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DE ANTROPOLOGIA

vivência

REVISTA

Vivência:Vivência: RevistaRevista dede AntropologiaAntropologia

É a revista do Departamento de Antropologia – DAN e da Pós-Graduação em Antropologia Social – PPGAS.

AA revistarevista temtem registroregistro nosnos seguintesseguintes indexadoresindexadores internacionais:internacionais:

Sociological/Abstracts Social Services Abstracts World Political/Science Abstracts Linguistics and Language Behavior Abstracts

EndereçoEndereço parapara correspondência:correspondência:

Vivência: Revista de antropologia Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes – CCHLA Departamento de Antropologia - DAN Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – PPGAS (1º andar salas 903, 912 e 919) Av. Senador Salgado Filho, 3000, Lagoa Nova CEP: 59.152-600 Natal-RN Tel: (84) 3342-2240 E-mail: vivenciareant@yahoo.com.br

CatalogaçãoCatalogação dada PublicaçãoPublicação nana Fonte.Fonte. UFRNUFRN // BibliotecaBiblioteca SetorialSetorial dodo CCHLACCHLA DivisãoDivisão dede ServiçosServiços TécnicosTécnicos

002 Vivência:Vivência: revistarevista dede antropologia.antropologia. UFRN/DAN/PPGASUFRN/DAN/PPGAS v.v. I.,I., NN 4747 (jan/jun.(jan/jun. dede 2016),-2016),- Natal:Natal:

UFRN.UFRN. 2016.2016. 1-Antropologia-1-Antropologia- periódico.periódico. Semestral.Semestral. DescriçãoDescrição baseadabaseada em:em: n.n. 47,47, 2016.2016. EsteEste númeronúmero éé emem parceriaparceria comcom aa EDUFRNEDUFRN NN OO 4747 || ISSNISSN 0104-30640104-3064 || 20162016

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REVISTA

UUniversidadeniversidade FFederalederal ddoo RRioio GGranderande ddoo NNorteorte Reitor(a): Ângela Maria Paiva Cruz Vice-Reitor(a): Maria de Fátima Freire Melo Ximenes

CCentroentro ddee CCiênciasiências HHumanas,umanas, LetrasLetras ee AArtesrtes Diretora: Maria das Graças Soares Rodrigues Vice-Diretor: Sebastião Faustino Pereira Filho

DDepartamentoepartamento ddee AAntropologiantropologia DANDAN Chefe: Rozeli Maria Porto Vice-Chefe: Rita de Cássia Maria Neves

PProgramarograma ddee PPós-Graduaçãoós-Graduação eemm AAntropologiantropologia SSocialocial –PPPGASPGAS Coordenador: Carlos Guilherme Octaviano do Valle Vice-coordenadora: Julie Antoinette Cavignac

RRevistaevista OOnlinenline Editora Gerente: Francisca de Souza Miller Editora: Lisabete Coradini

RRevistaevista IImpressampressa Editora Gerente: Francisca de Souza Miller Editora: Lisabete Coradini

AAssistentessistente EditorialEditorial

Jefferson Cabral

Francisco Fagner

VVivência:ivência: RRevistaevista ddee AAntropologiantropologia ISSN: 0104 3064 (versão impressa):

http://www.cchla.ufrn.br/vivencia/

VVivência:ivência: RRevistaevista ddee AAntropologiantropologia ISSN: 2238 6009 (versão online):

http://perodicos.ufrn.br/vivencia

CComissãoomissão Editorial:Editorial:

Carlos Guilherme Octaviano do Valle (UFRN) Eliane Tania Martins de Freitas (UFRN) Elisete Schwade (UFRN) Francisca de Souza Miller (UFRN) Jean Segata (UFRN) José Glebson Vieira (UFRN) Julie Antoinette Cavignac (UFRN) Juliana Gonçalves Melo (UFRN) Lisabete Coradini (UFRN) Luiz Carvalho Assunção (UFRN) Rita de Cássia Maria Neves (UFRN) Rozeli Maria Porto (UFRN)

CConselhoonselho Editorial:Editorial:

Angela Maria de Souza Torresan (UFRN) Antonio Carlos Diegues (USP) Carmen Sílvia Rial (UFSC) César González Ochoa (UNAM/México) Cornélia Eckert (UFRGS) Clarice Ehlers Peixoto (UERJ) Edmundo Marcelo Mendes Pereira (UFRJ/Museu Nacional) Ellen Fensterseifer Woortmann (UnB) Gabriela Martins (UFPE) Gloria Ciria Valdéz Gardea (El Colegio de Sonora/México) Ilka Boaventura Leite (UFSC) José Guilherme Cantor Magnani (USP) Luiz Fernando Dias Duarte (UFRJ/Museu Nacional)

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Maria Manuela Ligeti Carneiro da Cunha (Universidade de Chicago/EUA) Miriam Pillar Grossi (UFSC) Rafael Antonio Pérez-Taylor Aldrete (UNAM/México) Rinaldo Sérgio Vieira Arruda (PUC-SP) Roberta Bivar Carneiro Campos (UFPE)

NNormatização:ormatização:

Editoria da Vivência: Revista de Antropologia

RRevisãoevisão ddee ttextoexto eemm pportuguês:ortuguês:

Rousiêne Gonçalves (Caule de Papiro Gráfica e Editora)

RRevisãoevisão ddee ttextoexto eemm iinglês:nglês:

Gleidson José da Costa (Caule de Papiro Gráfica e Editora)

PProjetorojeto GGráfiráficco/Editoraçãoo/Editoração EEletrônica:letrônica:

Caule de Papiro Gráfica e Editora

FFotografiotografiaa ddaa capa:capa:

JJoséosé ColaçoColaço DDiasias NNetoeto

PParceria:arceria:

Editora Universitária da UFRN – EDUFRN Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes – CCHLA

TTiragem:iragem:

300 exemplares

004

sumário | summary

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REVISTA

007

AAPRESENTAÇÃOPRESENTAÇÃO

PRESENTATION

Francisca Miller Carmen Rial José Colaço Dias Neto

011

DDOSSIÊOSSIÊ

DOSSIER

013

 

LLeaea CCarvalhoarvalho RRodriguesodrigues AAntôniantônia GabrielaGabriela PPereiraereira AAraújoraújo

033

 

KKarinaarina dada SilvaSilva CCoelhooelho

051

 

GGuilhermeuilherme BBemerguyemerguy CChênehêne NNetoeto JJoséosé WWillingtonillington GGermanoermano LLourdesourdes dede FFátimaátima GGonçalvesonçalves FFurtadourtado DDeniseenise MMachadoachado CardosoCardoso

073

 

