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O VALOR INFINITO DA MISSA

– O sacrifício de Isaac, imagem e figura do Sacrifício de Cristo no Calvário. O valor infinito da


Missa.

– Adoração e acção de graças.

– Expiação e propiciação pelos nossos pecados; impetração de tudo aquilo que precisamos.

I. NO LIVRO DO GÊNESIS1, lemos como Deus quis provar a fé de Abraão, a


quem prometera uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu. O
Patriarca vê o tempo passar sem ter o filho que o Senhor lhe anunciara; sua
mulher era estéril. Mas ele continuou a acreditar na palavra de Deus contra
toda a esperança.

Quando finalmente Isaac veio ao mundo e representou para Abraão, já de


idade avançada, o prémio à sua esperança, Deus, senhor da vida e da morte,
mandou-lhe que o sacrificasse: Toma Isaac, teu filho único, a quem amas, e
vai à terra de Moriá, e aí o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que
eu te mostrarei. Mas no momento em que ia sacrificar o seu filho amado, o
Anjo do Senhor deteve-lhe o braço. E o Patriarca ouviu estas palavras cheias
de bênçãos sobreabundantes: Porque o fizeste e não me recusaste o teu filho
único, eu te abençoarei e multiplicarei a tua estirpe como as estrelas do céu e
como a areia das praias do mar. A tua descendência conquistará as portas das
cidades inimigas. E todas as nações da terra serão abençoadas na tua
descendência, porque obedeceste à minha voz.

Os Padres da Igreja viram no sacrifício de Isaac um anúncio do sacrifício de


Jesus. Isaac, o filho único de Abraão, o amado que carrega a lenha até ao
monte onde será sacrificado, é figura de Cristo, o Unigénito do Pai, o Amado,
que caminha com a cruz às costas para o Calvário, onde se oferece como
sacrifício de valor infinito por todos os homens.

Na Missa, depois da Consagração, o Cânon Romano recorda a oferenda de


Abraão, a entrega do seu filho. Abraão é o nosso “pai na fé”. Recebei, ó Pai,
esta oferenda, como recebestes a oferta de Abel, o sacrifício de Abraão e os
dons de Melquisedeque...2

A obediência de Abraão é a máxima expressão da sua fé incondicional em


Deus. Por essa razão recuperou Isaac e, depois de tê-lo oferecido, recebeu-o
de volta como um símbolo. Pensava, na verdade, que Deus é poderoso para
ressuscitar alguém dentre os mortos; por isso recuperou o filho, que foi uma
imagem d’Aquele que haveria de vir3.

Orígenes sublinha que o sacrifício de Isaac permite compreender melhor o


mistério da Redenção: “Isaac, ao carregar a lenha para o holocausto, é figura
de Cristo que carregou a cruz às costas. Mas, ao mesmo tempo, levar a lenha
para o holocausto é tarefa do sacerdote. Portanto, Isaac foi ao mesmo tempo
vítima e sacerdote [...]. Cristo é ao mesmo tempo Vítima e Sumo Sacerdote.
Segundo o espírito, oferece a vítima ao seu Pai; segundo a carne, Ele mesmo
é oferecido sobre o altar da Cruz”4.

Por isso, cada Missa tem um valor infinito, imenso, que nós não podemos
compreender por completo: “alegra toda a corte celestial, alivia as pobres
almas do purgatório, atrai sobre a terra todo o tipo de graças e dá mais glória a
Deus do que todos os sofrimentos dos mártires juntos, do que as penitências
de todos os santos, do que todas as lágrimas por eles derramadas desde o
princípio do mundo e tudo o que possam fazer até o fim dos tempos”5.

II. AINDA QUE TODOS os actos de Cristo tenham sido redentores, existe,
não obstante, na sua vida um acontecimento singular que se destaca sobre
todos e para o qual todos convergem: o momento em que a obediência e o
amor do Filho ofereceram ao Pai um sacrifício sem medida, em virtude da
dignidade da Oferenda e do Sacerdote que a oferecia. E é Ele quem
permanece na Missa como Sacerdote principal e Vítima realmente oferecida e
sacramentalmente imolada.

Na Santa Missa, os frutos que dizem respeito imediatamente a Deus, como


a adoração, a reparação e a acção de graças, produzem-se sempre na sua
plenitude infinita, sem dependerem da nossa atenção nem do fervor do
sacerdote. E a razão pela qual esses frutos se produzem infalivelmente e sem
limites está em que é o próprio Cristo quem os oferece e quem se oferece. Por
isso, é impossível encontrar modo algum de adorar melhor a Deus e de
reconhecer o seu domínio soberano sobre todas as coisas e sobre todos os
homens. É a realização mais perfeita do preceito: Adorarás o Senhor teu Deus
e só a Ele servirás6.

