Você está na página 1de 65

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

ˆ

INSTITUTO DE CI ENCIAS EXATAS

Departamento de Matem´atica

Involu¸c˜oes e elementos Cayley unit´arios em ´algebras de grupos e an´eis de matrizes

Viviane Ribeiro Tomaz da Silva

Orientadora: Ana Cristina Vieira

Belo Horizonte - Dezembro de 2004

Resumo

Seja a involu¸c˜ao canˆonica da ´algebra de grupo KG induzida pela aplica¸c˜ao x x 1 para x G. No caso em que K ´e uma extens˜ao real de Q, consideramos elementos Cayley unit´arios constru´ıdos a partir de elementos anti-sim´etricos k = α(x x 1 ) em KG tais que 1 + k ´e invert´ıvel em KG, para α K e x G. As constru¸c˜oes envolvem uma interessante seq¨uˆencia nos coeficientes de (1+ k) 1 , que ´e a seq¨uˆencia de Fibonacci quando α = 1. Estudamos tamb´em involu¸c˜oes e elementos Cayley unit´arios no anel M n (D) de matrizes n × n sobre um anel de divis˜ao D, baseados no artigo Unitary elements in simple artinian rings de C. Chuang e P. Lee.

ii

Abstract

Let denote the canonical involution of the group algebra KG induced by the map x x 1 for x G. In case K is a real extension of Q, we consider Cayley unitary elements built out of skew elements k = α(xx 1 ) in KG such that 1+k is invertible in KG, for α K and x G. The constructions involve an interesting sequence in the coefficients of (1 + k) 1 which is the Fibonacci sequence when α = 1. We also study involutions and Cayley unitary elements in the ring M n (D) of n × n matrices over a division ring D, based on the article Unitary elements in simple artinian rings of C. Chuang and P. Lee.

iii

Agradecimentos

`

A minha orientadora, professora Ana Cristina Vieira, pelos ensinamentos valiosos,

acompanhamento cont´ınuo e sol´ıcito e por sua admir´avel dedica¸c˜ao.

Ao professor Michel Spira, pela confian¸ca e incentivo, pelo interesse e aten¸c˜ao para com o trabalho desenvolvido e por todas as sugest˜oes.

Ao professor Adilson Gon¸calves, pelas sugest˜oes e considera¸c˜oes feitas ao tra- balho.

Aos professores Antˆonio Giambruno (Universidade de Palermo), Vitor de Oliveira Ferreira (USP) e Jairo Zacarias Gon¸calves (USP), pelo cuidado e prontid˜ao com que responderam aos nossos questionamentos.

Aos professores e funcion´arios do Departamento de Matem´atica da UFMG, pelo est´ımulo, forma¸c˜ao e conv´ıvio.

Aos amigos, pelo carinho, companheirismo e torcida.

Aos meus pais e irm˜as, pelo amor diariamente manifestado em pequenos-grandes gestos, pelo apoio e compreens˜ao.

A Deus, meu eterno e grande Amigo, por nos querer cada vez mais plenos, pelo infinito amor, pela doce e terna presen¸ca!

iv

Sum´ario

Resumo

ii

Abstract

iii

Agradecimentos

iv

Introdu¸c˜ao

1

1 Conceitos e resultados essenciais

 

4

1.1 M´odulos e ´algebras

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

4

1.2 Involu¸c˜oes em um anel

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

9

1.3 Elementos unit´arios e Cayley unit´arios

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

14

1.4 Fun¸c˜oes geradoras .

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

17

2 Elementos Cayley unit´arios de ´algebras de grupos

 

21

2.1 Exemplos de elementos Cayley unit´arios

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

21

2.2 Encontrando (1 + x x 1 ) 1

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

26

2.3 Encontrando (1 + α(x x 1 )) 1

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

28

2.4 Elementos Cayley unit´arios de KG obtidos a partir de α(x x 1 )

 

33

3 Involu¸c˜oes em an´eis de matrizes

 

39

3.1

Isomorfismos de an´eis com involu¸c˜ao

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

39

v

3.2 Caracteriza¸c˜ao de involu¸c˜oes .

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

42

3.3 Produto de elementos Cayley unit´arios

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

47

Considera¸c˜oes Finais

56

Referˆencias Bibliogr´aficas

58

vi

Introdu¸c˜ao

Entendemos por involu¸c˜ao um anti-automorfismo de ordem 2 em um anel. Um dos exemplos mais elementares ´e a aplica¸c˜ao transposta no anel de matrizes sobre um corpo. A “´algebra-multiplica¸c˜ao de uma superf´ıcie de Riemann” ´e um exemplo de uma ´algebra sobre Q admitindo uma involu¸c˜ao e foi a motiva¸c˜ao para a investiga¸c˜ao de an´eis com involu¸c˜ao iniciado por A. Albert [1] no in´ıcio dos anos 30.

