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FRAGOSO, Suely. Um e Muitos Ciberespaços In A. LEMOS e P.

CUNHA, Olhares sobre a


Cibercultura. Porto Alegre, Sulina, 2003, pp. 212-231

Um e muitos ciberespaços

Suely Fragoso
Unisinos - RS

Resumo

Buscando superar a tendência à circularidade verificada nas abordagens


do ciberespaço em diversas áreas do conhecimento, o texto promove a
convergência de diferentes tipos de considerações sobre o espaço
informacional constituído a partir das tecnologias digitais da
comunicação. A reunião de constatações a princípio divergentes,
articuladas conforme 'graus de resolução' distintos, ajuda a vislumbrar
estratégias de abordagem do ciberespaço capazes de ultrapassar as
freqüentes polarizações e, portanto, potencialmente mais produtivas.

Ciberespaço. Uma alucinação consensual experimentada


diariamente por milhões de operadores em cada nação . . . .

Uma representação gráfica dos dados abstraídos dos

bancos de cada computador no sistema humano.

Inconcebível complexidade. (Gibson, 1993a, p. 67).

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FRAGOSO, Suely. Um e Muitos Ciberespaços In A. LEMOS e P. CUNHA, Olhares sobre a
Cibercultura. Porto Alegre, Sulina, 2003, pp. 212-231

Ao romper os limites da ficção de William Gibson e tornar-se a forma mais comum


de descrever o conjunto das informações que transitam nos servidores e terminais
conectados à Internet, o neologismo 'ciberespaço' carregou consigo uma série de
especificidades de sua procedência. Conforme a popularização da comunicação mediada
por computador tornava mais conhecida a noção de (e a experiência do) ciberespaço, mais
comuns e freqüentes passaram a ser as menções a determinados elementos das difusas
descrições do ciberespaço e do universo distópico retratado em Neuromancer1. Fortemente
marcadas pela polarização entre o capital corporativo e a resistência heróica de ciber-
cowboys que povoa a literatura ciberpunk em geral, grande parte das considerações sobre o
ciberespaço emerge carregada de imagens que Nick Bingham, de forma bastante perspicaz,
identifica com a justaposição de uma penosa angústia e abatimento e de um impulso
arrebatador que se traduz em sentimento de poder pessoal2. Para o mesmo autor, nem
poderia ser outro o resultado de um esforço de apreensão da totalidade de um fenômeno
com a magnitude e a complexidade do trânsito de dados nos circuitos digitais e redes de
transmissão ao redor do globo.
A própria abrangência da visada que tal empreitada requer parece facilitar, também,
a formulação de imagens de 'homogênea infinitude' bastante afinadas com o tipo de visão
do ciberespaço que as descrições de Gibson, por razões similares mas não idênticas3,
oferecem. O fato de que a mesma escala se verifica nas intenções de compreender a
sociedade e a cultura de forma unificada esclareceria, ainda, não apenas a presença de um
semelhante misto de temor e fascínio também no discurso das ciências sociais mas,
sobretudo, a facilidade de incorporação do neologismo ciberespaço por esta área do
conhecimento (Bingham, 2001, p. 248). Ao lado desse sentimento dúbio de amedrontada
atração, outro freqüente ponto em comum entre os textos dos autores que procuram
problematizar as tecnologias digitais de comunicação e os daqueles que se propõem a
enfrentar o desafio de formular considerações suficientemente abrangentes a respeito da
vida social contemporânea é a identificação de profundas alterações em nossa relação com
o espaço e com o tempo. Um artigo do Grupo de Pesquisa sobre o Futuro Global (Center
for Applied Policy Research, Munique), por exemplo, descreve o impacto da 'revolução
digital' sobre a vida cotidiana nas sociedades industrializadas nos seguintes termos:
Uma das primeiras mudanças é uma sensação de crescente
aceleração. Porque a comunicação é agora instantânea, nós
esperamos que as respostas venham instantaneamente, e essa

1 As duas obras seguintes de William Gibson, Count Zero e Monalisa Overdrive, são bastante menos
conhecidas que o primeiro romance da trilogia e muito raramente chegam a ser mencionadas como fonte
de inspiração ou referência para a compreensão do ciberespaço.
2 O texto de Bingham correlaciona, mais genericamente, as abordagens do ciberespaço e a idéia de 'sublime
tecnológico'. Para os fins do presente trabalho, no entanto, pareceu mais adequado explicitar e operar com
esta interpretação, que se crê fiel, dos sentidos que o referido autor confere à noção de sublime no texto
mencionado.
3 James Kneale relaciona uma série de razões para a abordagem abrangente (e o favorecimento de
descrições difusas) do ciberespaço na obra de Gibson, mas assinala sobretudo a hipótese de que o caráter
ficcional da trilogia tenderia a dificultar descrições de outro tipo (2001, p. 208-209).
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expectativa leva simultaneamente a uma tendência a responder aos


