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Fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

particularmente, no interior do Estado Novo. No nosso imaginário actual, carente sempre de algo que nos afaste de uma posição na Europa, sentida

como marginal, e nos enalteça como. outros, não deixa de ser interessante

reflectir sobre a restauração do Portugal islâmico a que vimos assistindo na revisão historiográfica lançada no pós-25 de Abril e mesmo nas declarações de alguns politicos- europeístas convictos- quando nos alertam para o facto de que estamos mais perto de Rabat do que de Madrid 3 '. Neste princípio de século em que o tempo europeu não é mais sinónimo de tempo universal, ainda que o designemos por pós-colonial na esperança ambígua de nesta fórmula reerguer uma ordem temporal que foi intrinse- camente europeia, transformando-a num tempo múltiplo no coração da Europa, que papel cabe a Portugal, carente das suas fantasias imperiais, des- confiado da sua modernidade europeia e de certo colocado na semiperiferia do mundo? Estará na revisitação e sublimação dos nossos fantasmas, remotos e recentes, o caminho que nos levará à transformação efectiva da expressão imperialista "mundo português" na solidária e pós-colonial, "mundo em português", como sugere o título do livro de diálogo entre Mário Soares e Fernando Henrique Cardoso 39 ? Ou será esta apenas a nova fórmula mágica de equilibrio no trapézio da nossa precária sobrevivência entre fantasmas e fantasias cuja rede se confina a esta frágil preposição, mas que pela união que sugere (entre mundo e português) nos permite o balsâmico sonho de ser/ estar numa cultura simbolicamente intemporal? Como fantasmas, coisas, questões inacabadas.

38 Sobre isto ver Eduardo Lourenço, "A Europa no Imaginário Português", in A Europa Desen- cantada, Lisboa, Gradiva, 2001, pp. 115-116. 39 Mário Soares, Fernando Henrique Cardoso, O Mundo em PortuguPs - Um Didlogo, Lisboa, Gradiva, 1998.

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Os girassóis do império

Eduardo Lourenço

Diferentemente das rosas bravas de Pessanha, não floriram por engano

os "girassóis do império'' através dos quais, Pessoa, num dos seus mais belos

sonetos, evoca a saudade imperial que só nessa Ror solar por excelência per-

maneceria viva:

Hoje sou a saudade imperial Do que jd na distdncia de mim vi Eu próprio sou aquilo que perdi

.

E nesta estrada para Desigual Florem em esguia glória marginal Os girassóis do império que morri

1

Em sentido literário, este "império" é mais vasto e mais originário que 0. Império que camonianamente continuava vivo no poema que, por assim

dizer, no-lo inventou e que será dado como extinto na Mensagem onde só comparece como realidade trans-histórica. Quer dizer, mítica, menos que histórica e mais do que histórica. Entre as estrofes de Os Lusíadas e os ver-

o altar

·• ~~· -ritáfios de Memagem, floriram todas as flores que decoraram

':consagrado ao Império, as rosas de sangue da epopeia e da sua reiteração sem 'surpresas, as violetas discretas da melancolia quando o Império se dissolve na

•memória e na realidade, os roxos lírios da tristeza quando o Império se desfaz

1 Fernando Pessoa, Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1977, pp. 125-126.

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Nmtasmas e Fantasias !mjJeriais 110 !magilzário Português Contemporâneo.

Fantasmas e Fantasias lmpenais no Jmaguwrio ?ortugues contemporaueo

e os póstumos e simbolistas girassóis de Pessoa, transfigurando o fim da nossa

história como Império em império sem fim de sonho de Império. Com Pessoa termina, mudando de estatuto, uma não muito longa mas intensa galáxia poética subdeterminada pela referência e presença do tema - melhor seria dizer obsessão -"Império" no nosso imaginário. Diluído ou ofuscado no seu papel de referente histórico, é como fantasma que ele se apro-

