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Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 1

By Edson Bueno de Camargo


Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 2
By Edson Bueno de Camargo

Edson Bueno de Camargo.

Poemas
Do
Século
Passado.
(1982-2000)
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 3
By Edson Bueno de Camargo

2002 Edson Bueno de Camargo


email: camargoeb@ig.com.br
Endereço: Rua José Cezário Mendes, 104
Vila Noemia – Mauá – SP
CEP – 09370-600

1ª Edição.

Tiragem: 1.000

“Das Utopias”

“Se as coisas são inatingíveis... ora!


Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!”

Mário Quintana
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 4
By Edson Bueno de Camargo

Edson Bueno de Camargo;


Um Homem do Século Passado.

Aristides Theodoro(*).

O Edson Bueno de Camargo, velho companheiro,


remanescente do finado Colégio Brasileiro de Poetas, da
cidade de Mauá - SP, que como eu, vem fazendo mal as
artes desde o século passado, pediu-me para deitar umas
palavrinhas em forma de prefácio ao seu livro " Poemas
do Século Passado. (1982-2000) ". O título deste livro por
si só, já é um poema e diante disto dispensa muito bem o
meu pobre comentário, que a exemplo da maioria dos
prefácios, nada acrescenta a sua estreante obra (**), que
possui fôlego e pernas para andar sozinha.

" Poemas do Século Passado. (1982-2000). "


constitui-se de pequenas pedras mosaicas indispensáveis
na montagem do painel como um todo, que o autor se
propôs a erguer a exemplo de um arquiteto, só que com
palavras e diante disto, cada peça aqui se faz necessária,
preenchendo o seu devido lugar no afresco.

Alguns poemas de Edson Bueno de Camargo,


mormente os pequenos trabalhos são carregados de
bonitas imagens que dão vida ao livro: "é tarde/e a noite
afaga meus sonhos". Mais adiante o poeta com frases
curtas, incisivas e carregadas de poesia, diz (sempre
começando com letra minúscula): - "retorno das eras
profundas do pensamento".

Em alguns momentos, notamos uma espécie de


obsessão do poeta pelo tempo, este incorrigível bandido,
que sempre passa "como um rio em nossa vida" – "lá
estava a porta/desbotada pelo passar das eras".
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 5
By Edson Bueno de Camargo

No poema lirismo, é questionado a fazer poesia, de


maneira contida, carregada de inspiração. Porém com
forte carga de emoção. Leiamos: "o roer da
rima/inconstante trama/melódico acalanto/para o fim do
pranto/que enfim se derrama/e o poeta declama/a poesia
guardada". Todo o trabalho de Edson Bueno de Camargo
está saturado de um lirismo contido, quase
envergonhado, onde o autor, preocupado grandemente
com a condição humana, a exemplo de Richard Wagner,
dá a sua contribuição em forma poética, a fim de a seu
modo elevar o semelhante através da arte. Portanto,
convêm que o leitor se debruce sobre estas páginas de "
Poemas do Século Passado. (1982-2000) " e tire suas
próprias conclusões.

Toca - Filosófica. 03/11/2001.

(*) - Aristides Theodoro é jornalista, ensaísta e


escritor.

(**) - Apesar de serem feitos apenas 50 exemplares, o


poeta publicou um pequeno livro reprografado - "Cortinas" em
1981, junto com a poetisa Cecília Auxiliadora Bedeschi de
Camargo.
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 6
By Edson Bueno de Camargo

Dedico...

dedico a todos sem exceção,


amigos e inimigos,
mas em destaque,
àqueles a quem amo
especialmente a Cecília.
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 7
By Edson Bueno de Camargo

Poema sem Liberdade.

é tarde
e a noite afaga meus sonhos

e o medo
desprezo de quem vive
já não me toma conta

retorno
das eras profundas
de pensamento

e giro
às bordas de minha decadência

perpetuo o momento
desfaço o meio
e flutuo no plasma líquido

este por sua vez


é infinitamente livre

mas
eu não sou

temos um corpo
para prestar contas
numa dívida
trágica e sem solução.

