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ic DEPOSITOS E ROCHAS Salat) ae aia oe Paulo César F. Giannini [pds termos conhecido as etapas de erosio, transporte € sedimentacio por varios agen- tes geoldgicos (Caps. 9 13), estudaremos os processos subseqtientes que conduzem a formagao da rocha sedimentar. Da biografia dd grio de quartzo da areia de praia, narrada no Cap. 9, passa a interessar 0 seu destino final: a deposigio. A escolha do quartzo ba- seou-se no fato de se tratar do mineral mais comum, na maioria das praias. Agora que nosso enfoque se volta para depésito sedimentar, torna-se importan- te ressalvar que muitas costas (em torno de 20% delas) slo formadas de sedimentos pobres em quartzo e em outros materiais sedimentares terrigenos (feldspatos, micas ¢ argilominerais) ¢ ricos em minerais de origem alobioguimica € autéctone, de composico quimica principalmente carbonatica (em que podem estar presentes sulfatos, fosfatos, nitratos € sais haldides). Exemplos destas costas ocorrem no Norte da Aus- trilia eno lado atlintico da América Central (Fig, 14.1). No Brasil, ha exemplos de sedimentagio predomi- nantemente carbonstica nas costas da regiio Nordeste. Nas porgdes mais profundas dos oceanos (abaixo do Homer hous mes seme TE seis rte sont TERE Aver de coc Fig. 14.1 Distribuicdo atval de sedimentos marinhos e sua composig6o. O termo vasa desig na de modo genérico um sedimento fino, lamoso. somos 08 Us RORNOS TE ae te ons te) TE erin Entre) TE ppt tnt Hi ow einer HIE ee seat fet +e) pt ee nivel de base de aio das ondas), existe contraste si- milar entre Areas de deposigio predominantemente terrigena ¢ ‘reas carboniticas. As primeiras concen- tram-se na maior parte da margem continental, até a profundidade aproximada de 2.000 m. Abaixo dessa profundidade, até a cota de 4.000 m, a sedimentagio marinha é dominantemente carbonitica, & base de ca- rapacas de foraminiferos plancténicos (globigerinas), exceto nas aguas frias da regio antartica. A cexisténcia de dominios terrigenos e carboniticos de sedimentagio nfo é uma exclusividade dos depé- sitos sedimentares que esto se formando hoje, pois ha bacias sedimentares inativas essencialmente terrigenas ¢ outras essencialmente carbonaticas. Estes dominios alternam-se ainda na dimensio temporal: bacias ou espessas seqiiéncias e tipos especificos de rochas carboniticas desenvolveram-se preferencial- mente em certos intervalos de tempo da historia da ‘Terra (Fig, 14.2). Por essa raz, o registro sedimentar de muitas regides compée-se de uma intercalacio en- tre rochas terrigenas e rochas caleétias. Ser terrigeno ou ser carbonitico: a questiio existencial dos depésitos sedimentares Que fatores determinam o cariter terrigeno ou carbonitico de um depésito sedimentar? O primeiro pas- so para responder a esta pergunta é observar o que as areas de sedimentagio carbonitica moderna possuem em comum. Analisando a dis- tribuigio geogrifica na Fig, 14.1, nota-se que os sitios de deposigio carbonatica costei- ra se concentram em regides de baixa latitude e clima quen- te, A maioria dessas regides possui ainda duas outras ca- racteristicas marcantes: 0 relevo pouco acidentado na firea-fonte e 0 clima relativa- == Relevo tabular sustentado pelos arenitos da Formacéo Tombador, Grupo Chapada Diamantina, Mesoproterozéico. Visto do ‘Morro Pai Indcio, Lengéis, BA. Fotografia: |. Karmann, Carituto 14 + Depositos Rocuas Sepimentares 287 mente seco, Nas fguas mais profundas, a distribuicio dos carbonatos é essencialmente controlada pela tem- pperatura, dai a escassez de vasas de foraminiferos nos ‘oceanos polares. O segundo passo é analisar os pontos em comum das fases pretéritas de intensa deposigio carbonitica Fig, 142). Notaremos que os periodos de maxima se- dimentacio caleéria coincidem com momentos de separagio das placas litosféricas (Cap. 6) € expansio dos oceanos. Desse modo, um dos auges de deposicio mundial de calcarios é o Mesozdico, e em particular, 0 Creticeo, época em que a temperatura dos oceanos teria sido mais elevada, Uma conclusao parcial é que a formagio de caleérios é favorecida pela existéncia de ‘aguas marinhas quentes, sob clima seco. O terceiro passo para responder 4 questo existen- cial acima é analisar a competi¢io entre a chegada de fons ¢ de materiais terrigenos na bacia. A biografia do gro que foi narrada no Cap. 9 ilustrou a variedade intensidade de Processos a que 0 grio terrigeno é obrigado a subme- ter-se, em seu trajeto entre a firea-fonte e a ba- cia sedimentar. Particulas de mine- sais menos estaveis sho parcial ou to- talmente dissolvidas, dando origem, assim, a fons em solugio na ‘agua. Desse modo, ‘0s gros, em sua trajetdria sedimen- tar, no caminham sozinhos, mas acompanhados de fons, que sio a matéria-prima 2mm Reciosisolades, em monseule AR Complesos recto Fonte: James, 1979. para a formacio de depésitos carboniticos, através da precipitagio quimica ou da agio biogénica (Cap. 9), Em qualquer um desses casos, a formagio de cal- cirios depende de uma relacio fons/terrigenos elevada. O porte terrigeno configura obsticulo para a forma- sio de calearios: primeiro, por diluir a importincia da sedimentagio quimica ¢ biogénica; segundo, por tur- ‘vara gua, tornando-a menos propicia para a passagem da luz, €, portanto, para a realizacio da fotossintese por parte de algas e bactérias. Assim, 20 limitar a exis- téncia de vida fotossintetizante ¢ animais bentdnicos associados, a turvacio da agua inibe a atividade bio- construtora ¢ bioindutora. A conclusio é que a formacio de calcirios é favorecida pela escassez de aporte terrigeno, Fatores que controlam o aporte terrigeno (Os fatores que controlam o aporte terrigeno deter- minam a proporcio com que griios e soluto participam no transporte sedimentar ¢, em seguida, no preenchi- mento sedimentar da bacia (Cap. 9). Esses fatores correspondem As condigdes climiticas, tectdnicas, e de proveniéncia sedimentar (rochas fontes). A influéncia do clima resume-se & disponibilidade de gua no estado liquido. A gua em circulagio atra- vvés das rochas-fontes ¢ das acumulagdes sedimentares €0 veiculo fundamental de dissolugio quimica de mi- nerais instveis. Sua aco é catalisada pelo aumento da temperatura, Desse modo, climas quentes ¢ timidos favorecem o intemperismo quimico (Cap. 8) ¢ a libe- ragio de material iénico facilita, na mesma proporcio, © aporte de matéria sdlida fina sob a forma de argilominerais, especialmente se no existir cobertura vegetal que contenha seu deslocamento declive abai- xo. Desse modo, o clima quente timido nio chega a ser particularmente favoraivel A formacio de calcarios 1na bacia sedimentar. Climas secos ou glaciais favore- cem a desintegracio mecinica da rocha-mie, em detrimento de sua dissolucio. Em aguas muito frias, sob climas glaciais, a pouca disponibilidade de ions € a elevada solubilidade do carbonato Fig. 14.2 Distribuigéo dos depésitos carbondticos de recifes de corais e algas oo longo do Fanerozdico, Pe: pré-Cambriano; C: Devoniano; C: Carbonifero; P: Permiano; TR: Triéssico; Paleoceno; Eoc: Eoceno; Oli: Oligoceno; Mio: Mioceno; Pli-Ple: Plioceno e Pleistoceno. ‘ambriano; O: Ordoviciano; $: Siluriano; D: Jordssico; K: Cretéceo; Pal: desfavorecem a precipitagio de caleatios. Nos deser- tos quentes, em contraste, a raridade das chuvas torna as Aguas pluviais altamente concentradas em fons. Apés a chuva, tipicamente torrencial ¢ efémera, os fons em solugao podem precipitar-se no solo, em lagos ou em mares fechados, devido & alta taxa de evaporacio. Além disso, a solubilidade do bicarbonato na agua é reduzi- da por sua temperatura geralmente elevada. Assim sendo, os climas quentes e secos so mais favoriveis & formagao de depésitos carboniticos. A agio da tectonica (Cap. 6), recente ou contempo- tinea 4 sedimentacio, favorece a formagio ou manutengio de relevos acidentados, com dreas-fonte muito préximas da bacia deposicional. A taxa de ero- so nas vertentes tende a ser muito maior que a de intemperismo. Como resultado, 0 volume de matéria sdlida deslocado em diregao a bacia é tipicamente ele- vado. No caso oposto, em que a tectonica encontra-se inativa, 0 longo tempo de ago dos agentes superfici- ais propicia a formacio de relevo suave, sobre o qual © transporte sedimentar resulta lento e prolongado. A razio intemperismo/erosio e o tempo de contato dos jo clevados. Sob s condigdes, os minerais mais instiveis sofrem dis- solugio parcial ou total, alimentando a carga de transporte quimico e favorecendo a formagio de calcirios e de outros materiais sedimentares autécto- nes ou alobioguimicos. sedimentos aos agentes deposicionais A proveniéncia também pode influir na geracio de solutos, uma vez que algumas litologias sio mais ricas do que outras em minerais sohiveis nas condigdes da Fig. 14.3 Dois aspectos do rio Sucui, em Bonito: Sguas criste- linas e desenvolvimento exuberante de olgas verdes (caréceas) O leito deste e de outros rios do regiéo & consttuide predomi nanterente de bioclastos,resultantes do transporte mecGnico de cépsulas corbondticas precipitades em torno dos tolos algéceos. Foto: PC. F Gianni ys) ee ee superficie, Alguns dos minerais soliiveis que podem estar presentes em abundancia na area-fonte sao os proprios carbonatos de rochas igneas, metamérficas ou sedimentares preexistentes. Assim, areas-fonte do minadas por carbonatitos, marmores e calcirios liberam uma razio soluto/detrito elevada, dada a di- ficuldade de 0 carbonato manter-se insoliivel, principalmente nas granulacdes mais finas. No Brasil, as bacias de drenagem da regiio de Bonito (Estado do Mato Grosso do Sul) atravessam essencialmente rochas metacalcérias, que explica as éguas limpidas, a abundancia exuberante de algas fotossintetizantes de ‘igua doce (Fig. 14.3) e a formacio local de sedimen- tos carboniticos continentais (Fig. 14.4) Fig. 14.4 Tufos colcérios precipitadas por escape de CO, induzido por turbuléncia, em corredeiras do rio Formoso, Bo nito. Exemplo de queda de égua em que o sedimentacéo predomina sobre o eroséo. Foto: Divulgogéo da Prefeitura Mu- ricipal de Bonito, Mato Grosso do Sul 14.1 Transformando Sedimentos em Rochas Sedimentares A historia sedimentar ndo termina na deposiio. Uma vez. depositado, o material sedimentar, terrigeno ou carbonitico, passa a responder as condigdes de um novo ambiente, 0 de soterramento. Ao conjunto de transformagdes que o depésito sedimentar sofre apés sua deposicio, em resposta a estas novas condi gies, di-se 0 nome de diagénese. Assim como 0 metamorfismo (Cap. 18), a diagénese é wi magio em adaptacio a novas condigées fisicas (pressio, temperatura) € quimicas (Eh, pH, pressio de gua). A diferenca é que o material original aqui é exclusiva- mente sedimentar e que os processos de transforma no incluem recristalizagio no estado sélido, mas dis ransfor- Se Mee Ue sb solugdes € reprecipitacdes a partir das solucdes aquo- sas existentes nos poros. Agentes ¢ respostas diagenéticas podem envolver aspectos quimicos, fisi- cos € bioldgicos. O termo diagénese é portanto muito abrangente quanto & natureza dos processos. Se leva- da adiante, a diagénese pode conduzir a transformacio do depésito sedimentar inconsolidado em rocha, s6 desagregivel com uso de martelo. Este proceso € conhecido como litificagao (life, em grego, significa rocha). A diagénese comeca no final da deposigio e pros- segue indefinidamente, nfo importa qual o grau de consolidagio que depésito sedimentar tenha atingi- do. Assim, a litificagao do depésito € um dos aspectos possiveis da diagénese, mas nio o seu processo essen- ial, nem mesmo o seu estado tiltimo. 14.1.1 Processos € produtos diagenéticos A diagénese é caracterizada por um conjunto de pfocessos ¢ por seus respectivos produtos. A impor- tancia de cada processo diagenético varia na dependéncia do estigio de soterramento e do tipo de rocha sedimentar, se calcatia ou terrigena. Os proces- sos mais conhecidos sio: 1. compactagao, 2. dissolugao, 3. cimentagio, ¢ 4. recristalizagio diagenética. Neste item, serio descritas ¢ ilustradas as principais feigdes diagenéticas produzidas por cada uum desses quatro processos. AAs feigdes mais tipicas de caleitios aparecerio desenhadas na cor azul. Compactagio mecinica A compactagio diagenética pode ser meciinica ou quimica. A compactagio quimica resulta do efeito de dissolugio de minerais sob pressio e, por esta razo, seri referida no subitem sobre dissolucio. Em escala de grios, a compactagio exclusivamen- te mecinica (sem envolvimento de dissolugio quimica) abrange dois efeitos possiveis: a mudanca no empacotamento intergranular e a quebra ou defor- macio de grios individuais (Fig, 14.5). O acimulo de grios rigidos aproximadamente esféricos, como re- sultado de processos deposicionais com baixa energia de impacto (queda ou avalancha de grios na frente de formas de leito, por exemplo) produz um ‘empacotamento aberto, em que os grios dispéem-se ‘no espaco tridimensional segundo arranjos préximos a cubos de faces centradas (Fig. 14.5). Sob o efeito da compactacio por soterramento, 0 empacotamento aberto da lugar a um empacotamento fechado, de geometria romboédrica. Este efeito & comparivel a0 que exercerfamos a0 tentar comprimir uma pilha de bolinhas de gude. Se os gros nio forem anilogos a bolas de vidro, mas a folhas de jornal, uma reducio expressiva de volume ocorreri muito mais facilmente. equivalente sedimentolégico sio os depésitos ricos em filosslicatos, mais comuns dentre os depésitos ar- gilosos. Uma porosidade inicial tio alta quanto 70%, encontrada em algumas argilas, poder ser reduzida, por compactacio mecinica, para menos de 15%, A compactagio mecinica é portanto um fenémeno mais importante em rochas luticeas que em areniceas, # Empacotamento Empacotamento cibico . (porosidade: 47.6%) valdode: 26.0%) Fig. 14.5 Representagio esquematica de algumas mudancas introduzides, em escola de gréos, por efeito de ‘compactagéo mecénica: a} fechomento do empacotamento; b) deformacdo de grBos; c) quebra de osides. escala meso a macroscdpica (isto 6, na escala de amostra de mio a de afloramento), um exemplo da diferenca de compactabilidade entre rochas areniiceas ¢ luticeas é a produgio de dobras ptigmaticas cem diques clisticos de areia (Fig, 14.6). Os diques de areia sio corpos tabulares, com dimensdes geralmen- te centimétricas a submétricas, discordantes em relagio a um estrato luticeo hospedeiro. Eles sio formados por sobrecarga ou por injegio de areias fluidificadas nos sedimentos lamiticos ainda moles (durante 0 esté- gio inicial da diagénese, conhecido como diagénese precoce). Apés a fase de injecio, a lama hospedeira, submetida ao soterramento, passa a compactar-se mais ripida e intensamente que 0 corpo discordante de areia injetada, 0 qual é forcado a deformar-se, para assimi- lara redugio de espessura sofrida pelo estrato de lama, ‘A quebra meciinica é uma feigio microscépica de compactagio comum em grios de minerais duros, pouco maleaveis, O quartzo é mais propenso que 0 feldspato a formar