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09/01/2017

TraduçõesGratuitas:XavierZubiri­Nossasituaçãointelectual

Xavier Zubiri ­ Nossa situação intelectual

I

AFUNÇÃOINTELECTUAL

Atualmenteavidaintelectualseencontranumasituaçãoprofundamente

paradoxal.

Por um lado, há apenas dois ou três momentos da História que se comparam com o presente, em densidade e qualidade de novos conhecimentoscientíficos.Émistersublinhá­losemreservas,antescom entusiasmoeorgulhodeternascidonestaépoca.Ametafísicagrega,o direitoromanoeareligiãodeIsrael(deixandodeladosuaorigemedestino divinos)sãoosprodutosmaiscolossaisdoespíritohumano.Absorvê­los numaunidaderadicaletranscendenteconstituiuumadasmaisesplêndidas manifestações históricas das possibilidades internas do cristianismo. Somenteaciênciamodernapodeequiparar­seemgrandezaàquelestrês legados.Contudoeporissomesmo,nãoémuitocompreensíveloembaraço queinexoravelmenteatacaaquemqueiraentregar­seaumaprofissão intelectual:apesardasinúmerasciências–tãoverdadeiras,fecundase centraisparanossavida–aquemuitodosmelhoresesforçoshumanosse consagrou,ointelectualdehoje,casosejasincero,encontra­serodeadode confusão, desorientado e intimamente descontente consigo mesmo. Naturalmentenãosedeveaoresultadodeseusaber.

I.Confusãonaciência.Nãosetratasomentedaconfusãoradicalquepode reinarnalgumasdasmaisperfeitasciênciasdenossotempo,taisquala físicaouamatemática.Aocontrário,essapretensaconfusãoéantessinalde vitalidade,poisquesetratadumacrisedeprincípios.Comefeito,uma ciênciaérealmenteciência,enãotão­sóumacoleçãodeconhecimentos,à medidaquesenutreformalmentedeseusprincípios,eàmedidaquecada um de seus resultados retorne a eles. Nenhum progresso científico é comparável àquele em que se perfilam e modelam antigos e novos princípiosdaciência:Aristóteles,Arquimedes,Galileu,Newton,Einstein, Planckcertamentesãoos nomes quebalizarãoas etapas decisivas na históriadafísica,inaugurandocadaumumanovaeradessaciência.

Aconfusãodequesetratanãoserefere,pois,àcrisedeprincípios–éalgo

diferenteemaisgrave:

1.o Cada uma das muitas ciências hoje existentes carece quase completamentedumperfildelineadoquecircunscrevaoâmbitodesua existência.Qualquerconjuntodeconhecimentoshomogêneosconstituiuma ciência.Quandonessaciênciaumgrupodeproblemas,demétodosoude resultados adquire suficiente desenvolvimento para atrair de per si a atençãodocientistaedistraí­lodeoutrosproblemas,automaticamente

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constitui­seumaciência“nova”.Osistemadasciênciasseidentificacoma divisãodotrabalhointelectual,eadefiniçãodecadaciênciacomoâmbito estatísticoda homogeneidadedoconjuntodequestões queocientista abarca.Arigoropera­setão­somentecomquantidadedeconhecimentos. Contudonãosesabeondecomeçaeterminaumaciência,porquenãose sabe–estritamentefalando–dequeelatrata.Paraquesesaibadeque trata é mister precisar seu objeto próprio, formal e especificamente determinado.Aprimeiraconfusãoquereinanopanoramacientíficoatual deve­seàconfusãoacercadoobjetodecadaciência.

2.oColocaram todas as ciências num mesmoplano.Elas nãoapenas carecemdeunidadesistemática,senãoatédeperspectiva.Tantofazessaou aquela.Nãoexistediferença depatamarentreos diversos saberes da humanidadeatual.Comserem“científicos”,todosossaberessãopostosno mesmo patamar. Parece que se chegou ao inverso do que afirmava Descartes, quando dizia que todas as ciências tomadas em conjunto constituemumacoisasó:ainteligência.Emlugardessaunidade,que implica essencialmente em unidade de perspectiva com diferenças de patamar,temosumconjuntodeconhecimentosdispersos,projetadosnuma sósuperfície.Asegundaconfusãoqueaciênciaproduzdeve­seaessa inauditadispersãodosaberhumano.

Essa “ciência plana” é determinada pelo conhecimento duma coisa chamada“osfatos”.Comefeito,todaciênciapartedumpositum–oobjeto que“estáaí”–,esóoconsideramàmedidaqueestáaí.Pareceentãoque todas as ciências devem equivaler­se enquanto ciências, precisamente porquetodassão“positivas”.Apositivaçãoradicaldaciênciaatuacomoum princípionivelador.Contudonãoreparamquetalveznemtodososobjetos sejamsuscetíveisaigualpositivação.Nessecaso,seesse“estaraí”nãofosse igualparatodacastadeobjetos,apositivaçãonãoserianiveladora,eas ciênciasaindamaispositivasteriamemseuobjetopróprioeintegralum princípiodesubordinaçãohierárquica.

II.Desorientaçãonomundo.Afunçãointelectualnãotemumlugardefinido

nomundoatual.Certamentenãoéporfaltadeinteresse,masporqueessa

funçãoseconverteunumaespéciedesecreçãodeverdades,venhamdonde

vieremeversemsobreoqueversarem.Anteessedilúviodeconhecimentos

positivos,omundocomeçaarealizarumaperigosapeneiradeverdades,

fundadaprecisamentesobreopretensointeressequeoferecem,interesse

quesetransformadeprontoemutilidadeimediata.Afunçãointelectual

mede­seapenaspelautilidadeetendeaeliminarorestocomosimples

curiosidade.Dessemodo,aciênciavaisetornandocadavezmaistécnica.

