Fichamento

ANDERY, Maria Amália. (et al.) “Parte IV – A História e a crítica redimensionam o
conhecimento: o Capitalismo nos séculos XVIII e XIX.” In: Para compreender a
ciência: uma perspectiva histórica. São Paulo: EDUC, 1988. pp. 253-430.

Capítulo 15
Século XVIII e XIX: Revolução na Economia e na Política
(pp. 255-295)
“Embora seja bastante difícil propor uma síntese do que foi o pensamento dos
séculos XVIII e primeira metade do XIX, é possível tentar destacar algumas tendências
deste pensamento, apontar rumos em direção aos quais se desenvolveu”. (p. 283)
“O pensamento desse período foi profundamente marcado pela ascensão
econômica e política da burguesia e tendeu a refletir as ideias, interesses e necessidades
dessa classe. Pode-se dizer que ele expressou, embora de diferentes formas e em graus
variados, três valores básicos da sociedade burguesa: a liberdade, o individualismo e a
igualdade.” (p. 283)
Segundo L. Goldman, esses três elementos básicos do pensamento burguês,
encontram-se expressos no racionalismo (e, de forma menos radical, no empirismo e no
sensualismo, desenvolvidos particularmente na Inglaterra): liberdade, no sentido de
independência em relação a qualquer elemento externo ao individuo e em relação às
paixões, que nos ligam ao mundo exterior; o individualismo, no sentido de ruptura dos
laços entre o indivíduo e o universo, o mundo exterior; e igualdade, na medida em que a
razão é igual em todos os homens. (p. 286)
“Nos períodos que antecederam a Revolução Industrial, a ciência não se
relacionava diretamente a atividades produtivas.” (p. 293)
“À medida que o capitalismo avança, porém, geram-se problemas que, cada vez
mais, lançam desafios à ciência e cada vez mais ela é necessária para respondê-los.” (p.
293)
“Assim sendo, à medida que a ciência foi se desenvolvendo cada vez mais
relacionada à produção, ela foi mudando suas características, a atividade científica foi se
organizando formalmente, tornando-se uma profissão reconhecida, e, por outro lado, a
ciência foi perdendo sua relativa independência, passando a atender aos interesses da
produção e de uma classe detentora dos meios de produção.” (p. 295)

1

Sobre o movimento (1721). Principais obras: Ensaio de uma nova teoria da visão (1709). O questionador (1735) e Siris ou reflexões e investigações filosóficas sobre as virtudes da água de alcatrão (1744). “Ser é ser percebido”.Biografia e obras Berkeley nasceu na Irlanda do Sul. Tornou-se bispo protestante de Clyone. só porque percebo posso me referir ao conteúdo da minha percepção e não há algo existente fora de mim.Pensamento “O homem nunca terá certeza de que seu conhecimento corresponde às coisas tais quais elas são. Se para Berkeley os objetos sensíveis são combinações de qualidades sensíveis. No entanto. Obediência passiva (1712). etc. O objetivo de Berkeley era combater o ateísmo e o ceticismo que advinham de uma postura materialista (da crença na existência em si. Tratado sobre os princípios do conhecimento Humano (1710). pois a única certeza que podemos ter é das coisas tal como elas nos aparecem. sendo estas últimas aquilo que o autor denomina realidade. 299) 2 . 297). O significado das coisas só pode ser dado por meio dos órgãos sensoriais: não existe tamanho em si. já que negá-las implicaria admitir que estas fossem ilusórias ou. Para isso dá ênfase total nos sentidos. pois. O que apreendemos existe. 296-313). Berkeley procura ressaltar a diferença entre as ideias produtos da imaginação daquelas provenientes das sensações. 2. 1. Quer demonstrar a inexistência da matéria. Lecionou no Trinity College.Capítulo 16 A certeza das sensações e a negação da matéria: George Berkeley (1685-1753) (pp. é impossível pressupor a existência de qualquer ser que não seja percebido. Assim. não é possível negar a realidade destas sensações.” (p. região da Irlanda. em contrapartida afirmando a existência do espírito (alma) e de Deus. Diálogo entre Hilas e Filonus (1713). como diz Berkeley. da matéria independente do sujeito).” (p. O que percebemos pelos sentidos são chamados IDEIAS ou SENSAÇÕES. “Berkeley não nega a existência do que percebemos através de qualquer dos sentidos. Os sentidos do homem são essenciais na relação com o mundo. sabor em si. se constituíssem em quimeras.

