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ve -. VULCANISMO _ produtos e importancia para a Nile f=) Wilson Teixeira Indes Equatorianos, outubro de 1999: apés 70 Janos de repouso, o vuleio Tungurahua entra em erup¢io, forgando 2: casas. Repete-se, uma vex mais, a saga da humanidade perante as forcas do interior ter po que desfruta da beleza das paisagens dos vuledes quando dormentes, sofre seus terriveis efeitos destrutivos quando estio em atividade. A vulcanologia, uma especialidade criada na década de 1980, dedica- se ao estudo do vulcanismo — termo cujas raizes remontam 4 mitologia greco-romana, quando Valcano era o deus do fogo. Desde entio, a vuleanologia teve enorme progresso, passando a ser uma ciéncia interdisciplinar e quantitativa, de grande importiincia para a redugio de riscos para populagées situadas em regides vuleinicas. 00 pessoas a deixarem suas re ao mesmo tem Quando nos deparamos com uma erupgio vulea- nica, testemunhamos, na verdade, a liberacio espetacular do calor interno terrestre acumulado atra- vés dos tempos, principalmente pelo decaimento de elementos radioativos. Este fluxo de calor, por sua vez, éo componente essencial na dindmica de criagio e destrui¢io da crosta, na qual os vuledes, juntamente com 0s terremotos, tém papel essencial, desde os primérdios da evolugio geolégica. Atividades vulea- nicas foram também importantes na Lua, Marte ¢ Vénus, onde modelaram paulatinamente suas superfi- ) monte Olimpo, em Marte, éa maior estrutura vulednica conhecida do Sistema Solar, com seu cone de 26 km de altura em cujo cume existe uma depressio com 65 km de dia- metro. Todavia, os exemplos mais impressionantes élite mais interno de Jpiter—Io, 0 cies em diferentes épocas geoldgicas, ocorrem no co. eo ey camar magmatica Fig. 17.1 Peril esquemético de um vuledo. mais ativo do nosso Sistema Solar, Suas abundantes erupgdes expelem lavas com altissimas temperaturas, muito superiores As das lavas terrestres atuais. Além disso, jatos violentos de enxofte e outros gases alcan- cam mais de 300 km de altura em Io, fendmeno tio gigantesco que pode ser visto a partir da drbita da ‘Tetra, a mais de 600 milhdes de quilémettos de di tincia Os vuledes (Fig.17.1), sio considerados fontes de observagio cientifica das entranhas da Terra, uma vez que as lavas, os gases ¢ as cinzas fornecem novos co- nhecimentos de como os minerais sio formad onde recursos geotermais de interesse para a humani dade podem se localizar. A importincia do vulcanismo transcende a not6ria influéncia que exerce no nosso ecossistema, em que 25% do O,, H,, C, Cle N, hoje presentes na biosfera tém esta origem, Sabemos, por exemplo, que milhar bilhdes de anos, liberaram enormes volumes de agua, de vuledes ativos ha mais de 4 Tabela 17.1 Principais erupcées explosivas e sua frequéncia temporal Seen Crentr coir) equena moderada moderod a grande enorme gigantesca colossal incomensurével “AiVista notumna da erupcdo do wulcdo Etna, lélia. Foto: P Abori Par (produtos vuleénicos) Toxa de Peetu) 100/ ano 15/an0 2-3/ano 1/10 anos 1/40 anos 1/200 anos 1/ 50.000 anos giis carbénico € outros elementos quimicos, formando os primeiros va — originalmente uma mistura toxica de hidrogénio, metano, amd mosfera primiti nia e agua — q permitiria a producto, mais tarde, das substin cias essenciais para « desenvolvimento dos primeiros or ganismos da Terra. Os episédios vulednicos ocor rem desde 0 inicio da evolugio da Terra (4,5 bilhdes de anos). Portan. to numa escala distinta de desenvolvimento da humanidade (séculos). Assim, a aparente quie tude de um vuleao para nds decorre simplesmente do fato de P » de Brasil. Foto no ter havido nenhum relato his tbrico de sua erupgao. Nada impede que um vuledo erado “extinto” nos iltimos 5.000 anos (data dos primeiros registros hist6ricos), situado porém numa regio com vulcanismo latente, possa entrar em ativi- dade no futuro, tendo em vista a ciclicidade da evolucio geolégica terrestre. ‘A magnitude dos eventos vulcinicos, pot outro lado, é altamente variével, como podemos observar nos exemplos selecionados da Tabela 17.1 As rochas vulcinicas originam-se da consolidacio das lavas, constituindo porgdes significativas da crosta terrestre (Figs 17.2, 17.3), representadas por monta- nhas e enormes depésitos rochosos nos continentes € CoC See Fig. 17.2 Poisagem vulcénico. Derromes de Formacéo Serra Geral, bacia do Parané, A. Ernesto assoalhos ocefnicos. As lavas, por outro lado, repre sentam amostragens reais dos materiais das profundezas da Terra, muito embora parte dos elementos voliteis, do magma original seja perdida durante o proceso de solidificagio. Mesmo assim, as lavas podem fornecet informagdes iteis s bre a composicio quimica e 0 es: tado fisico do material constituinte do manto superior. Neste capitulo, conheceremos 0 processo que leva o magma A superficie, originando a lava € ou. tros produtos associados erupgio. Levando em conta as caracteristicas do magma que condicionam todo 0 processo eruptivo, apresentaremos ainda uma classificagao da morfologia € dos estilos eruptivos dos vulc6es. Finalmente, aborda. contrapondo-os com os efeitos das erupgdes no meio ambiente Por vezes, estes efeitos sio be néficos & humanidade, jé que os vuledes sio fontes térmicas po tencialmente favoriveis ao ecossistema e portanto, 4 manu. tengo da propria vida Fig. 17.3 Poisogem de wulcées. tlhe Bartholomé; arquipélago (Golépagos), Equador Foto: R. Touw pita Or ey 17.1 Conhecendo os Produtos Vulcanicos Os produtos gerados numa erupgio vuleinica po- dem ser sélidos, liquidos ou gasosos, conforme sintetizado na Tabela 17.2 ¢ Figs. 17.4 a 17.10. 17.1.1 Lavas Representam 0 material rochoso em estado de fu- sio que extravasa 4 superficie, contemporancamente 0 escape dos componentes voliteis do magma, Du- rante 0 processo, pode haver adigio ou perda de compostos quimicos. Os varios tipos de lavas sio cor- respondentes extrusivos de magmas félsicos ow mificos, conforme jé visto no capitulo anterior. Descreveremos a seguir as principais caracte- icas dos diferentes tipos de lavas: a) Lavas basilticas E 0 tipo de lava mais comum nos derrames, ca~ racterizando-se pela cor preta e temperaturas de erupeio entre 1.000 e 1.200°C, temperaturas estas se- melhantes is do manto superior. As propriedades quimicas ¢ fisicas das lavas basilticas, tais como a bai- xa viscosidade devida a0 menor conteiido em silica (GiO,), menor retengio dos gases dissolvidos e alta tem- peratura permitem que 0 fluxo seja menos espesso € atinja areas distantes em relacio & erupgio. Fluxos com até 100 km/h jé foram observados, mas as velocida- des comuns sio da ordem de alguns km/h, Derrames enormes ocortem em diversos continentes ¢ ilhas vul- ciinicas, alguns deles originados durante eventos geolégicos gigantescos, a exemplo dos derrames do Decean (India) e da Bacia do Parana (América do Sul). As lavas basilticas exibem variagdes na sua morfologia € fluidez no decorrer do processo de consolidacio, recebendo diferentes denominagdes, a saber: Tabela 17.2 Caracteristicas dos produtos vulcénicos Ceres aed Flux pirocléstico ‘Avalanches Certs Coc Brecha de blocos e cinzas Fluxoviscoso de lomo com frogmenios inconsolidados de variadas dimensées, coriginados do retrabalhamento de depésitos de encostas vuleénicas por chuvas, degelo e/ou tremores de ter. Emanacées gososos e flvidos contendo minerais dissolvidos ‘értico. PoC Ae Cee S| 00 fundo © Monte .17.7 Resto de brecha vuleénica. Ilha Fernando de CM. olor @ abundéncia e tamanho Fig.17.8 Camadas de tufos e brechos pit 1ados pelo torrente de lama. An: dos. No canto inferior esquerdo da foto por acamadamento, the Shetland Fig. 17.9 Tulo vied N Fig. 17.10 Fumorolas. Campo de géiseres El Totio, Chile. Foto: C Lavas almofadadas Sio acumulagdes subaquiticas que possuem a for- ma de almofadas (tradugao literal do termo em inglés pillow) (Fig, 17.116 17.1 Sua ocorréncia resulta do comportamento plistico do com difimetro de até 1 metro, magma basiltico que, em contato com a gua fria, res- mente, Com isso, cria-se uma pelicula exterior vittea, enquanto o intetior do material rocho so submetido a resfriamento mais lento adquire uma geanulometria cristalina mais grosseira. A profundida fia instantane: de do derrame é também um parimetro importante no processo, pois a presstio da agua deve ser suficiente: mente alta, de modo a impedir que os gases dissolvidos no magma fervam ou se expandam, As lavas almofadadas se acumulam devido & flui- dez da lava e & pressio interna dos gases, que leva 20, rompimento da pelicula rochosa recém-consolidad: pela expulsio continua do magma. Nas profundezas da cadeia Meso-Atlintica e também no assoalho ocea- nico do Pacifico Leste, a cerca de 2.700 m. de confirmaram a ocorréncia profundidade, submergiv dessas acumulagdes de lava almofadada, interligadas 352 Decirranoo a TERRA M. Noce por condutos tubulares afunilados com cerca de 20 a 30 m de altura e 1 km de largura. Isto sugere que este tipo de lava é um dos constituintes importantes da crosta ocednica em formagio. As lavas almofadadas podem ocorrer tanto em guas rasas ¢, apesar de freqiientes em basaltos subaquaticos, sto, também observadas em lavas com maior contetido em SiO, como profundas Fig. 17.11 Lavas almofadades preservadas de vulcanismo pré- bitibi, cambriano (> 2,7 bilhées de anos) no regiéo de Conadé. Foto: C. M. Noce. Fig. 17.12 Lovas almofadadas de idade pré-cambriana (600 milhées de anos) na regido de Pirapora do Bom Jesus, Séo Paulo. Notar os bordos das almofados marcados pela cor de clteracéo marrom avermelhada. Foto: M. V. Coutinho. + Lavas pahoehoe € 2a Siio tetmos oriundos de descrigdes na itha vuleani ca do Havai, relacionados ao fluxo e aparéncia superficial de resfii ‘paboeboe (ow lava vuledes do Havai. A lava basiltica em contato com 0 at resfria-se, formando uma crosta fina, enquanto fluxo magmético continua abaixo dela. Este fluxo subsuperficial, que lembra a viscosidade do mel, gera feigdes retorcidas na pe solidificagao (Fig. 17.13). Algumas vezes 0 fluo da lava se da muito rapidamente ao longo de trincas abai- mento das lavas basilticas. A lava m corda”) é a mais comum nos ula rochosa em processo de xo da crosta jé consolidada. Eventuais refluxos do magma levam drenagem desses tiineis, criando um canal subterrineo — 0 tubo de lava. O didmetro desses ttineis é variével (1 a 10 metros), podendo atingir vati 08 quilémetros em extensio (Fig, 17.14), Fig. 17.13 Lova pahoehoe. Bafa Sullivan, ilhe de Santiago. Arquipélago Colén (Galépagos), Equador. Foto: R. Trouw. Jaa lava aa (“em blocos”) forma-se quando o escape dos gases dissolvidos no magma durante a con- solidagao causa répido aumento na viscosidade do material mais superficial. © fluxo desse tipo de lava é naturalmente mais lento que o da lava pabueboe, Desse modo, é produzida uma capa mais grossa, que pode atingir espessuras de 3 a 4m. A lava aa se quebra em blocos irregulares na medida em que o fluxo magmatico interno continua (Fig, 17.15). Nos exemplos do Havai, as feigdes de lava paboehoe sio observadas perto do local da erupeio, por conta das altas temperaturas rei- nantes. Jé as feigdes aa somente se formam a uma maior di perficial mais demorada da lava, cia do vuleéo, apés uma exposigio su- Fig. 17.14 Tubo de lova, ilha Bartholomé, arquipélago Colén (Golépages!, Equador. Foto: R. Trouw. Fig. 17.15 Compo de lava Aa. Vuleéo Ferandine, arquipéla {90 Colén (Galdpagos), Equador. Foto: R. Trouw. b) Lavas rioliticas ¢ andesiticas Estas lavas possuem composigao mais diferencia- da (félsica). O maior contetido em SiO, (veja capitulo anterior), bem como a sua mineralogia mais comple- xa e maior retengo em gases tornam-nas mais viscosas que as lavas basilticas. Apresentam temperaturas entre 800 ¢ 1.000°C e a rocha vuleédnica formada possui cor clara a avermelhada. A baisa fluidez das lavas rioliticas leva geralmente a um aciimulo rochoso que pode al- cangar dezenas ou até centenas de metros de espessura, tornando comuns as explosGes. As lavas de composi- slo andesitica possuem contetido de silica intermediario entre os basaltos ¢ riolitos Varios episédios vulednicos de composigao andesitica a riolitica acompanharam a construgio da crosta terrestre. Muitas dessas ocorréncias estio pre- servadas na América do Sul. Um dos episédios mais expressivos atingiu a Amaz6nia ha cerca de 1,7 — 1,8 bilhdes de anos atris, tendo recoberto uma ar rior a 500,000 km’. supe- 17.1.2 Fragmentos vulcdnicos Correspondem aos vuleanoclastos ¢ piroclastos. Os primeiros englobam os fragmentos vulednicos for- mados pela erosio. Jé 0 termo piroclasto refere-se a0s materiais langados na atmosfera por erupgdes explosi- vas. Esses produtos recebem o nome de tefra, O ‘material particulado mais fino é constituido por cinzas € pocira, podendo formar espessos pacotes, em geral nas proximidades do vulcao. ‘Todavia, a agio dos ven- tos pode transportar as particulas a enormes distancias O lapillito (ver Tabela 17.1) é geralmente formado pela colagem de cinzas (lepill acrescionatio). Sao gotas de lava maiores que a cinza, cuja morfologia indica Fig. 17.16 Detalhe da heterogeneidade dos materiais piroclésticos. Foto: R. Trouw, Dt ee er sua formagio em estado plistico ou pastoso. Podem ter 0 tamanho de uma bola de ténis. Em funcio da intensidade dos ventos ¢ do cariter muito fluido da lava, os Japilli podem ser alongados a até fiapos, maneira de fios de cabelo (cabelas de Pelé), em referén- cia a Pelée, deusa dos vulcdes do Havai. As bombas representam os fragmentos vulcinicos (em estado plis- tico) com aparéncia retorcida, resultantes da consolidagio durante a sua trajetéria no ar (Fig, 17.5). Existem registros de bombas com dezenas de m* Jangadas a mais de 10 km do vulcéo, Eventualmente, a superficie externa das bombas apresenta-se com ra chaduras, em fungio da expansio dos gases internos da lava, formando uma textura superficial denomina- da “crosta de pio”. J4 os blocos sio constituidos por fragmentos angulosos de lava consolidada ou da r0- cha encaixante do conduto, langados 4 atmosfera. 17.1.3 Depésitos piroclasticos © termo piroclistico deriva do grego pyrar (Fogo) © Alastos (quebrado). Os materiais piroclisticos sio constituidos por materiais soltos ou misturas de cinzas vulednicas, bombas, blocos e gases, produzidos duran- te erupges violentas de gases (Fig. 17.16)-Tais produtos podem ser classificados em: a) juvenil (fragmentos so- lidificados do préprio magma); b) nao juvenil (fragmentos originados da parede da cratera, do con- duto magmético ou quebra de rochas pi ©) fragmentos de origem diversa associados a particu- las ou gotas de lava. -existentes); As brechas vulcinicas representam os produtos piroclisticos de granulagio mais grossa, sendo consti- tuidas por fragmentos angulosos de material pré-existente ou do proprio derrame, cimentados numa matriz também grosseira (Figs. 17.17 ¢ 17.18). Os de- positos de queda piroclistica recebem o nome de tufos vulcinicos. Sao constituidos por fragmentos menores ‘numa matriz de granulagao fina (Fig, 17.8). Esses depésitos podem atingir grandes espessuras. Por exemplo, nas imed le Santiago do Chile, os depésitos piroclisticos da iltima erupgio do vuleio Maipo, ocorrida hi 400,000 anos, possuem espessuras de até 8 m. Esta constatacio retrata o risco potencial de uma rea hoje densamente povoada, muito préxima a esse vuleio, além de varios outros neste setor da otdilheira Andina (Fig, 17.19). Por outro lado, esse material, devido a sua elevada dureza, tem sido utiliza- do pela industria local como abrasivo. Capituto 17 * Vuicanismo 355. Fig. 17.18 Rochas piroclistices da Formacéo Baque Provincia de Santa Cruz, Argentina. Foto: R. Andreis, Fig. 17.17 Brechas vulcénicas da série andesttica, Terciério Inferior. Vilo Traful, Argentina. Foto: C Cingolani Os depésitos de fluxo piroclistico sio misturas de fragmentos, particulas de rocha e gases quentes que, independentemente da granulacio, movem-se pelo seu proprio peso, condicionadas declividade do terreno. A emulsio de gases superaquecidos é tal que a resis- téncia ao atrito entre as particulas € reduzida a0 minimo. Com isso, forma-se um fluido denso, cuja zona superior torna-se menos densa a medida que as particulas caem sobre a superficie do terreno. As temperaturas envolvidas sio muito variaveis, de 900°C até inferiores a 100°C Os fluxos pirockisticos caracterizam-se por mai- or densidade ¢ baixa turbuléncia. Confinam-se aos vales. Jé os platds ignimbriticos sio os produtos que recobrem as areas ao redor do vulcio. O nome ignimbrito representa uma rocha ignea formada pot “soldagem” de cinzas € brecha vulcinica, proceso que ocorre em condigdes menos enérgicas de tem- peratura, gracas 4 maior distancia em relagio a0 vulcio, Esses materiais depositam-se ainda quentes, tornando-se fortemente soldados ¢ assemelham-se Fig. 17.19 Distribuicéo dos depés Cretéceo Inferior. bilidade observada em fluxos piroclisticos recentes, apontam pata 0 cardter catastréfico ¢ relativamente fre gliente desses eventos na hist6ria do planeta. Em varios eventos desse tipo observou-se que quanto maior o volume de gua que se mistura a0 magma, maior é a violéncia da explosio. Ja nuvens ardentes (née ardent) representam tor- rentes de baixa densidade que se expandem encosta abaixo com velocidades extremamente altas de até 200 km/h, ¢ altissimas temperaturas, geralmente >, acompanhadas por um som ensurdecedor. = piroclésticos (em preto) nos um cimento muito resistente, O gigantismo dos _proximidades de Santiago do Chile, provenientes da erupg6o do wul- depésitos ignimbriticos (Fig, 17.20) originados em co Maipo hé 400.000 cnos. Simbolos em vermelho representom diversos episddios vuleinicos, além da enorme mo- wledes da Cadeia Andina (adaptodo de Projeto IGCP.120, 1985}. Kh et ee ey eer Ti Fig. 17.20 Depésito ignimbritic, riodacitico-dacttico, Tercidrio Inferior. Chubut, Argentina, Foto: C. Cingolani Em 1991, uma nuvem ardente produzida pelo vul io Ulzen (Japio) levou & morte dois vuleandlogos famosos por seus ensaios fotogrificos e filmes sobre vulcdes ~ 0 casal Krafft. Estes cientistas monitoravam © desenvolvimento de uma nuvem ardente, a qual re- pentinamente alterou o seu rumo devido aos ventos, atingindo-os sem chance de fuga. Os restos mortais. do casal Kraff, quando foram recuperados, apresenta- vam-se em estado de incineragio, em decorréncia da volatilizagao instantinea dos fluidos internos do cor po, um fenémeno causado pelo superaquecimento do ambiente. Este exemplo brutal indica que a tinica al tetnativa para n roclistica inimizar os riscos de uma erupgio a retirada preventiva da populagio das proximidades do vuleio. 17.1.4 Gases e vapores vulednicos Durante uma erupgio ou a partir de sistemas hidrotermais associados a cimaras magmiticas subsuperficiais, os gases € vapores dissolvidos no ma sio liberados pata a atmosfera. O mais abun- dante é 0 vapor de agua (75 a 95%). O transporte desses gases na atmosfera se dévem aerossdis — uma solugio coloidal em que a fase dispersora é gasosa e a e dispersa é sélida ou liquida — pel ou ainda na forma de parti- culas microscépicas de sal. Os compostos gasosos de adsorcio dos compostos em camada S, Cl, e F, por sua vez, reagem com a égua, originandc cidos nocivos para os olhos, pele e sistema respirat6: rio, Mesmo quando em baixas concentragdes, podem destruir a vegetagio ¢ corroer metas a) Fumarolas e fontes térmicas Estas exalagdes de gases e vapores se dio através de pequenos condutos ¢ podem continuar por déca- das ou mesmo séculos apés a erupcio vulednica, Podem ser tanto primitias ( que pela secundarias, quando ocotre a interferéncia com es do proprio n primeira vez sio liberados em superficie) ou subterriinea, Nas fumarolas, os elementos mais comuns que en- tram na composigao dos gases sio hidrogenio, cloro, enxofie, nitrogénio, carbono € oxigénio, Estes el tos podem ocorrer na sua forma elementar ou combinados como H,O, H,S, HCI, CO, CO, (NH,) SO,, SO,, CH, etc A composigio dos gases vuleanicos pode variar em fungio das temperaturas envolvidas (800°C a 100°C) e s dissolvidos. Eventualmente, , chumbo, arsénio, estanho, molibdénio, urinio, tungsténio, prat, do contetido em miner eles 1entos como flor, enxofre, zinco, cobr mercirio € ouro se associam aos gases, podendo se concentrar principalmente em veios na rocha encaixante, Fig. 17.21 Fumarola com depésitos de enxofre formados pelo restriamento dos gases vulcénicos e sua mistura com 0 a Vuletio Kilauea, Havai. Foto: R. L. Christiansen/US Geological Survey. por conta do resfriamento do vapor d’égua € sua interacio com o ar. Desse modo, virios depésitos de interesse econdmico podem ocorrer em fumarolas Figs. 17.216 17.22) Dentre esses elementos 0 merciirio possui um com. portamento particular, por ser volitil. Sua perda 4 atmosfera pode ser facilmente comprovada nas proxi- midades de vuledes ativos no Chile, por exemplo, onde a alta concentragio do meretirio no ar ultrapassa in- clusive o limite internacional estabelecido de risco para b) Géiseres e fontes térmicas Géiseres sio jatos de Agua quente e vapor em