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Os desafios actuais e as insuficiências à esquerda

Sumário

1 – Introdução
2 - Síntese de aspectos estruturais que configuraram a Europa nas
últimas décadas
3 - Medidas anti-sociais levadas a cabo na Europa
4 - Elementos da crise económica, social e política portuguesa
5 - Inconsistências e insuficiências à esquerda - Construção da unidade

1 – Introdução

A situação actual que vivem os trabalhadores portugueses em geral e,


mais especificamente, os desempregados, os reformados e os excluidos
resulta, como é sabido, da interação entre a crise internacional e as
debilidades próprias do capitalismo em Portugal.

Mas, também é uma sequela das fragilidades da visão predominante


na esquerda portuguesa, do tipo de organização existente e da
actuação popular e militante das organizações da esquerda
portuguesa. Este tema é, em geral um tabu, preferindo-se ostentar uma
auto-suficiência enganadora cujos resultados não se vêem, a não ser
em desempenhos eleitorais ou institucionais ineficazes; e que
demonstram os imensos limites das democracias de mercado.

Da nossa parte, não gostamos de tabus e preferimos mexer nas feridas


para que a gangrena se não desenvolva.

2 - Síntese de aspectos estruturais que configuraram a Europa nas


últimas décadas

Na Europa, particularmente, assistiu-se, desde o final da II Guerra, à


observação de vários elementos de capital importância política:

• Na Europa Ocidental, a consolidação de um modelo de paz


social, que permitiu fortalecer os capitalistas e gerar uma
aceitação pelos trabalhadores, de um crescimento do bem-estar,
ilusoriamente tomado como permanente, num quadro de
pluralismo político e sindical;

• Na Europa de Leste, consolidou-se um modelo de capitalismo de


Estado sem as mesmas bases tecnológicas e de mercado para
gerar riqueza de modo satisfatório e, portanto, sem condições

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para “concorrer” com os níveis de bem-estar e consumo da parte
ocidental do continente; para mais, num quadro de unicidade
política, impropriamente denominado de socialismo, onde toda a
iniciativa estava conferida ou filtrada por um partido único;

• A criação da CEE constituiu um ensaio inicial de integração de


capitalismos nacionais, protagonizado pelas multinacionais,
potenciador de sinergias várias, resultantes do esbatimento da
importância das fronteiras;

• A descolonização reformulou a base territorial do poder


económico europeu, subalternizando-o, claramente, sob a
liderança dos EUA;

• As revoltas do Maio de 1968, em França e Itália, bem como a


invasão da Checoslováquia tiveram enormes consequências
ideológicas, colocando em causa o chamado modelo social
europeu, a preponderância dos PC´s tradicionais e das
burocracias sindicais, e fez florescer uma constelação de
alternativas criativas à esquerda, maoistas, trotskistas, anarquistas,
luxemburguistas, guevaristas …

• A queda das ditaduras em Portugal, Grécia e Espanha, nos anos


70 e, em 1989, o desmembramento do Comecon e do Pacto de
Varsóvia constituiram a base para um enorme alargamento
territorial da UE, com vantagens particulares para a Alemanha,
reunificada e constituida em centro de gravidade da União;

• Esse alargamento surgiu também como forma de aumentar o


mercado disponível aos capitais europeus, em busca de uma
alternativa ao fim do impulso da reconstrução dos danos da
guerra de 1939/45;

• As dificuldades da acumulação capitalista global reinventaram o


liberalismo sob a forma de ditadura dos mercados, de repúdio da
intervenção do Estado, de endeusamento da empresa e da
iniciativa privada, de promoção do mais rasteiro individualismo,
em antagonismo com quaisquer fórmulas de intervenção nas
questões sociais decorrentes daqueles postulados. Foram seus
criadores teóricos, Hayek e Milton Friedman e seus primeiros
executores políticos, Pinochet e Thatcher;

• Às medidas conducentes à liberdade de circulação de bens,


serviços e capitais, corresponde a pressão para a supressão
gradual das políticas que enformavam o referido “modelo social
europeu”, as privatizações e um enorme crescimento da

