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Lições de história

O caminho da ciência no longo século XiX

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Copyright © 2010 Jurandir Malerba

Direitos desta edição reservados a EDITORA FGV Rua Jornalista Orlando Dantas, 37 22231-010 — Rio de Janeiro, RJ — Brasil Tels.: 0800-021-7777 — 21-3799-4427 Fax: 21-3799-4430 E-mail: editora@fgv.br — pedidoseditora@fgv.br www.fgv.br/editora

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Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright (Lei n o 9.610/98).

Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade dos autores.

1 a edição — 2010

Preparação de originais: Luiz Alberto Monjardim Editoração eletrônica: FA Editoração Eletrônica Revisão: Aleidis de Beltran, Fatima Caroni e Marco Antonio Corrêa Capa: Adriana Moreno

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique Simonsen

Lições de história : o caminho da ciência no longo século XIX / Jurandir Malerba (Org.). — Rio de Janeiro : Editora FGV, 2010. 492 p.

Coedição EdiPUCRS Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-225-0833-4 ISBN: 978-85-7430-999-6

1. Historiografia. 2. História — Séc. XIX. 3. Historiadores — Séc. XIX. I. Malerba, Jurandir. II. Fundação Getulio Vargas.

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Sumário

Prefácio | Jurandir Malerba

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história e historiadores no século XiX | François Dosse

15

Voltaire | Daniela Kern

33

Voltaire, História

42

Pierre daunou | Daniela Kern

63

Daunou, Discurso de abertura do curso de história pronunciado no Collège de France em 13 de abril de 1819

72

Jules Michelet | Lilia Moritz Schwarcz

91

Do método e do espírito: “Liberdade é liberdade”

94

Michelet, Prefácio de 1868 (História da Revolução Francesa)

98

Michelet, Do método e do espírito deste livro

100

Chateaubriand | Teresa Malatian

113

Chateaubriand, Prefácio (Études Historiques)

119

Leopold von ranke | Julio Bentivoglio

133

Ranke, Sobre o caráter da ciência histórica

141

Gervinus | Julio Bentivoglio

155

Gervinus, Prefácio (Einleitung in die Geschichte des Neunzehnten Jahrhunderts)

164

a história em Marx | Leandro Konder

173

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thomas Carlyle | Jurandir Malerba

191

Carlyle, Sobre a história

196

thomas Babington Macaulay | Sérgio Campos Gonçalves

211

Macaulay, História

216

Lord acton | Jurandir Malerba

249

Lord Acton, Do estudo da história

261

Louis Bourdeau | Marcos Antônio Lopes

287

Bourdeau, Parágrafo II — Lei geral da história: do progresso

297

Fustel de Coulanges | Temístocles Cezar

307

Fustel de Coulanges, Aula inaugural do curso de história da Faculdade de Estrasburgo (1862)

317

Fustel de Coulanges, Regras de uma história imparcial

318

Gabriel Monod | Teresa Malatian

323

Monod, Do progresso dos estudos históricos na França desde o século XVI

332

ernest Lavisse | Tereza Cristina Kirschner

353

Lavisse, Do determinismo histórico e geográfico

361

Charles seignobos | Helenice Rodrigues da Silva

375

Seignobos, Advertência

381

Seignobos, O método histórico aplicado às ciências sociais

382

Paul Lacombe | Raimundo Barroso Cordeiro Jr.

393

Lacombe, O domínio da história ciência e seus limites

399

henri Berr | José Carlos Reis

413

Berr, Erudição, filosofia da história e síntese

423

ernst troeltsch | Sérgio da Mata

433

Troeltsch, A crise atual da história

448

Bibliografia

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Os colaboradores

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Prefácio

Jurandir Malerba

“Eu acredito que é chegada a hora de o público tomar mais gosto pela histó- ria do que por qualquer outra leitura séria. Talvez esteja na ordem da civi- lização que, depois de um século que sacudiu fortemente as ideias, advenha outro que sacuda os fatos; pode ser que estejamos cansados de falar mal do passado como de uma pessoa desconhecida; talvez seja apenas uma incli- nação literária. A leitura dos romances de Walter Scott virou muitas imagi- nações para essa Idade Média da qual antes nos afastávamos com desdém; e se hoje acontece uma revolução no modo de ler e escrever a história, essas narrativas, aparentemente frívolas, para isso contribuíram de modo singu- lar. Foi ao sentimento de curiosidade que elas despertaram em todo tipo de leitores por séculos, e em homens tidos por bárbaros, que devemos o sucesso inesperado de publicações mais sisudas.” Augustin Thierry, Lettres sur l’histoire de France (carta de 1820)

“velha sob a forma embrionária de narrativa, durante muito tempo atra- vancada de ficções, durante mais tempo ainda vinculada aos eventos mais imediatamente perceptíveis, a história é, como empresa refletida de análise, novíssima.” Marc Bloch, Apologie pour l’histoire ou Métier d’historien

Este é um livro de história, sobre concepções de história, feito por histo- riadores. Não se trata de qualquer história, mas de história intelectual de um período decisivo, aquele que Eric Hobsbawm chamou de “o longo sé- culo XIX”; nem de quaisquer concepções, mas daquelas que, no quadro da constituição das especialidades disciplinares, caminharam no sentido de fazer da história uma ciência; nem se reúnem aqui quaisquer historia- dores, mas grandes mestres que deixaram um legado monumental para o pensamento moderno. Os pioneiros na aventura de praticar história de modo refletido; atitude novíssima, como assinalou Marc Bloch, coisa dos últimos 200 anos, pouco mais ou menos.

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Os historiadores dessa era épica da construção da moderna ciência da história conceberam seu campo e praticaram seu ofício de maneiras as mais distintas. Não obstante a multiplicidade de concepções, dois pon- tos comuns não podem ser negligenciados quando se toma o percurso do conhecimento histórico no período em questão. Primeiramente, sua transformação numa disciplina acadêmica, codificada a partir de cátedras universitárias, criadas desde a primeira metade do século XIX a partir da Alemanha. Em segundo lugar, o “século da história” é marcado pelo incan- descente processo de criação dos Estados nacionais na Europa; a definição de suas fronteiras e povos, a invenção de identidades a partir da ideia de nação, demandou como jamais o conhecimento da história, gestada sob a égide da ciência moderna, mãe do século. Nunca antes ou depois houve semelhante clamor social pelo campo da história, nem tamanho poder no espectro social os historiadores. Nesse ínterim, a história-disciplina não passaria incólume ao intenso processo de irradiação dos principais vetores da modernidade, que colo- caria a Europa definitivamente no epicentro do mundo: a expansão do capitalismo industrial, a superação definitiva dos modelos políticos e ideo- lógicos do Antigo Regime com a difusão dos cânones liberais e a consagra- ção do paradigma de racionalidade científica, que surgiu nos primórdios da época moderna e cujo modelo se impôs às ciências do espírito neste mesmo século XIX. A história profissional chega à universidade como um vetor fundamental desse mesmo amplo movimento histórico. 1 A partir das cátedras de história, no embate entre diversas, quando não opostas, ideias de história, nosso campo paulatinamente profissionali- zou-se. Foi na crise da Belle Époque, nos desdobramentos do imperialismo europeu no globo, que culminariam nos graves desafios da I Guerra Mun- dial, da Revolução Russa e da crise econômica de 1929, que aqueles modos de narrar a história, aperfeiçoados ao longo do século anterior sob a égide da ciência e da Nação-Estado, viriam a ser veementemente impugnados, de vários modos e em várias frentes. Porém, enquanto esse tempo de “crise da consciência europeia” não dava sinais, a história reinou absoluta no templo das humanidades.

1 Iggers, Wang e Mukherjee, 2008.

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Mudanças paradigmáticas e movimentos intelectuais os mais variados

— as revoluções científicas expressas nas teorias da relatividade, dos quan- ta e do caos, a consolidação de outras especialidades como a linguística e

a psicanálise, a sociologia funcionalista, a antropologia estrutural, o pós- estruturalismo e o pós-modernismo, entre outros — impactaram constan- temente as fundações do conhecimento histórico ao longo do século XX,

a ponto de os mais céticos decretarem o seu “fim”. Também não faltou

quem condenasse a história como um conhecimento anacrônico, obsoleto para a compreensão da complexa sociedade “pós-industrial”, caracterizada pela instantaneidade da informação — sociedade globalizada, midiatiza- da e consumidora de massa. Mas ela resistiu e, depois de tantos e tama- nhos desafios, muito estarei enganado ou, de fato, nota-se nas sociedades contemporâneas um novo alento na demanda social por história. Entre os cientistas que estão a discutir os rumos do conhecimento científico, a his- tória surge como campo de vanguarda.

No âmbito da vida cotidiana, a demanda potencial por história — que nasce das carências fundamentais de orientação dos seres humanos no flu- xo do tempo, as quais se articulam na forma de um interesse cognitivo pelo passado — é hoje perceptível em indicadores não raro evidentes, como a expansão do mercado editorial, o surgimento de veículos novos (como as revistas de divulgação), a abertura de espaços midiáticos para a história e a atuação profissional dos historiadores. Neste sentido, parece que a consci- ência coletiva de nosso tempo está a exigir respostas a serem buscadas no conhecimento presente da experiência passada. Essa demanda crescente, no entanto, encontra o campo algo despreparado para bem responder a ela. Nesse vácuo, não são poucos os leigos que o perceberam e que se puseram

a escrever sobre história, sem qualquer compromisso com aquela “empresa

refletida de análise” que defendia Marc Bloch: a elaboração de um conheci-

mento fundamentado em princípios teórico-metodológicos coerentes, em pesquisa documental rigorosa, em protocolos éticos e críticos mínimos. O grande sucesso de público que tais historiadores neófitos ocasionais even- tualmente vêm alcançando é mais um motivo para que, neste momento de uma nítida ebulição no campo, crucial não apenas no plano da construção do conhecimento mas também no que tange à responsabilidade social do historiador, nós, historiadores profissionais, assumamos a discussão sobre os parâmetros de nossa área de atuação. Observar no tempo como nossos

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antecessores discutiram essas mesmas questões em outros contextos, acre- ditamos, será de grande valia para o debate que se inicia. Esta antologia começou a ser desenhada há mais de 10 anos, confor- me o exercício profissional no ensino superior nos impunha verdadeiros malabarismos para montar e executar programas de disciplinas no âmbito da teoria e da história da historiografia. Num currículo de história, poucas estarão mais descobertas no que respeita a sua bibliografia básica do que aquelas. A situação é ainda mais dramática no Brasil, onde sequer temos a tradição dos companions e handbooks. Embora em anos mais recentes a ini- ciativa de abnegados estudiosos aponte para uma mudança de longo prazo nesse quadro, a realidade hoje é a de que, afora textos esparsos, publicados em veículos amiúde de difícil acesso, muito pouco há disponível de e sobre as matrizes do pensamento histórico do período aqui retratado. A rigor, nossos estudantes se formam nos cursos superiores sem terem tido contato com autores importantes, como aqueles aqui reunidos e inúmeros outros que, por restrições óbvias de espaço, não puderam ser incluídos. Quem trabalha na área sabe como é irrisório o material franqueado em língua portuguesa; tirante uns poucos manuais traduzidos, a grande antologia disponível ainda é Theories of history (1959), de Patrick Gardner, numa tra- dução da Fundação Calouste Gulbenkian. Sequer foi traduzido o clássico Fritz Stern (The varieties of history, 1956), que vem formando gerações de historiadores nos Estados Unidos desde sua primeira edição até hoje. Nos- so esforço converge no sentido de atenuar esse quadro. As grandes glosas são e serão sempre importantes para nossa forma- ção intelectual. Porém, elas não bastam. Há que ler os originais. Esta obra oferece uma oportunidade singular para esse contato, ao reunir peças expressivas do pensamento histórico de cada um dos autores e, mais, em traduções anotadas e apresentadas por grandes especialistas. Como en- sinou Eduard Fueter (1911), é preciso ir à fonte: “não se compreenderá bem a historiografia de outrora se não se estudar as obras mesmas dos historiadores”. 2 Nosso projeto original tinha como objetivo reunir um escol de autores clássicos, significativo desse percurso da constituição do campo disciplinar

2 Usei aqui a tradução francesa (Fueter, 1914:2).

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da história no século XIX. A ideia, inspirada em Gardner e Stern, era con- gregar reflexões seminais, produzidas ao longo do período, sobre o campo da história e/ou o ofício de historiador. A cada um de nossos colaboradores incumbiu fazer uma tradução anotada do texto antológico; ainda, além da tradução e notas, que o tradutor produzisse um breve texto de caráter in- trodutório ao autor/ensaio traduzido. Assim foi feito; a exceção ficaria por conta de um pequeno número de grandes pensadores cuja grande parte da obra já circula em língua portuguesa, como o caso de Marx, Nietzsche, Weber, Croce, Simmel, Dilthey e outros. Estes autores, embora não histo- riadores, mas filósofos de ofício, foram não obstante decisivos para a crítica da historiografia de seu tempo e para a que se seguiu. Como se concebeu esse movediço campo intelectual, como se prati- cou o ofício de historiador no longo século XIX? Os textos aqui compilados têm por objetivo indicar parte da resposta a essas questões. Nosso arco temporal, ainda assim amplo, exclui do foco aqueles textos eminentemente filosóficos (da filosofia da história), exclusivamente epistemológicos (da epistemologia da história) e metodológicos. Com exceção de Voltaire, to- dos os autores viveram, tornaram-se historiadores e escreveram no sécu- lo XIX. Mas Voltaire não está aqui por acaso; ele tinha plena consciência do esgotamento dos tipos de história que então se praticavam no final do século XVIII, ora especulação metafísica sem fundamentação empírica (que ainda vingou século XIX adentro, como bem o ilustra Hegel), ora nar- rativas factuais sobre reinados, batalhas e armistícios. Contra esse tipo de recitativo, Voltaire propôs e praticou uma história a um só tempo filosófica e cultural, vetor de transformação do homem por meio de sua ilustração. Voltaire anuncia, em alguma medida, as preocupações básicas da história científica pela qual se lutará 50 anos depois: a explicação dos acontecimen- tos históricos, o rigor na pesquisa documental, a busca da verdade. Como a leitura deste livro dará a perceber, até por volta da década de 1840, principalmente na França, os historiadores estarão sob efeito dos desdobramentos da revolução (e de sua difusão pelo continente com Na- poleão) — e da reação a ela: a contrarrevolução, a restauração. Dentro da atmosfera romântica das primeiras décadas, e mesmo depois ao longo do século, o nascimento da história-disciplina é marcado pela extrema ambi- guidade de pretender constituir-se um conhecimento científico — o que então significava “objetivo”, “neutro”, “verdadeiro” —, mas no contexto

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das guerras de construção dos Estados nacionais. Científica, mas apaixona- damente partidária, de que são exemplos emblemáticos as obras de Ranke ou Chateaubriand. Por volta de meados do século, a ideia de ciência ganha toda sua força e impregna a história; mas uma ciência marcadamente oito- centista, sob a luz do evolucionismo de Darwin e do positivismo comtia- no, ávido por descortinar as leis universais do desenvolvimento humano, similares, à luz do século, às leis da evolução da natureza. A história se torna uma disciplina acadêmica num tal caldo de cultura, primeiramente na Alemanha e depois em outros países; começam então a surgir revistas, grandes eventos, associações, ao mesmo tempo que, sob patrocínio do Estado, grandes investimentos e esforços são canalizados para a criação de cátedras universitárias e a organização de arquivos públicos e priva- dos. O mais interessante é que esse modelo de racionalidade produzido no mundo ocidental irá, a partir do final do século XIX, irradiar-se por todo o globo, alterando definitivamente as culturas históricas não oci- dentais, como as historiografias do Oriente Médio, da Ásia (incluindo China e Japão) e da Índia. 3 Não obstante o momentâneo estranhamento entre historiadores e a esfera pública, eco da revolução e do parto dos Estados nacionais, e apesar de sua crescente vinculação à universidade, como todos seus pares intelec- tuais os historiadores permanecem mergulhados nas respectivas culturas de suas comunidades locais. No início da gestação dessa moderna his- toriografia, nas complexas interfaces que ela estabelece com a filosofia, a política e a religião, a influência do movimento romântico foi decisiva para a definição de seu perfil. Como marcou Thierry, essa presença romântica conduziu a passagem do século das ideias para o século dos fatos. O pre- núncio havia sido dado já no século anterior; o antídoto da universalidade das luzes reverbera nos movimentos pré-românticos, no Sturm und Drang, em Herder, em Goethe e Lessing. 4 Ao grande interesse pelo singular, pelo particular, pelo local, somava-se a paixão avassaladora pela verdade, ma-

3 Sato, 2006; Iggers, Wang e Mukherjee, 2008; Torstendahl, 2000; Kramer e Maza, 2002; Kelley, 2003. Para uma abordagem eminentemente comparativa e não eurocêntrica das diversas cul- turas históricas abordadas, ver Woolf (2005) e seu dicionário (1998), global na melhor acepção do termo.

4 Ver livro clássico de Meinecke (1982) e também Berlin (1976).

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nifesta e garantida pelo método crítico. Este será a ordem do dia dos his- toriadores metódicos, ditos “positivistas”. Mas há outro movimento que não se pode desconsiderar: a civilização ocidental experimenta, ao longo do século, um dos mais traumáticos processos de desestruturação social, com o desenvolvimento do capitalismo industrial, a migração em massa da população rural para as cidades, a eclosão da luta de classes sob o capita- lismo, que culminaria na “primavera dos povos” e na “comuna de Paris”. 5 Marx surge como pensador e artífice desse movimento. Os autores aqui coligidos são expressivos da trajetória da historiogra- fia ocidental naquele longo século XIX, que reverbera nas primeiras déca- das do século XX. Nosso intento foi coligir peças importantes do pensa-

mento historiográfico desse período, mantendo sempre plena consciência dos limites incontornáveis à nossa intenção, estabelecidos pela irresistível força excludente contida no conceito de “antologia”. Havíamos pensado, de início, escrever um ensaio mais extenso sobre nosso tema, tarefa que se tornara inócua por duas razões. Primeiramente, as introduções a cada peça traduzida constituem um texto em muitas mãos, que fornecem um quadro informativo e interpretativo sem precedentes. Em segundo lugar, o capítulo com que François Dosse presenteou esta obra fornece, com raras profundidade e elegância, uma síntese perfeita como guia de leitura ao conjunto que se segue. Por fim, é quase desnecessário lembrar — mas a prudência contra

a má-fé o recomenda — que jamais nos passou pela cabeça “re-habilitar” qualquer um dos autores aqui coligidos. Entendemos ser pertinente voltar

a esses mestres — e a outros —, sine ira et studio, pois que nos legaram

lições importantes. São nossos mestres, nesse sentido. Porém, depois de Popper e Kuhn, ninguém será ingênuo o bastante para voltar aonde esses mestres pararam. Há muito já fomos além. Só não podemos apagar a lem- brança do caminho percorrido, para nos situarmos com senso no presente, ante os caminhos que se abrem a nossa frente. Há um sem-número de obras de síntese, manuais e grandes balanços da historiografia moderna. Todas essas excelentes obras de glosa, que cons- tituem o pão de cada dia de todo docente das disciplinas teóricas e histo-

5 Sobre a “primavera dos povos”, ver Hobsbawm (1999b). Para a revolução industrial, ver Cole- man (1992); Hobsbawm (1999).