CCleomarleomar FFelipeelipe CCabralabral JJobob ddee AAndradendrade

089

 

RRubensubens EliasElias dada SilvaSilva

111

PPESCAESCA ARTESANALARTESANAL EE PPROJETOSROJETOS DDEE DDESENVOLVIMENTOESENVOLVIMENTO EMEM BBITUPITÁ,ITUPITÁ, CCEARÁ:EARÁ: OSOS DDIREITOSIREITOS DASDAS POPULAÇÕESPOPULAÇÕES COSTEIRASCOSTEIRAS FRENTEFRENTE AAOSOS IINTERESSESNTERESSES EMPRESARIAIEMPRESARIAISS EE ESESTTATAISATAIS

ARTISANAL FISHING AND DEVELOPMENT PROJECTS IN BITUPITÁ, CEARÁ: THE RIGHTS OF COASTAL POPULATIONS CONFRONTED WITH THE CORPORATE AND STATE INTERESTS

EENTRENTRE AA TERRATERRA EE OO MMAR:AR: NNOTASOTAS SSOBROBREE OO DDIREITOIREITO CCOSTUMEIROSTUMEIROO EE AA DIVISÃODIVISÃO DODO TERRITÓRIOTERRITÓRIO ENTREENTRE FFAMÍLIASAMÍLIASCAIÇARASCAIÇARASDODOLITORALLITORALNORTENORTEPARANAENSEPARANAENSE

BETWEEN LAND AND SEA: NOTES ON COMMON LAW AND TERRITORY DIVISION AMONG CAIÇARAS FAMILIES OF NORTHERN COAST OF PARANÁ

AA ECOLOGIAECOLOGIA DDOSOS SSABEREABERESS EE OO SSISTEMAISTEMA DEDE SAÚDESAÚDE NNOO MMUNICÍPIOUNICÍPIO DDEE CURUÇÁ/PACURUÇÁ/PA

THE ECOLOGY OF KNOWLEDGE AND THE HEALTH SYSTEM IN THE CITY OF CURUÇÁ/PA

DDAA PESCAPESCA ÀÀ FESTAFESTA DEDE SÃOSÃO PEDROPEDRO EEMM TTAMBAÚ:AMBAÚ: UUMM OOLHARLHAR SSOBROBREE OO SABER-FAZERSABER-FAZER DEDE PESCADORPESCADOR

FROM FISHING TO THE ST. PETER’S FESTIVAL IN TAMBAÚ:

A LOOK AT THE FISHERMAN KNOW-HOW

IIMAGEMAGEMM EE PPESCADORESESCADORES COSTEIROS.COSTEIROS. AA VVISUALIDADEISUALIDADE COMOCOMO ELEMENTOELEMENTO AARTICULADORRTICULADOR DDOO RRECONHECIMENTOECONHECIMENTO DDEE SSII EE DEDE AAFETOSFETOS EEMM CCONTEXTOONTEXTO DDEE PPESQUISAESQUISA DDEE CAMPOCAMPO NNUMAUMA SSOCIEDADEOCIEDADE COSTEIRACOSTEIRA – OO CCASOASO DDEE BBAÍAAÍA FFORMOSA,ORMOSA, RRIOIO GGRANDERANDE DDOO NNORTE,ORTE, BBRASILRASIL

IMAGE AND COASTAL FISHERMEN. VISUALITY AS ARTICULATOR ELEMENT OF SELF-RECOGNITION AND AFFECTION IN FIELDWORK CONTEXT INACOASTALSOCIETY– THE CASE OF BAÍAFORMOSA, RIO GRANDE DO NORTE, BRAZIL

IIMPACTOSMPACTOS SSOCIAISOCIAIS DADA AGROINDÚSTRIAAGROINDÚSTRIA CCANAVIEIRAANAVIEIRA NANA COMUNIDADECOMUNIDADE DEDE PESCADORESPESCADORES DEDE BBAÍAAÍA FORMOSAFORMOSA ((RN)RN)

SOCIAL IMPACTS OF SUGAR-CANE AGROINDUSTRY IN THE FISHING COMMUNITY OF BAÍA FORMOSA (RN)

JJulienneulienne LLouiseouise ddosos SSantosantos GovindinGovindin FFranciscarancisca ddee SSouzaouza MillerMiller

005

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REVISTA

123

 

Luceni Medeiros Hellebrandt Carmen Silvia Rial Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

137

 

Jerônimo Amaral de Carvalho Winifred Knox Eliana Junqueira Creado

159

ARTIGOSARTIGOS

PAPERS

161

 

TristanTristan LoloumLoloum

181

 

LisabeteLisabete CoradiniCoradini MariaMaria AngelaAngela PavanPavan

193

 

FábioFábio AtaídeAtaíde

205

 

AntonioAntonio CarlosCarlos dada RosaRosa SilvaSilva JuniorJunior

215

PESCAPESCA EE GÊNERO:GÊNERO: RECONHECIMENTORECONHECIMENTO LEGALLEGAL EE ORGANIZAÇÃOORGANIZAÇÃO DASDAS MULHERESMULHERES NANA “COLÔNIA“COLÔNIA Z3”Z3” (PELOTAS/RS(PELOTAS/RS BRASIL)BRASIL)

FISHERY AND GENDER: LEGAL RECOGNITION AND ORGANIZATION OF THE WOMEN FROM “COLÔNIA Z3” (PELOTAS/RS – BRAZIL)

UMAUMA ETNOGRAFIAETNOGRAFIA DADA NÃONÃO DUALIDADE:DUALIDADE: OO ESTUDOESTUDO DEDE CASOCASO DEDE CONFLITOSCONFLITOS SOCIOAMBIENTAISSOCIOAMBIENTAIS NANA REMREM DODO CORUMBAUCORUMBAU ENTREENTRE COMUNIDADESCOMUNIDADES PESQUEIRASPESQUEIRAS LOCAISLOCAIS EE AA NORMATIVIDADENORMATIVIDADE AMBIENTALISTAAMBIENTALISTA

AN ETHNOGRAPHY OF NON-DUALITY: CASE STUDY OF SOCIO- ENVIRONMENTAL CONFLICTS IN CORUMBAU REM BETWEEN LOCAL FISHING COMMUNITIES AND ENVIRONMENTAL NORMATIVITY

DESDES PEUPLESPEUPLES SANSSANS HISTOIRE?HISTOIRE? USAGESUSAGES SOCIAUXSOCIAUX DUDU PASSEPASSE AA TIBAUTIBAU DODO SULSUL (RN)(RN)

