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PODER JUDICIÁRIO FEDERAL JUSTIÇA DO TRABALHO TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 1ª REGIÃO Gab Des

PODER JUDICIÁRIO FEDERAL

JUSTIÇA DO TRABALHO

TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 1ª REGIÃO

Gab Des Jose da Fonseca Martins Junior Av. Presidente Antonio Carlos, 251 6o andar - Gab.46 Castelo Rio de Janeiro 20020-010 RJ

PROCESSO: 0001266-22.2011.5.01.0054 RECURSO ORDINÁRIO

ACÓRDÃO

9ª Turma

RECURSO ORDIN ÁRIO. MOTORISTA DE Ô NIBUS.

ACÚMULO COM AS FUN ÇÕ ES DE COBRADOR.

SAL ÁRIOS DISTINTOS VERSUS ACRÉ SCIMO

SALARIAL. HIP Ó TESES DIVERSAS. ANALOGIA.

1)Deve o ac úmulo de fun çõ es ser interpretado como

forma de desequil í brio entre as atribui çõ es inicialmente

previstas no contrato de trabalho e aquelas

posteriormente exigidas ao empregado, quando este é

obrigado a executar tarefas estranhas à previsã o

contratual ou de natureza totalmente diversa das

funçõ es para as quais foi contratado o laborista,

gerando o enriquecimento sem causa do empregador,

que se beneficia com a execu çã o de tarefas estranhas

ao pacto laboral, sem a devida contrapresta çã o

pecuni á ria, impondo­se deferir ao laborista o

pagamento de um plus salarial.

2) Considerando­se que a r é pretende em seu apelo

apenas a reforma da r. decis ã o a quo, para expungir da

condenaçã o o pagamento do piso salarial do Cobrador,

nã o pode esta Corte, sob pena de nulidade (CPC,

artigos 128 e 460), deferir pedido diverso daquele que

lhe foi formulado, impondo­se rejeitar a pretens ã o

recursal.

Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de RECURSO ORDIN ÁRIO em que

s ão partes TRANSPORTES BARRA LTDA. como recorrente e ROG É RIO DELFINO DE OLIVEIRA

como recorrido.

Inconformada com a r. senten ça de fls. 332/335, complementada pela r. decis ã o de

embargos de declara çã o de fl. 340, proferidas pela Exma. Ju í za Dra. Ká tia Emí lio Louzada, da MMª

54ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, que julgou parcialmente procedentes os pedidos contidos na

exordial, recorre ordinariamente a r é à s fls. 342/351.

Pretende a recorrente a reforma da r. senten ç a a quo, para ser expungido o

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Gab Des Jose da Fonseca Martins Junior Av. Presidente Antonio Carlos, 251 6o andar - Gab.46 Castelo Rio de Janeiro 20020-010 RJ

PROCESSO: 0001266-22.2011.5.01.0054 RECURSO ORDINÁRIO pagamento de horas extras, deferidas segundo a jornada de trabalho declinada na inicial, sob a

alegaçã o de que esta apresenta hor á rios diversos.

Afirma que n ã o foram estabelecidas precisamente as jornadas de trabalho deferidas

e defende a ado ção daquelas consignadas nas Guias Ministeriais, ao argumento que a r. decis ão

recorrida reconheceu que aqueles documentos deixavam de consignar apenas os per íodos de 10

(dez) a 20 (vinte) minutos anteriores ao in í cio de cada jornada e de 30 (trinta) a 35 (trinta e cinco)

minutos ao final daquelas, quando era realizada a presta ção de contas, fixando um acr é scimo de 15

(quinze) minutos para tal atividade.

Requer, finalmente, sejam deduzidos os per í odos de 15 (quinze) a 20 (vinte) minutos

consignados nas Guias Ministeriais ao final de cada jornada, para a presta çã o de contas, em raz ã o

da ado ção da jornada da exordial, por considerar que esta é excessiva e n ã o corresponde à quelas

efetivamente laboradas.

