Você está na página 1de 43

Manual

de
elaboração de relatórios
e
tratamento de resultados experimentais

Jorge Carvalho Silva

Versão 4.3 - Outubro de 2009


Conteúdo

Procedimentos para a elaboração de um relatório iii

1 INTRODUÇÃO 1
1.1 Grandezas fı́sicas e sua medição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 Erros ou incertezas? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.3 Classificação dos erros de medição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.4 O Sistema Internacional de Unidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
1.5 Dimensões das grandezas fı́sicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
1.6 A notação cientı́fica dos números . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4

2 PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL 5
2.1 Aparelhos de medida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
2.2 Resolução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
2.3 Calibração dos instrumentos de medição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
2.4 Tratamento de resultados e realização de experiências . . . . . . . . . . . . . . . 7
2.5 Erros sistemáticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

3 RESULTADOS 9
3.1 Registo de resultados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
3.2 Grandezas de medição directa e indirecta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
3.3 Algarismos significativos e arredondamentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10

4 CÁLCULOS 12
4.1 Resolução e desvio padrão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
4.2 Distribuição de medidas e valor médio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
4.3 Variância e desvio padrão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
4.4 O histograma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
4.5 Desvio padrão da média . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
4.6 Incerteza padrão combinada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
4.7 Rejeição de dados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
4.8 Lei de propagação das incertezas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
4.9 Um exemplo de aplicação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
4.10 Gráficos. Aplicações e regras de construção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
4.11 Determinação dos parâmetros de uma recta pelo método gráfico . . . . . . . . . . 21
4.12 Método dos mı́nimos desvios quadrados. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
4.12.1 Regressão linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

i
4.12.2 Aplicação da regressão linear ao termómetro de gás a volume constante . 25

5 DISCUSSÃO 27
5.1 Apresentação do resultado final de uma experiência . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
5.2 Verificação experimental de uma lei fı́sica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
5.3 Comparação de valores medidos com valores previstos . . . . . . . . . . . . . . . 27
5.4 Comparação de duas medições . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28

6 BIBLIOGRAFIA 29

A Unidades SI: definição, factores de conversão, prefixos e regras de escrita 30

B Constantes 33

C A distribuição Gaussiana 34

D Glossário de termos metrológicos 36

ii
Procedimentos para a elaboração de um relatório

A comunicação de ideias, teorias e resultados experimentais, é uma parte importante


da actividade cientı́fica e técnica. Essa comunicação pode ser feita de várias formas, sendo o
relatório uma delas. Um relatório claro e interessante torna convidativa a sua leitura, enquanto
que um texto obscuro e confuso desmotiva quem o pretende (ou deve) ler.
O modelo a seguir na elaboração de um relatório não é rı́gido nem inalterável, depen-
dendo a forma de apresentação do trabalho em causa. No entanto, em linhas gerais, o relatório
deverá obedecer a determinadas normas orientadoras que o tornem compreensı́vel. Um relatório
de um trabalho prático deve ser um retrato tão fiel quanto possı́vel do trabalho realizado. Se-
guidamente, indicam-se os procedimentos que se recomenda sejam seguidos na elaboração de
um relatório:
1 - Usar papel branco ou pautado formato A4;
2 - Escrever o relatório a tinta, não a lápis, e de preferência utilizar azul ou preto, nunca
vermelho;
3 - Indicar na metade superior da 1a página (deixar a metade inferior em branco) os
seguintes dados:
a) Nome da cadeira;
b) Nome do curso;
c) Tı́tulo do trabalho;
d) Data em que o trabalho foi realizado;
e) Nome dos autores do relatório;
f) Número da turma e grupo de trabalho que constituem.
Exemplo:

FÍSICA EXPERIMENTAL I

Engenharia Fı́sica

Dinâmica na calha de ar
2002/20/02
João Carlos Paiva
Maria Alexandra Urbano
(Turma P2, Grupo A)

4 - Escrever de novo o tı́tulo do trabalho no inı́cio da 2a folha;


5 - Dividir a apresentação do relatório nas seguintes partes:
a) INTRODUÇÃO - Indicar os objectivos do trabalho e fazer um pequeno resumo da
teoria essencial, isto é, aquela que se pretende comprovar na prática e aquela que fundamenta
os cálculos efectuados

iii
b) PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL - Indicar os aparelhos e suas caracterı́sticas
principais, quando relevante. Descrever o processo experimental realmente utilizado. Incluir
diagramas do arranjo experimental.
c) RESULTADOS - Apresentar claramente todos os resultados experimentais, bem como
a resolução com que foram medidos, sob a forma que for mais conveniente.
d) CÁLCULOS - Efectuar e apresentar todos os cálculos necessários à obtenção dos resul-
tados pretendidos e respectivas incertezas. Apresentar os gráficos dos resultados experimentais
que tenham sido elaborados como suporte à visualização e/ou ao tratamento dos resultados.
e) DISCUSSÃO - Resumir e comentar o trabalho experimental realizado e os resultados
obtidos, comparando-os com os valores previstos. Analisar o cumprimento do objectivo proposto
para o trabalho. Enumerar as principais causas de erro experimental e possı́veis métodos de os
evitar ou minorar. Fazer uma análise crı́tica do conjunto do trabalho.
f) BIBLIOGRAFIA - Listar os livros, tabelas, manuais, etc., que serviram de base para
a elaboração do relatório.
6 - No final, assinar o relatório.
7 - Anexar ao relatório a folha usada para o registo dos valores experimentais (que deverá
ter sido rubricada pelo docente no final da aula).
8 - Agrafar todas as folhas do relatório.

iv
1 INTRODUÇÃO

RELATÓRIO:

Indicar os objectivos do trabalho e fazer um pequeno resumo da teoria essencial, isto


é, aquela que se pretende comprovar na prática e aquela que fundamenta os cálculos
efectuados.

1.1 Grandezas fı́sicas e sua medição

O objectivo principal das ciências fı́sicas é conhecer e compreender a natureza. Para


tal é necessário observar, experimentar, medir as grandezas fı́sicas e exprimi-las em função de
unidades de base previamente definidas. Como resultado deste conhecimento é possı́vel criar
modelos e enunciar leis que expliquem os resultados obtidos e que permitam prever os resultados
de outras experiências. Na base de toda a compreensão da natureza está, portanto, a observação,
a experimentação e a medição.

1.2 Erros ou incertezas?

Quando se efectua a medição de uma grandeza X, o valor medido, x, não é o valor


verdadeiro da grandeza, mas sim um valor aproximado. O valor verdadeiro é, por natureza,
indeterminável; seria obtido se a medição fosse perfeita. À diferença entre o valor verdadeiro da
grandeza, V , e o valor medido dá-se o nome de erro, e:

e=x−V (1)

Este erro não está relacionado com o facto de haver algum engano na medição mas revela
que existe uma diferença, que não se conhece nem se consegue eliminar, entre o valor medido e
o valor verdadeiro. Como não é possı́vel conhecer V , também não é possı́vel saber exactamente
qual o valor de e; pode, no entanto, ultrapassar-se esta dificuldade estimando um valor para o
erro, a que se chama incerteza da medição.
A indicação do resultado de uma medição só está completa quando forem indicados o
valor medido e a incerteza associada a essa medição. Uma medição traduz-se portanto não em
um, mas sim em dois valores: o valor medido e a respectiva incerteza.
A estimativa do erro é muito importante: não nos podemos esquecer que os valores
medidos por nós se tornam, assim que os divulgamos, parte da comunidade. Deste modo, a sua
utilização depende da forma como os apresentamos. Estes resultados poderão ser utilizados,
por exemplo, por engenheiros que pretendem projectar uma máquina, ou por cientistas que
pretendem comprovar novas teorias e estão interessados em saber até que ponto a teoria é
consistente com os valores experimentais.

1
1.3 Classificação dos erros de medição

Os erros associados a uma medição podem ser classificados, consoante a sua natureza,
em: aleatórios e sistemáticos.
Os erros aleatórios são aqueles que estão associados à dispersão das medidas em torno
do valor verdadeiro da grandeza. De origem por vezes difı́cil de explicar, são o acumular de um
grande número de pequenos efeitos. Traduzem-se, na prática, pela obtenção de diferentes valores
quando se efectuam várias medições de uma mesma grandeza. Por exemplo, ao medir o perı́odo
de oscilação de um corpo suspenso de uma mola com um cronómetro, os erros associados ao
inı́cio e fim da contagem do tempo, a pequenas irregularidades no movimento oscilatório, podem
ser considerados erros aleatórios. Estes erros podem ser compensados medindo o perı́odo um
grande número de vezes, por forma a que, ao calcular a média de todas as medições, os erros
surgidos num sentido sejam compensados por outros surgidos no sentido oposto.

Valor verdadeiro

Figura 1: O efeito dos erros aleatórios traduz-se, na ausência de erros sistemáticos,


numa dispersão dos valores medidos em torno do valor verdadeiro.

Chama-se repetibilidade dos resultados de uma medição à aproximação entre os resulta-


dos de medições sucessivas da mesma grandeza efectuadas nas mesmas condições. As condições
de repetibilidade incluem a utilização do mesmo procedimento de medição, do mesmo instru-
mento usado nas mesmas condições, no mesmo local, pelo mesmo observador, num curto intervalo
de tempo. Quanto menores forem os erros aleatórios associados a uma medição, melhor a sua re-
petibilidade. A repetibilidade pode exprimir-se quantitativamente em termos das caracterı́sticas
da dispersão dos resultados (o que faremos na secção 4.3).
Os erros sistemáticos produzem um efeito na medição sempre no mesmo sentido, de tal
forma que o resultado aparece deslocado de uma quantidade constante em relação ao valor
verdadeiro. Um exemplo de erro sistemático é o que resulta da utilização de um cronómetro que
se atrase ou adiante na contagem do tempo por estar descalibrado.

Valor verdadeiro

Figura 2: O erro sistemático (sobreposto a erros aleatórios) provoca um desvio dos


valores medidos sempre no mesmo sentido.

Chama-se exactidão de uma medição à aproximação entre o resultado da medição e o


valor verdadeiro da grandeza. Como este não pode ser conhecido, a exactidão é um conceito
essencialmente qualitativo.