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acumulação de capital, em paralelo com o aprofundamento das
desigualdades;

• Consequentemente, a produção mundial torna-se integrada,


com a incorporação, num mesmo produto, do trabalho com
várias origens geográficas e diversas qualificações. A
Humanidade gera, assim, uma base colectiva para a produção
de bens e serviços, através da segmentação do processo
produtivo levada a cabo pelas multinacionais, financiada por um
sistema financeiro global, com plataformas técnicas comuns de
transmissão de informação;

• O desenvolvimento desmesurado dos sistemas de transporte


tornados necessários pela segmentação da produção, pela
complexização dos processos produtivos e pelo crescimento do
comércio mundial, associado ao fomento do automóvel
particular e do turismo de massas, provocou danos brutais no
ambiente, com impactos climáticos dramáticos;

• Por outro lado, a financiarização das economias desenvolveu


imenso formas especulativas e virtuais de criação de capital e
geração de lucros que tornam pouco interessante o investimento
na produção de bens e serviços essenciais em falta para a
maioria dos 6300 M de seres humanos;

• Neste contexto, a necessidade de mão de obra é relativamente


menor que em épocas passadas, dada a grande produtividade
do trabalho que somente beneficia, essencialmente, os
capitalistas, não se reflectindo na redução da jornada de
trabalho; a maior longevidade humana associada a sistemas de
segurança na doença e na velhice torna aliciantes, para os
capitalistas a ideia de que há gente a mais no planeta e o
retorno de velhas doutrinas genocidas. Israel está, aliás bem à
frente, nesse campo querendo apropriar-se da Palestina sem
palestinianos;

• O neoliberalismo, associado à falência do capitalismo de Estado


nos antigos países chamados socialistas, traduziu-se num
optimismo vanguardista por parte dos capitalistas, alardeado
pelos seus “think tanks” e mandarins, ampliado pelos seus meios
de comunicação. E daí a promoção da ausência de alternativas
ao capitalismo neoliberal através da equiparação entre
capitalismo de Estado e socialismo, para melhor se afastar os
trabalhadores de qualquer alternativa de libertação das amarras
do capitalismo. Daí resulta, a vigência do “pensamento único”.
Em paralelo, oculta-se que o caso da China é um exemplo
particularmente claro de simbiose entre capitalismo de Estado e

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neoliberalismo, “um país, dois sistemas” como reza a propaganda
oficial. E que nada tem de progressista;

Finalmente, refira-se que à esquerda, na sua pluralidade, reina uma


enorme inconsistência de análise da situação e das propostas de lhe
fazer frente(1). Uns, continuam a defender o capitalismo de Estado,
nada tendo aprendido com a experiência da URSS e similares; outros,
consideram que nacionalizações só por si são sempre a favor da
multidão, em qualquer contexto; há quem sonhe com um regresso ao
“modelo social europeu”, como se a História se repetisse; muitos, ainda
não conseguem descortinar que os PS europeus há muito nada têm de
progressista, assumindo claramente a agenda neoliberal, etc. (2)

3 - Medidas anti-sociais levadas a cabo na Europa

Com variantes quantitativas, o quadro mais preciso das medidas que


castigam os trabalhadores europeus, extrai-se do seguinte catálogo
promovido a partir de Bruxelas, com a obediente aplicação dos
governos europeus e o aplauso mais entusiástico proveniente do capital
financeiro:

• Políticas deliberadas de rebaixamento dos níveis salariais em


paralelo com a exigência de maiores qualificações, o que
constitui uma dupla exploração;

• Constituição de bolsas enormes de pobreza, com especial


incidência entre desempregados e reformados;

• Criminalização da imigração para mais fácil tornar a sobre-


exploração dos imigrantes e, por indução, a de todos os
trabalhadores;

• Redução das contrapartidas sociais em casos de desemprego,


doença e pobreza, com incentivos políticos ao assistencialismo;

• Verdadeira perseguição e criminalização dos trabalhadores do


Estado;

• Redução do acesso ou encarecimento a cuidados médicos,


medicamentosos e desprezo pela instituição de um ensino de
qualidade;