os quais regula e mantém. entre os fatos. 300) O espírito é substância ativa. ou mente. 301) O espírito. “Se ideias constituem-se naquilo que se percebe ou naquilo que é produto da vontade. Deus é que dá suporte às regularidades percebidas pelo homem. como os planetas. o que permite conhecê-la e atuar nela. é necessário supor. que em conjunto formam o espírito humano. o odiar. não acredita nas relações causais entre os fenômenos. não se constitui numa ideia. pela experiência. ou eu. mas o meio através do qual são percebidas ideias e através do qual se lida com elas. a existência de um ser percipiente: ele é o espírito. “A realidade possui regularidade possui. Já a vontade é capaz de produzir e operar com ideias o que significa dizer que pode imaginar. [. ou alma.” (p. ligam-se ordenadamente umas às outras. O espírito é a única substância admitida por Berkeley. Deus é quem produz o aparecimento das regularidades de acordo com sua vontade. pela experiência. como Berkeley o faz.” (p. E mesmo algo que não fosse conhecido pelo homem em um momento anterior. Ao contrário. como quando vejo a rua molhada após a chuva. já que este não é fruto de percepção nem da vontade humana.” (p. o que permite ao homem chegar. afirmando somente a substância espiritual. contudo. identifiquemos que no curso natural das coisas tal ideia siga uma dada outra ideia. São também operações de vontade o querer. já era conhecido eternamente por Deus.] A vontade divina produz uma cadeia de efeitos naturais. etc.Berkeley nega a substância material. é preciso admitir a existência de outros espíritos além do meu. a leis gerais. É Deus que permite ao homem perceber as coisas.. (p. mesmo as que até dado momento foram imperceptíveis. Produz e opera com ideias (VONTADE). Berkeley não acredita no subjetivismo individualista (a realidade só dependeria da minha percepção). 301) Apenas se pode ter uma noção do espírito.. contudo. Assim. que permite chegar a regras gerais que explicam um dado evento especial. “Formam cadeias. 303) Definição de ciência para Berkeley: descoberta das concordâncias e harmonia entre os fenômenos. 303) As ideias dos sentidos possuem ordem e não são produzidas por acaso.” (p. “Pelo entendimento apreendemos as ideias de sensação que independem da vontade. não se pode ter ideia do espirito. o que possibilita que. “Se a afirmação da realidade depende da percepção. 303) Berkeley. incorpórea e imortal. a relação causal é a associação de sensações experimentadas constantemente pelo homem.” (p. entre os corpos materiais. uma chuva que não molhe. Essa concepção de espirito humano em geral consegue explicar a permanência dos corpos apesar de não estarem sendo imediatamente percebidos por alguém. afirmar que algo é real depende do suporte do espírito humano em geral. 3 . Percebe ideias de sensação (ENTENDIMENTO). por exemplo.

” (p. pode ser levado a crer que as causas existem na própria realidade e que as relações entre fenômenos são algo exterior ao homem e independentes da vontade divina. numa segunda. “Essa postura. Qualquer que seja a interpretação assumida. quando percebe as regularidades. associada ao papel que atribui a Deus na relação com o mundo e com o conhecimento. assumirse-ia que todas as ideias reais seriam impressas por Deus no homem. assumir-se-ia o mundo como criação divina. mundo este que o homem percebe através dos atributos que Deus lhe concedeu para tal. pode produzir duas interpretações: numa primeira. segundo o autor. não tendo este qualquer papel na apreensão do real a não ser como receptáculo de tais ideias. 306) Capítulo 17 A experiência e o hábito como determinantes da noção de causalidade: David Hume (1711-1776) 4 . o que pode afastar o homem de Deus. nada existe a não ser o que é percebido pelo homem.O homem. 3. o mundo para Berkeley é algo cuja existência e características estão vinculadas à existência humana.Conclusão Berkeley constitui-se num imaterialista ao negar a existência de algo exterior ao sujeito que se possa denominar matéria. já que. no entanto.