Oqueàprimeiravistapareceapenasdoloroso,éemrealidadealgomais profundo. Este mundo, que se libra pela utilidade, começa a perder progressivamenteaconsciênciadosfins,querdizer,começaanãosabero quequer.Sobrevémentãoàrodaesseclamorensurdecedor,próecontraos “intelectuais”,porqueemrealidadeestemundonãosabeparaondevai.Em lugardummundo,temosumcaosemqueafunçãointelectualvagueia

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tambémdemodocaótico.“Nãoédifícilver–diziaHegelhámaisdeum século–quenossotempoéumaépocadenascimentoetrânsitoparauma nova época.Oespíritorompeucom omundodeseuser­aí edeseu representar,queatéhojedurou;estáapontodesubmergi­lonopassado,e seentregaàtarefadesuatransformação.Certamenteoespíritonuncaestá em repouso,mas sempretomadoporum movimentopara frente.Na criança,depoisdeumlongoperíododenutriçãotranqüila,aprimeira respiração – um salto qualitativo – interrompe o lento processo de crescimentoquantitativo;eacriançaestánascida.Domesmomodo,o espíritoqueseformalentamente,tranqüilamente,emdireçãoasuanova figura,vaidesmanchandotijoloportijolooedifíciodomundoanterior.Seu abaloserevelaapenasporsintomasisolados;afrivolidadeeotédioque invademoqueaindasubsiste,opressentimentovagodumdesconhecido sãoossinaisprecursoresdealgodiversoqueseavizinha.Essedesmoronar­ segradual,quenãoalteravaafisionomiadetodo,éinterrompidopelosol nascente, que revela num clarão a imagem do novo mundo”.

(Fenomenologiadoespírito,prólogo,I,3.)

Umamaneiraespecialdesubmergir­seconsistejustamenteemsobreviver apenasnaimaginação.Boapartedos“intelectuais”–nemsempreosde menorimportânciacientífica–sobrevivemcontemplandoumaimagem pretérita,numaignorânciaimpressionantedatransformaçãoradicalquea fisionomiadointelectopadece.Umadascoisasquemaisimpressionamo historiadorqueestudaaépocadeCassiodoroéobservaraingenuidadecom queaqueles homens,quepara nós pertenciam a uma nova idadeda história, acreditavam continuar em linha reta a história do Império Romano.Segundoseouvedemuitosintelectuais,parecequesetrataapenas dearrepiarcaminhopela“estradaseguradaciência”.Resolver­se­iatudoao sereconquistaro“espíritocientífico”,o“amoràciência”.Esquecemquea funçãointelectualveminscritanummundo,equeasverdades–atéas mais abstratas – foram conquistadas num mundo dotado desentido preciso.Ofatodequepossamvaguear,semprejuízodesuavalidade, passandodummundoaooutro,talveztenhalevadoàimpressãodeque nasceramforadequalquermundo.Masissonãoéassim.NaGréciaatéa matemática se pôs em movimento, devido à função catártica que o pitagorismolheassinalou;maistardeelafoiviadeascensãoaDeusede descensodeDeusaomundo;emGalileuéaestruturaformaldanatureza.A gramáticanascenaantigaÍndia,quandosesentenecessidadedemanejar com absoluta correçãolitúrgica os textos sagrados, a cujas sílabas se atribuíaumvalormágico,evocativo;anecessidadedeevitaropecadode equivocação engendrou a gramática. No Egito a anatomia nasce da necessidadedeimortalizar o corpo humano. Tomam­seum a um os membrosessenciaisedeclaram­nossolenementefilhosdodeusSol:essa contagem foi a origem da anatomia.Ahistória dos índios nasceuda necessidadedefixarcomfidelidadeasgrandesaçõespretéritasdosdeuses; afidelidade,enãoasimplescuriosidade,engendrouahistórianaquela terra.Nenhuma ciência escapa dessa condição.Porisso,ofatodeas ciênciasadquiriremumcaráterextra­históricoeextramundanoéindício inequívocodequeomundoestáafetadopeladecomposiçãointerna.

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Emlugardeselimitarcomooanimal,cujacondutaestáemfunçãodum ambiente,ohomem tem derealizaroumalograrpropósitos eesboçar projetosparasuasações.Osistematotaldessesprojetoséseumundo. Quandoosprojetosseconvertememcaixilhos,quandoospropósitosse transformamemsimplesregulamentos,omundodesmorona,oshomensse convertemempeçaseasidéiassãousadasmasnãoentendidas;afunção intelectualcarecepoisdesentidopreciso.Maisumpasso,ejáserenuncia deliberadamente à verdade: as idéias se convertem simplesmente em esquemasdeação,emreceitaseetiquetas.Aciênciadegeneraemofício,eo cientistaemclassesocial:o“intelectual”.

III.Descontentamentoconsigomesmo.Seocientista,o“sabedordecoisas” e “possuidor de idéias”, vendo­se sozinho e deslocado do mundo, reconsideraemete­seconsigomesmo–queencontradentrodesique justifiqueessaatitude?

Desde logo, ele possui métodos para conhecer, que dão esplendidos resultados, como jamais aconteceu em outra época da História. A exuberânciadaproduçãocientíficaalcançatamanhograuqueseficacoma impressão de que a quantidade de descobertas científicas excede enormementeasatuaiscapacidadeshumanasparaentendê­las.

Nãosetratadelevantardúvidasnemdesuscitarumpessimismofácilque,

definitivamente,sóbrotadeinteligênciaspusilânimesedébeis.Nuncaa

inteligênciahumanacontoucommaispossibilidadesdoqueaquelasdeque

atualmentedispõe.Mas,tendoolhadomaisparadentroeexaminadoa

situaçãocomsinceridade,vê­se:

1.oQueosmétodosdocientistaàsvezescomeçamaterpouquíssima

relaçãocomsuainteligência.Osmétodosdaciênciavãoseconvertendocom

rapidezvertiginosaemsimplestécnicadeidéiasoudefatos–umaespécie

demetatécnica–;elesentãojádeixaramdeseroqueseunomeindica:

órgãosquesubministramasevidências,oscaminhosqueconduzemà

verdadeenquantotal.

2.oQueocientistacomeçaaficarfartodesaberes–eissoéinquietante.

Nãoéporacaso.Oqueconfereumaposiçãoeminenteàproduçãocientífica éosentidoqueordenaàintelecçãodascoisas,àverdade.Porissomesmoo homeméoretificadordainvestigação,afirmando­senaplenapossessãode simesmoedesuaprópriaciência.Poisbem:nesseconjuntodemétodose deresultadosdeproporçõesingentes,ainteligênciadohomematual,em lugardesedepararasimesmanaverdade,estáperdidaentremuitas verdades. O intelectual vê­se invadido, no fundo de seu ser, por um profundofastiodesi mesmo, queascendecomouma densa neblina, condensadanoexercíciodaprópriafunçãointelectual.