2
1.4 O Sistema Internacional de Unidades

A existência de um grande número de unidades representativas de uma mesma grandeza


levou à criação do Sistema Internacional de Unidades (SI).
O SI é um sistema coerente de unidades criado e recomendado em 1960 pela 11a Con-
ferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM) e adoptado em Portugal em 1983 como o sistema
legal de unidades de medida. O SI baseia-se, actualmente, em sete unidades de base, duas
unidades suplementares e algumas dezenas de unidades derivadas. O SI estipula, também, re-
gras para a escrita dos sı́mbolos e o uso dos múltiplos e submúltiplos daquele sistema.
As unidades de base do SI são usadas na quantificação das grandezas de base que são
aceites, por convenção, como funcionalmente independentes umas das outras.

Unidade de base
Grandeza de base
Nome Sı́mbolo Dimensão
Comprimento metro m L
Massa quilograma kg M
Tempo segundo s T
Intensidade de corrente eléctrica ampere A I
Temperatura termodinâmica kelvin K Θ
Quantidade de matéria mole mol N
Intensidade luminosa candela cd J

Tabela 1: Grandezas e unidades de base do Sistema Internacional de Unidades.

As duas unidades suplementares são o radiano (unidade de ângulo plano) e o esterradiano


(unidade de ângulo sólido). No apêndice A encontra-se uma descrição destas unidades, um
quadro de unidades derivadas das unidades básicas, uma lista com alguns factores de conversão
de unidades não SI para unidades SI, bem como um conjunto de regras a observar na escrita e
utilização dos sı́mbolos das unidades SI.

1.5 Dimensões das grandezas fı́sicas

Qualquer grandeza, G, pode ser expressa como função das grandezas de base com as
quais se relaciona. A dimensão de uma grandeza é uma expressão que representa essa grandeza
como um produto de potências de factores que representam as grandezas de base. Assim, em
geral, a dimensão de G é expressa pelo produto de dimensões:

dim G = [G] = Lα Mβ Tγ Iδ Θε Nζ Jη (2)

Os expoentes da eq. (2) são chamados expoentes dimensionais. Por exemplo, a dimensão
de trabalho é: dim W = L2 M T−2 .
Chama-se grandeza adimensional a uma grandeza em que todos os expoentes dimensio-
nais são iguais a zero; por exemplo, os ângulos plano e sólido, o ı́ndice de refracção, o coeficiente

3
de atrito, etc.
De uma forma geral, uma grandeza exprime-se como

G = {G}[G]

onde {G} representa o valor numérico da grandeza expressa na unidade [G]. Ou seja, pode dizer-
se que o valor de uma grandeza fı́sica é igual ao produto de um valor numérico pela unidade
correspondente:
grandeza fı́sica = valor numérico × unidade

1.6 A notação cientı́fica dos números

Muitas das quantidades com que se lida experimentalmente não têm a mesma ordem de
grandeza das suas unidades SI. Por exemplo, a constante gravitacional, G, é igual a
0,000 000 000 066 73 N·m2 ·kg−2 . Surge, então, a necessidade de expressar os números de uma
forma mais compacta e legı́vel: eles apresentam-se, de um modo geral, com uma vı́rgula após o 1o
algarismo significativo, sendo a ordem de grandeza dada por uma potência de 10 multiplicativa.
Assim sendo, a constante gravitacional escreve-se:

G = 6,673 ×10−11 N·m2 ·kg−2

O apêndice B contém duas tabelas com algumas constantes fı́sicas e matemáticas.

4
2 PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL

RELATÓRIO:

Indicar os aparelhos e suas caracterı́sticas principais, quando relevante. Descrever o


processo experimental realmente utilizado. Incluir diagramas do arranjo experimental.

2.1 Aparelhos de medida

Os aparelhos de medida podem dividir-se, quanto à forma de apresentação do resultado da


medição, em aparelhos analógicos e aparelhos digitais. Num aparelho analógico a indicação dada
é uma função contı́nua da grandeza medida, como numa régua ou num termómetro de mercúrio.
Num aparelho digital, a indicação é fornecida sob a forma numérica e varia por saltos discretos,
como num cronómetro digital ou numa balança electrónica. A classificação dos instrumentos
de medida em analógicos e digitais está relacionada com a forma de apresentação do valor das
grandezas medidas, nada tem a ver com o princı́pio de funcionamento dos instrumentos. A
figura 3 mostra um exemplo de um aparelho de medida analógico e de um aparelho digital.

Figura 3: Exemplo de um aparelho analógico e de um aparelho digital. Em ambos os


casos, trata-se de multimetros, aparelhos destinados a efectuar medidas de múltiplas
grandezas eléctricas: tensões, correntes, resistências e outras, consoante os modelos.

2.2 Resolução

Uma caracterı́stica importante de um aparelho de medida é a resolução. A resolução é


definida como a menor diferença entre indicações que se podem distinguir significativamente.
Num instrumento digital, a resolução corresponde a uma unidade do algarismo menos
significativo. No exemplo da figura 3, para a gama nominal de medida seleccionada (até 2 volt),
a resolução é igual a 0,001 V.

5
Num instrumento analógico, a resolução pode corresponder a uma estimativa dado que
depende não só das condições em que é efectuada a medição como da sensibilidade do próprio
observador. Em geral, toma-se como resolução do instrumento a menor divisão da escala em
que a leitura é efectuada. Esta escala tanto pode ser a escala própria do aparelho como uma
escala com divisões menores que é visualmente sobreposta à do aparelho. Contudo, ao estimar
para a resolução do aparelho analógico um valor inferior à menor divisão da escala marcada deve
usar-se o bom senso e ter-se em atenção que se deve garantir que a indicação dada pelo aparelho
esteja contida no intervalo de valores experimentais dado por

[ valor estimado ± resolução / 2 ]

No exemplo da figura 4 um multı́metro analógico é usado para medir uma tensão contı́nua.
A gama de indicação usada é a de 0 a 3 volt, pelo que o valor da tensão lido no mostrador do
multı́metro é igual a 1,5 V. Quanto à resolução com que o valor é lido, se adoptassemos o valor da
menor divisão da escala usada, então a resolução seria igual a 0,1 V. Deste modo, o intervalo de
valores experimentais seria de 1,45 a 1,55 V. O comprimento deste intervalo é manifestamente
excessivo, pelo que, neste caso, podemos adoptar como valor da resolução metade da menor
divisão da escala de leitura, ou seja, 0,05 V.

Figura 4: Medição de uma tensão contı́nua (diferença de potencial aos terminais de


uma pilha) efectuada com um aparelho analógico.

2.3 Calibração dos instrumentos de medição

O conceito de exactidão, quando aplicado aos instrumentos de medição, representa a


aptidão do instrumento para dar indicações próximas do verdadeiro valor da grandeza medida.
Os fabricantes especificam, para cada gama de medição, um intervalo de valores dentro dos
quais o erro do instrumento é supostamente mantido entre determinados limites. O intervalo
assim definido é obtido pelos fabricantes através da calibração dos instrumentos. Este intervalo
é normalmente apresentado em duas partes:
1) uma percentagem da leitura (% rdg)
2) o número de unidades do algarismo menos significativo (dgt)
Suponhamos que para o multı́metro digital da figura 3 e para a gama nominal de 2 volt
o fabricante indica uma exactidão de ±(0,8% rdg + 2 dgt). De acordo com a especificação do

6
fabricante o erro máximo cometido na medição do valor da grandeza é

δe = 0, 8 × 1, 578 V / 100 + 2 × 0, 001 V = 0, 015 V

2.4 Tratamento de resultados e realização de experiências

O tratamento matemático dos resultados experimentais permite obter estimativas das


grandezas que foram objecto de estudo num trabalho prático, conjuntamente com as respectivas
incertezas. É importante salientar que este tratamento não afecta a qualidade dos resultados
experimentais: se estes forem pouco satisfatórios, não é o método de cálculo que deve ser posto
em causa, mas sim o próprio método experimental usado. Claro que a obtenção de resultados
disparatados obriga a verificar os cálculos efectuados, mas não é por se fazerem cálculos muito
complexos que se diminui a incerteza da medição. Poderemos consegui-lo ajuizando a melhor
forma de efectuar a experiência, utilizando, quando tal for necessário, o conhecimento que nos
conferem os métodos de cálculo das incertezas. De um modo geral, devemos concentrar a nossa
atenção nas grandezas cuja contribuição para a incerteza no resultado final seja maior.

2.5 Erros sistemáticos

Dado que não existem instrumentos perfeitos, existirão sempre erros sistemáticos. Deve-
mos, no entanto, tentar reduzi-los ao mı́nimo tendo em atenção as possı́veis origens destes erros
e actuando em consonância. Os erros sistemáticos devem-se, normalmente, a:
i) funcionamento deficiente dos instrumentos de medição, devidos à (falta de) qualidade
dos componentes e a uma calibração deficiente ou fora de validade;
ii) utilização incorrecta dos instrumentos de medida;
iii) influência dos parâmetros ambientais no funcionamento do instrumento;
iv) observação incorrecta.
Para tentar reduzir ao mı́nimo os erros sistemáticos devidos a estas causas, é necessário:
i) utilizar aparelhos cuja classe de exactidão seja adequada ao objectivo da experiência,
acompanhada de calibrações cuidadosas e periódicas;
ii) conhecer detalhadamente as caracterı́sticas dos aparelhos usados e a forma correcta
de os utilizar nas condições de realização da experiência;
iii) observar as condições ambientais de utilização dos aparelhos, que, particularmente no
caso dos de maior sensibilidade, estabelecem limites aos intervalos de temperatura, humidade
relativa e pressão atmosférica em que devem ser usados;
iv) efectuar as leituras com atenção, particularmente no caso dos aparelhos analógicos,
evitando cometer erros de paralaxe. Deve ter-se sempre em conta que factores como o cansaço,
a pressa e a desatenção levam frequentemente o observador a cometer erros na leitura das
indicações dos instrumentos.
A experiência acumulada por um experimentalista é um outro factor extremamente útil:
ele consegue mais facilmente detectar e corrigir os erros sistemáticos. Contudo, um aparente

7
erro sistemático pode ser devido a um fenómeno previamente desconhecido. O estudo deste novo
efeito pode levar a novas descobertas e a um aumento da compreensão da natureza.
Apesar de, tal como o valor verdadeiro de uma grandeza, o erro sistemático e as suas
causas não poderem ser conhecidos por completo, há situações em que uma componente do
erro sistemático é bem conhecida. Pode, inclusivamente, ser intencional, por tal facilitar a
realização da experiência. Nestes casos, o resultado bruto da medição (que é o valor de uma
grandeza fornecido por um instrumento de medição) deve ser corrigido: a correcção efectua-se
acrescentando algebricamente ao resultado bruto da medição um valor igual e de sinal contrário
ao erro sistemático estimado. Ao valor obtido chama-se resultado corrigido.