pria ou é apropriado pela poesia portuguesa, como se - à parte a tradicional

vivência erótica- nada mais o pudesse alimentar. A partir de quando passámos

a viver-nos como império perdido e fascinados por essa perdição mais do que

o tínhamos sido pela sua realidade, se exceptuarmos Camões, e, como de luto por ele, Garrett? Podíamos imaginar que a independência do Brasil tinha sido vivida como

um "traumatismo" e que amputados de tanto espaço "imperial" nos tivéssemos

sentido não apenas mais pobres e frágeis em termos de identidade e imagem, como de todo sem motivo para continuar simbolicamente a reclamar-nos ca- monianamente do famoso díptico da Fé e do Império. Mas não foi o caso. O Brasil nunca nos foi espaço imperial, mesmo na hora tardia e breve em que,

muito à portuguesa, por óbvias e vãs razões políticas, sonhámos, a meias, ser

uma nova versão do Império que na realidade nunca tínhamos sido. Mas se o

fôramos, e disso nos lembrávamos nas horas de aflição, essa lembrança foi rei- vindicada pelo Brasil. Ai "postumamente" fomos aquele Império duplamente

perdido. Ou, felizmente, ao menos do nosso ponto de vista, nem isso. Em ter-

mos de "imaginário", nunca nos separámos do Brasil que, independente, mas ainda muito próximo e ligado a nós durante rodo o século XIX, continuou a compensar-nos a pequenez em que recaímos, separando-nos dele e ele de nós. Império, mesmo com roda a ficção que isso comporta, só tivemos um: o do Oriente, o da fndia e só delirámos, não só enquanto lá estivemos a sério mas quando nele estagnámos conservando-o vivo na sua função onírica e nunca

mais intenso do que quando "passou" à História como um momento- para

nós ao menos- inolvidável dela. Há mais de cem anos que não fazemos outra

coisa que estar, revisitar, comemorar, sonhar não as Índias que houve, mas as

que não havia nem podia ter havido, a título de século de prata imperial - e

agora imperialista- que seria o nosso império ultramarino dos fins do século

XIX até ao 25 de Abril, fim de um ciclo pseudo-imperial, só poeticamente- e

raramente - glosado, mitificado como o fora, para sempre, o do Gama e de Albuquerque. O pouco sonho que o neo-império lusitano, subimpério agora no contexto imperial inglês e francês que dominava o mundo, suscitou sonho

- e muito maus versos - por conta do Primeiro e único.

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A nossa famosa "corrida à África", em vez de recamonizar o imagiri.ário

poético nacional só podia acentuar o abismo entre o nosso tempo imperial- o do eterno século XVI - e esse revivalismo imperialista sem meios nem alma para lhe dar análogo esplendor. Alguns, realistas e desesperados ao mesmo tempo, conscientes de desastres futuros mas, sobretudo, aniquilados pela com-

paração com o esplendor antigo, sugeriam mesmo "vender as colónias'', quer

dizer, separar-se, romper de vez, com o onirismo camoniano que tão gloriosa como virtualmente nos dera um Império que só para fuzer "versos deleitosos" ou "dolorosos" servia. O Império teria sido o ópio da nossa História. Todos reconhecemos aqui o eco das famosas "Conferências do Casino", a sua leitura negativa das Descobertas, ou da má leitura dela, o diagnóstico implacável de Oliveira Martins, não só em relação à caricatura imperial do presente como ao próprio império mítico - ironia dolorida de Eça só tarde se lembrando da sal- África como "deus ultra machina". Foi necessário o Ultimatum para que em presença do último ultraje ao coração da mitologia pátria e na eminência fantasmática da sua perda (Eça, Guerra Junqueiro) se descubra no crepúsculo

e sensível de todos os nossos "fantasmas imperiais" um motivo de inspi-

ração, primeiro anedótico, depois mais profundo, a ponto de construir agora ,em função do Ausente, o que apenas na bruma da memória já não o fazia vibrar ,e que a glosa escrita do antigo Império esgotara há muito. Como quem entra na de Noé, em presença de um dilúvio que nos estava apagando se não na me- mória no respeito alheio, os poetas portugueses sobem um a um no novo navio

dos mortos, ou para acabar heroicamente entre chamas como os antigos piratas,

imaginando que, misteriosamente, esse barco os levaria a outras Índias.

