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Michel Vovelle A Revolugao Francesa explicada a minha neta Traducao. Fernando Santos editora unesp Editions du Seuil, 2006 ‘Titulo original em francés La Révolution Frangaise expliquée a ma petite-fille © 2005 da tradugio brasilei Fundagao Editora da UNESP (FEU) Praca da Sé, 108 01001-900 ~ Sao Paulo ~ SP Tel.: (Oxx11) 3242-7171 Fax: (Oxx11) 3242-7172 www.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br CIP - Brasil. Catalogagao na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ vos34 Vovelle, Michel, 1933- ‘A Revolucdo Francesa explicada a minha neta/Miche! Vovelle; tradugo Fernando Santos. ~ So Paulo: Editora UNESP, 2007, Tradugio de: La Révolution Frangaise expliquée a ma petite-fille ISBN 978-85-7139-776-7 1, Franga ~ Histéria ~ Revolugio, 1789-1799. 2. Franga = Civilizagdo - 1789-1799. 3. Franca ~ Condlgées sociais — Século XVUL 1. Tieulo. 07-2526. oDD: 944.04 DU: 94 (44) "1789/1799" Editora afiliada: Gabrielle, que mora em Pisa, na Itdlia, concordou em dedicar algumas horas, durante suas férias na Franga, para examinar comigo, seu avd, essa Revolu- do Francesa que eu ensinei durante quarenta anos. Se formos bem-sucedidos, serd uma forma de nos conhecermos melhor. A Gabrielle, minha primeira neta, cimplice destas conversas; aqueles que ainda vao crescer, Marie, Camille, Matthieu, Guillaume, € @ todos os outros... Guardo carinhosamente a medaiha deixada por meu pai, Gaétan Vovelle, professor primario (1899-1969), a qual traz a seguinte inscrigdo: “Todas as criancas do mundo sdo meus filhos”. Sumario 1. Revolugao Francesa: uma revolugao diferente das outras 9 2. Por que aconteceu a Revolugdo? 21 3. Uma monarquia constitucional 39 4, A queda da monarquia $7 5. A Primeira Reptiblica 67 6. O Diretério: terminar a Revolugo? 85 Conclusao: A sombra e a luz:da Revolugao 99 Capitulo 1 Revolug¢gao Francesa: uma revolucao diferente das outras ~ Vocé ouviu falar da nossa “Grande Re- volu¢ao”? Isso significa algo para vocé? ~ Pouca coisa; com catorze anos, acabei de passar para o “Curso Classico”, e ainda néio estudei essa matéria. — Nao se preocupe. Mesmo que jd tenham ouvido falar do assunto, tenho certeza de que, para um grande numero de estudantes fran- ceses de sua idade, trata-se de uma historia complicada e distante, cheia de aconteci- mentos e de personagens. Alphonse Aulaid, um historiador que viveu hé mais de cem anos, escreveu: “Para compreender a Revo- Michel Vovelle lugao Francesa é preciso amé-la”. Primeiro vamos tentar compreendé-la; depois vere- mos se, no final do jogo, nés a amamos... Para isso, seria bom se vocé me fizesse per- guntas... — Mas eu ndo sei direito o qué perguntar... — Eu bem que desconfiava; mas tenho cer- teza de que as perguntas surgirdo: é sé co- megar bem. — Vové, o que é uma revolugao? ~ Vocé comecou a estudar latim; ja ouviu falar de Espartaco? Espartaco vivia na Anti- guidade, no tempo da Reptiblica romana, antes da nossa era. Sendo ele mesmo um escravo, liderou a revolta dos escravos con- tra seus senhores. Mas os escravos foram derrotados e mortos. A revolta de Espartaco deixou sua marca na histéria, mas é uma en- tre as milhares de revoltas dos oprimidos contra os opressores. — A Revolugdo Francesa é uma revolta de es- cravos como a de Espartaco? — Nao, a Revolugao Francesa ocorre em 1789 em meio a uma série de revolugdes — em Genebra, na Bélgica, nos Paises Baixos... 10 A Revolusio Francesa explicada aminhaneta A mais importante é a revolucao norte-ame- ricana, isto é, a revolta das treze coldnias inglesas da Costa Leste da América do Norte contra sua metrépole, entre 1776 e 1783. Ela deu origem aos Estados Unidos de hoje. Di- ferentemente da revolta, a revolucao muda 0 curso da histéria em um pais. — A Revolugao Francesa, entdo, é apenas uma revolugdo como as outras? ~ De fato, é uma revolucao entre outras, e nés, franceses, sempre fomos criticados por querer trata-la, orgulhosamente, como algo a parte, atribuindo-Ihe uma importan- cia especial. Para compreender, porém, é preciso comecar examinando como e por “que tudo comegou. E a resposta nao é sim- ples. Desde 0 comego, os revolucionarios deram o nome de “Antigo Regime” ao mun- do que eles haviam destruido, como se qui- sessem virar a pagina e comecar uma nova aventura. Esse Antigo Regime era o reino da Franga, uma monarquia sob o reinado de Luis XVIe de sua esposa, Maria Antonieta. Luis XVI nao era uma md pessoa; embora nao tivesse grandes qualidades, era bem in- tencionado. Ele no conseguiu manter seus ministros competentes - Turgot, Necker etc n Michel Vovelle ~ nem defender as reformas propostas por eles. Isso porque havia uma forte resisténcia por parte dos privilegiados, ea crise era grave. ~ O que quer dizer privilegiados? — Na Franga do Antigo Regime nao havia igualdade; a sociedade estava dividida em ordens, que tinham mais ou menos privilé- gios: a frente vinha o clero, a Igreja Catéli- ca, a Unica que tinha o direito de ensinar a religiao, mas que também era muito ricaem terras e rendas. Mais ricos ainda eram os aristocratas, que compunham a ordem da nobreza. Eram proprietarios de pelo menos um quarto das terras, favorecidos por privi- légios honorificos e também fiscais. Orgu- Ihosos de seus titulos, serviam nos exércitos do rei, mas na maior parte do tempo fica- vam sem fazer nada em seus castelos ou na cidade, sendo que os mais notéveis mora- vam na corte do rei, em Versalhes. Entre eles havia alguns muito ricos e outros menos. Alguns haviam conquistado seu titulo de nobre adquirindo um cargo de magistrado: era a nobreza togada. Quer sua nobreza fosse antiga ou recente, as reivindicagdes dos no- bres tinham origem na época medieval do feudalismo, isto é, de um perfodo em que a 12 ARevolucae Francesa explicada aminha neta estrutura pol{tica do reino estava baseada em relagGes de vassalagem: o proprietario do feudo, chamado vassalo, e todos que ali viviam e trabalhavam deviam fidelidade e respeito ao senhor, em geral um nobre. Esses senhores haviam dominado um campesinato de servos, camponeses ligados a terra que deviam tornd-la produtiva. No final do sé- culo XVII, porém, quase no havia mais servos na Franga: os camponeses eram livres e geralmente donos de suas propriedades, que representavam, no total, quase metade das terras da Franca. Continuavam existin- do, entretanto, as obrigacdes e as taxas: eram 08 direitos feudais e de senhorio, pagos em dinheiro ou em espécie, os quais as vezes eram muito pesados, como a “jugada” — apés acolheita, os enviados do senhor recolhiam dos campos um feixe em cada dez, ou em cada doze ou catorze. Os senhores haviam conservado direitos honorfficos, sua propria justica, seus lugares na igreja e 0 direito de caga. — Como os camponeses suportavam isso? ~ Como agiientavam quase todo o peso dos impostos reais, eles sofriam muito com as humilhagdes. Eles se mobilizavam para 3 Michel Vovelle defender seus direitos, que os nobres tinham a tendeéncia de usurpar, chegando as vezes a se revoltar: em especial nas épocas de es- cassez, para protestar contra o alto preco do pao. E eles nao eram os unicos, pois tanto para os operarios das cidades quanto para eles 0 pao era 0 alimento principal, consu- mindo metade do salirio didrio de uma fa- milia. Vocé, que nao pode comer pao em ex- cesso, 0 que acha disso? ~ O que eu gostaria de saber mesmo é 0 que é escassez! ~No grande reino da Franca, com 28 mi- lhGes de habitantes, havia planicies férteis como nos arredores de Paris, e regides mui- to mais pobres, nas montanhas, por exem- plo. Por toda parte, porém, o trigo para fa- zer pao era uma necessidade basica: bastava © tempo provocar uma ou varias colheitas ruins para que o prego disparasse, a miséria se instalasse e a revolta explodisse; é 0 que se chama de “agitaco