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Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei n o 8.

666/93: a prorrogação de que cuida o inciso II do 1


artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei no 8.666/93: a

prorrogação de que cuida o inciso II do artigo 57 e a possibilidade de se

invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial

de tal avença1

Hidemberg Alves da Frota

http://tematicasjuridicas.wordpress.com

Sumário: Introdução. 1 A controvérsia acerca da interpretação


extensiva do art. 57, II, da Lei no 8.666/93. 2 Balizas jurídicas para o
acréscimo de até 25% ao valor inicial atualizado de contrato
administrativo. Conclusão.

Resumo: Breves considerações, à luz da doutrina e da jurisprudência


de Tribunais de Contas, atinentes à possibilidade do contrato
administrativo de fornecimento contínuo de medicamentos ser
prorrogado com escora no art. 57, II, da Lei nº 8.666/93, e, a par disso,
ter o seu valor inicial (atualizado) objeto de acréscimo de até 25%
(vinte e cinco por cento), nos termos do art. 65, § 1o, 1a parte, do
mesmo Estatuto Licitatório.

Palavras-chave: Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos.


Interpretação extensiva do art. 57, II, da Lei nº 8.666/93. Acréscimo de
até 25% ao valor inicial atualizado de contrato administrativo.

1Versão original do artigo: Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei n.


8.666/1993 — A questão da prorrogação de que cuida o inciso II do artigo 57 e a possibilidade
de se invocar o § 1º do artigo 65 para fundamentar acréscimo de até 25% do valor inicial de tal
avença. Repertório de Jurisprudência IOB: tributário, constitucional e administrativo, São Paulo, v. 1,
n. 10, p. 421-417 (paginação decrescente), 2ª quinz. mai. 2007; L&C: Revista de Administração
Pública e Política, Brasília, DF, v. 10, n. 110, p. 19-22, ago. 2007; Revista Jurídica da Universidade de
Franca, Franca, v. 9, n. 16, p. 105-120, jan.-jun. 2007; Fórum de Contratação e Gestão Pública, Belo
Horizonte, v. 6, n. 67, p. 50-55, jul. 2007. Revisado em 29 de junho de 2010.
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artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

INTRODUÇÃO

Mostram-se relevantes para a administração da Rede Pública de Saúde 2

(duas) questões pertinentes à Lei no 8.666, de 21 de junho de 1993 (Lei de

Licitações e Contratos Administrativos):

(a) É possível prorrogar a duração de contrato de fornecimento contínuo de

medicamentos por iguais e sucessivos períodos, visando à obtenção de preços e

de condições mais vantajosas para a Administração Pública, desde que

respeitado o período total de vigência contratual de 60 (sessenta) meses?

(b) Quais as balizas jurídicas para o valor inicial (atualizado) do contrato

de fornecimento contínuo de medicamentos sofrer acréscimo de até 25% (vinte

e cinco por cento)?

1 A CONTROVÉRSIA ACERCA DA INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA DO

ART. 57, II, DA LEI Nº 8.666/93

O artigo 57, inciso II, da Lei no 8.666/93, expressamente, prevê a

possibilidade de contratos administrativos concernentes à prestação de serviços

de natureza contínua terem “sua duração prorrogada por iguais e sucessivos

períodos com vistas à obtenção de preços e condições mais vantajosas” para a

Administração Pública, “limitada a sessenta meses”. (Mais adiante, o § 4o do


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artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

mesmo artigo preceitua que o referido prazo máximo de sessenta meses

“poderá ser prorrogado por até doze meses”, em “caráter excepcional,

devidamente justificado e mediante autorização da autoridade superior”2.)

Indaga-se: seria o art. 57, II, da Lei no 8.666/93 aplicável a contratos de

fornecimento contínuo de medicamentos?

No tocante à incidência do art. 57, II, da Lei no 8.666/93 em contratos de

fornecimento contínuo, a obra Vade-Mécum de Licitações e Contratos, de Jorge

Ulisses Jacoby Fernandes, indica 2 (duas) correntes de pensamento

jurisprudenciais:

(1) Na Decisão no 110/96 — Plenário, o Tribunal de Contas da União

“decidiu que não se aplica à [sic+ compras a noção de execução contínua”3 (grifo

nosso).

