Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 By Edson Bueno de Camargo

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Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 By Edson Bueno de Camargo

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Edson Bueno de Camargo.

Poemas Do Século Passado.
(1982-2000)

Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 By Edson Bueno de Camargo

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2002 ©Edson Bueno de Camargo email: camargoeb@ig.com.br Endereço: Rua José Cezário Mendes, 104 Vila Noemia – Mauá – SP CEP – 09370-600

1ª Edição. Tiragem: 1.000

“Das Utopias” “Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora A mágica presença das estrelas!” Mário Quintana

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Edson Bueno de Camargo; Um Homem do Século Passado.
Aristides Theodoro(*). O Edson Bueno de Camargo, velho companheiro, remanescente do finado Colégio Brasileiro de Poetas, da cidade de Mauá - SP, que como eu, vem fazendo mal as artes desde o século passado, pediu-me para deitar umas palavrinhas em forma de prefácio ao seu livro " Poemas do Século Passado. (1982-2000) ". O título deste livro por si só, já é um poema e diante disto dispensa muito bem o meu pobre comentário, que a exemplo da maioria dos prefácios, nada acrescenta a sua estreante obra (**), que possui fôlego e pernas para andar sozinha. " Poemas do Século Passado. (1982-2000). " constitui-se de pequenas pedras mosaicas indispensáveis na montagem do painel como um todo, que o autor se propôs a erguer a exemplo de um arquiteto, só que com palavras e diante disto, cada peça aqui se faz necessária, preenchendo o seu devido lugar no afresco. Alguns poemas de Edson Bueno de Camargo, mormente os pequenos trabalhos são carregados de bonitas imagens que dão vida ao livro: "é tarde/e a noite afaga meus sonhos". Mais adiante o poeta com frases curtas, incisivas e carregadas de poesia, diz (sempre começando com letra minúscula): - "retorno das eras profundas do pensamento". Em alguns momentos, notamos uma espécie de obsessão do poeta pelo tempo, este incorrigível bandido, que sempre passa "como um rio em nossa vida" – "lá estava a porta/desbotada pelo passar das eras".

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No poema lirismo, é questionado a fazer poesia, de maneira contida, carregada de inspiração. Porém com forte carga de emoção. Leiamos: "o roer da rima/inconstante trama/melódico acalanto/para o fim do pranto/que enfim se derrama/e o poeta declama/a poesia guardada". Todo o trabalho de Edson Bueno de Camargo está saturado de um lirismo contido, quase envergonhado, onde o autor, preocupado grandemente com a condição humana, a exemplo de Richard Wagner, dá a sua contribuição em forma poética, a fim de a seu modo elevar o semelhante através da arte. Portanto, convêm que o leitor se debruce sobre estas páginas de " Poemas do Século Passado. (1982-2000) " e tire suas próprias conclusões. Toca - Filosófica. 03/11/2001. (*) - Aristides Theodoro é jornalista, ensaísta e escritor.

(**) - Apesar de serem feitos apenas 50 exemplares, o poeta publicou um pequeno livro reprografado - "Cortinas" em 1981, junto com a poetisa Cecília Auxiliadora Bedeschi de Camargo.

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Dedico... dedico a todos sem exceção, amigos e inimigos, mas em destaque, àqueles a quem amo especialmente a Cecília.

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Poema sem Liberdade. é tarde e a noite afaga meus sonhos e o medo desprezo de quem vive já não me toma conta retorno das eras profundas de pensamento e giro às bordas de minha decadência perpetuo o momento desfaço o meio e flutuo no plasma líquido este por sua vez é infinitamente livre mas eu não sou temos um corpo para prestar contas numa dívida trágica e sem solução. 18/08/1982

