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NASCIMENTO DE IMAGENS Jean-Pierre Vernant e 3tcop pore AL EXCLUSIVO PASTA DE r Essores, DATA. os aad z eT eyhew = Sumario Abertura Imagem e imitacdo A imagem como semblancia Da aparicio a aparéncia parecer Demiurgia e imitacéo AAs imagens faladas A phantasia A mimética na tradicéo oral Imitagao e devir sensivel ‘A desvalorizacéo da imagem O ser e 0 parecer Boa e ma imitagao Consideragées finais 12 15 17 20 22 27 32 34 38 41 Nascimento de imagens 3 Nota do tradutor __ Para dar conta dos matizes envolvidos na trama de vocabulério constituida em torno das nogées de imagem e mimesis, fui obrigado a criar 0 neologismo ‘semblancia’, a partir do termo. francés semblance, para o qual nao encontrei equivalente exato em portugues. Tal solucdo apéia-se no uso figurado de nossa palavra ‘semblante’, que pode ser definida como ‘aparéncia’, ‘aspecto’. A expresso fazer semblante de’, por exemplo, encontra seu significado no jogo semantico (indefinido e intermindvel) entre “fingir’ e ‘aparentar’. Aparentar, nesse caso, tem igualmente o sentido de ‘ser semelhante’, ‘ter semelhanca’. Quanto ao termo ‘semelhanca’, resolvi reservé-lo para traduzir o francés resemblance, Na acentuaco das palavras gregas transliteradas, renunciei a distinguir vogais longas e reves, contentando-me em assinalar apenas a silaba tOnica. Usei aspas simples para o destaque de palavras e aspas duplas unicamente para citagdes de textos. As citagdes de passagens dos dois principais dislogos platénicos trabalhados no texto foram cotejadas com as seguintes traducies portuguesas: Sofista, trad. de Jorge Paleikat e Jo30 Cruz Costa (So Paulo: Abril Cultural, 1983, Os pensadores, 28, ed.) e A Republica, trad. de Maria Helena da Rocha Pereira (Lisboa: Fundacdo Calouste Gulbenkian, 1990, 6%. ed.). Optei por cotejar e ndo adotar integraimente estas traducdes em respeito & relacdo das passagens citadas com o raciocinio e 0 vocabulério desenvolvidos por Jean-Pierre Vernant. © estudo de Jean-Pierre Vernant, antes de aparecer como 0 capitulo 8 de seu Religions, histoires, raisons (Paris: Maspero, 1979, pp. 105-137) — verséo adotada para esta traducao —, foi originalmente publicado com o titulo de ‘Image et aparence dans la théorie platonicienne de la Mimesis., no Journal de psychologie, 2 (1975). José Otdvio Nogueira Guimaraes Departamento de Histéria — UnB Niicleo de Estudos Cldssicos — CEAM — UnB Nascimento de imagens id Abertura Em que medida os gregos antigos conheceram uma ordem de realidade correspondente ao que chamamos de imagem, imaginac&o, mundo do imaginario? A investigacao — que ainda nao foi realizada de modo sistematico — impde-se aos nossos olhos téo imperiosamente que corre o risco de parecer, em uma primeira aproximagao, sem objeto: como os gregos, mestres na arte de ‘figurar’ pelo desenho, pela pintura, pela escultura, nao teriam tido na cabeca, como nés, as imagens que representavam em suas obras? E para quem é tentado a colocar em davida 0 valor de tais ‘evidéncias’ psicolégicas, apelemos para 0 sdbio testemunho de Quintiliano escrevendo na Roma do primeiro século de nossa era: “O que os gregos nomeiam phantasiai é 0 que chamamos visiones, visdes imaginativas, por meio das quais as imagens das coisas ausentes so representadas na alma, de modo que parecemos discerni-las pelos olhos e té-las presente diante de nds”. Desde 0 século IV a.C., ademais, um filésofo como Platéo jé nao havia reunido em um mesmo grupo os mais diversos tipos de produces imagéticas para apresentar uma teoria geral unificada, organizando-os em conjunto no quadro de uma mesma categoria de fenémenos, aqueles que se vinculam, quaisquer que sejam suas diferencas, & mimesis, imitag’0? No Sofista, a0 jovem Teeteto, interrogado sobre o que é a imagem e respondendo por uma série de exemplos tomados de diversos dominios, o estrangeiro eleata op6e a exigéncia socratica de uma definicéo ao mesmo tempo dnica e geral, que revelaria a esséncia comum de tudo 0 que se chama de imagem. O que espera de Teeteto € que formule “o que ha de comum entre todos esses objetos, que dizes serem milltiplos, mas que honras 1 Institutio, 6, 2, 29. "Nascimento de imagens Com 0 nome Unico de i ico de imagem (e/dofon), nome que estendes sobre todos eles como um ser Gnico”.2 Imagem e imitacgao Para Plato, tudo o que no homem é da ordem da e/dolopoiiké, da atividade fabricadora de imagem, quer se trate de artes plisticas, de poesia, de tragédia, de musica, de danca, para mencionar inicialmente apenas esses fatos, pertence 20 dominio da mimetiké, da atividade imitadora. A formula da Republica apresentando a mimesis como uma demiurgia de imagens (eidolon demiourgia) corresponde @ do Sofista: “A mimesis é qualquer coisa como uma fabricagao (po/esis); fabricacao de imagens, é claro, no de realidades”. O fabricador de imagem (e/dolou poietés), 0 arteséo de imagem (eidolou demiourgds), ¢ 0 que denominamos mimetés, imitador.3 Plato nao se contenta, nesse plano, em seguir a via que, com menos rigor e sem preocupagao de ordem teérica, Xenofonte descortinara em Ditos & feitos memordveis de Socrates, No terceiro capitulo dessa obra, Xenofonte j4 submetera 0 vocabulério de mimos (a0 mesmo tempo a mimica como género e 0 mimico como ator), de mimefsthai (mimar), de mimema (produto da ac3o de imitar), de mimetés (aquele que mima), a um certo deslocamento, utilizando esse conjunto de termos — cujo emprego nao se atestou antes do século V a.C. e que se liga, muito provavelmente, ao género literério da comédia, com todos os valores bem particulares do mimar, arremedar, simular — para designar o trabalho do 2 24003-5 3 Republica, 599 a7; Sofista, 265 b 1: Reptiblica, 599 d 3 & 601 b 11; cf. também Sofista, 266 a- Replica partie, 306 81-3: Lets, 68 a 6: Toda misia € representative eimitatva (cikastikén, mimetikér)"; 668 b 10: “Todas os criagdes que se referem a misica so imitagso ¢ representacao (mimesis, apeikasia)” Nascimento de imagens 3 pintor e do escultor.4 Platéo dé um passo a frente: atribui a mimelsthéi um valor mais preciso e de certo modo mais técnico; alarga ao mesmo tempo seu campo de aplicagéo ao fazer do ‘imitador’ 0 traco comum e caracteristico de todas as atividades figurativas ou representativas.® A orientacdo dessa trama de vocabulério vé-se assim modificada, 0 equilibrio entre os trés termos implicados no ato de mimeisthai — 0 modelo, 0 imitador e o espectador — rompe-se em proveito dos dois primeiros, entre os quais se fixa doravante a relacdo de imitacio. No século V a.C., com efeito, mimos e mimeisthai sublinham menos a relacdo do imitador com aquilo que imita do que a do imitador- imulador com o espectador que a observa. ‘Ao se remedar, ao se simular, no se esté produzindo uma obra que seja a cépia exata de um modelo, mas se mostrando um modo de ser que engana 0 outro, que se fazia passar por outro, ao assumir as maneiras deste. 0 ato de mimeisthai é menos uma representacdo que uma efetuacéo, uma manifestacdo. Privilegiando a relagSo mimico-espectador, 0 vocabulario de mimeisthai, tal como empregado no século V a.C., opera entre dois pdlos: em primeiro lugar, no do ludibrio, o espectador percebendo no mimico e por meio dele ndo 0 que é tal como é, mas esse outro que ele esté remedando; em segundo lugar, naquele da identificacao, a mimesis implicando que o simulador se faca semelhante a esse outro que ele se 4 pitos e feitos memordveis de Sdcrates, IIT, 10, 1-8. Sobre © emprego do vocabulério de mimefsthai, sua origem e evolucdo, cf. Hermann Kouer, Die Mimesis in der Antike ‘Nachahmung, Darstellung, Ausdruck, Dissertationes Bernenses, sér. 1, 5, Berna’ A. Francke, 1954: Gerard F. ELse, ‘Imitation in the Fifth Century’, Classical Philology, LIXE, 2 (1958), pp. 73-90: Géran Sérbom, Mimesis and Art: Studies in the Orign and Early Development of an Assthetic Vocabulary, Estocolmo: Svenska bokférlaget, 1966 5 pepiblica, 373 b 44-8: “A multiddo de imitadores (mimefa’), sejam os que se ocupam de Ge atores, de dancarinos e de reallzodores de teatro. Cf, Facto) 248 e: O poeta ou qualquer Gutrovdaqueles que se ocupem, dalimesal Recta vane 20\eiageuaal bgt eu auelavetyou a porte. da mimétice’; Timeu, 19) dySe6)conde) a) raa|ass)eG}as| == Pe/et/tdn|odnes — 6 identificada a tribo dos imitadores — ta mimetikén éthnos, Nascimento de Imagens 7 propés a mimar, adotando suas maneiras. Em Plato, exceptuando-se 0 caso em que mimeisthai é empregada com seus valores correntes, a énfase é ao contrario colocada claramente na relacdo da imagem com a coisa de que é a imagem, na relacéo de analogia que as une e nao obstante as distingue. Essa formulacao explicita da ligacdo de 'semblancia’, efetuada por toda espécie de imitacdo, poe em primerio plano 0 problema do que sao, tanto eles mesmos como um em relagéo a0 outro, a copia e 0 modelo. A questdo explicitamente levantada é, portanto, a da natureza do ‘parecer’, a da esséncia da ‘semblancia’, Desse ponto de vista, a mimética dos artistas formadores de imagens aparenta-se de outros fendmenos anélogos, produtos néo mais de uma operac3o humana, mas de uma arte divina, tais como, na natureza, so os reflexos na dgua, as figuras nos espelhos, as sombras, as visées do sonho.