Nenhum poema como o "Sentimento de um Ocidental" evocou com tanta originalidade poética e tanta força visionária o nosso estado de país de sonhos alheios - ingleses no comércio, franceses na diversão - como Cesário Mas o que mais sobressai no poema é o seu retrato de um país de :·sonhos fúnebres, amputado de roda a perspectiva do futuro, sem mais di- '' mensão épica que a de uma memória estilhaçada, onde a lembrança imperial ainda acentuando a indigência do presente:

E evoco, então, as crónicas navais:

Mouros, baixeis, heróis, tudo ressuscitado! Luta Camões no mar, salvando um livro a nado! Singram soberbas naus que não verei jamais!'

2 Cesário Verde, O Livro de Cesdrio Verde, Lisboa, Ática, 1945, p. 102.

,.,.,

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I'anta.•:Jmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

A verdadeira vida, na sua apetência épica, só embala filhos destinados às

tormentas.

Já no pós-Império, Lobo Antunes, n'As Naus elevará esta evocação sintéti-

ca de Cesário às proporções de uma sátira grotesca das nossas glórias revistas por Offenback. O Império não faz sonhar mesmo em nostalgia. As Naus são um juízo final. Com Lobo Antunes estamos - definitivamente? - fora

da galáxia poética e ficcional subdeterminada pelo Império, as suas imagens

e miragens. Mas de Cesário até Pessoa- e até mais tarde- é o corpo morto

mas mítico e místico do Império que orienta como bússola visível ou oculta,

o sistema do imaginário pátrio.

Directa ou indirectamente por uma como que imersão naquele referente que quase por metonímia mítica nós associamos à nossa "ex-realidade" de

mas que na verdade (se exceptuarmos Ca-

povo marinheiro e descobridor

mões, sempre) nunca foi, como se diz, uma fixação do nosso imaginário. Re- firo-me ao Mar. Como realidade vivida, sonhada, o Mar nunca nos inspirou. Mas encharcou-nos simbolicamente a partir do momento em que a mesma geração do Ultimatum descobriu que éramos "heróis do mar". Quer dizer, os "heróis do mar" que tínhamos sido e vamos agora ser por culto político e in- teriorização de um tópico épico. Apesar de tudo, mesmo neste novo contexto,

António Nobre é, à sua maneira, "marinheiro". O Mar, o mar real, a vida dos homens do mar, a "rêverie" com fundo de mar, embalou-o e, com mais

verdade (naturalista) do que podia ser a de Camões, "o mar entrou nele e fi- cou", como é lícito dizer, imitando José Régio. Esse mar não é metonímica ou metaforicamente Império ou memória imperial mas estão nele, como ilhas num arquipélago, memórias de império, alusões ao império que por ter sido continua sendo espaço de sonho e História revisitada, horizonte imanente das

viagens consubstanciais ao

Reino de Oiro e amores A beira-mar; 3

onde por acaso o destino nasceu e permanece. A "epopeia" submersa conti-

nua nele viva como lenda e adorno de alma, não como puro destroço:

3 António Nobre, S6, Editorial Verbo, 1983, p. 25.

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~}Fàiztasmase Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

Sou neto de Navegadores, Heróis, Lobos de dgua, Senhores Da fndia, de Aquém e Além-mar! 4

A epopeia converteu-se em jogo e refúgio, mas também reiteração dessa "vida marítima" que é a mais real e simbólica das vidas, onde vida e morte sem cessar se abraçam, morrem, e ressuscitam. Não é imperial nem imperia- lista o mar que em Nobre banha tudo, tão o mesmo e tão outro que os da ''Ode Marítima" e sobretudo de Ricardo Reis "banhando nada". Não está na