• Deliberada actuação no sentido da precarização das relações


laborais em geral;

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• Aumento das jornadas de trabalho e vulgarização do trabalho
extraordinário não remunerado;

• Transferência para as famílias dos encargos com a educação e


formação, integrada numa pesrpectiva mercantilista;

• Liberalização do despedimento, com alargamento dos motivos,


redução das indemnizações e dos tempos de pré-aviso;

• Privatização acelerada e extensiva de empresas públicas e


vulgarização da contratação de serviços a empresas privadas.
Verdadeira coabitação entre trabalhadores do Estado e de
empresas privadas no exercício de funções de carácter público
ou pagas pelo Orçamento;

• Orgia privatizadora que pretende tornar mercadorias os cuidados


de saúde, a educação, o espaço público, a água, a habitação,
o património histórico, cultural e artístico, etc. Na realidade, a
própria vida tende a ser uma mercadoria, com produção
consumo e obsolescência;

• Reduzidas possibilidades de emigração favorecem a pressão


para a aceitação pelos trabalhadores do quadro vigente de
compressão salarial e dependência neo-esclavagista. Por outro
lado, a homonegeidade do quadro político, económico e laboral
em toda a Europa torna escassas as possibildades de melhoria
das condições de vida através da emigração, a não ser num
contexto de sobre-exploração;

• Acentuado pendor do controlo securitário da multidão, através


de forças policiais e militares sofisticadas, agentes privados de
segurança, videovigilância, formas de geolocalização,
cruzamentos de bases de dados, controlo policial da internet, etc;

• Afunilamento do poder político e do quadro institucional num


leque estreito de alternativas, tão estreito que só há a evidenciar
diferenças cosméticas; e onde a acção política se apresenta
como um espectáculo mediático, com a multidão com a
multidão, passivamente, sentada no sofá;

• Crescente afastamento entre o conjunto formado por mandarins


e patrões e a restante população, daí resultando uma crescente
polarização social, com afundamento das classes médias que
serviram de base a um fracassado “modelo social europeu”;

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• Crescente homogeneidade no seio da multidão entre quadros,
trabalhadores qualificados e não qualificados, no que respeita à
segurança no trabalho e remunerações; essa homogeneidade
extrai-se da profunda matriz de conexões de qualificações
inerente às condições da produção mundializada de hoje mas,
também da intenção niveladora por baixo, levada a cabo pelas
burguesias;

• Estreitamento das opções no capítulo da informação, censurada


manipulada e deturpada dos órgãos de informação
mercantilizada e, demasiadas vezes, imbecilizante. O único
espaço de liberdade de massas encontra-se, por enquanto, na
internet, com ameaças poderosas por parte dos Estados e das
grandes empresas de conteúdos.

4 – Elementos da crise económica, social e política portuguesa

A crise é bem mais profunda que a existente antes do 25 de Abril e, por


diversas razões:

• A burguesia portuguesa perdeu qualquer autonomia no contexto


global, contrariamente ao verificado nos anos 70 do século
passado, quando lhe era permitido manter as guerras coloniais e,
simultaneamente, beneficiar das vantagens comerciais da
pertença à EFTA e do acordo com a CEE, lavrado em 2002;

• Do ponto de vista político, a burguesia portuguesa vê reduzir-se


gradualmente o quadro institucional do exercício da sua
soberania sobre o território e sobre a multidão, por força das
prerrogativas detidas pelas instituições da globalização (Comissão
Europeia, BCE, OMC, Pentágono/NATO, “mercados” financeiros,
etc);

• Os capitalistas portugueses não têm qualquer projecto


estratégico alternativo à diluição subalterna dentro de uma UE,
dominada pelos capitais alemães e franceses. E, essa
subalternidade, acentua-se pela incoerência política, pelo
carácter neoliberal do chamado “projecto europeu”, alheio a
qualquer política de geração de desenvolvimento harmónico e
de solidariedades;

• Toda a Europa se insere na estratégia de domínio mundial do


Pentágono, baseada no controlo das fontes e corredores
energéticos e na actuação militar, em proveito prioritário da