$ Esses e/dola, essas imagens, entretém com os objetos verdadeiros as mesmas relacbes de similaridade e de irrealidade que as criacdes da arte humana. A obra do pintor & assim comparavel a esse universo de reflexos, produzido pela manipulacdo panoramica de um espelho: Se pegares um espelho e o mostrares em todas as diregdes, em um instante fards 0 sol e os astros do céu, em um instante a terra, em lum instante vocé mesmo e 0s outros animais e os méveis e as plantas e todos os objetos dos quais falamos ainda ha pouco. — Sim, ‘ele diz, mas s80 objetos aparentes (phaindmena), desprovidos de existéncia real. [...] — E, de certo modo, 0 pintor também faz uma cama, ou no? — Sim, ele diz, uma cama aparente (phainoménen), ela também.” © Republica, 10 a: 516 a 4-6; Sofista, 239 b 5-7: 2669-14 7 Repiblica, 596 d-e. ‘A imagem como semblan Nascimento de imagens 8 Encontra-se, assim, estritamente delimitado um campo da imagética que engloba, ao lado de outras, todas as produgées ‘representativas’ constituintes do que chamamos, hoje, fatos de arte, e que, simultaneamente, confere & imagem como tal, mediante sua definicio, um status ontolégico préprio. Fruto de uma imitagio, a imagem consiste em uma pura semblancia, Nao tem outra realidade endo essa similitude com 0 que nao é, com essa coisa outra e real de que é a réplica ilusdria e a0 mesmo tempo o duplo e o fantasma. E preciso citar aqui o seguinte didlogo do Sofista, relativo a prépria definicao da imagem: 8 sofista, 240 o-b, Teeteto: Que outra definigéo dariamos & imagem, estrangeiro, sendo a de um segundo objeto igual (héteron toiodton), copiado do verdadeiro?, Estrangeiro. Teu ‘segundo objeto igual’ significa um objeto verdadeiro, ou, ento, que queres dizer com esse ‘igual’? Teeteto: De forma alguma um verdadeiro, certamente, mas um que com ele se assemelhe. Estrangeiro. Mas, por verdadeiro, tu entendes "um ser real’? Teeteto; Sim, certamente, Estrangeiro: Ent&o? Por néo-verdadeiro tu entendes o contrario do verdadeiro? Teeteto: Certamente! Estrangeiro: O que se assemelha é, portanto, para ti um nao-ser itreal, pois o afirmas néo-verdadeiro. Teeteto: Entretanto, hé algum ser. Estrangeiro. Em todo caso, nao um ser verdadeiro, é 0 que dizes. Teeteto: Certamente no; mas somente um ser de semelhanca.° Nascimento de Imagens 5 io a aparéncia O texto é importante. Marca nitidamente o terreno em que Platdo se instala ao abordar os problemas da imagem: terreno estreito como uma cumeeira circunscrita por suas duas vertentes: de um lado, a vertente da imagem arcaica, tal como se atesta no emprego do e/dolon em Homero e conforme uma concepgao da imagem que os gregos ja tinham ultrapassado; do outro, a vertente que desemboca em uma exploragao psicolégica da imagem, na qual os gregos ainda ndo estavam empenhados. © efdolon & definido por Plato como um “segundo objeto igual”, a réplica ‘ou a duplicagao do primeiro, de certo modo seu gémeo. Desse ponto de vista, a imagem depende da categoria do Mesmo; por sua similitude, é a mesma que seu modelo. No limite, se a semelhanca se fizesse idéntica, no haveria mais, ante o verdadeiro Cratilo, uma imagem-retrato, mas dois Cratilos no lugar de um s6.° Seria necessdrio ainda, para que fosse assim, que a imagem nao se contentasse em reproduzir “a forma e a cor”, mas que soubesse mostrar também o interior de Crétilo, sua voz, sua vida, sua alma e seu pensamento.19 Tal é precisamente 0 caso do efdolon arcaico nas trés formas pelas quais se apresenta: imagem do sonho (énan, aparigéo suscitada por um deus (phdsma) e fantasma de um defunto (nsyché). © eldolon de Anticiéia, a mae de Ulisses, € 0 de Patroclo, o amigo de Aquiles, ndo so apenas “inteiramente semelhantes” ou “prodigiosamente parecidos” com esses dois seres; Por sua voz, seus propésitos, seus gestos, seus pensamentos, encarnam suas presencas efetivas, surgidas diante de um e de outro herdi, que a eles se dirige e com eles dialogam coeur 4 coeur, como se se tratasse 9 Crétilo, 432 ¢ 4-6, 10 Tbid., 432 b 6-10. Nascimento de imagens 10 de sua me e de seu amigo reais. Quando, entretanto, em fung3o de té-los assim Sob os olhos, 0 desejo de abracd-los os toma, de fortemente apertd-los contra si, eles no podem mais que possuir 0 vazio.1! No e/dolon, a presenca real manifesta se ao mesmo tempo como uma irremediavel auséncia, E essa incluso de um ‘ser outro’ no seio mesmo do ‘ser ai’ que constitui o e/dolon arcaico menos como uma imagem entendida em termos contemporaneos do que como um duplo, que se realiza nao como uma representacéo dentro do foro intimo do sujeito, mas como uma aparicao real inserida efetivamente aqui em baixo, nesse mundo mesmo em que vivemos e vemos, um ser que sob a forma momentanea do mesmo se revela fundamentalmente outro porque pertencente a outro mundo. Para o pensamento arcaico, a dialética da presenca e da auséncia, do mesmo e do outro, desenrola-se na dimenséo do para-além, que comporta, como duplo, 0 e/dolon, nesse milagre de um invisivel que por um instante se faz ver. Essa dialética se reencontra em Plato. Nao mudou simplesmente de registro, mas, transposta para um vocabulério filoséfico, ganhou nova significagao. Foi de alguma maneira invertida. “Segundo objeto igual”, a imagem, sendo de certo modo definida como o mesmo, depende também do Outro. Ela no se confunde com o modelo, j4 que, denunciada como nao verdadeira, nao real, nao traz mais, como no caso do e/dolon arcaico, a marca da auséncia, dos outros, do invisivel, mas o estigma de um nao-ser realmente irreal (ouk én ouk éntos estin dntos).'2 0 jogo do Mesmo e do Outro, ao invés de traduzir a irrupgéo do sobrenatural no mundo humano, do invisivel no visivel, vem circunscrever, entre o ser e o ndo-ser, entre o verdadeiro e 0 falso, 0 espaco do ficticio e do ilusério. A ‘aparigo’, com os valores religiosos que nela se encontravam M1 anticléia: Odisséia, 11, 153-222; Pétroclo: Iiada, 23, 65-108, 12 sSofista, 240 b 11 Nascimento de imagens uw investidos, cede lugar a um ‘parecer’, a uma aparéncia, a um puro ‘visivel’, de que nao se trata mais de fazer a analise psicolégica, mas sim de determinar o status do ponto de vista da realidade, de definir a esséncia de um ponto de vista ontolégico. O parecer Ser de semblancia, a imagem é da ordem do parecer, do phainein: ela se faz ver’ como aparéncia do que nao é. Enquanto semblancia, é, portanto, falso- semblante. Da coisa que imita, ndo manifesta senao o aspecto exterior, a forma concreta, 0 que é percebido pelos diversos sentidos, em tal ou qual momento, sob este ou aquele Angulo. Contrariamente ao que foi algumas vezes sustentado,1? a distingdo que opera o Sofista entre duas formas de mimética ou de fabricacdo de imagens (eidolopoiiké) — a primeira produzindo cépias-icones (eikdnes) semelhantes a seus modelos, dos quais reproduzem as proporcées reais; a segunda produzindo ao contrério simulacros-fantasmas (phantdsmata) que sacrificam as proporcées exatas para substitui-las, com suas figuras, por aquelas que provocam ilusdo aos olhos dos espectadores'? — no coloca em causa a afirmacao geral formulada sem nenhuma ambigiiidade na Repdblica: Relativamente a cada objeto, qual a finalidade da pintura? E o de representar a realidade, como ela realmente é, ou a aparéncia, como 13 Encontram-se uma exposictio da tese e a lista daqueles que a defendem em Géran SORBOM, op. cit, pp. 33-38: Eric A. HaveLoce, Preface fo Plato, Cambridge: Harvard University Press, 1963 pp. 33-34 [trad, port, de Enid Abreu Dobrdnzsky: Prefdcio d Platte, Campinas: Papirus, 1996): J.J. Pourtr, The Ancient View of Greek Art: Criticism, History and Terminology, New Haven 4& Londres: Yale University Press, 1974, pp. 