Você está na página 1de 44

MARQUES VALENTIM/FOTOBANCO

Edição Lisboa • Ano XXVII • n.º 9761 • 1,70€ • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • Director: David Dinis Adjuntos: Diogo Queiroz de Andrade, Tiago Luz Pedro, Vítor Costa Directora de Arte: Sónia Matos

Edição especial OBRIGADO SOARES
Edição especial
OBRIGADO
SOARES

ISNN-0872-1548

c70d4f5d-54f1-43ff-b8ed-442f706008d6

2 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

2 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 Soares morreu.

MÁRIO SOARES

1924-2017

Soares morreu. Começa agora o combate pela imortalidade

Ao fim de 26 dias em coma, Mário Soares morreu neste sábado. Começa agora o último combate, como disse o Presidente da República: “O combate pela imortalidade do seu legado”

Leonete Botelho

L utou como poucos contra a ditadura, foi preso, casou na prisão, teve de deixar o país. Regressou depois do 25 de Abril para ser um pouco de tudo na política (deputado, mi-

nistro, primeiro-ministro, Presidente da República e eurodeputado). Mário Soares, o rosto maior da democracia portuguesa, morreu neste sábado às

15h28, aos 92 anos. Começa agora o combate pela imortalidade. Soares estava internado desde 13 de Dezembro no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde entrou em situação crítica, depois de uma indisposição. Passou dez dias nos cuidados intensivos, para onde re-

gressou na véspera de Natal, depois de um súbito agravamento do estado de saúde e de ter entrado em coma profundo. De acordo com a vontade da família, não foi sujeito a mecanis- mos de suporte de vida. O Governo decretou três dias de luto nacional a partir de amanhã, dia em que o corpo de Mário Soares será levado para o Mosteiro dos Jeróni- mos, onde será velado na Sala dos Azulejos, e não na igreja, por sem- pre se ter assumido como laico. O funeral, que por ordem do Governo terá honras de Estado, realiza-se na terça-feira, com uma sessão evocati- va nos claustros do mosteiro às 13h, seguido de cortejo até ao Cemitério dos Prazeres, onde será sepultado a partir das 17h, ao lado da sua com- panheira de sempre, Maria de Jesus

Barroso. O primeiro-ministro não es- tará presente por se encontrar em visita de Estado à Índia, que decidiu não cancelar. A partir de Nova Deli, António Cos-

ta recordou Soares como alguém que

“durante toda a vida lutou pela liber- dade”. “Mário Soares deu um contri- buto único e insubstituível para ser- mos um país livre, democrático e eu- ropeu”, afirmou o primeiro-ministro, que lhe manifestou a sua “gratidão e saudade, que será eterna”.

Antes, como determina o pro- tocolo, o Presidente da República convocou o país a fazer, com Mário Soares “como inspirador”, o seu úl- timo combate: “O combate pela du- radoura liberdade com justiça, que é

o mesmo que dizer, o combate pela

imortalidade do seu legado.”

5

6|9

12|29

30|31

Evocação

Amava

Soares,

Geografia

e tributo a

a

vida.

o homem

de uma vida

Mário Soares

E, portanto,

que nunca

Por Sónia

Por Jorge

a

liberdade

desistiu

Sapage

Sampaio

Por Teresa

Por Nuno

de Sousa

Ribeiro

Sampaio Por Teresa Por Nuno de Sousa Ribeiro O Governo decretou três dias de luto nacional

O Governo decretou

três dias de luto

nacional a partir de

amanhã, dia em que

o corpo de Mário

Soares será levado para o Mosteiro dos Jerónimos.

O funeral realiza-se na terça-feira

Numa declaração no Palácio de Belém de cerca de 15 minutos, Mar- celo Rebelo de Sousa afirmou que “iremos vencer esse combate por- que dele nunca desistiremos, como Mário Soares nunca desistiu de lutar por um Portugal livre, uma Europa livre, um mundo livre”. “Como toda a personalidade de eleição, conheceu a glória e o revés”, mas “no que era decisivo, ele foi sem- pre vencedor”, afirmou o chefe de Estado. E o decisivo, disse-o ao longo de toda a intervenção, foi o seu com- bate de uma vida pela liberdade. “Foi pela liberdade que se viu per- seguido, preso e deportado, [.] por ela se bateu durante os anos quen- tes da Revolução”, lembrou Marce- lo. “Mas foi sobretudo como lutador pela liberdade que se revelou deter-

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 3

32|33

34|35

36|39

40

41

42

43

44

32 | 33 34 | 35 36 | 39 40 41 42 43 44

Os três

Mário Soares

O íman

O último

Um político

Mário Soares

O homem que

Obrigado,

Portugal de luto. Reacções

momentos

e a história

do mundo

resistente

para todas as

deixou-nos

nunca

Mário Soares

e desenvolvimentos em

mais

do século XX

Por José

que fundou a

estações

e deixou-nos

se deixou

Por Vicente

www.publico.pt

polémicos

Por Carlos

Manuel

democracia

Por Joaquim

tudo

abater

Jorge Silva

Por Luciano

Gaspar

dos Santos

Por São José

Vieira

Por Miguel

Por Rui Tavares

Alvarez

Almeida

Esteves Cardoso

ALFREDO CUNHA/ARQUIVO

contra a intervenção no Iraque. Marcelo sublinhou também a união de Soares com Maria de Je- sus Barroso, “sua mulher e com-

panheira de luta”. E a sua causa, acrescentou, foi sempre a mesma:

a liberdade. “Mário Soares é uma das grandes

figuras da história portuguesa do sé- culo XX e do início do século XXI,

e fundador do nosso regime demo-

crático”, lê-se no decreto aprovado pelo Conselho de Ministros por via electrónica, poucas horas depois do falecimento do antigo Presidente da República. No diploma, que decreta luto na-

cional nos dias 9, 10 e 11 de Janeiro

e estabelece que seja realizado um

funeral de Estado, é referido que

Dr. Soares: obrigado

um funeral de Estado, é referido que Dr. Soares: obrigado David Dinis Editorial P or ter

David Dinis

Editorial

P or ter lutado pela nossa liberdade. Por ter lutado por uma sociedade aberta, por uma verdadeira democracia. Por ter afastado os militares, no tempo certo, do poder civil. Por ter integrado a Igreja, mesmo sem ser crente. Por ter integrado os partidos, sobretudo os

a

República é devedora da “longa

de que mais discordava. Por ter debatido, por ter

e

incondicional dedicação à causa

discutido, por ter combatido. Por ter acreditado. Por

deixou a maior herança da sua geração, sabendo que

pública” de Mário Soares e do “seu exemplar contributo para o prestí- gio de Portugal”. “Pelos cargos cimeiros que ocu- pou no Estado e pelas decisões de largo alcance que tomou para o país, foi o protagonista político do nosso tempo e aquele que mais configu- rou a democracia portuguesa nas suas opções fundadoras”, lê-se no decreto, que recorda a vida do fun- dador do PS. Uma vida que merecerá honras de

ter cedido e decidido, por ter feito as pontes. Obrigado pelas vezes que ganhou, mas também pelas que perdeu, sem medo da derrota, sem se sentir derrotado. Obrigado por ter liderado em tempos difíceis. Por ter batalhado pela nossa pertença à Europa — e pela nossa permanência nela. Por ter presidido, liderado, representado. Por ter batalhado sempre pelas suas ideias. Por nunca ter desistido, até ao último dia da sua vida. Por nos ter dado sempre esse exemplo. Mário Soares morreu agora, sabendo que nos

foi o maior político do nosso último século. Sabendo

Estado também na morte. No entan-

que o país lhe reconhece e agradece o que lhe deixou:

 

to, a questão da trasladação de Mário Soares para o Panteão Nacional não será colocada tão cedo. Em Maio pas- sado, o Parlamento aprovou uma lei que estabelece a regra dos 20 anos para atribuir as honras do Panteão a qualquer personalidade após a sua morte. Mesmo uma lápide alusiva à sua vida e obra só pode ser afixada cinco anos após o óbito.

a

liberdade, a democracia, a abertura ao mundo e a

luta incessante pela modernidade. Devemos-lhe tudo isso e isto mais: o facto de ter sido ele próprio, longe de um Olimpo, próximo de todos. Em tantos anos de vida pública, Soares nunca quis

as águas mornas do consenso fácil, nunca teve medo de uma polémica, de um desafio, de uma derrota. Em tantos anos de exposição pública, vimos Soares sorrir, abraçar, brincar, ironizar. Como vimos também Soares zangar-se, irritar-se, errar, disparatar.

minante a criar a nossa democracia,

guém esquecerá” da vida de Mário

Mário Soares,

votar a nossa Constituição, a ver a lusofonia como comunidade de Es-

a

Soares, a começar pela “presença corajosa ao lado de Humberto Del- gado”, a resistência no exílio, o re- gresso a Santa Apolónia, o discurso

o rosto

maior da

tados soberanos e irmãos, a pedir a adesão às Comunidades Europeias e

democracia

A

lei determina que as honras de

A todo o Soares político, sobrepôs-se o Soares humano, sem nunca ter medo dos seus defeitos, sem nunca temer pelos seus excessos. Até isso Soares teve: foi um homem como os homens são, com tantos

portuguesa,

Panteão Nacional se destinam a ho- menagear “cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana

a

subscrevê-la”, acrescentou.

na Fonte Luminosa, o debate com Álvaro Cunhal. “Esteve disponível para servir co- mo primeiro-ministro em duas cri- ses financeiras graves”, recordou o Presidente da República, lembrando ainda a sua “tenacidade” no fim da primeira volta das eleições presi- denciais de 1986, que acabou por vencer. Enalteceu também o “calor irre- petível do encontro com os portu- gueses nas presidências abertas”, “o sonho e luta por um Timor Leste independente” e a participação do fundador do PS na manifestação

morreu aos

 

92 anos

Momentos de uma vida única

defeitos como virtudes. Foi isso que fez dele um líder.

Soares sonhava então, disse ainda Marcelo, “com uma Europa das pes- soas e da solidariedade” e foi ele que “abriu a nossa diplomacia ao mundo, condenou as violações dos direitos humanos e as intolerâncias interna- cionais, defendeu a igualdade que permitisse a verdadeira liberdade num quadro de um socialismo de- mocrático, lusíada, atlântico, univer- salista e progressista”. Marcelo Rebelo de Sousa lembrou também “as imagens únicas que nin-

O

nosso maior.

Em tantos anos de vida política, muitas vezes discordámos dele, muitas vezes nos irritámos com ele, muitas vezes discutimos com ele — porque ele gostava,

porque ele queria, porque ele as vivia. No dia da sua morte, um jornalista como eu, nascido

e

da

causa da liberdade”. Quando o

e

criado já em plena liberdade (que eternamente

momento chegar, não deverá haver dúvidas sobre a atribuição desta dis- tinção a Mário Soares. com Hugo Daniel Sousa

lhe agradecerei), deve-lhe agora esta homenagem:

entre todos os políticos a quem devemos uma palavra sentida, esse alguém é Mário Soares. Se há alguém que nos provou a importância da política, esse alguém é

lbotelho@publico.pt

Mário Soares. Por isto, por tudo, prestamos-lhe esta última homenagem: obrigado.

4 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

4 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 António Costa

MÁRIO SOARES

1924-2017

António Costa não suspende visita à Índia

Augusto Santos Silva e ex-assessor político de Soares consideram que primeiro-ministro replicou aquilo que seria a decisão de Soares, numa circunstância semelhante

Natália Faria

A panhado no início de uma visita oficial de seis dias à Índia, o primeiro-ministro, António Costa, decidiu não cancelar o périplo, onde se faz acompanhar por cinco

ministros, um secretário de Estado e cerca de 30 empresários. Era o que Mário Soares “faria em circunstân- cias semelhantes”, defenderam o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e o assessor político do antigo Presidente da República, Carlos Gaspar. Na primeira reacção à morte de Mário Soares, o primeiro-ministro começou por anunciar a decisão de o Governo decretar três dias de luto nacional, a partir desta segunda-fei- ra, e de garantir “honras de Estado” para o funeral do ex-Presidente da República, marcado para terça-feira. “Estando em visita de Estado, não poderei estar pessoalmente presen- te, mas envio daqui ao João, à Isabel [filhos] e aos netos de Mário Soares um grande abraço e uma saudade que, para mim, será sempre eter- na”, acrescentou o líder do execu- tivo, a partir de Nova Deli, deixando logo antever a decisão de manter a visita que decorre até quinta-feira, dia 12. Coube assim ao ministro dos Ne- gócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, sustentar que não faria sen- tido interromper a visita oficial. “Desconfio que, se Mário Soares soubesse, ficaria contente com es- ta decisão, porque ele sempre pôs

os interesses do Estado, da Nação e do povo português acima de quais- quer outros”, defendeu, para lem- brar que foi Mário Soares, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, que participou no restabelecimen- to das relações diplomáticas com

a Índia. De resto, o próprio Mário Soares, em circunstâncias absolutamente dramáticas, fez essa opção, quando estava a partir para uma visita de Estado à Hungria e à Holanda, em Setembro de 1989. Soube naquele momento que o seu filho, João So- ares, tivera um desastre de avião quando partia da Jamba (quartel- general de Savimbi em Angola) e que estava num hospital de Pretória, na África do Sul, às portas da morte. Maria Barroso partiu para a África do Sul. Soares manteve a viagem. Ao PÚBLICO, o seu antigo assessor político, Carlos Gaspar, considerou que a decisão de António Costa re-

produz de algum modo “aquilo que ele pensa que Mário Soares faria, numa situação deste tipo”. “Isto foi com certeza algo em que o primeiro- ministro pensou, mesmo antes de partir para a Índia. A morte de Mário Soares podia acontecer a qualquer momento e certamente o primeiro- ministro já tinha ponderado se ia ou se não ia e se interrompia ou não

a visita, se o dr. Mário Soares mor-

resse”, declarou, para acrescentar que lhe parece “justo” este critério. De resto, acrescentou, “não há ne- nhuma regra protocolar que se pos- sa aplicar neste caso”. “Faz todo o

sentido”, concluiu. com Teresa de Sousa e Luciano Alvarez

Sá Carneiro teve cinco dias de luto

C inco dias foi o limite máximo de luto nacional já decretado na democracia portuguesa. Aconteceu

em 1980, com a morte do então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, e do ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, quando o avião que os transportava se despenhou em Camarate. De resto, pela morte de antigos políticos, assim como de outras figuras nacionais como o futebolista Eusébio ou a fadista Amália Rodrigues, não há memória de decretos com mais do que três dias de luto nacional. A última vez que tinha sido decretado luto nacional foi em Abril de 2015, quando o executivo decretou dois dias pela morte do cineasta Manoel de Oliveira. O mesmo período durou o luto decretado pela morte de Álvaro Cunhal, em 2005. Mesmo antes da democracia, em Julho de 1970, a morte de António de Oliveira Salazar tinha levado a três dias

de luto nacional. Segundo a lei, o Governo declara o luto nacional, a sua duração e âmbito. Mas a lei não dá indicações temporárias sobre o luto, deixando toda a liberdade aos Governos.