outros imediatamente. Porque muita informação ao redor do globo
está na ponta de nossos dedos, nós freqüentemente esperamos que
toda informação não apenas esteja disponível, mas seja fácil de
encontrar... (Research Group on the Global Future, 2000, p.24)
De forma consonante, diversos outros autores, verificando que na superfície das
telas eletrônicas “o algures começa aqui e vice-versa” (Virilio, 1999a, p.10), concluem: a
imediatez dos fluxos no ciberespaço implica que a distância, como a conhecemos no
mundo físico, decresce em importância até os limites da aniquilação (por exemplo Lemos,
2002 e Trivinho, 1998). Produtos elas mesmas da sociedade e da cultura, as tecnologias
digitais não inauguram, no entanto, esse movimento de superação das distâncias pelo
domínio instrumental do tempo. Constituem-se, ao invés disso, no mais recente patamar de
um percurso de compressão das dimensões espaciais que remonta às origens da
modernidade industrial (Bauman, 2001) ou mesmo do Renascimento (Harvey, 1999).
Diversos autores concordam, ainda, que uma diferença qualitativa parece separar o
progressivo aumento de velocidade da era moderna, associável às máquinas a vapor e aos
motores a explosão, do processo ainda mais acelerado que remonta ao advento dos motores
a jato, à implantação dos sistemas de comunicação por satélite e, evidentemente, à
crescente digitalização das mais diversas esferas de atividade humana desde, pelo menos, a
década de 1970. Flexibilizando cada vez mais os condicionantes temporais, essas (ainda
recentes) conquistas tecnológicas não apenas subjugam o espaço mas, acelerando
vertiginosamente o ritmo da vida, acabam por encolher e fragmentar também o próprio
tempo. Vivemos, portanto, “uma intensa fase de compressão do tempo-espaço que tem tido
um impacto desorientado e disruptivo sobre as práticas político-econômicas, sobre o
equilíbrio do poder de classe, bem como sobre a vida social e cultural” (Harvey, 1999, p.
257). Institui-se, assim, uma nova fase do capitalismo, caracterizada pela ruptura com
aquela que Bauman denomina 'modernidade rígida' (em que as distâncias, os volumes, as
massas em movimento eram fatores cruciais na estruturação do poder) e a emergência de
uma 'modernidade líquida', que se distingue, para além da potencial irrelevância do espaço,
pela volatilização e flexibilização da própria agência humana (2001, p. 132-138).
Mesmo ainda incapazes de perpetrar completamente a nulificação do espaço e do
tempo, os avanços tecnológicos já deixam rastros suficientemente claros no tecido social
para que se postule a emergência, no ciberespaço, de uma experiência cuja imaterialidade
anuncia a 'obliteração das massas' e a 'asfixia do social' (Trivinho, 1998, especialmente p.
119-121). Conversamente, a mesma aceleração e superação das distâncias tem sido
identificada com a transcendência, na rede digital, dos limitadores à realização de uma
democracia universal e plena, de uma “ágora eletrônica” (Mitchell, 1995) marcada pela
liberdade de expressão e igualdade de direitos. Um pouco mais modestamente, anuncia-se
que as interações digitalmente mediadas viabilizam a formação de comunidades a partir de
interesses comuns e à revelia da localização geográfica e outros impedimentos ao contato
físico entre os participantes (um exemplo clássico desse tipo de consideração é o texto de
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Rheingold, 1998).
A ausência de corporeidade na existência atemporal e desterritorializada que se
anuncia nas colocações anteriores conduz, também, à suspensão entre o fascínio e o
abatimento. Optando pelo enlevo, os auto-intitulados extrópicos (extropians), por exemplo,
anteviam a possibilidade de “duplicação do self para armazenamento em um banco de
memória digital” (More, 1988, s.p.)4, o que os integraria aos fluxos informacionais nos
moldes sugeridos ao final da trilogia iniciada em Neuromancer. Num movimento
simétrico, Virilio prefere assumir a totalidade de seu desalento:
o globo está cercado pela ronda incessante dos satélites e nós nos
chocamos contra a muralha invisível do espaço habitável, como nos
chocamos contra o invólucro, a carne firme de um corpo em que se
pode viver. Somente homem ou mulher, e unicamente terrestres,
para nós o mundo é atualmente um impasse, e a claustrofobia uma
angustiante ameaça. (Virilio, 1999b, p. 127)
Mas não apenas nós, usuários humanos, estamos inexoravelmente vinculados à
materialidade de nossos corpos. Por intangível que esteja fadado a ser, o espaço
informacional perpetrado pelo trânsito de dados nas redes telemáticas permanece ancorado
à materialidade daquelas mesmas redes.

Entre fios e cabos

Dirigindo o olhar para a infra-estrutura que dá suporte ao tráfego de informações, a


'geografia virtual' constata a interferência do espaço geográfico 'tradicional' sobre os fluxos
informacionais. Embora os cabos e processadores que viabilizam a comunicação digital ao
redor do globo tendam a permanecer escondidos em caixas fechadas e sob as mesas, não é
difícil constatar a desigualdade na distribuição dessa infra-estrutura - e, consequentemente,
do acesso à rede.
Considerações sobre a chamada 'exclusão digital' tendem a concentrar-se na total
ausência de condições de acesso e apontam para alarmantes proporções de excluídos. A
despeito do crescimento vertiginoso da população online durante a década de 1990, apenas
6% dos habitantes do planeta dispunha de acesso à rede em 2001 (Digital Divide Network,
2001, s.p.). Dentre os 4% destes que residiam em países latino-americanos (Digital Divide
Network, 2001, s.p.), 85% estavam concentrados na Argentina, Brasil, Chile e México
(Yankee Group, 2001, s.p.)5. A proporção de cidadãos com acesso à rede varia

