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Quem é?

Comênio - O pai da didática moderna


O filósofo tcheco combateu o sistema medieval, defendeu o ensino de "tudo
para todos" e foi o primeiro teórico a respeitar a inteligência e os sentimentos
da criança
o pensador tcheco que é considerado o primeiro grande nome da moderna
história da educação.

A obra mais importante de Comênio, Didactica Magna, marca o início da


sistematização da pedagogia e da didática no Ocidente. A obra, à qual o autor
se dedicou ao longo de sua vida, tinha grande ambição. "Comênio chama sua
didática de ‘magna’ porque ele não queria uma obra restrita, localizada", diz
João Luiz Gasparin, professor do Departamento de Teoria e Prática da
Educação da Universidade Estadual de Maringá. "Ela tinha de ser grande,
como o mundo que estava sendo descoberto naquele momento, com a
expansão do comércio e das navegações."
Comênio era cristão protestante e pertencia ao grupo religioso Irmãos
Boêmios, ao qual se manteve vinculado por toda a vida, tornando-se, em 1648,
bispo dos morávios.

O nome Comênio é o aportuguesamento da assinatura latina (Comenius) de


Jan Amos Komensky, nascido em 1592 em Nivnice, Morávia (então domínio
dos Habsburgos, hoje República Tcheca). O pensador Comênio foi filho único
de um casal de membros do grupo protestante Irmãos Boêmios. Na
Universidade de Heidelberg (Alemanha), se entusiasmou com as idéias de
filósofos que criavam uma concepção de ciência baseada no empirismo.
Seguiu carreira religiosa e teve de fugir para a Polônia quando, no início da
Guerra dos 30 Anos, em 1618, o rei Ferdinando II decidiu reimpor o catolicismo
na Boêmia. Sua revolta com a situação o levou a escrever obras filosóficas e
pedagógicas satirizando a ordem vigente e propondo mudanças radicais.
Essas idéias seduziram pensadores da Inglaterra, que o convidaram a
trabalhar no país, mas o projeto foi abortado pela eclosão da Guerra Civil
Inglesa, em 1642. Tentativas de reforma escolar a pedido dos governos da
Suécia e da Hungria acabaram fracassando – em parte por causa da
insistência do pensador em divulgar sua "pansofia", sem sucesso – e ele voltou
para a Polônia. Comênio teve novamente de fugir de uma guerra civil e
estabeleceu-se em Amsterdã, onde permaneceu até morrer, em 1670. Por
essa época, seus livros de texto ilustrados para o aprendizado de línguas e
ciências tinham se tornado uma bem-sucedida novidade nas escolas da
Europa.
Em busca da harmonia universal
Comênio viveu a maior parte da vida cercado de guerras. Algumas delas, como
a Guerra dos 30 Anos, de protestantes contra católicos, lhe diziam respeito
diretamente. Toda sua obra foi marcada profundamente por isso, uma vez que
o fim último de seu pensamento era a compreensão universal, que uniria toda a
humanidade. Ele perseguiu desde a juventude a unificação da totalidade do
conhecimento humano, porque imaginava que ele era finito e imutável. A
construção de uma enciclopédia do saber e sua adaptação às capacidades
infantis são o grande tema da pedagogia de Comênio, e para sustentá-la ele
criou uma base filosófica que denominou "pansofia", a procura de um princípio
básico que harmonizasse todo o saber. Ao contrário de seu pensamento
educacional, que suscitou interesse pela Europa afora, a pansofia não teve
seguidores.

Apresentação da Proposta

No livro, o pensador realiza uma racionalização de todas as ações educativas,


indo da teoria didática até as questões do cotidiano da sala de aula. A prática
escolar, para ele, deveria imitar os processos da natureza. Nas relações entre
professor e aluno, seriam consideradas as possibilidades e os interesses da
criança. O professor passaria a ser visto como um profissional, não um
missionário, e seria bem remunerado por isso. E a organização do tempo e do
currículo levaria em conta os limites do corpo e a necessidade, tanto dos
alunos quanto dos professores, de ter outras atividades.

Salvação da alma
Sob influência de seitas protestantes e do filósofo inglês Francis Bacon (1561-
1626), Comênio acreditava que a salvação da alma poderia ser alcançada
durante a vida terrena e que o caminho para isso poderia ter a ajuda da
ciência. Para ele, a criatura humana correspondia ao ideal de perfeição.
Comênio acreditava que, por ser dotado de razão, o homem pode entender a si
e a todas as coisas. Portanto, deve se dedicar a aprender e a ensinar.
Seguindo esse pensamento, Comênio conclui que o mais importante na vida
não é a contemplação e sim a ação, o "fazer".
Embora profundamente religioso, o pensador propôs uma ruptura radical com o
modelo de escola até então praticado pela Igreja Católica, aquele voltado
apenas para a elite e dedicado primordialmente aos estudos abstratos. Ainda
vigoravam as doutrinas escolásticas da Idade Média, pelas quais todas as
questões teóricas se subordinavam à teologia cristã.
A maior contribuição de Comênio para a educação dos dias de hoje é, segundo
o professor Gasparin, a idéia de "trazer a realidade social para a sala de aula,
fazendo uso dos meios tecnológicos mais avançados à disposição". De tão
fascinado pela invenção da imprensa e pela possibilidade de disseminação de
conhecimento que ela representava, Comênio criou a expressão "didacografia"
para designar o método universal de ensino que ele pretendia inaugurar.
, Comênio adotou o método empírico de explorar o mundo, em contraposição
às verdades impostas pelo ensino medieval. Pela experimentação, ele
acreditava que todos poderiam vir a enxergar a harmonia do universo sob o
caos aparente. "Comênio queria mudar a escola com a didática e a sociedade
com a educação", diz Gasparin. "Era um grande idealista."
Coménio - O reformador do mundo
É surpreendente descobrir na obra de Coménio a sua apurada visão de futuro,
a actualidade dos seus ensinamentos, a sua vontade intrépida de mostrar
como é possível “ensinar tudo a todos”, sem excepções, e de contribuir para a
reforma universal de todas as actividades humanas, opondo-se às divisões no
seio do ensino, da religião e da política.
Alguns conceitos hoje debatidos, como educação permanente, democratização
do ensino, aprendizagem global, diferenças individuais, inteligências múltiplas,
foram inicialmente apresentados por Coménio. Muitas propostas deste
“professor das nações” inspiraram a criação e a actuação de organizações
internacionais, como a Unesco mas, volvidos quase 4 séculos, algumas das
suas ideias-chave encontram-se ainda longínquas do nosso entendimento e do
nosso quotidiano!
É enorme o desafio de escrever sobre Coménio (1592-1670), de tentar resumir
os ensinamentos de um Homem que, em pleno século XVII, foi perseguido e
ameaçado pelo fanatismo religioso, censurado pela sua coragem e ousadia,
incompreendido, desprezado e mal amado por muitos do seu tempo… Mas
nada fez esmorecer a sua paixão pela educação, nem o demoveu na sua
aspiração de sabedoria universal e união de toda a humanidade, escrevendo
uma vastíssima obra que, apesar de muitos manuscritos (únicos) terem sido
criminosamente atirados às chamas, ascende a uma centena de títulos, entre
livros pedagógicos, teológicos, linguísticos, literário-filosóficos e tratados de
paz.
É hoje considerado o fundador da pedagogia moderna, sendo reconhecido o
seu precioso contributo também na área da cooperação internacional e da
linguística. O seu nome tem sido atribuído a vários centros e programas de
ensino, nomeadamente no Reino Unido e no âmbito da União Europeia.
Contudo, muitos de nós nunca ouviram falar de Comenius nem conhecem o
seu pensamento abarcante, edificante e revolucionário… As nossas escolas
tão pouco se referem a ele. Injustamente!
Humanizar o Homem
Didáctica Magna é, porventura, a obra mais conhecida de Coménio e “sem
dúvida, o primeiro tratado sistemático de pedagogia, de didáctica e até de
sociologia escolar”1. Numa altura em que o ensino era privilégio apenas de
alguns, em que as escolas rareavam e a maioria das crianças era usada como
força de trabalho imprescindível para garantir a subsistência da família,
Coménio ousou defender uma escola pública e democrática para “todos por
igual, nobres e plebeus, ricos e pobres, rapazes e raparigas”, inteligentes ou
débeis por natureza.
O que hoje chamamos de ensino geral obrigatório - que existe há pouco mais
de 50 anos no Ocidente - deve-se, em boa medida, ao impulso dado por
Coménio. Apesar das crianças entrarem cada vez mais cedo nas escolas e dos
estudos se prolongarem até idades cada vez mais tardias, o sonho de Coménio
está ainda longe de ser croncretizado. “O homem tem necessidade de ser
formado para que se torne homem”, escreveu Coménio em Panpaedia; a
educação universal deve ser um direito de todos os povos: “deve-se desejar
que até as nações bárbaras possam ser iluminadas e arrancadas das trevas da
sua barbárie e, desse modo, porque são parte do género humano,
assemelhadas ao seu todo, pois, na verdade, o todo não é todo se lhe falta
alguma de suas partes”. Quem exclui alguém da educação, injuria toda a
humanidade. “Todos os homens são vivificados pelo mesmo espírito”. Porquê
beneficiar uns e negligenciar os outros?
Apesar dos esforços de algumas organizações internacionais e das actuais
facilidades dos meios de comunicação e de informação, a verdade é que o livre
acesso a bens essenciais como a educação, a saúde e a alimentação (!) está
vedado a grande parte da população mundial! As palavras de Coménio
alertam-nos para o egoísmo que, em todas as épocas, se mascara de tantas
formas: “se não quer ser acusado de espírito estulto e malévolo deve querer-se
que todos estejam bem e não apenas nós próprios, ou alguns dos nossos
próximos, ou somente o nosso povo”.
Nas suas obras, Coménio repete insistentemente a trilogia: omnes, omnia,
omnino - “educar todos, em todas as coisas, de uma forma total”, o que lhe
valeu críticas néscias e injustas, nomeadamente de Piaget, como sendo uma
“desconcertante pretensão”. Coménio estava ciente de que poderia ser mal
interpretado, advertindo na introdução da Didáctica Magna que “É lícito, foi
lícito e sempre será lícito procurar as coisas grandes (…) Por mais imperfeita
que seja a minha tentativa e não chegue a atingir o objectivo que eu me havia
proposto, o meu exemplo trará, todavia, ao menos, a prova de que foi
percorrida uma longa etapa que jamais havia sido percorrida e que o cume a
escalar está mais próximo do que até aqui”.

“Ensinar tudo a todos”


A verdadeira e profunda reforma da sociedade só será possível através da
educação permanente e universal - a única via estável e segura para o
crescimento individual e colectivo. A educação é a arte de fazer “germinar as
sementes interiores as quais não se desenvolverão a não ser que sejam
solicitadas por oportunas experiências”, explica Coménio em Panpaedia. Aliás,
educar vem do termo educere, que significa �conduzir para fora�. Três
séculos mais tarde, homens como Huberto Rohden ou Agostinho da Silva,
expuseram semelhantes princípios.
“É inata no homem a aptidão para saber, mas não o próprio saber”, esclarece
em Didáctica Magna. “Durante toda a vida o Homem deve conhecer,
experimentar e executar muitas coisas”, de forma a estimular “todas as
faculdades humanas”. O objectivo é “iluminar todos os homens com a
verdadeira sabedoria, para os organizar numa perfeita administração civil, e
para os unir a Deus pela verdadeira religião”. Para Coménio, “todo o real é
racional” e, portanto, cognoscível. Nada no mundo deve ser vedado ao
conhecimento e à inteligência humana.
ropõe (em Didáctica Magna) “um método universal de ensinar tudo a todos. E
de ensinar com tal certeza, que seja impossível não conseguir bons resultados.
E de ensinar rapidamente, sem nenhum enfado e sem aborrecimento para os
alunos e para os professores, mas antes com sumo prazer para uns e para
outros. E de ensinar solidamente, não superficialmente e apenas com palavras,
mas encaminhando os alunos para a verdadeira instrução, para os bons
costumes e para a piedade sincera”.
Ensinar tudo, esclarece Coménio, “não quer dizer todavia que exijamos a todos
o conhecimento de todas as ciências e de todas as artes (sobretudo se se trata
de um conhecimento exacto e profundo). Com efeito, isso nem de sua natureza
é útil, nem pela brevidade da nossa vida é possível a qualquer homem”. O que
se pretende é a sistematização e a organização unitária do saber humano,
dando a conhecer os seus fundamentos e princípios gerais. Numa altura em
que nos deparamos com tantas áreas de conhecimento tão especializadas e
espartilhadas, vale a pena reflectir seriamente sobre as sugestões de Coménio.
“A escola ideal”
A escola deve integrar crianças de diferentes proveniências, com inteligências
diversas e com diferentes ritmos de aprendizagem. A heterogeneidade pode
ser muito benéfica: “convém proceder de modo que os mais lentos se misturem
com os mais velozes, os menos inteligentes com os mais sagazes, os mais
duros com os mais dóceis, e sejam guiados com as mesmas regras e com os
mesmos exemplos”; “entendo aquela mistura, não apenas em relação ao lugar,
mas, muito mais, em relação ao auxílio” que uns e outros podem prestar entre
si. O professor deve, contudo, estar atento aos que mais precisam de ajuda e
ter em conta que “o mesmo método não pode ser aplicado a todos por igual”.
Nada deve ser forçado, “deve inflamar-se nas crianças o desejo ardente de
saber e de aprender” desde a mais tenra idade. Esta vontade deve ser
fomentada em casa pelos próprios pais, na escola pela amabilidade dos
professores, pelo espaço agradável e acolhedor das instalações e terrenos
circundantes, pela simplicidade e naturalidade do método de ensino, pela
pertinência e utilidade das matérias apresentadas, e por toda a comunidade,
reconhecendo a importância e o valor da “juventude estudiosa”.
Coménio enuncia os fundamentos para o ensino universal, procurando, ao
mesmo tempo, corrigir o que considera ser autênticas aberrações
metodológicas, grande parte das quais ainda hoje perpetuadas nas nossas
escolas e universidades! “O que se poderia inculcar suavemente nos espíritos,
é neles impresso violentamente, ou melhor, é neles enterrado e ensacado. O
que poderia ser posto diante dos olhos de modo claro e distinto, é apresentado
de modo obscuro e intrincado, como que por meio de enigmas”. É fundamental
que “todos se formem com uma instrução não aparente, mas verdadeira, não
superficial mas sólida”, que o aluno “se habitue a deixar-se guiar, não pela
razão dos outros, mas pela sua, e não apenas a ler nos livros e a entender, ou
ainda a reter e a recitar de cor as opiniões dos outros, mas a penetrar por si
mesmo até ao âmago das próprias coisas e a tirar delas conhecimentos
genuínos e utilidade”.

“A instrução superficial”
Porque desaprendemos tão depressa aquilo que supostamente nos ensinam?
Porque é que passados alguns meses, dias ou até escassas horas depois do
�teste�, os alunos já não são capazes de se lembrar da �matéria� e
limitam-se a gagejar vagas noções sobre o assunto que afincadamente haviam
estudado? Uma das causas tem a ver com o método de ensino, outra com a
falta de interesse que as matérias despertam, observava Coménio há 4 séculos
atrás! “Mas haverá remédio para este mal? Sem dúvida” se as escolas
deixarem de cometer “o erro de ensinar a olhar com os olhos dos outros e a
saborear com o coração dos outros”. Se tiverem “como objectivo habituar os
espíritos a irem buscar o vigor às próprias raízes, como fazem as árvores”.
Contudo, as escolas “têm-se esforçado, não tanto por cavar a fonte da
inteligência neles escondida, como por irrigá-la com águas alheias. Isto é, não
lhes têm mostrado as próprias coisas, como é que elas são por si e em si, mas
que é que, acerca disto ou daquilo, pensou ou escreveu este ou aquele, um
terceiro ou até décimo autor; a tal ponto que chegou a pensar-se que a máxima
erudição consistia em saber de cor opiniões discrepantes de muitos autores
acerca de muitas coisas. Daí que muitos não se ocuparam senão em respigar,
de vários autores, frases, sentenças e opiniões, construindo uma ciência que
não passava de uma manta de retalhos (…) Mas que interessa distrair-se com
as opiniões emitidas por vários autores acerca das coisas, quando o que se
procura saber é como são verdadeiramente as coisas em si mesmas? Será
que tudo o que fazemos na vida não consiste senão em andar atrás dos outros,
que correm de cá para lá, e em observar onde alguém se desvia, tropeça ou
perde o norte? (…) Porque é que havemos de servir-nos mais dos olhos dos
outros que dos nossos?”.
“Aprender solidamente”
“Se se quer alcançar o conhecimento, não de outras fontes, mas do próprio
arquétipo das coisas”, então as escolas devem, por lei: “I - Derivar tudo dos
princípios imutáveis das coisas. II - Nada ensinar apenas com argumentos de
autoridade, mas ensinar tudo por meio de demonstração, sensível e racional. III
- Nada ensinar com o método analítico somente mas, de preferência, tudo com
o método sintético”.
O ensino deve inspirar-se na Natureza e à sua semelhança “proceder das
coisas gerais para as particulares” e “das coisas mais fáceis para as mais
difíceis”, “tudo gradualmente, nada por saltos”, “todas as coisas com nexos
contínuos” e “com “exercícios contínuos”. Deve-se ensinar a partir das causas,
“isto é, mostrar não só como é que alguma coisa é, mas também porque não
pode ser de outra maneira. Com efeito, saber significa conhecer as coisas por
meio das suas causas”.
Coménio defende o que hoje chamamos de �currículos em espiral�: iniciar
os assuntos e retomá-los em formas cada vez mais alargadas e profundas.
Mas o seu método preconiza que todas as ciências e artes devem proceder de
um único tronco comum - como as ramagens de uma frondosa árvore -,
consolidado desde os primeiros anos de ensino. Deve haver “uma tal
coordenação das matérias que os estudos que, pouco a pouco, se seguem,
pareçam nada trazer de absolutamente novo, mas sejam apenas um
desenvolvimento pormenorizado das coisas anteriores”. Por outras palavras,
“os estudos da vida inteira devem ser dispostos de tal maneira que constituam
uma enciclopédia, na qual nada se encontre que não tenha nascido da raiz
comum e que não esteja assente no seu devido lugar”.
Para que a aprendizagem seja mais rápida e eficaz deve-se utilizar “o mais que
se puder, os sentidos. Por exemplo: associe-se sempre o ouvido à vista”. “O
conhecimento deve necessariamente principiar pelos sentidos (…) Porque é
que o ensino há-de principiar por uma exposição verbal das coisas, e não por
uma observação real dessas mesmas coisas?” Para além disso, a experiência
sensitiva permite aos alunos verificarem por si mesmos aquilo que se pretende
transmitir, “imprimindo-se com verdade e com certeza” na memória.
Todo o conhecimento, uma vez adquirido, deve ser partilhado, discutido e
posto em prática pelos alunos: “logo que uma coisa seja entendida, difunda-se
de novo, comunicando-a a outros, para que nada se saiba em vão”, com
vantagens para todos. “Quem ensina os outros instrui-se a si mesmo, não só
porque, repetindo os próprios conhecimentos, os reforça em si mesmo mas,
também, porque encontra uma boa ocasião para penetrar mais fundo nas
coisas”.
Investigações recentes sobre recursos de ensino, têm comprovado a eficácia
das sugestões pioneiras de Coménio: ao comparar a retenção na memória de
um mesmo conceito, aprendido por diferentes vias, os estudantes conseguem
recordar: 10 % do que leram; 20 % do que escutaram; 30 % do que viram; 50
% do que viram e escutaram; 70% do que discutiram; 90 % do que explicaram
e realizaram na prática. Com a actual facilidade dos meios informáticos e
audiovisuais, os recursos de ensino podem ser francamente melhorados!
Pela Paz e Unidade
Coménio tinha uma visão abrangente e integradora, extremamente avançada
para o seu tempo. Esboçou planos para a criação de uma língua universal,
como meio de entendimento e de comunicação entre todos os povos, e de
diferentes (mas interligadas) instituições internacionais para zelar pela paz,
pela unificação das igrejas e pela partilha do conhecimento. Ao “conselho da
luz” ou “colégio didáctico universal” cabia a tarefa de “examinar as diversas
descobertas científicas e recomendar os meios de as difundir e de as fazer
aplicar, da maneira mais eficaz, em proveito de todos os homens”. A
coordenação e cooperação de todos os estudiosos e investigadores permitiria
“difundir a luz da sabedoria a todos os povos e espíritos para atingir um estado
cada vez mais elevado e melhor”.
As suas concepções humanísticas e universais revelam a influência da tradição
rosa-cruz, a cuja fraternidade Coménio terá pertencido, embora não assumisse
publicamente a sua filiação, por receio de graves represálias. Antes da sua
morte, Leibniz escreveu “há-de chegar o dia em que a multidão dos homens de
bem honrará, não só as tuas obras, mas também as tuas esperanças e os teus
desejos”. Realmente, as sementes lançadas por Coménio jamais se perderão,
muitas já floresceram, deram frutos e novas sementes… outras aguardam o
auxílio dos “jardineiros dos tempos modernos” para irromperem nos “campos
da inteligência” e da criatividade.
Gabriela Oliveira
Licenciada em Comunicação Social
1 … de acordo com Joaquim Ferreira Gomes, na introdução de “Didáctica
Magna” - 3o edição, Fundação Calouste Gulbenkian.

Quem foi Coménio?


Breves Apontamentos Biográficos
Do seu vasto e riquíssimo percurso, assinalámos alguns dados essenciais, que
nos permitem compreender melhor a sua vida e obra.
1592 - João Amós Comenius nasceu a 28 de Março na Morávia (República
Checa), no seio de uma família evangélica. Aos 12 anos perde os pais e duas
irmãs, vitimados pela peste.
1608 - Aos 16 anos entra para a escola latina de Prerov, lamentando-se de ter
iniciado os estudos tão tarde.
1611 - Seguindo formação eclesiástica como era comum na altura, ingressa
aos 19 anos na Universidade Calvinista de Herborn, e mais tarde matricula-se
também na Universidade de Heidelberg.
1616 - É ordenado sacerdote. Dois anos depois, regressa à Morávia onde
lecciona na sua antiga escola, dirigindo as escolas do norte da Morávia. As
lutas entre católicos e protestantes agravam-se, deflagrando-se a sangrenta e
fratricida guerra dos 30 anos que marca definitivamente o seu percurso. É
perseguido, entra em clandestinidade e procura abrigo e protecção.
1621 - A cidade de Fulnek é saqueada e queimada, perdendo toda a sua
biblioteca e muitos manuscritos. Pouco depois, a esposa e os filhos morrem,
vitimados pela peste. Procura, nos anos seguintes, asilo para a sua
Fraternidade, fixando-se em Leszno, na Polónia, onde se dedica com ardor e
entusiasmo à obra da reforma pedagógica.
1631/38 - Escreve diversas obras relacionadas com o estudo das línguas, o
ensino e a reconciliação das igrejas, com vista à paz. A Didactica Magna é
editada em Oxford.
1641 - Vai para Londres, a convite do Parlamento, com intuito de fundar um
círculo de colaboração pansófica. Recebe mais tarde vários convites
internacionais, decidindo-se por Estocolmo, onde assume funções de
reformador do sistema escolar sueco. Contactou com Descartes, Locke e
outros homens ilustres do seu tempo.
1648/56 - Estabelece-se na Prússia Oriental, escrevendo a Novissima
Linguarum Methodus. É convidado para a Hungria onde publica Schola
Pansophica. Regressa a Leszno mas a cidade é saqueada e incendiada,
perdendo ingloriamente várias obras, nomeadamente o Glossário Latino-
Checo, no qual trabalhou durante mais de 40 anos.
1657 - Refugia-se em Amesterdão, publicando Opera Didactica Omnia que
reúne as suas obras pedagógicas e os seus tratados escritos até então.
1667 - Através da obra Angelus Pacis apela à paz e à tolerância entre as
nações europeias e insiste na criação de instituições internacionais com esse
fim.
1670 - Morre a 15 de Novembro, em Amesterdão.