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GRAU II MANUAIS DE FORMAÇÃO ESPECÍFICA Sub-Unidade: Observação e Análise de Jogo Coordenação Moncho López Autor
GRAU II
MANUAIS DE FORMAÇÃO ESPECÍFICA
Sub-Unidade: Observação e Análise de Jogo
Coordenação
Moncho López
Autor
Rui Alves
Maio 2012

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo Sub-Unidade: Observação e Análise de Jogo Índice TEMA: 1. OBSERVAÇÃO E

Sub-Unidade: Observação e Análise de Jogo

Índice

TEMA: 1. OBSERVAÇÃO E ANÁLISE DE JOGO

1.1. Indicadores de sucesso nos jovens……………………………………………………………………….…… ..3

  • 1.1.1. Dados estatísticos relevantes……………………………………………………………………….……….3

1.2. Preparação do jogo…………………………………………………………………………………………….……

....

6

  • 1.2.1. Scouting nos escalões de formação……………………………………………………………………….6

  • 1.2.2. Plano de jogo…………………………………………………………………………………………………………8

  • 1.2.3. Palestra prévia ao jogo………………………………………………………………………………………… 9 ..

1.3. Condução do jogo……………………………………………………………………………………………………… 9 ..

  • 1.3.1. Intervenção durante o jogo e descontos de tempo……………………………………….…….10

    • 1.4. Reflexão pós-jogo…………………………………………………………………………………………………….11

      • 1.4.1. Aspectos a valorizar…………………………………………………………………………………………….11

Conclusão sumária……………………………………………………………………………………………………………11

Testes de auto-avaliação propostas de trabalho……………………………………………………………12

Bibliografia e leituras recomendadas………………………………………………………………………… … 12

..

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Observação e Análise de Jogo Sub-Unidade: Observação e Análise de Jogo Índice TEMA: 1. OBSERVAÇÃO E

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo TEMA: 1. OBSERVAÇÃO E ANÁLISE DE JOGO 1.1. Indicadores de sucesso

TEMA: 1. OBSERVAÇÃO E ANÁLISE DE JOGO

  • 1.1. Indicadores de sucesso nos jovens

Além de planificar, organizar, dirigir e controlar, o treinador deve sempre ser reflexivo sobre a

prática. Aliás, o processo ensino-aprendizagem tem necessariamente de ter em conta essa fase

de reflexão e análise, pois é absolutamente determinante para adquirir EXPERIÊNCIA e a

indução de melhorias efectivas.

A capacidade de observar e analisar o jogo é uma qualidade importante para um treinador.

Não menos importante é a sua habilidade para filtrar a informação a passar para os seus

jogadores e a forma como a comunica.

No basquetebol é muito comum a recolha de dados estatísticos nas competições.

Habitualmente são factores do jogo estandardizados, com grande predominância sobre os

aspectos ofensivos, quantificáveis e terminais.

De facto, se no alto rendimento já estão identificados muitos dos factores de sucesso, o

mesmo não se pode dizer na formação. O que devemos observar? O que devemos valorizar? O

que é mais relevante para a prática?

Isto porque o treinador de jovens, no desempenho da sua actividade, deve questionar-se

permanentemente: o que é que eles (os jogadores) mais precisam?

  • 1.1.1. Dados estatísticos relevantes

Medir o sucesso nos jovens é uma tarefa de grande responsabilidade que pode condicionar

sobremaneira o seu futuro, quer seja no âmbito das expectativas, da realização pessoal ou da

motivação.

Processo vs Produto

Os modelos tradicionais de avaliação estatística centram-se no produto, no resultado final das

acções. Quantos lançamentos falhamos? Quantas bolas recuperamos? Na verdade, o que é

que isso nos diz acerca do nosso desempenho e, mais importante, que ilações realmente úteis

podemos tirar? Muito poucas dizemos nós

“Nós costumamos fazer 15 perdas de bola sem lançamento e hoje fizemos 20 e por isso

perdemos”… Será? O basquetebol é um jogo com tantas variáveis que é impossível justificar o

desempenho tendo em conta apenas um parâmetro de jogo. Depois, é um jogo com oposição,

o que “finta” as análises matemáticas. Hoje fizemos mesmo 20 perdas de bola… mas era

contra a melhor defesa do campeonato… Depois, é um jogo de ritmos, o que também “finta” a

estatística “cega”. Relativizando, fazer 15 perdas num jogo com 75 posses de bola é pior que

fazer 20 perdas num jogo com 105 posses de bola, por exemplo.