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riográficas, estão aí a demonstrar que, se algumas estão a nossa disposição — nem todas em língua portuguesa —, nada similar à obra que o leitor tem em mãos circula em nossa língua. Um projeto riscado e amadurecido ao longo de uma década, cuja execução só logrou acontecer por força e obra de colaboradores entusiastas, que responderam com paixão e profis- sionalismo ao meu chamado. A cada um, minha sentida gratidão.

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História e historiadores no século XIX*

François Dosse

Há muito tempo se estabeleceu que o século XIX foi o século da história. Essa afirmação banal encobre, no entanto, duas realidades diferentes e complementares. De um lado, esse é o século da história no sentido da profissionalização da prática histórica que se dota, por toda parte na Europa, de um programa para seu ensino, de regras metodológicas, e que rompe com a literatura para voar com asas próprias. Esse nascimento da história como disciplina se confunde com a grande confiança na marcha progressiva das ciências. Os novos historiadores profissionais desejam participar dessa marcha ativamente, ainda que ao preço de certo cientificismo. De outro lado, foi também o século da história, pois o historiador foi encarregado pela sociedade de enunciar o tempo laicizado, de narrar o telos, de afirmar a direção para a qual se dirige a humanidade. Esse magistério do futuro, essa missão profética atribuída à história é então fortemente vivida como a passagem da religião à disciplina histórica. Nasceu dessa forma, entre filósofos, sociólogos e historiadores, uma forma de religião da história à qual se atribuíam funções quase proféti- cas, persuadidos, à época, de que se participava de uma temporalidade

* Tradução de Domitila Madureira (e-mail: domitila.madureira@gmail.com).

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contendo uma direção endógena, que ia além da vontade dos agentes his- tóricos. A história se transubstanciava assim na narrativa da marcha dos seres humanos em direção ao melhor, ao progresso, a uma sociedade do bem-estar para além das provações vividas. Essa história do século XIX nasceu também dos impactos do Século das Luzes, da ascendência do rei-

no da razão entre filósofos como Kant, Hegel e Marx, que veem na história

a realização, o desdobramento mesmo da racionalidade vivenciada nessa

época. É igualmente necessário destacar, nessa emergência, o grande papel da ruptura, da fratura decisiva, constituída em pensar e em restituir a uma temporalidade mais longa a Revolução Francesa e seu eco internacional. Ela não apenas vai distrair Kant de seu passeio cotidiano, porém vai balan-

çar seriamente as linhas, pois, ao sair do período revolucionário e ao fim do período imperial, enquanto os exércitos europeus em coalizão restauraram

a monarquia, a interpretação da Revolução Francesa se torna uma questão

central. Como, efetivamente, integrar essa ruptura reivindicada que subi- tamente aboliu instituições seculares? Foi um acidente, um parêntese que se podia fechar, ou então o produto do movimento da sociedade, a conse- quência de uma evolução necessária e irreversível que qualquer governo tem que considerar, como pensavam seus adversários liberais? Diante da fragilidade dos governos e das instituições políticas, da repe- tição compulsiva do gesto revolucionário que opõe até mesmo os herdeiros da revolução entre si, os historiadores reconhecem para si um magistério formidável: aquele de enunciar a verdade da nação. Por uma reviravolta singular, o especialista do passado faz figura de profeta. A envergadura da tarefa, sua importância, suas consequências são poderosos estímulos para que se renove a forma de escrever a história. Essa já não pode mais se contentar em ser a crônica dos grandes feitos, nem a produção erudita amadurecida longe das paixões, muito menos uma grande síntese moral. Ela tem que articular, a fim de convencer seus leitores, o entendimento do impulso do movimento histórico e as novas formas de licenciatura com uma nova forma de narrativa. É nesse contexto que nasceu na França a escola liberal e romântica, que teve por figura máxima aquele a quem Charles Péguy chamava de o “gênio da história”, Jules Michelet. A contribuição dessa escola pode ser declinada em três pontos: a definição do que são o olhar e as ambições da história, que marca uma ruptura decisiva com os conceitos e as práticas anteriores

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— a tal ponto que se pode datar dessa época o verdadeiro “nascimento

da história”; as tentativas de casar ciência e arte, mais a vontade de nutrir

a história com filosofia dão às publicações desse período o estatuto de

obras literárias e as elevam ao nível de uma reflexão fundamental sobre

a história e a forma de se escrevê-la; o magistério então reconhecido aos

historiadores, que faz destes os artesãos da consciência nacional. A revolução marca de fato uma ruptura fundamental na consciência histórica. Ela produz uma modificação do regime de historicidade, 1 quer

dizer, uma mudança do lugar e dos valores relativos atribuídos ao presente,

ao passado e ao futuro na percepção dos coetâneos. Até então, o passado

não tinha sido realmente pensado como ultrapassado. A história permane- ce, essencialmente, conforme com a sua antiga concepção de magistra vi- tae. Ela constitui um depósito de experiências sempre vividas como atuais

e, portanto, diretamente transferíveis. Numa sociedade ainda largamente

regida pelos costumes, a ideia de porvir — no sentido de abolir a configu-

ração precedente e produzir o irreversível — está pouco difundida. Assim

é concebível, no final do século XVIII, exigir pagamento de taxas e rendas

correntes séculos antes e caídas em desuso, bem como invocar a tradição para se opor a qualquer mudança, tal como ilustrada pela defesa dos bens comunais, em nome do costume, pelos povoados rurais. Somente parece incontestavelmente legítimo o que sempre existiu, daí o esforço dos ge- nealogistas principescos de recuar a origem das famílias, cuja linhagem investigam, aos tempos imemoriais.

Nessa configuração o termo revolução continua mantendo sua acepção astronômica. Até 1789, significa antes o retorno que a ultrapassagem, antes um passado a ser reencontrado que um horizonte a ser atingido. É através dessas grades que são lidas e comentadas as revoluções da Inglaterra.

A chave do paradoxo, encarnado por Edmund Burke e que conduziu

sucessivamente a apoiar os “insurgentes” americanos e a combater os revolucionários franceses, reside nessa definição. Os americanos, conforme Burke, combatem para restaurar direitos adquiridos dos quais foram espoliados, enquanto os franceses querem fazer tábua rasa do passado. Ora, para Burke, somente a primeira atitude é legítima. E quando a história

1 Hartog, 2003.

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é solicitada para estabelecer as pretensões nobiliárquicas e combater tanto

o absolutismo quanto as ambições da burguesia, a noção que preside a essas construções é ainda a de “revolução-restauração”. Certamente essa ideia de história vacila no século XVIII, à medida que se afirma a noção de progresso, mas a história ainda é frequentemente considerada fonte de corrupção. “Comecemos por afastar todos os fatos”, escreve Rousseau nas primeiras páginas de seu discurso sobre as “Origens da desigualdade entre os homens” (1754). A história não possui virtude explicativa; atravanca a cena e evita captar as verdadeiras questões. Sébastien Mercier vê aí uma fonte de erros, ela lhe parece um “esgoto dos esforços humanos” que exala “um odor de cadáver”. Igualmente o passado mobilizado para reconstruir as cenas originais é apenas um truque de perspectiva que não exige um verdadeiro procedimento histórico. Desse ponto de vista, a Revolução Francesa, e mais particularmente

a experiência vivida na Assembleia bem como nas ruas de Paris ou nos campos durante o verão de 1789, abala a consciência histórica e produz uma “revolução nas mentes”. A partir do mês de setembro de 1789, a de-

nominação Ancien régime se espalha e significa que o passado está defini- tivamente abolido. Essa convicção está consolidada ao final das crises re- volucionárias e na saída do período napoleônico: “as sociedades antigas se extinguem; de suas ruínas surgem sociedades novas: leis, costumes, usos, opiniões, e até princípios, tudo é mudado”. 2 O termo recorrentemente usa- do para designar as duas décadas que se seguiram à implosão do Ancien régime não é outro senão abismo. A escrita da história não pode deixar de ser afetada por essa reviravolta. Para ela também, o tempo da Revolução

é o tempo da ruptura, da invenção. O novo olhar lançado sobre o pas-

sado não basta para caracterizar a consciência histórica que se forja no momento revolucionário. Porque o passado é considerado terminado, o porvir aparece sob uma nova luz. Ele se torna uma promessa que cabe aos homens concretizar. A antiga perspectiva do tempo orientado pela esca- tologia cristã é laicizada, o progresso humano torna-se sua motriz, e o movimento deste parece tanto inevitável quanto irreversível. Tal como des- tacado por Chateaubriand, a história é desde então percebida como um

2 Chateaubriand, 1831:7.

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processo cumulativo. François Guizot faz disso, em 1828, o conceito nor- teador de sua abordagem da história. A ideia de progresso é identificada à da própria “civilização”, constituindo-se em seu princípio dinâmico. Um horizonte de expectativa se impõe, conduzindo, tal como o sentimento de ruptura, a reconsiderar o passado. A instabilidade política não é exclusiva do período revolucionário. Ela afeta a maior parte do século XIX, que parece revivê-la incansavelmente, tanto e tão bem que Marx denuncia, dirigindo-se ao movimento socialista em 1870, os “grands souvenirs” como a “infelicidade dos franceses, inclusive dos operários” — precisa ele —, pois essas lembranças grandiosas obscurecem a realidade presente e evitam transformá-la. A Histoire de France de Augustin Thierry é, toda ela, uma marcha para consagrar o povo, pois, para ele, é isso que 1789 e o Tiers état representam. Mas essa marcha só será concluída quando as instituições políticas da França estiverem inteiramente adequadas aos princípios liberais. Essa análise, construída a partir do presente e que faz da luta — no caso, aquela das raças — o motor da história e o parteiro do futuro, chama a atenção de Karl Marx. Ele confere a Thierry o título de “pai da luta de classes na historiografia” e suscita o interesse da historiografia marxista pelos historiadores franceses dos anos 1820. Entretanto, se Thierry defende uma concepção agônica da história, essa somente adquire sentido na unidade da nação. Considerando-se a importância atribuída à história, a renovação da historiografia é uma tarefa indispensável. Inaugurando uma postura que será incessantemente reproduzida, os novos historiadores formulam seu programa e, no mesmo impulso, se entregam à crítica da historiografia que lhes precede. Michelet vive ao ritmo de sua narrativa e dos episódios que relata. Ele está realizado ao evocar a festa da federação, abatido quando o Terror se acelera. Em dezembro de 1852, ele somente abre seu diário para escrever: “inteiramente absorto e sem respirar por causa do verdadeiro núcleo do livro: novembro de 1793, a tentativa religiosa e o papado de Robespierre”. Ele vive, como declarou, “fora do tempo”. Essa característica não se limita à história da Revolução Francesa. A história de Michelet está constantemente sendo reescrita, tanto suas interpretações estão ligadas à sua vida e sua própria evolução. Sua obra toma por vezes a forma de autobiografia, conformemente à sua vontade de “biografar a história, como a de um homem, como a minha”.

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Mas o século XIX não cabe inteiramente nesse face a face entre história e

literatura, nem na vontade dos historiadores de usar da narrativa e de pensar sua relação pessoal com a história, ainda que afirmem a especificidade de sua abordagem. A originalidade dessa história também está ligada ao lugar dado

a uma segunda fonte que alimenta e marca igualmente o discurso histórico:

a filosofia. Como aliar ao mesmo tempo a preocupação erudita, a vontade de

dar vida à história e a de compreender seu movimento? Desse ponto de vista, há de fato uma tentativa “de unificação do campo histórico” sustentada pela ambição de produzir uma história total, quer dizer, uma história que ligue o conjunto das dimensões sociais, pois, como afirma Michelet, “tudo influen-

cia tudo” e, portanto, nenhum elemento pode ser isolado. Isso toma formas diferentes, conforme cada um dos autores. Em Thier- ry, traduz-se na adoção da luta como princípio motor da história e na von-

tade, ao término de narrativas em que indivíduos desempenham um grande papel, de se alçar ao nível coletivo e de definir tipos. Guizot, por seu lado, se atribui o objetivo de estudar não apenas os fenômenos materiais e visíveis, mas também de dar lugar aos “fatos morais, escondidos, que não são menos reais”, aos fatos gerais, para os quais é impossível uma datação precisa e que não podem ser excluídos da “história sem mutilá-la”. 3 Ele dá o exemplo atra- vés dos seus desenvolvimentos sobre a mentalidade burguesa ou sobre a luta de classes: “o que se costuma chamar de porção filosófica da história, as rela- ções dos acontecimentos, o elo que os une, suas causas e seus resultados, são os fatos, é a história, tanto quanto as narrativas de batalhas e acontecimentos visíveis”. 4 A história deve, para que seja plenamente ela mesma, incorporar, portanto, o que antes era contemplado apenas pelas preocupações da filo- sofia. Esse desejo de compreensão global do movimento da história não está menos presente em Quinet do que em Michelet, que dão seus primeiros passos ao publicar traduções dos filósofos da história: Herder, no que tange

a Quinet, e Vico, no que concerne a Michelet. A historiografia da primeira metade do século XIX se inscreve numa relação complexa entre três polos a que podemos chamar de recursos: a erudição, a filosofia, a literatura. Cada obra oferece delas uma trama par- ticular. Essa configuração é fonte de riqueza, mas também de fraqueza,

3 Guizot, 1985:58.

4 Ibid.

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posto que conduz os historiadores a se posicionarem em debates teóricos nos quais sua prática documental não pode, sozinha, garantir sua legiti- midade. Todavia ela se revela fundadora de um conceito que outorga aos historiadores um papel de destaque: o de narrar a nação, de pôr ordem em seu passado para antecipar seu futuro. Através das diferentes figuras que elencamos, o historiador aparece tal qual um profeta. Na virada do século, os historiadores vão, diante das necessidades de uma verdadeira especialização, de uma profissionalização, cortar o cordão umbilical que os unia aos literatos, e se assistirá à emergência de uma escola dita metódica, cuja contribuição se mede hoje melhor do que então, pois foi por muito tempo depreciada. Teve de fato um papel fundador na pro- fissionalização dos historiadores, obtendo reconhecimento e readquirindo interesse quando esses se questionaram novamente sobre a definição de sua atividade. Suas teses epistemológicas suscitam um novo interesse, e sua par- ticipação na Cité, especialmente a favor do capitão Dreyfus — em contraste com a neutralidade política dos Annales —, lhes é creditada no momento em que as funções e responsabilidades sociais dos historiadores são reavaliadas. Dessa forma, as releituras atuais dos historiadores metódicos se inscrevem num contexto que favorece a emancipação destes em relação ao julgamento feito pelos Annales e participam dos questionamentos contemporâneos que os historiadores enfrentam. O primeiro fator de desestabilização do modelo literário foi o forta- lecimento da ciência que marcou a segunda parte do século XIX. A torre Eiffel, construída em 1889, constitui o símbolo do triunfo do modelo cien- tífico. É uma verdadeira coluna de Trajano erigida em honra da ciência, na qual se podem ler em letras de ouro no grande friso do primeiro andar — à maneira de muitas batalhas vitoriosas — os nomes dos cientistas fran- ceses, de Lavoisier a Pasteur. Com seus 1.792 degraus, esse monumento associa inextrincavelmente progresso, ciência e república. Os conceitos de trabalho científico divulgados pelos pesquisadores das ciências experimen- tais (física, química, biologia) se impõem gradativamente como modelo de qualquer atividade de conhecimento, inclusive em matéria de literatura. Assim é que Émile Zola sustenta que “o romancista” realiza “uma verdadei- ra experiência, com a ajuda da observação”. Esses conceitos se assentam sobre a confiança na experimentação e reivindicam sua filiação a Bacon, Copérnico ou Galileu. A passagem da metafísica à física moderna, da al-

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quimia à química, é concebida como universal, uma mudança necessária que toda ciência tem que percorrer. Nessa visão grandemente indutiva da atividade científica, a verdade decorre de observações e experimentações repetidas que são por si mesmas “observações provocadas” (Claude Ber- nard). É o que sustentam, igualmente, Louis Pasteur ou Marcelin Berthelot, além de Claude Bernard. A obra deste último, Introduction à la médecine expérimentale (1865), que foi um sucesso imediato, rejeita toda inserção do procedimento científico em qualquer sistema filosófico. Quadros como o que representa Jean-Martin Charcot examinando uma paciente diante dos seus discípulos (Pierre-André Brouillet, 1887) di- fundem a imagem de uma comunidade científica constituída, capaz de se reproduzir. Essa situação, que contrasta com a desorganização dos estudos de história e com a dificuldade de administrar uma prova definitiva capaz de encerrar o debate, só pode deixar os historiadores a sonhar. A partir dos anos 1860, as referências aos procedimentos científicos da fisiologia ou da patologia (Hyppolite Taine) e aos da química ou da geologia (Fustel de Coulanges) se impõem. As pretensões “cientificistas” se multiplicam e con- vidam a romper com a dupla tradição das letras e da filosofia que condena a historiografia à instabilidade e a reduz a ser somente um conhecimento de fraco embasamento científico e, portanto, contestável. Essa mutação disciplinar e científica parece ter sido, já e desde então, concluída na outra margem do Reno. Desde 1867, Victor Duruy lança uma pesquisa comparativa entre as instituições universitárias estrangei- ras, em particular alemãs, e as francesas. Ela induz à criação, em julho de 1868, da École Pratique des Hautes Études. Esta tem que aclimatar os mé- todos alemães e, especificamente, realizar seminários especializados para garantir a transmissão dos saberes técnicos e para instaurar uma relação dos mestres com os seus estudantes. Ela deve permitir um aprendizado em laboratório comportando manipulações ou, no que tange à literatura, trabalhos documentais. Desde a metade do século, Ernest Renan multipli- ca os elogios da erudição alemã, em particular da gramática comparada e da filologia, mas também do sistema educativo d’além-Reno. Um jogo de espelhos se instaura, que é recomeçado por Victor Duruy, depois se gene- raliza, nos dias que se seguem à Guerra Franco-Prussiana de 1870, quan- do a superioridade do sistema educativo se torna uma das explicações da derrota francesa. Para os partidários de uma reforma do sistema educati-

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vo, a França deve, como a Prússia depois da derrota em Iena (1806), ser refundada intelectualmente. A comparação com a Alemanha se torna um lugar-comum, e a estada nas universidades alemãs, já estimulada por Victor Duruy, uma etapa ne- cessária no currículo dos mais brilhantes estudantes franceses, a começar por Ernest Lavisse, Gabriel Monod, Charles Seignobos ou Camille Jullian, para ficarmos apenas nos historiadores. O que surpreende na Alemanha

é a luz que várias universidades irradiam, enquanto na França é apenas a

Sorbonne que tem um peso esmagador, sem que, por isso, se tenha cons- tituído num polo inovador. Essa característica da geografia universitária

germânica é o produto paradoxal da fragmentação desse espaço, durante

a maior parte do século XIX, em uma pluralidade de Estados dos quais

cada soberano se esforçou em desenvolver um núcleo universitário. Disso resulta um “mercado acadêmico” caracterizado pela mobilidade. Esse no- madismo dos professores e dos estudantes em busca de melhor situação ou de melhor formação não para de impressionar os universitários fran- ceses seduzidos por esse liberalismo temperado, saídos de um sistema em que a tutela do Estado e, portanto, do poder político se exerce sobre as nomeações dos professores e pesa até na definição do programa tratado. Ao contrário da França, onde os estudantes são ouvintes livres, onde os cursos atraem um público com motivações variadas e onde os próprios campos disciplinares só são definidos na ausência de ementas específicas, as universidades alemãs operaram precocemente uma mutação discipli-

nar. Victor Duruy em 1868 e, depois, Ernest Lavisse opõem o público das universidades alemãs ao público um tanto mundano da Sorbonne.