(2) Já na Decisão Normativa no 03/99, o Tribunal de Contas do Distrito

Federal “admitiu a interpretação extensiva do disposto no inciso II do artigo 57

da Lei no 8.666, de 21 de junho de 1993, às situações caracterizadas como

fornecimento contínuo devidamente fundamentadas pelo órgão interessado, casa

[sic+ a caso”4 (grifo nosso).

Em 29 de junho de 2006, nos autos do processo TC no 000178/026/06

(Consulta), o Pleno do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, acolheu o

voto do Conselheiro-Relator Eduardo Bittencourt Carvalho, “no sentido de que,

após a análise de cada caso em particular, poderão ser reconhecidas situações em

que há um contexto de fornecimento contínuo,”5 — pontua o referido

2 Grifos nossos.
3 FERNANDES, Jorge Ulisses Jacoby. Vade-mécum de licitações e contratos. 3. ed. Belo Horizonte:
Fórum, 2006, p. 820.
4 Ibid., loc. cit.

5 SÃO PAULO. Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (Pleno). TC n o 000178/026/06

(Consulta). Relator: Conselheiro Eduardo Bittencourt Carvalho. São Paulo, 29 de junho de 2006.
Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 4 jul. 2006. Disponíveis em:
<http://www.apaulista.org.br/sites/5500/5534/parecerTCE.doc> (voto-condutor);
Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei n o 8.666/93: a prorrogação de que cuida o inciso II do 4
artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

Conselheiro — “nas quais poderá haver uma interpretação extensiva do artigo 57,

inciso II, da Lei de Licitações, para o fim de ser admitida a prorrogação de

prazo prevista naquele dispositivo legal, desde que”6 — ressalva — “essas

situações sejam devidamente motivadas pela Administração e que sejam atendidas

as condições”7 a seguir discriminadas (em resumo):

(1) Existência de cláusulas contratuais e procedimentos administrativos a

aferirem, de forma periódica, “os preços praticados pelo mercado, a fim de ser

prontamente restabelecido o equilíbrio econômico-financeiro inicial da relação

contratual em favor do Poder Público”8.

(2) Existência, também, de cláusulas contratuais estipulando sanções

“aptas a compelir as empresas contratadas a buscar o integral cumprimento das

obrigações avençadas, a teor do que dispõem os artigos 86 a 88 da Lei no

8.666/93”910 (citação, pelo Conselheiro-Relator Bittencourt Carvalho, de

manifestação, constante daqueles autos, da SDG — Secretaria-Diretoria-Geral

— da Corte de Contas paulista).

Antes, no referido voto, o Conselheiro Bittencourt Carvalho, enfatizou

que, “ao contrário do que tem ocorrido com determinados ajustes para

prestação de serviços, não poderá ser aceita contratação de fornecimento cujo

prazo inicial de vigência ultrapasse 12 (doze) meses”11 (grifo do autor). Justifica:

“*...+ esse período é o limite de vigência para o crédito orçamentário a que se

reporta a Lei de Regência.”12 (grifo nosso)

<http://www2.tce.sp.gov.br/arqs_juri/txt/17802606.TXT> (ementa do aresto). Acesso em: 29 jun.


2010.
6 Ibid., loc. cit.

7 Ibid., loc. cit.

8 Ibid., loc. cit.

9 Ibid., loc. cit.

10 Grifos nossos.

11 Ibid., loc. cit.

12 Ibid., loc. cit.


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artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

Exposto o entendimento dos Tribunais de Contas da União, do Distrito

Federal e do Estado de São Paulo sobre a aplicabilidade do art. 57, II, da Lei no

8.666/93 a contratos administrativos de fornecimento contínuo, calha

questionar:

(1) O que é necessidade pública permanente?;

(2) O que é serviço contínuo?