Seus saberes e métodos constituem uma técnica, mas não uma vida intelectual.Porvezesencontra­secomoqueadormecidoparaaverdade,

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abandonadoàeficáciadosmétodos.Éumerroprofundopensarquea ciêncianascedosófatodequeseuobjetoexistaeohomempossuauma faculdadepara conhecê­lo. Ohomem deAltamira eDescartes não se distinguemsomenteporqueestefilosofaeaquelenão,senãoqueohomem deAltamiranãopodiafilosofiar.Paraquenasçaaciênciaecontinue existindo,faltaalgoqueváalémdafaculdadenuadeproduzi­la.Faltam certaspossibilidades.Lentaepenosamente,ohomemvemtecendoum sistema sutil e vítreo de possibilidades para a ciência. Quando se desvanecem,aciênciadeixadeservivaparaseconverteremprodutoseco, emcadáverdaverdade.Aciênciasópôdenascernumavidaintelectual.Ela nãonasceuquandoohomemestava,comoqueporacaso,napossede verdades,masjustamenteocontrário,quandoeleseencontroupossuído pelaverdade.Neste“pathos”daverdadegestou­seaciência.Ocientistade hojemuitasvezesdeixoudelevarumavidaintelectual.Nolugardela acreditaquepodecontentar­secomseusprodutos,parasatisfazer–no melhordoscasos–umasimplescuriosidadeintelectual.

***

Definimos assim uma situação por meio dalguns de seus caracteres essenciais:

1.oApositivaçãoniveladoradosaber.

2.oAdesorientaçãodafunçãointelectual.

3.oAausênciadevidaintelectual.

Maisquecaracteresfixos,sãoevidentementetendênciasobserváveisem

grausdiversos.Eufalava,nocomeçodestaslinhas,que,porex.,nalgumas

ciênciasumafecundacrisedeprincípiosésintomamanifestodevitalidade

pujante.Maséevidentequearealidadedessestrêscaracteresqueacabamos

desublinharconstituioperigoradicaldainteligência,oriscoiminentede

queavidadeixedeexistirnaverdade.Nessalutatrágica,emquesedecide

odestinodainteligência,ointelectualeaciênciaestãomergulhados,ao

mesmotempo,numasituaçãopeculiar:anossasituação.Seassimfor,o

quesedevefazeremprimeirolugaréaceitá­lacomoumarealidadedefatoe

defrontaroproblemaqueelatrazàtona:arestauraçãodavidaintelectual.

II

AVERDADEEACIÊNCIA

Prestandobematenção,podever­sefacilmentequeessestrêscaracteresnão sãoproduzidos poracaso.Representam os três desvios a quea vida inteletualconstitutivamenteseexpôs.

Todaciênciatemcomofimúltimoaverdade.Naestruturadaverdadejá

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estãodadosastrêscaracterísticasaquevimosdereferir.

Averdadeéapossessãointelectualdaíndoledascoisas.Ascoisasse propõemaohomem,eaverdadeconsisteapenasemqueainteligênciase revista com a forma das coisas. Quando a inteligência expressa essa situação,dizemosqueseuspensamentospossuemverdade.Ditodeoutro modo,a verdadeé–segundoa fórmula tradicional–um acordodo pensamentocomascoisas.Todooproblemadaciênciaseestribapoisem chegaraumacordocadavezmaiorcomamaiorquantidadedecoisas. Quaissãoascondiçõesdesseacordo?

1.Emprimeirolugar,algodeprévioaoexercíciodafunçãointelectual:as

coisasmesmasestão“propostas”àinteligência;i.e.,ascoisasdevemestar presentes ao homem. Deixemos de lado toda complicação ulterior. Quaisquerquesejamosmeioseoscaminhosporqueohomemconsigaque ascoisasestejampresentes,estasdevemestardiantedele.Docontrário seria absolutamenteimpossívelcomeçara entender.Poderíamos talvez pensar,masospensamentospurosnãoseriamdepersiconhecimentos verdadeirosoufalsos.Aessapatênciadascoisaspodedar­seradicalmenteo nomedeverdade.Assimchamaram­naosgregos:a­léthia,descobrimento, patentização.Setodasascoisasestivessempresentesemanifestas,com todosseusdetalheseestruturainterna,ainteligênciaseriaoespelhofielda realidade.Masnãoéoqueocorre.Antesapresençadalgumascoisasoculta adasoutras;osdetalhesdascoisasnãomanifestamsemmaisnemmenos suaestruturainterna.Vemdaíqueainteligênciaveja­seenvolvidanuma situaçãoaleatória.Elanecessitadeaprenderaacercar­sedascoisas,para queessasselhemanifestemcadavezmais.Essemodooucaminhode acercar­seaelaséoque,desdeaantigüidade,denominou­seméthodos, método.Métodoéocaminhoquenoslevaàscoisas,enãoummero regulamentointelectual.Eisaquiaprimeiracondiçãodaverdade:limitar­se àscoisasmesmas.

2.Masoproblemadaverdadenãoseesgotacomométodo,muitopelo

contrário.Sefosseassim,ainteligêncialimitar­se­iaaregistrarcoisas,uma vezqueessasestivessempresentes.Duranteséculoseséculosquasesempre foiassim,ouaomenosfoisobretudoassim.Nãoobstante,ohomemnem sempreesperaqueascoisaspassemanteseusolhos.Asmaioresconquistas dafísicamodernadevem­seaoimpulsoaudazcomqueohomem,emlugar deseguira natureza,antecipa­sea ela medianteum interrogatório.A verdade,qualumacordodainteligênciacomascoisas,supõecertamaneira –afortunadaoufeliz–deseperguntarporelas.Nãosetratatão­somente dasinterrogaçõesgenéricasqueainteligência,porsuaprópriaíndole,não podedeixardepropor.Qualquerbusca,aindaamaismodesta,supõe efetivamentequeohomemsepergunteporqueocorrealgo,oqueéalgoetc Nãosetratadisso.Antessetratadummodoconcretodeformularessas perguntasgenéricas.Osentidodoporquênãoéomesmoemfilosofiaouem psicologia.Sealguémperguntaporquemovimentoobraço,nãofazsentido aofisiólogoresponder:porquequer.Umacoisaéperguntar­seporque ocorreumfenômeno,outraédelimitarcomminhaperguntaaáreaondevou

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investigarofenômeno–forçoanaturezacomminhasperguntasparaque apresente fenômenos que sem elas nunca apresentaria. Esses modos concretosdefazerperguntas,oumelhor,essemodoprimárioepréviode acercar­sedarealidade,éumacondiçãoparaqualqueracordopossívelcom ela.Ométodonãonoslevaráasimplesmenteresolverosproblemasqueas coisasestabelecem,senãoquenoslevaráaforçarascoisasanosestabelecer novosproblemas.Éummétododeinterrogaçãomaisquederesolução. Assimamatemáticaserviudemétododeinterrogaçãoparaafísica.A verdade pois pressupõe um sistema de questões prévias com que a inteligênciaconfrontaarealidade.