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Poema Com Liberdade. quero escrever algo diferente que fale de amor latente de viver tão diferente do que vivemos agora tocar violas de vento e flautas mágicas em clima amigo e de pés descalços encontrar todos os amigos na ruas espantar todos os medos das esquinas dar luz aos olhos dos cegos da verdade alimentar as crianças e as mulheres que apodrecem no cantos vazios e frios dos trens e estações desta ferrovia pintar de verde estes prédios e um sorriso nestes rostos enrugados, suados e queimados falar aos trabalhadores das construções, das máquinas e de todos e tantos outros fardos pesados

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“largai esta rede pescador e siga-me” para um hoje melhor e interior. 20/08/1982

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Naturais.

o vento envolve as telhas e os telhados varre as ruas das folhas de outono assalta de súbito os guarda-chuvas nos molhando no dia frio o cálido relâmpago e o trovão conseqüente iluminam os olhos incendiados com esta visão passos largos dados ao léu nas poças d’água e de lama descortina o céu numa luz visível limpando o tempo e secando as roupas

22/06/1983

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A Lua Escondida. o que das nuvens dizer que o céu engole onde a lua burla nosso intentos de encontrá-la na noite sim, nas trevas a falta do luminar no entanto e portanto aprendemos a enxergar no escuro do negro horizonte e com isto, não mais, podemos finalmente descobrir a paz na estranha e branca bola por detrás da cortina de água mimetizada com a paisagem que nós não vemos.

20/09/1983

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Paraédsons.

não era como sou nem serei como era nesta transmutação de mundos que em parte soa e ressoa nos meus tímpanos o mesmo acorde o resto musical da sinfonia deixada no ar pelos rastros das palavras trago ainda na barriga a cicatriz da ferida prova da desunião de dois seres conjugados rompida a ligação umbilical cegou-se a visão com a luz violentamente e num último esforço aspirei o oxigênio que me faltava no sangue

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ainda respiro resistindo a negação mas me sinto alienígena a esta lógica restrito ao endeusamento do mítico, me completo e me leio do passado corrente que ainda me aturde de segundos atrás e te miro orquídeas nos cabelos e os pés como raízes de uma milenar oliveira e eu sou como a grama que morre e renasce em todo lugar. 30/01/84

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Retrato Rasgado. diante da porta não havia nada por detrás da mesma já se via tudo não tinham mais segredos os instantes de revelação passaram-se tempestuosos e se foram como os passos inclinados em meus anos o tempo se encarregou de levar os pedaços do retrato picados e jogados ao chão descoloriu a pintura como os cabelos dos que ganham muitos anos, tingidos de branco as lágrimas não foram crônicas os gemidos anacrônicos a insegurança se fundiu com as outras neuroses adquiridas e fez parte do contexto

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sentei-me a beira da calçada vendo a procissão que passava as velas acessas os ramos o frio frio e fina garoa tudo se foi como um raio no meio da tempestade estava ali meio perdido nestes bares de esquina com estas mulheres da rua quando dei as mãos com o passado e comecei a lembrar voltei a mesma casa na vila e lá estava a porta desbotada pelo passar das eras mas você já não mais me esperava 02/02/84

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Lirismo. o roer da rima inconstante trama melódico acalanto para o fim do pranto que enfim se derrama e o poeta declama a poesia guardada na gaveta empoeirada esquecida a um canto do lirismo sofrido inconstante rima no decorrer da trama do amor incontido na mente introspecto. 14/03/1984

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Incógnita Comum. parece ainda que sinto o cheiro das rosas entrando pelas janelas da casa é como se fosse hoje o sol das tardes queimando a pele o ar morno nos dando sonolência quando isto acontecia você já caminhava por estas trilhas e eu não era mais do que a imaginação de um futuro distante agora quem é jovem sou eu e meu corpo inexperiente espera as lutas da vida e minha mente anseia por conhecer a verdade no entanto você agora está sentado nesta cadeira de rodas perdido no tempo e no espaço me faz olhar para o passado