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segurança energética dos EUA, embora com algum reforço e
reconhecimento da relevância relativa do pilar europeu;

• A estrutura económica portuguesa anquilozou e vai definhando


entre a desinsdustrialização e o esgotamento do crescimento
alicerçado no imobiliário/obras públicas, espartilhada por um
empresariato ignorante e incapaz e, por um menosprezo pela
acumulação de saber e de qualificações dos trabalhadores, que
remonta a Salazar;

• As debilidades económicas próprias, a anemia europeia, com


especial relevo para as dificuldades espanholas, a próxima
quebra do volume dos fundos comunitários, a redução das
capacidades da teta orçamental, conduzem os capitalistas lusos
a desenvolver actividade em três sentidos:

o a venda de activos (casos sintomáticos da Cimpor e da


Vivo/PT);

o a alegre exportação de capitais para paraisos fiscais, Brasil


ou Angola, com a cuidada conivência do seu governo;

o o esmagamento dos preços do trabalho assalariado;

• Para a multidão de trabalhadores e pobres, em Portugal, o


quadro da continuidade é pouco auspicioso:

o As instituições ditas democráticas, dia a dia, surgem como


cosméticas ou como fonte de autoritarismo mas, em
qualquer dos casos distanciadas dos interesses da multidão,
objectivamente sem representação alguma na gestão
colectiva da sociedade;

o O Estado, cada vez mais empobrecido e assediado pelos


capitalistas em busca de apoios e encomendas, vai
abandonando ou restringindo a sua intervenção nas áreas
sociais, da saúde e da educação e é atravessado pela
impune e avassaladora corrupção protagonizada pelo
PS/PSD, com o CDS a fazer o que pode para os
acompanhar;

o Contrariamente ao sucedido entes do 25 de Abril, a válvula


da emigração maciça está relativamente fechada, por
ausência de destinos promissores para o trabalho;

o O autoritarismo evolui firmemente para um novo tipo de


fascismo e é clara uma intenção genocida da burguesia

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portuguesa em relação a uma faixa da população com
fracas capacidades de consumo e indutora de indesejados
custos orçamentais – reformados, desempregados,
trabalhadores pouco qualificados, excluidos;

o Contrariamente ao sucedido em 1974, não há forças


armadas para desencadear golpes de estado contra o
apodrecido regime cleptocrático vigente e permitir o
desenvolvimento das movimentações populares, como
então. Os trabalhadores portugueses podem e devem
apenas contar consigo e com a construção da unidade
anti-capitalista com os seus congéneres de todos os países,
europeus em particular;

o Está-se longe da constituição de uma frente ou plataforma


popular de unidade anti-capitalista susceptível de travar e
fazer regredir o processo de retrocesso democrático e de
perda de rendimentos e direitos, iniciado no final dos anos
70. As pretensões hegemónicas, o sectarismo messiânico, o
conservadorismo, as tácticas conciliadoras com os
governos e o patronato, afastam a multidão da actuação
reivindicativa e política.

5 - Inconsistências e insuficiências à esquerda – Construção da unidade

Perante o simplificado elenco de factores estruturais, de ordem histórica,


política, económica e social que se desenhou atrás, uma questão surge,
instintivamente, na boca e no pensamento de todas as vítimas do
capitalismo: que fazer?

É preciso avaliar melhor a configuração e a dimensão do que se torna


necessário fazer para, numa primeira instância, estacar ou travar a
ofensiva do capitalismo contra a multidão; e, numa segunda instância,
preparar as acções para a extinção do capitalismo.

Quanto maiores forem as inconsistências e insuficiências à esquerda,


mais valioso é esse trunfo para a ofensiva capitalista em curso; mais
necessária é a sua discussão e a procura de alternativas de
compreensão e actuação; mais necessária é a autonomia dos
movimentos dos trabalhadores, dos pobres, da multidão de explorados,
em toda a sua diversidade. Pretende-se, em seguida abordar, entre
muitas dessas inconsistências e insuficiências, as que se prendem com a
construção da unidade, particularmente no caso de Portugal.