46-49, onde sdo discutidos os textos invocados pelos partidérios de uma mimética das Formas, que Plato admitiria ser ao mesmo tempo possivel e desejdvel no dominio da arte, Ponto de vista ainda aceito por Henry Jouy, Le rrenversement platonicien: Iégos, epistéme, pélis, Paris: J. Vrin, 1974, pp. 42, 50, 148 & ss. cf. tombém Gilles DELEUZE, Logique du sens, appendice 1: ‘Simulacre e philosophie antique’, Paris: Minuit, 1969, pp. 347-61 (trad. port. de Luiz Roberto Salinas Fortes: Légica do sentido, Sao Paulo: Perspectiva, 1982) 14 Sofista, 235 e 6 - 236 c 6. Nascimento de imagens 2 ela aparece (td phaindmenon, hos phainetal? € imitagdo da aparéncia ou da realidade? — Da aparéncia, diz ele. — A arte de imitar (he mimetiké) esta portanto bem distante do verdadeiro; se pode tudo realizar, é porque atinge apenas uma pequena parte de cada coisa, sendo que esta parte néo é mais que uma imagem (eidolon).35 ‘A cama do pintor, mesmo que seja cépia fiel (e/kdn), “recebendo do modelo suas relacies exatas de altura, largura e profundidade, revestindo além do mais cada uma de suas partes com as cores que Ihe convém”,!6 mesmo que seja simulacro (phdntasma) visando produzir um efeito de trompe-/oeil,:” é sempre também imitacdo da cama visivel produzida pelo artesio e nao da Idéia ou esséncia da cama (e/dos) A oposico que estabelece Plat&o, no Sofista 235 d-c, entre as duas espécies de efdola nfo deve ter um alcance fundamental. Ela nao impede de modo algum o filésofo de propor para 0 genérico e/dolon — um pouco mais adiante e no mesmo. didlogo, em 240 a-b — a definicdo ‘negativa’ que destacamos. Em 264 c-d, eikdn, eidolon e phdntasma encontram-se novamente associados uns aos outros como aspectos do nao-ser e da falsidade. Enfim, em 266 c, é a arte do pintor em geral,, sem distingdo, que é apresentada como produtora de um sonho para olhos despertos. Géran Sérborn tem razo de lembrar, sobre o tema, que, no Crétilo, 15 pepuiblica, 598 b-c: ef. 601 b 12: O criador de imagem, 0 imitador, nada entende da realidade, conhece apenas a aparéncia, ndo é isso?" 16 sofista, 235 d 8-e 2, Sobre os significads do terme symmetria (traduzido por ‘relagdes exa- tas") e seu emprego no vocabuléri pldstico antigo, cf. J.J, POULITT, op. cit. Pp. 9-71 «256-8. 17 Se eles reproduzissem esses maravithas em suas verdadeiras proporsces, as partes superiores nos poreceriam muito pequenas ¢ as partes inferiores muito grandes, pois vemos tumas de perto e as outras de longe" (Sofista, 235 e - 236 0). Sobre as relagdes da concepcdo platanica da mimesis e a histéria des artes pldsticas na Grécia — questo importante, mas que deixamos de fora de nosso estudo — cf. Pierre-Maxime ScHUML, Platon et /‘art de son temps, Paris: PUF, 1952 Nascimento de imagens ra Socrates opSe a mimesis da pintura, que imita por meio de cores postas a disposicao pela natureza o que nas coisas naturais j4 estd colorido (434 a), a uma outra mimesis, da qual se deveriam e ir nomes, e que teria por objeto nao mais as propriedades sensiveis das coisas, mas sua esséncia, sua ousia (423 d-e & 431 d 2). Nao hé melhor forma de dizer que a pintura como tal nao pode visar a esséncia. Toda a passagem esta destinada a fazer compreender que a relacao da palavra—e mais amplamente do discurso — com as coisas nomeadas néo pode ser da mesma ordem que a relacdo de semblancia entre a imagem e seu modelo. Note-se ademais que as expressées do Crdtilo (431 c 5-8), para caracterizar uma imitacao pictural que no pode se aplicar esséncia, sdo exatamente paralelas aquelas do Sofista idade de uma mimética das (235 dee), no texto que se invoca em favor da poss Formas. O Crdtilo fala de cores e formas convenientes (prosékonta), 0 Sofista de proporgées e cores convenientes (prosékonta).%8 Néo existe, portanto, contradic3o entre a distingo que opera o Sofista a respeito das duas formas de e/dola e a conclusao de valor geral da Repiiblica: “A pintura e a mimética em conjunto — hélos he mimetiké — realizam sua obra longe da verdade”. Formula que responde & exigéncia de uma definicéo geral da mimética, enunciada no comeso do livro X: “Poderia vocé me dizer o que é, em geral, a imitacéo — mimesin hdlos... hd ti pot'estin” (595 ¢ 7). e imitacao A posigo de Plato é, assim, perfeltamente clara. Ela funda a oposicao entre, de um lado, a atividade demitirgica e, de outro, a atividade mimética, marceneiro é, de fato, um ‘demiurgo’ da cama, na medida em que, mesmo se no 18 mesma expressdo em Leis, 668 ¢ 2 Nascimento de Imagens 14 Conhece a esséncia da cama e tem dela apenas uma opiniao justa, produz, sob 0 conselho do usuario ao qual pertence esse saber, uma cama real, que responde finalidade especifica desse genéro de objeto. 0 pintor, ao contrério, nao é fabricador nem produtor (dem/ourgés, poietés) de cama alguma.19 Efetuando copia ou simulacro, permanece, nos dois casos, um imitador (mimetés) do que é Produzido pelos artesdos.” O que imita no é a esséncia da cama, como faz 0 artista quando produz tal cama particular, cama esta semelhante (pois nela se pode deitar) ao Modelo Unico, Unica cama verdadeiramente real, sem entretanto o ser.21 Distante trés graus do real e do verdadeiro, a mimesis do pintor dirige-se as obras miltiplas e diversas dos artesos para representé-las ndo como so, em sua finalidade funcional, mas como parecem em seu aspecto exterior visivel.22 Expresso dos diferentes modos do parecer, a imagem esté inteira do lado dos Yfenémenos’, do mundo sensivel, com suas inconstdncias, sua relatividade e suas contradicées. Da phantasia, da eikasia, Plat3o diré que séo como uma forma adormecida de pensamento, un sonho acordado. “Nao afirmaremos que a arte do pedreiro cria a casa real e a do pintor uma outra casa, espécie de sonho (nar) apresentado pela mao do homem a olhos despertos?”23 Retomada por Aristételes, para quem toda tekné humana, e nao somente a criagdo artistica, é uma “imitacéo da natureza” (mimesis tés physeos), a concep¢io 19 pepéblice,597 4 10 20 bid, 597 e. 21 rbid,, 596 b 6: 0 trabalhador “fixa os olhos na idéia” para fazer sua obra; 597 a 4: “Se ndo faz a esséncia da cama, nao faz a cama real, mas qualquer coisa que parece a cama real sem o ser. Cf. também Republica, 601 d & ss.: 0 usuério conhece a esséncia, o fabricante tem dela uma opinido correta, o imitador nao tem dela nem ciéncia nem opinide correta. 22 Republica, 597 €2 -598a3, 23 Sofista, 266 c 8-9. Nascimento de magens 45 Platénica da mimesis, mais ou menos reinterpretada, exercers, a partir do Renascimento, a influéncia que todos conhecemos sobre 0 desenvolvimento e a orientagao da arte ocidental. Por outro lado, a oposicdo que Plato estabelece de maneira to radical entre o intelecto, em trabalho na didnoia, e a phantasia, imersa no fluxo do sensivel, parece se prolongar em certas teorias psicolégicas modernas que ligam a imagem a sensacio. Tais teorias suscitaram pesquisas, como as conduzidas pela escola de Wiirtzburg, sobre a existéncia de um pensamento sem imagem, de uma pensamento ‘puro’. Mas essas continuidades no devem nos iludir. A problematica da imagem em Plato pertence a um contexto cultural bastante diferente do nosso e suas anélises situam-se em plano bem diverso daquele do estudo psicolégico das imagens mentais. Os varios géneros de mimémata, que Plato chama efdola, eikdnes, phantdsmata, n&o so apreendidos em sua dimenséo de fatos de consciéncia. So vistos como produtos objetivos de certos tipos de arte. As imagens faladas Ora, essas artes ‘imitativas’, por oposicio 8s artes demitirgicas que produzem realidades, no se limitam de modo algum Squelas que, como a pintura ou a escultura, aplicam-se a uma matéria para Ihe dar forma de imagem aos olhos dos espectadores. Toda a sofistica insere-se, da mesma forma que a pintura, na mimetiké, na eidolopoiiké24 © sofista é um mimetés, como o pintor, ou mais 24 cf. Sofista, 235 a: “E, para voltar ao sofiste, dize-me: jd estd claro que se trata de um magico (fis tn godtor), um imitador de realidades (mimetés t6n énton?"; cf. também 235 b-c, 236 c, Hyp cod’ 240 4, 241 6 6, 264 c-€, 265 0, 267 e, 268 c-d. Ao termo do didlogo, a arte do sfista defini-se por seu pertencimento & ordem do mimético (minetikén)e insere-se, na quolidade de produtora de imagens (phantastikés), na eidolepoiike asemento de Imagens 16 precisamente um mimetés em palavras, como o poeta. Seu discurso formula tanto 0 real quanto o pintor desenha uma cama verdadeira ou o autor tragico vive realmente