Exéquias fúnebres têm lugar no Mosteiro dos Je

Mário Soares era agnóstico e por isso não será velado numa capela nem haverá missa de corpo presente, mas as cerimónias fúnebres terão honras de Estado. As exéquias, que têm início esta segunda-feira, vão decorrer até terça-feira, dia em que irá para o Cemitério dos Prazeres.

Esta segunda-feira, o corpo de Mário Soares

será transportado para o Mosteiro dos Jerónimos. Da sua casa, no Campo Grande, segue pela Avenida da República, Saldanha e Avenida da Liberdade, em direcção à Câmara de Lisboa.

Ali passará para uma charrete e inicia-se o cortejo com escolta a cavalo pela Avenida 24 de Julho até ao Mosteiro dos Jerónimos, onde ficará em câmara- -ardente na Sala dos Azulejos, momento em que

o

A
A
RESTELO Palácio de Belém BELÉM Mosteiro dos Jerónimos
RESTELO
Palácio de Belém
BELÉM
Mosteiro dos
Jerónimos

público poderá prestar a sua homenagem.

B
B

Na terça-feira será levado para o centro

do claustro daquele monumento, onde se realiza, a partir das 13 horas, uma cerimónia com intervenções dos filhos João e Isabel Soares, em que se ouvirão as vozes de Mário Soares e Maria de Jesus Barroso, seguidos de momentos musicais a cargo do coro e orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. Falam depois o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, terminando

a

Dali, o cortejo fúnebre segue para o Cemitério dos Prazeres, passando pelo Palácio de Belém, Assembleia da República, Fundação Mário Soares

e

partido de que é fundador. Nos Prazeres, a partir das 17 horas, serão prestadas honras fúnebres militares na Praça São João Bosco e só depois

o

cemitério. Já junto ao jazigo serão ouvidos os 21 tiros de salva de artilharia, a executar pela Marinha numa embarcação no Tejo.

A parte final da cerimónia

é reservada à família.

sessão evocativa com o hino nacional.

Largo do Rato, onde se encontra a sede do PS,

féretro será levado para o interior do

Percurso do cortejo com escolta a cavalo da GNR até ao Mosteiro dos Jerónimos

1 km

do cortejo com escolta a cavalo da GNR até ao Mosteiro dos Jerónimos 1 km Fonte:

Fonte: Presidência da República/PÚBLICO

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 5

Com o desaparecimento de Mário Soares, fecha-se um ciclo da nossa história. Importa agora saber imortalizar a sua memória Mário Soares, fecha-se um ciclo da nossa história. Importa agora saber imortalizar a sua memória

Jorge Sampaio Ex-Presidente da República

rónimos

LISBOA AEROPORTO CAMPO GRANDE (residência) ENTRECAMPOS C. PEQUENO SALDANHA Largo do Rato (sede do PS,
LISBOA
AEROPORTO
CAMPO
GRANDE
(residência)
ENTRECAMPOS
C. PEQUENO
SALDANHA
Largo do Rato
(sede do PS,
onde estará livro
de condolências)
M. POMBAL
Fundação
Mário Soares
Cemitério
ROSSIO
dos Prazeres
Assembleia
da República
ALCÂNTARA
Av. 24 de Julho

Câmara de Lisboa (momento em que o corpo é transferido para uma charrete)

Evocação e tributo a Mário Soares

para uma charrete) Evocação e tributo a Mário Soares Opinião Jorge Sampaio A 9 de Março

Opinião

Jorge Sampaio

A 9 de Março de 1996, depois de tomar posse como Presidente da República, entendi que o primeiro acto do meu mandato só poderia ser o de agraciar o dr. Mário Soares. Como

então afirmei, tratava-se de um sóbrio mas veemente testemunho de gratidão para com uma grande figura da democracia e da liberdade, pelo combate que travou por estes ideais, pela sua acção moral e política para os realizar. Revisito aqui esta homenagem, tanto mais cheia de fortíssimo simbolismo quanto foi com

o Grande Colar da Ordem da

Liberdade que entendi agraciar

Mário Soares, uma distinção que, como é sabido, se destina exclusivamente a chefes de Estado em exercício de funções. Ora, o carácter extraordinário de aquela condecoração lhe ser entregue na hora em que deixava de exercer o cargo de Presidente da República quis pôr justamente em evidência os méritos excepcionais da sua personalidade ímpar, bem como

a grandeza e o significado da obra

realizada, como tal considerada nacional e internacionalmente. De resto, outra distinção não faria sentido, de tal forma a vida e obra de Mário Soares traduzem da mais eloquente forma os valores e as razões subjacentes à Ordem da Liberdade, criada em 1976 e que se destina a “galardoar serviços relevantes prestados à causa da Democracia e da Liberdade”, distinguindo cidadãos que se notabilizaram “pela sua devoção à causa dos Direitos Humanos e da Justiça Social, nomeadamente na

defesa dos ideais republicanos e democráticos”. A vida inteira de Mário Soares confunde-se com a luta pela liberdade, pelos direitos humanos, pela solidariedade. Ele

é e permanecerá, aos olhos do

mundo, pelo seu combate, antes e

depois do 25 de Abril, símbolo da democracia portuguesa. Dotado de invulgar coragem e determinação, resistiu e combateu heroicamente a ditadura, durante décadas de “combate desigual”. Foi preso, exilado, deportado, perseguido. Nunca desistiu, nunca transigiu, nunca se acomodou. Depois do 25 de Abril, foi em boa medida graças a ele que a democracia portuguesa encontrou

o seu rumo, por entre tantos

perigos e tentações ilegítimas. Em todos os altos cargos públicos

que desempenhou, a liberdade foi sempre o sentido último da sua acção e do seu magistério. Homem de convicções, Mário Soares foi um humanista, um

homem universal, com uma cultura de abertura ao diferente

e ao novo, curioso de tudo, um homem que, acima de tudo,

amava a vida. Antes de ser o homem de liberdade que todos reconhecemos e saudamos, ele foi, como poucos, um homem livre e insubmisso, que nunca teve receio de seguir o seu caminho, mesmo quando este o levava para parte incerta ou se as suas opções se afirmavam à revelia do

senso comum. Homem de enorme independência de espírito e de apurado sentido crítico, nunca desistiu do que acreditava e entendia ser melhor para o seu país. Devemos-lhe o exemplo do cidadão íntegro e pleno, do político lutador, do democrata tenaz, do patriota republicano e do europeu convicto que fez da integração de Portugal na Europa

a expressão acabada da nossa

transição para a democracia. Devemos-lhe também a liderança forte do socialismo português,

que nunca deixou de afirmar e

por cujos ideais de solidariedade, mais igualdade e justiça sempre se bateu. Hoje perdemos a figura tutelar da nossa modernidade, Portugal está de luto profundo, a Europa

perdeu um obreiro da liberdade, da democracia, da justiça e da paz, valores e ideais em que se alicerça a nossa casa comum. A lógica da vida humana manda que ninguém seja insubstituível. Mas, por outro lado, no plano da nossa comunidade nacional, há compatriotas que simplesmente lhe são consubstanciais. Mário Soares é, sem dúvida alguma, uma dessas raras figuras de excepção. Com o seu desaparecimento, pesa- -nos a ausência funda de um ente

querido, cujo amor incondicional pelo seu país enformou parte do que somos hoje, como nação

e comunidade de destino.

Neste sentido, fazemos todos parte da sua prole, quer como portugueses, quer como membros

da família socialista. Conheci Mário Soares há 50 anos. Fomos companheiros de

combates pelas mesmas causas.

Cultivámos uma sólida amizade, feita de respeito mútuo e da grande admiração que por ele sempre nutri. Luto, vazio e perda irreparável são palavras, poucas

e pequenas, para expressarem

a partida, sem regresso, deste

velho e ímpar amigo. Qualquer morte, mesmo que anunciada,

é sempre abrupta. Mas é-o

ainda mais quando sabemos que, com ela, vem o adeus a um tempo e a uma época que inexoravelmente findam também.

Com o desaparecimento de Mário Soares, fecha-se um ciclo da nossa história. Importa agora saber imortalizar a sua memória e o seu legado, que esses perdurarão para além do tempo dos homens. Importa, pois, perpetuá-los, com

a mesma pujança e o sentido

íntegro e pleno da democracia

e da liberdade que sempre

moldaram o seu gosto intenso

pela vida.

6 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

6 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 Amava a

MÁRIO SOARES

1924-2017

Amava a vida. E, portanto, a liberdade

Esteve sempre do lado onde estava

a liberdade. É isso que lhe devemos.

É essa a sua herança nestes tempos

conturbados que vivemos

É essa a sua herança nestes tempos conturbados que vivemos Análise Teresa de Sousa A angústia

Análise Teresa de Sousa

A angústia de ter de preencher o espaço em branco a brilhar no ecrã persegue-me há já algum tempo. Como escrever à altura de um colosso político a quem o país deve as duas melhores

coisas que lhe aconteceram e que se resumem a duas palavras que querem dizer tudo. Democracia e Europa. Como retratar quem andou sempre à frente do seu tempo, mesmo quando estava completamente sozinho na sua razão? Quem nunca, mas nunca, baixou a cabeça perante ninguém ou nenhum combate, que desprezava aqueles que se encolhiam perante as adversidades da História, que viam o mundo em formato pequeno, que estavam sempre prontos a desistir antes de o combate começar? Nunca confundiu o lado da barricada em que deveria estar. Foi sempre do

lado da liberdade, fosse qual fosse

o seu nome.

Acusaram-no de ser “amigo dos americanos”, nos dias conturbados do PREC. Talvez não soubessem que se reunia com Frank Carlucci, num zimbório no telhado da residência do embaixador americano em Lisboa,

para garantir o apoio dos Estados Unidos, caso a ofensiva comunista pusesse em causa a democracia nascente e a pertença do seu país ao mundo livre. Quando, em 2006, almoçou com Carlucci nesse mesmo sítio, disse-me que sempre entrara pela porta da frente. Chamaram-lhe direitista, quando anunciou que o socialismo ficaria uns tempos na gaveta, até

o país conseguir pôr a economia

de pé. “Não se trata agora de construir o socialismo. Trata-se de recuperar a economia deste país, para salvar a democracia portuguesa.” Dizer isto em 1978, na posse do seu segundo Governo (com o CDS), era visto como uma

afronta por quase toda a esquerda, incluindo a sua. Mais uma vez, era ele que tinha razão. Tal como era ele o único líder democrático português que podia ligar a Willy Brant ou Helmut Schmidt

e dizer que as divisas do Banco

de Portugal estavam a acabar e que precisava rapidamente de um empréstimo para salvar a democracia. Ele, que nunca deixou de

acreditar que era possível salvar

a democracia, quando o PCP e

a União Soviética estavam na

ofensiva, aqui e em quase todo

o mundo. Que nunca se vergou

às teses pessimistas de Henry Kissinger quanto ao futuro de

Portugal do lado das democracias

e não do lado da União Soviética.

Kissinger convidou-o a ficar nos Estados Unidos e a dar aulas na

universidade. Toda a gente sabe

o que Soares lhe respondeu. O

velho guru da política externa americana admitia que a queda

de Portugal para o outro lado poderia servir de “vacina” aos outros países da Europa ocidental onde os comunistas tinham uma forte implantação. Sempre, mas sempre, criticou os que se rendiam à inevitabilidade ou que consideravam que o país era um caso perdido, pelo qual já nem valia a pena lutar.

Durante 30 anos combateu

o fascismo, 13 vezes na cadeia,

que não lhe tirava o sono, uma deportação, dois exílios. Até à madrugada desse dia que iniciou

a terceira vaga da democratização

do mundo, precisamente aqui. A liberdade estava-lhe no sangue e

foi isso que fez com que raramente se enganasse sobre o seu lugar em cada combate. Venceu as primeiras eleições livres a 25 de Abril de 1975 para a Constituinte, que permitiram tirar pela primeira vez a fotografia da importância eleitoral de cada partido que emergiu da revolução. O PS venceu-as folgadamente. Seguiu- se-lhe o PPD/PSD. Álvaro Cunhal

não aceitou o resultado das urnas (não passou dos 14%), transferindo

a luta para a rua. Soares sabia que

era preciso derrotá-lo também aí. “Ele estava de olhos meio fechados, enquanto nós discutíamos onde devia realizar-se um grande comício para provar

que o PS também era capaz de mobilizar o povo”, contou-me há muitos anos António Lopes Cardoso, então membro da direcção do PS. Uns diziam que

podia ser no Coliseu, outros no

Pavilhão dos Desportos. Todos

à volta da mesa tinham receio

de um fiasco. Soares levantou-se

e

limitou-se a dizer onde seria

o

comício: na Alameda. Fez-

se um silêncio profundo. Não se enfrentava o PCP de outra

maneira. Hoje sabemos o que

aconteceu. Foi o ponto de viragem.

A prova da rua que o PS precisava.

Sempre soube exactamente o que queria. Naquela altura, sabia que era preciso garantir a democracia própria dos países livres. Sem

qualquer concessão a tutelas militares ou a terceiro-mundismos românticos a que pouca gente resistiu. É isso que o país lhe deve

em primeiro lugar. Foi nisso que sempre foi único.

Do lado da liberdade

No primeiro 4 de Julho passado depois dos Cravos, Vasco Gonçalves avisou os seus ministros de que não deviam ir à festa convocada pela embaixada americana. “Eu tenciono ir, se

quiser, pode demitir-me.” Foi ele e um grupo muito restrito de gente.

A

maioria não conseguiu enfrentar

o

ambiente de perseguição criado

pelo PCP. Quando, em 1983, François Mitterrand convocou os líderes da Internacional Socialista

para um jantar, com a ideia de

debaterem o pedido americano para colocar em território europeu mísseis de médio alcance, capazes de responder aos SS-20 que Moscovo colocara do lado de lá do muro, o assunto não era nada pacífico. O jovem Neil Kinnok, líder do Labour em véspera de eleições, declarou que não só era contra como tencionava, caso vencesse, desarmar unilateralmente o seu país. Soares não resistiu. “Então faço votos para que as perca.” Caiu o Carmo

e a Trindade, com os nórdicos,

mais pacifistas, a criticá-lo e Felipe González a tentar pôr água na

fervura. “A reacção mais normal até foi a do próprio Kinnock”, contou ele muito mais tarde. Foi sempre assim. Nunca se calou.