Do mesmo modo, é impossível oferecer a Deus uma reparação mais


perfeita, pelas faltas cometidas diariamente, do que oferecendo e participando
com devoção do Santo Sacrifício do Altar7. Como é impossível agradecer
melhor os bens recebidos do que por meio da Santa Missa: Quid retribuam
Domino pro omnibus quae retribuit mihi?... “Como retribuirei ao Senhor por todo
o bem que me fez? Erguerei o cálice da salvação e invocarei o nome do
Senhor”8. Que grande oportunidade para agradecermos a Deus tantos bens
que recebemos..., pois às vezes é possível que nos esqueçamos de lhe dar
graças pelos seus dons, que são tantos e tantos; pode acontecer-nos como
aos leprosos curados por Jesus...

Que honra tão grande a dos sacerdotes que podem emprestar a Cristo a voz
e as mãos no sacrifício eucarístico! Que grandeza a dos fiéis por poderem
participar de tão grande Mistério! “Diz ao Senhor que, daqui por diante, de cada
vez que celebres ou assistas à Santa Missa, e administres ou recebas o
Sacramento Eucarístico, o farás com uma fé grande, com um amor que
queime, como se fosse a última vez da tua vida. – E sente dor pelas tuas
negligências passadas”9.
III. NO MONTE MÓRIA, Isaac, o filho único e amado de Abraão, não foi
sacrificado; no Calvário, Jesus padeceu e morreu por todos nós, pro peccatis,
por causa dos nossos pecados. Este fruto de expiação e de propiciação
alcança também as almas dos que nos precederam e que se purificam no
Purgatório, à espera do traje nupcial10 para entrarem no Céu.

O sacrifício eucarístico produz, por si mesmo e por virtude própria, o perdão


dos pecados; “mas realiza-o de uma maneira mediata... Por exemplo, uma
pessoa que suplique a Deus a graça de mudar de vida e de confessar-se, sem
assistir à Santa Missa, poderá obtê-la somente em virtude do seu fervor e das
suas instâncias...; mas, se assiste à Missa com essa finalidade, não há dúvida
de que obterá esse favor de maneira eficaz, desde que não levante
obstáculos”11.

Ao oferecer-se ao Pai, Jesus Cristo pede por todos nós. Ele vive para
interceder por nós12. Poderíamos encontrar melhor momento do que a Santa
Missa para pedir aquilo de que tanto precisamos? Cada Missa é oferecida por
toda a Igreja, que ao mesmo tempo suplica pelo mundo inteiro. “De cada vez
que se celebra uma Missa, é o sangue da Cruz que se derrama como chuva
sobre o mundo”13. Juntamente com toda a Igreja, pedimos de modo particular
pelo Papa, pelo bispo diocesano, pelo prelado próprio e por todos os outros
que, “fiéis à verdade, promovem a fé católica e apostólica”14.

E além desse fruto geral da Missa, há também um fruto especial – que se


produz de modos diversos – para os que participam do Santo Sacrifício: para
os que solicitaram a sua celebração por esta ou aquela intenção; para o
sacerdote celebrante, que beneficia de um fruto especialíssimo, irrenunciável,
já que a celebração da Missa depende da sua vontade meritória; para os
acólitos, para os cantores... e para todo o povo santo que assista ao Sacrifício,
conforme as disposições de cada um: para todos os que circundam este altar,
dos quais conheceis a fidelidade e a dedicação em Vos servir. Eles Vos
oferecem connosco este sacrifício de louvor por si e por todos os seus, e
elevam a Vós as suas preces para alcançar o perdão de suas faltas, a
segurança em suas vidas e a salvação que esperam15.

Os frutos de remissão dos nossos pecados e de impetração de tudo aquilo


de que necessitamos são frutos finitos e limitados, de acordo com as nossas
disposições. Por isso é tão importante que cuidemos bem de preparar a alma
para participar deste Sacrifício único, e que nos esforcemos por estar muito
recolhidos uma vez acabada a acção sagrada. “Estais ali – pergunta o Cura
d’Ars – com as mesmas disposições da Santíssima Virgem no Calvário, já que
se trata da presença do mesmo Deus e da consumação do mesmo
sacrifício?”16

Peçamos a Nossa Senhora que a celebração ou a participação do sacrifício


eucarístico seja para nós a fonte em que se saciam e em que aumentam os
nossos desejos de Deus.
(1) Gen 22, 1-19; Primeira leitura da Missa da quinta-feira da décima terceira semana do TC,
ano I; (2) Missal Romano, Oração Eucarística I; (3) cfr. Hebr 11, 19; (4) Orígenes, Homilias
sobre o Génesis, 8, 6, 9; (5) Cura d’Ars, Sermão sobre a Santa Missa; (6) Mt 4, 10; (7) Conc.
de Trento, Sessão 22, c. 1; (8) Sl 115, 12; (9) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 829; (10) cfr. Mt
22, 12; (11) Anónimo, La Santa Missa, Rialp, Madrid, 1975, pág. 95; (12) cfr. Hebr 7, 25; (13)
Ch. Journet, La messe, 2ª ed., Desclée de Brouwer, Bilbao, 1962, pág. 182; (14) Missal
Romano, Oração Eucarística I; (15) ib.; (16) Cura d’Ars, Sermão sobre o pecado.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)