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RESUMO

- ELiS -

ESCRITA DAS LíNGUAS DE SINAIS

Este artigo apresenta, de maneira concisa, a ELiS (Escrita das Línguas de Sinais), um sistema de escrita de estrutura alfabética – ou seja, baseado na representação de visemas – criado pela autora com intenção de se tornar a forma de escrita cotidiana de usuários de Línguas de Sinais. Para contextualizá-la, abordo seus primeiros momentos de criação, e em seguida, atualizo sua história com os eventos mais recentes do seu desenvolvimento. Então, explico a estrutura sobre a qual a ELiS é organizada e apresento seus elementos. Finalmente, dou a conhecer um exemplo de sua realização.

Palavras-chave: escrita, Língua de Sinais, ELiS

ABSTRACT

-ELIS-

SIGN LANGUAGE WRITING

This article presents, in a concise way, EliS (Escrita das Línguas de Sinais – Sign Language Writing), an alphabetical writing system – that is, based on the representation of the phonemes/cheremes – created by the author, aiming at becoming the daily writing of Sign Language users. For means of contextualization, its first moments of creation are presented, followed by more recent events in its development. Then, I explain the structure upon which EliS is organized and I present its elements. Finally, I show some examples of its realization.

Key-words: writing, Sign Language, ELiS

- ELiS -

ESCRITA DAS LÍNGUAS DE SINAIS

Mariângela Estelita

1. INTRODUÇÃO - A ELIS

A ELiS é um sistema de escrita das Línguas de Sinais (LS) de base alfabética e linear. Este sistema foi criado em minha pesquisa de mestrado, em 1998, e desde então vem passando por aperfeiçoamentos sugeridos por colegas surdos e ouvintes, e por minhas próprias reflexões linguísticas e hoje encontra-se em sua terceira versão. Inclusive, seu nome acompanha seu amadurecimento teórico. Sua primeira versão nasceu e 1998 com o nome de “AlfaSig” – “Alfa” de “alfabético” e “Sig” do latim “signalis”, mas ao percebermos a estreita relação entre “alfa”, ou “alfabético”, com uma representação de sons, descartamos o nome. Passou a ser chamado de “QuiroSig” por ser um sistema que representa os “quiremas” dos sinais, segundo terminologia de Stokoe na década de 1960. No entanto, colegas perceberam que faltava no nome, algo que fizesse referência a “escrita” e não apenas a “sinais”, então, durante um período teve o nome de ScripSig. O sistema foi novamente renomeado e hoje é apresentado simples e definitivamente como ELiS, uma sigla para Escrita das Línguas de Sinais. A estrutura da ELiS que aqui apresento é sua última versão, a de 2009. Em minha trajetória de desenvolvimento de uma escrita da Libras (inicialmente era apenas da LS brasileira), passei pela criação de propostas pictográficas, ideográficas, silábicas, mesclas destas e terminei na alfabética. A fase pictográfica foi no início do meu contato com a Libras em 1990, como estudante em um curso de Libras para ouvintes, no Sistema Educacional Chaplin, em Goiânia. Eu simplesmente desenhava formas assistemáticas, que poderiam ser a representação das mãos, de todo o corpo, ou apenas de um movimento, enfim, representações de algum traço que me chamasse a atenção em