rup- turas de terrenos vulcinicos. Estes jatos ocorrem em, intervalos de tempo regulares e com grande forca, freqiientemente acompanhados por um som ruidoso. Regides vulciinicas na Islindia, Nova Zelindia, Chile Fig. 17.22 Fumorola em lago termal dcido. Cratera ativa do Vuledo Pods, Costa Rica. Foto: L. L. Casais e Silva Fig. 17.23 Campo de geiseres El Tato, Chile. Foto: C. M. Noce, ¢ Estados Unidos sio mundialmente conhecidas pe- ampos de géiseres (Fig. 17.23). Uma das feicdes caracteristicas dos géiseres sio os terra gos, for- mados por sedimento de origem quimica, Este material encrustra-se nas rochas ou no solo, como resultado da precipitagio de minerais dissolvidos & medida que ocor- re a evaporacio ou resftiamento, Os terragos podem, ter natureza silicificada (sinter) ou cilcica (ravertine) - (Fig, 17.24), Fig, 17.24 Terracos de sinter. Campo de géiseres El Tatio, tile. Foto: C. C. G. Tassinari te Fig. 17.25 Noscente térmica; Parque Yellowstone, E.UA. As diferentes cores refletem os tipos de algas associodas & variagéo dos temperaturas. Foto: |. Wohnfried. Nos campos de géiseres, padrdes tinicos de vida ani- mal e vegetal desenvolvem-se ao redor das fontes ¢ aguas térmicas, mesmo nos invernos mais rigorosos. Lagos de ‘gua quente, surgentes das profundezas vuleinicas, apre- sentam coloragdes curiosas azul, verde © avermelhado-marrom refletem 0 cresci- mento vigoroso de diferentes tipos de micrdbios, bactérias, cianobactétias ¢ algas, em fungiio das tempera- turas (Fig. 17.25). Além dos géiseres podem ocorret paneldes de lama quente borbulhante (Fig, 17.26), © Par- , onde as variagdes de tons De ey que Nacional Yellowstone (oeste dos EUA) possui a maior concentracio mundial de feig6es hidrotermais e cerca de duas dezenas de gtiseres. ‘Turistas do mundo inteiro visitam este parque, vivenciando a experiéncia fan- tistica, o gigantismo e a variedade des terminais de uma estrutura vulcdnica originada ha cerca de 630.000 anos. © exemplo mais espetacular ¢ o géiser “Old Faithful”, que langa periodicamente (em méd cada 64 min.) uma coluna de 4gua superaquecida e va por (94°C) a 55 metros de altura. s fendmenos 17.1 Géiseres, fumarolas e fontes térmicas Agua de chuvas infiltra-se num terreno vulednico até encontrar uma camada de rochas porosas, onde ocorre o seu. atmazenamento, como numa esponja, constituindo um agiifero. O calor de uma cimata magmatica (geral- ‘mente situada entre 5 ¢ 7 km de profundidade) causa, por conducio térmica, 0 aquecimento do aq ifero. Sob pressiio da coluna d’égua ¢ do pacote de rochas sotoposto, a agua subterrinea se superaquece sem ferver, tornando-se menos densa que a gua fria que continuamente se infiltra no aqiiffero. A temperatura dessa ‘mistura aquosa aumenta pouco a pouco até que, a um dado momento, uma pequena porcentagem entra em ebuliefo. Com a expansio de volume, cria-se um jato violento de vapor ¢ agua aquecida drenada do aqifero, que aleanca a superficie por um conduto qualquer. Apés a redugio da pressio 0 processo ¢ interrompido enquanto a recarga do aqiifero continua, reiniciando assim 0 fenémeno. Quando 0 processo de formacio das fontes tér- micas envolve temperaturas maiores, ocorrem as emanagdes de gases ¢ vapor - as fumarolas. Quando a gua superaquecida contendo gases ‘icidos vuleanicos dissolvidos entra em contato com as rochas encaixantes, ocorre a remocao do material fino que se acumula em “panclas” superficiais de lama quente (Figs. 17.26 e 17.27). Fig. 17.26 Panela de lama borbulhante. Geiser Pohutu; Parque Nacional Rotorua, Nova Zeléndic. Foto: PA. Souders/ Corbis/Stock Photos, Fig. 17.27 Mecanismo de funcionomento de geiseres, fumarolas e fontes térmicas. Capituto 17 * Vutcanismo 359 ©) Plumas hidrotermais submarinas Trata-se de fontes térmicas surgentes na crosta basiltica pelas quais fluidos minerais sdo expelidos. A acio continua do proceso hidrotermal edifica “cha- minés”, As maiores podem atingir mais de 10 metros de altura € 40 cm de diimetro, sendo denominadas black. smokers (Fig, 17.28) por expelirem fluidos de cor negra com alta temperatura. As chaminés menores rece~ bem 0 nome de mbite smokers, sendo caracterizadas por fluidos de cor esbranquigada € menor temperatura. Depésitos de sulfetos metilicos submarinos, asso- ciados as fontes termais em sistemas vuleinicos de rifis meso-oceinicos, ocorrem no arquipélago de Galépagos ¢ no Mar Vermelho, Perfurages revelaram teores clevados em Fe, Cu ¢ Zn na lama recuperada, sugetindo sua associagio as atividades de plumas hidrotermais. Em 1977, cientistas operando um sub- Iho do rif no Pacifico mergivel explorador do as: Fig. 17.28 Black Smokers no assoclho do oceano Pacilico Leste (2.500 metros de profundidade], pelas quois équas teri cas contendo partculas de sulfeto metdlico séo expelidas. Estas se decantam rapidamente pelo coniraste brusco com a fempe- rotura baixa da égua do mar (co. 2°C}, permitindo assim 0 crescimento da chaminé incrustada na roche baséitica do ‘ssoalho. Ao redor dos condutos hidrotermois e na auséncia de Ive solar, bactérias e vermes tubulares peculiares so abundon: tes, configurando uma dos maiores descoberias da biologio do século XX. A sobrevivincia de orgonismas nesse odsis exético ‘corre gracas a reacées metabélicas, envolvendo principalmen te H,S dissolvido nos fuidos hidrotermais. Foto: NOAA Central Library; OAR/National Underseo Research Program (banco NURP de imagens piblicas) Equatorial Leste puderam confitmar essa hipstese. Ali, a 2.500 metros de profundidad pela primeira vez, chaminés expelindo continuamente particulas negras de sulfetos de Fe, Zn e Cu (Pigs 17.29, 17.30). foram identificadas, A decantagio dessas particulas finas, dissolvidas na gua surgente a altas temperaturas, se da pelo choque térmico com a agua fria das profundezas occanicas. Muitas dessas concentragdes polimetilicas contém metais preciosos e semi-preciosos, porém os custos de recuperacio sio ainda demasiadamente altos para viabilizar o aproveitamento comercial Os estranhos oasis de vida, em meio aos sulfetos metilicos decantados, ocorrem numa estrcita zona de interagio com a 4gua ocednica oxigenada, ao longo dos Fig. 17.29 As plumas hidrotermais ocorem em zonas de separacéo de placas, onde ocorre formacdo de cadeias mon: tanhosas e assoalho oceénico (fig. 17.16 com a localizacéo de plumos).Nessos regides, a crosta oceénica & pouco espes: sa (cerca de 4 km) eo material baséitico é continvamente adicionado a ela « partir de cémaras magméticas situadas no interior do planeta. O magma sob alta temperatura aquece o qua densa e gelada das profundezos oceénicas que se infiica continuamente, através de fissuras da crosta baséitica. Du- rante 0 processo de percolacdo, o sulfato (um ion abundante na gua do mar) &transformado em sulfeto de hidrogénio por conta do ambiente anéxico, enquanto ocorre o lixiviagéo de muitas subsiéncios minerais da rocha, olém do intercémbio de elementos quimicos, Graces ao calor, o fluido tende a os- ‘cender por causa de diminvigéo da densidade sendo entéo cexpelido pela ruptura da crosta. A temperature dessas plumas pode atingir 400°C (black smoker), sendo, nesses fituidas por fluidos com boixo pH, contendo minerais cissolvidos, Cétions incomuns e alta concentracdo em H,S. Outras plumas {white smokers) produzem somente nuvens esbranquigadas de fluidos aquecidos e vapor (ca. de 300°C) eixos de rifts. Nessas zonas, a atividade vulednica fre qiiente proporciona alor e gases para sustentar 0 ecossistema exdtico, Nas margens continentais onde lo, a ocorréncia de fluidos as placas esto em subdue hidrotermais também guarda associagiio com habitats que em alguns aspectos lembram o ambiente das plu- mas hidrotermais de njfs meso-oceinicos. O mais importante dessa descoberta cientifica, po- rém, est no fato de 0 Sol e a fotossintese niio serem 0s parimetros exclusivos no suprimento da energia para a vida terrestre. Ao contririo, as bactérias subma- tinas desenvolvem-se vigorosamente na ia completa da luz solar, numa dieta de CO, e compos- tos de H, N, $ ¢ calor vulcinico, sendo 0 metano o principal subproduto do metabolismo, Investigagoes recentes revelaram que essas bactérias so uma forma de vida previamente desconhecida denominada Archaea, Fig. 17.30 Imagem computadorizada de dados acisticos pro cessados @ partir de ondas gerados por sonar ilusira os plumas sbnico a 2.635 metros e profundidade. A imagem dos plumas, recuperada na ele- hidrotermais emergindo no assoalho vacdo do Pacifico Leste, préximo @ 21° de latitude Nore, t uma altura de 40 metros. llustracéo-Tunniclffe, 1 KT tt ee ey com genes distintos de outras bactérias (Bubactéria) € de formas mais complexas de vida (Eucaryota). Perto de 2/3 de seus genes niio se assemelham a nada visto até hoje, enquanto parte dos 1/3 dos genes restantes, encontra correspondéncia em be manos atuai sobre a origem da vida no planeta, abrindo a possibili- dade deste evento to importante ter acontecido no fundo do mar, aproveitando o calor € os sais minerais das plumas hidrotermais hé bilhdes de anos. térias e até em hu- ta descoberta revolucionou as idéias 17.1.5 Outros fendmenos vulcanicos Lahars — As erupgdes explosivas podem deposi- tar enorme quantidade de cinzas e outros fragmentos, vuleanicos sobre os flancos dos vuledes. Os labars formados quando da ocorréncia repentina de grandes volumes de igua, devido a chuvas torrenciais, derreti- mento de neve ¢/ou gelo acumulados no topo do vul io, ou mesmo pela ruptura de barragens naturais, Essas aguas se misturam com o material vulcinico inconsolidado, criando fluxos de lama que se movi- mentam por gravidade. Enquanto nos rios é a égua que carrega 0s fragmentos, nos /ahars é a abundancia de material sélido que g 40% em peso dos constituintes dessas mis cinzas vuledinicas ¢ fragmentos de rocha (desde parti caulas de argila até blocos enorme € viscosas com a consisténcia da massa de concreto. ao movimento, Cerca de aras so |, tornando-as densas Como tal, formam espessos depésitos que incluem grandes blocos rochosos arredondados, fragmentos vul cinicos ¢ lama endurecida e também podem incluir pedacos de arvores, se o fluxo tiver atravessado uma floresta. Fi justamente através da determinacio da ida- de desses restos de arvores qui ocorreu o fenémeno — um dado importante para se estimar a taxa de freqiiéncia de Jabars relacionados & ossivel saber quando reativacio de um vuleio, Os /ahars deslocam-se com velocidades superiores as dos cursos d’égua, tendo condigGes de fluit até mes. mo sobre a neve ou gelo, Sua forga de impacto é tal que destroem a maioria das edificagdes feitas pelo ho- mem. As velocidades dos Jahars podem atingir até 40 m/s em declives vulednicos mais ingremes ¢ alcancar distincias de até 300 km do local de otigem. Aqueles com proporgées de material sdlido da ordem de 90% so os mais velozes ¢ mais destrutivos, geralmente oriundos de deslizamentos enormes ocasionados por colapso de flanco de vulcio. Capituto 17 + Vutcanismo 361 Avalanches ~ Sio movimentagdes superficiais de grandes massas de neve, gelo, solo ou rochas, ou uma mistura destes materiais, que se tornaram eventualmente instaveis por diferentes causas. Esses fluxos de detri- tos podem ser gerados por abalos sismicos que rnormalmente precedem uma erupgio, ou até mesmo cchuvas muito intensas, aliados a uma forte inclinagio do relevo vulcanico. Levantamentos geolégicos a0 re- dor da base de vulces do Havai identificaram gigantescos deslizamentos submarinos de material frag- mentado, Isto revela que a conexio entre grandes avalanches ¢ erupges vuleinicas pode ser mais co- mum do que imaginamos. 