Em 1998, M. A. Knus, A. Merkurjev, M. Rost e J. P. Tignol publicaram o livro The book of involutions [8], que trata de involu¸c˜oes de uma maneira bem geral e apresenta resultados um tanto quanto sofisticados. Anterior a estes autores, em 1976, I. Herstein [6] tamb´em dedicou um livro a este assunto intitulado Rings with involution, onde tratou os resultados conhecidos at´e ent˜ao em uma variedade de dire¸c˜oes.

Nesta disserta¸c˜ao, concentrar-nos-emos principalmente em an´eis de grupos e an´eis de matrizes munidos de involu¸c˜oes espec´ıficas e desenvolveremos resultados a res- peito de elementos Cayley unit´arios destes an´eis.

Elementos unit´arios e Cayley unit´arios tˆem sido objetos de interesse no estudo de an´eis com involu¸c˜ao em recentes trabalhos de pesquisa. Em 1995, estes elementos foram particularmente estudados por C. Chuang e P. Lee [2] em an´eis de matrizes M n (D), onde D ´e um anel de divis˜ao. Eles determinaram condi¸c˜oes para que um elemento seja o produto de dois elementos Cayley unit´arios de M n (D).

Em 2001, J. Gon¸calves e D. Passman [5] mostraram que um par de elementos Cayley unit´arios em uma ´algebra de grupo KG essencialmente gera um subgrupo livre do grupo dos elementos unit´arios de KG.

Dividiremos este trabalho em trˆes cap´ıtulos. O primeiro, intitulado “Conceitos e resultados essenciais”, possui quatro se¸c˜oes, sendo que as trˆes primeiras tratam de “M´odulos e ´algebras”, “Involu¸c˜oes em um anel” e “Elementos unit´arios e Cayley unit´arios” abordando estes conceitos, exemplos dos mesmos e alguns resultados a eles relacionados que ser˜ao importantes no decorrer deste texto. J´a a Se¸c˜ao 4,

1

intitulada “Fun¸c˜oes geradoras”, explica resumidamente como podemos utiliz´a-las para tentar encontrar o termo geral de uma seq¨uˆencia dada por uma rela¸c˜ao de recorrˆencia e as utiliza na obten¸c˜ao de uma f´ormula para o termo geral da seq¨uˆencia (G i ) recursivamente definida por

G 0 = 0, G 1 = 1

e

G i = α 2 G i2 + G i1 ,

i 2,

onde α ´e um elemento de uma extens˜ao real de Q. Tal f´ormula ser´a importante na demonstra¸c˜ao do Teorema 2.3.1.

O Cap´ıtulo 2 trata sobretudo de elementos Cayley unit´arios da ´algebra de grupo

KG sobre um corpo K, a pr´ıncipio de caracter´ıstica zero, munida da involu¸c˜ao canˆonica induzida pela aplica¸c˜ao x x 1 , x G. Este cap´ıtulo se inicia com

exemplos de elementos Cayley unit´arios obtidos a partir dos geradores do conjunto dos elementos anti-sim´etricos de KG para alguns grupos finitos.

A partir da observa¸c˜ao dos exemplos constru´ıdos, elaboramos hip´oteses que s˜ao

trabalhadas a partir de novos exemplos e de uma observa¸c˜ao cada vez mais mi- nunciosa dos mesmos. Todo este processo culmina primeiramente na obten¸c˜ao do Teorema 2.2.1 que garante a existˆencia do inverso de 1 + x x 1 em KG, quando x G, o(x) = n > 2 e K ´e um corpo com caracter´ıstica zero, e al´em disso nos fornece uma express˜ao expl´ıcita para tal inverso em fun¸c˜ao da seq¨uˆencia de Fibonacci (F i ) definida recursivamente por F 0 = 0, F 1 = 1 e F i = F i2 + F i1 , para i 2.