8
3 RESULTADOS

RELATÓRIO:

Apresentar claramente todos os resultados experimentais, bem como a resolução com


que foram medidos, sob a forma que for mais conveniente.

3.1 Registo de resultados

Durante a realização de uma experiência o registo das medições efectuadas deve ser tão
claro e rigoroso quanto possı́vel.
Todas as medições devem ser registadas imediata e directamente, sem excepção. Não se
deve ler o valor no aparelho para depois fazer uma conta trivial antes de registar no papel, pois
passado algum tempo qualquer engano já não poderá ser corrigido. Após efectuado o registo,
deve confirmar-se que a anotação coincide com o valor lido no aparelho.
Não se deve passar a limpo a folha onde foram anotados os dados; é uma perda de tempo,
poderá copiar-se mal e não se poderá evitar a tentação de ser selectivo naquilo que se copia,
não se podendo mudar de opinião mais tarde acerca daquela medição que talvez até fosse útil
na obtenção dos resultados pretendidos.
Sempre que se puder, devem utilizar-se tabelas para registar os resultados. Torna-se
mais fácil apontar, organizar e consultar o trabalho. A tabela deve ser vertical pois é mais
fácil comparar e ler dados nessa direcção do que na horizontal. As entradas devem ter sı́mbolos
indicativos da grandeza tabelada e as unidades em que estão expressas. Uma das entradas
deverá ser a numeração dos ensaios efectuados. Deve anotar-se sempre a resolução com que foi
efectuada a leitura das grandezas. Todo o registo de dados deve ser datado.
Devem elaborar-se diagramas dos arranjos experimentais sempre que se achar que eles
ajudam a fixar e a compreender o que se está a fazer. Mais tarde, quando se olha para o
diagrama, tem-se uma ideia mais concreta do que se fez durante a experiência. Os diagramas
não precisam incluir tudo, apenas os aspectos essenciais.

3.2 Grandezas de medição directa e indirecta

As quantidades lidas directamente em aparelhos de medida durante a realização de uma


experiência denominam-se medidas directas. Às medidas directas está associada uma incerteza
de medição dependente do aparelho utilizado. São exemplos destas medidas:
- tempos medidos com um cronómetro;
- comprimentos medidos com uma régua;
- massas determinadas com uma balança de pratos;
- diferenças de potencial medidas com um voltı́metro;
- temperaturas medidas com um termómetro; etc.

9
A generalidade das grandezas fı́sicas não pode ser medida directamente numa experiência.
De facto, é com base noutras grandezas de medição directa que é possı́vel medir, indirectamente,
as quantidades pretendidas. A estas últimas chamamos medidas indirectas:
- a velocidade e a aceleração, calculadas a partir de um espaço e um tempo;
- a energia potencial gravı́tica, calculada a partir de uma massa e de uma altura;
- a distância focal de uma lente, calculada a partir de duas distâncias;
- a constante elástica de uma mola, calculada a partir de um tempo e uma massa, ou de
um comprimento e de uma massa;
- a capacidade térmica de um corpo, calculada a partir de massas e temperaturas; etc.
Para calcular uma grandeza de medição indirecta e a incerteza a ela associada, deve
primeiro determinar-se o melhor valor (normalmente, o valor médio) e a incerteza de todas as
grandezas de medição directa de que depende aquela que pretendemos determinar.
Frequentemente, é objectivo de um trabalho estudar a variação de uma grandeza em
função de outra(s). A análise gráfica dos resultados obtidos é fundamental, e, através do método
gráfico ou do método dos mı́nimos desvios quadrados, são obtidos os parâmetros da recta ou
curva que melhor representa a relação entre as grandezas estudadas. Os dois métodos referidos
serão estudados nas secções 4.11 e 4.12.

3.3 Algarismos significativos e arredondamentos

Um algarismo é considerado significativo quando resulta da medida directa de uma gran-


deza. Se a distância entre dois pontos é medida obtendo-se o valor d = 14,7 cm, então o
resultado da medição possui três algarismos significativos: todos os dı́gitos de 0 a 9 que consti-
tuem o valor numérico da grandeza são considerados significativos. No caso de uma grandeza de
medição indirecta, são considerados significativos todos os algarismos até ao primeiro incerto.
Um corpo que percorra aquela distância num tempo t = 3,52 s, terá uma velocidade média igual
a 4,176136 cm·s−1 . A velocidade está indicada com 7 dı́gitos, mas nem todos são significati-
vos. Supondo que a distância foi medida com uma régua (aparelho analógico) e uma resolução
de 1 mm e o tempo com um cronómetro digital (resolução igual a 0,01 s), a propagação das
incertezas do espaço e do tempo à velocidade origina nesta uma incerteza de 0,00673 cm·s−1 ,
pelo que a velocidade tem uma incerteza de ±6 na terceira casa decimal e apenas 4 algarismos
significativos. Daı́ em diante, os algarismos não têm qualquer interesse nem significado.
Não são considerados algarismos significativos o 0 (zero) quando colocado à esquerda do
primeiro dı́gito diferente de zero (ou seja, quando apenas serve para posicionar a vı́rgula) nem
as potências de 10.
Ao apresentar o resultado da determinação experimental de uma grandeza, deve sempre
ser indicada a incerteza que lhe está associada (note-se que a incerteza tem as mesmas unidades
da grandeza medida). A natureza estatı́stica e de estimativa da incerteza leva a que esta seja
apresentada apenas com um dı́gito. Exceptua-se o caso em que o trabalho que se efectua é de alta
precisão ou então quando o primeiro algarismo da incerteza é baixo (1 ou 2); nestas condições,
poderão usar-se dois algarismos para evitar arredondamentos exagerados. O resultado final deve

10
Número Algarismos significativos
0,012 34 4
1234,0 5
1,234 ×102 4
55 2

Tabela 2: Exemplos da contagem de algarismos significativos de um número.

ser arredondado de forma a que o último dı́gito seja da mesma ordem de grandeza (isto é, esteja
na mesma casa decimal) que a incerteza. Por exemplo, a velocidade do corpo (exemplo dado
acima) deve apresentar-se sob a forma

v = (4,176 ± 0,007) × 10−2 m·s−1

Outros exemplos de resultados correctamente indicados:

s = (1,349 ± 0,001) m
t = (28,4 ± 0,2) s
m = (3,25 ± 0,05) × 10−3 kg

As regras aqui descritas para a apresentação dos resultados finais também se aplicam aos
cálculos intermédios, mas neste caso deve indicar-se mais um ou dois algarismos do que seria
justificável numa resposta final para evitar a introdução de erros por arredondamentos. Pelo
mesmo motivo, quando se fazem cálculos envolvendo constantes, estas devem ser utilizadas com
mais um ou dois algarismos do que o pretendido no resultado final.
Os arredondamentos devem obedecer às seguintes regras:
- o último algarismo a reter é escolhido de forma a que o erro do arredondamento não
seja superior a meia unidade do último algarismo retido. Por exemplo, temos um número com
4 algarismos e pretendemos reter apenas 2: o número 2,348 é arredondado para 2,3 enquanto
que 2,353 é arredondado para 2,4;
- quando a quantidade desprezada é exactamente meia unidade da última casadecimal a
reter, quer se arredonde por defeito quer por excesso, convencionou escolher-se o último algarismo
de tal forma que este seja par (exemplo: 2,350 é arredondado para 2,4).
O erro cometido ao arredondar o valor de uma grandeza (ou seja, a parte que se despreza
ou se soma ao valor para reter apenas o número de casas decimais desejado) deve ser somado
à incerteza associada à grandeza. No exemplo da velocidade, ao arredondar o valor encontrado
para 4,176 cm·s−1 desprezam-se 0,000136 cm·s−1 que devem ser somados à incerteza, pelo que
resulta para a incerteza o valor 0,00687 cm·s−1 .
No caso do arredondamento de uma incerteza, se as regras acima enunciadas implicarem
um arredondamento por defeito em que se despreze uma parte superior a 5% do valor da incer-
teza, então o arredondamento deve ser feito por excesso. Por exemplo, ao arredondar 0,34 para
0,3 despreza-se uma fracção igual a 12% do valor da incerteza, pelo que o arredondamento deve
ser feito por excesso, ou seja, para 0,4.

11
4 CÁLCULOS

RELATÓRIO:

Efectuar e apresentar todos os cálculos necessários à obtenção dos resultados pretendi-


dos e respectivas incertezas.

4.1 Resolução e desvio padrão

Ao relatar o resultado da medição de uma grandeza fı́sica, é necessário dar uma indicação
quantitativa da qualidade da medição, ou seja, da incerteza associada ao valor experimental. Só
assim é possı́vel comparar os resultados de determinações independentes da mesma grandeza ou
comparar um valor obtido com um valor tabelado.
No caso de uma grandeza de medição directa, as principais contribuições para a incerteza
são a resolução do instrumento de medida, a dispersão dos valores resultantes de uma série de
medições e a calibração do aparelho de medida. No caso de uma grandeza de medição indirecta,
o método a seguir para a obtenção da incerteza associada à medição depende do próprio método
de cálculo da grandeza. Os métodos mais usuais envolvem a propagação das incertezas (secção
4.8) e a regressão linear (secção 4.12)
A contribuição da resolução do instrumento para a incerteza de medição de uma grandeza
de medição directa calcula-se supondo que o valor da grandeza que se está a medir está contido,
de acordo com uma determinada distribuição de probabilidades, dentro do intervalo

[x − δx/2; x + δx/2]

em que x representa o valor lido no instrumento de medida e δx a resolução desse instrumento.


No caso de um instrumento digital, usa-se uma distribuição de probabilidades rectangular, em
que a probabilidade é uniforme em todo o intervalo (ver fig. 5). Isto significa que, para o
observador, é igual a probabilidade de qualquer valor dentro daquele intervalo ser o valor da
grandeza medida (não considerando o efeito das outras fontes de incerteza). O desvio padrão da
distribuição rectangular relaciona-se com a resolução do instrumento de medida de acordo com
δx
sr = √ (3)
2 3

Para um instrumento analógico, assume-se uma distribuição de probabilidades triangular:


a probabilidade é nula nos limites do intervalo e máxima no centro (fig. 5). Neste caso, o desvio
padrão é dado por
δx
sr = √ (4)
2 6

12
p(x)

2 δx
δx

p(x)
δx
1
δx

x x
x-δx x-sR µ x+s R x+δx x-δx x-sR x x+sR x+δx
2 2 2 2

Figura 5: Representação gráfica das distribuições de probabilidade rectangular e tri-


angular.