Finalmente, requer a recorrente seja exclu ído da condena ção o pagamento do piso

salarial de Cobrador e sua integra çã o à s parcelas contratuais quitadas durante todo o contrato de

trabalho e nas verbas resilit ó rias.

Depó sito recursal e custas à s fls. 352 e 354.

Contrarrazõ es do autor à s fls. 356/358.

Sem manifesta ção do douto Minist é rio P úblico do Trabalho, nos termos do que dispõ e

o Of í cio PRT/1ª Região nº 27/08­GAB, de 15 de janeiro de 2008.

É o relató rio.

CONHECIMENTO

V O T O

 

Conhe ç o

do

recurso

ordin á rio

da

r é ,

por

preenchidos

os

pressupostos

de

admissibilidade.

 

MÉ RITO

HORAS EXTRAS ­ JORNADA DE TRABALHO – DEDU ÇÃO DOS MINUTOS

ACRESCIDOS NAS GUIAS MINISTERIAIS NO IN Í CIO E AO FINAL DE CADA

JORNADA, PARA PRESTA ÇÃO DE CONTAS

Pretende a recorrente seja reformada a r. senten ça a quo, para ser expungido o

pagamento de horas extras, deferidas segundo a jornada de trabalho declinada na inicial, sob a

alega çã o de que esta apresenta hor á rios diversos.

Afirma que n ã o foram estabelecidas precisamente as jornadas de trabalho deferidas

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PROCESSO: 0001266-22.2011.5.01.0054 RECURSO ORDINÁRIO

e defende a ado ção daquelas consignadas nas Guias Ministeriais, ao argumento que a r. decis ão

recorrida reconheceu que aqueles documentos deixavam de consignar apenas os per íodos de 10

(dez) a 20 (vinte) minutos anteriores ao in í cio de cada jornada e de 30 (trinta) a 35 (trinta e cinco)

minutos ao final daquelas, quando era realizada a presta ção de contas, fixando um acr é scimo de 15

(quinze) minutos para tal atividade.

Requer, finalmente, sejam deduzidos os per í odos de 15 (quinze) a 20 (vinte) minutos

consignados nas Guias Ministeriais ao final de cada jornada, para a presta çã o de contas, em raz ã o

da ado ção da jornada da exordial, por considerar que esta é excessiva e n ã o corresponde à quelas

efetivamente laboradas.

Nã o lhe assiste razã o.

Com efeito, tendo o autor impugnado os documentos colacionados pela r é , atraiu

para si o ô nus da prova quanto à s suas alega ções, do qual se desincumbiu satisfatoriamente, a teor

do que lhe impunham os artigos 818 da CLT e 333, inciso I, do CPC, ao produzir prova testemunhal

cabal ao convencimento do ju í zo de primeiro grau, que reputou eficaz o depoimento da presencial,

para elidir a contesta ção em rela çã o a todo o contrato de trabalho e deferir o pagamento das horas

extras efetivamente laboradas, assim consideradas aquela que ultrapassaram a 7ª (s é tima) diá ria ou

a 42ª (quadrag é sima segunda) semanal, bem ainda seus reflexos nas presta ções contratuais e

resilit ó rias.

Por essa razã o improcede o argumento da recorrente, de que as Guias Ministeriais

devem ser consideradas v á lidas, para fins de comprova çã o da jornada de trabalho do autor.

Entretanto, embora exigidas pelo Minist é rio do Trabalho, referidas Guias n ão

substituem os controles de frequ ê ncia, salvo se a outra parte concordar com a idoneidade de seus

registros, o que n ão se verificou na hip ó tese dos autos.

Por outro lado, n ã o há que se falar em dedu çã o de 15 (quinze) a 20 (vinte) minutos

consignados nas Guias Ministeriais, para efeito de presta ção de contas, uma vez que tais

documentos foram impugnados e adotada a jornada de trabalho apontada na exordial, corroborada

que foi pela prova testemunhal produzida pelo autor recorrido.