17.2 Morfologia de um Vulcio E comum pensarmos que a lava chega a superficie sempre através de edificios cénicos perfeitos, a exem- plo do monte Fuji no Japio ou o monte Osorno no Chile, © que no € verdade. Muitas vezes, a erup¢io se dé através de fissuras profundas na crosta que al- cancam a regio onde 0 magma esta acumulado, Estas Fig. 17.31 Modelo teérico de um vul- Go. O reservatério magmatico pode se situar na astenosfera ou litosfero. O mogma é periodicomente expelido pela ‘chaminé que liga o reservatério com a cra- tera. A lava difere do magma pelo fato de 160 conter alguns dos consfitvintes goso- 808 e/ou elementos quimicos originals. A subida do magma pode também ocorrer ‘em cones satélites ou pelo fraturamento do edificio vulednico em erupcées de flanco, Dé-se o nome neck (Fig. 17.32} 00 realce topogrético de uma chaminé. A fei- ‘go decorre da erosdo diferencial dos flancos de um vuleSo. Estéo também re- presentados os diferentes produtos vwuledinicos. fendas podem ter poucos metros de largura e alguns quilémetros de comprimento, como as que existem na ilha vulednica da Islandia. As formas topogrificas vuleénicas dependem da composicao quimica, do contetido de gases, da visco- sidade e temperatura das lavas. Lavas pouco viscosas constituem edificios vuleinicos com flancos suaves, ‘ouainda derrames extensos e espessos.Jéas lavas muito viscosas no fluem com facilidade, o que resulta em edificios com flancos ingremes constituidos, em geral, pelo material fragmentado por explosGes. O ambiente superficial é também um dos fatores que controla 0 modo de acumulacio do material vuleanico, O vulcanismo submarino em grande profundidade, por exemplo, nao é explosive porque a alta pressio da Agua impede a formagio ¢ expansio de vapor. Como a figua resfria a lava mais rapidamente que o af, a pilha de lava é geralmente mais ingreme que o perfil das acumulagées de lava acima do nivel do mar. A seguir, descreveremos os elementos geométri- cos principais de um vulcio c6nico (Fig, 17.31). + Cratera — Este termo é uma tradugio literal do grego krater, que significa um vaso de boca larga. A cratera representa o local de extravasamento do magma ¢ demais produtos associados (Fig. 17.31). A chaminé, ou conduto magmitico, liga a camara magmitica em profundidade com a cratera. Com o passar do tempo, as paredes da cratera podem desmoronar, causando 0 seu preenchimento parcial. A cratera do monte Etna (Giciia), por exemplo, esté atualmente a 800 metros de profundidade em relacio ao topo e possui 300 metros de diimetro, Eventuais cones satélites podem apare- cer nos flancos do vuleio, por um desvio do conduto ow a medida que a chaminé ¢/ou a cratera so bloque- adas pelo resfriamento da lava ou soterramento, * Caldeira — © termo, derivado do latim tardio caldaria, & aplicado as enormes depresses circulates, riginadas pelo colapso total ou parcial da cratera e do topo do vulcio, por conta da perda de apoio interno, seja pelo escape de gases, seja pela ejecio de grandes volumes de lava (Fig. 17.33). O didmetro desta feicio pode ser superior a 50 km e a ela geralmente se asso- cia um sistema de fissuras radiais e em forma de anel nna rocha encaixante, preenchidas por diques ou que servem de conduto para manifestagdes explosivas. “Tanto as crateras como as caldeiras de vuledes “dor mentes” podem ser preenchidas por gua (Fig, 17.34) — uma feigio de risco potencial na eventualidade de uma reativaco vulednica. Fsse processo inicia-se pelo domeamento do assoalho interno da caldeira, ou ressurgéncia da caldeira, Uma reativacio vulcéinica pode 2 DecIFRANDO A TERRA Fig. 17.32 Relevo vulcdnico do ithe de Trin- dade, destocando-se um neck & direita da foto. Foto: FR. Alves. causar torrentes de lama, emanacio de gases, (Qua- dro 17.2) ou mesmo a liberagio de enorme volume de Agua que eventualmente se acumulou na cald com o pasar dos anos. O famoso Parque de Yellowstone, nos BUA, esti Jocalizado numa caldeira vulcfnica com cerca de 2.800 km’, A ressurgéncia desta caldeira hd 630,000 anos ocor- reu devido A presenca de um enorme reservatério magmitico debaixo dela, liberando, durante a explo- sio, mais de 1000 km de material. Esta estimativa volumétrica baseou-se nos levantamentos geol6gicos que identificaram a distribuigao dos produtos piroclisticos numa extensa regio, O assoalho da cal- deira esti sofrendo arqueamento ¢ dilatagiio, processo este iniciado ha cerca de 150,000 anos, expondo ro- cchas e estruturas profundas. © fendmeno esti sendo estudado € monitorado, como forma de prever uma futura reativagio, No Brasil, a regio de Pogos de Caldas, Minas Ge- rais, uma estincia hidromineral famosa pelas aguas sulfurosas medicinais ¢ importantes jazidas de U, Th € Al, € um outro exemplo de caldeira vuleinica. Sua origem se deu pelo abatimento de um cone vuleanico hi cerca de 90 milhdes de anos. Associado & estrutura circular, com um diimetro de 30 km, hoje parcialmen- te crodida, mas ainda visivel em imagens de satélite (Fig, 17.35), ocorre um sistema de diques em forma de ancl. Fig. 17.33 Esquema simplificado dos etapas de formacéo de uma caldeira. © colapso do teto do vuleée condiciona a ctiagdo de um sistema de fraturas, o que leva a uma erupcéo imediata do magma, num cataclisma explosivo. Fig. 17.34 Caldeira do vuleéio Fernandina com lago acido; Arquipélago Colén (Golépagos), Equador. Notar 0 pequeno cone satélite preenchendo porte da caldeira, cujas paredes s0 muito ingremes, e mais a0 fundo uma fumarola, Foto: R.Trouw. Fig. 17.35 Parte de imagem do saidlie Landsat, canal 7, da regido sudoeste do Estado de Minas Gerais, mosirando a coldei- ravulefnica de Pocos de Caldas em meio ds esruturas dos rochas ‘metaméiicasPré-cambriano. No exremidade este da imagem, ‘oparecem os sedimenios paleozbicos da Bacio do Poroné. Adop tado de C. Schobbenhaus e outros (coord. ). Texto explicativo do Mapa Geolégico do Brosi eda érea adjacente incluindo depési- tos minerais Outro exemplo famoso é a caldeira vulcinica de Crater Lake, no Estado de Oregon (B.U.A.) ~ Fig. 17.36, Trata-se de uma estrutura preenchida por um lago com cerca de 8 km de diémetro e 580 metros de profundidade. Esta caldeira originou-se ha 6.845 anos, com base nas datagdes “C de amostras de érvores sotertadas pelos fluxos piroclisticos. O sma formou nuvens de cinzas que foram distr to, depositando-se sobre extensas freas ica dos E.ULA, carbon cata buidas pelo v da orla pak A distingio entre crateras € caldeiras € por vezes dificil. As crateras podem se formar tanto por colapso ‘como por explosio do vulé%o, a0 passo que as caldei- ras sio produzidas em poucas horas ou dias, pelo violento escape de gases € conseqiiente reducio do volume do reservatério magmitico. Além disso, cal- deiras geralmente possuem didmetros superiores a 1km, A morfologia do topo dos vuledes Kilauea e Mauna Loa no Havai configuram, na verdade, caldeiras. Esta interpretagio € reforgada pela inexisténcia de de- Fig. 17.36 Logo de caldeira, cratera Loke, Oregon, EUA. Foto: D. E. Wieprechi/US Geological Survey. cl. eee pésitos piroclisticos ao redor dos edificios vulei- nicos, sugerindo que foi o refluxo do magma a causa do colapso © conseqiiente formagio das duas de- presses. 17.3 Estilos Eruptivos Por que parte dos vuledes ocorre em cadeias montanhosas, como nos Andes, a0 paso que em ou- tras regides o vulcanismo se di através de fissuras, ‘como foi o caso dos derrames da Bacia do Parana? Neste item, veremos alguns parimetros que determi- nam os estilos eruptivos tio diferentes de atividades vulednicas. © vuleanismo atual concentra-se em rupturas da ccrosta com atividade sismica associada. O processo esti condicionado ao movimento das placas litosféticas, ‘ou ainda a plumas profundas do manto que ascendem ‘em regides no interior das placas. Cerca de 60% dos vulcées ativos situam-se no chamado “Cinturio do Fogo” — uma zona de borda do oceano Pacifico com terremotos € vuledes jovens. Estes vuledes formam montanhas em reas continentais e conjuntos de ilhas ‘nos oceanos, como resultado da convergéncia de pla- cas litosféricas (Figs. 17.37, 16.38). © ptuma hidroterm Fig. 17.37 Distribuicéo global do vulcanismo. Notar 0 condicionamento geogréfico em que a maiorio dos wuleées ativos {em vermelho) esté situada ao longo dos limites convergentes de placas (azul). Apenas 15% do vulcanismo atual localizam-se nos limites divergentes (tracos em vermelho} e o restante em regides internas das placas. Fig. 17.38 Vuletio Arenal (Costa Rica], um dos consftuintes do Circulo do Fogo. Foto: L. L. Casois e Silva As atividades vulednicas podem ser classificadas como fissurais e centrais, em fungio de sua localiz io em relagio as placas litosféricas ¢ ao tipo de seus produtos. As caracteristicas d vex, vinculam-se as propriedades da lava e condigdes do ambiente da erupsio. 