Há sempre um processo que está por detrás do resultado. Por exemplo, dos lançamentos que

falhamos, quantos foram realizados com e sem oposição? Quantos resultaram de boas ou más

decisões?

Observação e Análise de Jogo TEMA: 1. OBSERVAÇÃO E ANÁLISE DE JOGO 1.1. Indicadores de sucesso

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo Treino vs Jogo Se, nos escalões de formação, o jogo for

Treino vs Jogo

Se, nos escalões de formação, o jogo for encarado como um prolongamento do treino, então

não há porque concentrar tanta observação e análise ao domingo e descurar isso o resto da

semana.

A própria recolha estatística exige treino, e quanto mais qualitativa for, mais prática exige. Se

esta semana estamos a trabalhar a defesa do jogador com bola e temos uma regra defensiva

que proíbe a penetração pelo meio da área restritiva, então faz sentido observar e registar,

durante o treino, a quantidade de acertos/desacertos nesse aspecto, individual ou

colectivamente. Mais, também faz sentido replicar essa análise no jogo do fim-de-semana.

Pois além de continuarmos a saber que sofremos 50 pontos em lançamentos de 2, sabemos

ainda quantos foram consequência directa do conteúdo trabalhado ao longo da semana.

Motivação vs Castigo

Em nossa opinião, há dois grandes erros crassos no que à utilização de dados estatísticos diz

respeito. O primeiro, é quando os treinadores sentem a necessidade de justificarem o

desempenho, e usam exclusivamente os dados da recolha estatística. É certo que isso vai de

encontro aos anseios dos jornalistas e opinião pública cujas análises são bastante superficiais.

Contudo, o discurso para dentro da equipa, deve ir mais além. Só é pior quando, no primeiro

treino após o jogo, o treinador reúne os seus jogadores e critica-os com base na estatística (se

perderam) e orgulha-se das suas estratégias e do seu desempenho (se ganharam).

Outro erro algo comum é comparar desempenhos entre jogadores, ou determinar objectivos

individuais, sem relativizar o tempo de jogo. “Ok treinador, como quer que eu marque 20

pontos como o António se ele jogou 40 minutos e eu 10?”

De facto, a utilização dos dados estatísticos, principalmente nos escalões de formação, deve

ser um instrumento de motivação, que determine objectivos realistas sobre o desempenho.

Pelo contrário, deve ser evitada a sua utilização como punição ou castigo. Mas mais

importante ainda é não ser uma coisa num dia e outra noutro.

Outros modelos de avaliação da performance

Para além da recolha estatística “convencional”, existem baterias de testes técnicos que

ajudam a avaliar a performance individual. As principais e mais utilizadas são aplicadas através

de exercícios analíticos, e normalmente de uma forma quantificada. A principal desvantagem é

a descontextualização face à competição. Damos como exemplo a bateria "HAPPER", em que a

avaliação do passe é realizada contra a parede, situação esta que nunca se passa no jogo.

Nesta avaliação do passe, o aspecto que é contabilizado é a precisão, independentemente da

correcção técnica.

Assim, é provavelmente mais interessante uma avaliação das qualidades técnicas e tácticas na

situação de jogo. Não se trata de arranjar uma fórmula “típica” de MVP (most valuable player),

a partir dos valores da recolha estatística “convencional”, mas sim de encontrar uma fórmula

que valorize as acções, os comportamentos, o processo que leva ao produto final.

Observação e Análise de Jogo Treino vs Jogo Se, nos escalões de formação, o jogo for

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo Alguns treinadores utilizam esse método há muitos anos (nomeadamente nos Estados

Alguns treinadores utilizam esse método há muitos anos (nomeadamente nos Estados Unidos

da América), e é com base num desses treinadores, Ron Niccevich, que apresentamos a seguir

uma tabela de comportamentos defensivos positivos e negativos. A cada aspecto ele atribui

uma valoração, que somado traduz o desempenho defensivo de cada jogador no jogo.