Em seguida, obtemos o Teorema 2.3.1 que consiste em uma generaliza¸c˜ao do Teo- rema 2.2.1, garantindo a existˆencia do inverso de 1+α(xx 1 ) em KG, para α K,

e fornecendo uma express˜ao para este inverso. Neste resultado, exigimos como

hip´otese que K seja uma extens˜ao real de Q e vemos que a express˜ao obtida para

o inverso de 1 + α(x x 1 ) depende da seq¨uˆencia (G i ) definida acima que, por sua

vez, constitui uma generaliza¸c˜ao da seq¨uˆencia de Fibonacci (F i ). Finalmente, no Teorema 2.4.1, damos uma f´ormula expl´ıcita para o elemento Cayley unit´ario de

KG obtido a partir de α(x x 1 ).

E feita, ent˜ao, a caracteriza¸c˜ao dos elementos

Cayley unit´arios de QG para alguns grupos pequenos.

´

O cap´ıtulo termina com duas proposi¸c˜oes e um exemplo que buscam responder

as seguintes quest˜oes:

“Que elementos de G s˜ao elementos Cayley unit´arios de KG?”

“A partir de que elementos anti-sim´etricos de KG eles s˜ao obtidos?”

“Se x G e o(x) ´e par, ent˜ao x ´e um produto de elementos Cayley unit´arios de KG?”.

2

O terceiro cap´ıtulo lida com involu¸c˜oes em um anel de matrizes M n (D), onde D

´e um anel de divis˜ao. Este cap´ıtulo ´e baseado sobretudo no artigo Unitary elements in simple artinian rings de C. Chuang e P. Lee [2]. Os dois teoremas principais de

tal artigo (nossos teoremas 3.3.2 e 3.3.8), junto com um corol´ario (nosso corol´ario 3.3.6), estabelecem a solu¸c˜ao do problema anteriormente mencionado de determi- nar condi¸c˜oes para que um elemento unit´ario seja um produto de dois elementos Cayley unit´arios de M n (D), quando este anel est´a munido de uma involu¸c˜ao e a caracter´ıstica de D ´e diferente de 2.

Omitimos a demonstra¸c˜ao do Teorema 3.3.8, procurando esclarecˆe-lo atrav´es de um exemplo, mas a prova do Teorema 3.3.2 feita por Chuang e Lee ´e apresentada neste trabalho e utiliza o Teorema 3.2.1. Este, por sua vez, nos permite caracte- rizar involu¸c˜oes em M n (D), a menos de isomorfismos de an´eis com involu¸c˜ao. A defini¸c˜ao geral de isomorfismos de an´eis com involu¸c˜ao e alguns exemplos destes isomorfismos em an´eis de matrizes s˜ao dados na Se¸c˜ao 1, enquanto a Se¸c˜ao 2 trata da caracteriza¸c˜ao de involu¸c˜oes em M n (D).

A disserta¸c˜ao termina com a se¸c˜ao “Considera¸c˜oes finais”. elaborada uma hip´otese sobre a existˆencia do inverso de

Primeiramente ´e

1 + α 1 (x x p1 ) + α 3 (x 3 x p3 ) + ··· + α p2 (x p2 x 2 )

em KC p e, consequentemente, a respeito da existˆencia do elemento Cayley unit´ario constru´ıdo a partir de

k = α 1 (x x p1 ) + α 3 (x 3 x p3 ) + ··· + α p2 (x p2 x 2 ),

quando K ´e uma extens˜ao real de Q, C p = x , p ´e um primo´ımpar e α 1 , α 3 , ··· , α p2 pertencem a K.

A seguir s˜ao feitas considera¸c˜oes sobre hip´oteses mais fracas para o corpo K nos

Teoremas 2.3.1 e 2.4.1. Por fim, ´e feito um ultimo´ coment´ario que diz respeito `a generalidade das involu¸c˜oes e dos isomorfismos de an´eis de matrizes com involu¸c˜ao considerados na Se¸c˜ao 1 do Cap´ıtulo 3.