3.Dondenasceessesistemadeperguntas?Indiscutivelmentequalquerque

sejaapartedasperguntasqueseincumbadarealidade,essapartenãoé

suficienteparailuminaroquestionário.Sefosseassim,aciênciaseria

consubstancialaohomem.Eisaíascoisasdesdequeomundoémundo,e

eisaíainteligênciahumanaasemoverentreosporquêsdesdequehá

homens.Nãoobstante,aciênciatemumahistóriatardia,lentaetortuosa.

Mesmonasciênciasmaisobjetivas,éinegávelacondicionalidadehistórica.

Existemproblemasquesedelineamapenasemcertasépocas;problemas

propostoseresolvidosnumaépoca,talvezporacaso,encontram­seisolados

emciência,porqueseuestadohistóriconãopermitedar­lhessentido.O

sistemadeperguntasnascedaestruturatotaldasituaçãodainteligência

humana.

Essastrêscondiçõespodemexpressar­se,edevemexpressar­se,emordem

inversa:nasituaçãoconcreta,ohomemesboçaumprojeto,ummodode

acercar­sedascoisaseinterrogá­las,eésóentãoqueascoisasdãoa

respostanaqualseconstituioacordocomelas:averdade.

Aquiapareceotrípliceriscoaqueainteligênciaseexpõenoesforçopela

verdade.

Comefeito,ohomemnãotemantesitodasascoisasnemotodode nenhuma delas. Mas com tais fragmentos de fragmentos – e graças precisamenteàquiloquelheficaocultodessecaráterfragmentário–o homemlança­separaconstituirseumundo,aúnicatotalidadenaqualse dáepodedar­secadaumadascoisas.Éóbvio,pois,queaciênciacomeçe pordissolver,aomenosintencionalmente,essemundoingênuoparareduzi­ loàssuasjustasproporçõescognoscitivas.Essaproporçãojustaseexpressa novocábulo“osfatos”:aquiloqueestádiantedemim,tão­somentepor estareàmedidaqueestá,semamenorintervençãodeminhaparte.Pois bem:osfatosassimentendidospropendemfacilmenteasereduziradados empíricos.Averdadecientíficaconsistiránoacordocomessesdados,ea ciência será simplemesmente um saber acerca de sua concatenação ordenada.Areduçãodascoisasafatos,edessesadadossensíveis,leva inexoravelmenteàidéiadumavidaintelectualemquetodosossaberessão equivalentes, e cuja unidade dispersa está concentrada apenas na enciclopédiadointeirosaber.Talfoiaobradopositivismo.

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Sobretudodurantenoséc.XX,comoutraciênciaemmãos–afísicateórica –,ohomemcompreendeuainsuficiênciadessaconstrução.Amoderna ciência física nasceu quando o cientísta se decidiu a interrogar matematicamenteanatureza.Aciêncianecessitadesaberinterrogaras coisas.Essa“necessidade”impõe­seaocientistapelomerofatodeelese proporàdescobertadumaordeminteligívelnosdadosempíricos.Averdade nãoéalgoquesimplesmentesedoeasi,algocomqueohomemse encontra;averdadeéalgomaisqueumfato:éumanecessidade.Ohomem necessitasabercomoascoisasvãoocorrendo,casonãosequeiraver perdidoentreelas.Essanecessidadeéaquelaquelevouohomemamodelar a maneira de como se confrontar com as coisas. Como qualquer necessidade,podedizer­sequeanecessidadedaverdadeéumfenômeno com estrutura biológica; como qualquer vida, a da inteligência deve obedeceraomenosàleidomáximorendimentocomomínimoesforço. Medianteinterrogatório,aciêncialograareduçãodaenormevariedadedos dados sensíveis a umas quantas relações elementares queopermitem preverocursodosfenômenos.Maisquevisão,sãoasciênciasprevisão.Por isso,comosediziahácinqüentaanos,aeconomiadopensarlevaamedir osfenômenoscomprecisãoeaenquadrá­losemfórmulasmatemáticas. Cadaumaéumconjuntopotencialdeinumeráveisfenômenos,quecapacita ohomemamanejarocursofuturodestescomamáximasegurançae simplicidade.Averdadeéumacordocomascoisas,massobretudocomas coisasfuturas;paratanto,vistaapartirdopresente,umaleiverdadeira nada mais équea tentativa dedominarocursodas coisas. Avida intelectualépoisaprogressivacriaçãodefórmulasquepermitemomanejo darealidadecomomáximodesimplicidade.Suaverdademede­seapenas pelaeficácia.Éopragmatismo,prolongamentonaturaldopositivismo.

Masopragmatismo,aosublinharocaráterformulárioesimbólicodo

interrogatório,indicouumaraizmaisprofunda:anecessidadevital.Parao

pragmatismoavidamentaléumcasoparticulardabiologia.Poisbem:

essaassimilação,porsersimplista,pareceuexcessiva.Avidamental,eem geralavidahumana,nãoépuramentebiológica.Comraízesemecanismos biológicos,ohomem–ozôion–articulaumbios.Maisexatamente,quero dizerqueabiologiahumana,comserinsuficiente,éumcasoparticulardo bioshumano.Avidaassimentendidasurgesemprenalgumasituação;nela semoveesedesenvolve.Sódentrodessasituaçãoadquireopensamento sentidoeestrutura.Écertoquenãosepodemaislograraverdadesenãopor ummodoespecialdeacercar­sedascoisas,masessamaneirajáestádada nomodogeralcomqueohomem,porseubios,estásituadoanteascoisas. Odinamismodassituaçõeshistóricaséoquecondicionaaorigemdenosso modo de aproximação da realidade, tenha­se ou não plasmado num questionárioexplícito.Essasituaçãohistóricamatizatambémosentidoda verdade.Comoassituaçõeshistóricas(assimseacreditava,pelomenos duranteoséc.XX)sãoestados deespírito,todos os objetivos quese queiram–aindaquesejamosseusestados,amesmaverdadeeaciência emgeral–sãoapenasaspectosdessesestados.