em Edimburgo. mas menos vivas e não se confundem com elas. 3. do ceticismo e do positivismo. História natural e religião e Diálogos sobre a religião natural.Impressões: nossas sensações quando experienciamos algo. Todo conhecimento que se refere ao mundo é fundado na percepção.Positivismo: recusa a postular uma essência. 314-330) David Hume nasceu na Escócia. Discursos políticos. vontades) e sensações (cores. Assim. sons. O conhecimento científico é fruto da experiência humana e qualquer conhecimento não obtido pela via da experiência está a margem da ciência. qualquer pensamento tem na sua base uma impressão e a liberdade que se supõe existir no pensamento é apenas aparente (p. 1. 1. etc. 316). A percepção se divide em IMPRESSÕES e IDEIAS. Importância de Hume: preocupação com a avaliação e a crítica do conhecimento objetivo do mundo: preocupou-se com os processos que levam o homem a fazer afirmações sobre o mundo e a fazê-las de forma a ter plena confiança em suas afirmações. Suas análises do processo de conhecimento se aproximam do empirismo. são cópias das impressões. seja material. seja espiritual para os fenômenos da natureza. em si como produtor de conhecimento e no mundo como objeto de conhecimento. destacam-se: Tratado da natureza humana. 5 . 317). Podem ser reflexões (emoções.). Dentre suas obras. Trabalhou para o governo inglês. Não é possível supor pensamentos (ideias) cuja origem não esteja numa ou num conjunto de impressões (p.(pp. passou um tempo na França (1765-1768). A base dessa confiança decorre dos processos psicológicos característicos do sujeito que conhece. na experiência. Influência de Berkeley e Locke.Ideias: são os nossos pensamentos.Empirismo: a fonte do conhecimento humano encontra-se na percepção.Ceticismo: a confiança do homem na sua experiência do mundo e no conhecimento que daí decorre. 2. Investigações sobre o entendimento humano. 2.

Para Hume existem 3 princípios de conexão entre as ideias: a SEMELHANÇA. 1. mas de sua ausência. (p. respeito a nenhum fato concreto e nem a eles precisa se referir. o homem ser capaz de construir ideias. ou de que os eventos por ocorrer seguirão o meso padrão já observado. a primeira característica de todo conhecimento sobre as questões de fato Não há como estabelecer tais relações causais e. a não ser a partir da experiência que se torna. O que permite a confiança na objetividade desse tipo de conhecimento? 6 . no entanto não diz. Como o homem constrói o conhecimento a partir das impressões e das ideias? Há para Hume. Este é o conhecimento sobre o qual se pode demonstrar sua verdade ou falsidade.321). dois tipos possíveis de conhecimento: as relações de ideias e as questões de fato. A causalidade é o traço fundamental.No entanto. portanto. A 3ª característica das questões de fato: o conhecimento depende da suposição de que o futuro repetirá o passado.320) As afirmações gerais. o conhecimento das matemáticas. necessariamente. A verdade de uma afirmação não pode ser logicamente demonstrada ou refutada. isso é apenas um caso de exceção (p. da geometria e da própria lógica. mas não a partir de impressões. a questão da verdade e da certeza do conhecimento complexifica-se na medida em que o conhecimento ganha em conteúdo. e todo o conhecimento depende de processos que operam na mente quando o homem se defronta com a experiência dos fatos. assim.318). as regularidades que supomos descobrir e descrever com o conhecimento que reproduzimos sobre o mundo derivam de regras naturais que operam na imaginação dos homens. 2. analisando a correção do raciocínio e das relações lógicas efetuadas. Porém. A experiência exerce papel fundamental nesse caso. (p. a CONTIGUIDADE de tempo ou de lugar e CAUSA e EFEITO.QUESTÕES DE FATO: conhecimento que busca expressar conexões e relações que descrevem (ou explicam) fenômenos concretos. a segunda característica desse tipo de conhecimento.RELAÇÕES DE IDEIAS: o conhecimento obtido pela aplicação do raciocínio. não há como construir conhecimento sobre questões de fato. as leis. é possível. em alguns casos. pela construção das relações lógicas.