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tento imaginar o que você vê e não consigo ver nada por também estar perdido vislumbrando o presente e me entristeço por que se não fosse sua mudez provocada pela doença e o esvaziamento de sua razão devido a senilidade precoce podíamos partilhar deste nosso lugar comum mas não, permanecemos assim um olhando para o outro tentando adivinhar o que pensa um e outro nesta solidão de um homem prestes a chegar ao fim e o de um jovem com medo do futuro desconhecido. 28/03/1984

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Tarde Em Devaneios. morre o tempo na tarde vazia de idéias e ideais e a via sacra desponta no raiar de outro dia ademais das coisas o dono das poltronas já tiraram seus números vai começar o sorteio das cabeças humanas o deus ignóbil espera o sinal vibra a tarde vazia de idéias e ideais da longa dívida de corpos das moças novas e fogosas que passam de frente a janela porém a prisão de vidro impede o tato os deuses escuros espreitam, os aviões voam no céu cinzento teu beijo me espera e eu te quero

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injusto e enlutado meu rosto impura e infecta a minha língua o gelo frio derrete cai a tarde em devaneios 05/03/1985

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O Som da Rua. abra a janela para a luz do sol entrar para o som da rua chegar até o velho que esta sentado no sofá que só vê televisão e espera o chá se tem gente no portão, estão querendo entrar vai lá fora convidar para a festa que vai começar ouça este tom quero acompanhar com o violão a melodia de todas estas vozes águas passadas ventos ligeiros sussurros de amor lágrimas secas palavras ditas e esquecidas deixa o estranho entrar que ele é um velho amigo que passou, para ficar retido na lembrança

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o som da rua as crianças brincando no corredor no vento frio mesmo que tema que elas adoeçam permita a elas brincarem é tão bom brincar é bom pensar que se é feliz mas, não tem ninguém lá fora é apenas uma alucinação era apenas o vento que despertou a imaginação do tempo e muitas lembranças... 25/06/1985

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Hídrico Anúncio. corpos de vidro fibras rompidas por inteiro a fonte devassa do dom desejo deságua no tempo estanca o fluxo quebra o silêncio derrama seus egos na aurora o brilho escuro, semicerrado das vozes ouvidas através das paredes frias do santuário esquecido diga, se não diga e jamais fale pois, alguém te ouve e não te escuta onde e quando o tenro vapor da manhã te molhou os cabelos e umedeceu a pele o som distante das locomotivas eletro-diesel puxando pesadas cargas rangentes recortou-te o velho e sombrio passado

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acordou de um sono profundo em que a memória se embebeu (amnésia?) e sopra as poucas última palavras rudes e sinceras únicas em espontaneidade! 29/08/1985

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Roseira Desnuda. quero levar-te a ver meu rosto limpo de máculas como uma roseira desnuda de espinhos e crer que o passado já é morto enterraram-se as misérias da vida te quero oscular os lábios perceber tuas mãos nas minhas ver e sentir teu suor correr no meu corpo ver que ainda cremos no que um significa para o outro seguirmos o tempo de perto descobrir onde ele se esconde viajar os teu olhos despertos sem nada se olvidar e crer que ainda é o presente que o futuro é distante neste momento terno desde que seja ao teu lado mesmo que por só um breve momento. 18/09/1985

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Rancores.

há faces mirantes e olhos fitos há olhos hirtos e despedaçados há um horror vivo brotando das entranhas das gentes há um solo rico em húmus esperando cultivo há um rancor ardente latente nos homens há um sol causticante crucificando os viajantes das estradas e estes misteriosamente felizes mas a fúria cresce a passos largos enquanto a ave desajeitada decola do ninho em seu primeiro vôo e me preocupo com serpentes vomitando o sopro incandescente das palavras que vibram cortantes. 20/09/1985

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Paz Repentina. comprimidos pílulas extratos elixires síndromes/ efeitos causais odores repelentes inerentes de coisas prestes a morrer na semi - escuridão de um quarto que recende a velho e a mofo tosses secas e repentinas gemidos e grunhidos noturnos provocando sussurros irados e sonolentos o rumor no silêncio do breu noturno o coração que resiste numa breve e inútil tentativa mas, o fim chega e se escapa pelas frestas da veneziana enfim, o fim, a noite corre tranqüila para que todos durmam em paz. 28/10/1985

