e misterioso. Mas não havia  tempo para muita diversão. Lazar ergueu o braço num gesto de despedida e eu  saí da sala. Antes de me despedir, quis saber como Dori estava reagindo à tão  esperada operação. Como eu imaginara, segundo a secretária, ela estava ainda  mais tensa e confusa que o marido. Pois bem, ela chegaria dali a pouco para  também ficar com ele na primeira noite de internação, no quarto especial reservado aos dois. A ideia de que ela era incapaz de ficar sozinha à noite mesmo em  seu próprio quarto, em sua própria cama, fez com que eu sentisse uma onda de pena e prazer, tanto que ousei considerar a possibilidade de ficar à sua espera lá  no escritório. Mas tive medo de que, se soubesse a razão da minha volta antecipada da Inglaterra, ela pedisse ao professor Hishin que cancelasse a minha participação na cirurgia. Em vista disso, retirei-me da sala o mais depressa possível, mas não fui embora. Fiquei sentado, disfarçado pela penumbra, no fundo de um dos corredores laterais, prestando atenção ao som cada vez mais forte dos passos firmes e seguros.
Durante as seis horas da cirurgia, ela permaneceu sentada na sala do marido na companhia do filho, com a fiel secretária srta. Kolbi dando um jeito de  mantê-los abastecidos com comida e bebida. A avó também não faltou, fazendo questão de vir do lar de idosos para juntar-se aos outros membros da família  e confortá-los com um pouco do seu otimismo natural e da sua rica experiência  de vida. Hishin e Levin em pessoa desceram Lazar do quarto para a ala cirúrgica às duas da tarde, dando a impressão de estarem gostando de fazer o papel de  simples atendentes. Lazar, já meio sonado pelos sedativos e relaxantes pré anestésicos, suportava com um débil sorriso as piadas e comentários que Hishin não  parava de fazer. O professor Levin, ao contrário, parecia sério e solene; talvez  estivesse cozinhando dentro de si o próximo surto psicótico, que mais uma vez  o libertaria de suas raivas. Devido à enorme quantidade de aparelhos e equipamentos na sala de cirurgia, a "decolagem" da operação teve lugar numa pequena sala preparatória anexa, onde estavam à espera do diretor administrativo o dr.  Nakash, o dr. Yarden e eu, em pé num canto da sala. Sim, já tinha ficado claro  para mim que o meu lugar fixo durante a cirurgia seria num canto distante, pois  além dos dois técnicos, do equipamento cardiológico e do respirador, três enfermeiros e enfermeiras, o próprio professor Adler, que ainda estava junto à pia  lavando repetidamente as mãos com extremo cuidado, Levin e Hishin também  estariam supervisionando toda e qualquer ação realizada. Esse tipo de cirurgia  exige uma atenção constante na comunicação entre o cirurgião e os anestesistas; portanto, após a "decolagem", estes receberam a instrução de manter o  "voo" utilizando uma sonda de pentanil, um anestésico de efeito mais reduzido que possibilita um controle mais preciso e frequente da anestesia, em contraste com gases anestésicos cuja ação é mais ampla e demorada. Nakash ainda  teve tempo de me explicar essa mudança no programa antes que trouxessem  Lazar para dentro; mas no instante em que a maca entrou na sala, percebi um  detalhe que jamais tinha observado em Nakash: um leve tremor nas mãos.  Depois de injetar os "coquetéis" que preparara nas duas entradas venosas junto  ao pulso, e tendo chegado a hora de introduzir o tubo do respirador nos pulmões, vi que ele, o mais hábil e competente dos anestesistas, perdera o ponto exato de inserir o tubo com o laringoscópio, de modo que Lazar, completamente tonto mas ainda com dificuldade de entrar de todo na anestesia, debateu-se  um pouco sob a mão escura de Nakash, como se quisesse aspirá-la. Nakash  empalideceu e viu-se obrigado a aplicar força sobre a face de Lazar para recuperar o controle da situação. Depois se descobriu que o tubo respiratório entrara fundo demais e que Lazar estava respirando com um pulmão só; foi necessário então corrigir a posição até achar o ponto correto, que proporcionasse a  respiração pelos dois pulmões. Ao contrário de Nakash, cujo nervosismo inusitado aumentou minha ansiedade, o dr. Yarden, experiente em anestesias nas  cirurgias do coração, trabalhava com absoluta tranquilidade e competência  profissional. Perguntou a Hishin, num misto de polidez e ironia, em que perna  deveria escolher a veia para usar na ponte. Por um momento Hishin hesitou.  Aparentemente não estava preparado para tal pergunta. O anestesista sugeriu  a perna esquerda e, ao ver que a ideia fora aceita, debruçou-se imediatamente  sobre a direita preparando um canal intravenoso especial para o caso de haver necessidade de sangue ou outros líquidos, se algo saísse errado durante a cirurgia. De repente, com um único movimento, as partes íntimas de Lazar foram  expostas aos olhos de todos nós. Baixei a cabeça num leve e respeitoso gesto de  pesar, mas não consegui desviar totalmente o olhar do grande órgão sexual do  diretor, que ali jazia dignamente numa espécie de paz interior e nem imaginava que um dos presentes ousara enfrentá-lo em nome de uma paixão impossível. O dr. Yarden, após desinfetar o local com betadina, introduziu o tubo fino  e comprido do cateter no pênis; depois aplicou um pedacinho de pano azul  esterilizado sobre toda a região, para protegê-la da grossa seringa inserida na  veia femural com o objetivo de proporcionar um canal de infusão adicional  numa emergência.
Para mim era novidade que, devido à complexidade da operação, os anestesistas preparavam canais de entrada adicionais em várias partes do corpo para  injetar medicamentos e fluidos de emergência. Nakash, agora recuperado, preparou-se para introduzir diretamente no coração três canais separados. Hishin,  que observava todos os preparativos com o máximo interesse, sugeriu num sussurro que ele próprio poderia fazer isso; mas Nakash, buscando recuperar seu  amor-próprio atingido pelo ligeiro deslize cometido durante a inserção do tubo  respiratório, insistiu em continuar e começou a espalhar toalhinhas azuis esterilizadas sobre todo o peito de Lazar, que agora respirava apenas pelos aparelhos. Vestiu luvas e, com a determinação de um cirurgião, introduziu os três  rituais com rapidez e eficiência. Depois jogou as luvas ensanguentadas no lixo,  fazendo um sinal a Hishin e Levin, que o observavam concentrados como se  fossem estudantes do primeiro ano, que já podiam levar Lazar para a sala de operações propriamente dita. "Venha, Benjy, segure o balão de oxigênio", chamou  Nakash, como se chama um menino a quem se deseja dar alguma tarefa; foi a  maneira que encontrou não só de mostrar que não se esquecera de mim, mas  também de justificar perante o outro anestesista a minha presença na sala.  Acompanhei a maca deslizando sobre suas rodas de uma sala a outra, segurando compenetrado o balão azul entre as mãos, fornecendo ar aos pulmões do  diretor, até que fosse conectado ao respirador principal ao lado da grande mesa  cirúrgica. Junto a essa mesa já esperava, envolto num avental esterilizado especial, o cirurgião "ideal", o professor Adler, de baixa estatura, com uma lâmpada  na cabeça conectada ao cabo de eletricidade que fornecia um feixe de luz especial capaz de ajudar seus olhos a enxergar através dos óculos delicados e mais  longos que os comuns, talvez porque a sua especialidade específica fosse justamente corrigir defeitos cardíacos congênitos em bebês prematuros, considerada nos bastidores dos departamentos cirúrgicos o "supra sumo" da cirurgia do  coração. Até mesmo um cirurgião destacado como Hishin demonstrava extremo respeito pela delicada habilidade indispensável para corrigir defeitos e descuidos do próprio Criador. Mas agora não era nem uma criança nem um  recém-nascido que jazia diante do professor Adler, e sim um homem forte e  sério, o diretor administrativo daquele hospital, necessitado de uma corriqueira operação de três pontes comuns. Portanto Hishin, que decidira assumir também a função do enfermeiro e das enfermeiras, esfregava ele próprio o corpo nu  do amigo com betadina de consistência quase pastosa para assegurar e fortalecer a esterilidade imprescindível no caso, antes de executar uma comprida incisão na perna e extrair dela uma longa veia que teria seu papel modificado e se  transformaria nas pontes, abrangendo outras partes do corpo.
O professor Hishin, o orgulhoso chefe de departamento, milagrosamente parecia não só disposto mas feliz por atuar como assistente de seu colega de  Jerusalém, chamado por ele e por Levin pelo apelido afetivo de Buma. Só que  Buma não parecia estar gostando dos seus dois amigos professores ávidos por cumprir suas ordens. Sentia-se pressionado pela rápida sucessão de tarefas que  lhe haviam sido impostas. Pois no seu departamento em Jerusalém era costume o cirurgião-chefe chegar à sala de operações duas ou três horas após o início da cirurgia, depois de feito o trabalho preliminar pelos assistentes e especialistas de cada área, que ele podia acompanhar e controlar por um monitor  de TV especial colocado em sua sala. Ao descer para a sala de cirurgia e debruçar-se sobre o paciente, encontrava diante de si um tórax aberto, a artéria  mamária interna seccionada e conectada na sua extremidade inferior, e até  mesmo a veia destinada a transformar-se em artéria já imersa na solução especialmente preparada para ela, pronta para o corte. Dessa forma, ao cirurgião chefe não restava mais do que fechar a saída da aorta ao coração e unir dois  tubos de sucção à cavidade venosa inferior, conectar os tubos do equipamento cardio pulmonar, dar um sinal e avisar aos dois técnicos que se preparassem para transferir a circulação sanguínea para o equipamento, de modo a permitir que ele trabalhasse no coração úmido e quieto, fazendo tudo que fosse  necessário. Porém aqui fora obrigado a participar também da fase preparatória, a qual sem dúvida conhecia de cor, mas não realizava havia um bom  tempo. E Hishin, ciente disso, procurava fazer piadas sem parar, para distrair  um pouco seu amigo e evitar que ele se sentisse explorado demais. Será que ele  receberia também honorários especiais da família Lazar?—perguntei a mim  mesmo. Ou abriria mão do pagamento, como eu fizera, para receber outros  favores? Eu não podia obter resposta para essa pergunta, muito menos do professor Levin, que pela sua formação em medicina interna decidira postar-se  num local mais espiritualizado, junto aos anestesistas. Estes estenderam sobre  o rosto de Lazar um grande pano, prenderam seus olhos com fitas especiais e  imobilizaram o pescoço para que não fizesse nenhum movimento súbito,  reduzindo gradativamente sua pressão sanguínea e mantendo o controle sobre  seu sono estável e profundo, para o momento mais dolorido de toda a operação, o momento em que o peito é aberto com uma serra elétrica—operação  que o onisciente especialista jerusalemita executou com enorme segurança e  impressionante rapidez, a ponto de Hishin não conter um breve grito de admiração e louvor pelo seu velho colega. Este permitiu-se retribuir com um leve  sorriso enquanto se curvava sobre a face congelada de Lazar, cujo sono, a julgar pela situação estável dos números e gráficos que piscavam nos aparelhos à  sua volta, não fora perturbado pela terrível serra.
Notei que, apesar de estar muito perto de mim, o professor Levin insistia  em me ignorar, como se, desde o instante em que eu decidira não voltar para  "ser examinado" sobre o que acontecera na Índia, ele tivesse me eliminado  moralmente. Sabendo que, a despeito de suas idiossincrasias e esquisitices, ele  ainda era um dos médicos mais considerados no hospital, continuei observando a sua fisionomia, que irradiava uma estranha e profunda preocupação, como  se receasse que algo muito difícil estivesse prestes a ocorrer na sala. Será que  toda aquela preocupação provinha apenas de sua formação em medicina interna, que o desacostumara de circular na sala de operações? Ou seria apenas uma  preocupação pessoal com a licença médica, necessária por causa do episódio  psicótico que estava preparando para si, que teria de ser deixada para depois em  vista da recuperação de Lazar, ainda muito distante? Agora os dois anestesistas,  dr. Nakash e dr. Yarden, que haviam encontrado uma linguagem comum, preparavam a segunda "decolagem", a efetiva: ainda não o desligamento do corpo  e do espírito, mas o desligamento do corpo de si mesmo, colocado sob o comando da máquina com seus fios, tubos, ponteiros e acessórios metálicos reluzentes. Os três técnicos introduziram todos os tubos em seus respectivos lugares e,  tendo até o momento operado apenas com água, pareciam ávidos por receber  o sinal do cirurgião-chefe—que começou a murmurar, por trás da máscara e  dos óculos, instruções que os três repetiam em voz alta—para operarem o aparelho com o sangue de Lazar, assumindo as funções do coração e dos pulmões:  bombeamento, limpeza, purificação, oxigenação e devolução do sangue ao  corpo na quantidade certa, acrescidas da cardioplegia destinada a parar o coração. Nesse momento vi que o olhar de Levin se desviou para o monitor suspenso no suporte entre o teto e a parede, constatando que o gráfico de batimento  cardíaco de Lazar se tornara uma linha horizontal, plana e uniforme, sem flutuações, enquanto os valores da pressão sistólica e diastólica se equiparavam em  virtude do funcionamento regular do silencioso aparelho. Então senti que não  conseguia mais controlar a minha agitação interior e, não como médico competente e experiente, mas como jovem curioso e inquieto, aproximei-me lentamente de Hishin, que terminara de costurar a perna de Lazar e agora estava  parado numa pequena plataforma observando com prazer o trabalho hábil e ágil do colega, aparentemente satisfeito com o andar dos acontecimentos, e perguntei-lhe se podia ficar ao seu lado e assistir também à execução do trabalho,  no intuito de aprender algo novo, pois, como Hishin bem sabia, embora eu tivesse sido excluído da cirurgia e optado pela anestesia, minha vontade real e verdadeira era continuar colocando a mão dentro do corpo humano. "É claro que  sim", respondeu ele em tom receptivo e amigável, e abriu espaço para proporcionar-me um ângulo de visão privilegiado. E assim, no meio da moldura de aço  que segurava o peito como um livro aberto, vi subitamente, em toda a sua extensão, o coração parado de Lazar, e a dor da minha paixão impossível diante do  amor silenciado daquele coração forte tomou conta do meu próprio coração.

5.
   
 
Muito perto, e todavia distante, encontra-se a estatueta marrom sobre a mesinha de cabeceira  ao lado da nossa cama. Será possível chegar a ela com nossa  queixa? Afinal, é apenas um peça de matéria inanimada, extraída da própria  natureza, carente de propósito e vontade própria, indiferente à sua aparência  humana inscrita em cada detalhe. Pois a pequena mão de argila estendida suavemente em nossa direção não só não tem poder de nos tocar,  como sequer é capaz de  se recolher de volta. E a despeito do leve sorriso misterioso, que toma conta da face  da estatueta qual sorriso de Gioconda, não existe ameaça, a não ser aquela que projetamos sobre nós mesmos, agora nas profundezas da noite, ao nos revirarmos longamente entre os lençóis que irritam nossos membros. Pois a próxima e íntima estatueta da morte não precisa ser diferente, por exemplo, dos óculos, ou da carteira de  dinheiro, ou das chaves espalhadas à sua volta. E apesar disso, em plena noite  espessa, é na direção dela que nossas mãos se estendem, para agarrar seu fino pescoço e abraçá-la em meio às trevas, pois à luz do dia corremos o risco de ser impedidos pela face tingida de cor avermelhada e pelo movimento congelado e estético  dos delicados e bem moldados membros que nos levam ilusoriamente a pensar que  têm vida e alma. E então, no escuro, escutamos o som da queda, pois a mão estendida enganou-se na distância, e somos obrigados a nos levantar da cama e nos ajoelhar para recolher os cacos—uma dor súbita mas absoluta comprime o nosso peito  e abala o nosso coração, para que saibamos que na verdade a morte veio para  nós e não  para os cacos de matéria inerte espalhados pelo chão.