Avaliação na defesa

Aspectos positivos

Comportamento

Valor

Ressalto defensivo

+2

Intercepção (roubo) de bola

+2

Forçar a perda de bola

+2

Sofrer falta atacante

+2

Oposição efectiva ao lançamento (desarme)

+2

Acção das mãos a interferir

+1

Recuperar uma bola "solta"

+1

Ajuda eficaz

+1

Aspectos negativos

Comportamento

Valor

Não estar a defender a 100%

-3

Atacante directo converter cesto sem oposição necessária

-2

Deixar lançar sem levantar um braço

-2

Fraca posição de ressalto

-2

Não conseguir desviar o atacante para a linha lateral

-2

Não conseguir desviar o atacante para a linha final

-1

Ultrapassado, logo precisar de ajuda

-1

Fraca técnica de deslizamento ou posicionamento

-1

Defesas do 2x1 serem ultrapassados pelo atacante com bola

-1

Realizar falta desnecessária

-1

Não interceptar um passe ao poste ou passe cruzado

-1

Não ajudar em caso de necessidade

-1

Não pressionar

-1

Ainda neste âmbito de encontrar modelos de avaliação da performance ajustados à formação

de jogadores, um conjunto de investigadores (Oslin, Mitchell e Griffin; 1998) desenvolveram e

validaram um instrumento de avaliação da performance aplicável aos jogos desportivos

colectivos, incluindo naturalmente o basquetebol. Chama-se GPAI (Game Performance

Assessment Instrument) e traduz-se por um sistema multidimensional desenhado para medir

os comportamentos da performance em jogo que demonstra a compreensão táctica, bem

como a capacidade para o jogador resolver problemas tácticos do jogo seleccionando e

aplicando as habilidades adequadas. Serve para a observação e avaliação da performance no

jogo, nomeadamente ao nível das tomadas de decisão, de execução e de suporte.

Observação e Análise de Jogo Alguns treinadores utilizam esse método há muitos anos (nomeadamente nos Estados

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo O quadro que se segue mostra uma grelha-exemplo. Todos os comportamentos

O quadro que se segue mostra uma grelha-exemplo. Todos os comportamentos (apropriados e

não apropriados são registados individualmente).

 

Conteúdo :

Recepção /Enquadramento

 

Decisão

Execução motora

Suporte/ Apoio

Identific.

Apropriada

Não aprop.

Apropriada

Não aprop.

Apropriada

Não aprop.

do aluno

A

xxx

x

 

x

xx

x

B

x

x

X

xx

Xx

 

C

xx

 

X

x

x

x

Jogar é um acontecimento dinâmico que requer domínio das habilidades e compreensão da

táctica. Nos jogos desportivos, uma grande porção do jogo decorre sem bola. De facto,

movimentos sem bola e tomadas de decisão, de apoio aos jogadores são essenciais a uma

equipa, quando esta pretende o sucesso. No exemplo anterior, podemos ver contabilizadas as

ocorrências (apropriadas e não-apropriadas) ao nível da tomada de decisão (se enquadrou

com o cesto ou não), da execução (se o fez tecnicamente correcto ou não) e ao nível do apoio

aos colegas (se deu uma linha de passe a um colega que estava enquadrado com o cesto, por

exemplo).

Este registo permite assim avaliar a performance individual e colectiva. Mostra-nos o

envolvimento do jogo e não se o jogador joga bem ou mal.

  • 1.2. Preparação do jogo

Se não fazes, não sabes.

Não basta FAZER, há que saber COMO fazer.

E não basta o COMO, mas também o QUANDO.

Quando falamos em preparação de um jogo de basquetebol, a primeira ideia-chave a

transmitir é a da responsabilidade enquanto treinadores de tentar antecipar tudo o que pode

acontecer.

O treinador usar, no decorrer de um jogo, a intuição, o improviso ou o impulso não é um

problema grave. Contudo, não pode é ser nunca o suporte habitual das suas decisões. Há que

levar à prática, experimentar TUDO durante os treinos, para potenciar o sucesso quando

replicado na competição.