- História este mar e o seu implícito rumor de império, está na vida e memória

s populares, muito garrettianamente nas histórias de Carlota, nas rezas pelos vão sobre as águas do mar, ou já lá ficaram, só vivos em cartas atrasadas dos confins do antigo Império,

Coitados daqueles que perdem a filha, Sobre dguas do Mar! 5

maiúsculo, substantivo, princípio e fim de tudo, o seu sonhado repouso virtual:

Quando eu morrer, hirto de mdgoa Deitem-me ao Mar! 6

Lúdico ou trágico, o Mar, com a sua dimensão "heróica", sempre implí-

cita, é a única substância viva do seu imaginário, privado de epopeia real, de

do País perdido (do seu Império mente espera redenção:

) sem Herói e donde só onirica-

Camões! 6 Poeta do Mar-Bravo! Vem-me ajudar

7

Ajudar a quê? A suportar "o insuportável mundo" que é só o mundo mo- barulhento, activo, do Bairro Latino tão outro que o da sua Coimbra

Jbid., p. 25. 5 Ibid., p. 29. 6 Jbid., p. 29. 'Ibid., p. 32.

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ramasmas e ramaszas lmpenats no Jmaginâ;io Português Contemporâneo,

adolescente e, sobretudo, tão outro que o da sua infincia de "menino num mundo provincial onde a Lua, o Sol e as estrelas se prestavam à sua "jonglerie" divinamente infantil. A Lua, o Sol e as estrelas circunscre- veram sempre o seu céu, mas para o exílio pátrio cedo assimilado a perdido" não havia consolação mais a que de se supor o Pedro-Sem de tanta perdição e da própria Perdição convertida em pátria:

Moço Lusíada! criança! Porque estds triste, a meditar?

Vieram as rugas, nevou-me o cabelo Qual musgo da rocha

·······································

Vês teu país sem esperança Que todo alui, à semelhança Dos castelos que ergueste no Ar?'

É tão deliberadamente familiar, nardsica, esta inscrição do seu "onloon" que nada parece ligá-la à mais larga e funda história de portugueses sem algum onde ancorar o antigo navio do sonho. Mas é disso mesmo que

trata: é a história "familiar" que como num "puzzle" vem por bem consciente

visão do poeta, inscrever-se no nosso insconsciente imperial, fiado agora de avesso, aquele a partir do qual Nobre se baptiza como Pedro-Sem:

Fiquei pobrezinho, fiquei sem quimeras, Tal qual Pedro Sem, Que tevefragatas, que teve galeras,

Que teve e não tem

9

Transfiguradas, servindo ao mesmo tempo como traços da sua aventura pessoal mais íntima e quotidiana e como signos intermitentes da nossa ar- quetípica aventura imperial, terminada no tempo e vivaz na memória, essas imagens, vestígios crepusculares da Epopeia morta, terminada ou impossível, boiam como estrelas cadentes entre o espaço da nostalgia de alma e de Histó- ria que é a poesia de Nobre. Onde tudo se vive como sonho, mesmo aMor-

" Ibid., pp. 34-35. 9 Ibid., p. 34.

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?!fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

que os dissolve todos. Como todas as vivências de Nobre a do fantasma imperial não destoa, antes apela, como uma outra forma de Morte, ao fim e cabo menos dolorosa que a verdadeira, para a sua conversão lúdica como forma de a manter à distância. De uma outra ordem é o perfume do Império que impregna, não apenas decoração sublimada ou sublime, a evocação da epopeia morta, mas embala nela como seu murmúrio quase inaudível mas inextinguível. Da

"inexistência" do Império vivida como luto e lancinante ausência, como tal

:assumida e bem amada, é a poesia de Camilo Pessanha, a mais depurada se a mais pura da nossa língua, o espelho único. Talvez não se precisasse mas bem o poeta-intercessor a quem devemos, afinal, a existência de Clepsidra em lembrar que "o país perdido" evocado em "Inscrição" que precede a série sonetos era, sem dúvida alguma, (não como já se interpretou) um país [perdido no longe ou na fantasia, mas o país em que nascera- "Portugal". Tem João de Castro Osório em supor "Portugal", precisamente o Portugal- ,Império, não apenas perda histórica consumada, mas figura de uma perdição embebe em Camilo Pessanha a existência inteira ou o seu sentido. Não metafísica ou filosoficamente, como Antero, mas sensorialmente como