Empregandoaterminologiaoraemuso,sechamarmosdeculturaoproduto

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da realidadehistórica,a ciência seria apenas uma forma dum estado cultural.Expressariaoaspectointelectualdumasituaçãohistórica,umvalor cultural.Averdadeéovalordainteligência.Ecomoqualquervalor,só existepelosentidoqueadquireemdadasituação.Cadaépoca,cadapovo temseusistemadevalores,seumodoespecíficodeentenderouniverso– unsmaisvaliososqueoutros,massemprereflexodumasituaçãohistórica –, sem que ninguém tenha direito de arrogar­se um caráter único e absoluto.Éohistoricismo,aliadonaturaldopragmatismo.

Positivismo,pragmatismoehistoricismosãoostrêsgrandesdesviosaque duma ou doutra forma se expôs a verdade em sua tripla estrutura intelectual.Averdadeéexpressãodaquiloquehánascoisas;seentendemos ascoisascomomerosdadosempíricos,inclinamo­nossuavementeem direçãoaopositivismo.Sóseconquistaaverdadeatravésdummodode interrogar a realidade; se entendemos esse interrogatório como uma necessidadehumanademanejarcomêxitoocursodosfatos,inclinamo­nos emdireçãoaopragmatismo.Sóexisteverdadeapartirdumadeterminada situação;seentendemosessasituaçãocomoumestadoobjetivodoespírito, submerge­senohistoricismo.Trêsdesviosquenãosãoindependentes. Examinadaemsuasraízesmaisprofundas,asituaçãohistóricadohomem europeulevou­oaapoiarboapartedesuavidanainteligênciacientífica [historicismo];eleaimpulsionouparadarformaintelectualaseumodode acercar­sedascoisas[pragmatismo];graçasaesseformulário,elepôde descobrireprecisaroquesãoascoisasenquantofatos[positivismo].

Não será difícil reconhecer que no fundo dos três caracteres, que já descobrimos em nossa própria situaçãointelectual,subjazem mais ou menosexplicitamenteessastrêsatitudesanteaverdadeeanteaciência. Certoque,salvoemcasosisolados,hojenãoseencontrarianadacapazde subscreverintegralmentenenhumadessastrêsconcepções.Pormenosque se ocupe de questões filosóficas, qualquer um sentirá nelas algo de definitivamentepretéritoepreterido.Masseriagraveilusãoacreditarque seus efeitos desapareceram ao desaparecer sua vigência intelectual. Desapareceram talvez como teoria da ciência, mas nos deixaram na situação intelectual que debatemos atualmente. O caráter disperso e niveladordosaberéoresultadonaturaldaatitudepositivista.Otecnicismo dolaborcientíficoésenãoumpragmatismoemmarcha.Aausênciade verdadeiravidaintelectualeaatençãodirigidadepreferênciaaestadiosde civilizaçãocomsuasdiferentes“maneirasdever”ascoisassão,emmedida decertomuitomaior,umhistoricismoradical[relativismocultural].Se perguntarmos oquehojeseentende,na maioria dos casos,porvida intelectual,seriafácilobterestasrespostas:(a)avidaintelectualéum esforçoparaordenarosfatosnumesquemacadavezmaisamploecoerente; éumenriquecimentodaenciclopédiadosaber.(b)Avidaintelectualéum esforçoparasimplificaredominarocursodosfatos:éatécnicaeficazdas idéias.(c)Avidaintelectualéamaneiradeverosfatos:aexpressãoda curiosidadeeuropéia.Nessestrêscasosomeroenunciadodafórmulafaz estacarcomcautelaaquemqueiraacercar­sedumaprofissãointelectual. Sãotrêsconcepçõesqueexpressammaisqueaíndoledaciência–orisco

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iminentedesuadecomposiçãointerna.

Nãoobstante,detenhamo­nosumtantonareflexãosobrearaizcomum

dessesdesvios.Averdadecomeçousenosapresentandocomoumacordo

comascoisas,ousequiserem,comoumesforçoparaestardeacordocom

elas.Masnessaidéiado“acordo”encerra­seumequívocograve,queé

precisoesclarecer.Aoescutaressasdiversasconcepçõesdaciência,observa­

sequenelastodassubjazcadavezmaisenergicamenteoesforçopara

chegaratalacordo,etãoenergicamentequesetemaimpressãoocultade

queparaelasasituaçãoprimáriadohomemseriaadecarecerdecoisas.

Parecequeaciênciaconsisteemdar­noscoisasdequeestaríamosprimária

eradicalmentedespossuídos.Dequeassimsejanamaiorpartedotempo

nãoémisterinsistir.Masnãosetratadisso;nãoéquestãodeaveriguara

maioroumenorquantidadedecoisasqueohomemconheçaoudesconheça

primariamente.Trata­sedealgomaisgrave:ésaberse,devidoasua

própriaqualidadeinterna,essaprivaçãodeobjetoéounãoéradicalparaa

inteligência.Jánãoéquestãodeciência,masdalgumacoisaqueafetaa

estruturageraldopensarenquantotal.

Porumaanalogiaexternacomopressentido“mundosensível”,propende­se

aacreditarqueafunçãoprimáriadopensarsejaformaridéias,domesmo

modoqueossentidos,abandonadosasimesmos,sónosdãoimpressões.O

pensarseriaumaespéciedesensibilidadeousensaçãointelectual.Issoé

exato?

Antesasidéiassãomaisoresultadodaatividadepensante.Esseresultado acarretouquemuitasvezesseresvalassenoprincípioocultodomesmo pensar.Devidoàprópriaestruturaobjetiva,opensamento,àdiferençados sentidos,nãopossuiraiznumameraimpressão;ousequiserem,nãoéa impressão o que constitui primariamente a índole do pensar. O pensamento,porsuaestruturainerente,nãopodereceberimpressãoalguma senãodesdobrando,porassimdizer,seuconteúdo.Oatomaiselementardo pensardesdobraacoisaemdoisplanos:acoisaqueéeaquiloqueelaé.O “é”éaestruturaformaleobjetivadopensar.Paraopensamento,avirtude dascoisasnãosãoimpressõesdopensamento,nãosãosimplesmentealgo com queopensamentotropeça: omodode“tê­las”éparadoxalmente “colocá­lasadistância”,entendendoque“são”.Nãoapenas“temos”as coisas,mastambémascoisas“são”dessaoudaquelamaneira.Adiferença radicalentreossentidoseopensarépoisumadiferençade“colocação”,por assimdizer,anteoobjeto:ossentidos“têm”impressões,opensarentende que“são”.Semessadimensãoprimáriaeobjetivadopensar,nãosepode falardepensamento.Issoéoquedistingueradicalmenteopensardetoda formadesentir.Omaismodestodosdadossensíveiséparaopensaruma expressãodealgoqueé.Comopensamentoesensibilidadenãosãofunções necessariamente separadas, resultará que incluída em toda percepção sensívelinclui­seessemomentodo“é”porqueohomem,aindadentroda esferaempírica,move­senummundodecoisas,enãosimplesmentenum âmbitodeimpressões.Nãosetratadeteoriasfilosóficas,masdumamera descriçãoimediatadoatodepensar.Graçasaodesdobramentoconstitutivo

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do“é”,opensarencontra­seanteascoisas,delasentendendooquesão.