4 Versões mais recentes dos Extropian Principles não fazem menção a essa possibilidade.
5 Os estudos referenciados atribuem a maior conectibilidade desses países às disparidades entre os PIBs
latino-americanos e aos diferentes níveis de desenvolvimento dos mercados locais de telecomunicações.
A participação brasileira montava a cerca de 50% dos internautas da América Latina. Essa prevalência é
atribuída a políticas bem -sucedidas de indução ao uso da rede e ao baixo custo (em comparação com os
demais países latino-americanos) das tarifas telefônicas e dos provedores de Internet. A mínima
conectibilidade da Bolívia, Paraguai e Peru, por sua vez, é atribuída pelas mesmas fontes à baixa
penetração das redes telefônicas naqueles países (Yankee Group, 2001 e Wired, 2001).
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significativamente também entre os países do continente europeu: em 2000, na Espanha, o


número de conectados atingia apenas 16% da população total, enquanto mais de 50% dos
holandeses, suecos e dinamarqueses dispunha de acesso à rede (Albiron, 2001, s.p.).
Uma parcela considerável dos cidadãos residentes nos países desenvolvidos
permanece também excluída do ciberespaço: a maior parte dos 50,5% dos norte-
americanos com acesso à rede em 2001 pertencia às classes de maior renda e escolaridade
(NTIA, 2002, s.p.). Embora apontem para o crescimento da quantidade de hispano-
americanos e afro-asiáticos residentes nos Estados Unidos com acesso à Internet entre os
anos de 2000 e 2001, diferentes levantamentos indicam a manutenção da prevalência, no
ciberespaço, de uma população norte-americana branca, com alto grau de escolaridade e
renda familiar considerável (Howard e Rainie, p.7 e NTIA, 2002, s.p.).
Também dentre a elite privilegiada com acesso à rede verificam-se discrepâncias
que implicam em experiências qualitativamente diferentes de navegação no ciberespaço. A
heterogeneidade das condições de conexão, configuradas pela confiabilidade e capacidade
da infra-estrutura de telecomunicações e pelas formas de taxação dos serviços, refletem,
mais uma vez, as diferenças político-geográficas entre as várias regiões. Conexões
sofríveis ou tarifas demasiado altas para equipamentos e acesso determinam a clara
desvantagem, nas nações desenvolvidas, das minorias étnicas e raciais, dos residentes em
áreas rurais ou em cidades pequenas e das comunidades com menos renda e menores níveis
educacionais (Bagasao, 1999, s.p.). Muitas vezes essas condições precárias de acesso
equivalem às disponíveis para as elites das nações mais pobres: redes telefônicas obsoletas,
taxação por tempo de permanência online, perdas freqüentes de conexão, oscilações e
interrupções no provimento de energia elétrica afetam significativamente a experiência de
muitos usuários nas regiões mais ricas da América Latina, por exemplo.
A correspondência entre a disponibilidade de infra-estrutura e o status político-
econômico das regiões no período anterior à digitalização reflete o fato de que, de modo
geral, a “produção, a reestruturação e o crescimento da organização espacial são muito
problemáticos e caros, sendo prejudicados pela necessidade de vastos investimentos em
infra-estruturas físicas que não podem ser levadas para outro lugar e em infra-estruturas
sociais que sempre mudam com lentidão” (Harvey, 1999, p. 212). Ao redor do globo, a
provisão de infraestrutura para acesso à Internet é hoje altamente competitiva e dominada
por grandes corporações, normalmente internacionais (Dodge e Kitchin, 2001, p. 82). A
comercialização do acesso e a convergência das redes privadas de telefonia implicou um
comportamento oportunista de curto prazo em que a provisão de serviços é direcionada
majoritariamente para as maiores e mais ricas concentrações urbanas. Questões de escala
também influenciam largamente a substituição, complementação e elaboração de infra-
estrutura telecomunicacional, reiterando a atração dos mercados urbanos e reduzindo os
investimentos em conexões para áreas geograficamente afastadas. A concentração dos
investimentos em infra-estrutura ajuda a compreender porque o backbone das grandes
cidades norte-americanas supera largamente o volume atual de tráfego, contando com
vários cabos ainda 'apagados', enquanto o acesso internacional continua congestionado em
cabos submarinos insuficientes (Gordon e Malecki, 2002, p. 393-398). Às suposições de
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que, com a compressão espaço-temporal, na era das comunicações digitais 'a geografia não
mais importa' contrapõe-se, assim, a “continuidade da história espacial da tecnologia e
industrialização na era da informação: os principais centros metropolitanos em todo o
mundo continuam a acumular fatores indutores de inovação e a gerar sinergia na indústria
e serviços avançados” (Castells, 1999, p. 416).
...o uso de TICs [tecnologias da informação e comunicação] como
agentes globalizantes ainda é dependente da espacialidade fixa do
mundo real – os pontos de acesso, a fisicalidade e a materialidade
dos fios. Além disso, existe um mundo entre as TICs e o
ciberespaço na forma de outras infraestruturas, redes sociais face-a-
face, trabalhadores capacitados, acesso a materiais e mercados
globais e locais. . . . Em outras palavras, embora as TICs trabalhem
para destruir as relações espaço-temporais, para 'desespacializar' as
relações sociais, outras práticas espaciais, formas e forças
trabalham contra esse enfraquecimento” (Dodge e Kitchin, 2001,
p. 14-15)
Embora as fronteiras entre as nações sejam de fato irrelevantes para os dados em
circulação, especificidades regionais afetam significativamente a disponibilidade e
condições de acesso ao ciberespaço. Conversamente, assim como as estruturas
socioespaciais pré-existentes influenciam a distribuição dos investimentos em redes de
telecomunicação, também a divisão internacional do trabalho, viabilizada por aquelas
mesmas redes, afeta, e potencialmente altera, a distribuição das camadas de suporte
material ao fluxo de dados em circulação. Embora a economia informacional permaneça
“organizada em torno de centros de controle e comando capazes de coordenar, inovar e
gerenciar as atividades interligadas das redes de empresas” (Castells, 1999, p. 405), a
distribuição espacial em larga escala das funções 'de apoio', “ou seja, o processamento em
massa das transações que executam as estratégias decididas e projetadas nos centros
empresariais das altas finanças e de serviços avançados” (Castells, 1999, p. 411) induz à
alocação de infra-estrutura capaz de alcançar as 'telecentrais de comutação' (concentrações
espaciais de computadores em rede usualmente localizadas em regiões com maior
disponibilidade de mão-de-obra barata e semiqualificada). Políticas locais e peculiaridades
culturais têm sido fatores importantes para a atração desses investimentos capazes de
agregar regiões aos fluxos da economia internacional. Vale lembrar, no entanto, que a
manutenção desses interesses 'includentes' depende da permanência dos fatores locais de
atração, caracterizando uma tendência à manutenção da divisão espacial hierárquica do
trabalho a partir da localização, em regiões distintas, de diferentes funções.
A irrelevância da distância no ciberespaço implica a possibilidade
de organização do trabalho em 'times' capazes de colaborar global e
continuamente. . . . Um padrão similar pode ser visto na realocação
de muitas funções de apoio das grandes corporações, cujos call