Agora, iniciado o "voo espacial" de Lazar, totalmente guiado pelas mãos  dos três técnicos caprichosos e atentos encarregados do moderno equipamento cardiopulmonar—conectado por dezenas de tubos plásticos de todos os  tamanhos, serpenteando sobre a mesa de operações inundados de sangue sugado da armação quadrada metálica do retrator que abre o peito como se abrisse  um livro, para em seguida fazer refluir o sangue—,Nakash pôde abandonar seu  posto de guarda junto a Lazar e sair da sala para se servir, da sua garrafa térmica  particular, de uma caneca de café bem forte. E apesar de eu também estar disposto a tomar daquele café, preparado todas as manhãs pela sua mulher, não  consegui afastar-me do meu lugar, ainda que o controle exercido pelo dr.  Yarden sobre o paciente anestesiado fosse mais do que suficiente, até porque o  respirador estava inerte; afinal, não era só o coração de Lazar que estava desconectado, mas também os pulmões, e o suprimento de sangue purificado e oxigenado fluía para o corpo e para o cérebro no ritmo correto, com vazão ininterruptamente determinada pelas instruções do cirurgião, que ditava ordens diversas por sobre o ombro. E os três técnicos as repetiam como uma equipe de  artilharia, para se certificarem de que não havia risco de ocorrer um mal-entendido fatal. O sangue fluía livremente pelos tubos, sem perigo de coagular-se graças a um gotejar incessante de heparina que neutralizava os fatores de coagulação naturais, de modo a assegurar um fluxo contínuo entre os mecanismos em  funcionamento. O chefe dos técnicos teve prazer em me explicar como controlava o fluxo de sangue sob sua responsabilidade, aquecendo-o ou resfriando-o  conforme a necessidade, como se fosse um fator independente, sensível e consciente. E era preciso também suavizá-lo com uma solução alcalina, para eliminar a forte acidez produzida como reação ao trauma de ser subitamente retirado  do calor do corpo humano para ser acionado por uma máquina externa.  Quando o dr. Yarden constatou que Nakash demorava a voltar, não se conteve,  tirou do bolso do avental um maço de cigarros e fez um sinal discreto para que  eu me aproximasse do silencioso aparelho de anestesia, que na verdade exigia apenas uma coisa: um par de olhos observando o gotejar contínuo de biatril e  curare responsáveis pelo relaxamento muscular e pela eliminação das dores.  Também Levin deixou a sala por algum tempo, e ao lado da mesa cirúrgica restávamos três médicos, o professor Adler, o professor Hishin e eu. Peguei duas  pequenas plataformas de chão e coloquei-as uma sobre a outra, para conseguir  um ângulo de visão acima da rede suspensa sobre a cabeça de Lazar e poder  assistir à implantação das pontes propriamente ditas, trabalho que no momento era executado com firmeza e determinação pelas mãos hábeis do professor  Adler com a assistência de Hishin. Este último desempenhava uma dupla função: a de aluno do seu amigo de Jerusalém, permitindo-se formular basicamente perguntas técnicas, e a de professor generoso para mim, buscando satisfazer  o brilho de curiosidade dos meus olhos como nos dias em que eu trabalhara  com ele, explicando pequenos detalhes e sutilezas clínicas ou fazendo observações anatômicas, de modo que, apesar de não entender a minha presença na  operação de Lazar, esta pudesse enriquecer a minha experiência e o meu  conhecimento como médico.
Naquela noite, deitado na cama, antes de enfiar a cara no travesseiro procurando adormecer, recapitulei mentalmente todo o processo das seis horas de  cirurgia – as partes íntimas de Lazar expostas, o coração à vista entre as bordas  do peito aberto, o sangue fluindo livremente nas dezenas de tubos que se cruzavam em torno, as silenciosas rodas de bronze do equipamento cardiopulmonar -,tudo que lá ocorreu pareceu-me harmônico, calmo e seguro, mais do  que seria possível -presumir. Inclusive também o instante mais dramático, o  retorno do fluxo sanguíneo ao corpo, quando o coração de Lazar se recusou a  retomar seu ritmo correto, o que levou o professor Adler a tirar dois mini terminais do desfibrilador e colocá-los um de cada lado do coração recalcitrante, aplicando em seguida breves descargas elétricas para "dar a partida" e fazê-lo recuperar seu funcionamento autônomo, que já podia ser constatado pelos traços  coloridos do gráfico no grande monitor. Realmente, refleti na escuridão do  meu quarto, Levin e Hishin tiveram razão em trazer de Jerusalém o grande mestre, que trabalhara com absoluta calma e competência, desconsiderando com um gesto delicado mas tranquilizador os temores que eu ousara manifestar,  ainda que apenas no final da operação, em relação à taquicardia, depois de ver  sua dificuldade para acionar novamente o coração. É óbvio que eu falara gaguejando, inseguro, ainda confuso de emoção com as consequências e desdobramentos dos três eletrocardiogramas realizados em Londres; mas, mesmo assim,  o Grande Mestre de Jerusalém, ainda que exausto após seis horas seguidas em  pé, tendo pedido à enfermeira que o ajudasse a tirar todos os seus paramentos —máscara, luvas, foco de luz preso à cabeça, avental e capa esterilizados -,  mostrara-se disposto a me escutar, com a paciência de um sábio em medicina a  quem toda e qualquer conversa sobre o corpo jamais pode aborrecer. Levin, que  ainda guardava rancor por mim, interrompeu-nos grosseiramente para apontar  um erro numa das minha premissas; o professor Adler, em nome da paz reinante, preferiu cortar a discussão, murmurando alguma coisa tranquilizadora referente ao coração de Lazar e saindo em seguida com Hishin para dar o relatório  à mulher do diretor e informar os familiares do sucesso da operação.
Não acompanhei a comitiva que transportou o adormecido e enfaixado  Lazar para a unidade de terapia intensiva, especialmente preparada para ele no  departamento de Hishin. Aliás, ele havia transformado também o seu próprio  escritório num dormitório para a mulher de Lazar, que pretendia passar a noite  ali. Agora, terminada a operação, tendo visto o que queria ver e sentido o que  queria sentir, eu desejava apenas ficar sozinho. Porém já era mais de uma da  madrugada, e as tarifas das ligações telefônicas para o exterior eram extremamente baratas a essa hora; pensei em ligar para Micaela para acertar os últimos  detalhes da viagem do bebê para Israel dali a dois dias e talvez também lhe contar a tranquilidade da operação de Lazar e a minha admiração pelo Grande  Mestre de Jerusalém; e dizer-lhe ainda que, apesar de eu não ter sido tão necessário, não me arrependia de ter  antecipado o meu retorno da Inglaterra. No  entanto, apesar do adiantado da hora, onze da noite pelo horário de Londres,  Micaela ainda não estava em casa, o que me causou profunda estranheza e irritação, por ela ser capaz de ficar carregando a nossa criança até tão tarde nos ônibus e ruas da cidade.
Tínhamos vendido nosso carrinho, após muito esforço, a uma das enfermeiras do hospital, para completar nossas passagens de volta; apenas a neném  viajou de graça, acompanhada por duas inglesas jovens e simpáticas, que se  divertiram muito com ela durante a viagem. Acontece que Micaela lhes prometera como retribuição, sem que eu soubesse, hospedagem no nosso apartamento durante seus primeiros dias em Israel. Fiquei furioso ao saber disso. Apenas  alguns dias antes tinha conseguido tirar educadamente do apartamento  Amnon e todos os seus pertences, e agora de repente seria obrigado a receber  duas hóspedes—um aborrecimento absolutamente dispensável num momento em que meu estado de espírito continuava perturbado, e isso eu sabia muito  bem, por causa da operação de Lazar realizada dois dias antes. Ainda me refreava para não visitá-lo no seu quarto especial no departamento de Hishin, receoso de que Dori ou alguma outra pessoa percebesse o turbilhão interno que  tomava conta de mim.
Mas não me restava saída: precisava respeitar a promessa de Micaela, e de  má vontade entreguei a chave do apartamento às duas inglesas, anotei o endereço com clareza nos dois idiomas e recomendei que se comportassem discretamente, pois o apartamento era alugado. Também lhes pedi que o desocupassem em um ou dois dias. "De toda forma, não há o que fazer aqui em Tel Aviv",  argumentei mal-humorado, "desçam até o Neguev, até o deserto, viajem para  Eilat, é lá que vocês vão encontrar as coisas agradáveis de Israel." Depois atei o  bebê na cadeirinha que instalara no carro do meu pai e assim, ela sentada ao  meu lado com a cabeça virada na direção oposta, viajamos os dois para  Jerusalém, para deixá-la uma semana com minha mãe. Para receber sua pequena hóspede, minha mãe tirou uma antecipação das férias do ano seguinte, pois  todas as férias a que tinha direito já haviam sido despendidas com a viagem à  Inglaterra. A caminho de Jerusalém, Shiva me lançou um olhar perscrutador, como se estivesse tentando lembrar-se de quem eu era. Ainda era muito pequena para recordar-se de mim com clareza após uma separação de duas semanas,  mas grande o suficiente para não me apagar da memória. Numa tênue linha  entre a lembrança e o esquecimento, examinava-me com olhar desconfiado, e  ao mesmo tempo muito doce, tanto que eu não conseguia resistir e de vez em  quando, sempre que o trânsito permitia, inclinava-me e roubava-lhe um beijo  amoroso, enquanto continuava tagarelando sozinho sobre os meus planos para  o futuro, e às vezes até sucumbia a canções estranhas e antigas, procurando  diverti-la e também animar a mim mesmo, confuso desde a operação de Lazar,  como se as pontes implantadas em seu coração também servissem para o meu.  E às vezes sentia também um espécie de dor forte no peito, como se os terminais elétricos manuseados pelo Grande Mestre de Jerusalém, apelidado de  Buma, também agissem sobre mim.
Quando cheguei à casa de meus pais em Jerusalém, deixei de prestar atenção às minhas sensações, de modo a estar totalmente atento e disponível às  preocupações deles. Apesar de sua grande alegria por reencontrar a netinha,  receavam que estivesse além de suas capacidades acolhê-la e cuidar dela durante uma semana. Em especial minha mãe, geralmente tão fria e controlada em  relação a tudo. Era óbvio que, no íntimo, ressentia-se da atitude de Micaela,  chegando a temer que ela não voltasse da Inglaterra na data prevista.  Mas eu a  tranquilizei: Micaela sempre cumpria suas promessas. Afinal, ela cedera à  minha teimosia em voltar para Israel no final de um ano e concordara, a despeito da sua vontade, em voltar também; assim, não havia mal nenhum no fato de  ela permitir-se desfrutar sozinha mais um pequeno período na Inglaterra, duas  semanas de total liberdade, como estava acostumada. Coloquei Shivi para dormir na pequena cama que meu pai pedira emprestada a um dos funcionários mais jovens do escritório, que esperava um novo filho, e dei instruções precisas  e detalhadas acerca de seus hábitos de alimentação, bebida, banhos. Aproveitei para falar um pouco sobre o sucesso da cirurgia de Lazar e sobre os meus planos  no hospital. Deitei-me então na cama da minha adolescência, ao lado da cama  onde dormia agora minha filha, e caí rapidamente num sono que, por algum  motivo, esteve tão infestado por um pesadelo terrível e recorrente, que preferi  levantar-me antes do amanhecer, despedir-me de meus pais num sussurro e  pegar a estrada de volta a Tel Aviv. Afinal, era oficialmente o dia de iniciar meu  trabalho no hospital em caráter permanente, ainda que em meio período.
Justamente por haver dado a minha chave às inglesas, precisei esperar um  tempo enorme do lado de fora do apartamento até que uma delas, vestindo  shorts e uma blusa que mal cobria seus seios, acordou e abriu a porta para mim.  Elas não entenderam minhas determinações e colocaram seus sacos de dormir  no quarto da avó, em vez de colocar no quarto de hóspedes. No entanto, à parte  esse pequeno engano, vi que cuidaram bem do apartamento, deixando-o em  ordem, inclusive com a cozinha limpa. Apesar disso, aconselhei-as a descer  ainda no mesmo dia para o deserto e desfrutar uma experiência que jamais  teriam na Inglaterra. Agora, vistas mais de perto, não pareciam tão jovens como  eu tinha achado ao encontrá-las no aeroporto. Tinham mais ou menos a minha idade, e seu físico, bem conservado e com visível formação esportiva, lembrava  o de Micaela. Aliás, eu já podia imaginar a depressão dela ao voltar para Israel em duas semanas. Dirigi-me para o hospital e, não tendo ainda credencial para  o estacionamento, precisei deixar o carro bastante longe e percorrer uma boa  distância a pé. Embora oficialmente o outono já tivesse começado, a claridade  matinal era muito forte, e tive que pôr os óculos escuros que comprara no avião  para acostumar meus olhos à passagem da claridade inglesa para o intenso brilho da luz israelense. Fui primeiro até o departamento de anestesia para apresentar-me à diretora, uma mulher de meia-idade muito enérgica, dona de um  estilo afiado e mordaz, que na semana anterior já fora avisada por Lazar da  minha admissão formal ao departamento e que, apesar de ainda não ter recebido a comunicação oficial, estava disposta a me indicar imediatamente para o  plantão noturno da sala de cirurgias. Estranho, pensei, que também aqui, como  em Londres, eu esteja começando meu trabalho em plantões noturnos. Aceitei  a proposta, não só para reduzir meu contato com minhas hóspedes inglesas,  mas também pela possibilidade de visitar durante a noite o quarto de Lazar e  dessa forma, se necessário, tentar suavizar um pouco sua solidão. No refeitório  encontrei Nakash e perguntei-lhe como estava Lazar. Fiquei sabendo que a  recuperação transcorria no ritmo esperado. Ele já estava desconectado da maioria dos aparelhos e fora transferido para o nono andar, para um quarto privativo no departamento do professor Levin, que também fazia questão de participar ativamente da convalescença de seu amigo. Dentro de três ou quatro dias  poderia deixar o hospital. "Então", alegrei-me intimamente, "do que você tem  tanto medo?" Preferi não subir para vê-lo, sabendo que o quarto estaria cheio  de visitas de fora e de dentro do hospital. Pensei em deixar minha visita para o  início da noite, antes de começar o plantão.
Voltei ao apartamento na esperança de que as minhas duas inglesas tivessem ido embora, mas descobri que tinham acabado de acordar; vestindo roupões sobre trajes de banho, perguntaram qual era o caminho mais fácil para o  mar, convidando-me a ir com elas. De início pensei em recusar, mas, na verdade, por que não iria? Quem sabe a água salgada do mar conseguisse sossegar a  inquietação que se recusava a me deixar? Saí à cata do meu calção de banho,  que não usava há séculos e que, pelo olhar bem-humorado das duas inglesas,  aparentemente saíra de moda havia muito tempo. Foi muito estranho caminhar de repente, em plena tarde, em trajes de banho e camiseta como um adolescente, no meio da movimentada e agitada Tel Aviv, na companhia daquelas duas  estranhas inglesas solteiras, que além de serem parentes gostavam de passear  juntas pelo mundo. "Vocês já estiveram na Índia?", perguntei. Até a Índia não  haviam chegado. Recomendei com entusiasmo que fossem. Sim, tinham ouvido elogios à Índia por toda parte, inclusive, é claro, da minha Micaela. Na verdade, consideravam a possibilidade de juntar-se a mim e a Micaela na nossa viagem para lá, para nos ajudarem a cuidar de Shivi, aquela doçura. Entrei com  elas no mar, que estava morno e suave, sem ondas. Imediatamente o cheiro do  mar me lembrou o do líquido amniótico no apartamento em Londres, talvez  porque houvesse o elemento amniótico nas algas marinhas que constantemente se fragmentavam dentro do mar. Mas o cheiro não me impediu de aproveitar rápidos mergulhos na água, nem de apostar corrida de natação com cada uma das moças. Estava começando a me sentir mais leve, como se aquilo que  pesava sobre mim desde a operação de Lazar estivesse se diluindo. Depois de  sair da água e me enxugar, convidei as duas inglesas para comer milho quente. Encontrei Amnon na praia jogando bola com um rapaz de aparência inteligente. "Agora estou entendendo por que o doutorado não anda", não resisti  à tentação de uma brincadeira. Imediatamente me arrependi. Mas ele não  pareceu ofendido com o comentário, apenas ficou muito interessado nas duas  moças.
"Ah", disse ele com um sorriso amarelo, "agora estou entendendo por que  a pressa de me tirar do apartamento."
Fiz questão de lhe explicar que também para mim as duas tinham aterrissado de surpresa. Em compensação não me opus a que ele se juntasse a nós ao  voltarmos para o apartamento. Eram quatro da tarde, e as duas, ainda de maiô,  foram preparar com Amnon uma refeição improvisada. "Sinto muito, mas amanhã vocês vão ter que sair do apartamento", voltei a avisá-las, sem fazer nova  referência  ao deserto, "porque certamente vou trazer a neném de volta. E ela  precisa de ordem e tranquilidade", acrescentei com o objetivo de dar um argumento razoável para a liberação do apartamento. Amnon sugeriu que fossem  para sua casa, e elas aceitaram alegremente a sugestão. Não pareciam mulheres promíscuas, mas talvez o seu parentesco lhes desse coragem e direito de  fazer juntas coisas secretas que duas amigas comuns não se permitiriam. Não eram bonitas, ainda que seus corpos fossem macios e agradáveis. Nenhuma das  duas era atraente, nem mesmo para um homem que, como eu, há mais de duas  semanas não se deitava com sua esposa; mas a súbita ideia de que Amnon  pudesse dormir com as duas juntas pareceu-me excitante, se bem que a fantasia de ir para a cama com duas mulheres ao mesmo tempo não estivesse entre  as minhas favoritas.