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Não é, de todo, aconselhável acreditar na viabilidade de que o
capitalismo se desmorona de per si e que o poder de gestão colectiva
das sociedades caiará instantaneamente nas mãos da multidão.
Mesmo perante a crise financeira actual, o capitalismo mostra ter
grandes capacidades de regeneração e sobrevivência.

Essas capacidades só serão diminuidas e anuladas se existir uma acção


concertada e suficientemente global por parte da multidão de
trabalhadores, ex-trabalhadores e pobres. Essa concertação exige uma
unidade muito sólida em pontos fulcrais e alargada em termos
geográficos.

Unidade não é unicidade, é a união das diversidades para a execução


de acções comuns, consensualizadas de modo democrático, com
todas as decisões participadas por todos e por todos susceptíveis de
crítica; não é a colocação disciplinada e obediente atrás de um
caudilho (individual ou colectivo) pretensamente indiscutível.

A realidade sempre foi composta de pluralidade, de diversidade, de


convergências e divergências de opiniões e práticas. Todas as
experiências uniformizadoras com Constantino, a Inquisição, Hitler ou
Stalin acabaram por fracassar; demasiadas vezes, com muito sofrimento
e sangue de permeio e no final. E, como é verificável, o pensamento
único vertido pelo ideário neoliberal, que se integra nessa linha de
uniformizção, só tem futuro no caixote do lixo da História.

Passando ao concreto.

Em Portugal, durante muitos anos depois da estabilização nas ruas, nas


empresas e nos quartéis imposta “manu militari” em Novembro de 1975,
foi conferido ao PC (pela mão de Melo Antunes) um quase monopólio
da oposição de esquerda, no mundo sindical e na AR, enquanto o PS
surgia como coluna vertebral do sistema político.

Considerando os resultados das diversas eleições legislativas, assiste-se a


uma lenta erosão dos votos no PC enquanto a outra esquerda eleitoral
perde igualmente expressão, até 1999, com o surgimento do BE; em
2005 e pela primeira vez, as esquerdas fora do PC ultrapassam este
último, o que se consolidou em 2009, quando o PC deixou de ser a
principal força de esquerda na AR. (3)

A constituição do BE, independentemente da sua prática política ou do


seu programa, demonstra como a unidade de forças de esquerda é
vista pela multidão: constitui um polo de aglutinação de vontades e de
mobilização, que vai muito para além da soma dos votos dos partidos,
quando separados. A unidade é um factor incentivador da prática
política ou, pelo menos, de interesse pela acção política e observa-se,

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quer no contexto eleitoral, sindical, ambiental e local, como no âmbito
da empresa.

O nível das lutas sindicai e no local de trabalho constitui a principal base


onde se torna mais fácil conseguir a unidade dos trabalhadores contra
o capitalismo. Como se verá adiante, ela tem estado consciente e
francamente dificultada.

Quase só no terreno e perante a desorientação, a repressão e a


desorganização da restante esquerda após 1975, o PC tratou de
consolidar o seu poder junto das organizações dos trabalhadores:

• Essa intenção surge, em primeiro lugar, do quadro ideológico,


através da pretensão leninista de controlo das organizações de
massas, a partir de uma rede disciplinada de militantes dedicados
e inseridos numa burocracia partidária muito estrita, hierarquizada
e de cariz sectário;

• Esta concepção típica dos PC’s é herdeira da tradição


maniqueista das crenças monoteistas e baseadas num “livro” em
que as pessoas se dividem em fiéis e infiéis, havendo entre estes
alguma tolerância benevolente para com os convertíveis ou
“recrutáveis” ou para os que aceitam a sua suserania e a
subalternidade;

• Sendo o PC, para os seus quadros, “O Partido”, tudo no seu


exterior é reaccionarismo ou esquerdismo, tomado este como
“radicalismo burguês de fachada socialista” na impagável
designação de Cunhal e tratado com especial desdém e ódio. O
Partido é o repositório de todo o saber e o CC o fiel guardião das
certezas científicas;