popular”. Embora es- sas crises e a mortalidade causada por elas houvessem diminufdo no século XVII, elas continuavam existindo, ¢ foi isso que acon- teceu em 1788 e 1789: as vésperas da Re- 14 A Ravolusae Francesa explicada 3 minha neta volugdo, explodem revoltas em varias pro- vincias ¢ as cidades se agitam. —E foi isso que causou a Revolugdo? — Sime ndo. Falamos, com razao, dos cam- poneses; eles representam trés quartos da populacao, mas nado ocupam o espago todo ao lado das duas primeiras ordens. Eles fa- zem parte da terceira ordem, chamada Ter- ceiro Estado: moradores das cidades e do campo, ricos e pobres, que constituem, no total, 95% dos franceses. Todos ~ sobretudo os pobres, é claro ~ foram atingidos pela cri- se; porém, como dizia um dos meus profes- sores, a cada dois anos acontece uma crise, mas ndo acontece uma revolugdo cada vez que ha crise. E uma das causas, mas ndo éa unica. E preciso voltar o olhar para as cidades para perceber de onde vem a ameaga da cdlera ¢ as demonstrag6es de insatisfacao. Com seiscentos mil habitantes, Paris é uma cida- de grande, certamente a terceira do mundo. — Quais so as outras duas? ~ Londres e, provavelmente, Pequim. Vol- temos a Franca, onde ha outras cidades gran- 18 Michel Vovelle des (Lyon, Marselha, Bordeaux), além de muitas cidades pequenas e vilarejos. Nelas encontramos uma multidao de pessoas do povo, de mendigos a trabalhadores diaris- tas, mas também artesdos ¢ comerciantes — diz-se “a barraca e a lojinha” -, membros de corporagSes que reuinem mestres e ope- rarios auténomos. Ha também uma burgue- sia afluente composta de negociantes por vezes muito ricos nos portos, de banquei- ros, de empresdrios do setor téxtil ou da nascente metalurgia. No interior dessa bur- guesia, um grupo nao deve ser esquecido: os advogados, os funciondrios da justica e os médicos. Hoje seriam conhecidos como in- telectuais ¢ profissionais liberais. Nao os perca de vista, pois vamos cruzar com eles novamente. Pois, embora ainda nao possua, de fato, © perfil que lhe daréa Revolug4o Industrial do século seguinte, a burguesia aproveitou- se enormemente do desenvolvimento eco- némico do século XVIII, com o desenvolvi- mento do comércio maritimo. Ela tem novas aspiragSes e novas ambicdes. Um dos futuros porta-vozes da Revolucao, Barnave, esctevera que a uma nova distribuicao de riqueza deve corresponder uma nova distri- 16 A Revolugao Francesa explicada Aminha neta buicdo de poder... Vocé sabe que muito se escreveu e muito se leu durante o século XVIII, o que Ihe valeu 0 titulo de Século das Luzes. Vocé ouviu falar disso na Italia? — Claro que ouvi... Ilumi, Iluminismo... Mas 0 que isso quer dizer exatamente? —£ uma ampla corrente de idéias que to- ma conta da Europa. De Napoles a Milio, tivemos representantes brilhantes: todos eles leram © tratado Dos delitos e das penas, no qual seu jurista Beccaria denunciava a tortura ¢ os castigos intiteis ou injustos Vozes importantes também se fizeram ouvir da Inglaterra a Alemanha. Na Franca, Mon- tesquieu, Voltaire, Rousseau, Diderot, cada um com seu estilo, fizeram ressoar a voz da filosofia. Contra a intolerancia religiosa e em defesa das liberdades, contra o arbftrio do absolutismo ¢ em defesa de um regime politico em que os cidadaos, protegidos por uma Constituig&o, participam da adminis- traco do Estado. Os jornais - ainda chama- dos geralmente de gazetas -, mas também as associagées divulgam essas idéias: as classes populares tomam conhecimento de- las de forma simplificada; nessa época, mais da metade da populacdo adulta francesa sabe 7 Michel Vovelle ler e escrever (0 que é possivel perceber pela assinatura)... — Nao é muita gente... ou €? — Para nés pode parecer pouco. Ainda mais se levarmos em conta a desigualdade entre homens e mulheres, bastante preju- dicadas, ou entre as regides— 0 Norte é mais instruido que o Sul... Em termos de Europa, porém, a Franca nao esta em uma posi¢ao ruim. E assiste-se, nas cidades, ao surgimen- to de uma opiniao publica cujos ecos che- gam ao campo. ~ Entao 0s ricos e os pobres estao todos de acor- do... contra 0 qué? ~ N&o vamos nos apressar. As coisas nao so téo simples como parecem. A revolu- so que esta sendo preparada sera, como se disse, filha da miséria ou da prosperidade? Swit) Michelet, um de nossos grandes historiado- res do século XIX, evocando a escassez e lembrando-se da Biblia, voltava-se para o camponés: “Vejam-no deitado na imundicie, pobre Jé...”. Isso diz alguma coisa para voce? ~ Sim, J6 é um infeliz a quem Deus faz passar por provasées antes de recompensd-lo. Serd que Michelet néo esta exagerando um pouco? 1 A Revolusio Francesa explicada Aminhancta ~ Trata-se de uma imagem, é seu jeito de escrever. Mais tarde, porém, no inicio do século XX, Jean Jaurés, outro grande histo- riador, de maneira resumida, disse o seguin- te: ndo, nao foi a miséria que fez a revolucdo, foi a vontade daqueles cujo papel e riqueza os impeliam a assumir seu verdadeiro lugar na sociedade, os burgueses. Michelet e Jaurés: quem esta errado, quem esté com a razao? ~ Vové; vocé é que tem de responder! ~- Os dois tém razio. A prosperidade do século no foi compartilhada por todos. A miséria contribuira para mobilizar nao apenas as cidades, mas também os campos. Eles explodem em 1789 e, em 1795, uma nova crise ira causar destruigao. Mas 0 “maes- tro da orquestra, a miséria” ndo representa a totalidade das reivindicacées populares. Pobres ou ricos, os camponeses tém uma conta a acertar com o sistema feudal - ou com aquilo que sobrou dele ~, ea revolusao camponesa ira convergir, ao menos duran- te certo tempo, com a dos burgueses das cidades. A elite rica e ilustrada tem seus préprios objetivos e metas de luta. Porta-vozes indi- cam-lhe 0 caminho: 0 abade Sieyés expde o 19 Michel Vovelle problema em um texto intitulado O que é 0 Terceiro Estado?. Esse Terceiro Estado, sobre quem recaem os impostos e as taxas, “hoje ndo é nada... e o que ele deseja se tornar? Tudo”. 20 Capitulo2 Por que aconteceu a Revolugao? — Vocé explica bem as causas da Revolugao, mas falta saber como explodiu... O que provocou, de fato, a Revolugo? — Com as causas profundas, provenien- tes de um velho mundo carcomido, eu si- tuei, de todo modo, a pentiria de 1789. E- verdade que acrescentei que ela nao explica tudo. Pois ha outras razSes, as mesmas que foram dadas na época e eram as mais visi- veis. Nem tudo corria bem no reino da Franga O rei Luis XVI era um monarca absoluto: consagrado na catedral de Reims, era 0 es- colhido de Deus. Em meio aos cortesdos do Palacio de Versalhes, ele era a encarnagao 21 Michel Vovelle da lei, e os ministros s6 obedeciam sua von- tade. A Igreja Catélica estava associada a seu poder e as outras religides eram proibi- das (0s protestantes eram “tolerados” des- de 1788), e intendentes administravam as provincias em seu nome. Mas esse edificio, erguido ao longo de dois séculos por camadas sucessivas, jamais fora organizado: os limites administrativos en- cobriam um emaranhado de privilégios, a justiga era exercida pot magistrados que eram proprietarios de seus cargos ~ em Pa- ris ou no restante do pais ~ e os quais pre- tendiam ter o direito de supervisionar as decisdes reais. Embora tivessem sido con- tidos, sua resisténcia voltou a se manifes- tar as vésperas da Revolugao, ¢ eles, que teo- ricamente estavam a servico do rei, iriam contribuir para a crise do regime e para o desencadeamento da Revolugio. Pois havia um grave problema financeiro. Os tributos recaiam basicamente sobre o Terceiro Esta- do: a talha era 0 Unico tributo direto, enquan- toa capitacdo, estabelecida em 1695, recaia sulre todos os individuos de todas as or- dens. Esses tributos eram mal repartidos e cobrados de maneira injusta; e, ao lado des- 22 ARevolugio Francesa explicada