Nesseentender,aquiloquesãoéaquiloquesechamaidéias.Porissonãoé

aidéiaprincípio,masresultadodafunçãopensante.Porissotambémas

idéias,mesmoestandoemmim,sãodecoisas.

Écertoqueopensamentotemdeconquistarcoisas,maséporquejáse movepreviamentenelas.Aquiresideograveequívocoaqueantesaludia:a verdade, como um acordo com as coisas, supõe sempre estar nelas previamente.Há uma verdade(esequiserem,uma falsidade,nãohá problema)radicaleprimáriadainteligência:suaimersãoconstitutivanas coisas.Porissoépossívelquealguémseproponhaestarounãodeacordo comelas,porquepreviamenteestácomelasenelas.Averdade,comoum acordoentreumaafirmaçãoeumarealidade,ésemprealgosecundárioe derivado;háumaverdadeprimária,queéprecisamenteaqueapresentaa necessidade de discernir umas coisas das outras, e de decidir esse discernimentoatravésdologos.Daíqueastrêscondiçõesdaverdade,aque antesaludia,seconstituamdumaunidadeprimáriaeinamisívelentreo pensamentoeascoisas.Deixemosdeladooproblemafilosóficoqueessa unidadenosdepara.

Poisbem:éfácilobservarquearaizcomumdostrêsdesviosacimacitados esteia­sejustamentenoesquecimentoaomesmotempoteóricoeefetivo dessadimensãoradicaleobjetivadopensaredaverdade.Assistimosnelas aumainterpretaçãodopensamentoquevaireduzindo­ocadavezmaisa umameraimpressão.Daquiaconsiderá­lotão­somentecomoumestado dohomem(dossentidos,davidaoudasituaçãohistórica,poucoimporta) sófaltaumpasso.Ditodeoutraforma:opensamentoatualnaciênciatende vertiginosamenteàperdadoobjeto:ascoisas.Essaperdaéaessência comumàstrêscaracterísticasdenossasituaçãointelectual.Acaba­sepor nãosaberoquesesabenemoquesebusca.Masseconsideramosaciência comopenetraçãocadavezmaisprofundaeextensanummundodeobjetos ondeconstitutivamenteestamosimersos,desúbitotudomudadefigura.O positumnãoémeraimpressãosensível;asimplicidadenomanejodos fenômenosnãoéutilidadebiológicacega;asituaçãohistóricaemque estamoscolocadosnãoémeraformaobjetivadoespírito.Emqualquerum dessesaspectos,opensamentoeohomemnãopodemseconcebernem entendersenãonasecomascoisas.Porissoastrêscondiçõesessenciaisda verdadenãopodemidentificar­secomopositivismo,opragmatismoeo historicismo.Ascoisaséquenosimpõemosesforços.Porissoaciêncianão ésimplesadiçãodeverdadesqueohomempossui,masodesdobreduma inteligênciapossuídapelaverdade.Assimasciênciasjásenãoencontram meramentejustapostas,masexigem­semutuamenteparacaptarfacetas diversaseplanosdeprofundidadesdistintosdummesmoobjetoreal.A vidaintelectualéum esforçoconstanteparasemanternessaunidade primáriaeintegral.

Éclaroquesófalarnãobasta.Ostrêscaracteresqueapontamospáginas atrás definem, por algumas de suas características, nossa situação e manifestamanecessidadeurgentedareconquitadessesentidodoobjeto.

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Nossafainaconsisteboaparteemlográ­loapartirdenossasituação.Certo équeoobjeto,precisamenteporserconstitutivodopensar,jamaisestá ausentedele,nemsequeremnossasituaçãoatual.Masoobjetotornou­se especialmenteobscuro.Talveztenhamculpa,egrave,desseobscurecimento as demasiadas concepções do “objeto”, que por isso se tornam insustentáveis.Segundooscasos,elaspossuemprofundidadeealcancemui distintos,mascomojamaisdescrevessemoquerealmentesucede,carecem de razão. Por isso não se trata duma mera reconquista, mas duma reabordagemradicaldoproblema,comolhoslimposevistadesimpedida.

III

CIÊNCIA,FILOSOFIA,VIDAINTELECTUAL

Decertoque,comtudoisso,deu­seapenasoprimeiropassoimpostopela própriasituação:aentradadohomememsimesmoparavercomclaridade “ondeestá”.Nãoédemodoalgumevidentequeohomempossuaaenergia suficienteparaficarasósconsigosemfugirdesi.Porissoasalvaçãoda vidaintelectualnãodependetão­só,nemtampoucoprimariamente,da própriainteligência.Aciência,dizíamos,sónasceuquandoseproduziram aspossibilidadesquepermitiramsuaexistência.Teveohomemdepôrem jogoalgoqueolevouaconhecer.Essealgonosapresentaoproblemamais profundoda existência.Odesarraigamentoda inteligência atualéum aspecto do desarraigamento ante a existência inteira. Só o que torne arraigá­lanovamentenaraizprimogênitadaexistênciapoderestabelecer complenitudeonobreexercíciodavidaintelectual.Desdeaantiguidade, essearraigamentodaexistênciatemumnomepreciso:chama­sereligação oureligião.Numtrabalhopublicadohácincoanostrateidoproblema. Remeto­meaeleparaevitarqueprecipitadamentesepenseemvagueações românticas,ouseacreditequealudoaalgumtipodepráticareligiosa.Antes falodareligaçãoprimáriaefundamentaldaexistência.

Entretanto, sea inteligência nãoéuma condiçãosuficientepara esse restabelecimento,nãoobstantenãodeixadeserumacondiçãonecessária.

Aprimeiramissãodainteligênciaconsisteemesclareceraprópriasituação

aquechegoueconvertê­laemproblema.