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 7

Nunca confundiu o lado da barricada em que deveria estar. Foi sempre do lado da liberdade

ENRIC VIVES-RUBIO

estar. Foi sempre do lado da liberdade ENRIC VIVES-RUBIO Na democracia também se perde Quando se

Na democracia também se perde

Quando se candidatou em 1985, depois de aplicar um duro programa de austeridade e de levar o país até à Comunidade Económica Europeia, a sua popularidade estava próxima do zero. Muita gente achava que o “leão moribundo” já fizera o suficiente pelo país para poder retirar-se. Qualquer um, à esquerda e à direita, lhe poderia ganhar. Os seus amigos tentavam convencê-lo de que não se devia sujeitar a uma humilhação que ensombraria o seu lugar

na História. Um dia, um deles visitou-o ainda em São Bento, para convencê-lo a abandonar essa ideia. Quando esgotou os argumentos, Soares chamou-o para junto da janela do último andar onde estavam. “Se você se atirasse daqui a baixo, o que acontecia?” Provavelmente morria. “Pois é, eu acredito que apenas partiria uma perna.” Tinha outro argumento, com o qual me respondeu quando fui falar com ele já à sede da campanha, no Saldanha, e resolvi, estupidez minha, voltar ao velho argumento. Levantou-se. Deu uma volta à secretária e disse-me:

“Vocês são todos uns grandes democratas, mas não conseguem entender que, na democracia, alguém tem de perder.” Escreveu dois discursos para o dia da

segunda volta, a 16 de Fevereiro,

o da vitória e o da derrota, que

conservou até hoje. No que nunca leu, a mensagem era só uma:

“Não desistirei.” Nunca desistiu.

Enfrentou o seu próprio partido em momentos difíceis, quando

a clarificação da esquerda ainda

estava por fazer e a tentação do

eanismo pairava sobre o destino do PS e o lugar onde a esquerda devia ficar. A sua vitória na primeira volta das presidenciais

Durante 30 anos combateu o fascismo, 13 vezes

na cadeia, que não lhe tirava o sono, uma deportação, dois exílios

sobre Salgado Zenha, apoiado por Eanes e bem visto pelo PCP, e Maria de Lourdes Pintasilgo, com a sua democracia participativa bem- intencionada mas bastante pouco

europeia, resolveu o problema. Foi um combate tremendo. Zenha era o seu “irmão”,

o padrinho de Isabel, que se

ocupava da sua família enquanto ele estava na cadeia ou no exílio. Mas há quase sempre um momento em que os “número

dois” se cansam de o ser. Soares nunca escondeu a sua admiração por ele. “Era o único que tinha

a coragem de me enfrentar

abertamente.” Zenha dividia o PS ao meio. Tornava quase impossível

a passagem de Soares à segunda

volta. Soares venceu todos os

debates televisivos, menos aquele que travou com Zenha. Estava abatido. Hesitante. Magoado. Zenha foi, como era sempre, muito mais frio. Era fácil derrubá- lo, pensavam os seus opositores, porque a dose de austeridade que teve de aplicar ao país durante dois anos atingira duramente as classes trabalhadoras, com o desemprego a subir e as bandeiras negras da fome constantemente hasteadas à porta do Palácio de São Bento. Resolveu de uma vez o destino da esquerda em Portugal. Venceu aquela que era a sua, social-democrata. Na segunda volta, o debate televisivo com Freitas do Amaral foi igualmente decisivo. Soares era um adversário temível na televisão. Era como se estivesse em casa. No fim do debate, já na sala da maquilhagem, sentados lado a lado, vi Freitas do Amaral esticar a mão, tocar-lhe no braço

e dizer apenas “obrigada”.

Obrigada? Perguntei a Soares o

que fora aquilo. “Não foi nada. Ele apenas me agradeceu o facto de eu não ter recordado que foi ele um dos que expulsaram o meu filho da universidade.” Não foi isso que impediu Soares de ser implacável. A campanha não começou da melhor maneira, com a sua equipa desanimada e preparada para levar a cabo uma luta inglória. Soares não era recebido com

a habitual simpatia. Até ao dia

em que a sua comitiva parou na Marinha Grande para uma visita

à Fábrica Stephens. Era uma

c

8 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

8 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 vila com

MÁRIO SOARES

1924-2017

vila com uma longa tradição de resistência ao fascismo onde o PCP sempre dominou. Os socialistas locais quiseram dissuadir Soares de fazer a visita, dizendo-lhe que lhe barrariam a entrada pela força. Fez, obviamente, o contrário. Agrediram-no com violência. Entrou na fábrica. As imagens correram o país. Foi a

memória que voltou. A partir daí a campanha ganhou a dinâmica que

a levaria até ao fim. Soares voltou a ser “fixe”. Depois da eleição de Ramalho Eanes em 1980, teve de reconquistar o PS a pulso, sede

a sede, militante a militante, por

todo o país. Estava sozinho na sua oposição ao apoio socialista ao segundo mandato do Presidente. Apenas Sá Carneiro via Eanes da

mesma maneira que ele. Teve

obviamente razão. Eanes tratou de demonstrá-lo quando patrocinou

o PRD, que tinha como objectivo

acabar com o PS de Soares. Contou-me muito mais tarde que, na véspera da sua decisão de abandonar temporariamente o PS para não apoiar a candidatura do general, dormiu mal (coisa que raramente lhe acontecia, até no Aljube), acordou mal-disposto sem saber porquê. Foi nesse preciso momento que decidiu suspender a sua militância socialista e anunciar que não apoiaria Eanes. A má disposição passou. Há coisas, como a liberdade ou a recusa em aceitar o que não se defende, que eram nele quase viscerais.

Cidadão do mundo

Conhecia meio mundo,

incluindo muitos líderes políticos internacionais. Deixou de ter qualquer dúvida sobre Gorbatchov quando o visitou em Moscovo

e falou longamente com ele.

“Percebi que falámos a mesma linguagem.” Em 1982, Willy Brandt, então presidente da IS, encarregou-o de uma missão sobre o Médio Oriente, para tentar perceber as perspectivas de paz. Conhecia muito bem Shimon Peres. Nunca tinha falado com Arafat, na altura fechado no seu bunker em Beirute, cidade dividida e em guerra. Ninguém o conseguiu dissuadir de visitar Arafat. Embarcou

num cargueiro de bandeira cipriota em Nicósia (apenas descobriu que levava tanques de guerra no porão quando os viu desembarcar em Beirute), para chegar ao Líbano, onde o aguardava um funcionário da IS com um automóvel. Atravessou

a linha de demarcação sob fogo

permanente. Uma bala atravessou

o pára-brisas e encaixou-se no

assento de Bernardino Gomes

(que faleceu recentemente e que

o acompanhou quase sempre).

Ninguém quebrou o pesado silêncio. Soares encontrou-se com

o líder da OLP no seu bunker para

tentar percebê-lo. Tinha histórias magníficas sobre muitos líderes mundiais, que adorava contar e que diziam mais sobre eles do que muitas páginas de análises. Se esteve atento ao debate entre os comentadores nacionais sobre

se Fidel era ou não um ditador,

teria dado uma sonora gargalhada. Na década de 1980, numa cimeira ibero-americana que contou com

a presença (e o longo discurso) de

Fidel, disse a uma jornalista que o homem era um dinossauro em vias extinção. Foi um escândalo. Nunca lhe passou pela cabeça outra coisa.

Nunca perdia um bom combate

Nunca perdia um bom combate.

Quem fez campanhas eleitorais com ele, sabe que atravessava

a rua para ir falar com quem o

estivesse a insultar. Era disso que gostava mais, para além dos banhos de multidão e das almoçaradas. “Eu gosto das pessoas e percebo-as”, disse- me um dia, sobre a sua intuição política e a sua popularidade Também nunca deixava cair um amigo, quando estava na mó

de baixo. Foi assim com Ricardo Salgado ou com Sócrates, mas com muita outra gente desconhecida. Estava bem na rua ou na tasca, no mais selecto dos restaurantes, numa sala resguardada de um banco ou num palácio real.

Salvar a economia

Quando pegou no país em 1976, chefiando o primeiro Governo Constitucional, a economia estava de rastos e os cofres do

Estado vazios. O 11 de Março e

as nacionalizações tinham sido

o último prego no caixão. Silva

Lopes, então governador do Banco de Portugal, telefonou-lhe às três da manhã a dizer que o Estado não tinha divisas para importar fosse

o que fosse, incluindo farinha de

trigo para o pão. Disse-lhe para ir dormir, que era o que ele próprio

ia continuar a fazer, que na manhã

seguinte enfrentariam o problema. Telefonou ao então chanceler

Helmut Schmidt. Não foi a única vez. Teve recorrer a um “grande

empréstimo” financiado em parte

pelos EUA e por alguns países europeus, para conseguir sair da

crise. A moeda de troca foi aceitar

a presença do FMI. Constâncio

era na altura o seu ministro das Finanças. Em 1983, com o desequilíbrio insustentável da balança com o exterior no fim do último governo da AD (aliança entre PSD, CDS e

PPM), voltou a vencer as eleições

e regressou ao governo para

resolver mais uma crise. Fez uma campanha eleitoral a prometer austeridade. Antes, tinha-se entendido com Mota Pinto para

a criação de um governo de

coligação PS-PSD, a única maneira de enfrentar a crise financeira. Seria primeiro-ministro quem as ganhasse. Foi por isso que “pude dizer a verdade aos eleitores”. Teve em Mota Pinto um aliado que acabou por ser um

amigo. Ambos enfrentaram uma crise tremenda, com enormes custos sociais, sem se deixarem pressionar pelos respectivos partidos. O caminho terminou em Junho de 1985, quando foi assinado o Tratado de Adesão à Comunidade Económica Europeia. No dia seguinte, Eanes demitiu o seu Governo. Sabia que estes dois anos lhe podiam ter custado as presidenciais. Não contou com a emergência de Cavaco Silva, que impossibilitou qualquer hipótese de acordo para as presidenciais. Não deixou de fazer o que era preciso. Quando Ernâni Lopes chegava com mais um corte no subsídio de Natal, perguntava- lhe: “Tem mesmo de ser?” Tinha mesmo de ser. As bandeiras negras dos operários da cintura industrial estavam todos os dias lá, à porta

ser?” Tinha mesmo de ser. As bandeiras negras dos operários da cintura industrial estavam todos os

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 9

ALFREDO CUNHA/ARQUIVO

Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 9 ALFREDO CUNHA/ARQUIVO de São Bento. Hoje, a direita

de São Bento. Hoje, a direita criou a sua própria narrativa sobre as duas grandes crises

que Soares venceu. Diz que foi

o PSD que sempre salvou o país

da bancarrota, para o qual o PS o empurrou por duas vezes antes da última. Conseguem dizê-lo sem

se rir. No Palácio de Belém iniciou um estilo de presidência novo, que passava pelas visitas ao país,

a melhor forma de conhecer os

problemas das pessoas reais. O seu estilo marcou os seus sucessores, à excepção de Cavaco Silva.

O último combate

No final da sua vida política, travou mais um combate que

muita gente não percebeu. Contra

o neoliberalismo ou, como ele

dizia, a “economia de casino”, desligada da realidade, insensível a qualquer sentido de solidariedade social, dona dos mercados e, consequentemente, do mundo globalizado. Fê-lo bastante antes da crise financeira de 2008, que se abateu sobre as grandes economias ocidentais e deixou um mar de sofrimento, de dificuldades

Não desperdiçava um bom momento de conversa ou um bom restaurante. Tinha uma força anímica difícil de acompanhar. Dava-se bem com toda a gente. Mas não perdoava facilmente a quem o traía

e de incertezas que ainda hoje

perduram. Na altura, ninguém compreendeu muito bem a

sua mensagem. Hoje, temos de reconhecer que tinha, em boa parte, razão. O que ele anunciou aconteceu. A economia estourou abrindo as portas à maior recessão desde a Grande Depressão de 1929. Não lia os dossiers (não era bem

assim) e nada sabia de economia. Não precisava. Enfurecia-se com aqueles que diziam que não havia alternativa ao “pensamento único”. Avisava para a revolta das massas contra uma elite política que deixara de ter qualquer sentido ético (“dominada pelo dinheiro, sem princípios nem visão global”) ou qualquer

capacidade para ouvir os seus problemas. Uma vez, em 2007, estava ele no Vau, José Sócrates pediu-lhe para ir almoçar com ele a São Bento. Estava eufórico, conta Soares. “Queria dizer-me que conseguiria reduzir o défice para um valor abaixo dos 3%.” Eu disse-lhe: “Oh homem, mas você ainda não percebeu o que aí vem?

Daqui a pouco, vai ver que isso não interessa nada.” “Ele até ficou um pouco zangado comigo.” Vivemos hoje aquilo que ele previu. Em 2011, num livro com uma longa entrevista que lhe fiz sobre

a crise (Portugal Tem Saída!),

insistia em que o caminho que

a Europa estava a seguir levaria

inexoravelmente à revolta das pessoas. Mais uma vez teve razão.

Muitos de nós pensávamos que a sua viragem à esquerda não era compreensível. Não era disso que se tratava. Era da confiança das pessoas na democracia e na igualdade de oportunidades que desaparecia perante as regras dos mercados e a globalização desregulada e destinada a maximizar o lucro. Descobriu Obama muito cedo e acreditou profundamente nele. Viu-o ainda perder algumas batalhas. Não deixou de acreditar. Mas enganam-se aqueles que dizem que ele não compreendeu

a necessidade da austeridade,

quando da crise da dívida e do euro. Nunca Soares deixou de dizer que a nossa pertença ao euro exigia sacrifícios, incluindo o resgate de 2011. Nessa entrevista,

nem sequer criticava demasiado

o programa da troika. Aceitava a

ideia de que era preciso vivermos um pouco mais modestamente, mas lembrava aquilo que o país tinha ganho, da saúde à educação, passando pelo bem-estar geral das pessoas e o seu direito a uma vida digna. Pedro Passos Coelho, antes

de constituir governo, foi visitá-lo à Fundação. Soares recebeu-o bem, mostrou-se compreensivo e até simpatizou com ele. Apenas algum tempo depois percebeu que a sua fé no neoliberalismo o ia levar a um caminho que nunca poderia apoiar. Ignorava as pessoas e o seu sofrimento em nome de uma ideia que já estava ultrapassada.

É verdade que tomou algumas

posições controversas. Apoiou

líderes estrangeiros, como Chávez, que pouco tinham de democratas. Defendeu uma viragem à esquerda do PS pouco consentânea com

a sua própria herança socialista.

Talvez porque era um crítico implacável da “terceira via”. A sua segunda candidatura presidencial foi um erro, como muita gente lhe disse. Depois da derrota, bastou- lhe uma semana para digeri-la. Depois seguiu em frente.