,i_não-vida, assimilada ao seu grau mais nulo, mas "vivo", o de verme, aqui nada

!metafórico à maneira de Camões, mas imagem de auto-anulação suprema:

Eu vi a luz em um país perdido. A minha alma é languida e inerme. Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chiio sumir-se como foz o verme

10

Separado do conjunto dos poemas a que serve de pórtico esta "Inscrição" ler-se como mera expressão de doença de alma a braços com uma .depressão profunda, íntima, de puro recorte psicológico, uma entre outras ';Çaracterísticas da constelação simbolista, toda ela sob o signo da Depressão e Decadência, finissecular ou não, que José Seabra Pereira exaustivamente

1~recenseoue comentou. Também Clepsidra se "inscreve" entre nós nessa cons-

\'-'

::lação-

é mesmo a sua quinta-essência poética- mas, como nenhuma outra,

sua visão da vida como pura perda, como inanidade não sonora mas cruci- :ficante, foi a interiorização mais subtil desse Império submerso que, como o

10 Camilo Pessanha, Clépsidra e Outros Poemas de Camilo Pessanha, Lisboa, Ática, 1969, p.

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Fantasmas e Fantasias imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

de T étis continuava, agora como fantasma, a rodear as águas do nosso Desejo sem mais matéria que a nostalgia do seu esplendor. O mais vivido e sentido desses "sonhos" é evocado sob a égide de São Gabriel, arcanjo e nome de nau, aceno para a futura remitologização do passado imperial operada por

sagem. Ai se misturam, mas não "intercessionisticamente", à Cesário, numa

íntima confusão de tempos, a efusão possível em tons vagamente heróicos e a constatação de sonho cansado que só um milagre pode ressuscitar:

Inútil! Calmaria. jd colheram

As velas. As bandeiras sossegaram, Que tão altas nos topes tremularam.

- Gaivotas que a voar desfoleceram.

Pararam de remar! Emudeceram!

(Velhos ritmos que as ondas nos embalaram) Que cilada que os ventos não armaram!

A que foi que tão longe nos trouxeram?

São Gabriel, arcanjo tutelar, Vem outra vez abençoar o mar. Vem-nos guiar sobre a planície azul.

Vem-nos levar à conquista final Da Luz, do Bem, doce clarão irreal Olhai! Parece o Cruzeiro do Sul! 11

O Pessanha de "S. Gabriel" escutou Nobre, parece até mais futurante do que ele - ao menos aqui - aludindo a um Bem consolador na sua irrealidade mesma e esperando ainda do "anjo" e da mais clássica mitologia nacional, ainda de todo não laicizada, o que Pessoa confiará só como a símbolos-mitos . heróis de uma outra navegação:

Vem conduzir as naus, as caravelas. Outra vez, pela noite, na ardentia, Avivada das quilhas. Dir-se-ia Irmos arando em um montão de estrelas.

"Ibid., pp. 181-82.

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~Yp(Jfífasmase Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

Outra vez vamos! Côncavas as velas, Cuja brancura, rútila de dia O luar dulcifica. Feeria Do Luar não mais deixes de envolvê-las!

Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa Que do além vapora, luminosa, E à noite lactescendo, onde, quietas,

Fulgem as velhas almas namoradas -Almas tristes, severas, resignadas, De guerreiros, de santos, de poetas. 12

Da heraldização do nosso imaginário do revivalismo romãntico convertido Simbolismo, do que nele foi reciclado como quinquilharia "imperial" tam- Pessanha - como, de outro modo, Sá-Carneiro e o mesmo Pessoa - foi

'tributário. Mas distingue-se a sua visão de banal "neogarrettismo", ou música

neoglosada sem cansaço pelas pseudo-epopeias do nacionalismo sem ::interioridade - às vezes, sem poesia alguma- pelo seu sentido, quase físico da f,mulidade, ou talvez melhor, da diafaneidade das coisas, da sua como que fos- [\forescente essência, como se fossem sonhos materiais. Nada é conceptualizado Pessanha, tudo é sonhadamente percepcionado e vivido, como ele vive a relação com o momento, duplamente inscrito na eternidade e no nada.