's produtos, por sua 17.3.1 Erupgoes fissurais Neste tipo de vulcanismo, nio ha formagio de um cone vuleanico. A presenca de fissuras profundas na crosta permite a ascensio do magma, em geral de com: Fig. 17.39 Esquema de erupcéo fissural, condicionada & as- censéo de magmas muito fuidos por fissuras profundos na crosta, com a formagio de comades sucessivas de lava eimara tall magmatica | 1 Fig. 17.40 Esquema simplificado do estruturacéo topogrét code um rift submorino meso-ocednico e vuleanismo associodo posigao basica, originado na astenosfera (Fig, 17.39). Tais erupcdes também so denominadas de vuleanismo de rift por guardarem falhamentos subverticais (rf-vall). ‘Trata-se de con- sociagiio com sistemas de juntos de vales submarinos profundos a0 longo das cadeias montanhosas meso-oceiinicas, que se asseme Iham as feigdes continentais originalmente definidas na Africa Oriental (Fig, 17.40). A magnitude dessas cor- ditheiras é ilustrada pela sua distribuigio por mais de 76,000 km nas profundezas dos oceanos. Fig. 17.41 “Cortina de fogo" e derrames de lava em ervp: G0 fissural no Havai, Foto: J.D. Griggs/US Geological Survey. As erupgdes fissurais representam, em termos de volume, o principal tipo de atividade gnea terrestre, pois, 80% da atividade vuleinica do planeta acham-se concen- trados no oceano (veja Fig, 17.37). Portanto, o assoalho oceanico originado nos riftvullys submatinos representa a extrusio continua de magmas basélticos por milhées de anos, a partir de cordilheiras meso-oceinicas O vuleanismo fissural pode ser observado atualmente na Islindia — um segmento da Cordilheira Meso-Athinti- co ares res Sono erry 500m, Fig. 17.42 Area do vulcanismo da Formacéo Ser ro Geral, Bacio do Parand, comparada o outros derrames de ploté. Fig. 17.43 Rocho vulcénica amigda: loidal. Formagéo Serra Geral da Bocia do Parané. Foto: Co. lecéio. do Insltuto de Geociéncias da USP Fig. 17.44 Brecha wuleénica, ha Trindo- de. Foto: FR. Alves ca exposto acima do nivel do mar derrames ¢ fontes de lava (denominadas cortina de fogo, Fig, 17.41) comuns também no Hava representado por Nos continentes, 0 vulcanismo de nf? produz os derrames de platd. Alguns desses so enormes, a exemplo dos encontrados na América do Sul (For- magio Serra Geral da Bacia do Parana), América do Norte (Columbia River) ¢ india (Deccan), (Fig, 17.42), No topo desses derrames, podem ocorrer vesiculas, pequenas bolhas decorrentes do escape dos gases dissolvidos na lava. Estas cavidades podem vir a ser, eventualmente, preenchidas por zedlitas, ame ista ou ‘igata, as amigdalas (Fig. 17.43). Nos casos em que a expansio gasosa tenha sido explosiva, podem ocor ret as brechas (Pig, 17.44). Nos derrames continentais, © resfriamento da lava produz a disjuncao colunar. Trata-se de uma fei¢io peculiar de ruptura geométri- ca do material rochoso que se associa a contra a0 se solidificar (Pig, 17.45). muito répida do magi Fig. 17.45 Disiuncéo colunar em derrame baséltico. Escé. cia. Esta feicdo geométric em colunas forma-se pela contragéo inerente ao resfriamento da lava baséitica. Corbis/Stock Photos Capituto 17 * Vuicanismo 367 17.2 O Vulcanismo da Formagao Serra Geral da Bacia do Parana (Os detrames e ull bisicos da Formagio Serra Geral da Bacia do Parana representam um dos mais volu- ‘mosos vulcanismos continentais do planeta, com uma rea superior a 1,200,000 km?, abrangendo regides do sul ¢ centro-oeste do Brasil e do Paraguai, Uru- ‘guai e Argentina, também uma contraparte na Africa, fareas hoje separadas pelo oceano Atlintico, Os der- rames foram gerados entre 133 ¢ 129 milhes de ‘anos atris, sendo constituidos notadamente por la- vas basilticas. Em certos locais, os derrames sucessivos de lavas basilticas possuem centenas de metros de espessura, fato verificado na regio cen- tral da Bacia do Parand, onde uma perfuracio atravessou 1.700 m de basaltos (Presidente Epiticio, SP). Lavas de composigio tiolitica dacitica tam- Fig. 17.47 Visio dos derames da Formacdo Serta Geral for- ‘mando 0 canhéo de Aparados da Serra. Folo: M. Emest. Fig. 17.48 Cataratas do rio Iguacu, condicionades pelo eroséo de rochas ‘wlaBnicas da Formacéo Serro Geral. Foto: PR. Reane. Fig. 17.46 Isimo de derrame baséltico com disjungéo colunar Litoral de Torres, Brasil. Foto: W. Teixeira bém foram produzidas, preferencialmente nas bor- das sul ¢ leste da Bacia. Além das lavas, erupcées fissurais formaram centenas de diques bisicos ha 130,5 milhoes de anos, como na regiao de Ponta Gros- sa (PR, Brasil), onde um conjunto de diques paralelos: abrange uma area de aproximadamente 300 km de largura por 600 km de extensio. A origem do vuleanismo Serra Geral é ainda debati- da, sendo creditado 4 presenca de anomalias térmicas ‘no manto (plumas), scguidas por ruprura da crosta continental, ou ainda a existéncia de fissuras profun das na crosta. Esse vulcanismo, por sua vez, nu-se A fragmentacio do supercontinente Gondwana, que culminou com a formacio do assoalho do oceano Atlantico, proceso que conti- nua até hoje (Fig, 17.36; Cap. 6). As ilhas Fernando de Noronha (12,3 milhdes de anos) ¢ Trindade (3,5 ~ 2,5 milhdes de anos) so alguns dos marcos vulcini- cos, hoje afastados do eixo da Cadeia Meso-Atlintica, que ilustram a expan: ‘sao do assoalho oceanico. ‘A beleza da paisagem dos derrames da Formagio Serra Geral pode ser desfruta- da numa visita aos paredées de rocha basiltica com disjuncio colunar, que afloram no sul do Brasil, no litoral de’Tor- res (Fig, 17.46), nos canhdes do Parque dos Aparados da Serra Fig, 17.47), ou ain- da nas Cataratas do tio Tguacu, que tem sua origem na erosio diferencial dos basaltos (Fig 17.48). 17.3.2 Erupgdes centrais Este estilo eruptivo com a formagio de edificio vuleé- nico est condicionado & presenga de um magma de composi¢io mais félsica, Como produto das explosdes, ‘ocorrem grandes volumes de cinzas, piimice, blocos e bom- bas, além de derrames (Fig, 17.31). As erupgdes centrais podem ser classificadas com base em semelhancas com descrigdes de erupgdes passadas, conforme abaixo: 4) Plnianaz nome derivado da erupcio do Vestivio ocor- tida em 79 d.C (Quadro 17.3). A explosio violentissima de ‘magma viscoso, muito rico em gases aprisionados em pro- fundidade no wuleio, langa nuvens de gases, cinzas e outros materiais sélidos de granulacio fina; }) Stromboliana. denominagio oriunda do vulcio Stromboli ([tilia), em que a liberago periddica de gases aptisionados na cimara magmitica leva d ejeciio de bom- bas de lava viscosa e de blocos angulosos. O ritmo da crupeio é altamente variivel, podendo ocorrer em inter- valos de alguns minutos ou até de décadas; ¢) Peléeana: otigina-se de um magma viscoso rico em gases, submetido a pressGes muito baixas (derivado do Fig, 17.49 Diques radicis. Vulcao Etna, Iti. Foto: P Abori 368 DeciFranpoo a TERRA cratera Fig. 17.50 Perfil esquemético de um estrato-vuleéo. vulcio Pelée, Martinica). Estas condigées eausam a li- betacio de uma nuvem densa e superaquecida (nuvem ardente) de piimice e cinzas que desce velozmente as encostas do vuleio; @) Haraiana: representa um estilo eruptivo relativa- mente calmo, em decorréncia do magma ser de baixa viscosidade. As atividades tipicas acham-se represen- tadas nos vuledes do Havai, onde rios de lava sio expelidos a partir da cratera ou de erupgies de flanco, construindo um cone de grande dimensio com flancos pouco inelinados. A caracterizagio com base em registros histéricos tem sido substituida, no entanto, por uma nova classi- ficagio que leva em conta o tipo do cone vulcinico ¢ seus produtos, mais condizente com a complexidade dos estilos eruptivos. Desse modo, os cones podem ser classificados em 4 tipos principais: + Estrato-vulcdes - sto as erupgdes centrais mais comuns. As camadas alternadas e sucessivas de lava ¢ fluxos piroclisticos constréem um cone enorme com perfil ingreme e simétrico, cujos flancos eventualmente alojam diques radiais (Fig, 17.49). Vuledes como o Fuji (lapio), Santa Helena (EUA), Osorno e Lasear (Chile), € Etna e Vestivio no Mediterriineo (Itilia) so alguns dos exemplos classicos (Figs. 17.50, 17.51). Os estra- to-vuledes so perigosos, uma vez que a reativagio pode ocorrer apés séculos de inatividade, Produzem explosdes violentas nuvens incandescentes, fruto da alta viscosidade do magma e sua saturacio com gases (Fig. 17.52). Capituto 17 * Vutcanismo 369 Fig. 17.51 Estrato-vlcéo Osorno, Chile. Foto: W. Teixeira, Fig. 17.52 Vuletio Lascar (1993), regio de Antofagasta (Chi le). Foto: C. M. Noce. 17.3 Monte Vesiivio Estudando os depésitos vuleinicos, podemos conhecer melhor as erupcdes ¢ seus riscos. Todavia, 0 longo petiodo de dorméncia dos estrato-vuledes dificulta a previsio ¢ 0 monitoramento de fendmenos associados a uma reativacio, Uma ressurgéncia vuleinica do monte Vestivio, situado no Mediterraneo (Fig, 17.53), n0 ano de 79 dC, levou a destrui¢io completa de Pompéia ¢ Herculano em alguns minutos apenas! Propiciou, porém, a preservacio de uma parte da historia da arte romana, para deleite dos arquedlogos que desenterraram estas cidades a partir do século XVIL Esta erupgio foi chamada de Vesuviana, ou ainda de Pliniana, em referéncia a0 historiador romano Plinio “o velho”, vitimado por ela. ‘Um terremoto precedeu a grande erupcio piroclistica que produziu grandes massas de ptimice, As nuvens superaquecidas, de alta densidade, com cinza muito fina (~0,01 cm de didmetro), escureceram o dia e, ao mesmo tempo, expandiram-se encosta abaixo a mais de 200 km por hora. Derrames de lava ampliaram a destruicio, A magnitude do cataclisma de 79 4.C. ‘ foi tal que formou-se um depésito de cinzas com 6 metros de espes- sura, recobrindo os contrafortes do. vulcio, Os efeitos letais das nuvens ardentes inclufram asfixia, queima- duras, incineracio ¢ fragmentacio devida ao impacto. Desde entio, 0 vulcio Vestivio entrou em erupcio ‘mais de 50 vezes, a tiltima em 1944, trazendo grande risco a mais de 3 milhdes de pessoas que ocuparam, através dos séculos, a base da mon- tanha, onde se situa, inclusive, a periferia de Napoles, uma das prin- Cipais cidades da Italia meridional. Figs 17.53 Vista do Monte Vestvio e seus contrafortes densamente povoados. Foto: F Nollo/Kino fotoarquivo. * Vilcdes de escudo — 0 cone é em geral de grande dimensio, com varias dezenas de quilémetros de base € poucos quilémetros de altura. Seus flancos apresen- tam declividade muito suave, em decorréncia da baixa ‘Viseosidade do magma (Figs. 17.54, 17.55). O vulcio é cdificado pela sucessio de derrames de lava de compo- sicio baséltica com baixo contetido de gases. As erupges ocorrem freqiientemente pela cratera ou pelo flanco do vulcio. Comumente, 0 magma nio emerge imediatamente, mas se acumiula em cmaras magmaticas subjacentes. © extravasamento € relativamente calmo (quiescente), eventualmente formando lagos de lava borbulhante na cratera ou caldeira, devido as condi- Ges fisicas da lava. Vuledes de escudo sio encontrados no Havai (Kilauea, Mauna Loa; Fig, 17.37). © monte Mauna Loa, apesar de ter sido construido em alguns milhées de anos apenas, € 0 mais alto vulcio de nosso planeta, superior ao Everest (8.848 m). Seu topo situa-se 4 km cima do nivel do mar, sendo que a maior parte do edifi- cio encontra-se submersa. A sua base, com um diimetro de 120km, esté a 10km de profundidade. Fig. 17.4 Volcio de escudo (Wolf, ilho Isabella. Arquipéla- ‘ge Colén (Gelépagos). Foto: R. Trouw. cr, ee ae ee ey + Domos vulcinicos— sto formas resultantes da erup- fo de lavas félsicas extremamente viscosas. A lava, em vez. de fluit como nos derrames basilticos, acumula-se ‘numa feigio démica com encostas ingremes ¢ topo arre- dondado (Figs. 17.56, 17.57). Devido a alta viscosidade, 6s gases geralmente permanecem aprisionados na lava, 6, quando a pressio aumenta muito, ocorrem explosdes «que fragmentam os materiais formados e, a0 mesmo tem- 1po, contribuem para o crescimento do domo, No caso da erupgio do vuleio Santa Helena (BUA), em 1980, ocor- eu uma intumescéncia no flanco da montanha, uma vez que a cratera era muito pequena. Atualmente, esti se formando um novo domo no interior do flanco aberto pela explosio, Fendmeno semelhante esti também ocor- tendo na caldeita do Parque Yellowstone. Fig. 17.55 Diagrama esquemético de um vuledo de escudo. Capituto 17 * Vutcanismo 371 Fig. 17.57 Domo riodacitico formado em 20 de maio de 991 no interior da cratera do Monte Ulzen, Japéo, Foto: K. Ota/Servigo Geolégico do Jopao - GSJ 9202. + Cone vulcinico piroclistico (cinder cond - so acu- mulagdes acamadadas, produzidas pela ejecio de material pirocléstico. Geralmente, o edificio tem a for- ma de um cone pequeno, menor que 300 metros de altura, freqiientemente ocorrendo em grupos (cones satélites) nos flancos de grandes vuledes ou ni proximidades (Figs 17.58, 17.59). Cones piroclisticos possuem flancos ingremes, em que a inclinaciio é regida pelo fingulo de repouso dos fragmentos inconsolidados. suas Erupgdes piroclisticas miltiplas eventualmente formam depésitos em circulo ao redor da cratera de explosio, Estes depésitos, denominados tufos anela- tes ou Maars, sio constituidos por uma mistura de fragmentos da rocha encaixante e material vulcinico. Originam-se da explosio de um magma ascendente, a0 fragmentos de rocha material piroctastico Fig. 17.58 Esqueme de um cone pireclstico. entrar em contato com a Agua subterriinea subsuperficial. Jé as explosdes frefticas so causadas quando o magma muito enriquecido em gases tem con- tato com a dgua subterrinea ou ocednica, gerando uma sgigantesca explosio de vapor superaquecido, A tr6fica erupcio do vulcio Krakatoa (Indonésia) em 1883, foi desse tipo. Diatrema — trata-se de um tipo raro de estrutura vertical, formada pelo preenchimento da chaminé da cratera por brecha vuleanica, processo que se di com enorme energia explosiva. Os diatremas sio origina- dos a partir de magmas muito profundos enriquecidos em gases (profundidades de cerca de 100 km). Estes magmas, ao ascenderem, causam a fusio das rochas encaixantes, combinada com a explosio violenta de gases e lava, carregando inclusive fragmento rocho- sos da crosta inferior e do manto (astenosfera). Arocha formada a partir de um magma explosivo extremamen: te rico em CO, é denominada kimberlito. Fig. 17.59 Cone pirocléstico em formagio na ilhe do Fogo. Arquipélago de Cabo Verde. Fonte: Instituto de Investigacéo Cientifica Tropical, Lisboa, 0 erosivo destréi os Eventualmente, 0 proces flancos do vulcao, expondo os materiais da parte su- petior do diatrema, Os diatremas sio economicamente importantes, pois podem conter diamantes. 17.3.3 Pontos quentes (hot spot) Como vimos anteriormente, apenas uma peque ‘na parte (5%) dos vuledes ativos da Terra situa-se no interior de placas litosféricas. As ilhas cas do Havai, um desses exemplos, integram uma cadeia montanhosa submarina parcialmente submersa vuleani- com cerca de 6.000 km de extensio na placa Paci fica. O vulcanismo dessas ilhas mostra um padrao de idade peculiar frente a0 exibido pelos vuledes localizados em margens de placas; as rochas sio progressivamente mais antigas rumo noroeste a0 longo da cadeia (Fig. 17.60). O foco magmitico — que também leva 4 ocorréncia de numerosos terre- motos — encontra-se hoje na extremidade sudeste da cadeia na Grande Ilha do Havai, onde estio em atividade os vuledes Kilauea e Mauna Loa, além do vulcio submarino Loihi, situado pouco ao sul. Ithas Havaianas Fig. 17.60 A cadeié vulcénica do Havol na placa Pacttica (Ma = milhées de anos). O aparecimento das ilhas é resulta- do da ago de um ponto quente (hot spot) muito profundo e estacionério no interior do placa Pacifica que esié em movi- mento a uma taxa de 1Ocm/ano. © foco atual do vuleanismo si situodo no extremidade sudeste da cadeia na Gronde llha do Hava O mecanismo de criacio desse conjunto de ilhas € explicado pela acio de um ponto quente (bot spa!) ou pluma mantélica. O conceito foi introduzido pelos pes- quisadotes norte-americanos Jason Morgan e Tuzo Wilson para explicar a associaco incomum de cadeias vuleiinicas inativas e ativas no interior de continentes. A pluma configura uma coluna de material rochoso superaquecido que ascende lentamente a superficie desde a interface manto inferior ~ micleo externo (Fig, 17.61). Essas plumas representam, portanto, mais um ‘mecanismo eficiente de perda do calor interno terres- tre, associado a0 movimento das placas litosféricas (Cap. 6. Aparentemente, a pluma mantélica, com sua por- sao superior em estado de fusio, mantém-se estaciondria por milhdes de anos alimentando um vul- cio. A medida que a placa se afasta lentamente da posigio da pluma, ela transporta 0 vuleio , tomando- © inativo €, a0 mesmo tempo que continua o Ky yee ee ee movimento, proporciona que um novo cone seja for- mado pela continuidade de ascenstio do material da pluma. A menor densidade do material fundido em relacio as rochas encaixantes norteia todo 0 processo. Experimentos sugerem que a ascensio ocorre, prova- velmente, muito mais pela criagio de sistemas de fissuras no material rochoso do manto do que através de um conduto nico, por conta das modificagdes de pressio © temperatura, que também explicam a inci- déncia de terremotos. Com o decorrer do tempo geolégico, um conjunto de vulcdes aparece no interi- or da placa litosférica, aos quais se associam também grande nimero de vulcdes submarinos (seamounts), con- forme observa-se na fisiografia do assoalho oceanico. No caso do vuleanismo do Havai, os estudos sis- micos sugerem a presenca de duas cimaras magmiticas, situadas entre 50/- 60 km e 3 - 6 km abaixo da superfi- cie, ambas sendo abastecidas por uma pluma de grande profundidade. Na cimara mais rasa, as rochas encaixantes abaixo de 6 km sio mais densas que o magma, cuja ascensio ocorre por diferengas de densi- dade; acima de 3 km, as rochas encaixantes séo menos densas que o magma, impedindo assim a ascensio magmitica. A magnitude da pluma do Havai é de tal ordem que abastece simultaneamente trés vulcdes (Mauna Loa, Kilauea e Loihi). Os pontos quentes sio reconhecidos em cerca de 40 sitios com vulcanismo ativo no interior de placas litosféricas (por exemplo, ilhas Galapagos ¢ Havai), muito embora ainda no haja um consenso a respeito Fig. 17.61 Peril esquemético da pluma maniélica © geragéo cde um wulcdo inttaplaca. A geragéo dos plumas aparentemente std condicionada o correntes de convecco profundas e es- tacionérios que ascendem o partir da interface manto inferior - nUcleo extemo. Carituto 17 + Vuicanismo 373 do mecanismo da origem dos mesmos. Plumas mantélicas também podem explicar ocorréncias alinha- das de vulcanismo com idades distintas situados em reas continentais, sugerindo a atuagio do fenémeno pelo menos desde 0 Mesozdico. Nos continentes, a agio das plumas pode causar afinamento € enfraqueci- mento da litosfera € permitir nfo s6 a exposigio das, rochas mais profundas como também induzir a forma- io de um rif. Um dos exemplos é o vale do rio Niger, na Africa Ocidental O modelo das plumas mantélicas é também uma alternativa interessante para explicar o porqué da ilha vulcinica da Islindia ser a maior parte emersa da ca- deia Meso-Atlintica no oceano Atlintico Norte. A razio disso estaria numa origem magmitica hibrida para a Islindia. Ali, 0 vuleanismo fissural gerado por conveccio ascendente de material astenosférico (que forma a nova crosta no eixo da cadeia Meso-Oceiini- a) teria uma contribuicao adicional de uma pluma ‘mantélica, © processo permitiria consteuir uma crosta oceinica anormalmente espessa, com 0 crescimento se dando hoje acima do nivel do mat. O resultado é, portanto, distinto do que ocorre na crosta continental, ‘onde. influéncia de uma pluma causa o seu afinamento, 17.4 Vulcanismo e seus Efeitos no Meio Ambiente yesar de sabermos que as mudancas climiticas estio associadas a variabilidade natural dos processos atmosféricos, pelo menos dois outros parimetros — a revolucio industrial e os vuledes ~ tém adicionado enormes quantidades de material particulado ¢ gases & atmosfera — Fig. 17.62. Hi evidéncias de que as erup- Ges vulcinicas afetam 0 comportamento do clima em curtos periodos de tempo e possivelmente influenci- am as alteracdes de longa duracio, inclusive no aquecimento global. Isto poderia causar no futuro, por exemplo, o degelo das calotas polares com conseqiien- te subida do nivel dos oceanos, trazendo efeitos catastréficos para habitantes de cidades como Rio de Janeiro, Buenos Aires, Téquio, Los Angeles ¢ Nova Torque, entre tantas outras situadas em litorais, Entre- tanto, a reconhecida abundincia do CO, nos gases vuleinicos nao é suficiente para contribuir significati- vamente para o efeito estufa, Enquanto os vuledes produzem cerca de 110 milhdes de toneladas de CO, por ano, as atividades industriais adicionam a atmosfe- ra em torno de 10 bilhées de toneladas por ano. Fig. 17.62 Erupcdo do vulcdo Santa Helena, Estado de Wa- shington (EUA], ocorrida em 18 de maio de 1980. A explosso liberou um gigantesco cogumelo de cinza e gases, atingindo altitudes da ordem de 14 km. Foto: SPL/Stock Photos. © maior impacto dos gases vuleanicos se dé pela liberacio de cinzas e SO,. Este gis transforma-se em ficido sulfirico pelos raios solares que interagem com © vapor de gua da estratosfera para entio formar ca- madas de aerossdis. Essas camadas s também por pequenas particulas ¢/ou goticulas, com diimetro inferior a 1 micrémetro (0,001 mm), por sal ‘marinho e poeira silicatica de origem diversa (marinha, cerupebes vulcinicas, pestades de poeira, furnaca industrial, etc... As camadas de aerosséis resistem em suspensio na estratosfera por ‘muito tempo apés as particulas de cinza terem se de- positado na Terra, uma vez que em altitudes muito clevadas no ha nuvens e chuva para uma lavagem mais ripida e