Além desse público assíduo que se dedica à ciência como a um sacerdó- cio, que na descrição de Lavisse se destaca pela pobreza do vestuário, a força da Universidade alemã reside em formar um corpo. Seignobos se mostra atento a tudo o que facilita a formação de um sentimento de per- tencimento a um grupo específico. Assim, ele observa que na saída dos seminários, realizados na casa do professor, os estudantes costumam ir juntos à cervejaria, onde se cria um laço pessoal entre os alunos de um mesmo professor. A sociabilidade, é claro, não é o único benefício dos seminários. Sua primeira virtude é formar os estudantes para manejar os

é, na Alemanha, a verdadeira escola

dos historiadores. Aluno de um professor é não aquele que assistiu a suas

métodos críticos: “o seminário [

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aulas, mas o que participou de seu seminário. É aí que convém procurar a verdadeira medida do ensino atual da história”. 5 Acrescentemos que esses relatórios, tabelas e artigos evidenciam a importância dos recursos desti- nados além-Reno à universidade, o que contrasta com a mesquinharia dos que lhe são destinados na França. Ademais, os historiadores alemães desempenham um papel funda- mental na identidade nacional. Os historiadores foram os verdadeiros promotores do novo império alemão. O editorial do número inaugural da Revue de Schmidt (1843), da qual Leopold von Ranke é um dos fun- dadores, publicado por ocasião do milésimo aniversário do tratado de Verdun — celebrado pela Prússia como o certificado de nascimento da Alemanha —, exalta Clio como “mãe e mestra” da vida política nacional. Da mesma forma, A história romana de Berthold Georg Niebhur (1811) tem por função mostrar aos alemães como se poderia criar o Estado de que sentem falta. Esse papel de fermento nacional só podia fascinar os historiadores franceses no momento em que esses ambicionam ter fun- ção semelhante em seu próprio país. Estão também impressionados — a despeito de numerosas críticas quanto à forma — com a força e o rigor da historiografia alemã. Assim, Ranke é qualificado de “escravo da verdade histórica”. Mais do que tudo, a organização e a codificação dos estudos históricos infundem respeito aos franceses. A erudição alemã, apoiada no domínio das ciências auxiliares (filologia, paleografia, numismática, diplomática, entre outras), parece ser a única via para fundar a história. Sua transmissão assegura a possibilidade dessa constituição disciplinar à qual aspiram os reformadores franceses. Mas a história na Alemanha não

é apenas um fermento nacional, é um método. O método histórico alemão se inscreve na continuidade da tradição erudita do século XVIII. É redefinido por Wilhelm von Humboldt (1767-

1835), cientista e estadista, fundador da Universidade de Berlim em 1810

e irmão do geógrafo Alexander von Humboldt. De saída, sua obra A missão

do historiador (1821) reafirma o objetivo do conhecimento que, desde Tu- cídides, funda o contrato de verdade que rege a história: “a missão do his- toriador é expor o que se produziu”. 6 Entretanto, de imediato ele precisa:

5 Seignobos, 1934:90.

6 Humboldt, 1985:67.

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“mas o que se produziu não é visível no mundo sensível senão em parte, o restante tem que ser sentido, concluído, adivinhado para além disso”. 7 Humboldt emprega mais adiante o termo analogia. Ele inscreve a prática historiadora numa tensão entre investigação rigorosa, imparcial e crítica, que é um elemento constitutivo de seu ofício — sua “missão profis- sional” —, e a necessidade de operar uma síntese que mobilize a intuição do todo. A base estável da disciplina é fornecida pela filologia, à qual ele consagra longos estudos. Mas é o estabelecimento da conexão (Zusamme- nhang) que se mostra a operação mais perigosa. A história, longe de ser concebida como uma ata do real, é apresentada como uma imitação, à imagem da criação artística. Entretanto, destaca Humboldt, a finalidade é diferente, já que a história é animada pela ambição de tender para o verdadeiro. Para atingir esse objetivo, a história tem que se emancipar da filosofia. Com Humboldt, temos o nascimento do historicismo, isto é, de uma história ligada ao particular para tentar dar conta da ação humana. Humboldt inspira grandemente o historiador alemão Leopold von Ranke. Leopold von Ranke (1795-1886) é uma figura maior dentro da histo- riografia alemã. Professor da Universidade de Berlim de 1825 a 1871, ele é, desde 1841, o historiador oficial da Prússia. Sua obra histórica é centrada na Reforma (especialmente na Alemanha, na França e na Inglaterra), mas sua influência ultrapassa de muito o campo da história moderna. É líder de uma escola, o “seminário”, no qual viriam, a partir de 1833, se iniciar na crítica e no método históricos a maioria dos eruditos e historiadores alemães, como Droysen, que foi seu aluno e fala da Ranke-schule (escola de Ranke). Como Humboldt, Ranke se recusa — em razão de suas convicções religiosas — a inscrever a história num porvir cujas leis pudessem ser de- finidas. De fato, o determinismo histórico que marca tanto o positivismo de Auguste Comte quanto o devir histórico de Hegel, de quem ele é colega na Universidade de Berlim, leva, a seu ver, a suprimir qualquer valor às escolhas e às ações dos homens. Essas teorias que renegam a liberdade humana lhe aparecem como “absolutamente indignas de Deus”, o livre- arbítrio parecendo ser apenas uma “ilusão”. 8 Ele rejeita a ideia de um

7 Humboldt, 1985:67.

8 Ranke, 1994:336.

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desenvolvimento linear e ritmado pelos progressos sucessivos da humani- dade, ideia que a experiência de inúmeras civilizações contradiz, princi- palmente na Ásia, que “depois de períodos de altas florações caiu de novo na barbárie”. 9 Por conseguinte, o historiador deve se mostrar modesto, evitar os raciocínios abstratos e demasiados generalizantes para se ater somente aos fatos. Essa concepção estabelece uma separação entre a história e a filosofia. Com Ranke, a história não é mais um gênero moralista, não é mais magistra vitae. Ela se quer uma prática empírica e positiva ao oposto da filosofia, destinada à teoria e à especulação. A ambição é, sem tirar nem pôr, destronar a filosofia em benefício da história como síntese de conhecimentos sobre os homens. É, de acordo com seus próprios termos, uma “ciência livre e objetiva” que Ranke pretende fundar. A corrente historicista trazida por Ranke não se resume à historiografia de além-Reno. Johann Gustav Droysen defende, por seu lado, uma história de reflexão em sua obra Précis de théorie de l’histoire, 10 que rompe com a teoria do refletido, cara a Ranke. Ele problematiza a historicidade fundamental de qualquer investigação histórica e convida o historiador a enunciar explicitamente as questões que formula aos vestígios conservados, bem como a se perguntar sobre as razões que o levaram a formulá-las. Nessa diversidade, a historiografia alemã terça suas armas e se impõe como referência em inúmeros setores da história. Citemos para a Antiguidade grega e romana as obras de Friedrich August Wolf ou de August Böckh, que colocam a filologia a serviço da história, a de Johann Gustav Droysen (Grécia helenística), ou a de Theodor Mommsen (Roma). Assim, Michelet dedica a Niebhur um estudo elogioso — ainda que crítico — em que este reduz a história de Roma ao nível das “conquistas” alemãs, a tal ponto que, para ele, esta se afigura como “colônia germânica”. Camille Jullian, que cita esse texto em sua coletânea sobre os historiadores do século XIX, comenta: “esse questionamento de Michelet tem, ainda hoje, sua razão de ser. Durante séculos, os alemães se mantiveram na dianteira em relação a nós quanto aos estudos da história romana. [ ]

9 Ranke, 1994:337. 10 Droysen, 2002.

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[Suas] publicações das inscrições da Gália e [suas] traduções dos tratados de direito romano reinam soberanamente em nossas escolas”. 11 Podemos imaginar como a Alemanha parece, aos olhos dos historia- dores franceses no início dos anos 1870, uma espécie de terra prometida da história. Certamente, alguns deles se esforçam em achar também de- feitos no sistema alemão. Depois de tudo, Lavisse observa, “nós não esta- mos proibidos de ambicionar fazer melhor que nossos vizinhos”. 12 Mas a atração é evidente, tanto assim que os meios nacionalistas franceses não terão palavras duras o bastante para estigmatizar essa germanofilia que eles julgam antinatural, principalmente quando os principais nomes da escola metódica tomam, em sua maioria, o partido de Dreyfus. Então, nesse con- certo de louvação, Fustel de Coulanges marca sua diferença ao sustentar

] é francês há dois

séculos”. 13 Na entrada do século XX, as qualidades que um historiador deve ter estão definidas: modéstia, prudência, erudição, recusa das paixões. Por causa das reviravoltas políticas ocorridas, e do lento amadurecimento da disciplina, a história ocupa um lugar central: “nosso século”, sustenta Monod, “é o século da história”. A profissionalização dos historiadores decorre, num primeiro momento, de uma operação de delimitação, da definição de uma norma legítima que marque os contornos de uma co- munidade científica que garanta a validade do saber histórico. Essa clau- sura se efetua em dois planos: a organização do ensino e a codificação do método. O discurso do método histórico é delimitado em 1898 por Charles- Victor Langlois e Charles Seignobos em Introduction aux études historiques. Ambos são professores titulares de história e doutores em história medie- val. O primeiro, nascido em 1863, também é chartiste. É para transmitir as competências assim adquiridas na École des Chartes que ele se torna professor assistente, mais tarde catedrático da Sorbonne. Em 1913, assu- me a direção dos Arquivos Nacionais. O segundo, normalien, se torna em 1898 o substituto de Lavisse em história moderna, professor assistente em

que “o método a que alguns hoje chamam de alemão [

11 Jullian, 1897:304.

12 Lavisse, 1879:48.

13 Apud Hartog (1988:340).

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pedagogia da Sorbonne, antes de ser nomeado professor de metodologia histórica em 1907. Em 1921, ele se torna catedrático de história política da idade moderna. À semelhança dos Handbücher e de Grundisse alemães, a Introduction

é um manual de metodologia, o primeiro dessa envergadura em francês capaz de concorrer com o Compêndio da ciência histórica de Johann Gustav Droysen, traduzido e publicado na França em 1887. As indicações são precisas e não se dignam a entrar em considerações demasiado materiais, tais como a recomendação de anotar de preferência em fichas, em vez de cadernos. Além desse aspecto descritivo, que define até o estilo que con- vém ao historiador, Langlois e Seignobos tentam reconstituir o conjunto

das etapas da elaboração da história. Começam por expor a pesquisa das fontes, depois passam à apresentação das diversas críticas. A crítica externa ou de erudição determina a autenticidade do documento, define sua ori- gem e permite datá-lo ao recorrer às disciplinas auxiliares. É uma condição necessária à história. A Introduction dá conta das exigências do momento sobre a classificação das fontes e prega uma divisão do trabalho entre os eruditos encarregados de estabelecer os textos e os historiadores que de- vem explorá-los. Ao fazer isso, esse livro define uma deontologia — uma ética da história — e uma epistemologia. Nos anos 1890-1910, a história metódica entra numa zona de tur- bulência. Encontra-se aprisionada entre dois fogos: de um lado, os que censuram seu culto da objetividade e a sua fraqueza em considerar os pro- cessos específicos do conhecimento histórico; de outro, os que denunciam seu enraizamento grande demais no particular e no individual, o que tem por resultado um déficit científico. Em ambos os casos, é a definição lar- gamente empírica das práticas históricas que é derrubada. Na Alemanha,

o debate se inicia nos anos 1890. Ele opõe, de um lado, os que são favo-

ráveis a uma mutação científica da história que deveria se operar — mais ou menos — a partir do modelo das ciências da natureza, considerando (de vários modos) a noção de coerção, quer para construir as leis do devir histórico (Karl Marx), quer para definir os tipos ideais (Max Weber); de outro lado, aqueles que definem a história como ciência do espírito (Wi- lhem Dilthey). No seio da comunidade de historiadores, Karl Lamprecht recomenda precocemente o comparatismo e questiona o fundamento individual da

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história defendido por Ranke e sua escola: “o indivíduo não possui portan-

to uma liberdade absoluta, ele se move encerrado em seu tempo [

somente a liberdade de que dispõe o passageiro a bordo de um navio”. 14 Ele pretende fundar a história sobre a noção englobante de cultura. Outros autores, muitas vezes filósofos, insistem, ao contrário, no fato de que o conhecimento histórico é o conhecimento de fatos idiográficos. A história é a “ciência do individual, do que ocorre uma vez, em contraste com o que acontece nas ciências naturais, que têm por objeto o universal, o que ocorre sempre com as mesmas características”. 15 Como Humboldt já fazia, eles dão ênfase à subjetividade em curso na escritura da história, à compreensão (verstehen) que o diálogo entre duas subjetividades pressupõe: a do passado, tal como transparece através dos documentos, e a do próprio historiador. Eles aprofundam o antigo con- ceito de hermenêutica (interpretação) e destacam que a especificidade das “ciências da mente” diante das ciências da natureza se deve, exatamente, à compreensão da ação humana como sendo dotada de sentido. Essa filo- sofia crítica da história, qualificada de “historicismo”, é formulada — com nuanças — por filósofos como Wilhem Windelband, Georg Simmel, Wi- lhem Dilthey ou Heinrich Rickert. Diferentemente do que ocorria nos anos 1870, agora é uma reserva que, de preferência, se manifesta diante das teorias alemãs. Berr insiste nes- se ponto durante sua exposição. Dessa forma, a virada do século é marcada por uma relativa autonomização em relação à Alemanha, cujos debates são lidos através dos enfrentamentos que opõem, na França, os durkhei- mianos e os metódicos. Essa instrumentalização que amalgama posições muito diferentes para reconstruir uma oposição simples entre partidários de uma ciência monotética, calcada nas ciências da natureza, e historicistas idiográficos foi por muito tempo capaz de encobrir a complexidade das questões levantadas além-Reno. Daí para a frente é o estilo nacional da historiografia, tal como se constitui no momento de fundação da disci- plina, que se impõe e sobredetermina as trocas entre os historiadores dos diferentes países.

] e tem

14 Lamprecht, 1900:26.

15 Rickert, 1901:123.

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Ora, o acontecimento maior do cenário francês é a emergência da sociologia e, mais precisamente, da sociologia durkheimiana. Com efeito,

o projeto sociológico, como vontade de estabelecer regras do funciona-

mento social e do devir histórico, é anterior ao fim do século XIX. Esse

projeto de fazer da sociologia uma ciência inteira — Auguste Comte fa- lava da “física social” — é aparentado com o realizado por Taine e Fus- tel de Coulanges. Esse parentesco é aliás reivindicado por Durkheim no

prefácio do primeiro número de L’Année Sociologique. Entre outros, Louis Bourdeau — autor de um ensaio de 1888 intitulado Sur l’histoire consi- dérée comme science positive — encarna esse horizonte cientificista. As tomadas de posição a favor de uma história concebida como ciência do social são então numerosas. Essa vontade comum de certos historiadores

e sociólogos de levar em consideração grupos sociais e economia é asso-

ciada muitas vezes ao engajamento ou à simpatia socialistas. Lucien Herr, bibliotecário da Escola Normal Superior, desempenhou dessa forma um papel importante na difusão das ideias socialistas entre várias gerações de normaliens. Ainda que uma sociedade francesa de sociologia tenha sido fundada em 1872 por Littré, a emergência da sociologia é lenta. Correntes rivais se enfrentam. Émile Durkheim, ao constituir uma verdadeira escola, conse- gue marginalizar tanto René Worms (que sustenta uma interpretação na- turalista, organicista dos fenômenos sociais) quanto Gabriel de Tarde (que recusa o modelo naturalista e põe no cerne de sua abordagem a psicologia coletiva). Professor titular de filosofia e normalien, encarregado do cur- so de “ciência social e educação” na Universidade de Bordeaux em 1887, Durkheim define sua própria doutrina (Les règles de la méthode sociologique), que ele aplica à divisão do trabalho (1893) e ao suicídio (1897). Ele funda em 1898 L’Année sociologique, da qual participam Célestin Bouglé, Maurice Halbwachs, Marcel Mauss, François Simiand, entre outros. Essa revista se torna o polo de adesão a essa nova corrente que se impõe como represen- tante da sociologia e vai contribuir na França para se ignorarem quaisquer outras filiações da sociologia — a sociologia compreensiva alemã, a de Max Weber, de Simmel, de Dilthey —, que assim se encontram privadas de le- gitimação. O divórcio é óbvio entre as duas orientações, e as referências a Weber são raras na língua francesa, contrastando com a abundante biblio-

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grafia em língua inglesa. 16 Essa situação remete à ignorância voluntária de uma orientação da sociologia antinômica em relação à corrente durkhei- mo-marxista dominante na época. De fato, temos aí duas vias opostas entre

a

filiação positivista comtiana, cujo modelo heurístico é a física mecânica,

e

a filiação da sociologia compreensiva, para a qual as ciências da mente

não podem ser dissociadas das ciências da natureza. Houve, portanto, uma ruptura na virada do século que voltou à cena no pós-guerra entre a filoso- fia crítica da história de Simmel, Dilthey ou Weber, e a tradição positivista que a criticava por psicologizar as ciências históricas. 17

16 Le savant et le politique, de Max Weber, só foi traduzido para o francês em 1959 por Julien Freund; Les essais sur la théorie de la science, apenas em 1965; e L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme, em 1964.

17 Mesure, 1993.

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Voltaire*

Daniela Kern

Filho de um burguês, o notário François Arouet (1650-1722), e de Marie Marguerite d’Aumart (c. 1660-1701), uma aristocrata, o futuro poeta, en- saísta, romancista, contista, dramaturgo, polemista, crítico, filósofo e his- toriador François Marie Arouet nasceu em Paris no dia 21 de novembro de 1694. 1 Em 1704 ingressou no prestigiado Collège Louis-le-Grand, um dos melhores de Paris. Pouco depois, em 1705, conheceu, através do aba- de Châteauneuf (1645-1708), seu padrinho, a escritora Ninon de Leclos (1616-1705), influente cortesã à época de Luís XIV, que lhe deixou uma significativa soma em dinheiro, 2 mil francos, para que comprasse livros. No colégio, François aprendeu latim e teve aulas de retórica com o jesuíta René-Joseph de Tournemine (1661-1739), correspondente do sinó- logo jesuíta Joachin Bouvet (1643-1730), que viveu em Pequim até o final

* A vastidão da bibliografia sobre Voltaire ainda pode ser inferida pelo hoje clássico artigo de Barr (1951). Limitando-nos aqui a indicar algumas obras relevantes sobre a atuação de Voltaire como historiador, tais como o estudo pioneiro de Brumfitt (1958) e a recente análise de Volpilhac-Auger (2009). A melhor edição das obras literárias de Voltaire continua a ser Voltaire (1958).

1 A data do nascimento de Voltaire não é ponto pacífico. Ainda que hoje se aceite o dia 21 de novem- bro de 1694, é importante lembrar que contemporâneos de Voltaire, como seus secretários Long- champ e Wagnière, e como seu biógrafo Condorcet, além do próprio Voltaire, insistiam na data de 20 de fevereiro, alegando que nascera muito frágil e que fora batizado, por decisão da família, apenas em novembro do mesmo ano. Ver Longchamp e Wagnière (1826:2); Condorcet (1789:3).