Aotratardedefrontar­secomasdimensõesradicaisdasituaçãoemque

está,ainteligênciaseencontraconsigomesma(porumprocessobem

distintodocartesiano),evê­seenvolvidanumasériedequestõesquelhe

apresentamaprópriasituação:

1.oOproblemadapositivaçãodosaberéumproblemaqueconcerneatoda

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formadesaberpositivoeatodarealidadepositiva.Aosemovernessalinha,

ainteligêncianãosevêsimplesmentejogadadumaregiãodarealidadea

outra,nemdummododesaberpositivoaoutromas,abarcandoemseu

campodevisãotudoqueépositivo,fazdeleobjetodumaconsideração

trans­positivaoutranscendental.Éumsaberquenãoédistooudaquilo,

masdetudo,contudodeoutramaneira.Nãoéumsaberamaisentreoutros

saberes,antesumanovaespéciedesaber.

2.oOproblemadadesorientaçãonomundolevar­nos­áanalogamentea

umaconsideraçãodasdiversasformasdomundoedevisãodomundo,não

parabrincarcomumaououtra,nemparanoscomprazernasimples

contemplaçãodummuseuoutipologiadeconcepçõesdomundoedavida,

antesparaabarcá­lasatodasnumaconsideração,porassimdizer,trans­

mundana,transcendentalaseumodo.

3.oOproblemadaausênciadevidaintelectuallevar­nos­á,finalmente,a

umaconsideraçãodainteligênciaqueabracetodasasformaspossíveisdo

seuexercício,nãoparadecidirporumaemdetrimentodasoutras,antes

paraesclareceraíndoledafunçãointelectualenquantotal.Umaespéciede

consideraçãotrans­intelectualoutranscendental.

Porpoucoquesereflita,ver­se­ápoisque,sobumaououtraforma,nasua solidãoradical–nãonumasolidãoabstrata,masnasolidãoconcretadesua situaçãoreal–ainteligência,aoexercerafainadeentraremsimesma,está justamente se movendo em direção a três idéias fundamentais. A positivaçãodosaberconduzàidéiadetudoquantoé,pelosófatodesê­lo, ouseja,àidéiadoser.Adesorientaçãodomundolevaaoesclarecimentoda idéiadomundoenquantotal.Aausênciadavidaintelectualnosdesvelaa índoledainteligênciaenquantotal,i.e.,avidateorética.Aofazê­lo,a inteligênciaseencontranoexercíciodumaautênticavidaintelectual,num mundodeproblemasperfeitamenteorientado,comasrealidadestodasna suaconcreçãoamaisprofundaetotal.

Outracoisanãoé,senãoafilosofia.Afilosofiaésimplesmente“saber transcendental”. Não acredito na necessidade de insistir em que esse adjetivonãofazamenoralusãoàterminologiaidealista.

Afilosofianãoé,demodoalgum,umacondiçãosuficientepararestaurara

vidadainteligência;masé,desdelogo,condiçãonecessáriaparaisso.

Assimé,nãoporconveniênciaoufelizcongruênciadafilosofiacomessa

missão,masporqueafilosofiaconsisteprecisamentenoproblemadoser,

domundoedateoria,proporcionadospelasimplesentradadainteligência

emsimesma.

Reciprocamentepodedizer­seque,desdeumpontodevistapuramente

intelectual,asituaçãodesinfelizeparadoxalemquehojeseencontrao

homemsignifica,emúltimainstância,ausênciadefilosofia.“Tãoestranho

–disseHegel,noiníciodesuaLógica–quantoumpovoparaoqualse

tornaraminservíveisodireitopolítico,asinclinaçõeseoshábitos,éo

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espetáculodumpovoqueperdeuametafísica,dumpovoemqueoespírito –ocupadocomaprópriaessência–nãopossuinenhumaexistência.”Como Platão,convida­nos também a nos retirar“nas tranqüilas moradas do pensarqueentrouemsimesmo,eemsimesmopermanece,ondese silenciamosinteressesquemovemavidadospovosedosindivíduos”.

Adificuldadedocasoestáemqueafilosofianãoéalgofeito,queestejaà disposiçãoedequebasteencherasmãosparaservir­seàvontade.Emtodo homem,afilosofiaécoisaquesehádefabricarporumesforçopessoal.Não édizerquecadaumtenhadecomeçardozeroouinventarumsistema próprio.Bemaocontrário.Precisamenteporsetratardumsaberradicale último,afilosofiaestámontada,maisquequalqueroutrosaber,sobreuma tradição.Aindaqueseadmitamfilosofiasjáfeitas,emverdadetrata­sede queesseaditamentoresultedumesforçopessoal,dumaautênticavida intelectual. O sobejo é “aprendizado” brilhante de livros ou confecção esplêndidadeliçõesmagistrais.Épossível,comefeito,escrevertoneladasde papeleconsumirlargavidanumacátedradefilosofia,enãoroçagarnemde longeomaislevevestígiodevidafilosófica.Reciprocamenteépossível careceremabsolutode“originalidade”epossuir,nomaisrecônditodesi mesmo,omovimentointerioresilenciosodofilosofar.

Hádesepoisfazerafilosofia,eporissonãoédemisteroaprendizado abstrato. Como todo fazer verdadeiro, essa é uma operação concreta, executadaapartirdumasituação.Atualmentecomoéessasituação?Difícil responder tal pergunta. Toda situação se acusa em certos problemas proporcionadospelainstabilidadeocultaepelainconsistênciaquesubjaz nessefundo.Víramosque,partindodaciência,chega­seatrêsidéias:oser, omundoeateoria.Aciênciadeveviversobreelas,queconstituemdesdea antigüidadeoobjetodafilosofia.Contudoafilosofiaatualdebate­seem tornodessastrêsidéias.Ser,mundoeteoriasãootítulodetrêsgrandes problemas ou inquietudes intelectuais, e não de três idéias feitas e acabadas.

Nafilosofiaatual,essestrêsproblemassãolevantadosportrêsrealidades

queconstituem,semdúvida,oconteúdomaisrealdohomemdehoje.

Desdeoséc.XIII,ahistóriavaipressionandocadavezmaisaexistência humana. Não obstante, atéentão, salvo em casos isolados eisoladas circunstâncias,considerou­sesempreahistóriacomoalgoquesepassaao homem;hojeahistoricidadepugnaparaseintroduziremseupróprioser. Daíaidéiadeser,sobrequeseinscreveuaquasetotalidadedafilosofia desdesuaorigematénossosdias,vacilaesetransformaemproblema grave.