4.2 Distribuição de medidas e valor médio

Suponha-se que foram efectuadas n medições da grandeza X, designadas respectivamente


por x1 , x2 , x3 ,..., xi ,...,xn ; o seu valor médio, que se simboliza por x, calcula-se através de
n
1X
x= xi (5)
n
i=1

Se os valores medidos estiverem distribuı́dos segundo uma distribuição Gaussiana (ver


descrição no apêndice C), o valor médio é a melhor estimativa do valor verdadeiro da grandeza.
Isto significa que o valor médio tende para o valor verdadeiro quando o número de medições
é muito grande, se o efeito dos erros aleatórios for a única contribuição para a incerteza da
medição.

4.3 Variância e desvio padrão

Após calcular o valor médio das medidas efectuadas, deve estimar-se a incerteza a ele
associada. O desvio de cada uma das medições em relação ao valor médio x é definido por

di = xi − x (6)

Tomando a média destes desvios como estimativa da incerteza, chegar-se-á à conclusão


que não é um bom critério: devido à própria definição de valor médio, os desvios serão umas
vezes positivos e outras vezes negativos pelo que, em média, cancelar-se-ão.
Uma das medidas da dispersão dos valores obtidos em torno de x é a variância, s2 , que
representa a média do quadrado dos desvios (onde argumentos teóricos levam a substituir o
factor 1/n que surge no cálculo da média por 1/(n − 1) ) 1 :
P 2
2 di
s = (7)
n−1
1
Todos os somatórios referidos neste texto são de i = 1 até i = n, pelo que daqui em diante omitir-se-á o
intervalo de soma.

13
Note-se que a variância tem as mesmas unidades da grandeza a que diz respeito, mas
elevadas ao quadrado, pelo que um critério mais usado é a raiz quadrada positiva da variância,
chamada desvio padrão experimental:
sP
di2
s= (8)
n−1

Quando as medidas efectuadas estão distribuı́das de acordo com uma distribuição Gaus-
siana, mostra-se que, no limite em que o número de medições tende para infinito, o desvio
padrão da amostragem tende para o parâmetro σ da curva de Gauss. Nesta situação, 68% das
medidas estão contidas no intervalo [x − s; x + s]. Um resultado idêntico a este diz-nos que se
for efectuada uma nova medição da grandeza X usando exactamente o mesmo sistema e pro-
cedimento experimentais, então há 68% de probabilidade de a nova medida estar contida no
intervalo referido.

4.4 O histograma

O histograma é um gráfico de barras que representa o número de vezes que foi obtido um
dado valor ou intervalo de valores. O histograma da figura 6 foi construı́do a partir de 100 valores
obtidos para o tempo que um corpo levou a percorrer uma determinada distância 2 . Os valores
foram medidos com um cronómetro digital de resolução 0,01 s, pelo que a incerteza padrão
devida à resolução do instrumento de medida é sr = 0,0029 s. A construção do histograma deve
obedecer a duas regras:
1) o valor médio do conjunto de valores experimentais representado deve ser o valor
central de uma das classes (intervalos);
2) o comprimento de cada classe deve ser cerca de metade do desvio padrão experimental,
de preferência um valor facilmente divisı́vel por 2.
No exemplo da figura 6, o valor médio das 100 medições é igual a 3,83 s e o desvio padrão
experimental é igual a 0,074 s, pelo que para o comprimento das classes foi escolhido o valor
0,04 s.
Construı́do segundo estas regras, o histograma evidencia que os valores experimentais se
distribuem em torno do valor médio segundo uma distribuição de probabilidades Gaussiana (o
andamento da altura das colunas lembra a forma da distribuição Gaussiana, representada na
figura 16).

4.5 Desvio padrão da média

Define-se o desvio padrão da média, ou incerteza padrão da média, sm , pela relação


s
sm = √ (9)
n

2
A situação descrita refere-se à queda da esfera de aço através da glicerina no trabalho prático sobre o atrito
sólido-lı́quido

14
30

Frequência
25

20

15

10

0
3,63 3,71 3,79 3,87 3,95 4,03
Tempo / s

Figura 6: Histograma de 100 valores experimentais cuja média é igual a 3,83 s e cujo
desvio padrão experimental é igual a 0,074 s.

Desta definição resulta que o desvio padrão da média é menor do que o desvio padrão

experimental por um factor de n. É este o critério mais vulgarmente adoptado para denotar
a incerteza associada à média de um conjunto de determinações de uma grandeza experimental.
Podemos construir o intervalo [x − sm ; x + sm ] no qual, no limite em que o número n de
medições tende para infinito, há 68% de probabilidade de o valor verdadeiro X estar contido.
Uma forma semelhante de expressar esta propriedade é a seguinte: se for efectuado um novo
conjunto de n medições (em que n → ∞) da grandeza X, usando exactamente o mesmo sistema
experimental, então há 68% de probabilidade do novo valor médio obtido estar contido naquele
intervalo.

4.6 Incerteza padrão combinada

A incerteza de medição de uma grandeza de medição directa obtém-se combinando di-


versos desvios padrão:
– da distribuição de probabilidade associada à resolução do instrumento de medição, sr ;
– da média, sm ;
– da distribuição de probabilidade associada à especificação do fabricante para a exactidão
do instrumento, sf : q
uc = s2r + s2m + s2f (10)

À incerteza assim obtida chama-se incerteza padrão combinada da grandeza de medição


directa 3 .
À especificação do fabricante para a exactidão do instrumento associa-se uma distribuição
de probabilidades rectangular. Assim, o desvio padrão sf calcula-se através de:
δe
sf = √ (11)
2 3
3
Se o experimentador identificar outras fontes de incerteza para além das descritas no texto, deverá entrar em
conta com o respectivo desvio padrão no cálculo da incerteza padrão combinada.

15
4.7 Rejeição de dados

Suponha que numa experiência para medir o perı́odo de um pêndulo, se efectuaram as


seis medições seguintes:
t1 = 10,5 s; t2 = 8,5 s; t3 = 10,2 s; t4 = 10,8 s; t5 = 10,6 s; t6 = 10,0 s.
O valor t2 é substancialmente diferente dos restantes, levando à suspeita da existência
de um engano na determinação desta medida. Nestas circunstâncias é aconselhável efectuar
mais medições: se surgir mais algum valor semelhante a t2 , então é porque, em princı́pio, esses
valores fazem sentido e deverão ser incluı́dos na média. Se, por outro lado, nenhuma das restantes
medições se assemelhar a t2 , também poderemos englobar t2 no cálculo da média pois o seu efeito
já será muito reduzido. No caso de não ser possı́vel efectuar mais medições, torna-se aconselhável
avaliar até que ponto o valor t2 deve ser rejeitado ou se, por outro lado, se deve tomar em conta
no cálculo do perı́odo do pêndulo.
O critério de Chauvenet para a rejeição de dados baseia-se no seguinte princı́pio: visto
que as medidas obtidas deverão estar aleatoriamente distribuı́das em torno do valor médio (ou
seja, segundo uma distribuição Gaussiana), se a probabilidade de se obter um valor de x igual
ao valor suspeito, xsusp , em n medições for inferior a 1/(2n)%, então o dado deve ser rejeitado.
A tabela 3 indica, para um número de medições n, qual o valor mı́nimo que o valor absoluto de
xsusp −x
s deve ter para que xsusp seja rejeitado. Os valores de x e de s são calculados incluindo
todos os valores medidos.
No nosso exemplo, x = 10,1 s e s = 0,8 s, pelo que, para o valor considerado suspeito,
t2 , temos |xsusp − x| / s = 2,0. Como são 6 medições e 2,0 > 1,73, então podemos rejeitar
t2 . Caso existam outros dados suspeitos, o critério também se lhes deve aplicar. Por fim, se
alguns dados tiverem sido rejeitados, deve voltar a calcular-se o valor médio e a incerteza. No
exemplo do perı́odo do pêndulo, após rejeitar t2 obtém-se x = 10,4 s e s = 0,3 s. Como seria de
esperar, a média variou ligeiramente e o desvio padrão diminuiu consideravelmente. O critério
de Chauvenet não pode ser aplicado novamente aos dados restantes.

No de medições 4 5 6 8 10 15 20 25 30 40 50 100

xsusp − x
1,54 1,65 1,73 1,86 1,96 2,13 2,24 2,33 2,39 2,50 2,58 2,81
s

Tabela 3: Critério de Chauvenet de rejeição de dados.

4.8 Lei de propagação das incertezas

Vamos supor que estamos interessados em calcular o valor de uma grandeza de medição
indirecta Z que depende de duas outras grandezas independentes X e Y por meio de uma
função conhecida Z(X,Y ). Tendo as grandezas X e Y sido previamente determinadas e obtidos
os valores x e y, com incertezas padrão combinadas uc (x) e uc (y), o valor da grandeza Z obtém-se

16
calculando o valor da função Z(X,Y ) no ponto (x,y):

z = Z(x, y) (12)

A incerteza associada ao valor z, que se representa por uc (z), calcula-se através de:

∂Z 2 ∂Z 2
   
2 2
(uc (z)) = (uc (x)) + (uc (y))2 (13)
∂X ∂Y
∂Z ∂Z
 
em que ∂X e ∂Y representam as derivadas parciais de Z em ordem a X e a Y , calculadas
no ponto (x,y). A equação (13) é chamada lei de propagação das incertezas. Ao valor uc (z)
chama-se incerteza padrão combinada da grandeza de medição indirecta Z.
No caso particular de a função Z(X,Y ) ser do tipo

Z = aX b Y c (14)

com a, b e c constantes reais (ou seja, quando a função só envolve produtos e/ou quocientes), a
aplicação da lei de propagação das incertezas à função (14) conduz à expressão seguinte para a
propagação das incertezas de X e Y à grandeza Z:

uc (z) 2 uc (x) 2 uc (y) 2


     
= b + c (15)
z x y

A equação (15) é mais simples de aplicar do que a lei de propagação das incertezas (eq.
13) mas apenas é válida quando a relação entre as grandezas puder ser expressa por uma equação
do tipo (14).