As respostas se extraem da jurisprudência do Tribunal de Contas da

União, por meio da Decisão no 90/2001 — Primeira Câmara, de 8 de maio de 2001

(Relator, Ministro Marcos Vilaça), mais precisamente do item 5 do Relatório do

Ministro-Relator (a transcrever manifestação da Unidade Técnica daquela Corte

Fiscal), in verbis:

5. [...]
“(...)
24. Necessidade permanente está relacionada com o fim público
almejado pela Administração. Se este fim público persistir inalterado
por um prazo longo de tempo, podemos afirmar que a necessidade
dessa atividade estatal é permanente. A necessidade pública
permanente é aquela que tem que ser satisfeita, sob pena de
inviabilizar a consecução do objetivo público. Ou seja, tem que ser
uma atividade essencial para se atingir o desiderato estatal.
25. Assim, para configurar serviço contínuo, o importante é que ele
seja essencial, executado de forma contínua, de longa duração e que o
fracionamento em períodos prejudica a execução do serviço.
26. *...+”13

Embora Marçal Justen Filho considere inaplicável a contratos de compra a

norma do art. 57, II, da Lei no 8.666/93, porquanto tal disposição legal diz

respeito a contrato de serviço (obrigação de fazer) e não a contrato de compra

13BRASIL. Tribunal de Contas da União. Decisão no 90/2001 — Primeira Câmara (Relatório do


Ministro-Relator, parte do item 5). Relator: Marcos Vilaça. Brasília, DF, 8 de maio de 2001 (data
da sessão). Brasília, DF, Diário Oficial da União, 17 mai. 2001. Disponível em:
<http://www.tcu.gov.br>. Acesso em: 2 mai. 2007.
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artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

(obrigação de dar)14, nota-se que as características basilares que o mencionado

administrativista paranaense atribui aos contratos administrativos de serviços

de execução contínua abrangidos pelo art. 57, II, da Lei no 8.666/93 (a exemplo

dos traços essenciais que a indigitada Decisão TCU no 90/2001 — Primeira Câmara,

Relatório do Ministro-Relator, item 5, credita a tais avenças) também se

evidenciam presentes nos contratos administrativos de fornecimento contínuo

de medicamentos, haja vista que estes (como aqueles) aludem à necessidade pública

de índole permanente, contínua e renovada, cuja essencialidade — atinente, neste

caso, aos direitos fundamentais à vida (art. 5o, caput, da CF/88) e à saúde (art. 6o,

caput, c/c art. 196, da CF/88), bem como à integridade física e à dignidade da

pessoa humana (art. 1o, III, da CF/88) — torna “muito problemático interromper

sua prestação, risco que poderia ser desencadeado se houvesse necessidade de

promover licitação a cada exercício orçamentário”15 (ponderações de Marçal

Justen Filho concernentes à prorrogabilidade dos contratos administrativos de

prestação de serviços contínuos — observações que, a nosso juízo, igualmente

servem para embasar a prorrogabilidade de contratos administrativos de

fornecimento contínuo, ao menos do fornecimento de bens imprescindíveis, tais

quais os medicamentos destinados a abastecer a Rede Pública de Saúde).

Nesse sentido, rememorando a Decisão Normativa TCDF no 03, de 10 de

novembro de 1999, convém trazer à baila 3 (três) dos 5 (cinco) considerandos que

serviram de fundamento jurídico àquele ato decisório da Corte de Contas

Distrital, in litteris:

Considerando o pressuposto de que a Lei nº 8.666/93, de 21 de junho


de 1993, não tem por objeto inviabilizar as aquisições de forma

14 JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à lei de licitações e contratos administrativos. 11. ed. São
Paulo: Dialética, 2005, p. 504.
15 Ibid., loc. cit.
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artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

continuada de materiais pela Administração, nem foi esta a intenção


do legislador;
Considerando que, dependendo do produto pretendido, torna-se
conveniente, em razão dos custos fixos envolvidos no seu
fornecimento, um dimensionamento do prazo contratual com vistas à
obtenção de preços e condições mais vantajosas para a Administração;
Considerando a similaridade entre o fornecimento contínuo e a
prestação de serviços contínuos, vez que a falta de ambos "paralisa ou
retarda o trabalho, de sorte a comprometer a correspondente função do órgão
ou entidade" (Decisão nº 5.252/96, de 25.06.96 – Processo nº 4.986/95);
(grifo original)16

Se a Administração Pública (em consonância com a multicitada Decisão

Normativa TCDF no 03/99) incidir sobre contratos administrativos de

fornecimento contínuo de medicamentos a interpretação extensiva do art. 57, II,

da Lei no 8.666/93, sobressai este efeito salutar: ao término de cada exercício

orçamentário, menor será o risco de se celebrar, a título de solução de continuidade,

contrato de emergência calçado no art. 24, IV, da Lei no 8.666/93.