aminhaneta ses tributos diretos, havia os impostos que © rei arrecadava sobre diversos produtos: 0 mais impopular, a gabela, era aplicada ao sal, um género de primeira necessidade... — Por que especialmente o sal? = Vocé sabe muito bem que nao havia ge- ladeira no tempo de nossos antepassados. Eles s6 dispunham do sal para conservar a carne e outros alimentos. E preciso também mencionar o dizimo, um imposto especifico aplicado as colheitas que o clero usava para as despesas do culto; mas ele era desviado com tanta freqiiéncia que os padres as ve- zes nem se beneficiavam dele. Como vocé pode ver, as pessoas nao eram cobradas de maneira conveniente; sé que isso também acontecia na hora das despesas. A monarquia nao tinha previsées rigorosas de gasto - 0 que conhecemos como orgamento: dessa forma, © préprio rei podia langar mao diretamente dos impostos para atender as necessidades de seu padrao dé vida e do da corte de Ver- salhes. Dizia-se que a rainha Maria Antonie- ta era uma perduldria. O luxo dos privile- giados era uma ofensa A miséria dos pobres. A isso vem se somar, nos anos 1770-1780, a 23 el Vowvelle guerra de independéncia das colénias ingle- sas da América, que contou com apoio do rei da Franga. ~ Mas isso é uma coisa muito simpdtica... Qual 0 problema, entao? ~ E que esse apoio saiu muito caro. E as- sim a divida aumentou e o rei tinha de co- brar novos impostos; mas 0 prejuizo era tao grande que todo 0 sistema tinha de ser in- teiramente modificado. Eu ja havia dado uma pista l4 no come¢: Luis XVI, que em 1789 completava 25 anos de reinado, ndo teve forga para implantar as reformas. Nao vou retomar essa historia toda, pois, talvez como vocé, tenho pressa em entrar na Revolugao. Digamos que o rei nao apoiou os ministros que Ihe propunham uma reforma profunda das instituigdes, como Turgot, o mais reformista, que ele destituiu em 1774, seguido de Necker, Calonne, Lo- ménie de Brienne ¢ Necker novamente, em 1789: vocé certamente nao precisa guardar esses nomes por ora, todos eles fracassaram. Isso porque seus esforgos esbarraram na oposigao dus privilegiados: da corte e dos principes ~ irmaos e parentes do rei -, das instituigdes importantes do Estado, que 24 ARevolugao Francesa explicada minha neca Luis XVI'convocara para apoiar as reformas: duas assembléias de notaveis e também as importantes cortes de justiga que eram os Parlamentos, em primeiro lugar o de Paris Aproveitando momentaneamente o apoio da populagio, tanto de Paris quanto do res- tante do pais, que os ¢onsiderava defensores das liberdades contra o absolutismo do rei, eles bloquearam todas as tentativas de reforma, enquanto a crise piorava. Dessa for- ma, foram os privilegiados que, de certa forma, precipitaram os acontecimentos Quer dizer, entdo, que o povo estava engana- do a respeito deles? ~ A ilusdo nao durou muito tempo. Quan- do se trata do ano de 1788 e ainda do inicio de 1789, os historiadores falam de “pré- Revolu¢ao” e alguns até de “revolu¢ao aris- tocratica”, mas percebe-se, de fato, que es- tavam enganados. E, enquanto avangava, a opiniao ptiblica se educava. Quando, ao pe- dir ao rei a convocagao dos Estados Gerais para resolver o problema das reformas, o par- lamento de Paris caiu naquilo que se tornaria sua prépria armaditha, surgiu uma grande esperanga: o pais iria ser ouvido... 28 Michel Vovelle — O que é a reunido dos Estados Gerais? —Reunir os Estados Gerais era um modo antigo de o rei consultar seus stiditos, ou, ao menos, os representantes das trés ordens fazia mais de dois séculos que ocorrera a Ultima reunido. Ao mesmo tempo, uma gran- de novidade: os franceses tiveram 0 direito de se manifestar. E fizeram uso desse direito, j4 que foram estimulados a redigir cadernos de doléncias por todo o pais — O que isso quer dizer? E como se fosse uma stiplica? = Vocé quase acertou. Uma doléncia é uma queixa ~ nao se ousa dizer uma recla- magao — submetida a boa-vontade do rei. Os franceses levaram muito a sério essa ta~ refa; cada ordem tinha seu caderno, e os membros do Terceiro Estado, nas aldeias ou nas corporagées, relatavam suas misérias de maneira freqtientemente emocionante, sen- do as vezes “teleguiados” por pessoas ins- truidas que faziam passar reivindicagdes mais gerais. Nessa altura dos acontecimen- tos, os stiditos ainda amam o rei, que é vis- to como uma espécie de pai, mas eles de- nunciam os abusos da administragao e os direitos senhoriais; nao se importam de pa- 26 A Revolugio Francesa explicada a minha neta, gar imposto, mas exigem o direito de con- trola-lo por meio de seus representantes, e reivindicam o respeito pelas liberdades e 0 fim do arbitrio... Vocé pressente que exis- tem vozes discordantes na nobreza... mas isso representa um testemunho claro da si- tuacado da Franga em 1789. E essa mensa- gem que os deputados das diferentes ordens foram apresentar em Versalhes, no més de maio de 1789, apos uma campanha cleito- ral bastante intensa e disputada. ~ Como hoje em dia? — Nao exatamente. Embora teoricamente todos 0s stiditos pudessem participar, essa participagao em geral se dava de maneira muito complicada. Vamos dizer que, mesmo assim, era um come¢o. E um acontecimento, como a abertura das sessées no dia 5 de maio de 1789, com o desfile de deputados, nobres e bispos vestindo roupas enfeitadas, enquanto os deputados do Terceiro Estado usavam um uniforme negro mais melancé- lico. Imediatamente comegou a disputa: os membros do Terceiro Estado tinham conse- guido, com 0 rei e o ministro Necker, 0 direi- to de ter o mesmo ntimero de deputados que as duas ordens privilegiadas juntas (com a 27 1. 5 de maio de 1789. Abertura dos Estados Gerais em Versalhes. (Desenhode Monnet. impresso por Helman.) Michel Vovelle intengdo de garimpar votos entre os padres ‘ou os nobres liberais, que os havia), o que Ihes dava a maioria... se todos votassem jun- tos. O rei, a corte e os privilegiados nao in- terpretavam a coisa da mesma maneira, e queriam que cada.ordem ficasse separada; nessas condiges, o Terceiro Estado sé tinha um ter¢o dos votos. Aconteceram tantas coisas que nao sou capaz de contar tudo: o rei repreende os deputados e seu mestre-de-ceriménias quer retir4-los do saléo; um dos oradores do Ter- ceiro Estado, 0 j4 famoso Mirabeau, Ihe res- ponde: “Estamos aqui pela vontade do povo, € sé sairemos com a forca das baionetas”. Mais importante ainda: no dia seguinte os deputados encontram a porta fechada. Eles “invadem” uma sala vazia ao lado, um lugar de jogar péla (isto é, uma espécie de ténis jogado em um salao), onde, espremidos, ouvem um de seus, 0 erudito Bailly; ele os faz prestar o juramento de nao se dispersar antes de obter uma Constitui¢ao, isto é, um texto escrito que estabelece a organizacao do poder. O Juramento do Jogo de Péla de 20 de junho de 1789 é um ato verdadeira- mente revolucionario, pode-se dizer funda- dor, que muda tudo. Os deputados do Ter- 30 A Revolugao Francesa explicada a minhaneta ceiro Estado proclamaram-se Assembléia Nacional, depois Assembléia Nacional Cons- tituinte. Membros do clero juntaram-se a eles ~ os padres “patriotas”, como comegam a ser chamados. Em seguida o rei concor- dou que as ordens participassem juntas da Assembléia. Podia-se esperar que, com essa atitude, ele estivesse aceitando um comeco de transformagao pacifica: nesse meio tem- po, contudo, ele reuniu tropas em torno da capital, onde o povo se mobilizava para de- fender os deputados em Versalhes (que fica bem préximo de Paris). Na verdade, o rei pre- parava um golpe arriscado: ao demitir o ministro Necker no dia 11 de julho, a revol- ta estourou. Em busca de armas, no dia 14 de julho os parisienses invadiram a Bastilha, antiga fortaleza medieval que se tornara uma prisao do Estado. ~ A Bastilha eu conhego. Mas o que é uma pri- sao do Estado? ~ Ed