18/08/1982
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 8
By Edson Bueno de Camargo

Poema Com Liberdade.

quero escrever algo diferente


que fale de amor latente

de viver tão diferente


do que vivemos agora

tocar
violas de vento e flautas mágicas
em clima amigo
e de pés descalços

encontrar todos os amigos


na ruas
espantar todos os medos das esquinas

dar luz
aos olhos dos cegos da verdade

alimentar as crianças e as mulheres


que apodrecem no cantos vazios e frios
dos trens e estações desta ferrovia

pintar
de verde estes prédios

e um sorriso
nestes rostos enrugados, suados e queimados

falar aos trabalhadores das construções,


das máquinas
e de todos e tantos outros fardos pesados
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 9
By Edson Bueno de Camargo

“largai esta rede pescador


e siga-me”

para um hoje melhor e interior.

20/08/1982
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 10
By Edson Bueno de Camargo

Naturais.

o vento
envolve as telhas e os telhados

varre as ruas das folhas


de outono

assalta de súbito
os guarda-chuvas
nos molhando no dia frio

o cálido relâmpago e o trovão conseqüente


iluminam os olhos incendiados
com esta visão

passos largos
dados ao léu
nas poças d’água e de lama

descortina
o céu
numa luz visível
limpando o tempo e secando as roupas

22/06/1983
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 11
By Edson Bueno de Camargo

A Lua Escondida.

o que das nuvens dizer


que o céu engole

onde a lua burla


nosso intentos de encontrá-la

na noite
sim, nas trevas
a falta do luminar

no entanto
e portanto
aprendemos a enxergar no escuro
do negro horizonte

e com isto,
não mais,
podemos finalmente descobrir a paz

na estranha e branca bola


por detrás
da cortina de água

mimetizada
com a paisagem
que nós não vemos.

20/09/1983
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 12
By Edson Bueno de Camargo

Paraédsons.

não era como sou


nem serei como era
nesta transmutação de mundos

que em parte
soa e ressoa
nos meus tímpanos

o mesmo acorde
o resto musical
da sinfonia
deixada no ar pelos rastros das palavras

trago ainda na barriga


a cicatriz
da ferida

prova da desunião
de dois seres conjugados

rompida a ligação umbilical


cegou-se a visão
com a luz violentamente

e num último esforço


aspirei o oxigênio
que me faltava no sangue
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 13
By Edson Bueno de Camargo

ainda respiro
resistindo a negação
mas me sinto alienígena
a esta lógica

restrito ao endeusamento
do mítico, me completo e me leio
do passado corrente que ainda me aturde
de segundos atrás
e te miro
orquídeas nos cabelos
e os pés como raízes
de uma milenar oliveira

e eu sou como a grama


que morre e renasce
em todo lugar.

30/01/84
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 14
By Edson Bueno de Camargo

Retrato Rasgado.

diante da porta
não havia nada
por detrás da mesma
já se via tudo
não tinham mais segredos

os instantes de revelação
passaram-se tempestuosos
e se foram
como os passos
inclinados em meus anos

o tempo se encarregou
de levar
os pedaços do retrato
picados e
jogados ao chão

descoloriu a pintura
como os cabelos
dos que ganham muitos anos,
tingidos de branco

as lágrimas não foram crônicas


os gemidos anacrônicos
a insegurança
se fundiu
com as outras neuroses adquiridas
e fez parte do contexto
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 15
By Edson Bueno de Camargo

sentei-me a beira
da calçada
vendo a procissão que passava
as velas acessas
os ramos
o frio frio e fina garoa

tudo se foi
como um raio
no meio da tempestade

estava ali meio perdido


nestes bares de esquina
com estas mulheres da rua
quando dei as mãos com o passado
e comecei a lembrar

voltei a mesma casa


na vila
e lá estava a porta
desbotada pelo passar das eras

mas você
já não mais me esperava

02/02/84
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 16
By Edson Bueno de Camargo

Lirismo.

o roer da rima
inconstante trama
melódico acalanto
para o fim do pranto

que enfim se derrama


e o poeta declama
a poesia guardada

na gaveta empoeirada
esquecida a um canto
do lirismo sofrido

inconstante rima
no decorrer da trama
do amor incontido
na mente introspecto.