3

Cap´ıtulo 1

Conceitos e resultados essenciais

1.1 M´odulos e ´algebras

Nesta se¸c˜ao recordaremos alguns conceitos b´asicos e fixaremos nota¸c˜oes que ser˜ao utilizadas no decorrer deste trabalho.

Dado um grupo G, denotaremos por o(x) a ordem de um elemento x G. Os an´eis com os quais trabalharemos ser˜ao an´eis com unidade. Ser˜ao utilizadas as nota¸c˜oes U(R) para o grupo das unidades (elementos invert´ıveis) de um anel R e Int(u) para o automorfismo interno induzido pelo elemento u ∈ U(R), isto ´e, Int(u)(x) = uxu 1 para todo x R. Vale lembrar que se x ∈ U(R), ent˜ao x n˜ao ´e um divisor de zero.

Recordemos ainda que um anel R ´e denominado um anel de divis˜ao se todos os seus elementos n˜ao nulos s˜ao invert´ıveis (isto ´e, se R\{0} = U (R)). Denotando por Z(R) o centro de um anel R, temos que Z(D) ´e um corpo se D ´e um anel de divis˜ao.

Defini¸c˜ao 1.1.1 Seja R um anel. Um grupo abeliano M (aditivo) ´e chamado um R-m´odulo `a esquerda (ou um m´odulo `a esquerda sobre R) se, para cada elemento x R e m M , temos definido um produto xm M tal que:

(i) (x + y)m = xm + ym,

(ii) (x · y)m = x(ym),

(iii)

x(m 1 + m 2 ) = xm 1 + xm 2 ,

(iv)

1m = m,

para todo x, y R e m, m 1 , m 2 M.

4

Analogamente podemos definir um R-m´odulo `a direita. Neste trabalho utilizare- mos o termo R-m´odulo como uma abrevia¸c˜ao para R-m´odulo `a esquerda. Notemos que, se K ´e um corpo, o conceito de K-m´odulo coincide com a no¸c˜ao de espa¸co vetorial sobre K. Assim, constituem exemplos de K-m´odulos com as opera¸c˜oes usuais:

K n , o conjunto dos vetores colunas com suas n coordenadas em K;

M n (K), o conjunto de matrizes n × n com entradas em K;

K[t], o conjunto dos polinˆomios na vari´avel t com coeficientes em K.

Dado um homomorfismo ϕ de M n (K), ent˜ao K n ´e um M n (K)-m´odulo com o produto Av definido por ϕ(A) · v, para toda matriz A M n (K) e todo v K n , onde · denota a muliplica¸c˜ao de matrizes. Neste caso, diremos que K n ´e um M n (K)- m´odulo com o produto induzido por ϕ. Em particular, se ϕ ´e a identidade, ent˜ao K n ´e um M n (K)-m´odulo com o produto Av coincidindo com a multiplica¸c˜ao de matrizes A · v.

Se L ´e um ideal `a esquerda de um anel R, ent˜ao L ´e um R-m´odulo. Em particular, um anel ´e sempre um m´odulo sobre si mesmo.

Dado um anel R, um exemplo importante de R-m´odulo que ser´a utilizado neste trabalho ´e o chamado anel de s´eries formais R[[t]] dado por

com as opera¸c˜oes

onde c i =

i

j=0

a j b ij .

i=0

R[[t]] =

i=0

a i t i ; a i R

a i t i +

i=0

b i t i =

i=0

(a i + b i )t i ,

i=0

a i t i ·

i=0

b i t i =

i=0

c i t i ,

Defini¸c˜ao 1.1.2 Sejam R um anel e M um R-m´odulo. Um subconjunto n˜ao vazio N M ´e chamado um R-subm´odulo de M se as seguintes propriedades s˜ao satisfeitas:

(i) n 1 + n 2 N

(ii)

xn N ,

para todo n 1 , n 2 , n N e x R.

5

Se V ´e um espa¸co vetorial sobre um corpo K, ent˜ao os K-subm´odulos de V s˜ao precisamente seus subespa¸cos. Em geral, todo m´odulo n˜ao nulo M cont´em pelos menos dois subm´odulos, M e {0}, os quais s˜ao chamados triviais.

Defini¸c˜ao 1.1.3 Seja R um anel.