• Nesta concepção fechada e religiosa da realidade, a construção


social não é plural ou, na melhor das hipóteses, restringe-se a uma
pluralidade tolerada que interessa seja dominada, instruida pelos
“illuminati”, os membros do partido; as decisões não são tomadas
em moldes de democracia directa, apenas referendadas por
elementos previamente escolhidos e instruidos sobre a votação
conveniente;

• Assim, dentro deste plano ideológico e organizativo, foi


estruturado um poder sindical hierarquizado, em que todas as
decisões cabem a várias esferas hierárquicas (direcção, comissão
executiva, secretariado, coordenador), cuja manutenção exige
um conservadorismo avassalador nos métodos e nas pessoas
físicas que o protagonizam. O importante é o controlo das
estruturas sindicais cujo objecto é a inserção no quadro mais

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global dos interesses do partido, por muito obscuros que
pareçam, não passando os interesses dos trabalhadores
enquanto tal, de subalternos e instrumentais;

• Recorde-se que para essa pretensão hegemónica ser


perpetuada pretendeu-se, ainda nos anos 70, que fosse o Estado
a impor em lei, a unicidade sindical; isto é, o Estado definiria por
lei o modo como os trabalhadores se organizariam, modelo aliás
vigente nos países de capitalismo de Estado, cuja organização
sindical nunca primou pela independencia face ao poder;

• Naturalmente que a direita aproveitou essa prática. Não


conseguindo opor-se dentro da maioria dos sindicatos, inventou
uma coisa chamada UGT, com apoios financeiros alemães
fornecidos pela Fundação Friederich Ebert, ligada ao SPD. A UGT,
dominando alguns sindicatos importantes (bancários e seguros,
por exemplo) rapidamente foi ocupada pelo PS que subalternizou
o seu confrade PSD, parceiro inicial nesse projecto de criação de
uma estrutura sindical pertencente ao governo;

• Essa estrutura vertical e hierarquizada vigente não poderia ser


aplicável em cada empresa, nas comissões de trabalhadores,
contituidas na base, junto dos próprios trabalhadores, de difícil
controlo burocrático e nas quais não seria fácil impor os interesses
de qualquer partido. E por isso, as comissões de trabalhadores
nunca foram incentivadas nem apoiadas, embora constituam as
células elementares da luta e da unidade dos trabalhadores;

• A escassa existência de comissões de trabalhadores, aliada a um


papel passivo da maioria dos delegados sindicais, transformados
em mensageiros das respectivas direcções, gera um hiato entre a
base dos trabalhadores, integrantes de vários sindicatos ou,
mesmo não sindicalizados e os dirigentes e funcionários sindicais,
distanciados da realidade concreta;

• Fica assim traçada uma situação em que os trabalhadores ficam


mais facilmente submetidos às arbitrariedades e ao poder dos
patrões, à informação da corporação mediática, sem uma
representação democrática a nível do local de trabalho; e em
que os dirigentes sindicais se constituem como casta muito
interessada em se manter fora das agruras que impendem sobre
a massa dos trabalhadores nos locais de trabalho, menos
alcatifados que os gabinetes dos ministérios;

• Está imanente na descrição efectuada atrás toda uma


desconfiança face aos trabalhadores em geral, relativamente às

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suas capacidades de criação de reivindicação, de luta, de
unidade, do seu futuro. Entre os efeitos, nefastos, sobressai:

o Polarização da vida sindical em torno dos seus dirigentes e


funcionários, em regra, quadros po PC;

o Distanciamento por parte dos trabalhadores, que se


referem ao sindicato, não coisa sua mas, como algo
distanciado, pouco acessível, “os tipos lá do sindicato”;

o Desindicalização acelerada, por desinteresse face à vida


sindical, pela aposentação de muitos trabalhadores
acompanhada com a não chegada de novos aderentes,
dadas as condições de precariedade e mesmo de punição
ou discriminação por parte dos patrões, dos trabalhadores
sindicalizados;

o Desinteresse pela vida sindical dos militantes de esquerda


não pertencentes ao PC, dadas as limitações para a sua
expressão, excepção feita a quantos se sentem bem numa
posição de subalternidade e de objecto de benevolência.