apesar de se referir a eventos inobservados e inobserváveis. no futuro. É a experiência da contiguidade. O conhecimento científico. Hume faz um deslocamento do papel atribuído à razão na produção do conhecimento. de fenômenos observados. não ultrapassa os limites da experiência. Hipótese que. permite ao homem diferenciar aquilo que é considerado uma ficção da imaginação daquilo que é conhecimento de fato (p. “É aquele princípio único que faz com que nossa experiência nos seja útil e nos leva a esperar. Não se avalia o seu valor de verdade.326) A proposição destas causas. da proximidade temporal que leva o homem a postular os fenômenos como uma relação de causa e efeito. a crença está associada à noção de probabilidade. Hume não acredita num conhecimento racional do mundo. baseado – fundado – na observação.O COSTUME ou HÁBITO: mecanismo que leva ao conhecimento de questões de fato. sua utilidade. 331-346) 7 .325) A causalidade não está nos fenômenos da natureza. Não se aplica ao conhecimento das questões de fato – que é útil.323). (pp. no auxilia em nossa vida cotidiana – o critério de verdade racionalmente obtida. 327) Capítulo 18 Alterações na sociedade. um mecanismo não redutível à razão. (p. “A razão disto pode estar no fato de que Hume afirma suas hipóteses como sendo sugeridas e confirmadas pela experiência. uma sequência de acontecimentos semelhantes às que se verificaram no passado”. O conhecimento é baseado no hábito. A conexão causal entre os fenômenos é afirmada a partir.” (p. Para Hume. Aplica-se um critério pragmático. a partir do fenômeno observado é a proposição de uma hipótese. Há uma inversão: o conhecimento não mais como algo que emana do objeto. subjetivamente. não é apenas a reprodução ou generalização do observado. (p. mas é algo que. efervescência nas ideias: A França do século XVIII. mas também é sempre. o homem lhes atribui. O conceito de CRENÇA: a crença fortalece as conexões que foram derivadas do hábito e permite ao homem optar por determinadas conexões causais e por determinadas expectativas quando diante de um fato. O foco central é o sujeito. Hume não assume como tarefa da ciência a busca de uma causa última dos fenômenos. sempre. para Hume. portanto. mas como uma atividade do homem. mas sim a praticidade.

333) “O racionalismo do século XVIII contraria Descartes. Os pensadores franceses deste período defendem a postura de que qualquer ideia tem origem em uma impressão anterior. pois. 333) “A noção de ideias inatas que. medida observação e cálculo.” (p. Tais regularidades expressam-se em leis e o conhecimento destas leis dar-se-á se forem observados os fenômenos naturais. consequentemente. As regularidades dos fenômenos naturais físicos e sociais “A possibilidade de se chegar a leis sobre a natureza. mesmo que nem sempre possamos identificar qual seja ela ou quando ocorreu. é substituída pela preocupação em descobrir os processos naturais que estão envolvidos na aquisição do conhecimento pelo homem. quer sociais – já que passam todos a ser considerados fenômenos naturais.” (p.” (p. possuía ideias inatas. a crítica à religião) e a noção de progresso. o antidogmatismo (e. que é inerente a todo indivíduo. 334) O papel da análise na elaboração do conhecimento Século XVII: só se chega ao saber se se chegasse à certezas que das quais novos conhecimentos pudessem ser dedutivamente derivados.” (p. já que para eles a razão tem papel primordial na vida do homem. meio de obtenção do conhecimento e guia das ações. “Sendo considerada uma característica natural do ser humano. 336) 8 . enquanto para este a razão tinha uma característica de recipiente – isto é. para Descartes. O racionalismo francês: apoio na observação e na experiência Os autores desse período são racionalistas. verdades eternas. a ênfase aos dados obtidos através da observação e da experimentação. assim como a possibilidade humana de nela atuar apoiam-se no pressuposto de que há regularidades e uniformidades nos fenômenos – quer físicos. a razão é vista como mecanismo.Características do pensamento francês do período: a crença do poder da razão como instrumento de obtenção do conhecimento e de modificação da realidade.. seguindo seu curso e registrando mediante experimentos. estava vinculada à atuação de Deus. Século XVIII: propunha a análise ao invés da dedução como procedimento para obtenção do conhecimento. – para os pensadores franceses. ela tinha uma característica de instrumento..