a ago dramatica mimada em cena, © sofista produz, também ele, imitagées de realidades, sembldncias ilusérias, e/dola legdmena, imagens faladas. Como diz o Estrangeiro do Sofista: {A palavra comporta uma técnica com a ajuda da qual se poderd levar aos ouvidos de jovens, que uma longa disténcia separa ainda da verdade das coisas, palavras encantatérias, e apresentar, a propésito de todas as coisas, imagens faladas, dando-Ihes assim a iluso de ser verdadeiro tudo que ouvem e de que quem assim thes fala tudo conhece melhor que ninguém.?5 Que a palavra do poeta, na sua relagdo com aquilo que enuncia, seja desse modo anéloga a figuracdo do pintor, na sua relac3o com o modelo representado, isto é, com um artificio produtor de uma ‘imagem semelhante’, € 0 que, na virada do século VI a.C., j havia afirmado Siménides: “A palavra é a imagem (eikdn) das aces.” Plutarco acrescenta sobre esse ponto a seguinte preciso: ‘Siménides chama a pintura de poesia silenciosa € a poesia de uma pintura que fala (dzographian lalodsan), pols as acdes que 0 pintor torna visiveis no momento em que se produzem, as palavras as relatam e as descrevem, uma vez elas produzidas.?6 Porém, para Siménides, ndo se trata somente, mediante essa assimilacdo, de sublinhar 0 cardter artificial e intelectual do trabalho de combinacdo que 0 poeta opera com as palavras, mas de dar ao produto de seu canto poético © mesmo valor de permanéncia e de monumentalidade, a mesma ‘realidade’, que sso dados as 25 sofista, 234 c-d: e, em 234 e 1-2, a expresso td en tols Idgois phantdsmato, “os simulacros contidos nas palavras” 26 siménides, Fr. 190 b Bergk; Plutarco, Ae glor. Athen, 346 f: Quest. Conviv, 748 a, Nascimento de imagens ra obras do escultor e do pintor.27 Para Platio, trata-se, ao contrario, de reconduzir a técnica de expresso oral do poeta ao ilusionismo inconsistente da imagem plastica. Ilusionista da fala, escultor de palavras, o sofista pode se permitir, sem nada conhecer realmente, dissertar sobre qualquer coisa, da mesma maneira que o pintor pode tudo figurar pelo desenho e pela cor e o poeta tudo cantar em seus versos — guerra, tempestade, rei, combatente, navegador ou sapateiro. Trata-se somente, qualquer que seja o tema representado para os olhos ou para 0 ouvido, de puras semblancias: um jogo de ilusées fantasmaticas. Entre a pretensio a uma competéncia universal, a produco de falsos- semblantes e fanstasmagorias, o valor de simples diversao, de jogo gratuito desprovido de qualquer seriedade, hd para Plato uma solidariedade intima. (© homem que se pretende capaz, mediante uma Unica arte, de tudo produzir, sabemos que fabricaré apenas imitacdes. [...] Seguro de sua técnica de pintor, poderd, exibindo de longe seus desenhos aos rapazes mais inocentes, dar-Ihes a iluso de ser capaz igualmente de criar a realidade, e tudo 0 que quiser fazer.28 Se alguém pretende, portanto, conhecer um homem douto em um conjunto de oficios e mais competente em qualquer arte que cada um de seus especialistas, 6 preciso responder a uma pessoa dessas que & ingénuo e que calu nas mos de um charlato (goetés) e Imitador, por quem foi enganado; se ele © tomou como um sdbio universal, € porque nao é capaz de distinguir entre ciéncia, ignorancia e a aa ‘es mattres de vérité dans la Gréce archaigue, Paris: Maspero, 1967, PP. petri nrc rb jestre da verdade na Grécia arcaica, Rio de Janeiro: 105-119 (tad port de andréa Daher’ Om 1058 i ar oe tee grea, Le parolee? le marbre, Lund: J, Srenbro, 1976, pp, 141 142 28 sofista, 234 b 5-10. Nascimento de Imagens 18 imitaco. (mimesis)".2> Poetas, tal qual Homero, podem se fazer passar por conhecedores de tudo em todos os dominios, mas, na verdade, s30 puros imitadores, “criam apenas fantasmas (phantdsmata) e no coisas reais".®° E preciso, portanto, resistit em considerar seriamente toda essa imagética, assim como confiar no saber dos que a produzem: “Quando se afirma que tudo se sabe e que tudo se ensinaré [..., no é caso de se pensar que se trata somente de um jogo (paidid)? — Absolutamente, — Ora, conheces.alguma forma de jogo mais sébia € mais graciosa que a mimética?”.3} Consideradas em si mesmas, fora de todo critério de verdade e de moralidade, “todas as imitagdes que produzem a pintura ou a musica no tém outra finalidade que nosso prazer e é justo reuni-las sob um Unico nome: 0 de divertimento (paignion)" 32 Aphantasia Se 0s discursos, 0s raciocinios, a controvérsia dos sofistas constituem para Plato efdola, imagens que, no seu ‘parecer’, mostram-se a0 ouvinte como realidades auténticas, no nos surpreenderd que 0 termo phantasia, derivado de phainein (parecer), no designe de modo algum, nesse autor, 3 imaginacéo como faculdade, poténcia de construir ou manejar imagens mentais, nem mesmo as visiones de que falava Quintiliano. A phantasia é esse estado do pensamento em que damos nosso assentimento esponténeo & aparéncia que revestem as coisas, @ forma pela qual elas se fazem ver, como quando opinamos, sem espirito critico, 29 pepilblica, 98 4 2-6 30 roid, 599 02-3. 31 Sofista, 234 a-b. 32 politico, 288 « Nascimento de magens 19 sobre 0 espetaculo de um pedaco de madeira colocado na 4gua e que nos parece torto. Os mesmos objetos parecem tortos ou direitos, para quem os observa na égua ou fora dela, cBncavos ou convexos, devido a uma luséo de dptica proveniente das cores. [...] E a essa disposicao (pathema) de nossa natureza que a pintura com sombreados (skiggraphia), a arte do charlatéo (thaumatopoié) e todas as outras, invengBes do mesmo género se voltam e aplicam as seducées da magia (goeteia) 2 Dessa disposicao (pathema) ou afeccao (pathos) de nossa natureza derivam, assim, a0 mesmo tempo as ‘ilusGes’ dos sentidos e o ilusionismo da imagem, no qual se apéia todo tipo de imitador para enganar o espectador e fazé-lo tomar gato por lebre. Contigua & sensacdo e & opinido, das quais no se distingue claramente, a phantasia define-se pela sua inclusio “no parecer € no assemelhar-se sem realmente ser, £6 phainesthal todto kai té dokein, einai dé mé’2 Alguns textos sublinham essas afinidades. Quando a opiniao (d6xa) se apresenta “por intermédio da sensa¢io, pode uma tal afeccdo (pathos) ser designada por outro nome sendo phantasia?"; “essa afeccéo que designamos pela palavra phainetai (parece-me), mistura de sensagéo e de opinigo’.25 "O parecer (t0 phainetal) quer dizer ter sensacéo (aisthdnestha)? — De fato. — Phantasia e alsthesis (sensagio) so portanto idénticas”.2° Um homem que percebe de longe os objetos sem vé-los nitidamente pergunta-se: "O que pode ser isso que me aparece (phantadzdmenon) 33 Republica, 602 ¢ 10-45. 34 Sofiste, 236 € 35 Sofista, 264 a 4-6 & 264 b, 36 Teereto, 152 b-c Nascimento de imagens 20 atras dessa rocha, em pé, debaixo de uma drvore? — Nao é isso que se perguntaré alguém a que eventualmente se oferecam tais aparéncias (phantasthénta)?" 37 A mimética na tradicao oral A interpretacao platénica da imagem e a teoria da mimesis, sobre a qual aquela descansa, definem um estadio do que se poderia chamar de a elaboracio da categoria da imagem no pensamento ocidental. Mas, para serem bem compreendidas, ambas devem ser situadas em seus contextos, reinseridas nessa histéria da cultura grega arcaica, de que Plato é simultaneamente o liqilidante e 0 herdeiro. Nessa cultura, que estudos recentes mostraram ter conservado até quase © final do século V a.C. caracteristicas fundamentalmente orais,?