Seguindo-se os parâmetros quer da Decisão Normativa no 03/99 (Tribunal

de Contas do Distrito Federal), quer do aresto em sede do processo TC no

000178/026/06 (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), a adoção de

interpretação extensiva do art. 57, II, da Lei no 8.666/93 redunda em deferência

não apenas à dignidade da pessoa humana (interesse individual), mas também à

dignidade do todo social (interesse geral), uma vez que vai ao encontro dos

princípios da economicidade na gestão dos recursos públicos (art. 70, caput, da

CF/88) e da continuidade de serviços públicos, sobretudo naqueles em que

sobressai o caractere da essencialidade17 (art. 22, caput, da Lei no 8.078, de 11 de

16 DISTRITO FEDERAL. Tribunal de Contas do Distrito Federal. Decisão Normativa TCDF n o 03,
de 10 de novembro de 1999. Diário Oficial do Distrito Federal, Brasília, DF, 17 nov. 1999.
Disponível em: <http://www.tc.df.gov.br/silegisdocs/tcdf/decnorm/dn-1999-00003-999.html>.
Acesso em: 2 mai. 2007.
17 Maria Sylvia Zanella di Pietro enxerga na essencialidade característica a abranger o serviço

público em geral. Para a administrativista uspiana, o serviço público tem por premissa o signo
da essencialidade, isto é, o serviço público consubstancia “a forma pela qual o Estado
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artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

setembro de 1990, o Código de Defesa e Proteção do Consumidor) — ditame

pertinente, na circunstância em estudo, ao funcionamento de unidades de

saúde —, alicerces dos princípios da supremacia e indisponibilidade do interesse

público (art. 1o, caput, II, III, parágrafo único c/c art. 3o, IV, 1a parte, todos da

CF/88, c/c art. 2o, caput, parágrafo único, II e III, da Lei no 9.784, de 29 de janeiro

de 1999, a Lei do Processo Administrativo Federal18) e corolários do dever

estatal de eficiência (art. 37, caput, da CF/88) — inclusive de eficácia, a ele

inerente19 — e da consequente exigência de adequado planejamento das ações do

Poder Público.

2 BALIZAS JURÍDICAS PARA O ACRÉSCIMO DE ATÉ 25% AO VALOR

INICIAL ATUALIZADO DE CONTRATO ADMINISTRATIVO

O art. 65, § 1o, 1a parte da Lei no 8.666/93 impõe ao contratado a obrigação

de “aceitar, nas mesmas condições contratuais, os acréscimos ou supressões que se

fizerem nas obras, serviços ou compras, até 25% (vinte e cinco por cento) do

valor inicial do contrato” (grifo nosso).

A propósito, relativamente a modificações quantitativas (na linha do art.

65, § 1o, da Lei no 8.666), explica Lucas Rocha Furtado, como membro do

Ministério Público Especial (item V da manifestação ministerial, citado no

desempenha funções essenciais ou necessárias à coletividade”, atividade que “não pode parar”.
Cf. DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 18. ed. São Paulo: Atlas, 2005, p. 74.
18 FROTA, Hidemberg Alves da. O princípio tridimensional da proporcionalidade no Direito

Administrativo: um estudo à luz da Principiologia do Direito Constitucional e Administrativo,


bem como da jurisprudência brasileira e estrangeira. Rio de Janeiro: GZ, 2009, p. 42.
19 FIGUEIREDO, Lúcia Valle. Curso de direito administrativo. 8. ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p.