a problematizar a aplicabilidade direta deste modelo às ciências que lidavam com a vida e com o homem. na Prússia. 2) Por outro lado. nas posturas de Montesquieu.“A defesa de que existem regularidades que se expressam em leis pode ser identificada. chegando. 347-368) Kant nasceu e morreu em Königsberg. em apoio à ideia de que todo o universo é regido por leis e princípios últimos que podem ser descobertos.” (p. por outro defendiam ideias que valorizavam ou visavam colocar no poder camadas sociais às quais pertenciam. 3445) Capítulo 19 As possibilidades da razão: Immanuel Kant (1724-1804) (pp. a despeito do coletivo implícito na noção de natureza humana. se por um lado combatiam a Igreja e o regime feudal. 337) Inovações e limites do pensamento francês Inovações: 1) a noção de natureza humana a qual supõe a existência de características que são comuns a todos os homens. Limitações: “A despeito de inovadoras para época. o que acarreta mudanças na forma de conceber a história humana assim como transformações na forma de estuda-la. tais pensadores: a burguesia ou mesmo a nobreza. Assim. 3) Outro aspecto é a noção de homem enquanto um ser sociável.” (p. Voltaire e Diderot que afirmam buscar em relação à moral e ao direito a ordem e a regularidade encontradas no mundo físico. 9 . enfatiza-se o individual. é impossível desvincular as propostas defendidas pelos pensadores deste período dos interesses de classe que privilegiavam. em relação aos fenômenos sociais. através da ideia de individuo como responsável pela direção de sua própria vida e da sociedade. 4) Além disso. neste período. em geral. os pensadores se preocuparam com as questões metodológicas e com a aplicação do modelo de investigação de ciências naturais a outras ciências.

Enfatizavam o individualismo e a liberdade (valores da burguesia em geral). é necessário a existência do objeto que desencadeia a ação do nosso pensamento. mas determinaria. são juízos universais e necessários – conjugação da razão e da experiência. são os juízos que dependem da experiência. entretanto. “Para Kant.Juízo Sintético a priori: fundamental para a ciência. a razão projetaria a partir de conceitos a priori o que buscar na natureza.Juízo Analítico: juízo elucidativo. ainda. 351) Os conhecimentos empíricos são juízos que se caracterizam por serem contingentes. somente desmembra o conceito explicitando o múltiplo que está sempre pensando nele. objetivando descobrir leis da própria natureza. válidos para todos os casos. já que o predicado atribuído não acrescenta nada ao sujeito. 349) Diálogo com Hume: a causa não decorre da experiência. na produção de conhecimento. 3.” (p. para isso.” (p. por serem a priori. “Os juízos a priori são universais. de determinado modo. o predicado acrescenta ao conceito do sujeito que não poderia ser pensado nem extraído do próprio conceito por desmembramento algum. cujo uso correto só se dá. que independem de toda a impressão dos sentidos. uma vez que enunciam que algo pode ser. Todo juízo estabelece uma relação entre um sujeito e um predicado. aquilo que deve ser e o que se deve fazer (valores da filosofia alemã). o que deveria ser observado. algo de sua própria capacidade de conhecer. O conceito de causa (entre outros conceitos) seria uma forma de pensamento que o homem disporia a priori. (p. ou seja. e particulares.Principais obras: Crítica da razão pura (1781). não estaria subordinada à experiência. mas é uma capacidade de pensar que o homem possui. 2. não permitindo nenhuma exceção como possível. Fundamentação da metafísica dos costumes (1789). a participação de um sujeito ativo que pense. pois. enfatizavam a possibilidade de existir leis a priori do pensamento e ação moral. “A razão. isto é. e ao qual todo o conhecimento deve se referir. ou seja. ampliam o conhecimento dos objetos e.Juízo Sintético: juízo de ampliação. Prolegômenos a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência (1783). 352) 10 . Crítica da razão prática (1788) e Crítica do juízo (1790). há uma síntese do sujeito com o predicado. segundo essas exigências. é fundamental. ou não. no sentido de esclarecer o conceito que se tem. conecte o que é captado pelas impressões sensíveis fornecendo. no interior da experiência. O pensamento e o sistema filosófico kantiano representavam a burguesia alemã. por serem sintéticos. 1.” (p. portanto. 350) Os conhecimentos a priori são juízos que se caracterizam por serem necessários e universais.