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centers e serviços de contabilidade e armazenamento se transferem


das vizinhanças caras dos centros decisórios para zonas mais
afastadas e mais baratas. Na melhor das hipóteses, essa prática gera
empregos em áreas rurais [e nos países periféricos] e permite aos
trabalhadores digitais viver em regiões menos congestionadas. Na
pior, concentra os empregos mais bem pagos em uma área
relativamente pequena e contribui para a divisão entre as regiões
ricas e pobres” (Research Group on the Global Future, 2000, p. 7-
8)
Assim, embora em mais de um sentido o ciberespaço não possua as qualidades
tangíveis do espaço geográfico, os fluxos de dados encontram-se ancorados em localidades
'reais' cuja heterogeneidade condiciona significativamente não apenas a disponibilidade e o
perfil das ferramentas tecnológicas disponíveis, mas também os usos e apropriações
realizados com essas mesmas ferramentas. Essa constatação nos recorda que a profusão de
unidades informacionais em movimento nas redes e circuitos digitais deriva da agência
humana e a ela, em última instância, se dirige. No outro extremo das possíveis escalas de
observação, o ciberespaço se ancora justamente no usuário que deflagra os fluxos
comunicacionais alimentando, ainda que muitas vezes sem compreendê-lo, os dados em
circulação.

Do 'lado de cá' da tela

A mera conexão entre servidores e terminais não basta para deflagrar o ciberespaço,
que só é efetivamente criado “pela comunicação entre agentes dotados de intencionalidade,
os quais, para todos os fins e propósitos, no presente, são humanos” (Batty, 1997, p. 343).
Milhares de arquivos e programas de tipos diversos e destinações igualmente distintas,
muitas vezes contrapondo-se ao movimento instituído na macro-escala dos grandes
poderes, circulam por entre os múltiplos espaços informacionais, construindo uma 'outra'
esfera de interação cujo impacto sobre a vida social e cultural não pode ser desprezado.
Operando na fronteira entre o ciberespaço e o mundo que nos acostumamos a denominar
'real', a capacidade de intervenção dos usuários introduz significativas doses de
imprevisibilidade nos fluxos informacionais.
Paradigmáticos perturbadores da ordem centralizadora das grandes instituições, os
hackers tornaram-se símbolos da resistência ao controle do ciberespaço, conquistando uma
reputação que oscila entre a romântica figura do herói ciberpunk e o indesejável
adolescente socialmente inapto que dissemina vírus destruidores. O 'manual' que os
organizadores da conferência hacker do ano de 2001 (HAL 2001) providenciaram para os
participantes resume bem as implicações dessa dualidade:
Polícia, Crimes e HAL 2001
Nós sentimos que coisas importantes estão acontecendo no mundo
hoje. Coisas que vale a pena lutar contra. Governos e grandes
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corporações estão basicamente tomando conta e estão em processo