  • 1.2.1. Scouting nos escalões de formação

O scouting é uma ferramenta fundamental em basquetebol e cada vez mais utilizada. Observar

e analisar, individual e colectivamente, os adversários e a nossa própria equipa é o objecto do

scouting.

Observação e Análise de Jogo O quadro que se segue mostra uma grelha-exemplo. Todos os comportamentos

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo Atribuir primazia ao scouting pode subverter algumas regras e princípios de

Atribuir primazia ao scouting pode subverter algumas regras e princípios de organização

colectiva da equipa, o que faz com que os treinadores tenham diferentes entendimentos

acerca dessa ferramenta.

Numa equipa de alto rendimento, com volumes de trabalho óptimais, há pouca discussão

acerca do investimento, em termos de tempo, destinado a esta tarefa. Já nos escalões de

formação, com um volume de prática normalmente reduzido, há que seleccionar o método

mais eficaz e apropriado de passar a informação aos jogadores.

Individual vs Colectivo

É impensável obrigarmos os nossos jogadores a decorarem 5, 4 ou 3 jogadas da equipa

adversária. Só vamos perder tempo e criar confusão. O scouting do adversário na formação

deve, em nosso entender, procurar dar respostas a estas duas questões:

  • - qual é o tipo de finalização mais forte dos jogadores adversários mais influentes? (o #5

finaliza sempre com passadas do lado direito; o poste #12 ataca sempre o meio; etc…)

  • - qual é o tipo de conceito táctico mais utilizado, ou onde prevemos mais problemas para

defender? (bloqueio directo central, ou jogo a partir da bola dentro, ou 1x1 lateral, etc…).

De facto, entendemos que na formação o scouting individual deve ser mais valorizado e, no

que ao colectivo diz respeito, deve ser centrado em 2-3 conceitos e não em sistemas do

adversário.

Video e Walkthrough vs Papel

As três formas básicas de passar a informação da equipa adversária são:

  • - através de informação escrita;

  • - através de imagens em vídeo;

  • - através de walkthrough, ou seja, reproduzir a passo, no campo, as ideias principais.

A utilização do vídeo é muito subaproveitada na formação dos nossos jogadores. E, se há uns

anos, esse recurso era dispendioso e pouco acessível, hoje em dia está democratizado. E,

mesmo em termos de recursos humanos, sabemos que existem sempre nas equipas aqueles

pais que filmam tudo.

Sendo uma ferramenta que vai ser usada regularmente nos escalões superiores, devemos na

formação criar hábitos de observação de vídeos por parte dos nossos jovens. Naturalmente

que devem ser vídeos de curta duração, muito dirigidos, muito esclarecedores, sempre

acompanhados de informação associada à imagem. Devem ainda ser motivadores, evitando

imagens sucessivas (negativas ou positivas) do mesmo jogador.

O walkthrough é relativamente mais simples de operacionalizar, dado que não há o trabalho

da edição da imagem como no vídeo. O grau de “seriedade” com que é realizado determina

em grande parte o sucesso do mesmo. É muito importante o treinador ir bem preparado para

essa palestra e ter previstas todas as perguntas que os jogadores podem colocar.

Observação e Análise de Jogo Atribuir primazia ao scouting pode subverter algumas regras e princípios de

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo A informação escrita é provavelmente a menos importante das três, nos

A informação escrita é provavelmente a menos importante das três, nos escalões de formação.

Normalmente, os jogadores jovens têm mais dificuldade em intelectualizar a partir de gráficos

desenhados em papel, sendo também o seu transfer para a prática menor que as opções

anteriores descritas.

Defesa vs Ataque

Genericamente, o scouting pode ser sobre a equipa adversária ou sobre nós próprios. E pode

ainda ser defensivo ou ofensivo.

No quadro em baixo procuramos clarificar:

Scouting

Adversário

 

Nós

Defensivo

As

nossas

estratégias

para

contrariar

Acertos/Erros na nossa defesa

ataque adversário

 

Ofensivo

Como, previsivelmente, o adversário nos

Acertos/Erros no nosso ataque

vai defender

 

No trabalho com os escalões de formação, somos de opinião que devemos privilegiar a análise

sobre o próprio desempenho. Centrar o scouting nos aspectos onde queremos melhorar e no

reforço do que realizamos de positivo.