Poroutrolado,odesenvolvimentogigantescodenossatécnicamodificou

profundamenteamaneiracomoohomemexistenomundo.Podedizer­se

querealmenteatécnicaconstituiamaneiraconcretadecomoohomem

atualexisteentreascoisas.Seentretantoparaaantigüidadeatécnicaera

ummododesaber[cf.HugodeSãoVitor,Didascálicon],paraohomem

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modernoelaestáconquistandoumcarátercadavezmaisepuramente operativo.Ohomosapiensfoicedendooposto,maisemais,aohomofaber. Daí a grave crise que afeta a idéia mesma do mundo e da função retificadoradohomemnaprópriavida.

Finalmenteascomplicaçõesdetodaordem,navidaquotidianaprivadaena vidapública,convertem­nosem problemaagudoosmecanismosmais elementaressobrequeseapoiaranossaexistência.Aurgênciaarrastao homemcontemporâneo,cujointeressesevoltaparaoimediato.Daíagrave confusãoentreourgenteeoimportante,queconduzasuperstimaçãodas decisõesvoluntáriassobrearemotaeinoperanteespeculaçãoteorética.Se paraumgregoaformasupremadapráxisfoiateoria,paraohomem contemporâneoateoriasevaidistanciandotantodoquesechama“vida” que, às vezes, teórico acaba virando sinônimo de não­verdadeiro, de distantedarealidade.

Ahistória,atécnicaeaurgênciavitalconvertememproblemagraveessas trêsidéias,queconstituíramoconteúdoinabaláveldafilosofiaanterior. Com issoa idéia mesma defilosofia cai envolta num problematismo radical.Opredomíniodeumdessestrêsproblemasconduziu,atravésdos tempos,atrêsconcepçõesdiferentesdafilosofia:afilosofiacomoumsaber teóricodoqueascoisassão;afilosofiacomoumsaberretificadordo mundoedavida;afilosofiacomoumaformadevidapessoal.Atualmente aoseconverteremproblemaradicaloser,omundoeateoria,essastrês concepçõesficamemsuspensoedeixamàderiva,anteohomemhodierno, oproblemacentraldapossibilidadeedosentidodofilosofar.Conscientes docaráterhistóricodetodaasituação,dominadoomundopelatécnica, acossadoohomempelasurgênciasmaisprementes–quesentidopodetero filosofar?Podeacontecerumaformadeinteligênciaque,semradicale penosoequívoco,designe­sepelomesmovocábulode“filosofia”comqueos gregosdesignaramaformasupremadesabedoria?Oproblemadafilosofia atualsereduz,nofundo,aoproblemadofilosofiar–éafilosofiacomo problema.

Queestánocernedesseproblema?Emqueconsisteafinalasituação

intelectualemqueestranhamentenosinstalamos?Ninguémescolhesua

situaçãoprimária.AtéoprimeirodoshomensDeuscriounumasituação

quenãoforaobradele:OParaíso.Afilosofianãosesubtraidessasituação.

Nasceuapoiadananaturezaenohomem,quesãopartedela,ambos

dominados,naestruturainternaenodestino,pelaaçãodosdeuses.Elafoia

obradosjônicos,queseconstituiuemtemapermanentedaespeculação

helênica.Séculosmaistarde,aGréciaassisteaofracassodesseintentode

entenderohomemcomoserpuramentenatural.Anatureza,evanescentee

fugaz,arrastaapóssiologoshumano:aGréciaafundou­sedumavezpor

todasnointentovãodenaturalizarologoseohomem.

Jásemummundo,aGréciarecebecertodiaaprédicacristã.Ocristianismo salva o grego, descobrindo­lhe um mundo espiritual e pessoal que transcendeanatureza.Apartirdessemomento,ohomemvaitomaruma

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rotaintelectualdistinta:começandodanaturezaquesedesvanece,vai

entraremsimesmoechegaraDeus.Modificou­seohorizontedofilosofar.

Afilosofia,razãocriada,foipossibilitadaaoseapoiaremDeus,razão

incriada.Essarazãocriadapõe­seacaminho,enumavertiginosacarreira

deséculosiráenfatizandoprogressivamenteocarátercriadodoracional,de

sortequeeventualmentearazãoseconverteráempuracriaturadeDeus,

infinitamentedistanciadadoCriadoreporissocadavezmaisreclusaemsi

mesma.Essaéasituaçãoaquesecheganoséc.XIV.

Somenteagora,semmundoesemDeus,ohomemvê­seforçadoarefazero

caminhodafilosofia,apoiadonaúnicarealidadesubsistentedaprópria

razão,queéooutrodomundomoderno.AfastadadeDeusedascoisas,na

sópossessãodesimesma,arazãotemdelevaremseuseioosmeioseos

órgãosquelhepermitamchegaraomundoeaDeus.Masonãologra.Em

seulugar,noafãdatentativadedescobrirasvertentesmundanasedivinas

darazão,acabaporconvertê­lasnarealidademesmadomundoedeDeus.

Éoidealismoeopanteísmodoséc.XIX.

Paradoxal resultado. Quando o homem e a razão criam ser o tudo, perderam­seasimesmos;ficaram,decertomodo,nulificados.Dessemodo, ohomemdoséc.XXencontra­seaindamaissó;masdessavezsemmundo, semDeusesemasimesmo.Singularcondiçãohistórica.Intelectualmente aohomemdehojeresta­lheapenasolugarontológicodondefoipossível inscrever­senarealidadedomundo,deDeusedaprópriaexistência–a solidãoabsoluta.Asósnoseucaminhar,massemapoionoquefoi,o homematualfogedoprópriovazio:refugia­senarevivecênciamnemônica dopassado;exprimeasmaravilhosaspossibilidadestécnicasdouniverso; marchavelozàsoluçãodosproblemascotidianoseurgentes.Fogedesi:

deixaqueavidatranscorrasobreasuperfíciedesimesmo.Renunciaà adoçãodeatitudesradicaiseúltimas:aexistênciadohomematualé constitutivamentecentrífugaepenúltima,daíoangustiosocoeficientede provisoriedadequeameaçadissolveravidacontemporânea.Nãoobstante, porumesforçosupremo,lograohomemretirar­seemsimesmoesentir que dentro de seu fundo abismal, como umbra silente, passam as interrogaçõesúltimasdaexistência.Reboamnavacuidadedasuapessoaas questõesacercadoser,domundoedaverdade.Encravadosnestanova soidãosonora,situamo­nosparaalémdetudoquantohá,numaespéciede situaçãotrans­real:éumasituaçãoestritamentetrans­física,metafísica. Sua formulação intelectual é justamente o problema da filosofia contemporânea.

Barcelona,maiode1942.

CapítuloIdeNatureza,História,Deus.