Destarte, considerando­se que a r é n ão colacionou aos autos as escalas de servi ç o

(controles de frequ ência) e que o autor impugnou todos os documentos colacionados aos autos,

atraiu para si o ônus da prova do direito alegado, conforme lhe impunham os artigos 818 da CLT e

333, inciso I, do CPC, do qual se desincumbiu satisfatoriamente atrav é s da oitiva da testemunha por

ele trazida a ju í zo, cujo depoimento se encontra acostado a fl. 329, impondo­se confirmar a r. decis ã o

de primeiro grau, neste particular.

Nego provimento.

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PROCESSO: 0001266-22.2011.5.01.0054 RECURSO ORDINÁRIO MOTORISTA DE Ô NIBUS ­ AC ÚMULO COM AS FUN ÇÕ ES DE COBRADOR ­

SAL ÁRIOS DISTINTOS VERSUS ACRÉ SCIMO SALARIAL ­ HIP Ó TESES

DIVERSAS ­ ANALOGIA

Pugna a demandada recorrente, para seja exclu í do da condena çã o o pagamento do

piso salarial de Cobrador ao autor e sua integra ção à s parcelas contratuais, quitadas durante o

contrato de trabalho e nas verbas resilit ó rias.

Nã o lhe assiste razã o.

Com efeito, informou o autor na exordial que foi admitido em 18 de agosto de 2005,

para exercer as fun çõ es de Cobrador, sendo promovido a Motorista J ú nior em 5 de setembro de 2005

e a Motorista de Coletivo em 1º da maio de 2007, em que pese sempre ter acumulado as fun ções de

Motorista e de Cobrador em todas as linhas nas quais laborou, com exce çã o da linha 241, o que lhe

gerou sobrecarga de trabalho e um al í vio financeiro para a r é , motivo pelo qual pleiteou o pagamento

de um plus salarial, em valor a ser arbitrado pelo ju í zo.

Enquanto isso, a r é se defendeu alegando que n ã o havia ac ú mulo de fun çõ es, pois o

recebimento das passagens estaria inclu ído entre as fun çõ es do Motorista, consoante previs ão

contida na Classifica ção Brasileira de Ocupa ção (CBO nº 7824), a qual prev ê que este profissional é

respons á vel pelo controle de entrada e sa í da de passageiros, o que tamb é m encontraria previs ã o na

conven çã o coletiva de trabalho da categoria, a qual prev ê o exerc í cio cumulativo de tais fun çõ es pelo

Motorista J ú nior. Note­se que o recorrido foi promovido para exercer estas fun ções ­

Motorista Jú nior e Cobrador ­, no m ê s seguinte ao de sua contrata çã o, sendo incontroverso nos autos

que efetivamente exerceu as fun ções de Motorista acumuladas com as de Cobrador, nos ve í culos

que dirigia, os quais n ão contavam com o trabalho de um profissional espec í fico, para cobrar a

passagem dos usu á rios.

Forç oso observar que esta mat é ria traz em seu bojo, no dizer do ilustre Magistrado,

hoje convocado pelo E. TRT da 3ª Regi ão Dr. Oswaldo Tadeu Barbosa Guedes, “uma das questõ es

jurí dicas mais controversas e tormentosas da seara do Direito do Trabalho … a mat é ria relativa ao

acú mulo de fun ções ou desvio de fun çõ es”, cabendo ao aplicador do direito desempenhar a

espinhosa tarefa de definir, caso a caso, se ocorre ou n ão o ac ú mulo ou o desvio de fun çõ es, sendo

certo que nesse trabalho exeg ético diferentes dispositivos legais ser ão, muitas vezes, aplicados por

analogia, para fixar o percentual de majora ção salarial a ser deferido ao laborista, no caso de

reconhecimento do direito, sem perder de vista que este n ão é fixado por lei para todas as categorias

profissionais.