efetiva. Observacdes meteorolégicas comprovam que essas camadas, entre altitudes de 15 ¢ 30 km, interceptam a luz solar, aquecendo a estratos- fera e diminuindo a temperatura da superficie terrestre eda propria atmosfera, io constituidas incéndios florestais, grandes tem- estadista e inventor norte-americano Benja- min Franklin foi o primeiro a sugerir que os vuledes sio importantes modificadores do clima, com base na observacio dos efeitos da erupgao Laki (Islin- dia), no ano de 1783. Esta erupeio, além de gerar © maior derrame vulednico da historia recente da ‘Terra, liberou uma gigantesca quantidade de gis que envolveu completamente esta ilha e uma grande parte da Europa Setentrional, durante vatios meses. Denominada de neblina seca, essa nuvem era muito tica em flor, um gis altamente corrosivo, que se condensou na forma de chuva ou em particulas de cinza, vindo finalmente se depositar sobre a grama € campos de cultivo, poluindo ios ¢ lagos pelo ex- cesso de flor. Em conseqiiéncia, mais de 230.000 reses morreram, causando falta de alimento para os 10.000 habitantes da Islindia. A neblina seca que atin- giu a Europa felizmente nao foi tio nociva, mas se manteve visivel por muitos dias durante o verio outono daquele ano. Como o inverno de 1783-1784 foi anormalmente severo, especialmente na Euro- pa, Franklin concluiu que a erup¢io Laki teria sido 4 principal causa das baixas temperaturas médias da época. Varios outros cientistas propuseram a correlacio centre as alteragdes climaticas globais € grandes erup- (Bes (Krakatoa - Indonésia, 1883; Tarawera ~ Nova Zclindia, 1886; Bandai-san - Japao, 1888; Bogoslof - Alaska, 1890), as quais teriam influenciado o clima, tornando-o nas décadas finais do século XIX. Os relatos histéricos sobre Krakatoa — um dos integrantes de um grupo de cones vul- inicos no interior de uma caldeira situada entre Java ¢ Sumatra - revelam que a ex- plosio foi equivalente a liberacio instantinea de uma energia cerca de 5.000 vvezes maior que a bomba de Hiroshima. ‘A magnitude da explosio foi tal que foi ouvida na Australia, a mais de 2.000 km de distancia, distribuindo cinzas vulednicas por 700.000 km?, Especula-se que a crupgio do Krakatoa tenha sido provocada pela is filtracio da gua do mar nas fissuras do assoalho oceiinico, atingindo uma cimara magmitica. A expangio extremamente vi- olenta da 4gua do mar produziu uma crupgio fredtica e tsunamis sucessivos com ondas de 40 metros de altura, destruindo cerca de 300 assentamentos costeiros ¢ cau- sando 36.000 mortes. Os efeitos atmosféricos iniciaram-se duas semanas ALTITUDE (km) cy Ce ee ee vorecer e entardecer tiveram cores exéticas € muito vivas (verde, azul, azul-brilhante), além de halos colo- ridos circundando 0 Sol e a Lua, Caleula-se que cerca de 13% da luz solar tenham sido bloqueados apés a explosio, com o conseqiiente abaixamento das tempe- raturas globais de 0,5°C durante dois ou trés anos, em relacio a média normal da temperatura na troposfera (Fig. 17.63). Mais recentemente, nas erupgdes dos vulcdes Pinatubo (Filipinas, 1991) e El Chichén (México, 1982), nuvens com teores anormalmente altos de SO, alcan- garam a estratosfera, trazendo também efeitos atmosféricos globais (Fig. 17.64). No caso da erupgio do Pinatubo, imagens de satélite mostearam um cogu- melo explosivo gigantesco com 4000 km de largura e 34 km de altura. O incremento do SO, causado pela erup- sao oxidou a atmosfera e, em conseqiiéncia, as temperaturas médias mundiais durante 1991-1992 so- freram redugio de cerca de 0,4°C. Pelo fato desses dois vulcdes estarem localizados a baixas latitudes, os acrossbis de Acido sulfirico, cinza e poeira vuleinica TEMPERATURA (°C) eee 17.68 llustragéo da magnitude do cogumelo explosive do wleéo Krakatoa ‘em 1883, que aleoncou « estratostera. A inexisténcla de nuvens impediy 0 retor- no mais répido dos cinzas e poeira para a superficie da Terra por meio da chuva, obliterondo a luz solar durante varios meses o anos. Com isso, a temperatura apés o cataclisma ¢ prolongaram-se pot médio global sofreu redugio de 0,5°C. A curva em vermelho representa a vario- varios meses. Durante esse periodo, 0 al- cdo da temperatura em func6o de altitude = 3 s : 5 a 1970 “999 ANOS Fig. 17.64 Relagio entre a transmisséo do energio solar que p0ss0 na atmosfera e as erupgdes dos vulcdes El Chichén Pinatubo. foram transportados por ventos estratosféricos, que, no caso do El Chichén, circundaram a Terra em ape- nas 1 més. Passados 12 meses desta erupgio, a nuvem cestratosférica atingiu seu efeito maximo na Europa, ¢ somente em 1985 as medigdes de transmissio da ener- gia solar retornaram aos niveis pré-erupeio. Registros adicionais da influéncia do vuleanismo em grandes mudangas climiticas foram obtidos a partir de sondagens do assoalho dos oceanos. Amostras re- cuperadas revelaram que a quantidade de cinza vulcinica nos sedimentos depositados no assoalho oceiinico aumentou ha cerca de 2 milhées de anos ¢ tem-se mantido alta desde ento, Fste periodo tempo- ral coincide exatamente com a glaciacio global do Pleistoceno, demonstrando que o incremento da ativi- dade vulcinica possivelmente se associou a queda da temperatura da época. Alguns cientistas, todavia, no consideram esta evidéncia como conclusiva, uma vez que a coleta de amostras de sedimentos oceanicos mais antigos ni ¢é suficientemente ampla para embasar uma comparacio cientifica. De todo modo, sabemos que a interagio da atmos- fera, oceanos ¢ superficie dos continentes é extremamente complexa e que 0 vulcanismo é apenas uum dos fatores, entre tantos outros, que influenciam 0 clima da Terra. Porém, independentemente desta constatacio, permanece uma importante pergunta para a nossa reflexao: até que ponto a freqiiéncia ¢ a magni- tude das erupgdes vuleanicas afetam © nosso clima? O entendimento do vuleanismo ¢ a quantificacio de seus efeitos so, sem diivida, um desafio para ge6logos, meteorologistas e climatologistas, ainda mais por causa das implicagdes fundamentais para a vida. iS eb ee ee 7s) 17.5 E Possivel Prever Riscos VulcAnicos? Os exemplos citados nos itens anteriores (Vestivio, Laki, Krakatoa, Havai, Pinatubo, El Chichén, Lascar, ete.) sio apenas uma mintiscula amostra do que a natu- reza pode nos oferecer em termos de cataclismos vulcinicos. A vuleanologia tem progredido a tal ponto que hoje sabemos que existem entre 500 ¢ 600 vul- Ges ativos na Terra € quais sio os de maior risco. Assim, podemos compreender as causas principais do tetrivel registro hist6rico legado pela evolucio geol6- gica do planeta, representado, apenas nos diltimos 500 anos, pela perda de 200.000 vidas! Por outro lado, como podemos avaliar se um vul- cdo esti estabilizado ou apenas “dormente”, ou ainda como podemos prever quando se dari 0 momento exato da emissio de gases téxicos ou mesmo de uma erupeio? Essas respostas tém importincia nio 6 para a compreensio do clima global, como ja visto, mas também para as populagdes que vivem nas proximidades de vuledes e até para fins do apro- veitamento racional da enorme energia termal associada aos vuledes. Por exemplo, o exame dos produtos de erupgies passadas serve de guia para o estabelecimento de um zoneamento seguro do uso do solo em regides vul- cinicas, a medida mais efetiva para reduzie fatalidades. Além disso, instrumentos sensiveis podem detectar sinais da atividade vuleanica precoce, tais como sismos intermitentes associados i movimentagio do magma em profundidade, dilatagio inclinagio do terreno vulcinico, e as emissdes gasosas que geralmente pre- cedem as erupgdes, Todavia, apesar de todo 0 avanco cientifico alcangado, permanecem os riscos latentes de vulcdes como o Vestivio (Quadro 17.3), que apés séculos de inatividade entrou em erupgio repentina- mente. Sem davida, os efeitos catastrdficos das erup- es podem set minimizados com a combinagao da ciéncia € politica publica. Em alguns casos, é pos- sivel, inclusive, prever onde a erupgio terd lugar a partir da localizacio do foco de terremotos ¢ de alteragdes no padrio das ondas sismicas, ou ainda controlar, mesmo que em pequena escala, a erup- io, de modo a reduzir os seus danos. Por ocasiao da erupcio de 1973 nos arredores do porto de Heimaey (Islindia), a populacio bombeou a agua gelada do oceano para jogi-la dia e noite sobre a 7, eed ee Fig. 17.65 Estrato-vuletio Sonta Helena: cenério anterior e posterior & erupgio de mai de 1980. O impacto explosivo com ventos arrasadores ocorreu em segundos na regido, sucedido por um lahar que desiruiu um floresta de 10 milhdes de érvores. Foto: US Geological Survey. lava que avancava. Com isso, conseguiu-se resfriar a superficie da lava, diminuindo lentamente o seu fluxo, © que evitou que 0 tinico acesso das embar- cages a0 porto fosse bloqueado, A explosio do monte Santa Helena — 0 mais ati- vo estrato-vuleio da cadeia de montanhas jovens exposta desde a California Setentrional (EUA) até a Colimbia Britanica (Canada) — ocorreu em 18 de maio de 1980. Seguiram-se diversas outras explo- sdes ¢ derramamento de lava nos seis anos seguintes, até o vuledo entrar em repouso. Apesar do Santa Helena estar sendo detalhadamente monitorado, a primeira pessoa a morrer foi um vulcandlogo que trabalhava na estacio sismogrifica, situada justamente na base do flanco norte da mon- tanha que explodiu. A primeira erupgio, segundos apés um forte tre- mor que causou © colapso deste flanco do vulcio, foi considerada a maior dos dltimos 60 anos nos BUA. Langou cerca de 1 km® de pocira e gases na atmosfera, produzindo um cogumelo com 20.000 m de altura (Figs 17.62, 17.65) ente para construir 400 grandes pirimides! O material este sufici- impacto explosivo gerou ventos violentissimos, que devastaram uma floresta de 10 milhdes de arvores (Fig, 17.65). Destruigio adicional foi causada por um gigantesco /abar induzido pelo colapso do flanco do vuledo. Resultado impressionante da tra- ‘gédia: 57 mortes, uma Area de 400 km? totalmente arrasada € coberta por cinza vuleanica, com danos materiais superiores a 1 bilho de délares america nos. Contudo, uma efetiva aco da defesa civil € das instituigdes governamentais possibilitou a reti- tada providencial de milhares de pessoas da zona de risco dias antes da erupcao. A violencia do cataclismo deveu-se & intrusio de magma de cariter viscoso com alto teor de gases dis- solvidos (principalmente H,O e CO,), em tomo de 6% (em peso). Trata-se de um valor muito alto se com- parado com 0 contetido de gases no magma do vulcio Kilauewa (avai), que é de apenas 1%. Como resulta do, ocorreu o confinamento