A sua Europa está

a desaparecer

Bateu-se incansavelmente pela Europa. Conseguiu assinar o

Tratado de Adesão, em Junho de 1985, antes de ser demitido por Ramalho Eanes. Foi, por vezes, uma luta solitária, que muita gente considerou impossível, que muita gente temeu. É o segundo legado que lhe devemos. “A pertença a essa Europa verdadeira, que ficava para lá dos Pirenéus”, como dizia Eduardo Lourenço. Democrática, próspera e socialmente justa. Que serviria também para garantir a irreversibilidade da democracia. Não foram batalhas fáceis, como hoje à distância nos parecem. Nunca baixou a cabeça perante ninguém nem perante qualquer desafio. Tinha um orgulho enorme no país, na sua capacidade de

regeneração. Desprezava toda

a espécie de Velhos do Restelo.

Quando esteve na moda a recuperação do papel de D. Carlos no desenvolvimento do país, em contraponto à I República, ficou

do país, em contraponto à I República, ficou Portugal de luto. Reacções e desenvolvimentos em

Portugal de luto. Reacções e desenvolvimentos em www.publico.pt

indignado. “Como é que se pode

defender um rei que chamava

o país de piolheira?” Irritava-se

com a intelectualidade que dizia mal da pátria e a condenava à mediocridade. Quando choviam as críticas pequeninas às suas visitas de Estado, acompanhado por comitivas que incluíam empresários, artistas, intelectuais, sindicalistas, políticos, respondia da mesma maneira: “Não me vou apresentar de chapéu na mão.”

A coragem

Tinha uma enorme coragem. Uma

vez, no seu escritório da casa do Vau, enquanto gravava a última

conversa antes de escrever uma pequena biografia, perguntei- lhe de onde vinha essa coragem. Começou a andar à volta da secretária, parou à sua frente. “Não sei bem. O que lhe posso

dizer é que, se entrasse neste momento alguém por aquela porta com uma pistola apontada

e me mandasse ir para debaixo da

secretária, eu não iria.” “Isso, eu sei.” Era também a coragem que apreciava nos políticos. Não desperdiçava um bom momento de conversa ou um

bom restaurante. Tinha uma força

anímica difícil de acompanhar. Dava-se bem com toda a gente. Mas não perdoava facilmente

a quem o traía. Tinha enormes

defeitos que eram o preço das suas qualidades únicas. Como quase todos os grandes líderes das democracias com quem conviveu ou que admirou. Churchill ou Brandt. Como eles, a História tinha um encontro marcado com ele ao qual não faltou e para o qual esteve à altura. Estar-lhe- emos eternamente gratos. Saiu de cena sem ver, porventura, os seus piores receios acontecerem. Não estará cá para combatê-los. Era o que faria. Acreditava nos homens de carne e osso. Na vida. E, portanto, na liberdade. Sophia foi talvez quem o descreveu melhor, numa simples frase. “Apoio a candidatura de Mário Soares à Presidência da República sabendo

que, haja o que houver, ele estará sempre onde estiver a liberdade e onde estiver a coragem.”

teresa.de.sousa@publico.pt

10 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

10 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 Marcelo Rebelo

MÁRIO SOARES

1924-2017

8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 Marcelo Rebelo de Sousa Resta a Mário

Marcelo Rebelo de Sousa Resta a Mário Soares, como inspirador, travar o derradeiro combate, pela duradoura liberdade da justiça (…) É o combate da imortalidade do seu legado. Iremos vencê-lo por ele. Nunca desistiremos, como Soares nunca desistiu de Portugal, da Europa e do mundo livre. Mário Soares foi sempre um vencedor

António Costa Perdemos hoje aquele que foi tantas vezes o rosto e a voz da nossa liberdade. Mário Soares foi um homem que durante toda a sua vida se bateu pela liberdade

Ferro Rodrigues Foi o militante ‘número um’ da política portuguesa (…) Mário Soares teve razão antes do 25 de Abril, teve razão antes da queda do muro de Berlim

25 de Abril, teve razão antes da queda do muro de Berlim Passos Coelho Será impossível

Passos Coelho Será impossível escrever a História de Portugal das últimas dezenas de anos sem encontrar referências à sua intervenção, muitas vezes decisiva

Cavaco Silva Não é o tempo de relembrar discordâncias do passado, mas (…) de reconhecer quanto Portugal deve a Soares (…) Portugal perdeu um dos maiores políticos do séc. XX

(…) Portugal perdeu um dos maiores políticos do séc. XX Assunção Cristas O CDS teve gr

Assunção Cristas

O CDS teve grandes

divergências com Mário Soares, mas

não esquece o seu papel fundador no Portugal

democrático,

especialmente

no difícil período

revolucionário

em que se opôs à

hegemonia política e

totalitária

PCP Lembrando o seu passado de

antifascista, o PCP regista as profundas

e conhecidas

divergências que marcaram as relações do PCP com

o dr. Mário Soares,

designadamente

pelo seu papel destacado no combate ao rumo emancipador da Revolução de Abril e às suas conquistas, incluindo a soberania nacional

e às suas conquistas, incluindo a soberania nacional Martin Schulz O seu legado vai perdurar Robert

Martin Schulz

O seu legado vai

perdurar

Robert Sherman

Passou

inúmeras horas

a

colaborar com

o

embaixador

Frank Carlucci

para promover

a democracia

e os direitos humanos em

Portugal

Felipe IV O seu papel na

transição

democrática

converteram-no

num dos grandes líderes europeus do último século

François Hollande Portugal perdeu um dos seus heróis, a Europa um dos grandes líderes e a França um amigo

Catarina Martins

Foi contraditório e frontal nas lutas que escolheu. Marcou todos os momentos determinantes da vida do país, por vezes em conflito

e outras vezes em

aliança com forças

de esquerda

conflito e outras vezes em aliança com forças de esquerda Manuel Alegre É a perda do

Manuel Alegre É a perda do último grande estadista europeu. É o grande construtor da democracia

portuguesa

Pinto Balsemão Foi

para a rua quando foi

preciso

António Guterres

Mário Soares moldou

a vida política em

Portugal de forma

indelével

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 11

Jorge Sampaio

Foi preso, exilado, nunca perdeu o seu amor por Portugal. Sempre acreditou naquilo que era

o interesse de

Portugal e no que era

Augusto Santos

Silva Soares é o pai do reencontro de Portugal com a sua

história

António Arnaut

É uma das raras

estrategicamente

personalidades que

vital para a

não precisam de

democracia

morrer para entrar

portuguesa

na História

Santana Lopes É um dia muito triste

Helena Roseta

Helena Roseta

para Portugal. Mário Soares faz parte das pessoas que não querem que

estejamos tristes, mas que lembremos

Mudou a história de Portugal, do mundo

o que fizeram na

vida. Ninguém o

vergava

Portugal, do mundo o que fizeram na vida. Ninguém o vergava Adriano Moreira Definitivamente ficará na

Adriano Moreira

Definitivamente

ficará na História de

Portugal

e a minha vida

Basílio Horta Homem de grande lucidez, com uma

vasta cultura e uma larga capacidade

mobilizadora,

foi o rosto de grandes causas

e de momentos

marcantes para

Portugal, para a Europa e para o

mundo

marcantes para Portugal, para a Europa e para o mundo Lula da Silva Mário Soares foi

Lula da Silva Mário Soares foi um dos grandes homens públicos do século XX, não só de Portugal, mas da Europa e do mundo

Mariano Rajoy Os meus sentidos pêsames ao povo português e à família de Mário Soares, grande europeísta e homem decisivo na democracia lusa

Jean-Claude Juncker Com a sua morte, Portugal e a Europa perdem

um pouco de si

) (

contribuiu para tornar irreversível um processo de

democratização que alastraria pelo Sul da Europa

Mário Soares

que alastraria pelo Sul da Europa Mário Soares D. Manuel Clemente É um tempo para agradecer

D. Manuel Clemente

É um tempo

para agradecer

e enaltecer o

seu papel para o estabelecimento da democracia em Portugal

Ana Catarina Mendes Soares é fixe. Até sempre, Mário Soares

Marques Mendes Foi a maior figura da democracia portuguesa pelas suas qualidades políticas que ele evidenciou e que do meu ponto de vista são sobretudo a coragem política, a visão e o sentido estratégico e a sua enorme intuição

a visão e o sentido estratégico e a sua enorme intuição Mota Amaral O gosto pela

Mota Amaral

O gosto pela política

e a arguta intuição sobre as evoluções sociais em curso não o deixaram

calar-se, mesmo

depois de terminada

uma intensa e frutuosa actividade

pública

de terminada uma intensa e frutuosa actividade pública José Sócrates O que ele fez por mim

José Sócrates

O que ele fez por mim nos últimos tempos ficará para sempre no coração

Paulo Rangel Foi livre

e libertou. A Europa foi o seu sonho e

a sua paixão para

Portugal

Rui Veloso Foi

provavelmente

a maior figura

da democracia portuguesa, homem de cultura e de visão

12 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

12 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 Soares, o

MÁRIO SOARES

1924-2017

Soares,

o homem que nunca desistiu

Mário Soares foi o

homem, o político,

o pensador, o

fundador da

democracia. Viu, viveu, fez viver

e fez mudar.

Poucos como ele ficarão nos livros da história. Uma história de alguém

que nunca desistiu

e que aqui se

descreve

Poucos como ele fi carão nos livros da história. Uma história de alguém que nunca desistiu

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 13

ALFREDO CUNHA/ARQUIVO

Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 13 ALFREDO CUNHA/ARQUIVO LUÍS VASCONCELOS LUÍS VASCONCELOS Nuno Ribeiro

LUÍS VASCONCELOS

de 2017 • 13 ALFREDO CUNHA/ARQUIVO LUÍS VASCONCELOS LUÍS VASCONCELOS Nuno Ribeiro N o sábado 23

LUÍS VASCONCELOS

13 ALFREDO CUNHA/ARQUIVO LUÍS VASCONCELOS LUÍS VASCONCELOS Nuno Ribeiro N o sábado 23 de Julho, nu-

Nuno Ribeiro

N o sábado 23 de Julho, nu- ma tarde de canícula, am- parado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e acompanhado pelo primeiro-ministro,

António Costa, Mário Soares apa- receu, com passo tímido, por entre duas portas da residência oficial de São Bento. Percorreu lentamente a curta distância que o separava de um alpendre. Sentado num cadeirão, de boné na cabeça, acompanhado

pelos filhos João e Isabel e por netos

e bisnetos, foi deste palco improvi-

sado que assistiu às comemorações do 40.º aniversário da formação do

I Governo constitucional liderado

por si, o primeiro executivo saído de eleições livres. Foi uma oportunidade

de o país político, de correligionários

e adversários, de amigos e antigos co- laboradores, lhe prestarem em vida uma última homenagem.

Nos jardins de São Bento ouviram- se discursos sobre o início da cami- nhada democrática e constitucional da política portuguesa no último quartel do século XX. Mas o acto ti- nha outro simbolismo que não o dita- do pelo calendário. Boa parte da clas- se política ali estava: Ramalho Eanes, Passos Coelho, Costa e os ministros do actual Governo. E também corre- ligionários: Manuel Alegre, António Arnaut e Rui Vilar. Amigos pessoais de outras áreas — Leonor Beleza, Pro- ença de Carvalho, Ângelo Correia, Francisco Pinto Balsemão e Carlos Pimenta. Ex-colaboradores como Carlos Gaspar ou Joaquim Brandão.

Admiradores do seu pensamento, co- mo Eduardo Lourenço e André Frei- re, e da sua praxis, como o coronel

Vasco Lourenço. E amigos cúmplices, como o padre Vítor Melícias. As palavras mais proferidas nessa tarde foram “pontes”, “consensos”

e “coragem”. A Soares chegavam al- gumas destas palavras nas explica- ções dos filhos João e Isabel, quan-

Mon ami Mitterrand”, a frase com que Soares marcava a sua influência política fora de portas

do o ruído da zona abafava o som da megafonia. Foi o prazer de uma despedida em vida, a possibilidade de tirar algumas — poucas — fotos com Mário Soares, e o anúncio-con- vocatória para um ou outro jantar. A tranquilidade dos jardins deu intimi- dade e serenidade ao acto a que não compareceram Medeiros Ferreira e Almeida Santos, já falecidos, e Miguel Veiga, também já desaparecido, ou- vidos antes pelo PÚBLICO para este trabalho.

A infindável vontade de influenciar

A penas há três anos, com

Soares em actividade in-

candescente e de verbo

pronto, os epítetos que lhe

eram dirigidos eram outros:

crítico desabrido, nostálgi-

co fora de tempo, idoso esquerdista ou simplesmente radical, suscitadas pelas suas declarações sobre a actua-

lidade política nacional e internacio- nal. Quem foi apelidado de “pai da democracia”, o resistente à ditadura,

o lutador do Verão Quente de 1975

era severamente julgado por uns pe-

la forma como analisava o Governo

Passos Coelho, a função presiden- cial de Aníbal Cavaco Silva ou as li- deranças no PS. Como se entrasse em contradição com o seu passado de homem de pontes, defensor de compromissos e de atitudes pragmá- ticas. As suas palavras eram duras. As apreciações contundentes. Violentas até. Subjacentes tinham o mesmo empenho de sempre. A sempre irre-

primível vontade de influenciar que marcou o seu percurso político. Em 2000, quatro anos depois de

abandonar a Presidência, Soares ini- ciou uma colaboração regular com

o PÚBLICO que, em Julho daquele

ano, é estendida ao diário catalão La Vanguardia. A possibilidade de contar com artigos de opinião do ex- Presidente entusiasmou Lluis Foix,

então director adjunto do jornal de Barcelona. Foix, antigo correspon- dente em Londres e Washington, homem próximo da Opus Dei, co- nhecia e admirava Mário Soares. Na primeira página da edição de 3 de

Julho era destacada a publicação do

artigo inicial de uma colabora-

c

14 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

14 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 ção que

MÁRIO SOARES

1924-2017

ção que os catalães anunciavam com orgulho. Era sobre um tema de polí- tica internacional pouco comum na imprensa do outro lado da fronteira:

as relações da União Europeia com África, nas páginas de um jornal que sempre olhou para além do umbigo catalão. Outros artigos, poucos, se sucede- ram. Soares desinteressou-se. Treze anos depois, no escritório da sua fun- dação, explicou a razão de ter abdica- do da colaboração no principal jornal da Catalunha e um dos títulos mais prestigiados de Espanha: “Sabe, o La Vanguardia é pouco lido em Portu- gal.” A sua mensagem não chegava ao destinatário. A influência pretendida não era conseguida. O seu objectivo era influir e fazer política.