Um R-m´odulo M ´e chamado simples se

M

= {0} e seus unicos´

R-subm´odulos s˜ao os triviais.

Vale ressaltar que K n n˜ao ´e um K-m´odulo simples quando n > 1, j´a que todo subespa¸co de K n ´e um K-subm´odulo. No entanto, K n ´e um M n (K)-m´odulo simples com o produto induzido por um automorfismo ϕ, conforme veremos no pr´oximo exemplo.

Exemplo 1.1.4 Seja K um corpo e ϕ um automorfismo de M n (K). m´odulo simples com o produto induzido por ϕ.

Ent˜ao K n ´e um M n (K)-

Ent˜ao N possui um

Sejam v i uma coordenada n˜ao nula de v e α K. Como ϕ ´e um

automorfismo de M n (K), para cada j ∈ {1, · · · , n}, existe uma matriz A j tal que ϕ(A j ) = α i E ji , onde E ji ´e a matriz com 1 na (j, i)-´esima entrada e 0 nas demais. Assim,

A j v = ϕ(A j ) · v = α i E ji · v = αe j ,

onde e j ´e o vetor com 1 na j-´esima coordenada e 0 nas demais.

De fato, seja N

= 0.

= {0} um M n (K)-subm´odulo de K n .

elemento v

v

v

Logo, como N ´e um M n (K)-subm´odulo e α foi escolhido arbitrariamente, segue

que αe j N para todo α K e j ∈ {1, · · · , n}.

Exemplo 1.1.5

Portanto, N = K n .

Sejam K um corpo e i ∈ {1, · · · , n}. O ideal (`a esquerda) de matrizes colunas

L i =

0

.

.

.

0

···

.

···

.

.

0

.

0 a ni

a 1i

.

0

.

0

···

.

···

.

.

0

.

0

;

a ji K, j ∈ {1, · · · , n}

´e um M n (K)-m´odulo simples com a opera¸c˜ao usual.

Defini¸c˜ao 1.1.6 Sejam M e N dois m´odulos sobre um anel R. Uma aplica¸c˜ao f : M N ´e um isomorfismo de R-m´odulos, se f ´e um isomorfismo de grupos aditivos e

f (xm) = xf (m),

Neste caso, dizemos que M e N s˜ao R-m´odulos

para todo x isomorfos.

R

e

m

M .

6

Exemplo 1.1.7

Sejam K um corpo e L i e L j dois ideais de matrizes colunas com i, j ∈ {1, · · · , n}. A aplica¸c˜ao f : L i L j definida por:

0

.

.

.

0

···

.

.

···

.

0

.

0 a ni

a

1i

.

0

.

0

···

.

···

.

.

0

.

0

i-´esima coluna

0

.

.

.

0

···

.

···

.

.

0

.

0 a ni

a

1i

.

0

.

0

···

.

.

···

.

0

.

0

j-´esima coluna

´e claramente um isomorfismo de M n (K)-m´odulos.

Assim, L i e L j s˜ao M n (K)-m´odulos simples e isomorfos para todo i, j ∈ {1, · · · , n}. Em geral temos o seguinte resultado.

Proposi¸c˜ao 1.1.8 Se K ´e um corpo, ent˜ao todos os M n (K)-m´odulos simples s˜ao isomorfos.

Demonstra¸c˜ao: Seja N um R-m´odulo simples, onde R = M n (K). Segue do visto acima que basta provar que existe i ∈ {1, · · · , n} tal que N ´e isomorfo ao ideal de matrizes colunas L i .

Como N = 1N RN N , temos RN = N . Logo, como R =

n

L i e N

= {0},

i=1

existe i ∈ {1, · · · , n} tal que L i N

para algum

f

= {0}. Portanto, existe n N tal que

l i n

= 0

l i L i . Consideremos, ent˜ao, a aplica¸c˜ao

:

L i

l i

N l i n.

Temos que f ´e um homomorfismo de grupos aditivos com conjunto imagem

Como f (L i ) ´e

um R-subm´odulo de N e N ´e um R-m´odulo simples, ent˜ao f (L i ) = N . Por outro

f(L i )

= {0} e satisfaz f (xl i ) = xf (l i ), para todo x R e l i L i .

lado, como o n´ucleo Ker(f ) ´e um R-subm´odulo de L i tal que Ker(f )

R-m´odulo simples, ent˜ao Ker(f ) = {0}. Logo, f ´e um isomorfismo de R-m´odulos.