4.9 Um exemplo de aplicação

Como exemplo de aplicação da lei de propagação das incertezas vamos analisar o que se
passa no cálculo do momento de inércia de um anel metálico. O momento de inércia pode ser
calculado através da equação
M
3D12 + D22

I= (16)
8
em que M é a massa do anel, D1 é o diâmetro interno e D2 o diâmetro externo. Suponhamos
que foram obtidos os seguintes valores: M = 1,202 kg, lido numa balança digital de resolução
1 g; D1 = 27,2 × 10−2 m e D2 = 30,4 × 10−2 m, ambos lidos com uma régua (analógica) de
resolução 1 mm. Como estas medidas foram realizadas uma única vez, não há lugar ao cálculo
de médias e a incerteza padrão combinada das grandezas de medição directa (M , D1 e D2 )
reduz-se ao desvio padrão da distribuição de probabilidade associada à resolução do aparelho de
medida (rectangular no caso do aparelho digital e triangular no caso do aparelho analógico).
O momento de inércia resultante tem o valor I = 0,04723 kg·m2 . Como o momento de
inércia depende de três grandezas de medição directa, temos uma equação semelhante à (13)
mas com 3 termos no 2◦ membro. A aplicação da lei de propagação das incertezas à equação
(16) conduz a

∂I 2 ∂I 2 ∂I 2
     
2 2 2
(uc (I)) = (uc (M )) + (uc (D1 )) + (uc (D2 ))2 (17)
∂M ∂D1 ∂D2

17
Note-se que neste caso não podemos aplicar a forma particular da lei de propagação das
incertezas já que a equação (16) não tem a forma expressa em (14).
Após o cálculo das derivadas parciais, obtemos
 2  2  2
2 1 2 2 2 3 2 1
(uc (I)) = (3D1 + D2 ) (uc (M )) + M D1 (uc (D1 )) + M D2 (uc (D2 ))2 (18)
8 4 4
Substituindo em (18) os valores indicados, a incerteza padrão combinada de I toma o
valor uc (I) = 5,47 × 10−5 kg·m2 . Usando a fórmula de propagação de incertezas é possı́vel,
como vimos, determinar a incerteza associada a uma grandeza de medição indirecta com base
numa soma de parcelas que dependem, cada uma delas, da incerteza duma grandeza de medição
directa. Destas grandezas, a que origina a maior parcela é definida como variável crı́tica na
determinação da grandeza indirecta pois é a que lhe comunica uma maior incerteza. No exemplo
apresentado, a incerteza do momento de inércia é, pela expressão (18),

(uc (I))2 = (0, 13 + 2, 51 + 0, 35) × 10−9 kg2 · m4 (19)

pelo que a variável crı́tica na determinação do momento de inércia é o diâmetro interno do anel
(D1 ) que contribui com a maior parcela para a incerteza final.

4.10 Gráficos. Aplicações e regras de construção

A elaboração de um gráfico é uma das partes mais importantes da elaboração de um


relatório. O gráfico não só facilita (porque clarifica) a apresentação de resultados, como também
permite tirar conclusões mais facilmente. De um modo geral, há três situações em que a utilização
de um gráfico é recomendada.
A utilização mais importante de um gráfico é como auxiliar visual. Por exemplo: a velo-
cidade de escoamento da água por um tubo depende da diferença de pressão entre os extremos
do tubo. Com a ajuda de um gráfico (fig. 7) é mais fácil ver qual o intervalo de valores em
que existe proporcionalidade entre a velocidade, v, e a diferença de pressão, ∆P , e quando ela
deixa de existir. Por outro lado, numa tabela, esta mudança de comportamento é mais difı́cil
de observar.
O gráfico também pode ser uma ajuda quando queremos registar, ao mesmo tempo, os
valores experimentais e o valor teórico esperado para podermos comparar como é que a teoria
se ajusta às condições experimentais (ver fig. 8).
A segunda situação em que o gráfico é importante é na determinação do declive e da
ordenada na origem de uma recta. Esta determinação é muito simples e razoavelmente rigorosa.
Esta aplicação será estudada na secção 4.11. Repare-se no entanto que quando aplicamos o
método dos mı́nimos desvios quadrados (ver secção 4.12) estamos a utilizar os próprios números
e não o gráfico.
A terceira aplicação possı́vel é o traçado da curva de calibração de um aparelho, que serve
para converter a grandeza medida por esse aparelho noutra grandeza em que estamos interes-
sados. Como exemplo desta aplicação temos o traçado da curva de calibração de um termopar
que permite converter a diferença de potencial entre as junções do termopar na diferença de
temperatura entre as referidas junções (fig. 9).

18
∆P / Pa·m−1 v / 10−3 m·s−1
0,3
7,8 35
15,6 65 v / m .s-1
23,4 78
31,3 126 0,2
39,0 142
46,9 171
54,7 194
0,1
62,6 226
78,3 245
87,6 258
93,9 271 0,0
101,6 277 0 20 40 60 80 100 120
109,9 284 .
ΔP / Pa m -1
118,0 290

Figura 7: Comparação entre a apresentação de resultados sob a forma de tabela e de


gráfico.

São vários os factores a ter em conta na construção de um gráfico experimental:


1) Tipo de papel - existem vários tipos de papel onde se podem traçar gráficos, sendo
os mais vulgares: milimétrico, logarı́tmico e semilogarı́tmico. A escolha do papel depende da
relação que existe entre as variáveis. Normalmente, o objectivo é representar a relação entre as
duas variáveis por forma a obter uma recta.
Quando a relação entre as variáveis é linear, utiliza-se papel milimétrico normal, com
escalas lineares. Para uma relação do tipo exponencial, y = exp(x), o traçado do gráfico faz-
se em papel semilogarı́tmico. Na figura 10 está representado o decaı́mento nuclear de uma
substância radioactiva em função do tempo, que tem a forma:

N = N0 exp(−λ × t)

30

d /m

20
Recta teórica

10
Pontos experimentais

0 5 10 15 20
t/s

Figura 8: Comparação dos valores obtidos experimentalmente com a previsão teórica.

19
250
ΔT / ˚C
200

150

100

50

0
0 1 2 3 4 5 6 7 8
ddp / mV

Figura 9: Utilização de um gráfico para traçar a curva de calibração de um aparelho.

sendo N o número de elementos radioactivos, t o tempo, λ a constante de desintegração e N0 o


número de elementos no instante inicial. Aplicando o operador logaritmo a ambos os membros
da equação, resulta
ln(N ) = ln(N0 ) − λ × t

Desta forma, o declive da recta é -λ e a ordenada na origem é ln(N0 ).

0
10
Decaímento nuclear
N / mol
-1
10

-2
10

-3
10
0 2 4 6 8 10
t / min

Figura 10: Exemplo de um gráfico traçado em papel semilogarı́tmico.

No caso de uma relação do tipo y = ln(x) é utilizado o mesmo tipo de papel, trocando-se
os eixos do x e do y em relação ao gráfico anterior.
Quando a relação é do tipo y = AxB , a aplicação do operador logaritmo a ambos os
membros da relação resulta em ln |y| = ln |A| + B ln |x|. Traçando o gráfico em papel loga-
rı́tmico, obtém-se uma recta de inclinação B e ordenada na origem ln |A|. Um exemplo desta
situação é a distância percorrida por um objecto em queda livre partindo do repouso:
1
d = g t2
2

20
3
10

d/m Queda de um grave


2
10

1
10

0
10
0 1
10 10
t/s

Figura 11: Exemplo de um gráfico traçado em papel logarı́tmico.

Aplicando logaritmos a ambos os membros resulta


 
1
ln |d| = ln g + 2 ln |t|
2
2) Escalas - Quando se escolhe a escala em que se vai traçar o gráfico convém obedecer-se
às seguintes regras:
2.1) Os pontos devem estar espalhados pelo gráfico e não concentrados numa zona qual-
quer deste.
2.2) Os eixos devem ser graduados em múltiplos de 1, 2 ou 5:

0 1 2 3 4 0 2 4 6 8 0 5 10 15 20

2.3) A grandeza considerada independente deve figurar na horizontal e a considerada


dependente na vertical.
2.4) Cada um dos eixos deverá ter uma seta na extremidade indicando o sentido do
crescimento. Sobre cada um deles deve indicar-se qual a grandeza que se está a representar e a
unidade em que esta vem expressa (ex: v / m·s−1 ).
3) Os gráficos devem ter um tı́tulo na parte superior.
4) Diferentes experiências num mesmo gráfico podem ser diferenciadas por diferentes
sı́mbolos ( ◦, •, ∗, +, etc.) ou por cores.
5) As incertezas associadas a cada medição marcam-se no gráfico através de barras de
incerteza.

4.11 Determinação dos parâmetros de uma recta pelo método gráfico

É frequente numa experiência pretender determinar-se a forma como varia uma grandeza
em função de outra através da determinação de uma constante de proporcionalidade ou de

21
quaisquer outros parâmetros.
Consideremos o seguinte problema: mediram-se diversos pares de valores (xi ,yi ), corres-
pondentes às grandezas X e Y , respectivamente. Sendo a variação de Y com X linear, pode ser
traduzida pela equação
Y = mX + b

Esta equação representa a recta sobre a qual estariam os pontos medidos se estes não
estivessem afectados de erros. Pretende-se então determinar m e b, de tal forma que a recta
determinada seja aquela que menos se afasta dos pontos medidos.
Suponhamos que suspendı́amos massas numa mola e que mediamos a elongação resul-
tante. Suponhamos também que a incerteza de medição associada ao valor das massas é des-
prezável e que a resolução com que a elongação da mola é medida é igual a 1 mm. A figura 12
mostra um conjunto de valores possı́veis e a representação gráfica desses valores. Desenharam-se
barras de incerteza (pequenos segmentos de recta verticais) em cada ponto experimental para
melhor mostrar qual a incerteza associada aos valores da grandeza representada no eixo vertical.
A recta traçada é aquela que parece melhor representar o conjunto de pontos marcados.

30
Massa / g Elongação / mm
s / mm
δm = 1 g δs = 1 mm
50 3
20
100 6
150 8
200 11
250 14 10

300 17
350 19
400 23 0
450 27 0 100 200 300 400 500
m/g

Figura 12: Traçado da recta mais provável.