rachaduras de compactagio. A tazio é que o feldspato, menos tigido, acomoda- melhor que 0 quartzo 4 pressio mecinica. O caso ex- tremo de assimilagio de compactacio mecinica, sem quebra, € exemplificado pelas micas (como outros filossilicatos em geral). Por sua prépria estructura foliada, elas sio extremamente flexiveis ¢ amoldam-se aos grios rigidos vizinhos (Fig. 14.5). Analogamente, frag- Fig. 14.6 Dique cléstico de arenito muito fino, com dobras ptigméticas, em meio a rocha laminada de arenito ondulado e lamito. Formagéo Camerinha, provével idade neoproterozbica. Sé0 Luiz do Puruné (Estado do Parand). Foto: P. C.F. Giannini a) ie ae ay Fig. 14.7 Denteamento (cristo-de-galo) paralelo a linhas de clivagem em gréo de estaurolite, observado ao microscépio, Trola-se de feicdo de dissolucdo que pode ser originada tanto ‘cima do lencol de 6gua subterrénea (zona vadosa} como em ‘meio o ele (zona frestica). Grao proveniente de arenito da Ba- cia do Porané (Formagtio Botucatu, Juréssico). Fotomicrograta: EK Mor mentos intrackisticos de pelitos (pedagos de lama ar- rancados do fundo sedimentar da propria bacia) podem ser amassados ¢ introduzidos por grios rigi- dos. Se a compactacio mecinica for intensa, 0 clasto chega a ser espremido por entre os grios. No caso dos grios carboniticos, dissolugio ¢ cimentagio sio fenémenos muito mais importantes que a compactagio mecinica, dada a facilidade com que 0 carbonato se dissolve e se reprecipita, em com- paracio com o quartzo ¢ o feldspato. Ainda assim, efeitos de compactacio mecanica podem ser obser vados em grios constituintes de rochas calcérias. O exemplo clissico é 0 dos odides (esferdides carboniticos concéntricos; ver Cap. 9) amassados € com lamelas desmanteladas (Fig, 14.5). Dissolugio A dissolugio diagenética pode ocorrer sem ou com efeito significativo da presstio de soterramento, A dis- solugio sem pressio ocorre apenas pelo efeito da petcolagio de solugdes pés-deposicionais, ainda na diagénese precoce. Os minerais suscetiveis a0 cariter quimico da Agua intersticial (comumente alcalina) sio corroidos ou dissolvidos totalmente. Olivina, piroxénios, anfibélios ¢ feldspatos, por terem com- portamento invariavelmente instivel nas condigdes superficiais, sAo os minerais mais freqiientemente afe- tados. Como efeito, exibem terminagdes denteadas € PoE MC Meee ee lee c d Fig. 14.8 Representacdo esquemética da evolucdo dos fipos de contato entre gréos terigenos, durante a diagénese: a} con- tatos pontuais; b) contatos planares; ¢) contatos céncavo-convexos; d) contatos suturados. sulcos 20 longo das diregdes de interseceo de clivagem (Fig, 14.7) ou de geminagées. Estas feigdes tém sido descritas mesmo em sedimentos submetidos a pouco tempo de diagénese, como em areias pleistocénicas € holocénicas. A dissolugio sob pressio ou compactacio quimi- ca produz dois tipos principais de feigdes. Em escala de observacio de grios, afeta a morfologia de conta- to (Fig. 14.8), que passa de tipicamente pontual, na diagénese precoce, para planar, céncavo-convexo € suturado, com o efeito crescente do soterramento. A mudanga do tipo de contato intergranular reflete a interpenetracio gradual dos gros submetidos a lenta dissolugio sob pressio. Em escala meso a ‘macroseépica, a compactagio quimica gera estruturas sedimentares de interpenetracio parecidas com os contatos suturados. Entre essas estruturas, destacam- se superficies cuja geometria em corte transversal lembra © registro de um eletroencefalograma, fei¢io esta denominada estililito. Cimentagio A cimentagio é a precipitagio quimica de minerais a partir dos fons em solugio na agua intersticial. Sob esse aspecto, ocorre em conjunto com o proceso da dissolucio, através do qual a concentragio idnica da eNTARES 291 gua é gradualmente aumentada. Quanto 4 composi- io quimica, os cimentos mais comuns em rochas sedimentares' sio os silicosos (quartzo, quartzina e opala), os carbonaticos (calcita, calcita ferrosa, ankerita¢ siderita), os férricose ferrosos (pirita, ‘marcassita, goethita, hematita) e os aluminossiliciticos (argilomin A precipitacio quimica do cimento depende de sua insolubilidade no ambiente geoquimico intersticial Como o ambiente intersticial pode variar de um pon- to para outro de uma mesma rocha, na dependéncia de sua composigao, porosidade, permeabilidade etc., a cimentacao pode ocorrer apenas localmente, O n6- dulo é uma concentragio localizada e bem definida de cimento, criando uma zona visivelmente diferenci. ada dentro da rocha (Fig. 14.9). Ble pode exibir estrutura concéntrica, devida & cristalizagio gradual do cimento a partir de um niicleo de germinagio, e entio recebe 0 nome de concregio. Os nédulos e coneregdes sto es- truturas sedimentares tipicamente diagenéticas. ceddnia, fais como clorita, caulinita, lita e Fig. 14.9 Nédulo métrico de carbonate de célcio em meio silos laminados de idade permiana (Formagéo Teresina) Alloramento da serra do Rio do Rastro (Orleans - Séo Joa- quim, Estado de Santa Catarina}, local onde foi definida a primeira proposta de coluna estratigrética pora o Bacia do Parané (Coluna White). Foto: P C.F. Giannini Recristalizacio diagenética O termo recristalizagio diagenética designa a mo- dificagio da mineralogia e textura cristalina de ‘componentes sedimentares pela agio de solugdes intersticiais em condigdes de soterramento. O efeito da recristalizacio diagenética é particularmente evidente em clastos carboniticos (odides, bioclastos e pelotilhas; ver Cap. 9). Dois tipos de modificagdes sao mais co- muns (Fig. 14.10): 0 primeiro é a transformacio de aragonita em calcita, dois polimorfos de carbo de calcio, Como nfo ocorre nenhuma mudanca sencial de composigio quimica, mas apenas de estru- tura cristalina e, conseqiientemente, de forma dos microcristais, este tipo de recristalizagio diagenética & denominado neomorfismo (em alusio 4 nova forma), (© segundo tipo de modificagio é a transformagio do carbonato (aragonita ¢/ou calcita) em silica, em que a composicdo quimica é drasticamente modifica- da © 0 fendmeno recebe 0 nome de substituicio. A substitui¢io de carbonato por silica é amplamente documentada no registro sedimentar, no somente em grios alobioquimicos como em caleétios autéctones € em nédulos e cimentos carbonsticos em geral. Isto se deve a0 fato de que silica e carbonato possuem comportamentos geoquimicos diametralmente opos- tos. A dissolugao de um implica condigdes favoriveis para a precipitagio do outro. Fig. 14.10 Representacdo esquemétice de corapagas, carbonéticas de pelecipodo sofrendo dois tipos possiveis de recristalizagéo diagenética: neomorfismo e substituigéo. 14.2 Componentes de Rochas Sedimentares Os processos diagenéticos modificam a textura ¢ a mineralogia dos grios, alteram a forma e a taxa de porosidade e criam novos componentes mineralégicos (minerais autigénicos ou autigenos), sob a forma de cimentos. Desse modo, uma rocha ou depésito sedimentar pode ser dividido em dois grupos de com- ponentes: 0s que ja existiam na deposigio os surgidos durante a diagénese (Fig, 14.11). Chamaremos os pri- meitos de deposicionais (primérios) e os tiltimos de diagenéticos (secunditios). +7 Me a ee 14.2.1 Componentes deposicionais: arcabougo, matriz e poros originais ‘Os componentes deposicionais de um agrega- do sedimentar (rocha ou depésito sedimentar inconsolidado) sio trés: 0 arcabougo, a matriz ¢ a porosidade primaria. O arcabougo corresponde a fracio clistica principal (que da nome & rocha ou de- pésito) e as fragdes mais grossas que esta (Fig, 14.11). ‘Num arenito, por exemplo, 0 arcabougo sio os grios de tamanho areia (0,062 a 2 mm) e eventuais clastos ‘na granulagio cascalho (> 2 mm). O material clistico mais fino compoe amatriz (Fig, 14,11). No exemplo do arenito, a matriz seria consti- tuida pelos griios menores de 0,062 mm, ou seja, grios de silte e de argila. O comportamento das granulagdes que compéem a matriz depende da viscosidade do transporte. Fluxos de lama ¢ escorregamentos (Cap. 9) transportam ¢ depositam conjuntamente fragies siltico-argilosas e areno-rudiiceas, O transporte trativo, em contraste, coloca a argila € o silte fino em suspen- io, evitando que eles se depositem junto as fragies areia € cascalho. A presenca significativa de matriz ar- gilosa ou pelitica seria portanto um trago preferencial de depésitos de fluxos gravitacionais. Os poros tém importincia em geologia do petro- leo, pois representam conduto e recepticulo para os hidrocarbonetos. Outra importéncia da anélise dos Poros, esta com um campo ainda mais vasto a explo- rar, reside no estudo de vulnerabilidade de aqiifferos (Cap. 1). A porosidade priméria refere-se ao volume, & geometria e 4 distribuicio de poros que o agregado sedimentar tinha no momento de deposicio. E im- portante ressaltar que se trata de uma feigio efémera, facilmente modificivel pelo soterramento, € raramen- te observivel no produto sedimentar final. Assim, a porosidade priméria ¢ muito mais freqiiente como um conceito de que como fei¢io descritiva concreta. Cu- riosamente, a distribuicio © geometria da porosidade primaria s6 se preserva numa rocha sedimentar quan- do é imediatamente preenchida por cimento (e, portanto, quando deixa de se tornar vazia). Ela é en- tio reconhecida pelo grande volume dos intersticios preenchidos, associado a empacotamento aberto do arcabougo. Nesse caso, 0 cimento que a preenche é interpretado como precoce (Fig, 14.12). Ele deve ter se formado no inicio da diagénese, logo apés a depo- sigdo, restringindo a compactacio. Capituto 14 + Deposiros e Rocuas Sepimentares 293 14.2.2 Componentes diagenéticos: cimento ‘A porosidade secundaria resulta da interagio qui ¢ porosidade secundaria mica do arcabougo e da matriz. com a gua intersticial, favorecida ou no pelas condigdes diagenéticas de tem- Os processos diagenéticos incluem dissolugio e petatura e pressio. fragmentagio, 0 que equivale a criar poros. Por outro lado, a diagénese é igualmente capaz de fechar poros, 5 seja por compactacio, seja pela precipitagio de mine- 14.3 Dando Nomes as Rochas rais sob a forma de cimento, Desse modo, os principais Sedimentares componentes introduzidos num agregado sedimentar por diagénese sio a porosidade secundaria e 0 cimen- ige 14lLe 1442). 14.3.1 Descrigdes e julgamentos: nomes descritivos versus nomes genéticos AA classificagio das rochas sedimentares no escapa A regra que abrange a grande maioria das classifica- des encontradas em geologia e na ciéncia em geral: a de possuir tanto critétios genéticos como descritivos. io existe nenhum mal metodolégico nesse fato, des- de que se saiba distinguir os dois tipos de critérios e desde que se conhecam as vantagens ¢ limitagdes de cada tipo. Os termos descritivos permitem dar nomes 3s ro- chase sio a base sélida sobre a qual se pode edificar a comunicagio cientifica bem como qualquer interpre- tagio genética posterior. Os termos genéticos dizem sobre como se formou a rocha sedimentar ¢ sio bas- Fig, 14.11 Representagto genérica de rochas sedimentares,com _tante usados, talvez além do que deveriam. Entre outros indicagéo de seus componentes principais. Fonte: Wilson, 1977 termos, pode-se mencionar varvito, tilito, turbidito, inundito, tempestito e sismito, que, na ordem da cita- Gio, representam a materializagdo rochasa de estagoes de Sy aes ») iq um ano glacial, de um depésito na base ou na borda de uma geleira, de uma corrente de turbidez, de uma inundagio fluvial, de uma tempestade no mar ¢ de um terremoto. Uma ciéncia que tem certezas absolutas sobre JK cenitios tio imaginativos quanto estes que acaba- mos de mencionar nfo é uma ciéncia, mas uma crengal Isto significa que 0 uso desta classe de ter- mos deve ser feito com extrema prudéncia, pois serve apenas para rotular ou etiquetar certos tipos de rocha de modo provisorio ¢ nio para gravar uum nome para a eternidade. Se estes termos tém alguma fungio, s6 pode ser a de provocar um questionamento. Ao ler ou escrever um termo ge nético, lembre-se de que hi um ponto de interrogacio implicito-ao lado do nome. Em ou- tras palavras, as interpretacdes passam, mas as Fig. 14.12 Desenho esquemético comparando duos distibui- -rochas ficam... Bese cmento de quorzoem um arent: a) pica de cimertagso de porosidade priméria cimentagie precoce) e b} tipice de -cimentagdo de porosidade secundéria (cimentacGo tardia}. Pe ee ey 14.3.2 Classificagao geral: de onde e como tulo, de que os materiais sedimentares dividem-se em velo 0 cedimento? dois universos muito distintos e, sob muitos aspectos, antagénicos: 0 dos terrigenos ¢ 0 dos carboniticos A classificagio mais abrangente das rochas sedimentares é a que as divide em aldctones terrigenas, aléctones alobioquimicas € autéctones (termos discu- tidos no Cap. 9). Estes nomes relacionam-se & sorte mecinico (aldctones x autéctones) € 4 origem dos grios fora ou dentro da bacia sedimentar (exteabacinais x intrabacinais), Trata- , sem diivida, de uma classificagio genética. No Apesar do antagonismo entre sedimentagio terrigena e carbonitica, os dois tipos de materiais po- dem coexistit no mesmo sitio deposicional. Hé todas as proporgdes possiveis de mistura de materiais, terrigenos ¢ nio terrigenos numa rocha sedimentar (pelo menos, se ela for alctone). Desse modo, parece légico que o material que da nome rocha seja aquele que ptedomina em volume. Talvez pelo mesmo mo- tivo, ou seja, pela possibilidade de ocorréncia de grios, terrigenos e carboniticos lado a lado, rochas terrigenas € caleirias possuem também virios eritérios de classifi caio em comum, ainda que, em cada grupo, esses critérios conduzam a nomes diferentes. Dividiremos esses critérios em trés grupos: texturais, quimico- mineralogicos © geométricos (relativos a estruturas sedimentares), conforme a Tabela 14.1, ocorréncia ou no de trans entanto, a simples descri¢io da composic¢io quimico- mineralégica das rochas é suficiente para permitir 0 uso desta classficagio: rochas sedimentares quartzo- feldspaticas, por exemplo, sio praticamente sinénimo de rochas extrabacinais terrigenas, assim como fosforitos, cloretos e principalmente calcétios sio quase sindnimos de rochas intrabacinais. Trata-se de por em pritica a constatacio, comentada no infeio deste capi- Tabela 14.1 Critérios e termos mais usuais na classificagdo de rochas sedimentares terrigenas e carbondticas. Os termos grafados em azul, verde e vermelho sdo especificos para rochas de granulacao, cascalho, areia e lama, respectivamente. Tertigeno Textural Granvlacéo Rudito (psetito) Arenito (psomito) Lotito (pelito) Proporcao de matriz Aenito, ortoconglomerado Wocke, paraconglomerado Lomito Arredondamento ‘Conglomerado Brecha Mineralégico Proporgéo GFL ‘Quartz rudito, quartzo (auartzo, feldspato, iticos) orenito/wacke Ruditofeldspatico, arenito/wacke feldspético Rudito tco, arenito/wacke Ico Diversidade ou purezo ‘Conglomerado oligomitico, conglo- composicional ‘merado polimitico Folhelho, folhelho carbonético, {olhelho silicoso, margo, porcelanito Geométrico Fissilidode + » Folhelho (estruturas sedimentares) Ritmicidade Ritrito Carbonético Textural Granvlacéo Cakcirrudito (dolorudito) Calcarenito (doloarenito} Calalutto (dololtto) Tipo de grdo / tipo de Ooesparito, oomicito material intrsicial Intraesparito, intramicrito Bicesparito, biomicrito Pelmicrito, pelsparito Minerol6gico Relagdo calcita/dolomita Calcério, dolomite See a a} 14.3.3 Classificagao das rochas terrigenas No estudo de rochas sedimentares, 0 conceito de textura refere-se as propriedades fisicas de particula. Sua descri¢io ou medicao pode ser aplicada a cada gto individual. As trés propriedades texturais clissi- cas sio o tamanho do grio (granulacio), a forma ¢ suas feigdes superficiais de escala menor (isto é, inde- pendente da forma). [As propriedades fisicas (¢ geomeétricas) cuja avalia- Gio depende do exame do conjunto das particulas no sio texturas, mas propriedades de agregados ou de massa. Podem ser incluidas af a petrotrama (arran- jo espacial dos grios uns em relaco aos outros), a porosidade (quantidade relativa de poros), a permeabilidade (quantidade relativa de poros intercomuniciveis, que permitam a passagem de flui- dos) ¢ as estruturas sedimentares (arranjo de grios quanto a qualquer uma das demais propriedades, ea- paz de produzit um padrio geométrico visivel no depésito ou rocha sedimentat). Existem também pro- priedades de agregado, que so diretamente derivadas de parimetros texturais. F. 0 caso da homogeneidade de forma ou de tamanho dos grios, conhecidas res- pectivamente como sele¢io morfométrica ¢ selecio granulométrica. A elimina de matriz € 0 processo mais simples de selecio granulométrica, o qual sera incluido entre os critérios texturais de nomenclatura. ‘Nomes texturais a) Nomes granulométricos: rochas rudaceas, areniceas ¢ luticeas © tamanho do gro é a propriedade textural mais utilizada na nomenclatura de rochas tertigenas ¢ a sua medida recebe o nome de granulomettia, Os nomes granulométricos das rochas baseiam-se nas escalas de tamanho de grao mais utilizadas pelos sedimentélogos, discutidas no Cap. 9. Utilizam-se assim os termos de origem latina rudito, arenito ¢ lutito, ou seus equiva- lentes de otigem grega: psefito, psamito e pelito, Para rochas que possuam mais de uma granulacio, podem- se utilizar termos compostos. Por exemplo, uma rocha com 70% de arcia ¢ 30% de silte/argila é um arenito lticeo. Se as proporgies forem inversas, trata-se de um pelito ateniceo. A proporcio limitrofe entre um arenito e um arenito luticeo (ow vice-versa) mais ado- tada é de % (75%). De acordo com essa convengio, um arenito com 80% de areia © 20% de silte-argila niio é um arenito lutéceo, mas um arenito (acrescente expresso com silte-argila, se quiser ser mais preciso). b) Nomes baseados na quantidade relativa de matriz: arenitos, wackes, ortoconglomerados e paraconglomerados © proceso mais elementar de sclecao granulométrica consiste na deposigio trativa (Cap. 9) de areia ou cascalho, com manutengio das particulas, finas em suspensio. Pode-se dizer que toda corrente (fuxo trative) ou onda (fuxo oscilatério), acima de um certo nivel de energia, é capaz de realizar este tipo de selegio. O resultado é a deposigio de areia e/ou cascalho limpos, isto é sem matriz. Assim, a separa- lo das rochas sedimentares em dois grandes grupos, quanto A presenga ou auséncia de matriz, é uma classi- ficagio que tem implicagdes genéticas quanto 4 energia € 20 mecanismo de transporte. Além disso, a identifi- cagio de matriz em uma rocha sedimentar possui sempre uma dose de interpretagio, porque nem todo material lutéceo € matriz: a massa fina pode ter-se infiltrado a partir de camadas sobrejacentes durante a diagénese, por exemplo. Um outro fator complicante E que nem toda matriz continua fina apés a deposicao, porque os filossilicatos podem transformar-se em cris- tais maiores durante diagénese (matriz transformada), ‘Uma vez que a distingio entre matriz, original ou trans- formada, e finos de origem diagenética (matriz falsa) pode ser muito dificil em alguns casos, as classifica ces de rochas terrigenas baseadas na observagio da matriz no utilizam como critétio a simples auséncia ou presenga de matriz, mas a sua quantidade relativa, Nos psamitos terrigenos, a fronteira entre rochas limpas e impuras equivale aos 10% de matriz verda- deira, original ou transformada (Fig, 14.13). Os psamitos sio classificados como arenitos, abaixo des- se limite, € como nuckes, acima dele. Um nacke pode ser um arenito huticeo ou um lutito areniceo em que co material fino tem cariter de matriz. Analogamente, © termo lamito inclui lutitos em que o material fino tem carter de matriz. Dentre as rochas rudiceas, os equivalentes a arenito « naoke Sio, respectivamente, os termos ortoconglome- mado € paraconglomerado (Fig, 14.14). Embora alguns autores sugitam quantidades limitrofes de matriz fina como fronteira entre estes dois tipos de rochas (em torno de 15%), 0 critério mais operacional em traba- tho de campo consiste em observar se os clastos grossos (isto é, maiores de 2: mm) se tocam ou se sto separados por matriz, Dai falar-se em rochas susten- tadas pelo arcabouco (ou pelos clastos grossos) € rochas sustentadas pela matriz pie eee Fig. 14.13 Clossificagéo de arenitos. Segundo Dot, 1964, 4) Ortoconglomerado _b} Ortoconglomerado. TAveric Careia El tema Fcascaiho Fig. 14.14 Representacdo esquemética: orto x Paraconglomerado. “a", “b", e “c" sdo sustentados pelo ‘arcabougo, enquanto “d” possui arcabougo flutuante (6 sus- tentado pela matriz). Fonte: Harms et al., 1975. A experiéncia demonstra que, de ini- io, hai certa dificuldade para distinguir, entre os termos paraconglomerado ortoconglomerado, qual deles se refe- reo rudito sustentado pelo arcabougo € qual se refere ao sustentado pela ma- triz. Mais uma vez, a anilise cetimolégica das palavras € muito itil, prefixo para € 0 mesmo de parado- x0, € lembra, portanto, contradigio. Ortodoxo é usado em portugués no sentido de dentro das tradigdes. O pre- fixo ont aparece também em ortogonal. Significa, portanto, reto ou correto, Um conglomerado correto, clissico, tradici- onal, é aquele que tem muito cascalho ¢ sustentado pelo arcabougo. E ortoconglomerado. Ja 0 conglomera- do em que a lama, € nio 0 cascalho, sustenta a rocha é paradoxal. paraconglomerado. ©) Nomes alusivos ao arredondamento dos gris: brechas e conglomerados ‘A forma dos gros nio tem sido formalmente lem- brada como critério usual de classificagio descritiva. De maneira informal, no entanto, costumam-se dis- tinguir as rochas rudéceas ou psefiticas de arcabouco anguloso, designadas brechas, das de arcabougo subarredondado a arredondado, denominadas con- glomerados. Do ponto de vista interpretativo, as brechas sio associadas a transporte muito curto de material recém-desagregado, tais como brechas de intraclastos tabulares arrancados de estratos subjacentes (Fig. 14.15), brechas de colapso crstico e brechas de sedimentos cataclasados. A maioria dos usos do ter- mo brecha encontrada na literatura refere-se, como nesses exemplos, a transporte epictistico ausente ou muito localizado (restrito no somente a bacia como a0 proprio sitio deposicional), Nomes mineralégicos Nomes mineraldgicos de rochas areniceas Os indices mineralogicos de maturidade sedimentar em depésitos terrigenos sio a relagio quartzo/ feldspato, a relagio quartzo / fragmentos de rocha nio-silicosa (considerados mais instiveis) e a diversi- dade de mineralogia (Cap. 9). Esses parimetros sio CapituLo 14 + Depdsitos € Rocuas Sepimentares 297 al utilizados como critérios para classificar rochas sedimentares terrigenas. Os arenitos tém sido histori- camente subdivididos em quartzo arenitos (ou quartzarenitos), arenitos feldspaticos (arcdsios, nas clas- sificagdes mais antigas) e arenitos liticos (ou litarenitos), conforme prevalecam respectivamente quartzo, feldspato ou fragmentos de rocha instaveis (xistos, basaltos, metapelitos, andesitos, granitos ete.) em sua composigio. Deve-se ressalvar que os critérios quanti- tativos, isto é, quanto de cada mineral a rocha deve ter para receber cada qualificativo, variam bastante de autor para autor. Tanto os psamitos limpos, ou arenitos, quanto os psamitos ricos em matriz, ou mackes, po- dem receber os mesmos trés qualificativos: quartzoso, feldspitico (arcoseano) e litico (Fig, 14.13). Nomes mineralégicos de rochas rudaceas No caso das rochas rudaceas, o critério classico de maturidade mineralégica empregado na classi- ficagio ¢ a diversidade composicional. Trata-se de um parimetro inverso de maturidade: quanto mais diversificada a composigao do arcabougo, mais ima- tura € a rocha. No entanto, a diversidade composicional depende também da rocha-fonte. Um conglomerado formado ao pé de uma escarpa de falha ativa ou recente, como num leque aluvial ou submarino, tende a ter area-fonte proxima e pouco diversificada, independentemente de seu transporte curto. A baixa diversidade sugeriria ma- turidade alta, mas a maturidade real do depésito é baixa, Convém, portanto, nao se restringir a0 exa- me da diversidade composicional, e atentar também pata o tipo de composicio. Em nosso exemplo, muito provavelmente o conglomerado seria constituido por Fig. 14.15 Brecha intraformacional de matriz orenosa (dois tercos superiores da imagem], em contato irregular sobre arenito com estraificacée plano-paralela. Rochas permo- tridssicas da Bacia do Parana (Formagao Pirambéia), na regiéo de Séo Pedro, Estado de Séo Pavlo. Foto: PC. F. Giannini fragmentos de rocha instével, como granito ou basalto (as litologias mais comuns na crosta), o que denunciaria sua baixa maturidade quimica real Desse modo, a classificagio composicional das rochas rudiceas é feita em dois passos. No primei- ro, classifica-se a rocha, quanto a diversidade composicional do arcabouco, em polimitica ou oligomitica. O prefixo poli vem do grego e signifi- ca muitos/muitas (por exemplo, politécnica). No caso, muita diversidade composicional. O prefixo oligo, de oligarquia por exemplo, indica poucos/ poucas. No caso, pouca diversidade composicional, rudito polimitico pode ser definido como aque- Je em que mais de duas litologias ou mineralogias so necessirias para perfazer 90% da composigio do arcabougo. O oligomitico define-se como o tudito em que apenas uma ou duas litologias ou mineralogias perfazem mais de 90% da composi- cio do arcabouco. No segundo passo, classifica-se a rocha rudicea quanto ao tipo de mineralogia/litologia que a com- pde. Usando o mesmo principio de classificacio de psamitos, os ruditos podem ser subdivididos em quartzo ruditos, litorruditos e ruditos feldspaticos. Estes ltimos sao raros na natureza, exceto na dimensio de grinulos ou seixos peque- nos, pois sio incomuns os cristais de feldspato maiores que poucos centimetros. Nomes mineralégicos para rochas lutaceas Um instrumento clissico para classificagio quimi- co-mineralégica de rochas sedimentares de granulacio fina é o diagrama triangular proposto por Alling em 1945. Este diagrama classifica as rochas luticeas de acordo com a proporgio relativa de tés componen- tes (os trés vértices do tridngulo): argilominerais (filossilicatos hidratados), silica (quartzo, calcedénia, opala) e carbonatos (Fig, 14.16). O triingulo de Alling nao se limita ao universo das rochas terrigenas porque grande parte das rochas luticeas carbonsticas e silicosas tem origem quimica e/ou biogénica. Nao se limita também a0 conjunto das rochas aléctones, pois algu- ‘mas das rochas calcérias e silicosas finas sio formadas por microcristais precipitados in situ, Apesat disso, a Classificagio é operacional, porque desereve com fi- delidade as diferentes misturas de terrigenos ¢ nio-terrigenos observadas na natureza, ¢ particular- mente freqiientes nas granulagdes mais finas. Os silexitos e porcelanitos podem receber denominagdes especificas, que explicitam a forma biologica de ocorréncia dos grios de silica, como, por exemple, silexitos € porcelani- tos radio carapagas de um protozoario marinho denominado radiolé rio), diatomiticos (ricos em carapacas de algas diatomiceas; ig. 14.17) e espongiliticos (1i- cos em espiculas silicosas de espongiatios). Mais do que os seis tetmos do triingulo, estas Ultimas adjetivagdes dependem necessariamente de um estudo mictoscépico do depésito por isso no devem ser utiliza- das como denominagées de campo. iticos (ricos em ‘Nomes relativos a estruturas sedimentares: folhelhos ¢ ritmitos As estruturas sedimentares deposicionais (mar- cas onduladas, estratificagdes cruzadas e estratificagdes plano-paralelas) sio de fundamental importancia na compreensio dos processos de Fig. 14.17 Corapacas silicosos de algas diatoméceas 00 microscé- pio eletrénico de varredura. Imagem obtida com detector de elétrons secundérios. Fotomicrografia: |. J. Soyeg Pit ee SILICOSA (SiO, livre) » 40 2 By COMPOSICAO - ESTRUTURA Fig. 14.16 Diograme triangular para classificagéo composicional de rochas de granulagéo lutécea. Os vérices do tringulo referem-se aos extremos composicionais. As subdivis6es internas indicam as esiruturas sedimentares predominantes. Fonte: Alling, 1945. deposigio (Cap. 9) e na individualizagio de facies sedimentares (unidades de descricio de depésitos sedimentares, com possivel significado em termos de proceso sedimentar). De modo geral, uma mesma litologia (no sentido visto até aqui, em que litologia resume-se a caracteristicas texturais € mineral6gicas) pode apresentar diferentes es- truturas. Contudo, a mesma estrutura pode ocorrer em muitos tipos de litologia. Desse modo, a estrutura € tradicionalmente tratada como feigio independente da litologia, sem in- fluir na terminologia adotada para a rocha. Excegdes encontram-se entre as rochas luticeas terrigenas. A relagio entre aporte de filossiicatos e estrutu- rade rochas luticeas € sugerida no tringulo de Alling (Fig, 14.16). Com a redugio no teor de argilominerais, a estrutura do pelito passa de fissil, nos folhelhos, a laminada, nas margas ¢ folhelhos, silicosos, e daf a estrutura em camada, nos calearios finos, porcelanitos ¢ silexitos. Para entender plena- mente esta relagio entre tipo de rocha lutécea e estrutura sedimentar, é preciso conhecer 0 signifi- cado termos fissilidade, ago € acamamento. Sio todas formas de estratificacio. dos lami POO Be ee Cree OR ee od 14.1 Estratos, camadas e léminas: os tijolos de construgio de depésitos sedimentares A maioria das rochas sedimentares pode ser subdividida em camadas, estratos ou liminas. Embora, no senso comum, ‘estes termos paregam sindnimos, na linguagem geoldgica existem diferengas entre eles.O estrato é uma unidade fisica ou visualmente distinta, definida pela distribuicao de suas caracteristicas sedimentolégicas deposicionais (homogéneas ou vvarléveis segundo um padrio organizado) e/ou pela presenca de superficies delimitantes, de origem primaria deposicional ‘ou erosiva. Os estratos cujas caracteristicas sedimentolégicas variam segundo padrio organizado podem set ritmicos, c{clicos ou gradados. Os ritmicos alternam repetidamente duas litologias (ABAB...);0s ciclicos, mais de duas (ABCBA...); (8 gradados apresentam mudanca gradual de granulacio. Acstratificagio é uma superficie de separacio fisica que indica deposicio segregativa no tempo ¢/ou no espaco. Fo que delimita dois ou mais estratos vizinhos. Pode ser originada de duas maneiras diferentes: 1 pausa na deposicio com ou sem erosio,ligada & mudanca abrupta nas condigdes deposicionas (energia e aporte). Neste ‘caso, aestratificagio é uma superficie formada aproximadamente num s6 tempo (sincrona); 2. sclegio espacial de grios (de diferentes tamanhos, por exemplo) sob aporte e energia constantes. Neste caso, 2 cestratificagio nao ¢ obrigatoriamente formada num s6 tempo (pode ser diicrona). A camada é um estrato considerado fundamental em dada escala de anilise de afloramento ¢ a liminaé o menor estrato. visivel. A fissilidade é uma foliacao sedimentar e encontra-se abaixo da escala de laminagao, pois embora sua existéncia possa ser visualizada, nao é possivel ver claramente a olho nu os limites de cada folha. Esta foliagio no se deve & diferenca de cor primaria nem a diferencas de granulometria ou mineralogia, mas 4 orientagao deposicional dos microctistais placdides de argilominerais. E. a caracteristica distintiva dos folhelhos Os ritmitos sio rochas em que a estratificacio pla- no-paralela se deve a uma alterndncia repetitiva entre estratos de duas litologias diferentes. O caso mais co- mum €a intercalagao entre lutito escuro, rico em matéria orginica, ¢ atenito ou siltto claro, O par claro-eseuro compe a unidade ritmica da repeticao. A producao de ritmitos deve-se a dois tipos bisicos de processos: oscilagdes no aporte de material em suspensio, difuso na coluna de 4gua (sobrefluxo ou aif), ou corten- tes densas, de fundo de bacia, de cariter episédico ¢ intermitente (subfluxo ou wnderflow). Neste iltimo caso, © par claro-escuro tende a ser gradado, Os dois proces- sos podem alternar-se num mesmo sitio deposicional, ¢ seu registro aparecer intercalado, 14.3.4 Classificago das rochas carboniticas Nomes texturais Nomes granulométricos: calcarenitos, calcirruditos € calcilutitos As rochas calearias clisticas podem ser classifica- das segundo a granulagio, de modo anilogo as tetrigenas. Para distinguir a terminologia de calcatios clisticos em relagio a rochas terrigenas, os termos rudito, arenito ¢ lutito devem ser antecedidos de um ptefixo que indique a composi¢io mineralégica da rocha. Tém-se assim calcitruditos, calcarenitos (a forma calciarenito seria mais adequada, porém é me- 10s usual) ¢ ealcilutitos, para calcérios de composicio calcitica. A porcentagem minima de arcabougo tudiceo ou arendceo necesséria para denominar uma rocha de calcirrudito ¢ calcarenito é de 10%. Desse ‘modo, rochas calcérias com mais de 90% de matriz micritica sio automaticamente classificadas como calcilutitos. Para calcdtios de composigao primaria dolomitica, substitui-se o prefixo cali por dole Nomes granulométricos para rochas nio- carbondticas, formadas de material de dentro da bacia (fosforitos e silexitos) A classificacio granulométrica de rochas carbonaticas segundo Folk pode ser adaptada para rochas clisticas intrabacinais com outras composicées quimicas, tais como dolomita, fosfato (colofana) e silica micro a criptocristalinos. Os fosforitos, definidos como rochas sedimentares com mais de 18% de P,O,, fica- iam assim subdivididos em fosfarruditos, fosfarenitos € fosfalutitos. Os fosfalutitos incluiriam os fosforitos microcristalinos homogéneos, também denominados colofanitos ou microfosforitos. As rochassilicosas, com mais de 50% de silica livre, poderiam, de acordo com ‘© mesmo critério, ser classificadas em silruditos, silarenitos ¢ silutitos. Os silutitos incluiriam os silexitos € porcelanitos da classificagio triangular de Alling, Nomes baseados no tipo de grio textural mais utilizada para A segunda classifi caleitios abarca aspectos niio contemplados nas classifi cages anteriores, porém importantes na interpretacio dos processos deposiciomais: o tipo de grio alobioquimico prevalecente (odides, bioclastos, pelotilhas eintralitoclastos) 10 atcabougo e o tipo de material intersticial dominante (Ge matriz deposicional ou cimento). A constituigio do arcabouco fornece o prefixo do nome da rocha: 0, para bide, bio, para fosseis (a figura da primeira pagina deste capftulo € um exemplo), pa, para pelotilhas, e snfna, para intraitoclastos. A constituigo do carbonato intersticial for- nece © sufixo do termo: micrito, para preenchimento dominantemente microcristalino, com carter de matriz lamitica caleétia, e esparito, para preenchimento domi- nantemente espitico (espato significa cristal) isto 6, cristais limpos de carbonato, maiores de 30 mm. Tém-se assim ito nomes, resultantes das combinagdes de prefixo e su- fixo: oomictito, ooesparito, biomicrito, bioesparito, pelmicrito, pelsparito, intramicrito ¢ intraesparito (Figs. 14.18, 14.19 e 14.20) Intraclastos Obides | aes Bioclastos Pelotilhas calcita lespatica leak Imicrocristalina Fig. 14.18 Quadro da classficagéo de rochas calcérios, bo- seada no tipo de gro e de carbonate interstical Ue cee re ie ry Fig. 14.19 Ooesparito, observado em secéo delgado (polorizadores cruzados). Notar nécleo de microclinio no obide central. Os gréos possuem cerca de 2mm de diémetro. Calcério da Bacia de ltabora’, Rl. Fotomicrogratia: A. M. Coimbra, L. A. Fernandes e A.M. Gées. Fig. 14.20 Biomicrito silicificado da India, observado & lupa. Os bioclastos de moluscos possuem cerca de 0,5 em de com- primento em média, Fotomicrogrofia: A. S. Assato, |. J. Soyeg eC. Giannini, Nomes quimico-mineralégicos: dolomitos ¢ calcarios Entre as propostas puramente composicionais de 14.21 € provavelmente a mais utilizada. Ela nio leva em con classificagao de rochas carboniticas, a da F sideragio a origem da composigio, se primaria ou secundaria. Adota a definigio classica de rocha carbonatica, isto é, aquela que contém pelo menos de carbonato em sua composi¢io. As rochas com mais da metade sua massa em carbonato dividem-se em oito grupos, Calcitios ¢ dolomitos sio as rochas et Cede eer eA ORL | 14.4 Para que Servem as Rochas e Depésitos Sedimentares e para que Serve o Seu Estudo? A importincia das matérias-primas sedimentares no, cotidiano das civilizagdes expressa-se em sua influéncia histérica na linguagem ¢ nos costumes (Cap. 21), Até hoje, ninguém consegue pensar em sala de aula, por exemplo, sem lembrar de giz, lousa e eaderno, O giz era original- mente obtido a partir de rochas caledrias finas, pulverulentas, que deixavam um trago esbranquicado quando tiscadas sobre uma rocha mais dura e lisa, A rocha dura ¢ lisa sobre a qual se escrevia nas salas de aula pelo menos até meados do século XX era o folhelho mal arieegee 18% 04 a ardésia (folhelho levemente metamorfizado; Cap. Dolomita Caleta 18). Posteriormente, a rocha foi substituida pelo cimento Fig. 14.21 Diagrama triangular pore classificagéo composicional _Pintado, mas a cor da pintura continuou imitando 0 ver- da rochat carbondicas edlelo-magnesioncs de-escuro ou 0 preto caracteristicos dos folhelhos, de onde surgiu a denominagio quadro-negro. No caderno, a participacio da matéria-prima geol6gi- com menos de 10% de impurezas (nio-carbonatos) _ © é mais sutil, mas nem por isso menos visivel ¢ clara, cuja relacao dolomita/calcita é de 1/9 ¢ 9/1, respecti- no sentido literal destas duas palavras, porque a substin- vamente, Rochas carboniticas com menos