= L i e L i ´e um

isomorfismo de R -m´odulos. = L i e L i ´e um Defini¸c˜ao 1.1.9 Seja R

Defini¸c˜ao 1.1.9 Seja R um anel comutativo. Um R-m´odulo A ´e chamado uma R-´algebra se existe uma multiplica¸c˜ao definida em A tal que, com a adi¸c˜ao dada em A e esta muliplica¸c˜ao, A ´e um anel e valem as seguintes condi¸c˜oes:

x(ab) = (xa)b = a(xb),

para todo x R e a, b A.

7

Se R ´e um anel comutativo, ent˜ao M n (R), R[t] e R[[t]] s˜ao exemplos de R-´algebras. Notemos tamb´em que se D ´e um anel de divis˜ao, ent˜ao M n (D) ´e uma Z(D)-´algebra. Apresentaremos a seguir um exemplo de R-´algebra que ser´a importante no desen- volvimento de nosso trabalho.

Sejam R um anel, G um grupo e RG o conjunto de todas as combina¸c˜oes formais α = α x x, com α x R e apenas um n´umero finito de α x ’s diferentes de zero.

xG

Definimos que α x x = β x x se, e somente se, α x = β x para todo x G. Em

xG

xG

RG definimos, respectivamente, as opera¸c˜oes soma e produto por:

α + β = α x x + β x x = (α x + β x )x,

xG

xG

α · β = α x x · β y y =

xG

yG

xG

(α x β y )(xy).

x,yG

Reordenando os termos do produto, obtemos

α · β = α x x · β y y = γ z z,

onde γ z = α x β y .

xy=z

xG

yG

zG

Com estas opera¸c˜oes ´e f´acil ver que RG ´e um anel com unidade 1 = u x x,

xG

onde o coeficiente de 1 G ´e a unidade 1 R e os coeficientes dos demais u i ’s s˜ao todos iguais a zero. Temos assim a seguinte defini¸c˜ao:

Defini¸c˜ao 1.1.10 Sejam R um anel e G um grupo. O conjunto RG com as opera¸c˜oes soma e produto definidas acima ´e denominado o anel de grupo de G sobre R.

Em RG podemos definir tamb´em o produto de elementos de RG por elementos λ R:

λ α x x = (λα x )x.

xG

xG

Com esta opera¸c˜ao, RG ´e um R-m´odulo. Ainda, no caso em que R ´e comutativo, RG ´e uma R-´algebra.

Defini¸c˜ao 1.1.11 Sejam R um anel comutativo e G um grupo. O anel de grupo RG com o produto de seus elementos por elementos de R definido como acima ´e denominado a ´algebra de grupo de G sobre R.

8

Observemos que, se identificarmos x G com 1 · x RG, podemos considerar G contido em RG, e assim os elementos de G formam uma base de RG sobre R.

1.2 Involu¸c˜oes em um anel

Daremos agora a defini¸c˜ao de involu¸c˜ao em um anel e, em seguida, apresentaremos exemplos de involu¸c˜oes e veremos algumas defini¸c˜oes e proposi¸c˜oes relacionadas ao conceito de involu¸c˜ao que ser˜ao utilizadas mais adiante.

Defini¸c˜ao 1.2.1 Seja R um anel. Dizemos que uma aplica¸c˜ao : R R ´e uma involu¸c˜ao em R se, para todo x, y R, as seguintes propriedades s˜ao satisfeitas:

(i) (x + y) = x + y

(ii)

(xy) = y x

(iii)

(x )

= x.

Observa¸c˜ao 1.2.2

Dada uma involu¸c˜ao em um anel R, utilizaremos a nota¸c˜ao exponencial x para denotar a imagem de x em R por .

Exemplo 1.2.3 Aplica¸c˜ao identidade em um anel comutativo

Seja R um anel comutativo e consideremos a aplica¸c˜ao

:

R

R

 

x

x.

Claramente valem as propriedades (i) e (iii); al´em disso, como R ´e comutativo, a propriedade (ii) ´e satisfeita, j´a que (xy) = xy = yx = y x . Logo, ´e uma involu¸c˜ao em R.