Nesse passo, vem a cotejo o posicionamento jurisprudencial adotado por diversos

Regionais, inclusive este Primeiro, conforme v. arestos ora transcritos, os quais se encontram

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PROCESSO: 0001266-22.2011.5.01.0054 RECURSO ORDINÁRIO ementados nos seguintes termos, verbis:

“MOTORISTA DE ÔNIBUS. AC Ú MULO DE FUN ÇÃ O DE COBRADOR. DIFERENÇ AS SALARIAIS. Entende­se devida, a t ítulo de complementa ção salarial pelo ac úmulo de fun ções de motorista e cobrador, o percentual de 20% sobre o sal ário pago aos motoristas, durante todo o pacto laboral; devendo tal parcela integrar a base remunerat ória do obreiro para todos os efeitos legais, com os reflexos postulados na inicial.” (TRT­RO­0001126­ 75.2010.5.01.0004, 9ª Turma, Relator Desembargador Rogério Lucas Martins, julgado em 6/12/2011).

“M ÉRITO AC Ú MULO DE FUN ÇÕ ES / PLUS SALARIAL (MAT ÉRIA COMUM AOS RECURSOS) Alega o reclamante em sua inicial que foi contratado apenas como motorista profissional em 09.05.1989, e em fevereiro de 2009, passou a acumular a função de cobrador, sem nenhum treinamento espec ífico ou termo aditivo ao contrato de trabalho, fazendo jus a um plus salarial correspondente ao piso da segunda fun ção exercida. E, em suas raz ões recursais, sustenta ser proporcional e razo ável a reforma do plus de 10% para 30% do valor do piso de motorista ou 60% do valor do piso da função de cobrador. Por sua vez, a reclamada se defende aduzindo que “por for ç a de contrato escrito e norma coletiva, compunham seu feixe de atribui ções contratuais a condução do ve ículo e a cobran ç a das passagens, sem direito a qualquer adicional salarial por essa raz ão, como disp õem as pr óprias conven ções

coletivas.” Ressalta que estaria ínsito ao contrato de trabalho, a obriga ção de trabalhar em todos os tipos de servi ç o executados pela R é, que opera linhas

e carros com e sem cobrador. E mesmo que n ão estivesse, na falta de

disposição em contr ário, seria aplic ável a regra do art. 456, par ágrafo único, da CLT, n ão havendo incompatibilidade entre as atribui ções de motorista e

cobrador.”

O juízo a quo assim decidiu:

“Do acúmulo de função (…) Um empregado contratado em 1989 como motorista profissional n ão pode ser obrigado a cumular a fun ção de cobrador em 2009, vinte anos após ter trabalhado sempre como motorista. Trata­se, por

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certo, de altera ção prejudicial de seu contrato de trabalho, vedada pelo artigo 468 da CLT. Tratando­se de direito assegurado por lei, afasta­se a prescri ção quinquenal, prevalecendo a parcial. A previs ão inserta em norma coletiva abrange os contratos novos, mas não atinge o contrato do autor, respaldado pelo artigo 468 da CLT. Assim, como arrimo no artigo 460 da CLT, defere­se o acr éscimo salarial que ora se fixa em 10% (dez por cento), a partir de fevereiro de 2009. Como corol ário deferem­se as diferen ç as de 13º sal ários do per íodo, f érias do período, acrescidas do ter ç o constitucional e FGTS, este a ser depositado.”