PEOPLE WITHOUT HISTORY? SOCIAL USES OF THE PAST IN TIBAU DO SUL (RN) POVOS SEM HISTÓRIA? USOS SOCIAIS DO PASSADO EM TIBAU DO SUL (RN)

“NO“NO MATOMATO DASDAS MANGABEIRAS”:MANGABEIRAS”: PORPOR UMAUMA ETNOGRAFIAETNOGRAFIA DADA DURAÇÃODURAÇÃO NANA CONSTRUÇÃOCONSTRUÇÃO DODO DOCUMENTÁRIODOCUMENTÁRIO

“NO MATO DAS MANGABEIRAS”: FOR AN ETHNOGRAPHY OF THE DURATION IN THE DOCUMENTARY CONSTRUCTION

AA REVIRAVOLTAREVIRAVOLTA DODO PENSAMENTOPENSAMENTO CRÍTICOCRÍTICO NANA CRIMINOLOGIACRIMINOLOGIA

THE TURNABOUT OF CRITICAL THINKING IN CRIMINOLOGY

RELIGIÃORELIGIÃO ATRÁSATRÁS DASDAS GRADES:GRADES: PLURALISMPLURALISMOO EE CONVERSÃOCONVERSÃO NOSNOS CÁRCERESCÁRCERES BRASILEIROSBRASILEIROS

RELIGION BEHIND BARS: PLURALISM AND CONVERSION IN BRAZILIAN PRISONS

OO MARMAR NANA TERRATERRA EE AA TERRATERRA NONO MAR:MAR: OO ENCONTROENCONTRO DASDAS OFICINASOFICINAS PESQUEIRASPESQUEIRAS

006 SEA ON EARTH AND THE EARTH AT SEA: THE MEETING OF FISHING WORKSHOP

CristianoCristiano WellingtonWellington NorbertoNorberto RamalhoRamalho

apresentação | presentation

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AAPRESENTAÇÃOPRESENTAÇÃO

Francisca Miller Carmen Rial José Colaço Dias Neto

EEssesse dossiêdossiê dada VVivência:ivência: RRevistaevista ddee AAntropologiantropologia ttratarata ddee uumama aattivi-ivi- ddadeade ccorriqueiraorriqueira ee ppresenteresente nnoo BBrasilrasil ddesdeesde ttemposempos iimemoriais:memoriais: aa ppesca.esca. AAindainda qqueue ssejaeja vvivenciadaivenciada ddee nnorteorte aa ssulul ddee nnossosossos mmaisais ddee sseiseis mmilil qquuilômetrosilômetros ddee ccostaosta mmarítimaarítima ee ddee llesteeste aa ooesteeste nnosos iincalculáveisncalculáveis ppercursosercursos ddee ááguagua ddoce,oce, aapesarpesar ddee iimportantesmportantes eesforços,sforços, aa ppescaesca nnãoão ttemem mmerecidoerecido ddaa AAntntropologiaropologia ffeitaeita nnoo BBrasilrasil uumama aatençãotenção eequivalentequivalente aa ssuaua oonipresença.nipresença. AAindindaa qqueue aapresen-presen- ttadaada eemm mmuitasuitas mmonografionografiaass cclássicas,lássicas, ssãoão ppoucosoucos ooss ttrabalhosrabalhos qqueue eenfocaramnfocaram eexclusivamentexclusivamente aa ppesca.esca. RRaymondaymond FFirth,irth, eemm MMalayalay FFishemenishemen ((1946),1946), eemborambora iincluíndoncluíndo aa ppescaesca nnasas ssociedadesociedades ccamponesas,amponesas, cconsiderouonsiderou ccomoomo ccaarracterísticasacterísticas eestruturaisstruturais ddee sseueu pprocessorocesso ddee ttrabalhorabalho qqueue aa rrápidaápida ddegradaçãoegradação ddee ““produto”,produto”, oo ppeixe,eixe, iimplicoumplicou nnoo ddesenvolvimentoesenvolvimento ddee ttécnicasécnicas mmaisais eespecializaspecializaddasas ddee cconser-onser- vvaçãoação ee ssuaua eentradantrada rrápidaápida nnoo ccomercioomercio mmaisais aamplo.mplo. OOu,u, ccomoomo nnãoão rrecordar,ecordar, pporor eexemplo,xemplo, qqueue eemm ssuaua oobrabra sseminaleminal AArgonautasrgonautas ddoo PacíPacíccoo OOcidentalcidental ((1922),1922), MMalinowski,alinowski, aaoo rrealizarealizar eetnografitnografiaa eentrentre ttrobiandesesrobiandeses iinsulares,nsulares, pperecebeerecebe qqueue aa ppescaesca éé rreveladoraeveladora ddee ttodoodo uumm cconjuntoonjunto ddee aatividadestividades ee ppráticráticaass rrituaisituais aasso-sso- cciadasiadas aa eela,la, cconfionfiggurando-seurando-se ccomoomo uumm ddispositivoispositivo ddee ffundamentalundamental iimportanciamportancia pparaara oo eentendimentontendimento ddaa vvidaida ssocialocial ddaqueleaquele ppovo.ovo. AAssim,ssim, eemm aaproproppriaçõesriações mmaisais rrecentes,ecentes, ccomom ccaracterísticasaracterísticas ddee uumama eeconomiaconomia eespecializada,specializada, aa ppescaesca ttemem ssidoido ccompreendida,ompreendida, mmuitasuitas vvezes,ezes, ccomoomo uumm ttrabalhorabalho ssecundárioecundário ccomplemomplemeentarntar àà aatividadetividade aagrícolagrícola ((BECK,BECK, 11979;979; AACHESON,CHESON, 11981;981; DDIEGUES,IEGUES, 11983)983) oouu aaoo tturismourismo ((RIALRIAL && GGÓDIO,ÓDIO, 2006).2006).

PPoror suasua naturezanatureza ddee ttrabalhorabalho ccomom rresultadosesultados aaleatóriosleatórios ee,, eemm mmuui-i- ttosos ccasos,asos, iincluídoncluído rriscos,iscos, ffrequentementerequentemente aa ppescaesca eenvolvenvolve rrituituais,ais, crençascrenças ((MAUÉS,MAUÉS, 1990)1990) ee festasfestas (ANDRADE,(ANDRADE, 2016).2016). AA seusseus praticantespraticantes sãosão iimputadosmputados vvaloresalores ccomoomo aa vvalentiaalentia ee aa ccoragemoragem ((TELES,TELES, 22002),002), eemm mmuitasuitas ssoociedadesciedades aatribuídostribuídos eexclusivamentexclusivamente aaoo ggêneroênero mmasculino.asculino. CComoomo eestudosstudos rrececentes,entes, nono eentanto,ntanto, ttêmêm mmostrado,ostrado, oo ppapelapel ddasas mmulheresulheres nnaa aatividadetividade ppesqueesqueiira,ra, mmaisais ddoo qqueue iinexistente,nexistente, ttemem ssidoido iinvisibilizado.nvisibilizado. SSubestimou-seubestimou-se aa ppresençaresença ddasas mmulheresulheres nnaa ppesca;esca; eelala eexiste:xiste: eemm ttrabalhosrabalhos ddee pprocessamentorocessamento ddee ppescadosescados ((HHEELLBRANDLLBRAND eett aalli,lli, 22006),006), ccomoomo ““fifilleteiras”eteiras” ee ddescascadorasescascadoras ddee ffrutosrutos ddoo mmar,ar, ccomoomo ttrabalha-rabalha- ddorasoras eemm aaquicultura,quicultura, eenquantonquanto nnegociantesegociantes ccomoomo eemm CCaboabo VVerdeerde ((RROSABAL,OSABAL, 22016)016) ee aatété mmesmoesmo ccomoomo ppescadorasescadoras eemm mmar-aberto,ar-aberto, nnoo BBrasil,rasil, ccomomoo eemm ooutrosutros llugaresugares nnoo mmundoundo ((THOMPSONTHOMPSON etet alli,alli, 11983).983).

AA primeiraprimeira vvista,ista, aa ppescaesca sseriaeria uumama aatividadetividade llivreivre ddosos dditamesitames ddaa ppro-ro- ppriedaderiedade ee ddee ffronteirasronteiras pporor eelaslas iimpostas,mpostas, pporqueorque ssee rrealizaealiza aapparentementearentemente eemm uumm eespaçospaço ““sem-dono”sem-dono” –qquaisuais ssejam,ejam, mmares,ares, rriosios ee llagoasagoas –ee ppoorrqueque eenvolvenvolve uumm bbemem mmóvelóvel ee ddee ppresençaresença ee qquantidadesuantidades iimprevisíveis.mprevisíveis. NNoo eentantannto,to, ccomoomo mmuitosuitos aantropólogosntropólogos ttemem mmostradoostrado ((MALDONADO,MALDONADO, 11994)994) oo eespaçospaço hhalaliiêuticoêutico éé tterritorializadoerritorializado ee aass ffronteirasronteiras iinvisíveisnvisíveis ttraçadasraçadas ee rrespeiespeittadas.adas. AA iimprevisibi-mprevisibi- llidadeidade ddosos eestoquesstoques ee ssuaua rrelativaelativa eescassezscassez ffazaz ccomom qqueue aa llocalocaliizaçãozação ddosos ssítiosítios aabundantesbundantes ssejaeja aalvolvo ddee ssegredoegredo ccriandoriando rredesedes ddee ssolidariedadeolidariedade ee ddee ttrocasrocas ddee iinformaçãonformação ((GÓDIO,GÓDIO, 22005;005; CCOLAÇOOLAÇO etet aalli,lli, 22007).007).

MMaisais ddoo queque uumm ttrabalho,rabalho, aa ppescaesca éé uumm oofício,fício, qqueue eevocavoca ttantoanto uummaa qqualidualidadeade dodo ssujeitoujeito – oo ddomínioomínio ddaa aarterte ddaa ppescaesca –ccomoomo sseueu ppeertencimentortencimento aa uumama filliaçãoiação ccoletivaoletiva ddee ttransmissãoransmissão ddee cconhecimento,onhecimento, ssuaua iinclusãonclusão eemm uumm ccon-on- jjuntounto ddee rregrasegras ee ddee hhierarquiasierarquias qqueue ddevemevem sserer rrespeitadasespeitadas ee rreeggemem aass rrelaçõeselações eentrentre ooss ggruposrupos ssociaisociais qqueue aa ppraticamraticam ee sseueu mmeioeio aambiente.mbiente. EEssssaa cconcepçãooncepção ddaa aatividadetividade rregidaegida pporor uumm ddireitoireito bbaseadoaseado nnosos ccostumesostumes ee uumama hhiierarquiaerarquia ddee ssaberesaberes éé,, ààss vvezes,ezes, aameaçadameaçada qquandouando iinstituiçõesnstituições ddoo EEstadostado ee vvariadasariadas fformasormas

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ddee rregulamentaçãoegulamentação qqueue iincidemncidem ssobreobre eespaçosspaços ddee iinteressenteresse eecológcológiicoco ppassamassam aa vvigorar,igorar, pprotegendorotegendo ppessoasessoas ee ccoisas,oisas, mmas,as, ccomoomo mmostramostram ttrabalhrabalhooss rrecentes,ecentes, ttambémambém ppodendoodendo ccolocarolocar eemm rriscoisco aa rreproduçãoeprodução ssocialocial ddee mmodosodos dede vidavida qqueue ssee oorganizaramrganizaram hhistoricamenteistoricamente eemm ttornoorno ddesteeste oofíciofício ((COELHO,COELHO, 22006;006; MMILLER,ILLER, 22012;012; CCOLAÇO,OLAÇO, 2015).2015). EntreEntre umum conjuntoconjunto dede riscos,riscos, pode-sepode-se destadestacar,car, porpor eexemplo,xemplo, aa “taylorização”taylorização” ddaa ppescaesca ee ssuaua ttransformaçãoransformação eemm aativitividdadeade iindustrial,ndustrial, iimplicandomplicando nnoo iingressongresso ddee ggrandesrandes ccapitaisapitais ee aa rreconfieconfigguraçãouração dodo ambiente,ambiente, bbemem ccomoomo ddee ggruposrupos ssociaisociais aassociadosssociados aaoo oofício.fício. OOutroutro eexemploxemplo qqueue ddeveeve sserer cconsideradoonsiderado éé ttambémambém oo mmodoodo ccomoomo oo ccapitalapital iimobiliáriomobiliário iimpactampacta aa aatividade.tividade. AA gentrifigentrificcaçãoação ddosos bbairrosairros hhabitadosabitados pporor ppescadoresescadores ((LAGO,LAGO, 11983)983) ee ssuaua ccon-on- ssequenteequente eexpulsãoxpulsão éé ooutroutro vvetoretor ddee mmudançasudanças oocorridascorridas eemm ddiversiversooss ppovadosovados ppesqueirosesqueiros ddaa ccostaosta bbrasileira.rasileira.

PPode-seode-se salientar,salientar, pportanto,ortanto, qqueue só mmaisais rrecentementeecentemente uumm cconjunonjuntoto ssólidoólido ddee ppesquisasesquisas ttemem ssidoido ddesenvolvidoesenvolvido pporor ppesquisadoresesquisadores lligigaadosdos ààss CCiênciasiências SSociaisociais ee,, eemm eespecial,special, àà AAntropologia,ntropologia, ppreenchendo,reenchendo, ggradativamradativameente,nte, aass llacunasacunas ddaa pproduçãorodução nnaa áárearea ssobreobre aa ppescaesca aartesanalrtesanal oobservadabservada ssobob ooss mmaaiiss ddiversosiversos aaspectos:spectos: ooss iimpactosmpactos ddaa eexpansãoxpansão mmetropolitana,etropolitana, ooss ddesastresesastres aammbientaisbientais ddee ggrandesrandes pproporçõesroporções ee,, ccomoomo já mmencionados,encionados, oo tturismo,urismo, aass fformasormas ddee ccontroleontrole ooficialcial eemm ááreasreas ddee iinteressenteresse eecológico,cológico, sãosão aalgunslguns pprocessosrocessos queque vvemem rreconfieconfi-- ggurandourando oo uusoso ee aa oocupaçãocupação ddee tterritórioserritórios ccosteirososteiros ee rribeirinhibeirinhoos.s.

RResultadosesultados pparciaisarciais ddee iinvestigaçõesnvestigações qqueue aapontampontam pparaara aa ccomplexomplexii-- ddadeade ddestesestes pproblemasroblemas ttêmêm ssidoido ddiscutidosiscutidos iintensamententensamente eemm ffórunórunss aacadêmicos.cadêmicos. TTantoanto ppeloselos iimpactosmpactos ddiretosiretos ssobreobre uumm ggranderande ccontingenteontingente ddee ffamamííliaslias ouou dede ccidadesidades iinteirasnteiras –nnoo qqueue ddiziz rrespeitoespeito ààss eeconomiasconomias llocais,ocais, ggesesttãoão ppúblicaública ee ffor-or- mmasas ddee pparticipaçãoarticipação ppolíticaolítica –ccomoomo eemm rrelaçãoelação ààss ssuasuas ddimensõeimensõess mmaisais aabran-bran- ggentes,entes, eemm mmaioresaiores eescalas,scalas, pporor ttratarem-seratarem-se ddee ffenômenosenômenos gglobailobaiss aajustadosjustados ààss eestruturasstruturas ccontemporâneasontemporâneas ddee eexploraçãoxploração ddee rrecursosecursos nnaturais,aturais, sseeusus mmodosodos ddee pproduçãorodução ee aadministraçãodministração ee rrepartiçãoepartição ddee llucrosucros pporor ppartearte ddee ggrraandesndes aagentesgentes ssociaisociais ee mmesmoesmo pporor EEstados.stados.

TTantoanto aassimssim qque,ue, nnosos úúltimosltimos aanos,nos, oo aassuntossunto ttemem cconquistadoonquistado ccaadada vvezez mmaisais vvisibilidadeisibilidade eemm aatividadestividades rrealizadasealizadas nnosos EEncontrosncontros ddaa AssociaçãoAssociação NNacionalacional ddee PPós-Graduaçãoós-Graduação eemm CCiênciasiências SSociaisociais ((ANPOCS),ANPOCS), nnasas RReueunniõesiões ddee AAntropologiantropologia BBrasileirarasileira ((RBARBA ee AABANNE)BANNE) ee nnasas RReuniõeseuniões ddee AAntropntropoologialogia ddoo MMercosulercosul ((RAM)RAM) ee ReuniõesReuniões AAnuaisnuais ddaa SSociedadeociedade BBrasileirarasileira pparaara oo PProgressorogresso

ddaa CCiênciaiência ((SBPC).SBPC). EstasEstas iiniciativasniciativas vvêmêm aagregandogregando pprofirofissionaisssionais brasileirosbrasileiros ee ddee ooutrosutros ppaísesaíses ddaa AAméricamérica LLatinaatina ee ttemem ssee cconfionfigguradourado ccomom uumm eespaçospaço pprofícuorofícuo pparaara oo ddebateebate aacadêmicocadêmico ee ppolíticoolítico ssobreobre aass qquestõesuestões mmencionadas,encionadas,

ttendoendo aa aatividadetividade ppesqueiraesqueira ccomoomo fioo ccondutorondutor ddee ttodasodas eelaslas 11

uumama pperspectivaerspectiva qqueue ttemem ssidoido ccadaada vvezez mmaisais ccomoomo uumm ddispositivoispositivo ddee aanálisenálise ddestesestes pprocessosrocessos ssociaisociais ssãoão aass oobservaçõesbservações ddee ssituaçõesituações ddee ccononito,ito, suscita-suscita- ddasas jjustamenteustamente ppelaselas ttensõesensões ee iinteressesnteresses eemm jjogoogo qqueue eenvolvemnvolvem ooss cchamadoshamados ““povospovos ttradicionais”radicionais” ee ooss vváriosários mmodelosodelos ddee uusoso ee oocupaçãocupação ddestesteess tterritórioserritórios ccosteirososteiros ee rribeirinhosibeirinhos ((KANTKANT DDEE LLIMA,IMA, 11997;997; MMELLOELLO && VVOGEL,OGEL, 22000044).). NNãoão éé pporor aacaso,caso, eenfinfimm,, qqueue ooss ttextosextos rreunidoseunidos nnesteeste ddossiêossiê PPesca:esca: ppopulaçõesopulações ccosteirasosteiras ee rribeirinhasibeirinhas ssee cconectamonectam ccomom eesteste cconjuntoonjunto ddee qquestõesuestões ccandentesandentes ee ssuaua ppubliçãoublição ssurgeurge eemm uumm mmomentoomento ooportunoportuno pparaara ddiscussãoiscussão ddosos rrumosumos ddaa ppolíticaolítica ee ddaa ssociedadeociedade bbrasileiras,rasileiras, aapresentadaspresentadas aaqui,qui, ddee uumama perspectivaperspectiva

CCabeabe llembrarembrar qqueue

008 ttemposempos animadaanimada ppelaela AAntropologia:ntropologia: ddoo ““pontoponto ddee vvista”ista” ddee ppescadescadores,ores, pes-pes- ccadorasadoras ee ffamíliasamílias eenvolvidasnvolvidas ddiretaireta oouu iindiretamentendiretamente ccomom oo oofífíccioio ppesqueiroesqueiro aatividadestividades aa eelele aassociadas.ssociadas.

CCadaada qqualual aaoo sseueu mmodo,odo, ooss aartigosrtigos iincluídosncluídos nnesteeste ddossiêossiê ttêmêm ccoommoo ffocooco aalgumaslgumas ddasas qquestõesuestões aassinaladasssinaladas nnestaesta AApresentação.presentação.

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OO artigoartigo ddaa LLeaea CCarvalhoarvalho RRodriguesodrigues ee AAntôniantônia GGabrielaabriela PPereiraereira ddee AAraújoraújo mmostraostra ooss ddiferentesiferentes iinteressesnteresses eemm jjogoogo nnoo pprocessorocesso ddee eexxpansãopansão ddasas aatividadestividades tturísticasurísticas ee pprojetosrojetos ddee ddesenvolvimentoesenvolvimento nnaa rregiãoegião ddoo eextremo-oestextremo-oeste ddoo llitoralitoral ddoo CCeará.eará. OO ttextoexto ddee KKarinaarina SSilvailva CCoelhooelho aanalisanalisa ooss cconteúdosonteúdos qqueue aanimamnimam ddisputasisputas iinternasnternas eentrentre aass ffamíliasamílias qqueue hhabitamabitam aass vvilasilas rruraisurais iinsularesnsulares ee ccontinentaisontinentais ccircundantesircundantes àà bbaíaaía qqueue ddecorrem,ecorrem, pprincipalmenterincipalmente,, ddoo ddescumpri-escumpri- mmentoento ddee aacordoscordos ee rregrasegras iinternasnternas ddee ssocialidade,ocialidade, bbaseadasaseadas eemm aaspectosspectos mmoraisorais ddaa ddivisãoivisão ddoo tterritórioerritório eentrentre ffamíliasamílias ee eemm uumm mmanejoanejo iinternonterno ddasas lleiseis aambien-mbien- ttais.ais. OO aartigortigo ddee GGuilhermeuilherme CChênehêne NNeto,eto, JJoséosé WWillingtonillington GGermanoermano,, LLourdesourdes ddee FFátimaátima GGonçalvesonçalves FFurtadourtado ee DDeniseenise MMachadoachado CCardosoardoso aanalisanalisa oo ddiáiállogoogo eentrentre aa mmedicinaedicina ttradicionalradicional ee aa mmedicinaedicina ccientífiientíficca,a, nnoo ddistritoistrito ddee SSãoão JJoãooão ddoo AAbade,bade, llocalizadoocalizado nnoo MMunicípiounicípio ddee CCuruçá/PA,uruçá/PA, aatravéstravés ddoo cconceitoonceito ddee ““EEccologiaologia ddosos SSaberes”,aberes”, ppropostaroposta pporor BBoaventuraoaventura ddee SSousaousa SSantos.antos. OO ttextoexto ddee CClleomareomar FFelipeelipe CCabralabral JJobob ddee AAndradendrade bbuscausca rrealizarealizar uumama rreflefleexãoxão ssobreobre oo ttrabalhorabalho ee aa ffesta,esta, ccomoomo eessasssas esferasesferas queque sese entrelaçamentrelaçam ee ssee cconstroemonstroem nnaa hhistóriaistória dede vidavida dosdos aantigosntigos mmoradoresoradores ddee TTambaú,ambaú, áárearea hhojeoje eextremamentextremamente vvalorizadaalorizada ddoo litorallitoral ddee JJoãooão PPessoa,essoa, Paraíba.Paraíba. OO aartigortigo ddee RRubensubens EEliaslias ddaa SSilvailva aaborborddaa aa iimagemmagem ccomoomo elementoelemento ccambiadorambiador ddee aafetosfetos ee reconhecimentoreconhecimento ddee ssii entreentre ppesquisadoresquisador ee iinterlocutoresnterlocutores oocorridoscorridos dduranteurante ssuaua ppesquisaesquisa nnoo mmunicípiounicípio ddee BBaíaaía FFormosaormosa llocalizadoocalizado nnoo RRioio GGranderande ddoo NNorte.orte. OO aartigortigo ddee JJulienneulienne LLouiseouise ddosos SantosSantos GGovindinovindin ee FFranciscarancisca ddee SSouzaouza MMilleriller eevidenciavidencia aass pprincipaisrincipais mmuuddançasanças ssociaisociais nnaa ccomunidadeomunidade ddee ppescadoresescadores ddee BBaíaaía FFormosa/RN,ormosa/RN, ggeradaseradas aa ppartiartirr ddaa iinsta-nsta- llaçãoação ddee uumama uusinasina ssucroalcooleiraucroalcooleira ee aa ccriaçãoriação ddee uumama uunidadenidade ddee cconservaçãoonservação nnoo mmunicípio.unicípio. OO aartigortigo ddee LLuceniuceni MMedeirosedeiros HHellebrandt,ellebrandt, CCarmenarmen SSiilvialvia RRialial ee MMariaaria ddoo RRosárioosário ddee FFátimaátima AAndradendrade LLeitãoeitão ttrazraz àà ttonaona uumm cconflonfliitoto ddee ggêneroênero nnoo ââmbitombito ddaa ggestãoestão ppesqueiraesqueira ddee uumama ddasas ccomunidadesomunidades ddee ppesca,esca, aa CColôniaolônia ZZ3,3, nnoo mmunicípiounicípio ddee PPelotaselotas nnoo RRioio GGranderande ddoo SSulul qqueue rreforçaeforça aa iinvinvissibilidadeibilidade ddoo ttrabalhorabalho eexecutadoxecutado ppelaselas mmulheresulheres nnaa ccadeiaadeia pprodutivarodutiva ddaa ppescaesca ee aa ddifiificculdadeuldade ddee rreconhecimentoeconhecimento pporor ppartearte ddoo EEstado.stado. FFinalmente,inalmente, oo ttrabalhorabalho ddee JerônimoJerônimo AAmaralmaral ddee CCarvalho,Winifredarvalho,Winifred KKnoxnox ee EElianaliana JJunqueiraunqueira CCreadoreado eevidvideenciancia uumm ccenárioenário ddee cconflonflitoito ssocioambiental,ocioambiental, eentrentre ppescadoresescadores llocaisocais ee uumm cconjuntoonjunto ddee aagentesgentes eexternosxternos gguiadosuiados pporor uumama nnormatividadeormatividade aambientalistambientalista nnaa ReservaReserva EExtrativistaxtrativista MMarinhaarinha ((REM)REM) ddoo CCorumbau/BA,orumbau/BA, NNordesteordeste ddoo BBrasil.rasil.

BBoaoa lleitura!eitura!

NOTAS

1 Além dos organizadores do presente dossiê, destacamos os professores e pesquisadores Simone Maldonado, Márcia Calderipe, Letícia D’Ambrosio Camarero, Victória Lembo, Gastón Carreño, Daniel Quiroz e Gianpaolo Adomilli, tem proposto nos encontros aca- dêmicos mencionados, Mesas Redondas, Grupos de Trabalho, Simpósios Temáticos e Minicursos sobre o assunto da pesca e das populações costeiras.

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PESCA ARTESANAL E PROJETOS DE DESENVOLVIMENTO EM BITUPITÁ, CEARÁ: OS DIREITOS DAS POPULAÇÕES COSTEIRAS FRENTE AOS INTERESSES EMPRESARIAIS E ESTATAIS ARTISANAL FISHING AND DEVELOPMENT PROJECTS IN BITUPITÁ, CEARÁ: THE RIGHTS OF COASTAL POPULATIONS CONFRONTED WITH THE CORPORATE AND STATE INTERESTS

Lea Carvalho Rodrigues

leaufc@gmail.com Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).Professora Associada do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Antônia Gabriela Pereira Araújo

sociaisufc@gmail.com Mestranda em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

RESUMO

O artigo apresenta os diferentes interesses em jogo no processo de expansão das ati-

vidades turísticas e projetos de desenvolvimento na região do extremo-oeste do litoral do Ceará. A partir dos dados etnográficos colhidos junto à localidade de Bitupitá, que comporta uma das maiores colônias de pescadores da região e onde ainda se pratica a

pesca de curral, o artigo aborda a legislação que estabelece os direitos das comunida-

des e povos tradicionais, situando os pescadores daquela localidade frente aos direitos estabelecidos e aos interesses estatais e empresariais, tendo em conta o atual contexto

de

expansão das atividades turísticas, da pesca predatória e da implementação de usinas

de

energia renovável (eólicas) na região. A situação de mudanças vivida por essas po-

pulações, no presente, é abordada à luz dos resultados apresentados por etnografias já

clássicas sobre o tema, realizadas no âmbito da antropologia brasileira.

Palavras-chave: Pesca de curral. Turismo.Comunidades tradicionais.

ABSTRACT

The article presents the different interests involved in the process of expanding tourism-rela- ted activities as well as development projects in the far-western coast of the coast of Ceará.

Bitupitá holds one of the largest fishing villages in the region, where the practice of the cor-

ral fishing is still current. Using the ethnographic data collected there, the article discusses

the legislation that establishes the rights of the communities and traditional peoples, placing fishermen in that location before set out rights and state and business interests. The current context of expanding tourism-related activities, overfishing and the implementation of re-

newable energy plants in the region are taken into account in the discussion. The changes experienced by these populations are addressed in the light of the results presented by now classic ethnographies carried out under Brazilian anthropology on the subject.

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Keywords: Corral fishing.Tourism.Traditional communities.

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INTRODUÇÃO

Valemo-nos, neste artigo, dos dados etnográficos coletados desde 2010 na localidade de Bitupitá, praia situada no município de Barroquinha, na costa Oeste do litoral cearense, onde ainda hoje se pratica, de forma intensa, a pesca de curral. A situação vivida pelos pescadores artesanais que ali vivem é aqui analisada na referência a um contexto de fortes mudanças provocadas por políticas de desenvolvimento que estão afetando a região. As mais expressivas e de maior impacto referem-se à expansão do turismo, ao incentivo estatal ao uso de energias renováveis (usinas eólicas) e ao desenvolvimento da carcinicultura (Criação de camarão em viveiros).

Vale ressaltar que, desde o desenvolvimento mais sistemático dos estudos sobre a pesca artesanal, na área das ciências sociais e na antropologia, em particular, um conhecimento mais sistematizado foi se construindo à medida em que se detectavam elementos recorrentes, bem como particularidades como as questões estruturais de teor político, econômico e social e o aparato legal de cada país no ordenamento da atividade. Assim, ao longo do tempo, foi possível alcançar um quadro mais acabado sobre esta atividade e este segmento especí- fico, voltado à produção artesanal e de tanta importância no contexto mundial. Vale pontuar, informa McGoodwin (2001), que os pescadores artesanais repre- sentavam, no início deste século, 95% do contingente total de pescadores em todo o mundo.

Alguns aspectos mais universalizados que caracterizam a pesca arte- sanal, abordados por pesquisadores nacionais e estrangeiros, dizem respeito ao isolamento total ou relativo das populações pesqueiras, à natureza das relações de trabalho, com ênfase no não assalariamento e na composição de equipes de trabalho segundo as relações de parentesco; às habilidades e conhecimentos sobre o ambiente, à divisão de trabalho dentro da unidade familiar, à baixa produção do pescado, para consumo e com pequeno excedente a ser comer- cializado; à tecnologia simples, às agruras do ambiente, aos baixos ganhos e à existência de intermediários na fase de comercialização. Dentre os autores que enfatizam estas características destacamos, para o caso brasileiro, os estudos realizados por Kottak (1966, 1982) e Forman (1966), sobretudo, quanto à impor- tância conferida a noção de segredo e à mestrança como elementos centrais da ideologia igualitária, considerada pelos estudiosos do tema como marca deste tipo de pesca; Cordell (1989) e o foco nas noções de risco e imprevisibilidade atinentes à produção pesqueira, aspectos já elencados por Forman (1970) e Kottak (1966), mas vistos por este autor como elementos atenuadores do caráter conflituoso da territorialidade marítima; Diegues (1973, 1983) e a formulação de critérios de classificação dos pescadores, diferenciando produção artesanal da industrial para, em seguida, avançar na caracterização do caráter tradicional das comunidades pesqueiras e, posteriormente, nas relações e conflitos dessas populações com as unidades de conservação (1994, 1999, 2000); Maldonado (1993) e as contribuições de uma etnografia de caráter comparativo entre pes- cadores brasileiros, suecos e canadenses ao evidenciar semelhanças estruturais nas relações dos pescadores com o ambiente, na centralidade da ideologia igualitária e no jogo equilibrado entre competição e cooperação na atividade

14 da pesca artesanal.

No caso brasileiro, é importante notar como esses estudos seminais já detectavam a importância dos processos de mudanças vividos pelas localidades estudadas e, mesmo que de forma apenas contextual, já aparecia o turismo como elemento modificador do modo de vida e trabalho dos pescadores, fato que é presente também nos estudos de Britto (1999), Pessanha (2003), Kant de Lima e

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Pereira (1997) em suas contribuições aos estudos sobre pescadores artesanais no estado do Rio de Janeiro. Entretanto, ao longo do tempo e à medida que novos estudos foram produzidos, percebe-se a importância de outros elementos que ganham destaque em obras mais recentes, como a seguir.

McGoodwin (2001), buscando compreender a complexidade própria

à atividade da pesca artesanal, chama a atenção para o baixo poder político

existente nessas comunidades, o que as torna vulneráveis às ameaças colocadas pela pesca industrial. Ainda do ponto de vista político, enfatiza a subordinação dessas populações às instituições governamentais, o que ressalta a importân- cia do Estado como agente relevante em todo o processo, uma vez que, como também observa o autor, a ordem comunitária é distinta daquela colocada pelas autoridades governamentais.

Marín (2007), por sua vez, se vale das premissas de McGoodwin em seu estudo etnográfico sobre as características econômicas e sociais da pesca artesanal na costa mexicana. Enfatiza algumas características também gerais a

este tipo de produção pesqueira, destacando o fato de pesca e vida social nessas pequenas localidades seguirem o ritmo dos ciclos da natureza e afirmando que, se por um lado, nesta atividade, o trabalho tem prevalência sobre o capital, com

a dependência dos recursos naturais e a vulnerabilidade ao seu esgotamento,

esta mesma situação induz os esforços para a sua preservação. Em razão desta dependência homem-natureza é que nessas comunidades pesqueiras as tensões proveem, especialmente, dos perigos de contaminação marinha, dos movi- mentos mais intensos de capitais e pessoas resultantes da dinâmica global do capitalismo contemporâneo e da expansão do turismo sobre esses ecossistemas, um dos fatores que mais impacta as atividades da pesca artesanal.

A produção acadêmica brasileira que dialoga com a antropologia da pesca, sobretudo, a que se firmou após os anos 1970, revela, em seu processo de desenvolvimento, alguns movimentos interessantes para a reflexão sobre mudanças nas propostas teóricas e metodológicas e na amplitude da análise.

Inicialmente, nota-se a existência de etnografias sobre a pesca com forte delimi- tação dos recortes empíricos, centrados no presente etnográfico, com a ausência de um aprofundamento histórico e a elaboração de um quadro contextual mais amplo. É o caso dos estudos desenvolvidos por Chaves (1973), Pessanha (1977)

e Kant de Lima (1978), à exceção de Mourão (1971), quanto à perspectiva histó-

rica, e Diegues (1973), que tanto contextualiza quanto historiciza o objeto, elen- cando e articulando elementos estruturais e os níveis micro e macro analíticos. Ainda nas décadas seguintes algumas obras mantêm essa característica então predominante, como Britto (1999), Maldonado (1993) e Telles (2002), mas a

tendência é a de incorporar história e contexto às análises, com negação à noção de equilíbrio, traço das análises funcionalistas e estrutural-funcionalistas de períodos anteriores que permaneceram em muitas obras antropológicas, como

a tendência a compor a totalidade. Evidentemente, as críticas que marcaram a

produção antropológica a partir de meados dos anos 1980 foram orientadoras das mudanças ocorridas: crítica aos modelos fechados, subversão da relação sujeito objeto, constatação da necessidade de novos instrumentais teóricos e

metodológicos para o estudo de processos, indivíduos e grupos em fluxo e ação;

a crítica à especialização do conhecimento e à ausência de foco nas relações

de poder, com o postulado de que a antropologia deve se posicionar frente ao objeto e exercer a crítica. Isto redundou no esforço de elaboração de etnogra- fias com maior amplitude empírica e analítica, com reformulação de conceitos

como os de sociedade e cultura – não mais referidos a uma totalidade – bem como de identidade e gênero – não mais fixos e homogêneos, como esclarece Caldeira (1988).

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Outra faceta das mudanças na produção brasileira em antropologia da pesca, e à qual damos especial relevância, diz respeito à forma como a ação do Estado, por meio da legislação e de suas políticas públicas, figura nas análises. Desse ângulo, observa-se que até os anos 1990 as abordagens iam

desde a ausência total do Estado, tanto na referência a contexto como a análise, como os estudos desenvolvidos por Chaves (1973) e Kant de Lima (1978), a uma abordagem menos aprofundada sobre este aspecto, como as realizadas por Pessanha (1977) e Britto (1989) sobre a pesca no estado do Rio de Janeiro

e Maldonado (1993) sobre os pescadores de João Pessoa, Paraíba, à exceção

de Diegues (1973) em cuja análise as ações estatais são muito presentes. Nas abordagens mais recentes, a tendência se inverte, sendo poucos os estudos que ignoram a presença do Estado, como os de Paes (1998) e Telles (2002); ou o abordam com menor aprofundamento analítico como o fazem Silva (1993) e Knox (2007), preponderando estudos que dialogam seguidamente com as ações estatais, entre eles Nunes (2003), Saldanha (2005) Moura (2009), Costa (2011), Pereira (2011) e Lopes (2013). Há ainda os que dão especial atenção ao aparato legal que ordena essas atividades, como o foco sobre a legislação da posse da terra, no Brasil, em Carolino (2010).

Estudos mais recentes sobre o tema, realizados no Sul do Brasil (RIAL;

GÓDIO, 2006), também procedem a uma contextualização abrangente e focali- zam os processos de mudança com atenção especial às abordagens de gênero,

à fragmentação das unidades familiares durante o processo de mudanças e às

novas configurações da economia local, decorrentes da expansão do turismo, bem como às mudanças sociais experimentadas pelos pescadores.

Para os interesses do presente artigo, consideramos a importância das abordagens que enfocam os processos históricos e políticos que produzem as transformações vividas pelas populações costeiras, no mais das vezes marca- das pelo conflito, bem como do conjunto significativo de agentes, relações e

interesses envolvidos. Postulamos, ainda, que é necessário se debruçar sobre

o conteúdo das políticas, bem como o aparato legal, em todas as dimensões

que afetam essas populações, para, compreendendo as fragilidades delas frente ao arcabouço legal e às instâncias estatais e seus órgãos reguladores, fornece elementos para questionar a dinâmica que aproxima Estado e interesses polí- tico-econômicos.

Nossa proposta metodológica conjuga a perspectiva colocada por Little (2006) para o estudo de conflitos socioambientais, com mapeamento dos atores e interesses envolvidos e as propostas de análise de políticas públicas desenvolvidas por Lejano (2012), com foco na noção de experiência, e Rodri- gues (2008, 2011, 2013, 2014) na formulação de eixos analíticos, dentre os quais destacamos, para este artigo, a análise de conteúdo das políticas.

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Tal proposta tem nos permitido perceber com clareza a natureza das mudanças e os principais agentes nesse processo, com atenção especial às políticas que produzem essas mudanças, sua lógica, os efeitos possíveis, sua

coerência e a existência ou não de mecanismos garantidores dos direitos legais.

O acompanhamento do processo, ao longo desses cinco anos, nos permite tomar

como indicativo que as diferentes políticas em ação numa m