  • 1.2.2. Plano de jogo

Hoje em dia, todos os treinadores são conscientes da necessidade de levar sempre consigo

para a sessão de treino um plano escrito, onde consta o seu planeamento com a descrição dos

conteúdos/exercícios, os tempos, as equipas, as dicas, enfim, toda a informação relevante para

que nada fique esquecido.

Contudo, quanto ao plano de jogo, ainda são muitos os treinadores que confiam demasiado na

sua memória e vão para o banco sem qualquer apontamento escrito.

Num plano de jogo, estes são os aspectos que devem constar:

  • - as notas sobre a palestra prévia ao jogo;

  • - as notas sobre o scouting do adversário;

  • - a indicação do nosso 5 inicial e das primeiras rotações;

  • - a indicação do 5 inicial dos adversários (quando conhecido) e os matchups (marcações

individuais);

  • - os sistemas ofensivos a utilizar no início do jogo (1º período);

  • - os outros sistemas ofensivos (contra HxH e Zona);

  • - Vantagens individuais: explorar determinado jogador a jogar de costas, ou quando os

lançadores adversários “x” e “y” estiverem no banco mudar para defesa zona 2:3;

  • - “Armadilhas”: explorar situações especiais, a partir dos nossos sistemas, no primeiro ataque a

seguir a um desconto de tempo ou intervalo de período;

  • - Situações especiais: jogadas de últimos segundos, reposições especiais;

Observação e Análise de Jogo A informação escrita é provavelmente a menos importante das três, nos

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo - os sistemas defensivos. Mesmo admitindo que um treinador experiente tenha

- os sistemas defensivos.

Mesmo admitindo que um treinador experiente tenha pensado e repensado todos estes

aspectos antes de ir para o jogo, a pressão e o nível de stresse durante o jogo às vezes é tão

elevado que corre o risco de lhe “escapar” alguma coisa. Assim, tal como faz para o treino,

também para o jogo o treinador deve fazer-se acompanhar do plano estratégico.

  • 1.2.3. Palestra prévia ao jogo

Tudo o que seja relacionado com a comunicação está intrinsecamente ligado a caracteres da

personalidade do treinador. Mais tímido ou extrovertido, mais eloquente ou calado, o

treinador tem de utilizar estratégias compensatórias de forma a que a sua comunicação com

os jogadores seja no registo apropriado.

Um pouco na linha do que falávamos antes para o plano de jogo, também nas palestras há

demasiados treinadores a falar de improviso. Pode ser que o seu feitio e a sua experiência lhes

dêem essa possibilidade… mas será uma percentagem muito diminuta de treinadores com

essa capacidade.

Tal como tudo o resto que diga respeito a esta actividade, a palestra antes do jogo tem de ser

planificada, pensada.

Antes de tudo, criar condições para que a comunicação possa fazer-se sem “ruído”

(interferências), quer seja um balneário, uma sala de hotel ou outro sítio qualquer. Há muitas

frases-feitas que dizem que “o jogo começa quando entramos no autocarro”, ou “quando

chegamos ao pavilhão”, ou “quando entramos no balneário”… uma coisa é certa, quando o

treinador dá a última palestra antes do jogo, então aí começou mesmo!

A palestra deve ter uma duração que não vá para além dos 10-15 minutos. O treinador deve

reforçar o que foi pedindo durante a semana, preferencialmente de forma segmentada: 2-3

ideias (ou objectivos) ofensivos e 2-3 ideias defensivas. A palestra deve ainda terminar de

forma entusiasta, motivadora, de forma a provocar uma activação adequada nos jogadores

antes de entrarem em campo.

  • 1.3. Condução do jogo

A tarefa do treinador durante o jogo é de uma exigência extrema. De facto, o treinador de

basquetebol tem de possuir capacidades de auto-controlo e focus para tomar decisões

assertivas em curtos espaços de tempo.