14/03/1984
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 17
By Edson Bueno de Camargo

Incógnita Comum.

parece ainda
que sinto o cheiro das rosas
entrando pelas janelas da casa

é como se fosse hoje


o sol das tardes
queimando a pele
o ar morno
nos dando sonolência

quando isto acontecia


você já caminhava
por estas trilhas
e eu não era mais
do que a imaginação
de um futuro distante

agora quem é jovem sou eu


e meu corpo inexperiente
espera as lutas da vida
e minha mente
anseia por conhecer a verdade

no entanto você agora


está sentado nesta cadeira de rodas
perdido no tempo e no espaço
me faz olhar para o passado
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 18
By Edson Bueno de Camargo

tento imaginar o que você vê


e não consigo ver nada
por também estar perdido
vislumbrando o presente

e me entristeço
por que se não fosse sua mudez
provocada pela doença
e o esvaziamento de sua razão
devido a senilidade precoce
podíamos partilhar
deste nosso lugar comum

mas não,
permanecemos assim
um olhando para o outro
tentando adivinhar
o que pensa
um e outro

nesta solidão
de um homem
prestes a chegar ao fim
e o de um jovem
com medo do futuro desconhecido.

28/03/1984
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 19
By Edson Bueno de Camargo

Tarde Em Devaneios.

morre o tempo
na tarde vazia de idéias e ideais

e a via sacra
desponta no raiar de outro dia

ademais das coisas


o dono das poltronas já tiraram seus números

vai começar o sorteio


das cabeças humanas

o deus ignóbil
espera o sinal

vibra a tarde
vazia de idéias e ideais
da longa dívida de corpos
das moças novas e fogosas que passam de frente a
janela

porém
a prisão de vidro impede o tato

os deuses escuros espreitam,


os aviões voam no céu cinzento

teu beijo me espera


e eu te quero
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 20
By Edson Bueno de Camargo

injusto e enlutado meu rosto


impura e infecta a minha língua
o gelo frio derrete

cai a tarde em devaneios

05/03/1985
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 21
By Edson Bueno de Camargo

O Som da Rua.

abra a janela
para a luz do sol entrar

para o som da rua chegar


até o velho
que esta sentado no sofá

que só vê televisão
e espera o chá

se tem gente no portão,


estão querendo entrar
vai lá fora convidar
para a festa que vai começar

ouça este tom


quero acompanhar com o violão
a melodia de todas estas vozes

águas passadas
ventos ligeiros
sussurros de amor
lágrimas secas
palavras ditas e esquecidas

deixa o estranho entrar


que ele é um velho amigo
que passou, para ficar retido na lembrança
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 22
By Edson Bueno de Camargo

o som da rua
as crianças brincando no corredor
no vento frio

mesmo que tema que elas adoeçam


permita a elas brincarem
é tão bom brincar
é bom pensar que se é feliz

mas,
não tem ninguém lá fora
é apenas uma alucinação

era apenas o vento


que despertou a imaginação do tempo
e muitas lembranças...

25/06/1985
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 23
By Edson Bueno de Camargo

Hídrico Anúncio.

corpos de vidro
fibras rompidas por inteiro

a fonte devassa
do dom desejo
deságua no tempo

estanca o fluxo
quebra o silêncio
derrama seus egos na aurora

o brilho escuro, semicerrado


das vozes ouvidas através das paredes frias
do santuário esquecido

diga, se não diga e jamais fale


pois, alguém te ouve
e não te escuta

onde e quando
o tenro vapor da manhã
te molhou os cabelos
e umedeceu a pele

o som distante
das locomotivas eletro-diesel
puxando pesadas cargas rangentes
recortou-te o velho e sombrio passado
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 24
By Edson Bueno de Camargo

acordou de um sono profundo


em que a memória se embebeu (amnésia?)
e sopra as poucas última palavras

rudes e sinceras
únicas
em espontaneidade!