64.
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artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

Relatório do Ministro-Relator José Antonio B. de Macedo, na Decisão TCU no 215,

de 12 de maio de 1999):

Enfrentemos, inicialmente, a questão colocada sobre a possibilidade


de aditamento de contrato administrativo, imposto unilateralmente
pela Administração, que supere, em valor, os limites estabelecidos no
§ 1.º do art. 65 da Lei 8.666/93.
Neste ponto, cumpre distinguir as alterações contratuais quantitativas
das qualitativas.
Considerando que o objeto do contrato distingue-se em natureza e
dimensão, tem-se a natureza sempre intangível, tanto nas alterações
quantitativas quanto nas qualitativas.
Não se pode transformar a aquisição de bicicletas em compra de
aviões, ou a prestação de serviços de marcenaria em serralheria.
Contudo, nas modificações quantitativas, a dimensão do objeto pode
ser modificada dentro dos limites previstos no § 1.º do art. 65 da Lei
8.666/93, isto é, pode ser adquirida uma quantidade de bicicletas
maior do que o originalmente previsto, desde que o acréscimo, em
valor, não ultrapasse 25% do valor inicial atualizado do contrato. 20

Do ponto de vista da advocacia pública preventiva, a Administração

Pública, à luz do art. 65, § 1o, 1a parte, da Lei no 8.666/93, pode, lastreada em

apropriada motivação, impor ao particular contratado a decisão de acrescer em

até 25% (vinte e cinco por cento) o valor inicial do contrato de fornecimento de

medicamentos, desde que mantidas as condições contratuais e observadas as

seguintes balizas jurídicas (salientadas pela jurisprudência):

(a) Imprescindível carrear aos autos do respectivo álbum processual

administrativo justificativa técnica a evidenciar a necessidade do acréscimo de

até 25% do valor inicial do contrato.

20BRASIL. Tribunal de Contas da União. Decisão no 215/1999 — Plenário. Trecho do item V do


parecer do Ministério Público junto ao TCU (alinhavado pelo então Subprocurador-Geral Lucas
Rocha Furtado e incorporado ao Relatório do Ministro-Relator). Relator: Ministro José Antonio
B. de Macedo. Brasília, DF, 12 de maio de 1999 (data da sessão). Diário Oficial da União, Brasília,
DF, 21 mai. 1999. Disponível em: <http://www.tcu.gov.br>. Acesso em: 3 mai. 2007.
Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei n o 8.666/93: a prorrogação de que cuida o inciso II do 10
artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

- nos termos do art. 65, § 1º, da Lei 8.666/1993, os acréscimos,


devidamente justificados, no caso de obras e serviços, estão limitados a
25 %, o que elevaria o valor pactuado para R$ 47.586,25 (quarenta e
sete mil, quinhentos e oitenta e seis reais e vinte e cinco centavos); 21
(grifo nosso)

5.Entendo que havidas as devidas justificativas técnicas, o aditamento


contratual deve ser permitido, ainda que o regime seja por preço
global, sem necessitar-se da hipótese de fato imprevisível. No caso em
tela, a deficiência de configuração do projeto básico deixava aberta a
possibilidade de ser necessária a inclusão de serviços novos ou o
acréscimo de novas quantidades aos já existentes. O que não se deve
tolerar é a aprovação de tais aditivos sem qualquer justificativa além da
exigência de adequação ao projeto executivo, ou fora dos limites da
Lei. Nas palavras de Marçal Justen Filho: “Pretende-se que a
empreitada global imporia ao particular o dever de realizar o objeto,
de modo integral, arcando com todas as variações possíveis. Vale
dizer, seriam atribuídos ao contratado os riscos por eventuais eventos
supervenientes, que pudessem elevar os custos ou importar ônus
imprevistos inicialmente. Essa concepção é equivocada. (...) Se a
Administração não definir precisamente o objeto que será executado,
cada licitante adotará interpretação própria (...) as propostas não serão
compatíveis entre si. (...) Poderia imaginar-se que todos os licitantes
incluiriam em suas propostas verbas destinadas a fazer face a essas
eventualidades (...) as propostas teriam valor mais elevado.(...) Outra
alternativa é que todos ou alguns dos licitantes resolvessem correr o
risco e formulassem proposta não comportando imprevistos. Se esses
viessem a ocorrer, a execução do objeto se tornaria inviável (...)”. 22
(grifo nosso)

(b) Cumpre demonstrar no mesmo caderno processual que o advento do

aditivo de acréscimo não ocorreu por erro de planejamento da Administração

Pública (falha que seria ofensiva ao princípio da eficiência).