determinado sinal e que era uma pista para meu esforço de memória posterior. A fase ideográfica foi no início do meu mestrado na Universidade Federal de Goiás em 1995, em que tentei sistematizar as representações gráficas que eu fazia de cada sinal. Criei um símbolo-palavra para cada sinal. A proliferação de símbolos era imensa e quando estava por volta de 280, desisti da empreitada. Percebi que eu estava criando uma escrita pouco prática e que serviria apenas à Libras, pois a motivação para a forma dos símbolos era visual, o que muda de LS para LS. Ainda durante o mestrado, ao tentar descrever vários sinais, por economia, comecei a substituir as palavras do português por símbolos, por exemplo, ao invés de escrever “movimento para frente”, eu colocava apenas uma seta; no lugar de “palma para trás”, eu usava um desenho simples, um quadrado, que para mim representava isso. Fui então substituindo as descrições em português por símbolos e assim, comecei a trilhar o caminho de uma escrita que tendia a ser alfabética. Ainda não usava os símbolos sistematicamente, nem tinha uma percepção clara de todos os parâmetros, sendo que às vezes, apenas um dos parâmetros poderia me satisfazer na representação de um sinal. Era o início da percepção dos parâmetros dos sinais, ainda que de forma bastante intuitiva. Foi então que tive a oportunidade de ir aos EUA como intérprete (de inglês) e conheci a Gallaudet University, em cuja biblioteca me internei por três dias, nutrindo-me da riqueza dos materiais sobre LS reunidos em um só lugar. Lá, em 1997, conheci os trabalhos de Stokoe (1965) e de Valérie Sutton (1981) e soube então que eu não alimentava um sonho solitário. Muni-me de muitos livros e voltei para finalizar meu mestrado. Estudei a proposta de ambos os autores e identifiquei meu trabalho com a percepção dos parâmetros demonstrada na pesquisa de Stokoe (1965). Com o intuito de não reinventar o que já existia, comecei a usar alguns símbolos iguais aos de Stokoe (1965), criei uma seqüência sistemática para escrevê-los e acrescentei outros aspectos dos sinais que julguei necessários, os quais serão explicados na seção a seguir. Devo reconhecer, portanto, que a ELiS tem base no sistema de Stokoe (1965) – apesar de ter nascido

independente dele – que é uma base alfabética, ou seja, uma tentativa de representação gráfica de cada fonema/visema da língua. Em janeiro de 2007, a ELiS passou por reformas propostas por um grupo de 22 surdos, alunos do curso à distância de graduação em Letras/Libras da Universidade Federal de Santa Catarina, com os quais trabalhei justamente com este intuito durante minha pesquisa de doutorado. Nesse trabalho, fizemos a primeira experimentação de uso da ELiS na escrita de textos, e não apenas em palavras isoladas. Nessa pesquisa, as modificações, foram nos níveis fonológico/visológico, ou seja, na criação de novos visografemas/letras e no uso de alguns diacríticos; morfológico,

pois criamos a representação de sinais compostos; além disso, sua estrutura passou a ser estritamente linear. Na maior parte do tempo, nossa discussão girou em torno da questão do ônus e do bônus da escrita alfabética, ou seja, o que se ganha e o que se perde com este tipo de sistema. Às vezes desejamos detalhar bem as configurações de mão, ou o movimento

e ficamos felizes com a mudança que fazemos, ainda que

temporariamente, pois em outras situações, queremos o contrário.

Houve vezes em que diminuímos o nível de detalhamento, e acabamos simplificando demais, o que dificulta a leitura. E ficamos assim, a balancear detalhamento e simplificação em nossas discussões, até que em fevereiro de 2008, sua segunda versão estava pronta. Foi nessa versão que ela recebeu seu nome de ELiS e seu sinal, criado pelo grupo que colaborou na pesquisa. Em 2009, a ELiS passou novamente por modificações e chegou

à sua terceira versão. Nessa versão, o design da maioria dos visografemas foi modificado a fim de que adquirissem maior uniformidade e identidade própria, independente do design de símbolos matemáticos ou outros usados nas versões anteriores. Foi desenvolvida então, nesse ano, uma fonte específica para a escrita

da ELiS digitalmente, com teclado comum.

A partir do ano de 2010, a ELiS começou a ser ensinada no curso de graduação presencial em Letras: Libras da Universidade Federal de Goiás e em vários cursos de extensão promovidos por sua Faculdade de Letras. Desde então, passou por modificações superficiais. Tais modificações não alteraram sua estrutura, mas

apenas tornaram suas regras mais sistematizadas e coerentes entre si. A fonte ELiS acompanhou essas modificações e está atualizada para o sistema ELiS, conforme as últimas modificações na terceira versão, que ocorreram em 2011. Inicio aqui as explicações sobre a estrutura da ELiS de acordo com sua terceira versão atualizada, a fim de compartilhar nossa criação com os leitores.

2. ESTRUTURA DA ELiS

A estrutura da ELiS é a) de base alfabética, b) linear e c)

organizada a partir dos grupos visológicos formadores dos sinais. Em grande parte da literatura especializada atual, esses grupos são denominados parâmetros. Dizer que a ELiS tem uma estrutura de base alfabética significa dizer que seus símbolos gráficos representam visemas das LS. Segundo SCLIAR-CABRAL (2003 p.73), “Os sistemas alfabéticos já pressupõem de saída uma intuição fonológica, uma vez que as letras representam mal ou bem o fonema.” Os símbolos representativos de visemas na ELiS são denominados informalmente de letras, como no alfabeto latino, ou mais tecnicamente, de visografemas, ou seja, unidades mínimas (-ema) escritas (graf-) dos visemas (vis-), uma nomenclatura específica para a escrita dos elementos das LS.