Para calcular a inclinação da recta tomam-se dois pontos desta, afastados um do outro.
Sejam os pontos (x1 , y1 ) = (85 g, 5 mm) e (x2 , y2 ) = (430 g, 25 mm). A inclinação da recta é
calculada através de:
y2 − y1
m=
x2 − x1
Resulta então o valor m = 0,005 92 m·N−1 . A constante elástica da mola é o inverso
deste valor, ou seja, k = 169 N.m−1 . A ordenada na origem pode ser lida directamente no gráfico
ou em alternativa podem usar-se um dos pontos da recta e o valor calculado para m:

b = y − mx

22
Tomando o ponto (x1 , y1 ) e m = 0,0580 m·N−1 , resulta b = -0,000 07 m.
Podemos também determinar graficamente os intervalos de valores possı́veis de m e de
b. Para tal traçamos as rectas de inclinação máxima e de inclinação mı́nima que ainda sejam
representativas dos valores marcados, isto é, aquelas que passem próximo dos valores que se
afastam mais da melhor recta (ver fig. 13). Seguidamente, calculam-se as inclinações k1 e k2
destas rectas, usando o método descrito. O resultado final para a constante elástica da mola é
dado pelo intervalo [k2 ; k1 ], sendo o valor mais provável k.
Numa situação em que tanto a variável dependente quanto a variável independente este-
jam afectadas de incertezas relativas não negligenciáveis (superiores a cerca de 1%) devem ser
traçadas barras de incerteza (que terão a forma de cruzes) que ilustrem as incertezas associadas
a ambos os conjuntos de valores marcados.

30
k1
s / mm
k2
20

10

0
0 100 200 300 400 500
m/g

Figura 13: Traçado das rectas limite.

4.12 Método dos mı́nimos desvios quadrados.

A determinação dos parâmetros da recta que melhor se ajusta a um conjunto de pontos


experimentais também pode ser feita através de um método analı́tico, portanto mais rigoroso
do que o método gráfico anteriormente descrito. O método utilizado para tal tem o nome de
método dos mı́nimos desvios quadrados e tem por princı́pio a minimização das distâncias dos
pontos experimentais à recta pretendida.

4.12.1 Regressão linear

O primeiro passo do método consiste na quantificação das distâncias de cada um dos


pontos medidos à recta pretendida. Seja (xi , yi ) um ponto experimental: o valor da recta que
procuramos, para x = xi , é
y = mxi + b (20)

23
e a distância, medida na vertical, de yi à recta (ver fig. 14) é

di = yi − (mxi + b) (21)

Se elevarmos ambos os membros desta expressão ao quadrado, ela conterá ainda in-
formação acerca da distância de cada ponto à recta, mas já não importará se a distância é
positiva (ponto acima da recta) ou negativa (ponto abaixo da recta).
A melhor recta é aquela cujos m e b fazem com que o somatório do quadrado das
distâncias,
X X
S= d2i = (yi − mxi − b)2 (22)

seja mı́nimo. Para tal é necessário que as derivadas parciais de S em ordem a m e a b se anulem,
∂S
 X

 = −2xi (yi − mxi − b) = 0
∂m (23)
 ∂S =
X
−2 (yi − mxi − b) = 0

∂b
Como m e b são constantes podem passar para fora dos somatórios, obtendo-se então
duas equações a duas incógnitas em m e b,
 X X X
m x2i + b xi = xi yi
X X (24)
m xi + b n = yi

onde n é o número de pontos medidos. A última equação mostra que a melhor recta passa por
(x, y). Resolvendo as eqs. (24) obtemos,
 P P P
n x i y i − xi yi
m =


P 2P d P P (25)
 xi yi − xi xi yi
 b=

d
onde se define o denominador comum d através de
X X 2
d=n x2i − xi (26)

As incertezas associadas a m e a b também podem ser calculadas. No caso em que a


coordenada x não tem incerteza associada e em que a grandeza dependente y tem uma distri-
buição Gaussiana em torno da melhor recta e sendo di = yi - (mx i + b), demonstra-se que os

y
i di

xi X

Figura 14: Distâncias dos pontos experimentais a uma recta.

24
desvios padrão de m e de b são dados por,
 s
 n s2y
 sm =



d
s P (27)
s2y x2i



 sb =

d

em que a quantidade s2y , que representa a variância das medições yi , é dada por
P 2
2 di
sy = (28)
n−2

4.12.2 Aplicação da regressão linear ao termómetro de gás a volume constante

Para exemplificar a aplicação das fórmulas da regressão linear vamos efectuar o trata-
mento dos resultados de um trabalho sobre o termómetro de gás a volume constante. O objectivo
do trabalho é determinar a temperatura do zero absoluto (tza = -273 ◦ C) e o coeficiente de ex-
pansão do ar (α = 0, 00366◦ C−1 ), suposto comportar-se como um gás ideal. A relação entre a
pressão do gás e a temperatura expressa em graus Celsius é dada por

P = P0 (1 + α t) (29)

em que P0 é a pressão à temperatura t = 0 ◦ C. A ordenada na origem, b, desta recta (y = mx


+ b), é igual a P0 e a inclinação, m, é igual a P0 α, pelo que α = Pm0 = m
b . A temperatura do
zero absoluto é obtida supondo que a esta temperatura a pressão do gás se anula. Da equação
(29), resulta que a temperatura do zero absoluto é igual a − α1 .
A tabela 4 mostra um conjunto de resultados experimentais e a aplicação do método dos
mı́nimos desvios quadrados ao conjunto de pares de valores (t,P ). Os valores de xi correspondem
às temperaturas em ◦ C e os valores de yi correspondem às pressões, indicadas em mmHg. A
regressão linear pode ser facilmente aplicada construindo uma tabela apropriada (ver tabs. 4 e
5).
Efectuados os cálculos, obtém-se
m = (2,554 ± 0,048) mmHg·◦ C−1
b = (706,2 ± 2,6) mmHg
Dos valores obtidos para m e b resulta para α o valor 0,003 61 ◦ C−1 e, usando a lei de
propagação de incertezas, eq. (13), um desvio padrão de 0,000 069 ◦ C−1 . Para a temperatura
do zero absoluto resulta o valor -276,5 ◦ C e um desvio padrão de 5,3 ◦ C.
O resultado deste trabalho deve ser apresentado sob a forma
α = (3,61 ± 0,07) × 10−3 ◦ C−1
tza = (-276 ± 5) ◦ C
Quando se efectuam os cálculos para a aplicação da regressão linear é muito impor-
tante não proceder a quaisquer arredondamentos, excepto no resultado final: um arredonda-
mento num calculo intermédio feito para obedecer às regras de apresentação de algarismos
significativos pode resultar numa incorrecção muito grande na determinação de m, b, sm ou sb .

25
xi = t/ ◦ C yi = P / mmHg (xi )2 (xi )(yi ) di (di )2
20 756 400 15120 -1,250 1,563
30 785 900 23550 2,214 4,903
40 809 1600 32360 0,679 0,460
50 831 2500 41550 -2,857 8,163
60 862 3600 51720 2,607 6,797
70 882 4900 61740 -2,929 8,577
80 912 6400 72960 1,536 2,358
)2 = (di )2 = 32,82
P P P P P P
xi = 350 yi = 5837 (xi 20300 xi yi = 299000 di = 0,000

Tabela 4: Aplicação da regressão linear ao termómetro de gás a volume constante.


Cálculo dos somatórios envolvidos no cálculo de d, m, b, s2y , sm e sb . di representa o
desvio dos pontos experimentais à recta determinada, di = yi − (mxi + b).

d = 19600 ◦ C2 m = 2,554 mmHg·◦ C−1 (sy )2 = 6,564 (mmHg)2 sm = 0,048 mmHg·◦ C−1
b = 706,2 mmHg sb = 2,6 mmHg

Tabela 5: O cálculo de d, m, b, s2y , sm e sb , foi efectuado usando as equações (25) a


(28).

26
5 DISCUSSÃO

RELATÓRIO:

Resumir e comentar o trabalho experimental realizado e os resultados obtidos,


comparando-os com os valores previstos. Analisar o cumprimento do objectivo
proposto para o trabalho. Enumerar as principais causas de erro experimental e
possı́veis métodos de os evitar ou minorar. Fazer uma análise crı́tica do conjunto do
trabalho.

5.1 Apresentação do resultado final de uma experiência

Quando o objectivo de um trabalho experimental é a determinação da valor de uma


grandeza, a apresentação do resultado final para o valor dessa grandeza e da incerteza de que
está afectada devem obedecer às regras enunciadas na secção 3.3 relativas a arredondamentos,
ao número de dı́gitos a apresentar numa incerteza e à concordância entre a incerteza e o valor
da grandeza. Quanto à forma de indicar os resultados deve ser usada uma das representações
seguintes (o exemplo é o do momento de inércia do anel, secção 4.9):
1) I = 4,723 × 10−2 kg·m2 , com uma incerteza padrão combinada uc (I) = 6 × 10−5
kg·m2 ;
2) I = 4,723(6) × 10−2 kg·m2 , em que o número entre parênteses é o valor numérico da
incerteza padrão combinada referida ao último dı́gito do valor da grandeza;
3) I = (4,723 ± 0,006) × 10−2 kg·m2 , em que o valor a seguir ao sı́mbolo ± é o valor
numérico da incerteza padrão combinada.

5.2 Verificação experimental de uma lei fı́sica

A verificação experimental da validade de uma lei fı́sica compreende dois aspectos: a


análise do tipo de relação existente entre as grandezas em causa e a determinação das constantes
envolvidas nessa relação.
A relação existente entre as grandezas pode assumir diversas formas. Ao traçar um
gráfico dos pontos experimentais num papel gráfico adequado, podemos verificar se o tipo de
curva que representa os pontos experimentais é o esperado e assim obter uma indicação quanto
à validade da lei envolvida. Na secção 4.10 foram apresentados diversos exemplos deste método
(ver figs 8, 10 e 11).

5.3 Comparação de valores medidos com valores previstos

É frequente, ao realizar uma experiência, um dos objectivos a atingir depender da com-


paração do valor determinado para uma grandeza com o valor previsto teoricamente ou com

27
o valor universalmente aceite para essa grandeza. Vamos, como exemplo do procedimento a
adoptar, tomar para valor aceite da aceleração da gravidade

g = 9,80 m·s−2

e supor que o valor obtido experimentalmente foi

gexp = (9,6 ± 0,3) m·s−2

Neste caso, o valor previsto (g = 9,80 m.s−2 ) encontra-se dentro do intervalo de valores
experimental (gexp ∈ [9,3 ; 9,9] m·s−2 ), pelo que podemos concluir que a medição efectuada é
satisfatória e que o valor obtido é concordante com o valor esperado.
O significado do intervalo de valores experimental de gexp mostra que o valor de g está
dentro daqueles limites com um certo grau de probabilidade; por isso, mesmo que o valor aceite
caia ligeiramente fora daqueles limites, podemos considerar os dois valores como concordantes.
Se a gama de valores entre os quais se admite encontrar gexp estiver muito desviada do valor aceite
para g, então concluı́mos que os dois valores não concordam e teremos de procurar as razões de
tal discrepância de modo a corrigi-las. Entre as razões para a não coincidência poderão estar
erros de cálculo ou erros sistemáticos.