'."J:'essoa nunca ultrapassou este "toque", esta vacuidade que nele é pura música,

só a música, em última análise, configura. Pessanha nunca estd senão como despedindo-se do lugar tocado e abandonado, vivendo a viagem - a viagem para o seu Oriente e a sua de vivente- como uma fuga, à maneira de Bach, fim, embora a forma poética em que no-la deixa antever seja mais próxi- da poética de Chopin, de gotas de nada caindo sobre a luz, de gotas de luz i/aspiradas pelo nada. Os famosos versos, os mais populares da sua poesia,

Imagens que passais pela retina Dos meus olhos, porque não vosfixais? Que passais como a dgua cristalina Por uma fonte para nunca mais!

13

" lbid., pp. 183-84.

" Ibid., p. 207.

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Fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo'

ftliátit"asmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

tematizam esse "heracliteanismo" espontâneo do seu sentir mas ilustram

a sua bem mais profunda e original vivência da temporalidade, aquela que um dia Pessoa evocará como um "rosário de pérolas sem fio dentro". Como se saíssem do nada e a ele voltassem, plenas na sua fosforescência efémera,

como os

absoluta consumpção, está inteiro no soberbo poema "Escala". É o mais imperial dos nossos sonhos sem império ou indiferente à sua realidade:

Oh! regressar a mim profundamente

E ser o que jd fui no meu delírio

- Vd, que se abra de novo o grande lírio,

Tombem miosótis em cristal e Oriente!

Cinja-me de novo a grande esperança,

Seixinhos da mais alva porcelana, Conchinhas tenuamente cor de rosa, 14

que, rumo às Índias reais, o viajante espectral detalha sob a fria transparência luminosa das águas. Tudo em Camilo Pessanha fala do império submerso, mesmo o mais acidental e é também nele que se inscreve a paradoxal euforia onírica de tudo que a idealização heróica lhe suscita, o Ouro que ficará tudo, como em Sá-Carneiro, pouco dado a revivalismos imperiais:

Tatuagens complicadas do meu peito

- Troféus, emblemas, dois leões alados

"

E de novo me timbre a grande Lua!

Eia! que empunhe como outrora a lança

E a espada de astros - ilusória e nua!

Que me nimbe de novo a auréola jiitua Tirano medieval de Oiros distantes.

E o Príncipe sondmbulo do Sul

O Doge de Venezas escondidas,

O que em Camilo Pessanha parece só "lixo imperial", simbologia

O chaveiro das Torres poluídas,

nunca esquecida de "ruínas, sepulturas" raras, é em Sá-Carneiro, pura

em futuros alheios a qualquer tempo ou espaço, mesmo de fantasia. São nas ele mesmo como Império, epopeia narcísica "acastelando em Espanha", como ele diria,

Herdldico de mim Transponho liturgias

16

O mítico Rajd de Índias de tufe-

Me erga imperial, era pasmo e arrogdncia,

Pierrot de fogo a cabriolar Distdncia.

Que nada mais te importe. Ah! segue em frente Ó meu Rei-lua o teu destino dúbio:

Todo futurante, Sá-Carneiro não podia cultivar nostalgias, nem utopias de nenhum Império, mesmo metafórico, que tivesse perdido. Todo o seu im- pério lhe era uma fantasmagórica infância de onde ninguém o podia expul- sar, nem preservar, se não saltando dela, directamente, para a morte. O que fez, com funarnbulesca coragem. O que foi de "império" entre a infância Lord de domésticas Escócias, apoteose final, concebida como ritual de

"Ibid., p. 197. "Ibid., p. 185.