que o rei prendia, sem julgamento, aqueles que o contrariavam. Escritores, jor- nalistas (chamados de panfletérios), auto- res de textos proibidos, individuos de mau comportamento, também, a pedido da fami- lia. Bastava uma carta régia com a ordem 31 Michel Vovelle de pris&o, sem acusa¢o precisa nem pro- cesso. Ela se tornara o simbolo da arbitrarie- dade do rei, A bem da verdade, é preciso di- zer que em julho de 1789 a prisdo estava quase vazia, s6 havia meia duizia de presos. Nao eram eles que as pessoas queriam, ¢ sim as armas. Uma multidao armada, com- posta sobretudo por arteséos e populares, além de soldados — os guardas do rei -, diri- giu-se a Bastilha: o diretor recusou-se a abrir os portées, houve uma batalha que provo- cou numerosas mortes entre os atacantes, mas éles acabaram se impondo e assassi- nando 0 diretor. A Queda da Bastilha no dia 14 de julho de 1789 € tao importante quanto oJuramento do Jogo de Péla, talvez até mais: quando os deputados estdo sob a ameaga do goipe de forca real, a entrada em cena do povo parisiense constitui 0 acontecimento mais importante, e vai caracterizar a Revo- lugdo que se inicia — é preciso que se diga — com a marca da violéncia, ainda que esta ja estivesse presente antes. ~ As coisas nao poderiam ter sido feitas de manetra diferente? E muito triste, e talvez injus- to, todas essas mortes quando se queria construir um mundo mais justo. 32 ARevolugao Francesa explicada a minhaneta = Vocé toca bem no cerne do problema. Era possivel evitar a violéncia ou ela era ne- cessaria? A tomada da Bastilha nos da al- guns elementos de resposta: sem essa mo- bilizagao, a situacSo ficaria bloqueada. Fica claro que é a recusa do rei, apoiado pelo parti- do da corte e pela oposicao daqueles que se- ro conhecidos como os aristocratas, que tornou 0 caminho das reformas impossivel. O rei sente-se solidario aos privilegiados; ele diz: “Nao quero me separar do ‘meu clero’ e da ‘minha nobreza’”. Por causa disso, du- rante quatro anos ele vai usar de artimanhas, fingindo aceitar a nova situa¢do, enquanto a forca do movimento revolucionario afirma- se de maneira destemida, endurece, e a es- calada comeca. Nao gostamos de sangue, e temos razio de nao gostar. Nossos antepassados tam- bém nao gostavam: muitos ficaram horro- rizados com o derramamento de sangue; por exemplo, quando foram assassinados, na- queles dias, o intendente da regiao de Paris (para simplificar, uma espécie de prefeito), Bertier de Sauvigny, & seu sugro. Babeuf, wit jovem pobre que se tornaria mais tarde uma pessoa conhecida, escreve nessa ocasiéo a 33 2. 14dejulhode 1789, a Queda da Bastilha, (Gravurade Prieur) MichelVovelle ARevolucao Francesa explicada a minha neta 3. Imagens popularesrepresentandoas trésordens (Terceiro Estado, faeces cleroenobreza),antesedepoisda Revolugao, Michel Vovelle sua mulher: “Como essa alegria toda me in- comodava... Os senhores tornaram-nos tao cruéis quanto eles...” © pais encontra-se dividido, nesse mo- mento, entre dois sentimentos muito for- tes: a esperanga e o medo. Medo dos pode- rosos e dos principes, que comecam a fugir para 0 exterior — serao chamados de emi- grantes. Mas também, logo apés 0 14 de ju- Iho, um grande panico, como nunca se vira nem nunca se veria, varre todo o pais: foi o chamado Grande Medo. Um boato espalha- se pelas aldeias: os bandidos esto chegan- do, eles vao roubar e queimar tudo. Que bandidos? Pouco importa, 0 povo arma-se © passa adiante o rumor... Nao passou de um sonho ruim. Podemos dizer que a esperanca venceu; no dia seguinte ao 14 de julhoo rei dirige-se a Paris, onde é recebido pelo novo prefeito (Bailly, aquele do Jogo de Péla), que Ihe da uma nova insignia. Mais que um en- feite, trata-se de um simbolo: branco (como a bandeira da monarquia), mas claramente rodeado de azul vermelho, as cores da ci- dade de Paris. A nagao fica toda colorida, tricolor... (Na Itdlia, vocés seguiram o exem- plo com o verde-branco-vermelho.) Pode- tia se ver ali o premtincio de uma monarquia constitucional. 38 Capitulo3 Uma monarquia constitucional — “Uma monarquia constitucional”, que pala- vras complicadas... O que quer dizer “Consti- tuigao”? = Nao, nao € tao complicado assim... Luis XVI continua sendo rei a frente de uma monarquia. No entanto, ele nao € mais so- berano absoluto “pela graga de Deus”, e sim “rei dos franceses”, que Ihe confiam esse cargo em nome da soberania nacional, isto &, do povo; os stiditos se tornaram cidadaos. Ele terd de respeitar a Constituigao, um tex- to que regulamenta o funcionamento das instituigées levando em conta a vontade ge- ral delegada a representantes do povo. Os 39 Michel Vovelle Estados Gerais, que se transformaram em Assembléia Nacional Constituinte, en- carregam-se de redigir 0 texto, cujos prin- cipios s4o anunciados, em agosto de 1789, na Declaracdo dos Direitos do Homeme do Cidadao. Eles nao perderam tempo: com a pres- sao popular, tiveram de tomar, urgentemente, medidas radicais. O que se viu foi a volta do Grande Medo, com castelos sendo incen- diados em toda a Franga, enquanto os cam- Poneses tocam fogo em todos os documen- tos senhoriais que fixavam o pagamento de impostos. Aterrorizados, os deputados pen- saram, no primeiro momento, em reprimi- los: porém, na noite de 4 de agosto de 1789 aconteceu 0 que freqiientemente foi descri- to como um “milagre”. —Na histéria acontecem milagres? — Na verdade, nao. Digamos que as clas- ses favorecidas, tendo a frente os nobres ‘ berais” favordveis 4 Revolucaio, conscientiza- ram-se de que era preciso tomar uma medida radical. Assim, apresentaram-se a tribuna da Assembiéia para abrir mao de todos os seus privilégios (e as vezes dos privilégios do vi- zinho). E preciso reconhecer: quando a noite i= 40 A Revoluso Francesa explicada aminha neta chegou ao fim, o feudalismo havia sido abo- lido do reino. Ou seja, era o fim da socieda- de hierarquizada: acabavam-se as ordens da nobreza e do clero, as corporagées e as aca- demias; 0 que havia agora eram cidadaos livres e iguais perante a lei. Os direitos e os impostos feudais e senhoriais estavam abo- lidos - mas é possivel perceber aqui até onde vao os limites da generosidade. $6 desapa- reciam os direitos que recaiam sobre a pré- pria pessoa; os que diziam respeito a terra podiam ser recuperados. A destruicéo do Antigo Regime institu- cional e social era o prentincio do importante texto da Declaracao dos Direitos do Homem que apareceria algumas semanas mais tarde. Foi a primeira etapa de um gigantesco trabalho de transformacao ¢ de renovacdo da Franga que essa Assembléia ira realizar. Antes de relembré-lo, vamos pér as coi- sas em seu devido lugar. Trazida de Versa- lhes no dia 6 de outubro de 1789 por um cortejo de mulheres, a familia real encontra- se agora em Paris, no Palacio das Tulherias. A Assembléia Nacional retine-se préximo dali ¢ comega a ter suas primeiras experién- cias politicas; ainda nfo se fala em partidos, mas os grupos jé entram em confronto: a a Michel Vovelle direita ficam os contra-revolucionarios e aristocratas, ou “negros”; no centro ficam 08 patriotas constitucionalistas, onde ora- dores como Mirabeau e Barnave se valori- zam; €, a esquerda, alguns democratas, como Robespierre, se destacam. A vida politica intensifica-se, com os jornais, os clubes e as reunides politicas iguais aos da Inglaterra: instalado em um antigo convento, o clube mais célebre e influente é 0 dos Jacobinos. A provincia agita-se bastante: as antigas au- toridades séo derrubadas, é a “revolugao municipal”. ~ Entdo a Revolugdo acabou? — Ela mal estava comegando. E bem ver- dade que, nessa data, surge uma nova Fran- a baseada em principios novos. Em 1790 foi celebrado 0 14 de Julho, uma das mais belas festas da Revolugao, para comemorar © aniversario da Queda da Bastilha: é a fes- ta