° a imagem ndo ocupa 0 mesmo lugar, néo desempenha o mesmo papel, ndo reveste as mesmas formas nem as mesmas significagées que em nossas civilizacbes hodiernas. Ela se desenha e funciona de um outro modo, tanto no nivel da experiéncia intima de cada um, quanto no processo geral de comunicago dentro do grupo e nas operagées de pensamento. Quando se consuma a ruptura com o sistema da paideia grega tradicional, em que 0 conjunto de conhecimentos (a enciclopédia do saber coletivo, como diria Eric Havelock) transmitia-se oralmente de geracéo em geracdo — mediante a recitacdo e a escuta de cantos potticos de estilo formular, musicalmente pontuados, acompanhadbs as vezes de dansas —, é todo um modo de aquisicao do conhecimento que sera rejeitado por Platdo, j4 que repousava sobre um efeito 37 Filebo, 38 c-d. 38 Pensamos especialmente no livro de E. A. Havelock, citado acima, em que nos inspiramos diretamente para escrever as pdginas que se seguem. Sobre a questdo de saber quantos aterienses, nos séculos V e TV a.., sabiam ler e escrever, cf. F. D. Hanvey, ‘Literacy in the ‘Athenian Democracy’, Rewe des études grecques, LXXIX (1966), pp. 585-635. Nascimento de imagens 2 ‘mimético’ de comunicagao afetiva (o autor, 0 executante —recitante ou ator —e 0 pliblico de ouvintes identificando-se de alguma maneira com as agées, com os modo de ser, com os caracteres representados nas narrativas ou na cena). Nesse plano, Plato, mesmo modificando, como haviamos dito, a orientacdo do campo seméntico de mimeisthal, permanece fiel & concepcio da mimesis atestada no século V a.C, e que encontra em uma passagem de As convocadas de Aristofanes sua expressao a mais surpreendente. E Agatdo, o poeta tragico, quem diz: E preciso que 0 poeta, em conformidade com os dramas que deve compor, tenha os modos de ser (tolls trdpous) sintonizados com estes dramas. Assim, se compde dramas femininos (gynaikela), 1 Se compe dramas viris (andrefa), essa qualidade inata deve estar presente em sua pessoa (en té/ sdmati). As qualidades que no precisa, em sua pessoa (séma), participar desses modos de ser. possuimos, cabe & mimesis procuré-las para nés (149-156).2 Como as ages draméticas s3o compostas “conforme sua natureza” (v. 167), © préprio poeta deve endossar os modos de ser (trdpo/) e o carter (éthos) das personagens que participam dessas agdes. E preciso que ele os ‘mime’ para poder representé-los em seus versos. Derivam disso duas conseqiiéncias. Em primeiro lugar, Plato ndo estabelece nenhuma diferenca entre a pratica da composi¢o literdria do poeta e a pratica do ator representando essas composigées em cena: nos dois casos, trata-se de uma mesma mimesis. Em segundo lugar, o melhor poeta (ou seja, 0 pior para Plato), 0 que tem o dom de representar todos os caracteres em sua variedade, aparece como um monstro suscetivel de revestir-se de todas as 39 Aproxime-se esse texto de Aristéfanes da indicago dada pela Suda a respeito de Séfron, © siracusano autor de mimos, contempordneo de Euripedes: ele escrevia mimos masculinos e mimos femininos (mimous andre‘ous kai mimous gynaikefous), Seria preciso considerar as ebservacées de Platao na Republica, 451 ¢ 1-3, e nas Leis, 669 c 4, como alusdes a essas duas formas tradicionais de mimo? Nascimento de imagens 2 formas, um magico em metamorfoses, um Proteu. Por af se revelam as afinidades da poesia, como mimética, com o mundo multiforme e variegado do devir e com essa parte inferior da alma, sempre instvel e mutante, que, em nds, é 0 lugar dos desejos e das paixdes. ‘A assimilacdo do poeta e do ator aos caracteres e as acdes que figuram pela imitacgo prolonga-se em um efeito mimético andlogo na alma dos espectadores.. Ainda nesse aspecto, Plato permanece fiel a uma tradicio que tem raizes antiquissimas e da qual se encontra eco em Xenofonte, que pensa que a impressao produzida por uma imagem pintada ou esculpida depende do que figura — nobreza ou servilismo, dignidade ou mesquinhez, prudéncia ou desmesura, coragem ou covardia —, e no da maneira como figura.“0 Para Xenofonte, o efeito que provoca ‘a imagem no espectador parece responder antes 8 qualidade moral mais baixa ou mais alta do modelo do que & virtuosidade maior ou menor do artista. Em uma perspectiva andloga, a imitaco poética, segundo Plato, estabelece entre personagens representadas e ouvintes uma cumplicidade tao intima que reproduz. na alma dos segundos os sentimentos figurados nos primeiros. Dessa maneira, tendo como que “alimentado e fortalecido” nossas palxées no espetéculo dos infortinios pintado nos outros, tornamo-nos incapazes de controlé-las em nés mesmos.*! Toda educacéo est, portanto, confrontada com 0 problema das artes miméticas e de seus efeitos nos espectadores. A imagem nao é a realidade, isso é certo, mas é de se temer que “da mimesis se extraia 0 ser (ek tés miméseos tod einaly". Com efeito, “as imitagées, se se perseverar nelas desde a infancia, se 40 Ditos e feitos memordveis de Sdcrates, 111, 10, 5 41 Repiiblica, 606 b 6-8 Nascimento de Imagens 23 transformam em caréter e natureza para 0 corpo, a voz e 0 pensamento”.*? Sem a necessidade de se passar por fantasmas, bastaria vé-los mimados por outros para ‘se tornar por sua vez um deles. Por meio da critica do mimetismo e de seus efeitos, é 0 contetido do ensinamento transmitido, dessa forma e por essa via, que se encontra radicalmente desqualificado na visio do fildsofo. Isso por conta da assimilagao desse contetido a essas outras formas fantasméticas de efdola: os falsos-semblantes, os trompe-/oei! produzidos por escultores e pintores.*® Para Plato, os modos de expresso tradicionalmente utilizados na comunicacSo oral € cuja organizacao ritmica, 0 aspecto formular e musical devern responder 3s exigéncias da memorizagSo, tém em comum certos tragos que os condenam a traduzir das coisas, seres e acdes somente a superficie, 0 exterior, 0 passageiro, 0 particular e o circunstancial. Por sua textura narrativa, sua articulacao em episédios sucessivos, sua estrutura sintética que exprime acontecimentos localizados e n&o verdades gerais, seus procedimentos de personalizacao e de visualizagdo direta dos fatos contados, sua linguagem figurada, dramatica, concreta ‘e emotiva, as diversas formas de mensagem oral, como o relato poético (sobretudo de estilo direto, quando o poeta entra de certo modo na pele de cada um de seus personagens), 0 didlogo tragico, 0 discurso de ostentagao do retérico, a eristica dos sofistas, tém igualmente a capacidade de fascinar o auditério, de enfeitigé-lo, de seduzi-lo (théigein) pela magia do verbo, a ponto de, por sua participacao quase 42 Jbid,, 395 ¢ B-d 3, 43 pepiblice, 605 7 - b 1: tem-se razdo em colocar 0 poeta em simetria com o pintor, “pois porece-se com ele no que toca a fazer obras despreziveis (phate) em relagao & verdade: e, no fato de conviver com a outra parte da alma, igualmente desprezivel e que ndo é a melhor, nisto ‘também se ossemelha a ele” Nascimento de imagens 24 fisica nos modelos ritmicos, verbais, vocais, instrumentais que empresta a Comunicagio, 0 préprio publico ter a ilusdo de viver 0 que é dito. Invadido pelo sofrimento, 0 temor, a piedade, ele é como que transportado pela narracdo, inserido no desenrolar oral do discurso. Mas esses sortilégios da arte — essa goeteia, para empregar o termo que Plato aplica a pintura, a poesia e a sofistica, depois que Gérgias ja o tinha utilizado para glorificar a poténcia da arte retérica - — no podem sendo implantar em torno dos ouvintes um simples cenério, uma fachada de imagens ilusérias,*5 téo inconstantes, miltiplas e fugazes quanto o fluxo do devir sensivel e das emogGes passageiras, que formam um circulo dentro qual esse tipo de discurso se encontra necessariamente aprisionado. Imitacao e devir sensivel Construido para figurar, por meio de uma colorida mistura de palavras, de seres e de situacdes em sua forma concreta, para representar as aces tal como aparecem hic et nunc, para exprimir desejos e paixdes da alma pelo caminho obliquo do que os torna manifesto aos olhos de outrem — enfim, encurralado no puro dominio das coisas visiveis (td horatd) e dos acontecimentos em devir (‘3 gendmena), esse tipo de mensagem nao dispée de um vocabuldrio, de um instrumental conceitual, nem de uma sintaxe que Ihe permita, como a demonstracao cientifica ou o didlogo argumentado, formular uma realidade auténtica em sua unidade e permanéncia, dizer 0 ser, ndo como nos aparece aqui e agora, mas como é, sempre idéntico a si mesmo. Em suma, ndo se enuncia o 44 Gérgias, Elogio de Helena, 10, em Diels-Kranz, FV.5.7, 82 B 11. Para Platdo, além das referéncias jé feitas supra, cf. Sofista, 235 a1, 241 b 6-7; Menéxeno, 235 a 2: Republica, 413 1-4; 584 a 910; Bonguete, 203 d 8. 45 cf. Repiblica, 365 b-c Nascimento de imagens 25 verdadeiro, 0 real, ao invés disso forja-se uma ‘semblancia’, um parecer, num Cintilar confuso de palavras e ritmos que produzem um efeito de fascinag3o, uma vertigem do espirito. Nesse plano existe uma completa homologia entre 0s modos de expresso do pintor, com sua mistura de cores, do poeta ou do retérico, com sua mistura de palavras e de ritmos,4® e a confusdo e 0 polimorfismo do devir sensivel de aparéncias sempre mutantes. E precisamente aquilo que se manifesta aos olhos e aos ouvidos nas mais variadas formas, tomando sem cessar aspectos miltiplos e contraditérios, 0 objeto da mimética figurativa do pintor ou representativa do poeta € do orador. O imitador de palavras que é 0 tragedidgrafo nao terd de modo algum medo de imitar seriamente [...], imitara até mesmo 0 que falamos ha pouco, o barulho do trovao e dos ventos, da tempestade, dos eixos e roldanas, das trombetas, das flautas e siringes, além do ruido dos ces, dos carneiros e dos passaros. Todo seu discurso seré somente a imitacao de vozes e gestos,*7 Na verdade, so exatamente “o barulho e o furor” do mundo que vém se refletir no espelho da obra mimética do poeta, de acordo com as exigéncias de um género literario que necesita “de todas as harmonias, de todos os ritmos, para ter sua expresso apropriada, j4 que comporta as variacdes mais diversas”.*® “Habil em tomar todas as formas e em imitar todas as coisas”,*? 0 poeta imitador que Platao expulsa da cidade, apés havé-lo homenageado como um ser “sagrado, maravilhoso 46 Repiblica, 601 a 3-b 5: "Por meio de palavras e frases, 0 poeta sabe colorir devidamente cada uma das artes. [..] Pois julgo que sabes como parecem as obras dos poetas, denudadas das cores da poesia, e ditas por si s6%. As ‘cores’ da poesia gracas as quais exerce sua seducio (kélesis) sd0: a medida, 0 ritmo e a harmonia (601 b 1-3); ef. Leis, 800 d 1-4 AT Reptiblica, 397 a 3-b 2 48 bid, 397 ¢ 3-6. 49 bid, 398 01-3 Nascimento de imagens 26 © encantador”, € exatamente esse protétipo do homem duplo e miltiplo (diplods, Pollapiods), que é 0 antipoda do cidadio ‘simples’ que A Repiiblica quer formar 50 De fato, a mimética — do pintor e do poeta — tem “comércio, ligacdo e amizade’3! com essa parte da alma que, & imagem do devir, é ela propria inconsténcia, diversidade, mistura. Estranha sabedoria e a verdade, a pratica imitativa nao pode se prender a elas, nem nelas se inspirar espontaneamente. “Vila, acasalada com o que em nés é vil, a mimética sé engendra vilania (phadle ... phatilol xyngignoméne Phatila gennéi he mimetiké)" 52 Com efeito, © que se presta a uma imitacdo miltipla e variada (pollén kai poikilen) & a parte irascivel (aganaktetikén) da alma; a0 contrério, 0 carater sensato e calmo, sendo sempre igual a si mesmo, no é fécil de imitar [...]. E evidente que o poeta imitador no é naturalmente conduzido a esse principio racional da alma, nem a sua arte (sophia) foi moldada para Ihe agradar, se quiser ser apreciado pela multidao, mas sim com tendéncia para o cardter arrebatado e variado, (66 aganaktetikén te kai poikilon éthos), porque este é fécil de imitar.53 Se 0 poeta, em seus versos, fala dos deuses, sua mimética oral os representara com todas as paixes, todas as fraquezas, todos os crimes que sao préprios a essa parte da alma humana com a qual sua arte se aparenta. Ademais, figuraré 0 ser divino, em si absolutamente simples e incapaz de mudar, a partir do modelo das apar€ncias sensiveis e desse devir que ele tem habito de pintar. Mostraré a divindade se metamorfoseando sem cessar, revestindo formas diversas, modificando seu aspecto em uma multidao de figuras diferentes, ou ainda a 50 rid, 397 € 1-2. 51 Tbid, 603 b 2 & 603 c 1 fo ‘comércio’ (prosomilein) 52 Tbid, 603 b 5. Acasalamento e engendramento ressaltam o valor do ‘comércio! (p ) que a mimética entretém com o elemento colérico da alma: 53 rbid, 604 e - 605. Nascimento de imagens 2” travestiré com a imagem do que é enquanto mimetés: far dela um magico, um embusteiro, um ilusionista produtor de falsos-semblantes, de fantasmas sem. realidade.** Longe de nos incitar a romper com as aparéncias, de nos desalojar das sombras e dos reflexos, a arte do poeta, mesmo quando evoca o ser simples € permanente, projeta-o, traduzindo-o em sua lingua de imitacdo, na tela miltipla e variegada do parecer. © conjunto de termos que se articulam uns aos outros para dar a imagem plat6nica sua configuraco sublinham, assim, os constantes deslocamentos que, neste fildsofo, se operam entre a imagem stricto sensu e as aparéncias sensiveis em geral, entre a visio figurada e todas as formas de conhecimento que nao conseguiram se desprender do universo do parecer. Excetuando phainein, phainémena, phantésmata, que esclarecem e precisam 0 sentido de phantasia, 0 termo eikon, que tem no século IV a.C. um valor técnico e designa a imagem representativa em sua materialidade (por exemplo, uma estétua), esta associado em Platéo & eikasia, A eikasia ocupa, na hierarquia das formas de conhecimento distinguidas na Republica pela comparagéo com uma linha dividida em quatro segmentos, o Ultimo nivel da escala.55 Ela é menos um saber que uma conjectura, com tudo 0 que tal termo comporta de perigoso. Nao podendo capturar 0 préprio objeto, conhecé-lo mediante uma apreensao direta (eidéna), a elkasia deve se apoiar sobre 0 que parece susceptivel de ter com o objeto alguma ‘semblancia’, a fim de imagind-lo da melhor maneira possivel. Entendida nesse sentido amplo, a 54 roid, 380 d 1-b; 381 ¢ 7 ~ 382 a; 382 € 10-13. 55 pepiblice, 511 e: as quatros segBes da linha correspondem, segundo uma hierarquie descendente, quatro disposigBes (pathémata) do espirito: ndesis, didnoia, pists, eikasia em 533 e 3 -534.a'5,,a comparocio é retomada e desenvolvida: ef. Victor GotoscHaror, Le Ligne de la République’, em Questions platoniciennes, Paris: J, Vrin, 1970, pp, 203-219. O autor deu Enfase as relagies entre a e/kasia, as técnicas de imitagiio ¢ 0 dominio das imagens e reflexes Nascimento de imagens a imagem nao vem se integrar ao dominio da déxa somente pelo fato de esta se opor a epistéme. Ela aparece instalada no préprio coragao da déxa, de que mostra 20 mesmo tempo os limites e 0 campo de aplicacdo. Da déxa, dizemos que é, ao contrario da ciéncia, uma simples ‘opinido’, incerta e flutuante como 0s objetos a que diz respeito. Mas a ligacio da déxa com o universo da imagem é de outro modo intimo € direto. Déxa vem de dokein, que significa “assemelhar-se, parecer”. O campo da déxa é 0 do parecer, 0 dessas semblancias de que a imagem é a expresso privilegiada. A desvalorizacao da imagem Fazendo pender para o lado da imagem todo 0 dominio do sensivel, apresentado como um jogo de sombras e reflexos a desencorajar (na impossi dade de poder escapar-Ihe a fim de evadir-se para um longinquo ‘alhures’) toda empresa de saber verdadeiro, Plat3o é conduzido a tergiversar 0 vocabulério tradicional da imagética, a rejeitar as fungdes que o pensamento arcaico reconhecia na imagem como procedimento de saber, como via de acesso ao ser a partir de suas manifestacées visiveis. Ainda em textos dos séculos VI e V a.C., nem eikédzein e eikasia, nem dokein e déxa, nem phainein e phaindmena tém esse valor essencialmente negativo que hes é atribuido pelo sistema filos6fico de Plato, que, num mesmo movimento, funda a primeira teoria geral da imitacdo e afasta a imagem simultaneamente do real e do saber. ogo dos termes phainein, dokein, doxddzein: 56 cf., por exemplo, Sofista, 236 e - 237 a, com 0 j pene pes fizer algo sem, entretonto, “Aparecer e assemelhar-se (16 phainestai kai 18 dokefr) sem ser, dizer dizer com verdade, sd0 férmulas que provocam embarage. [..] Que férmula encontrar para dizer ou pensar (/égein e doxddzein) que o falso € real?” Cf., também, Republica, 476 ¢ 6: 477 © 3: 478 a 10. No Fedro, a arte retérica & apresentada como uma busca do eikds (do verossimilhante), formulagdo dos eikéta (verossimilhangas), férias dadas @ verdade, E 0 préprio Nascimento de imagens 09 E André Rivier que, em dois estudos convergentes,5? marca posico contra uma interpretagéo anacrénica, porque pejorativa, do conjunto dos termos agrupados em torno de eisko, eikidzo, éoika, eikds, eikén, de um lado, e de dokéo, dokés, déxa, de outro. Ele mostra que esse vocabulério, em seus antigos empregos € mesmo em filésofos como Xenéfanes e Herdclito ou em historiadores como Herddoto e Tucidides, permanece estranho ao que chama de “a problematica do ser © do parecer”. Tal problematica, central no pensamento do século IV a.C., teria apenas emergido lentamente na consciéncia filoséfica do século V a.C., sob 0 impulso das pesquisas da escola eleata.58 Esse vocabulério remete, certamente, a formas de conhecimento mediatas, formas que se opem nessa perspectiva a apreensao direta do objeto (como a visio ao se langar sobre o que tem diante dos olhos), mas que no sao, no entanto, desprovidas de valor positivo. Longe de serem desqualificados como iluso, erro, falsa aparéncia, conjectura gratuita, a eikasia, 0 dokds ou a ddxa designam atos intelectuais validos. Utilizam semelhancas, comparagées, analogias (no caso da e’kasia), assim como indicios verossimilhangas razoavelmente fundados (no caso de dokds e déxa), para atingir 05 objetos que nao sao ‘evidentes’, mas que permanecem escondidos e invisiveis, seja no passado ou no futuro, seja na espessura ou no substrato das coisas. No fundo, trata-se sempre de um mesmo tipo de procedimento, legitimo se é& corretamente conduzido, que permite apreender com suficiente probabilidade os dela por meio dos phaindmena, Adela e phaindmena, assim, nao constituem dois ikds é definido como 16 t6i pléthei dokodn, a opinido da massa (literalmente: o que se parece com a massa), 272 e - 273 b: cf., também, 260 a 1-3 57 Un emploi archaique de Vanalogie chez Héraclite et chez Thucydide, Lausanne: Droz, 1952: “Remarques sur les fragments 34 et 36 de Xénophane', Revue de philologie, 82 (1956), pp. 37- 61. 58 remarques sur les fragments 34 ¢ 35 de Xénophane’,p. 59 Nascimento de imagens * dominios excludentes, definidos em sua oposicio, mas duas formas ou dois niveis de realidade que se interpenetram no interior de um mesmo universo, que coexistem um ao lado do outro, “compondo-se ou acasalando-se na unidade da physis".° Nesse contexto, os phaindmena no podem ser, eles muito menos, desvalorizados. Nao fazem parte do mundo das aparéncias, dos falsos-semblantes. S30 “as préprias coisas com que nos relacionamos”,6 a matéria da historia, os dados pelos quais a investigacao intelectual se guia, tomando-os como indices. & esse estatuto dos phaindmena que aparece ainda na férmula de Demécrito que Anaxagoras relata com prazer: “dpsis tén adélon ta phaindmena’.*' Os fendmenos 30 a visio, 0 aspecto visivel das coisas que nao se mostram a vista. O ser e o parecer Nao poderiamos, nos limites do presente estudo, realizar a andlise desse modo de pensamento arcaico — de que no se sabe se é preciso chamar fenomenal ou pré-fenomenal —, retracar sua histéria e precisar 0 lugar e a fungo que nele uidos imagem.®? Gostariamos somente de destacar o amplo sio att deslocamento que, de um pélo positivo a um pélo negativo, opera-se, entre os séculos VI e IV a.C., no vocabulério da imagem, da semblancia, do parecer, e que desembocaré na primeira teoria geral da imitacéo e da imagem elaborada por Plato. 59 bid, p.59. 60 rbid., p. 59.0.1. 61 piels-Kranz, FV.57, 59 B 210, 62 propomo-nos a abordor esse problema em um préxime estudo Nascimento de imagens Br E opondo mais nitidamente o parecer ao ser, separando-os um do outro, ao invés de os associar em equilibrios diversos, como tinha sido feito antes dele, que Platéo confere a imagem sua forma de existéncia propria, atribuindo-lhe um estatuto fenomenal particular. Definida como semblancia, a imagem possui um Carter distintivo tanto maior quanto doravante ela nao sera mais considerada como um aspecto, um modo, um nivel da realidade, uma espécie de dimensio do real, mas como uma categoria especifica, situada frente ao ser em uma relacéo ambigua de “falso-semblante’. Essa especificidade implica, em contrapartida, a expulséo da imagem do dominio do autenticamente real. Ela é relegada ao campo do ficcional e do ilusério, e desqualificada do ponto de vista do conhecimento. Nesse século IV a.C. ateniense e por intermédio da obra de Platéo, a imagem se apresenta como uma semblancia exterior. Isso na medida em que tomou forma um mundo da pura aparéncia, que rompeu suas ligagdes com o do ser, encontrando nessa excluséo do real o fundamento de um estatuto paradoxal, intermediério entre o ndo-ser e o ser. Assimilada & semblancia, ao parecer, a imagem no & um puro nada, sem no entanto ser alguma coisa. Essa promocdo equivoca do parecer inaugura, de certo modo, a carreira psicolégica da imagem. Nao deve a anélise do parecer fazer referéncia ao sujeito aos olhos de quem a aparéncia se faz ver? Pode a imagem funcionar como imitaco da aparéncia se ndo hd um espectador que a vé? Parece desobstruida, assim, a via que iria conferir & imagem um estatuto de existéncia puramente interior, fazendo dela um modo da subjetividade que nao possui outro ser sendo aquele que Ihe é atribuido pela consciéncia individual. Porém, ndo é essa a via que toma Plato ao se lancar na busca do que é a imagem. Logo de saida, quando das breves réplicas que preludiam a definicao geral Nascimento de Imagens 32 do eidoion, ele a descarta como um atalho, de onde seria impossivel, se por af se seguisse, desalojar o sofista, convencé-lo de que produz apenas falsos- semblantes.3 A quem o acusa de ser um fabricador de imagens, o sofista pergunta (© que efetivamente entende por imagem. E nao basta, como cré ingenuamente Teeteto, mostrar-Ihe reflexos nos espelhos, efigies pintadas ou esculpidas. O sofista acharé risiveis tais exemplos, feitos, dird ele, para homens que véem. Ele reivindica, no que Ihe diz respeito, ndo conhecer espelho nem nada de andlogo, nao ter olhos, ignorar a visdo.® E preciso, portanto, derrotd-lo no seu préprio campo, encurrala-lo em seus rodeios e fintas, dando da imagem uma definicao valida mesmo para os cegos, porque independente tanto do fato da viséo quanto do sujeito que vé. Para Plato, 0 que esta em jogo é decisivo. A questéo é saber se se pode apresentar da imagem uma definico que nao esteja no préprio nivel da imagem, i.e., baseada no simples testemunho dos sentidos. Se reduzires a imagem & aparéncia que reveste aos olhos do espectador que a observa, tu te depararés com dois espécimes de sofistas que, por intermédio de argumentos contrérios, trocarao igualmente de ti. Os primeiros pretendem que a imagem, assim definida, tera para eles tanto ser quanto 0 fato de no terem nem olhos, nem visio. Os segundos professam que ndo ‘existe nenhum outro ser sendo a imagem; afirmam assim que 0 que aparece a cada um é isso mesmo que, para este um, é 0 tinico € verdadeiro real. Desse modo, 0 problema 6 exatamente, descartando-se de saida a visdo e o vidente, enunciar o que é a imagem, no em seu parecer, mas em seu ser, de dizer no 0 parecer da aparéncia, mas a esséncia do parecer, 0 ser da semblancia. Trata-se, conseqiientemente, de ndo tomar em consideracao a ‘psicologia’ da imagem para 63 sofista, 239 ¢ & ss. 64 rid, 239 € 5 - 240 Nascimento de imagens 33 designar o lugar que a semblancia ocupa na hierarquia dos diversos tipos de realidade de que é feito o universo. Somente sob essa condigao a imagem cessa de Oscilar entre 0 ndo-ser eo ser, identificando-se tanto com um quanto com outro. Fixa-se, entre 0 no-ser e 0 ser, sem se confundir com nenhum dos dois, em uma Posicéo mediatéria que divide com a déxa e que assegura a possibilidade do erro, do falso julgamento, da atribui 10 do ser aquilo que ndo é, da confusao da imagem com isso de que é a imagem.S5 Em outros palavras, de nada serviria definir a imagem como semblancia, aparéncia, se essa definiciio ndo implicasse, ao mesmo tempo, uma referéncia explicita, por um lado, ao Ser, enquanto distinto do parecer € primeiro com relaco a ele, por outro lado, ao Nao-Ser, como fundamento de uma eventual confusao entre aparéncia e realidade. Boa e ma imitacao Por essa via prepara-se — paralelamente 4 generalizacéo do tema da imagem, que abarca o conjunto do devir sensivel — a possibilidade de uma reviravolta de perspectiva no interior da mimesis: se o Ser é primeiro, seria razodvel tomar a imitag3o, por assim dizer, pelo outro lado, 0 lado do Modelo, e encaré-la nao do ponto de vista do seu parecer, mas do ponto de vista daquilo a que se assemelha. A imagem é, com certeza, da ordem do parecer; porém, para Platao, 65 cf. Republica, 478 a até o fim do livro V. Em particular em 478 d 5-10: "Nao dissemos antes que, se encontréssemos alguma coisa que ao mesmo tempo existisse e ndo existisse, essa coisa ficaria em pesigdo intermédia entre o ser puro € o néo-ser absoluto, ¢ que ela ndo seria objeto nem da ciéncia nem da ignoréncia, mas de uma faculdade que aparecesse entre a ignoréncia e a Ciencia? — Dissemos com razdo. — Ora, acabamos de ver que essa faculdade intermédia é 0 {que chamames opiniéo"; Sofista, 264 d 3-6: "Agora, entretanto, uma vex descoberto, pelo menos, 0 existéncia do discurso falso e do opini folsa, sto possivels as imitacées dos seres € {da intencdo de produ2i-las, pode nascer uma arte do embuste": 260 c:"O fato de serem mio- eres 0 que se enuncia ou se representa, eis o que constitu a falsidade, quer no pensamento, quer no discurso, — Com efeito, — Oro, se hé falsidade, hd engano, E desde que hd engano, hé dim tudo inevitavelmente, imagens, cépiase