A caracterização da ELiS como linear se deve ao fato de os

visografemas serem escritos sequencialmente, um após o outro. Ambroise Bébian, em 1822 em sua obra intitulada Mimographie, criou o primeiro sistema de escrita de línguas de sinais de que se tem registro. O sistema foi desenvolvido para a língua de sinais francesa, sobre uma estrutura de análise dos sinais também em grupos visológicos. Bébian denominava esses grupos de “elementos básicos”, e os identificava como forma da mão, posição da mão no espaço, local onde o sinal é executado, ação executada, expressões faciais. Mais recentemente, Stokoe (1965) foi o primeiro linguista a perceber as LS como sistema linguístico realmente e estabeleceu três grupos visológicos de análise dos sinais, os quais denominou

aspectos: Configuração de Mão (designator, ou dez), Ponto de

Articulação (tabula, ou tab) e Movimento (signation, ou sig).

A ELiS, ainda que baseada no trabalho de Stokoe, propõe

várias diferenças. Algumas delas são:

- o acréscimo da Orientação da Palma como grupo visológico;

- a sequência em que os grupos visológicos são escritos. Para

Stokoe (1965) é: Ponto de Articulação, Configuração de Mão e

Movimento. Para Estelita (1998) é: Configuração de Mão, Orientação da Palma, Ponto de Articulação e Movimento;

- a criação dos diacríticos indicativos de: orientação do eixo

pulso-palma, lateralidade do ponto de articulação (direita ou

esquerda), de duplicidade do movimento e alguns outros que

explicarei a seguir. Uma das principais diferenças, no entanto, está no resultado da grande reforma pela qual passou a ELiS em 2006, relatada em Estelita (2008), em que o parâmetro Configuração de Mão foi substituído pelo parâmetro Configuração de Dedo.

O conjunto de Configurações de Mão varia de LS para LS.

Também dentro de uma mesma LS, pode haver ocasionalmente o uso de uma Configuração de Mão não estabilizada. Um sistema de escrita das LS que limitasse rigidamente o número de Configurações de Mão representadas não seria totalmente eficaz,

principalmente se pensarmos na possibilidade de sua utilização em várias LS. As Configurações de Dedo são, na verdade, traços das Configurações de Mão. Elas indicam a posição de cada dedo em um dada Configuração de Mão (ver item 3.1) e quando combinadas entre si, formam uma Configuração de Mão. A representação de Configurações de Dedos ao invés Configurações de Mão pela ELiS permite o registro de Configurações de Mãos inusitadas, casuais, criadas seja por um motivo circunstancial descritivo, estético/poético, ou qualquer outro, além disso, permite também a representação de Configurações de Mão de outras LS.

A noção de Configuração de Dedo como grupo visológico é

inovadora. As Configurações de Dedo, além de proporcionarem grande flexibilidade ao sistema, são em número limitado e muito reduzido – apenas dez, contra dezenas de Configurações de Mãos em uma única LS – o que é vantagem em uma escrita “alfabética”.

Apresentarei inicialmente os visografemas que compõem cada parâmetro da ELiS e a seguir, farei uma explicação concisa da estrutura sobre a qual se organizam.

3. OS VISOGRAFEMAS

A ELiS, como já mencionamos anteriormente, privilegia a escrita de quatro grupos visológicos: Configuração de Dedos (CD), Orientação da Palma (OP), Ponto de Articulação (PA) e Movimento (M). Cada um desses grupos é composto por vários visemas, cujas representações gráficas denominamos “visografemas”, e seu conjunto, “visograma”, o que corresponde respectivamente ao conceito de “letras” e “alfabeto” em uma língua oral. Há 95 visografemas na ELiS e eles são assim agrupados:

10 visografemas no parâmetro CD, sendo 5 para representações do polegar, 4 para os demais dedos, e 1 em comum. (v. tabela 1 e quadro 1)

6 visografemas no parâmetro OP (v. tabela 2 e quadro 2)

35 visografemas no

parâmetro

PA,

sendo

15

para

representações de PA da cabeça,

5

do

tronco,

8

dos

membros, e 7 separadamente para a mão. (v. tabela 3 e quadro 3)