Sublinham-se, em seguida, casos recentes de aplicações “unitárias” mas


não de unidade de diversidades contra o inimigo capitalista.

Na recente manifestação da CGTP de 29 de Maio foi visível como a


direcção da central discrimina os não integrados na ordem sindical
vigente, os não submetidos ao pensamento único decretado pelo que
se pode designar como a “Confraria dos Órfãos de Brejnev”, isto é, a
direcção do PC e os seus braços executivos, a coorte de funcionários,
em regra, tão obedientes como canhestros.

• A direcção da CGTP teve o cuidado de ordenar a constituição


de um cordão de segurança para impedir a entrada autónoma
de grupos de activistas na manifestação. Só podem entrar os
credenciados pelos burocratas sindicais, todas as outras pessoas
são suspeitas ou indesejáveis;

• Mesmo o institucional BE só teve direito de se acrescentar ao


desfile oficial, encerrado pelo mesmo cordão de segurança;
repetimos, o direito de se acrescentar, não o direito de participar;

• Com essa atitude a CGTP demonstra que a unidade de que


recorrentemente fala é a unidade dos submetidos ao
pensamento único, legitimado pela sua direcção;

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• Com esse cordão de segurança transformam-se trabalhadores
em vigilantes de outros trabalhadores, em polícias privados, num
papel vergonhoso e indigno de ser desempenhado por uma
central sindical.

Em Setembro do ano passado foi criada a PAGAN – Plataforma Anti-


Guerra, Anti-NATO vocacionada para gerar repúdio à cimeira da NATO
em Novembro próximo, a realizar em Lisboa. Aberta a todas as
tendências que se revejam naqueles propósitos, sabemos que a
PAGAN, por duas vezes, escreveu à CGTP a solicitar um encontro;
porém, como o grupo é constituido por activistas independentes, a
CGTP nunca deu resposta.

Episódio pitoresco, segundo sabemos, verificou-se em Maio, no


seguimento de um debate sobre a NATO em que Carvalho da Silva
usou da palavra. À saída, o coordenador da CGTP foi abordado por um
activista da PAGAN que lhe perguntou porque não havia respondido às
cartas e o que tem contra aquele grupo anti-guerra. Carvalho da Silva
ficou tão surpreendido, titubeante, qual pardal assustado, que até
garantiu ir ver o que se passava, para dar resposta. O que ainda não
fez.

No entanto a CGTP há meses que deu todo o seu apoio a uma estrutura
que se diz pela Paz, constituida por organizações (ou meras siglas) do
PC e alguns dos “compagnons de route” habituais. Se a CGTP é a
central dos trabalhadores portugueses porque exclui uns a favor de
outros? Não lhe competiria apoiar TODAS as forças políticas e sociais
que se oponham à NATO e sejam pela paz?

Desta cegueira reaccionária e sectária o beneficiário é o capitalismo e


Sócrates. Enquanto este assegura o apoio do PSD, dos banqueiros e do
patronato para expoliar a grande maioria da população, os
trabalhadores não conseguem unir-se para acções comuns, numa base
democrática e fraterna, mesmo numa conjuntura tão negativa e
perante uma ofensiva tão forte do capitalismo.

Não é altura de se construir uma unidade das diversidades todas que


existem na esquerda portuguesa?

(1) Capitalismo hoje. Caracterização, crises e eixos estratégicos

http://www.scribd.com/doc/19242196/Capitalismo-hoje-
Caracterizacao-crises-e-eixos-estrategicos

(2) A resposta capitalista que estão a preparar para a crise

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http://www.scribd.com/doc/23725522/A-resposta-capitalista-que-estao-
a-preparar-para-a-crise

(3) Os últimos 30 anos de eleições legislativas; perspectivas para


Setembro

http://www.scribd.com/doc/17283662/Os-ultimos-30-anos-de-eleicoes-
legislativas-perspectivas-para-Setembro

Este e outros textos em:

www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt

http://www.scribd.com/group/16730-esquerda-desalinhada

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