A correcta distribuição de tarefas pelo seu staff técnico é uma preciosa ajuda para que todos

conheçam o seu papel e as suas responsabilidades, durante os jogos. O treinador principal tem

de ouvir os seus adjuntos. Em algumas equipas técnicas está definido que apenas um adjunto

transmite as ideias ao principal, depois de ouvir os demais. Noutras, distribuem pelos adjuntos

Observação e Análise de Jogo - os sistemas defensivos. Mesmo admitindo que um treinador experiente tenha

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo as diferentes fases do jogo (ataque/defesa), ou posições de jogadores (base/extremo/poste),

as diferentes fases do jogo (ataque/defesa), ou posições de jogadores (base/extremo/poste), e

todos opinam junto do treinador.

Além de estar concentrado em tudo o que se desenrola dentro do campo, o treinador deve

dominar todo o seu banco.

O processo de condução do jogo obriga a um nível elevado de intervenção, que deve ir mais

além da activação (“boa”, “vamos”, “isso”, “siga”)… sendo o basquetebol um desporto em que

a componente técnica e estratégica é tão decisiva, espera-se do treinador informação com

bastante conteúdo.

Recordamos que o improviso e impulso fazem parte do processo, mas não podem ser a norma.

Tudo vai funcionar melhor depois de devidamente treinado.

  • 1.3.1. Intervenção durante o jogo e descontos de tempo

Durante o jogo, o treinador tem como tarefa monitorizar tudo o que se vai passando. Ler o

ataque e a defesa. Elogiar as coisas bem feitas e corrigir as más. Dar informação individual e

colectiva. Mesmo na crítica dura, deve sempre ser positivo na sua intervenção.

O treinador é o único elemento da equipa que, por regulamento, está autorizado a dialogar

com os árbitros. Não há dúvida que, a determinado nível, e se for bem manejado, isso pode ser

uma vantagem; também é certo que se o treinador se desconcentra com as questões da

arbitragem, a equipa fica a perder. Como em tudo nesta actividade, o equilíbrio e o

conhecimento da personalidade e dos limites de cada um é fundamental.

Um dos adjuntos, ou o seccionista, deve ter sempre presente quantos descontos de tempo

ainda temos disponíveis, assim como a equipa adversária. No desconto de tempo, a

metodologia que propomos é a seguinte:

  • - jogadores correrem para o banco e hidratam-se enquanto treinadores conferenciam;

  • - corrigir UM aspecto na defesa e UM no ataque (se necessário);

  • - (ou) desenhar UMA situação ofensiva (“armadilha” ou normal) para por em prática no

recomeço, ou situação defensiva;

  • - uma frase de activação/motivação/entusiasmo.

Em todas as paragens de jogo, e mesmo no decorrer do mesmo, o treinador tem de ser

consciente que a ele cabe-lhe DAR SOLUÇÕES aos jogadores e não arranjar problemas.

Observação e Análise de Jogo as diferentes fases do jogo (ataque/defesa), ou posições de jogadores (base/extremo/poste),

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo 1.4. Reflexão pós-jogo 1.4.1. Aspectos a valorizar A situação ideal é
  • 1.4. Reflexão pós-jogo

    • 1.4.1. Aspectos a valorizar

A situação ideal é ter sempre o vídeo do jogo no final do mesmo. O registo gravado permite

analisar muito mais tranquilamente tudo o que se passou na partida.

Não é nada bom fazer uma análise “a quente”. Até ao primeiro treino a seguir à competição, o

treinador deve reflectir sobre o desempenho dos seus jogadores mas também sobre a sua

actuação: Cumprimos o planeado? Revelou-se o mais indicado? Fui capaz de

modificar/improvisar sobre as situações inesperadas? Utilizei bem os descontos de tempo?

Rodei bem a equipa? Fui motivador? Comuniquei bem com adjunto? Tive uma atitude correcta

perante os árbitros?

Sobre o desempenho dos jogadores, individual e colectivamente, tal como referimos

anteriormente, é muito redutor pegar em meia dúzia de números da estatística “formal” e

teorizar acerca do resultado (perdendo ou ganhando). O treinador deve seleccionar dois

aspectos defensivos (negativo e positivo) e outros dois ofensivos (negativo e positivo)

mostrando as soluções (para os negativos) e reforçando comportamentos (para os positivos).