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da vida. 2 Tournemine provavelmente foi o primeiro a despertar no jovem o interesse pela cultura chinesa, que nunca iria abandoná-lo. Em 1711 François deixou o colégio jesuíta e, indeciso quanto ao futu- ro profissional, começou a se envolver em problemas. Já havia conhecido anteriormente a sociedade epicurista Libertinos do Templo, através de seu padrinho, e passou a frequentá-la. Em 1713 seu pai, insatisfeito com sua decisão de se tornar escritor e também com sua vida social, decidiu enviá- lo para Haia, como secretário de embaixada. Lá François arranjou novo problema ao se apaixonar e ao tentar sequestrar e converter ao catolicis- mo a jovem protestante Catherine Olympe Dunoyer, a “Pimpette”, uma refugiada francesa de poucos recursos. O pai de François mais uma vez interveio e fez com que o filho retornasse a Paris e prometesse estudar di- reito. Mas, em vez de trabalhar como assistente de um advogado em Paris, conforme dizia ao pai, Voltaire continuou a ocupar seu tempo com a escrita de poemas satíricos e com uma intensa vida social. Em 1717 o jovem François envolveu-se em um problema de maiores dimensões, e não mais contou com a ajuda do pai: por haver escrito versos ofensivos ao regente, Filipe, duque de Orléans (1674-1723) — lembremos que Luís XIV morrera em 1715, e que Luís XV assumiria efetivamente o trono apenas em 1723 —, passou 11 meses preso na Bastilha. O período de confinamento ainda assim foi proveitoso: François começou a elaborar o poema La Ligue e a tragédia Oedipe. Em 1718, livre, François decidiu criar um pseudônimo que marcasse sua autonomia e o fim do jugo paterno. Assim surgiu o nome Voltaire, cujo sentido é controverso: anagrama de Arouet o jovem em latim, ou de Airvault, residência da família materna em Poitou. Também em 1718 Voltaire estreou no teatro com a tragédia Oedipe, obtendo imenso sucesso. Voltaire continuou a trabalhar em seu mais ambicioso projeto da épo- ca, o poema La Ligue, mais tarde intitulado Henriade. Esse poema, que pas- sou a circular clandestinamente em 1723 — ao tratar do reino de Henri- que IV (1553-1610), responsável pelo Édito de Nantes (1598), que pusera fim à guerra civil religiosa travada na França entre católicos e protestan- tes —, foi tido em alta conta por muitos de seus contemporâneos, como Duvernet (1734-1796), que o considerava o poema épico dos franceses

2 Rowbotham, 1932:1.051.

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contra o fanatismo, e Condorcet (1743-1794), que nele via a mesma marca de gênio presente na Eneida. 3 Nessa época Voltaire já lia com afinco a obra do crítico protestante Pierre Bayle (1647-1706), 4 a quem deveu muitas das estratégias críticas que haveria de adotar em seus trabalhos históricos. 5 Admirador de Thomas Morus (1478-1635) e das correções que ele fizera em obras de eruditos como Joseph Scalinger (1540-1609), em 1692 Bayle projetou uma vasta obra, um dicionário crítico protestante que haveria de responder ao Le

grand dictionaire historique do católico Louis Moréri (1643-1680), e que se- ria elaborado a partir de 1696. Em seu projeto Bayle propunha a crítica dos erros da história que então se praticava: “e que não me seja dito que nosso

século, [

curado do espírito que reinava no precedente, olha apenas

como pedantismos os escritos daqueles que corrigem as falsidades de fato,

concernentes ou à história particular de grandes homens, ou ao nome das

jamais tivemos mais apego do

cidades, ou tais outras coisas; porque [

que hoje a esses grandes esclarecimentos”. 6 Propunha também a utilização de novas fontes históricas a fim de tornar possível a correção dos vários ti- pos de erros detectados no trabalho dos historiadores: “jamais a ciência do

antiquariado, quero dizer o estudo das medalhas, das inscrições, dos bai-

xos-relevos etc., fora cultivada como o é agora. A que chega ela? A melhor estabelecer o tempo em que certos fatos particulares ocorreram; a impedir que se tome uma cidade ou uma pessoa por uma outra; a fortificar conjec-

]”. 7 Vol-

turas sobre certos ritos dos antigos; e a cem outras curiosidades [

taire lembraria dessas lições mais tarde, ao comentar os monumentos em seu artigo Histoire, e também ao criticar com veemência a obra de Moréri. 8 A relação intelectual de Voltaire com Bayle, no entanto, estava longe de ser

]

]

3 Duvernet, 1786:55; Condorcet, 1789:17.

4 Para uma relação das obras de Bayle que Voltaire possuía em sua biblioteca em São Petersbur- go, comprada por Catarina a Grande após sua morte, ver Havens e Torrey (1929:4).

5 Para um breve levantamento das referências elogiosas de Voltaire a Bayle ao longo de sua obra, ver Haxo (1931:461). Haxo se concentra na localização de pontos de contato entre ambos até 1726 e comenta detalhadamente possíveis influências de Bayle no poema Henriade.

6 Bayle, 1692:35 (todas as citações de trechos de obras que na bibliografia se encontram em francês ou inglês foram traduzidas pela autora).

7 Ibid., p. 35.

8 Para uma versão abreviada do dicionário, ver Moréri (1701). Voltaire não se refere, no entanto, a essa edição em seu artigo Histoire.

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passiva: assim como era capaz de elogiar efusivamente o grande crítico, também era capaz de discordar dele — para Voltaire, Thomas Morus, por exemplo, não passava de um “selvagem fanático”. 9 A relativa tranquilidade da vida pública de Voltaire teve fim em 1726, quando, mais uma vez devido a versos satíricos, brigou com o príncipe de Rohan-Chabot (1683-1760), foi preso e forçado a buscar exílio na Ingla- terra. Novamente Voltaire soube tirar o máximo proveito de um contra- tempo: em sua temporada inglesa frequentou proeminentes intelectuais, como Pope, conheceu Swift e compareceu ao enterro de Newton. O exílio acabou em 1728, e Voltaire retornou a Paris. Em 1731 Voltaire deu mais um passo em sua carreira de historiador,

ao publicar a Histoire de Charles XII. A história do aventureiro rei sueco, retratado por Voltaire de modo bastante irônico, teve muitos defensores, como Duvernet: “Voltaire preparou a história de Charles XII; história que

a posteridade olharia como um romance, se uma multidão de testemunhas

oculares dela não houvesse atestado a veracidade e a exatidão”. 10 Mas tam- bém haveria de atrair críticas no futuro, como as de Napoleão, que lera a

obra após viajar pelos lugares descritos por Voltaire e que julgara seu relato “fraco e impreciso”. 11 Voltaire trabalhava em um ritmo intenso. Em 1732 começou a pensar em Le siècle de Louis XIV e escreveu Zaïde; em1733 causou polêmica com Le temple du goût, e em 1734 publicou as Lettres philosophiques. O escânda- lo provocado por essa obra, que comparava a França desfavoravelmente à Inglaterra, foi grande a ponto de forçar Voltaire a deixar Paris. Enquanto exemplares de sua obra eram queimados, Voltaire encontrou abrigo junto

a uma velha amiga, madame du Châtelet. Os dois se tornaram amantes e

passaram os nove anos seguintes no Château de Cirey, envolvidos em estu- dos de ciência e de filosofia. Durante esse período Voltaire iniciou a troca de correspondência com Frederico, o futuro rei da Prússia (1736), publicou, juntamente com ma- dame du Châtelet (tradutora de Newton para o francês), Eléments de la

9 Ver Meyer (1958:67-68). Para um comentário sobre as críticas de Voltaire a Bayle e a Bernard Fontenelle (1657-1757), escritor francês que defendia a ciência e a tradição cartesiana, ver Brumfitt (1958:26).

10 Duvernet, 1786:62.

11 Ver Morley (1906:306-307).

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philosophie de Newton (1738) e causou polêmica com mais um livro que criticava a religião, Mahomet ou le fanatisme (1741). Em 1744 a sobrinha de Voltaire, Marie-Louise Mignot, filha de sua irmã mais velha, Catherine, ficou viúva, e se tornou amante do tio, que já demonstrara inclinação por ela. A relação de Voltaire com madame Denis, como era conhecida, seria duradoura, mas não era baseada em fidelidade. Madame Denis teria ainda vários amantes, inclusive um dos amigos de Voltaire, Marmontel.

O auge da boa sorte de Voltaire nesse período se deu em 1745, quando

se tornou historiógrafo da França, ingressou na Académie Française e rece- beu uma carta de gentilhomme, tudo isso porque passara a contar com amigos poderosos no reinado de Luís XV, entre eles a própria madame de Pompa- dour, amante do rei. Nesse mesmo ano apressou-se em publicar um poema sobre a batalha de Fontenoy, ocorrida em 11 de maio de 1745, batalha em que os franceses, liderados pelo marechal de Saxe (1696-1750), venceram os ingleses inesperadamente. A pressa em aproveitar o interesse do público

pelo acontecimento, 12 no entanto, fez com que Voltaire fosse obrigado a re- visar o poema muitas vezes, de modo que, apenas naquele ano, dele foram publicadas seis edições. 13

A batalha de Fontenoy despertou grande interesse em Voltaire como

historiador, tanto que a ela ainda iria dedicar uma detalhada análise em seu livro sobre a guerra de 1741. 14 A precisão de seu poema sobre a batalha, contudo, seria posta em dúvida por seu grande adversário, o abade Pierre- François Guyot Desfontaines (1685-1745), professor de retórica, colabo- rador do Journal des Sçavans e crítico contumaz de suas tragédias, naquela que seria a última querela entre ambos. Desfontaines, odiado pelos admira-

12 A pressa se justifica: eram vários os poemas e panfletos sobre a batalha que disputavam a

atenção do público, tanto na Inglaterra quanto na França. Na Inglaterra, por exemplo, eram pu-

assim como traduções de relatos

franceses do evento (ver The Journal of the

13 A edição mais criticada por Desfontaines é a primeira. Ver Voltaire (1745).

14 Voltaire (1757:242) encerra o capítulo destinado à batalha de Fontenoy assim: “entramos nes- se longo detalhamento da batalha de Fontenoy porque sua importância o merece. Esse evento determinou o destino da guerra, pavimentou o caminho para a conquista dos Países Baixos, e serviu como contraponto para todos os desapontamentos. A presença do rei e de seu filho, e o perigo a que esses dois príncipes e a França estavam expostos aumentaram grandemente a importância desse para sempre memorável dia”.

blicadas sátiras sobre a batalha (ver Fontenoy, a new satyric

),

).

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dores de Voltaire, 15 criticou vários aspectos do poema, como a imprecisão topográfica e, sobretudo, factual: “você se apresenta, senhor, na primeira edição de seu poema, como historiógrafo da França. Bela amostra que o senhor dá de seu talento para a história! O senhor adota tudo o que lhe disseram: verdadeiro ou falso, não importa. A sua imaginação acalorada é o seu único guia: o senhor acredita em tudo, e nada discute”. 16 Desfontaines, no entanto, morreu pouco depois da sexta edição do poema vir a lume, em dezembro daquele ano, e Voltaire continuou a desfrutar da boa fase literária e política. Tudo mudou em 1747, com o incidente do jeu de la reine: após ma- dame du Châtelet perder grande soma em dinheiro em um jogo promovi- do pela rainha, Voltaire disse que ela perdera porque estava jogando com “patifes”, o que foi entendido como grave insulto e rendeu a Voltaire uma ordem real para deixar Paris. Voltaire primeiro refugiou-se em Sceaux, na duquesa do Maine. Nesse ínterim, madame du Châtelet morreu de parto, em 1749 (ficara grávida de outro amante), e Voltaire sentiu muito a perda. Após uma breve estada em Paris, decidiu se mudar para Potsdam, em 1751, a fim de encontrar Frede- rico da Prússia. Voltaire, que acabara de publicar uma de suas obras histó- ricas mais importantes, Le siècle de Louis XIV (1751), na corte de Frederico escreveu, em 1752, Micromégas, uma das primeiras obras de ficção científica. Os problemas, contudo, não tardam a aparecer. Voltaire se indispôs com Maupertius, o presidente da Academia de Ciência de Berlim, foi por ele pro- cessado e, em reação, escreveu a sátira Diatribe du docteur Akakia, que atacava seu inimigo diretamente. Voltaire foi preso e, passados alguns meses, teve de deixar Berlim em 1753. Sua atividade como historiador se intensificou: ainda em 1753 iniciou a publicação de uma obra histórica de fôlego, os Annales de l`Empire. Em 1755, já instalado em sua nova residência (les Délices), perto de Genebra, provocou mais uma vez grande repercussão com o Poème sur le désastre de Lisbonne. E em 1756, além de lançar outra de suas obras históricas mais significativas, o Essai sur les moeurs, passou a colaborar com artigos para

15 Duvernet (1786:48) criticou Desfontaines nesses termos: “um dos mais desprezíveis e piores homens pelos quais a república já fora envenenada”.

16 Desfontaines, 1745:3.

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a Encyclopédie. Um deles é o verbete histoire, 17 em que sintetiza os temas e pontos de vista que desenvolvera em suas obras históricas anteriores. As- sim, Voltaire fala tanto sobre os chineses 18 quanto sobre as pesquisas de an- tiquário, tanto sobre Carlos XII (1682-1718) e os costumes turcos 19 quanto sobre as vitórias do marechal de Saxe. Voltaire insiste na necessidade de verificação dos fatos pelo historiador e no cuidado com relação ao uso de fontes, ainda que ele mesmo, diferentemente de Bayle, obcecado por notas de rodapé, não costumasse citar as suas. 20 A preocupação com a veracidade dos fatos não era exclusiva de Voltaire e se refletia em outras obras da épo- ca, como o Traité des différentes sortes de preuves qui servent à établir la vérité de l’histoire (1758), de Henri Griffet (1698-1771). Obra muito bem-suce- dida, nela o autor, organizador dos trabalhos históricos do padre Gabriel Daniel (1649-1728), procurou classificar todos os erros que se podiam encontrar na história (erros de datas, de fatos, de circunstâncias, de geo- grafia). A admiração por Bayle não é ocultada: “Bayle, em seu Dictionnaire, muitas vezes encontra o próprio m. de Thou incorrendo em erro a respeito da data de diversos fatos memoráveis que se haviam passado em seu tem- po, e que para ele teria sido muito fácil verificar”. 21 Quanto ao cuidado de Voltaire no que diz respeito aos fatos com os quais trabalhava, não apenas detratores como Desfontaines o criticavam. Hume, por exemplo, em carta enviada a um amigo, comentando a Histoire universelle (1753) de Voltaire, não o poupou: “eu sei que não se pode confiar no autor com relação aos fatos; mas sua visão geral é por vezes sonante, e sempre divertida”. 22 Pouco depois de redigir Candide, Voltaire adquiriu em 1758 a proprie- dade de Ferney, localizada na fronteira franco-suíça, para onde se mudou com madame Denis. No ano seguinte Candide foi publicado com estrondo-

17 Voltaire, 1765:220-225.

18 Ver especialmente Rowbotham (1932:1053, 1057 e 1063). Para uma análise da falta de orien- tação historicista no modo como Voltaire tratava a moderna cultura chinesa, ver Rosenthal

(1958:172).

19 Ao discorrer sobre os turcos, Voltaire condenava vivamente a existência dos eunucos, de- monstrando uma preocupação pelo tema característica dos pensadores iluministas. Cf. Goss- man (1982:40-50).

20 Brumfitt, 1958:129.

21 Griffet, 1769:82.

22 Meyer, 1958:51.

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so sucesso em toda a Europa, e Voltaire deu prosseguimento a seus traba- lhos históricos, escrevendo a Histoire de la Russie sous Pierre le Grand. A partir de 1762 uma nova etapa da vida pública de Voltaire teve iní- cio, com o rumoroso caso Jean Calas. O comerciante protestante Jean Calas (1698-1762), de Toulouse, em 9 de março de 1762 fora condenado pelo assassinato do filho, Marc-Antoine, 28 anos (1732-1761). No dia seguinte, jurando inocência até o final, foi cruelmente morto na roda. Alegou-se que ele teria matado o filho por não concordar com sua conversão ao ca- tolicismo. Voltaire ficou muito perturbado com a condenação e passou a acompanhar os fatos de perto. Convencido da inocência de Calas, recebeu em Ferney seus outros filhos, Pierre e Donat. Mais do que isso, passou a liderar uma intensa campanha pública contra o magistrado municipal de Toulouse, David de Beaudrigue, a quem denunciou por acusar Calas injus- tamente, e chegou mesmo a fazer com que a viúva de Calas se apresentasse a Luís XV, causando grande comoção na corte. Os argumentos de Voltaire, explorados no Traité sur la tolerance (1763), eram incisivos: “mas se um

], se os árbitros de

podem matar impunemente por um decreto, então o clamor

público se eleva, cada um temendo por si próprio; vemos que ninguém tem garantia de vida diante de um tribunal erigido para zelar pela vida

23 Seus esforços foram recompensados: em fevereiro de

1765 Beaudrigue foi destituído de sua função, e em 9 de março Jean Calas, finalmente, foi reabilitado. Ficara provado que Marc-Antoine não fora as- sassinado, mas cometera suicídio, e que a família procurara ocultar o fato na esperança de que ele merecesse um enterro cristão. Os últimos anos de Voltaire, passados em Ferney, foram muito ativos:

uma celebridade europeia publicou volumosas obras como o Dictionnaire philosophique portatif (1764), inspirado naquele de Bayle, com vários arti- gos escritos para a Encyclopédie, e as Questions sur l’Encyclopédie (1770), sua última obra filosófica. Em 1775 suas Oeuvres complètes começaram a ser publicadas pelo editor Cramer, e em 1775 Voltaire retornou a Paris para a estreia triunfante da tragédia Irène. Provavelmente para agradar Benjamin Franklin (1706-1790), ingressou em 4 de abril na loja maçônica das Neuf

pai de família inocente é entregue às mãos do erro [

sua vida [

]

dos cidadãos [

]”.