Coaduno com tal entendimento. Independentemente de haver ou n ão permissivo na Conven ção Coletiva, o reclamante durante vinte anos laborou apenas na condição de motorista, sem acumular a função de cobrador. Pequenas alterações nas fun ções contratuais s ão admitidas e plenamente

v álidas, sendo o jus variandi moderado uma das causas da grande

vitalidade do contrato de trabalho e, sem sombra de d úvidas, um elemento em prol de sua perman ência. Todavia, no caso, s ão duas fun ções totalmente distintas que foram integralmente agrupadas, beneficiando apenas o empregador, com a redu ção de custo de um posto de trabalho sem qualquer benefício para o motorista. O sinalagma foi quebrado. Entendimento que pode ser observado nas decisões abaixo:

MOTORISTA DE ÔNIBUS. AC Ú MULO DE FUN ÇÃ O DE COBRADOR. DIFEREN Ç AS SALARIAIS. Entende­se devida, a título de complementa ção salarial pelo ac úmulo de fun ções de motorista e cobrador, o percentual de 20% sobre o sal ário pago aos motoristas, durante todo o pacto laboral; devendo tal parcela integrar a base remuneratória do obreiro para todos os efeitos legais, com os reflexos postulados na inicial.” (TRT­1ª Regi ão­RO­0227400­ 42.2009.5.01.0226 – publicada em 23/9/2011, 9ª Turma – Relator Desembargador Rogério Lucas Martins)

“RECURSO ORDIN Á RIO. MOTORISTA DE COLETIVO. DUPLA

as

FUN ÇÃ O.

passagens torna o reclamante um cobrador, al ém de motorista,

É

óbvio que

o fato

de dirigir

o ve ículo e cobrar

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ainda que dentro da mesma jornada, havendo altera ção contratual ilegal, j á que o acr éscimo das fun ções n ão gerou a contrapresta ção respectiva, violando o disposto no art. 468, da CLT. A cl áusula normativa que autoriza o ac úmulo das fun ções de cobrador e

motorista diz respeito à categoria de motorista j únior ­, institu ída com

o objetivo de incentivar o desenvolvimento profissional dos

cobradores que possuem carteira nacional de habilita ção, modelo D, destinada exclusivamente, para a condu ção de ve ículos tipo micro ônibus, mini ônibus, vans e similares – conforme os termos da

cl áusula segunda da CCT de fls.93 e ss. Previs ão que n ão se aplica

ao

reclamante, tendo em vista o cargo para o qual foi contratado e

no

qual permaneceu durante todo o contrato de trabalho mantido

com a empresa­r é, sem sofrer qualquer altera ção.” (TRT–1ª Regi ão­ RO­0012700­19.2008.5.01.0052 – publicada em 28/5/2009 – 8ª Turma – Relator Desembargador Alberto Fortes Gil).

Outrossim, ainda se assim n ão fosse, as cl áusulas contratuais ben éficas somente poderão se suprimidas caso suplantadas por norma posterior mais favorável, mantendo­se intocadas, ainda que diante de subsequente alteração menos vantajosa, seja por regulamento de empresa ou conven ção coletiva, como corol ário do princ ípio da cl áusula mais ben éfica e da regra de inalterabilidade contratual lesiva, característica do Direito do Trabalho (art. 468 da CLT). Assim, entendo que não há reparos a fazer na sentenç a, nesse aspecto. Quanto ao valor fixado pelo ju ízo a quo (10% por cento), entende o reclamante ser devida sua majora ção para 30% do valor do piso de motorista ou 60% do valor do piso da função de cobrador. In casu, n ão havendo estipulação do plus a ser pago no caso de ac úmulo de funções, motorista e cobrador, entendo que justo e razo ável, considerando que a função de cobrador é residual, o percentual de 40% do valor do piso da função de cobrador. Assim, nego provimento ao recurso da reclamada e dou provimento parcial ao do reclamante para majorar de 10% para 40% do piso do cobrador, o plus salarial deferido na senten ç a e ora mantido em grau recursal.” (TRT­1ª Regi ão­RO­0001235­37.2011.5.01.0204, 7ª Turma, Relatora Desembargadora Sayonara Grillo Coutinho Leonardo da Silva, julgado em 12/12/2012)