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Poema Sem Esperança. a mão que corta o talho exato ( e frio) metódico homem em sua maneira de se morrer em vida se curva o signo o homem se perde em si perdendo o respeito, a responsabilidade e a liberdade os sinos dobram dobram a esquina a última esperança o derradeiro bonde (que já partiu) se perdeu no ermo os ladrilhos do labirinto descolam com a umidade e caem se espatifando no solo duro o cimento envelhece assim como as instituições ambos mostrando a vista aberta os fortes sinais da deterioração e todos nós sentados na guia da sarjeta vendo ir ao longe sobre os trilho o bonde (o mesmo?) se dissipando entre a multidão e de escombros... 04/12/1985

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Cavalgada Noturna. adeus! a tarde se alarga no céu um viajante se despede e segue para a sua longa jornada a noite brota como uma tulipa negra e descobre a lua que se escondia por detrás da terra onde estará o caminhante? que cavalga num tropel noturno pela estrada escura e vazia 22/01/1986

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Dor. aplaca-me a dor da inconsciência perdida a dor dos medos que não renuncia a dor da carne que não termina que não tem fim interrompe-me a dor com um breve milagre por que esta me torce por dentro esta dor de angústia que me entorpece o ser e me faz arquitetar sonhos medonhos para por fim terminá-la finda-me o sofrimento que vai muito além do entendimento por que o que mais quero é descansar sem esta profunda angústia que me abate 19/12/87

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Visões. a cidade não tem horizontes se dissolve o contexto a cidade se fecha sobre nós é como um mundo desabando congela-se sobre nossas cabeças e a qualquer instante não sei? algo me diz quando andejo as ruas por que a prostituta não tem rosto? a cerveja não tem mais gosto? um bar um hotel barato uma igreja no meio da noite não te vejo se existes onde estás

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como saber se não te tropeço não te atropelo no meio da escura e fria noite 05/11/88

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Ferro Frio. frio ferro ferrugem pedras, águas que rolam sobre mato, medo segredo fonte viva cristal bate o martelo sem dó prego prega a madeira tábua, forro, vidro, caixão bate o martelo sem dó, nem dor cobra de fogo serpente de pena cabelo de gente Satanás talha o ferro frio malha o dedo arranca a unha e só

26/03/1991

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É Noite. é noite e respiro o brilho cruzam a cidade em raios velozes encontram as cruzes no alto das torres procuram as luzes no meio das trevas é então que quando uma lágrima brilha em teu olho destilo a dor deste mar salgado desvisto as nuvens e clamo a atenção dos homens como um pregador desvairado retiro a venda para abrir os olhos no meio do escuro estou perdido e creio que é tarde demais....

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Poema Para Uma Amiga Morta. Bendita seja amiga morta dorme no seu sono de máquinas dorme a salvo deste mundo atroz sei que hipócritas dançam vitória mas no seu sono vazio não há mais dor nem razão Bendita seja amiga quase viva Graças dou a sua morte - vida dorme a salvo dos abutres dos que arrotam verdades mas defecam mentiras Bendita seja amiga morta que a noite chega sobre nós que há mais verdades nos teus lábios mortos do que entre nós ??/02/1992

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Reprodução. o sal amargo da terra os dentes de pedra polida brilhando no sol do dia a dor no ventre de fogo gestando o vidro da vida o serpentear acrobático das águas em louca corrida dançando a beira de abismos para se transbordar em cascatas o rito mágico dos deuses a mágica do universo a gerar estrelas e luas na intimidade de um quarto fechado o olho imenso que espreita vigia e testemunha o dionisíaco desejo e impulso que atropela e encontra machos e fêmeas a dor da luxúria no parto abençoando com a semente sem revés o ato o rebento sorrindo feliz no calor morno do leite materno 15/07/1994