da Federagao, que reuniu em Paris cente- nas de delegacdes que vieram prestar jura- mento “a na¢o, a lei e ao rei”; um gesto de confianga na unidade nacional. Vocé se recorda de que a Declaragao dos Direitos do Homem e do cidadao havia sido 42 A Revolugéo Francesa explicadaa minha neta aprovada em 28 de agosto de 1789, pouco depois da Queda da Bastilha: trata-se de uma data importante, ndo somente na histéria da Revolugao Francesa, mas também na his- téria da humanidade. ~ Isso nunca tinha sido feito antes? — Ja, mas nao com a amplitude da decla- ragdio francesa. Desde as revolugées do sécu- lo XVII, os ingleses tinham uma declaragao de direitos, mas n&o uma Constituigao es- crita; durante a guerra de independéncia, os norte-americanos haviam redigido declara- Ses nos diversos estados. Mas a ambicdo do projeto francés ja fica patente no titulo “Declaragao dos Direitos do Homem e do Cidadao”: nao apenas as garantias indivi- duais, mas as garantias do cidadao, agente da vida politica da cidade. Depois, no inicio, as palavras admiraveis: “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos...” Vocé percebe? Nao sé os franceses de 1789, mas os homens de todos os paises e em to- das as épocas. Para um texto escrito bem no meio dos acontecimentos revolucionarios na Franga, a originalidade esta exatamente nes- sa pretenso a universalidade. A proclama- 43 Michel Vovelle 40 dos novos valores questiona a organiza- so social do Antigo Regime. Vocé saberia definir o termo “valores” nesse sentido? ~ Baquilo a que a gente se sente ligado, em que confia.. ~ Nada mal. Sao as idéias basicas sobre as. quais se apdiam os homens que vivem em sociedade. Em primeiro lugar, a liberdade em suas diferentes formas. A mais simples €a liberdade individual, a liberdade de ir e vir e de agir, sem ser preso arbitrariamente quando nao se faz nada de errado. Os ingle- ses foram os primeiros a proclamé-la... Os franceses a retomaram assegurando a segu- ranga do individuo. Depois vem a liberdade de pensamento, de crengae de religido. Vocé se recorda de que na Franca do Antigo Re- gime a religiao catélica era a tinica autori- zada, sendo, pode-se dizer, obrigatéria. No Leste e no Sul, as comunidades judaicas ti- nham um estatuto humilhante; os protes- tantes, que se tentou converter a forca no final do século XVI impedindo-os de prati- car sua religido, haviam resistido em segredo, sobretude nas regides onde eram numero- 80s, como no Sul; porém, 0 reconhecimento de seu direito de culto, isto é, o reconheci- 44 A Revolugao Francesa explicada a minha neta mento de sua existéncia e de seu estado ci- vil, acontecera recentemente, em 1788. A Declaragao dos Direitos afirma que “nin- guém pode ser importunado por causa de stias opinides, mesmo as religiosas” ~ Que regra esquisita! Todo mundo tem direito de seguir a religido que quiser! Mas néo era as- sim? — E que os revolucionarios estavam cons- cientes do peso do passado, e, de fato, os catélicos e os protestantes continuavam se enfrentando no Sul. Embora esses tiltimos tenham-se tornado cidaddos plenos imedia- tamente, passaram-se varios anos até que os judeus fossem totalmente emancipados. Mas a liberdade religiosa é apenas um dos aspectos da liberdade de opinido e da liber- dade de expresso, sendo seu prolongamen- to natural... para nés. O Antigo Regime proi- bia-a completamente. A Igreja denunciava os textos “imorais”, anti-religiosos ou liber- tinos, a realeza censurava tudo que pudesse atacar a figura do rei ou a ordem estabele- cida, a imprensa era vigiada e 0 livros clan- destinos cagados. Os jornais e os tabldides eram proibidos ou severamente vigiados; e, no entanto, os anos que precederam a Revo- 4s Michel Vovelle lugao assistiram A multiplicagdo de textos que abordavam temas politicos. A Declara- sao dos Direitos proclama a liberdade de expressdo ~ isto é, a liberdade de imprensa — tomando algumas precaugdes, mas os jor- nais se multiplicam, sejam eles pré ou con- tra-revolucionérios. Entre as liberdades pro- clamadas ha uma que aprendemos a olhar com um pouco de reserva: é a liberdade de empreender, de produzir e de fabricar... — Vocé desconfia disso? ~E que aprendemos, desde o século XVUL, que a liberdade absoluta nessa area pode se tornar um elemento de desigualdade e de opressao dos mais pobres, por causa da in- fluéncia do dinheiro. J4 naquela época havia duas visdes opostas. Muitos tedricos, esta- distas e economistas (um termo inventado ent&o) elogiam a liberdade: “Nada de inter- feréncia, nada de obstaculos”, Liberdade de circulagao de produtos, em especial de cereais, em um pais totalmente compartimentado por barreiras alfandegarias internas. Liber- dade, para os grandes produtores agricolas, de organizar 0 cultivo a seu modo, sem se su- bordinar as regras da aldeia; liberdade, para Os artesos e comerciantes, de se estabelecer, 46 A Revolugo Francesa explicada 4 minha neta eles que viviam sufocados pelos regulamen- tos das antigas corporagées em crise... Uma liberdade ratificada pela Revolugao, que tomaré medidas para tornd-la efetiva. Mas outra voz se faz ouvir: a dos grupos popula- res, tanto do campo como da cidade, que denunciam a livre circulacéio de mercado- rias ~ considerada favordvel a especulacao ~, rejeitam a liberdade de precos e exigem o “tabelamento”, em primeiro lugar dos ce- reais e do pao; veremos, nos anos seguin- tes, qual seré o desfecho disso. No campo, as aldeias defendem seus direitos comuni- tarios; nas cidades, a crise aumenta a hosti- lidade dos menos favorecidos contra os bur- gueses: aqui, 0 problema das liberdades associa-se, mas em termos contraditérios, ao da igualdade. Como vimos, ela foi procla- mada em segundo lugar, depois da liberdade. —Elas ndo andam juntas? ~ Nao completamente. Temos a liberdade de ser ricos... ou de ser pobres. Por terem lido 9s filésofos, como Jean-Jacques Rousseau e seu Discurso sobre as origens e os fundamentos da desigualdade entre os homens, os revolucio- ndrios sabem muito bem disso. Eles defen- dem a igualdade de direitos entre os cida- 47 Michel Vovelle daos: e essa liberdade é 0 resultado da abo- ligao das ordens na noite de 4 de agosto. A maioria deles considera, porém, que nao se deve mexer com a desigualdade de riqueza, inevitavel. E por isso que eles puseram a propriedade como 0 terceiro direito funda- mental, um direito sagrado. — Eu pensava que fosse a fraternidade. — Isso foi o que nos disseram, mas é no século XIX que a expressio classica “Liber- dade, igualdade, fraternidade” é consagrada, com 0 terceiro termo sendo acrescentado em 1848, por ocasiao da Segunda Republica. A Revolugdo nao ignora a fraternidade ea as- sisténcia aos menos favorecidos, mas 0 di- reito de propriedade nao é contestado, mes- mo nas oficinas modestas das cidades: 0 ideal € ser um produtor independente segundo suas posses. Essas proclamagées sao alinhadas na Declaragao dos Direitos sob 0 rétulo da sobe- tania popular, exercida pela lei: “Um povo que ndo tem Constituigao nfo é um povo li- vre”. Mas os deputados nao esperaram a Cons- tituicao ficar pronta para se dedicar a tarefa de reformar toda a estrutura da Franga.. 