“MOTORISTA E COBRADOR DE TRANSPORTE URBANO. AC Ú MULO DE

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FUN ÇÕ ES CARACTERIZADO. DIFERENÇ AS SALARIAIS DEVIDAS. Em que pese os misteres de cobrador não exigirem maior qualificação, todavia, a particularidade do caso exige reflexão. O motorista de ônibus exerce função deveras estafante e estressante, considerando­se o caos usual do tr ânsito nas grandes cidades, a exigir redobrada atenção na condução do veículo, no cumprimento das regras de tr ânsito, na devida observância a regras e atenção ao tr áfego em si e na responsabilidade pela condução em seguranç a dos passageiros. Assim, mais que justificado o acréscimo salarial pela cumulação das funções de cobrador de modo a contemplar considerável sobrecarga às atividades j á exercidas como motorista. H á outrossim, nítido desequilíbrio na natureza comutativa e onerosa da relação de emprego, aumentando a carga de servi ç o do empregado e elevando a margem de lucros da empresa com a "economia" na contratação de cobradores. A evidência fática do plus funcional exercido, frente à particularidade da categoria envolvida, requer a devida reparação remuneratória, com esteio nos artigos 8º e 460 da CLT. Procedem, assim, as diferenç as salariais por acúmulo de função, devendo ser mantida a condenação, no particular.” (TRT­ 2ª Regi ão­RO­0019000­92.2010.5.02.0312 – 4ª Turma ­ Relator Desembargador Ricardo Artur Costa e Trigueiros – Revisor Desembargador Ivani Contini Bramante, julgado em 01/3/2011, publicado em 18/3/2011).

“AC Ú MULO / DESVIO DE FUN ÇÕ ES. CARACTERIZA ÇÃ O. No que pertine à mat éria relativa ao acúmulo ou desvio de funções, esta é uma das questões jur ídicas mais controversas e tormentosas da seara do Direito do Trabalho, eis que a lei trabalhista n ão a regulamenta plenamente, deixando ao aplicador do direito a espinhosa tarefa de definir, caso a caso, se ocorre ou não o referido ac úmulo ou desvio, aplicando, muitas vezes, por analogia, diferentes dispositivos legais, a fim de fixar o percentual de majoração salarial devido no caso do efetivo ac úmulo ou desvio de atribui ções, o qual tamb ém não é fixado por lei para todas as categorias profissionais. No entanto, h á uma norma que, ainda que de car áter abstrato, serve de norte geral para a apreciação da mat éria. Com efeito, a teor do art. 456, par ágrafo único, da CLT, à falta de prova ou inexistindo cl áusula expressa a tal respeito, entender­se­á que o empregado se obrigou a todo e qualquer servi ç o compatível com a sua condi ção pessoal. O ac úmulo de fun ções pode ser entendido, portanto, como um desequil íbrio entre as atribui ções inicialmente previstas no contrato de trabalho e aquelas posteriormente exigidas pelo empregador, na hip ótese em que este obriga o empregado a executar tarefas

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estranhas à previs ão contratual ou de natureza totalmente diversa da fun ção para a qual foi contratado, gerando assim o enriquecimento sem causa por parte do empregador, que se beneficia com a execu ção de tarefas estranhas ao contrato de trabalho, sem a devida contrapresta ção pecuni ária.” (TRT­3ª Região RO­0000081­24.2012.5.01.0032, 3ª Turma, Relator Juiz Convocado Oswaldo Tadeu Barbosa Guedes). (todos os julgados foram colhidos no site das respectivas E. Cortes em 22/5/2013)

Ademais, conforme entendimento esposado pelo ju í zo a quo na r. decis ão recorrida,

ainda que houvesse autoriza çã o expressa do autor ou permissivo contido na conven ção coletiva da

categoria, a acumula çã o de fun çõ es de Motorista com as de Cobrador imp õ e condenar a r é a pagar o

piso salarial do Cobrador e integrar as respectivas diferen ç as nas parcelas contratuais e resilit ó rias,

por beneficiar o empregador, aumentando sua margem de lucro e acarretar manifesto preju í zo ao

trabalhador.