ilusbes (eidélon, eikenon, phantasios). Nascimento de Imagens 34 mais precisamente, no é possivel parecer sem ser, imagem sem realidade imitago sem modelo a imitar. Desde que seja reconhecida pelo que é, uma simples sembldncia, a imagem no pode servir de trampolim para se referir ao Modelo? Sem davida que sim, mas sem que se trate jamais de um movimento espontdneo ¢ como Que imanente 3 mimesis. Ela supe uma ruptura, uma mudanga de plano, uma verdadeira converséo: 0 Modelo 6, como tal, outra coisa que a imagem, algo de outra natureza. Ele nada comporta de ‘parecer’, que se possa reproduzir por meio de aparéncias andlogas. Pertence, portanto, a uma ordem do conhecimento totalmente distinta. Pintores e ‘mUsicos’ imitam 0 mesmo pelo mesmo. Com cores, formas, sons e movimentos representam 0 que, no objeto figurado, é também cor, forma, som e movimento. Prendendo-se, nas coisas, ao parecer, esforcam-se por recuperar essa aparéncia. Reside ai o perigo da imitagio, seu embuste, seu lado ‘outro’ na busca cega da similitude. No tempo que permanecer indo do mesmo ao mesmo, a mimesis nao podera sendo apagar a ruptura entre a imagem e 0 modelo, © ficticio eo real. Vista de longe ou apresentada as criangas, a imagem da cama, colorida pelo pintor, produzird o efeito de uma verdadeira cama, pois as verdadeiras camas, seguindo a posic&o dos espectadores, oferecem igualmente aparéncias diversas. Mas a Idéia da cama nao pode ser imitada dessa maneira. Sua relacao com a cama do carpinteiro no é homdloga a semblancia dessa Ultima com a imagem do pintor, no somente porque a Idéia nao é visivel, mas sobretudo porque sua estrutura noética, sendo nica e permanente, nao é relativa aquele que olha em sua direg’o, ao ‘ponto de vista’ do espectador. Ao contrario, para olhar em sua direcdo, para contemplé-la, fol preciso, antes de tudo, desviar-se das perspectivas miltiplas do parecer e organizar sua operagao intelectual, ou seu fazer demitrgico no caso do arteséio, ndo mais em funcao de sua propria posicdo, em relacao a si, Nascimento de Imagens Ps mas tendo por referéncia esse ‘em si’, que constitui o ponto fixo onde é preciso, ao menos pelo pensamento, vir a se posicionar, Poder-se-ia dizer, talvez, que a mimesis ilusionista daqueles que Plato chama ‘imitadores’ consiste numa simulacio das aparéncia com o fim de enganar os outros. A mimesis filosdfica consiste em uma assimilagao intima de si aquilo que é outro e radicalmente estranho ao parecer, de modo a se transformar a si propria do interior. Assim, quando se passa da mimesis do parecer a assimilacdo ao ser, 0 Jogo do mesmo e do outro se inverte: no primeiro caso, a imagem apdia sua semelhanga com 0 modelo nisso que, nesse modelo, nunca permanece seme-lhante a si; no segundo caso, a imitacéo inclui o reconhecimento da alteridade do modelo, colocando-o como outro até em seu apetite de semblancia, precisamente porque o modelo é isso que permanece sempre o mesmo que ele mesmo. Portanto, as duas formas de mimética so solidarias somente na medida em que se opdem, em que se inscrevem de um lado e de outro da fratura entre o ser e a aparéncia. Na estrada que leva da ma a boa imitacao nao ha continuidade, mas bifurcacéo na encruzilhada entre dois caminhos. E apenas na volta, quando se contemplou 0 sol do ser e se retornou a caverna e as suas sombras, que se pode recuperar a mimética ilusionista, mas expurgando-a, tornando-a simples e uniforme tanto quanto possivel, para fazé-la servir a fins que nao os seus, submetendo-a do exterior as exigéncias das Formas.°? 66 A essa mimesis-assimilagdo responde © emprego do verbo homofoun, ou exomoidm cf., por ‘exemplo, Republica, 613 b 1: fazer-se semelhante ao deus (homoiodsthai theéi), tonto quanto isso seja possivel ao homem; Timeu, 90 d 5-8: aquele que contempla se faz semelhante ao objeto contemplado (exomoiésa’). 67 Basta remeter, a propésito desse ponto, ao belo estudo de Victor GoLoscHmrbr, ‘Le probléme de la tragédie’, Reve des études grecques, LXI (1949), p. 19, republicado em Questions platoniciennes, cap. VIII, pp. 103-140. Nascimento de imagens 36 Consideracées finais Em que essas analises permitem ao psicélogo-historiador responder & questao levantada nas primeiras linhas desse estudo a respeito das formas da imagem e da imaginacdo entre os gregos? A obra de Plato pareceu-nos marcar 0 momento em que o mundo das aparéncias toma corpo, colocando-se ante o real e em relagdo ao real como sua ‘semblancia’. Mas essa virada, que se poderia crer que, ao dar ao parecer sua consisténcia e sua especificidade, abrisse caminho para 0 desenvolvimento psicoldgico da imagem, ai nao se manifesta diretamente. Pelo menos por duas raz6es. Por um lado, a disténcia entre sensacdo e imagem, na perspectiva platénica, nao esté ainda demarcada. E apenas com Aristételes que ela se esboca, em uma passagem do De anima, cujas hesitacdes sublinham ademais as dificuldades de uma distincao nitida, no interior do pensamento antigo, entre sensacSo, imagem e opiniéo.©® Por outro lado e de modo mais profundo, porque, ligada & mimesis, a imagem somente pode reproduzir uma aparéncia jé dada fora dela. A imitaco que a constitui em seu ser, que a faz semblancia, é ao mesmo tempo 0 que a limita e 0 que a exclui do campo da invencdo, da inovacdo, da fabricaco criadora. Definido como ilusério, o ficticio no se mostra ainda como artificio humano no pleno sentido do termo. A concepsao platénica da mimesis sublinha, nos dominios em que se aplica, a mesma auséncia de uma categoria do 68 No copitulo ‘Les images’ do Nouveau traité de psychologie de George Dumas (Paris: F. Alcan, 1930), Ignace MEYERSON, ressaltando que entre sensacio e percepsao, de um lado, € imagem do outro, as diferencas 380 de natureza e no de grav, observa justamente que as ondlises de Aristételes se situam na origem do estudo psicolégico da imagem como tal (pp. 544 e 594). {Apés ter estabelecido que a imaginacdo ndo ¢ idéntica nem a sensagdo, nem a intelecgo, nem & opinido, Aristételes define a imoginagdo da seguinte moneica: "Um movimento produzido pela ‘sensagio em ato", Da alma, III, 3, 427 b 14 & ss.: ele escreve um pouco mais d frente: “As imagens sdo em certo sentido sensagdes, exceto quando sdo sem matéria” (ibid, 432 a 9). Nascimento de imagens 7 : _ gente, de uma nocéo de um poder criador do homem, que foi observada em outros setores da cultura grega.69 E preciso esperar o fim do século II d.C. para se encontrar, em Flavio: Filéstrato, a propésito de artistas como Fidias e Praxiteles, a afirmacdo de que o que presidiu a criacio de suas mais belas obras foi uma phantasia, uma imaginaco no mais dependente da mimesis, mas oposta e superior a ela por conta de sua sophia: “pois a mimesis apenas representa em imagem 0 que viu, mas a phantasia também 0 que nao viu".”0 Quando sobe aos céus para recolher as imagens dos deuses, 0 artista no imita nem copia: ele imagina. Dissociada da mimesis, a Phantasia vé-se capaz desse mesmo poder de contemplar o invisivel, de ultrapassar a aparéncia pelo acesso ao mundo superior das Formas, que Plato havia reservado 8 filosofia. 69 Jean-Pierre VeRNANT, Mythe et pensée chez les Grecs, Paris: Maspero, 1974, II, pp. 32-34, 41 4 ss, 62 & ss, [trad. port, de Haiganuch Sarian: Mito e pensamento entre os gregos, Rio de Joneira: Paz e Terra, 1990]; Mythe et tragédie en Gréce ancienne, Paris: Maspero, 1974. pp. 43-74 (trad. port, de Anna Lia de Almeidad Prado, Filomena Hirata e Maria da Conceicdo Cavalcante: Mito e tragédia na Grécia antiga, So Paulo: Brasiliense, 1988: "Catégories de agent et de Faction en Gréce ancienne’, em J. Karsreva, J.-C, MauneR & N. Ruwer (dir). Langue, discours et société: pour Emile Benveniste, Paris: Seul, 1975, pp. 105-113: Imre ToT, ‘Die nicht-euklidische Geometrie in der Phinomenologie des Geistes: wissenschaftstheoret’, Philosophie als Beziehungswissenschaft, Festschritf fir Julius Schaaf, Frankfurt am Moin: Heiderhoff, 1972, XX, pp. 3-91. especialmente pp. 36 € 64. “Foi a imaginagdo que produziu essas obras, elo rd 0 que viu, mas @ 70 Filéstrato, Vida de Apolénio de Tiana, 6, 19 Tnais sdbio que a mimesis, pois a mimesis somente fabrica 0 suporé, referindo-se a reolidade; e com frequéncia. is ela se dirige, sem se que é um demiurgo imaginacéo também o que no viv, pois ela fo temor desvia a mimesis, enquanto nada pode deter a imaginacdo, pt deixar perturbar, para o que concebeu dela mesma’ ——_____— UMATERIAL EXCLUSIVO