de construção de mecanismos de controle. . . . pense nas novas leis
que permitem a monitoração instantânea de qualquer um. Pense nos
bancos de dados computadorizados que sabem onde cada pessoa
está em tempo real. Pense nas câmeras em todos os lugares. Pense
em fazerem você pagar toda vez, por cada coisa que você assiste ou
ouve. Pense em sua coleção de MP3. Pense na cadeia.
Fazendo a gente parecer mau
Ei, não vamos enganar uns aos outros: nós não éramos tão
bonzinhos quando éramos crianças. Mas agora, pessoas poderosas
no mundo todo gostariam de pintar um quadro de HAL 2001 como
um encontro de indivíduos perigosos e destrutivos. Enquanto pode
parecer bacana que pessoas poderosas pensem que você é perigoso,
você estará apenas servindo a eles se alterar Websites daqui, ou se
promover a mãe de todos os ataques DDoS6. Você estará ajudando
os durões que dizem que nós não somos bons. Eles não se
importam com os Websites que você altera. Eles não se importam
com os ataques DDoS. A liderança deles nem sabe como segurar
um mouse! Eles se importam é em fazer a gente parecer mau,
[porque] assim eles conseguem o apoio público para nos trancafiar
a todos. (HAL 2001, 2001, s.p.)
A princípio menos perigosos porque, grosso modo, destituídos de talentos
específicos, outros usuários também afetam a configuração do ciberespaço conforme
enviam emails, procedem buscas na Web ou interagem em MUDs. Postando informações
em painéis virtuais, participando de grupos de discussão ou congregando avatares em jogos
online, cada usuário 'do lado de cá' da tela experimenta alternativas cujo impacto na vida
individual e na formação de comunidades 'fora da rede' foi discutido, por exemplo, por
Reid, 1994; Turkle, 1997, Rheingold, 1998 e Howard e Rainie, 20017. Assim como uma
instância do ciberespaço mais importante do que os fios e processadores interligados ao
redor do globo se institui pela dinâmica das ações, experts ou diletantes, deliberadas ou
casuais, que configuram a apropriação social da rede, não são desprezíveis, também, o
escopo e os efeitos das ações 'domesticadoras' que visam os usuários 'não-hackers'.
Enquanto permaneceu acessível apenas a um pequeno grupo dotado de considerável
conhecimento tecnológico e capital cultural, a Internet sofreu influência significativa
daqueles 'especialistas' que, a despeito de todas as possíveis e pertinentes críticas,
pregavam majoritariamente o livre trânsito de informação entre todos os usuários. Ao lado
da redefinição do perfil dos usuários da rede, a popularização da Internet a partir de

6 Um ataque DDoS (Distributed Denial of Service) visa tornar um serviço online inacessível a seus
usuários. O atacante 'escraviza' múltiplas estações de usuários, inoculando em cada uma delas o código de
ataque. Coordenadas (em tempo real ou conforme uma programação anterior), as estações infectadas
deflagram um ataque descentralizado e múltiplo ao provedor do serviço em questão.
7 Os autores indicados exemplificam estudos de base empírica.
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meados da década de 1990 implicou o fortalecimento de ferramentas que, ao mesmo tempo


em que demandam menos conhecimento técnico, favorecem apropriações desatentas aos
potenciais do sistema. O padrão amigável da interface gráfica do browser Mosaic8 e dos
navegadores que o sucederam foi fundamental, por exemplo, para a ampla utilização da
World Wide Web – hoje o subconjunto da Internet mais utilizado pelos usuários não-
especialistas9. Embora permitam apropriações anárquicas e potencialmente criativas
(Turkle, 1997), as interfaces gráficas não demandam exploração e experimentação. A
contrapartida do caráter intutitivo das interfaces gráficas reside justamente na falta de
explicitação do que está sendo excluído ou negado ao usuário pois, ao eliminarem a
necessidade de compreender protocolos de comunicação ou redirecionamentos de dados
para acessar a rede, as interfaces gráficas restringem o acesso ao pequeno subconjunto do
fluxo caótico de informação que é por elas traduzido em imagens e sons auto-explicativos.
Em outros termos, o “agrupamento assimétrico dos heterogêneos e combinatórios espaços
comunicacionais virtuais e 'reais'10 que se aglutinam para formar a Matriz global de nossas
redes de telecomunicação e computadores” extrapola os limites da “interface gráfica entre
o computador e o usuário humano, entre o virtual e o 'real', entre o digital e o analógico”
conhecida pela maioria dos usuários (Imken, 2001, p. 93).
Conectando não apenas computadores pessoais e telefones, mas também as
centenas de milhares de terminais bancários ao redor do planeta, os mainframes dos
bancos, as bolsas de valores e os satélites de monitoramento, a Matriz de que fala Imken
“encompassa as zonas heterogêneas da funcionalidade maquínica, tanto virtual quanto
real”, associando cada aparelho numa poderosa composição que subjaz a todos os espaços
(2001, p. 93). A grande maioria dos usuários, no entanto, tem acesso apenas a uma
pequena parcela do sistema, que o mesmo autor identifica não com o ciberespaço difuso e
povoado por cibercowboys da trilogia de Gibson mas com o Metaverse, descrito em outra
obra ficcional (Snow Crash, de Neal Stephenson, 1993). Longe de configurar um ambiente
livre ou libertário, o Metaverse se resume à enunciação gráfica de um universo virtual
completamente voltado para o consumo, cercado por áreas ainda não completamente
desenvolvidas que permanecem visualizáveis como um deserto vazio e negro no qual se
escondem caches secretos.
O Metaverse assume a forma de uma fantástica ilusão
compartilhada, holográfica e multi-sensorial – uma ilusão
tridimensional de uma movimentada rua urbana com numerosos
prédios em ambos os lados. Mesmo sendo essa realidade 'apenas'