44 visografemas no parâmetro M, sendo 20 para movimentos externos da mão, 12 para movimentos internos da mão, e 12 para movimentos realizados sem as mãos. (v. tabela 4 e quadro 4)

3.1. Configuração de Dedos

As configurações de dedos se subdividem em dois subgrupos:

polegar e demais dedos. As representações dos seus visografemas com as respectivas descrições são:

polegar:

q

fechado:

polegar

dobrado

em

todas

as

suas

articulações

 

w

paralelo à frente: polegar estendido à frente da palma, paralelamente a ela

e

curvo:

polegar

dobrado

apenas

na

primeira

articulação

 

r

perpendicular

à

frente:

polegar

estendido

perpendicularmente à frente da palma

t

perpendicular

ao

lado:

polegar

estendido

perpendicularmente ao lado da palma

y paralelo ao lado: polegar estendido, ao lado da palma, paralelamente a ela demais dedos:

q

fechado:

dedos

dobrados

em

todas

as

suas

articulações

 

u

muito curvo: dedos dobrados na segunda e na terceira articulações

o

curvo: dedos arqueados nas três articulações

 

s

inclinado:

dedos

dobrados na terceira

articulação

 

g

estendido:

dedos

com

todas

as

articulações

estendidas

Quadro 1: Configurações de Dedos

q

w

e

r

t

y

q

u

o

s

g

3.2. Orientação da Palma As diferentes orientações da palma foram incluídas na ELiS como um grupo visológico, pois entendemos que a sua indicação expressa é essencial à leitura do sinal. São elas:

l

palma para frente

ç

palma para trás

z

palma para a medial

x

palma para a distal

c

palma para cima

v

palma para baixo

Quadro 2: Orientações da Palma

l

ç

z x

c v

3.3. Ponto de Articulação Os pontos de articulação se subdividem em quatro subgrupos:

cabeça, tronco, membros e mãos. As localizações de cada ponto de articulação não têm fronteiras exatas, pois nosso corpo é um continuum. Isto pode levar a dúvidas em alguns sinais, que apenas poderão ser sanadas por um processo de padronização da escrita, de ortografia. Os visografemas do grupo visológico PA são:

Cabeça:

Q

espaço à frente do rosto

W

alto da cabeça

E

lateral da cabeça

R

orelha

T

testa

Y

sobrancelha

U

olho

I

maçã do rosto

O

nariz

P

buço

A

boca

S

dentes

D

bochecha

F

queixo

G

abaixo do queixo

tronco:

H

pescoço

J

espaço neutro

K

tórax

L

espaço ao lado do tronco

Ç

abdômen

membros:

\

braço inteiro

Z

ombro

X

axila

C

braço

V

cotovelo

B

antebraço

N

pulso

M

perna

mão:

@

palma da mão

#

dorso da mão

$

dedos

%

lateral de dedo

&

intervalo entre dedos

*

articulação de dedo

_

ponta de dedo

Quadro 3: Pontos de Articulação

QWERTYUIOPASDFG

HJKLÇ

\ZXCVBNM

@#$%&*_

3.4. Movimentos Os movimentos são subdividos em três subgrupos: externos à mão, internos à mão, sem as mãos. Entendemos por movimentos externos, os que incluem o braço e/ou antebraço; movimentos internos são os realizados apenas com os dedos e as mãos; movimentos sem as mãos são os realizados por outras partes do corpo como olhos, bochechas, boca.

movimentos externos à mão:

à para frente

á

para trás

â

para frente e para trás

ã

para cima

ä

para baixo

è

para cima e para baixo

é

para a direita

ê

para a esquerda

ë

para a direita e a esquerda

ì

para o meio

í

para fora

î

diagonal para cima e dir.

ï

diagonal para cima e esq.

ò

diagonal para baixo e dir.

ó

diagonal para baixo e esq.

ô

arco

õ

flexão/extensão do braço

ö

circular vertical

ù

circular horizontal

ú

circular frontal

movimentos internos à mão:

û abrir a mão

ü fechar a mão

À abrir e fechar a mão

Á flexionar os dedos na 1 a . artic.

 flex. os dedos na 2 a . artic.