48 A Revoltigao Francesa explicada a minhaneta Eles reconstruiram o pais de cima a bai- xo: ndo apenas por meio de um esforgo de moderniza¢ao, como dirfamos nés, mas so- bre novas bases. Substituiram a miscelanea de esferas administrativas, judiciais e finan- ceiras sobrepostas por uma divisdo nica em departamentos de 4rea equivalente, subdi- vididos em distritos, estes em cantées e, fi- nalmente, em comunas. Uma trabalheira! Chegou-se a pensar em dividir a Franga de maneira geométrica, como os Estados Uni- dos da América do Norte, mas finalmente aca- bou se respeitando a geografia, e os departa- mentos conheceram um belo futuro. As novas unidades administrativas foram instaladas nesse contexto, e é ali, na piramide dos po- deres, que se manifesta o espirito da Revo- lugao: tendo por base as camaras munici- pais, elegiam-se as assembléias e os diretorios distritais, embora o governador tivesse um procurador sindico para representd-lo, Se quisermos comparar, poderiamos dizer que © sistema era bastante descentralizado e de- legava 0 poder aos cidadaos. ~ E isso a democracia? ~ Devagar, senao vocé corre 0 risco de fi- car desapontada quando completarmos o qua- 49 Michel Vovelle dro, Em cada departamento, as assembléias locais deviam eleger deputados que parti- cipariam da Assembiéia Legislativa, a qual substituiria a Assembléia Constituinte quan- do esta tivesse completado sua missao. Mas quem eram esses cidadaos? — Vocé ja disse: todos os franceses ~ Bem, nao... de inicio fica de fora meta- de dos adultos, as mulheres, que nao tém direito de voto; nao podemos esquecer de retomar esse assunto. Por outro, os deputa- dos ~ por intermédio do abade Sieyés — ex- plicaram que, embora todos fossem cida- aos, alguns deles, os cidadaos ativos, eram mais cidadaos que os outros, os cidadaos pas- sivos. As ordens nao existiam mais, porém assistia-se ao surgimento de classes de acor- do com a riqueza, ja que era preciso pagar um imposto equivalente a trés dias de tra- balho para ser ao menos considerado cida- d&o ativo e, dessa forma, poder votar nas eleicdes locais e nacionais. E era preciso ser ainda mais rico para ser elegivel, quer di- zer, para poder ser eleito. Estou simplifican- do, mas 0 principio é claro: trata-se do sufr gio (modo de elei¢&o) censitario (de acordo com a riqueza). A barreira entre ativos e pas- so A Revolucdo Francesa explicada a minha neta sivos nao era muito elevada, mas ela excluia pelo menos metade dos franceses, evidente- mente das classes populares. — E injusto... E todo mundo concordava? — Nao, jé havia alguns deputados que de- fendiam a democracia, como Grégoire e Ro- bespierre, dos quais falaremos mais adian- te. No inicio, ninguém dava ouvidos a eles; com 0 passar do tempo, as idéias democra. ticas se disseminaram. Examinemos rapida- mente as outras reformas — de maneira meio arbitréria, mas o tempo é curto -, pois nado podemos perder o fio da Revolu¢ado! A justica foi completamente reformulada, sob novos parametros: os juizes passaram a ser eleitos. Na base, os juizes de paz resol- viam os casos mais simples. A novidade mais importante foi a reforma dos castigos e das penas; a tortura foi abolida e os suplicios, geralmente horriveis, do Antigo Regime fo- ram proibidos: foi com um propésito huma- nitdrio que um deputado altruista chama- do Guillotin fez que fosse adotada uma nova maquina para eliminar os criminosos; ao de- cepar a cabeca em um piscar de olhos, a gui- thotina pretendia evitar todo sofrimento inutil. 51 Michel Vovelle ~ Que horror! ~ Com certeza, ainda mais se formos ver a maneira descontrolada como foi emprega- da nos anos seguintes e mesmo (muito mais discretamente) até nossos dias, ha apenas 25 anos. A pena de morte é repugnante, e jA naquela época havia um deputado que exi- gia sua abolicao, Robespierre, mas ele era uma voz isolada. ~ Eos impostos? ~ As finangas, que haviam representado a principal causa de abalo da monarquia, também passaram por uma reformulacdo. Baseado nisso, foi proclamada a igualdade tributaria e estabelecidas novas contribui- s6es sobre a propriedade da terra, os bens mobiliarios e o comércio, eliminando-se a gabela e os outros impostos impopulares. Os franceses nao tiveram pressa em pagar, mas os deputados imediatamente encontraram uma forma de obter recursos, apelandoaemis- sao de papel-moeda, ao qual deram o nome de assignat (uma espécie de bénus do Tesou- ro). Ele substituiu a moeda metalica de ouro, prata ou outro metal ~ por notas que acabaram se desvalorizando com incrivel rapidez, criando um enorme problema. 52 ARevolucio Francesa explicada a minhaneta ~ Mas esse papel nao valia nada! — Nao fique indignada: nossas cédulas também nao valem nada, mas nés estamos acostumados com elas. Falando sério: no comeco os assignats tinham a caucdo (quer dizer que seu valor era garantido) de uma riqueza considerdvel, ou seja, os bens do cle- To, que, como dissemos, representavam mais de 20% das terras do pais. Um verdadeiro tesouro que os constituintes decidiram “na- cionalizar”, vendendo-o por partes em pro- veito da nacdo: uma operacao gigantesca. ~E isso estava certo? ~ No ha diivida de que os membros do clero protestaram, assim como protestaram todos aqueles que eram contra a Revolucao, visto que a riqueza do clero também se des- tinava 4 manutenco de hospitais e escolas. Para responder pergunta central: “do que os padres vao viver dali em diante?”, a As- sembléia decidiu transforma-los em funcio- narios ptiblicos assalariados, criando assim um clero nacional; com isso os prelados im- Portantes saiam perdendo e muitos padres gauhavam, mas esse nao era o problema mais grave. Ao se tornar funcionérios, os pérocos eram obrigados, pelo menos, a prestar um juramento de fidelidade “A nacdo, 4 lei e ao 53 Michel Vovelle rei”. Esse juramento civico criava-Ihes um problema de consciéncia, tanto mais dificil que a autoridade suprema da Igreja — refiro- me ao papa Pio VI, que ficava em Roma -, apés ter demorado a se manifestar, havia con- denado de maneira categérica os ataques A sua prerrogativa encarnados nao apenas no juramento mas também nos principios fun- damentais da Revolugao (as liberdades, so- bretudo a liberdade religiosa ¢ a laicizacao do Estado). Diante do juramento obrigaté- tio, 0 clero dividiu-se: 51% prestaram o ju- ramento e 49% se recusaram a prest4-lo; de um lado, os padres constitucionalistas ou ajuramentados (que aprovam a Constitui- $0 civil, isto 6, a nova organizagao do cle- ro), de outro, os padres refratarios. E o que chamamos de cisma, uma ruptura profunda que divide nao apenas o clero mas também a populacao. Pois o mapa dos “favordveis” e dos “contrarios” nos mostra uma Franca dividida, com regides obedecendo ao Esta- do e outras violentamente hostis a ele, so- bretudo no Oeste do pais. ~ Hostis a que? ~ Hostis 4 Revolugao, em ultima andlise: © Conflito religioso é também um conflito Sa ARevolusse Francesa explicadaa minha neta politico, e isso vai chegar até a revolta aberta nas provincias, notadamente na Vendéia (no litoral Atlantico, ao sul da Bretanha), onde mais tarde, em 1793, explodiré a guerra ci- vil. Existem diversas outras causas também, mas a defesa da religido e da contra-revolu- so vao se somar em um conflito feroz, mar- cado por massacres, sobre o qual voltare- mos a falar. 