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Sem Nome, a Dor. não saberá pronunciar o nome da dor porque a corrente do vento impera e carrega os nomes para longe terá sua língua tornada em pedra e seus dedos em grossas raízes se entranhando pelo ventre da terra na planície de quartzo e granito o fumo negro brota da terra asfixiando a quem tudo impassível assiste as lágrimas formam sulcos no rosto coberto de pó e fuligem não há mais medo só o torpor e a angustia imperam uma dor a dor sem nome e sem tempo

15/09/94

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É Preciso. tirar a armadura após a longa batalha deitar ao chão a lança, a espada, escudo, elmo e estafa lavar as feridas do corpo e da alma com a água mais limpa, sem sangue nem mácula procurar no mais profundo a palavra serrada nos lábios das noites silentes saber as medidas da dor e da calma sem ter réguas, medidas, nem tréguas não é preciso ter pressa para não viver é preciso fazer o café é preciso arrumar a cozinha para o jantar por a mesa servir os pratos vazios na mesa sem convivas chorar a noite perdido no frio

06/07/1998

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Contrato. quando me deram de comer compraram com isso minh’alma colocaram no fundo do prato um contrato sem que me apercebesse e quanto mais me fartasse quanto maior a abundante mesa mais partes de mim se levavam não me sinto mais eu mesmo há um vazio que me preenche por dentro não há tormento, nem angustia só um vazio que me permeia a pele como se esta fosse invisível como se não fosse mais possível.

06/08/1998

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Aqui Estou. aqui estou exilado de outras eras como um sonâmbulo andando no mundo dos vivos não há tempo que não seja o passado semente se apossando de minhas entranhas fígado, baço, estômago, tripas, pulmões, coração, um bom tanto de sangue, gordura e fezes e um monte de estranhas dúvidas uma sensação de acordar/dormir permanente o sangue que suja minhas mãos é real ou imaginário? este cheiro acre em minhas narinas, não sei! aqui estou andando por ruas que não conheço procurando um lugar que não vi com um endereço que não tenho como um pesadelo recorrente, como se pudesse ver com os olhos dos mortos.

??/11/1998

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FATEA.

arcos romanos sobre colunas jônicas telhas vermelhas descanso do sol nuvens dispersas pelo horizonte janelas curiosas espreitam vidros sujos, antenas jornais com notícias usadas, amanhecidas carcomidas e gastas pelo tempo.

12/06/1999

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Porta Azul.

parado esperando alguma coisa acontecer a porta azul entreaberta os carros aguardando lá fora o silêncio tomando conta de tudo parado como se não esperassem mais nada e nada mais fosse acontecer nem a porta azul se fechar e se os carros nunca mais andarem como se tudo criasse raízes os postes desenvolvessem copas tudo tomasse forma vegetal plantados no mesmo lugar.

12/06/1999

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Esquife. enterrei o seu esquife no chão de minha sala toda a madeira perfumei com incensos e jasmins esculpi em ouro e prata seu retrato só para mim pintei nas minhas palmas uma grande cruz carmim sentei durante dias diante da janela aberta e quando na rua chovia no fundo eu bem sabia eram lágrimas por mim derramadas

29/10/1999

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Sinceridade Do Vento.

não acredite na sinceridade do vento porque o vento mente o tempo todo trás conversas de boca miúda de sereias, ninfas e fadas trás pequenas conchas e areia da praia para o deleite do menino que ri de nossa surpresa não acredite que o vento possa ser sincero porque o vento é poeta de horas incertas de rimas quebradas e versos sorrateiros que corre os vales, sem eira nem beira e nunca fica não se façam crer que o vento diga a verdade nem o poeta que vos fala que fala com a voz do vento mas, não sabe nem ir e nem vir, ancorado que está em salgadas saudades... 23/03/1999

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Me Vejo Fechado.