à unir e separar os dedos

Ä tamborilar de dedos

È friccionar de dedos

É dobrar o pulso

Ê mover o pulso lateralmente

Ë girar o pulso

Ì girar o antebraço

movimentos sem as mãos:

Í negação com a cabeça

Î afirmação com a cabeça

Ï língua na bochecha

Ò língua para fora

Ó corrente de ar

Ô vibrar os lábios

Õ movimento lateral do queixo

Ö murchar bochechas

Ù inflar bochechas

Ú abrir a boca

Û piscar os olhos

Ü girar o tronco

Quadro 4: Movimento

àáâãäèéêëìíîïòóôõöùú

ûüÀÁÂÃÄÈÉÊËÌ

ÍÎÏÒÓÔÕÖÙÚÛÜ

Resumindo, os visografemas da ELiS são:

q w

e

r

t

y

q u

o

s

g

l ç z

x c v

   

Q W E

R T Y

U I O

P A S

D F G

H

J

K L Ç

 

\

Z

X C

V

B

N M

 

@

# $ %

& * _

à

á

â ã

ä

è

é

ê ë

ì í

î

ï

ò ó

ô õ

ö

ù ú

û

ü

À Á

 

 Ã

Ä È

É Ê

Ë Ì

Í

Î

Ï Ò

Ó

Ô

Õ

Ö Ù

Ú

Û

Ü

 

4.

A ESTRUTURA DA ELIS

 

Dos quatro grupos visológicos da ELiS, Configurações de Dedo é o único cujos visografemas são traços e, portanto, apresenta uma estrutura interna. Explicaremos primeiramente a estrutura interna deste grupo e a seguir, a estrutura de um grupo em relação ao outro.

4.1. A estrutura das Configurações de Dedo As Configurações de Dedo se combinam simultaneamente em um eixo sintagmático e um paradigmático. Em um sintagma, os

elementos coexistem simultaneamente e são arranjados em sequência, a qual é previsível em maior ou menor grau. Além disto,

a ordem dos elementos é significativa e a escolha de um não exclui

a de outros. Já em um paradigma, os elementos são agrupados em

seqüência aleatória e a escolha de um elemento implica a exclusão de todos os outros. Nas combinações das Configurações de Dedo, isto significa dizer que, sintagmaticamente, todos os dedos de uma configuração de mão são representados simultaneamente em uma estrutura seqüencial – um dedo após o outro – e a ordem das representações

é significativa e invariável – o primeiro dedo a ser representado é o polegar, seguido do indicador, médio, anular e mínimo, em uma ordem anatômica. Paradigmaticamente, há diferentes

representações para cada dedo – estendido, curvo, inclinado escolha de uma exige essencialmente a exclusão das outras. As combinações mais estáveis das Configurações de Dedo correspondem ao conjunto de Configurações de Mão mais comuns

– e a

de uma dada LS. No quadro 5, estão algumas combinações estáveis da LIBRAS. Quadro 5: Algumas combinações estáveis de Configuração de Dedo na LIBRAS

k qqqqg qoq qooq

eu eoq eaq eo ep ea eag ega rfq rd rf

tq tqqqg tgq tgsg tg th

qgq qjq qggq q¢q qgggq q¬q wsg wgsq wh

yq

yqqqg

ysg ygq

yh

A escrita das combinações de Configurações de Dedo foi construída sobre a seguinte estrutura:

Mão esquerda e mão direita são representadas igualmente, sem espelhamento.

- A escrita das configurações dos dedos segue a ordem anatômica

da mão direita (da esquerda para a direita, como todo o sistema):

polegar, indicador, médio, anular e mínimo. Ex.: a combinação tgqqg é lida “polegar estendido perpendicularmente ao lado da palma (t), dedo 2 estendido (g ), dedos 3 e 4 fechados(qq ), e dedo 5 estendido (g ), não importando se está-se representando a mão direita ou a esquerda.

- Na maioria das combinações, não são todas as Configurações de

Dedo que precisam ser escritas. Quando as configurações de todos os dedos subsequentes ao que se está representando forem iguais à dele, elas não serão escritas. Ex 1 : na combinação ysg apenas três configurações de dedos são escritas, mas todos os cinco dedos estão ali representados. Ela é lida “polegar estendido paralelamente ao lado da palma (y ), dedo 2 inclinado (s), dedo 3 e

demais dedos estendidos (g ); ex 2 .: a combinação tg é lida “polegar estendido perpendicularmente ao lado da palma (t), dedo 2 e demais dedos estendidos (g ) ; ex 3 .: a combinação k é lida “todos os dedos fechados”.