Exemplo 1.2.4 Conjuga¸c˜ao complexa em C

Seja R = C e consideremos a aplica¸c˜ao

:

C

α + βi

C

α βi.

Da defini¸c˜ao das opera¸c˜oes em C, seguem facilmente as propriedades (i), (ii) e (iii). Portanto, ´e uma involu¸c˜ao em C denominada conjuga¸c˜ao complexa.

9

Exemplo 1.2.5 Involu¸c˜oes em H

Seja R = H, a ´algebra dos quat´ernios hamiltonianos reais, e consideremos as aplica¸c˜oes

 

:

H

H

e

α 0 + α 1 i + α 2 j

+ α 3 k α 0 α 1 i α 2 j α 3 k

 

:

H α 0 + α 1 i + α 2 j

H

+ α 3 k α 0 + α 2 i + α 1 j + α 3 k.

Da defini¸c˜ao das opera¸c˜oes em H, seguem as propriedades (i), (ii) e (iii). Por- tanto, e s˜ao involu¸c˜oes em H, sendo que ser´a denominada involu¸c˜ao canˆonica em H.

Exemplo 1.2.6 Involu¸c˜ao em um anel de grupo RG

Sejam R um anel com uma involu¸c˜ao e G um grupo. Definimos, para o anel de grupo RG, a seguinte aplica¸c˜ao

:

RG

α = α x x

xG

α = α x x 1 .

RG

xG

Agora

(α + β) =

xG

xG β x x =

xG (α x + β x )x = (α x + β x )x 1

xG

α x x +

=

xG β x x 1 =

xG α x x +

xG

xG (α x + β x )x 1 =

+ x ∈ G x ∈ G ( α x + β x ) x −

xG α x x 1 +

= α + β

β x x

(α · β) =

xG α x x · yG β y y = x,yG (α x β y )(xy) = (α x β y )(xy) 1

x,yG

=

x,yG (β y α x )(y 1 x 1 ) =

yG

( β y α x )( y − 1 x − 1 ) = y ∈

xG α x x 1 =

yG β y y ·

xG α x x

β y y 1 ·

= β α

10

e

(α ) =

xG α x x 1 = α x (x 1 ) 1 =

xG

xG

α x x = α.

Assim, procedendo de modo an´alogo para o produto de dois elementos quaisquer de RG, verificamos que ´e uma involu¸c˜ao em RG. Notemos ainda que, para todo anel R comutativo, RG possui uma involu¸c˜ao definida como acima, j´a que a identidade ´e uma involu¸c˜ao em R.

Exemplo 1.2.7 Involu¸c˜ao canˆonica na ´algebra de grupo KG

Seja KG uma ´algebra de grupo sobre um corpo K. Do que foi visto no exemplo anterior, segue que a aplica¸c˜ao

:

KG α = α x x

xG

KG α =

α x x 1

xG

´e uma involu¸c˜ao, que ser´a denominada involu¸c˜ao canˆonica em KG.

Exemplo 1.2.8 Involu¸c˜ao em M n (R) obtida a partir de uma em R

Sejam R um anel e uma involu¸c˜ao em R. Ent˜ao a aplica¸c˜ao

:

M n (R) (a ij )

M n (R)

ji )

(a

´e uma involu¸c˜ao em M n (R). De fato, como uma involu¸c˜ao em R, ent˜ao

((a ij ) + (b ij ))

=

=

((a ik ) · (b lj ))

=

=

(a ij + b ij ) = (a ji + b ji ) = (a ji + b ji ) = (a ji ) + (b ji )

(a ij ) + (b ij )

( b j i ) ( a i j ) ∗ + ( b i j

m=1 a im b mj

n

m=1 a jm b mi = m=1 b mi a jm

n

n

∗ n m =1 a jm b mi = m =1 b mi a jm n

=

(b ki ) · (a jl ) = (b ik ) · (a lj )

((a ij ) ) = (a ji ) = (a ij ) = (a ij ).

11

Exemplo 1.2.9 Transposta de uma matriz em M n (R)

Seja R um anel comutativo. Considerando a aplica¸c˜ao identidade como sendo a involu¸c˜ao em R, segue do exemplo anterior que

:

M n (R) (a ij )

M n (R) (a ji )

´e uma involu¸c˜ao em M n (R) comumente chamada de transposta.