me vejo fechado entre quatro paredes escuras feitas de pedras lisas e duras meus olhos cegos tateando no escuro em uma busca vã a procura de luz me vejo calado no meio exato do breu nem um passo e nem um dedo nem a menos nem a mais

19/03/1999

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Novotempo. há um movimento de queda permanente rondando o abismo do mundo (que do fundo te espreita) há um medo escondido atrás de cada poste sem luz há uma rua escura e úmida dentro do meu pensamento onde chove permanentemente embaçando meus óculos há um gato assustado arranhando dentro da caixa, fora o espera o punhal do sacrifício flores mortas em cima da mesa traços tortos escritos sobre o papel ameaçam ruir as ruínas roídas pelo futuro seladas pelo segredo sussurradas após o longo degredo a ignorância escondida atrás da porta para pular nas costas como um louco ginete mas, agora de nada adianta a fonte do esquecimento ficou a muito para trás. 27/01/2000

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Eu Morri.

eu morri, e você nem sabe meus pedaços estão espalhados pela calçada, bem em frente ao portão de sua casa mas, você não saberá meu nome (nunca lhe falei, nem um bom dia, quanto mais o meu nome...) nem meus motivos eu morri e você nem sabe das horas sem respirar nem nunca saberá pois eu morri e você nem sabe

07/11/2000

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Contra Mão.

verti meu sangue pelas escadas sobre a pedra bruta e nua tingindo de vermelho o fio do destino caminhando como um sonâmbulo nas ruas não sei se dou meus passos sobre cacos de vidro ou sobre nuvens não mais distingo entre a dor e a não dor esta noite dormi sobre suas roupas com seu perfume embalando meu sono como uma criança no útero da mãe estava escuro e quente não sei por quanto tempo permaneci ali as vezes confundo o dia com a noite não sei se estou indo ou vindo, parece que estou sempre andando pela contra mão

31/08/2000

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O Autor. Edson Bueno de Camargo, nasceu em Santo André SP, em 24 de julho de 1962, mas suas raízes estão na cidade de Mauá - SP, onde mora desde seu nascimento. Aos doze anos descobriu sua vocação para a poesia. Embora sua produção seja muito grande é um poeta praticamente inédito. Publicou em 1981, um pequeno livro em forma de fanzine intitulado “Cortinas”, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi. “Poemas do Século Passado” é sua primeira publicação individual. Foi membro do Colégio Brasileiro de Poetas, entre o final dos anos setenta e início dos anos oitenta. Ganhou o segundo lugar no 9º EPOM, Encontro de Poesias de Mauá, com o poema “Pequeno Poema de Amor para Cora Coralina” e menção honrosa no Concurso de Varginha – MG, com o poema “Tiro na Noite”. Sua alma inquieta, busca sempre expressar-se de maneira a levar as pessoas ao questionamento de seus desejos e sentimentos em relação a vida. Antes de mais nada é um escritor do cotidiano, percebendo detalhes do dia-a-dia das pessoas que muitas vezes lhes passam desapercebidos. A obsessão do autor em sua obra é a permanente preocupação com a passagem do tempo, sua fluidez e suas conseqüências, daí o título do livro “Poemas do Século Passado”. Atualmente participa do Núcleo de Literatura de Mauá, que tem a intenção de disseminar o gosto pela palavra escrita entre as pessoas, para que estas tenham o estímulo de mostrar suas produções, ou que apenas queiram apreciar a poesia. Outro projeto seu já está em andamento, é a publicação de um livro de hai-kais, com o título provisório “O Zen e a arte de plantar papoulas em noites de lua cheia...”, pequenas gotas de verdadeiro lirismo sobre a leveza e suavidade que podem ser encontradas na natureza.

Contatos com o Autor: Rua José Cezário Mendes, 104 – Vila Noemia - Mauá – SP - CEP – 09370-600 e-mail : camargoeb@ig.com.br Poemas do Século Passado-1982-2000” – livro de poesia– Edição de autor – Mauá – SP – 2002

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