O homem que nunca desistiu

“M ário Soares está para a política co- mo Picasso para a arte, a política é a sua grande voca- ção e destino, fará

política até ao último dia.” Quem assim o define é José Manuel dos Santos, seu assessor cultural nos dois mandatos presidenciais. Afinal, es- ta é uma área de consenso, desde que, nos anos 70 do século passado, Soares foi classificado como animal

político. É essa a sua pele. A política

é o seu habitat. “Um improvisador de uma nota só, a nota Soares.” Assim o classifica Joaquim Aguiar, que foi seu assessor político em Belém. Mário Mesquita, fundador do PS, ex-deputado e an- tigo director do Diário de Notícias, aponta noutra direcção: “Um ho- mem de cultura política não é um especialista de áreas, tem como arma

a intuição que é um elemento essen-

cial.” José Medeiros Ferreira, minis- tro dos Negócios Estrangeiros no I Governo constitucional, destacava:

“Mário Soares tem uma notável in- tuição política e é normalmente uma

pessoa bem informada.” Onde está intuição Carlos Gaspar

vê um exercício mais elaborado que

o mero acaso dos sentidos. “Em to-

dos os momentos da sua vida sempre acertou na tendência dominante do seu tempo”, refere o antigo consultor da Casa Civil da Presidência. “Foi um

DR
DR
antigo consultor da Casa Civil da Presidência. “Foi um DR Em todos os momentos da sua

Em todos os momentos da sua vida sempre acertou na tendência

dominante do seu tempo

Carlos Gaspar Ex-consultor de Mário Soares

intelectual que fez um partido e acer-

“A história andou mais depressa do

exemplo de sucesso de uma escolha

tou sempre na mudança, que não é, sobretudo, uma mudança portu- guesa, mas a do espírito do tempo.” Da queda do comunismo às vitórias sociais-democratas na Europa, dos

que os políticos, agora é impossível voltar ao passado.” Desactualizado quem sempre es- teve na crista da onda? “Ele acha que a ideia que vai prevalecer não

que o levou à vitória nas primeiras eleições democráticas. E o confirmou como dirigente político. “Ele foi ao Fórum Social Mundial de Porto Ale- gre com curiosidade, o que observou

processos democráticos na América

é

a ideia dominante, sejam os swaps

fê-lo mudar, percebeu o que ali se

Latina às transições democráticas na

ou outra”, contrapõe Carlos Gaspar.

movimentava do ponto de vista de

Europa do Leste. Em todas estas situ- ações teve o passo certo no momento idóneo. “Vive dos sentidos, a maior parte das horas da sua vida foram felizes”, assegura Manuel dos San- tos. Recém-empossado o Governo de Passos Coelho, Soares gabou-lhe o

“O radicalismo dele não é nostalgia, acha que em cada momento histó- rico há uma ideia forte que vai pre- valecer”. Ou, como afirma Mário Ruivo, amigo desde 1944 dos tem- pos do MUD-juvenil [Movimento de Unidade Democrática que combateu

projectos políticos”, relata Manuel Carvalho da Silva. A expressão de uma dinâmica sociopolítica que le- varia Lula da Silva à Presidência do Brasil. A consolidação de uma nova realidade, a dos países emergentes. “Mário Soares, a convite de Lula, foi

estilo. “Elogiou-o pelo conhecimento indirecto que lhe foi comunicado por Luís Fontoura”, assegura o seu anti-

ditadura], Soares teve o condão de

tomar a iniciativa: “Sempre assim foi nos momentos difíceis, na situação

a

para a cabeça de uma das manifes- tações e sentiu que havia um mo- vimento organizado de resistência

go assessor cultural. Depois, como

actual tem reafirmado o valor de

à

onda do liberalismo”, prossegue

o

próprio confessa, foi a decepção.

uma democracia genuína.”

o

antigo secretário-geral da CGTP.

E

veio a indignação expressa com

Para chegar ao essencial o antigo

“Tinha muita curiosidade em saber

Um frenesim já detectado por

desassombro, em voz alta. “O novo esquerdismo de Mário Soares é a nos- talgia de uma nostalgia antiga, à qual,

Presidente da República procede à análise e à selecção. E evita a disper- são. O slogan de lançamento do PS

quem era este ou aquele, perguntava- me e ao Boaventura Sousa Santos, a curiosidade dele era quase juvenil”,

aliás e por contradição, nunca ligou muito”, considera Joaquim Aguiar.

na vida política nacional após o 25 de Abril — “A Europa connosco” — é

recorda Carvalho da Silva.

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 15

ADRIANO MIRANDA
ADRIANO MIRANDA

Mário Soares cumprimenta Cavaco Silva, o seu maior adversário na democracia recente. A última eleição foi contra ele

DANIEL ROCHA
DANIEL ROCHA

Sérgio Sousa Pinto, que acompa- nhou Soares na lista do PS para o Parlamento Europeu entre 1999 e

2004. “Foi mais que atento e activo, tem uma capacidade crítica e uma curiosidade tremendas, nunca lhe

vi paternalismo, ouve tudo, acha

que os jovens são melhores do que

os

velhos, põe-se sempre em plano

de

igualdade, é daí que advém a sua

frescura”, refere. Dos trabalhos de eurodeputado e das tertúlias em Es- trasburgo e Bruxelas foi publicado um livro — Diálogo de Gerações — e nasceu uma convicção. “Se Mário Soares se instalasse no seu estatuto

e idade, cristalizava. Ele não se deixa acantonar, não aceita ruas, avenidas

ou estátuas, não se deixa petrificar”,

comenta Sousa Pinto. “Não quer o seu nome em ruas,

porque acha que isso já é a morte”, observa José Manuel dos Santos. Mas

o próprio Soares admitia como ine-

vitável a inscrição do seu nome na toponímia. Há quem, com reserva

de afecto, insista mesmo que “ado- raria ter estátuas e o nome nas aveni- das”. Uma ambivalência que advém de uma preocupação. “Tem uma ob- sessão com o que vai ser o seu lugar na História”, aponta Carlos Gaspar.

Aquela última campanha

P ara o bem e para o mal, em boa medida esse lugar já está há muito definido. Décadas de vida política o atestam. Foi líder partidário, ministro, chefe de governo, Presidente

da República, vice-presidente da

Internacional Socialista, conferen-

cista, polemista

Num percurso que

parece um compêndio de História, lutou contra o fascismo, celebrou a

derrota do nazismo, viu o apogeu e

queda do comunismo, a afirmação da social-democracia. Privou com

sucessivas gerações de dirigentes. Na Europa e no mundo. Teve reco- nhecimento. Viveu intensamente os acontecimentos do seu tempo. Tudo isto recordou no jantar co- memorativo dos seus 80 anos, em 7 de Dezembro de 2004, no pavilhão da FIL, em Lisboa. Dois mil convida- dos de um amplo espectro político e social, de múltiplos sectores de acti- vidade, que trocaram cumplicidades pelo afastamento, ouviram-no pro- clamar o fim do seu trajecto político. Falou “da mundialização selvagem, desregulada e sem ética, da desor- dem internacional e ecológica, do decréscimo do humanismo univer- salista e do consequente aumento da irracionalidade e do esoterismo”. Denunciou o desrespeito dos direitos humanos, o excesso de consumismo, o descontrolo da comunicação so- cial, a criminalidade organizada e o dinheiro sujo de actividades ilícitas que invadiu o sistema financeiro. Criticou a impunidade geral e a de-

sumanidade crescente. Com o mes- mo vigor com que, anos antes, er- guera a sua voz contra a intervenção militar no Iraque, na sequência da cimeira das Lajes, em 16 de Março de 2003. Alguns dos que o acompanha- ram na noite do seu 80.º aniversário tinham apoiado a política de Geor- ge W. Bush e ouviram o seu alerta:

“Vamos mal! Estamos a assistir a um recuo civilizacional muito perigoso que importa denunciar, por todas as formas, como primeira etapa para uma reacção eficaz.” Mas, em tom solene e definitivo, disse “Basta!”, afastando-se de novas batalhas, ou seja, da candidatura à Presidência da República. Porém, em 21 de Agosto de 2005, no Hotel Altis, em Lisboa, revelou o manifesto eleitoral da sua terceira candidatura à Presidência da Re- pública. Soares escreveu que foi o agravamento da situação política nacional e da União Europeia que o tornou sensível às pressões de ami- gos que o queriam novamente em Belém. “Acompanhei a reflexão dele. Na embaixada do Brasil tivemos uma conversa a sós sobre os cenários, pa- ra mim era muito importante que a esquerda ganhasse a Presidência da República, o que a própria esquer- da então secundarizou, e o país está hoje a pagar uma factura importante por isso”, refere Manuel Carvalho da Silva. “Pela minha parte, havia mais uma postura de solidariedade para com ele do que saber se tinha con- dições para vencer”, anota o antigo dirigente sindical. Para José Manuel dos Santos, Soa-

res estava seguro de que Cavaco Silva

ia ser um desastre como Presidente.

A pressão dos soaristas Vasco Vieira

de Almeida, Dias da Cunha e Mário

Ruivo fez o resto. “Mário Soares saiu do segundo mandato como uma es- pécie de rei, mas a ideia de poder voltar nunca o abandonou”, admite

o seu antigo assessor cultural. “No

entanto, quando, no jantar dos 80 anos, disse que basta de política, foi genuíno, achava que não tinha con- dições nem idade.” Mário Ruivo tem outra versão: “Na

nossa relação, cada um decide por si próprio. Quando ele me anunciou que se ia candidatar, disse-lhe que estava solidário. Hoje sabemos que teria sido muito importante a sua vitória, a evolução política do país estaria noutra linha.” O biólogo re- futa a crítica, comum então, de que

o candidato estava esgotado: “O fac-

tor idade era um pseudo-argumento. Quando as memórias funcionam, somos curiosos e temos uma roda- gem, esse problema não existe — Má- rio Soares está atento às pessoas e à sociedade.” Ferro Rodrigues, antigo secretário- geral do PS, recorda como lhe foi co- municado o anúncio: “Foi no Verão

de 2005, estava no Algarve de férias e ele convidou-me para a casa do Vau. Disse-me que se ia candidatar.” O antigo dirigente socialista percebeu

a oposição da família: “Eu estava a

favor. Achei que, se ele avançasse, Cavaco Silva podia perder. Nunca pensei que ia haver a candidatura de Manuel Alegre.” Já Almeida Santos, presidente ho- norário do PS, não estava optimista:

“Disse-lhe que não concordava, mas que estava com ele, é evidente.” E explicava: “Há sempre um limite de idade para todas as coisas. Foi um

erro da parte dele ter-se candidatado

— tinha um passado político perfei-

to e só podia piorá-lo, as condições objectivas indicavam que só podia piorar.” Se Almeida Santos admitia que Soares “perdeu pela idade”, re- lativizava os danos: “A candidatura não o prejudicou muito, ele é mata- borrão, neutraliza tudo o que pode haver de mal.” Raul Morodo, advogado e antigo embaixador de Espanha em Lisboa, amigo de longa data que Mário Soa- res trata por “irmão”, ainda hoje se mostra surpreendido com a terceira candidatura a Belém: “Ele viu-se for- çado, não pensava, não acredito que pensasse que ia ganhar, mas a sua

função na vida é estar em política,

não é ser estranho às situações.” Antes de anunciar a candidatura, Soares multiplicou-se em contactos. “Era então grão-mestre da Maçona- ria, ele veio falar comigo, mas já tinha decidido, estava ciente de que era o

seu caminho e só procurava uma cau- ção”, recorda António Reis. No seu ensaio autobiográfico — Um Político Assume-se — Mário Soares escreveu que, à esquerda, houve movimen- tações para o seu apoio. Refere uma

reunião com Domingo Abrantes, di- rigente do PCP, que recusou falar ao PÚBLICO, e de encontros com Fran- cisco Louçã. “Falou comigo várias vezes, sempre convites por iniciati- va dele. Disse-me que tinha falado com o Domingos Abrantes, tentou criar uma rede de conversas”, c

16 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

16 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 precisa o

MÁRIO SOARES

1924-2017

precisa o ex-coordenador do Bloco de Esquerda.

A candidatura avançou, longe da

velocidade de cruzeiro almejada pelos seus apoiantes. E com um ad- versário no mesmo campo político:

Manuel Alegre. Uma circunstância que levou ao rompimento de uma relação forjada após o 25 de Abril de

1974 e que só oito anos após as presi- denciais foi reatada. “Ele acha que, se não tivesse havido a candidatura de Alegre, teria ganhado, opinião que não partilho”, afirma José Ma- nuel dos Santos. “Com um candidato com 80 anos, a campanha parecia ser um apego ao poder. Manuel Alegre só funcionou porque Mário Soares não estava a funcionar.”

O envolvimento do PS na candida-

tura do seu fundador, como o pró- prio candidato reconhecerá, não foi linear. Com o Governo de José Sócra- tes muito questionado, a presença de ministros nos actos de campanha ameaçava ser mais um lastro do que um apoio. “Sócrates nunca encarou a questão presidencial como devia ser encarada, para ele não era im- portante. Além do mais, o facto de Alegre ser candidato afastava este último da vida interna do PS”, ob- serva Manuel dos Santos. “Manuel Alegre achava que Mário Soares não avançava e Soares considerou que, se avançasse, Alegre não avançaria”, afirma o antigo assessor em Belém. “A última candidatura foi mais uma questão de voluntarismo político do que de intuição — foi um erro, dei- xou-se influenciar”, constata Alberto

Arons de Carvalho, fundador e antigo dirigente do PS. “Mário Soares pode ter sido um instrumento de Sócrates para resolver a questão de Manuel Alegre e que afinal não resolveu”, comenta Arons de Carvalho.

A vida interna do partido era, as-

sim, um outro tabuleiro, cujas vicis- situdes terão escapado ao candida- to. De algum modo, Soares era um homem só. A sua família socialista estava dividida em duas candidatu- ras e o aparelho partidário não era célere e eficaz. “A surpresa foi negati- va, não era aconselhável a divisão de

votos em duas candidaturas. Houve um erro, não me quero pronunciar qual dos dois — Soares ou Alegre — foi responsável, dessa responsabilidade peço reserva”, comentou Almeida Santos. “Mário Soares percebeu tar- de que não ganhava e achei melhor demitir-me de director da campa-

ADRIANO MIRANDA
ADRIANO MIRANDA
melhor demitir-me de director da campa- ADRIANO MIRANDA A última candidatura foi mais uma questão de

A última candidatura

foi mais uma questão de voluntarismo político do que de intuição

Arons de Carvalho Fundador do PS

nha”, afirma Alfredo Barroso. “Es- tava em conflito com o PS, tinha criticado Sócrates pelo que deixara de ter acesso ao partido, o que era indispensável, e Soares varreu-me da memória”, conta o antigo chefe

da Casa Civil da Presidência da Re- pública durante os dois mandatos presidenciais e fundador do PS. “Ficámos sem a experiência de um terceiro mandato de um presi- dente”, sintetizou Almeida Santos, então presidente honorário do PS.