5s TMickkL veverke ‘A rreowcfis Francia Beptx cate Sa minha pelo” Yorcle Te Capitulo 4 A queda da monarquia ~ Ba religiao que faz a Revolugao se desenca- minhar? — Nao é sé ela, e é injusto acusar os revo- lucionarios de haver cometido mais do que um excesso lamentavel (como dirfamos ho- je), um enorme erro. Na verdade, nesse mo- mento a chamada contra-revolugo jé esta ativa e organizada: os principes e nobres que partiram para o exterior conspiravam contra © novo regime organizando complos no In- terior do pais, apoiados pelos reis da Europa monérquica, muitos deles, alids, primos dos Bourbon. E 0 caso, por exemplo, da Prussia, 87 Michel Vovelle do imperador (da Austria e do Santo Im- pério Romano-Germanico, atual Alemanha), cunhado de Lufs XVI por parte da irma, Ma- ria Antonieta, rainha da Franga, que era odia- da e chamada de “austriaca”, e sobre quem recala a suspeita de influenciar 0 marido. = Nao é um pouco injusto? ~ Havia uma porsdo de motivos, bons e maus, para nao se gostar dela, e a suspeita ndo estava errada. Desde 0 inicio contrarios a Revolugao, sem deixar de manter as apa- réncias, o rei ea rainha decidiram fugir, aju- dados por uma rede de aristocratas: tendo partido no dia 20 de junho de 1791, deve- riam alcancar a fronteira nordeste do pais para, com © auxilio dos outros soberanos europeus, organizar a reconquista da Franca. Mas eles foram reconhecidos durante a via- gem, detidos quando passavam pela cida- dezinha de Varennes e conduzidos a Paris ‘Trata-se de uma crise importante que, de cer- to ponto de vista, marca uma virada na his- toria da revolugao. — Quer dizer que Lufs XVI era tdo burro a ponto de se deixar prender desse jeito? ~ Ele era, antes de tudo, um guloso. Ima- gine toda a familia real escapando a noite sa A Revolugio Francesa explicada a minhaneta do palacio pelos subterraneos, todos disfar- sados, em uma carruagem bem lenta. De- pois o rei se atrasa comendo na hospedaria ~ diziam que ele gostava de comer e beber bem. E af sao reconhecidos e detidos pelo patriota Drouet... era noite de lua cheia.. Muitos se puseram a especular: e se o rei nao fosse tao guloso? E o que teria aconte- cido se a fuga tivesse dado certo? Existe na Revolugdo um movimento geral que reduz a importancia dos acontecimentos propria- mente ditos. Pode-se considerar que, de um modo ou de outro, a crise teria explodido. Sera que os detalhes histéricos so tao im- portantes? ~ Mas como as pessoas reagiram? ~ Os “politicos” da Assembléia ficam per- plexos: bem no momento em que cles es- tavam acabando de redigir a Constituicao, © rei falta seu compromisso! Eles restabe- lecem a relago com 0 fugitivo e o recolocam no trono, pois ele deverd dar sua aprovacao (ratificago) ao texto deles. Porém, a célera da populacdo aumenta; para inuitos, a ima- gem do rei esté definitivamente comprome- tida, e do lado dos patriotas ganha corpo 0 Projeto de destroné-lo para estabelecer uma 89 Michel Vovelle reptiblica. Os clubes de Paris langam uma peticao: quando ela é apresentada no dia 17 de julho de 1791, as autoridades — o prefei- to Bailly e Lafayette, comandante da Guarda Nacional — atiram nos manifestantes. Ob- jeto de disputa de moderados e democratas que se retinem no Clube dos Jacobinos e o controlam, 0 movimento revolucionario se divide entre os que desejam prosseguir a marcha da Revolugdo e os que desejam ter- mind-la. Quando a nova Assembléia ~ que substi- tui a Constituinte com o nome de Assembléia Legislativa, encarregada de fazer as leis — se retine no dia 1° de outubro de 1791, todos se véem diante de uma decisao crucial: que op¢ao escolheré a Assembléia? A paz ou a guerra? Isso porque 0 imperador, o rei da Prassia e a czarina da Russia haviam perce- bido o quanto era perigoso o exemplo re- volucionario da Franca. Depois de Varennes, eles multiplicam as ameacas; a Franca esté dividida: o rei e os contra-revolucionarios de- fendem a guerra, pois esperam que 0 pais seja facilmente conquistado; os moderados (chamados de bernardinos, por causa do nome do antigo convento onde instalaram 60 A Revolusio Francesa explicada Aminha neta seu clube) hesitam, pois sentem que se trata de uma armadilha. E no Clube dos Jacobinos que se enfrentam duas personalidades do movimento revoluciondrio: Brissot, jorna- lista e deputado, que assume na Assembléia a lideranca dos “brissotistas” (mais tarde “girondinos”) contra Robespierre, democra- ta respeitado, o “Incorruptivel”. O primeiro Prega a guerra, para desmascarar a traicdo do rei e assegurar a expansao francesa na Europa; o segundo adverte contra os riscos da aventura. Quem leva a melhor na tribuna € Brissot: no dia 20 de abril de 1792, Luis XVI encaminha, por intermédio de seus mi- nistros, a declaracdo de guerra ao impera- dor, que recebera 0 apoio do rei da Prissia (e da Russia) Como era de se esperar, 0 inicio da guer- ra foi desastroso... ~ Por qué? A Franca nao era um pats poderoso? ~ Ela estava profundamente dividida. Por causa da emigracao, o exército real havia per- dido a maioria de seus oficiais, estava desor- ganizado, e os batalhdes de voluntarios qne haviam sido recrutados ainda eram inex- perientes. As fronteiras foram ameacadas ¢ em pouco tempo invadidas. ot Michel Vovelle A situacao era dramitica: os tumultos mul- tiplicavam-se pelo pais; acusavam-se os aristo- cratas, os emigrantes e os padres. O rei usava de artimanhas: em um dia se cercava de mi- nistros jacobinos, para despedi-los no dia seguinte; os amigos de Brissot nao sabiam Pata que lado se voltar, enquanto 0 povo endurecia suas posiges ~ em Paris, é claro, mas também no restante do pais. Batalhdes de “federados” partiram de Marselha ¢ de outros lugares em diregao a Paris para mon- tar um acampamento e defender a capital; vieram a pé, 6 verdade, mas vieram cantan- do! A cangSo que os provengais entoavam eternizou-se: é a Marselhesa, que exalta a li- berdade e a patria: “Avante, filhos da patria, © dia glorioso chegou...”. Em julho de 1792, houve uma proclamagao nas pracas publi- cas: “a patria corre perigo”. Quando os exér- citos inimigos penetraram profundamente no Norte e no Leste da Franca, a raiva vol- tou-se contra rei. A populagao de Paris ten- tara, em vao, intimidé-lo no dia 20 de junho de 1792, invadindo seu.palacio. A segunda tentativa deu certo. uu dia 10 de agosto de 1792, os federados, os soldados da Guarda Nacional e os revolucionérios sitiaram 0 pa- 62 A Revolucio Francesa explicada a minha neta lacio real das ‘Tulherias, que era defendido pelos guardas suicos... — Por que suigos? ~ Ha muitos séculos a realeza recrutava sua guarda na Suica (como o papa faz até ho- je!). Embora tenham permanecido fiéis a0 rei, esses soldados profissionais foram mas- sacrados.. ~ Mais violéncia! E 0 que aconteceu ao reiea sua familia? ~ Mas 0 ataque também fez muitas viti- mas entre os patriotas. A monarquia consti- tucional foi derrubada pela forca porque nun- ca aceitou, de verdade, a Revolugao. Luis XVI a familia — a rainha Maria Antonieta e seus filhos ~ ficaram presos a espera do julgamento do rei. Mais uma reviravolta, dira vocé ~ De fato. Mas o que aconteceu? Foi o fim da realeza? ~ Sim. Uma monarquia de mais de mil anos chegava ao fim. Algumas imagens for- tes se sobressaem de imediato. Em primeiro lugar, 0 povo é que sai vito- rioso. Ele estava presente desde a Queda da Bastilha, e até antes. Mas agora ele esta mais 63 Michel Vovelle preparado e organizado, consciente de sua forca. O sans-culotte parisiense (também pre- sente no restante do pais) se vé como re- presentante do povo mobilizado em defesa da Revolucao. 4. Um sans-culotte, 64 | | ARevolugio Francesa explicada 4 minhaneta ~ Por que eles sao chamados de “sans- culottes”? ~ Porque a roupa deles é diferente: em vez do calgao até 0 joelho e das meias usadas pelos burgueses e aristocratas, eles vestem uma cal¢a (geralmente listrada) — € dai o apelido, inicialmente depreciativo, mas que depois seré motivo de orgulho para eles. Ves- tem também um pequeno colete, a carma- nhola, ¢ trazem na cabeca o barrete frigio (uma boina vermelha) da liberdade com a insignia... ~ Carmanhola, isso nao me é estranho... ~ Lembra a Itélia, de onde se originou, a Cidade de Carmagnola, mas era uma roupa usada pela gente do povo. Ia me esquecen- do: falta, na descrigao, o sabre e 0 pique, uma langa com ponta de metal. ~ Pensei que o pique fosse uma coisa da Idade Média... eles nao tinham fuzil? — Nao havia fuzil em quantidade suficien- te. O sans-culotte confiava nessa arma para defender sua liberdade e a dos outros. Ele é um militante que a noite participa das as- sembléias de bairro (as sessées), 16 os carta- zes € os jornais, 0 que nao o impede de ser um bom pai de famflia e trabalhador... 