Independentemente de haver ou n ão previs ão na conven çã o coletiva da categoria, é

certo que as fun ções de Cobrador n ão guardam qualquer rela ção com as de Motorista. Na verdade

estas fun çõ es mostram­se incompat í veis, na medida em que a tarefa de receber o pagamento das

passagens inclui a confer ência e a guarda de valores, demandando por v á rias vezes efetuar c á lculos

diversos para fornecer trocos, al é m de liberar e acompanhar visualmente a passagem do passageiro

pela roleta, acarretando tais atividades evidente tens ão nos Motoristas, o que lhes dificulta manter a

dire ção do veí culo e coloca em risco a seguran ç a dos passageiros.

Logo, o exerc í cio concomitante das fun ções de Motorista e de Cobrador somente

beneficia o empregador, que deixa de pagar qualquer acr é scimo salarial àquele primeiro, al é m de se

beneficiar com a redu çã o dos custos de um posto de trabalho, sendo certo existir previs ã o de piso

salarial diferenciado para as fun çõ es de Cobrador, Motorista J únior e Motorista de Coletivo, conforme

instrumentos coletivos da categoria profissional acostados à s fls. 154/159 e 209/236.

Destarte, tendo o autor sido contratado inicialmente para exercer as fun çõ es de

Cobrador, passando posteriormente a exercer cumulativamente a fun çã o de Motorista, impunha­se

deferir o pagamento de um plus salarial, a t í tulo de repara çã o pelo desequil í brio contratual, uma vez

que a r é se beneficiou da execu çã o de tarefas estranhas ao contrato de trabalho, sem a devida

contrapresta ção pecuni á ria, violando o disposto no artigo 468 da CLT.

Por outro lado, procede o argumento da r é , de que inexiste previs ão legal para serem

deferidos dois sal á rios para o exerc í cio de fun ções dentro de uma mesma jornada, raz ã o pela qual

seria razoavelmente mais correto deferir um plus salarial ao empregado, pelo ac ú mulo das fun çõ es

apontadas na exordial.

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PROCESSO: 0001266-22.2011.5.01.0054 RECURSO ORDINÁRIO Entretanto, considerando­se que a r é pretende em seu apelo, ú nica e exclusivamente,

a reforma da r. decis ã o a quo, para expungir da condena ção o pagamento do piso salarial do

Cobrador, n ão pode este Julgador, sob pena de nulidade (CPC, artigos 128 e 460), deferir pedido

diverso daquele que lhe foi formulado, impondo­se apenas rejeitar a pretens ã o recursal.

Nego provimento.

DO PREQUESTIONAMENTO

Tendo este Relator adotado tese expl í cita sobre os themas decidendum suscitados

e sabendo­se que o juiz n ão está obrigado a refutar todos os argumentos das partes, desde que

fundamente o julgado, nos termos do que disp õem os artigos 131 e 458 do CPC, 832 CLT e 93, inciso

IX, da Constitui çã o Federal, tem­se por prequestionados os dispositivos legais invocados pelo

recorrente, como preconizado no inciso I da S ú mula nº 297 do TST.

Isto posto, conhe ç o do recurso ordin á rio interposto pela ré Transportes Barra Ltda. e,

no mé rito, nego­lhe provimento, nos termos da fundamenta çã o supra.

A C O R D A M os Exmos. Desembargadores da 9ª Turma do Egr é gio Tribunal

Regional do Trabalho da 1ª Regi ão, por unanimidade, nos termos da fundamenta çã o do voto do

Exmo. Sr. Relator, conhecer do recurso ordin á rio interposto pela r é Transportes Barra Ltda. e, no

mé rito, negar­lhe provimento.

Rio de Janeiro, 25 de junho de 2013.

Desembargador Federal do Trabalho Jos é da Fonseca Martins Junior

Relator