Assim.SENSIBILIDADE: faculdade através da qual nossa mente recebe. não podem expor-se a uma intuição sensível. “o conhecimento não tem validade objetiva no que se refere à coisa em si. Conceitos e intuições são necessários para a elaboração do conhecimento. (pp. não conhecemos a coisa em si (NÚMENO). 3) Entendimento. mas sempre em relação com o sujeito. passivamente. são as condições do sujeito humano. 358) Faculdades envolvidas na produção de conhecimento: 1) Sensibilidade. 357) Sabendo que os objetos nos aparecem em função do modo como afetam nossos sentidos. LIMITES DA RAZÃO: ilusão da razão ao pretender obter conhecimentos da existência de Deus. não são propriedade das coisas. que não necessariamente podem ser generalizáveis a outros seres. não tendo nenhum destes elementos. o múltiplo. e pensa as representações da sensibilidade. desempenhando uma função ativa. “Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado. condições a priori da sensibilidade. sendo inseparável da representação do primeiro. objetos da Metafísica. que os objetos são captados pelos seres humanos segundo as condições de sensibilidade.” Para Kant. pois é uma regra que vale universalmente e sem limite para todos os homens. (p. 2) Imaginação. que julga.” (p. mas sim do modo como as conhecemos. 363-4) 11 . sobre tais ideias. que dá unidade aos fenômenos e 4) Razão. que também dá unidade. nem tem um existência em si mesmos. ENTENDIMENTO: faculdade que organiza o diverso. possibilitando a unidade das leis empíricas. é a faculdade das intuições. da alma e do mundo. de capacidade do homem de captação. agindo sobre os conceitos do entendimento. são os modos de sermos afetados pelos objetos. preponderância sobre o outro. representações e o objeto nos é dado de forma diversa. mas tem validade objetiva no que se refere ao fenômeno. Portanto. espaço e tempo. que possibilita que o conhecimento se inicie através de intuições. Ao contrário. que produz esquemas dos conceitos e sínteses das intuições. mas somente tal como elas nos aparecem (FENÔMENOS) SUJEITO e OBJETO: o objeto é necessariamente submetido ao sujeito. múltipla. uma vez que o fenômeno é aquilo que pode ser encontrado no objeto em si mesmo. não se pode produzir nenhum conhecimento. ESPAÇO e TEMPO. isto é. e sem entendimento nenhum seria pensado. não intuímos as coisas tais como elas são em si mesmas. mas total e definitiva. não são possíveis juízos sintéticos a priori sobre elas. Estas ideias da razão não são passíveis de serem objetos da experiência possível.

segundo regras necessárias. 364) CONCEPÇÃO DE NATUREZA: natureza é a interconexão dos fenômenos quanto a sua existência. Ele é voltado ao Direito. Objetivos: seu sistema de pensamento revela preocupação mais ampla que os aspectos específicos da vida humana. portanto. Assim. portanto. totalizadoras e abstratas que atenderam às necessidades tecnológicas da segunda revolução industrial. à Política. válidas para todos. As leis são.” (p. 368) As proposições kantianas também se refletiram no campo científico. segundo leis. foco primordial. que permitem estabelecer relações de causa e efeito e unir estas relações segundo uma lei no que se refere aos fenômenos (e não às coisas em si). gerando uma nova forma de ver e interpretar os fatos que impulsionaram o desenvolvimento de ciências globalizantes. Posteriormente foi nomeado reitor da Universidade de Berlim. a natureza é a unidade dessas relações. relativas ao sujeito. às suas faculdades de captação e união. Em 1801. sem atender a inclinações sensíveis particulares. o que se constituiriam imperativos para o comportamento humano. 369-377) Biografia: Hegel nasceu em Stuttgart em 1770 e morreu em Berlim em 1831. Capítulo 20 O real é edificado pela razão: Georg Wilhelm Friedrich Hegel (pp. o entendimento estabelece relações. iniciou sua carreira universitária na Universidade de Iena.IMPERATIVO CATEGÓRICO: Kant propõe uma moral guiada por leis que determinariam a priori. enquanto âmbitos diversos da realização humana em seu mundo. necessárias e universais. ou seja. é necessário conceitos a priori do entendimento. este sim. Somos nós que introduzimos ordem e regularidade nos fenômenos na medida em que pensamos. à História. 12 . “Para conhecer tais leis. e. (p. que determinam a experiência e o que pode ser conhecido do objeto.