5.4 Comparação de duas medições

Noutras experiências, pretende verificar-se a conservação de uma grandeza fı́sica no tempo


ou comparar-se o valor de uma grandeza medida de duas formas distintas. É o caso em que
se determina a constante elástica de uma mola, k, através da relação entre a força aplicada na
mola e o seu elongamento, e também através da medição do perı́odo de oscilação em torno da
sua posição de equilı́brio. Suponha que os valores e respectivas incertezas, obtidos por cada um
dos métodos, foram, respectivamente,
k1 = (1,1 ± 0,2) N·m−1
e
k2 = (1,3 ± 0,3) N·m−1 .
Neste exemplo, o intervalo que se estima conter k1 sobrepõe-se ao intervalo de k2 , pelo
que podemos concluir que os valores da constante da mola determinados por um e por outro
método são concordantes.

0,8 0,9 1,0 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6 1,7
.
k/Nm -1

Figura 15: A existência de um intervalo de valores previsto por ambos os métodos


permite afirmar que os resultados são concordantes.

28
6 BIBLIOGRAFIA

RELATÓRIO:

Listar os livros, tabelas, manuais, etc., que serviram de base para a elaboração do
relatório.

- Practical Physics 2/e, G.L. Squires, McGraw-Hill Company (UK), 1978.


- An Introduction to Error Analysis, John Taylor, University Science Books, 1982.
- Data Reduction and Error Analysis for the Physical Sciences, Philip R Bevington,
McGraw-Hill, 1969
- Guia Prático de Laboratório de Fı́sica, Carlos Dias, FCT/UNL, 1988
- The Statistical Analysis of Experimental Data, John Mandel, Dover Publications, 1964
- Fundamental Formulas of Physics, vol. 1, Donald Menzel, Dover Publications, 1960
- A Physicist’s Desk Reference, Herbert Anderson, American Institute of Physics, 1989
- Sistema Internacional de Unidades (SI), Grandezas e Unidades Fı́sicas, Guilherme de
Almeida, Plátano Editora, 1988
- Vocabulário Internacional de Metrologia, 3a¯ ed., Instituto Português de Qualidade, 2008
- Guide to the expression of uncertainty in measurement, Organização Internacional para
a Padronização, ISO, 1995.

29
Apêndices

A Unidades SI: definição, factores de conversão, prefixos e re-


gras de escrita

Definição das unidades SI de base:


- Comprimento (l): metro (m). O metro é igual à distância percorrida pela luz no vazio
durante o intervalo de tempo igual a 1/299792458 do segundo.
- Massa (m): quilograma (kg). O quilograma é a unidade de massa igual à massa
do protótipo internacional do quilograma (Nota: este protótipo é constituı́do por uma liga de
90% de platina e 10% de irı́dio e está guardada no ”Bureau Internacional de Poids et Mesures”,
Sèvres, Paris, França)
- Tempo (t): segundo (s). O segundo é a duração de 9 192 631 770 perı́odos da radiação
correspondente à transição entre os dois nı́veis hiperfinos do estado fundamental do átomo de
césio 133.
- Corrente eléctrica (I): ampere (A). O ampere é a corrente estacionária que, se mantida
em dois condutores paralelos, rectilı́neos, de comprimento infinito, de secção circular desprezável,
e colocados à distância de um metro um do outro no vazio, produziria entre estes condutores
uma força igual a 2 × 10−7 newton por metro.
- Temperatura termodinâmica (T ): kelvin (K). O kelvin é a fracção 1/273,16 da tem-
peratura termodinâmica do ponto triplo da água.
- Quantidade de matéria (n): mole (mol). A mole é a quantidade de matéria de um
sistema que contenha tantas entidades elementares quantas as existentes em 0,012 quilogramas
de carbono 12. (Nota: quando a mole é usada, as entidades elementares devem ser especificadas
e podem ser átomos, moléculas, iões, electrões, outras partı́culas ou grupos de partı́culas)
- Intensidade luminosa (Iv): candela (cd). A candela é a intensidade luminosa, numa
dada direcção, de uma fonte que emite radiação monocromática de frequência igual a 5, 40×1014
hertz e que tem uma intensidade radiante nessa direcção igual a 1/683 watt por esterradiano.
Unidades SI suplementares:
- ângulo plano (α,β,γ,θ,φ): radiano (rad). O radiano é o ângulo plano compreendido
entre dois raios que, na circunferência de um cı́rculo, intersectam um arco de comprimento igual
ao raio desse cı́rculo.
- ângulo sólido (Ω): esterradiano (sr). O esterradiano é o ângulo sólido que, tendo
o vértice no centro de uma esfera, define sobre a superfı́cie da esfera uma área igual à de um
quadrado de lados de comprimento igual ao do raio da esfera.
Nota: estas unidades suplementares devem ser encaradas como unidades derivadas adi-
mensionais que podem ser usadas ou omitidas na expressão de unidades derivadas.

30
Algumas unidades SI derivadas
Grandeza Unidade SI Expressão em função Redução às unidades
Nome Sı́mbolo Nome Sı́mbolo de outras unidades SI de base
Frequência f, ν hertz Hz s−1
Força F~ newton N kg·m·s−2
Pressão p pascal Pa N·m−2 kg·m−1 ·s−2
Energia E, W joule J N·m kg·m2 ·s−2
Potência P watt W J·s−1 kg·m2 ·s−3
Carga eléctrica Q, q coulomb C A·s
Potencial eléctrico V volt V W·A−1 kg·m2 ·A−1 ·s−3
Fluxo magnético φ weber Wb V·s kg·m2. A−1 ·s−2
Indução magnética ~
B tesla T Wb·m−2 kg·A−1 ·s−2
Indutância L henry H Wb·A−1 kg·m2 ·A−2 ·s−2
Capacidade C Farad F kg−1 ·m−2 ·A2 ·s4

Conversões mais utilizadas


1◦ (grau) = 1,745 × 10−2 rad (radiano); 1 rad = 57◦ 49’
1 polegada = 2,540 cm; 1 pé = 0,304 74 m; 1 jarda = 0,9144 m; 1 milha = 1609,3 m
1 onça = 28,35 g; 1 libra = 0,4536 kg
1 dyn (dine) = 1 g·cm·s−2 = 1 × 10−5 N (newton)
1 atm (atmosfera) = 1,013 25 × 105 Pa (pascal); 1 dyn·cm−2 = 0,1 Pa; 1 bar = 1 × 105 Pa;
1 torr = 1 mmHg = 133,322 Pa; 1 psi = 6894,8 Pa
1 cal (caloria) = 4,186 J (joule); 1 erg = 1 ×g0−7 J; 1 eV(electrão-volt) = 1,602 18 × 10−19 J
1 G (gauss) = 10−4 T (tesla)

Prefixos e sı́mbolos SI
Múltiplos Submúltiplos
Factor Prefixo Sı́mbolo Factor Prefixo Sı́mbolo
1024 yotta Y 10−1 deci d
1021 zetta Z 10−2 centi c
1018 exa E 10−3 mili m
1015 peta P 10−6 micro µ
1012 tera T 10−9 nano n
109 giga G 10−12 pico p
106 mega M 10−15 fento f
103 quilo k 10−18 atto a
102 hecto h 10−21 zepto z
101 deca da 10−24 yocto y

31
Regras de escrita e utilização dos sı́mbolos das unidades SI

Os princı́pios gerais relativos à escrita dos sı́mbolos das unidades SI são:


- os sı́mbolos das unidades são impressos em caracteres romanos direitos e, em geral,
minúsculos. Contudo, se o nome da unidade deriva de um nome próprio, a primeira letra do
sı́mbolo é maiúscula. Ex: m, metro; s, segundo; K, kelvin; A, ampere.
- os sı́mbolos das unidades ficam invariáveis no plural (ex: 25 m e não 25 ms).
- os sı́mbolos das unidades não são seguidos de um ponto.
Devem também ser observadas as seguintes recomendações:
- o produto de duas ou mais unidades pode ser indicado de uma das formas seguintes:
exemplo: N m, N.m ou N·m mas não Nm
- quando uma unidade derivada é formada dividindo uma unidade por outra, pode
utilizar-se uma barra oblı́qua (/), uma barra horizontal ou também expoentes negativos. Exem-
plo: m/s ou m·s−1
- nunca deve ser utilizado na mesma linha mais que uma barra oblı́qua, a menos que
sejam adicionados parêntesis, a fim de evitar qualquer ambiguidade. Em casos complicados
devem ser utilizados expoentes negativos ou parêntesis. Exemplos: m/s2 ou m·s−2 ; m·kg/(s3 ·A)
ou m·kg·s−3 ·A−1 mas não: m/s/s ou m·kg/s3 /A
As regras de utilização dos prefixos das unidades são:
- os sı́mbolos dos prefixos são impressos em caracteres romanos direitos, sem espaço entre
o sı́mbolo do prefixo e o sı́mbolo da unidade.
- o conjunto formado pela junção do sı́mbolo de um prefixo ao sı́mbolo de uma unidade
constitui um novo sı́mbolo inseparável, que pode ser elevado a uma potência positiva ou negativa
e que pode ser combinado com outros sı́mbolos de unidades para formar sı́mbolos de unidades
compostas. Exemplos:
1 cm3 = (10−2 m)3 = 10−6 m3
1 cm−1 = (10−2 m)−1 = 102 m−1
1 ms−1 = (10−3 s)−1 = 103 s−1
1 V/cm = (1 V)/(10−2 m) = 102 V/m
- não são empregues prefixos compostos, ou seja, formados pela justaposição de vários
prefixos. Exemplo: 1 nm e não 1 mmm.
- um prefixo não pode ser empregue sem uma unidade a que se refira. Exemplo: 106 /m3 , e
não M/m3 . Excepção: entre as unidades de base do SI, a unidade de massa é a única cujo nome,
por razões históricas, contém um prefixo. Os nomes e os sı́mbolos dos múltiplos e submúltiplos
decimais da unidade de massa são formados pela junção dos prefixos à palavra ”grama”e os
sı́mbolos correspondentes ao sı́mbolo g. Exemplo: 10−6 kg = 1 miligrama (1 mg), e não 1 mi-
croquilograma (1 mkg).