23 Voltaire, 1831:223-224.

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Soeurs, que fora fundamental para a ocorrência da revolução americana. Em 30 de maio, no auge da fama, Voltaire faleceu, deixando para trás um imenso legado intelectual e inúmeros seguidores. Ainda que o futuro lhe reservasse maior fama como autor de Candi- de do que como historiador, fato é que sua obra histórica nunca deixou de ser estudada. Nas primeiras décadas do século XIX, P. C. F. Daunou (1761-1840) e os outros ideólogos, por exemplo, por ela manifestavam grande apreço. Os ingleses, por outro lado, na mesma época a criticavam duramente: Thomas Carlyle (1795-1881) entre 1830 e 1840 atacava a falta de fé de Voltaire, e Thomas Macaulay (1800-1859) não aceitava sua crítica à autoridade. 24 A sorte do Voltaire historiador na Inglaterra mu- daria radicalmente a partir da metade do século XIX, como se percebe na afirmação de H. T. Buckle (1821-1862) em sua History of civilization in England (1857): “fui mais minucioso ao afirmar as imensas obriga- ções que a história deve a Voltaire porque, na Inglaterra, existe contra ele um preconceito, que nada a não ser ignorância, ou algo pior do que ignorância, pode desculpar; e porque, tomando-o no todo, ele é prova- velmente o maior historiador que a Europa jamais produziu”. 25 A partir de Buckle uma série de historiadores racionalistas irá valorizar Voltaire, como John Morley (1838-1923), que a ele dedicou uma obra em 1871, na qual elogia efusivamente seu “novo método de escrever a história”. 26 No século XX Voltaire continuará a encontrar partidários e críticos. Se Paul Meyer nos lembra que os contemporâneos de Voltaire não o viam como um historiador revolucionário e que essa ideia surgiu apenas na historiografia do século XIX, 27 J. J. Brumfitt em poucas palavras foi capaz de indicar a real importância de Voltaire, ainda hoje, para o estudo da história e de sua escrita: “seja ou não Voltaire, como alguns de seus mais entusiasmados admiradores afirmaram, o pai da moderna escrita histó- rica, ele é certamente o mais típico e o mais universal dos historiadores do Iluminismo”. 28

24 Newman, 1977:1349.

25 Buckle, 1862:591-592.

26 Morley, 1906:307.

27 Meyer, 1958:52.

28 Brumfitt, 1958:1.

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Principais obras de Voltaire:

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Oedipe, 1718;

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La Henriade, 1723;

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Histoire de Charles XII, 1731;

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Zaïre, 1732;

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Le temple du goût, 1733;

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Lettres philosophiques sur les anglais, 1734;

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Eléments de la philosophie de Newton, 1738;

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Le fanatisme, ou Mahomet le prophète, 1741;

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Remarques sur l'histoire, 1742;

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Nouvelles considérations sur l'histoire, 1744;

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Zadig, ou la destinée, 1747;

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Le siècle de Louis XIV, 1751;

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Micromégas, 1752;

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Annales de l'Empire depuis Charlemagne, 1754;

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Essai sur l'histoire génerale et sur les moeurs et l'espirit des nations, 1756;

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Histoire de la guerre de 1741, 1756;

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Poèmes sur le désastre de Lisbonne et sur la loi naturelle, 1756;

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Candide, 1759;

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Histoire de la Russie sous Pierre le Grand, 1759-1763;

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Pièces originales concernant la mort des sieurs de Calas, 1762;

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Traité sur la tolérance, 1763;

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Dictionnaire philosophique portatif, 1764;

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Précis du siècle de Louis XV, 1768;

F

Les guèbres, 1769;

F

Histoire du parlement de Paris, 1769;

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Questions sur l'Encyclopédie, 1770-1772.

História 29

História é o relato dos fatos tidos por verdadeiros; ao contrário da fábula, que é o relato dos fatos tidos por falsos. Há a história das opiniões, que nada mais é do que a coletânea dos erros humanos; a história das artes, talvez a mais útil de todas, quando

29 Voltaire, 1765:220-225 (tradução e notas de Daniela Kern).

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ela acrescenta ao conhecimento da invenção e do progresso das artes a descrição de seu mecanismo; a história natural, impropriamente chama- da de história, e que é uma parte essencial da física. A história dos acontecimentos divide-se em sagrada e profana. A história sagrada é uma continuação das operações divinas e miraculosas, por meio das quais aprouve a Deus conduzir outrora a nação judia, e

exercer hoje nossa fé. Não tratarei em absoluto desta matéria respeitável. Os primeiros fundamentos de toda história são as narrativas dos pais aos filhos, transmitidas de uma geração a outra; eles são apenas prováveis em sua origem, e perdem um grau de probabilidade a cada geração. Com o tempo, a fábula cresce, e a verdade se perde: de onde vem que todas as origens dos povos são absurdas. Assim, os egípcios teriam sido governados pelos deuses durante muitos séculos; em se- guida, por semideuses; enfim, teriam tido reis durante 11.340 anos:

e o Sol, neste espaço de tempo, teria mudado quatro vezes de oriente

e de poente. Os fenícios pretendiam estar estabelecidos em seu país há 30 mil anos; e esses 30 mil anos estariam repletos com tantos prodígios quanto os da cronologia egípcia. Sabe-se que maravilhoso ridículo reina na antiga história dos gregos. Os romanos, por mais sérios que fossem, não envolveram menos em fábulas a história de seus primeiros séculos. Esse povo tão recente, em comparação com as nações asiáti- cas, esteve 500 anos sem historiadores. Assim, não é surpreendente que Rômulo tenha sido o filho de Marte; que uma loba tenha sido sua ama de leite; que tenha marchado com 20 mil homens de sua cidade, Roma, contra 25 mil combatentes da cidade dos sabinos; que a seguir ele tenha se tornado deus; que Tarquínio o Velho tenha cortado uma pedra com uma navalha; e que uma vestal tenha arrastado por terra um barco com seu cinto 30 etc. Os primeiros anais de todas as nossas nações modernas não são menos fabulosos: as coisas prodigiosas e improváveis devem ser regis- tradas, mas como provas da credulidade humana; elas entram na histó- ria das opiniões.

30 As lendas de Rômulo, fundador de Roma, de Tarquínio o Velho e da vestal são narradas pelo historiador romano Tito Lívio (59 a.C.-17 d.C.) em A história de Roma (Ab Urbe Condita).

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Para conhecer com certeza alguma coisa da história antiga há ape- nas um meio, é ver se restam alguns monumentos incontestáveis; te- mos apenas três por escrito: o primeiro é a coletânea das observações astronômicas sucessivamente feitas durante 1.900 anos na Babilônia, enviadas por Alexandre à Grécia, e empregadas no Almagesto de Ptolo- meu. 31 Essa sequência de observações, que remonta a 2.234 anos antes de nossa corrente era, prova invencivelmente que os babilônios exis- tiam como povo muitos séculos antes: porque as artes nada mais são do que a obra do tempo; e a preguiça natural aos homens os deixa milhares de anos sem outros conhecimentos e sem outros talentos do que aque-

les de se alimentar, de se defender das injúrias do ar, e de se degolar. Que o julguemos pelos germanos e pelos ingleses do tempo de César, pelos tártaros de hoje, pela metade da África, e por todos os povos que encontramos na América, excetuando sob certos aspectos os reinos do Peru e do México, e a república de Tlaxcala. 32 O segundo monumento é o eclipse central do Sol, calculado na China 2.155 anos antes de nossa corrente era e reconhecido como ver- dadeiro por todos os nossos astrônomos. É preciso dizer a mesma coisa dos chineses e dos povos da Babilônia; eles já compõem sem dúvida um vasto império civilizado. Mas o que coloca os chineses acima de todos os povos da Terra é que nem suas leis, nem seus costumes, nem

a língua que entre eles falam os letrados, nada mudou em cerca de

4 mil anos. No entanto essa nação, a mais antiga de todos os povos que

subsistem hoje, aquela que possuiu o mais vasto e mais belo país, aque-

la que inventou quase todas as artes antes que aprendêssemos algumas

delas, sempre foi omitida, até nossos dias, em nossas pretensas histórias universais; e quando um espanhol e um francês faziam o recenseamento das nações, nem um nem outro deixava de chamar seu país de primeira monarquia do mundo.

31 Cláudio Ptolomeu (c. 100-c. 170): matemático, geógrafo e astrônomo grego, autor da Grande sintaxe matemática (140), importante obra sobre astronomia em que desenvolve o sistema geo- cêntrico, e que será chamada pelos árabes de Almagesto.

32 Situada em território que hoje pertence ao México, era uma nação independente no período pré-colombiano, que nunca foi dominada pelos astecas.

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O terceiro monumento, muito inferior aos outros dois, subsiste nos mármores de Arundel: 33 a crônica de Atenas neles foi gravada 263 anos antes de nossa era; mas ela remonta apenas a Cécrops, 1.319 anos além do tempo em que fora gravada. Eis na história de toda a Antigui- dade os únicos conhecimentos incontestáveis que temos. Não é surpreendente que não se tenha nenhuma história antiga pro- fana anterior a cerca de 3 mil anos. As revoluções deste globo, a longa e universal ignorância dessa arte que transmite os fatos pela escrita disso são a causa; ainda há vários povos que dela não fazem nenhum uso. Essa arte foi comum apenas entre um número muito pequeno de nações civili- zadas, e ainda estava em muito poucas mãos. Nada de mais raro entre os franceses e os germanos do que saber escrever até os séculos XIII e XIV:

quase todos os atos eram atestados apenas por testemunhas. Na França foi apenas sob Carlos VII, 34 em 1454, que foram redigidos por escrito os costumes da França. A arte de escrever era ainda mais rara entre os espa- nhóis, e decorre disso que sua história seja tão seca e tão incerta, até os tempos de Fernando e de Isabel. Vê-se por aí o quanto o número muito pequeno de homens que sabem escrever pode se impor. Há nações que subjugaram uma parte da Terra sem ter o uso dos caracteres da escrita. Sabemos que Gengis Khan conquistou uma parte da Ásia no começo do século XIII; mas não é nem por ele, nem pelos tártaros que o sabemos. Sua história escrita pelos chineses, e traduzida pelo padre Gaubil, 35 diz que esses tártaros não dominavam de modo algum a arte de escrever. É quase certo que entre 100 nações mal havia duas que usassem os caracteres da escrita.

33 Colecionados por Thomas Howard, conde de Arundel (1585-1646), compreendiam várias pe- ças gregas catalogadas já em 1628; Voltaire menciona especificamente aquelas referentes às crô- nicas de Paros (c. 260 a.C.), que contam a história de Atenas entre 1582 e 354 a.C., e que foram publicadas pela primeira vez em 1763, em edição bilíngue (grego/latim), sob o título de Arunde- lian marbles, Marmora Oxoniensia, pelo antiquário inglês Richard Chandler (1737-1810).

34 Com a ajuda de Joana d’Arc, Carlos VII (1403-1461) foi sagrado rei da França em 1429. Aperfeiçoou o sistema fiscal, reestruturou os exércitos e expulsou os ingleses de quase todo o território francês.

35 Antoine Gaubil (1689-1759): jesuíta que se instala em Pequim em 1722 e lá vive até o final da vida, sob o nome de Sun Kiun-yung. Traduziu para o francês diversas obras chinesas, entre as quais aquela a que Voltaire se refere, a Historie de Gentchiscan et de toute la dynastie des mongous, ses successeurs, conquérans de la Chine (Paris, 1739).

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Restam monumentos de uma outra espécie, que servem para cons- tatar somente a antiguidade recuada de alguns povos que precedem to- das as épocas conhecidas e todos os livros; são os prodígios de arquite- tura, como as pirâmides e os palácios do Egito, que resistiram ao tempo. Heródoto, que viveu há 2.200 anos, e que os viu, não pôde descobrir junto aos padres egípcios em que tempo eles foram erguidos. É difícil dar à mais antiga das pirâmides menos de 4 mil anos de idade, mas é preciso considerar que esses esforços da ostentação dos reis somente poderiam ter começado muito tempo depois do es- tabelecimento das cidades. Mas, para construir cidades em um país inundado todos os anos, teria sido necessário a princípio elevar o terreno, fundar as cidades sobre estacas nesse terreno lodoso e torná- las inacessíveis à inundação; seria preciso, antes de tomar esse partido necessário, e antes de estar em situação de tentar esses grandes tra- balhos, que os povos praticassem retiros durante a cheia do Nilo, no meio dos rochedos que formam duas cadeias à direita e à esquerda desse rio. Teria sido necessário que esses povos reunidos tivessem os instrumentos da lavoura, aqueles da arquitetura, um grande conheci- mento da agrimensura, com leis e uma civilização: tudo isso demanda necessariamente um espaço de tempo prodigioso. Vemos pelos longos detalhes que retardam todos os dias nossos empreendimentos, os mais necessários e os menores, quão difícil é fazer grandes coisas, e que é preciso não apenas uma obstinação infatigável, mas várias gerações animadas dessa obstinação. No entanto, que seja Menés, ou Thot, ou Quéops, ou Ramsés 36 que tenham erguido uma ou duas dessas prodigiosas massas, através delas não seremos instruídos sobre a história do antigo Egito: a língua deste povo está perdida. Não sabemos então outra coisa a não ser que, antes dos mais antigos historiadores, havia do que fazer uma história antiga. Aquela que nomeamos antiga e que é, com efeito, recente não re- monta a mais de 3 mil anos: não temos antes desse tempo nada além de

36 Menés: faraó que unificou o alto e o baixo Egito, fundando, assim, a primeira dinastia (c. 3100 a.C.). Thot: deus egípcio, considerado o inventor da escrita. Quéops: segundo faraó da quarta dinastia, governou o Egito entre 2589 e 2566 a.C. Ramsés II ou o Grande: terceiro faraó egípcio da nona dinastia, reinou entre 1279 e 1213 a.C.

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algumas probabilidades: apenas dois livros profanos conservaram essas probabilidades; a crônica chinesa e a história de Heródoto. As antigas crônicas chinesas dizem respeito apenas a esse império separado do resto do mundo. Heródoto, mais interessante para nós, fala da Terra então conhecida; ele encanta os gregos ao lhes recitar os nove livros de sua história, pela novidade desse empreendimento e pelo charme de sua dicção, e sobretudo pelas fábulas. Quase tudo o que ele conta

sobre a fé dos estrangeiros é fabuloso: mas tudo o que viu é verdadeiro. Ficamos sabendo por meio dele, por exemplo, que extrema opulência

e que esplendor reinavam na Ásia Menor, hoje pobre e despovoada. Ele

viu em Delfos 37 os presentes de ouro prodigiosos que os reis da Lídia 38

haviam enviado a Delfos, e fala a ouvintes que conheciam Delfos como ele. Ora, que espaço de tempo foi necessário transcorrer antes que os reis da Lídia tivessem podido reunir o suficiente de tesouros supérfluos para oferecer presentes tão consideráveis a um templo estrangeiro! Mas quando Heródoto relata os contos que escutara, seu livro não passa de um romance que se assemelha às fábulas do Milhão. 39 É um Candaulo 40 que mostra sua mulher completamente nua a seu amigo Giges; é essa mulher, que por modéstia deixa a Giges apenas a opção de matar seu marido, de desposar a viúva, ou de perecer. É um oráculo de Delfos que adivinha que ao mesmo tempo que fala, Creso, 41 a 100

léguas dali, faz cozinhar uma tartaruga em um prato de bronze. Rollin, 42 que repete todos os contos dessa espécie, admira a ciência do oráculo, e

a veracidade de Apolo, assim como o pudor da esposa do rei Candaulo;

37 Antiga cidade grega localizada junto ao monte Parnaso.

38 Antigo reino da Ásia Menor que se situava na atual província turca de Manisa.

39 Il Milione: O livro das maravilhas, relato da viagem à China escrito em 1298 e reescrito entre 1310 e 1320 por Marco Polo (1254-1324).

40 Último rei lídio (?-680 a.C.) da dinastia heráclida; segundo Heródoto, colocou o amigo Giges secretamente no quarto da esposa para que a visse nua e desfrutasse de sua beleza. O restante da história é resumido por Voltaire. Giges opta por matar Candaulo, iniciando assim uma nova dinastia, a mermnada.

41 Último rei lídio (596-547 a.C.) da dinastia mermnada, tornou-se famoso pela imensa riqueza. Foi derrotado por Ciro.

42 Charles Rollin (1661-1741): historiador francês, escreveu ao final da vida obras históricas, como a famosa História antiga (1730-1738) e a História romana. Já em sua época, como se per- cebe pelo irônico comentário de Voltaire, Rollin era conhecido por reunir acriticamente fatos e mitos em suas compilações.

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e sobre esse assunto propõe à civilização que impeça os jovens de se ba-

nharem no rio. O tempo é tão caro, e a história tão imensa, que é preciso poupar aos leitores tais fábulas e tais moralidades.

A história de Ciro 43 é toda desfigurada pelas tradições fabulosas. Há

a grande aparência de que esse Kiro, que chamamos de Ciro, à frente dos

povos guerreiros do Elam, 44 tenha com efeito conquistado a Babilônia amolecida pelas delícias. Mas não se sabe somente qual rei reinava então na Babilônia; uns dizem Baltasar, outros Anabot. Heródoto faz com que Ciro morra em uma expedição contra os massagetas. 45 Xenofonte, em seu romance moral e político, 46 faz com que morra em seu leito. Não se sabe outra coisa nessas trevas da história a não ser que des-

de muito tempo vastos impérios e tiranos houve cujo poder se fundava na miséria pública; que a tirania chegava a despir os homens de sua virilidade, para deles se servir em infames prazeres ao sair da infância, e para empregá-los em sua velhice na guarda das mulheres; que a supers- tição governava os homens; que um sonho era visto como um aviso do céu, e que decidia a paz e a guerra etc.

À medida que Heródoto em sua história se aproxima de seu tem-

po, ele é mais instruído e mais verdadeiro. É preciso confessar que a história começa para nós apenas com os ataques dos persas contra os gregos. Não se encontra antes desse grande acontecimento nada além

de narrativas vagas, envolvidas por contos pueris. Heródoto torna-se o modelo dos historiadores, quando descreve esses prodigiosos pre-

parativos de Xerxes 47 para ir subjugar a Grécia e a seguir a Europa. Ele

o leva, seguido de cerca de 2 milhões de soldados, de Susa 48 a Atenas. Ele nos mostra como estavam armados os tantos povos diferentes que

43 Ciro o Grande (c. 556-530 a.C.): fundador do império persa, foi o responsável por grandes conquistas, entre as quais a da Babilônia, em 539 a.C.

44 Região do Irã antigo ocupada pelos descendentes de Elam, primeiro filho de Sem.

45 Povo cita governado pela rainha Tomiris, a qual, segundo Heródoto, teria assassinado Ciro.

46 Voltaire refere-se à Ciropédia (A educação de Ciro), obra em que Xenofonte apresenta, sob luz muito positiva, a vida de Ciro o Grande.

47 Rei persa (c. 519- c. 466 a.C.), filho de Dario I, travou com os gregos as guerras médicas. Venceu a batalha das Termópilas e arrasou Atenas, mas teve sua frota destruída em Salamina.

48 Antiga capital do Elam, foi destruída por Assurbanipal em 646 a.C., transformada em capital do império aquemênida por Dario I e ocupada por Alexandre em 331 a.C., tornando-se, a partir de então, um centro de cultura helenística.

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esse monarca arrastou consigo; nenhum foi esquecido, do fundo da Arábia e do Egito, até para além da Bactriana 49 e da extremidade se- tentrional do mar Cáspio, país então habitado por povos poderosos, e hoje por tártaros errantes. Todas as nações, desde o Bósforo da Trácia 50 até o Ganges, estavam sob seus estandartes. Vê-se com surpresa que esse príncipe possuía tanto território quanto o que teve o império romano; ele tinha tudo o que pertence hoje ao grande mongol abaixo do Ganges, toda a Pérsia, todo o país dos usbeques, 51 todo o império dos turcos, se dele se excetuar a România, e ainda possuía a Arábia. Vê-se pela extensão de seus Estados qual é o erro dos declamadores em verso e em prosa ao considerarem louco Alexandre, vingador da Grécia, por haver subjugado o império do inimigo dos gregos. Ele não foi ao Egito, a Tiro 52 e à Índia a não ser porque devia, uma vez que Tiro, o Egito e a Índia pertenciam à dominação que havia devastado

a Grécia. Heródoto teve o mesmo mérito que Homero; ele foi o primeiro historiador, assim como Homero foi o primeiro poeta épico; e todos os dois colhiam as belezas próprias de uma arte desconhecida antes

deles. É um espetáculo admirável em Heródoto esse imperador da Ásia

e da África, que faz passar sua imensa armada sobre uma plataforma da

Ásia à Europa, que toma a Trácia, a Macedônia, a Tessália, 53 a Acaia 54

superior, e que entra em Atenas abandonada e deserta. Não se espera de modo algum que os atenienses sem cidade, sem território, refugiados nos barcos com alguns outros gregos, coloquem em fuga a numerosa frota do grande rei, que voltem para casa como vencedores, que forcem Xerxes

a

recolher ignominiosamente os restos de sua armada, e que em seguida

o

proíbam por um tratado de navegar em seus mares. Essa superioridade

49 Antiga região a que hoje corresponde parte do Afeganistão, e cuja capital era Bactros.

50 Bósforo: estreito localizado na Turquia, que limita a Europa e a Ásia ligando o mar Negro ao mar de Mármara. Trácia: antiga região do sudeste da Europa, cujo território corresponde a partes das atuais Grécia, Turquia e Bulgária.