Telefonei aos meus pais para saber como iam eles e Shivi. Por enquanto  estavam se ajeitando, embora meu pai tivesse precisado voltar mais cedo do trabalho para ajudar minha mãe, que me pareceu, apesar de sua voz tranquila,  muito tensa e preocupada. Eu já notara que, desde a forte gripe que estragara  sua viagem de inverno à Escócia, sua saúde estava mais frágil; prometi a mim  mesmo que, quando Micaela voltasse e Lazar se restabelecesse, passaria por um  ou dois dias em Jerusalém para examinar mais a fundo seu estado de saúde. Em  todo caso, meus pais não esconderam sua enorme satisfação com a neta, que já  demonstrava algumas habilidades encantadoras. Despedi-me de Amnon e das  duas hóspedes, que ainda não haviam terminado de preparar a refeição, e fui  para o hospital. Eram seis da tarde. Em primeiro lugar, apresentei-me na unidade de terapia intensiva para comunicar a minha chegada. Peguei meu bip e  registrei meu código; então subi para o departamento de medicina interna no  nono andar e fui procurar o quarto de Lazar. Não foi difícil encontrá-lo. No final  do corredor estavam alguns médicos e funcionários da administração que não  viam a hora de visitar o diretor convalescente, e o riso contínuo e feliz de Dori  podia ser ouvido de longe. Parei: não queria misturar-me com toda aquela gente. Fui embora e só voltei duas horas depois. Agora reinava calma. Dori estava sentada num banco no corredor. O filho de um lado, a avó do outro.
Cumprimentei a todos e perguntei pela saúde do paciente. Dori ficou  totalmente ruborizada e permaneceu sem fala por alguns momentos, como se  também estivesse muito apaixonada por mim. A avó, muito contente em me  ver, contou que o genro estava no caminho certo, e o professor Hishin, que trocara a bandagem pela manhã, estava muito satisfeito com o andar da recuperação. Nesse ínterim Dori se recompôs e sorriu animada, apresentando-me ao  filho. Ele fez um meneio displicente, cansado de ser apresentado aos inúmeros visitantes em peregrinação ao quarto de seu pai. Eu o recordei de que tínhamos  nos encontrado rapidamente quase dois anos antes, na primeira noite em que  eu fora à sua casa para conversar sobre a viagem à Índia. Ele me dirigiu um olhar  com ar inquiridor. "Sim, esse é o famoso doutor Rubin", repetiu sua mãe, que  preferiu se referir a mim com um tratamento mais formal a usar meu primeiro  nome. Todos estavam do lado de fora porque o professor Levin examinava Lazar  naquele momento, trocando mais uma vez a bandagem. E mesmo sabendo que  a minha entrada durante o curativo certamente não agradaria a Levin, não  pude evitar o desejo de espiar o corte no peito. Bati levemente à porta e, sem  esperar resposta, entrei. Como eu imaginara, Levin—que aparentemente estava ocupado passando iodo na longa fila de pontos marrons sobre o peito de  Lazar—fechou a cara ao me ver entrando no quarto, um quarto surpreendentemente grande, com uma bela vista e repleto de vasos de plantas e cestas de flores com que haviam presenteado Lazar, cuja calorosa recepção impediu Levin  de protestar contra a minha entrada.
"Onde é que você se meteu?", exclamou Lazar, repetindo sua exclamação  típica, que eu conhecera na Índia, quando não tinha "me metido" em lugar  nenhum, pois eles é que haviam "se metido" em outro lugar, atrasando-se para  o encontro na estação ferroviária de Nova Delhi.
"Estou aqui", respondi sorrindo, "estou aqui o tempo todo."  Ele certamente sabia que eu estava lá; sabia até mesmo que era o meu primeiro dia de trabalho como médico pertencente ao quadro fixo do hospital.  Perguntei como estava se sentindo, e ele foi logo contando que se sentia maravilhosamente, como se quisesse me agradar da mesma forma que aos outros  médicos, sabendo que eu também participara da operação e insistindo em pensar, por algum motivo, que a minha participação fora realmente significativa.  Levin, que terminara de untar os pontos, começou então, com suas mãos pouco  experientes de chefe de departamento de medicina interna, cuja prática abrange basicamente exames clínicos e análise de resultados laboratoriais, a refazer  a bandagem de Lazar. Peguei discretamente as folhas de relatórios do paciente presas ao pé da cama e examinei alguns resultados, eletrocardiograma, temperatura, pressão sanguínea, exames de sangue e urina feitos nos últimos dias. Será  que o fato de ter conseguido um trabalho fixo de meio período foi o que me deu  coragem de ousar mostrar a Levin as alterações bruscas no eletrocardiograma de um exame para outro? "Não há aqui o risco de uma taquicardia ventricular?", perguntei. Levin tentou se esquivar da minha pergunta, mas eu insisti, e  ele decidiu dizer alguma coisa, talvez para não causar preocupação a Lazar.
"Por favor, doutor Rubin", respondeu de forma impaciente e grosseira,  "nós também vimos isso, nós também entendemos alguma coisa. Por favor, é  impossível que todo mundo se intrometa com o mesmo paciente, mesmo que  ele seja o diretor do hospital. Há também outros doentes que precisam de nós."
Mas não consegui esquecer a minha preocupação. Quatro horas depois,  tarde da noite, estava muito claro para mim que não sossegaria enquanto não  subisse outra vez até o nono andar, que já estava às escuras, com exceção do  posto de plantão das enfermeiras. Meu avental de médico permitiu-me passagem livre, e parei junto à porta fechada do quarto para escutar alguma voz,  porém ouvia-se apenas o ruído da televisão ligada. Bati levemente, tomando o  cuidado de não entrar antes de receber alguma resposta clara. O fato de não  obter resposta não me desviou dos meus objetivos, apenas fez crescer a minha  ansiedade. Abri a porta. O luar jorrava generosamente para dentro pela janela  aberta, mas o quarto estava às escuras. Dori dormia encolhida numa grande poltrona, sem sapatos e com as pernas dobradas, uma mão agarrando os óculos e a  outra segurando a mão estendida de Lazar, cujos olhos estavam fixos no televisor preso ao teto ao lado do monitor médico, agora desligado. Desde a viagem à  Índia, quando eu travara contato pela primeira vez com a natureza peculiar do  relacionamento do casal, jamais sentira com tanta intensidade o profundo vínculo amoroso entre os dois. Depois de um dia inteiro ocupada cuidando dele,  ela era incapaz de deixá-lo um pouco consigo próprio, voltar para casa e ficar  também um pouco sozinha. De repente me senti tremendo de dor pela minha  traição. E me dispus a fazer um voto, jurando que após a recuperação de Lazar  eu não tentaria mais tocar nela, mesmo que ela me procurasse. Se era realmente uma paixão impossível, era preciso que tudo nela fosse impossível e irrealizável. Lazar considerou minha entrada em seu quarto no meio da noite como algo  absolutamente natural e me saudou com um gesto amigável. Aproximei-me  dele e, como seus olhos me pareceram um pouco brilhantes e as bochechas  ligeiramente coradas, fiz um movimento instintivo de colocar a mão na sua  testa, e ele aproximou a cabeça como um doente bem-comportado; era como  se, a partir do momento em que os papéis no hospital haviam se invertido, ele tivesse se tornado paciente de cada um dos médicos e enfermeiras, que passaram a ter o direito de manipulá-lo à vontade. Ele estava com febre—não alta,  trinta e sete e meio, trinta e oito—,normal após uma operação dessa natureza,  em que todo o sistema biológico é brutalmente afetado, mas que podia ser interpretada também como sinal de advertência. Contou-me que a enfermeira descobrira a febre pouco antes, mas decidira esperar até a manhã seguinte para  alertar o professor Levin. "Vou lhe trazer um comprimido para baixar a febre",  eu disse ingenuamente. Por Lazar ter sido "roubado" do departamento de cirurgia cardíaca, passando a ficar sob a responsabilidade pessoal e conjunta de dois  chefes de departamentos distintos e até um pouco contraditórios, a cirurgia e a  medicina interna, e tendo evaporado o cirurgião pessoalmente responsável pela  operação, ele acabava ficando abandonado no seu quarto privativo, por sinal  muito agradável e ainda rescendendo ao perfume das numerosas flores, embora os vasos já tivessem sido colocados no corredor. Nossos sussurros acordaram  Dori, que abriu seus lindos olhos acendendo-os com seu sorriso feliz e radiante, como se tudo estivesse às mil maravilhas.
"E então, Benjy, o que você está achando dele?", perguntou. Era difícil  saber se a pergunta estava sendo feito ao médico ou ao amigo.
"Ele parece estar bem", respondi com um sorriso, "só o que não pode acontecer é que no meio de todos esses grandes professores ele acabe ficando perdido", acrescentei e imediatamente me arrependi, pois a ansiedade era tão grande que qualquer manifestação externa de preocupação e cuidado, por menor  que fosse, podia colocar em xeque sua segurança.
"Em que sentido?", perguntou.  "Em nenhum sentido especial", procurei acalmá-la, "mas eu entro aqui só  por entrar, descubro que ele está com febre e fico sabendo que não lhe dão um  comprimido porque não querem acordar o professor Levin, como se fosse proibido qualquer outro médico chegar perto dele."
"Mas por quê? Você não pode dar esse comprimido?", perguntou com  uma ingenuidade que tocou meu coração, ainda excitado com a visão de seus  olhos sem os óculos, que só vira assim quando nos deitáramos juntos.
"É claro", respondi com segurança, "por que não? Mesmo que a febre não  seja alta, por que deixar que ele sofra?"
Mas meu pensamento não estava absolutamente ocupado com a febre de  Lazar; voltava-se com insistência para o perigo de uma taquicardia ventricular,  que poderia provocar uma fibrilação súbita. Havia algumas folhas de relatórios  suspensas sobre o leito; examinando-as na penumbra do quarto, descobri que  continham resultados dos numerosos exames eletrocardiográficos feitos depois  da operação. Peguei os relatórios para analisá-los à luz da lua cheia daquela  noite de outono e deparei com alguns detalhes que despertaram uma forte vontade de levar as folhas comigo e aprofundar-me nos exames no dia seguinte na  biblioteca, ou até viajar no meio do plantão até Jerusalém, procurar o professor  Adler, o Buma, e ouvir o que o Grande Mestre tinha a dizer. Pela primeira vez  desde que começara a trabalhar no hospital senti que a minha pouca idade e a  falta de experiência eram o que me impedia de enfrentar Hishin no meio da  noite e exigir dele respostas para a verdadeira e grande questão que se apresentava, de modo que todo o resto não se agravasse transformando-se numa enorme desgraça para todos nós. Mas muito tempo havia se passado desde que eu  deixara meu posto na sala de emergências, e talvez estivessem me procurando;  assim, dirigi-me ao posto das enfermeiras no final do corredor e peguei com  elas, não sem antes assinar uma requisição médica, dois comprimidos contra  febre para Lazar e uma cápsula de 5 mg de Valium para sua mulher. Depois que  os dois tomaram os medicamentos, despedi-me deles e assegurei a Lazar que  voltaria na tarde seguinte, pois sabia que, apesar da grande segurança que lhe  inspiravam seus bons e competentes amigos do hospital, desenvolvera-se também, talvez desde a minha teimosa determinação em Varanassi, uma espécie  de dependência dissimulada em relação ao jovem médico que os acompanhara na viagem à índia.
Quando acordei, a altas horas da manhã, não fui a Jerusalém, como prometera aos meus pais, aliviar-lhes um pouco o fardo de cuidar de Shivi; conforme o  relatório confiável de minha mãe, ela era doce e fácil, dando profunda alegria  aos dois adultos, mas mesmo assim não era fácil para eles ficar constantemente  atentos às necessidades da criança. Telefonei-lhes para me desculpar. Não sabia  como justificar, nem para mim mesmo, a nova preocupação com a saúde de  Lazar, uma preocupação que não me largava e impedia que me afastasse do hospital. Como sempre achei desonesto mentir para eles, desisti de qualquer tentativa de lhes explicar o cancelamento da minha viagem. Os dois, apesar de serem práticos e objetivos, contentaram-se com meus pretextos baseados numa  sensação misteriosa, fundamentando-se apenas na habitual confiança em  mim. Ao meio-dia, seis horas antes do meu plantão, retornei ao hospital e fui  direto à biblioteca para descobrir alguma coisa nos compêndios de cardiopatologia. Comecei folheando os livros e artigos que conhecia; recordava-me de  alguns deles do último ano do curso, quando fizera um trabalho sobre o coração e proferira na classe uma palestra sobre a estrutura invisível do sistema elétrico dentro do coração. Foi uma palestra técnica demais, e eu esquecera a  maioria dos detalhes, mas me lembrava muito bem do esquema colorido que  desenhara na lousa baseado num modelo reproduzido em muitos livros e artigos que folheava agora. A releitura minuciosa, que me ajudou a recordar inúmeros detalhes da palestra (aliás, recompensada com nota máxima), serviu apenas  para aumentar a minha preocupação, sem me trazer qualquer esclarecimento. Fui até o setor de emergências cardiológicas e dei uma olhada nos gráficos dos  eletrocardiogramas realizados nas últimas horas em outros pacientes. Num  momento em que reinava calma no setor, deitei-me num dos leitos e pedi a um  dos técnicos que tirasse um eletrocardiograma com uma conexão de eletrodos  ligeiramente diferente, com uma corrente um pouco mais elevada. De posse  desses gráficos, voltei à biblioteca para comparar os resultados com um dos  exemplos considerados patológicos. Não consegui obter um quadro preciso e  acabei desistindo. Subi até o nono andar para ver como Lazar estava. No refeitório já ouvira de dois psiquiatras que haviam estado com ele pela manhã, numa  espécie de reunião informal, que ele parecia e se comportava "como um tigre  feroz" e provavelmente receberia alta em um dia ou dois; dentro de uma semana poderia voltar a ocupar sua cadeira de diretor e retomar as rédeas.
Os dois psiquiatras falaram dele com raiva e amargura, pois Lazar transformara sua visita bem-intencionada num pequeno encontro de disputa de poder,  insistindo na sua iniciativa de acabar com o departamento de psiquiatria do hospital e transformá-lo apenas num ambulatório externo—um serviço comunitário de saúde mental. "Que façam o favor de tirar as doenças da alma para fora  do hospital. Não é bom para o departamento psiquiátrico nem para nós que elas  fiquem por aí transmigrando entre os leitos." Foi o que ele disse sorrindo quando lhe contei a reação irada dos dois psiquiatras às suas ideias. O quarto privativo e isolado, que eu vira na noite anterior iluminado pela luz da lua, ainda rescendendo a flores, já se transformara durante o dia numa espécie de escritório,  com dois telefones no chão e uma pilha de pastas ao lado da bandeja de comida. Levin tentava impedir as numerosas visitas, mas Hishin, postado junto ao  leito com sua altura imponente, estava satisfeito com a energia renovada de seu  paciente. A febre cedera, a bandagem fora removida e sob a camisa do hospital  se via a linha reta e precisa dos pontos no peito. Dori estava sentada num canto,  escutando radiante a conversa da secretária de Lazar. Estava muito maquiada,  usando um conjunto elegante e saltos altos. Parecia ter ficado algumas horas no  seu escritório e conseguira fazer compras, a julgar pelos sacos plásticos empilhados a seus pés.
"Você pretende passar de novo a noite aqui?", perguntei-lhe, interrompendo grosseiramente sua conversa com a secretária. Surpresa, ela fez que sim com  a cabeça, como se eu não soubesse que o desconforto de dormir encolhida na  poltrona era preferível a separar-se do marido e à solidão do seu quarto. Um pensamento tranquilizador passou por mim como uma pluma: apesar de tudo,  ainda não houvera entre nós um único momento feio. Invadiu-me uma forte  onda de amor por aquela mulher mais velha, aquela mulher que calmamente  pegou um cigarro e o acendeu no quarto apinhado de gente, para horror do professor Levin, que acabava de entrar e fez um gesto suplicante com as duas mãos  para impedi-la de contaminar a todos nós.
Será que nas profundezas do meu coração eu desejava a morte de Lazar?  Esse pensamento secreto, que carregava também certa doçura, insistia em voltar à minha mente desde o voo de Roma para Israel; agora me obrigou a sair para  o pequeno terraço e debruçar-me sobre a mureta, como se quisesse vomitar a  horrorosa ideia para tirá-la de mim de uma vez por todas. Levin puxou Hishin  para o terraço para lhe mostrar algumas folhas coloridas de resultados médicos  que haviam chegado. Hishin ajeitou os óculos e correu rapidamente os olhos  pelas folhas. Parecia tranquilo: "Isso é normal e previsível", ouvi-o exclamar  com sua voz forte e segura, "a atividade eletrolítica foi tão intensa, por causa do  equipamento cardiopulmonar, que os índices ainda não voltaram ao normal, e  os gráficos são absolutamente coerentes". Mas Levin insistiu. Falava baixo, de  modo que não pude ouvir seus argumentos; Hishin os escutou com extremo interesse, mas não pareceu convencido. "Tudo bem", disse, "vamos liberá-lo só  no fim da semana e fazer de novo todos os exames em dez dias. Se então a atividade cardíaca ainda estiver insatisfatória, nós o levaremos a Jerusalém para ver  o que Buma diz." Levin concordou silenciosamente com a sugestão de Hishin,  mas não ficou satisfeito, pois de repente seus olhos azuis pousaram em mim—parado como estátua no canto do terraço, eu tomava cuidado para não dar a  impressão de querer me meter na conversa—e ele me convidou, com um leve  aceno, para juntar-me a eles. Dei alguns passos, muito surpreso com o toque  amistoso de Levin no meu braço. Com sua voz grave e séria, ainda procurou  convencer Hishin.
"Yossef, escute por exemplo qual é a opinião do doutor Rubin, que você  considera um médico internista tão bom que, entre todas as suas opções, foi o  seu escolhido para enviar à Índia. Diga o que você acha sobre a possibilidade de  uma taquicardia ventricular." Fiquei tão sensibilizado com o toque delicado de  Levin no meu braço e com o modo amigável com que se dirigiu a mim, que no  começo me atrapalhei, gaguejando as frases; mas aos poucos fui me recompondo e organizando minhas ideias, inclusive acrescentando novos elementos, que  descobrira nas últimas horas na biblioteca. Hishin escutou com um sorriso  paternal, aparentemente não prestando  muita atenção no meu raciocínio, apenas apreciando o entusiasmo com que eu procurava explicar meu ponto de vista  em relação a um possível desdobramento patológico no quadro cardiológico de  Lazar. "E você abriu mão de um médico como ele para o seu departamento?",  disse ele a Levin em tom de censura quando terminei minha exposição.
"Não fui eu, foi ele", respondeu Levin com sincero pesar. Dessa forma estranha se encerrou a discussão médica, que, aliás, nem tinha começado.
Os dois filhos de Lazar, Einat e o irmão, agora com farda de soldado, entraram no quarto e foram alegremente recebidos por todos os presentes. Einat, que  abraçou e beijou o pai com certa hesitação, acabara de chegar dos Estados  Unidos, e o irmão a apanhara no aeroporto. Ao virar-se para a mãe, que fora  abraçá-la e beijá-la, viu-me e acenou para mim. Respondi com o dedo em riste,  admoestando: "Como é que você dorme na nossa casa e vai embora sem se despedir?". Ela corou, riu e desculpou-se, depois explicou para o pai e a mãe como  estivera apressada na sua breve estada em Londres. Senti um grande calor à  minha volta. Estava feliz naquele quarto apertado cheio de familiares e amigos, como se eu fizesse parte daquilo tudo. A inesperada reconciliação com o professor Levin contribuiu para minha felicidade. Mas não havia muito tempo  para desfrutar de sentimentos agradáveis, pois todo mundo, exceto Einat, precisava seguir seu próprio caminho, especialmente o filho, um tanto alheio e triste, que continuava se mantendo distante de mim. Ele tinha que voltar à sua  base, e a mãe deveria levá-lo até a estação rodoviária antes de voltar para casa e  preparar o retorno, que lhe permitiria passar as noites com o marido como antes.  Ela agora estava junto ao seu leito para despedir-se dele e acertar os últimos preparativos, ao mesmo tempo que arrumava os cabelos desalinhados e perguntava o que levar e o que trazer de casa. Percebi que a mão de Lazar, ainda azulada pelas agulhas das infusões, buscava a mão dela que ajeitava os cabelos, para  impedir que ela o afagasse diante de pessoas estranhas e também para trazê-la  para perto do seu peito, quem sabe para indicar a dor nova que ainda evitava  contar aos amigos médicos para não incomodá-los. Despedimo-nos todos do diretor do hospital e o deixamos a sós com Einat,  que, apesar de parecer mais exausta que nós devido à longa viagem de avião,  insistia em acreditar que segundo seu relógio biológico interno ainda estava nas  primeiras horas da manhã. Saímos para o corredor; pelas enormes janelas do  nono andar penetrava a luz rosada da tarde de outono, quando todo o hospital  se transforma num imenso departamento público tomado por inúmeros visitantes, que se espremem nos elevadores e ante salas que conduzem aos quartos  das diversas áreas e, pela força das flores, frutas, jornais, revistas e caixas de chocolate, não só afugentam a equipe médica com seus aparelhos e medicamentos, mas também parecem infundir nova esperança aos doentes graves enfiados  debaixo das finas cobertas. Apesar de Dori estar acompanhada do filho e da  secretária, caminhando com um de cada lado, eu acreditava que conseguiria  trocar uma ou duas palavras a sós com ela, antes que desaparecesse, porém Hishin me impediu. No quarto de Lazar, eu sentira que ele hesitava em se afastar de mim, como se aquilo que eu absorvera dos livros pela manhã e gaguejara aos  seus ouvidos e aos ouvidos de Levin o tivesse levado a crer que eu conseguira puxar um novo fio para o complicado coração de Lazar, um fio que  aparentemente também o deixara preocupado. Talvez até estivesse arrependido por ter desistido de mim com tanta facilidade. Em todo caso, fez um sinal  para que o esperasse, pegou o telefone do posto de enfermagem, teve uma rápida conversa com a enfermeira-chefe do seu departamento, que, apesar de seus  pedidos, não permitiu que ele cancelasse uma operação que fora marcada para  o período da manhã e adiada. Depois me perguntou amigavelmente se eu ainda  pretendia voltar para casa antes do plantão. Olhei o relógio. Eram quatro e  meia, e o plantão noturno começaria em duas horas. Se eu não tivesse trocado  a moto por um carro, não hesitaria em dar um pulo em casa, tomar um banho,  descansar um pouco antes da longa noite que me esperava e principalmente  conversar de novo com meus pais. Mas meter-me no congestionamento de  final de tarde em Tel Aviv e procurar um lugar para estacionar pareceu-me totalmente idiota. "Neste caso", determinou ele, como se ainda fosse o meu chefe,  "venha participar de uma operação não muito longa, pois estou vendo que não  vou mais conseguir adiá-la. Lazar me contou que no hospital em Londres deixaram você operar à vontade. Parece que os ingleses gostam de ser cortados lentamente e com delicadeza." Piscou para mim e caiu na risada. Eu também ri,  não só por causa do afeto que ele estava demonstrando por mim desde o meu  retorno de Londres, mas também por causa da sensação de vitória e valorização  após a súbita reconciliação com o professor Levin. "Quem sabe"—um pensamento cruel passou pela minha cabeça—"Amnon tem razão, e algum dia também vou dirigir algum departamento neste hospital, ou talvez o hospital inteiro." E assim, imerso na megalomania que às vezes me dominava, concordei  generosamente com Hishin em dar início ao meu plantão noturno naquele  momento, no meio da tarde, e desci com ele para o departamento cirúrgico.  Peguei na rouparia o último conjunto de blusa e calças verdes que restava, e  enquanto o anestesista de plantão fazia os preparativos para a "decolagem" de  uma jovem cujos olhos nos fitaram tristes e acusadores, convenci a telefonista  a me dar uma linha externa para ligar aos meus pais, que por coincidência estavam à minha procura para contar, emocionados, a conversa que tiveram  com  Micaela, que havia telefonado de Glasgow, onde passara a noite anterior com  sua querida amiga Stephanie, tendo pernoitado na casa da minha tia a caminho  da ilha de Skye. Fiquei perplexo e irritado em saber que, enquanto estávamos todos aqui mergulhados em problemas e preocupações, Micaela achava tempo  de viajar até os confins da infância da minha mãe. Perguntei como estava Shivi.  Disseram-me que pela manhã ela tinha vomitado duas vezes, por isso chamaram o velho dr. Cohen, o pediatra que havia cuidado de mim; ele a examinara e prescrevera um remédio, mas meus pais queriam minha permissão para dá-lo  ti menina, pois ela parecia melhor. De qualquer modo, ficariam mais tranquilos se eu fosse buscá-la.
Prometi que pela manhã, assim que o plantão terminasse, iria direto do  hospital para Jerusalém. Ao entrar no vestiário para me trocar, vi o dr. Vardi,  meu amigo/rival, baixo e atarracado, parado com roupas cirúrgicas cheias de  sangue, com a máscara ainda pendurada no pescoço ressaltando a intensa seriedade de seus olhos, que saudaram amigavelmente o professor Hishin e eu.  Hishin perguntou como havia transcorrido a operação recém-terminada, e o dr.  Vardi descreveu meticulosamente, como de hábito, o andamento da operação,  até Hishin dar a impressão de ter se arrependido da pergunta. Mostrava-se disperso e preocupado, como se sua mente estivesse ocupada com alguma outra  coisa. "Quer que eu o ajude?", perguntou o dr. Vardi, parecendo tenso com a  minha presença inesperada ao lado do seu mestre. "Não, não há necessidade. Você já fez muita coisa hoje, pode ir para casa", disse Hishin colocando a mão  no meu ombro. "Benjy vai estar ao meu lado, tanto como ex-cirurgião como  também no papel atual de anestesista, e como o amigo de sempre. Para mim é  mais do  que suficiente." Entramos na sala de operação, lavamos as mãos com  extremo cuidado, vestimos as luvas, colocamos a máscara, e de repente ele me  perguntou se eu me arranjaria sozinho como anestesista numa cirurgia.  Respondi que sim com segurança, embora formalmente ainda estivesse proibido de assumir aquela responsabilidade. Ele liberou o anestesista após obter  algumas informações e virou-se para a barriga branca da mulher, que, como  sempre, despertou em mim uma ligeira compaixão. Num movimento rápido e  preciso, fez um corte fino e nítido, uma linha reta do umbigo até o púbis, que  por um momento pareceu arder em fogo sob a luz que penetrava através das  janelas redondas das portas da sala. Embora a cirurgia de implantação de pontes que eu presenciara uma semana antes à primeira vista parecesse muito mais  avançada do ponto de vista médico tecnológico, e até mesmo estético, do que a cirurgia abdominal realizada naquele momento pelo professor Hishin, que de  repente adquirira o aspecto de um açougueiro, era impossível não admirar  tanto a habilidade e a precisão dele quanto a proximidade e o calor humano dos  seus longos dedos abrindo caminho por entre os tecidos à sua frente, não só para observar seu interior, mas também para sentir o que era realmente necessário  fazer.
Éramos três na sala, nós dois e uma enfermeira nova, de rosto angelical,  que não conhecíamos. Depois de meia hora, chegada a fase crítica da operação,  o telefone interno fixo na parede tocou. Atendi e reconheci a voz de Levin, que  pediu para falar urgente com Hishin. Em virtude da nossa reconciliação, pensei primeiro em me identificar, mas mudei de ideia, pois sua voz estava muito  abalada; eu disse apenas que me parecia que Hishin não poderia afastar-se da  mesa de operações naquele momento e que retornaria a ligação um pouco mais  tarde. No entanto Levin insistiu, e Hishin, que tinha ouvido por alto a conversa e de fato não podia afastar-se do lugar, pediu-me que esclarecesse do que se  tratava. Ainda sem me identificar, eu disse a Levin que Hishin realmente não  podia atender e perguntava qual era o assunto. Ele hesitou um pouco e quis  saber com quem estava falando. Identifiquei-me e senti sua agitação aumentar;  com voz grave, disse: "Você estava certo, doutor Rubin, Lazar está com taquicardia ventricular. No momento está respirando por aparelhos, e já convoquei  um cardiologista do departamento, mas é muito importante que Hishin suba imediatamente para vê-lo, pois me parece que há também uma hemorragia, e  talvez seja necessário descê-lo para a sala de cirurgia", e desligou. Contei tudo  a Hishin na hora. Ele ficou estático, ergueu as duas mãos ensanguentadas como  se quisesse segurar entre elas sua cabeça aturdida. Com sua sensibilidade aguçada, sabia que naquele momento Lazar estava lá em cima lutando pela própria vida, enquanto  ele estava aqui embaixo como único cirurgião, preso aos  seus deveres, sem poder se ausentar. Não podia sequer me enviar para saber  detalhes do que estava acontecendo. Notei que suas mãos tremiam, como se  tivesse perdido a sua maravilhosa concentração interna. Tentou continuar trabalhando, mas parou, pedindo-me que saísse e verificasse se Vardi ainda estava  por perto e se podia substituí-lo. Ao ver que eu hesitava em deixar o respirador,  acrescentou nervoso:
"Não se preocupe, eu tomo conta do aparelho no seu lugar."
Abandonar a sala de cirurgia naquele momento constituía um erro médico gravíssimo, mas eu sabia que, se encontrasse o dr. Vardi, Hishin poderia subir com sua coragem e competência, talvez conseguisse salvar a vida de Lazar.
Mas o departamento estava vazio, exceto por algumas enfermeiras na terapia  Intensiva. A luz avermelhada do crepúsculo à minha volta aumentou o meu temor, e naquele silêncio absoluto pude ouvir meu coração bater. Os olhos de  Hishin estavam mergulhados nas entranhas do abdome da mulher, e o respirador ficara sozinho, sem controle. Mesmo assim pressionei o botão da porta principal e saí para o corredor buscando descobrir se por acaso havia nas redondezas algum outro cirurgião em quem pudéssemos confiar. Ao longe notei o terno  marrom de Nakash, que estava indo para casa. Corri para avisá-lo, e ele me  acompanhou, tomando o cuidado de não entrar na sala de cirurgia com roupas  comuns. No instante em que entrei na sala, o telefone -tocou de novo. Era Levin.  "Mas o que é que ele quer?", exclamou Hishin com expressão sombria. "Como  posso deixar agora a sala de cirurgia?" Sugeri a Hishin que o dr. Nakash fosse  convencer Levin a trazer Lazar até nós, aqui embaixo; nesse meio tempo telefonaríamos para o setor de emergências e pediríamos que fizessem os preparativos para uma cirurgia cardíaca urgente. Hishin pensou um pouco e concordou. Na emergência já sabiam da piora de Lazar, e dois médicos haviam subido.  O rumor se espalhara pela equipe médica como um incêndio fora de controle,  e, pior ainda, em pleno horário de visitas. Pois o professor Levin, no nono andar,  gritava desesperado por socorro em todas as direções. Senti meu coração apertado quando vi as mãos de Hishin tremerem outra vez. Ele parou, fechou os  olhos para se concentrar, depois voltou a trabalhar no ritmo certo, cuidando  para não estragar a cirurgia por causa de uma pressa inadmissível.
A enfermeira nova, calma e com rosto de anjo, que até o momento não emitira uma única palavra, perguntou delicadamente: "Quem é Lazar?". Hishin  ficou calado. Mas eu comecei a lhe contar sobre Lazar mais do que ela certamente queria saber, como se os meus comentários pudessem ajudar sua alma  que oscilava entre a vida e a morte. O telefone interno tocou novamente. Era  Nakash avisando que persuadira Levin a descer Lazar, que já estava inconsciente. Hishin sacudiu a cabeça num silêncio pesado. Havia chegado a hora do seu  teste mais terrível, sob os olhares de toda a equipe do hospital. Estaria ele realmente apto a abrir sozinho o peito de Lazar tentando reparar, com pura intuição  cirúrgica, o que ficara defeituoso? Enquanto isso, continuava cauterizando vasos  sanguíneos para evitar sangramentos. De vez em quando estendia a testa para a enfermeira enxugar o suor. Finalmente se ouviram as vozes fortes e excitadas dos  que estavam entrando na ala cirúrgica, mas Hishin não se moveu do lugar, fazendo um discreto sinal para que eu também não me movesse. Nakash entrou na  sala envolto nas roupas verdes da cirurgia, com a touca plástica na cabeça e a  máscara no rosto. Com seu jeito calmo e eficiente, ofereceu-se vara ajudar. Não foi capaz de contar muita coisa sobre Lazar, exceto que seu coração oscilava.
Hishin não perdeu seu ritmo de trabalho, mesmo ouvindo os passos apressados  dos jovens plantonistas no corredor, rumando para a terapia intensiva. De repente entrou Levin em trajes comuns, com uma expressão estranha, um tanto misteriosa, como se a sua licença psicótica já tivesse sido autorizada por Lazar.
Hishin o barrou imediatamente: "Por favor, David", disse sério, "pelo amor de Deus, vamos respeitar as regras. Preciso acabar esta cirurgia. Esta jovem aqui também tem o direito de viver sem preocupações desnecessárias". Voltou a concentrar-se nas entranhas da moça, prosseguindo no seu trabalho meticuloso até  o fim, com o corte pronto para a sutura. Aí não me contive:
"Se você quiser, eu posso fazer a sutura em seu lugar."  Ele lançou um olhar duro para mim, rosto pálido de preocupação. Refletiu por um momento e disse: "Certo, por que não? O doutor Nakash pode  finalizar a anestesia".
Um leve sorriso passou por seus lábios, como se estivesse se lembrando da  entrada de Lazar à procura de um homem ideal para a viagem à Índia. Depositou as tesouras na bandeja, estendeu os braços para a enfermeira tirar suas  luvas e saiu rapidamente.
Comecei a costurar o grande corte, esperando ouvir as vozes da batalha  que se travava na sala ao lado. Mas não se ouvia nada. Sugeri a Nakash que saísse para ver o que  estava acontecendo, mas ele ergueu a mão num gesto negativo. "Esperemos, Benjy, não vamos atrapalhar o serviço deles"—também ele  parecia ter medo de espiar o que se passava lá. Continuei meu trabalho: fiz uma  sutura limpa, observando cuidadosamente as linhas naturais daquela barriga  jovem, de modo que a cicatriz ficasse o mais imperceptível possível.
Levei um bom tempo, até finalmente dar a Nakash o sinal de que podia  "aterrissar" nossa paciente e certificar-se pelas pupilas, antes de trocar de roupa  e ir para casa, de que ela retornara ao mundo dos vivos. No corredor, sentindo  todo o peso do cansaço e da ansiedade acumulados em mim, precisei sentar-me um pouco. Aproveitei para preencher o relatório da anestesia e pedi à enfermeira angelical que descobrisse o que ocorria na sala de operações no final do corredor. Mas ela respondeu: "Lá não há ninguém!". Levantei de um salto e fui até  lá. A sala estava vazia e arrumada, como se nada tivesse acontecido. Será que  Hishin não se atrevera a operar? Ou não teria chegado a tempo de inserir seu  bisturi no peito de Lazar para abrir caminho rumo ao coração oscilante antes  que ele sucumbisse? Meus olhos não conseguiram evitar a visão da estreita  maca na pequena sala de aparelhos, entre o equipamento cardiopulmonar e o  grande desfibrilador antigo. Seu corpo estava coberto por um lençol branco,  mas sobre a face havia uma toalhinha esterilizada verde que, por algum motivo, trouxe-me de volta num lampejo a imagem dos dois no mercado de tecidos  em Nova Delhi, diante de uma barraquinha de lenços de seda, ela provando um  lenço após o outro, enquanto ele a observava com tédio e cansaço, procurando  seguir caminho; então ela sugerira um lenço de seda verde e, antes que ele tivesse tempo de recusar, colocara-o na cabeça, com espantosa agilidade amarrara  suas pontas, como um lenço de avó, e dera um passo atrás para contemplar sua  expressão embaraçada e divertida antes de cair na sua vibrante gargalhada, acompanhada pelos comerciantes e transeuntes. Agora ele estava morto, provocando uma dor profunda no meu coração. E seus bons amigos, Levin e  Hishin, não podiam fugir da obrigação de ir, atordoados e cheios de culpa, ao  encontro da mulher que não podia ficar sozinha e dar-lhe a terrível notícia.  Nakash estava ao meu lado, de terno e gravata. Ele também tinha visto o morto  deitado entre os aparelhos médicos, hesitando por um momento em aproximar-se dele. Não contendo sua natural curiosidade, aproximou-se e ergueu o  paninho verde, buscando olhar bem o rosto de Lazar, talvez despedir-se dele.  Afinal Nakash tinha chegado até nós oriundo dos confins do Oriente: apesar da  sua grande competência em anestesia e do amplo conhecimento de medicina,  nas profundezas de sua alma era um fatalista; quando a morte passava ao seu  lado, aceitava-a em toda a sua plenitude, sem questionar, sem se queixar e,  sobretudo, sem culpar ninguém.
Portanto recusou-se a ouvir a minha opinião, despediu-se de Lazar e de  mim com um movimento tranquilo de cabeça e foi para casa, apagando a luz  atrás de si, com seu hábito de economia, deixando toda a ala imersa em pesadas  sombras. Resolvi não permanecer ali nem trocar de roupa; vestido de verde, fui para a sala de emergências, porque devia me apresentar para o meu plantão e  tinha certeza de que ali poderiam me dizer o que havia de fato ocorrido. Os dois  jovens cirurgiões, que tinham estado com Levin, com Hishin e outros que tentaram ressuscitar Lazar, ainda aturdidos e deprimidos, mostravam boa vontade  para explicar e detalhar os fatos com a avidez costumeira dos médicos jovens,  mas foi muito difícil extrair deles qualquer coisa realmente esclarecedora.  Sabiam apenas que, após a morte de Lazar, Levin e Hishin tinham ido cuidar  de Einat, que entrara em choque ao saber do ocorrido. Inicialmente pensaram  em me convidar também para a comitiva encarregada de dar a triste notícia à  esposa, mas eu estava ocupado finalizando uma operação, de modo que desistiram de mim e chamaram ao escritório a secretária de Lazar, que começara a  gritar e chorar. Contrariamente aos hábitos dos médicos jovens, não puseram a  culpa em ninguém. Até mesmo Levin, que estava com Lazar quando o coração  começara a fraquejar, saiu incólume aos olhos deles. Afinal, duas horas antes  ele fizera um eletrocardiograma absolutamente normal. Decidi ficar calado;  ninguém imaginava quão profunda era a minha relação com Lazar. Mergulhei  no trabalho, que naquela noite foi intenso. De madrugada fui chamado à ala  cirúrgica para aplicar uma anestesia parcial. Num breve momento de pausa,  voltei à salinha dos aparelhos, para verificar se haviam se preocupado em levar  o corpo para a morgue do hospital, onde eu nunca estivera. "Como se chega até  lá?", perguntei ao encarregado de informações sentado na entrada. Ele respondeu, mas teimou em afirmar que à noite tudo estava fechado e não havia ninguém. "Não é possível", eu disse irritado, "pessoas também morrem à noite", e  desci para lá, cruzando nas escadas com três médicos de avental, os quais reconheci, sabendo que vinham do lugar para onde eu ia. Eram o dr. Amit, vice-diretor do departamento de cirurgia do coração, o dr. Yarden, que participara como  anestesista da operação de Lazar, e o velho patologista do hospital, dr. Hefetz.  Para minha surpresa, não só me reconheceram, como também não se admiraram com a minha vinda, como se fosse natural descer para a morgue no meio  da noite.
"Você estava lá quando aconteceu?", perguntaram como se estivessem à  cata de um culpado.
"Não", respondi, "mas desde a operação dele não parei de pensar na possibilidade de uma taquicardia ventricular."
O dr. Amit fez que não com a cabeça. Não partilhava a minha opinião, suspeitava que houvera oclusão de uma das pontes. Os três pareciam muito deprimidos. "Esta morte certamente não vai contribuir para a reputação do nosso  hospital", afirmou o velho patologista, o dr. Hefetz, que atendeu a minha solicitação de ver o corpo. "Mas não resta muito para ver", advertiu-me enquanto  dava meia-volta; Lazar, como todos nós, obviamente havia doado seus órgãos,  e alguns órgãos internos já haviam sido removidos e transferidos para o laboratório de pesquisa hospitalar. Achei estranho o patologista atender ao meu pedido sem hesitar, como se entendesse que eu tinha algum direito especial. Teria  chegado também a ele a história da minha viagem à Índia? Abriu a porta que  conduzia a dois quartos interligados. Num dos cantos havia uma enorme geladeira com inúmeras fileiras de grandes gavetas de ferro. Ele puxou uma delas. Vi  Lazar encolhido, menor, costurado grosseiramente após a remoção dos órgãos.
"Tiraram o coração também?", perguntei ao dr. Hefetz.  "Imagine! Claro que não!", respondeu espantado.  Só então consegui sentir certa calma, que trouxe em suas asas também um  estado de total vigília. Sabia que não era correto acordar meus pais tão tarde,  mas sentia-me obrigado a compartilhar com eles os meus sentimentos. Telefonei e relatei-lhes o falecimento súbito de Lazar. Sendo pessoas de boa índole,  ficaram chocados, tristes e solidários. Insistiram em saber como e por que havia  acontecido, como se em Jerusalém pudessem compreender o que professores  conceituados como Hishin e Levin não haviam compreendido. Quis confortá-los, dizendo que não lamentassem, pois a alma de Lazar havia transmigrado  para mim, mas pensariam que eu perdera a razão. Assim, apenas lhes pedi o  número de telefone da minha tia em Glasgow, na esperança de ainda alcançar  Micaela. Peguei um bip na sala de emergências, registrei o código na central e  me esgueirei para o setor administrativo, supondo que, no meio de toda a comoção, certamente a secretária teria se esquecido de trancar as salas. De fato, a  porta do escritório de Lazar estava aberta. Não precisei acender a luz; o luar bastava para que eu enxergasse os números no seu telefone sem fio. Micaela estava passando uma noite agradável com Stephanie e os meus parentes, na  Escócia. Relatei-lhe o falecimento de Lazar e pedi que interrompesse o passeio,  antecipando a volta para casa. Silêncio do outro lado da linha. "Certo", eu disse  com determinação, "você tem direito a mais uma semana na Inglaterra; mas, mesmo assim, não vai ser correto me deixar sozinho com a neném diante da  nova situação em que eu me encontro."
"Mas que situação?", perguntou Micaela atônita.  Fiquei nervoso por ela não entender sozinha, mas consegui manter a  paciência.
"Estou lhe pedindo, Micaela", eu disse com calma, segurança e firmeza.  "Não é só Shivi que precisa de você. Eu também. Só para você eu posso contar  o que está me acontecendo, só você pode entender e acreditar que a alma de  Lazar transmigrou para mim."
Agora se fez um silêncio profundo do outro lado—não mais um silêncio  de recusa, um silêncio diferente, novo. Eu sabia que o que eu acabara de dizer  atiçaria sua imaginação e agitaria seu espírito a ponto de levá-la a cancelar o  resto da excursão à ilha de Skye e antecipar seu retorno para casa.

QUARTA PARTE
  
  
  
 
Amor
 
 

1.
   
 
Durante a semana de luto fiz duas visitas de condolências à casa dos Lazar.  A primeira vez sozinho, no dia seguinte ao funeral; a segunda, junto com  Micaela, que voltara de Londres quatro dias depois da nossa conversa telefônica noturna. Se quisesse, poderia ter feito mais uma visita, com meus pais, que  ponderavam qual seria a melhor atitude: comparecer ao enterro ou fazer uma  visita de pêsames. Convenci-os de que sua relação com a família não justificava mais do que uma carta de condolências, que os ajudei a redigir pelo telefone. Para que eu pudesse cumprir as obrigações, tanto claras como ocultas, que  a súbita morte de Lazar me impusera, pedi a meus pais que ficassem com Shiva  até o retorno de Micaela. As obrigações claras, mais óbvias que as ocultas, estavam relacionadas com o funeral em si, que foi realizado um dia depois para possibilitar à direção do hospital e aos amigos organizarem-se para uma cerimônia  digna, talvez no intuito de reabilitar um pouco a imagem da instituição, arranhada pelos rumores de uma cirurgia fracassada e um diagnóstico impreciso.  No início, eu próprio mantive a discrição em nome do sigilo médico, por sentir que seria uma fonte de informações internas mais confiável que o professor  Levin; este, tão perplexo e arrasado com a morte do amigo, que havia ocorrido no seu departamento e praticamente em suas próprias mãos, recolhera-se a um canto, transferindo parte de suas atribuições ao seu vice-diretor, como uma  espécie de auto punição. Dessa forma, conseguira desviar a maioria absoluta  das críticas para o professor Hishin, que "roubara" a operação do departamento de cirurgia cardíaca, trazendo um especialista estranho, de outro hospital. É  certo que no nosso departamento de cirurgia cardíaca também ocorriam de vez  em quando mortes de pacientes após implantação de pontes, mas eram consideradas falecimentos "internos", ao passo que a morte de Lazar fora "externa",  provocada por fatores alheios ao hospital, um ato de traição. No entanto eu  ainda estava convencido de que a causa da morte de Lazar não estava relacionada com a operação em si, resultara de um erro de diagnóstico; por isso, à  medida que as críticas foram se tornando mais intensas, achei melhor romper  meu silêncio e tomar a defesa do professor Hishin diante de seus acusadores  dentro do hospital, entre os quais alguns que eu mal conhecia – médicos,  enfermeiras e pessoal administrativo—e que já no dia seguinte à morte começaram, por alguma razão, a me pressionar e questionar nos corredores, querendo saber o que de fato havia acontecido. O dr. Nakash, que presenciara por  acaso uma dessas conversas de corredor, chamara-me de lado e advertira-me  incisivamente, num tom inusitado, para que eu calasse a boca. Também na  cerimônia fúnebre, que se iniciara na praça diante do hospital, eu sentira que  ele e a mulher se colocaram perto de mim de propósito e tentaram discretamente impedir, com ar crítico, que eu participasse do círculo mais íntimo de enlutados, familiares e amigos próximos, em torno de Dori, que, cautelosa e ligeiramente amedrontada, estava postada a certa distância do seu amado marido  dentro do caixão; se ela me perguntasse, eu lhe diria o que ele estaria sentindo  naquele momento.
Eu podia ter pouca simpatia real pelos participantes que se congregavam  na praça, em número muito maior do que imaginara a princípio; muitos estavam realmente tristes, pois pude ver aqui e ali lágrimas genuínas nos olhos de  homens e mulheres durante o discurso de despedida pronunciado pelo diretor  médico do hospital, um homem cinzento e respeitado, que leu de algumas  folhas de papel, com voz  calma e límpida, uma breve biografia de Lazar, que  nascera a apenas dois ou três quarteirões de distância do hospital que dirigia,  crescera e estudara no mesmo bairro. Na  juventude, iniciara o curso de medicina, que no segundo ano fora obrigado a interromper, pois, devido à grave enfermidade de seu pai, coubera-lhe cuidar de seu irmão e sua irmã mais  jovens, cuja semelhança com Lazar permitia reconhecê-los no círculo em pé  ao lado de Dori. De longe, pareceu-me que ambos tomavam cuidado para não  se aproximarem demais dela, como se receassem que a raiva daquela mulher  risonha e mimada por ter sido deixada só pelo marido pudesse ser mais forte e  violenta do que o pesar pela sua morte. Até mesmo a avó guardava certa distância, dando apoio aos netos, que a ladeavam, e apoiando-se neles. Somente  Hishin, talvez em virtude de sua autoridade médica, que aos olhos dos Lazar  sempre fora absoluta, ousou aproximar-se e tocar levemente o braço de sua  amiga enlutada, apoiada com firmeza nas duas longas pernas, sem abrir mão,  até mesmo numa hora difícil como aquela, de manter o calcanhar esquerdo levemente erguido, apoiando o pé apenas na ponta. Em honra à cerimônia,  Hishin trajava um terno preto, mas no lugar do solidéu trazia na cabeça uma  espécie de boné preto, velho, que lhe conferia um ar de pássaro triste. Tendo  ficado ao seu lado longas horas junto à mesa cirúrgica, aprendendo a perceber  cada sutil mudança em seu estado de espírito, senti pelos seus gestos, mesmo a  distância, o tamanho da tensão que o dominava; era como se estivesse com bisturi na mão, pronto a cortar a si mesmo. Eu ainda não sabia que ele pedira licença aos organizadores do funeral para dizer algumas palavras ao lado da cova  aberta, e que seus pequenos olhos, vasculhando os presentes, ensaiavam as primeiras frases. O olhar de Dori também vagava pelos participantes postados em  círculos à sua volta, mas não me parecia que em sua cabeça estivesse se desenhando alguma frase, nem sequer uma palavra. Sua consciência estava tão abalada com a desgraça que se abatera sobre ela, que certamente não percebia que  seus olhos, encontrando rostos conhecidos e amigos, insistiam em se acender  e, mesmo numa hora tão terrível, irradiar o seu velho e simpático sorriso, embora com uma energia tênue de partir o coração.
No dia seguinte, no apartamento dos Lazar, no meio das muitas pessoas  que lotavam a grande sala de visitas, vestindo seu conhecido agasalho preto de  veludo, rosto pálido e sem maquiagem, escutei-a perguntar sobre o conteúdo  das elegias proferidas, admitindo que sua dispersão a impedira de captar o que  fora dito. Mas as pessoas, apesar da boa vontade, não conseguiam repetir as palavras com exatidão; do outro lado da sala, não consegui me conter e me intrometi, repetindo quase literalmente não só a biografia de Lazar, conforme fora resumida pelo diretor médico do hospital, como também as comoventes frases do  prefeito, que, pelo teor de suas palavras, respeitava e apreciava muito Lazar, apesar das graves discórdias financeiras entre ambos. Não precisei repetir o magnífico discurso do professor Hishin junto à sepultura: nem ela nem ninguém que  o ouvira jamais o esqueceria; além disso Hishin estava agora sentado ao seu  lado, e junto a ele a mulher jovem e estranha, sua mulher ou ainda namorada,  que vivia a maior parte do ano na Europa. Na primeira semana ele visitou os  Lazar duas vezes ao dia, não só por se sentir na obrigação de trazer conforto e  segurança para a viúva do seu grande amigo, ela própria sua amiga querida, mas  talvez também para enfrentar imediatamente, se fosse preciso, qualquer possível reclamação, médica ou administrativa, que fosse levantada contra ele.  Portanto foi natural que, na corrente ininterrupta e silenciosa de pessoas entrando e saindo, minha presença não tenha passado despercebida aos seus olhos.  Embora eu ficasse sentado num canto da sala, longe dele, seu olhar constantemente se voltava para mim, procurando adivinhar se eu tinha a intenção de surpreender Dori com algo que ela ainda não soubesse. Mas eu não pretendia surpreender ninguém. O peso que eu sentia dentro de mim desde a morte, às vezes  acompanhado por um leve torpor, que parecia impedir-me de controlar o que  se passava à minha volta, apagara qualquer queixa íntima, inclusive contra  Hishin. Ele não podia imaginar que a pena avassaladora que eu sentia ao ver os  olhos cheios de lágrimas de Dori e Einat vinha misturada com uma imensa e  paralisante sensação de felicidade, que me levava a esquecer as boas maneiras —contrariando o costume, em vez de me levantar e ir embora depois de meia  hora, deixando a cadeira vaga para outros visitantes que não paravam de entrar  pela porta aberta, eu continuava sentado no lugar, fazendo meneios para os  conhecidos do hospital, como se eu também estivesse de luto.
Embora não pudesse me incluir entre os familiares enlutados, sentia-me  como um membro oculto desse apartamento;  ainda que o tivesse visitado apenas rapidamente na véspera da viagem à Índia, ao entrar, agora, sentira em relação a ele uma intimidade calorosa e natural. Não só porque desde o retorno da  Índia as minhas fantasias apaixonadas viviam vagando por esses aposentos, mas  também porque o espírito em sofrimento do dono da casa, que fora piedosamente agregado à minha alma, autorizava-me tanto a levantar-me do lugar e  pegar um copo de água na cozinha como a penetrar no corredor para dar uma espiada no dormitório onde aplicara as vacinas em Lazar e na sua mulher antes da nossa viagem conjunta. E afinal ela, que invadira sem autorização um quarto de dormir estranho em Londres, não tinha o direito de reclamar comigo por  não respeitar limites e ficar parado como um palerma na porta do seu grande  dormitório, vendo o maravilhoso e suave crepúsculo de outono tingir de vermelho sua imensa janela e intensificar meu excitamento com a visão das roupas  femininas espalhadas sobre a cama e as cadeiras, sapatos jogados, gavetas abertas numa espécie de caos que, segundo meu conhecimento interno, certamente despertaria a cólera de Lazar. Não foi por milagre que pulei de susto ao leve  toque no meu pescoço. Era Hishin. Sua elevada estatura parecia ter encolhido  um pouco nos últimos dias, e seus olhos pequenos estavam vermelhos e inchados. Estaria ele também procurando algo, ou teria apenas me seguido? Ficou  em silêncio ao meu lado, tão impressionado quanto eu com a desordem produzida pela viúva desesperada e talvez também enfurecida. "Você já esteve alguma vez aqui?"—ele surpreendeu-me com essa pergunta tão estranha.
"Faz tempo", repliquei corando, "antes da viagem à índia." De repente me  ocorreu que ele podia não estar se referindo ao apartamento, e sim ao próprio  dormitório; então prossegui hesitante: "Vacinei os dois aqui antes da viagem".  Ele entendeu. Eu sentia uma profunda atenção da parte dele. Desde a morte  não havíamos nos encontrado frente a frente, e, apesar da grande diferença de  posição entre nós, sabia que ainda havia questões pendentes, mais relacionadas  com a ética médica do que com a medicina em si. Jamais o vira tão frágil como  agora, de modo que tomei o cuidado de não proferir qualquer palavra que  pudesse abalar sua confiança de que a morte fora resultado do curso natural dos  acontecimentos e da incapacidade de todos nós de impedi-la. Porém, como  médico curioso, não pude guardar a pergunta que há dias me remoía: como o  professor, Adler, responsável pela operação, explicava o acontecido?
"Buma?", exclamou Hishin irado, e o apelido infantil do Grande Mestre  de Jerusalém mencionado naquele momento parecia pretender reduzi-lo a  dimensões humanas, também aos olhos do próprio Hishin. "Ele ainda não sabe  de nada. Viajou para o exterior depois da operação e só voltará daqui a alguns  dias. Mas o que é que ele pode nos dizer, Benjy, que nós ainda não saibamos?  Afinal você mesmo sabe que a taquicardia ventricular dele não estava relacionada com a cirurgia, e a cirurgia, como você constatou com seus próprios olhos, transcorreu com absoluto sucesso." Uma onda quente de felicidade me inun dou, ao perceber que Hishin se referia ao meu diagnóstico como se fosse uma  verdade incontestável.
Excitado com a nova e inesperada vitória, enquanto observava o dormitório dos Lazar ir se enchendo de reflexos rosados que engoliam o caos ali gerado  pela mulher por quem eu nutria uma paixão impossível, decidi proceder com  generosidade em relação ao homem que, apesar de não ter encontrado vaga  para mim em seu departamento, escolhendo outro em meu lugar, vira-me  como o homem ideal para uma missão à Índia—e comecei a elogiar as palavras que dissera no cemitério. "Foi uma elegia muito forte", eu disse, "magnífica, se é que se pode empregar o termo nessas circunstâncias." Ele fechou os  olhos com impaciência, baixando modestamente a cabeça em sinal de reconhecimento, enquanto ouvia os passos dos visitantes entrando e saindo pela  porta principal. Apesar de muita gente já ter elogiado o seu discurso, pareceu-me que a minha reação foi importante para ele. "Tenho tanta pena dela", acrescentei sem conseguir me controlar. "O que ela vai fazer agora, sem ele?" Hishin  lançou-me um olhar rápido, um tanto surpreso, como se não lhe parecesse adequado um homem jovem e estranho como eu falar em tom paternal e preocupado sobre pessoas quase da idade dos meus pais. "Afinal, ela é incapaz de ficar  sozinha consigo mesma por um instante sequer", emendei ressentido, num  tom que continha também um pouco de angústia por aquela mulher. Hishin  pareceu espantado com minha afirmação.
"Em que sentido é incapaz de ficar sozinha?", indagou, como se a negação  de um fato tão conhecido pudesse extrair de mim algum segredo que ele desconhecesse. Percebi que era melhor tomar cuidado, justamente porque os eventos  dos últimos dias haviam nos aproximado um do outro, e o devastador sentimento de culpa que continuava a atormentá-lo, mesmo sem que ele o admitisse,  poderia tornar mais afiada sua percepção do abismo que vinha se abrindo dentro de mim. As palavras que ele dissera no cemitério não me davam sossego. Teria  preparado o discurso com antecedência, ou ele brotara espontaneamente da  dor e do pranto que explodiram quando a sepultura foi fechada? Pois ali junto à  cova, enquanto o corpo era erguido para em seguida deslizar para o fundo, eu —na ansiedade de me juntar ao familiares do falecido—conseguira escapar  sutilmente do discreto policiamento de Nakash e sua mulher e penetrar num círculo mais íntimo. Então observara que era Hishin quem amparava Dori,  cujos joelhos de repente começaram a ceder. Ele esperou que ela se recuperasse, antes de abrir dois botões do seu paletó preto, revelando uma gravata espantosamente vermelha, como uma ferida simbólica que ele quisesse abrir no próprio peito, e deu início ao seu surpreendente discurso, que não pude deixar de  reproduzir para Micaela no caminho do aeroporto para casa. Embora Micaela  obviamente quisesse ouvir primeiro um relatório sobre Shivi—que apesar da  prolongada separação reconhecera a mãe sem dificuldade e agora estava tranquilamente deitada no seu colo—,controlou-se e ouviu-me repetir as palavras  de Hishin com atenção, pois sabia que, se alguma coisa importante para mim  tivesse sido dita, seria importante para ela também. Hishin dera início ao discurso com a inequívoca afirmação de que o falecido diretor merecia, na sua opinião, o título de "homem ideal"—um título não meramente romântico e decorativo, e sim baseado em constatações sobre sua personalidade; pois, apesar de  obrigado a abandonar os estudos de medicina devido às atribulações de seus  pais, jamais abandonara a vocação médica no sentido amplo da palavra, trabalhando na área administrativa do hospital, onde, em pouco tempo, graças ao  seu talento e esforço, progredira e acumulara grande poder. Hishin empertigara-se junto à cova recém-fechada e descrevera de forma quase crítica a natureza, a força e a extensão do poder de Lazar no hospital como diretor administrativo, seguro da cadeira que ocupava, enquanto os diretores médicos eram  substituídos a cada tantos anos; logo passara a descrever o modo como Lazar  empregava seu poder para servir com máxima eficiência os integrantes da equipe médica, contanto que eles satisfizessem uma condição: lealdade aos pacientes. Era um poder, explicara Hishin, fundamentado em dois princípios:  "Conhecimento dos detalhes e consciência dos limites". Não havia um único detalhe relacionado com o hospital, desde as licenças não remuneradas  até uma roda dentada quebrada no aparelho de diálise, que Lazar considerasse não ser digno de conhecimento, e todo conhecimento implicava para  ele responsabilidade. Porém a imensa responsabilidade que Lazar estava disposto a assumir, prosseguira Hishin,  jamais turvara sua clara consciência dos  limites precisos de sua autoridade, especialmente no que se referia aos médicos, os quais respeitava a ponto de nunca interferir nas decisões profissionais  deles.
Micaela escutou pacientemente, em silêncio, sentindo que, se para mim  era tão importante repetir a elegia de Hishin antes de chegar em casa, após a  ausência de um ano, com certeza em  algum momento viria a parte mais pessoal, que importava a mim e a ela, no discurso acerca do homem "ideal". De  fato, Hishin despertou verdadeira comoção em todos quando abandonou o tom  altissonante dos elogios genéricos e, adotando uma fala mais mansa e íntima,  começou a descrever as reações de Lazar à viagem que fizera à Índia dois anos  antes, para revelar um aspecto oculto e desconhecido da alma do eficiente diretor que se fora para sempre. Os inúmeros presentes ao funeral, espalhados pelos  túmulos de pedra branca à luz do início da tarde de outono, que já ansiava pelas  primeiras chuvas, aproximaram-se silenciosamente para ouvir melhor as  impressões e ideias de Lazar sobre a viagem à Índia segundo a descrição do professor Hishin, para minha grande surpresa e também, como imediatamente senti, para surpresa de Dori, que enxugou as lágrimas e lançou um olhar de  interrogação ao orador. Mesmo impressionado e chocado com o que vira nas  ruas poeirentas da Índia, e particularmente horrorizado com a visão de doentes  e aleijados agonizando no lixo e na miséria, Lazar se perguntara sinceramente  se o grande desnível entre o nosso mundo e aquele também nos concedia alguma vantagem espiritual. Será que podíamos ter certeza de que a nossa riqueza  era mais concreta e genuína do que a riqueza deles? "E quem sabe", perguntou  Hishin em voz mais forte do que a citação de Lazar, que não podia erguer-se do  túmulo para contestar as estranhas reflexões que o amigo lhe atribuía, "quem  sabe não sejam justamente a indiferença e o desprezo por 'detalhes' e 'limites',  demonstrados pelas pessoas de um mundo que nós chamamos de atrasado e  subdesenvolvido, capazes de oferecer uma sensação mais exata do universo  pelo qual passamos tão depressa e nos permitir ao menos provar o gosto da eternidade, a eternidade que às vezes, especialmente em momentos de despedida  dolorosos como esse, quando acompanhamos alguém querido para a sepultura, todos nós no fundo desejamos?" E então olhou em torno para todos os presentes, que o escutavam com máxima atenção, ajeitou a aba do boné preto  sobre a cabeça e prosseguiu contando sobre a noite que Lazar passara com o  funcionário indiano aposentado na minúscula cabine do trem que ligava Nova Delhi a Varanassi, e sobre a surpresa que nele provocara a certeza tranquila e  absoluta do funcionário acerca da sua capacidade de assegurar o seu renascimento após uma correta imersão no Ganges. Foi estranho escutar Hishin falando dessa maneira sobre a noite passada no trem, como se Lazar ali houvesse estado sozinho; mas Hishin estava certo: lembrei-me de que Lazar realmente ficara  sozinho naquela noite, sentado e acordado no escuro, olhando para as três pessoas adormecidas ao seu lado. Hishin prosseguiu com voz sofrida, e seu olhar,  que vagava pela assistência atenta, pousou momentaneamente em mim. "Será  que podemos negar que a ideia do renascimento às vezes também ocorre a nós,  pessoas modernas, especialmente quando estamos diante de um túmulo  recém-coberto de terra? Mas como podemos nos consolar com o renascimento quando a cada dia fica mais claro que não há nada para renascer, pois não existe alma e nunca existiu?" Ouviu-se um murmúrio na multidão, porém Hishin  manteve o controle e continuou o discurso resoluto. Podiam tomar por exemplo ele próprio—exclamou diante da assistência: todos os dias de sua vida eram dedicados a levar suas mãos aos mais inacessíveis cantos do corpo humano, não  tendo até então descoberto nenhuma evidência da alma; e seus colegas, renomados cirurgiões de cérebro, afirmavam que tudo o que encontravam e tocavam era pura matéria, sem qualquer indício da existência do espírito, a ponto  de terem certeza, como ele também, de que chegaria o dia em que seria possível recriar tudo artificialmente e, é claro, transplantar partes de outros cérebros.  Da mesma forma como implantávamos no corpo órgãos alheios e artificiais,  chegaria o dia em que seria possível implantar o cérebro, ou injetar nele substâncias capazes de expandir a memória, aguçar a inteligência e talvez também  ampliar o prazer. "Então", e Hishin encerrou suas palavras tomando um rumo  surpreendente, "não posso me consolar com a existência perene da alma de  Lazar e pedir que ela me perdoe—posso consolar-me apenas com a lembrança daquilo que recebi do homem real, de carne e osso, e do que lhe dei, e se de  fato algum erro aconteceu, foi devido ao meu grande amor por ele."
Um leve sorriso irônico passou pelos lábios de Micaela—impossível saber  se por causa das palavras de Hishin ou do meu esforço em reproduzi-las literalmente. "Então é assim que ele espera se safar", declarou baixinho, sem explicar  o que queria dizer, com os olhos enormes procurando encarar diretamente o  meu olhar, que a evitava desde o nosso encontro no aeroporto e agora vagava pelas ruas familiares do nosso bairro em busca de uma vaga para estacionar. Em  casa, onde eu ainda não havia arrumado a mobília que Amnon tirara do lugar,  Micaela continuou perseguindo meu olhar, para arrancar novamente de mim  a informação surpreendente que eu deixara escapar, em meio à minha comoção, durante a conversa telefônica noturna no escritório de Lazar algumas horas  após a sua morte—a informação que para ela era tão importante que a fizera,  sem pensar duas vezes, cancelar a excursão, desistir da ilha de Skye e voltar para  casa. Mas eu continuei evitando o seu olhar enquanto ela colocava Shivi no  pequeno engradado que meus pais compraram na última semana; agora com  as mãos livres, entrou na cozinha e me agarrou junto à pia, e me abraçou, e me  beijou, não só pelo desejo que qualquer lugar estranho despertava nela—após  um ano de ausência, o apartamento podia ser considerado um lugar estranho  para ela—,mas também para infundir em mim a segurança de que a ideia  excêntrica e misteriosa que lhe transmitira naquela noite na sua opinião era  genuína e atraente. Um novo calor e doçura começaram a fluir para mim dos braços fortes de Micaela, que puxava meu corpo para si e lambia meu rosto com  sua língua comprida. E o desejo, que se diluíra na raiva pela separação das últimas semanas e no processo da doença e morte de Lazar, despertou com força  tão renovada e avassaladora que me abandonei ao prazer, tentando manter à  força sua língua em minha boca, cobrindo seus olhos de beijos para afastar o seu  olhar penetrante que ainda buscava arrancar de mim uma confissão feroz, a  confissão responsável pela sua volta apressada. Antes que Shivi erguesse a cabeça para nos seguir com os olhos, carreguei Micaela para o outro quarto, o antigo dormitório da vovó, que, por causa da obsessão por mar de Amnon, fora transformado em quarto de hóspedes, depositei-a sobre o estreito sofá-cama sem ao  menos tentar abri-lo para termos mais espaço, tirei suas roupas e ajoelhei-me  para lamber e beijar seu sexo, procurando descobrir algum sinal de que houvera traição na Inglaterra ou na Escócia. Não achei sinal nenhum, então me  levantei e matei meu desejo com ela, longamente, generosamente, deliciosamente, como naquela primeira noite no penhasco do deserto, assistindo ao  casamento de Eyal. Só paramos quando o choramingar de Shivi se transformou  num choro franco e exigente.
"Será que transei também com Lazar?"—ela perguntou com olhar malicioso ao sair do banho, sacudindo os cabelos molhados e observando afetuosamente como eu dava de comer o mingau a Shivi, sentada no cadeirão ao lado  da janela da cozinha, toda iluminada pelo sol do fim de tarde.
"Você se deitou agora com muitos homens, vivos e mortos", respondi  calmo, "e entre eles também Lazar, por que não?" E na penumbra da noite que  caía sobre nós, junto à neném que nos escutava brincando com o prato vazio,  contei-lhe, na sequência correta, o drama da morte: o diagnóstico, a operação,  a convalescença e o súbito colapso. E não foi um relato só do ponto de vista do  médico ansioso por provar a superioridade do seu diagnóstico, foi principalmente ditado pela emoção profunda de um homem jovem que vira como um  livro aberto o consistente coração do amigo e não queria deixá-lo sozinho  mesmo depois que aquele coração tremulara e se apagara.
"Não quer deixá-lo sozinho?", espantou-se Micaela, com leve desapontamento, como se esperasse de mim uma confissão ao mesmo tempo mais objetiva e mais misteriosa.
"Exatamente", respondi, pensando se já devia acender a luz da cozinha  para clarear a noite, "é a isso que me refiro. O que foi que você pensou?", perguntei rindo. "Que eu quis dizer que a alma de Lazar de fato entrou na minha  alma?"
"Por que não?", respondeu Micaela quase num sussurro. E com um gesto  novo, que certamente tinha criado nas duas semanas em que estivera sozinha  com a criança em Londres, começou a afagar delicadamente a testa de Shivi,  na região entre os olhos. Shivi parecia adorar o afago, abandonando-se como  um gato. "Se na noite do parto você conseguiu incorporar a alma da parteira,  por que não haveria de conseguir incorporar também a alma de Lazar?" Suas  palavras percorriam agora a fina linha entre a ironia e a seriedade profunda,  como sempre ocorria quando alguma ideia sua continha uma intenção proselitista dissimulada.
"A alma da parteira?", eu ri. "Quem disse?"  "Ela mesma", respondeu Micaela, "você não se lembra? Quando todos  nós estávamos comentando admirados como você conseguiu fazer o parto de  Shivi com tanta perfeição."
Fiquei quieto. Foi bom escutá-la dizer que o parto de Shivi fora perfeito.  Mas não quis continuar falando sobre Lazar, que, de qualquer maneira, não  podia se levantar do túmulo para me contradizer.
No dia seguinte levei Micaela para uma visita de condolências à casa dos  enlutados. Insisti que ela tinha obrigação de ir, ainda durante a semana de luto  fechado, para confortar Einat, que sofrera a  morte do pai praticamente diante  de seus olhos. Não sabíamos se era costume levar um bebê numa visita dessas,  porém Shivi foi conosco porque ainda não tínhamos babá e eu não queria que  Micaela fosse sozinha, obrigando-me a abrir mão de mais uma visita ao local  cujos quartos e salas tantas vezes visitara na minha imaginação. Novamente  encontrei a sala de visitas cheia de gente, em grande parte rostos conhecidos de  funcionários do hospital que haviam deixado a visita para os últimos dias da primeira semana. Não era possível que todos tivessem contato pessoal diário com  Lazar. O fato era que todos antes se sentiam sob a sua vigilância aguda, e agora,  afrouxada a vigilância, queriam verificar a extensão do vazio pairando sobre  suas cabeças. Também encontrei Hishin, sentado no mesmo lugar que na vez  anterior, à direita de Dori. O esquisito boné preto que usara no cemitério cobria  sua cabeça, como uma espécie de sinal do seu luto privado. A sua jovem companheira, que ele trouxera da Europa numa de suas viagens, fora substituída por  um homem baixo, trajando roupas esportivas um tanto relaxadas, que de longe  me pareceu conhecido. Quando me aproximei reconheci, espantado, o professor, Adler, o Grande Mestre de Jerusalém. Embora não fosse costume um cirurgião vir confortar os parentes enlutados pela morte de um paciente, Hishin  insistiu que ele viesse, para provar a todos que, apesar do desfecho trágico, tinha  certeza de que a operação realizada pelo seu amigo tivera absoluto sucesso.  Assim, quando Adler voltara da Europa Hishin fora esperá-lo no aeroporto, trazendo-o para a visita antes que seguisse para Jerusalém. Hesitantes, com a  neném pendurada na barriga de Micaela, chegamos perto de Einat e Dori, que,  livre dos olhares críticos do marido, fumava seus cigarros finos, um atrás do  outro, enquanto escutava, distraída e sem sorrir, as explicações do professor  Adler,  que discorria de forma paciente e metódica, eximindo-se de qualquer  culpa. Pálida, Einat levantou-se para receber Micaela, abraçando-a e beijando-a com tanto amor que Shivi quase ficou sufocada entre as duas. Dori parou de  escutar para prestar atenção à filha, que chorava de dor agarrada a Micaela.  Assustei-me ao ver uma lágrima silenciosa rolando dos seus olhos, a cinza do  cigarro quase caindo sobre o tapete; num gesto instintivo, apressei-me em trazer o cinzeiro para perto. Nesse momento o professor Adler me reconheceu e sorriu com simpatia. Será que ele também se lembrava da taquicardia ventricular que eu lhe sugerira sussurrando enquanto a enfermeira tirava seu avental  cirúrgico? Não seria surpresa, pois, a julgar pelo seu olhar direto e inteligente,  parecia que se não estivesse com pressa de voltar a Jerusalém teria escutado com  mais respeito e paciência a opinião de um médico iniciante como eu. Quando  Einat convidou Micaela com Shivi para se retirarem ao seu quarto, onde poderiam ficar um pouco sozinhas, tomei a liberdade de sentar-me no lugar dela,  junto aos dois médicos e a Dori. Minha presença pareceu apaziguá-la e mitigar  a sua dor, pois notei que em seus olhos já se acendia, ainda que tênue, o velho e  conhecido sorriso levemente automático; talvez sentindo necessidade de justificá-lo, contou a Hishin e ao seu colega de Jerusalém o quanto Lazar gostava de  mim. E eu, que sentia não só o seu apreço mas também o seu amor como um  peso no vazio do meu corpo, baixei a cabeça como um adolescente encabulado escutando com alegria e impaciência os elogios da mãe diante de estranhos.  Dirigi ao professor Adler algumas perguntas para compreender melhor a evolução patológica que tivera início imediatamente após a cirurgia, cirurgia que  até mesmo eu, com a minha compreensão limitada, podia modestamente afirmar ter sido um sucesso. Embora ele procurasse responder às minhas questões,  chegando a desenhar numa grande folha de papel o coração que agonizara e  morrera, não me pareceu que o onisciente mestre, que serrara o peito de Lazar  com extrema agilidade, fosse capaz de apontar um único motivo forte e convincente para aquela morte inesperada, mas apenas emendar explicações atrás de  explicações cuja fragilidade mal conseguia disfarçar. Dori procurou acompanhar a conversa, porém visitantes recém-chegados, um grupo de juízes e advogados vestidos de preto, desviaram a sua atenção. Afinal ela sabia que, descoberta ou não a causa da morte do marido, era impossível trazê-lo de volta.
Do ponto de vista dela isso podia estar certo, mas não do ponto de vista de  um médico, especialmente um médico jovem, incapaz de sossegar diante de  uma morte sem que ela fosse explicada nos mínimos detalhes. Assim, não dei  paz ao professor Adler até que ele esclarecesse, não só a mim mas também a si  mesmo, o que havia sucedido. Ele parecia disposto a reagir pacientemente ao  desafio que eu impunha, a serrar de novo o peito de Lazar e abrir com auxílio  do quadro de aço do retrator o livro, isto é, o coração doente, e tocar com sutileza o "Triângulo de Koch", o local onde se ocultava a verdadeira ameaça. E eis que Hishin se intrometeu para lembrar ao amigo -que na empolgação de provar seu ponto de vista se esquecera de que chegara de viagem apenas algumas  horas antes—que a noite começava a cair e era preciso seguir para Jerusalém.  Além disso, uma nova onda de visitantes começou a invadir o apartamento, e  todos sentimos que era hora de dar lugar aos recém-chegados. O professor Adler  levantou-se e despediu-se de mim com grande amabilidade, sugerindo que eu  fosse a Jerusalém para continuarmos a conversa. "Certamente irei", aceitei o  convite, "afinal meus pais moram em Jerusalém", e acompanhei os dois professores até a porta, como se tivesse me tornado o dono da casa, temporariamente,  no período de luto, como a vovó, de avental limpo na cozinha preparando chá  para as visitas e muito contente de me ver outra vez; e dono da casa também  como Einat, que se trancara no seu antigo quarto com Micaela, recordando a  morte do pai ao mesmo tempo que admirava a agilidade com que Shivi se movimentava sobre sua cama. Não havia dúvida de que a mulher amada, com eterno medo de ficar sozinha, Lão podia confiar exclusivamente na presença do  filho em serviço militar, de cujo quarto vinha uma conversa de jovens em voz  alta acompanhada, assim me pareceu, por sons de rock tocado baixinho; ela  precisava sim que a avó e Einat dormissem lá pelo menos na primeira semana.  "Mas, e depois?", pensei preocupado, como se coubesse a mim achar a solução.  Empurrei um pouco a porta do quarto e constatei, contente, que o caos reinante dois dias atrás havia desaparecido, como se nesse ínterim o espírito organizador de Lazar tivesse passado por ali para impor ordem. Será que a responsabilidade realmente cabia a mim? Mesmo tendo viajado na sua companhia durante  duas semanas para a índia e tendo deitado com ela duas vezes, ainda sabia tão  pouco a seu respeito! E agora, ao vê-la cercada de amigos, beijada e abraçada  com força, a ponto de seu coque se desmanchar e deixar seus cabelos lhe cobrirem o rosto, escondendo não só a face chorosa mas também o maravilhoso sorriso automático que o luto e pranto profundos não conseguiram apagar—perguntava-me se realmente era o momento de assumir tanta preocupação só para  poder continuar me dedicando àquela paixão impossível, que de repente podia se tornar possível.
"Efetivamente possível?"—ponderei em sobressalto ao entrar com o rosto ardendo no quarto de Einat para levar Micaela e a neném embora dali. Einat  me lançou um olhar curioso e penetrante, e suspeitei de que Micaela tivesse  dito algo acerca da transmigração de uma certa alma; pois Einat também se sentia tremendamente atraída pela Índia, e nas duas semanas que havia jazido  incapacitada no mosteiro tailandês de Bodhgaia talvez tivesse sido influenciada pelas ideias estranhas de quem havia cuidado dela, e era bem capaz de abraçar de boa vontade pensamentos radicais como aqueles. Assim, não só me apressei em lhe sorrir, mas também a toquei com afeto, para acalmá-la, da mesma  forma que a tocara, como médico, na nossa viagem conjunta. Só que dessa vez  ela pareceu tremer ao contato da minha mão. "Será que Micaela a influenciou  de tal maneira", estive a ponto de dizer, "que você é capaz de acreditar que alguma coisa alheia poderia romper as barreiras da minha personalidade?" Mas não  disse nada, sentei-me em silêncio na cama daquele quarto, que ainda trazia os  sinais da infância e adolescência de Einat, e com movimentos rápidos apanhei  Shivi, cujo corpo se enrijeceu de tensão, como se tivesse sido apanhada por um  estranho, e não por seu pai. Einat mostrava-se exausta e esgotada. Não era à toa – durante alguns minutos presenciara a agonia do pai, até ocorrer ao professor Levin afastá-la do quarto; aqueles poucos minutos, porém, deixaram sua cicatriz. "Uma cicatriz de verdade, da qual ela não vai conseguir se livrar", disse  Micaela a caminho de casa. "Uma cicatriz real, que pode ser mostrada a quem  gostar de ver cicatrizes, ou simplesmente a quem a amar. Uma cicatriz mais  espiritual do que a deixada pela hepatite, apesar da dramática transfusão de sangue que você fez em Varanassi." Pelo tom de Micaela, era impossível saber se  ela se referia a Einat com ironia ou ingênua compaixão. Eu já estava acostumado ao fato de que determinadas coisas que eu julgava que Micaela dizia com irônica maledicência mais tarde se revelavam absolutamente sérias e inocentes.  Portanto, hesitei na resposta. A transfusão de sangue em Varanassi parecia-me  agora, após a morte de Lazar, algo ocorrido num sonho, e não na realidade, a  realidade que nesse momento começava a despejar gotas de chuva finas e  refrescantes, que transformaram os faróis traseiros dos carros à nossa frente em  trêmulos rubis. Shivi estava largada no colo de Micaela, atenta ao movimento  dos limpadores do para-brisas. Só então percebi que Micaela esquecera o carregadorzinho de Shivi. Não disse nada, pois não queria voltar naquele momento; preferia esperar até mais tarde para ir pegá-lo e aproveitar para ver quem  ficaria com Dori durante a noite. "Você disse a Einat alguma coisa a meu respeito?", perguntei sem entrar  em detalhes. Mas Micaela captou exatamente a que eu estava me referindo. "Não", respondeu depressa, e seus olhos enormes deixaram brilhar um  sorriso disfarçado. "Se ela não perceber sozinha o que aconteceu, de que vai  adiantar o que eu disser?" E acrescentou cochichando: "Você não sentiu como  ela tremeu quando você entrou no quarto?". Reduzi a velocidade do carro  e durante alguns segundos fitei seus olhos.  Será que ela podia imaginar aonde estava me levando ao dizer aquelas coisas? "Vejo que você está querendo jogar um pouco de lenha na fogueira", murmurei, agarrando o volante com força, espantado com a palavra "fogueira" que  deixara escapar. "Mas de todo jeito a fogueira já está ardendo, Benjy", respondeu ela em  tom calmo e direto, "ela foi acesa naquela mesma noite, quando você me telefonou e me forçou a voltar; não teve medo de reconhecer o que estava sentindo e subiu no meu conceito como se tivesse se  tornado um brâmane. Foi por  isso que não hesitei em interromper a excursão e voltar para casa, apesar de pressentir que depois você tentaria negar aquilo que explodiu dentro de você com  tanta beleza e intensidade." Permaneci em silêncio, sorrindo surpreso para Shivi, que desviara os olhos  do para-brisas e me fitava com ar interrogativo, como que admirada por eu não  reagir a Micaela, agora tomada de sincero entusiasmo pelo seu próprio esforço  de fazer com que eu parasse de negar o que me acontecera. Não havia em sua  atitude qualquer menosprezo pelo meu conhecimento médico, que para ela  não era inferior ao dos meus professores, incluindo o jerusalemita baixinho,  que, apesar de toda sapiência e sensibilidade, tinha estado cego à morte eminente de Lazar, deitado à sua frente de peito aberto sobre uma mesa de operações. Uma morte, segundo dizia Micaela agora, que eu pressentira ainda na  Inglaterra, e por isso me apressara em voltar a Israel, como alguém que avista  chamas no horizonte longínquo e segue rapidamente naquela direção, não  para apagar o fogo, e sim para obter seu calor e sua luz, pois trata-se de um fogo  sagrado no qual ardem os mortos, libertando as almas do corpo, e sua atração é  tão intensa e poderosa que pode levar a própria viúva a atirar-se nas chamas.
"A viúva?", sussurrei espantado, achando graça na riqueza de associações  indianas de Micaela; ela explicou que não era metáfora, era a pura realidade:  quando estivera  na Índia, Micaela presenciara a incineração de uma viúva, fato  que jamais esqueceria. Apesar de ser um ritual absolutamente proibido pelas  leis indianas —portanto sendo realizado muito raramente, às escondidas e  vedado a pessoas estranhas—,os médicos das calçadas de Calcutá e seus auxiliares tinham conseguido assistir  uma  vez; para isso contaram com a confiança  e a ajuda de dois etnólogos indianos que viam na devoção dos estrangeiros aos  enfermos e aleijados  uma ação especial, digna de retribuição à altura, como  aquela cerimônia, considerada não terrível e chocante, e sim um ritual autêntico que refletia a verdadeira identidade nacional. Obviamente nem todos os  médicos e enfermeiras se dispuseram a fazer uma viagem de dois dias por caminhos áridos até um vilarejo remoto que, a despeito do seu primitivismo, já sofrera a invasão insidiosa de uma grossa nuvem turística e comercial. Porém  Micaela não poderia recusar a oportunidade de participar do antigo ritual, que os ingleses fizeram de tudo para eliminar; sabia muito bem que quem temesse  a visão da morte na Índia estaria manifestando uma oposição ao espírito real do  lugar; seria então melhor que se levantasse e fosse embora dali. A cerimônia foi  realizada nos arredores da aldeia, uma espécie de vale oculto, e todos os presentes tiveram que guardar certa distância, especialmente os estrangeiros. A viúva  era uma mulher não muito velha, cerca de cinquenta anos, robusta e saudável;  segundo informações detalhadas dos organizadores, optara por imolar-se numa  pira funerária, por espontânea vontade e fé absoluta. A imagem das labaredas  coloridas ao longe consumindo lentamente a mulher jamais seria esquecida  nem por Micaela nem por Einat, que fora convidada a ir junto. "Constantemente me surpreendo com o tempo enorme que vocês passaram juntas", eu disse a Micaela, que carregava a criança nos braços enquanto  subíamos as escadas; eu ainda não comentara a falta do carregadorzinho, do  qual "me lembraria" dali a pouco, usando o pretexto para voltar feliz e emocionado àquela casa onde também havia uma viúva, à qual não ocorreria a ninguém no mundo pedir que se imolasse numa pira funerária para provar sentimentos de amor e fidelidade claros e óbvios aos olhos de todos.