Hoje em dia nos escalões de formação, com o envolvimento e a pressão cada vez maior das

famílias, há uma sobrevalorização do desempenho individual relacionado com os pontos

marcados ou com as fórmulas de MVP. Uma estratégia possível para colocar nas mãos do

treinador o poder de distinguir os seus jogadores (mais ou menos manipulável) é o de criar um

prémio, ou ter uma pequena mascote, que fica semanalmente à guarda do “melhor jogador”

na opinião do treinador. É uma estratégia com grande componente motivacional que tem de

ser gerida com muito cuidado.

A reflexão pós-jogo é tanto mais rica quanto mais e melhores forem os contributos (internos e

externos). Pedir opinião ao coordenador do clube, a um colega treinador que tenha visto o

jogo, aos adjuntos…

Conclusão sumária

A experiência é a consequência da análise e reflexão sobre a prática. Um treinador não tem

sucesso por perceber tudo o que acontece com a sua equipa, mas certamente terá se souber

filtrar e comunicar o necessário aos seus jogadores.

Medir o sucesso nos jovens é uma tarefa de grande responsabilidade e utilizar

indiscriminadamente a estatística dos seniores é um erro. Assim, os dados estatísticos devem

reforçar o processo e não se limitarem ao produto final; devem ser utilizados no treino e não

só no jogo; devem funcionar como motivação e não como castigo. Há inúmeros modelos de

avaliação da performance em basquetebol, uns mais qualitativos, outros mais quantitativos,

mas o mais importante é que o treinador não fique refém dos números da estatística

convencional”.

Observação e Análise de Jogo 1.4. Reflexão pós-jogo 1.4.1. Aspectos a valorizar A situação ideal é

Observação e Análise de Jogo

Observação e Análise de Jogo Tal como o treino, o jogo tem de ser cuidadosamente preparado.

Tal como o treino, o jogo tem de ser cuidadosamente preparado. A tarefa do treinador é

antecipar tudo o que possa acontecer. Preferencialmente, submetendo os seus jogadores a

estímulos semelhantes no processo de treino.

O scouting nos escalões de formação deve incidir mais sobre a nossa própria equipa, embora

possa conter indicações individuais dos adversários, que devem ser trabalhadas no campo

mesmo que a passo (walkthrough).

Ainda no âmbito da preparação do jogo, o treinador deve redigir o plano estratégico do jogo e

redigir a palestra prévia ao jogo. Só assim terá a garantia que não se esquecerá de nenhum

pormenor.

Durante o jogo, o treinador tem de mostrar auto-controlo e focus para tomar decisões

assertivas em curtos espaços de tempo. A comunicação assume um aspecto fundamental quer

durante o decorrer do jogo, quer nos descontos de tempo ou outras paragens. O treinador

deve ter sempre presente que a sua função é, acima de tudo, dar soluções para que os

jogadores resolvam os problemas que vão encontrando dentro do campo.

Após o jogo, o treinador deve reunir a maior quantidade de informação sobre o mesmo,

fugindo às análises superficiais assentes na estatística “convencional”. Essa reflexão pós-jogo

deve recair sobre o desempenho dos seus jogadores mas também fazendo um exame de

consciência ao seu próprio desempenho.

Testes de auto-avaliação propostas de trabalho

  • 1. Dá um exemplo de uma avaliação qualitativa e quantitativa de um mesmo aspecto do

jogo.

  • 2. Que preocupações deve ter o treinador enquanto prepara um jogo?

  • 3. Que cuidados um treinador deve ter ao editar um vídeo para mostrar à sua equipa?

  • 4. Descreve os diferentes momentos de um desconto de tempo. Como rentabilizá-lo?

  • 5. Quais os principais aspectos a ter em conta numa reflexão pós-jogo?

Bibliografia e leituras recomendadas

(em elaboração)

Oslin, J. L., Mitchell, S. A., & Griffin, L. L. (1998). The game performance assessment instrument

(GPAI): Development and preliminary validation. Journal of Teaching in Physical Education,

17(2), 231-243.

Observação e Análise de Jogo Tal como o treino, o jogo tem de ser cuidadosamente preparado.