51 Ou seja, o Usbequistão.

52 Antiga cidade fenícia, era uma grande potência comercial na época de Alexandre e correspon- de à atual Sur, no Líbano.

53 Região da Grécia central, conhecida na época de Homero como Eólia.

54 Região da Grécia localizada na costa norte do Peloponeso.

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de um pequeno povo generoso e livre sobre toda a Ásia escrava é talvez o que há de mais glorioso entre os homens. Ficamos sabendo também por meio desse evento que os povos do Ocidente sempre foram melhores ma- rinheiros do que os povos asiáticos. Quando lemos a história moderna, a vitória de Lepanto faz lembrar aquela de Salamina, 55 e comparamos dom João da Áustria e Colonna 56 a Temístocles e a Euribíades. 57 Eis talvez o único fruto que se pode tirar do conhecimento desses povos recuados. Tucídides, sucessor de Heródoto, se limita a nos detalhar a história da guerra do Peloponeso, país que não é maior do que uma província da França ou da Alemanha, mas que produziu homens em todo gênero dignos de uma reputação imortal; e como se a guerra civil, o mais hor- rível dos flagelos, acrescentasse um novo calor e novas forças morais ao espírito humano, é nesse tempo que todas as artes floresceram na Grécia. É assim que eles começam a se aperfeiçoar a seguir em Roma em outras guerras civis do tempo de César, e que renascem ainda em nossos séculos XV e XVI da era corrente, entre os tumultos da Itália. Após essa guerra do Peloponeso, descrita por Tucídides, vem o tempo célebre de Alexandre, príncipe digno de ser educado por Aris- tóteles, que funda muito mais cidades do que as que os outros des- truíram, e que muda o comércio do universo. De seu tempo, e daquele de seus sucessores, floresceu Cartago, e a república romana começou a fixar nela os olhares das nações. Todo o resto está soterrado na barbárie, os celtas, os germanos, todos os povos do Norte são desconhecidos. A história do império romano é a que mais merece nossa atenção, porque os romanos foram nossos mestres e nossos legisladores. Suas leis ainda estão em vigor na maior parte de nossas províncias; sua língua ainda se fala, e muito tempo após sua queda ela foi a única língua na

55 Batalha naval de Lepanto: em 7 de outubro de 1571 o império otomano foi derrotado em Lepanto, na Grécia, pela Liga Santa (reino de Espanha, República de Veneza, Estados pontifícios e cavaleiros de Malta), sob o comando de d. João da Áustria (1547-1578), estrategista militar, filho bastardo de Carlos V, imperador do Sacro Império Romano. Batalha de Salamina: em setembro de 480 a.C. os gregos liderados por Temístocles venceram, em Salamina, os persas conduzidos por Xerxes.

56 Marcantonio Colonna (1535-1584): almirante italiano, foi capitão-geral da frota da Liga Santa conduzida por d. João da Áustria na batalha de Lepanto.

57 Temístocles (c. 524-459 a.C.): homem de Estado e general ateniense, foi o responsável pela estratégia que levou os gregos à vitória na batalha de Salamina. Euribíades: general espartano que, juntamente com Temístocles, dirigiu a frota grega na batalha de Salamina.

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qual se redigiam os atos públicos na Itália, na Alemanha, na Espanha, na França, na Inglaterra, na Polônia. Com o desmembramento do império romano no Ocidente come- ça uma nova ordem de coisas, e é o que se chama de história da Idade Média; história bárbara de povos bárbaros que, tornados cristãos, não se tornam melhores. Enquanto a Europa é assim transtornada, vemos aparecer no sécu- lo VII os árabes, até então confinados em seus desertos. Eles estendem seu poderio e sua dominação à alta Ásia, à África, e invadem a Espanha; os turcos os sucedem, e estabelecem a sede de seu império em Constan- tinopla, no meio do século XV. É no final desse século que um novo mundo é descoberto, e logo depois a política da Europa e as artes assumem uma forma nova. A arte da imprensa e a restauração das ciências fazem com que enfim tenhamos histórias suficientemente fiéis, ao invés das crônicas ridículas encerradas nos claustros desde Gregório de Tours. 58 Cada nação na Eu- ropa logo tem seus historiadores. A antiga indigência se transforma em excesso: não há nenhuma cidade que não queira ter sua história particu- lar. Estamos prostrados pelo peso das minúcias. Um homem que quer se instruir é obrigado a se ater ao fio dos grandes acontecimentos, e a descartar todos os pequenos fatos particulares que vêm atravessados; ele colhe na multiplicidade de revoluções o espírito dos tempos e os costumes dos povos. É preciso sobretudo se ater à história de sua pátria, estudá-la, possuí-la, reservar para ela os detalhes, e lançar uma vista mais geral sobre as outras nações. A história delas é interessante apenas pelas relações que têm conosco, ou pelas grandes coisas que fizeram; as primeiras eras desde a queda do império romano são, como se ob- servou em outra parte, apenas aventuras bárbaras, sob nomes bárbaros, com exceção do tempo de Carlos Magno. A Inglaterra permanece quase isolada até o reino de Eduardo III; 59 o Norte é selvagem até o século X;

58 Bispo de Tours e historiador (c. 539-594), cuja principal obra, originalmente chamada de Dez livros de história, mais tarde recebeu o nome de História dos francos. Tal obra, que narra a história desde o surgimento do mundo até o reinado dos francos, em 572, era muito malvista na época de Voltaire, entre outros motivos devido ao latim em que fora escrita, considerado pouco elegante quando comparado àquele das obras de Cícero e Virgílio.

59 Rei (1312-1377) da Inglaterra, transformou seu reino em uma grande potência militar e em 1340, ao reivindicar também o trono da França, deu início à Guerra dos Cem Anos.

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a Alemanha é por muito tempo uma anarquia. As querelas dos impe-

radores e dos papas desolam por 600 anos a Itália, e é difícil perceber

a verdade através das paixões dos escritores pouco instruídos que de-

ram as crônicas informes desse tempo infeliz. A monarquia da Espanha possui apenas um evento sob os reis visigodos, e esse evento é aquele de sua destruição. Tudo é confusão até o reino de Isabel e Fernando. A França até Luís XI 60 está às voltas com males obscuros sob um governo sem regra. Daniel 61 bem pretendeu que os primeiros tempos da França são mais interessantes do que aqueles de Roma: ele não percebeu que o começo de um tão vasto império é tanto mais interessante quanto mais débil, e que amamos ver a pequena fonte de uma torrente que inundou

a metade da Terra. Para penetrar no labirinto tenebroso da Idade Média é preciso o recurso aos arquivos, e deles não possuímos quase nenhum. Alguns antigos conventos conservaram estatutos, diplomas, que contêm doa- ções, cuja autoridade é às vezes contestada; não há ali uma coletânea em que possamos nos esclarecer sobre a história política, e sobre o di- reito público da Europa. A Inglaterra é, de todos os países, aquele que tem, sem dúvida, os arquivos mais antigos e mais contínuos. Esses atos recolhidos por Rimer, sob os auspícios da rainha Ana, começam com o século XII e foram continuados sem interrupção até nossos dias. Eles espalham uma grande luz sobre a história da França. Eles fazem ver, por exemplo, que Guienne 62 pertenceu aos ingleses em soberania absoluta, quando o rei da França Carlos V 63 a confiscou por um decreto, e dela

60 Rei (1423-1483) da França, sob seu reinado é encerrada a Guerra dos Cem Anos com a In- glaterra. O Tratado de Picquigny (1475), que possibilitou tal desfecho, envolveu uma grande soma de dinheiro para que os ingleses abandonassem a França, e é a esse evento que Voltaire fará referência.

61 Gabriel Daniel (1649-1728): padre jesuíta e historiador francês, foi autor de vasta obra. Vol- taire aqui se refere a sua obra mais famosa, a Histoire de France depuis l’établissement de la mo- narchie française (1713).

62 Antiga província do sudoeste da França, tinha como capital a cidade de Bourdeaux e, junta- mente com a Gasconha, formava desde o século XII o ducado de Aquitânia. Tornou-se inglesa em 1154 e retornou à França em 1453, do modo como Voltaire irá relatar.

63 Rei (1338-1380) da França, recuperou boa parte do território que ela perdera para a Ingla- terra após a assinatura do Tratado de Brétigny pelos reis Eduardo III da Inglaterra e João II de França, em 1360.

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se apodera pelas armas. Ali descobrimos que somas consideráveis, e que espécie de tributo pagou o rei Luís XI ao rei Eduardo IV, 64 que ele poderia combater; e quanto dinheiro a rainha Elisabeth emprestou a Henrique o Grande 65 para ajudá-lo a subir ao trono etc. Da utilidade da história. Essa vantagem consiste na comparação que um homem de Estado, um cidadão pode fazer das leis e dos costumes estrangeiros com aqueles de seu país: é o que estimula as nações a supe- rarem umas às outras nas artes, no comércio, na agricultura. As grandes faltas passadas servem muito em todo gênero. Não saberíamos mais re- colocar diante dos olhos os crimes e infortúnios causados por querelas absurdas. É certo que, à força de renovar a memória dessas querelas, impedimo-las de renascer. É por haver lido os detalhes das batalhas de Creci, de Poitiers, de Azincourt, de Saint-Quentin, 66 de Graveniles etc., que o célebre mare- chal de Saxe 67 se determinou a buscar, na medida em que podia, o que chamou de affaires de poste. 68 Os exemplos causam um grande efeito sobre o espírito de um príncipe que lê com atenção. Ele verá que Henrique IV empreendeu sua grande guerra, que deveria mudar o sistema da Europa, apenas de- pois de haver se certificado o suficiente do vigor da guerra para poder sustentá-la por vários anos sem nenhum socorro às finanças.

64 Rei (1442-1483) da Inglaterra, foi ele o beneficiado do Tratado de Picquigny, assinado com Luís XI da França, seu principal inimigo.

65 Henrique IV (1553-1610), rei da França. Huguenote, tornou-se rei em 1589 com o auxílio de Elizabeth I da Inglaterra, que o apoiou no combate à Liga Católica da França, contrária a sua coroação. Converteu-se ao catolicismo e assinou em 1598 o Édito de Nantes, assegurando liberdade religiosa aos protestantes franceses.

66 Batalha de Creci: parte da Guerra dos Cem Anos, ocorreu em 1346 entre as tropas de Edu- ardo III da Inglaterra e Filipe de Valois. Batalha de Poitiers: também parte da Guerra dos Cem Anos, foi travada entre França e Inglaterra em 19 de setembro de 1356. Batalha de Azincourt:

ocorreu em 25 de outubro de 1415, no norte da França, igualmente como parte da Guerra dos Cem Anos, e foi travada entre Henrique V da Inglaterra e as tropas comandadas por Charles I d’Albret. Batalha de Saint-Quentin: ocorrida em 10 de agosto de 1557, resultou na vitória da Espanha de Filipe II sobre a França.

67 Maurice de Saxe (1696-1750): filho ilegítimo de Augusto, rei da Polônia, em 1743 tornou-se marechal da França. Um dos maiores estrategistas militares da época, deixou uma obra sobre a arte da guerra, Mes réveries (1757).

68 Disputa de postos.

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Ele verá que a rainha Elisabeth, recorrendo somente ao comércio e a uma sábia economia, resistiu ao poderoso Filipe II, 69 e que, dos navios que ela colocou no mar contra a Invencível Armada, três quartos foram fornecidos pelas cidades comerciais da Inglaterra. A França não atingida sob Luís XIV, depois de nove anos da mais infeliz guerra, mostrará evidentemente a utilidade das regiões de fronteira que ele construiu. 70 Em vão o autor das causas da queda do império romano 71 culpa Justiniano de haver tido a mesma política de Luís XIV. Ele deve culpar apenas os imperadores que negligencia- ram esses locais fronteiriços, e que abriram as portas do império aos bárbaros. Enfim, a grande utilidade da história moderna, e a vantagem que ela apresenta em relação à antiga, é ensinar a todos os potentados que desde o século X sempre nos reunimos contra um poder demasiada- mente preponderante. Esse sistema de equilíbrio sempre foi desconhe- cido dos antigos, e esta é a razão dos sucessos do povo romano, que, tendo formado uma milícia superior àquela dos outros povos, subjuga- os um após o outro, do Tibre ao Eufrates. Da certeza da história. Toda certeza que não é demonstração mate- mática não passa de uma extrema probabilidade. Não há outra certeza histórica. Quando Marco Polo fala pela primeira vez, mas sozinho, da gran- deza e da população da China, não foi acreditado, e não podia exigir crédito. Os portugueses, que entraram nesse vasto império vários sécu- los depois, começaram a tornar a coisa provável. Ela hoje é certa, dessa certeza que nasce da disposição unânime de milhares de testemunhas oculares de diferentes nações, sem que ninguém tenha reclamado con- tra seu testemunho.

69 Rei (1527-1598) do então vasto império espanhol.

70 Sébastien le Preste, de Vauban (1633-1707), audacioso engenheiro militar, nomeado comissá- rio das fortificações em 1678, sob Luís XIV, construiu mais de 160 fortes, sobretudo nas regiões de fronteira da França, e é a isso que se refere Voltaire.

71 Aqui Voltaire critica Montesquieu (1689-1755), autor de Considérations sur les causes de la grandeur des romains et de leur décadence (1734). Mais tarde Marmontel, amigo de Voltaire, irá se valer dessa original aproximação entre Justiniano e Luís XIV ao conceber sua famosa peça Bélisaire (1767).

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Se dois ou três historiadores somente tivessem escrito a aventura do rei Carlos XII, 72 que, se obstinando a permanecer nos Estados do sultão seu benfeitor, contra a vontade deste, confrontou-se, com seus domésticos, contra uma armada de janízaros 73 e de tártaros, eu teria suspenso meu julgamento; mas tendo falado com várias testemunhas oculares, e jamais tendo ouvido alguém colocar essa ação em dúvida, é bem necessário nela acreditar, porque, depois de tudo, se ela não é nem sábia, nem ordinária, ela não é contrária nem às leis da natureza, nem ao caráter do herói. A história do homem da máscara de ferro 74 teria passado em meu espírito por um romance, se não a tivesse conhecido através do genro do cirurgião que cuidou desse homem em sua última enfermidade. Mas como o oficial que o vigiava então também me atestou o fato, e todos aqueles que sobre ele deveriam estar instruídos para mim o confirma- ram, e os filhos dos ministros de Estado, depositários desse segredo, que ainda vivem, dele estavam cientes como eu, dei a essa história um grande grau de probabilidade, grau, no entanto, abaixo daquele que faz crer o affaire de Bender, porque a aventura de Bender teve mais testemu- nhas do que aquela do homem da máscara de ferro. O que repugna ao curso ordinário da natureza não deve de modo algum ser acreditado, a menos que seja atestado por homens animados de espírito divino. Eis por que no artigo deste dicionário é um grande paradoxo dizer que se deveria crer em toda Paris que afirmasse ter visto ressuscitar um morto, como se crê em toda Paris quando diz que ga- nhamos a batalha de Fontenoy. Parece evidente que o testemunho de toda Paris sobre algo improvável não deveria ser igual ao testemunho de toda Paris sobre uma coisa provável. Aí estão as primeiras noções da santa metafísica. Este dicionário é consagrado à verdade, um artigo

72 Rei (1682-1718) da Suécia e militar talentoso, lutou contra Pedro o Grande da Rússia e Au- gusto II da Polônia. Derrotado, refugia-se no império otomano, mais especificamente na cidade turca de Bender, em 1709, lá permanecendo com cerca de 40 soldados até 1714. Voltaire a ele dedicou uma de suas primeiras obras históricas, Charles XII (1731).

73 Do turco Yeni Tcheri, ou “nova força”, soldados de origem cristã que compunham a elite do exército dos sultões otomanos e que, quando crianças, foram sequestrados, transformados em escravos e convertidos ao Islã. Essa prática permaneceu até o início do século XX.

74 Voltaire trata disso no capítulo 25 de Le siècle de Louis XIV (1751).

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deve corrigir o outro, e se aqui for encontrado algum erro, ele deve ser corrigido por um homem mais esclarecido. Incerteza da história. Distinguimos os tempos em fabulosos e his- tóricos. Mas os tempos históricos deveriam ter sido distinguidos eles mesmos em verdades e em fábulas. Não falo aqui das fábulas reconhe- cidas hoje em dia como tais; não se trata, por exemplo, dos prodígios com os quais Tito Lívio embelezou ou mimou sua história. Mas nos fa- tos mais aceitos que razões haveria para duvidar? Que atentemos para

o fato de que a república romana ficou cinco séculos sem historiado-

res, e que o próprio Tito Lívio deplora a perda dos anais dos pontífices

e dos outros monumentos que pereceram quase todos no incêndio

de Roma, pleraque interiere, 75 que sonhemos que nos 300 primeiros anos a arte da escrita era muito rara, rarae per eadem tempora litterae. 76 Seria permitido então duvidar de todos os acontecimentos que não estão na ordem ordinária das coisas humanas. Teria sido bem provável que Rômulo, neto do rei dos sabinos, tivesse sido forçado a raptar as sabinas para ter mulheres. A história de Lucrécio seria mesmo veros- símil? Pode-se crer facilmente na palavra de Tito Lívio, que o rei Por- sena 77 fugiu cheio de admiração pelos romanos porque um fanático teria querido assassiná-lo? Não seríamos levados, ao contrário, a crer em Políbio, 78 anterior a Tito Lívio em 200 anos, que diz que Porsena subjugou os romanos? A aventura de Regulus, 79 encerrado pelos car-

75 “Quase inteira”. Citação extraída do início do Livro VI da História de Roma desde sua fundação, de Tito Lívio, em que descreve o incêndio de Roma.

76 “E pela raridade da escrita nesse tempo recuado”, frase de Tito Lívio extraída do mesmo pa- rágrafo mencionado na nota anterior.

77 Lars Porsena (séc. VI a.C.): rei etrusco que, em auxílio ao rei romano deposto Lucius Tar- quinus Superbus, teria invadido Roma. Voltaire aponta uma famosa divergência quanto ao su- cesso ou não nessa invasão existente entre os autores que tratam desse episódio (Tito Lívio e Políbio).

78 Historiador (c. 203-120 a.C.) grego que, refém dos romanos, viveu 16 anos na Itália. Sua obra mais importante são As histórias, em quarenta volumes, dos quais restam os cinco primeiros. Nessa obra narra a transformação de Roma na maior potência do Mediterrâneo, abarcando o período que vai de 264 a 146 a.C.