- Quando os dedos 1, 2, 3 ou 4 estiverem unidos um ao outro,

haverá um traço horizontal em sua representação. Ex 1 .: a combinação th é lida “polegar estendido perpendicularmente à

palma (t), dedo 2 e demais dedos estendidos e unidos (h); ex 2 .: a combinação q¢q é lida “ polegar fechado (q), dedos 2 e 3 estendidos e unidos (¢), dedos 4 e 5 fechados (q ). - Quando algum dedo estiver em contato com o polegar, haverá um pequeno ponto sobre a representação do dedo que faz o contato. Ex 1 .: a combinação eag é lida “polegar curvo (e), dedo 2 curvo e unido ao polegar (a), dedo 3 e demais dedos estendidos (g ). - Quando dois dedos se cruzarem, as linhas dos visografemas que os representam também aparecerão cruzadas. Ex 1 .: a combinação qjq é lida “polegar fechado (qjq ), dedo 2 estendido cruzado com o dedo 3 inclinado (j) e demais dedos fechados (q). 4.2. A estrutura geral da ELiS

1. A ELiS é um sistema linear, escrito da esquerda para a direita, e possui suas próprias letras.

2. Cada elemento da ELiS é denominado tecnicamente de visografema ou cotidianamente de letra e representa um visema. O conjunto de visografemas é denominado visograma.

3. Uma palavra é separada da outra por espaço em branco.

4. Os sinais de pontuação usados em línguas orais são usados também na ELiS, com valores aproximados (já que de uma língua a outra, pode haver variações de regras de uso de vírgula, parênteses e outros). O ponto final e os dois pontos são pequenos círculos para que não sejam confundidos com diacríticos ou Configurações de Dedos. Algumas informações gramaticais dadas por expressões faciais – como subordinação de orações encaixadas, os tipos de frase (interrogativo, exclamativo, afirmativo e imperativo) também são expressos pela pontuação.

5. Na ELiS, quatro grupos visológicos dos sinais de uma LS são representados, são eles: Configuração de Dedos, Orientação da Palma, Ponto de Articulação e Movimento, sendo que as expressões faciais são entendidas como Movimento.

6. A ordem em que os grupos visológicos são escritos é sempre a mesma para cada sinal: Configuração de Dedos, Orientação da Palma, Ponto de Articulação e Movimento. O

grupo do Movimento deve ser omitido quando este for ausente no sinal.

7. No sinal monomanual, apenas a mão direita será representada. (Esta observação é significativa no que se refere às Configurações de Dedo, a alguns diacríticos, e a alguns movimentos.)

8. No caso de sinais bimanuais simétricos, haverá um sinal indicativo de sinal simétrico (/) no início da palavra e apenas um visema será escrito em cada grupo, valendo para as duas mãos.

9. No caso de sinais bimanuais assimétricos, cada um dos quatro grupos deve conter informação para as duas mãos, como se o espaço do grupo fosse um quadrado subdividido verticalmente, em que o espaço à esquerda abrigará o visema da mão esquerda e o espaço à direita, o da mão direita.

10. No caso de sinais quase simétricos, o sinal indicativo de sinal simétrico (/) também será escrito no início da palavra, porém o grupo que não for simétrico deverá conter dois visemas, um para cada mão, como nos sinais bimanuais assimétricos. O recurso de sinal simétrico poderá ser usado quando no máximo dois parâmetros não forem simétricos, ou quando apenas o parâmetro CD não for simétrico.

11. Os visografemas do parâmetro Configuração de Dedos podem receber os diacríticos que indicam a orientação do eixo Pulso/Palma. Estes diacríticos são os mesmos símbolos dos visografemas de Orientação da Palma, porém são escritos acima e à direita dos visografemas de Configuração de Dedos e em tamanho menor.

12. Os visografemas do grupo Ponto de Articulação podem

receber os diacríticos que indicam “lado direito” (>) e “lado esquerdo” (<), se for informação necessária. Os diacríticos são escritos acima e à direita do visografema a ser detalhado.

13. Se houver contato, os visografemas do parâmetro Ponto de Articulação devem ser sublinhados com traço contínuo para

), com traço descontínuo para contato

contato parado (

) e com três traços ).