E sê o timbre, o oiro, o eflúvio,

O arco, a zona- o Sinal de Oriente! 17

O que para Sá-Carneiro foi vivido como fantasmagoria alada, império "oniricarnente erguido aos seus sonhos de dúbio, também neste plano masca~ foi para o seu amigo Pessoa, vivido império perdido, não como perdido, habitado e revisitado, e sobretudo, insepulto, ou antes, oculto, à espera da sua para que novos lusíadas pudessem ser escritos e de que os de Camões sido só a confusa antemanhã. Por demais se crê conhecer e por vezes,

.,

39

16 Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Vol. II de Obras Completas de Mdrio de Sd-Carneiro, Lisboa, Atica, 1978, p. 89.

38

"Ibid., pp. 116-18.

Fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

até, reduzir Pessoa ao sumo cantar do mítico Quinto Império. É a "tarte la créme" do nosso hiper-nacionalismo que é, a maior parte das vezes, sianismo banal ao serviço de uma incompreensão sistemática do universo Pessoa, no fundo e na forma. Já o nosso Épico fora diluído nas águas turvas desse nacionalismo sem universalidade nem verdade, e para se libertar (e nos libertar dele) se desejou Pessoa um "super-Camões". Também o não conse- guiu. A Pátria cultural onde por acaso nasceu - como ele dizia sibilinamente - não o consentiu. E para os séculos dos séculos, ao lado de Camões, ficará também ele, tão consciente do "esplendor nenhum da Vida" (do que os in- conscientes dela a supõem), como o supremo "cantor do Império". Foi-o como transcensor do que historicamente assim chamamos e por tê- -lo sido nos incorporou à cultura universal, à cultura não-idolátrica da raça, do sangue, do povo, da nação que também somos quando não somos mais que isso. As "malhas do Império" que existiu e por existir, nos fez sair do nós "ocidental", consagrou as familiares lágrimas do mais popular- ele tão im- popular- dos seus poemas breves. Ao sonho de um Império que nos tornaria como deuses se existisse, dedicou uma epopeia virtual, por excesso lembrada de versos antigos. Não é aí que o "sintagma" Império deixou os traços mais emblemáticos, aqueles onde a sua transfiguração se encarna, aquela onde em sentido próprio, navegamos a antiga aventura marítima em termos de memó- ria, de vida moderna e de aventura de alma (da alma moderna perdida no mar de Deus mais do que no da realidade) a que simbolicamente consagrou a sua vigília de insone. O corpo místico desse Império está todo contido entre as

estrofes marítimas, oceânicas, da "Ode" não menos marítima e oceânica, e os

misteriosos e sublimes sonetos da Nova Gnose, que através deles se converteu no girassol de Deus com a noite no meio como a girassóis convém:

Fosse eu apenas, não sei onde ou como, Uma coisa existente sem viver,

Noite de Vida sem amanhecer Entre as sirtes do meu doirado

Fada maliciosa ou incerto gnomo

Fadado houvesse de não pertencer Meu intuito glorio/a com ter

A drvore do meu uso o único pomo

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Wt'â11Jasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo

Fosse eu uma metdfora so'mente

Escrita nalgum livro imubsistente Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente, e, num crepúsculo de espadas, Morrendo entre bandeiras desfraldadas Na última tarde de um império em chamas

18

Talvez o halo decadentista que banha "Passos da Cruz" lhe fosse necessário viver como seu um império que só podia sonhar com as cores da morte apoteótica para poder, em seguida, nietzcheanamente, ressuscitá-lo. "Só os

::,túmulos conhecem as ressurreições". Ou evangelicamente: "só o grão não

,-morre

". Os "girassóis do Império" pessoano são a vida no interior da morte

a morte no coração da vida.

18 Fernando Pessoa, Poesias, 11. a ed., vol. I de Obras Completas de Fernando Pessoa, Lisboa,

1980, pp. 47-8.

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