É impossível saber como Mário Soa-

res teria actuado com o Governo de José Sócrates debilitado, uma crise económica aguda, uma ajuda exter- na diferente da vivida nos anos 70 e

80 do século passado, quando era

primeiro-ministro. Teria resistido

o executivo minoritário socialista?

Haveria outra solução para além das eleições que acabaram por dar

a vitória a Passos Coelho? A posição

governamental face aos credores e à

Europa seria a mesma? Teria alguma mão “abanado o arbusto”, como se queixou Sócrates de Cavaco Silva?

Em Belém: força de bloqueio

J osé Manuel dos Santos re- cusa dividir os dez anos de Mário Soares em Belém, en- tre 1985 e 1995, num primei- ro mandato discreto e num segundo interventivo. “A

magistratura de influência foi usada desde o primeiro mandato”, salienta

o ex-assessor. Consistia numa acção

ampla: “Era tudo, desde as conver- sas em privado às presidências aber-

tas, aos vetos, à recusa de dar posse

a Fernando Nogueira [sucessor de

Cavaco e rival de António Guterres

nas eleições de 1 de Outubro de 1995] como vice-presidente e ministro sem

pasta.” E recorda uma preocupação sempre presente do então Presidente na época de abundância dos fun- dos comunitários, do lançamento de obras públicas e de um inusitado bem-estar económico para os pa- drões nacionais: “O Presidente deu sinais de denúncia da corrupção que se ia instalando, do espírito ostensivo do dinheiro e do novo-riquismo, num pensamento claro.” No entanto, Manuel dos Santos ad- mite uma diferença de estilos: “No primeiro mandato ele sabia que tinha ganhado por poucos votos a Freitas do Amaral [51,18% contra 48,8%] e tinha de se afirmar como Presiden-

te de todos os portugueses.” Já no segundo, “quis distanciar-se e sair de Belém de outra maneira”. Uma diferença de atitude que o antigo

colaborador sintetiza em dois actos distintos: “Soares é uma pessoa de símbolos e se na posse do primeiro mandato vai pôr uma coroa de flores

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 17

ALFREDO CUNHA/ARQUIVO

Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 17 ALFREDO CUNHA/ARQUIVO à estátua de Luís de Camões,

à estátua de Luís de Camões, símbo-

lo unificador da pátria, no segundo põe as flores na estátua de Antero de Quental [um dos fundadores, em 1875, do Partido Socialista Português

que existiu até 1933], simbolizando o apreço pelos valores políticos a que esteve sempre ligado.” As presidências abertas do segun- do mandato foram consideradas pelo executivo do PSD como uma inge- rência e desafio à sua autoridade. “Foram uma inovação”, contrapõe Mário Ruivo. Cavaco Silva classificou

a acção presidencial como incenti-

vadora das forças de bloqueio que queriam travar o labor governamen- tal. Ficou célebre o “Deixem-me trabalhar” do primeiro-ministro, em oposição ao que definia como pressão das denominadas “forças de bloqueio”. “O cargo de Presidente permitiu-lhe uma grande mobilidade política e física”, afirma Alfredo Bar- roso. Por isso, o chefe da Casa Civil

reconhece que a presidência foi có- moda para Soares: “Em Belém não há constrangimentos, pode fazer po- lítica, tomar distâncias, aproximar-se e intervir.” Foi o que fez na greve geral de 27 de Março de 1988, a primeira que uniu as duas centrais sindicais — a CGTP e a UGT. “Foi um acto único de um presidente da República, nunca um presidente se pronunciara ou ti- vera uma atitude activa colocando-se ao lado dos trabalhadores num con- flito laboral”, recorda Manuel Carva-

lho da Silva. “Fiz-lhe muitas críticas, mas ter-se pronunciado em termos de concordância com a greve foi mui- to positivo.” O antigo secretário-geral da CGTP refere que o que estava en- tão em jogo era decisivo: “Foi travada uma revisão das leis laborais e sal- vaguardado o quadro que vigorou até ao ano 2000. Evitou-se que o re- trocesso fosse muito mais cedo, com prejuízo para os trabalhadores e para

muito mais cedo, com prejuízo para os trabalhadores e para Se, quando fui eleito Presidente, tivesse

Se, quando fui eleito Presidente, tivesse substituído o primeiro-ministro, teria tido dificuldade em unir o país

Mário Soares Entrevista ao PÚBLICO, 2013

o desenvolvimento do país.” Uma po-

sição que Carvalho da Silva atribui não apenas ao conhecimento da si- tuação social: “Mário Soares utilizou até às últimas consequências o seu magistério de influência, é um acto que demonstra a sua intuição.” A posição não agradou em São Bento. Cavaco terá recordado as pala- vras de Soares no primeiro encontro que tiveram na sede do PS, então na Rua da Emenda, após a sua eleição como líder do PSD no Congresso da Figueira da Foz, de 17 a 19 de Maio de 1985. “Disse-lhe coisas desagra- dáveis, entre as quais que não tinha biografia”, recorda Barroso. “De início, subestimou-o e depois dizia que Cavaco aprendeu depressa, ou seja, que já sabia lidar com ele.” Em entrevista ao PÚBLICO (23 de Junho de 2013), Mário Soares relembrou a sua relação com Cavaco Silva: “Se,

quando fui eleito, tivesse substituído

o primeiro-ministro, teria tido dificul-

substituído o primeiro-ministro, teria tido dificul- Portugal de luto. Reacções e desenvolvimentos em

Portugal de luto. Reacções e desenvolvimentos em www.publico.pt

dades em unir o país. Fui Presidente eleito por uma escassa maioria e não queria que o país ficasse dividido.” Um cuidado testemunhado por João de Deus Pinheiro, ministro dos Negó- cios Estrangeiros entre 1978 e 1992, que acompanhou o Presidente em inúmeras visitas de Estado. “Nunca disse mal do Governo no estrangei- ro”, salienta o antigo chefe da diplo- macia portuguesa e ex-comissário europeu. O segundo mandato presidencial ocorreu quando na sociedade portu- guesa se manifestavam os primeiros sinais de esgotamento da via seguida pelo executivo do PSD. Alfredo Bar- roso anota este facto como motivo das intervenções do Presidente. Se, no primeiro mandato, o Presidente exerceu o seu veto por sete vezes, duas sobre decretos-lei do executi- vo e cinco em leis aprovadas na As- sembleia da República, o segundo quinquénio foi diferente: 30 vetos, 23 a decretos-lei do Governo e os restantes sete a leis do Parlamento. E a presidência aberta da Área Me- tropolitana de Lisboa, de Janeiro a Fevereiro de 1993, marcou o início das hostilidades frontais com Cavaco, pondo em causa a intocabilidade do primeiro-ministro. As observações do inquilino de Be- lém não foram apenas destinadas a quem governava. O congresso Por- tugal, Que Futuro? foi uma iniciativa que teve vários destinatários: o Go- verno, após uma década de gestão,

mas também espicaçar António Gu- terres, secretário-geral do PS na opo- sição, que viria a ganhar as eleições de 1 de Outubro de 1995 a Fernando Nogueira. Noutros casos, a acção do Presi- dente, mais discreta do que os dis- cursos ou as visitas pelo país, visou outros alvos. “O momento que mais marcou a minha aproximação com Mário Soares foi em 1992/93, o perí- odo de saída de um significativo nú- mero de dirigentes da CGTP de sen- sibilidades diversas, desenhando-se um cenário de possíveis rupturas”, refere Manuel Carvalho da Silva. O líder que sucedeu a José Luís Judas prossegue: “Falei muitas vezes com Soares sobre a situação. A sequência dessas trocas de opinião está na base da ida de Álvaro Cunhal [secretário- geral do PCP, força importante da CGTP] a Belém.” O Presidente da República foi assim influente numa

fase de instabilidade da situação c

18 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

18 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 na central

MÁRIO SOARES

1924-2017

na central sindical. Alfredo Barroso recorda esse encontro entre dois homens que “tinham uma relação de fascínio e de muita desconfiança, que se atenua quando Soares vai para Presidente da República”. Segundo o antigo chefe da Casa Civil, a situação da CGTP foi abordada pelos dois num almoço no Palácio de Belém.

A eleição de uma geração

Q uando, em 1985, decidiu avançar com a candidatura a Presidente da República, Mário Soares vivia um mo- mento pouco auspicioso da sua vida política. A 24

de Fevereiro, estruturou-se, como partido, a ameaça eanista que há

muito pairava sobre o PS: foi criado

o Partido Renovador Democrático

(PRD), cujo primeiro líder, Hermínio Martinho, seria eleito a 15 de Junho, em Tomar. O Governo PS-PSD, lide- rado pelo dirigente socialista, não resistiu aos problemas internos do segundo partido. O vice-primeiro- ministro Carlos Mota Pinto demite- se, em Fevereiro, da presidência da comissão política e morre em 7 de Maio. Dez dias depois, Aníbal Cavaco Silva, antigo ministro das Finanças de Francisco Sá Carneiro, ganha o congresso “laranja” da Figueira da Foz. A nova orientação política do parceiro governamental leva à sa- ída do executivo de 13 ministros e secretários de Estado e à inevitável demissão de Soares. As eleições ante- cipadas de 6 de Outubro são vencidas por Cavaco Silva, com o PS, cuja lista era encabeçada por Almeida Santos,

a ficar a nove pontos. E menos de 3%

à frente do PRD. Tudo indiciava, portanto, um virar de página na vida política nacional. No horizonte perfilava-se como irre- mediável a perda de influência dos socialistas. Um fim de ciclo. Na cor- rida presidencial, Maria de Lourdes Pintasilgo já estava no terreno como candidata, apoiada por sectores da esquerda, quando, a 27 de Junho, os socialistas decidiram apoiar Mário Soares a Belém. “Para alguns dirigen- tes do PS foi uma maneira amável de se verem livres de mim”, admitiu o próprio no seu ensaio autobiográfico. Contava, então, 13 anos de secretá- rio-geral e, por três vezes, tinha sido

primeiro-ministro. Os comunistas in- dicavam o seu dirigente Ângelo Ve- loso e, em 12 de Novembro, Salgado Zenha, anunciava a sua candidatura,

que viria a receber o apoio do PCP na primeira volta. Foi assim que acabou uma relação de amizade de 40 anos com Soares e o único duo que dirigiu

o PS. Diogo Freitas do Amaral era o

candidato da direita unida. “Ninguém acreditava na mi- nha candidatura, salvo o Joaquim Aguiar”, dirá, anos mais tarde, o

candidato. “A ser eleito, Freitas do Amaral iria ser um presidente da República do PSD e do CDS, have- ria a sobreposição de duas maiorias,

a parlamentar e a presidencial, e a

iniciativa do general Ramalho Eanes de formar um partido, contra a qual estive, e um candidato, Zenha, vindo do PS, favorecia um quadro de bases partidárias fraccionadas”, comenta Joaquim Aguiar, então assessor po-

lítico da Casa Civil de Eanes. “Era uma situação que desequili-

brava o sistema político”, destaca. Foi

o que comunicou numa conversa a

Soares: “Disse-lhe que podia ganhar. Bastava que Freitas do Amaral não

ganhasse à primeira volta e conseguir

o apoio do PCP na segunda, o que

arrastaria os eleitorados de Zenha e Lourdes Pintasilgo.” Nestas contas, era fundamental que Pintasilgo não desistisse da primeira volta, para conseguir que, à esquerda, o rival de Freitas fosse Soares. Parecia simples, mas, na verdade, não era linear. É certo que entre os nomes que integravam o MASP [Mo- vimento de Apoio de Soares a Presi- dente], para além de socialistas, esta- vam muitos independentes. E nomes como José Manuel Homem de Mello, patriarca da família Espírito Santo, e

Miguel Veiga, o advogado portuense

fundador e antigo vice-presidente do PSD. “Estava muito mais próximo po- liticamente do dr. Mário Soares do que de Freitas, não apenas do ponto de vista do legado político, mas tam- bém sobre a forma de organização da sociedade, costumes e comporta- mentos”, revelou Veiga. No Expresso, um texto de Francisco Pinto Balse-

mão, “Os verdadeiros sociais-demo- cratas”, distanciava outro fundador do PSD da candidatura de Freitas do Amaral. “O facto de o apoio do PSD ter tido dissidências de personalida- des importantes teve influência, to- dos os votos contavam”, reconhece Proença de Carvalho, então manda-

teve influência, to- dos os votos contavam”, reconhece Proença de Carvalho, então manda- ALFREDO CUNHA/ARQUIVO

ALFREDO CUNHA/ARQUIVO

teve influência, to- dos os votos contavam”, reconhece Proença de Carvalho, então manda- ALFREDO CUNHA/ARQUIVO

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 19

FERNANDO VELUDO

de 2017 • 19 F E R N A N D O V E L U
de 2017 • 19 F E R N A N D O V E L U

Até aos incidentes da Marinha Grande, Soares fez uma campanha de arrependimento. Depois passou a ser a vítima

Joaqui Aguiar Ex-assessor de Mário Soares

Na sede de candidatura da sua primeira candidatura presidencial, em 1985

e antes do debate com Freitas do Amaral, o adversário

Com Sampaio, a quem passou testemunho da Presidência

PAULO CARRIÇO/ARQUIVO
PAULO CARRIÇO/ARQUIVO

tário da campanha de Freitas. Entre os apoiantes, recorda José Manuel

dos Santos, estava também o general António de Spínola. O enquadramento desse apoio é dado por Alfredo Barroso: “Como primeiro-ministro [de Julho de 1976

a Agosto de 1978], Soares quer que

Spínola volte [fugiu depois da tentati- va de golpe de Estado de 11 de Março]

e propõe uma amnistia para o neu-

tralizar.” Com o regresso do general do monóculo, em Agosto de 1976, mantém-se fluida a relação entre os dois. “Todos os chefes da Casa Militar da Presidência da República sempre foram escolhidos por sugestão de António Spínola”, acentua o antigo chefe da Casa Civil. Apesar desta autêntica paleta de apoios, a campanha do MASP para as presidenciais de 26 de Janeiro de 1986 arranca sem força. “Os socialis- tas estavam atordoados com a disper- são dos votos da esquerda por quatro candidatos, um dos quais — eu pró- prio — muito marcado pela derrota do PS nas recentes eleições legislati- vas”, admitirá Mário Soares.