79 Marcus Atilius Regulus (?- c. 250 a.C.): general romano na Primeira Guerra Púnica (256 a.C.), foi tomado como prisioneiro pelo general espartano mercenário Xantipo e conduzido a Cartago, onde foi morto. Várias versões sobre o modo como morreu mais tarde passaram a circular em Roma, talvez como propaganda contra Cartago. Segundo uma delas, Regulus teria sido colo- cado em uma cesta costurada com pontas de ferro; segundo outra, teria sido jogado em uma masmorra escura e então, depois de ter as pálpebras cortadas, obrigado a olhar para o sol.

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tagineses em um tonel guarnecido de pontas de ferro, mereceria que nela acreditássemos? Políbio, contemporâneo, dela não teria falado se fosse verdadeira? Sobre ela não diz uma palavra. Não é uma grande presunção que esse conto tenha sido inventado apenas longo tempo depois para tornar os cartagineses odiosos? Abram o dicionário de Moréri 80 no artigo Régulus, ele lhes garante que o suplício desse roma- no é reportado em Tito Lívio. No entanto, a década em que Tito Lívio teria podido falar disso está perdida; e temos apenas o suplemento de Freinsemius, 81 e ocorre que esse dicionário citou apenas um alemão do século XVII, acreditando citar um romano do tempo de Augusto. Faríamos volumes imensos de todos os fatos célebres e reconhecidos dos quais é preciso duvidar. Mas os limites deste artigo não permitem que nos estendamos. Os monumentos, as cerimônias anuais, as próprias medalhas são pro- vas históricas? Somos naturalmente levados a crer que um monumen- to erigido por uma nação para celebrar um acontecimento dele atesta a certeza. No entanto, se esses monumentos não foram erguidos por contemporâneos, se celebram alguns fatos pouco verossímeis, provam outra coisa a não ser que se quis consagrar uma opinião popular? A coluna rostrata erigida em Roma pelos contemporâneos de Dui- lius é sem dúvida uma prova da vitória naval de Duilius. 82 Mas a estátua do augúrio Navius, 83 que cortou um calhau com uma navalha, provaria ela que Navius havia operado esse prodígio? As estátuas de Ceres e de

80 Louis Moréri (1643-1680): padre francês, autor da enciclopédia de orientação católica Le grand dictionaire historique, ou le mélange curieux de l’histoire sacrée et profane (1674). Obra muito consultada e criticada no século XVIII, dela Voltaire possuía a edição holandesa em cinco volu- mes, de 1740, e o suplemento francês em dois volumes, de 1749. 81 Johann Freinsemius (1608-1660), literato que se tornou professor honorário na Universidade de Heidelberg até sua morte. Seus suplementos à história romana de Tito Lívio representam uma tentativa de preencher suas lacunas.

82 Colunas rostratas de Duilius (Columnae Rostratae Duilii): erigidas no Fórum Romano por Caius Duilius Nepos em homenagem a sua vitória na batalha de Mylae, contra os cartagineses, em 260 a.C. — primeira batalha naval vencida pelos romanos. Delas subsiste apenas uma.

83 Attus Navius: adivinho durante o reino de Tarquinius Priscus, quinto rei de Roma (616 -578 a.C.), opôs-se à tentativa do imperador de duplicar o número das centúrias equestres (divisão do exército romano composta de 80 a 100 legionários, com direito a voto no senado), e para mostrar seu poder teria cortado um calhau com uma navalha.

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Triptolemo, 84 em Atenas, seriam testemunhos incontestáveis de que Ce- res teria ensinado a agricultura aos atenienses? O famoso Laocoonte, 85 que subsiste até hoje tão inteiro, atesta mesmo a verdade da história do cavalo de Troia? As cerimônias, as festas anuais estabelecidas por toda uma nação, não constatam melhor a origem que se lhes atribui. A festa de Árion 86 conduzido sobre um golfinho celebrava-se entre os romanos como en- tre os gregos. A do fauno evocava sua aventura com Hércules e Ônfale, 87 quando esse deus, apaixonado por Ônfale, toma o leito de Hércules pelo de sua amante. A famosa festa das lupercais 88 teria se estabelecido em honra à loba que amamentara Rômulo e Remo. Sobre o que estaria fundada a festa de Órion, celebrada no dia 5 dos idos 89 de maio? Eis aqui. Hirieu recebeu em sua casa Júpiter, Netuno e Mercúrio, e quando seus hóspedes foram se despedir, esse bom homem, que não possuía mulher alguma, e que desejava ter um filho, testemunhou sua dor aos três deuses. Não ouso exprimir o que eles fizeram sobre a pele do boi que Hirieu lhes havia servido como refeição; 90 eles cobriram a seguir essa pele com um pouco de terra, e disso nasceu Órion ao cabo de nove meses.

84 Ceres, a deusa romana que ensinou à humanidade a agricultura, fora muito bem recebida em Elêusis pelos pais de Triptolemo. Em retribuição, ofereceu a Triptolemo uma carruagem com dragões alados, para que pudesse viajar pelo mundo semeando grãos de trigo.

85 Legendário sacerdote troiano que alertou os troianos quanto ao cavalo de Troia. Irado pelo fato de os troianos não haverem considerado seu alerta, atirou seu cajado contra o cavalo. Minerva, que apoiava os gregos, enviou serpentes do mar que estrangularam Laocoonte e seus dois filhos. Foi essa a cena retratada na famosa estátua de Laocoonte, do período helenístico, recuperada pelo romano Felice de Fredi em 14 de janeiro de 1506. Tal estátua era alvo de grande atenção no período em que Voltaire colaborava com a Enciclopédia: sobre ela escreveram Winckelmann e Goethe, e a ela Gotthold Lessing dedicou o fundamental ensaio Laocoonte (1766).

86 Exímio tocador de lira da ilha de Lesbos, após haver seduzido um golfinho com a beleza de sua música, teria sido transportado por ele.

87 Rainha lídia, filha de Iardanus, um deus-rio, que comprou Hércules ao deus Mercúrio e o manteve como escravo por três anos. Com Hércules teve um filho, Lamos.

88 Denominadas lupercalia, do latim lupus (lobo) e hircus (animal impuro), festejavam-se na Roma antiga no dia 15 de fevereiro (ante diem XV Kalendas Martias).

Segundo o calendário romano, nome dado ao 15 o dia dos meses de 31 dias, ou ao 13 o dia dos outros meses. Os idos correspondiam ao período de lua cheia e contavam com oito dias. Conforme o cálculo detalhadamente explicado por Diderot em sua Enciclopédia, o dia 5 dos idos de maio corresponderia a 11 de maio.

90 Júpiter, Netuno e Mercúrio ejacularam ou urinaram sobre a pele do boi, conforme o mito.

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Quase todas as festas romanas, sírias, gregas, egípcias fundavam-se sobre semelhantes contos, assim como os templos e as estátuas dos anti- gos heróis. Eram monumentos que a credulidade consagrava ao erro. Uma medalha, mesmo contemporânea, por vezes não é uma pro- va. O quanto a lisonja não fez com que fossem cunhadas medalhas sobre batalhas muito indecisas, qualificadas como vitórias, e sobre em- preendimentos frustrados, que foram concluídos apenas na lenda. Por último, durante a guerra de 1740 dos ingleses contra o rei da Espanha, não se cunhou uma medalha que atestava a tomada de Cartagena pelo almirante Vernon, enquanto na verdade esse almirante desistiu do cer- co? 91

As medalhas apenas são testemunhos irrepreensíveis quando o acontecimento é atestado por autores contemporâneos; neste caso essas provas se sustentam uma à outra, constatando a verdade. Deve a história inserir discursos e fazer retratos? Se, em uma ocasião importante, um general de exército, um homem de Estado falou de uma maneira singular e forte que caracteriza seu gênio e aquele de seu século, é preciso sem dúvida reportar seu discurso palavra por palavra; tais discursos são, talvez, a parte mais útil da história. Mas por que fazer um homem dizer o que ele não disse? Seria quase o mesmo lhe atribuir o que não fez, é uma ficção imitada de Homero. Mas o que é ficção em um poema torna-se a rigor mentira em um historiador. Diversos antigos adotaram esse método; isso prova apenas que diversos antigos quiseram exibir sua eloquência à custa da verdade. Os retratos mostram ainda, com frequência, mais desejo de brilhar do que de instruir: contemporâneos estão no direito de fazer o retrato dos homens de Estado com os quais negociaram, generais sob os quais fizeram a guerra. Mas é de se temer que o pincel seja guiado apenas pela paixão! Parece que os retratos que se encontra em Clarendon 92 são

91 Edward Vernon (1684-1757): oficial naval inglês, liderou o ataque a uma possessão espanho- la, Cartagena, em 1741, mas a operação foi um desastre. Houve forte resistência no porto de Cartagena, os ingleses sofreram com doenças e mau tempo, e foram obrigados a se retirar para a Jamaica.

92 Edward Hyde, conde de Clarendon (1609-1674): historiador e homem de Estado inglês, a partir de 1667, ano em que cai em desgraça junto ao rei da Inglaterra e em que é obrigado a exilar-se na França, dedicou-se à escrita de History of the rebellion and civil wars in England, obra

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feitos com mais imparcialidade, gravidade e sabedoria do que aqueles que se leem com prazer no cardeal de Retz. Mas desejar tomar os antigos, esforçar-se em desenvolver suas al- mas, olhar os acontecimentos como caracteres através dos quais se pode ler seguramente no fundo dos corações é uma empreitada bem delica- da; é em muitos uma puerilidade. Da máxima de Cícero concernente à história; que o historiador não ouse dizer uma falsidade, nem esconder uma verdade. A primeira parte des- se preceito é incontestável; é preciso examinar a outra. Se uma verdade pode ser de alguma utilidade ao Estado, seu silêncio é condenável. Mas suponha eu que você escreve a história de um príncipe que lhe confiou um segredo: você deve revelá-lo? Você deve dizer à posteridade o que você seria culpado de dizer em segredo a um único homem? O dever de um historiador poderia se sobrepor a um dever maior? Supondo ainda que você tenha sido testemunha de uma fraqueza que de modo algum influenciou nos negócios públicos: você deve reve- lar essa fraqueza? Nesse caso, a história seria uma sátira. É preciso confessar que a maior parte dos escritores de anedotas é mais indiscreta do que útil. Mas o que dizer desses compiladores in- solentes, que entendem como mérito maldizer, imprimem e vendem escândalos, como Lecausto vendia venenos? Da história satírica. Se Plutarco repreendeu Heródoto por não haver destacado o suficiente a glória de algumas cidades gregas e por haver omitido vários fatos conhecidos dignos de memória, são mais re- preensíveis hoje em dia aqueles que, sem possuir nenhum dos méritos de Heródoto, imputam aos príncipes, às nações, ações odiosas, sem a mais vaga aparência de prova. A guerra de 1741 foi escrita na Inglaterra. Encontramos, nessa história, que na batalha de Fontenoy “os franceses atiraram nos ingleses com balas envenenadas e com pedaços de vidro venenosos, e que o duque de Cumberland enviou ao rei da França uma garrafa cheia desses pretensos venenos encontrados nos corpos dos in- gleses feridos”. O mesmo autor acrescenta que, devido ao fato de os

de referência sobre o tema. Voltaire despertava polêmica quando julgava os ingleses superiores aos franceses, como neste caso em que compara um historiador inglês (Clarendon) a um his- toriador francês (Retz).

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franceses terem perdido 40 mil homens nessa batalha, o parlamento de Paris editou um decreto por meio do qual estava proibido falar no assunto sob pena de castigos corporais. Memórias fraudulentas, impressas há pouco, estão repletas de se- melhantes absurdos insolentes. Ali encontramos que no cerco de Lille os aliados jogavam bilhetes na cidade concebidos nesses termos: “fran-

ceses, consolem-se, a Maintenon 93 não será sua rainha”. Quase cada página está repleta de imposturas e de termos ofen- sivos contra a família real e contra as principais famílias do reino, sem alegar a mais vaga verossimilhança que pudesse conferir um mínimo colorido a essas mentiras. Isso não é de modo algum escrever a história,

é escrever ao acaso calúnias. Imprimiu-se na Holanda, sob o nome de história, uma infinidade de libelos cujo estilo é tão grosseiro quanto o das injúrias, e cujos fatos são tão falsos como mal escritos. É, diz-se, um mau fruto da excelente árvore da liberdade. Mas se os infelizes autores dessas inépcias tiveram

a liberdade de enganar os leitores, é preciso usar aqui a liberdade de

desenganá-los. Do método, da maneira de escrever a história, e do estilo. Tanto se dis- se sobre esse tema, que é preciso aqui dizer muito pouco. Sabe-se bem que o método e o estilo de Tito Lívio, sua gravidade, sua eloquência sábia, convêm à majestade da república romana; que Tácito é mais ade- quado para pintar os tiranos; Políbio, para dar lições de guerra; Denis de Halicarnasso, 94 para desenvolver as antiguidades. Mas, ao nos modelarmos em geral por esses grandes mestres, te- mos hoje um fardo mais pesado do que o deles a sustentar. Exige-se dos historiadores modernos mais detalhes, fatos mais bem constatados, datas precisas, autoridades, mais atenção aos costumes, às leis, aos há- bitos, ao comércio, às finanças, à agricultura, à população. Há história, assim como há matemáticas e física. O trajeto cresceu prodigiosamente.

93 Françoise d’Aubigné Scarron (1635-1719): viúva do dramaturgo Paul Scarron, recebeu em 1678 o título de marquesa de Maintenon. Exercia grande influência sobre Luís XIV e é provável que tenha se casado em segredo com ele entre 1685 e 1686.

94 Historiador grego (60 a.C.-8 d.C.) que viveu em Roma. Publicou em 8 a.C. as Antiguidades romanas, que trata da história de Roma, da origem vinculada aos gregos até as Guerras Púnicas, e é a ela que se refere Voltaire.

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É tão fácil fazer uma coletânea de gazetas quanto é difícil hoje escrever

a história. Exige-se que a história de um país estrangeiro não seja de modo algum lançada na mesma forma que a de sua pátria.

Se você faz a história da França, não é obrigado a descrever o curso

do Sena e do Loire; mas, se você dá ao público as conquistas dos portu- gueses na Ásia, exige-se uma topografia dos países descobertos. Deseja- se que você conduza seu leitor pela mão ao longo da África, e das costas da Pérsia e da Índia; espera-se de você instruções sobre os hábitos, as leis, os costumes dessas nações novas para a Europa. Nós temos 20 histórias do estabelecimento dos portugueses nas

Índias; mas nenhuma nos fez conhecer os diversos governos desse país, suas religiões, suas antiguidades, os brâmanes, os discípulos de Jean, os guebros, os baneanes. 95 Essa reflexão pode se aplicar a quase todas as histórias dos países estrangeiros. Se você não tem outra coisa a nos dizer a não ser que um bárbaro sucedeu a um outro bárbaro às margens do Oxus e do Iaxarte, 96 em que você é útil ao público?

O método conveniente à história de seu país não é apropriado para

escrever as descobertas do novo mundo. Você de modo algum irá escre- ver sobre uma cidade como sobre um grande império; de modo algum você irá narrar a vida de um particular como escreverá a história da Espanha ou da Inglaterra. Essas regras são bastante conhecidas. Mas a arte de bem escrever

a história será sempre muito rara. Sabemos bem que é preciso um

estilo grave, puro, variado, agradável. Há leis para escrever a história como aquelas de todas as artes do espírito; muitos preceitos, e poucos

grandes artistas.

95 Voltaire interessou-se cada vez mais pelos hindus e pelos povos do Oriente Próximo ao final da vida. Aos guebros, “adoradores de fogo”, antigos habitantes da Pérsia que seguiam a religião reformada por Zoroastro, chegou a dedicar a tragédia Les guebres: ou la tolerance (1769).

96 Oxus: antigo nome grego do rio atualmente chamado Amu Darya, que corre pelo Afeganistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Usbequistão e que é considerado o maior da Ásia Central. Iaxarte:

atual rio Syr-Daria, constituía a fronteira oriental da Pérsia aquemênida.

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Pierre Daunou

Daniela Kern

Pierre-Claude-François Daunou, historiador e político, nasceu, em 18 de agosto de 1761, em Bologne-sur-mer, filho de Pierre Daunou e de Ma- rie-Antoinette-Péronne Sauzet. Seu pai, avô e bisavô eram cirurgiões, e a família, natural de Guyenne e originalmente protestante, teve de deixar a França devido à revogação do Édito de Nantes pelo Édito de Fontaineble- au, em 1685. Quando voltaram, precisaram se converter ao catolicismo. O jovem Daunou foi enviado, quando completou sete anos, ao colé- gio dos oratorianos, pertencente à Congregação do Oratório, fundada na França em 1575 por São Filipe Néri, um convicto divulgador de Descartes que defendia o estímulo ao pensamento livre. Como Daunou, aos 16 anos, foi impedido pelo pai de estudar direito, pois a família não teria condições de arcar com o pesado custo do curso, ele decidiu seguir a carreira religiosa e se tornou monge junto aos oratorianos, no final de 1777. A nova condi- ção favoreceu seus estudos, e até 1780 Daunou dedicou-se aos cursos de letras e de teologia. Uma vez formado, o jovem Daunou passou a trabalhar como professor em diversos lugares: no colégio dos oratorianos em Troyes, ensinou latim; em Soissons, lógica; na Bolonha, filosofia; e na famosa casa de estudos da mesma ordem, em Montmorency, que manteve estreitas relações com Rous- seau e adotou a pedagogia proposta no Émile, ensinou teologia e filosofia.

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Não tardou para que Daunou tentasse se firmar também no meio li- terário. Assim, em 1785 venceu o concurso da Academia de Nîmes, que ofereceu como tema o Éloge de Boileau. O elogio que Daunou escreveu so- bre o poeta Nicolas Boileau (1636-1711), no entanto, não teve aprovação unânime. O periódico Année Littéraire (1754-1790), fundado por um dis- cípulo direto de Pierre Desfontaines (1685-1745), um dos grandes críticos de Voltaire, publicou em 1787 uma forte crítica ao texto. Os argumentos são os mais variados. O articulista, além de lamentar o excessivo apego ao pensamento de Voltaire (Daunou, diga-se de passagem, permaneceria fiel à

filosofia voltairiana até o final da vida), questiona a estrutura da obra: “seu

]; nada

]”. 1 Questio-

na, ainda, o status do autor: “o nome do senhor Daunou não é de modo algum ainda suficientemente importante no mundo literário para que lhe seja dado peso e crédito”. 2 Diante da polêmica que se formava, o crítico francês Jean-François de La Harpe (1739-1803) saiu em defesa de Daunou e escreveu um elogio a sua obra. O favor não foi esquecido: muitos anos depois, em 1826, Daunou o retribuiria preparando uma edição anotada da obra de La Harpe. Daunou se tornou padre ainda em 1787 e, como boa parte dos ora- torianos, abraçou com entusiasmo a causa revolucionária, após a queda da Bastilha, e se envolveu rapidamente com questões políticas. Em 10 de agosto de 1789 foi eleito deputado na Convenção Nacional pelo distrito de Boulogne, e se aliou aos girondinos. Paralelamente, foi convidado a as- sumir o posto de vigário metropolitano do bispo de Paris. Sua carreira de vigário, contudo, seria curta. Em 1792, por decreto da Assembleia Legisla- tiva, a Congregação do Oratório é suprimida. Com o fim da carreira religiosa, Daunou voltou todas as suas energias para a política. Nesses primeiros anos de convenção defendeu veemente- mente que ela não tivesse poderes de justiça. Derrotado, passou então a tentar garantir o direito de ampla defesa dos acusados. A próxima grande discussão que enfrentou foi a do julgamento de

Luís XVI. Opondo-se frontalmente a Robespierre, que defendia a morte

de aprofundado, nada de luminoso; seu estilo é seco e frio [

plano é mal distribuído e descosido, as observações, superficiais [

1 Lettre V (n. 48, 27 nov. 1787). Influence de Boileu sur la littérature française. L’ Année Litté-

, ou inglês foram traduzidas pela autora).

raire

p. 98 (todas as citações de trechos de obras que na bibliografia encontram-se em francês

2 Ibid., p. 108.

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do rei, Daunou lutava por sua extradição. Seu voto foi explicado em um

documento publicado pela convenção, a Opinion de P. C. F. Daunou, sur le jugement de Louis Capet (1793): “não lerei as páginas sangrentas de nosso código, uma vez que vocês descartaram todas aquelas em que a humani-

Mas não é da natureza

de uma medida administrativa recorrer à pena capital. Essa pena seria útil?