6s Michel Vovelle Ha um bom niimero de burgueses nessas assembléias — ou executivos, como dirjamos hoje -, e também assalariados, mas pelo menos metade dos participantes, 0 nucleo duro, é composta por artesdos e pequenos comerciantes independentes. O sans-culotte esta comprometido com a liberdade, a igual- dade (nao gosta dos ricos), a solidariedade ea virtude. Ele ama a patria e luta pela de- mocracia, que ele quer exercer diretamente 6 Capitulos A Primeira Republica — O povo venceu. E 0 fim da monarquia? ~ Nao exatamente. Derrubada a realeza, © que fazer? A segunda imagem que se im- poe é a da Reptiblica. Em 1791, a idéia de Republica havia sido intensamente debati- da, e muitos patriotas nao acreditavam que cla fosse possivel. Porém ela ira se impor a eles: em setembro de 1792 a Assembléia Legislativa se divide para preparar sua su- cessao. Isso receberé o nome de Convencao, uma assembléia eleita desta vez pelo sufrd_ gio universal, isto 6, por todos os homens adultos. o7 Michel Vovelle ~ Eas mulheres? ~ Sinto muito, ainda nao foi dessa vez. Alias, nao foi nada facil organizar 0 voto, mas o principio estava correto. Reunida em setembro de 1792, a nova Assembléia teve de tomar imediatamente uma decisdo: que nome dar ao novo regime? Um momento de hesitacao... e logoele se impée: no dia 21 de setembro, a Reptiblica é proclamada. O pa- triota simples do interior se alegra: “E 0 re- gime mais natural para o género humano”. Faltava construi-la e, antes de mais nada, defendé-la: a terceira imagem é a de Valmy, uma pequena aldeia da Champanha, no Les- te da Franca. Apés terem conquistado as for- tificagdes da fronteira, os inimigos ~ sao prussianos — penetraram até Valmy. E um exército respeitado que, em memoria do rei Frederico I que o transformou em um exér- cito modelo, faz evolugdes no terreno como s¢ estivesse em uma parada. Diante dele, ao pé de um moinho, 0 exército francés: alguns regimentos antigos, outros formados por jo- vens voluntarios completamente “verdes”, como se diz. Seré que, como acredita 0 ou- tro lado, eles irio debandar? Um tiro de ca- nhao. Impassiveis, eles gritam: “Viva a na- sao!”. O rei da Priissia e seus generais nao 68 i i A Revolusio Francesa explicada minha neta insistem ¢ iniciam a retirada. Uma pequena batalha, é verdade, mas uma grande vitéria. Goethe, o grande poeta alemao, que teste- munhou a cena, escreveu que uma nova pé- gina se abria na historia da humanidade. A festa da Federacao de 1790 havia celebrado a Nagao; Valmy faz surgir a Patria, que nao € exatamente a mesma coisa. ~ Qual é a diferenga? ~ A Patria € aquilo que trazemos no co- ragao. © povo, a Reptiblica, a patria... JA estava me empolgando! Na verdade, as coisas nao vao nada bem, e logo vao ficar ainda piores. A nova Assembléia, a Convengao, divi- diu-se rapidamente em dois grupos rivais, embora, entre eles, muitos deputados do centro (chamado de “Planfcie”) relutassem em tomar uma posi¢&o. A iniciativa coube inicialmente aos girondinos, os antigos bris- sotistas. Para simplificar: antes a esquerda, cles agora estavam a direita. Geralmente jo- vens ¢ brilhantes, Brissot, Vergniaud, Guadet ~ acho melhor parar, voce nao vai conseguir guardar todos esses nomes ~, so burgueses muitas vezes provenientes de importantes cidades portuarias mercantis, como Bordeaux, 69 Michel Vovelle na Gironda, de onde veio o nome. Ligados & Revolucao e a suas conquistas, eles agora queriam encerré-la, com medo de serem ul- trapassados pelo movimento popular dos sans-culottes, que domina Paris e as outras grandes cidades do pais. Eles esto aterro- rizados com os excessos desse movimento, que as vezes terminam em massacre (como © de Paris, em setembro de 1792), e, acima de tudo, com suas reivindicagdes sociais e politicas. Seus adversarios, os partidérios da Montanha, também sao de origem burguesa, mas estavam convencidos de que a Revolu. £40 s6 daria certo caso se apoiasse no movi- mento popular ¢ levasse em conta suas aspi- ragGes. Apesar do nome, eles nao vém de nenhuma regiao de montanha; o que acon- tece é que eles se instalaram nos bancos que ficavam na parte mais alta da sala onde transcorriam as sesses. Eles também con- tam com personalidades de destaques como Robespierre, Saint-Just e Marat. Mas volta- remos a falar deles. A diferenga entre eles surgiu na terrivel Provacdo representada pelo processn e con- denago & morte de Lufs XVI, executado no dia 21 de janeiro de 1793, Que destino de- veria ter sido dado ao rei? 70 ARevolugio Francesa explicada Aminhaneta ~ Ele nao poderia ter sido simplesmente preso ou exilado, sem que se precisasse executd-lo? ~ Foram essas solugdes que os girondinos tentaram defender por ocasiao do grande debate que teve lugar na Convengao. Mas Luis XV1tinha traido o pats e se correspondidocom © inimigo... Os porta-vozes da Montanha disseram que se o rei permanecesse vivo a Franca estaria ameacada: “E preciso que Luis morra para que a Reptiblica viva”, e seu ponto de vista saiu vencedor. A morte de Luis XV1 na guilhotina, em 2] de janeiro de 1793, aca- baria tendo sérias conseqiiéncias. Apés a vitéria inesperada em Valmy, os exércitos franceses tinham conquistado im- portantes vitérias no exterior. No Sul, haviam ocupado ¢ anexado a Franca a Sabéia e o condado de Nice, tomando-os do rei do Pie- monte; no Norte, a Bélgica e parte da mar- gem esquerda do Reno. Veio entdo a fase das derrotas, e no dia seguinte a morte do rei a Inglaterra, a Holanda e a Espanha se junta- ram aos inimigos, formando 0 que ficou co- nhecido como a primeira coalizao: no verao de 1793,as fronteiras encontravam-se mais uma vez ameacadas. E nesse momento que, na Vendéia, a Oeste do pais, estouraa guerra civil a que jd me referi de passagem. Rebe- 7” Michel Vovelle lados em margo de 1793 contra a Republi- ca, Os camponeses inicialmente obtém vité- rias importantes. Essas atribulagSes aumen- tavam a tensao nas cidades, sobretudo em Paris, onde o conflito entre girondinos e par- tidarios da Montanha se agravava. Em pou- cas palavras, digamos que os girondinos nao estiveram 8 altura dos perigos que tinham enfrentado quando desejaram a guerra. A ali- anga entre o Partido da Montanha e 0 povo das secdes de Paris conduziu a jornada re- volucionaria de 2 de junho de 1793, quando a Convencao, sitiada pelos insur- retos, decidiu deter e aprisionar os princi- pais deputados da Gironda: é o que se chama de golpe de Estado ~ e esse também repre- senta um momento importante na marcha da Revolugao. ~ Isso mudou 0 qué? ~ Em primeiro lugar, a guerra civil piorou, pois 0s partiddrios dos girondinos subleva- ram, por sua vez, cidades e regies contra o que eles denunciavam como a ditadura de Paris sobre o restante do pais. Fa que ficou conhecido como insurrei¢gao “federalista” (em oposicao ao centralismo da capital). A Normandia, Bordeaux, Lyon e Marselha se 72 A Revolugao Francesa explicada a minha neta insurgiram, e Toulon, um porto do Mediter- raneo, rendeu-se aos ingleses... Depois foi preciso subjugar e até reconquistar Lyon e Toulon por meio de um cerco rigoroso; isso Provocou represélias severas, por vezes exe- cugGes em massa e emigracdo. O sangue corre na Reptiblica: para enfrentar todos esses perigos, as liberdades sao suspensas, € € instalado um governo ~ 0 governo de salva¢ao nacional ~ cuja arma seré o Terror. ~ Confesso que estou desorientada. A Revolu- sao significava a liberdade ¢ o fim das injustigas. Serd que era preciso acontecer tudo isso? ~ Continuamos com essa davida. Alguns acreditam que era uma decorréncia natural — ©, por assim dizer, fatal ~ do que acontecera desde 1789, e deveria levar a ditadura. Ou- ros, entre os quais me incluo, avaliam que aqueles que assumiram suas responsabili- dades se apoiaram no movimento popu- lar, como 0s partidarios da Montanha, tive- ram a coragem de enfrentar circunstancias terriveis, e, a esse preco, salvaram a Revolu- sav. Antes, porém, de Ihes dar raz4o ou de desaprova-los, vejamos 0 que se passa. A nova Assembléia, a Convencao, orga- niza um comite de Salvacao Publica do qual 73