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MORTIFICAÇÕES HABITUAIS

– As mortificações nascem do amor e por sua vez alimentam-no.

– Mortificações que ajudam e tornam mais grata a vida dos outros; as pequenas contrariedades
de cada dia; espírito de sacrifício no cumprimento do dever.

– Outras manifestações.

I. O EVANGELHO DA MISSA1 relata-nos que São Mateus, depois de


corresponder à chamada de Jesus, preparou um banquete na sua própria casa,
ao qual compareceram os outros discípulos e muitos publicanos e pecadores,
talvez seus amigos de velha data. Os fariseus, ao verem isso, diziam: Por que
o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores? Jesus ouviu essas
palavras e Ele mesmo lhes respondeu dizendo que não carecem de médico os
sãos, mas os doentes. E a seguir fez suas umas palavras de Oséias 2: Prefiro a
misericórdia ao sacrifício. O Senhor não rejeita os sacrifícios que lhe oferecem;
insiste, no entanto, em que essas oferendas se façam acompanhar pelo amor
que nasce de um coração bom, pois a caridade deve impregnar toda a
actividade do cristão e, de modo especial, o culto que se presta a Deus3.

Aqueles fariseus, fiéis cumpridores da Lei, não envolviam os seus sacrifícios


no odor suave do amor a Deus e da caridade para com o próximo; em outro
lugar, o Senhor dirá com palavras do profeta Isaías: Este povo honra- me com
os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Naquele banquete em casa
de Mateus, os fariseus demonstraram que lhes faltava compreensão para com
os outros convidados e que não se esforçavam por aproximá-los de Deus e da
sua Lei, da qual se diziam fiéis cumpridores; apreciavam tudo com uma visão
tacanha e desprovida de amor. “Prefiro as virtudes às austeridades, diz Yavé
com outras palavras ao povo escolhido, que se engana com certos formalismos
externos. – Por isso, temos de cultivar a penitência e a mortificação, como
provas verdadeiras de amor a Deus e ao próximo”4.

O nosso amor a Deus expressa-se nos actos de culto, mas manifesta-se


também em todas as acções do dia, nos pequenos sacrifícios que impregnam
tudo o que fazemos, e que levam até o Senhor o nosso desejo de nos
abnegarmos e de agradar-lhe em tudo. Se nos faltasse esta profunda
disposição, a materialidade de repetirmos uns mesmos actos não teria valor
nenhum, porque lhes faltaria o seu sentido mais íntimo. Os pequenos
sacrifícios que procuramos oferecer todos os dias ao Senhor, nascem do amor
e por sua vez alimentam esse mesmo amor.

O espírito de penitência, tal como o Senhor o quer, não é algo de negativo


ou desumano5; não é uma atitude de repulsa perante as coisas boas e nobres
que podem existir no uso dos bens da terra; é uma manifestação de domínio
sobrenatural sobre o corpo e sobre as coisas criadas, sobre os bens, sobre as
relações humanas e o trabalho... A mortificação, voluntária ou aquela que nos
aparece sem a termos procurado, não é uma simples privação, mas
manifestação de amor, pois “padecer necessidade é coisa que pode acontecer
a qualquer pessoa, mas saber padecê-la é próprio das almas grandes”6, das
almas que amam muito.

A mortificação não é simples moderação nem é manter controlados à risca


os sentidos e o desequilíbrio produzido pela desordem e pelo excesso. É
abnegação verdadeira: é dar lugar à vida sobrenatural na alma, é antecipar
aquela glória vindoura que se há de manifestar em nós7.

II. PREFIRO A MISERICÓRDIA ao sacrifício... Por isso, um dos principais


aspectos dos nossos sacrifícios diz respeito às relações e ao trato com os
outros, que são o campo por excelência em que podemos adoptar
continuamente uma atitude misericordiosa, como a do Senhor com relação às
pessoas que encontrava. O apreço e estima por aqueles com quem
convivemos diariamente na família, no trabalho profissional, na rua, animam e
ordenam os nossos sacrifícios. Levam-nos a tornar-lhes mais grata a sua vida
na terra, a prestar-lhes pequenos serviços, a privar-nos de alguma comodidade
em benefício deles.

Este género de mortificação levar-nos-á a superar um estado de ânimo


pouco optimista, que influi necessariamente nos outros; a sorrir diante das
dificuldades, a evitar tudo aquilo que – mesmo em detalhes – possa aborrecer
ou incomodar os que estão mais perto, a desculpar, a perdoar... Assim
matamos, além disso, o amor próprio, tão intimamente enraizado no nosso ser,
e aprendemos a ser humildes.

Esta disposição habitual, que nos faz ser causa de alegria para os outros, só
pode resultar de um profundo espírito de penitência, pois “desprezar a comida,
a bebida e a cama macia, pode não custar um grande trabalho a muitos... Mas
suportar uma injúria, sofrer um prejuízo ou não ripostar a uma palavra
implicante... não é negócio de muitos, mas de poucos”8.