Proposi¸c˜ao 1.2.10 Seja uma involu¸c˜ao em um anel R. Ent˜ao valem as seguintes propriedades:

(i) 1 = 1

(ii)

Se x ∈ U(R), ent˜ao (x 1 ) = (x ) 1

(iii)

x ∈ Z(R) se, e somente se, x ∈ Z(R).

Demonstra¸c˜ao:

(i) Temos

1 = (1 ) = (1 · 1 ) =

(1 ) · 1 = 1 · 1 = 1 .

(ii) Se x ∈ U (R), ent˜ao aplicando em xx 1 = 1 e utilizando que 1 = 1, obtemos

(x 1 ) x = 1 = 1.

De modo an´alogo, x (x 1 ) = 1 e, portanto, (x 1 ) = (x ) 1 .

(iii) Se x ∈ Z(R), ent˜ao para todo y R temos que

x y = x (y ) = (y x) = (xy ) = (y ) x = yx

portanto x y = yx , o que implica x ∈ Z(R). Reciprocamente, se x ∈ Z(R), ent˜ao do que j´a foi mostrado temos que x = (x ) ∈ Z(R).

e

temos que x = ( x ∗ ) ∗ ∈ Z ( R ). e A

A partir de uma involu¸c˜ao em um anel R, podemos construir novas involu¸c˜oes. Por exemplo, se u ∈ U(R) ´e tal que u = ±u, ent˜ao a composi¸c˜ao σ = Int(u) ◦ ∗ ´e uma involu¸c˜ao em R. De fato, como Int(u) ´e um automorfismo, temos:

(a + b) σ = Int(u)(a + b) = Int(u)(a + b ) = Int(u)(a ) + Int(u)(b ) = a σ + b σ

(ab) σ = Int(u)(ab) = Int(u)(b a ) = (Int(u)(b ))(Int(u)(a )) = b σ a σ

(a σ ) σ

=

Int(u)(Int(u)(a )) = u(ua u 1 ) u 1 = u(u 1 ) (a ) u u 1

=

u(u ) 1 au u 1 = u(±u) 1 a(±u)u 1 = a.

12

Vejamos dois exemplos de involu¸c˜oes assim constru´ıdas que ser˜ao fundamentais no Cap´ıtulo 3.

Exemplo 1.2.11

Sejam D um anel de divis˜ao, uma involu¸c˜ao em D e C = diag(c 1 , ··· , c n ) uma

Se τ ´e a involu¸c˜ao em

matriz diagonal invert´ıvel com c i = c i , para i = 1, · · · , n.

M n (D) dada por (a ij ) (a ji ) (veja Exemplo 1.2.8), ent˜ao C τ = C e a aplica¸c˜ao

σ = Int(C) τ

´e uma involu¸c˜ao em M n (D).

Exemplo 1.2.12

M n (K), onde I ´e a identidade

em M m (K). Ent˜ao, se τ ´e a involu¸c˜ao transposta em M n (K), temos que S τ = S

um corpo, n = 2m e S =

Sejam K

0

I

I

0

e

a aplica¸c˜ao

 

σ

= Int(S) τ

´e

uma involu¸c˜ao em M n (K).

Defini¸c˜ao 1.2.13 Seja R um anel com uma involu¸c˜ao . Um elemento k R ´e denominado um elemento sim´etrico de R se k = k. O conjunto dos elementos sim´etricos de R ´e

R + = {k R | k = k}.

Defini¸c˜ao 1.2.14 Seja R um anel com uma involu¸c˜ao . Um elemento k R ´e denominado um elemento anti-sim´etrico de R se k = k. O conjunto dos elementos anti-sim´etricos de R ´e

R = {k R | k = k}.

No caso em que K ´e um corpo com caracter´ıstica diferente de 2 e ´e a involu¸c˜ao canˆonica na ´algebra de grupo KG, temos o seguinte resultado para o conjunto dos elementos anti-sim´etricos.

Proposi¸c˜ao 1.2.15 Sejam K um corpo com caracter´ıstica diferente de 2 e a involu¸c˜ao canˆonica em KG. Ent˜ao KG , como K-m´odulo, ´e gerado por x x 1 , x