“Até aos incidentes da Marinha Grande [agressões ao candidato e co- mitiva à entrada da empresa vidreira Fábrica-Escola Irmãos Stephens] So- ares fez uma campanha de arrepen- dimento da sua acção governativa, como primeiro-ministro. Depois pas- sou a ser a vítima”, comenta Joaquim

Aguiar. No rescaldo da agressão, o candidato, que tentara a sedução

com os rivais à esquerda, à excepção de Francisco Salgado Zenha, lançou uma das suas mais célebres palavras de ordem que marcou a campanha:

“A Marinha Grande é do povo, não

é de Moscovo.” Particularmente in-

tenso, do ponto de vista emocional, foi o frente-a-frente televisivo com

Salgado Zenha. “Houve contenção”, recorda Aguiar. Contudo, a análise fina de Joaquim Aguiar, um verdadeiro exercício de engenharia política, confirma-se. Contra todos, Soares passa à segunda volta para defrontar Freitas do Ama-

ral: 25,4% contra 46,3%. A preocupa- ção de Aguiar com a candidatura de Pintasilgo revelou-se também certa.

A antiga primeira-ministra, que não

desistiu e foi às urnas, teve pouco mais de 7%, e Zenha, com o apoio do PCP, que retirou a candidatura de Ângelo Veloso e dos eanistas, registou 20,8%. Isso permitiu ao candidato do MASP triunfar à esquerda. “Mário So- ares fez uma campanha brilhante na primeira volta — colocou-se entre o

centro-direita e o centro-esquerda, eliminando Zenha e Pintasilgo”, reconhece o mandatário de Frei- tas. Faltava o segundo andamento. Conseguir o apoio indispensável dos comunistas.

“A campanha mostrou que a derro-

ta dos candidatos de direita (Freitas e

Soares) e a vitória do único candidato da democracia em condições de ven- cer as eleições (Salgado Zenha) está inteiramente ao alcance do nosso povo”, dissera Álvaro Cunhal, qua- tro dias antes da primeira volta, num comício no Pavilhão de Desportos de

Lisboa. “Na noite da primeira volta concluímos que tínhamos de votar em Soares, mesmo que tivéssemos de convocar um congresso extraor- dinário”, admite Carlos Brito, antigo dirigente do PCP. “Cunhal tinha mui- to sentido republicano, a dificuldade de relacionamento com Mário Soa- res não era suficiente para impedir o acordo.” No dia imediato à contagem dos votos, o director da campanha do MASP, Gomes Mota, e Jorge Sam- paio encontram-se no Hotel Altis, em

Lisboa, com Carlos Brito e Octávio Pato. No XI Congresso extraordiná- rio, os comunistas decidem o apoio:

“Mantendo integralmente o seu ju- ízo acerca de Mário Soares e da sua política, o PCP considera imperativo que os trabalhadores, democratas e patriotas, para derrotarem Freitas do Amaral, votem em Mário Soares.” Uma reviravolta inesperada para a direita. “Na segunda volta, Soares radicalizou à esquerda, diabolizou Freitas do Amaral e, no minuto se- guinte a ter ganho as eleições, mu- dou o discurso”, lembra Proença de Carvalho. “Afirmou querer ser o

Presidente de todos os portugueses,

foi muito táctico.” Foi algo que pas- sou para a história dos comunistas como “engolir sapos” e vencer nas urnas com Soares, que foi Presidente improvável e contra todos.

PS, o Stradivarius de Soares

A vitória

presidencial teve,

a nível pessoal, um sabor

amargo. A ruptura com

Salgado Zenha, o fim do

duo que conduzia o PS, a

quebra de uma relação de

décadas e de uma amizade familiar. “O par só se desfaz na candidatura presidencial, Soares é um homem de compromissos, não queria a ruptu- ra”, afirma Carlos Gaspar. Não era a primeira vez que os dois socialistas se afastavam. Zenha, co- mo os membros do ex-secretariado, apoiara a recandidatura de Eanes

que, caso nunca visto, levou o secre- tário-geral do PS a suspender as fun- ções de líder partidário. “Ramalho Eanes influenciou o ex-secretariado.

O próprio Zenha, que muito criticara

Eanes, acabou por ser influenciado

pelo eanismo, que pretendia tomar

o PS de fora para dentro”, acentua

Alfredo Barroso. “O Zenha nunca foi substituído, mesmo saindo do partido nunca foi substituído”, recordava Almeida San- tos. É a prova de que, para Mário Soa-

res, Salgado Zenha era insubstituível. “Eram praticamente dois irmãos e essa amizade tornou-se inimizade,

o que fez muito mal ao PS. Aliás, nas

eleições legislativas de 1985, sendo eu candidato, o partido dividiu-se entre

o PS e o PRD inspirado por Eanes”,

referiu o então presidente honorário dos socialistas. “Mário Soares e Francisco Salga- do Zenha completavam-se, mas não eram a mesma coisa, tinham tido po- sições diferentes na fundação do PS

— Zenha no interior, no país, Soares

no exterior, no exílio”, analisa Carlos Gaspar, ex-consultor de Belém. “Sal- gado Zenha defende a ruptura com

o PCP bem antes de Soares, que só

a concretiza após o 11 de Março de

1975.” Foi em nome desta ruptura que Zenha foi o principal protago- nista do comício no Pavilhão dos Des- portos lisboeta contra a unicidade

sindical de 16 de Janeiro de 1975. E constata Carlos Gaspar: “Salgado c

20 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

20 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 Zenha não

MÁRIO SOARES

1924-2017

Zenha não foi substituído no partido, como se a relação de Soares com ele tivesse sido um período excepcional na vida do PS. Mário Soares passou então a trabalhar sempre com pes- soas de outra geração.” Mário Mesquita vê a ruptura como um processo lento: “Uma rivalidade que foi durante muitos anos escon- dida sob a amizade que entre os dois existia.” O fundador do PS sintetiza

nota só, a nota Soares.” O desenten- dimento estava servido. “O choque era inevitável”, sentencia Aguiar. “Eanes entra dentro do PS, primei- ro com Medeiros Ferreira, também com a tentativa de bloco central e depois com o PRD”, explica Gaspar, que trabalhou na Presidência da Re- pública com Ramalho Eanes e Mário Soares. “Demiti-me de ministro dos Negócios Estrangeiros em Outubro

 

repartição de tarefas, de acordo com as personalidades diferentes

a

de 1977. Soares estava convencido que era um golpe político, que have-

dos dois dirigentes: “Havia campos em que um tinha mais qualidades do que o outro — Soares com boas relações com as pessoas, Zenha na argumentação jurídica.” No I Governo constitucional, Sal- gado Zenha é preterido, assumindo

ria a demissão de outros ministros, que havia uma conspiração centra- da em Belém”, referiu José Medei- ros Ferreira. “Acabei por sair do PS em Outubro de 1978, com António Barreto, com quem fiz o manifesto reformador.”

a

função de líder da bancada parla-

Na origem da demissão está a polí-

a

Internacional Socialista, de que o

mentar. “Zenha sentiu-se afastado, como se Soares não quisesse a sua sombra”, admite António Reis. Mas foi com o apoio à recandidatura de Ramalho Eanes que se deu o cisma.

tica externa com Angola, na sequên- cia do golpe, em 28 de Maio de 1977, de Nito Alves. “A figura de Mário So- ares nas ex-colónias era polémica,

“Eles não conseguem uma base de entendimento, a análise que Eanes faz dos princípios políticos é estru- turada com base na sua visão-qua- dro das Forças Armadas e Soares é um homem de política partidária e ideologia, advogado de profissão, habituado a uma gestão das relações

primeiro-ministro português era en- tão vice-presidente, era considerada imperialista”, prosseguiu o mais jo- vem chefe da diplomacia portugue- sa. Belém quer enviar um emissário a Luanda e o Palácio das Necessidades concorda. “Mário Soares chamou- me, anuncia-me que pensa mandar

mais fluida”, constata Mário Mesqui-

o

Manuel Alegre a Angola, a visita foi

ta. “Aqui está a base da incapacidade de entendimento, e havia também a questão da legitimidade do edifício do poder pós 25 de Abril, o confron- to entre os resultados eleitorais e a legitimidade dos militares.” Foi assim que ocorreu a separa- ção de águas. “Mário Soares quer uma democracia civilista europeia

realizada, percebi que alguma coi- sa se tinha quebrado”, recapitulou Medeiros Ferreira. “Devo a Soares ter sido secretário de Estado dos Ne- gócios Estrangeiros e a mim próprio ter sido ministro.” O final da década de 70 e o princí- pio da de 80 do século passado tive- ram outras consequências devido à

 

e

do outro lado há uma certa ambi-

desconfiança do primeiro-ministro

Governo socialista pela direita, atrai

guidade, a pretensão de manter o Conselho da Revolução ou chefes dos estados-maiores dependentes do Presidente da República”, subli- nha José Manuel dos Santos, antigo

para com Belém. “Eanes ataca o

pessoas da esfera do PS para envene- ná-las contra Soares”, acusa Alfredo Barroso. “Ele encontrou no eanismo

assessor cultural em Belém. “Para

o

motivo, eu na altura nem conhecia

Soares e Rui Machete: os dois do

riado distanciou-se não apenas pelo

blica, Mário Soares preferia António

Mário Soares, instaurar a democracia

o

general Eanes”, contrapõe Mário

apoio à recandidatura de Ramalho

Guterres, que considerava mais po-

em Portugal equivale a correr com os militares da política”, sintetiza Carlos Gaspar. “Eanes é um militar, como Soares também quer tirar os milita-

Mesquita, então director do Diário de Notícias. “Ele encaixava mal a crítica porque vinha de alguém que tinha empurrado para a frente. Não era o

Bloco Central que assinaram o tratado de entrada na CEE

Eanes, mas também por questões internas do partido, a exigência de uma maior democraticidade na ela- boração das listas”, recorda Alber-

lítico a Victor Constâncio. “No con- gresso Portugal, Que Futuro?, Soa- res meteu-se na vida interna do PS”, recorda Ferro Rodrigues. “A relação

res da política, porque sabe que a política destrói a instituição militar.” Joaquim Aguiar regista a diferença de personalidades: “Eanes é um espar- tano, a felicidade para Soares é estar sorridente, Eanes foi construtor do sistema sem mapa, Soares, pelo con- trário, é um improvisador de uma

conteúdo das palavras, mas quem as dizia.” “Sempre tive relações tensas com Mário Soares. Houve a história do ex-secretariado e o apoio à candi- datura de Eanes, depois ultrapas- sámos a questão”, revela, por seu turno, António Reis. “O ex-secreta-

to Arons de Carvalho, o mais jovem fundador do PS. “Tenho a consciên- cia de que devo muito a Soares, não foi para mim uma opção fácil estar contra ele.” Neste relacionamento há o que o tempo confirmou como segredos de polichinelo. Já Presidente da Repú-

com Mário Soares tem de ser autó- noma, senão ele não nos respeita.” A mesma autonomia manifestada por Jorge Sampaio levou Soares a pensar em outros nomes para lhe suceder em Belém, de Almeida Santos a Ma- nuel Alegre. A afirmação da auto- nomia determinou o abandono da

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 21

CARLOS LOPES/ARQUIVO

Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 21 CARLOS LOPES/ARQUIVO ideia de Sampaio receber das mãos

ideia de Sampaio receber das mãos de Soares a faixa de banda das três ordens — Avis, Santiago e Cristo. As ingerências de Soares na vida interna do PS continuaram. É um poder de influência de que o fundador do PS não abdica. “Mário Soares chamava ao PS o seu Stra- divarius”, revela António Reis. Um instrumento único que não pode ser tocado por qualquer um. “Só per- deu o controlo do PS quando foi Presidente da República, porque a coligação Jaime Gama-António

Guterres-Jorge Sampaio não cede”, lembra Carlos Gaspar.

A Europa: bluff em Genebra

A depto de um regime de-

mocrático homologável

face aos europeus que vi-

goravam na Comunidade

Económica Europeia (CEE),

livre portanto da tutela mi-

litar pós- revolucionária, a adesão de Portugal à CEE foi objectivo funda- mental de Soares desde que regres- sou a Portugal do exílio parisiense.

A Europa era também terreno de di-

ferenciação entre os políticos portu- gueses que ensaiavam os primeiros passos em liberdade após 48 anos de ditadura. Mário Soares era, sem

dúvida, o mais cosmopolita de todos.

A expressão “Mon ami Mitterrand”,

dita por Soares sobre o seu compa- nheiro socialista francês e mais tarde Presidente da República de França, entrou no anedotário, algo provincia- no, da vox populi daqueles tempos. Aliás, foi na Alemanha, em reuniões com o SPD [partido social-democrata alemão] do seu mentor e amigo Willy

Brandt, que o líder do PS recebeu

a notícia dos militares na rua no 25 de Abril. “Soares tem uma grande deter- minação sobre o que é essencial”, diz Carlos Gaspar. Desde sempre, mesmo no turbilhão político-social

dos anos de 1974 e 75, a Europa era

a referência dos socialistas portu-

gueses para um país que conhece- ra uma radical mudança de escala com o fim do império colonial. O “orgulhosamente sós”, do ditador António Salazar, caíra havia muito em desuso pela força da realidade

— ridicularizado pelas vagas de emi-

gração, desconsiderado pelas elites, obsoleto pela crescente importância do turismo e definitivamente sepul- tado na revolta militar. A ideia-cha- ve de Soares, o seu Leitmotiv, fora sintetizado num dos slogans mais emblemáticos, e conseguidos, da propaganda socialista: “A Europa connosco.” Era, simultaneamente, vontade de pertença e precaução de resguardo perante as vicissitu- des do processo revolucionário. E, sobretudo, uma ideia clara e uma meta precisa. “Era o fim, à vista, de um longo caminho, iniciado no meu primeiro Governo, em 1976, mas que trazia na cabeça como um objectivo prioritá- rio desde o meu regresso do exílio”, escreveu na sua autobiografia, co- mentando a conclusão do processo

negocial para a adesão à CEE, em 29 de Março de 1985. Foi só então que foram fechados os capítulos mais complexos, da agricultura às questões institucionais, dos assun- tos sociais às pescas, passando pelos recursos próprios. “No programa do I Governo Cons-

recursos próprios. “No programa do I Governo Cons- Mário Soares e Salgado Zenha complementavam- se, mas

Mário Soares e Salgado Zenha

complementavam-

se, mas não eram

a mesma coisa

Carlos Gaspar Ex-consultor de Mário Soares

Eanes é um espartano, a felicidade para

Soares é estar

sorridente. Eanes foi construtor de um sistema sem

mapa, Soares é um improvisador de uma nota só —

a nota Soares

Joaquim Aguiar Ex-assessor do Presidente

Mário Soares chamava ao PS

o seu Stradivarius.