8 O Mosaic foi desenvolvido pela equipe do National Center for Supercomputing Applications da
University of Illinois e disponibilizado pela universidade em 1993 (NSCA, s.d.).
9 Conforme se depreende dos resultados de uma investigação quantitativa sobre os usos da Internet por
cidadãos norte-americanos realizada por Howard e Rainier, 2000. Embora os pesquisadores reportem
igual quantidade de usuários utilizando email e acessando a WWW, é importante notar que a pesquisa
restringe a categoria 'uso da Web' à busca de informações e realização de transações financeiras e
comerciais, excluindo, por exemplo, o uso de Webmail e Webchat.
10 Aqui, como em passagens subseqüentes, a palavra 'real' e suas derivações, entre aspas simples,
correspondem ao inglês actual e correlatos.
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virtual, o Metaverse é uma fonte poderosa de entretenimento e


educação e também o meio prioritário para a comunicação e o
comércio. . . . A interface gráfica do mundo virtual imita o mundo
de concreto, aço e vidro das ruas 'verdadeiras' em que os franchises
mantêm suas lojas. (Aichele, 2001, s.p.)
A imitação do mundo conhecido que torna o Metaverse uma “re-criação da re-
criação, por Walt Disney, da Main Street, nos EUA” (Imken, 2001, p. 94) se restringe à
área em que o acesso é efetivamente desejado. As demais regiões permanecem hostis e
obscurecidas, enquanto
as pessoas são atraídas em massa pelas coisas que lhes parecem
familiares. . . . Esse mesmo fator psicológico que atrai muitos
consumidores ao que eles reconhecem com facilidade trabalha, ao
mesmo tempo, para inibir sua percepção da heterogeneidade da
Matriz. As pessoas vêem e apreciam as fachadas de lojas virtuais,
mas não compreendem completamente a extensão da mudança de
paradigma trazida pelo evento global da interconectividade
heterogênea (Imken, 2001, p. 94).
A força das evocações familiares se manifesta também na maior confiabilidade
aparentemente atribuída por muitos usuários aos Websites identificados com veículos
'tradicionais' (por exemplo, jornais e revistas impressos) ou a empresas midiáticas
amplamente conhecidas. Na contramão dos sonhos democratizantes que previam a
utilização da Web para a circulação horizontal e irrestrita de informações, um número cada
vez maior de usuários evita o terreno movediço das páginas independentes direcionando
seus navegadores para endereços enraizados em instituições conhecidas e, preferivelmente,
nascidas 'fora da rede'. Constrói-se assim, para esses usuários, uma World Wide Web que
difere do padrão irradiativo das mídias de massa apenas na disponibilização de alguns links
entre textos e imagens de um mesmo domínio (ou entre sites predominantemente
associados a uma única empresa ou grupo empresarial).
De modo semelhante, a capacidade de atrair o investimento de anunciantes, que a
princípio decorreria de alta visitação a um determinado endereço, funciona muitas vezes
como uma certificação do 'compromisso' de um site. A circularidade gerada pelo aumento
potencial do número de visitas aos sites que abrigam anúncios alimenta um circuito redutor
de ofertas no qual
... conforme a Internet se torna objeto de mais investimento de
capital e progressivamente sucumbe ao mercado e à publicidade, a
'livre iniciativa' poderá não ser mais capaz de manter um 'sistema
neutro' no qual a escolha do usuário decide. Outras escolhas,
aquelas feitas pelos que anunciam na rede, podem começar a
determinar até que ponto um site sobrevive e prospera. A
publicidade . . . pode tornar-se um mecanismo poderoso que será
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capaz de enfraquecer os sites não-comerciais na rede. Anunciantes