de 10% de _ cia utilizada para clarear o papel € a caulinita, um impurezas e relagio dolomita/calcita entre 9/1 ¢ 1/1 _atgilomineral, na maioria dos casos oriundo de depésitos sedimentares. Os depésitos de caulinita consistem geral- sio ditas dolomitos calcétios. Reciprocamente, rochas ‘mente de argilas esbranquigadas. No entanto, nem toda puras com relagio calcita/dolomita entre 1/1 ¢ 1/9 sio denominadas calcirios dolomiticos. Para teores de __a¥bila branca € pura ou mesmo suficientemente rica em impurezas entre 50 € 10%, acrescenta-se as mesmas _“aulinita para poder ser explotada economicamente para designacdes (dolomito, caleario, dolomito caledrio ¢ industria de papel. Outros argjlominerais podem estar presentes, com propricdades indesejaveis. calcario dolomitico) o adjetivo impuro. O emprego dos argilominerais € as- sunto suficiente para um livro, Um livro, aliés, que ganha piginas novas a cada dia: a tecnologia de argilas é um dos ramos da geologia aplicada que mais cresce, com perspectivas de tornar-se o principal re- curso mineral do século XXI, a0 lado da gua subterrinea € do petréleo. Isto se deve principalmente ao desenvolvimento das cerimicas especiais, com proprieda- des especificas de condutividade e densidade que he conferem aplicagdes tecnolégicas na indtstria eletrdnica, na construsio civil e na engenharia aeronéu- tica, Mas deve-se também aos usos mais simples porém pouco conhecidos d gilas em nosso dia a dia: por exemplo, na fabricagio de sabio em pé e remédios, na Fig. 14.22 Extracdo de ritmito (nome comercial: ardésia), na Pedreira Ihab, muni cipio de Rio do Sul (SC). Notar que a rocha jé é retirada na forma apropriade a seu Uso como piso. Foto: PC. F Giannini limpeza de peles e couros de animais em curtumes ¢ no enchimento de asus sanitérios para gatos domésticos. Pisos em jardins, terracos e calcadas de dezenas de milhares de cas por uma pedra cinza-escura, conhecida comercialmente como andésia, mas que, na maioria dos casos, é um folhclho intercalado em laminaciio ritmica com siltito. As pedreitas de onde provém este ritmito concen- tram-se hoje na regio leste do Estado de Santa Catarina (Fig, 14.22). No passado, houve pedreiras importantes da mesma rocha na regio de Itu (Estado io Paulo). Uma delas, desativada, foi transforma- da em parque turistico (0 Pargue do Varvito). Se prestarmos atengio a estes pisos de ritmito, encontra- remos em sua superficie marcas onduladas, produzidas por correntes, e pistas deixadas por pequenos animais (possivelmente artrépodos). ¢ edificios brasileiros sio revestidos de Fig. 14.23 Lojes de arenito silicificado [Formagéio Botucatu) 4a regido de Ribeiréo Claro (PR, prontas paro comercializacéo. Notor a presenco de marcas onduladas na supertcie da laje, produzidas pelo vento que soprou no deserto hé mais de 140 mmilhdes de anos. Foto: P L. Fonseca e PC. F Giannini ly ie ce We ay © uso como pedra de revestimento ¢ de constru- io envolve também os outros dois tipos principais de rochas sedimentares: arenitos ¢ calcarios. Arenitos réscos € amarelados constituem exemplo de pedra de revestimento muito utilizada nas casas e edificios do Brasil, principalmente nas regides Sul e Sudeste. As vatiedades silicificadas (isto é, com cimento de silica entre os griios de areia) sio as mais apreciadas, por causa de sua resisténcia e coesio (Fig. 14,23). Estas rochas provém principalmente de uma unidade cstratigeifica da Bacia do Parana, a Formacio Botucatu, que corresponde a dunas eélicas do final do Jurissico (140 milhdes de anos) e aflora em varios Estados do Sul-Sudeste do Brasil. Em Araraquara (Estado de Sio Paulo), por exemplo, varias calgadas so feitas de arenito, algumas delas com pegadas de pequenos dinossauros! A importincia dos calcérios como rocha de cons- trugio € revestimento remonta aos monumentos pré-histéricos e histéricos, desde os sambaquis (mon- tes de conchas de moluscos construidos pelo homem, pté-histérico), até os virios edificios das civilizagoes gregas € romanas, pasando pelas pirimides do Egi- to. A famosa esfinge também é constituida de calcétio, ainda que no seja propriamente uma construcio. Tra- ta-se de uma rocha calcétia esculpida e escavada in situ: cabeca, pescogo € tronco da esfinge correspondem a trés estratos sedimentares, com resisténcias e aspectos diferentes. O fato de 0s monumentos de caleétio da Europa, do Egito e do Oriente Médio fazerem-nos pensar imediatamente em coisa velha, no s6 na idade, mas, ‘ho aspecto, tem uma parcela de fundamento geol6gi- co, quanto a solubilidade ¢ fragilidade fisica do caledrio, evidenciada pela exposigio, durante séculos, a0 uso ¢ 4s intempéries. Talvez por isso, nas tiltimas décadas, os calcitios tém ganhado preferéncia no revestimento de ambientes internos, além do fato de as tonalidades cla- ras, dominantes nesse tipo de rocha, ajudarem a refletic a luz ¢ a iluminar esses ambientes. Daf seu uso, como. norma, em pisos paredes de grandes shoppings. Retornando & casa como exemplo de uso de ma- teriais sedimentares, encontraremos o proprio concreto, em que a areia é um dos ingredientes principais. consumo da areia em construgao civil cresce na pro- porcio da expansio dos centros urbanos. Assim, niio hi grande cidade no Pais que nio disponha de uma dezena de lavras desse material, também conhecidas como portos de arcia, A areia, se de composi¢io quartzosa, € também uma das matérias-primas preferidas pelas industrias de vidro, abrasivos e moldes de fundicio. Embora os quartzitos (arenitos metamorfisados) sejam mais pu- tos em quartzo, a exploragio de arenitos ¢ areias tém como vantagem a facilidade de desagregacio (0 que significa economia de energia ¢ tempo). (Os materiais sedimentares sio ainda importantes fornecedotes de minerais de minérios metilicos ¢ de gemas, A cena do garimpeiro concentrando ouro ou diamante nas aguas de um rio, com auxilio de uma bateia, € 0 exemplo classico desse tipo de extracio. Nao é raro depararmo-nos com uma pelicula de arcia de cor diferenciada concentrada na parte alta de uma praia (Figs. 14.24 e 14.25), no banco de um rio meandrante ou no flanco de uma duna, ‘Trata-se de superficiais de minerais pesados, atra- concentra Fig. 14.24 Concentracéo natural de mi nerais pesados escuros em proia do sul da Bahia. O teor de minerais pesados nas oreias da superficie dessa praia varia com a ener. gia das ondos. Foto: A. M. Coimbra e L. A P Souro. vés da atuacio hidro ou aerodinimica de agentes sedimentares naturais. E: nadas pliceres, constituem uma das fontes prineipais de extracio da maioria dos minérios metilicos © pre- ciosos, entre os quais: ouro, ilmenita (minério de titinio), cassiterita (minério de estanho), diamante, corindon (nas suas variedades gemolégicas rubi e safira), crisoberilo (na sua variedade gemolégica alexandrita), topazio, monazita (fosfato de terras raras empregado em rea- tores nucleares) ¢ granada (mineral semi-precioso, também usado como abrasivo). © mineral que pre- domina e confere cor negea & maioria dos depésitos de plicer é a ilmenita (Fig, 14.24). No entanto, conhe- cem-se pliceres com diferentes coloragées, de acordo com 0 mineral dominante (Fig. 14.25). Os pliceres de areia de Guarapari (Estado do Espirito Santo) devem sua cor amarelada a alta cgncentracio de monazita as concentragdes, denomi Fig. 14.25 Praia do Fomo, em Armacéo de Bizios (Rl). A cor résea das areias deve-se & elevada concentracao de granada, proveniente dos biolita-granade xistos que cit= cundam a praia. Foto: PC. F Giannini