A experiência dos povos que fizeram com que seu rei morresse prova o

contrário. Voto então pela deportação e pela reclusão provisória até que

se atinja a paz”. 3 Ainda que seu discurso tenha causado grande impacto à

época, mais uma vez Daunou foi voto vencido. Em 21 de janeiro de 1793 Luís XVI foi morto na guilhotina. Entre as muitas tarefas políticas que Daunou precisou cumprir na- quele ano de 1793, uma foi bastante inusitada: juntamente com seu amigo Joseph Lakanal (1762-1845), também deputado, foi encarregado pela con- venção, em 12 de julho, de testar o telégrafo do abade e inventor Claude Chappe (1763-1805). Conseguiu, com muito sucesso, enviar uma mensa- gem para seu colega Lakanal através da linha telegráfica recém-instalada em Paris. A convenção financiou o experimento porque precisava de meios mais velozes de comunicação. Ao longo do ano, após a morte do rei, o poder jacobino cresceu, os gi- rondinos protestaram e, em 3 de outubro, 135 deputados girondinos foram presos ou levados ao tribunal. Daunou estava entre os presos, e foi das cinco prisões diferentes pelas quais passou que acompanhou o rápido desenrolar

dos acontecimentos: a proclamação do governo revolucionário pela conven- ção em 10 de outubro, a morte de Maria Antonieta na guilhotina, em 16 de outubro, e as sucessivas mortes de vários deputados condenados. A situa- ção das prisões de Robespierre era extremamente precária, e a possibilidade de uma morte próxima, para os presos, muito real. Enquanto aguardava, Daunou estudou os clássicos, principalmente aqueles que, segundo a leitura iluminista, combatiam a tirania, como Cícero e Tácito. Daunou já estava na prisão havia quase um ano quando, em 28 de julho de 1794, Robespierre foi morto na guilhotina. A notícia chegou

dade traçara as formas protetoras da inocência. [

]

3 Apud Mignet (1854:390).

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aos presos de Port-Libre através de outro preso, Louis Sébastien Mercier (1740-1814), autor do romance L’an 2440 (1771), o primeiro a mostrar uma projeção da Paris do futuro. Mercier, que chamava Robespierre de “sanguinocrata”, recebeu, em um bilhete embrulhado em um pedaço de pão, a notícia. Dias depois, os presos, graças a uma petição de Daunou, foram finalmente libertados. Uma das primeiras iniciativas de Daunou após sair da prisão foi editar, juntamente com Sophie Condorcet (1764-1822), a viúva, o inédito Esquisse d’ un tableau historique du progrès de l’esprit humain, do marquês de Condor- cet (1740-1794), filósofo e cientista político, admirador de Voltaire e uma das vítimas do Terror, encontrado morto em sua cela em 28 de março. No prefácio à edição, Daunou e a marquesa escreveram: “possa essa morte, que não servirá pouco, na história, para caracterizar a época em que ocorreu, inspirar um apego inabalável aos direitos dos quais ela foi a violação!”. 4 No ano seguinte, como secretário da convenção, cargo que ocupava desde 21 de dezembro de 1794, Daunou fez com que o Estado financiasse a edição de 3 mil exemplares da obra de Condorcet, para que fossem distribuídos aos próprios membros da convenção e às instituições de ensino da Repúbli- ca. 5 Em 12 de abril de 1795 apresentou ainda, na convenção, um relatório em que justificou a edição do livro, valioso, segundo Daunou, porque os “alunos, ao nele estudarem a história das ciências e das artes, aprenderão sobretudo a estimar a liberdade, a detestar e a vencer todas as tiranias”. 6 Em 1795 a importância do papel de Daunou na convenção tornou-se cada vez maior: de secretário passou a presidente (em 3 de agosto), além de ter sido eleito membro da Comissão de Instrução Pública, e da Comissão de Saúde Pública. Tornou-se, também, membro da Comissão dos Onze, que apresentou o projeto de uma nova Constituição, a do ano III, em 23 de junho de 1795. Daunou desejava que a França seguisse o modelo ame- ricano e tivesse um presidente, mas o que conseguiu de fato introduzir na Constituição foi a lei que reorganizava o ensino público na França, segun- do o modelo de Talleyrand (1754-1838).

4 Daunou e Condorcet, 1794:vii.

5 Sobre esse episódio, ver Koyre (1948:151).

6 Daunou, 1907:11.

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Outro projeto importante conduzido por Daunou em 1795 foi a criação do Institut de France, em 25 de outubro. Daunou concebeu a estrutura do instituto e foi o relator da lei, 7 mas o projeto atendia aos anseios de um grupo maior, que provinha tanto da loja maçônica Neuf Soeurs — muito influente no período revolucionário, à qual se haviam associado também Voltaire, Marmontel, Volney, Benjamin Franklin e tal- vez Condorcet — quanto da Société d’Auteuil, o renomado salão manti- do por Anne-Catherine Helvétius (1722-1800). Eram membros do grupo aqueles que viriam a ser conhecidos como ideólogos: 8 por exemplo, Do- minique Joseph Garat (1749-1833), escritor, político e professor de his- tória, opositor de Robespierre, colega de Daunou na convenção; Destutt de Tracy (1754-1836), o filósofo que criou o termo ideologia; e François Andrieux (1759-1833), advogado e dramaturgo próximo dos girondinos

e grande admirador de Voltaire.

O Institut de Paris apresentava-se como uma instituição de pesquisa

bastante avançada: de acordo com o projeto, abrigaria cinco centros inde- pendentes, quatro deles já existentes e um novo, o curso de ciências morais

e políticas, o primeiro curso de ciências sociais a ser criado no mundo.

Tal curso dividia-se em seis seções: análise das sensações e das ideias (De Tracy, com base nas pesquisas realizadas nesse centro, publicaria seu Elé- ments d’idéologie a partir de 1800); moral; ciência social e legislação (essa era a especialidade de Daunou); economia política; história; e geografia. Como professores foram indicados intelectuais de renome, como Cuvier, além de, conforme já mencionado, Tracy e Daunou. No dia 3 de abril de

1796 o instituto foi inaugurado em solenidade realizada no Louvre, onde estava instalado, e Daunou foi o responsável pelo discurso principal.

A concorrida vida política não permitiria, entretanto, que Daunou se

dedicasse muito à pesquisa. Em 1797 foi eleito presidente do Conselho dos

Quinhentos e em 1798 foi convocado pelo Diretório para organizar a nova república romana e criar para ela uma constituição — ele havia se tornado uma autoridade em legislação republicana e foi várias vezes consultado a

7 Essa posição pode ser encontrada em Boissier (1907:79).

8 Sobre o pensamento dos ideólogos, ver Staum (1987).

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esse respeito. Daunou não teve muito tempo para trabalhar em Roma, pois uma nova convocação do Diretório, ainda em 1798, o fez retornar a Paris. A república romana, incipiente e frágil, foi derrubada em 1799. Daunou, em 18 de agosto de 1798, foi novamente eleito presidente do Conselho dos Quinhentos, a assembleia legislativa que passara a fun- cionar em 1795. A situação política não estava tranquila. Havia ainda o medo, entre os girondinos, de que os jacobinos tornassem ao poder por meio de um golpe. Desse modo, um grupo de girondinos — muitos deles ideólogos, amigos de Daunou — preparou um golpe que a princípio se anunciava como preventivo. Em 9 de novembro de 1799, ou 18 brumá- rio, de acordo com o calendário revolucionário, Napoleão aplicou o golpe dentro do golpe, dissolvendo o Conselho dos Quinhentos presidido por Daunou e substituindo o Diretório pelo Consulado. Daunou, republicano convicto, ao que tudo indica estava ciente de toda a trama liderada por Emmanuel Joseph Sieyès (1748-1836), mas não parti- cipou diretamente dela e, após o golpe, não escondeu, para os próximos, seu desapontamento — ainda que em um primeiro momento tenha se envolvido na redação da Constituição do Consulado, a chamada Constituição do ano VIII. É importante lembrar que Daunou e Napoleão já se conheciam havia muito tempo: chegaram a disputar, no início da década de 1790, um prêmio proposto pela Academia de Lyon com o tema “que verdades e que sentimen- tos mais importa inculcar nos homens para a sua felicidade?”. Daquela vez Daunou venceu. As coisas, no entanto, haviam mudado. Napoleão, que cada vez mais centralizava o poder, tentou manter Daunou sob controle, junto de si, como conselheiro de Estado. Daunou recusou o primeiro convite, prefe- rindo ser presidente do Tribunat, onde entrou eleito pela maioria em 1 o de janeiro de 1800. De lá Daunou passou a combater quase todos os projetos de Napoleão, na tentativa de impor limites legais a seu poder. Em 1 o de janeiro de 1801, por exemplo, combateu a criação de tribunais especiais. Desgosto- so com a oposição, Napoleão o convidou mais uma vez para ser conselheiro de Estado e ouviu nova recusa — ofereceu-lhe ainda o cargo de directeur général de l’instruction publique, também recusado. Diante das insistentes ne- gativas, Napoleão, irritado, rompeu com Daunou. A reação no plano político logo se fez sentir: Napoleão, em 7 de março de 1802, expurgou do Tribunat Daunou e 19 outros opositores, entre os quais os ideólogos De Tracy e Benjamin Constant. O Senado tentou preser-

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var a carreira política de Daunou ao indicá-lo como senador. Napoleão não gostou da indicação e revidou, colocando na posição um de seus generais. O último golpe do cônsul foi a extinção, em 1803, da classe de ciências morais e políticas do Institut de France, 9 da qual Daunou participava. Dau- nou, muito doente e abatido, passou para a classe de história e literatura antigas, e abandonou a política. Napoleão, contudo, não deixou seu desafeto completamente desam- parado, e o nomeou, em 1804, garde des archives. Na nova função Daunou teve os desafios políticos substituídos pelos logísticos: precisava lidar com uma formidável massa de documentação, e para tanto criou um método próprio para a organização do material, com seções histórica, legislativa, administrativa etc. 10 Outra função para a qual Daunou fora nomeado em 3 de abril de 1810 por Napoleão foi a de censor imperial, mas novamente, movido por seus princípios republicanos, recusou-se a exercê-la. Após a queda de Napoleão, Daunou passaria por nova provação:

em 1816 perdeu sua função de garde des archives, mais uma vez devido à perseguição política. 11 No mesmo ano, em contrapartida, Daunou co- nheceu melhor sorte ao entrar para a prestigiosa Académie des Inscrip- tions, uma das cinco instituições que faziam parte do projeto original do Institut de France. Em 1818 Daunou obtém novas posições honrosas: além de ser eleito deputado (função que tornará a exercer outras vezes), passou a dirigir o tradicional Journal des Savants. Sua contribuição mais importante nesse ano haveria de ser, no entanto, a publicação de Essai sur les garanties individuel- les que réclame l´état actuel de la société, em que reafirmou seu compromisso com antigas bandeiras, como a defesa da inocência do réu até que fosse

9 Em Langlois (1894:512) encontramos a seguinte análise desse evento: “o império era hostil à ciência, porque a ciência é ao mesmo tempo um resultado e uma causa inspiradora da liberda- de”. A interpretação de Boissier e colaboradores (1907:136), um pouco posterior, vai no mesmo sentido: “o olhar do primeiro cônsul vai além dos fatos para ver o futuro. Ele leu sem ruído o que mais tarde poderia ter sido levado à realização com escândalo. Ele sentiu uma absoluta discordância entre seu princípio e aquele da filosofia política”.

10 Para menção ao método de classificação de documentos elaborado por Daunou, ver Edwards

(1848).

11 As amargas reflexões de Daunou sobre sua destituição deste cargo podem ser lidas em Gerard

(1855:98-99).

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provada sua culpa, e a liberdade de expressão. Esse texto e o Commentaire

sur l’esprit des Lois de Montesquieu (1806/07), de Destutt de Tracy, são con- siderados os mais famosos tratados políticos dos ideólogos do Império e da Restauração.

A consagração da excelente fase de Daunou viria com sua entrada

triunfal no Collège de France em 1819. 12 No dia 13 de abril proferiu a aula inaugural de seu curso de história para uma plateia repleta de nomes reconhecidos, entre os quais seus velhos companheiros ideólogos Garat, Andrieux e De Tracy. 13

O curso de história que Daunou ministrou de 1819 a 1830, sem-

pre muito disputado, procurou sistematizar cientificamente as pesquisas históricas levadas adiante pelos iluministas. Daunou abordou de maneira minuciosa a interpretação dos textos dos historiadores antigos, a cronolo-

gia e a arte de escrever a história. No volume de seu curso dedicado a este último tema, 14 por exemplo, analisou os trabalhos históricos não apenas de autores antigos, mas também dos iluministas: Voltaire (cujas opiniões sobre história comparou às de Heródoto), Rollin, Pére Daniel, Marmontel, D’ Alembert, entre outros. 15 Os comentaristas de gerações posteriores haveriam de criticar em seus textos históricos a parcialidade, os julgamentos morais e, sobretudo, o desprezo confesso por tiranos. É nesses termos que a relação de Dau- nou com os grandes homens é descrita por Sainte-Beuve: 16 “os grandes homens, bem o sei, são muitas vezes sacrificados: Alexandre é incompre-

endido, ultrajado [

Daunou, que viu demais Napoleão, não os ama”. 17

Por outro lado, algumas características extremamente avançadas de seu

posicionamento histórico passaram despercebidas. Em 1827, no Journal

];

12 Para uma relação dos professores que atuavam junto com Daunou no collège, ver Collège de France (2007).

13 Taillandier, 1847:243. Uma descrição da aula inaugural pode ainda ser encontrada em Gerard (1855:101); Thierry (1835:216-217). O artigo de Thierry fora originalmente publicado no Cen- seur Européen de 5 de julho de 1819.

14 Daunou, 1844.

15 Para comentários sobre o conjunto do curso de história de Daunou, ver Taillandier (1847:243- 252); Sainte-Beuve (1855:55-59); Gerard (1855:149-155).

16 Sobre o modo como Sainte-Beuve critica Daunou, ver Chadbourne (1965).

17 Sainte-Beuve, 1855:56.

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des Savans, Daunou escreveu uma resenha sobre a recém-publicada obra Lettres sur l’histoire de France, de Augustin Thierry, 18 o mesmo que elogiara calorosamente sua aula inaugural do curso de história em 1819. Daunou apresentou várias críticas ao conjunto de ideias de Thierry; um dos pontos que ataca de maneira mais contundente é o conceito romântico de raça, que começava a despontar com bastante força na Europa. Sempre fiel a seu republicanismo, Daunou percebeu logo o perigo de uma história su- bordinada a tal noção, como fica claro em seu comentário: “a distinção das

Mas o curso natural das

coisas humanas produz tais movimentos e tais misturas que, após vários

]”. Dito de

outro modo, Daunou acreditava que o conceito de raça, ainda que útil (ele, bem entendido, não teria como eliminar naquela época tal conceito de seu

horizonte de pensamento), não deveria determinar “com antecedência a série e a cor de todos os fatos”. 19 Depois de muito tempo, em 1830 os ares republicanos tornaram a soprar na França, e Daunou renunciou à sua posição no Collège de Fran- ce, devido à sobrecarga de compromissos públicos. Em 1834, renunciou também ao cargo de deputado, uma vez que fora nomeado pelo ministro da Instrução Pública François Guizot (1787-1874) membro da comissão encarregada de publicar documentos inéditos da história da França. Ou- tras distinções se sucedem, tais quais a nomeação de Daunou, no dia 16 de março de 1838, como secretário perpétuo da Académie des Inscriptions. Em 20 de junho de 1840 o velho Daunou, tão bem definido por Sain- te-Beuve como um homem do século XVIII, a “medalha de uma outra época conservada inteira na nossa”, 20 após enfrentar uma longa doença, finalmente descansou. Principais obras de Daunou:

séculos, é quase impossível remontar à origem das famílias [

raças merece sem dúvida uma atenção séria [

].

F

De l'influence de Boileau sur la littérature française, 1787;

F

Étendue et limites de la puissance paternelle, 1788;

F

Essai historique sur la puissance temporelle des papes, 1799;

18 Sainte-Beuve (1855:53) parece ter achado a crítica de Daunou a Thierry demasiado severa.

19 Daunou, 1827:721-722.

20 Sainte-Beuve, 1855:68.

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F

Analyse des opinions diverses sur l'origine de l'imprimerie, 1802;

F

Essai sur les garanties individuelles que réclame l´état actuel de la société,

1818;

F

Cours d’études historiques, 1819-1830.

Discurso de abertura do curso de história pronunciado no Collège de France em 13 de abril de 1819 21

Senhores, a própria extensão do percurso em que me engajo ao co- meçar um curso de história me pareceria assustadora, quando pudesse dissimular para mim mesmo as dificuldades de toda ordem que nela devo encontrar, com tão poucos meios de vencê-las. As outras ciências não co- nhecem limites: os fatos a observar e a descobrir são inumeráveis; mas, ao menos, todos esses fatos existem juntos, e o sistema, todo inteiro, encon- tra-se acabado na natureza, antes de se desvelar à inteligência humana:

é, pelo contrário, a própria matéria da história civil que nasce e cresce sucessivamente, se desenvolve ou se renova, se engrandece e por vezes se decompõe ao atravessar os séculos. Os fatos que a física observa estão vivos, e aqueles que a história pesquisa estão mortos, disse Volney, 22 que dava, assim, na abertura de um curso verdadeiramente normal, uma ideia bastante justa desse gênero de estudos. 23 Com efeito, senhores, a história não ressuscita os fatos que ela se aplica a retraçar, ela marcha sobre tum- bas, e pode nos apresentar, a bem dizer, apenas uma imensa coleção de epitáfios. Outra vantagem que os conhecimentos físicos têm sobre ela é a

21 Daunou, 1842 (tradução e notas de Daniela Kern).

22 Constantin François de Chassebœuf, conde de Volney (1757-1820): historiador, filósofo e político francês, professor da École Normale (criada durante a Revolução Francesa, em 1794), autor de obras como Les ruines, ou méditations sur les révolutions des empires (1791), fazia par- te, assim como Daunou, do grupo de filósofos iluministas que se envolveu com a Revolução:

Condorcet, Helvétius etc. Todos eles eram grandes admiradores de Voltaire, e Volney levou essa admiração mais longe ao cunhar seu próprio nome: Volney mistura Voltaire e Ferney, a famosa residência em que Voltaire redigiu muitos de seus manifestos em prol da tolerância, a partir da década de 1760.

23 Volney, 1810.

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