e outros investidores, então, podem gradualmente adquirir uma
'autoridade de facto' para o licenciamento na Internet porque, sem o
suporte do mercado, Websites poderiam deixar de ser projetos
viáveis para não-profissionais (Dellinger, 1999, s.p.).
Crescentemente tendendo a um modelo comercial, o ciberespaço enfrenta esforços
legislativos majoritariamente dirigidos à proteção de direitos autorais e marcas registradas
e empreendidos ou subsidiados por grandes corporações ou associações de empresas
(Dodge e Kitchin, 2001, p. 50). Simultaneamente, o crescimento da variedade de produtos
e serviços disponíveis na rede não é acompanhado de um aumento do número de
fornecedores: simulando descentralização com redesenhos que dispersam os
empreendimentos entre prestadores de serviços e associados sem abrir mão do controle
centralizado das operações, grandes companhias detêm fatias oligopolísticas do mercado
online (Imken, 2001, p. 100-106). Pesquisas da Jupiter Media Metrix indicam que, em
2001, 60% do tempo gasto na World Wide Web pelos cidadãos norte-americanos era
dedicado a sites pertencentes a apenas 14 companhias. Dois anos antes, os mesmos 60%
estavam distribuídos nos sites de 110 companhias diferentes (Schlosberg, 2001, s.p.). Essa
alarmante concentração em um meio cujo maior potencial parecia residir justamente na
descentralização do tráfego de informações é confirmada por indicadores que apontam
para o direcionamento de 70% de toda a navegação na Web para cerca de 1% do total de
endereços disponíveis (Shirky, 1999, s.p.). Uma observação mais atenta revela que uma
parcela significativa desses endereços altamente centralizadores corresponde a portais
amparados por poderosas ferramentas de busca11. Para alguns comentadores, o fato de os
endereços mais procurados pelos usuários da Web serem portais indicaria uma saudável
tendência à descentralização 'controlada', pois, ao mesmo tempo em que possibilitam o
acesso a outros sites, as recomendações ajudam a “utilizar a Web de forma mais seletiva,
evitando o desperdício de tempo” (Goldate, 1997, s.p.). Vale notar, no entanto, que,
regulando inclusive os acessos de muitos usuários mais ariscos, os portais e as ferramentas
de busca constituem provavelmente a mais poderosa força de domesticação da rede
justamente porque são capazes de simular pesquisas de máxima abrangência quando
referendam um conjunto de sites sem ao menos explicitar os critérios utilizados para a
busca ou para a hierarquização dos resultados.
Uma das forças mais poderosas contra a tendência à centralização da World Wide
Web são as novas tecnologias de distribuição e gerenciamento de arquivos agregadas sob a
denominação peer-to-peer (P2P). Numa rede de comunicação P2P “qualquer computador
conectado pode ser um cliente e/ou um servidor. Qualquer computador pode acessar
arquivos em qualquer outro computador da rede” (Techdictionary.com, 2001, s.p.), o que,
literalmente, implica um retorno ao projeto inicial da Internet: a troca de dados entre

11 De acordo com o Nielsen Netratings, em dezembro de 2002, por exemplo, os cinco sites com maior
frequência, alcance e tempo de permanência no Brasil foram, em ordem decrescente: UOL; IG;
Globo.com; Yahoo! e Terra (Nielsen Institute, 2002, s.p.)
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computadores fisicamente distantes e tratados equitativamente. As estratégias P2P lançam


mão dos terminais dos usuários 'comuns', ultrapassando a organização centralizada em
servidores que caracterizou a Internet até agora12. Atribuindo 'voz' a computadores que,
apesar de conectados à rede, até então não eram capazes de hospedar dados para consulta e
distribuição, o modelo P2P desmonta, fundamentalmente, a dependência de aceitação por
um servidor para publicação de qualquer material. O “Whois estima [em 2000] 23 milhões
de nomes de domínio acumulados nos 16 anos desde a criação dos endereços IP em 1984.
Apenas o Napster criou mais de 23 milhões de endereços não-DNS em 16 meses” (Shirky,
2000, s.p.). Enquanto o Napster foi ainda uma estratégia P2P parcial, pois dependia de um
servidor que servia como diretório para a conexão entre usuários, outras redes P2P, como
Gnutella e Freenet conseguem operar de forma totalmente independente dos servidores
registrados (Gordon e Malecki, 2002, p. 401).
Para a tristeza de Tim Berners-Lee e outros pioneiros, a Web
tornou-se mais parecida com um mídia um-para-muitos que com o
sistema de comunicação muitos-para-muitos de sua concepção
original. O protocolo Gnutella restaura a simetria original da Web,
capacitando mesmo os computadores transitórios a participar
efetivamente como servidores. . . . A relação entre Gnutella e a
Web é portanto bastante simples: embora transitórios, os hosts da
Gnutella são Websites, e baixar um arquivo de um host Gnutella é
tecnicamente equivalente a buscar um arquivo em um Website. A
maioria das aplicações Gnutella combina a funcionalidade de
servidores e clientes num pacote chamado 'servent'. Mesmo os
usuários que não disponibilizam arquivos para compartilhamento, e
que apenas usam Gnutella para fazer buscas e baixar arquivos,
disponibilizam Websites (vazios) quando rodam seus servents.
(Truelove, 2001, s.p.)

Dissonância

Para além de caracterizar o poder dos usuários sobre os desígnios da rede, os


sistemas P2P evocam a construção de um espaço igualitário e libertador bastante afinado
com as descrições que Wertheim mobiliza em sua discussão das imagens de transcendência
freqüentemente associadas ao ciberespaço:
Este lado do ciber-sonho 'paradisíaco' dedica-se . . . ao potencial do
ciberespaço para melhorar a vida terrena [e não a espiritual]. Em
12 A conexão baseada em servidores remonta aos primeiros anos da Internet, quando as máquinas
interligadas eram relativamente poucas e tinham endereços fixos. Com o advento dos navegadores para
Web, desde o Mosaic, foi preciso estender a capacidade de conexão a inúmeros computadores pessoais, o
que conduziu a um novo modelo, com endereços IP dinâmicos. Tecnicamente, o dinamismo desses
endereços inviabilizava a hospedagem de dados nos terminais dos usuários, o que resultou no atual
modelo de conexão, centralizado em servidores. (Shirky, 2000, s.p.)
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particular, o ciberespaço é promovido como um espaço no qual