32
B Constantes

Algumas constantes fı́sicas

Valores recomendados pelo CODATA (Committee on Data for Science and Technology)
em 1998.

Constante Sı́mbolo Valor Incerteza relativa


Velocidade da luz no vazio c 2,997 924 58 × 108 m·s−1 —
Constante de gravitação G 6,673 × 10−11 m3 ·kg−1 ·s−2 1,5 × 10−3
Carga elementar e 1,602 176 462 × 10−19 C 3,9 × 10−8
Constante de Planck h 6,626 068 76 × 10−34 J·s 7,8 × 10−8
Constante de Avogadro NA 6,022 041 99 × 1023 mol−1 7,9 × 10−8
Constante de Faraday F 9,648 534 15 × 104 C·mol−1 4,0 × 10−8
Massa em repouso do electrão me 9,109 381 88 × 10−31 kg 7,9 × 10−8
Constante de Rydberg R∞ 1,097 373 156 854 9 × 107 m−1 7,6 × 10−12
Raio de Bohr a0 5,291 772 083 × 10−11 m 3,7 × 10−9
Unidade de massa atómica u 1,660 538 73 × 10−27 kg 7,9 × 10−8
Massa em repouso do protão mp 1,672 621 58 × 10−27 kg 7,9 × 10−8
Massa em repouso do neutrão mn 1,674 927 16 × 10−27 kg 7,9 × 10−8
Razão carga/massa do electrão -e/me -1,758 820 174 × 1011 C·kg−1 4,0 × 10−8
Permeabilidade magnética do vazio µ0 4π × 10−7 N·A−2 —
Permitividade eléctrica do vazio ε0 1/(µ0 × c2 ) F·m−1 —
Constante universal dos gases R 8,314 472 J·mol−1 ·K−1 1,7 × 10−6
Constante de Boltzmann k 1,380 650 3 × 10−23 J·K−1 1,7 × 10−6
Constante de Stefan-Boltzmann σ 5,670 400 × 10−8 W·m−2 ·K−4 7,0 × 10−6

Os valores de c, µ0 e ε0 não possuem incerteza: a velocidade da luz é, por convenção,


uma constante, a permeabilidade magnética do vazio é definida com base na constante π, e a
permitividade eléctrica do vazio é definida com base em c e em µ0 .

Algumas constantes matemáticas

Constante Sı́mbolo Valor


Pi π 3,141 592 654 . . .
Número neperiano e 2,718 281 828 . . .
Logaritmo neperiano de 10 ln (10) 2,302 585 093 . . .

33
C A distribuição Gaussiana

A distribuição de probabilidades mais importante em análise de dados é a distribuição


Gaussiana 4 ou distribuição normal. Fisicamente, a sua utilidade resulta do facto de ela des-
crever bem os parâmetros dos conjuntos de observações da maioria das experiências, bem como
as próprias distribuições daqueles parâmetros. Isto verifica-se quando as observações não estão
correlacionadas e apenas sujeitas a erros aleatórios.
A distribuição Gaussiana é definida pela seguinte função:
 2 !
1 1 x−µ
G(x, µ, σ) = √ exp − (30)
σ 2π 2 σ

Trata-se de uma função contı́nua que descreve a probabilidade de, partindo de uma
distribuição cujo valor expectável (ou valor médio) é µ e desvio padrão σ, o resultado de uma
observação ser x. Como a distribuição é contı́nua, devemos definir um intervalo no qual o valor
x esteja contido. A função densidade de probabilidade G(x, µ, σ) é definida de tal modo que a
probabilidade, dPG (x, µ,σ), de o valor de uma observação qualquer estar contida no intervalo
infinitesimal, dx, em torno de x é dada por

dPG (x, µ, σ) = G(x, µ, σ) dx (31)

A forma desta distribuição é ilustrada na figura 16. É uma curva em forma de sino e
simétrica em torno do valor médio µ. A largura da curva gaussiana é caracterizada pelo desvio
padrão σ ou pela chamada largura a meia altura, Γ. Esta largura é definida como o intervalo
entre os valores de x, centrado em x = µ, para os quais a função G é metade do seu valor
máximo:
1 1
G(x = µ ± Γ, µ, σ) = G(x = µ, µ, σ) ⇒ Γ = 2, 354 σ (32)
2 2

1
! 2#

G (x,µ,!)
!

1 "
2! 2#

µ-3! µ-2! µ-! µ µ+! µ+2! µ+3!

Figura 16: A função de distribuição Gaussiana de média µ e desvio padrão σ. O


máximo da função G(x, µ, σ) ocorre para x = µ: G(x = µ, µ, σ) = σ√12π

4
Karl Friedrich Gauss, astrónomo, matemático e fı́sico alemão (1777-1855).

34
A função G é normalizada, de modo que o seu integral ao longo de todos os valores de x
é igual à unidade, ou seja, a probabilidade de, numa observação, se obter um valor x qualquer,
é igual à unidade: Z +∞
G(x, µ, σ) dx = 1 (33)
−∞

Assim, a probabilidade de uma observação qualquer xi estar contida no intervalo de


valores µ ± zσ (em que z é um número real) é dada por
Z µ+zσ Z z
1 1 2
AG = G(x, µ, σ) dx = √ e− 2 x dx (34)
µ−zσ 2π −z

Este integral corresponde à área sob a função G e compreendida entre os valores µ − zσ


e µ + zσ. O valor da função AG encontra-se indicado na tabela 6 para vários valores de z e está
também representado na figura 17.

z 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,5 3,0 4,0
AG 31,08 45,15 57,63 68,27 76,99 83,85 89,04 92,81 95,45 98,76 99,73 99,99

Tabela 6: Valor da função AG para alguns valores de z.

100
A
G 90
% 80 Percentagem de Probabilidade
da distribuição Gaussiana
70
60
50
40
30
20
10
0
0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
z

Figura 17: Percentagem de probabilidade, AG , de uma observação qualquer xi estar


contida no intervalo de valores µ±zσ.

35
D Glossário de termos metrológicos

Neste apêndice apresenta-se a definição de alguns dos termos metrológicos mais impor-
tantes. As definições são as que constam do Vocabulário Internacional de Metrologia, Instituto
Português de Qualidade, 3a ¯ ed., 2008. O uso de palavras entre parênteses nos nomes significa
que essas palavras podem ser omitidas sempre que não houver confusão. Explicações mais de-
talhadas acerca do significado destes termos podem ser encontradas no presente manual e no
Vocabulário Internacional de Metrologia.

Grandeza
Propriedade de um fenómeno, corpo, ou substância, que se pode exprimir quantitativa-
mente sob a forma de um número e de uma referência
Nota: Uma referência pode ser uma unidade de medida, um procedimento de medição,
um material de referência ou uma combinação deles.

Valor de uma grandeza


Conjunto de um número e de uma referência constituindo a expressão quantitativa de
uma grandeza

Medição
Processo experimental para obter um ou mais valores razoavelmente atribuı́veis a uma
grandeza

Mensuranda
Grandeza que se pretende medir

Resultado de medição
Conjunto de valores que são atribuı́dos à mensuranda juntamente com qualquer outra
informação relevante

Valor medido
Valor de uma grandeza que representa um resultado de medição

Valor verdadeiro
Valor de uma grandeza consistente com a definição da grandeza

Valor convencional
Valor de uma grandeza atribuı́do por convenção a uma grandeza para um dado fim

Exactidão
Aproximação entre um valor medido e um valor verdadeiro de uma mensuranda.

36
Fidelidade de medição
Aproximação entre indicações ou valores medidos obtidos por medições repetidas no
mesmo objecto ou objectos semelhantes em condições especificadas

Erro de medição
Diferença entre o valor medido de uma grandeza e um valor de referência

Erro sistemático
Componente do erro de medição que em medições repetidas permanece constante ou
varia de uma forma previsı́vel

Erro aleatório
Componente do erro de medição que em medições repetidas varia de forma imprevisı́vel

Condição de repetibilidade
Condição de medição num conjunto de condições, que inclui o mesmo procedimento de
medição, os mesmos operadores, o mesmo sistema de medição, as mesmas condições operativas
e a mesma localização, e medições repetidas no mesmo objecto ou objectos similares, num curto
intervalo de tempo

Condição de reprodutibilidade
Condição de medição num conjunto de condições, que inclui os diferentes locais, opera-
dores e sistemas de medição e medições repetidas no mesmo objecto ou objectos similares

Incerteza de medição
Parâmetro não-negativo que caracteriza a dispersão dos valores da grandeza que são
atribuı́dos à mensuranda a partir das informações usadas

Incerteza definicional
Componente da incerteza de medição resultante da informação intrinsecamente finita da
definição da mensuranda

Avaliação de tipo A da incerteza de medição


Avaliação de uma componente da incerteza de medição através de análise estatı́stica dos
valores medidos obtidos em condições de medição especificadas

Avaliação de tipo B da incerteza de medição


Avaliação de uma componente da incerteza de medição por outro processo que não a
avaliação de tipo A

Incerteza-padrão de medição
Incerteza de medição expressa sob a forma de um desvio-padrão

37
Incerteza-padrão combinada
Incerteza-padrão que é obtida a partir das incertezas-padrão individuais associadas às
grandezas de entrada num modelo de medição

Modelo de medição
Relação matemática entre todas as grandezas envolvidas na medição

Correcção
Compensação num valor medido de um efeito sistemático conhecido

Instrumento de medição
Dispositivo usado para realizar medições, isolado ou em conjunto com dispositivos com-
plementares

Indicação
Valor de uma grandeza fornecido por um instrumento de medição ou um sistema de
medição

Sensibilidade
Quociente da variação de uma indicação de um sistema de medição pela correspondente
variação do valor da grandeza medida

Resolução
A menor variação numa grandeza a medir que provoca uma variação perceptı́vel na
correspondente indicação

Resolução de um dispositivo afixador


A menor diferença entre indicações afixadas que podem ser distinguidas significativa-
mente

Incerteza de medição instrumental


Componente da incerteza de medição proveniente do instrumento de medição ou sistema
de medição em uso

38