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Minha casa

Baixo autoestima / desconforto interior sem razo evidente.


Aquela casa onde eu morava h tantos anos era muito
bonita. Era nica, com seu teto marrom e grandes janelas
atravs das quais se podia ver praticamente tudo o que se
passava em seu interior. Mas no me sentia bem dentro
dela.
Claro que na minha infncia eu no conseguia ver bem o
seu interior e tambm no me preocupava em torna-la
bonita ou apreciar sua beleza. Durante muito tempo fui
quase insensvel a ela, vivia ali por uma questo de habito.
Quando algum me chamava a ateno para uma pea de
decorao eu nem prestava ateno, ou melhor, no queria
prestar ateno. Ento escondia a pea ou nem olhava
mais para ela. Porm, cedo ou tarde, por artes da magia,
aquela decorao acabava reaparecendo.
Vivia ali como autmato. Quando algum elogiava algum
objeto particularmente agradvel ou de mais valor, eu
enrubescia e dizia que no era tanto assim. E foi assim que
aquela casa que sempre tinha sido to familiar, sem saber
porque, tornou-se de repente inabitvel.
Eu a detestava e fugia dela. J no via ali mais nada de
bonito. Ela me fazia mal e eu fazia mal a ela. Sentia-a
como que assombrada, sofrendo de uma doena incurvel.
Tentava fugir e a casa me perseguia.
Passei a acha-la to feia, que resolvi demoli-la. Um dia, por
acaso, encontrei uns especialistas em decorao de
interiores que entraram na casa e imagine, a acharam
muito bonita.
Fizeram com quer eu expusesse novamente as peas de
decorao mais bonitas que havia escondido no fundo do
poro. Quando as recuperei, tive at dificuldade em
reconhece-las de to esquecidas que estavam.

Ento pus mos obra. Com a ajuda daqueles decoradores


excepcionais, terminei de escolher os belos achados que
passei a colocar bem vista. No os exibia para os outros
mas para que eu pudesse admir-los. Quanto prazer tive
em redescobrir estes tesouros que tinha estado perdidos
para mim.
Esta casa, que continuo a enfeitar, no tem endereo nem
me d despesa. Moro nela sozinho (a), mas recebo muitas
visitas, pois agora deixo as portas abertas. Joguei fora
apara sempre os cadeados que a mantiveram trancada por
tanto tempo.