Só perdeu o controlo do PS quando foi Presidente, porque

a coligação Gama-

Guterres- Sampaio

não cede”

Medeiros Ferreira Ex-deputado do PS

titucional (1976-1978) só se fala de adesão à CEE, afirmando-se que vai

ser pedida a adesão plena”, recorda- va José Medeiros Ferreira. “Então, em Portugal, havia dois partidos de famílias europeias internacionais —

o

PS, na Internacional Socialista, e

o

CDS de Diogo Freitas do Amaral,

na Democracia Cristã, ambos favo-

ráveis à adesão.” Primeiro como se- cretário de Estado e depois como ministro dos Negócios Estrangei- ros, Medeiros Ferreira comprovou

a existência de receios na sociedade

portuguesa. Se Portugal na CEE era uma meta tão divulgada que até foi estribilho de um êxito musical dos GNR, também suscitava dúvidas e resiliências. “Havia o receio de que a econo- mia portuguesa não aguentasse o embate. Houve, por isso, muitas re- sistências de empresários e econo-

mistas, o que se reflectiu na posição do PSD de então”, recordava o anti- go chefe da diplomacia portuguesa. “Os sociais-democratas considera- vam que a Europa não ia favorecer

a entrada plena, o que quer dizer

que a história da adesão do PSD ao mercado comum não foi linear, de início foram críticos.”

Contudo, a atribulada vida políti-

ca que Portugal vivia fez vir à tona

o cenário de estabilidade resultan-

te da adesão, em contraste com um futuro de incertezas proposto à es- querda. “O pedido de adesão plena foi favorecido pelo período revolu- cionário e pelo apoio recebido das democracias europeias na normali- zação política do país”, reconheceu

Medeiros Ferreira. Assim, e apesar das desconfian- ças, a partir de Dezembro de 1976 Soares prepara uma ofensiva na Europa. Visitas consecutivas às capitais europeias decorrem em Fevereiro e Março de 1977. “Foi a

rampa de lançamento do pedido de adesão”, confirmava o então mi- nistro dos Negócios Estrangeiros. O primeiro acto de uma intensa acti- vidade diplomática, enquanto em Lisboa passou a ser comuns a pre- sença de altos dirigentes europeus.

Foi também tempo de alguns bluffs. “Em 26 de Janeiro de 1984, numa conferência em Genebra, declarei

que Portugal renunciaria a tornar- se membro da CEE, se uma decisão sobre a sua adesão não fosse toma- da até Junho”, recordou Soares.

A pressão era, evidentemente,

c

22 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

22 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 para Bruxelas:

MÁRIO SOARES

1924-2017

para Bruxelas: “Nesse caso, Portu-

gal, país atlântico, estreitaria, sig- nificativamente, os seus laços eco- nómicos com os Estados Unidos.” Não seria uma alternativa, mas um remendo não desejado pelo pró- prio. Meses depois, em Outubro,

o primeiro-ministro português

convence o seu homólogo irlan-

dês, Garret Fitzgerald, presidente em exercício das Comunidades, a assumir um documento segundo

o qual reconhecia que nada impe-

dia a adesão de Portugal. O mesmo conseguiu Mário Soares com o lu- xemburguês Gaston Thorn, então presidente da Comissão. Não foi um caminho sem escolhos

o que culminou, em 12 de Junho de

1985, com a assinatura do tratado de adesão, numa cerimónia idealizada pelo arquitecto João de Almeida, na Torre de Belém e no Mosteiro dos Jerónimos. A assinatura, primeiro

de manhã em Lisboa, e horas de-

pois, à tarde, no Palácio Real, em Madrid, da adesão de Portugal e Espanha à CEE, que elevou para 12

os parceiros comunitários, antece-

deu, em poucos dias, a queda do IX Governo constitucional, o do Bloco Central, do PS e do PSD, de Mário Soares e Carlos Mota Pinto.

A agitada vida política interna

“laranja” já levara Mota Pinto a demitir-se, em 5 de Fevereiro, da

presidência da comissão política e

a ser substituído por Rui Machete.

No Congresso do PSD da Figueira da Foz, de 17 a 19 de Maio de 1985, dez dias depois da morte de Mota Pinto, Cavaco Silva chega ao poder. Foram tempos de sobressalto no processo de adesão, a escassos dias da assi- natura do tratado. “O PSD amea- çou não subscrever o tratado dias antes”, relata Mário Soares na sua autobiografia. A 12 de Junho foi Rui Machete quem, como vice-primeiro- ministro, assinou o Tratado de Ade- são, depois do primeiro-ministro, Mário Soares, e antes do ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, e de Ernâni Lopes, titular das Finanças. Um dia depois, a nova orientação

e

política do parceiro de coligação vi- ria a anunciar o fim do executivo com a demissão de 13 ministros e se- cretários de Estado “laranja”. Após ter sido recebido pelo Presidente da República, Ramalho Eanes, em co- municação ao país Soares anunciou

a sua inevitável demissão.

Sim, senhor primeiro-ministro (e o “horror” à

Polónia)

T erminava, deste modo, aque- le que terá sido o Governo mais importante liderado por Soares. No haver do IX Governo está, para além da assinatura do Tratado de

Adesão à Comunidade Económica Europeia, a negociação com o Fundo Monetário Internacional, FMI, inicia-

da em Agosto de 1983, para o finan- ciamento do país, e a lei de delimita-

ção dos sectores, abrindo à iniciativa privada as actividades bancária, se- guradora e cimenteira. Foi também tempo para a renovação do Acordo das Lajes, nos Açores, com os Estados Unidos, cujos fundos foram utilizados para a criação da Fundação Luso- Americana. Iniciativa daquele execu- tivo foi ainda a criação do Conselho Permanente de Concertação Social

e da Alta Autoridade contra a

Corrupção, com Costa Brás como alto-comissário.

Na agenda governamental, por pressão de um grupo de deputados, entre os quais Maria Belo e Manuel Alegre, estava o projecto de lei de

despenalização do aborto que con- sagrava a sua prática, em certas con- dições — violação, má formação do

feto e perigo para a saúde da mãe. Na prática, a apresentação do projecto de lei resultou de uma jogada de an- tecipação dos socialistas. Dois anos antes, uma iniciativa dos grupos par- lamentares do PCP e da UDP (força hoje integrada no Bloco de Esquerda) fora chumbada e, na iminência de uma nova proposta das mesmas ban- cadas, o PS apresentou um projecto de lei, seguindo a determinação do seu V Congresso. Houve uma pron-

ta reacção através de uma nota do

Episcopado da Igreja Católica, com a qual, desde o 25 de Abril de 1974, Mário Soares mantinha relações tran-

quilas. “A lei tinha sido votada contra minha vontade no congresso do PS, não porque discordasse dela, mas pela sua inoportunidade política pa-

o Governo” afirmará, mais tarde,

Soares.

A iniciativa provocou celeuma no

executivo do Bloco Central no qual

ra

havia ministros de forte obediência católica, como Ernâni Lopes. A As- sembleia da República veio a apro- var, em 27 de Janeiro de 1985, o pro- jecto de lei sobre a despenalização do aborto, num debate em que se desta- caram a poeta Natália Correia, então deputada independente do PSD, e a parlamentar comunista Maria Alda Nogueira. “Acho que Mário Soares foi o me- lhor primeiro-ministro que tivemos”, comenta José Manuel dos Santos. “Em dois governos, cada um a durar apenas dois anos, 1976-78, e 1983-85, conseguiu tirar o país da bancarrota, fazer reformas contra os comunis- tas — como a reforma agrária com António Barreto — e lançar reformas sociais, como a entrada em vigor do passe social e a criação do Serviço Nacional de Saúde.”

A opinião do antigo assessor cul-

tural não é partilhada por Carlos Gaspar. “Foi o melhor Presidente da República e o pior primeiro-ministro que tivemos”, assegura o ex-consul- tor político. “Tem dificuldades em coordenar equipas.” Já para Alfre- do Barroso, a dicotomia Presiden-

te/chefe de governo merece outra ponderação. “É melhor Presidente da República, mas não foi um mau primeiro-ministro como se diz”, refe-

re o antigo chefe da Casa Civil da Pre- sidência da República. “O seu melhor Governo foi o do Bloco Central, Mota Pinto foi chave, pois tinha uma estu- penda relação com Soares. A questão do aborto foi bem ultrapassada, co- mo a crise financeira, com a segunda intervenção do FMI.”

A lei de delimitação de sectores

foi a porta para a mudança da rea- lidade económica portuguesa, mar- cada pela nacionalização de vários sectores, entre os quais a banca e os seguros, em 14 de Março de 1975. Em boa parte para adequá-la às obriga- ções comunitárias e porque também não era aquele o figurino que Mário Soares pretendia para a economia

portuguesa. Assim, em 12 de Março de 1985, está presente na criação, no Porto, do primeiro banco priva- do português, o Banco Português de Investimentos. Como primeiro-ministro, Soares diligenciou para o regresso de al- guns empresários e banqueiros que

tinham ido para o estrangeiro. Insis- tiu junto de várias famílias. “Ele tinha

um canal de ligação com os Mello, pois foi advogado de Cristina Mello,

famílias. “Ele tinha um canal de ligação com os Mello, pois foi advogado de Cristina Mello,
PEDRO CUNHA/ARQUIVO
PEDRO CUNHA/ARQUIVO

Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 23

LUÍS VASCONCELOS

• Domingo, 8 de Janeiro de 2017 • 23 LUÍS VASCONCELOS mulher de Champalimaud”, recorda Barroso.

mulher de Champalimaud”, recorda Barroso. “Um dos homens com que ele falava era o Manuel José de Mello, que, aliás, o apoiou na sua primeira candidatura a Belém em 1985.” Al- fredo Barroso junta outro caso: “Na visita ao Brasil, falou com os Espírito Santo e incentiva-os ao regresso, para reanimar a economia portuguesa. Foi o Governo do Bloco Central que abriu o país à banca privada, por um objectivo de interesse político.” Em Espanha, foi também contac- tado Jardim Gonçalves: “Foi na pri- meira visita de Estado de Ramalho Eanes, num cocktail na embaixada portuguesa em Madrid, não espe- rava a abordagem.” O fundador do Millenium/BCP prossegue: “Quando

foi primeiro-ministro, queria recu- perar o país, foi determinante para assinar a minha vinda de Espanha.

É ele quem me nomeia para o Ban-

co Português do Atlântico, apesar de reservas de alguns dirigentes do PS.” Jardim Gonçalves sublinha: “Ele teve a coragem de me ir buscar, foi crucial e não tínhamos nenhuma relação pessoal. Só saí de Espanha com o meu nome impresso no Di-

ário da República.” Então, esta era

a démarche possível. “Em cada mo-

mento ele fez o máximo. Em 1977 a Constituição vedava a privados o sis- tema financeiro, ele trouxe para cá todas as pessoas que podiam gerir, eu convidei todos os que eram bons profissionais da banca”, recorda.

Com a lei de delimitação dos secto- res, voltou a ser contactado: “Foi no Governo do Bloco Central, em 1984,

saiu um decreto que abria a banca ao sector privado, houve uma reunião com Ernâni Lopes [ministro das Fi- nanças] com vários empresários na qual foi estimulada a criação de ban- cos.” O antigo banqueiro e o políti- co mantêm uma boa relação. “Mário Soares não alterou a relação comigo depois da confusão do banco [Mille-

nium/BCP]. Estou no conselho fiscal da Fundação Mário Soares. Tem exi- bido toda a confiança em mim e os nossos encontros têm sido sempre em lugares públicos”, acentua Jardim Gonçalves. Das três ocasiões em que foi pri-

Soares entre José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi, da UNITA. A descolonização em Angola foi uma missão difícil, com prolongamento enquanto Presidente

meiro-ministro, por duas vezes Soa- res liderou executivos de coligação. A experiência do Bloco Central foi an- tecedida, de Janeiro a Agosto de 1978, por uma inusitada coligação entre o PS e o CDS de Freitas do Amaral. No executivo, os centristas tinham três pastas: Vítor Sá Machado, nos Negó- cios Estrangeiros, Rui Pena, na Refor- ma Administrativa, e Basílio Horta, no Comércio e Turismo. Eram tem- pos difíceis, na ressaca dos aconteci- mentos de 1974/75. Portugal recebia a primeira assistência financeira do FMI. “Não tínhamos dinheiro para importar comida, os nossos credores só vendiam comida a pronto paga- mento. Chegaram a estar prontas as senhas de racionamento, safámo-nos pelo buraco da agulha”, revela Basí- lio Horta. A penúria de bens impor- tados era notória. O antigo ministro do Comércio e Turismo lembra um telefonema do primeiro-ministro: “A mulher tinha ido ao Último Figuri- no [loja da Baixa lisboeta] para lhe comprar uma gravata Guivenchy pa- ra o seu aniversário, mas não havia.” Então, perguntou-me: “O que é que anda a fazer? Você está a fazer deste país uma Polónia.” Não foi por este desabafo por telefone do Palácio de São Bento que o executivo caiu. “Se o Adelino Amaro da Costa estivesse no Governo, teria peso para a sua manu- tenção, mas foi um grande gabinete”, refere Basílio Horta.

D, de descolonizar — o abraço de Lusaca

D os três “D” inscritos no pro- grama do Movimento das Forças Armadas (MFA) para Portugal — Democratizar, Desenvolver e Descolonizar — o fim do império colonial

foi o que mais dividiu sectores das Forças Armadas. Assim, entre ou- tros temas, a descolonização ocupou Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo provisório.

Um cargo à sua medida, dado o seu protagonismo internacional e, co- mo o próprio admitiria mais tarde, porque não lhe provocava muito des-

gaste e, dada a agenda, lhe concedia mais visibilidade. Razões internas de peso.

“Não tinha dúvidas quanto à

c

24 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017

ESPECIAL

24 • Público • Domingo, 8 de Janeiro de 2017 ESPECIAL MÁRIO SOARES 1924-2017 política que

MÁRIO SOARES

1924-2017

política que queria realizar — reto- mar as relações com a ONU e aceitar as suas recomendações, conceder o direito à autodeterminação e à inde- pendência das colónias que estavam em guerra com Portugal por via de negociações que conduzissem, de

imediato, ao cessar-fogo e à paz”, re- fere. Na sua autobiografia sublinha, por diversas vezes, o que as crónicas dos anos quentes de 1974 e 1975 con- firmaram: “Pensava que sem resolver

o problema colonial não haveria de-

mocracia política possível nem de- senvolvimento.” Assim, dos três “D” do MFA, a descolonização era o central para o cumprimento dos outros dois. Com este pensamento, no mesmo dia da sua posse como chefe da nova di- plomacia portuguesa, Mário Soares partiu do Aeroporto da Portela para

Dacar, a bordo do avião do Presiden- te senegalês, Leopoldo Senghor, para encetar negociações com o líder do Partido Africano para a Independên- cia da Guiné e Cabo Verde, PAIGC, Aristides Pereira. Na visita, Soares foi acompanhado por dois militares da confiança do general António de Spínola, Almeida Bruno e Manuel Monge. Algo que se tornaria hábito noutras missões com o mesmo pro- pósito. Naquela mesma noite, Mário Soares e Aristides Pereira acordaram

o cessar-fogo que, horas mais tarde,