Cada ser (em si/tese) está limitado às qualidades que possui (qualidades que o distinguem de outros seres) e se nega. de sua transformação. segundo ele. sugerindo um estado de limitação. O conceito de SER: o ser é. buscando superar-se e se transforma (para si/antítese). limitaria a razão. 13 . capaz de dirigir seu próprio desenvolvimento. que realiza uma potencialidade presente no velho. Hegel critica o kantismo no que se refere à impossibilidade de se conhecer a coisa-em-si (númeno). Influência cristã no sistema hegeliano: ideia de um Deus que em sua unidade contém 3 entidades é análoga à sua proposta dialética. 372). pela razão.para si/síntese). acreditava que as leis gerais eram criações humanas e. O modo como o ser apresenta-se em determinado momento é apenas um modo de seu existir. conceitos necessários e igualmente universais. como tal. em contrapartida. volta a si buscando um novo estado (em si . através da negação da negação. É preciso negar o estado anterior para ser substituído pelo novo. faz-se natureza e finalmente envia seu filho a este mundo inicialmente natural.Contexto: movimento filosófico que permitisse a libertação do homem como sujeito autônomo. mantendo-a vulnerável às criticas empiristas. um vir-a-ser. entretanto. fundamentalmente. que contempla apenas uma entre as múltiplas potencialidades que pode desenvolver. O mundo real e o pensamento constituem uma unidade indissolúvel. que recupera a essência que preservou neste fluxo de transformações. bem como a necessidade de superar tal estado em direção a outro” (p. submetido à lei universal da contradição. a fim de espiritualizar-se e de resgatar a criatura humana que. Construção de um sistema segundo o plano laicizado da explicação cristã de um Deus que existe inicialmente como puro Espírito e cria o mundo e o homem. DIALÉTICA: expressa o movimento constante e complexo a que está submetida toda a realidade. 2) PARA SI (antítese) e 3) EM SI-PARA SI (síntese). o que. “A compreensão da dialética hegeliana envolve a ideia de que toda a realidade é essencialmente negativa. Há três fases no movimento dialético: 1) EM SI (tese). se desviara de seu criador. que constituem as próprias etapas de seu desenvolvimento. não representativas do real. Idealismo alemão: buscava leis universais e defendia a possibilidade de se atingir. A negatividade parte da natureza dos seres do mundo objetivo e do próprio homem coloca em oposição aquilo que os seres são e suas potencialidades. sob a égide dos ideais revolucionários de 1789. O empirismo inglês.

Processo de criação e autoconsciência. supera-se a oposição entre pensamento e mundo exterior. Influência significativa do pensamento hegeliano na formação teórica de pensadores Marx e Engels. estando em permanente mudança. “A relação senhor-escravo permite a superação da oposição sujeito e objeto. Se o verdadeiro ser é um ser em movimento. Isto significa que o espírito humano autoconsciente é capaz de aprender o mundo em sua totalidade. assim como. o senhor percebe que não é independente do escravo. só assim pode ser compreendido. não mais como algo dicotomicamente separado do pensamento: ‘O real é racional. conserva-se a si mesmo em cada estágio do processo por que passa. Duas tendências opostas: a direita e a esquerda hegelianas. Nessa relação.” (p. cada um dos termos (envolvidos na relação) reconhece que tem sua essência no outro e que só atinge sua verdade pelo outro. 375) O pensamento de Hegel influenciou diversas correntes filosóficas posteriores. Direita: interpretações mais ortodoxas da obra de Hegel. através da autoconsciência. O senhor não produz diretamente. Esquerda: ênfase no papel crítico do pensamento hegeliano. retomando a proposta dialética para análise das questões concretas que afetavam a Alemanha e a Europa da época. Esta concepção não significa a anulação da identidade da coisa. 14 .” (p..] Hegel concebe o ser como um ser em processo que. Através das relações mediatizadas pelo trabalho. o racional é real’.“[.. 373) Dialética Senhor-Escravo: relação entre opostos intermediada pelos objetos produzidos pelo escravo. salientando aspectos que justificassem as verdades da religião cristã ou permitissem derivar políticas conservadoras. mas a colocação dessa identidade no processo contraditório que orienta o desenvolvimento da coisa. mas apropria-se do trabalho do outro.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful