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08/10/13

Doutrina

Ministério Público - RS - Meio Ambiente

A Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica nos Crimes Ambientais

A responsabilização penal do ente corporativo é matéria geradora das mais intensas controvérsias. Apesar de sua aplicação à tutela

ambiental já estar indiscutivelmente firmada em nosso ordenamento jurídico legal - inicialmente, através do artigo 225, parágrafo 3º, da Constituição Federal, e, posteriormente, pelo advento da Lei 9.605/98, denominada Lei dos Crimes Ambientais -, a discussão doutrinária

a respeito de sua utilidade prossegue.

A razão para tanto, em suma, decorre do fato de que uma parte mais tradicional da doutrina tem-se apegado ao dogma romano-

germânico do societas delinquere non potest. Segundo este princípio, em conformidade com a chamada teoria da ficção legal de Savigny, a pessoa jurídica é totalmente destituída de uma personalidade e, logo, incapaz de manifestar vontade. Desta forma, seria impossível que este mesmo ente, puramente ficto, viesse a praticar uma conduta que gerasse efeitos na esfera penal, pois, para isso, é necessário exatamente o atributo da vontade, requisito essencial para que haja, aliás, também, a culpabilidade.

René Ariel Dotti, contrário à responsabilização penal da pessoa jurídica, afirma que só a pessoa humana tem capacidade genérica de entender e querer, sendo a potencial consciência de ilicitude, isto é, a culpabilidade em si, uma qualidade exclusiva da pessoa física e impossível de ser encontrada no ente jurídico . Assim, por ser desprovida da capacidade de ação, a pessoa coletiva não seria, então, capaz de praticar uma conduta infratora, pois não poderia ser a ela atribuída a culpabilidade inerente à pessoa natural.

Data venia, há um fator que restou olvidado por esta fração mais conservadora da doutrina. Primeiramente, destaque-se que o artigo 3º

da Lei dos Crimes Ambientais - o qual regularizou especificamente a aplicação do instituto na legislação brasileira – ao responsabilizar

a pessoa jurídica pelos crimes ambientais, não menciona em nenhum momento o termo conduta enfocado por esses doutrinadores.

Destarte, o parágrafo 3º do artigo 225 da Carta Magna, trouxe em seu texto uma inovação ainda não suficientemente ressaltada, qual

seja, a responsabilização da pessoa jurídica, não necessariamente em razão de uma conduta por esta praticada, mas sim, em decorrência de suas próprias atividades.

Constituição Federal, art. 225, § 3º: as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados.

Desse modo, a Constituição Federal responsabilizou a pessoa jurídica pelos crimes cometidos através das atividades por ela desenvolvidas, afastando, assim, a relevância da discussão concernente à capacidade ou não do ente coletivo praticar uma conduta. Ora, é pacífico que a pessoa jurídica exerce uma atividade, e é exatamente através desta atividade que ela poderá vir a ofender o meio ambiente.

A título de debate, contudo, é cabível mencionar que a doutrina favorável à responsabilização penal da pessoa jurídica entende que a

natureza desta deve ser conceituada através da teoria da realidade técnica, pela qual a noção de personalidade é própria do campo ideológico e jurídico. Desse modo, sendo o ente corporativo um titular de direitos e obrigações, separadamente daqueles próprios de seus sócios, obviamente possui uma personalidade também distinta daquela de seus membros. Assim, tendo a pessoa jurídica uma personalidade, conseqüentemente, vem a ser dona também de uma vontade coletiva independente, o que tornaria perfeitamente viável a caracterização da conduta.

Não se poderia deixar de fazer menção aos aspectos processuais relevantes no que concerne à responsabilização penal do ente coletivo, pois estes apresentam algumas peculiaridades capazes de provocar certos transtornos, principalmente, ao Órgão Ministerial, por ser este o responsável pela interposição da ação penal pública incondicionada, instrumento utilizado nos casos de infração ambiental.

Inicialmente, a denúncia, no caso da pessoa jurídica, deve obedecer ao estipulado no parágrafo único do artigo 3º da Lei 9.605/98. Segundo tal dispositivo, a peça inicial acusatória deve especificar, como parte no pólo passivo da ação, não apenas a pessoa jurídica infratora, mas, também, as pessoas físicas que contribuíram para o delito ambiental. Na situação em que, todavia, não for possível a apuração dessas pessoas naturais, esta circunstância deve ser explanada na peça inicial acusatória, sob pena da mesma ser considerada inepta.

No que concerne ao interrogatório, via de regra, o ente jurídico será interrogado através da pessoa física de seu representante legal. No entanto, é perfeitamente cabível a indicação de um preposto, tanto quando este for um maior conhecedor dos fatos em questão, quanto no caso do representante legal ser também réu no mesmo processo, podendo ocorrer colisão de defesa.

No caso dos crimes de menor potencial ofensivo, estes são regulados pela Lei dos Crimes Ambientais em seus artigos 27 e 28 e, também, pela Lei 9.099/95. O artigo 27 estabelece a possibilidade da transação penal (consistente na aplicação imediata da pena de multa ou restritiva de direitos) sempre quando houver a prévia reparação do dano ambiental. De acordo com o artigo 28, poderá ocorrer, inclusive, a declaração de extinção de punibilidade, desde que haja laudo de constatação de reparação do dano ambiental.

A reparação do dano possibilita ainda a própria suspensão do processo. Destaque-se que a sentença por crimes de menor potencial

ofensivo obedece à regra disposta no parágrafo 6º, artigo 76, da Lei 9.099/95, segundo o qual a sanção penal imposta em sede de transação não proporciona efeitos civis, cabendo aos próprios interessados a proposição da ação cabível no juízo cível.

A respeito das penas aplicáveis à pessoa jurídica – descontando-se as medidas que não guardam um caráter penal, quais sejam, a

liquidação forçada e a despersonalização da pessoa jurídica – tem-se a pena de multa, a restritiva de direitos e a prestação de serviços

à comunidade.

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A pena de multa poderá ser fixada de 1 a 360 salários mínimos, podendo, ainda, ser aumentada em até três vezes no caso de estar se

demonstrando ineficaz, desde que observada a situação econômica do infrator (art. 6º, III da Lei 9.605/98). As multas pagas pelo ente moral são destinadas ao Fundo Penitenciário Nacional, devendo o valor pago em decorrência da prestação pecuniária ser deduzido da

eventual reparação civil.

A pena restritiva de direitos pode ser aplicada através da suspensão parcial ou total de atividades (quando a empresa não estiver sendo

diligente em relação às normas ambientais), da interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade (quando a empresa estiver funcionando sem as devidas licenças) e, por fim, da proibição de contratar ou obter subsídios com o Poder Público (para a qual é utilizado o prazo máximo de 10 anos). Relativamente aos outros prazos das penas restritivas de direitos, a duração da sanção se dará pelo tempo que corresponderia à pena privativa de liberdade substituída. Contudo, no caso de dano ambiental de difícil e longa recuperação, a qual demoraria mais do que o prazo aplicável à hipotética pena privativa de liberdade, a solução surge através da interposição de uma ação civil pública, que acompanhará o respectivo processo de restauração.

As espécies de prestação de serviços à comunidade, determinadas no artigo 23 da Lei dos Crimes Ambientais, são o custeio de programas de projetos ambientais, a realização de obras de execução de áreas degradadas, a manutenção de espaços públicos e a contribuição com entidades ambientais. A sentença do respectivo valor utiliza os mesmos parâmetros da multa, de 1 a 360 salários mínimos.

Seria, todavia, inviável que o ente coletivo viesse a ser cobrado sempre que se visse envolvido em uma ofensa ambiental, mesmo quando indiretamente. Por esse motivo, o próprio art. 3º da Lei dos Crimes Ambientais oferece dois requisitos essenciais para que haja a responsabilização da pessoa jurídica. Em primeiro lugar, a infração em questão deve ser cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, isto é, a decisão que provocou o dano ambiental deve ter se originado dos administradores da pessoa jurídica, sendo possível a responsabilidade penal também pela omissão destes.

O segundo requisito para a responsabilização penal da pessoa jurídica, e talvez também o principal, consiste no aspecto de que o dano

ambiental tenha sido praticado em prol do interesse ou benefício da pessoa corporativa. Desse modo, se o dirigente do ente coletivo tomar uma decisão que em nada interesse ou beneficie a empresa, ainda que a utilize para seus fins ilícitos, não haverá de se falar na responsabilização da pessoa jurídica.

Assim, destacando-se, novamente, que a discussão a respeito da aplicabilidade da tutela penal ao ente moral só ocorre na esfera doutrinária, parece restar demonstrado que não há qualquer confusão na aplicação desta forma de responsabilização penal ao ente jurídico, sendo acertada a ação do legislador em admiti-la em nosso âmbito legal, pois ela é de suma importância para que a tutela

ambiental seja efetiva no território nacional. Responsabilizar penalmente a pessoa jurídica significa adotar meios eficazes para proteger

a sociedade e o meio ambiente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DOTTI, René Ariel. Incapacidade Criminal da Pessoa Jurídica: uma perspectiva do direito brasileiro. In: Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica: em defesa do princípio da imputação penal subjetiva. Coordenador Luiz Régis Prado. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2001.

FREITAS, Vladimir Passos de; FREITAS, Gilberto Passos de. Crimes contra a natureza (de acordo com a lei 9.605/98). 6ª ed. rev. atual. ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.

LECEY, Eladio. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica: Efetividade e Questões Processuais. In: Congresso Internacional de Direito Ambiental – Fauna, Políticas Públicas e Instrumentos Legais, 8º, 2004, São Paulo. São Paulo: Instituto "O Direito por um Planeta Verde", 2004.

A Atividade Empresarial e a Co-responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica e do Dirigente na Lei dos Crimes Contra o Ambiente. In: Curso de Direito Ambiental Penal, 4º, 2004, Porto Alegre. Rio Grande do Sul: Instituto "O Direito por um Planeta Verde", 2004.

MARCHESAN, Ana Maria Moreira. Alguns aspectos sobre a lei dos crimes ambientais. Revista de Direito Ambiental, São Paulo, n. 19, p. 67-81, jul./set. 2000.

SANCTIS, Fausto Martins de. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica. São Paulo: Saraiva, 1999.

SIRVINSKAS, Luís Paulo. Tutela Penal do Meio Ambiente: breves considerações atinentes à Lei n. 9.605, de 12-2-1998. 3ª ed. Ver., atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2004.

SOUSA, Gaspar Alexandre de. Crimes Ambientais: Responsabilidade Penal das Pessoas Jurídicas. Goiânia: AB, 2003.

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