29/08/1985
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 25
By Edson Bueno de Camargo

Roseira Desnuda.

quero
levar-te a ver
meu rosto limpo de máculas
como uma roseira desnuda de espinhos

e crer
que o passado já é morto
enterraram-se as misérias da vida

te quero oscular os lábios


perceber tuas mãos nas minhas
ver e sentir teu suor
correr no meu corpo

ver que ainda cremos


no que um significa para o outro

seguirmos o tempo de perto


descobrir onde ele se esconde

viajar os teu olhos despertos


sem nada se olvidar

e crer
que ainda é o presente
que o futuro é distante
neste momento terno

desde que seja ao teu lado


mesmo que por só um breve momento.

18/09/1985
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 26
By Edson Bueno de Camargo

Rancores.

há faces mirantes e olhos fitos


há olhos hirtos e despedaçados

há um horror vivo
brotando das entranhas das gentes

há um solo rico em húmus


esperando cultivo

há um rancor ardente
latente nos homens

há um sol causticante
crucificando os viajantes das estradas
e estes misteriosamente felizes

mas a fúria cresce a passos largos

enquanto a ave desajeitada decola do ninho


em seu primeiro vôo

e me preocupo com serpentes


vomitando o sopro incandescente
das palavras que vibram cortantes.

20/09/1985
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 27
By Edson Bueno de Camargo

Paz Repentina.

comprimidos
pílulas
extratos
elixires

síndromes/ efeitos causais

odores repelentes
inerentes
de coisas prestes a morrer

na semi - escuridão
de um quarto
que recende a velho e a mofo

tosses secas e repentinas


gemidos e grunhidos noturnos
provocando sussurros irados e sonolentos

o rumor no silêncio do breu noturno


o coração que resiste
numa breve e inútil tentativa

mas, o fim chega


e se escapa
pelas frestas da veneziana

enfim, o fim,
a noite corre tranqüila
para que todos durmam em paz.

28/10/1985
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 28
By Edson Bueno de Camargo

Poema Sem Esperança.

a mão que corta


o talho exato ( e frio)

metódico homem
em sua maneira de se morrer em vida

se curva o signo
o homem se perde em si
perdendo o respeito, a responsabilidade e a liberdade

os sinos dobram
dobram a esquina
a última esperança
o derradeiro bonde (que já partiu)
se perdeu no ermo

os ladrilhos do labirinto
descolam com a umidade e caem
se espatifando no solo duro

o cimento envelhece
assim como as instituições
ambos mostrando a vista aberta
os fortes sinais da deterioração

e todos nós sentados


na guia da sarjeta
vendo ir ao longe
sobre os trilho o bonde (o mesmo?)

se dissipando entre a multidão e de escombros...

04/12/1985
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 29
By Edson Bueno de Camargo

Cavalgada Noturna.

adeus!

a tarde se alarga no céu

um viajante se despede
e segue para a sua longa jornada

a noite brota como uma tulipa negra


e descobre a lua
que se escondia por detrás da terra

onde estará o caminhante?

que cavalga num tropel noturno


pela estrada escura e vazia

22/01/1986
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 30
By Edson Bueno de Camargo

Dor.

aplaca-me a dor
da inconsciência perdida

a dor dos medos


que não renuncia

a dor da carne
que não termina
que não tem fim

interrompe-me a dor
com um breve milagre

por que esta me torce por dentro


esta dor de angústia
que me entorpece o ser

e me faz
arquitetar sonhos medonhos
para por fim terminá-la

finda-me o sofrimento
que vai muito além do entendimento

por que o que mais quero


é descansar
sem esta profunda angústia que me abate

19/12/87
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 31
By Edson Bueno de Camargo

Visões.

a cidade
não tem horizontes

se dissolve o contexto

a cidade
se fecha sobre nós

é como um mundo desabando


congela-se sobre nossas cabeças

e a qualquer instante

não sei?

algo me diz
quando andejo as ruas

por que a prostituta não tem rosto?


a cerveja não tem mais gosto?

um bar
um hotel barato
uma igreja no meio da noite

não te vejo
se existes
onde estás
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 32
By Edson Bueno de Camargo

como saber se não te tropeço


não te atropelo
no meio da escura e fria noite

05/11/88
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 33
By Edson Bueno de Camargo

Ferro Frio.

frio ferro
ferrugem
pedras, águas que rolam sobre

mato, medo
segredo
fonte viva cristal

bate o martelo
sem dó

prego
prega a madeira
tábua, forro, vidro,
caixão

bate o martelo
sem dó, nem dor

cobra de fogo
serpente de pena
cabelo de gente
Satanás

talha o ferro frio


malha o dedo
arranca a unha
e só

26/03/1991
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 34
By Edson Bueno de Camargo

É Noite.

é noite
e respiro o brilho

cruzam a cidade
em raios velozes

encontram as cruzes
no alto das torres

procuram as luzes
no meio das trevas

é então
que quando uma lágrima
brilha em teu olho

destilo a dor
deste mar salgado

desvisto as nuvens
e clamo a atenção dos homens
como um pregador desvairado

retiro a venda
para abrir os olhos no meio do escuro

estou perdido
e creio que é tarde demais....
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 35
By Edson Bueno de Camargo

Poema Para Uma Amiga Morta.

Bendita seja
amiga morta
dorme
no seu sono de máquinas

dorme a salvo
deste mundo atroz

sei que hipócritas


dançam vitória

mas no seu sono vazio


não há mais dor nem razão

Bendita seja
amiga quase viva
Graças dou a sua morte - vida

dorme a salvo dos abutres


dos que arrotam verdades
mas defecam mentiras

Bendita seja
amiga morta
que a noite chega
sobre nós

que há mais verdades


nos teus lábios mortos
do que entre nós

??/02/1992
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 36
By Edson Bueno de Camargo

Reprodução.

o sal amargo da terra


os dentes de pedra polida
brilhando no sol do dia

a dor no ventre de fogo


gestando o vidro da vida

o serpentear acrobático
das águas em louca corrida
dançando a beira de abismos
para se transbordar em cascatas

o rito mágico dos deuses


a mágica do universo
a gerar estrelas e luas
na intimidade de um quarto fechado

o olho imenso que espreita


vigia e testemunha
o dionisíaco desejo e impulso
que atropela e encontra machos e fêmeas

a dor da luxúria no parto


abençoando com a semente sem revés
o ato

o rebento sorrindo feliz


no calor morno do leite materno

15/07/1994
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 37
By Edson Bueno de Camargo

Sem Nome, a Dor.

não saberá
pronunciar o nome da dor
porque a corrente do vento impera
e carrega os nomes para longe

terá sua língua tornada em pedra


e seus dedos em grossas raízes
se entranhando pelo ventre da terra

na planície de quartzo e granito


o fumo negro brota da terra
asfixiando a quem tudo impassível assiste

as lágrimas formam sulcos no rosto


coberto de pó e fuligem

não há mais medo


só o torpor e a angustia imperam

uma dor
a dor
sem nome e sem tempo

15/09/94
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 38
By Edson Bueno de Camargo

É Preciso.

tirar a armadura após a longa batalha


deitar ao chão a lança, a espada,
escudo, elmo e estafa

lavar as feridas do corpo e da alma


com a água mais limpa,
sem sangue nem mácula

procurar no mais profundo a palavra


serrada nos lábios das noites silentes

saber as medidas da dor e da calma


sem ter réguas, medidas, nem tréguas

não é preciso ter pressa para não viver

é preciso fazer o café


é preciso arrumar a cozinha para o jantar

por a mesa
servir os pratos vazios
na mesa sem convivas

chorar a noite
perdido no frio

06/07/1998
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 39
By Edson Bueno de Camargo

Contrato.

quando me deram de comer


compraram com isso minh’alma
colocaram no fundo do prato
um contrato sem que me apercebesse

e quanto mais me fartasse


quanto maior a abundante mesa
mais partes de mim se levavam

não me sinto mais eu mesmo


há um vazio que me preenche por dentro
não há tormento,
nem angustia

só um vazio que me permeia a pele


como se esta fosse invisível
como se não fosse mais possível.

06/08/1998
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 40
By Edson Bueno de Camargo

Aqui Estou.

aqui estou
exilado de outras eras
como um sonâmbulo andando no mundo dos vivos

não há tempo que não seja o passado


semente se apossando de minhas entranhas
fígado, baço, estômago, tripas,
pulmões, coração,
um bom tanto de sangue, gordura e fezes
e um monte de estranhas dúvidas

uma sensação de acordar/dormir permanente

o sangue que suja minhas mãos é real ou imaginário?


este cheiro acre em minhas narinas, não sei!

aqui estou
andando por ruas que não conheço
procurando um lugar que não vi
com um endereço que não tenho
como um pesadelo recorrente,
como se pudesse ver com os olhos dos mortos.

??/11/1998
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 41
By Edson Bueno de Camargo

FATEA.

arcos romanos
sobre colunas jônicas
telhas vermelhas
descanso do sol

nuvens dispersas pelo horizonte


janelas curiosas espreitam

vidros sujos, antenas


jornais com notícias usadas, amanhecidas
carcomidas e gastas pelo tempo.

12/06/1999
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 42
By Edson Bueno de Camargo

Porta Azul.

parado
esperando alguma coisa acontecer
a porta azul entreaberta
os carros aguardando lá fora
o silêncio tomando conta de tudo

parado
como se não esperassem mais nada
e nada mais fosse acontecer
nem a porta azul se fechar

e se os carros nunca mais andarem


como se tudo criasse raízes
os postes desenvolvessem copas
tudo tomasse forma vegetal
plantados no mesmo lugar.

12/06/1999
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 43
By Edson Bueno de Camargo

Esquife.

enterrei o seu esquife


no chão de minha sala
toda a madeira perfumei
com incensos e jasmins

esculpi em ouro e prata


seu retrato só para mim
pintei nas minhas palmas
uma grande cruz carmim

sentei durante dias


diante da janela aberta
e quando na rua chovia
no fundo eu bem sabia
eram lágrimas por mim derramadas

29/10/1999
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 44
By Edson Bueno de Camargo

Sinceridade Do Vento.

não acredite na sinceridade do vento


porque o vento mente o tempo todo
trás conversas de boca miúda de sereias, ninfas e fadas

trás pequenas conchas e areia da praia


para o deleite do menino que ri
de nossa surpresa

não acredite que o vento


possa ser sincero
porque o vento é poeta de horas incertas
de rimas quebradas
e versos sorrateiros
que corre os vales, sem eira nem beira
e nunca fica

não se façam crer que o vento diga a verdade


nem o poeta que vos fala
que fala com a voz do vento
mas, não sabe nem ir e nem vir,
ancorado que está em salgadas saudades...

23/03/1999
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 45
By Edson Bueno de Camargo

Me Vejo Fechado.

me vejo fechado
entre quatro paredes escuras
feitas de pedras lisas e duras
meus olhos cegos tateando no escuro
em uma busca vã
a procura de luz

me vejo calado
no meio exato do breu
nem um passo e nem um dedo
nem a menos nem a mais

19/03/1999
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 46
By Edson Bueno de Camargo

Novotempo.

há um movimento de queda permanente


rondando o abismo do mundo
(que do fundo te espreita)

há um medo escondido
atrás de cada poste sem luz

há uma rua escura e úmida


dentro do meu pensamento
onde chove permanentemente embaçando meus óculos

há um gato assustado
arranhando dentro da caixa,
fora o espera o punhal do sacrifício

flores mortas em cima da mesa


traços tortos escritos sobre o papel

ameaçam ruir as ruínas


roídas pelo futuro
seladas pelo segredo
sussurradas após o longo degredo

a ignorância escondida atrás da porta


para pular nas costas
como um louco ginete

mas, agora de nada adianta


a fonte do esquecimento
ficou a muito para trás.

27/01/2000
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 47
By Edson Bueno de Camargo

Eu Morri.

eu morri,
e você nem sabe

meus pedaços estão espalhados


pela calçada,
bem em frente ao portão de sua casa

mas, você não saberá meu nome


(nunca lhe falei, nem um bom dia,
quanto mais o meu nome...)
nem meus motivos

eu morri
e você nem sabe
das horas sem respirar
nem nunca saberá
pois eu morri
e você nem sabe

07/11/2000
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 48
By Edson Bueno de Camargo

Contra Mão.

verti meu sangue pelas escadas


sobre a pedra bruta e nua
tingindo de vermelho o fio do destino

caminhando como um sonâmbulo nas ruas


não sei se dou meus passos
sobre cacos de vidro
ou sobre nuvens
não mais distingo entre a dor e a não dor

esta noite dormi sobre suas roupas


com seu perfume embalando meu sono
como uma criança no útero da mãe
estava escuro e quente
não sei por quanto tempo permaneci ali

as vezes confundo o dia com a noite


não sei se estou indo ou vindo,
parece que estou sempre
andando pela contra mão

31/08/2000
Poemas Do Século Passado – 1982 -2000 49
By Edson Bueno de Camargo

O Autor.

Edson Bueno de Camargo, nasceu em Santo André -


SP, em 24 de julho de 1962, mas suas raízes estão na cidade
de Mauá - SP, onde mora desde seu nascimento. Aos doze
anos descobriu sua vocação para a poesia. Embora sua
produção seja muito grande é um poeta praticamente inédito.
Publicou em 1981, um pequeno livro em forma de fanzine
intitulado “Cortinas”, com poesias suas e de Cecília A.
Bedeschi. “Poemas do Século Passado” é sua primeira
publicação individual. Foi membro do Colégio Brasileiro de
Poetas, entre o final dos anos setenta e início dos anos oitenta.
Ganhou o segundo lugar no 9º EPOM, Encontro de Poesias de
Mauá, com o poema “Pequeno Poema de Amor para Cora
Coralina” e menção honrosa no Concurso de Varginha – MG,
com o poema “Tiro na Noite”.
Sua alma inquieta, busca sempre expressar-se de
maneira a levar as pessoas ao questionamento de seus
desejos e sentimentos em relação a vida. Antes de mais nada
é um escritor do cotidiano, percebendo detalhes do dia-a-dia
das pessoas que muitas vezes lhes passam desapercebidos. A
obsessão do autor em sua obra é a permanente preocupação
com a passagem do tempo, sua fluidez e suas conseqüências,
daí o título do livro “Poemas do Século Passado”.
Atualmente participa do Núcleo de Literatura de Mauá,
que tem a intenção de disseminar o gosto pela palavra escrita
entre as pessoas, para que estas tenham o estímulo de
mostrar suas produções, ou que apenas queiram apreciar a
poesia.
Outro projeto seu já está em andamento, é a publicação
de um livro de hai-kais, com o título provisório “O Zen e a arte
de plantar papoulas em noites de lua cheia...”, pequenas gotas
de verdadeiro lirismo sobre a leveza e suavidade que podem
ser encontradas na natureza.

Contatos com o Autor: Rua José Cezário Mendes, 104 –


Vila Noemia - Mauá – SP - CEP – 09370-600
e-mail : camargoeb@ig.com.br

Poemas do Século Passado-1982-2000” – livro de


poesia– Edição de autor – Mauá – SP – 2002

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