"É", respondeu Micaela, sacudindo os respingos de chuva dos cabelos e  entrando em casa, "andamos juntas por um bocado de lugares, mas nossas  reações sempre eram diferentes. Apesar de tudo, eu saí daquele ritual, que aliás foi muito extenuante, com uma espécie de euforia, como os indianos que nos levaram até lá e que eram, não se engane, tão civilizados e modernos quanto você e  eu; mas Einat ficou tão chocada e confusa, tão assustada e horrorizada, até  mesmo com raiva de mim por tê-la levado, que tenho a impressão de que tudo  começou ali."
"Tudo o quê?"  "A doença dela. A hepatite. A deterioração".  "Mas em que sentido?", insisti, excitado com a ideia de estar prestes a identificar a fonte do mistério que vinha perturbando a minha vida.
"Sei lá", e deu de ombros, "talvez o sistema imunológico dela tenha se fragilizado ao ver uma mulher adulta, com a idade da mãe dela, perder-se lentamente nas chamas; naquela sujeira toda, não era preciso muita coisa para permitir a entrada de um vírus pernicioso."
Quando Micaela percebeu a proporção do meu interesse pela cerimônia,  prometeu achar algumas fotos que algum dos amigos tirara escondido, antes da  chegada de uma patrulha de soldados da aldeia vizinha convocados para dispersar os participantes; não conseguiram salvar a mulher, já transformada em cinzas.
A campainha tocou. Era Amnon, que, sabendo do retorno de Micaela,  viera dar-lhe as boas-vindas antes do seu turno de guarda. Ficamos contentes  com a sua vinda, insistindo que ficasse para jantar. Ele poderia ver como dávamos banho em Shivi e talvez ficasse com vontade de também ter um filho. Para  diminuir a minha crescente excitação ante a perspectiva da visita noturna ao  apartamento dos Lazar, pedi-lhe que me ajudasse a desfazer a "troca" de quartos que fizera durante nossa ausência. Micaela tentou me dissuadir, com o argumento de que a nova disposição talvez tivesse alguma vantagem e merecia ao  menos um teste mais demorado; mas mantive a opinião de que a troca podia ser  boa para um solteiro inveterado como Amnon, mas não para um casal responsável, que não pode abrir mão do seu dormitório em consideração ao direito dos  hóspedes de ficarem no melhor quarto da casa. Não os convenci, mas, "como  locatário original, responsável legalmente segundo o contrato, e portanto como  verdadeiro representante da proprietária", impus a mudança. Arrastamos a  cama enorme da vovó de volta ao seu lugar, e o sofá-cama foi colocado diante  da janela da qual se avistava uma faixa de mar, mas não numa noite como aquela, repleta de chuva e neblina. Micaela espantou-se quando eu, apesar da chuva  e do adiantado da hora, insisti em sair para apanhar o carregadorzinho esquecido, como se não fosse possível nos ajeitarmos sem ele até o dia seguinte.
Seria o sentimento de culpa de Hishin tão grande a ponto de fazê-lo retornar ao apartamento na volta de Jerusalém?—refleti com preocupação ao ver o  seu carro estacionado diante da casa dos Lazar. Subi depressa e bati de leve à  porta, preparando uma desculpa para quem quer que a abrisse, inclusive a vovó,  que me recebeu com um sorriso largo, toda diligente e elegante na sua blusa  branca e na saia escocesa muito bem confeccionada. A casa, horas antes apinhada de gente, agora estava vazia e um pouco escura; as numerosas cadeiras, aparentemente emprestadas dos vizinhos, estavam espalhadas em desordem,  expressando a tristeza que pairava no lugar melhor do que todas as belas palavras de condolências. Sem delongas a vovó me conduziu pelo corredor escuro  até o quarto de Einat para pegar o carregadorzinho, enquanto o som dos soluços de Dori chegava da cozinha, penetrando em mim como uma faca. A porta  do dormitório dela estava aberta, revelando outra vez um caos de roupas jogadas. Havia luz no quarto do soldado, mas estava vazio, exceto pela presença de  um rifle encostado à parede. A porta do quarto de Einat estava fechada; a vovó  bateu levemente e, não obtendo resposta, abriu com o máximo cuidado. Einat  dormia vestida e de sapatos, toda encolhida na cama, com uma pequena lâmpada de cabeceira acesa; ao entrarmos abriu imediatamente os olhos, como se  aguardasse o meu retorno, enfiou a mão debaixo da cama e tirou de lá o carregador de Shivi. "Sinto muito", falei baixinho aproximando-me para pegá-lo.  Ela sorriu e assentiu com a cabeça.
"Dê um beijo meu na Shivi", pediu, recolhendo-se de novo em si mesma  como um feto triste, permitindo que sua avó apenas lhe tirasse os sapatos.  Retirei-me para o corredor, inconformado com o fato de sair dali sem sequer dar  uma olhada em Dori.
"Vai dormir aqui?", ocorreu-me perguntar à vovó.  "Não", respondeu um pouco sem graça. Tinha ficado o dia inteiro, mas à  noite voltaria para o lar de idosos. Na sua idade era difícil acostumar-se a uma  cama estranha. Estava à espera do neto, que havia saído para tomar um pouco  de ar com os amigos, para levá-la de volta. Fiquei em silêncio, andando mais devagar e prestando atenção à voz chorosa de Dori, que relatava algo para  Hishin.
"Mas eu posso levá-la", ofereci-me, observando seu semblante agradável.  "Muito obrigada", respondeu sem hesitar. E mesmo tendo o cuidado de  não deixar escapar a minha oferta após um dia exaustivo, foi incapaz de abandonar suas boas maneiras. "Mas o asilo é caminho para você?"
"Será meu caminho", respondi com determinação, seguindo na direção  da cozinha para avisar a Dori e Hishin que levaria a vovó para casa. Ambos estavam sentados à mesa sob uma triste luz fluorescente. Sobre a mesa, entre copos  e xícaras usados, estavam também os óculos dela e vários lenços de papel amassados. Os olhos estavam despidos, como quando nos amamos, só que agora vermelhos e inchados. Pela primeira vez desde a morte pude compreender a profundidade da sua dor. Hishin estava sentado a certa distância, com as longas  pernas estendidas, expressão sombria e pensativa. O boné que simbolizava seu  luto também estava sobre a mesa. À sua frente, um prato com restos do jantar,  e entre seus dedos compridos um cigarro fino, do tipo que Dori fumava. Ele,  que eu nunca vira fumando, fazia companhia ao pesar e desespero da amiga. Os  olhares de ambos dirigiram-se para mim, sem demonstrar qualquer surpresa ou  curiosidade, como se fosse natural que eu também, como se fosse da casa, circulasse entre os aposentos numa hora tão avançada. Dori não tentou esconder  os sinais do seu pranto; ao contrário, pareceu erguer a cabeça de propósito para me mostrar sua face em lágrimas, como se esperasse também de mim uma  expressão clara e forte de conforto ou esperança, que a ajudasse a recuperar,  senão o marido, pelo menos o sorriso que desaparecera.
"Posso levar sua mãe para casa?", perguntei dirigindo-me a eles como rosto  ardente, como se a aquiescência da avó não bastasse.
"É claro", respondeu Hishin em lugar de Dori, "será uma boa ação."  Virou-se para Dori com intimidade: "O rapaz, pelo jeito, esqueceu-se da hora  na companhia dos amigos". Ela fez que sim, aproximou a xícara dos lábios e  tomou um gole de  chá. Fiquei parado na entrada da cozinha sem saber o que  fazer, com  as alças do carregador de Shivi penduradas no ombros como uma  mochila; a lâmpada do corredor devia estar queimada, e escutei a vovó preparando-se diligentemente para ir embora.
"Está chovendo um pouco", avisei, "mas a temperatura está agradável",  acrescentei para tranquilizá-los, vendo Dori estender a mão para pegar mais um  cigarro no maço à sua frente. De repente senti dentro de mim o ímpeto de  Lazar, que sempre procurava impedi-la de botar um cigarro na boca, e com um  passo rápido adiantei-me e agarrei o maço. Ela ficou atônita, como se o morto  estivesse presente no recinto. Mas se refez e, supondo que eu, como Hishin, quisesse provar dos seus cigarros, fez um gesto para que me servisse à vontade do  maço, com um sorriso generoso e afetivo. Não me restou alternativa a não ser  pegar um cigarro e me inclinar para que ela o acendesse, murmurando algo  sobre os dias estranhos e confusos pelos quais eu também estava passando,  enquanto Hishin me olhava com afeto e assentia com a cabeça às minhas palavras. Na saída joguei o cigarro fora, apagando-o com o pé. A vovó gostou da  minha atitude. Alegrou-se com a chuva leve que refrescava o ar, como se apenas mudanças na natureza pudessem trazer algum conforto àquela família tão  abalada.
"A filhinha de vocês, além de doce, é muito bem-educada", comentou  enquanto eu a ajudava a apertar o cinto de segurança. "Parece que a sua  Micaela sabe direitinho como se comportar com ela."
"Eu também sei"—não pude deixar de exigir meu crédito como marido  e pai dedicado.
"Você também, é claro", concordou a vovó, embora no fundo do coração  parecesse acreditar mais na paz interior de Micaela, a cujo respeito começou a  me interrogar. Mas eu não queria desperdiçar os poucos minutos da breve viagem com comentários sobre Micaela ou sobre Shivi, ou até sobre mim mesmo.  Em primeiríssimo lugar, queria saber a sua opinião sobre o futuro, e inclusive  sobre o sombrio presente, que também Hishin parecia estar enfrentando. "Sim,  Hishin nunca nos deixa sozinhos", disse a vovó, "para ele também está sendo  muito difícil, porque se sente culpado por ter tirado a operação de Lazar do  departamento certo e trazido um médico totalmente estranho, mesmo que  capacitado." Mais uma vez defendi Hishin e seus atos, como se a culpa dele  pudesse irradiar alguma culpa também para mim. Ela me ouviu com simpatia,  concordando com a cabeça, como se quisesse contribuir para que Hishin se  convencesse de que a morte de seu genro fora totalmente inevitável.
"Apesar de que, para um médico, não existe morte totalmente inevitável", eu disse, tentando transmitir-lhe uma ideia mais profunda.
"Mas como é possível?", perguntou perplexa, como se eu estivesse tentando convencê-la da existência da vida eterna.
"Porque se admitíssemos a possibilidade da morte inevitável, o espírito  competitivo obrigatório entre os médicos se perderia", expliquei.
Aí a vovó se mostrou preocupada.  "A competição chega a esses extremos?"  "Por que não?", repliquei. "Nós também somos gente. Veja, até mesmo  quando troquei alguns dos remédios que o professor Levin lhe receitara, eu me  senti um pouco vitorioso."
"Mas ele destrocou", respondeu depressa com certa rispidez, revelando  um óbvio sorriso de prazer.
"Eu sei", sussurrei pesaroso, "eu sei."  O asilo estava às escuras, embora o relógio ainda marcasse dez horas. Mas  a vovó não pareceu se incomodar com a escuridão. Agradeceu-me muito, permitiu que eu soltasse o cinto de segurança, pôs na cabeça uma boina branca  para proteger-se dos pingos da chuva que não cessara e desceu agilmente do  carro. Saí atrás dela e ofereci-me para acompanhá-la. Ela, em excelente estado  físico e psicológico, não necessitava que a acompanhassem, mas com um sentido atilado percebeu que eu pretendia continuar a conversa; assim, agradeceu-me efusiva, como se eu de fato estivesse lhe prestando um grande favor.  Caminhamos devagar pela varanda deserta. Fiz uma ou duas perguntas sobre  o asilo, e ela respondeu brevemente. Estávamos agora diante da grande porta  de vidro que refletia a vovó e eu como dois fantasmas; do outro lado, via-se o porteiro sentado junto ao balcão da televisão. De repente ela foi tomada por um  rápido tremor, como se enfim também reconhecesse a alma perdida do genro  num gesto ou movimento de cabeça, ou no meu tom de voz. A grande porta  ainda não fora aberta. A vovó lançou-me um olhar, mas sem perceber que era a  minha própria presença que a fazia falar dele. "Meu coração dói por causa de  Lazar", disse compungida, puxando o canto da boina branca para proteger pelo  menos um lado do rosto do vento que soprava forte. Como se não tivesse certeza de que eu estava disposto a compartilhar com ela um sentimento tão profundo, acrescentou: "Você tem alguma ideia de quanto ele gostava de você, de quanto ele falava bem de você?". Fiz que sim com a cabeça, sentindo uma dor  profunda, como se apenas agora houvesse recebido a confirmação explícita de  tudo que sentira desde o meu retorno da Inglaterra.
"O que vai ser agora de Dori?", perguntei.  Ela deu de ombros.  "Vai ser muito difícil. Muito, muito difícil."  Percebi que ela ainda não havia captado a essência daquilo que me preocupava.
"Como é que ela vai ficar sozinha consigo própria?"  "Como?", suspirou a vovó, ainda sem entender aonde eu queria chegar.  "Não sei como. Ela vai ter que achar um jeito. Vai ser muito difícil. Como para  todo mundo."
"Mas que jeito? Em que sentido?"—não me satisfiz, recusando-me a  deixá-la fugir do principal. "Afinal ela é totalmente incapaz de ficar um só instante consigo mesma. É impossível para ela."
Então percebi que a minha insistência a deixava confusa. Seu olhar se desviou e começou a vagar, enquanto ela se aproximava da porta para abrigar-se  melhor, evitando fitar diretamente os meus olhos, temerosa de revelar algo  proibido que eu ainda não soubesse, algo que ela própria se recusava a reconhecer. Mas eu prossegui na
minha constrangedora excitação.
"Mas como é que, por exemplo, ela vai ficar sozinha à noite? Quem vai  ficar com ela?"
Aí ela compreendeu que seria impossível fugir de perguntas provenientes  de uma fonte profunda, à qual talvez o próprio Lazar estivesse ligado.
"Não se preocupe com isso", sorriu aliviada, "ela vai achar um jeito de não  ficar sozinha. Vai encontrar alguém para ficar com ela. Quando era menina e  às vezes a deixávamos sozinha em casa à noite, ela arranjava alguma amiga para  lhe fazer companhia e passar a noite. Ela sabe como encontrar pessoas que cuidem para que ela não fique sozinha nem um só instante."
Fui inundado por uma onda de ternura pela imagem da menina correndo pelas ruas aprazíveis ao cair da noite, procurando uma amiga para dormir com  ela de modo a não ficar sozinha na casa vazia. Era como se a preocupação tivesse sido removida do meu coração e, mais do que isso, como se um novo horizonte tivesse se aberto, contendo uma promessa tranquilizadora. Apertei o  botão da campainha e pelo interfone pedi ao porteiro noturno que abrisse a  porta. Ele verificou a lista e, após encontrar o nome dela, abriu a porta automática, e eu me despedi; mas não deixei a varanda antes de dar um telefonema a  Micaela, desculpando-me pelo atraso causado pela carona que dera à vovó e  avisando que estava a caminho de casa.
Esse aviso era desnecessário para Micaela; mas para Amnon, que por alguma razão ainda estava à minha espera, foi importante saber que eu estava voltando. Só não pude evitar passar mais uma vez diante da casa dela, não só para  me certificar de que o carro de Hishin já não estava mais lá, mas também para  subir silenciosamente as escadas escuras e ficar parado junto à porta, prendendo a respiração, com a mão na maçaneta, para dar à minha amada a sensação  de que, embora a vovó tivesse voltado para casa, a filha dormisse em seu quarto,  o filho continuasse na rua, ela não estava sozinha.

2.
 
 
Será chegada a hora de refletir sobre o amor, de modo que aquilo que era  impossível se torne possível? Afinal o pássaro solitário