14. Alguns visografemas do grupo Ponto de Articulação podem receber o diacrítico (§)que indica “parte de trás”. Esse diacrítico pode ser usado com os PA que indicam “espaço à frente do rosto” (Q), “tórax” (K) e “abdômen” (Ç), se for informação necessária. O diacrítico é escrito acima e à direita do visografema a ser detalhado.

15. Os visografemas do grupo Movimento podem receber os

diacríticos que indicam “repetição” (m), ou alternância (n) quando necessário. Os diacríticos são escritos acima e à direita do visografema a ser detalhado.

16. Os visografemas do grupo Movimento podem receber os diacríticos que indicam qual dedo participa do movimento (1, 2, 3, 4, 5, respectivamente para os dedos polegar, indicador, médio, anular e mínimo), quando necessário. Os diacríticos são escritos acima e à direita do visografema a ser detalhado.

no começo e no fim do movimento ( descontínuos para contato intermitente (

17. palavra digitada com o alfabeto dactilológico terá apenas

A

o

parâmetro Configuração de Dedos, repetido para cada

letra da língua oral que estiver sendo representada por um visografema.

5. EXEMPLOS A título de exemplificação, apresento aqui um texto escrito por uma aluna do curso de graduação em Letras: Libras da Universidade Federal de Goiás em 2012. O texto será primeiro mostrado em sua forma original, em seguida com as palavras correspondentes em português, e por último será feita uma tradução para o português. Também, pode-se ver a versão sinalizada do texto

no link

Durante o terceiro semestre letivo de estudo de ELiS, em que há aulas tanto práticas quanto teóricas, a seguinte atividade de sala de aula foi proposta aos alunos: a aula foi no dia 24 de abril de 2012, e motivados por essa data, em que comemorávamos 10 anos de promulgação da Lei de Libras, cada aluno deveria produzir um texto sobre o tema.

XXXXXXXXXXXXXXXx.

A aluna Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto:

Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante
Gabriela Otaviani, que é surda, escreveu o seguinte texto: Observe-se que a primeira palavra é bastante

Observe-se que a primeira palavra é bastante representativa da importância de uma escrita das línguas de sinais. A primeira

palavra do texto, no título e no corpo do texto, é o sinal-nome que o grupo criou para a menina da gravura. O texto não mostra um nome soletrado em português, mas simplesmente um sinal-nome, suficiente para identificá-la dentro da cultura surda, intraduzível para o português. Há também, no texto, exemplo de simultaneidade de signos lingüísticos – “sair correndo chorando” – característica exclusiva das línguas de sinais, impossível em línguas orais devido à seqüencialidade da cadeia dos sons na fala. Além disto, no texto abaixo, se apenas as palavras em português forem lidas, poderá ser percebido que a gramática não é a desta língua, mas sim da LIBRAS.

sinal-nome (menina) sinal-nome (menina) praia sinal-nome (menina) conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia

sinal-nome (menina)

sinal-nome (menina) sinal-nome (menina) praia sinal-nome (menina) conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia

sinal-nome (menina)

sinal-nome (menina) sinal-nome (menina) praia sinal-nome (menina) conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia

praia

sinal-nome (menina) sinal-nome (menina) praia sinal-nome (menina) conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia

sinal-nome (menina)

(menina) sinal-nome (menina) praia sinal-nome (menina) conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia ver
conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia ver
conhecer
tartaruga
junto
ir
mãe
brincar
areia
ver
conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia ver assustar tartaruga grande seguir sair-chorar-correr
conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia ver assustar tartaruga grande seguir sair-chorar-correr
conhecer tartaruga junto ir mãe brincar areia ver assustar tartaruga grande seguir sair-chorar-correr
assustar tartaruga grande seguir sair-chorar-correr mãe mãe explicar chorar-não porque tartaruga morder-não
assustar
tartaruga
grande
seguir
sair-chorar-correr
mãe
mãe
explicar
chorar-não
porque
tartaruga
morder-não
poder
carinho
sinal-nome (menina)
resolver
carinho
tartaruga
igual
admirar
tamanho
carinho sinal-nome (menina) resolver carinho tartaruga igual admirar tamanho Christiane Juliana Letícia Rodrigo

Christiane

carinho sinal-nome (menina) resolver carinho tartaruga igual admirar tamanho Christiane Juliana Letícia Rodrigo

Juliana

carinho sinal-nome (menina) resolver carinho tartaruga igual admirar tamanho Christiane Juliana Letícia Rodrigo

Letícia

carinho sinal-nome (menina) resolver carinho tartaruga igual admirar tamanho Christiane Juliana Letícia Rodrigo

Rodrigo

A seguir, uma tradução para o português, feita por mim, do

texto

.
.