21 BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão no 1.467/2003 — Plenário. Processo no


016.143/2001-2 (Representação). Relatório do Ministro-Relator (trecho do item 20.10). Relator:
Benjamin Zymler. Brasília, DF, 1o de outubro de 2003 (data da sessão). Diário Oficial da União, 13
out. 2003. Disponível em: <http://www.tcu.gov.br>. Acesso em: 2 mai. 2007.
22 BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão no 1.461/2003 — Plenário. TC 003.796/2001-1

(Relatório de Auditoria). Voto do Ministro-Relator (trecho do item 5). Relator: Ministro Augusto
Sherman Cavalcanti. Brasília, DF, 1o de outubro de 2003 (data da sessão). Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 13 out. 2003. Disponível em: <http://www.tcu.gov.br>. Acesso em: 2 mai. 2007.
Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei n o 8.666/93: a prorrogação de que cuida o inciso II do 11
artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

8.3.10. efetue o planejamento adequado das reais necessidades do Órgão,


relativas às obras, serviços e aquisições, com vistas ao dimensionamento
correto do objeto a ser licitado, de modo que ao prever prorrogações
contratuais, seja adotada modalidade mais ampla, evitando a
possibilidade de fracionamento de despesas para fugir da modalidade
adequada de licitação (arts. 8° e 23 da Lei n° 8.666/93);23 (grifo nosso)

c)infringência ao art. 65, da Lei nº 8.666/93, pelas alterações nos


contratos mediante termos aditivos representando acréscimo de 25%
nos contratos formalizados, num período de 30 dias, sem justificativa,
bem assim, evidenciando erro de planejamento na elaboração do projeto
básico;
JUSTIFICATIVA (fls. 35/36, Vol. 2)
“A contratação de que cuida o Ponto de Auditoria teve por objeto a
manutenção corretiva/preventiva em vários município do Piauí.
Quando da execução dessa manutenção, detectou-se situação
angustiosa pela deficiência de linhas de distribuição em inúmeros
outros municípios, o que obrigou ser ampliado o quantitativo
originariamente contratado. Na realidade, não se tratou de erro de
planejamento; sucede que a manutenção das redes da CEPISA era
mais do que deficiente, por várias décadas; somente após a
federalização, ocorrida em outubro de 1997, foi possível ir,
gradativamente, provisionando estoques (que sequer existiam quando
a empresa era estadual !), para propiciar uma manutenção adequada;
só com a elaboração do plano de revitalização do sistema, concluído
em fins do primeiro semestre de 1998, e com a formação gradual de
estoque mínimo, limitado em sua expressão quantitativa pelas
disponibilidades orçamentárias exíguas, foi possível desenvolver um
programa intensivo de manutenção preventivo-corretivo.
A questão não foi de planejamento, foi de adequação das necessidades
às disponibilidades financeiras. Nunca, falha de planejamento”.
ANÁLISE
A situação de precariedade de manutenção das redes elétricas já era
do conhecimento da atual Administração da CEPISA, como se verifica
nas palavras dos defendentes.
Conforme já assinalado em questionamentos anteriores, a empresa
adota a prática de alterar contratos em exatos 25%, e em poucos dias
após a assinatura do termo original, sem fundamentar tecnicamente essa
situação. Está pois evidenciado erro de planejamento na elaboração do
projeto básico. Não pode ser aceita tal justificativa.

23BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão no 260/2002 — Plenário. Parte dispositiva do


acórdão (trecho do item 8.3.10). Relator: Ministro Adylson Motta. Brasília, DF, 17 de julho de
2002 (data da sessão). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 jul. 2002. Disponível em:
<http://www.tcu.gov.br>. Acesso em: 2 mai. 2007.
Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei n o 8.666/93: a prorrogação de que cuida o inciso II do 12
artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

Nesse sentido, reiteramos no essencial as considerações expendidas e


a proposta de encaminhamento indicada no item 6.9-b desta
Instrução.24 (grifo nosso)

(c) Por último, importa assegurar a permanência das condições do termo

primitivo do contrato, preservando-se, inclusive, os valores unitários originais.

A comparação entre os valores unitários dos itens adquiridos junto à


empresa Redisul Informática Ltda. pagos em face do contrato original
(mesmos valores propostos pela Redisul na licitação) e os valores
unitários dos itens adquiridos e pagos em decorrência do aditivo
indica que o aditamento não foi efetuado observadas as mesmas
condições pactuadas, conforme determina o art. 65, § 1º, da Lei 8.666/93.

[...]