e retardamento do escape dos gases internos do magma no Santa Helena até que as presses atingiram niveis to altos que conduziram 4 desestabilizagio do vulcio e a grande explosio. Tam- bém importante € 0 fato que erupgées ainda maiores do vulcio Santa Helena ocorreram no pasado (Fig, 17.66). Portanto, outras podem ocorrer no futuro. Ainda mais preocupante porém, é a existéncia de ou- tros vuledes “dormentes” como 0 monte Rainier, nas proximidades de Seattle (EUA). F. evidente o enorme tisco da populagio da regio fronteira EUA-Canadé, patte dela residindo inclusive sobre depésitos dos labars produzidos pelo Rainier a cada 500-1000 anos. Fito wal ia Pe ee Fig. 17.66 Diagrama comparativo de varios erupcées fomo- 08 vs. sua magnitude explosiva. Erupcées do vulcéo Santa Helena estéio entre as mais violentas do planeta, ultrpassando fem mognitude aié « famosa erupgio do monte Vesbvio no ano 79 d.C. (Quadro 17.3} A erupgio do Pinatubo, em 15 de junho de 1991, um vuleio “dormente” por 500 anos situa- do a apenas 70 km a noroeste de Manila (Filipinas), foi considerada a segunda maior do século XX (Fig. 17.66). Em conseqiiéncia, mais de 5 km® de frag- mentos de rocha foram depositados nos flancos do vulcio € nos vales adjacentes. As nuvens de cinza vulcinica, de tio densas, derrubaram edificacdes. Em questo de horas, chuvas torrenciais lavaram este actimulo de material inconsolidado, gerando fluxos de lama (Jahan); nas quatro estacdes chuvo- sas seguintes, mais da metade desse depésito foi transportada pelos Jahars, que causaram destruicao maior inclusive do que a erupcio em si. Apesar disso, 0 Pinatubo causou apenas 300 viti- mas fatais. Isto se deveu aos alertas divulgados sobre a iminéncia da erupgio, a partir do momento em que sismégrafos do observatério local acusaram o proces- so de ascensio do magma. Tas informes sensibilizaram as autoridades civis e militares que, por sua vez, orga- nizaram a retirada de 250,000 pessoas, bem como de aeronaves e equipamentos da zona mais perigosa, pou- cos dias antes da grande erupgao. A partir do estudo dos /abars produzidos pela ex- plosio de 1991, cientistas tém claborado mapas de risco vuleanico para a regio. Estes mapas sio perio- dicamente atualizados com indices de pluviosidade regional e local e dados de monitores aciisticos de flu- xo postados nos terracos fluviais. Tais monitores detectam vibragdes no solo & medida que um Jahar se movimenta, notificando automaticamente a sua pro- gressfio. Técnicos em locais estratégicos também atuam CoRR PA CCD a no monitoramento visual do fenémeno. Um plano de emergéncia de divulgacio de alarmes sobre a ocor- réncia da maioria dos /abars em Pinatubo tem diminuido o risco de vida de centenas de pessoas que vivem na regizo. relatos positivos contrastam com os eros cometidos por ocasiao da erupeio do Nevado del Ruiz em novembro de 1985 — um vuleio com 5.389 m de altura nos Andes Colombianos em cujo topo havia uma calota de cerca 17 km*de gelo perene. Os vuleandlogos sabiam que se tratava de um vuleio de alto risco € estavam preparados para divulgar os alertas, mas ne- nhuma ordem para evacuar a populacio foi implementada pelo governo. Em decorréncia dessa ‘omissio, mais de 22,000 pessoas perderam a vida por causa de um dabarque soterrou a localidade de Armero. Apesar da erupgio piroclistica ter sido de pequena magnitude, foi suficiente para fundir cerca de 10% da calota de gelo, gerando os Jahars que rumaram para os vales abruptos adjacentes. Os depésitos de lama ¢ fragmentos com | metro de espessura, distribuidos numa frea de 40 km? no vale de Amero, testemu- nham a dimensio da catéstrofe. Bastaria que as autoridades tivessem organizado a retirada da po pulacao para areas topograficamente mais elevadas (alguns metros apenas!) para ter sido evitada tama nha tragédia. Tabela 17.3 Relacio dos vulcées estudados durante © projeto das Nacées Unidas “Década Internacional de Redugo de Desastres Natu- rais” (1990-2000). Catastrofes como essa revelam a importincia do monitoramento dos vuledes mais perigosos (Tabela |. Por exemplo, lagos cidos podem se instalar no topo de vuledes € 0 monitoramento de variagdes nas, concentragdes de elementos como Na, Mg e $ auxilia na previsio da ascensio do magma. Por outro lado, satélites permitem identificar explosdes vulcdnicas, 0 que é particularmente importante no monitoramento de regides remotas com trifego aéreo, uma vez que radates dos avides nfo detectam as nuvens de cinzas Acidentes ocorrem quando as cinzas vulcanicas superaquecidas ¢ densas sio aspiradas pelas turbinas de aeronaves, causando sua queda. Nio menos importante é 0 problema social envol- vido com a previsio desses desastres naturais, 0 que passa necessariamente pelo convencimento das autori- dades governamentais, Sem duivida, a maior razio de ter ocorrido um menor nimero de vitimas fatais nas explosdes do Santa Helena ¢ Pinatubo foi a postura preventiva adotada pelas autoridades. O monitoramento de emissdes téxicas de gis ¢ seus efeitos também faz parte dos programas de re- dugio de riscos vuleinicos, sendo de grande importincia para o ser humano e seu habitat, Por exem- plo, a emissio de SO, e outros poluentes pelo vulcio. Kilauea interagem quimicamente com o O,, 0s vapo- res atmosféticos, a poeira ¢ a luz solar, resultando em neblina ¢ chuva acida, O primeiro produto vuleanico traz risco para a satide, pois agrava enfermidades res- pirat6rias, a0 passo que a chuva dcida pode contaminar © solo, a vegetacao ¢ as reservas de agua potivel. Nos BUA, desde 1980, tém sido estudadas as ime- diagdes da montanha Mammoth (na California) ~ um vuledo jovem cujas iltimas erupgdes ocorreram ha apenas 200 anos — onde terremotos sio freqiientes. Em 1989, intermitentes tremores de magnitude baixa foram monitorados pelos cientistas, ao mesmo tempo que observaram a morte das arvores nos flancos da montanha, O fendmeno se deu em fungio da emissio de enormes volumes de CO, originados do magma 17.4 A catastrofe do lago Nyos, Republica dos Camarées ‘A emissio letal de gis ocorrida no lago Nyos é um caso relativamente raro na longa lista de catastrofes vulednicas. Este lago localiza-se numa cratera que integra uma zona com vulcées na Africa Ocidental, varios deles ativos nos ultimos 10 milhdes de anos. No dia 21 de agosto de 1986, repentinamente, tonela- das de gis CO, ¢ SO, emanaram da superficie do lago. Mais pesados que 0 ar, estes gases t6xicos espalharam-se silenciosa ¢ rapidamente vale abaixo, encapsulando trés vilas nas proximidades do vulcio. Em menos de 10 minutos, 1.700 habitantes ¢ 3.000 animais morreram sufocados pela falta de oxigénio. Uma ocorréncia semelhante, porém de menor magnitude, aconteceu em 1984 no lago Monoun, distante 120 km do lago Nyos, causando a morte de 37 pessoas, mas pouea importincia foi dada entio ao fato. Relatos da época mencionaram que este primeito desastre foi precedido por um ruido semelhante a0 de um avidio ao aterrissar, acompanhado por um sismo. Possivelmente, este sismo causou uma mudanca repentina no substrato do lago, permitindo a emissio gasosa letal, descrita pelos sobreviventes como tendo amatgot ¢ acidez. Os corpos encontrados apresentavam queimaduras ¢ estavam espalhados nas direas mais baixas a0 redor do lago, confirmando que a nuvem muito densa propagou-se préximo ao cho, Imagina-se que as queimaduras tenham sido causadas pelo Acido sulfirico, uma vez que o odor caracte- tistico foi similar a0 do lago Nyos. Possivelmente, a emanacio de CO, foi acompanhada ainda de outros gases, como o Acido sulfidrico (H,S), denunciado pelo odor caracteristico de ovo cozido desctito pelos sobreviventes, ‘A teoria mais aceita sobre a catistrofe do Lago Nyos admite uma infiltracio de aguas da estacio muito chuvosa nas proximidades da cratera. Esta gua foi aquecida pelo magma ascendente ¢, ao se vaporizar, liberou gases subterrineos, diretamente no substrato submerso da cratera. Os cientistas alertam que a recorréncia de emiss6es gasosas na regido, bem como a atividade sismica freqiiente, podem estar prenun- ciando uma futura “bomba geol6gica vuleanica”, ainda mais porque centenas de lagos como os de Nyos € Monoun existem na regio, das profundezas do vuleio, que ascendeu através de fissuras da rocha. Sua alta concentragio no solo ma- tow as raizes das arvores. A regio tem grande afluxo de tutistas, que desfrutam da beleza cénica e praticam esportes de inverno, Por isso, os gedlogos continuam 4 monitorar o vuleo, uma vez que o CO, por ser mais, denso que o ar, pode se acumular em bancos de neve, deptessdes ¢ areas com baixa ventilacio como cabi- nes, tendas € casas (Fig. 17.67). 17.6 Vulcanismo e seus Beneficios As milhares de mortes ¢ os danos materiais causa- dos pelo vulcanismo contrapdem-se aos seus beneficios, a exemplo dos recursos minerais de ori- gem hidrotermal, como também os bilhdes de toneladas de lava € cinza vulcénica que sio transfor- mados, ao longo do tempo, em solos muito férteis, por conta da presenga de nutrientes como Fe, S, Na e K e ainda outros, como na ilha vuledniea de Java, Outros produtos de erupgdes podem ser utilizados CUT Ce PA Cee CYL comercialmente como aditivos a0 cimento, abrasivos, como ingredientes da indtistria farmacéutica ¢ na pro- dugio de sabio e materiais de limpeza. O aproveitamento de campos geotérmicos ilustra também outra importante contribuigio do vulcanismo (Cap. 22), ainda mais por ser uma fonte energética ines- gotivel na escala humana de tempo. A existéncia desses campos se da nas proximidades de corpos igneos subsuperficiais, em meio a rochas com alta porosidade € petmeabilidade, situacio essa que favorece a circu- lagio de grandes quantidades de agua subterrinea, O enorme calor associado a0 processo magmitico aque- ce a gua eventualmente aprisionada nas rochas ‘encaixantes, devido a camadas rochosas impermedveis sobtepostas. Desse modo, campos geotérmicos subsuperficiais com fluidos superaquecidos (igua ¢ vapor, ou somente vapor) sio formados, os quais, uma vez perfurados, permitem o escape extremamente ve- loz dos fluidos. Estes fluidos podem girar turbinas ¢ gerar energia elétrica, a qual é considerada “limpa” em comparacio com a termoeléctrica e nuclear. Fig. 17.67 llustragéo da emisséo de gés CO, na montanha Mammoth (Calif6rnia). © magma em ascenséo causa rupturas na rocha, propiciands a liberagéio de grandes volumes de gés. Estes, a0 alcancarem o solo, matam as raites das érvores. Exste risco potencial de acimulo do CO, em depresses e éreas pouco ventiladas, pela sua maior densidade em relacdo ao ar.