E com estes sacrifícios que têm por fim a caridade, o Senhor quer que
saibamos encontrá-lo naqueles sacrifícios que Ele permite e que de alguma
maneira contrariam os nossos gostos e planos ou os nossos interesses. São as
mortificações passivas, que nos saem ao encontro numa doença grave, nos
problemas familiares que não parecem fáceis de resolver, num revés
profissional importante...; e com maior frequência, diariamente, nas pequenas
contrariedades e imprevistos que recheiam o nosso trabalho, a vida familiar, os
planos que tínhamos para aquele dia... São ocasiões para dizer ao Senhor que
o amamos, precisamente nessas coisas que num primeiro momento nos custa
aceitar. A contrariedade – pequena ou grande – recebida com amor, oferecida
ao Senhor imediatamente, produz paz e alegria no meio da dor; e quando não
se aceita, a alma destempera-se e fica triste, ou cai num estado de rebeldia
íntima que a afasta dos outros e de Deus.

Outro campo de mortificações, de sacrifícios, em que mostramos o nosso


amor a Deus, encontra-se no cumprimento fiel do dever: é trabalhar com
intensidade, é não postergar os deveres ingratos, é combater a preguiça
mental, é viver sem excepções a ordem e a pontualidade, é facilitar o trabalho
de quem está connosco na mesma tarefa, e tantas coisas mais...

Enquanto trabalhamos, no convívio com os outros..., a cada momento,


manifestamos por meio dessas pequenas vitórias que amamos a Deus acima
de todas as coisas e, mais ainda, acima de nós mesmos. Com essas
mortificações, elevamo-nos até o Senhor; sem elas, ficamos prostrados ao
nível da terra. Esses pequenos sacrifícios oferecidos ao longo do dia preparam
a alma para a oração e enchem-na de alegria.

III. O SENHOR PEDE-NOS sacrifício com amor. A mortificação não está na


zona fronteiriça em que é iminente o perigo de cair no pecado; encontra-se em
pleno campo da generosidade, porque é saber privar-se do que seria possível
não privar-se sem ofender a Deus. Alma mortificada não é a que não ofende,
mas a que ama; viver assim, ao ritmo de uma mortificação habitual, parece
loucura aos olhos dos que se perdem; mas, para os que se salvam, isto é, para
nós, é a força de Deus9, recordava São Paulo aos primeiros cristãos de
Corinto.

O amor ao Senhor anima-nos a dominar a imaginação e a memória,


afastando pensamentos e recordações inúteis; a controlar a sensibilidade, a
tendência para a “vida tranquila” como razão principal da nossa vida. A
mortificação leva-nos a vencer a preguiça à hora de nos levantarmos, a não
deixar a vista e os outros sentidos dispersos, a ser sóbrios na bebida, a comer
com temperança, a evitar os caprichos...; e a praticar uma ou outra mortificação
corporal, devidamente aconselhados na direcção espiritual ou na confissão.

Em determinadas circunstâncias, daremos maior atenção a umas


mortificações que a outras, porque teremos visto que estamos excessivamente
acomodados num ponto ou noutro, ou porque teremos sentido especialmente a
ausência de uma virtude ou o recrudescimento de um defeito... Pode até ser
útil tomarmos nota de algumas delas, elaborando uma pequena lista que
teremos sempre à mão, sobretudo à hora do exame de consciência à noite. E
saberemos pedir ajuda ao nosso Anjo da Guarda para que as cumpramos
todos os dias.

Devemos ter muito em conta a tendência de todo o homem e de toda a


mulher para o esquecimento e o desleixo, e isso nos ajudará a lançar mão dos
meios necessários para não deixarmos de lado essas ocasiões de pequenas
renúncias ao longo do dia, muitas delas previstas e procuradas. Esse plano de
mortificações costumeiras, reduzido a escrito, é um “lembrete” dificilmente
substituível, que nos ajuda poderosamente a adquirir o hábito do espírito de
sacrifício. Depois, teremos o cuidado de rever e renovar periodicamente essa
lista, por exemplo uma vez por mês, para adaptá-la às necessidades imediatas
da nossa luta interior.

Para a alma mortificada, torna-se uma realidade aquela promessa de Jesus:


Quem perder a sua vida por amor de mim, achá- la- á10; e assim encontraremos
Cristo no meio do mundo, nas nossas tarefas e por meio delas. “O amigo disse
ao seu Amado que lhe pagasse o tempo em que o havia servido. O Amado fez
a conta dos pensamentos, desejos, prantos, perigos e trabalhos que o amigo
padecera por amor dele, e acrescentou à conta a eterna bem-aventurança, e
deu-se a Si próprio em pagamento ao seu amigo”11.

(1) Mt 9, 9-13; (2) Os 6, 6; (3) cfr. Sagrada Bíblia, Santos Evangelhos, EUNSA, Pamplona,
1983; cfr. B. Orchard y outros, Verbum Dei, Herder, Barcelona, 1960, vol. II, pág. 683; (4) São
Josemaría Escrivá, Sulco, n. 992; (5) cfr. J. Tissot, A vida interior; (6) Santo Agostinho, Sobre o
bem do matrimônio, 21, 25; (7) Rom 8, 18; (8) São João Crisóstomo, Sobre o sacerdócio, 3, 13;
(9) 1 Cor 1, 18; (10) Mt 10, 39; (11) R. Llull, Livro do amigo e do Amado, 64.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)