conexão e comunidade podem ser induzidas, enriquecendo assim
nossas vidas de criaturas sociais. Nessas visões, o ciberespaço se
torna um lugar para o estabelecimento de comunidades idealizadas
que transcendem as tiranias da distância [e do capital] e que estão
livres de preconceitos de gênero, raça e cor. Em outras palavras,
este é um sonho de ciber-utopia (Wertheim, 1999, p. 283).
Cada linha de ação ou empreitada P2P capaz de mobilizar um número razoável de
participantes confere a seu deflagrador a aura de herói ciberpunk (Shawn Fanning para o
Napster, Ian Clarke para Freenet, etc). Deslocando o olhar para os fios, cabos e terminais
que dão suporte material às interações P2P verifica-se, no entanto, uma prática muito
aquém das utopias. Restringindo o horizonte de acesso aos dados, a localização do usuário
e a largura de banda de sua conexão conformam um padrão em que “a maior parte do
tráfego P2P permanece dentro de uma área geográfica específica” (Gordon e Malecki,
2002, p. 405). As formas de definição do raio de alcance e as altíssimas demandas
impostas à infraestrutura da rede ajudam a compreender, ainda, porque metade das buscas
na rede Gnutella são respondidas por apenas 1% dos 'servents' (Gordon e Malecki, 2002, p.
403). Essa concentração dos retornos em (proporcionalmente) poucas estações sugere que
o desenvolvimento dos sistemas P2P tende a resvalar, perigosamente, para o mesmo
modelo 'alguns servidores, muitos browsers' que motivou sua criação.
Etérea manifestação de imenso poder diante da qual nos postamos extasiados,
emaranhado de fios e cabos distribuídos de forma desigual sobre o planeta ou arena social
onde se confrontam desejos de controle e criatividade igualmente humanos – qual desses
ciberespaços é 'o' ciberespaço? Claramente, todos. A co-existência e a sinergia entre as
diferentes facetas do ciberespaço implica que não apenas as redes P2P, mas nenhuma
manifestação ou apropriação do ciberespaço, pode dizer respeito a uma delas sem se fazer
presente em todas as outras. Sequer é possível dizer que cada escala de apreensão revela
'uma parcela' do ciberespaço de forma que, sobrepondo-as ou enlaçando-as, seja possível
obter uma imagem suficiente do espaço informacional perpetrado nas redes digitais de
comunicação. Mobilizando diferentes 'graus de resolução', cada uma dessas miradas revela
realidades que, embora muitas vezes bastante distintas entre si, compõem de forma unívoca
o fenômeno que aqui se tenta apreender.
...mostremos que um novelo com 10 cm de diâmetro feito de um
fio com 1 mm de diâmetro possui, de uma forma um pouco latente,
diversas dimensões efetivas distintas. Se se usar um grau de
resolução de 10 m, trata-se de um ponto e, portanto, de uma figura
de dimensão zero. Para um grau de resolução de 10 cm trata-se de
uma bola tridimensional. Para uma resolução de 10 mm é um
conjunto de fios e portanto uma figura unidimensional. Para um
grau de resolução de 0,1 mm, cada fio transforma-se numa espécie
de coluna e o todo volta a ser tridimensional. Para um grau de
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resolução de 0,01 mm, cada coluna resolve-se em diversas fibras


filiformes e, de novo, o todo é unidimensional. Numa análise mais
apurada, o novelo é representado por um número finito de átomos
pontuais e o todo tem, mais uma vez, dimensão zero. E assim por
diante... (Mandelbrot, 1998, p. 21-22)
O reconhecimento da heterogeneidade e da complexa simultaneidade entre as
diversas instâncias do ciberespaço ajuda a compreender porque permanecem improdutivas
as tentativas de atribuir-lhe um conjunto uníssono de características ou de relações com a
vida dentro ou fora da rede. Decorre de intenções desse tipo a cristalização, na academia
como na mídia, no Brasil como no exterior, de uma tendência a organizar a maioria das
análises do espaço informacional configurado a partir do trânsito de dados nas redes
digitais de telecomunicação em função de algumas poucas chaves mutuamente
excludentes. Nessa recente tradição já é possível prever inclusive, de acordo com a sub-
área do conhecimento na qual se ancora a discussão, quais serão os enquadramentos
privilegiados e quais as prováveis conclusões de cada abordagem. A superação do
movimento pendular entre a arena utópica e a agregação de cabos e processadores
demanda discussões do ciberespaço que reconheçam, antes de mais nada, a inexorável
articulação de uma diversidade de esferas de abordagem, cada uma delas igualmente
pertinente.
A complexidade e o dinamismo do ciberspaço indicam ainda que, além das escalas
mobilizadas neste texto, outros enquadramentos (ou inclusive os mesmos, em outros
instantes) revelarão novas imagens igualmente verdadeiras e verossímeis. De todo modo,
organizar as observações em 'graus de resolução' distintos parece uma forma viável de
efetivar a necessária convergência entre a crescente comercialização e o fomentador
anárquico, a arena libertária e o palco do mais absoluto controle social, tornando visíveis as
conexões entre os 'muitos ciberespaços'. Articulação de fios e processadores, convergência
de utopias e exclusões, coexistência do humano e do sublime – o ciberespaço só será
apreensível para os ouvidos dispostos a apreciá-lo em dissonância.

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