Nessas últimas notas de empenho o preço unitário dos itens adquiridos


foi maior do que o preço constante das notas de empenho originais. A
diferença constitui débito. (grifo nosso)25

Aceitando como válido o aditamento contratatual [sic], mesmo que


diverso[s] os objetos, deveria dar-se nas mesmas condições contratuais,
entendendo-se estas como a manutenção dos preços unitários dos
materiais a serem fornecidos. (grifo nosso) 26

CONCLUSÃO

24 BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão no 250/2002 — Segunda Câmara. Relatório do


Ministro-Relator (trecho do item 2, transcrição de manifestação da Unidade Técnica, item 6.14,
“c”). Relator: Ministro Ubiratan Aguiar. Brasília, DF, 28 de maio de 2002 (data da sessão). Diário
Oficial da União, Brasília, DF, 7 jun. 2002. Disponível em: <http://www.tcu.gov.br>. Acesso em: 2
mai. 2007.
25 BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão no 1656/2003 — Plenário. Trechos do relatório

e do voto do Ministro-Relator, respectivamente. Relator: Ministro Walton Alencar Rodrigues.


Brasília, DF, 5 de novembro de 2003. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 13 nov. 2003.
Disponível em: <http://www.tcu.gov.br>. Acesso em: 2 mai. 2007.
26 RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Recurso de

Reconsideração. Tomada de Contas. Processo no 001859-02.00/03-0. Trecho de voto do


Conselheiro-Relator. Relator: Conselheiro João Osório Ferreira Martins. Porto Alegre, 17 de
maio de 2006. Data de publicação: 3 jul. 2006. Boletim n o 510/2006. Disponível em:
<http://www.tce.rs.gov.br>. Acesso em: 2 mai. 2007.
Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei n o 8.666/93: a prorrogação de que cuida o inciso II do 13
artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

Ex positis, conclui-se:

(a) É possível prorrogar a duração de contrato de fornecimento contínuo de

medicamentos por iguais e sucessivos períodos, com vistas à obtenção de preços

e condições mais vantajosas para a Administração Pública, limitada a 60

(sessenta) meses o período total de vigência contratual, mediante interpretação

extensiva do art. 57, II, da Lei nº 8.666/93 (amparada nos princípios da dignidade

da pessoa humana, da supremacia e indisponibilidade do interesse público, da

continuidade de serviço público, da eficiência, da eficácia e da economicidade, bem

assim do respeito aos direitos fundamentais à vida, à integridade física e à saúde),

contanto que haja, nos respectivos autos, a comprovação técnica (1) da

economicidade da prorrogação (por meio, ad exemplum, do cotejo dos preços

unitários do projeto básico com aqueles que reflitam a atual conjuntura do

mercado), bem como (2) da necessidade pública (caráter ininterrupto,

indispensável e de longo prazo) do fornecimento dos medicamentos em

questão. Recomendável, ainda, o apropriado dimensionamento do objeto da

licitação (considerando-se, ao se elaborar o projeto básico, o provável futuro

advento da prorrogação contratual em testilha).

(b) Com fulcro no art. 65, § 1o, 1a parte, da Lei no 8.666/93, a

Administração Pública pode impor ao particular contratado a decisão de

acrescer em até 25% (vinte e cinco por cento) o valor inicial do contrato

administrativo de fornecimento de medicamentos, desde que mantidas as

condições contratuais e observadas as seguintes balizas jurídicas (salientadas

pelos indicados precedentes de Cortes de Contas pátrias): (1) carrear aos autos

do correspondente álbum processual administrativo justificativa técnica a

evidenciar a necessidade do acréscimo de até 25% do valor inicial do contrato, (2)


Contrato de fornecimento contínuo de medicamentos e a Lei n o 8.666/93: a prorrogação de que cuida o inciso II do 14
artigo 57 e a possibilidade de se invocar o § 1o do artigo 65 para embasar acréscimo de até 25% do valor inicial de
tal avença (Hidemberg Alves da Frota)

demonstrar no mesmo caderno processual que o advento do aditivo de

acréscimo não ocorreu por erro de planejamento da Administração Pública e (3)

garantir a permanência das condições do termo primitivo do contrato, preservando-

se, inclusive, os valores unitários originais.

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