A menina (sinal-nome) conhece a tartaruga

A menina (sinal-nome) foi junto com sua mãe para a praia.

A menina (sinal-nome) estava brincando na areia quando viu

uma tartaruga muito grande. Ela ficou muito assustada e saiu correndo e chorando para perto de sua mãe. Sua mãe explicou que não precisava chorar, porque tartaruga não morde. Disse que podia ir fazer carinho nela.

A menina (sinal-nome) resolveu ir fazer carinho na tartaruga e

ficou muito admirada em ver que elas eram do mesmo tamanho.

Vemos que a ELiS permitiu a expressão da LIBRAS por escrito, com sua gramática própria, com suas particularidades de Língua de Sinais, expressando a cultura dos que a utilizam.

6. PALAVRAS FINAIS

A ELiS, como qualquer outro sistema de escrita, seja de

línguas de sinais ou de línguas orais, representa alguns aspectos das

línguas que pretendem registrar, mas não todos. A ELiS não poderia representar uma LS em sua totalidade, nem era minha intenção que assim o fizesse. Na escrita de línguas orais, vê-se frequentemente a omissão de representação de entonação, uma confusa representação de nasalização e tonicidade, uma inconsistência nas relações que se desejariam biunívocas entre fonemas e grafemas e uma série de outros problemas. Isto porque as línguas se realizam em vários níveis e se todos fossem representados, resultaria em uma escrita carregada, “anti-econômica”, muito pouco prática. Ainda que se pretendesse representar apenas o nível fonológico/fonético, nem todos os detalhes poderiam compor a escrita. Uma transcrição fonética é algo bastante mais detalhado do que uma escrita alfabética/ortográfica.

A ELiS é capaz de representar aspectos essenciais dos sinais, suficientes para a compreensão por escrito dos mesmos por um leitor distante, ou seja, pessoas que conhecem as convenções do sistema ELiS são capazes de se comunicar por escrito em LS. Enquanto resultado de pesquisa acadêmica minha, a ELiS era apenas uma estrutura hipotética, algo que poderia vir a ser, como uma árvore cheia de galhos secos no inverno. A ELiS passou este ano por um processo de experimentação em que o uso por alguns surdos nos apontou o que ainda deveria ser modificado nas bases de sua estrutura ou de seus quirografemas. Com isto, passou a ser um sistema de escrita real, com usuários reais, e ganhou vida – como que por um encanto de primavera – uma vida própria, independente de mim, uma vida sustentada por seus novos criadores, os surdos seus usuários. Digo novos criadores porque a estrutura que apresento aqui ainda não é a ELiS, é uma proposta de ELiS. Este novo sistema entra agora em um estágio de experimentação prática. Neste período, o objetivo é difundi-lo e assim, liberá-lo para evoluir pelo uso. Os surdos, ao começar a usá-la, estão se apropriando desta estrutura, adaptando-a para melhor representar a LIBRAS, inovando em soluções, aplicando-a em inúmeras e imprevisíveis finalidades, enfim, estão fazendo desta árvore seca, uma frondosa e frutífera planta. Disponibilizo então uma opção de escrita prática, que bem pode ser desenvolvida para uma escrita cotidiana das LS através de seu uso. Almejo que, estando já os surdos se apropriando da ELiS, e sendo eles os novos criadores/desenvolvedores desta escrita, poderemos juntos pretendê-la para escrita oficial da LIBRAS e de qualquer outra LS.

REFERÊNCIAS

ESTELITA, Mariângela. 1997. Proposta de escrita das Línguas de Sinais. Dissertação. Goiânia: UFG. SCLIAR-CABRAL, Leonor. 2003. Princípios do sistema alfabético do português do Brasil. São Paulo: Contexto. STOKOE, W., CASTERLINE, D., CRONEBERG, C. 1965. A dictionary of American Sign Language on linguistic principles. Washington, Gallaudet. SUTTON, Valerie. 1981. Sign writing for everyday use. La Jolla:

Deaf Action Committee for Sign Writing.